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Novos velhos amigos e uma árvore mãe

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er nascido paranaense em 1946 talvez tenha a ver com minha preferência por anos pares. Nem todos os ímpares foram ruins. Só posso reclamar de um: 1975, ano em que assassinaram o jornalista e amigo Vladimir Herzog. Mas os pares, sem dúvida, foram mais felizes. Bento nasceu em 1976; Laura, em 1978. Foram o que de melhor aconteceu em minha vida. Em outro longínquo ano par reencontrei Cleide, minha companheira. Por falta de espaço, lembro apenas de mais um: 1970, quando fiz o projeto gráfico da revista Placar e fundei com ilustres companheiros, na Abril Cultural, a série de fascículos História da Música Popular Brasileira. Este ano começou muito bem, com homenagens em calendários e agendas da Posigraf, seção especial com meus retratos de músicos na revista Gráfica – uma das mais conceituadas publicações do gênero –, um novo livro que sairá no fim do ano, e a abertura da minissérie Queridos Amigos, de Maria Adelaide Amaral, companheira de geração e de batalha contra as aflições impostas pelo regime militar. Agora, vejo consagrado o prestígio deste A LMANAQUE, que junta-se aos parceiros paranaenses que estiveram conosco no passado e a outros igualmente solidários que voltam a apoiar o projeto, numa demonstração clara do apreço e respeito que têm pela publicação. Eles são cúmplices em nossa missão: o resgate e a difusão da memória brasileira e a propagação das boas histórias do País. Na juventude, quando me via em más companhias, minha sábia mãe lembrava o dito repetido por meu avô: “Diga-me com quem andas e eu te direi quem és”. Há pouco tempo, contei a dona Alzira que estava andando com ótimas companhias. Ela então suspirou aliviada, perguntou pelos nomes e me benzeu, como sempre fez nas ocasiões em que me viu contente. Quando nos despedimos, ao abraçar-me, ela falou baixinho em meu ouvido: “Semente bem plantada, meu filho, sempre dá bons frutos. Colha orgulhoso os frutos de sua semeadura”. Já distante, quando me virei para um último aceno, revi minha mãe, e ela pareceu uma pequena árvore com galhos balançando ao soprar do vento.

A R M A Z É M DA M E M Ó R I A N AC I O N A L Elifas Andreato Bento Huzak Andreato Editor João Rocha Rodrigues Editor de arte Dennis Vecchione Editora de imagens Laura Huzak Andreato Editor contribuinte Mylton Severiano Redatores Bruno Hoffmann e Nara Soares Revisor Lucas Carrasco Assistentes de arte Guilherme Resende e Paula Chiuratto Assistente administrativa Eliana Freitas Assessoria Jurídica Cesnik, Quintino e Salinas Advogados Impressão Posigraf Diretor editorial

Diretor executivo

Cmte. David Barioni Neto Manoela Amaro Mugnaini Diretor de Assuntos Corporativos Marcelo Xavier de Mendonça Gerente de Comunicação Corporativa Anahi Guedes Presidente

Diretora de Marketing

O ALMANAQUE é uma publicação da Andreato Comunicação & Cultura, distribuída nos vôos da TAM e por assinatura.

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Elifas Andreato

ASSINE O ALMANAQUE todos os meses na sua casa.

Não há melhor espelho que um velho amigo.

Atendimento ao assinante: (11) 3873-9115

Santo Agostinho

5 CARTA ENIGMÁTICA

17 O TECO-TECO

6 VOCÊ SABIA?

20 ESPECIAL Bossa Nova

8 O BRASIL EM JULHO

24 ILUSTRES BRASILEIROS Gianfrancesco Guarnieri

32 MISTURA FINA Causos de Rolando Boldrin, Santos,

13 PAPO-CABEÇA Eduardo Bueno

26 VIVA O BRASIL

16 JOGOS E BRINCADEIRAS

30 EM SE PLANTANDO, TUDO DÁ

Fases da Lua, Signo, Estação Colheita e Respostas

33 CANTOS E LETRAS

Antídoto/Palco de Resistência

34 BOM HUMOR

Diamantina por Mylton Severiano

CAPA Elifas Andreato

ERRATA Diferentemente do informado na matéria “Sobradinho expulsa 70 mil e cumpre profecia” (publicada em maio de 2008), parte dos afetados pela barragem de Sobradinho, na Bahia, foram indenizados.


ILUSTRAÇÕES PAULA CHIURATTO

SOLUÇÃO NA P. 32

da história, A Flor e o Espinho, é uma parceria dele com Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Com uma curiosidade: na música, ele assina com o nome real. Ainda no campo musical, a cantora Marisa Monte ilustrou o álbum Barulhinho Bom (1996) com alguns de seus desenhos. Publicou clandestinamente mais de 900 histórias durante 30 anos. Tornou-se uma lenda carioca. A dúvida Corria na cidade: “Afinal, qual é o verdadeiro rosto por trás de tanta sacanagem?”. Ironicamente, a identidade foi revelada em 1991 pela revista Playboy, em uma antológica entrevista realizada por seu editor à época, o jornalista Juca Kfouri. Porém, Alcides não teve tempo para gozar da fama. Morreu em 5 de julho de 1992, aos 71 anos, vítima de derrame cerebral. (Bruno Hoffmann)

A foto ao lado registra um momento histórico. Rio de Janeiro, 1962, restaurante Au Bon Gourmet. Pela primeira e única vez num mesmo show estão Vinicius de Moraes, João Gilberto e Tom Jobim. E se não bastasse, era a estréia de Garota de Ipanema, com direito a uma introdução que nunca mais se repetiu: JOÃO – Tom, e se você fizesse agora uma canção que possa nos dizer, contar o que é o amor?; TOM – Olha, Joãozinho, eu não saberia sem Vinicius para fazer a poesia; VINICIUS – Para essa canção se realizar, quem dera o João para cantar; JOÃO – Ah, mas quem sou eu? Eu sou mais vocês. Que bom se nós cantássemos os três; TODOS – Olha que coisa mais linda / Mais cheia de graça...

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ARQUIVO DO ESTADO

ão existia Playboy. Não existia Sexy. Mas ele existia. Foi o mais popular autor de “revistinhas de sacanagem” do Rio de Janeiro nos anos 1950 e 1960. Ajudou a embalar a imaginação dos adolescentes ávidos por imagens sensuais. Mas, em vez de fotos de mulheres nuas, produzia ilustrações e textos com alto teor erótico, conhecidos como catecismos. Nasceu no Rio em 1921. Publicou a primeira história em 1949: Sara. O trabalho já era assinado pelo pseudônimo que o acompanhou vida afora. Havia um bom motivo para não usar o nome real. Alcides de Aguiar Caminha era funcionário público. Além de desenhar e escrever “baixarias” nas horas vagas, era também compositor. Um dos sambas mais conhecidos

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27/7/1988

16/7/1934

PROMULGADA A SÉTIMA CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA, ACLAMADA COMO A “CONSTITUIÇÃO CIDADÔ.

PROMULGADA A TERCEIRA CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA, A MAIS CURTA DE NOSSA HISTÓRIA; FICOU EM VIGOR APENAS ATÉ 1937.

A dona destes olhos nasceu em São Paulo no dia 16 de julho de 1975. Começou a carreira aos 12 anos, descoberta por um caça-talentos num supermercado. Em 1994 estreou como atriz na novela Éramos Seis, do SBT. Mas a fama veio mesmo na Globo, quando protagonizou a história de uma prostituta que vivia uma ardente paixão com um seminarista, na minissérie Hilda Furacão, exibida em 1998. (NS) Confira o resultado na página 32.

MAIS UMA DO JÂNIO

Espetáculos de hipnotismo, só com fins científicos

CONFUSÃO NA CRISTANDADE

Colonos expulsam padres

para ficar com índios

ARQUIVO/AE

ANDRÉ ROCHA/arteexplorer.com.br

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JÂNIO QUADROS

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ânio Quadros fez um governo meteórico. Ficou apenas sete meses à frente da presidência da República, durante o ano de 1961. Ainda assim, foi suficiente para pôr em prática seu plano de “moralizar” o Brasil. Proibiu O uso de biquíni nas praias, tornou ilegais as rinhas de galo e as corridas de cavalo, e acabou com a festa dos adeptos do lança-perfume nos bailes de Carnaval. Quando os congressos americano e brasileiro de hipnologia se manifestaram contra a falta de uma regulamentação dos espetáculos de hipnotismo e letargia que ocorriam em locais públicos, o presidente da vassourinha não teve dúvidas: em 12 de julho de 1961, assinou um decreto que regulava a prática, restringindo-a a locais fechados e conduzidos por médicos especialistas, alegando que constrangiam os espectadores. Outras exigências: só com fins científicos e didáticos, e contanto que na platéia houvesse somente pessoas com mais de 18 anos. (Danilo Ribeiro Gallucci) SAIBA MAIS O Trevo e a Vassoura – Os destinos de Jânio Quadros e Adhemar de Barros, de Gabriel Kwak (Editora Girafa, 2006).

PATEO DO COLLEGIO (SP)

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s jesuítas chegaram ao Brasil em 1549 para controlar a escravização dos índios por parte dos colonizadores, mas essa nunca foi tarefa fácil. Por vezes, a missão foi impossível. Com a justificativa de salvar a alma dos primeiros inquilinos do Brasil, os jesuítas tomavam partido dos índios. Mas os colonos do sudeste não possuíam recursos para utilizar somente escravos negros. A tensão pairava. Quando, em 1639, o papa Urbano VIII promulgou o Breve Commissum Nobis, proibindo toda e qualquer forma de escravização indígena, a situação degringolou de vez. No Rio de Janeiro, o colégio jesuíta foi incendiado e os padres, expulsos, até a intervenção do governador. Em São Paulo, a 13 de julho de 1640, colonos revoltados expulsam os fundadores da cidade planalto abaixo. Primeiro juntam todos os padres que acharam nos arredores. Depois, em toscas canoas, os despacham para o porto de Santos, de onde só puderam voltar 13 anos depois. (DG) SAIBA MAIS História da Companhia de Jesus, de Serafim Leite (Loyola, 2004).

“NÃO TENHA MEDO DE CRESCER LENTAMENTE. TENHA MEDO, APENAS, DE FICAR PARADO.”

Provérbio chinês


TV TUPI

Emissora pioneira teve fi m melancólico

LUIZ CARLOS MURAUSKAS/ FOLHA IMAGEM

Até breve, telespectadores amigos.” fizeram parte do desfecho melancólico. Foi com esta mensagem que saiu Coube ao presidente-militar João Figueiredo definitivamente do ar a primeira emissora botar o ponto final nessa novela, declarando de televisão brasileira, a Tupi, inauguranão-renovadas as concessões da emissora. da em 1950. Há tempos a tevê criada pePouco antes do meio-dia de 17 de julho de lo folclórico magnata das comunicações 1980, três engenheiros do Departamento Assis Chateaubriand (1892-1968)manifesNacional de Telecomunicações subiram ao tava os sintomas de problemas financeiros lendário edifício-sede da Tupi em São PauOS TRANSMISSORES DA TUPI. e administrativos. Greves, demissões, salálo, lacraram o transmissor e puseram fim à rios atrasados, programas interrompidos e até um incêndio emissora, que estava às vésperas de completar 30 anos. (NS) SAIBA MAIS Assista no YouTube (www.youtube.com) a reportagem do Jornal da Bandeirantes sobre o fechamento da Tupi. Busque pelas palavras Tupi e Bandeirantes.

TEM DÓ, SEU JUIZ!

Martha Rocha perdeu concurso de miss por duas polegadas. Será?

