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m fotos recentes, feitas para divulgar o livro Almanaque Brasil – Todo Dia é Dia (Ediouro, 2009), me dei conta do quanto envelheci. A juventude de João Rocha Rodrigues, que divide comigo a organização do livro e o espaço nas fotos, me deu a justa medida da distância entre o começo e o inevitável declínio. Isto, confesso, me perturbou. Reascendeu lembranças de velhas cicatrizes e de amargas recordações da infância. São demônios que, apesar dos esforços, não consigo exorcizar. Demônios que, às vezes, fazem de mim o meu pior inimigo. E quando isso acontece, inconscientemente tento desconstruir tudo que conquistei. A crise causada pelas fotografias durou pouco. Mais uma vez estava sendo injusto comigo. Afinal, a velhice não está separada da vida que a precede. Preciso continuar evitando a cegueira que traz o sofrimento e a burrice, porque nunca me faltou coragem para aceitar as minhas conquistas e o lado bom da vida. Somos todos protagonistas do nosso próprio enredo. E o meu é um sucesso, porque nunca me faltou coragem para enfrentar os desafios e superar sonhos não realizados – muitos deles por minha própria culpa. Não quero mais ser refém de rancores e pessimismos. Serei mais generoso comigo. Quero, isso sim, reconhecer as minhas vitórias e fazer das dores do passado ferramentas para o meu aperfeiçoamento como ser humano. A consciência da finitude que junta e separa tudo que vive não pode ser obstáculo para o meu prazer de viver. Viver por mim e por todas as vidas que amo. Daqui pra frente vai ser assim. Invertendo o pessimismo de um antigo ditado popular, vou me preparar sempre para o melhor.

ARMAZÉM DA M E MÓRIA NAC IONAL Elifas Andreato Bento Huzak Andreato Editor João Rocha Rodrigues Editor de arte Dennis Vecchione Editora de imagens Laura Huzak Andreato Editor contribuinte Mylton Severiano Redatores Bruno Hoffmann e Natália Pesciotta Revisor Lucas Puntel Carrasco Assistentes de arte Guilherme Resende e Paula Chiuratto Assistente administrativa Eliana Freitas Assessoria jurídica Cesnik, Quintino e Salinas Advogados Jornalista responsável João Rocha Rodrigues (MTb 45265/SP) Impressão Gráfica Oceano Diretor editorial

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Cmte. David Barioni Neto Manoela Amaro Mugnaini Diretor de Assuntos Corporativos Marcelo Xavier de Mendonça Presidente

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O ALMANAQUE é uma publicação da Andreato Comunicação & Cultura, distribuída nos voos da TAM e por assinatura.

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* Adaptação de um verso de Filosofia de Vida, de Martinho da Vila.

Elifas Andreato

Envelhecer ainda é a única maneira que se descobriu de viver muito tempo.

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Charles Sainte-Beuve (1804-1869), crítico literário francês

nossa capa

Aumente seu nível de brasilidade E ainda ganhe pontos para viajar

Rico Lins

DIVULGAÇÃO

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Dores passadas não me doem mais*

O carioca Rico Lins é considerado um dos mais talentosos designers brasileiros. Notabilizou-se por seu estilo híbrido, valendo-se tanto de técnicas tradicionais, como gravura e colagem, quanto de digitais. Formou-se em Comunicação Visual em 1979, época em que colaborava com jornais alternativos como Opinião e Pasquim. Decidiu continuar os estudos em Paris. Criou ilustrações para Le Monde e Libération, entre outros veículos. Também desenvolveu projetos para livros infantis. Logo depois, nova mudança: Nova Iorque. Era o novo diretor de arte da CBS Records. Desenvolveu trabalhos para MTV, Polygram, Times, The Washington Post e The New York Times. Rico voltou ao Brasil em 1995, onde permanece criando ilustrações para livros e veículos de comunicação, como o ALMANAQUE deste mês. É também professor do Istituto Europeo di Design.

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ILUSTRAÇÕES PAULA CHIURATTO

SOLUÇÃO NA P. 26

le nasceu num morro carioca em 1941. Estudante de colégio interno, saiu com diploma de ajustador mecânico. Depois entrou na Força Aérea Brasileira, onde ficou oito anos – ao mesmo tempo em que dava os primeiros passos na música. A alma de artista falou mais alto, e fundou o grupo Os Sete Modernos do Samba, mais tarde batizado Os Originais do Samba. Com repertório de partido alto e boas pitadas de humor, logo fizeram sucesso. A música mais conhecida conta a história de um crime marítimo: Assassinaram o camarão / Assim começou a tragédia no fundo do mar... A primeira excursão pelo exterior aconteceu em 1962. Passaram sete meses no México, sofrendo alguns perrengues financeiros. Às vezes reclamava em portunhol: “Yo tengo fueme”.

