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No trem da vida

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ARMAZÉM DA M E MÓRIA NAC IONAL

esde o dia em que peguei o velho trem que me traria a São Paulo na pequena estação de Rolândia, hoje em restauração para ser um centro cultural com meu nome, minha vida foi uma árdua peleja entre os

ressentimentos e os momentos de felicidade. Não sou mais assim. Há muito tempo deixei de ser o triste andarilho e sua sombra. Abandonei também as excessivas sensações de dor que tive no passado. Aprendi a ver que tudo o que vivi foi um exercício necessário para me tornar melhor. Minhas lembranças são a permanente reconstrução do que fui, sou e ainda serei. É assim que vejo o tempo em que passei no trem da vida para cumprir o meu destino, fazendo em cada estação um novo embarque, seguindo em frente destemido e confiante do caminho que me levaria aonde eu queria chegar. Foi um longo exercício para que hoje eu me veja capaz de encontrar nas piores

Diretor editorial Elifas Andreato Diretor executivo Bento Huzak Andreato Editor João Rocha Rodrigues Editor de arte Dennis Vecchione Editora de imagens Laura Huzak Andreato Editor contribuinte Mylton Severiano Redatores Bruno Hoffmann e Natália Pesciotta Revisor Marcelo Paradizo Designers Guilherme Resende, Rodrigo Terra Vargas, Soledad Cifuentes e Juliana Cavalhieri (estagiária) Gerente administrativa Eliana Freitas Assistentes administrativas Viviane Silva e Geisa Lima Assessoria jurídica Cesnik, Quintino e Salinas Advogados Jornalista responsável João Rocha Rodrigues (MTb 45265/SP) Impressão Gráfica Oceano PUBLICIDADE Fernanda Santiago (11) 3873-9115 E-mail: publicidade@almanaquebrasil.com.br

Distribuição em voos nacionais e internacionais

adversidades a serenidade necessária para inverter as más perspectivas. Nada nem ninguém reanima mais a compulsão contra mim mesmo. Eu me tomei pe-

Tiragem auditada

las mãos e me tornei dono do que sou. Desse modo, redescobri a vida e me incluí nela. Hoje faço da minha vontade a minha filosofia. Deixei de ser pessimista e me afastei dos ressentimentos e do desânimo. É nisso que me reconheço agora. 4

O Almanaque é uma publicação da Andreato Comunicação & Cultura.

Lembro hoje que aquele velho trem para São Paulo transportava um menino

Rua Dr. Franco da Rocha, 137 - 11º andar Perdizes. São Paulo-SP CEP 05015-040 Fone: (11) 3873-9115

assustado que, sem saber, já trazia consigo a certeza de que jamais desistiria de si mesmo. Um menino hoje quase velho que pode descrever a si mesmo com o orgulho dos vitoriosos, sem nenhum ressentimento. Ao contrário do que escreveu

redacao@almanaquebrasil.com.br www.almanaquebrasil.com.br twitter.com/almanaquebrasil

Fernando Pessoa, quero, sim, gozar a vida que me resta. Quero torná-la sempre

Parceria

melhor, nem que para isso meu corpo seja a lenha desse fogo.

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Elifas Andreato

A velhice não é lugar para medrosos

5 carta enigmática

26 JOGOS E BRINCADEIRAS

6 você sabia?

27 O Teco-teco

11 PAPO-CABEÇA

Aumente seu nível de brasilidade e ganhe pontos para trocar por uma infinidade de prêmios Quem assina o Almanaque acumula pontos na rede Multiplus Fidelidade

28 viva o brasil

Pagamento por cartão de crédito ou boleto bancário

32 em se plantando, tudo dá

Central de atendimento ao assinante: (11) 3512-9481 (21) 4063-4320 (51) 4063-6058 (61) 4063-8823

Bette Davis, atriz norte-americana.

índice

João Carlos Martins

16 IlUSTRES BRASILEIROS Maria Clara Machado

Belo Horizonte

Abacaxi

20 ESPECIAL

34 bom humor

25 brasil na tv CANTOS E LETRAS

capa Guilherme Resende

Um país nos trilhos

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Ou pela internet: www.almanaquebrasil.com.br


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- lar + gerado Solução na p. 26

com música. Estava formada o que viria a ser uma das bandas mais importantes do País. As suas composições impressionavam pela sinceridade e pela alta sofisticação poética, com versos que tornaram-se antológicos. O sucesso não mudou seu comportamento. Continuava a levar a mesma vida boêmia de sempre. Dizia-se parecido com dois de seus grandes ídolos: Humphrey Bogart e James Dean. “Tenho um pouco do cinismo do primeiro e da rebeldia do segundo”. O baque veio quando descobriu estar com Aids. Enfrentou a doença com coragem. Não se furtava a falar sobre o assunto e ir a programas de tevê, mesmo com a aparência debilitada. Morreria em 1990, com apenas 32 anos, da mesma forma que (BH) sempre viveu: livre, rebelde e exagerado.

Em 1927, o marechal Cândido Rondon recebeu do governo federal a missão de inspecionar os cerca de 15 mil quilômetros de fronteiras brasileiras. Durante os três anos seguintes, visitou lugares inóspitos do Amazonas ao Rio Grande do Sul, aproveitando para manter contato com novas tribos indígenas. O marechal, fundamental para o desbravamento do oeste brasileiro, era conhecido por manter relações pacíficas com os índios, seguindo seu lema: “Morrer se preciso for, matar nunca”. Na foto, provavelmente na fronteira com o Paraguai, aparecem a data da expedição e a sigla da Inspetoria de Fronteiras.

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Reprodução

rapaz odiava o nome que seus pais tinham lhe dado: Agenor. Escondia-o por trás do apelido que recebeu antes mesmo de nascer, em 4 de abril de 1958. Só passou a gostar do próprio nome ao descobrir que era quase igual ao do ídolo Cartola, que se chamava Angenor. Cresceu numa confortável casa na zona sul carioca. O futuro planejado pelos pais era que fizesse uma boa universidade e tivesse um emprego de respeito. Mas desde a adolescência não tinha propensão alguma a seguir regras. O que lhe atraía mesmo era passar noites em bares e ouvir canções dos grandes cantores melancólicos do País, como Lupicínio Rodrigues e Maysa. Em 1981, uma banda de rock estava a procura de um vocalista. O primeiro convidado foi Léo Jaime, que declinou, mas indicou o amigo que até então não tinha tido nenhuma relação séria

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21/4/1985

21/4/1792

Morre Tiradentes. O mineiro de São João del-Rei é enforcado no Rio de Janeiro, condenado pela revolta republicana em Minas Gerais.

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Morre Tancredo Neves. Eleito presidente depois de duas décadas de regime militar, o mineiro de São João del-Rei não chegou a tomar posse.

Monarca jardineiro plantou nossa primeira palmeira-imperial Q

dia nac ica da botân

acervo JBRJ

escravos subissem o enorme tronco em busca de sementes. Vendidas por cem réis no mercado ilegal, difundiram-se na época do Império. Acredita-se que todas as palmeiras-imperiais do Brasil descendem da árvore plantada por dom João. Este exemplar, entretanto, não ficou de pé para contar a história – foi destruído em 1972 por um raio. Hoje visitantes do Jardim Botânico veem um pedaço do tronco no museu e outra palmeira em (NP) seu lugar, a palma filia.

Louise Simões

Palma-mater de dom João, no Jardim Botânico.

SAIBA MAIS O Jardim de D. João, de Rosa Nepomuceno e Alexandre Sant’anna (Casa da Palavra, 2007).

Atletas desolados fundaram um dos maiores clubes do planeta Q

uando o time Americano fechou as portas no litoral e foi-se embora para São Paulo, capital onde o futebol estava mais consolidado, os atletas que ficaram em Santos viram-se sem equipe para defender. A história do Americano durou pouco, mas foi decisiva para a do esporte bretão. Isso porque aos ex-jogadores desolados restou fundar um novo time: o Santos Foot Ball Club. Naquele 14 de abril de 1912 foram cogitados para a equipe os nomes Concórdia, Brasil Atlético, Euterpe e até África. Por fim escolheram

o nome da cidade, palavra que ganharia o mundo e inspiraria outros Santos em lugares longínquos como Jamaica e Austrália. A camisa branca eternizada por Pelé, Coutinho e Pagão nasceu listrada de azul e branco. Mas já previa-se sucesso para o manto do bicampeão mundial, que conquistou três Libertadores, oito campeonatos brasileiros e 19 paulistas. “Acaba de ser fundado nessa cidade um clube de football destinado, por certo, a uma vida longa e plena de vitórias”, publicou o (NP) jornal A Tribuna na ocasião.

SAIBA MAIS Time dos Sonhos – A História Completa do Santos F.C., de Odir Cunha (Códex, 2003). www.almanaquebrasil.com.br

Divulgação/Santos FC

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uem pensa que o nome palmeira-imperial tem a ver com o porte ganancioso da árvore está errado. A ligação da planta com o reinado é mais forte que isso – pelo menos no Brasil, lugar onde a espécie passou a ser chamada assim. Tudo devido ao envolvimento de dom João com uma muda de Roystonea oleracea. O imperador deu tanta importância para a única árvore do tipo que chegou por aqui que fez questão de encarnar o jardineiro e plantar ele mesmo a palmeira, no Jardim Botânico carioca. A corte portuguesa havia acabado de transferir-se para o Rio de Janeiro e tentava “civilizar” os jardins públicos ao estilo dos franceses. A palma-mater era um contrabando das Ilhas Maurício que o rei ganhara de presente. Quando vieram os primeiros frutos, em 1829, o diretor do Jardim Botânico tratou de tomar medida drástica para garantir a exclusividade da espécie majestosa: os frutos e sementes foram queimados. Só não se esperava que, na calada da noite,

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Primeiro time do Santos, em 1912.


estação colheita

om Pedro 1º preocupou-se quando, em 9 de abril de 1823, Recife ganhou um novo jornal: A Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco. Seu fundador era o baiano Cipriano Barata, um velho conhecido pelo combate ao regime imperial, desde que foi estudar Medicina na Europa e voltou com ideais republicanos na bagagem. Além de atitudes pontuais contrárias ao governo, Barata havia feito parte de dois movimentos insurgentes: a Inconfidência Baiana, em 1798, e a Revolução Pernambucana, em 1817. Nas páginas de A Sentinela da Liberdade, o editor hostilizava o governo, denunciava a tortura de presos políticos e fazia campanha pela autonomia das províncias. “Cipriano Barata foi uma das primeiras lideranças políticas em nível nacional logo após a Independência. Exerceu-a pelo carisma, convencimento e, sobretudo, pela imprensa”, diz

Fundação Joaquim

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Nabuco

Sentinela da Liberdade não se calou nem na prisão

No site do Almanaque, conheça outros episódios que envolvem a trajetória de Cipriano Barata.

evar o teatro para o cinema, salas de vídeo, computadores e celulares, em qualquer lugar do mundo. É esse o objetivo do ator, produtor e roteirista piauiense Franklin Pires. Conhecido no Piauí pela realização de paródias de filmes da saga hollywoodiana Crepúsculo, ele aproveita as facilidades da era digital para investir na produção audiovisual e divulgar seu trabalho. Franklin começou a experimentar a mistura entre teatro e cinema com o infantil Franklinstein Júnior. “Desenvolvi uma animação para essa peça, feita quadro a quadro. Desenhei e pintei mais de mil quadros para fazer a sobreposição na tela”, explica. Na sátira Corpúsculo, levou para o teatro projeções de paisagens do filme Crepúsculo. Mas foi com Eclampse (referência a Eclipse, terceiro filme da série hollywoodiana), que realmente se engajou na produção cinematográfica. A receita bem-sucedida de comédia despretensiosa foi repetida no filme Mocambinho, também sucesso na internet e em salas de exibição montadas em teatros e casas de cultura. A opção pela exibição dos filmes

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ial dia mund o do teatr

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Cenas dos filmes de Franklin Pires.

fora dos cinemas se deve, segundo Franklin, aos horários oferecidos pelos proprietários de salas de projeção em Teresina. “Queriam me dar um horário impraticável, uma hora da tarde. Então, fomos para o teatro. E lotamos o Teatro 4 de Setembro, principal casa de espetáculos do Piauí”, comemora. Apostando no êxito comercial de suas produções, Franklin já tem pronta a sua estratégia: “Os filmes servem para me divulgar. As pessoas vão ao teatro para ver o cara do filme. A bilheteria do cinema não vai dar o retorno. O resultado dos filmes está na bilheteria do teatro”, conclui. (Vanessa Mendonça, de Teresina-PI – OVERMUNDO)

SAIBA MAIS Confira outras matérias sobre produção independente de teatro e cinema em www.overmundo.com.br.