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REPRODUÇÃO/AE

nquanto a tradição italiana não pegavidas: o verde dos olhos de Martha era mais belo va, houve um tempo no Brasil em que, que o mar de Itapuã. O fiel Tom Jobim lamentou em vez de pizza, tudo acabava mesmo estar casado à época: gostaria de ter composto era em marchinha de Carnaval. Foi assim com a uma música para a jovem. fatídica noite de 24 de julho de 1954, quando A notícia da derrota para a americana Mirian Steamargamos o segundo vice-campeonato da décavenson foi dada pelo jornalista João Martins, da da. Os brasileiros ainda se recuperavam da derrorevista O Cruzeiro. Ele teria ouvido de um jurado ta para o Uruguai na Copa do Mundo, quatro anos a informação de que as tais duas polegadas, que antes, por um gol a menos no Maracanã, quando equivalem a cinco centímetros, foram decisivas duas polegadas a mais tiraram a vitória da baiana para a escolha. Martha Rocha no concurso de Miss Universo. A verdade, porém, é que, como membro da criaA derrota causou comoção, mas acabou em teMa de tiva imprensa da época, Martins combinou a hisCarnaval. Foi ela mesma que interpretou a marchitória com outros jornalistas para tornar a derrota nha composta por Alcyr Pires Vermelho, Pedro Caemais polêmica. tano e Carlos Renato: “Por duas polegadas a mais / Nem Martha, hoje vivendo como pintora, sabe Passaram a baiana pra trás / Por duas polegadas / E confirmar a veracidade dos fatos. A ex-miss, cujo logo nos quadris / Tem dó, tem dó, seu juiz”. nome, por ironia do destino, batiza doces receiA bela morena de 21 anos, que havia sido eleita tas que incentivam a propagação de polegadas, MARTHA NOS EUA. Miss Brasil por unanimidade, causava alvoroço declarou em sua autobiografia: “Nos Estados Unipor onde passava. Seu conterrâneo Dorival Caymmi dizia não ter dúdos, nunca ninguém me tirou as medidas”. (Mariana Albanese) SAIBA MAIS Site oficial de Martha Rocha: www.martarocha.com.br

O R I G E M DA E X P R E S S ÃO

Salvo pelo gongo Na Inglaterra, no final da Idade Média, para não se correr o risco de enterrar ninguém vivo, surgiu a idéia de, ao fechar o caixão, colocar uma tira amarrada a um sino no pulso do suposto defunto. Assim, caso acordasse, o indivíduo teria a chance de tocar o sino e ser salvo pelo gongo.

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J UL H O 9 dia da loira O TERROR DOS BANHEIROS

Notícia falsa aterroriza crianças há mais de 40 anos

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REPRODUÇÃO/FOLHA IMAGEM

SAIBA MAIS Nada Mais que a Verdade – A extraordinária história do jornal Notícias Populares, de Celso de Campos Jr., Denis Moreira, Giancarlo Lepiani e Maik Rene Lima (Carrenho, 2002).

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dia mundial do rock CABINHAS DA PESTE

Na escola sem professores, meninada faz instrumentos e dá o show

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excetuando a percussão, é todo feito com a que pode haver de tão novo em um quinboca, na base do nananá. teto que faz referências aos grandes noAlém de músicos, esses cabinhas – sinômes do rock mundial? A resposta está nimo de menino, no Nordeste – são radiana certidão de nascimento. Os Cabinha, banda de iniciação musical da Fundação Calistas, câmeras, gerentes de laboratório sa Grande – escola de gestão cultural localide conteúdo e recepcionistas-mirins, que zada em Nova Olinda, Ceará –, é formada por guiam turistas pela instituição. Passam a meninos entre 9 e 11 anos. semana toda na Casa Grande, que possui Rodrigo Alves, Renê Nascimento, José WilatE estúdio de áudio – o mais bem equipado son, Arthur Diniz e Iêdo Lopes são os astros da região. Foi lá que a bandinha gravou de shows pouco ortodoxos, em que empuo primeiro CD, com a ajuda dos meninos nham guitarras e contrabaixos de madeira, mais velhos, respeitando a pedagogia do OS CABINHA NA BASE DO NANANÁ. acompanhados de percussão feita de lata. ensino não-formal – nem adianta procurar; E que se diga: instrumentos construídos por eles próprios. “No palco, não há professores ou inspetores por lá. eles imaginam que estão tocando, enquanto a platéia acredita que O disco, que leva o nome da banda, sairá ainda em 2008. Será vendido ouve”, define o coordenador da instituição, Alemberg Quindins. A desa 5 reais em máquinas da ONG Eletrocooperativa, instaladas em pontos crição é uma referência ao som dos instrumentos das crianças, que, estratégicos do País, dentro do projeto Música Livre e Comércio Justo. (MA) DIVULGAÇÃO

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ata a porta do banheiro, dê descarga e uma funcionária do jornal. Loira. Tiveram a abra a torneira. Faça isso três vezes. idéia da manchete, recriando a história inQuem esteve em uma escola brasileira ventada por Orlando Criscuolo para o Diário nas últimas quatro décadas sabe: surgirá da Noite, anos antes. O borrão virou algodão, uma loira, com algodão nas narinas e mae a loira, defunta. A edição esgotou. chado na mão. Sim, ela está morta. Mário Luiz Serra, um dos “pais” da loira, Mas, afinal, de onde teria surgido essa muconta que recebeu uma diretora do conlher? A resposta é simples e direta: de uma ceituado Colégio Rio Branco, de São Paulo, PRIMEIRA PÁGINA DE EDIÇÃO DO NP. matéria de jornal. Ou melhor, da imaginação afirmando ter tirado uma foto da fantasma. de jornalistas que criaram e recriaram esta Quando o fi lme foi revelado, não havia nada. que possivelmente é das mais duradouras lendas urbanas. “Se fosse gente, aparecia”, assegurava a educadora. A manchete estampou a capa do extinto jornal Notícias Populares em A pressão aumentou, inclusive da Secretaria de Educação da cidade: por 1966: “Loira fantasma aparece em banheiro de escola”. Acostumados medo, as crianças não queriam mais ir ao banheiro. O jornal teve que a buscar notícias polêmicas, os repórteres do NP se depararam com publicar um desmentido. Tarde demais. A loira continuou cercando as uma tarde sem sangrias. Ninguém fora morto a machadadas, neescolas. Até mesmo a prima da tal funcionária que inspirou a manchete nhum bebê-diabo na maternidade. Mas havia uma foto borrada de confessou: “Eu vi a loira do banheiro”. (MA)

SAIBA MAIS MySpace de Os Cabinha: www.myspace.com/oscabinha


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dia do futebol A PÁTRIA DE CHUTEIRAS RÓSEAS

Há quase 100 anos as brasileiras invadiram os gramados

ARQUIVO/AE

próprias falhas, que eram recebiImagina: o cara tem um fidas com gostosas gargalhadas lho, aí o filho arranja uma pela assistência”. As futebolistas namorada, apresenta a eram recrutadas com anúncios namorada ao pai e ele pergunta: ‘O que pareciam recrutar modelos: que você faz, minha filha?’ E a mocinha “Moças de 15 a 25 anos, que responde: ‘Sou zagueiro do Bangu’. queiram ingressar no football, com Não pega bem, né?” A fala carregada consentimento dos seus maiores, de preconceito, mas também de huqueiram apresentar-se à rua Silva mor, é do ex-técnico da seleção João Gomes, 131, em Cascadura”. Saldanha, quando questionado sobre Logo se instalou o debate sobre o que achava das mulheres praticarem a prática. Uns elogiavam o “moo esporte. Mas a presença delas entre vimento sério, respeitável mesmo as quatro linhas não é novidade. TIME DE VEDETES MOMENTOS ANTES DE UMA PARTIDA, EM 1959. para a formação e criação de A primeira partida de futebol entre mais um ramo de atividade para as mulheres”. Outros criticavam o moçoilas uniformizadas que se tem notícia aconteceu em 1913. fato de as moças começarem a adquirir comportamentos caracterísEram times da zona norte paulistana: Cantareira e Tremembé. Os jorticos dos jogadores, como cuspir no gramado. Um certo senhor José nais noticiaram com ironia: “As mulheres podem até jogar futebol”. Fuzeira, consternado com a situação, chegou a escrever para o prePor muito tempo, as donzelas freqüentavam no máximo as arquibansidente Getúlio Vargas, alertando quanto ao perigo de “as filhas de cadas, sérias, com seus leques a refrescar o rosto. Enfeitavam-se tanEva se exibirem também em assaltos de luta livre em justas da ‘nobre to que os fotógrafos comumente iam aos estádios só para registrar arte’, cuja nobreza consiste em dois contendores se esmurrarem até essas moças, ao invés dos lances ou dos times no gramado. ficarem babando sangue”. Quase 30 anos depois, já em 1940, a revista Educação Física noticia O caso foi parar no gabinete do Ministério da Educação e Saúde, que “interessante partida de futebol entre senhoritas” no Rio de Janeiro, publicou documento contra o “espetáculo ridículo que representa a “um espetáculo de grande sucesso, causando assim sensação em prática”, por “acarretar traumatismos que podem afetar departamennosso mundo desportivo”. Já o jornal Folha da Manhã reconhecia a tos do organismo feminino especialmente delicados e de importância existência de dez equipes de futebol feminino na capital federal, com vital”. nomes interessantes como Cassino Realengo e Eva F.C. O jornal relata Depois de idas e vindas, o futebol feminino no Brasil conta com mais que o jogo teve “momentos dos mais agradáveis, sobretudo humorísde 400 mil jogadoras, segundo a Confederação Brasileira de Futebol. E ticos, pois, se as frágeis jogadoras não exibiram técnica de futebol, elas colocam muito marmanjo pra brincar de bobo. padrão de jogo etc., agradaram em cheio, na maioria das vezes, pelas (DG) SAIBA MAIS As Relações entre Lazer, Futebol e Gênero, dissertação de mestrado de Eriberto José Lessa de Moura. Disponível em http://libdigi.unicamp.br. Busque por “futebol feminino”.

julho também tem 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Dia Mundial da Arquitetura Dia Nacional do Bombeiro Dia dos Incrédulos Dia do Operador de Telemarketing Dia do Desportista Amador (CE) Dia do Exército da Salvação Dia da Paneleira Dia do Pacifi cador Dia do Soldado Constitucionalista Dia Mundial da Lei

11 12 13 14 15 16 17 18 19 20

Dia Mundial da População Dia do Engenheiro Florestal Dia do Engenheiro Sanitarista Dia da Liberdade dos Povos Dia Internacional do Homem Dia Nacional do Comerciante Dia do Submarinista Dia dos Veteranos de Guerra Dia da Caridade Dia Nacional da Amizade

21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31

Dia Internacional do Trabalhador Doméstico Dia do Cantor Lírico Dia do Guarda Rodoviário Dia da Proclamação da República Catarinense Dia do Carreteiro Dia da Imprensa Espírita Dia do Motociclista Dia do Agricultor Dia da Identifi cação Dia das Desculpas Dia Mundial do Orgasmo

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dia do calouro

dia do escritor TEM FARINHA NO CHUCRUTE

Herdeira de Carmen Miranda não tem direito a prêmio

Fluminense festeira influencia marcos da literatura alemã

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REPRODUÇÃO/EA

AMANCIO CHIODI/AE

CLEMENTINA BRANCA

VIOLETA CAVALCANTE

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ioleta Cavalcante começou a cantar ainda pequena. Quando tinha 9 anos, a família mudou de Manaus para o Rio. Em Laranjeiras, começou a freqüentar o coral organizado por ninguém menos do que o maestro Heitor Villa-Lobos, que logo percebeu o talento da garota. Fã de Carmen Miranda, tinha 14 anos quando decidiu se arriscar no programa de Ary Barroso, em 1940. Talvez como forma de devoção à Pequena Notável, escolheu uma canção de seu repertório: O Samba e o Tango. Porém, o que consta é que fez questão de não imitá-la. E foi impecável. Conquistou o primeiro lugar, mas não o prêmio. “Ganhou, mas não leva”, decretou Ary para a adolescente. “Você já é herdeira de Carmen Miranda, portanto profissional, e o prêmio é para calouros.” O tempo passou e ela ganhou notoriedade. Estrelou em rádios como Tupi, Educadora e Ipanema. Ficou famosa interpretando músicas que Carmen também cantava – por isso a associação imediata com a maior estrela de seu tempo. Quando casou, em 1957, resolveu abandonar a carreira. Mas voltou 20 anos mais tarde, incentivada por Paulinho da Viola. Ao lado de Carmélia Alves, Carminha Mascarenhas e Ellen de Lima, estrelou o musical As Cantoras do Rádio: Estão Voltando as Flores, em 2001. Para Ricardo Cravo Albin, diretor do espetáculo, Violeta é a “Clementina de Jesus branca”. Apadrinhada por Villa-Lobos e Paulinho da Viola, herdeira de Carmen Miranda para Ary Barroso e Quelé branca para Cravo Albin... Qual a (NS) primeira ou a última vez que você ouviu falar de Violeta? SAIBA MAIS Por Trás das Ondas da Rádio Nacional, de Mirian Goldfeder (Paz e Terra, 1989). CD Estão Voltando as Flores com as Cantoras do Rádio.

