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então desconhecido. Inicialmente, o carácter geral da vida onírica é mantido, uma vez que o sonho se distingue das representações diurnas pela peculiaridade de proporcionar simbolicamente aquilo que pretende expressar. A um atento observador da vida dos sonhos, essa simbolização não escapará. Sonha-se, por exemplo, que se apanhou um animal, experimentando-se uma sensação desagradável na mão: descobre-se que se agarrou uma ponta da colcha. A percepção não se exprime, pois, francamente, mas sim através da mencionada imagem simbólica. Ou então sonha-se estar fugindo de um perseguidor e, ao mesmo tempo, experimenta-se medo. Ao despertar, a pessoa vê que durante o sono fora acometida de palpitações cardíacas. O estômago, carregado de alimentos indigestos, causa angustiantes imagens de sonho. Da mesma forma, os acontecimentos à volta de quem dorme reflectem-se no sonho como símbolos. A batida de um relógio é capaz de fazer surgir a cena de um pelotão de soldados marchando ao toque do tambor. A queda de uma cadeira pode dar origem a todo um drama onírico, no qual o baque se reflecte como um disparo, e assim por diante. Essa forma simbólica de expressão também se dá no sonho ordenado do indivíduo cujo corpo etérico começa a se desenvolver. Mas ele deixa de reflectir meros factos do meio ambiente físico ou do próprio corpo sensorial. Assim como se tornam regulares os sonhos que devem sua origem a essas coisas, assim também se mesclam tais imagens oníricas que exprimem coisas e condições de um outro mundo. Aqui começam a ser feitas experiências inacessíveis à consciência diurna comum. Ora, não se pode absolutamente crer que um verdadeiro místico, fosse ele quem fosse, tornasse as coisas que dessa maneira vivencia oníricamente em fundamento para relatos determinados a respeito de um mundo superior. Somente se pode considerar tais vivências oníricas como os primeiros indícios de uma evolução superior. Logo se apresentará também, como mais uma consequência, o facto de as imagens de sonho do discípulo não mais serem subtraídas à direcção da razão sensata, como anteriormente, mas passaram a ser abrangidas regular e ordenadamente pela mesma, tal como as representações e sensações da consciência diurna. Chega mesmo a desvanecer-se, cada vez mais e mais, a diferença entre a consciência onírica e esse estado de vigília. No mais amplo sentido da palavra, o indivíduo que está sonhando continua desperto durante a vida onírica; isto significa que ele se sente senhor e dirigente de suas representações metafóricas. Durante o sonho, o ser humano se encontra efectivamente num mundo diferente daquele de seus sentidos físicos. Ele não apenas consegue, com órgãos espirituais subdesenvolvidos, formar representação alguma desse mundo além daquelas confusas, já caracterizadas. Para ele, esse mundo só existe como o mundo sensorial existiria para um ser dotado, no máximo, das formas mais rudimentares de olhos. Por isso o ser humano, nesse mundo, nada pode enxergar senão réplicas e os reflexos da vida comum. E estes, ele é capaz de visualizá-los no sonho porque sua alma grava suas próprias percepções diurnas sob forma de imagens na matéria de que consiste aquele outro mundo. É preciso ter em mente que o ser humano, paralelamente à sua consciente vida diurna comum, leva uma segunda, inconsciente, no outro mundo já aludido. Tudo o que se percebe ou pensa ele grava sob forma de impressões nesse mundo. Só se pode ver essas impressões quando as flores de loto estão desenvolvidas. Ora, em cada ser humano sempre existem certos escassos rudimentos da flores de loto. Durante a consciência diurna, ele nada pode perceber por esse intermédio porque as impressões sobre ele são muito fracas. Isto é devido a uma razão semelhante àquela pela qual as estrelas não são visíveis durante o dia, subtraindo-se às percepções frente à potente actuação da luz solar. Assim, as fracas impressões espirituais não conseguem revelar-se perante as poderosas impressões dos sentidos físicos. Mas quando, no sono, os portões dos sentidos exteriores estão fechados, essas impressões começam a luzir confusamente. 64

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A iniciaçao rudolf steiner  

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