Caqui, graviola, kiwi, mexerica, maçã, manga.

a b r il t a mb é m t e m

o historiador Marco Morel, autor de Sentinela da Liberdade e Outros Escritos (Edusp, 2009). Bastaram sete meses de publicação para que Barata fosse preso. Porém, mesmo de dentro da cela no Forte do Brum, no Recife, o revolucionário seguiu disparando, agora se valendo de outro jornal com um título peculiar: Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco, Atacada e Presa na Fortaleza de Brum por Ordem da Força Armada Reunida. Logo Barata foi transferido para o Rio de Janeiro. Mas mesmo tão longe continuou criando novos jornais, batizados de acordo com a prisão em que estava. Só foi libertado em 1830, aos 68 anos. Retornou à Bahia, estabeleceu-se e, assim que teve oportunidade, fez nascer um novo periódico: A Sentinela da Liberdade na Guarita (BH) do Quartel-General de Pirajá.

Produtor piauiense aposta no cinema para ganhar no teatro

O que se colhe em ABRIL

1 Dia do Tomate 2 Dia do Livro Infanto-Juvenil 3 Dia do Padroeiro dos Cocheiros 4 Dia Nacional do Caratê 5 Dia do Padroeiro dos Churrasqueiros 6 Dia do Patriarca 7 Dia Nacional do Jornalista 8 Dia da Natação 9 Dia da Biblioteca 10 Dia da Engenharia 11 Dia da Escola de Samba 12 Dia da Parteira 13 Dia do Hino Nacional Brasileiro 14 Dia das Américas 15 Dia Mundial do Desenhista 16 Dia Nacional da Voz 17 Dia do Hemofílico 18 Dia do Autor 19 Dia do Índio 20 Dia do Diplomata 21 Dia do Metalúrgico 22 Dia Nacional do Agente de Viagem 23 Dia Nacional do Choro 24 Dia do Talento 25 Dia do Contador 26 Dia do Goleiro 27 Dia do Emigrante 28 Dia do Cartão Postal 29 Dia da Padroeira dos Bombeiros 30 Dia Nacional do Ferroviário

o baú do Barão “Quem não tem calos é um desgraçado que desconhece o prazer de tirar os sapatos ao chegar em casa.”

Nossa homenagem a Aparício Torelly, o Barão de Itararé.

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Blecaute antecipou a frustração pelas Diretas

de quem são estes olhos?

ALENCAR MONTEIRO/ AE

Presle y? Quan do garoto, o dono Olhe bem para este olhar e diga: te lembr a Elvis ivo de Carlos Imper ial como o Elvis deste s olhos foi apres entad o no progr ama televis nasce u em 19 de abril de 1941, onde irim, brasile iro. Magre la de Cacho eiro de Itapem Mas foi lidera ndo outra Maia. Tim de lado ao o Janeir de Rio teve uma banda no quem é? sabe Já tade. turma da pesad a que ganho u a majes Confira a respos ta na página 26

Médico gaúcho desbancou tese da delinquência nata

7/4 dia mundial da saúde

Congresso Nacional lamenta a reprovação da emenda das Diretas.

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s brasileiros nunca tinham visto nada parecido: de repente, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul ficaram às escuras ao mesmo tempo. Em 18 de abril de 1984, aconteceu o primeiro grande blecaute no País, por um defeito não bem esclarecido no sistema de energia elétrica. “Quarta-feira de trevas”, resumiu a revista Veja. Mal sabia-se que a próxima quarta também seria de escuridão. Na semana seguinte, uma pane menor na energia aconteceu por duas horas em parte do Sudeste. Bem no 25 de abril de 1984, quando milhões de cidadãos esperavam ansiosamente a votação que decidiria se o Brasil poderia ir às urnas escolher o presidente da República pela primeira vez, após 20 anos de ditadura. Cada um acompanhava como podia a votação da emenda Dante de Oliveira, que acontecia na Câmara dos Deputados lotada. Valia rádio, carros de som e boletins de sindicatos para apurar voto a voto. O escuro do fim da tarde que atrapalhou tudo foi só a primeira frustração do dia. No fim da votação, apesar de a maioria de 298 deputados ter optado pelo “sim”, faltaram 22 para aprovar a emenda. O jornalista Clóvis Rossi publicou no dia seguinte: “Quanto mais negra a noite, mais próximo é o amanhecer”. (NP) No site do Almanaque, leia outras matérias sobre o movimento das Diretas Já.

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Presidiários registrados por Sebastião Leão.

relhas afastadas, queixo quadrado e saliente, barba rala, cabelos abundantes? Bandido! Era essa a conclusão de teorias da medicina do século 19, defendidas principalmente pelo italiano Cesare Lombroso. Para ele, traços do rosto de uma pessoa seriam capazes de definir sua personalidade. Um jovem e dedicado médico do sul do Brasil, no entanto, resolveu ir a campo comprovar que a tese do “delinquente nato” não estava com nada. O médico legista Sebastião Leão deixou incrível material na casa de detenção de Porto Alegre. Em 1897, duas décadas depois do lançamento de O Homem Delinquente na Itália, o gaúcho montou um laboratório fotográfico na penitenciária da cidade – alta tecnologia para a época. Junto com anotações das histórias pessoais, registrou um por um o rosto dos detentos. A conclusão do legista foi a que já esperava. Em vez de sinais nas características físicas dos presos, encontrou outros tipos de relação entre as pessoas e a marginalidade: ociosidade, questões psicológicas e fatores sociais, por exemplo. “O criminoso não difere do homem virtuoso se não porque não soube dominar suas paixões”, afirmou. E concluiu, contra a bem aceita tese da medicina positivista: “É o meio social que faz o criminoso”. Sebastião Leão foi um dos fundadores da Faculdade de Medicina de Porto Alegre, a terceira do País, e era chamado de “médico dos pobres” por atender de graça quem não podia pagar consulta. Ele próprio morreu sem nada, mas, contam os cronistas da época, teve velório (NP) acompanhado por milhares de pessoas.

SAIBA MAIS Visões do Cárcere, de Sandra Jatahy Pesavento (Zouk, 2009).


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Paulo Fehlauer/Folhapress

Regido pelo elemento terra, touro sem dúvida é o signo do pé no chão. Determinação e pragmatismo são palavras-chave dos nativos, representados pelo animal do trabalho paciente. A maior especialidade dos taurinos é saber se adaptar às circunstâncias reais da vida, dedicando-se com afinco ao que pretendem mudar. Têm facilidade de desprendimento, mas preferem relações estáveis a aventuras amorosas.

Osvaldo Pereira, o pai dos disc-jóqueis com seu dinossauro das pickups.

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dia do disco

Precursor dos DJs regia “orquestra invisível”

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aile agitado, pista fervendo. Lá pela uma hora da madrugada, as cortinas do palco se abrem lentamente e... surpresa! “Aí as pessoas viam que não tinha orquestra nenhuma, era só música mecânica”, lembra aquele que é tido como o primeiro DJ de festas do Brasil, Osvaldo Pereira. No fim dos anos 1950, época das big bands, o paulistano teve a genial ideia que tornaria os bailes mais acessíveis: sem o cachê da banda, as festas dos clubes grã-finos poderiam ser frequentadas pelo pessoal da periferia. Foi trabalhando em uma loja de equipamentos eletrônicos que o radialista adquiriu experiência para montar seu próprio toca-discos com amplificador. Estava pronta a orquestra invisível Let’s Dance – um dinossauro das pickups. “Dance ao som de Osvaldo e sua... orquestra invisível”, anunciavam os cartazes. Em geral, com o complemento: “Não será permitida a entrada de cavalheiros sem gravata”. O pai

dos disc-jóqueis tinha agilidade para trocar os discos de Ray Conniff, Frank Sinatra, Ray Charles e Trio Ternura. Já uma parafernália que inventou para emendar as músicas não fez sucesso: “Os rapazes reclamaram que não conseguiam trocar de dama”, conta. Residente em vários clubes da cidade por quase uma década, Osvaldo teve até auxiliares para entregar “circulares” nos points da cidade – a préhistória dos flyers de hoje. Engana-se quem pensa que era motivado pela grana extra das festas. O que ganhava dava no máximo para comprar novos discos e pagar carregadores de equipamento. “Ele quis dividir com o máximo de pessoas que ele pôde essa paixão que tinha”, esclarece a pesquisadora Claudia Assef. Osvaldo só deixou as vitrolas para se focar no sustento da família. Mas, aos 75 anos, continua com um setlist na manga. Nestes tempos em que todo mundo ataca de DJ, o antecessor deles continua pronto para animar (NP) qualquer festa.

1 domingo 2 segunda 3 terça 4 quarta 5 quinta 6 sexta 7 sábado 8 domingo 9 segunda 10 terça 11 quarta 12 quinta 13 sexta 14 sábado 15 domingo 16 segunda 17 terça 18 quarta 19 quinta 20 sexta 21 sábado 22 domingo 23 segunda 24 terça 25 quarta 26 quinta 27 sexta 28 sábado 29 domingo 30 segunda

Hugo de Grenoble Francisco de Paula Ricardo de Chichester Isidoro de Sevilha Vicente Ferrer Guilherme de Aebelholt João Batista de La Salle Walter de Pontoise Valdetrudes Madalena de Canossa Gema Galgani Zenão de Verona Martinho 1° Ludovina de Sciedam Anastácia Bento João Labre Donnan Apolônio Expedito Inês de Montepulciano Beuno Ferbuta Jorge Ivo Marcos Anacleto Zita Pedro Chanel Catarina de Sena Adjutor

São Jorge Com a vida envolvida em misticismo, o soldado romano do século 3 chegou a entrar em uma lista da Igreja Católica de santos a serem desconsiderados, nos anos 1960. Dom Paulo Evaristo Arns interferiu, alegando sua popularidade. Ao papa, restou levar em conta a grande quantidade de apadrinhados pelo mártir: “Não podemos prejudicar nem a Inglaterra nem o Corinthians”.

SAIBA MAIS Todo DJ Já Sambou, de Claudia Assef (Conrad, 2003). No site do Almanaque, acesse o trailer do documentário Maestro Invisível, de Alexandre de Melo. Abril 2012

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Reproduçåo

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dia da dança

álbum de Família

ai italiano, mãe brasileira. A simpática garota aqui ao lado nasceu no interior de São Paulo em 1° de abril de 1949, estudou em internatos e fugiu de casa para se formar bióloga. Mas não é pela zoologia que você a conhece. Ela enveredou pelo jornalismo e hoje marca presença de segunda a sexta na televisão, ao lado de um fiel papagaio.