JULIA DA SILVA BRUHNS

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einrich e Thomas Mann, dois expoentes da literatura alemã, quem diria?, eram fi lhos de uma brasileira legítima. Nascida em alguma mata entre Paraty e Angra dos Reis em 1851, Julia da Silva Bruhns foi levada com apenas 7 anos para a cidade germânica de Lübeck, despertando de chofre a curiosidade dos habitantes: todos se acotovelavam para ver a chegada dos exóticos brasileiros, com suas roupas tropicais e a pele queimada de sol. Praticamente órfã (a mãe morrera anos antes, e o pai logo voltara ao Brasil), Julia era proibida de falar português e sofria com as chacotas das crianças. Aos 17 anos, casa-se com o comerciante Thomas Johann Heinrich Mann, o que não a impediu de ganhar a alcunha de “a brasileira”, por seus traquejos estranhos ao comportamento das donzelas puritanas: além de muito atraente, dava gargalhadas em alto e bom som e tinha uma irrefreável queda por saraus e festas. Dizem que cantava e tocava piano muito bem. O comportamento certamente influenciou a obra dos fi lhos. Quando crianças, o sono dos mancebos era embalado com uma cantiga que Julia aprendera na infância, Molequinho do Meu Pai. Assim que decidiram ser escritores, Julia defendeu-os do pai inconformado. Chegava a tirar satisfações com livreiros que não colocavam as obras dos fi lhos nas prateleiras. Resultado: os livros O Súdito (1914), de Heinrich, e Morte em Veneza (1912), de Thomas, contêm personagens femininos inspirados (DG) na mãe brasileira, que morreu em 1922. SAIBA MAIS Julia Mann - Uma vida entre duas culturas, de Dieter Straus e Maria A. Senes [orgs.] (Estação Liberdade, 1997).


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dia dos viajantes MARTIUS E SPIX

Dupla da Bavária descobriu (ou inaugurou?) a fauna brasileira

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aves, 53 sapos, 38 “Spix tinha 36 anos ao começar a vialagartos, 21 peixes. gem em 1817, Martius apenas 23”, Essas são apenas alrelata Vanzolini. “Viajaram ininterruptagumas das espécies da fauna brasileira mente por 30 meses, seguindo o iticatalogadas, ilustradas e descritas penerário mais inteligente que se possa los bávaros Martius e Spix nos tempos imaginar.” Do Rio seguiram para São de dom João. Mas nem só de bichos enPaulo e Minas. Atravessaram o Piauí e tendiam os cientistas. O diário de bordo cortaram o Maranhão, navegando por Viagem pelo Brasil registra também a Belém e chegando ao rio Amazonas, ontrajetória dos viajantes por estas terras. de emendaram com o rio Negro. Vieram “de arrasto”, na definição do múNa Amazônia, Spix contraiu uma moMARTIUS E SPIX: HÓSPEDES DO BRASIL. sico-cientista Paulo Vanzolini, ex-diretor léstia fatal. Por isso, foi Martius quem do Museu de Zoologia da USP. Armaram a expedição como membros levou adiante a publicação de Viagem pelo Brasil. Para Vanzolini, a do séquito da arquiduquesa Leopoldina da Áustria, ao se casar com contribuição dos viajantes ao progresso da Zoologia brasileira rePedro I. Tudo cortesia da casa, hospitaleira desde sempre. Assim, side, mais do que “na ampliação do conhecimento das faunas, na com os caminhos abertos, a dupla deu a largada em um trecho ainconstatação de uma realidade”. Era como se, só depois de cataloda rico em mata virgem. Tinham o País inteiro pela frente. gada, a fauna brasileira passasse a existir. (Lucas Carrasco) SAIBA MAIS A Contribuição Zoológica dos Primeiros Naturalistas Viajantes no Brasil, artigo de Paulo Vanzolini na Revista USP, nº 30, jun.-ago. 1996. 11

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dia dos avós PONTOS ONLINE

Sala virtual da vovó reúne colegas de crochê

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REPRODUÇÃO/EA

arte de crochetar pode contar Portugal e Paraguai, com troca diária agora com um pouco mais do de e-mails, em um intercâmbio de ponque as tradicionais agulhas e tos: os de crochê e os de vista. Enviam linhas das antigas gerações: na era fotos, links para vídeos, novidades sobre da internet, o computador recria virseu trabalho e indicam blogs. Regras tualmente a antiga sala da vovó. Por são necessárias para manter a ordem, meio da tecnologia, adeptas do crochê e também facilitar a leitura rápida, já aprendem, comercializam e difundem que muitas das participantes acessam o trabalho que realizam. Grupos de disa internet no trabalho. BLOG AMIGAS DO CROCHÊ cussão online, como o internacional O encontro de gerações chama a atenAmigas do Crochê, promovem a interação. O grupo reúne senhoras com mais ção entre moças e senhoras praticantes da arte manual. de 70 anos, como dona Dalila Neiva, de Embu-Guaçu, São Paulo. A Formado em 2005, o Amigas chegou a ter mais de quatro mil assoprofessora de crochê tunisiano, que domina a técnica há meio sécuciadas. Foi quando a fundadora, a brasileira radicada em Portugal lo, achava díficil mesmo era ligar o computador. Foi uma das modeLúcia Ribau, decidiu mudar de provedor, e trocar os números pela radoras do grupo, a jovem professora de informática Ivanise Pereira, “amizade e qualidade”. quem deu as dicas para operar a máquina. Bem mais simples que os Hoje o grupo possui cerca de 500 participantes entre Brasil, intricados pontos tunisianos da vovó. (MA) SAIBA MAIS Blog do grupo Amigas do Crochê: www.amigasdocrochegoogle.blogspot.com Julho 2008


HAROLDO PALO JR.

Conservar a natureza para proteger a vida

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vitar a destruição da natureza é uma contribuição fundamental para o equilíbrio ecológico do planeta e para a manutenção das condições de vida para esta e as futuras gerações. É por esses e outros motivos que a Fundação O Boticário de Proteção à Natureza trabalha em prol da conservação dos ambientes naturais. Criada em 1990, a Fundação O Boticário tem sede em Curitiba (PR) e atua em todo o território nacional. A organização já apoiou mais de 1.100 projetos de conservação em todas as regiões do País, protege importantes remanescentes de Mata Atlântica e Cerrado por meio de duas reservas naturais e ainda desenvolve ações de formação e sensibilização da sociedade para a causa ambiental. SAIBA MAIS Acesse www.fundacaoboticario.org.br

Projeto Oásis: água boa para São Paulo O Projeto Oásis é uma das iniciativas da Fundação O Boticário, que tem foco na proteção de mananciais localizados na Grande São Paulo, especificamente na bacia hidrográfica da represa de Guarapiranga. O diferencial do projeto é o apoio técnico e financeiro à conservação de áreas naturais em propriedades particulares, destinado a proprietários que se comprometam a proteger esses remanescentes. Com o Projeto Oásis, a Fundação também espera estimular governos e outras instituições a investirem em iniciativas similares, ampliando assim as ações voltadas para a conservação da natureza no Brasil.


EDUARDO BUENO RONALDO FRAGA

A história sempre esteve aprisionada na sala de aula

FOTOS: LAURA HUZAK ANDREATO

A definição é dele: ex-jornalista, “ex-critor” e “ex-toriador” – uma forma de fazer pouco caso das

Sua trajetória como escritor de livros de história é relativamente recente, não? São dez anos de história contra 30 anos como jornalista. A minha formação é jornalística. Comecei a trabalhar em 1976 como repórter esportivo no jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Tinha 18 anos. Mas não diria que sou ligado ao futebol – nem gosto de futebol. Gosto mesmo é do Grêmio. O resto é uma conseqüência natural. Como surgiu o interesse? A vida inteira eu tive uma ligação muito forte com a história. Desde os 7, 8 anos, era apaixonado pelo Egito Antigo. Embora incrivelmente nunca tenha ido até lá, possuo uma biblioteca grande sobre o tema. Depois, com 13, 14 anos, entrei numa com as Cruzadas. E acabei chegando à história do Brasil por caminhos diversos. Um deles, estranhamente, foi o Bob

críticas que recebe por sua linguagem pop, pela falta de “rigor acadêmico” ou pela presença na mídia. “Eu nunca disse que era historiador, nem quero ser. Meu trabalho é ligado à indústria editorial, à indústria cultural.” Os quase 600 mil exemplares vendidos da coleção Terra Brasilis, sobre o início da colonização do País, atestam que nisso ele teve sucesso. Esse gaúcho contador de histórias recebeu o A LMANAQUE em seu escritório em Porto Alegre, envolto por pilhas de revistas e uma biblioteca com mais de sete mil volumes. E de lá disparou: “Nossa visão da história é um amontoado de clichês, uma coisa com uma áurea didática no pior sentido.”

O que me fascina é o período de 1500 a 1654, do Descobrimento à expulsão dos holandeses.

Dylan. Sou superapaixonado por sua obra e comecei a ler tudo que dizia respeito a ele. Por conta disso, fui recuando no tempo e cheguei à aurora dos Estados Unidos, ao Descobrimento, à ocupação inicial. Nessa mesma época, saiu um livro clássico, Enterrem Meu Coração na Curva do Rio, do Dee Brown, que contava como se dera o massacre dos índios, especialmente os da Costa Leste. Quando se fala de índio americano, vem aquela história do faroeste, da conquista do Oeste americano. Mas a verdade é que a Costa Leste era imensamente povoada, e o primeiro choque entre colonizadores e indígenas se deu ali, naquela faixa de Massachusetts, de Nova Iorque... Eu pirei com aquilo. E como você chegou até a história do Brasil? Foi porque concluí que, no Brasil, a história tinha sido muito parecida. Só quE os livros tradicionais,

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os livros didáticos, não nos davam nem um fl ash disso. Na mesma época, comecei a ir para as praias de Santa Catarina, que ainda eram virginais, selvagens. E, como todo velho hippie – no caso, jovem hippie –, comecei a me sentir meio índio: “Imagina como eram os índios aqui, como foi o primeiro contato com os brancos...” Ninguém sabia absolutamente nada sobre aquela região. Fui comprando livros, e as coisas foram se juntando. Portanto, já há desde o início um viés pop na forma como eu cheguei à história. Bob Dylan de um lado, hippismo em Santa Catarina de outro, mais a minha formação de jornalista. Essas três coisas estavam profundamente unidas dentro de mim. Como depois, em função do Bob Dylan, me envolvi com a geração beat – fiz a primeira tradução direta para o português de On the Road, de Jack Kerouac – as pessoas não sabiam dessa minha relação com a história do Brasil. Mas dentro de mim sempre fermentou a idéia de algum dia escrever sobre o primeiro século da nossa história. O que me fascinava era o período de 1500 a 1654, do Descobrimento à expulsão dos holandeses. Quando se aproximaram os 500 anos do Brasil, eu disse: “É agora”. E lancei o primeiro livro da Terra Brasilis, em 1998.

Se você perguntar “Quais foram as caravelas do Cabral?”, o cara vai responder: “Santa Maria, Pinta e Nina”, que são as do Colombo!