Carismático, foi convidado a participar de programas de tevê. Num primeiro momento, recusa, porque “pintar o rosto para aparecer na telinha não é coisa de homem”. Mas depois aceita, e estreia no programa Bairro Feliz, da Globo. Nos bastidores, ganha de Grande Otelo o apelido com o qual se tornaria conhecido, inspirado numa espécie de peixe. Mas a fama veio mesmo ao aceitar o convite de um amigo para integrar um quarteto humorístico. Foram 25 anos de sucesso, com direito a programas semanais e 27 filmes. Morreu em 29 de julho de 1994, após um transplante de coração. Diziam que era o único do grupo que não fazia esforço para ser engraçado. Notabilizou-se por nunca recusar uma branquinha. E também pelo bordão, que soltava quando algo lhe surpreendia: “Cacildis!”. (BH)

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Florianópolis, 7 de julho de 1976. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa se preparam para o show Doces Bárbaros. Mas, horas antes do início do espetáculo, numa batida policial, Gil e o baterista Chiquinho Azevedo são detidos por porte de maconha. Na delegacia, como se vê na foto ao lado, afirmaram ser usuários da droga. “O uso da maconha me auOs músicos foram internados no Instituto Psiquiátrico São José, de onde só sairiam uma semana depois.

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xilia sensivelmente na introspecção mística”, disse Gil. O show foi suspenso.

Julho 2009


9/7/1980

8/7/2002

MORRE VINICIUS DE MORAES. FORMADO EM LETRAS E DIREITO, VIAJOU O MUNDO. ALÉM DE POETA, FOI DIPLOMATA, DRAMATURGO E SAMBISTA.

MORRE O POETA CEARENSE PATATIVA DO ASSARÉ. MESMO TENDO ESTUDADO POUCO, RECEBEU Và RIOS T�TULOS DE DOUTOR HONORIS CAUSA.

Nabuco queria a abolição da escravidão de forma gradual

enigma figurado

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figura ao lado nasceu em 1° de julho de 1946. Formou-se em Direito, mas foi com a música que fez fama. Certa vez, saiu pelo Rio no lombo de um elefante para divulgar um show. Outras tantas encarnou Maurício de Nassau, montado em um cavalo pelas ruas de Olinda. Natural do agreste pernambucano,

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NOVOS RUMOS DA CONSTRUĂ‡ĂƒO

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Advogado virou a casa de cabeça para baixo

filho de Eduardo JosĂŠ Lima ia se formar em VeterinĂĄria. Orgulhoso, o paizĂŁo decidiu montar uma clĂ­nica para o rapaz. Mas nĂŁo podia ser uma clĂ­ nica qualquer. Precisava chamar a atenção da clientela. Da janela de casa, em Belo Horizonte, Eduardo via telhados para todos os lados. Nem todos iguais, mas todos com a cumeeira para cima. Um dia veio o estalo. E assim, num sopro de renovação na arquitetura mundial, surgiram duas casas: uma de â&#x20AC;&#x153;pontacabeçaâ&#x20AC;?, com as telhas para baixo; outra â&#x20AC;&#x153;deitadaâ&#x20AC;?, como se a lateral fosse o teto. O advogado nunca havia se metido numa obra antes, mas investiu na criação. Desembolsou 180 mil reais nos 152 metros quadrados de ĂĄrea construĂ­da, alĂŠm de muita dedicação. Deixou atĂŠ de advogar para assumir integralmente a missĂŁo. O engenheiro responsĂĄvel nĂŁo entendeu muito bem o que o cliente queria. Responsabilizou-se pela parte estrutural e deixou por conta de Eduardo os detalhes: vasos ao contrĂĄrio, portas e janelas tortas, objetos de decoração.

Os projetos de Eduardo: por que os telhados tĂŞm que ficar em cima?

Acontece que o filho de Eduardo, em vez de abrir uma clĂ­nica, decidiu cursar Biologia. ObstĂĄculo que o pai nĂŁo pestanejou em superar. Tratou de construir mais dois cĂ´modos e abrir a casa para eventos. Apesar de nĂŁo cumprir a função original, o espaço chama a atenção. â&#x20AC;&#x153;AtĂŠ mais do que eu imaginavaâ&#x20AC;?, diz o advogado, que nĂŁo se importa nada nada em mostrar a ĂĄrea interna aos visitantes. Recolhe ainda assinaturas numa espĂŠcie de livro de ouro. JĂĄ sĂŁo 12 mil, â&#x20AC;&#x153;e isso porque muita gente passa sem assinarâ&#x20AC;?. (NP)

SAIBA MAIS Veja mais fotos das casas de Eduardo no site do A LMANAQUE . www.almanaquebrasil.com.br

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ACERVO PESSOAL



FUNDAĂ&#x2021;Ă&#x192;O JOAQUIM NABUCO

ACERVO PESSOAL

misturou batidas de maracatu, guitarras, frevo e forrĂł num repertĂłrio Ăşnico, recheado de grandes sucessos.

