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percepção ou da vida interior condicionada corporeamente. E que todos os pensamentos, de certo modo, não passam de imagens projectadas de percepções ou de vivências interiores. Quem afirma isso apenas o está fazendo por jamais ter alcançado a faculdade de vivenciar, com sua alma, a pura e autónoma vida de pensamentos. Quem, porém, a vivenciou chegou a saber que, sempre que na vida anímica reina o pensar, na medida em que esse pensar permear outras funções anímicas o ser humano estará envolvido numa actividade em cuja realização seu corpo não participa. Na vida anímica comum, o pensar está quase sempre mesclado a outras funções anímicas, tais como: o perceber, o sentir, o querer e assim por diante. Essas outras funções são realizadas pelo corpo. Mas nelas interfere o pensar. E, na medida em que interfere, ocorre no ser humano – e através dele – algo no qual o corpo não participa. As pessoas que contestam isto não são capazes de transcender a ilusão originada pelo facto de sempre observarem a actividade mental conjugada a outras funções. Mas na vivência interior é possível alguém recobrar-se ao ponto de vivenciar a parte pensante da vida interior por si, também separada de tudo o mais. É possível dissociar da esfera da vida anímica algo que somente consiste em pensamentos puros – em pensamentos autónomos, dos quais foi desligado tudo o que se origine de percepção ou de vida interior corporeamente condicionada. Tais pensamentos se revelam por si próprios, pelo que são, como uma essência espiritual, supra-sensorial. E a alma que se une com tais pensamentos ao excluir, durante essa união, tudo o que sejam percepções, tudo o que sejam recordações, todo o restante da vida interior, saber-se-á, juntamente com o próprio pensar, numa região supra-sensorial e vivenciar-se-á fora do corpo. Para quem compreende plenamente esse estado de coisas, deixará de existir a pergunta: existe uma vivência da alma num elemento supra-sensorial exteriormente ao corpo? Pois para ele isto significa contestar o que sabe por experiência. Para ele só existe a pergunta: o que impede as pessoas de reconhecerem tal facto seguro? E a essa pergunta ele encontra a resposta no sentido de que o facto em questão é do tipo que não se revelará se o indivíduo não se transpuser a uma disposição anímica que o torne apto a receber a revelação. Ora, as pessoas tornam-se, de início, desconfiadas quando têm primeiramente de realizar, elas mesmas, algo anímico a fim de que um elemento independente delas próprias se lhes revele. Elas crêem então que, por terem de preparar-se para receber a revelação, também efectuam o conteúdo da revelação. Querem experiências para as quais o ser humano nada faz e perante as quais permanece inteiramente passivo. Se tais pessoas, além disso, ainda desconhecem as mais elementares exigências para a compreensão científica de um estado de coisas, verão nos conteúdos anímicos ou produtos da alma, nos quais a alma é pressionada abaixo do grau da actividade própria consciente existente nas percepções dos sentidos e no actuar voluntário, uma revelação objectiva de uma essencialidade não-sensorial. Tais conteúdos anímicos são as vivências visionárias, as revelações mediúnicas. O que, porém, vem à luz através de tais revelações não é um mundo supra-sensorial, mas sim infra-sensorial. A vida desperta consciente do ser humano não transcorre integralmente dentro do corpo: transcorre, especialmente a parte consciente desta vida, no limite entre o corpo e mundo físico exterior; tal como a vida da percepção junto ao que ocorre nos órgãos dos sentidos, da mesma forma a influência de um acontecimento extracorpóreo no corpo é como um penetrar desse fenómeno a partir do corpo; e assim como a vida volitiva, que se baseia numa integração do ser humano à essência cósmica, o que ocorre no ser humano por meio de sua vontade é, ao mesmo tempo, um elo do acontecimento cósmico. Nesse vivenciar anímico que transcorre nos limites do corpo, o ser humano é dependente, em alto grau, de sua organização corpórea; mas também a actividade pensante interfere nesse vivenciar e, sendo esse o caso, o ser humano se faz independente do corpo quanto 86

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A iniciaçao rudolf steiner  

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