Há uma certa lacuna no registro histórico desse período, não? A primeira contextualização a ser feita é estabelecer a diferença entre a história ensinada nos colégios e a investigação historiográfica. Em vários períodos da tradição historiográfica brasileira, esse momento foi muito valorizado. Pelo Van Hagen, pelo Capistrano de Abreu, pelo Sérgio Buarque de Holanda... Depois, quando se impõe uma visão mais marxista, na USP, o foco se transfere para a escravidão, para o início da industrialização. Estes períodos evidentemente são importantíssimos e se aproximam mais da nossa realidade atual. Mas, para mim, são bem mais áridos e tediosos. Você considera o povo brasileiro distante da história de sua fundação? Costumo dizer que a história sempre esteve aprisionada dentro da sala de aula. E com grilhões de ferro, que nos lembram aqueles bancos duros do colégio – ainda mais para mim, que sou dos anos 1960 e estudei na época do regime militar. Era aquele suplício, aquele tormento, aquela seqüência tediosa de nomes solenes e datas vazias com as quais não tínhamos nenhum relacionamento. Aquilo era empurrado goela abaixo, e nós com os hormônios em ebulição... Teve a virada dos anos 1980, a dos anos 1990, a

aurora do segundo milênio e, inacreditavelmente, com a aproximação dos 500 anos do Brasil, continuava sendo assim. Descobrimento, caravela... E nem foi em caravela! Os caras vieram em naus. Se você perguntar “Quais foram as caravelas com as quais Cabral descobriu o Brasil?”, o cara vai responder “Santa Maria, Pinta e Nina”, que são as do Colombo! É tudo um amontoado de clichês, uma coisa com uma áurea didática no pior sentido. E eu, apaixonado por esse período, sabendo da altíssima dose de ação e aventura, do sobretom épico que isso tudo tinha... Hoje há ótimos livros que aliam a história a uma linguagem acessível, com narrativas mais atraentes. O que você acha disso? Houve uma guinada grande. Eu sou tributário de uma vertente de jornalistas que escreveram história, como o Jorge Caldeira, o William Waack – autor de um livro maravilhoso que as pessoas conhecem pouco, Camaradas, sobre a Intentona Comunista de 1935. Tem o Ruy Castro também, que não gostaria de citar porque é flamenguista... Há um monte de jornalistas que deram um sopRo de renovação na história. E também muitos historiadores de ofício, atentos e dinâmicos, que têm um peso e uma responsabilidade maior do que a do jornalista, como Nicolau Sevcenko, Lilia Moritz Schwarcz, Mary Del Priore... Os livros deles já incorporam um outro tipo de linguagem. E são maravilhosos.

Você fala do Governo Geral, instituído em 1548, como um momento em que se iniciam problemas que temos até hoje: burocracia, clientelismo, corrupção... Não é uma leitura histórica inadequada, da frente para trás? Isso talvez se deva ao fato de eu ser jornalista, e não historiador. Trato do Governo Geral no livro que considero o meu melhor, A Coroa, a Cruz e a Espada. A correlação de algo que aconteceu 450 anos atrás com o que acontece hoje talvez seja fruto desse olhar jornalístico. A questão do Judiciário, tão grave no Brasil de hoje, vem do fato de o País não ter sanado antigos vícios do Judiciário ibérico. Espanha e Portugal só sanaram estes vícios nos anos 1980. Daí essas duas sociedades terem dado uma guinada tão grande desde então. Eles só se vincularam mais profundamente à sociedade européia depois de uma mudança profunda no Judiciário. A Itália, que viveu problemas enormes, só tornou-se o país que é hoje depois da Operação Mãos Limpas, de uma faxina no Judiciário. A América Latina em geral – o Brasil em particular – continua com muitos dos defeitos de corrupção, de clien-


telismo e de burocracia excessiva que nascem no Judiciário. É óbvio que depois outros poderes, inclusive o Legislativo, “aprimoraram” a burocracia, o clientelismo e a corrupção. Mas, originalmente, eles vêm sim do Judiciário. Acho que, nesse sentido, o livro é muito revelador. Quais figuras deram início a esses vícios? Meu personagem, digamos, “favorito” é o doutor Pero Borges, o primeiro “ministro da Justiça” do Brasil. Eu até quero encontrar os descendentes do doutor Pero Borges para dar a eles parte do dinheiro das palestras que tenho feito sobre o início da corrupção no Judiciário. A história é maravilhosa. Ele foi encarregado de supervisionar a construção de um aqueduto, que parou pela metade – era uma época muito primitiva, no qual obras estatais ficavam pela metade, pontes levavam do nada para lugar nenhum, fábricas eram abandonadas e aquedutos, esquecidos. Ainda bem que foi 500 anos atrás, e essa história não se repete... Quando levantou-se um clamor para saber por que o aqueduto não tinha sido concluído, foram perguntar para o empreiteiro. E o cara disse: “Ué, mas eu dei todo o dinheiro para o doutor Pero Borges”. E o Pero Borges tinha direito a foro privilegiado e cela especial... Conseguiu adiar durante três anos o início do julgamento. Foi, enfi m, condenado a devolver metade do dinheiro que tinha desviado e a nunca mais ocupar um cargo público. Um ano depois da condenação, foi escolhido pelo mesmo rei que o condenara para ser o primeiro ministro da Justiça do Brasil. Com esse tipo de visão não corremos o risco de tributar aos colonizadores portugueses todas as nossas agruras? “Ah, se a colonização holandesa tivesse prosperado...” É uma tentação permanente. Mas não existe nada mais colonizado do que querer escolher o colonizador. É demais, né? A naTureza do colonialismo é sempre a mesma: uma natureza espoliadora. O propósito do colonialismo é chegar a um lugar, tirar dele tudo o que puder tirar e não dar nada em troca. Nesse sentido, a ação colonizatória dos holandeses e dos franceses ao longo do mundo fala por si. O caso brasileiro da ocupação holandesa, que tem essa figura notável do Maurício de Nassau – que aliás é alemão – nos faz achar que uma colonização holandesa seria melhor. Uma colonização coordenada pelo Nassau com certeza seria melhor do que qualquer outra porque ele, mesmo com seus defeitos, foi um extraordinário go-

vernante, um ser humano admirável. Pode ter certeza de que somos frutos de muitos dos defeitos ibéricos. Esse núcleo canceroso de um poder estatal ligado ao compadrio, ao clientelismo, ao coronelismo; este viés de corrupção que se inicia no Judiciário... O problema é que nós, brasileiros, não conseguimos dar a virada para superar esse negócio. E a culpa é toda nossa. Sou muito amigo do maior historiador português vivo, Joaquim Romero Magalhães, que, diante desse tipo de afi rmação, provoca: “Mas a Independência não foi em 1822? Vocês não tiveram 186 anos para melhorar?”. E, ao mesmo tempo, a colonização portuguesa nos legou coisas maravilhosas também... Com certeza. A colonização portuguesa teve os méritos cantados por Gilberto Freyre de uma forma linda, inclusive literariamente. Acho verdadeira essa visão de uma colonização mais lúdica e plástica, inclusive o apelo sexual que ele identifica, com o português transando com a índia, com a mulata. Ele acertou na mosca. Sabe-se que nunca houve intercurso sexual entre holandeses, ingleses e espanhóis e as nativas, como houve no Brasil. É óbvio que também tinha o desleixo, o descuido e a ineficiência portuguesa. Mas também havia esse lado mais permeável. Eram uns caras que estavam abertos para influências externas, para o convívio com o outro. Muito mais do que o holandês, do que o espanhol.

Somos frutos de muitos dos defeitos ibéricos. O problema é que não conseguimos dar a virada. A culpa é toda nossa.

Como você reage às críticas dos intelectuais dirigidas a você? Uma coisa tem que ficar clara: os meus livros são livros de mercado. Eu escrevi com olho no mercado. Fui editor durante anos, sabia que existia um nicho. O meu trabalho é um trabalho editorial, ligado à indústria editorial, à indústria cultural. Escrevi meus livros para vender, e não tenho a menor vergonha de dizer isso. Pelo contrário, tenho muito orgulho. Nunca disse que era historiador, nem quero ser. Eu próprio debocho disso. Já me apresentei como “Istoriador”, com “I” maiúsculo, ou como ex-jornalista, “ex-critor” e “ex-toriador”. Tem muito historiador por aí escrevendo bem, mas o que tem também de preguiçoso... Por que ninguém consulta as antigas revistas brasileiras? Estou cheio de revistas antigas aqui. O que os historiadores atuais podem explorar das revistas brasileiras dos anos 1910 e 1920 é impressionante. A ligação entre jornalismo e história pode ser eventualmente confl ituosa, mas tem a posibilidade de ser simbiótica.

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Enigma Figurado

LIGUE OS PONTOS

ste carioca nasceu em 27 de julho de 1939. Aos 20 anos era compositor e intérprete de um LP de samba que reunia músicos como Altamiro Carrilho, Durval Ferreira e Eumir Deodato. Mais tarde, amplia a atuação, dedicando-se ao teatro e ao cinema. Passa pela TV Tupi, TV Continental, TV Rio e TV Excelsior. Substitui até o Velho Guerreiro no programa O Cassino do Chacrinha. É um dos mais populares humoristas da televisão brasileira. (NS)

R.:

(segundo nome)

ARQUIVO PESSOAL

E

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a Aos 10 anos, tirou a nota máxima do programa Calouros em Desfile. Deixou Ary Barroso e a platéia boquiabertos.

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b Quando, diante de sua figura estranha, o apresentador lhe perguntou de que planeta teria vindo, não titubeou: “Do Planeta Fome, seu Ary”.

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c Antes de assumir a apresentação do programa em 1959, levou o gongo duas vezes. Quase 50 anos depois, ainda está na tevê.

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d Mangueirense, passou pelo programa de Ary em 1945. Arriscou Ai, Que Saudade da Amélia, de Ataulfo Alves e Mário Lago.

O Calculista das Arábias

ACERVO DA FAMÍLIA

Nossa homenagem a Júlio César de Mello e Souza, o Malba Tahan

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Em uma de suas viagens, o sábio Beremiz Samir encontrou um rico mercador de Bagdá que acabara de ser saqueado. Após narrar o ocorrido, o mercador perguntou se os viajantes traziam algo de comer. “Tenho cinco pães, e meu amigo mais três”, respondeu Beremiz. “Pois então juntemos esses pães e façamos uma divisão por igual. Quando chegarmos a Bagdá, pagarei oito moedas de ouro pelos pães que eu comer”, sugeriu o xeque. Ao atingir a cidade, cumpriu o trato. Entregou cinco moedas a Beremiz e três a seu companheiro. O calculista protestou: deveria receber sete moedas por seus cinco pães. E tinha razão. Você seria capaz de decifrar tal lógica?

BRASILIÔMETRO TESTE O NÍVEL DE SUA BRASILIDADE 1 Agenor de Miranda Neto (morto em 7/7/1990) era conhecido como: (a) Cartola (b) Nozinho (c) Monarco (d) Cazuza 2 Primeiro personagem de Mauricio de Sousa (lançado em 18/7/1959): (a) Bidu (b) Mônica (c) Cebolinha (d) Magali

PALAVRAS CRUZADAS

3 Elizeth Cardoso (nascida em 16/7/1920) foi: (a) Miss Brasil (b) Musa da tevê (c) Diva do rádio (d) Estrela do teatro 4 Autor do livro Turista Aprendiz (lançado em 6/7/1977): (a) José de Alencar (b) Mário de Andrade (c) Oswald de Andrade (d) Mário Quintana 5 Arnaldo Dias Baptista (nascido em 6/7/1948) participou do grupo: (a) Secos & Molhados (b) Titãs (c) Mutantes (d) Skank 6 Em 10 de julho de 1958, João Gilberto gravou disco que inaugurou a: (a) Ponte da Amizade (b) Jovem Guarda (c) Bossa Nova (d) Tropicália 7 Plano econômico lançado pelo presidente Itamar Franco (em 28/7/1993): (a) Cruzado (b) Cruzeiro (c) Real (d) Surreal 8 Estado onde foi encontrado o fóssil de um Tyrannoussaurus rex (em 27/7/2000): (a) Ceará (b) Bahia (c) Piauí (d) Rondônia Respostas na p. 32 AVALIAÇÃO – Conte um ponto por resposta certa: 0 a 2 - Brasilidade na reserva 3 a 4 - Meio tanque 5 a 8 - Tanque cheio

“EU SEMPRE ME PREPARO PARA O FRACASSO E ACABO SURPREENDIDO PELO SUCESSO.”

Steven Spielberg


Diversão para pequenos

I L U S T R AC Õ ES

C : LU

IANO

TA S S O

e grandalhões

O desenhista maluquinho E

le é dono de um nome único – e, pra dizer a verdade, meio esquisitão. Juntaram Zizinha (nome da mãe) e Geraldo (do pai) e ficou Ziraldo. Passou a infância e adolescência entre a cidade de Caratinga e o povoado de Lajão, dois lugares muito gostosos do interior de Minas Gerais. Era uma criança, como se dizia naquela época, levada da breca. Os muros brancos de Lajão não tinham sossego. Ziraldo pegava carvão e os preenchia com rabiscos e mais rabiscos que jurava ser grandes desenhos, para desespero dos pais e vizinhos. Vivia solto pelas ruas, se metendo em aventuras às vezes perigosas. Adorava organizar peças teatrais com os irmãos (o papel principal, claro, era dele). A molecada ia assistir às apresentações e, achando graça daquele pirralho, dizia: “Que menino maluquinho!”. Com o passar do tempo, começou a ficar craque nas ilustrações. Produzia historinhas completas que eram compradas pelos meninos mais ricos da cidade. Passava tardes inteiras com lápis e papel nas mãos. E, sempre que podia, enviava desenhos para concursos. Desta forma, ensaiava o que viria a ser a sua profissão por toda a vida. SAIBA MAIS

A Infância de Ziraldo, de Audálio Dantas (Callis, 2007).