avia uma divisĂŁo entre os abolicionistas brasileiros do sĂŠculo 19. Uns queriam que a libertação dos escravos fosse feita por meio de revoltas e fugas. Outros defendiam que deveria ser realizada em etapas, de acordo com a lei. Entre os moderados estava Joaquim Nabuco, que em 9 de julho de 1880 criou a Sociedade Brasileira Contra a EscravidĂŁo. Obstinado pela causa, Nabuco passou a incentivar a criação de instituiçþes semelhantes pelo PaĂ­s, valendo-se de suas influĂŞncias como deputado geral por Pernambuco. E assim conquistou o apoio de polĂ­ticos e intelectuais. Em 19 de outubro de 1880, escreve ao ministro abolicionista norte-americano Henry Washington Hilliard para se aconselhar sobre a abolição no Brasil. â&#x20AC;&#x153;Ă&#x2030; um serviço feito a um milhĂŁo e meio de criaturas humanasâ&#x20AC;?, explicou. O ministro sugeriu que o processo durasse sete anos. â&#x20AC;&#x153;Libertados gradualmente da escravidĂŁo, hĂŁo de executar a sua tarefa com contentamento, e deixando de ser uma classe dependente.â&#x20AC;? Ideia convergente Ă de Nabuco. Mas a libertação seria mesmo dada da noite para o dia, oito anos depois. (BH) SAIBA MAIS Leia a Ă­ntegra das cartas entre Nabuco e Hilliard no site do A LMANAQUE .


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o baĂş do BarĂŁo

Com vocĂŞs, Elvis Presley e Little Richard do Brasil

â&#x20AC;&#x153;Um padecimento pesa mais que uma pĂĄ de cimento.â&#x20AC;?

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Nossa homenagem a AparĂ­cio Torelly, o BarĂŁo de ItararĂŠ.

Bandeira paraibana registra a rebeldia de JoĂŁo Pessoa NEGO REPRODUĂ&#x2021;Ă&#x192;O/AB

m 1957, a União SoviÊtica lançou aos ares o satÊlite Sputnik. Foi para calar a boca dos americanos e deixar de boca aberta um certo Tião Maia. Tião vibrou com o lançamento do outro lado do mundo e resolveu lançar no Rio de Janeiro um grupo que voasse alto como o Sputnik. Batizou assim o conjunto, xarå do satÊlite, e reuniu os amigos para os ensaios. Um deles trouxe um tal Roberto, então plebeu, para a vaga de cantor. O capixaba magrinho de Cachoeiro de Itapemirim, assim como Tião, adorava rock. Era fã das baladas de Elvis Presley. Tião preferia o escandaloso Little Richard. Mas, no mesmo compasso, bem que se entendiam. Depois de ser aprovado em um teste na TV Tupi, o The Sputnik participou do programa Clube do Rock, de Carlos Imperial. Mas a apresentação marcou o início do fim. Tião e Roberto bateram boca na porta do estúdio. Sozinho, Roberto procurou Imperial e comentou que tinha talento para majestade. Sabia atÊ imitar Elvis Presley. O apresentador gostou da ideia e convidou o rapaz para um show. Nascia o

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Com violĂľes, Tim Maia e Roberto Carlos.

Elvis brasileiro, Roberto Carlos. TiĂŁo, irritado com o voo solo do colega, decidiu mostrar para Imperial que tambĂŠm tinha estrela. O apresentador encantou-se com o Little Richard tupiniquim. Mas advertiu: para fazer sucesso, nĂŁo podia ser TiĂŁo; tinha que ser Tim, Tim Maia. E assim, com o fracasso do conjunto com nome de satĂŠlite soviĂŠtico, surgiram dois dos nossos maiores astros. (LaĂ­s Duarte)

SAIBA MAIS Vale Tudo: O som e a fĂşria de Tim Maia, de Nelson Motta (Objetiva, 2007).

de quem sĂŁo estes olhos?

O dono destes olhos desistiu da carreira na Aeronåutica quando a babå mandou anunciar pelo microfone do quartel que havia levado bolo pra ele. Nascido em 30 de julho de 1944, Ê economista, cantor, publicitårio. Começou na televisão apresentando um programa inspirado no Pequeno Príncipe. Lançou Os Mutantes. Metrossexual assumido, foi Mãe de Gravata e hoje encanta o público feminino na tevê. Confira a resposta na pågina 26.