R.:

Dentista baiano conquistou Paris dançando maxixe

Confira a resposta na página 26

ode-se dizer que a vida de Duque divide-se em antes e depois do maxixe, tanto quanto a história do maxixe divide-se entre antes e depois de Duque. Não que ele tenha alguma coisa a ver com os círculos populares onde o ritmo nasceu, no Rio de Janeiro. Nessa época, o boêmio formava-se dentista na Bahia e abria seu próprio consultório. De ducado, tinha só o apelido e o nome pomposo: Antonio Lopes de Amorim Diniz. Vinha de família simples e, aos 20 anos, largou tudo para tentar a vida no Rio de Janeiro. Duque perdeu tudo o que tinha no jogo, mas descolou um serviço de representante comercial na França. Foi frequentando a vida noturna de Paris que passou a se apresentar como dançarino. Ao representar o tango argentino, lembrou-se do ritmo brasileiro contemporâneo ao de Gardel. Em 1906, o maxixe “fazia sua primeira apresentação internacional, em Paris, antes mesmo de conseguir, no Brasil, que alguém disciplinasse os passos da dança”, anotou o pesquisador José Ramos Tinhorão. É verdade que Duque criou seu próprio jeito estilizado de bailar. E também que, sendo branco, de casaca e cartola, elevou o status do ritmo no Brasil, considerado vulgar e pouco sofisticado. Suas poses com a parceira Gaby estampavam cartões-postais nas tabacarias de Paris, onde abriu a própria casa de espetáculos e uma escola de dança. Rodou o mundo em apresentações. Influente, sua biografia guarda ainda outro mérito: foi quem conseguiu patrocínio para os Oito Batutas tocarem choro na Europa, quando poucos (NP) confiavam no grupo de Donga e Pixinguinha. No site do Almanaque, leia outras curiosidades sobre o maxixe.

Origem da expressão IDEIA DE JERICO Jerico é um regionalismo

nordestino para jumento. A palavra consta no Aurélio como “de origem controversa”. Como na linguagem figurativa o equus asinus – ou asno, mula, jumento – é associado a pouca inteligência, dizer que alguém tem uma ideia dessas não é lá nenhum elogio.

ETs de Peruíbe têm público garantido com roteiro ufológico 12/4 dia do cosmo

Reproduçåo

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enigma figurado

H

á quem more no planeta Terra, mas viva com a cabeça longe, em outros planetas. E, para manter contatos imediatos com seres de outras terras, Peruíbe, no litoral paulista, é a recomendação do ufólogo Paulo Mesquita. Os relatos de objetos voadores não identificados e seres com olhos imensos rondando as praias da região são antigos. Tanto que muitos adeptos da ufologia decidiram armar barraca por ali. Para facilitar a vida de quem viaja para ver de perto os viajantes do espaço nasceu o primeiro roteiro turístico ufológico do País. Tudo com muita organização: ônibus para buscar turistas nos hotéis, guias treinados e placas indicativas espalhadas pela cidade. Sete pontos fazem parte do roteiro. Na praia de Guaraú, por exemplo, muitas pessoas relataram ter visto luzes misteriosas no céu e aparição de óvnis a curta distância. Alguns extraterrestres até se atreveram a dar um mergulho no mar, garantem os guias turísticos. Na Pedra da Serpente, não faltam testemunhas que viram, com os olhos que a terra há de comer, bolas de luz e estranhos seres. O bairro São João Batista é outro cartão postal do roteiro. Ali Paulo Mesquita encontrou uma marca de quase 15 metros, possível sinal do pouso de um óvni. Segundo o ufólogo, Peruíbe é tão atrativa para os visitantes extraterrenos porque se encontra em uma área de Mata Atlântica com fauna e flora preservadas e muitas riquezas minerais. Aliás, a hipótese é mesmo esta: que as “entidades biológicas” (Laís Duarte) estariam rondando por ali em busca de energias renováveis.

SAIBA MAIS Site da prefeitura de Peruíbe, com informações sobre o roteiro ufológico: www.peruibe.sp.gov.br.

Fases da Lua

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minguante

nova

crescente


JOÃO C A R LOS M A R T INS

A música está em mim

FOTOS: EDI PEREIRA

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Para o New York Times, ele foi “um dos mais importantes pianistas do mundo”. Para o Washington Post, “um homem nascido para fazer grandes coisas ao piano”. Ao longo de uma fulgurante carreira, João Carlos Martins garantiu lugar de destaque na música erudita mundial. Só não esperava que suas mãos, antes capazes de tocar até 20 notas em um segundo, perderiam parte significativa dos movimentos numa sucessão de infortúnios. Aos 64 anos, depois de uma lesão, um assalto e cirurgias frustradas, encontrou forças para se reinventar. Sem poder contar com o ataque certeiro de seus dedos sobre as teclas do piano, enveredou pela regência. “São coisas completamente diferentes, mas a essência não muda. Para tocar ou reger é preciso ter a música dentro de você.” Em 2004, criou a maior orquestra privada do País, a Bachiana Filarmônica. E não parou por aí: semeou dezenas de orquestras em pequenas cidades e periferias. Fez a música clássica chegar a lugares antes inimagináveis. Hoje, mesmo sem poder segurar a batuta ou sequer virar as páginas da partitura, segue na ativa, regendo, espalhando os seus projetos ou ensinando crianças da Fundação Casa, a antiga Febem: “O segredo é ter disciplina de atleta e alma de poeta”. Abril 2012


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ando e corro pela casa, fazendo exercício, ao mesmo tempo Talvez você seja um dos poucos nomes bem conhecidos da músique me esforço para ir decorando as partituras todas do próca clássica no Brasil. E o que mais foge dos padrões de apresentaximo concerto que farei. De noite, vou regendo meio sonâmções convencionais. A música erudita não tem limites de formatos bulo o que decorei de manhã. Às 4 horas da madrugada, aquie locais? Um amigo de um instituto de pesquisa me contou lo está pregado na minha mente como se fosse numa parede. que foi feito um questionário sobre cultura e, dentro dele, O subconsciente ajuda muito. Depois, na hora de reger, eu perguntavam o que personificava a palavra maestro. Oitenta perco dois quilos e meio só durante um concerto. A música por cento das respostas faziam referência a mim: “O cara que está em mim. Além disso, no momento em que eu tive uma deu depoimento na novela”, “o que perdeu a mão”, “o da suduplicidade de adversidades, quer dizer, adversidades que peração”, “o que era pianista” etc. Quando eu viajo de avião atingiram a alma e o físico, eu tive uma resolução. Aos 64 tenho que tirar dezenas de fotos com as pessoas no aeroporto, anos, iniciei uma nova carreira como maestro e decidi: eu sou parado em todos os lugares. Tudo isso por causa da televisão. continuaria buscando a excelência musical, desde que assuEu acho que os profissionais da música clássica não devem misse a responsabilidade social. mesmo ficar na torre de marfim. É possível sair sem agredir o patrimônio. Perante a Deus, somos todos iguais. Várias pessoas Quais foram os planos que você traçou a partir daí e o que foi possível já fizeram isso. Maestros como Julio Medaglia, que levou o realizar? O primeiro sonho que eu tinha era construir a primeiprograma Opus 7 para a televisão nos anos 1960; Artur Moreira ra orquestra brasileira de ponta da iniciativa privada. AconteLima, que já foi tocar até em aldeias indígenas; Diogo Pacheco, ceu porque o Sesi acabou adotando a Bachiana. que levava Elizeth Cardoso para cantar as O segundo sonho era ter uma sede perto do Bachianas Brasileiras. Se todos os artistas parcentro de São Paulo para formar a primeira ortissem para a mesma esperança, a música clássica iria longe. “Se os brasileiros questra de meninos do centro da cidade – todo mundo pensa nas periferias de Heliópolis, Pade todos os raisópolis, onde há trabalhos extraordinários, Você acredita que a música erudita pode chegar efemas os garotos do centro ficam esquecidos. O tivamente a todas as camadas sociais? Sem dúvida. segmentos terceiro sonho era que a minha orquestra fosse Quando acaba um concerto clássico nas perifetivessem a um cartão de visitas do Brasil no exterior. Pela rias, você se sente quase um Elvis Presley, com vez pisamos em Nova Iorque, no Carnetodo mundo pedindo pra tirar foto. Quando oportunidade de quinta gie Hall e no Lincoln Center. O quarto era o chego numa favela, eu digo: “Tem música que projeto para formar mil orquestras de corda no vocês ouvem hoje, mas que daqui a quatro anos estudar música, Brasil, que também está sendo lançado agora. não vão lembrar mais. Agora vou cantar o primeiro compasso de uma música escrita há mais como os alemães, de 200 anos e vocês vão cantar o segundo”. Topor exemplo, nós Como você fez para montar de repente uma grande orquestra, a maior do País entre as privadas? Virei do mundo fica olhando pra mim. E eu faço as teríamos 10 maestro antes mesmo de ter um grupo de múprimeiras notas da Pequena Serenata Noturna, sicos para reger. Primeiro fui convidado de orde Mozart. Eles imediatamente respondem o Filarmônicas de questras no exterior, para depois realizar o soresto. Essa é a força da música clássica. Quando Berlim.” nho de montar uma grande orquestra privada você entra num palco, numa cidade pequena, brasileira. Juntei os primeiros músicos da desce do ônibus ou do avião e pensa que o seu Bachiana e a gente ensaiava na minha casa. Cocoração vai se encontrar com o deles, aquilo mo moro em prédio, pensei que os vizinhos fosacontece. Hoje os músicos da minha Bachiana sem reclamar, mas o pessoal acabava abrindo as janelas dos podem falar isso: não há um concerto em que, no fim, o púapartamentos na hora do ensaio. Quando comecei a reger, às veblico não esteja chorando de emoção. Tem uma frase de um zes não sabia como era um gesto ou outro, e os músicos sempre grande compositor que diz: “A música clássica explica que me ajudaram. Tudo o que era arrecadado era para pagar os músiDeus existe”. cos. E eles perceberam a seriedade do trabalho. Fomos fazendo concertos à medida que conseguíamos patrocínio. Hoje tenho Você foi tão importante como pianista quanto é como maestro. Coorgulho de ter os músicos proporcionalmente mais bem pagos mo é a adaptação do piano para a regência? São coisas muito difedo Brasil. Tenho uma relação de amor com a orquestra. rentes? Qual é a diferença de tocar piano e reger? Na verdade, é a mesma coisa que uma pessoa acostumada a jogar sinuca O que os projetos de inclusão social da Bachiana ensinaram? A pritrocar o jogo por golfe: tem que acertar a bola num buraquimeira leva de alunos que recebemos tinha 45 meninos, que nho. São coisas completamente diferentes, mas o princípio agora estão com 20 e poucos anos. Resultado: todos são profisnão muda. Da mesma maneira, para tocar ou para reger é sionais. O segredo é ter disciplina de atleta e alma de poeta. No preciso ter a música dentro de você. O problema na minha começo, eu perguntava para cada jovem quanto tempo ele pomão que me impediu de tocar piano também me impede de dia estudar. Se me dissesse que duas horas, eu combinava: virar as páginas da partitura. Por isso eu decoro para real“Nem um único dia você vai estudar menos de uma hora e 50 mente ter o concerto na cabeça. Acordo às 5h30 da manhã, www.almanaquebrasil.com.br


minutos, e nunca mais de duas horas e 10 minutos”. Seis meses depois, ele me pedia pra estudar duas horas e meia, porque criou a disciplina. Depois que se estabelece a disciplina na cabeça da criança, você pode checar até onde vai o talento. Aí você vai moldando aqueles que serão solistas incríveis e os que não poderão alçar muitos voos, mas que terão a música dentro de si. Crescemos bastante e já temos mais de 10 núcleos, em cidades como Guarulhos, Suzano, Ermelino Matarazzo, Jaraguá, Osasco, Votuporanga, Cariacica, Contagem. Criamos uma metodologia com a qual o aluno aprende a tocar violino como se estivesse aprendendo a andar de bicicleta. No projeto que inauguramos agora, para o surgimento de mil novas orquestras, criamos também um curso de formação de professores. Que diferença a música erudita é capaz de fazer na vida dos jovens envolvidos? Tem o caso de uma menina que foi estudar música em Nova Iorque. Ela não conhecia a cidade, e se perdeu. Em determinado momento, perguntou para uma velhinha na rua como poderia chegar ao Carnegie Hall. E a velhinha respondeu: “Estudando”. É isso mesmo. Alguns vão ser grandes por esse caminho. Outros serão músicos profissionais, que também precisam ter disciplina, mas aliada a uma pequena esperança e à humildade de saber que não serão as grandes estrelas, mas sem eles a música não existe. Muitos poderão ter a música como hobby, o que proporciona os mesmos benefícios de qualquer esporte, com a diferença de que não há competição. As pessoas entendem o que quer dizer a palavra amor. A maioria dos jovens simplesmente estará apta a fazer parte de um público, o que ajuda a formar uma nação mais ligada às artes. A Música Venceu é o título do samba-enredo de 2011 da Vai-Vai sobre sua história e o nome do projeto de inclusão da Bachiana. Na sua trajetória, você se lembra de alguma vitória memorável? Tenho casos diários. Uma vez cheguei à Fundação Casa, onde dou aula, numa quinta-feira. Um pai me procurou e disse: “Meu filho teve a liberdade na segunda-feira, mas pediu para ficar preso mais três dias para falar obrigado para o senhor”. Esses mesmos jovens da Fundação Casa, no Natal, deixaram uma carta na minha portaria, dizendo: “Tio Maestro, feliz Natal. Tenha certeza: a música venceu o crime”. Quando vejo coisas assim, percebo que estou cumprindo uma missão. Hoje tenho o imóvel onde moro há 40 anos, não me preocupo com questões financeiras. Eu só quero viver. Quando chego em uma cidade como Cariacica, formo uma orquestra de corda e trago para tocar na Sala São Paulo, vejo o brilho das crianças. Nesse momento, penso no meu pai. Aos 36