Nasce o Menino Maluquinho

Se o que o Ziraldo diz for verdade, as pernas do Menino Maluquinho têm o comprimento de 20.037 quilômetros! Calma, a gente explica. É que no livro o autor afirma que o garoto tem pernas tão grandes que podem abraçar o mundo. Como a circunferência da Terra é de 40.074 quilômetros, as pernas do Maluquinho precisariam ter ao menos a metade disso para envolver o planeta. Assim, seriam cerca de 25 milhões de vezes maior do que as de uma criança de 8 anos. Imagine o tamanho do pé...

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O livro mais famoso de Ziraldo, O Menino Maluquinho, foi publicado em 1980, quando ele já tinha 48 anos. É a história de um moleque muito arteiro, esperto e, claro... maluquinho de pedra. Vive se metendo em encrenca com a família e a turma do bairro. Mas sempre tem um jeito criativo para resolver a parada. Também é u m goleiro de primeira e vive rodeado de grandes amigos. Sua principal característica é estar (quase) sempre com uma panela na cabeça. Boné estranho, né?

JÁ PENSOU NISSO?

VO E R EPE TIR EM

Ziraldo sozinho zombou da vizinha e da Zizinha.

Nasce grande e

Cada número no diagrama abaixo corresponde a uma página do ALMANAQUE. Descubra a letrinha colorida escondida na página indicada e vá preenchendo os quadrinhos até completar a mensagem cifrada que escrevemos para você.

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Arte: Guilherme Resende

ESPECIAL

Bossa sempre Nova Ela foi a trilha sonora de um momento de ebulição cultural, política e social. Mais do que uma simples mistura entre samba e jazz, uma nova batida ou um jeito diferente de cantar, a Bossa, que completa 50 anos, é e para sempre será Nova.

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batida de violão da Bossa Nova e o canto contido, hoje, nos parecem muito naturais. Mas em meados da década de 1950, nas nossas paradas musicais o que retumbava era a grandiloqüência e a dramaticidade. “Quem matou nosso amor foi a superstição”, entoava o pernambucano Orlando Dias a plenos pulmões em um bolero de 1955. Depois da gravação de Chega de Saudade por João Gilberto, em 10 de julho de 1958, o Brasil se viu perplexo diante de cantores de “voz pequena”, que versavam sobre amor, sorriso, flor, abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim. Some-se a um jeito de tocar violão diferente de tudo que havia até então, e tinha-se “uma pernada na era boleral”, como escreveu mais tarde o maestro Rogério Duprat. A Bossa Nova pegou de surpresa os músicos, os profissionais da indústria fonográfica, enfim, toda a gente. Mas houve quem não tivesse assimilado a novidade. Quando ouviu o compacto de João, o gerente de vendas das Lojas Assumpção, em São Paulo, achou que o cantor estava resfriado. Estraçalhou o disco na quina da mesa, berrando: “Então, é esta a merda que o Rio nos manda?”. Teve gente da velha guarda que também

não simpatizou nem um pouco com a novidade. O veterano Sílvio Caldas sentenciou: “É uma manifestação passageira, própria dos moços que retratam o espírito de desobediência e má educação da época atual. Vai passar, porque carece da categoria que somente a autenticidade confere às coisas”. A despeito dos prognósticos, a Bossa se estabeleceu. Capitaneada por João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, a turma ganhou espaço, agregando aliados de toda parte. Entrou na onda até Vicente Celestino, cantor que ficou célebre por narrar as desventuras de um malfadado ébrio. Além de gravar Se Todos Fossem Iguais a Você, de Tom e Vinicius, ele soltou a voz tenor em outro clássico da Bossa, a prosaica O Pato: O pato vinha cantando alegremente / Qüém, qüém / Quando um marreco sorridente pediu / Pra entrar também no samba. A publicidade e o jornalismo se apropriaram do termo pAra apelidar tudo que fosse novo ou diferente: era “presidente bossa-nova” pra lá, “Fla-Flu bossa-nova” pra cá... Até “geladeira bossa-nova” se vendia. Neste Especial, relembramos os personagens e as histórias desse gênero musical brasileiro que tomou de assalto o País e ganhou o mundo.


Até aquele encontro A quantas andavam Vinicius,

Vinicius de Moraes

João Gilberto

Juazeiro, Bahia, 1948. João Tom e João antes tinha 17 anos quando deiJá consagrado como poedo encontro que xou os estudos de lado para ta, teve um ano de vacas se dedicar à musica. A cidade era pequemagras em 1951. Pra se virar, descolou deu a largada na demais para ele. Foi para Salvador. Em um trabalho no Última Hora. Além de para a revolução 1950, foi convidado a integrar o conjunto uma crônica diária, escrevia críticas de vocal Garotos da Lua, no Rio. Mas João cinema e aconselhava leitoras no “corda Bossa Nova. queria mesmo era iniciar a carreira solo. reio sentimental”. Dois anos depois, deiGravou em 1952 um compacto em que xou as atividades no jornal para seguir a soava demais como Orlando Silva, cancarreira diplomática na embaixada brasitor romântico que admirava. O disco foi leira em Paris. Foi na França que escreveu um fracasso. João gravou ainda alguns Orfeu da Conceição. De volta ao Brasil, em jingles, tocou em festas e espetáculos 1956, precisava de um compositor teatrais, mas estava infeliz. Sem rumo “moderno” para musicar a peça. e sem dinheiro, foi acolhido pelo O escolhido foi Antonio Carlos gaúcho Luís Telles, que o levou Apesar de histórico, Canção Jobim. Nascia assim uma das a Porto Alegre em 1955. Pasdo Amor Demais, disco de Elizeth que parcerias mais frutíferas da sou ainda por Diamantina, contém a primeira gravação de Chega de nossa música. Depois de Juazeiro e Salvador. NesSaudade (a tal parceria de Tom e Vinicius), mal uma bem-sucedida temse período, de forma obfoi notado depois de seu lançamento, em maio de porada de Orfeu, Vinicius sessiva, desenvolveu um 1958. O País só se deu conta de quanto a canção era preparava-se para voljeito próprio de cantar revolucionária quando o próprio João a registrou em tar a Paris. Mas adiou a e tocar violão. De volta compacto, a seu modo, dois meses depois. A gravação ida em alguns dias para ao Rio em 1957, foi ao foi conturbada: o perfeccionismo de João gerou conescrever a letra de uma apartamento de Roberto flitos com Tom, autor do arranjo, e a orquestra. Mas, música nova de Tom... Menescal mostrar o que enfim, o disco saiu. Causou um frenesi sem prehavia criado. Professor de cedentes na nossa música popular. Entre a leviolão, Menescal teve uma tra de Vinicius, a música de Tom e a voz e epifania, assim como todos a violão de João aflorou a Bossa Nova. quem apresentou João. Foi escaE nunca mais o Brasil soou Tom Jobim lado por Tom Jobim para tocar viodo mesmo jeito. Ele tinha apenas 22 lão no disco de Elizeth Cardoso... anos quando casou, em 1949. Tocando piano na noite carioca, Blanco, gravada em dueto por Dick Farney e Lúcio Alves. garantia ao menos uns trocados para sustentar a faSeu nome como compositor começou a se propagar. mília. Três anos depois, conseguiu um bom emprego: Impressionado pela batida de violão que um certo arranjador da gravadora Continental. O novo trabalho lhe estimulou a compor. Em 1954, escreveu com Billy baia N o lhe mostrou em 1958, Tom tirou da gaveta Blanco Sinfonia do Rio de Janeiro – obra-prima da múuma canção que havia escrito com Vinicius. Acredisica brasileira, mas um fracasso de vendas. O sucesso tava que poderia caber como uma luva no novo ritmo veio mesmo com Teresa da Praia, outra parceria com criado por João...

CHEGA DE SAUDADE

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Tom Jobim Compositor carioca que se inspirou num chorinho cantado pela empregada de sua mãe para escrever Chega de Saudade, letrada por...

Vinicius de Moraes Poeta e compositor carioca, escreveu a contracapa do LP Canção do Amor Demais, de...

Elizeth Cardoso Cantora carioca cujo disco de 1958 contém a primeira gravação de Chega de Saudade, acompanhada pelo violão de...

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O VIOLÃO

João Gilberto Violonista e cantor baiano, inventor da batida da Bossa Nova. Em 1960, ele se casou com...

Astrud Gilberto Cantora baiana, uma das intérpretes femininas mais populares da Bossa Nova, assim como...

A ESCOLHA DO ALMANAQUE Seis discos que não conseguimos deixar de ouvir

U

m cantinho, um... acordeão? Não fosse o violão de João Gilberto, talvez começasse assim a letra de Corcovado, de Tom Jobim. Exagero? Na década de 1950, The Composer of Chega de Saudade Getz/Gilberto (1964), Desafinado Plays (1959), LP de estréia de encontro de João e o verdadeiro rei da sanfona chamava-se (1963), disco de Tom João Gilberto. Além da Stan Getz com Jobim pela gravadora música título, clássicos participações de Tom Mário Mascarenhas. Gaúcho radicado norte-americana Verve. como Desafinado. Jobim e Astrud Gilberto. no Rio, fabricava milhares desses instrumentos e coordenava escolas espalhadas pelo País. Muitos filhos de famílias cariocas – boa parte deles a contragosto – estudaNara (1964), estréia Milton Banana Trio Sinatra-Jobim Sessions em LP de Nara Leão, (1965), do grupo (1979), compilação que ram com Mascarenhas. que acabava de romper liderado pelo grande reúne gravações de com o movimento. baterista da Bossa. 1967 a 1971. Entre os formandos de 1957 estavam figuras como Edu Lobo, Eumir Deodato, Francis Hime e Marcos Valle. A sanfona reinava soberana na nossa música oão Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de popular. Mas os rapazes queriam Moraes, Carlos Lyra, Roberto Menescal, mesmo era tocar o violão que ouviam Luiz Bonfá, Ronaldo Bôscoli, Newton em canções estrangeiras. Mendonça, Nara Leão, Tito Madi, João Antes do lanCamento oficial de Chega de SauDonato, Johnny Alf, Sergio Mendes, dade, em 1958, já começavam a circular timidaAgostinho dos Santos, Dolores Duran, mente na zona sul do Rio fitas de rolo com a gravaMaysa, Sylvia Telles, Baden Powell, ção. Foi a estocada derradeira na sanfona. De sinônimo Luiz Eça. A lista dos que contribuíde vadiagem, o violão virou objeto de desejo e presença ram para a gênese e a difusão da Bossa constante nas festinhas. Mais do que saber tocar o insNova poderia ocupar o ALMANAQUE intrumento, o máximo era aprender aquela batida. Quem teiro. Seja no apartamento de Nara, no lucrou com isso foi Carlos Lyra e Roberto Menescal, Beco das Garrafas ou no Carnegie Hall, sócios desde 1956 em uma escola de violão. Tom Jobim, em Nova Iorque, essas figuras propapianista, viu-se obrigado a empunhar o pinho em suas garam melodias, letras e harmonias em primeiras incursões nos Estados Unidos, por exemplo. que está contida a esperança de um País Se, até hoje, o violão é um instrumento indissociável moderno e promissor, o mesmo da arquiteda música popular brasileira, a verdade é que isso tura de Oscar Niemeyer em Brasília e dos pés muito se deve à Bossa Nova. de Garrincha e Pelé na Copa do Mundo de 1958. Mas teriam tantos nomes outras ligações?

Newton Mendonça Compositor carioca, co-autor dos clássicos Desafinado e Samba de uma Nota Só. Outra parceira importante de Tom foi...

Dolores Duran Cantora e compositora carioca. Sua primeira composição, escrita em 1955, foi Se É por Falta de Adeus, ao lado de...

TURMA BOSSA-NOVA

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Billy Blanco O compositor paraense foi um dos primeiros parceiros de Tom Jobim, assim como...

Lúcio Alves Cantor mineiro. As animosidades cessaram quando ele gravou com Farney em 1954 Teresa da Praia, composição de Tom Jobim com...