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o fim dos anos 1920, reinava ainda a polĂ­tica do cafĂŠ com leite, pela qual paulistas e mineiros revezavam-se na presidĂŞncia da RepĂşblica. Washington LuĂ­s, no entanto, indicou outro paulista para lhe suceder, JĂşlio Prestes. Minas se revoltou, e logo recebeu o apoio do Rio Grande do Sul. TambĂŠm conquistou outro aliado decisivo: a ParaĂ­ba, por meio do governador JoĂŁo Pessoa. Em 29 de julho de 1929, o polĂ­tico enviou um telegrama de protesto ao governo federal. Negava qualquer apoio Ă candidatura de Prestes. NĂŁo foi usada exatamente a expressĂŁo â&#x20AC;&#x153;negoâ&#x20AC;?, mas a palavra ficou como um sĂ­mbolo do acontecimento. Os trĂŞs estados propuseram o nome do gaĂşcho GetĂşlio Vargas, que chegaria ao poder com a Revolução de 1930. JoĂŁo Pessoa morreu naquele ano. Em clima de comoção, a capital foi rebatizada com seu nome. E seus seguidores decidiram registrar o episĂłdio na bandeira do Estado. O verbo â&#x20AC;&#x153;negoâ&#x20AC;? entrou como um sĂ­mbolo da rebeldia paraibana. E, nas cores da bandeira, pintaram o vermelho de sangue e o preto de luto. (BH) SAIBA MAIS Leia a Ă­ntegra do telegrama de JoĂŁo Pessoa no site do A LMANAQUE . Julho 2009

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udo começou quando Biriba, um vira-lata que o jogador MacaĂŠ encontrou na rua, invadiu um jogo em que o Botafogo venceu, em meados de 1948. Bastou para que Carlito Rocha, lendĂĄrio presidente que amarrava cortinas para â&#x20AC;&#x153;prenderâ&#x20AC;? as pernas dos adversĂĄrios, adotasse o cĂŁo como mascote. Biriba passou a viver a pĂŁo de lĂł. Mas tinha lĂĄ suas tarefas, como fazer xixi na perna dos jogadores para dar sorte ou correr atrĂĄs da bola em momentos crĂ­ticos, atrasando a reposição. Teve atĂŠ dirigente de outros clubes querendo sequestrar o talismĂŁ. Para assegurar sua integridade fĂ­sica, MacaĂŠ provava a comida do cachorro antes de ir para o pote, evitando envenenamentos. E nĂŁo adiantou o Vasco proibir a entrada de animais em seu estĂĄdio. Carlito pegou o mascote no colo e esbravejou que ninguĂŠm impediria a entrada do presidente do Botafogo. CoincidĂŞncia ou nĂŁo, o clube sagrou-se campeĂŁo invicto no Campeonato Carioca

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de 1948, após 13 anos sem títulos. Biriba posou na foto oficial do time e ganhou uma coleira de ouro. Era o åpice. PorÊm, tudo o que sobe desce. Os cartolas atÊ que seguiram apostando no potencial do vira-lata. Chegaram atÊ a cortar um jogador para levar o cão numa excursão. Mas a campanha do time foi pífia, e Biriba viu-se condenado ao ostracismo. Entretanto, atÊ hoje o cachorro Ê tido como um dos símbolos do Fogão. No ano passado, o time relembrou a história, lançando o boneco Biriba e escalando o beagle Perivaldo como seu representante. AlÊm de ser alvinegro como o Botafogo, Perivaldo tem uma curiosa marca de nascença nas costas: uma solitåria estrela (NP) branca, como o brasão do clube.

SAIBA MAIS Botafogo: Entre o cĂŠu e o inferno, de SĂŠrgio Augusto (Ediouro, 2004).

LeĂŁo22-7 a 22-8

Ă&#x2030; comum um leonino ser o centro das atençþes. Se uma vontade sua nĂŁo for aceita espontaneamente, ĂŠ capaz de lutar com unhas e dentes para impĂ´-la. Se quiser agradar um leonino, basta elogiĂĄ-lo. Ele pode parecer arredio Ă primeira vista, mas esbanja simpatia quando se sente seguro. O descaso ĂŠ algo que nĂŁo suporta. Faz questĂŁo de ser sempre um bom exemplo.

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Santa Natålia Viveu durante a ocupação muçulmana em Córdoba, em meados dos anos 800. Temia pelos filhos pequenos, caso fosse descoberta cristã e levada ao martírio. Depois de deixå-los em um mosteiro, resolveu enfrentar os maometanos, aparecendo sem o vÊu. Foi condenada e morreu decapitada.


Fases da Lua



FOTOS JOĂ&#x192;O GARRIDO

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1 . 2 . 3 . 4 . 5 . 6 . 7 . 8 . 9 . 10 . 11 . 12 . 13 . 14 . 15 . 16 . 17 . 18 . 19 . 20 . 21 . 22 . 23 . 24 . 25 . 26 . 27 . 28 . 29 . 30 . 31