anos ele teve um câncer violento e os médicos lhe deram seis meses de vida. Ele respondeu: “Isso porque vocês não me conhecem...”. Morreu aos 102, de acidente. Agora que estou com 71 anos, meu desejo é continuar como meu pai. Como começou seu envolvimento com a Vai-Vai? Eles me procuraram para ser o enredo da escola, mas eu não aceitei. Achei que se colocassem música clássica na avenida, iam para o grupo de acesso. Depois um amigo me convenceu que eu tinha a emoção que um enredo precisava e voltei a procurar os diretores da escola. “Rumo ao décimo quarto campeonato!”, disse. Nós íamos desfilar no dia 5 de março, às seis da manhã. O diretor pediu que eu fizesse a fala de incentivo na concentração no dia 4, às 23h. Eu falei no microfone: “Tenho que contar uma coisa pra vocês. A maior sorte que nós tivemos na vida é desfilar no dia 5. Esse sempre foi meu dia de sorte pra ganhar concursos de música”. Todo mundo aplaudiu. Aí me perguntaram qual tinha sido o primeiro concurso que eu tinha ganhado no dia 5. “Amanhã!”, respondi. Depois fiz algumas coisas com eles. Levei 10 percussionistas da escola, todos de casaca, para tocar com a orquestra Bachiana em Nova Iorque, no Lincoln Center. É incrível o talento daqueles músicos que nunca estudaram uma nota. Além do próprio samba-enredo harmonizado, fizemos o Trenzinho Caipira. Quando entrou a bateria no meio da música, a sala de concerto começou a gritar e a aplaudir. Até por não sermos um país com tradição na música clássica, esse tipo de inovação pode nos fortalecer? Sim. O brasileiro em si é um dos povos mais musicais da humanidade. Mas, para cada 100 alemães que podem estudar música, um brasileiro pode. O que nos falta é acesso a esse universo. Villa-Lobos conseguiu isso, levando música para as escolas. Depois o regime militar tirou e agora a música está voltando para o currículo escolar, a partir de 2012. No primeiro ano não será perceptível, mas daqui a uns quatro anos certamente você vai ver que qualquer criança brasileira saberá cantar o hino nacional. O sonho de Villa-Lobos está sendo revitalizado. Uma vez fui lançar um projeto de orquestra na cidade de Itapetininga e descobri que exatamente 80 anos e um dia antes Villa-Lobos escreveu nessa cidade o projeto dele de corais. Tenho guardada a carta com a caligrafia dele, em que diz: “Não é um povo inculto que irá julgar as artes. São as artes que mostram a cultura de um povo”. Se os brasileiros de todos os segmentos tivessem a oportunidade de estudar música como os alemães, por exemplo, nós teríamos 10 Filarmônicas de Berlim. Abril 2012

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MARIA CLARA MACHADO

Um outro olhar sobre o tablado Por Bruno Hoffmann

Iarli Goulart/ AE

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Q

uando era pequena, Maria Clara Machado adorava pegar panos, lençóis e roupas dos mais velhos para montar peças para a família. O escritor Aníbal Machado incentivava a filha no intento artístico. Naquelas tardes de domingo nasciam, de forma despretensiosa, as primeiras apresentações daquela que viria a ser a maior autora de teatro para crianças do Brasil. Em 50 anos de atuação à frente do Tablado, Maria Clara criou e dirigiu 32 peças e revolucionou a forma de se comunicar com as crianças. “Ela é o nosso Chaplin. Sabe contar histórias para todas as idades de uma maneira lúdica e transformadora”, definiu o ator Ernesto Piccolo. Sua obra cênica é considerada um divisor estético na produção teatral voltada aos pequenos. “O seu segredo de sucesso era o respeito pelo público-alvo. Antes dela, o teatro infantil brasileiro era um horror”, afirma a crítica Barbara Heliodora. Maria Clara Machado nasceu em Belo Horizonte, em 3

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À frente de um dos principais grupos teatrais do País durante 50 anos, a autora e diretora empenhou-se dia após dia em criar uma cara moderna e sensível para o teatro dedicado ao público infantil, antes marcado por textos pobres e montagens mambembes. Criou peças encenadas no mundo inteiro, referências obrigatórias para quem se dedica ao assunto. de abril de 1921, mas mudou-se com 5 anos para o Rio de Janeiro. Na adolescência, suas brincadeiras teatrais foram se transformando em algo mais sério. Produzia pequenas encenações com os amigos do bairro. Já com 20 e poucos anos passou a se dedicar aos teatros de bonecos. Bolava histórias completas e apresentava-se onde fosse possível. De tanto insistir, conseguiu uma bolsa do governo francês para estudar artes cênicas em Paris. Lá, foi aluna dos diretores JeanLouis Barrault e Rudolf Laban e do mímico Étienne Decroux. Na volta, trouxe novos conceitos de improvisação e um amor ainda maior pelo teatro. Sentia-se preparada para criar uma companhia que indicaria novas direções ao teatro nacional.

Uma revolução chamada Tablado

O Teatro Tablado nasceu para ditar um novo nível de qualidade para a dramaturgia infantil. A primeira peça demonstrava qual seria o perfeccionismo exigido por Maria Clara dali para a frente, ao pedir que Cecília Meirelles traduzisse O Moço


Maria Clara costumava ensinar a lição aos mais de 5 mil alunos que passaram pelo Tablado: “O pintor lida com tinta, os músicos com instrumentos, os escritores com palavras. O teatro lida com gente”.

Bom e Obediente. Nos anos seguintes, Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar e João Cabral de Melo Neto traduziriam textos especialmente para a companhia. O Tablado realmente chamou a atenção em 1955, quando entrou em cartaz Pluft, O Fantasminha, que viria a ser considerada uma obra-prima do teatro nacional, traduzida em oito idiomas. “A peça está para o teatro infantil como Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, está para o adulto. Com sua qualidade poética e a liberdade de linguagem, Maria Clara ultrapassou o realismo ou o infantilismo que havia no gênero”, defende o diretor de teatro Amir Haddad. Outras peças de sucesso viriam na esteira: A Bruxinha Que Era Boa, O Cavalinho Azul, A Menina e o Vento. O Tablado também lançou muita gente conhecida: Marieta Severo, Miguel Falabella, Louise Cardoso, Wolf Maia. Ao todo, foram mais de 5 mil atores formados pelas oficinas da companhia. Mães costumavam matricular seus filhos com a esperança de vê-los na próxima novela da Globo. Maria Clara advertia: “Aqui não é porta para a tevê. Se quiser continuar mesmo assim, tudo bem”. Além de atores, o Tablado também formou gerações de profissionais de iluminação, cenografia e sonoplastia.

“O teatro lida com gente”

A relação de Maria Clara com os alunos era entusiasmada, mas também de alta cobrança. Estava sempre em cima dos estudantes para dar broncas e indicar o jeito certo de fazer os exercícios. Ela costumava ensinar uma lição que muitos dos

que passaram pelas aulas lembram-se de cor: “O pintor lida com tinta, os músicos com instrumentos, os escritores com palavras. O teatro lida com gente”. Seus textos eram audaciosos, sensíveis e mordazes. A peça Aprendiz de Feiticeiro, de 1968, teve até problema com a censura. Havia um personagem chamado Tenente Perseguição. Os militares não gostaram nada do momento em que surgia a frase: “Ao tomar uma fórmula que faria aflorar o lado mais forte da mente, o tenente acabou ficando com uma cabeça de jumento”. Durante os anos 1960 e comecinho dos 1970 também escreveu peças adultas, como As Interferências (1966) e Um Tango Argentino (1972). Mas a sua vocação era mesmo se comunicar com a criançada. Acreditava que a arte tinha papel primordial para a educação dos mais jovens. “Educar é dar à criança instrumentos para ela buscar sozinha seus caminhos. O teatro tem força para ajudar nesse processo.” A dramaturga morreu em 30 de abril de 2001, aos 80 anos. Anos antes, Carlos Drummond de Andrade já havia definido o seu principal legado: “Clara nos ensina a amar nossos semelhantes sem deixar de sorrir de suas bobagens, e a amá-los até mesmo em função disso. Ela revelou-se dona da mais alta qualidade estética: a imaginação”. E o escritor e crítico de arte Ricardo Voltolini completou: “Maria Clara Machado não inventou o teatro infantil. Mas é como se tivesse inventado”. No site do Almanaque, assista a entrevistas da dramaturga, além de uma matéria produzida pelo programa Almanaque Brasil.

O melhor produto do Brasil é o brasileiro CÂMAR A CASCUDO

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Um país nos tri lhos

Do Trenzinh o Caipira de Villa-Lobos Barbosa, def ao Trem das initivamente Onze de Ado a ferrovia e niran nosso povo t n trou para o anto quanto im aginário do foi importan do Brasil. Aq te p a r a o desenvolv ui, voltamos imento às lembranç nos transpo a s d e quando rtes impera v a m v a g õ e s trilhos e ma , quinistas. Te

xto: Natália Pesciott a Arte: Guilherme Re sende

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ferro no hos com in m a c s o itada do noss sa empre jo raçamos ra ea o c a e um ta em qu chão desd uá, em 1854. A da ilhos, Ma nos tr barão de a entrou o– s e n ro a B Ferroviári a locomotiv ada como Dia do cializ s que r, l, ficou ofi ncionário 30 de abri aos dedicados fu ens, fossem a vapo tr m e s e g o a d homen olução d Estrada aram a ev ansão da primeira taram o h n a p m o ac exp s cor diesel. A s ferrovia rbano. carvão ou o veio, mas outra mundo u do o ã e n l s ra li o ru Petróp rá, Trem mundo a, do Cea rotas das ctando o e n a n b o a c c , ís ro a o s P ogiana, S o Brasil. A ar os Ferrovia M a Morte, Central d companh a r o p ó d s o m eçar ã Sertão, Tre rcaram a história n ca e região, a com ma ada épo que ferrovias rciais de c Sudeste. Mais do e m o c s e interess café do os e mento do sições de passageir ria a o c s e lo pe po emó ito, as com de destaque na m te. isso: o ap r or a g de transp es têm lu as estaçõ eu o auge do meio ferro viv m de de quem ção do tre evolução a s n e s a tos da R “O som e os produ absorvidos ic n ú s o foram mente completa ura”, Industrial cult ia e pela s e o p la e r inglês p historiado o u e v re esc bawn. Eric Hobs

T

avessa a, mas atr ou ic n â c e m ir a uma cois sou minha vida e v é o rr fe e d ritor es dia, atrav délia Prado. O esc a “Um trem o , a d a g madru ineira A : a pesso a noite, a etizou a m e devia ser assim o p , ” to n omotiva e u : “Acho q r de trem. Aí a loc lhos só sentim m lé a i fo s da so lve queria an dor. Aqueles cujo Rubem A e u q o d Os e dizen or, cobre s poderiam entrar. em p a chegava, v e d o u apit s, esse do”. Qu apitava se lhados de lágrima ara Orlan p a it tu o ra g m já vai m a viagem pois o tre ficassem , m a u in g m á a p v ea nha outros ga o cronista, que vir es. d e ta s m e çõ for do ti tempos e s o tr u o partir para


Guarde seu lugar, mas não use o jornal O rigoroso regulamento da Central do Brasil, ferrovia que ligava São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro entre 1858 e 1969, estipulava desde as normas para carros fúnebres ou a venda de meia-entrada até o comportamento nos vagões. Algumas regras da época: - Pessoas que não podem viajar: as embriagadas, as pessoas indecentes ou inconvenientemente trajadas. - Meio bilhete: aos menores de um metro de altura serão vendidas meias passagens. - Ocupação dos lugares: o passageiro, retirando-se precariamente do assento, tem o direito de o reocupar, uma vez que tenha deixado sobre ele um objeto qualquer, com exceção de jornais e revistas.