Dick Farney Cantor carioca popular nas décadas de 1940 e 1950 e admirado pelos futuros bossa-novistas, mantinha uma suposta rivalidade com...


Nara Leão Cantora capixaba, em cujo apartamento se deram os primeiros encontros do movimento. Desejada por muitos, ficou noiva de...

Ronaldo Bôscoli Compositor e jornalista carioca, autor de Lobo Bobo e Saudade Fez um Samba, que se apaixonou por...

Maysa Cantora paulista. Em 1961, gravou o disco Barquinho, cuja faixa-título é composição de Bôscoli com...

É

Quincy Jones, Sarah Vaughan e Stan Getz são alguns dos artistas estrangeiros que se dedicaram apaixonadamente a esse ritmo tão original. Garota de Ipanema, de Tom e Vinicius, é uma das canções mais tocadas no mundo, perdendo apenas para os Beatles – “Pois é, mas eles são quatro e cantam em inglês”, brincou Tom. E a Bossa Nova não dá o menor sinal de cansaço. Seja associada a batidas eletrônicas, relida por novos intérpretes ou diLuída entre outros gêneros. Ela sempre se renova. Cauby Peixoto

Ultraje a Rigor

Madonna Fizeram breves incursões pelo gênero.

Cantaram Garota de Ipanema.

Charlie Brown Frank Sinatra

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Elvis Presley

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23 Johhny Alf Compositor e cantor carioca que, no início da década de 1960, se apresentava no Bottle’s Bar, assim como...

O QUE TEM A VER

&

&

Austin Powers

Mané Garrincha A trilha dos filmes inclui Bossa Nova.

Eram loucos pela Bossa Nova.

Chega de Saudade: A história e as histórias da Bossa Nova, de Ruy Castro (Companhia das Letras, 1990).

Bossa`50 Mais do que se ater à produção musical, a exposição celebra a modernidade e a sofisticação da Bossa Nova em um projeto múltiplo, que envolve moda, história, arquitetura, vídeo e artes visuais. Entre os curadores do projeto estão o estilista Ronaldo Fraga, o músico e pesquisador Charles Gavin, o diretor de tevê Fernando Faro e o jornalista Walter Garcia. De 15/7 a 24/8, no Pavilhão da Bienal de São Paulo (Parque Ibirapuera).

João Donato Compositor e instrumentista acreano que, na adolescência, fazia parte do fã-clube que reunia aficionados por Frank Sinatra e...

Tito Madi Cantor e compositor paulista que, em disco de 1974, gravou Até Quem Sabe, composição de...

Sergio Mendes Instrumentista niteroiense que, em 1962, participou do famoso show da Bossa Nova no Carnegie Hall, juntamente com...

Para Ler

Carlos Lyra Compositor e cantor carioca que, em seu primeiro disco de 1959, gravou Rapaz de Bem, escrita por...

quase um paradoxo: a Bossa Nova completa 50 anos e ainda é tradução de modernidade. Sua influência se estende aos mais diferentes campos, aos mais longínquos cantos do mundo. O mesmo ritmo que fez figuras como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil despertarem para a música inspira até hoje gente de Tóquio, São Paulo, Paris, Nova Iorque, Juazeiro. O gênero é quase sinônimo de música brasileira no exterior. Frank Sinatra, Ella Fitzgerald,

Roberto Menescal Compositor carioca, entusiasta da pesca de mergulho e sócio de uma escola de violão junto a...

A Bossa renova

Agostinho dos Santos Cantor paulista que, em 1957, gravou Chove Lá Fora, primeiro grande sucesso de... Julho 2008


Gianfrancesco Guarnieri

O idealismo no palco Por Bruno Hoffmann

Sempre que o caminho incitou, ele fez sua escolha: pelos desvalidos, pela democracia, pela arte, pela vida. Autor de obras fundamentais do teatro brasileiro, como Eles não Usam Black-tie

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e Arena Conta Zumbi, Guarnieri fez do trabalho um instrumento disseminador

ARQUIVO/AE

de suas crenças e ideais, seja com as

o nascer em Milão, Mil na Itália, em 6 de agosto de 1934, recebeu um nome pomposo: Gianfrancesco Sig f r ido B enedet to Ma r ti neng h i de Guarnieri. Mas, de nobre, sua vida teria apenas o trabalho e os ideais. A atividade deste ator que viria a ser conhecido no Brasil apenas como Gianfrancesco Guarnieri sempre foi ligada às questões sociais. Escreveu e atuou para dar cara aos pobres, operários, malandros de morro, prostitutas, perseguidos e desvalidos. A sensibilidade social veio de família. A mãe, uma harpista consagrada na Europa, e o pai, um maestro de renome, eram antifascistas e inimigos de regimes

palavras, nas telas ou nos palcos.

desiguais num país comandado por Benito Mussolini. Vieram para uma temporada no Rio de Janeiro no início de 1937 e nunca mais voltaram a viver na Europa. A verdadeira pátria do pequeno Gianfrancesco passou a ser o Brasil. A estréia nos palcos aconteceu quando tinha 14 anos, no colégio Santo Antonio Maria Zacaria, no Rio. Escreveu e atuou na peça Sombras do Passado, uma comédia na Qual o protagonista sofria de gagueira. O problema era que um dos padres (o que os alunos menos gostavam) também era gago. E a gargalhada correu solta entre a molecada. Ofendido, o padre exigiu a expulsão do garoto. Quando o diretor anunciou que Giafrancesco teria de mudar de escola, o pai apenas respondeu: “Graças a Deus”. Havia matriculado o fi lho no colégio conservador a contragosto.


NADA DE BLACK-TIE Já em outra escola, Gianfrancesco começou a colaborar com o jornal Novos Rumos, uma publicação da Juventude Comunista. Mas a família resolveu mudar para São Paulo. Na cidade, fundou o lendário Teatro Paulista do Estudante (TPE), em 1955. No mesmo ano foi convidado a integrar o recém-criado Teatro de Arena. Em 1958 escreveu, em apenas 30 dias, o que viria a ser um marco na dramaturgia brasileira: Eles não Usam Black-tie, mais tarde levada às telas por Leon Hirszman. A peça, que explorava as relações trabalhistas a partir de uma greve de operários, causou alvoroço entre grupos de esquerda, sindicalistas e estudantes. O povo se via representado. Ao ver o resultado, prometeu que nunca trairia a população proletária descrita na peça.

“PONHAM TODA A CULPA EM NÓS!” Pela visão socialista, teve sérios problemas após o golpe de 1964. Cacilda Becker trouxe a notícia de que os militares não tinham nada muito sério contra o teatro brasileiro, mas, sim, contra quatro figuras: ele, Flávio Rangel, Augusto Boal e Juca de Oliveira. Ao lado de Juca, decidiu fugir do País. Optaram pela Bolívia, sem antes deixar de dar um recado aos companHeiros de luta: “Se alguém for preso e interrogado, seja lá por qual motivo, não esqueçam: ponham toda a culpa em nós”. A viagem foi permeada por muitas dificuldades e medo. Depois de arranjar um salvo-conduto na cidade de Corumbá – “conseguido de um funcionário de delegacia que nem olhou na nossa cara; falava conosco enquanto lia uma revista do Capitão Marvel”, lembra Juca –, atravessaram uma ponte cheia de soldados, alguns com metralhadoras. Quando alcançaram o território boliviano, aos prantos, Guarnieri berrou:

REPRODUÇ ÃO/EA

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COM ODU VALDO VIAN NA FILHO CORTEZ EM E RAUL DIAS FELIZE S, DE 1956 IE. K-T AC BL AM US O FILME ELES NÃ MONTENEGRO NO COM FERNANDA

Sobre quem o criticava por representar na tevê, respondia: “Atuo na televisão como se estivesse fazendo Hamlet”.

“Desgraçados, a gente volta um dia!”. E voltaram. Guarnieri passou a atuar em tevê, nas telenovelas que eram sensação naquele fi m dos anos 1960. Mesmo assim, jamais abandonou o teatro. Durante a carreira, escreveu 20 peças – entre elas, as emblemáticas Arena Conta Zumbi e Arena Conta Tiradentes – e atuou em 40 novelas e 40 espetáculos, que quase sempre continham o retrato do povo brasileiro desprovido de artificialismos.

LUTA PELA VIDA Os últimos 12 anos de vida foram difíceis. Em 1994, enquanto estava no ar com a novela A Próxima Vítima, descobriu um aneurisma na aorta. Passou por uma operação de emergência. Como seqüela, um dos rins ficou comprometido, a ponto de ter que extirpá-lo. Em 2001, começou a fazer sessões freqüentes de hemodiálise. As dores e o risco iminente de morte não tiraram sua tranqüilidade. Continuou a atuar em peças, como a juvenil O Pequeno Livro das Páginas em Branco, de 2004. Mas, em 22 de julho de 2006, não resistiu. Morreu aos 71 anos, em função de complicações geradas pela insuficiência renal crônica. Estava internado havia 50 dias. Numa entrevista concedida poucos meses antes da morte, resumiu o trabalho no teatro: “Estar no palco nunca foi um sofrimento. O mesmo se passa com o processo de criação. Alguns autores dizem que é muito difícil. Mas, para mim, sempre foi um prazer”. E aos que que criticavam sua atuação na tevê, por considerar um veículo menor, respondia: “Atuo na televisão como se estivesse fazendo Hamlet”. SAIBA MAIS Gianfrancesco Guarnieri: Um grito solto no ar, de Sérgio Roveri (Imprensa Oficial, 2004).

O M ELHOR PRODUTO DO BRASIL É O BRASILEIRO CÂMARA CASCUDO

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Diamantina

Sinfonia para os sentidos Aninhada a 1.500 metros de altitude e circundada pela Serra do Espinhaço, Diamantina foi responsável por transformar Portugal no maior produtor de diamantes do século 18. Mas uma dúvida inquieta: terá recebido o nome por suas minas promissoras ou por ela própria ser o diamante? Para experimentar a resposta, basta caminhar pelas ruas e deixar em estado de atenção os cinco sentidos. Texto, fotos e ilustrações de Heitor e Silvia Reali

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A PEQUENA DIAMANTINA É UM DAQUELES LUGARES EM QUE O BRASIL SE ENCONTRA COM SUA HISTÓRIA E IDENTIDADE.

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iajar na história pode custar apenas alguns quilômetros. Diamantina é prova. O que chama atenção nesta cidade a apenas 300 quilômetros de Belo Horizonte não é só o fato de ter preservado o casario colonial.Tampouco é a música – embora pesquisas revelem não existir uma só família diamantinense que não tivesse um músico em sua história. O que mais atrai por aqui é a luminosidade. Em diferentes horas do dia, a cidade pode tornar-se rósea, laranja ou azulada, refletida

nos rochedos de seu entorno ou nas paredes das casas. É pequena, Diamantina. Não é preciso bater muita perna para desvendar a herança desse patrimônio. A todo instante a imaginação constrói momentos de extrema beleza e nos leva à época das caleças, tílburis, carroças puxadas por burros e récuas de mulas trazendo mercadorias. “Nos dias de nevoeiro os fantasmas aproveitam para passear incógnitos pelas ruas”, atiça Mário Quintana.


De JK a Chica da Silva Enquanto se caminha de uma praça a outra para conhecer as atrações, é impossível não conversar com moradores atenciosos que sempre querem acrescentar alguma coisa na história fascinante desta cidade e de seus personagens. Uma delas é a de Chica da Silva, a mulata escrava que, pela sensualidade e beleza, tornou-se esposa de um dos homens mais poderosos do Brasil, o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira Filho. Conta-se que era a dona do pedaço. Ninguém bulia com ela. Nem os padres, que foram obrigados a construir a torre da igreja de Nossa Senhora do Carmo atrás, e não na frente, para que o dobrar dos sinos não incomodassem a toda-poderosa. Há relatos também sobre o filho mais ilustre da cidade, o ex-presidente Juscelino Kubitschek. Mas as palavras são dele: “Ao entardecer, após as aulas, dirigia-me à Esplanada da Estação. Sentado sob a melhor sombra, abria o meu livro. O cenário que dela se contemplava era empolgante. Erguendo os olhos, eu vi a cidade desenhar-se encosta abaixo, como um presépio de torres de igrejas, telhados vetustos, ruazinhas tortuosas e, além, findo o vale, o paredão abrupto e cinzento”. 27

Infl amadora de paixões Nas igrejas históricas, o barroco mineiro é menos rebuscado. A mais antiga, Nossa Senhora do Rosário, foi construída pelos escravos em 1731 e é importante referência na paisagem de Diamantina. Solitária numa praça ampla, tem à frente apenas uma grande cruz. À noite, se transfigura. Sob efeito da iluminação suave e à luz do luar, sua imagem é quase divina. Se o tom retrô da cidade se imprime em museus, igre-

Preste Atenção O verdadeiro queijo artesanal de Minas nada lembra o difundido “queijo de minas”, produzido com leite pasteurizado. “Queijo bom é queijo curado”, dizem por lá. Os melhores são maturados por até 20 dias. Fruto de uma tradição de mais de dois séculos, são fabricados com leite ordenhado. Outro segredo é o pingo, um fermento natural. A diferença é visível na cor e no paladar. O modo de preparar o verdadeiro “queijo de minas” é hoje patrimônio cultural imaterial brasileiro.