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odos os anos o ritual se repete. Pouco a pouco, em algum restaurante de Santa BĂĄrbara dâ&#x20AC;&#x2122;Oeste, na regiĂŁo de Campinas, os sĂłcios vĂŁo chegando. A data ĂŠ sempre a mesma, 24 de junho, nĂŁo importa em que dia da semana caia â&#x20AC;&#x201C; por causa do santo do dia, obviamente. O Clube dos JoĂŁos nĂŁo cobra mensalidades, dispensa obrigaçþes societĂĄrias e estĂĄ sempre aberto a novas adesĂľes. Carteirinha tambĂŠm nĂŁo hĂĄ. Para participar, basta carregar o nome na identidade. A fundação data de 1985, quando seis xarĂĄs decidiram promover um encontro exclusivo. Juntaram 33 JoĂŁos, contando os mĂşsicos que se apresentaram. Ano a ano, a confraria foi ganhando corpo. O recorde aconteceu em 1986: 160 presentes. O clube ĂŠ liberal. Aceita JoĂŁo de tudo que ĂŠ jeito: JoĂŁo Paulo, JoĂŁo Fernando, JoĂŁo Pedro, JoĂŁo sĂł. NĂŁo hĂĄ notĂ­cia, entretanto, de alguma Maria JoĂŁo que tenha requisitado filiação. Na Ăşltima edição, o mais velho tinha 88 anos; o mais novo, alguns meses. Para animar as reuniĂľes, os organizadores promovem sorteios de brindes e concursos. Ganha prĂŞmio o JoĂŁo que veio de mais longe; o que mais JoĂŁos arregimentou; o que tem mais JoĂŁos na famĂ­lia. Levam para casa canetas, bonĂŠs, camisetas, chaveiros. Tudo estampado com o sĂ­mbolo da agremiação: uma casinha de JoĂŁo de Barro. Contrariando a vocação segregativa, o presidente JoĂŁo Antonio Martini Junior â&#x20AC;&#x201C; 14 anos de sĂłcio, trĂŞs Ă frente do clube â&#x20AC;&#x201C; trata de abrir as portas da confraria para a reportagem. Mas sĂł porque o repĂłrter se chama JoĂŁo. (JoĂŁo Rocha) SAIBA MAIS No site do A LMANAQUE , confira o hino e as fotos da Ăşltima reuniĂŁo do Clube dos JoĂŁos. www.almanaquebrasil.com.br

DOS TEMPOS DA MONARQUIA

Banda da Lapa ĂŠ mais velha do que a RepĂşblica!

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oda sexta-feira, a mĂşsica toma conta do bairro da Lapa, em SĂŁo Paulo. Na batuta da banda hĂĄ quatro anos, o maestro Nestor Pinheiro rege marchas e dobrados, mas os acordes jĂĄ soavam muito antes. Quando o Brasil ainda era um menino recĂŠm-saĂ­do da barra da saia de Portugal, a banda desfilava cançþes em festas religi osas pela cidade. Foi fundada em 1881. O uniforme ainda ĂŠ o mesmo, com fardas e quepes azuis para os mĂşsicos, que tĂŞm de 80 a 8 anos. Muitos instrumentos, partituras e a sede da corporação tambĂŠm continuam iguais. Com o correr dos anos, sĂł mesmo o nome mudou. Nasceu Corporação Musical Lyra da Lapa. Com a Proclamação da RepĂşblica, em 1889, novo batismo: Banda 15 de Novembro da Lapa. E novos problemas. O maestro conta que, na primeira apresentação que a banda fez com esse nome, os mĂşsicos encontraram alguns monarquistas inconformados com a RepĂşblica e a nova alcunha do tradicional conjunto. As divergĂŞncias polĂ­ticas viraram confusĂŁo musical. Muitos instrumentos se perderam no quebraquebra. Para respeitar os ideais de todos, nova mudança: a banda passou a ser Corporação Musical OperĂĄria da Lapa, assinatura que conserva atĂŠ hoje. Mas quando soa o trompete e o bumbo marca o compasso alegrando as ladeiras lapeanas, o povo logo se esquece do nome pomposo: â&#x20AC;&#x153;LĂĄ vem a banda da Lapa!â&#x20AC;?. (LD) SAIBA MAIS Confira no site do A LMANAQUE mais fotos da banda, o local e os horĂĄrios dos ensaios. Julho 2009

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ASSOMBRO DOS ASSOMBROS

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As Exmas famílias desta capital encontrarão um salão de espera digno de sua recepção e [imaginem só] iluminado à luz elétrica.” Todo o luxo ficava na mais requintada casa de espetáculos do Rio de Janeiro. O Salão de Novidades Paris, primeira sala fixa de cinema do Brasil, exibia cenas de dança e do cotidiano – um homem comendo melancia, por exemplo. Foi inaugurada em 30 de julho de 1897, menos de dois anos depois do surgimento do cinema na França. Os jornalistas que estiveram na seção inaugural escreveram que “o aparelho funcionou perfeitamente, agradando bastante”. A tecnologia era o animatógrafo, invento

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Nossa primeira sala de cinema tinha até luz elétrica dos irmãos Lumière. Por isso, a propaganda do salão na Folha da Tarde, a mesma que descrevia a sala de espera, começava assim: “Salve Século 19, Salve Animatógrafo Lumière – A última palavra do engenho humano. Pinturas ouvirem, chorarem, morrerem, com tanta perfeição e nitidez, como se Homens, Animais e Coisas Naturais fossem, é o (NP) assombro dos assombros”.