ReproduçÃo

Rio de Janeiro, estação dom Pedro 2°, mais conhecida como Central do Brasil. Desde às 4h da tarde avistava-se na plataforma uma gente com tamborim e pandeiros debaixo do braço. Todos sabiam: o trem combinado era o das 6h04 (nem um minuto a mais, nem a menos). Paulo da Portela, o fundador da escola de samba, explicou sobre o encontro de fim de tarde nos anos 1920: “O carro de prefixo Deodoro era a sede móvel da Portela, a sede volante. As pessoas iam de Oswaldo Cruz até a Central pra poder voltar junto. O carro da Central era sempre dos amigos. Ali no trem passávamos os sambas. Quando chegava domingo, grande parte já conhecia de cor”.

DAMA DA CENTRAL

Aracy de Almeida era uma das artistas que viajavam no “avião dos covardes”, como chamava a estrada de ferro que ligava o Rio de Janeiro a São Paulo. Quando morou na capital paulista, a cantora apelidada de Dama do Encantado – referência ao bairro carioca em que nasceu – fazia o trajeto da Barra Funda à Central do Brasil tantas vezes que ganhou outra alcunha: Dama da Central. O pai de Aracy era maquinista e chefe da famosa estação carioca.

Na cabine, Poetinha compôs e namorou Vinicius de Moraes era outro frequentador quase cativo da Santa Cruz, linha noturna de trem entre Rio e São Paulo nos anos 1960. Foi em uma das cabines pomposas que compôs o samba Formosa, com Baden Powell. As viagens lhe renderam até um romance. Conheceu a mãe de sua filha caçula no Santa Cruz. O jornalista José Castello narra o encontro com Cristina Gurjão na biografia Vinicius de Moraes – O Poeta da Paixão: “Cristina volta para sua cabine (...) Abre novamente a porta e vê, então, a porta da cabine de Vinicius entreaberta. (...) Os dois amanhecem juntos. A noite é inesquecível”.

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21 ReproduçÃo

Arquivo/ AE

o Tram Paulo já A linha d o de São o de ser tr n e c o a p a Cantareir dos, mas deu tem extinta, ta er n s o e c d s s ia te d os no an sse em s a m u a d s a o a mora as o tal Trem da imortaliz e Adoniran Barb m , a c ti ão poé o, feito . Qu em 1965 assava de invenç de ferro era antig imento p o o rs re ã u c m o sc bitada Jaçanã n mesmo. O perc água. Co e d u s er ha ti to is x u assou a s ntro d p Onze e e c e o ca rt a o r n a a zon sport r. Na épo para tran ulista, a periférica e para ir trabalha eimada ort l pa a qu da capita s usavam o transp hique. Ter a roup ”. c o no ir a e d g a rb a n u s “sub a o era e pas em já nã que o sujeito era tr , a ic s ú da m nciava em denu pela fulig

Sem trem durante a semana, não tinha samba no domingo

ReproduçÃo/ museu Adoniran Barbosa

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ReproduçÃo

Mania de Tuhu virou sua obra-prima Não faltou quem tentasse reproduzir, nas artes, os sons do trem. Desde o Café com pão / Café com pão / Café com pão de Manuel Bandeira e Tom Jobim, em Trem de Ferro, até o Que já vem, que já vem que já vem de Chico Buarque em Pedro Pedreiro, passando por Luiz Gonzaga em De Teresina a São Luís: Tanto queima como atrasa / Tanto teima quanto atrasa. Talvez a mais incrível e revolucionária seja o Trenzinho Caipira, de Heitor Villa-Lobos, que colocou uma orquestra inteira para imitar o meio de transporte na Bachiana n°3. Pudera: imitar barulho de trem era o passatempo preferido do maestro desde a infância. Quando pequeno, a mania lhe rendeu até um apelido: em casa só o chamavam de Tuhu.

QUE HORAS SÃO? No interior de São Paulo,

os moradores das cidades por onde passavam os trilhos da Companhia Paulista sabiam: quando ouvia-se o trem era hora de acertar o relógio. Na virada para o século 20, não tinha quem ouvisse o trem passando e deixasse de conferir se o relógio no pulso marcava o horário correto. A pontualidade britânica ficou na memória como principal marca da companhia, herança dos ingleses da São Paulo Railway.

MUITA LENHA E... AREIA Os trechos de serra sempre foram onde as locomotivas a vapor mais consumiam lenha, soltando espessos rolos de fumaça para o alto. E também onde mais se gastava areia. Esse outro elemento indispensável não tinha nada a ver com combustão: um dispositivo da locomotiva jogava areia nos trilhos para que as rodas de ferro não patinassem em trechos inclinados.

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Três montanhas e um trem a vapor, em poucas linhas. Não à toa o singelo desenho feito por Milton Nascimento na capa do disco Geraes, de 1976, é considerado uma espécie de símbolo do mineiro Clube da Esquina. O movimento musical dos anos 1970 coleciona canções com o tema: Trem de Doido, O Trem Azul, Encontros e Despedidas, Barulho de Trem, Roupa Nova. O escritor Jorge Fernandes dos Santos sentenciou: “Todo mineiro tem um trem de ferro apitando nas veias, uma montanha brilhando nos olhos e uma banda tocando nos ouvidos”.

TREM DE MINEIRO Trem bão, trem de doido.

Qualquer brasileiro é capaz de reconhecer um mineiro pelo uso da palavra “trem” como sinônimo para “coisa”. Há quem ironize: o mineiro, na estação, pega os trens pra partir quando a coisa está chegando. Pois então saiba: o dicionário dá alguma razão para os cidadãos de Minas Gerais. Em 10 significados para a palavra, apenas no oitavo o Aurélio aponta o sentido de meio de transporte para o termo, como um brasileirismo. O primeiro? “ Conjunto de objetos que formam a bagagem de um viajante”.

ReproduçÃo

Em Ponta de Areia, viúva inspirou compositor-jornalista Como jornalista, o principal parceiro de Milton Nascimento publicou na revista O Cruzeiro uma reportagem sobre a desativação da ferrovia Bahia-Minas. Fernando Brant narrava comovente encontro com a viúva de um maquinista, em 1973: “Máquina é pra rodar e maquinista é pra morrer”, dizia o seu marido, Joaquim Bitu, o mais famoso e querido maquinista da região. O texto seguia com dona Rosaura, às lágrimas, lembrando o tempo em que o apito do trem anunciava que logo o marido contornaria gloriosamente a praça de Ponta de Areia (subúrbio de Caravelas, Bahia), acenando para casa. A matéria foi inspiração para a nostálgica canção do jovem repórter. Ponta de Areia traduz o sentimento comum a lugarejos onde a estrada de ferro acabou coberta pelo mato: Velho maquinista com seu boné / Lembra do povo alegre que vinha cortejar / Maria fumaça não canta mais / Para moças, flores, janelas e quintais / Na praça vazia, um grito, um ai / Casas esquecidas, viúvas nos portais.

ReproduçÃo

Uma esquina nas montanhas


ã o: Pr ofi ss io iár fer rov

Maxambomba

Foi assim que ficaram conhecidos os primeiros trens urbanos do Brasil, que ganharam os trilhos do Recife em 1867. O nome um tanto peculiar é resultado do abrasileiramento do tipo de motor dos veículos: machine pump (bomba mecânica, em inglês).

Carmen Miranda, Dircinha Batista e Mikado 282 As primeiras marias-

A quem não viveu os momentos áureos dos trens de passageiros, é necessário esclarecer: nem só de maquinista se fazia uma ferrovia. Confira as funções dos profissionais dos velhos tempos.

ReproduçÃo

Fundação Joaquim Nabuco

Olha o trem!

fumaças brasileiras foram feitas em sigilo. O País vivia crise de abastecimento durante a Segunda Guerra Mundial e oficinas de reparo fabricaram sem alarde máquinas com material reciclado. Circularam em Minas Gerais e Paraná.

Chefe da estação Autorizava o embarque

e desembarque de passageiros e coordenava a saída dos trens.

“avião sobre rodas”, pela velocidade, teve várias unidades trocadas com a Hungria por sacas de café em 1973. Operavam em São Paulo, saindo da capital para o interior e para o litoral (quando a serra tornava a tal rapidez bem relativa).

Trem de Prata Glamurosa composição dos anos 1990. Com ambientes luxuosos e românticos, retomava o percurso ferroviário entre Rio de Janeiro e São Paulo.

Maquinista Conduzia o trem.

Plano de carreira: • maquinista de manobra (nos pátios ferroviários) • maquinista de trem de subúrbio • maquinista de grandes percursos

Chefe do trem Viajava no vagão das

Ferroviários e usuários da estrada de ferro Mogiana conheciam as locomotivas por apelidos carinhosos: Carretel, Sanfoninha, Sanfonão, Pullman, Camela, Raposa, Panco. A Morcega era chamada assim pelos dois grandes defletores de fumaça na frente, parecendo escuras asas abertas.

Baronesa A primeira locomotiva a andar em trilhos brasileiros recebeu carinhoso apelido em homenagem a seu idealizador. Na inauguração da ferrovia de Petrópolis, em 1854, comentava-se que o empresário Irineu Evangelista receberia de dom Pedro 2° o título de barão de Mauá (hoje nome do porto próximo à estação pioneira). Coronel Church

ReproduçÃo

ReproduçÃo

observava a ordem do chefe da estação e acenava – com bandeira verde, de dia; ou lampião de luz verde, de noite –, autorizando a partida do maquinista.

os passageiros o nome das estações.

Morcega

Heitor e Silvia Reali

Guarda-trem Postado no último vagão,

Ajudante do trem Anunciava para Mabel Feres/AE

ReproduçÃo

Trem húngaro Chamado

Locomotiva aventureira, recebeu missão impossível: desbravar a floresta Amazônica, ligando Brasil e Bolívia. Levava o nome do especialista ferroviário trazido de Nova Iorque para a empreitada. A malfadada ferrovia Madeira-Mamoré fazia parte de um acordo entre Brasil e Bolívia, o mesmo que concedeu para o lado de cá o território do Acre.

bagagens, o primeiro depois da locomotiva. Tinha como tarefa coordenar os demais funcionários e o andamento da viagem. Em algumas companhias, dava dois apitos a cada parada.

Picotador Validava com um furador

o bilhete de cada passageiro do vagão, prestando atenção em espertinhos sem passagem que tentavam driblar a cobrança.

Ferromoças Conhecidas

pela elegância e equilíbrio, serviam os passageiros nos chiques vagões-restaurante dos trens de longo percurso.

SAIBA MAIS As Ferrovias do Brasil, de João Emilio Gerodetti e Carlos Cornejo (Solaris, 2005). Leia lembranças de passageiros de trens no blog Trens da Vida (trensdavida.blogspot.com).

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Elite não entende a Nova Classe Média Ainda me lembro de quando um executivo de uma multinacional, na qual o sabão em pó estava entre os produtos principais, participou de uma imersão em Paraisópolis e conheceu o dia a dia de uma dona de casa da Classe C. Ele a questionou sobre o porquê de usar o sabão em pó do concorrente em vez do produto da sua marca. E ela respondeu com toda simplicidade popular: “Ué, moço, esse aí não faz espuma, e se não faz espuma, não limpa bem!” Frustrado, o executivo me confessou, momentos mais tarde, que a empresa havia gastado milhões para desenvolver um sabão que não fazia espuma. O grande erro: os valores do consumidor foram ignorados. Isso porque a maioria dos produtos ainda são desenvolvidos de acordo com a visão da Elite.