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DIAMANTINA TEM MAIS Rua da Quitanda No século 18, era ponto-de-venda de quitutes das escravas de tabuleiro. A rua é receita infalível de boas surpresas, restaurantes, bares, antiquários e pousadas. Nas lojas de artesanato brilham os cristais, os tecidos feitos em teares manuais e os bordados. Entre suas edificações, observe a de número 24, conhecida como a Casa do Muxarabiê, cuja particularidade está nas janelas com treliças (muxarabis), que permitem observar o movimento da rua sem ser visto.

Rua São Francisco Ali, na casa de número 241, viveu Juscelino Kubitschek. Hoje é um museu para preservar sua memória. No interior, podem ser vistos seu primeiro consultório médico, a biblioteca e a simplicidade de seu quarto, com móveis “feitos de caixotes”, como ele costumava dizer. 28

Casa da Glória

IGREJA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO: REFERÊNCIA PAISAGÍSTICA.

jas e casarões, o jeitão presente, interiorano, se encontra nos botequins e restaurantes. Da arquitetura à gastronomia. Experimente um aperitivo com a verdadeira cachaça mineira. Se o aventureiro e sedutor veneziano Casanova chamou o chocolate de “elixir do amor”, os mineiros chamam sua cachaça de “inflamadora de paixões”. Basta ler os rótulos das garrafas para captar seu valor afrodisíaco. E tem mais. Em Diamantina não existe noite solitária. Há música. Nos fins de semana, ao anoitecer, a cidade canta. São concertos em igrejas e na Gruta do Salitre, serenatas, serestas e vesperatas. A música irradia das janelas ou do meio da rua. O repertório evoca um passado que deixou saudade e toca suavemente a alma, como Flor Amorosa, Elvira Escuta, Peixe Vivo e Jóia Rara. Visitar Diamantina é ter certeza que esse é um daqueles lugares em que o Brasil se encontra consigo mesmo, com seu passado histórico, com sua identidade e, sobretudo, com seus sonhos. Fica a dúvida se a cidade foi nomeada por causa do garimpo ou por ser ela mesma o diamante.

Um pouco afastada do centro, é, na verdade, formada por duas edificações, a primeira do século 18 e a outra do século 19 – uma em cada lado da rua. Estão ligadas por um passadiço inspirado na Ponte dos Suspiros, de Veneza, pela qual as internas do colégio que ali funcionava transitavam, evitando o contato com o mundo exterior.

Não deixe de ver Os passeios nos arredores de Diamantina são temperados por boa pitada de aventura. No Vale do Jequitinhonha, cuja vegetação é rasteira, correm riachos que às vezes se precipitam em corredeiras e cachoeiras e formam piscinas naturais. São as cachoeiras da Toca, das Fadas, dos Remédios, dos Cristais e da Sentinela. Há trilhas para o Pico de Itambé, a Gruta do Salitre e a Serra dos Cristais. Vale, e muito, uma visita à antiga vila fabril têxtil de Biribiri, fundada em 1870. De volta às raízes, podemos percorrer o Caminho dos Escravos, trecho da Estrada Real, que passava por Diamantina e chegava a Paraty.


Prata da Casa

Alex, a pedra de toque

Bon jouuur!” Assim mesmo – bolsa-escola do Brasil. Às centenas com esse “u” arrastado – era a de alunos – hoje estão por lá 380 – saudação de muitas crianças de Diasão oferecidos material didático, mantina no ano 2000. A brincadeira instrumentos musicais, uniformes e vinha carregada de orgulho. É que almoço diário. Além disso, para ca26 garotos entre 9 e 17 anos foram à da um dos 88 jovens integrantes da França para representar o Brasil no bandinha foi destinado uma bolsa encontro de orquestras jovens, a Orno valor de meio salário-mínimo. chestrades Universelles, que aconte“De pés descalços a juristas, engeceu na cidade de Brive la Gaillarde. nheiros e médicos, além de músicos Na volta, trouxeram a fama, as palaque integram as principais orquesvras francesas com sotaque “mineitras de Minas”, sintetiza Alex, ao farim” e a realização de um sonho. lar de alguns dos cinco mil alunos Mas para contar essa história é preque passaram pela Escola de Prociso recuar no tempo. Corria o ano fissionalização e Formação Musical IRINEU, OU MAESTRO ALEX. de 1985. Irineu de Souza Domingos, desde aquele longínquo 1985. ex-servente de pedreiro, com pouca escolaridade, mas Há dez anos, outro sonho de Alex foi realizado. “Eu queem harmonia com a alma, via um futuro dissonante para ria uma apresentação musical que dialogasse com a cios jovens carentes da cidade. “Aquilo que me foi negado dade e com o público.” E assim nasceu a vesperata, uma na infância – a educação – me batucava na cabeça, e soespécie de serenata que só acontece na cidade. Os 120 nhava em fazer alguma coisa”, recorda. Conhecedor da músicos das bandas Mirim e do Batalhão, com seus insvocação musical da cidade, cujo dom corre nas veias de trumentos de sopro e percussão, se perfi lam nas sacadas seus habitantes há mais de 200 anos, o maestro Alex, coe janelas dos casarões antigos de três ruas que se enconmo é carinhosamente conhecido, formou a Banda Sinfôtram numa pracinha. O maestro rege em meio ao públinica Mirim. co. Um espetáculo único. Mas a banda não veio só. Junto nascia o primeiro projeto Que o maestro continue sonhando.

SERVIÇO Como chegar A TAM oferece vôos diários para Belo Horizonte, saindo das principais cidades brasileiras. Confira em www.tam.com.br

Onde comer “Mineiro tem a boca fechada”, dizem muitos brasileiros, mas esta receita não vale quando o assunto é comida. Vários restaurantes oferecem a saborosa e bem temperada culinária diamantinense. Vá de bambá do garimpo, frango com ora-pro-nobis, carne moída com broto de samambaia, xinxim da Chica ou Chico Angu, o preferido de Juscelino.

Trattoria la Dolce Vita O nome esconde uma culinária pra lá de

caseira. Destaque para as massas e pães artesanais com condimentos como o pequi, urucum, jabuticaba, taioba e outras. Tel.: (38) 3531-8485.

O Garimpeiro A casa oferece a típica comida mineira, muito bem temperada. Tel.: (38) 3532-1040.

Onde ficar

Pousada Relíquias do Tempo Ocupa um casarão do século 19, totalmente restaurado e com as características da época. Ao lado funciona o Museu do Garimpeiro. Tel.: (38) 3531-1627. Pousada do Garimpo Tradicional hotel da cidade, fica localizado a 500 metros do centro histórico. Tel.: (38) 3532-1040.

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A MOREIR A Morus nigra L

Você gosta de amora? Saborosa e medicinal. Antioxidante, dá vitalidade à pele. Depurativa, elimina do organismo substâncias inúteis ou nocivas. Rejuvenesce. E, graças a ela, nos vestimos e paramentamos nossos ambientes com o tecido mais nobre que o homem já criou – a seda. Por Mylton Severiano

U REPRODUÇÃO/EA

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ma parlenda:“Você Você gosta de amora?” “Gosto.” “Vou Vou contar pro seu pai que você namora.” Um chiste: “Cadê Cadê fulano e fulana?” “Ah, Ah, foram catar amora...” Estas falas, carregadas de malícia, eram comuns na minha infância, num Brasil quase rural. Havia sempre por perto uma amoreira. Nos pomares, quintais, terrenos baldios, enamorados iam “catar amora”. E tratavam de voltar com umas frutinhas... Temos espécies brasileiras: a taiúva, amora-branca; a arbustiva amoraverde ou do-mato, boa mas para o gosto dos passarinhos; uma preta; e a vermelha, ou moranguinho-silvestre. Mas a predileta é a amoreira-preta de nome científico Morus nigra L.,, nativa da China e outros países do extremo oriente. Na Europa desde o século 12 e no Brasil desde o 17, dá a fruta mais gostosa. Na verdade, porém, a amora não é uma fruta só, e sim um aglomerado de frutinhas, uns gominhos agridoces, suculentos. Róseaesbranquiçada quando verde, passa ao vermelho e tinge-se de um roxo quase preto, quando madura. Se você gosta ao natural, mais fácil plantar um pé. A amora é delicada (difícil transportar sem machucar) e logo perece. Dá-se bem em todo o Brasil. Atrai a passarada. O beija-

flor gosta de fazer ninho entre suas ramagens – nada como morar ao lado da comida. O primeiro papel introduzido no Japão vinha da Coréia, feito da entrecasca dos galhos da amoreira. As fortes fibras, longas e brancas, resultam num papel translúcido e resistente, que os orientais ainda produzem para vários fins: restauração, arquitetura, impressos, objetos para festas populares, artes plásticas. E é da folha da amoreira que o bicho-da-seda se alimenta. Conta-se que, há uns cinco mil anos, uma rainha chinesa tomava chá embaixo de uma amoreira, quando um casulo caiu dentro da xícara com água quente e soltou um fio. Eis a lenda da seda. Em Marília, interior de São Paulo, havia uma fábrica perto do estádio. No pós-guerra, fechou. Mais tarde a gente soube: os americanos inventaram o rayon e a seda sofreu um baque. Mas recuperou-se. E hoje exportamos seda até para a própria China. Despretensiosa no fundo dos quintais ou nas plantações, hoje ninguém imagina que, há sete séculos, a amoreira foi eminência parda de uma saga. Graças a ela, e a um aventureiro chamado Marco Polo, o Ocidente tomou contato com o esplendor da cultura oriental através da Rota da Seda.


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O fio que ligou dois mundos

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eneza, Itália, 1295. Três esfarrapados chamam num portão. A mulher custa a acreditar que são os parentes que partiram há mais de 20 anos. Avisa a família e oferece um banquete.

À mesa, os convidados vêem entrar Marco Polo, o pai e o tio cobertos de seda escarlate. Jamais depararam com tão deslumbrante tecido. Os Polo tinham desbravado a Rota da Seda, maior aventura da Idade Média: oito mil quilômetros, que hoje podemos sobrevoar em oito horas, mas no século 13 se percorriam em até três anos, a pé, em animais, carroças, barcos. Ao cair prisioneiro numa das guerras entreVeneza e Gênova,Marco encontra

Ela dá casa e comida ao bicho-da-seda

na cadeia um “letrado” que reúne seus relatos em O Livro das Maravilhas. Dois séculos depois, fascinado pelas aventuras de Marco Polo, Colombo não descansou enquanto não conseguiu sair pelo mundo como seu compatriota. Quem diria que a amora teria algo a ver com a descoberta da América. Como pano de fundo estava o precioso tecido e, por trás, a amoreira, cujas folhas alimentam o bichinho que fabrica o fio da seda.

Uma amoreira em cada praça, que tal?

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MALGORZATA MILASZEWSKA/WIKIMEDIA COMMONS

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bicho-da-seda é a larva da borboleta Bombyx mori. Depois de 40 dias comendo folha de amoreira, a lagarta segrega uma baba filamentosa e brilhante com a qual tece seu casulo. O fio, de até 1.200 metros, obtém-se com a fervura do casulo, sacrificando-se a mariposa antes que ela o rompa. Com ele se faz o tecido leve, macio e resistente. E pesquisadores japoneses implantaram genes de aranha em bichos-da-seda. O novo fio servirá para coletes à prova de bala, fios cirúrgicos, linhas de pesca etc. Vem aí a super seda.

amora combate radicais livres, hipertensão, diabetes, TPM, bronquite, amigdalite, afta, queda de cabelo. Ajuda a prevenir infecção urinária, úlcera e câncer no estômago. Cicatrizante, expectorante, laxante, revigorante. Tem cálcio, fósforo, potássio, vitaminas A, B e C. Erupções cutâneas? Use cataplasma das folhas. Dor de dente? Ferva a casca e faça bochechos; e uma xícara, três a quatro vezes ao dia, expulsa vermes. As prefeituras bem que podiam plantar amoreiraspretas nos parques e praças desses Brasis.