SAIBA MAIS Confira notas jornalísticas e propagandas sobre o Salão de Novidades Paris no site do ALMANAQUE. 10

CAPITÃO DO POVO

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Até Neruda se acotovelou para ouvir Prestes no Pacaembu

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estádio do Pacaembu, em São Paulo, estava lotado em 15 de julho de 1945. Mais de 100 mil pessoas se acotovelavam para ouvir o líder comunista Luís Carlos Prestes, recémlibertado da prisão imposta por Getúlio Vargas nove anos antes. O Partido Comunista Brasileiro vivia um raro período de legalidade, e aproveitou a ocasião para promover o grande evento. O discurso de Prestes hipnotizou o público, que só o interrompia para calorosos aplausos.

“Organizemos as grandes massas trabalhadoras da cidade e do campo, fazendo uso das armas da democracia, livre discussão, livre associação de ideias e sufrágio universal”, conclamou. Entre os convidados, o poeta chileno Pablo Neruda, que leu um poema em homenagem a Prestes: “Peço silêncio à América da neve ao pampa / Silêncio: com a palavra o Capitão do Povo / Silêncio: que o Brasil falará por sua boca”. Dois anos depois, o PCB voltava à ilegalidade. (BH)

SAIBA MAIS No site do ALMANAQUE, confira um vídeo com cenas do discurso de Prestes. www.almanaquebrasil.com.br

1 Dia Internacional do Cooperativismo 2 Dia Nacional do Bombeiro 3 Dia do Algodão 4 Dia do Operador de Telemarketing 5 Dia do Papa 6 Dia Estadual da Fauna (RJ) 7 Dia da Paneleira 8 Dia do Padeiro 9 Dia do Sonhador 10 Dia Mundial da Lei 11 Dia Mundial da População 12 Dia do Engenheiro Florestal 13 Dia do Engenheiro Sanitarista 14 Dia Universal da Liberdade 15 Dia Internacional do Homem 16 Dia Nacional do Comerciante 17 Dia de Proteção às Florestas 18 Dia Nacional do Trovador 19 Dia da Caridade 20 Dia de Padre Cícero 21 Dia do Trabalhador Doméstico 22 Dia do Cantor Lírico 23 Dia do Guarda Rodoviário 24 Dia do Calouro 25 Dia do Escritor 26 Dia dos Avós 27 Dia do Motociclista 28 Dia do do Agricultor 29 Dia da Identificação 30 Dia do Leonismo Rondoniense 31 Dia Mundial do Orgasmo

estação colheita O que se colhe em JULHO

Abacate, coco, kiwi, lima, mandioca, mexerica, morango, pera, tomate.


ACERVO FAMĂ?LIA

Sylvio dormiu, namorou, casou e teve filhos na kombi

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ACERVO PESSOAL

HĂ 48 ANOS NA FAMĂ?LIA

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ransportar fogĂľes e geladeiras pela cidade de SĂŁo Paulo na dĂŠcada de 1960 nĂŁo era fĂĄcil. Na ĂŠpoca, o jovem Sylvio Gubitoso botava as entregas na carreta e acelerava a lambreta. Isso atĂŠ conhecer a kombi verde-areia. Ele se apaixonou. Tratou logo de comprar uma, 1ÂŞ sĂŠrie, modelo 1961. Para garantir que ninguĂŠm fizesse mal ao carro, que passava a noite estacionado na rua, o rapaz dormia dentro da kombi. Sobre quatro rodas, Sylvio tomou coragem e pediu em namoro uma italiana sem igual: Silvana Beruzzetto. A corte aconteceu na kombi. E foi ela mesma que conduziu a noiva de vĂŠu e grinalda Ă igreja dois anos depois. A lua de mel foi perto de RibeirĂŁo Preto, e para lĂĄ o casal seguiu feliz. De kombi, claro. Foi ela

tambĂŠm que levou dona Silvana ao hospital no nascimento dos filhos. Um carro fiel atĂŠ nas aventuras do dono: certo dia, a kombi estragou sobre o trilho do trem. Ajudado pelos operĂĄrios da ferrovia, Sylvio conseguiu inverter o carro, estreito de nasc imento, e permitir a passagem dos vagĂľes. A kombi rodou com a famĂ­lia Gubitoso pela Argentina, Paraguai, Uruguai. No volante dela, filhos e sobrinhos de Sylvio aprenderam a dirigir. O dono morreu em 1986, sem nunca abandonar a companheira de asfalto. Desde entĂŁo, dona Silvana mantĂŠm a kombi na garagem, com farĂłis e bancos originais. Aos fins de semana, o carro quarentĂŁo leva a famĂ­lia para passear e arranca (LD) elogios por onde passa.

Acesse o site do A LMANAQUE e assista a impagĂĄveis comerciais da kombi.