Hoje, a Nova Classe Média Brasileira (Classe C) representa a maioria dos consumidores em todas as categorias de consumo: alimentação e bebidas, serviços, roupas e calçados, viagens, entre outros. O grande questionamento é a reação da antiga classe média (classes A e B) diante desta mudança de cenário. O que os ricos não entendem é que ter uma renda acima de 4 mil reais é para poucos no País, e que fazem parte de uma elite exclusivista. Apenas 10% das pessoas de alta renda se enxergam como verdadeiramente são: ricos. E 35% Renato Meirelles Sócio diretor do Data Popular se classificam como pobres.

AB

Baixa Renda 35,2%

Alta Renda 9,6%

Classe Média 55,2%

Rico, ele? No Brasil, mais de um terço da Alta Renda se acha de Baixa Renda, e mais da metade se vê como de Classe Média.

Os diferentes códigos e valores

Luta de Classes O crescimento da renda e a ampliação do crédito possibilitou aos integrantes da Nova Classe Média acessar espaços e lugares que antes estavam restritos ao público da Tradicional Classe Média. Essa mudança no cenário tem gerado um certo descontentamento de parcela dos antigos privilegiados. Confira respostas de pessoas deste grupo: Produtos deveriam ter versões para ricos e para pobres

55,3%

A qualidade dos serviços piorou com o maior acesso da população

48,4%

O aumento das filas nos cinemas me incomodam

62,8%

Prefiro ambientes com pessoas do meu nível social

49,7%

Pessoas mal vestidas deveriam ser barradas em certos lugares

16,5%

O metrô aumenta a circulação de pessoas indesejáveis na região

26,4%

Todos os estabelecimentos deveriam ter elevadores separados

17,1%

Até mesmo as propagandas veiculadas na TV ainda não conseguiram falar a língua do novo consumidor, que deseja melhorar de vida, mas não quer ser como a elite. Sua referência, geralmente, é o vizinho que reformou a casa, e não o patrão que é um perdulário e não sabe fazer pesquisa de preços – ou seja, desperdiça dinheiro. A dissonância cognitiva que cria um grande abismo entre as classes sociais faz com que a elite se sinta incomodada com o protagonismo da Nova Classe Média.

Agenda Não perca o Fórum Novo Brasil, que acontece em Brasília, nos dias 16 e 17 de agosto!

Quer saber mais? Ligue pra gente: Rua Haddock Lobo, 337 – 3º andar - Cerqueira César São Paulo - SP CEP 01414-001 • Tel: (11) 3218-2222 E-mail: datapopular@datapopular.com.br • Twitter: @DataPopularRM


ira e de menti chegar c e r a p e u va Um país q e não é lorota: o programa Almanaque Brdoasilmundo. A

garante qu mais amável O Almanaquias ais sobre o país nte, investigar com histórias re a tir en sas de nossa ge m rio da cu ês s en ao m ag ss pa répido lar ve re tas bandas. O int a na missão de só feitos por es ns atração continu so a real” os ar um r to da en do povo e ruas para “man o conhecimento pelos Nunes sai pelas m on ge bs via Ro r sa es ato ia ido pelo na Mello norte cia Lu e personagem viv nt es do da ad an m conferir as novid s estúdios, a co spectador, pode com o povão. No r/e aque to an lei m ro Al ca , do Brasil. Você book (página quatro cantos do asil) e pelo Face só br e ue qu aq ar an irm alm nf Twitter (@ Cultura para co programa pelo Brasil ou na TV é só ligar na TV is, po que a verdade. De . do il) as ais Br e, nada m falamos a verdad

Passado e futuro - programa 38

Rio de encantos mil - programa 34

• Vem do Rio a entrevistada do programa, a primeira-dama do teatro brasileiro, Fernanda Montenegro. • Com sua voz rouca, Martn’ália traz samba e prosa para o Cantos do Brasil. • Ronald Biggs, o assaltante inglês que encantou a Cidade Maravilhosa foi parar no Você Sabia?. • E, no Como É Que Se Faz?, o caminho da prancha de surfe antes de pegar as ondas cariocas. TV Brasil: 23/3, 20h

TV Cultura: 1/4, 14h30

Brasileiros de coração - programa 35

• Holandeses em São Paulo, judeus na Amazônia, ciganos na Paraíba. Só podiam ser Coisas Nossas. • Ilustre Brasileiro: Carybé, o argentino que retratou a Bahia como ninguém. • No Papo-Cabeça, Olivier Anquier, o francês que botou tempero na comida brasileira. • E, no Você Sabia?, a inusitada amizade entre um embaixador suíço e seus sequestradores brasileiros. TV Brasil: 30/3, 20h

TV Cultura: 8/4, 14h30

Dos livros para a imaginação - programa 36

• João Grilo, Macunaíma, Quincas Borba e outras figuras que saltaram dos livros para o imaginário nacional. • O bom malandro Zeca Pagodinho relembra histórias da carreira no Cantos do Brasil. • As artimanhas dos mestres do bilhar são explicadas no Ciência Doméstica. • No quadro Como É Que Se Faz?, aprenda como se produzem os bonecos de barro, arte que consagrou mestre Vitalino. TV Brasil: 6/4, 20h

TV Cultura: 15/4, 14h30

O que é que o Almanaque tem? - programa 37

• Entre tantas maravilhas do Brasil, saiba como os pequenos selos ajudam a contar a nossa história. • No Cantos do Brasil, requebre ao ritmo do som suingado do Trio Mocotó. • Conheça as aventuras e desventuras dos irmãos Villas-Boas pelos sertões do Brasil. • O primeiro acidente automobilístico do País foi causado pelo barbeiro José do Patrocínio. Você sabia? TV Brasil: 13/4, 20h

TV Cultura: 22/4, 14h30

• Cristo Redentor, Memorial JK, Padre Cícero e outras obras monumentais do País. • No Cantos do Brasil, Paulinho da Viola revela: “Eu não vivo do passado. O passado mora em mim”. • No Ciência Doméstica, os garçons ensinam como carregar bandejas com maestria. • E, no Ilustres Brasileiros, é a vez da médica e sanitarista Zilda Arns. TV Brasil: 20/4, 20h

TV Cultura: 29/4, 14h30

Redescobrir o Brasil - programa 39

• De Câmara Cascudo a Sérgio Buarque de Holanda, reunimos intelectuais que dedicaram a vida a decifrar o Brasil. • No Papo-Cabeça, o designer Marcelo Rosenbaum aponta caminhos para a transformação do País. • No Cantos do Brasil, Chico César busca explicações para esta árvore musical em forma de nação. • E, diretamente da Amazônia, a arte da cestaria, praticada a séculos pelos primeiros habitantes do Brasil. TV Brasil: 27/4, 20h

TV Cultura: 6/5, 14h30

Para se certificar das datas e horários de exibição, consulte o site das emissoras: www.tvbrasil.org.br e www.tvcultura.com.br.

Graça Braga – Dia de Graça (Lua Music). Uma das mais cultuadas vozes contemporâneas do samba paulistano chega ao segundo CD com uma homenagem ao compositor Candeia. São 14 canções do engajado compositor carioca, entre as quais Minha Gente do Morro e a tocante Dia de Graça. Leci Brandão participa da faixa De Qualquer Maneira.

A Linha do Tempo do Design Brasileiro, organizado

Karine Telles – Flor do Samba (independente).

O Rei da Roleta, de João Perdigão e Euler Corradi (Casa da Palavra). A história já começa assim: no truco, o mineiro Joaquim Rolla ganhou o Cassino da Urca ao chegar no Rio de Janeiro. A biografia do sujeito que profissionalizou a noite carioca narra os tempos de luxo e jogatina do famoso estabelecimento nos anos 1930, com gente como Josephine Baker, Carmen Miranda e João de Barro. Conta ainda a origem e o destino do “dono da festa” após a proibição do jogo.

A cantora mineira estreia em disco para exaltar os compositores do Triângulo Mineiro. As canções inéditas surgem com beleza surpreendente, mostrando que a fonte para se compor samba bom é quase infindável. A novidade conta com direção musical de Luizinho Sete Cordas, um dos maiores violonistas de sete cordas do País.

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por Chico Homem de Melo e Elaine Ramos (Cosac Naify). Para apresentar em “apenas” 700 páginas dois séculos de discos, encartes, cédulas, jornais, revistas e cartazes, a obra conta com amostra bem selecionada e bela apresentação. Ao preencher uma lacuna editorial e remontar a história da nossa linguagem visual, o livro interessa tanto a profissionais da área quanto a leigos.

Abril 2012


O Calculista das Arábias

Radamés Gnattali

a O acordeonista de Porto Alegre é um dos músicos mais cultuados do Rio Grande do Sul. Em 1984, lançou o primeiro disco instrumental a vender 100 mil cópias no País.

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b O gaúcho de Passo Fundo aprendeu a tocar violão aos 7 anos. Considerado virtuose no instrumento, percorre o País em disputadas apresentações de choro, milonga, tango e chamamé.

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c Nascido na fronteiriça Santana do Livramento, a poucos quilômetros do Uruguai, desde os anos 1960 é conhecido por entoar os sons dos pampas, principalmente o vanerão.

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d Nascido em Porto Alegre, o maestro foi um dos personagens que mais criaram pontes entre o erudito e o popular. Para seu ex-aluno Tom Jobim, era “o pai dos músicos brasileiros”.

Nossa homenagem a Júlio César de Mello e Souza, o Malba Tahan Um xeique muito rico deixou testamento peculiar para repartir seus 241 medalhões de ouro entre as três filhas: quanto mais velha, mais medalhões receberia. Contrariando a decisão do pai, porém, a irmã mais velha decidiu fazer a divisão em três partes iguais. Dividiu a herança em três, deu a uma velha criada o medalhão que sobrou e guardou a sua parte. Também buscando uma divisão equânime, a filha do meio repetiu o gesto da irmã: repartiu os medalhões, passou adiante o que restou e guardou o que cabia a ela. O mesmo fez a filha caçula: guardou um terço do que encontrou e deu para a caridade o medalhão que havia sobrado. Tudo em segredo. No dia seguinte, para a surpresa de todas, o guardião da herança afirmou ter presenciado a ação das moças, e que de nada adiantava a sua tentativa de dividir por igual o tesouro do pai. Ele também dividiria por três a herança, ficaria com o medalhão restante como pagamento e ainda assim o desejo do velho pai seria cumprido. Estaria ele correto? Com quantos medalhões ficaria cada uma das filhas?

acervo da família

Gaúcho da Fronteira Renato Borghetti

Yamandu Costa

ligue os pontos

teste o nível de sua brasilidade

Palavras Cruzadas

Clube fundado em Porto Alegre em 4/4/1909: (a) Internacional (b) Grêmio (c) São José (d) Brasil de Pelotas Em 11/3/1923 é fundado o Conjunto Oswaldo Cruz, que viria a ser a escola de samba: (a) Unidos da Tijuca (b) Salgueiro (c) Vila Isabel (d) Portela Localização do Parque Chapada dos Guimarães, criado em 12/4/1989: (a) Mato Grosso do Sul (b) Piauí (c) Mato Grosso (d) Sergipe Sebastião Salgado, Chico Buarque e José Saramago lançam em 14/4/1997 o livro: (a) Terra (b) Água (c) Ar (d) Fogo Em 15/4/1940, Juscelino Kubitschek é empossado como prefeito de: (a) Diamantina (b) Rio de Janeiro (c) Belo Horizonte (d) Brasília Primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, lançado em 25/4/1930: (a) Alguma Poesia (b) E Agora, José (c) No Meio do Caminho (d) Confidência do Itabirano

Respostas

Nascida em 25/4/1925, Janete Clair não é autora da novela: (a) Irmãos Coragem (b) Selva de Pedra (c) O Astro (d) Roque Santeiro

valiação

BRASILIÔMETRO 1b; 2a; 3d; 4c; 5a; 6c; 7a; 8d. SE LIGA NA HISTÓRIA 1b; 2a; 3c; 4d. ENIGMA FIGURADO Ana Maria Braga. O QUE É, O QUE É? A letra V. CARTA ENIGMÁTICA Devido ao sucesso da canção, ganhou o apelido de Exagerado. (Cazuza).