SAIBA MAIS Frutas Brasileiras e Exóticas Cultivadas, de Harri Lorenzi, Luis Bacher Marco Lacerda e Sergio Sartori (Plantarum, 2006). Amora, Framboesa, Groselha, Kiwi, Mirtilo e Sua Comercialização, de Fernando de la Jara Ayala (Cinco Continentes, 1999).

Mylton Severiano é jornalista.


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Domiciano

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Bernardino Realino

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Tomé

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Isabel de Portugal

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Zoé

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domingo segunda terça quarta quinta sexta sábado domingo segunda terça quarta quinta sexta sábado domingo segunda terça quarta quinta sexta sábado domingo segunda terça quarta quinta

Maria Goretti

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Quiliano Anatólia

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Pedro Vincioli

aipira 1 – Cumpadi? Cumé que vende lingüiça lá na sua terra? Caipira 2 – Uai, cumpadi. Lingüiça lá se vende como em quarqué lugá: por quilo. Caipira 1 – Pois é pra vancê vê como lá na minha terra o povo tá mais adiantado. Lá se vende lingüiça por metro. Caipira 2 – Como é que é esse negócio de lingüiça por metro aí? Caipira 1 – Assim. Ocê chega num empório e pede: me dá um metro de lingüiça. O vendero estende aquele lingüição cumprido no barcão, mede com um metro de pau, corta e embruia pra vancê um metro de lingüiça. Caipira 2 – Uai, num é que é inteligência mêmo! Caipira 1 (continuando nas perguntas) – E cumé que vende fumo de corda na sua terra? Caipira 2 – Ah, aí sim é por metro!

Bento Abade João Gualberto Henrique Marcelino Donaldo Fausto Aleixo Frederico Arsênio Elias Praxedes Cirilo Rômula Cristina* Tiago Ana Pantaleão Nazário

Caipira 1 – Pois na minha terra não. O pessoá lá tá tão adiantado que vende fumo de corda por hora... Caipira 2 (admiradíssimo) – Por hora? Como assim? Caipira 1 (na lógica dele, e bem explicado) – É assim, ó. Ocê chega lá no empório e fala pro vendero: “Me dá aí cinco minuto de fumo”. O vendero dá a ponta do fumo de rolo pra vancê segurá, cobra o valor premero, despois manda ocê corrê rua afora. Ocê então sai desembestado, correndo. Quando dá os cinco minutos, o vendero, com um facão bem afiado, zassss... Corta o fumo ali na hora. Caipira 2 (também numa lógica lá dele) – Ué? Intão qué dizê que quanto mais depressa ocê corrê... Caipira 1 (na lata) – ... mais fumo ocê leva, ué!

Marta Pedro Crisólogo

Adaptado de Contando Causos, de Rolando Boldrin (Nova Alexandria, 2001).

Inácio de Loyola

LEAO (21/7 a 20/8)

Vontade e determinação estão presentes neste signo. Os leoninos amam o poder e gostam de ser admirados. Sabem muito bem sobre tudo o que está acontecendo a seu redor. Assim podem manter sempre um bom nível de conversa com qualquer um. Teimosos, quando apaixonados transformam-se em pessoas totalmente convencíveis. A família é seu maior tesouro.

*Santa Cristina Perseguida pelo imperador Diocleciano, Cristina foi castigada e, depois de morta, atirada ao rio. Ressuscitou no dia da missa de corpo presente. Novamente passou as mais perversas provações. Surrada, mutilada e perseguida, permaneceu espalhando a fé que tinha pelo Senhor. Por fim, foi chamada à graça divina. Morreu amarrada em um poste onde atiraram-lhe várias flechas.

ESTAÇÃO COLHEITA O que se colhe em JULHO Abacaxi, acelga, berinjela, jabuticaba, morango, mamão, melão, nozes.

Nova: 3/7 às 2h24 Crescente: 10/7 às 4h17

Cheia: 18/7 às 7h48 Minguante: 25/7 às 18h55

CARTA ENIGMÁTICA – “Afinal qual é o verdadeiro rosto por trás de tanta sacanagem?” (Carlos Zéfiro) SERGIO TOMISAKI/AE

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Vilibaldo

Lingüiça por metro, fumo por hora

DE QUEM SÃO ESTES OLHOS? Ana Paula Arósio

BRASILIÔMETRO – 1: d; 2: a; 3: c; 4: b; 5: c; 6: c; 7: c; 8: a. O QUE É O QUE É? – Lápis. ENIGMA FIGURADO – Paulo Silvino SE LIGA NA HISTÓRIA –1d (Jamelão); 2c (Hebe Camargo); 3b (Elza Soares); 4a (Dolores Duran). O CALCULISTA DAS ARÁBIAS – Para realizar a divisão, cada pão foi repartido em três pedaços iguais, totalizando 24 pedaços. Dos 15 pedaços de Beremiz, ele comeu 8 e doou 7. Seu companheiro também comeu 8, mas doou apenas um. Portanto Beremiz deveria receber 7 moedas e o amigo, apenas uma.

“A CORAGEM É A PRIMEIRA QUALIDADE HUMANA, POIS GARANTE TODAS AS OUTRAS.”

Aristóteles


Mistureba de ritmos resulta em disco de primeira Um álbum plural. Esta é a melhor definição do disco de estréia do cantor piauiense Emerson Boy. Antídoto é uma mistura harmoniosa de groove, funk, xote, samba de roda, baião, repente e ritmos africanos. “Vem da terra de Torquato Neto mais uma grata surpresa da música brasileira. Inquieto como o poeta conterrâneo, a música de Emerson Boy é um caldeirão fervente de grooves cheios de pimenta”, define Zeca Baleiro. Boy apresenta um trabalho que alia anseio artístico e aceitação popular. Multiinstru-

mentista, já assinou diversas trilhas para grupos teatrais de São Paulo. Como saxofonista, integrou a banda paulista Tiroteio. Ao mesmo tempo que foge do senso-comum, Antídoto é agradável desde a primeira audição. As participações especiais reforçam a interessante mistureba proposta pelo artista: Lirinha e Clayton Barros (do Cordel do Fogo Encantado), a banda DonaZica, Edvaldo Santana, Bocato e Banda Roque Moreira. É um disco que caminha entre o tradicional e o experimental. Tal qual a obra de Torquato. (BH)

Pareço Moderno Com influência tropicalista numa roupagem moderna e muito sarcasmo, o Cérebro Eletrônico lança álbum que mistura bossa, rock, pop e música eletrônica. Quando o Céu Clarear O segundo disco de Fabiana Cozza, uma das principais revelações do samba paulista, tem como convidados Dona Ivone Lara e Quinteto em Branco e Preto. Vem Ver Com participação de grandes nomes da música instrumental, o guitarrista Edu Negrão passeia por diversos estilos brasileiros e internacionais. 33

Uma arena de resistência artística e social O Teatro de Arena de Porto Alegre foi inaugurado em 1967, às vésperas do acirramento do regime militar. Além de exibir peças que retratavam a realidade nacional, o espaço servia como palco para discussão e organização da classe artística, acolhendo também estudantes, sindicalistas e combatentes sociais. Por estes motivos, foi alvo de constantes perseguições de agentes da ditadura. Com base em dezenas de depoimentos de artistas, jornalistas e intelectuais, o livro Palco de Resistência, do jornalista Rafael Guimaraens, relembra a luta pela liberdade

de criação e expressão em um dos momentos mais obscuros do País. Nele surgem casos surpreendentes envolvendo as montagens do grupo, acompanhados de trechos de peças censuradas. O livro é ilustrado com 140 fotos que mostram a construção do teatro, cenas de montagens, a deterioração do prédio e sua reconstrução. Há espaço ainda para a mobilização da classe teatral pela reabertura do Arena no final da década de 1980, até ser transformado em equipamento público e centro de documentação e pesquisa. (BH) Libretos, 148 p., R$ 35.

Caminhos Diversos – Sob os signos do cordel Costa Senna

Algumas das principais obras de um dos mais engajados e inventivos autores vivos da literatura de cordel. Global, 160 p., R$ 27. Álbum de Retratos – Corpo Organização de Moacyr Luz

A terceira edição do projeto traz foto-biografias de Bete Mendes, Ruth de Souza e Zezé Motta, com textos de Haroldo Costa, Walter Carvalho e Fátima Guedes, respectivamente. Folhas Secas/Memória Visual, 384 p., R$ 60. A Mulher que Falava Pára-Choquês Marcelo Duarte

Para fugir da rotina, funcionária do pedágio anota frases de caminhão. A confusão começa quando ela percebe que só consegue falar num novo dialeto: o pára-choquês. Panda Books, 32 p., R$ 26. Julho 2008


CASAL EM LITÍGIO O grosseirão leva a esposa ao aeroporto. Quando ela já estava na sala de embarque, ele grita lá de fora: – Querida, vê se não esquece de trazer uma espanhola bem fogosa pra mim! Quinze dias depois, ela estava de volta. Ao vê-la desembarcar, ele dispara: – Pô! Só veio você? Cadê a minha espanhola?! Sem perder tempo, ela retruca, em alto e bom som: – Fiz o que pude, querido. Agora é só torcer pra nascer uma menina!

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“Quem tem saúde de ferro pode um dia enferrujar.” Ontem e hoje Não é exato que o mundo esteja completamente transformado. Ainda hoje as modernas gerações conservam hábitos e costumes da mais remota antiguidade. Muitos séculos antes de Cristo, os cretas e os persas não se cobriam diante dos pais e outras pessoas de respeito. Tal qual hoje. Com uma diferença. Antigamente um filho não se cobria diante do pai. Hoje nem o pai se cobre diante do filho. Porque a verdade é que pais e filhos não usam chapéus.

Delicadeza ESCREVENDO NO ESCURO O garoto chega da escola e pergunta ao pai: – Papai, você sabe escrever no escuro? – Não, meu filho. Por quê? – É que eu queria que você assinasse o meu boletim...

Antigamente, um cavalheiro não perdia nada em ser delicado. Agora, o mínimo que lhe acontece é perder o lugar no ônibus. Nossa homenagem a Aparício Torelly, o Barão de Itararé.

LÓGICA PRÓPRIA O sujeito vai a uma loja de calçados. Olha daqui, experimenta dali, acaba escolhendo um sapato de cromo alemão. – Vou levar este daqui – diz para o vendedor. – O senhor fez uma bela escolha, seu Manuel! Só uma advertência: estes sapatos costumam apertar um pouco nos primeiros três ou quatro dias. – Não tem problema. Só vou usá-los no domingo que vem.

A VACA DOENTE Muito triste, o caipira procura o compadre da fazenda vizinha: – Ô, Bento! Minha vaca tá doente... O que ocê deu pra sua quando ela ficou ruim? – Ah, eu dei uma ração especial! Se ocê quiser, eu te dou o que sobrou. O caipira pega a ração, agradece e vai embora. Uma semana depois, ele reencontra o compadre. – Xi, Bento... Num teve jeito! Eu dei aquela ração pra minha vaca e a danada morreu! – Óia que coincidência! A minha tamém!

Laerte

RECADO AO LEITOR Mande suas histórias, causos, fatos anedóticos. Desde que provoque pelo menos um riso. Se provocar gargalhada, melhor. Divida seu bom humor com os vizinhos de poltrona. redacao@almanaquebrasil.com.br / Rua Dr. Franco da Rocha, 137 – 11º andar – São Paulo - SP – CEP 05015-040.

“SÃO AS PALAVRAS E AS FÓRMULAS, MAIS DO QUE A RAZÃO, QUE CRIAM A MAIORIA DOS NOSSOS JULGAMENTOS.”

Gustave le Bon


Almanaque Brasil 111 - Julho de 2008  

O Almanaque Brasil é um verdadeiro armazém da memória nacional, capaz de promover uma viagem pela história do País, em temas como música, ci...

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