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ressĂŁo

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um relacionar Entre 1500 e 1600 era com sição a expressĂŁo a qualquer po em â&#x20AC;&#x153;segurava qu is, po De . vel rtĂĄ desconfo triângulo velaâ&#x20AC;? era a amante em um de hoje, l uia amoroso. Na fala coloq casal. A um ha an mp designa quem aco França da te ien ven pro expressĂŁo seria eram os gad pre em do an medieval, qu inar ilum para obrigados a segurar velas es. trĂľ pa s seu de as atividades cotidianas

HistĂłrias de taxista foram parar nas bancas, livrarias e internet

ACERVO PESSOAL

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Sylvio, ao lado do inseparĂĄvel veĂ­culo.

requentemente o taxista Mauro Castro levava o editor de um jornal de Porto Alegre por viagens pela cidade. A conversa girava em torno de literatura e da vida de taxista. De tanto ouvir histĂłrias inusitadas, o jornalista incentivou Mauro a passĂĄ-las para o papel. Ao receber a primeira crĂ´nica, impressionou-se com a qualidade dos escritos, e convidou-o para ser colaborador do jornal.

MĂşsico amador, ex-desenhista publicitĂĄrio e taxista hĂĄ 25 anos, o gaĂşcho de 46 anos explica que a inspiração costuma vir de histĂłrias reais, esboçadas literalmente ao volante do automĂłvel â&#x20AC;&#x201C; usa os panfletos dados em semĂĄforos para escrever praticamente todos os textos. â&#x20AC;&#x153;O meu sucesso se deve Ă quantidade de histĂłrias absurdas que me rodeiamâ&#x20AC;?, explica. Na coluna semanal e no blog que mantĂŠm, o Taxitramas, jĂĄ comentou sobre a dentista que o fez ir ao cemitĂŠrio comprar arcadas dentĂĄrias, da mulher que mandou tocar para o motel para flagrar a traição do marido e do medo que passou ao tentar devolver o celular a um padre. Num outro texto, contou os papos que deve ter conforme o perfil do passageiro: â&#x20AC;&#x153;Por vezes, sou capaz atĂŠ de fingir interesse, como se estivesse escutando pela primeira vez o assuntoâ&#x20AC;?. O sucesso levou-o a publicar um livro. Com a edição quase esgotada, jĂĄ pensa num segundo volume. â&#x20AC;&#x153;Em um paĂ­s onde muitos escritores correm o risco de acabar ao volante de um tĂĄxi, este humilde taxista transita na contramĂŁoâ&#x20AC;?, costuma dizer. (BH)

SAIBA MAIS Taxitramas: DiĂĄrio de um taxista, de Mauro Castro (Sulina, 2006). Blog de Mauro: taxitramas.blogspot.com Julho 2009

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Qual é rangolé? o pa

Por Natália Pesciotta

FOLHA IMAGEM

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Atento às questões do País, mas ligado na produção contemporânea mundial, Hélio Oiticica extravasou os limites da arte nacional. Inventou os Parangolés. Os Bólides. Os Penetráveis. Inventou a Tropicália. “Só existe o grande mundo da invenção”, disse uma vez – mundo onde a arte escapa do quadro, ocupa o espaço, é o “exercício da liberdade”. Morreu cedo. Viveu para entender qual é o parangolé.

io de Janeiro, 1965. Hélio Oiticica é impedido de apre apresentar seus Parangolés nas dependências do Museu de Arte Moderna, durante a exposição Opinião-65. A bateria e os passistas da Mangueira fariam algazarra demais. O jeito foi mostrar o trabalho do lado de fora, para alegria dos críticos, artistas e público. Parangolé quer dizer conversa fiada, lábia. No Rio dos anos 1960, “Qual é o parangolé?” era gíria para perguntar as novidades. Sabe-se lá por que, lia-se a expressão num pedaço de juta na casa improvisada de um mendigo. A cena marcou Hélio a ponto de ele nomear assim o projeto que estava desenvolvendo. Tratava-se de um conjunto de capas simples, que só revelavam todas as cores, texturas e formas quando vestidas e movimentadas por alguém. Arte, para ele, era isso. Extrapolava o quadro. Hélio achava que as pessoas tinham que interagir com a obra, em vez de apenas

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apreciá-la. E que, fundida com a vida, a arte transformava o cotidiano em espaço de expressão. O caminho só podia ser a experimentação, “exercício pleno da liberdade”. “Só existe o grande mundo da invenção”, dizia.

Organizador do delírio

Hélio não começou o percurso no experimental puro. Para contar a história pelo início, voltemos a 26 de julho de 1937, seu nascimento no Rio de Janeiro. O pai, José Oiticica Filho, era cientista e envolvido com o Construtivismo brasileiro. Havia também a influência anarquista de José Oiticica, o avô. Hélio começou a estudar pintura quando adolescente, naquele mesmo Museu de Arte Moderna. O professor era Ivan Serpa, artista de vanguarda que o iniciou no Grupo Frente. Lá conheceu Lygia Clark e passou a trabalhar formas geométricas em guache. Mais tarde os dois ingressariam no Grupo Neoconcreto.