Roberto Carlos DE QUEM SÃO ESTES OLHOS?

reprodução

O CALCULISTA DAS ARÁBIAS Sim, o guardião da herança estava correto. Depois de quatro divisões iguais, o desejo do pai foi cumprido. Quando a primeira filha deu o medalhão para a velha criada e repartiu em três o restante, ficou com 80 medalhões. Restaram 160. A filha do meio separou também uma unidade e dividiu por três, ficando com 53 medalhões. Restaram 106. Quando a caçula repetiu o gesto das irmãs, guardou 35 medalhões e sobraram 70. E quando, por fim, o guardião descontou o seu pagamento e dividiu igualmente os medalhões, a cada uma das filhas coube mais 23 unidades. Assim, a irmã mais velha ficou com 103 medalhões (80+23); a do meio, 76 (53+23); e a caçula, 58 (35+23).

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Em 3/4/1985, o presidente José Sarney veta a criação do estado de: (a) São Paulo (b) Tocantins (c) Atenção (d) Emergência

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Conte um ponto por resposta certa

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Galinha coelho ovo de Páscoa?

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a Páscoa, todo mundo espera o coelhinho trazer deliciosos ovos de chocolate. Mas, afinal, o que têm a ver ovos e coelhos? Todo mundo sabe que esses bichinhos felpudos não põem ovos! Essa história começou a partir da união de duas tradições milenares. Para celebrar a Páscoa, os religiosos antigos pintavam com cores alegres os ovos de galinha, considerados símbolos de vida. Já outros povos da antiguidade admiravam os coelhos por sua alta capacidade de reprodução. Juntando ovos e coelhos, surgiu o sí mbolo dessa data religiosa que celebra a ressurreição de Jesus Cristo: o ovo de Páscoa. É tradição que as famílias se reúnam no domingo para rezar, celebrar a ressurreição de Cristo e degustar um farto almoço. Mesmo os não religiosos entram na onda de trocar ovos de chocolate. Para a festividade, o Brasil produz mais de 20 mil toneladas de chocolate, o que faz do País o segundo maior consumidor de chocolate do mundo durante a Páscoa. Só perdemos para os ingleses!

Já Pensou Nisso? Coelhinho da Páscoa / Que trazes pra mim? / Um ovo, dois ovos, 80 milhões de ovos assim. É como deveria ser a letra da famosa cantiga caso puséssemos os animais de orelhas compridas realmente para trabalhar. Como foi dito ali em cima, o Brasil deve produzir neste ano cerca de 20 mil toneladas de chocolate só para a Páscoa. Agora imaginemos que cada coelhinho seja incumbido de levar para a casa das crianças um ovo de chocolate desses pequenos, de 250 gramas (não vamos sobrecarregar os bichinhos, né?). Seriam necessários 80 milhões de coelhos. Só resta torcer pra eles não comerem nenhum ovo pelo caminho....

Páscoa judaica não tem chocolate Os judeus também comemoram a Páscoa, ou o Pessach, como a data é conhecida. O termo significa “passagem” e originou o nome Páscoa. Mas a celebração tem pouco a ver com a festa dos cristãos. A data rememora a conquista da liberdade pelos judeus, que há 4 mil anos se tornaram escravos no Egito. Segundo o Torá, Deus surgiu para o profeta Moisés e lhe deu a missão de libertar o seu povo. Foi o que ocorreu e, desde então, os judeus se unem para reverenciar a data. Sem ovos de chocolate.

O que tem no meio do ovo?

De olhos vermelhos / De pelo branquinho / De orelhas bem grandes / Eu sou coelhinho. A famosa canção infantil foi composta em 1944 por uma assistente de regência do maestro Heitor Villa-Lobos. Descubra o nome da criadora de Coelhinho.

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De novo houve o novo ovo.

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Para descobrir o nome da nossa homenageada do mês, basta preencher o diagrama abaixo. O número de cada quadrinho indica uma letra escondida na linha correspondente do texto lá de cima. Por exemplo: primeiro quadrinho, linha 1: D. E assim por diante.

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BELO HORIZONTE

Minas de palavras Se por causa da inovação de seus artistas a Pauliceia foi “desvairada”, Belo Horizonte foi “desatinada” pelas estripulias de seus escritores e jornalistas, num passado que ainda hoje contribui para a aura de encantamento que paira sobre a capital de Minas Gerais.

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oeirópolis foi o primeiro apelido de Belo Horizonte. Cadiquê? Ora, do poeirão que envolvia todos os lugares onde estava sendo construída a futura cidade. Escondia até mesmo as montanhas da Serra do Rola Moça. Tal alcunha, dizem, era despeito dos moradores de Ouro Preto, que não mais seria a capital de Minas. A cidade é jovem de tudo, nasceu em 1897. Planejada com inteligência pelo paraense Aarão Reis, tem traçado em forma de tabuleiro, ruas largas batizadas com nomes de estados, cidades e tribos indígenas. É moderna, mas guarda o jeitão simples mineiro nas 500 praças, 70 parques e ruas plantadas com jaqueiras, ipês, flamboaiãs, quaresmeiras e fícus. No quintal de cada casa é fácil encontrar um pé de jabuticaba, limão, manga-rosa. Assim como não faltam cozinha com fogão a lenha e panelas de barro. Assim

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é Beagá: um pé no asfalto, outro na estrada de terra; um olho na modernidade, outro na tradição; longe do mar, mas aninhada entre as montanhas. A singeleza, contudo, ficaria de fora na antiga casa do governador – o Palácio da Liberdade –, de frente para a praça de mesmo nome. Ele foi decorado com requinte: entalhes, afrescos, lustres de cristal tcheco e uma monumental escada que veio da Bélgica. Quando os antigos moradores da área foram despejados para a construção do edifício, uma tal de Maria Papuda rogou agouro feio: quem ali habitasse sem demora bateria as botas. Não é que a urucubaca pegou nos três primeiros moradores oficiais? Mas será que no caso de uma estadia curta o esconjuro também se cumpriria? A preocupação dos belo-horizontinos era com os reis da Bélgica, que estavam para chegar à cidade, hospedando-se


no palácio. Tudo deveria estar nos trinques, incluindo os jardins. Acontece que a praga se revelou outra. Os jardins da praça da Liberdade haviam sido redesenhados há pouco. Não havendo tempo para plantar grama, o jornalista Gustavo Pena sugeriu que se plantasse alpiste, erva de crescimento rápido, e que de quebra daria um vistoso verde. O resultado foi brilhante, mas foi também como “osso atirado aos cães” – uma festa para os pardais. Colibrizou tanto passarinho naquela fartura que atapetaram a praça num instantim.

Letras na terra do pão de queijo Belo Horizonte sempre procurou estar na vanguarda da cultura. O jornalista mineiro Humberto Werneck conta em O Desatino da Rapaziada que, “em menos de 25 anos de vida, a cidade viu brotarem nada menos de 160 publicações, e, em 1930, passava de 200 o números de jornais”. Contudo, para vencer a pasmaceira das noites da capital provinciana no fim dos anos 20, o jovem Carlos Drummond de Andrade escalava os arcos do viaduto Santa Teresa. Ele, o memorialista Pedro Nava e mais o poeta Abgar Renault trocavam, de madrugada, as placas de médicos, advogados, dentistas. E se divertiam mudando letras, como de oculista para ocultista. Como não tem 2 sem 3, Nava e Drummond, uma noite, desejosos de ver as moças da família Vivacqua em camisolas, puseram fogo na casa cujos saraus eles costumavam frequentar. “Eles mesmos se apressaram em apagar o começo de incêndio, e teriam passado por heróis se um guarda noturno não tivesse testemunhado a cena”, conta Werneck. “Pequenos incendiários sem tutano”, diria Drummond mais tarde. Dora, uma das irmãs Vivacqua, foi para o Rio de Janeiro e fez sucesso como a explosiva dançarina Luz del Fuego. Teria sido influenciada pelas traquinagens dos desatinados rapazes? Duas décadas mais tarde, entre os colaboradores da revista literária Edifício, liam-se artigos de Autran Dourado, Sábato Magaldi, Chico Pontes e do historiador Francisco Iglésias, para citar apenas alguns. Essa turma jovem não escalava o viaduto nas madrugadas, mas alguns deles, nus em pelo, banhavam-se nos laguinhos da praça da Liberdade. Tá feito, pois, o convite para arruar por Belo Horizonte, seguindo os passos dessa rapaziada impertinente. Inclua também no roteiro uma parada na rua Bahia, onde ficava a sede da maioria dos jornais, os cafés e a Academia Mineira de Letras. Guimarães Rosa, outro dos bons escritores mineiros, é ainda mais categórico: “O senhor vá lá e verá. Os lugares estão aí em si para confirmar”.

Preste atenção Quem sabe se o leitor mergulhar na atmosfera de Beagá possa decifrar o modequê tanto escritor, poeta, cronista, contador de histórias, romancista e jornalista ter nascido por lá. Será o queijo do Serro ou da Canastra? A goiabada, o bolo de fubá, as brevidades ou as mentirinhas? Ou quem sabe a “branquinha” pura ou o feijão tropeiro? Sim, porque todo mineiro coloca a comida em qualquer conversa. Serão as montanhas ou porque ele tem alma barroca? Talvez a lonjura do mar ou mais simplesmente porque todo mineiro é um grande devorador de livros. Quem sabe?

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Belo Horizonte tem mais

Não deixe de provar Biblioteca Pública

O traço inconfundível de Niemeyer está presente nas curvas da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, inaugurada em 1961. Destaque para a coleção Mineiriana, com obras produzidas por escritores mineiros ou que tratam de assuntos de Minas. Há também raridades, como as primeiras edições autografadas de livros de Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa.

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Quarteto em bronze

O nome na fachada – Doces de Portugal – já põe a boca aguando. Nas vitrines, como resistir ao papo de anjo? Ou ao macio travesseiro de Sintra? E o que escolher? O enrodilhado ninho de ovos ou a cheirosa queijada de amêndoas? Estes doces também mostram o quanto da arte da doçaria conventual lusitana foi parar na panela dos quitutes mineiros.

Como chegar A TAM oferece voos diários para Belo Horizonte, saindo dos principais aeroportos brasileiros. Confira em www.tam.com.br. Onde ficar Bristol Merit Hotel • Localizado na área central da cidade, próximo ao imperdível mercado, o hotel oferece saboroso café da manhã com variedades de queijo mineiro. Fone: (31) 3508-8500. www.bristolhotels.com.br. Bristol La Place • Outra boa opção de hospedagem em Belo Horizonte, o hotel oferece suítes com sala de estar e minicozinha. Fone: (31) 3481-5122. www.bristolhotels.com.br. www.almanaquebrasil.com.br

Na fachada da biblioteca, esculturas representam os amigos e escritores mineiros conhecidos como “os quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse”: Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino, que nos bancos da Praça da Liberdade punham-se a “puxar angústia”, expressão que criaram para definir suas prosas sobre temas existenciais.

Livrarias da Savassi

As livrarias do bairro Savassi são ótimos pontos de encontro – seja para beber café, prosear ou folhear as últimas novidades. Por lá há a Quixote e a Livraria da Travessa. E também o Café com Letras, com espaço mais intimista – quase uma biblioteca de um amigo mineiro.

Onde comer Kobes • É um dos participantes e vencedores do evento Comida di Buteco. Uma vez por lá, prove o Chic-ló, jiló à parmegiana com guisado de carne e purê de batata. Para acompanhar, à casa oferece 300 títulos de cachaça mineira. R. Prof. Raimundo Nonato, 31A. Fone: (31) 3467-6661. Sorriso • Risoteria que oferece saborosas e delicadas combinações, como arroz com capim limão e peixe branco, ou com queijo brie, alho poró e azeite de ervas. R. Curitiba, 2307. Fone (31) 3653-2023. www.sorrisorisoteria.com.br.


informe institucional “Aquele que tem caridade no coração tem sempre qualquer coisa para dar.” Santo Agostinho

A: D I V À OIO AP PONTOS QUE PODEM

R A V L A S DE CURAR ANTES

O Programa Apoie uma Vida foi instituído pela FEBEC com base na observação e no sucesso de ações desenvolvidas junto a pacientes com câncer tratados e acompanhados pelo Hospital Amaral Carvalho, em Jaú, interior de São Paulo, fundação filantrópica e referência no tratamento ao câncer, com o diferencial do apoio biopsicossocial avançado. Tais ações conseguem – por meio do voluntariado e de um trabalho solidário – curar ou proporcionar sobrevida com qualidade aos pacientes de câncer. Conheça os cinco pontos fundamentais para o sucesso no tratamento. São atividades que envolvem o doente, seus familiares e a comunidade. É preciso entender, saber o que acontece, informar-se e tentar viver melhor. É preciso manter-se forte se a doença atingi-lo ou alguém mais próximo. É preciso sobreviver para poder um dia dizer que o câncer não é mais uma sentença de morte.

Educação: Difusão de informações que estimulam a adoção de boas práticas de vida, bem como conhecimentos atualizados; Prevenção: Adoção de hábitos e mecanismos que evitem determinados tipos da doença, como câncer de boca, de pele, de colo de útero, de mama, de próstata, de pulmão e outros; Diagnóstico precoce: Desenvolver e dar condições ao hábito de realização de exames periódicos com vistas à detecção mais rápida e precoce, o que aumenta as possibilidades de cura; Acesso ao tratamento: Rapidez e agilidade de acesso do paciente, respeitando o direito fundamental ao tratamento imparcial e justo; Apoio biopsicossocial: Ações de assistência social fundamentais aos pacientes. Acesso ao tratamento, à estadia com alimentação, suporte de equipes multidisciplinares, entretenimento e acompanhamento em suas cidades de origem, garantindo-lhes o necessário, com cestas básicas, frutas, verduras, legumes, suplementos alimentares, transporte e outras necessidades, de forma que apoiem a continuar o tratamento adequado.

não conhecia a febec?

Boneca que reproduz as etapas de tratamento oncológico usada no Amaral Carvalho. A intenção é ajudar as crianças a entenderem seus próprios tratamentos.

A FEBEC – Federação Brasileira de Entidades de Combate ao Câncer é uma instituição composta por dezenas de ligas e organizações voluntárias de apoio aos pacientes carentes com câncer, espalhadas por vários estados brasileiros. Você precisa saber que é de 12,4% o índice de cura e sobrevida registrado nas cidades atendidas pelas ligas de combate ao câncer. Ao assinar o Almanaque Brasil , mencione a FEBEC. Assim, você já colabora diretamente com as mais de 50 ligas de voluntários associados em todo o País. Custa pouco. E a luta pela vida ficará mais suave.

Participe! Faça doações, compareça! Acompanhe. Próximos Circuitos já agendados de leilões beneficentes Febec, em prol do Hospital Amaral Carvalho: Taquarituba, 21/04; Guaiçara, 28/04; Presidente Epitácio, 29/04; Bauru, 6/5; São Carlos, 27/5; Rancharia, 10/6; Coxim, 1/7; Santa Cruz do Rio Pardo, 15/7; Dois Córregos, 22/7. Informações: (14) 3602-1201, com Eduardo Piragino.

Ajude. Saiba mais. Saiba como. FEBEC • www.febec.org.br • Fones: (14) 3602-1108 / (14) 3602-1101


ABACAXI Ananas sativus

Excelente e cheiroso É um dos mais apreciados frutos tropicais, batizado pelos índios com nomes que remetem a sua excelência e seu perfume. Levado por Colombo das Antilhas à Europa, agradou tanto ao rei Luís 14, que ele mandou plantar nas estufas do palácio de Versalhes.

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a movimentada esquina da avenida Paraguassu, a principal do elegante bairro de Atlântida, deparamos com um caminhão carregado de abacaxi – um dos inúmeros que se vê pela orla de Xangri-Lá, no litoral norte gaúcho. Ele estaciona ali de manhã e se vai à tardinha. Quem toma conta é Adílio Ribeiro, de 30 anos, e seu sobrinho Wesley Dias, de 13. Abacaxi está na vida deles desde o berço. Há meio século, o pai de Adílio para cá trazia seus frutos em carro-de-boi. Prolífico homem: Adílio tem quinze irmãos. Todos criados graças ao abacaxi – e à mandioca, esta plantada na entressafra daquele: o abacaxi em setembro/outubro e colhido em 30 meses; a mandioca, plantada no inverno e colhida em 6 meses – tudo vendido nos municípios vizinhos. O abacaxi de Adílio é do tipo pérola pequeno, vendido à base de três por dez reais – ou quatro se for do menorzinho. Saem mais de cem peças por dia. A família toca seis hectares num muni- cípio vizinho de 10 mil habitantes cujo nome denota a vocação: Terra de Areia. É de solo arenoso que o abacaxi gosta. E dos ensolarados trópicos. Os indígenas já o cultivavam na futura América tropical

e subtropical, das atuais Antilhas até o Paraguai, nordeste da Argentina e a região brasileira que ora visitamos. E foi Colombo quem, em 1493, conheceu o abacaxi na ilha de Guadalupe, dando início à carreira internacional de uma das frutas mais apreciadas no mundo. Certo padre Dutertre o chamou de rainha das frutas, “já que está cingida por uma coroa”. Chegou à Espanha em 1535 e mais tarde à França. Luís 14, o Rei Sol, saboreava os seus colhidos nas estufas do palácio de Versalhes. Sabe-se que, no meio do século 19, servia-se o fruto guarnecido com a coroa na sobremesa dos banquetes. Intuía-se, quem sabe, que ele é um coadjuvante da digestão. Como bem saberão, século e meio depois, os agricultores de Terra de Areia. Eles todos se conhecem. A cinco quadras de Adílio, seu primo Ezequiel Pereira, 22 anos, estaciona a camionete no meio-fio. Os dois moços concordam quando perguntamos para quê o abacaxi faz bem, além de ser uma delícia geladinho no verão: “É bom pra digestão”, diz Adílio. Seu primo acrescenta: “Por exemplo: comeu carne de porco e não se sentiu bem? Come abacaxi que vai se sentir melhor”.


O fruto na vida de ilustres personagens

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Estrela da família Bromeliácea

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armen Miranda coroava o traje típico com um turbante encimado por um abacaxi. Era sorvete de abacaxi a sobremesa favorita de Gilberto Freyre – “mais saboroso que a própria fruta”. Em Educação Sentimental, Flaubert põe sua personagem pedindo salada de abacaxi num restaurante. Manuel Botelho de Oliveira, nosso primeiro poeta, assim o louvou: É muito mais que o pêssego excelente / Pois lhe leva aventagem gracioso / Por maior, por mais doce e mais cheiroso.

Para comer melhor

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stá no ponto se, puxando uma folha da coroa, ela sair na mão; ou se a base estiver macia ao toque. São menos ácidos os abacaxis que têm espinhos nas folhas da coroa. Injete o suco na carne, com uma seringa, ou regue-a antes de assar: fica mais macia. Não dispense miolo e cascas. Fervidos com água, esfriados e gelados, resultam em delicioso suco. Prove in natura na salada, ou assado em fatias junto com carne de porco, peixes, crustáceos e aves gordas. De sobremesa, garante uma boa digestão. abacaxizeiro é a mais importante planta dentre as bromeliáceas e tem muitos parentes ornamentais, como as bromélias. As duas palavras que o designam vêm do tupi-guarani: ananas, fruto excelente; avakachi, fruto cheiroso. Na verdade, ele é uma infrutescência: cada gominho, uma fruta independente. Pode-se consumir in natura, como compota, suco, geleia, sorvete, musse, torta. Tem grande valor nutritivo. Contém vitaminas A (bom para pele, mucosas, dentes); B1 (sistema nervoso, músculos, coração); B2 (tecidos, pele, olhos) e C (antiinfecciosa, cicatrizante). É rico em potássio, que regula a pressão e fortalece os músculos. Um de seus principais benefícios para o organismo vem da ação da bromelina, enzima semelhante à papaína do mamão, que “desdobra” proteínas e mucoproteínas, portanto facilita a digestão e a expectoração. Atua no combate à bronquite, infecções da garganta, prisão de ventre, depressão, anemia, arteriosclerose, reumatismo, artritismo, pedras nos rins; doenças da próstata, bexiga e uretra.

Reproduçåo

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SAIBA MAIS A Canja do Imperador, de J. A. Dias (Companhia Editora Nacional, 2004). As Frutas na Medicina Doméstica, de Alfons Balbach (Edificação do Lar, s/d). História da Alimentação no Brasil, de Luis da Câmara Cascudo (Global, 2004).

Consultoria: nutricionista Aishá Zanella (aishazanella@hotmail.com)

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Palestra urgente

Altas horas da madrugada, o guarda vê um carro ziguezagueando pela rua e o manda encostar. Mal o motorista para, já dá para sentir o cheiro de álcool. – Olá, cidadão. Aonde o senhor está indo? – Boa-noite, seu guarda. Estou me dirigindo a uma palestra sobre os efeitos do álcool no corpo humano e a necessidade de uma boa noite de sono. – Sei, senhor. E quem vai dar a palestra a essa hora da noite? – Minha esposa.

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Computador novo

O sujeito liga para o suporte técnico para instalar o novo computador. O atendente pede que a máquina seja iniciada e quer saber: – O que o senhor vê do lado direito da tela? – O mesmo de antes, uma janela e um vaso de violeta.

Causos de

Rolando Boldrin

Presente pro doutor Um amigo meu, lá do interior, encontrou um camarada nosso no meio da cidade grande. E aí, sabe como é: caipira fica numa animação só quando encontra conterrâneo em cidade distante. Ficaram lá os dois, proseando, jogando conversa fora e contando causo pra matar a saudade. Um deles aproveitou que tinha intimidade com o amigo e foi pedir um conselho. Caipira 1: Rapaz, tô com um problema sério. Conhece minha muié, não conhece? Pois então. Ela tá trabalhando faz muito tempo com um deputado. Um deputado muito importante, tá muito bem de vida. Todo ano o deputado dá um presente pra ela. Teve um ano que deu um cadilaque! Caipira 2: Ah, é? Puxa, um cadilaque! Caipira 1: Pois é, rapaz. No outro ano, deu um casaco de pele. Depois, uma joia linda, muito elegante. Caipira 2: Um casaco de pele, uma joia... Caipira 1: Apois! E agora vem o problema que eu tô aqui matutando. É que esse deputado tá fazendo aniversário e não sei o que comprar para um hômi bom desse. Ocê que é inteligente, me ajude: o que é que eu posso dar pro doutor? O amigo do caipira nem pestanejou. Caipira 2: Dá uma chifrada nele, uai!

Chuva ao volante

O caipira acaba de chegar à cidade grande e compra seu primeiro carro. Com um baita azar de principiante, depois de estacionar na porta de casa cai uma tempestade daquelas. A esposa grita: – Ô, Zé! A enxurrada está levando seu carro! – Ara, Rosa, ocê num entende nada de tecnologia. A chave tá aqui no meu bolso!

Qual deles?

Dois turistas pescavam no Pantanal. Depois de se afastar do companheiro, um deles começa a gritar: – Um jacaré mordeu meu pé! Apavorado, o amigo tenta descobrir a gravidade da situação: – Qual deles? – E eu vou saber? Jacaré é tudo igual!

Pra ter certeza

O sujeito vai à delegacia prestar queixa: – Minha sogra sumiu. – Há quanto tempo ninguém tem notícia dela? – pergunta o delegado. – Já faz um ano. – E por que o senhor demorou tanto para nos procurar? – É que só agora bateu saudade...


Almanaque Brasil 156 - Abril 2012  

O Almanaque Brasil é um verdadeiro armazém da memória nacional, capaz de promover uma viagem pela história do País, em temas como música, ci...

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