Caetano Veloso gravava seu primeiro disco solo. Ainda não tinha título para a música de abertura, sua preferida. “Bota Tropicália”, sugeriu Luís Carlos Barreto Hélio então decidiu expandir as fronteiras. Fez a série Invenções, constituída por espécies de móbiles. Criou objetos, os Bólides – basicamente, caixas de vidro, madeira e plástico, pintados ou preenchidos por diferentes tipos de coisas. Junto a tudo que fazia, formulava Programas, lúcidas teorias. Haroldo de Campos dizia que Hélio era o “organizador do delírio”.

Flash Gordon nacional

Talvez o bólide mais famoso seja o B33 Bólide caixa 18, Homenagem a Cara de Cavalo, de 1966. O homenageado era um bandido da favela da Mangueira, morto pela polícia carioca após supostamente ter matado um delegado. Hélio conhecia Cara de Cavalo, pois frequentava a Mangueira desde 1964. No episódio dos sambistas no museu, havia sido chamado de Flash Gordon nacional. “Não voa nos espaços siderais. Voa através das camadas sociais ”, poetizou um dos organizadores da exposição. Só que, como mediador social, Oiticica desdenhava da adoração ao folclore: “Toda a parafernália cultural-patriótico-folclorista-nacional é opressiva”. Para ele, a cultura não podia ser uma tradição fechada. Da mesma forma, não via barreiras entre cultura popular e erudita, ou entre o antigo e o novo.

E viva a bossa sa sa

Posteriores aos Bólides, os Parangolés e os Penetráveis transformaram definitivamente os espectadores em participantes da experiência artística. Os Penetráveis eram labirintos repletos de elementos e cores. Um desses ambientes evocava a arquitetura de uma favela, em um “grito do Brasil para o mundo”. Hélio chamou-o Tropicália. Enquanto isso, Caetano Veloso gravava seu primeiro disco solo. Ainda não tinha título para a música de abertura, sua preferida. “Bota Tropicália”, sugeriu Luís Carlos Barreto, fotógrafo de filmes de Glauber Rocha e futuro produtor de cinema. A música lhe remetia à obra de Oiticica, que Caetano desconhecia. Barreto explicou: “É uma coisa maravilhosa.

Um labirinto cheio de plantas e araras onde, depois de atravessá-lo, você encontra uma televisão”. O baiano não gostou muito da sugestão, mas a adotou como nome provisório. Até hoje não encontrou nada melhor. “O monumento é de papel crepom e prata / Os olhos verdes da mulata / A cabeleira esconde atrás da verde mata / O luar do sertão...” A canção virou um manifesto do movimento musical conhecido, desde então, por Tropicália. Hélio, Caetano, Tom Zé, Gil e Os Mutantes, entre outros, tinham uma visão convergente em relação à cultura brasileira: as raízes deviam conviver com o pop, as guitarras, a psicodelia. Além de vestir Parangolés, Caetano expôs no palco um estandarte de Hélio com a estampa de Cara de Cavalo. Por cima, as palavras: “Seja marginal seja herói”. Em plena ditadura militar, a bandeira acabou apreendida pela Polícia Federal.

E o parangolé?

As obras de Oiticica experimentaram tanto museus da América Latina, da Europa e dos Estados Unidos, quanto um terreno baldio de São Paulo ou o metrô de Nova Iorque. O artista passou sete anos na cidade americana, às custas de uma bolsa na Fundação Guggenheim. Morreu em 1980, aos 42 anos, vítima de um acidente vascular cerebral. Como saldo de vida, uma obra que não se limitou ao seu próprio tempo. Desde que começou a explorar novas fronteiras com os seus trabalhos, a arte nacional não foi a mesma. Palavras como conceito, performance ou participação passaram, ao menos, a balizar toda a produção brasileira. Em relação ao País, dizia que “o futuro pertence a um povo subdesenvolvido” e que “o Brasil está destinado a ser uma espécie de líder do terceiro mundo”. O parangolé, pois então, era pensar pra frente. SAIBA MAIS A Invenção de Hélio Oiticica, de Celso Favaretto (Edusp, 1992). H.O., filme de Ivan Cardoso (1956) No site do ALMANAQUE, confira alguns dos trabalhos de Hélio Oiticica.

O melhor produto do Brasil é o brasileiro CÂMAR A CASCUDO

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THOMAZ FARKAS

Não há no mundo inteiro um povo como o brasileiro

FOTOS: DENNIS VECCHIONE

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Como foram os primeiros anos da sua família no Brasil? Meus pais vieram pra cá no comecinho dos anos 1920. Naquele pós-guerra, estavam muito pobres, muito atrapalhados financeiramente. Aí um tio sugeriu: “Vai pro Brasil. É o país do futuro”. Já moravam em São Paulo quando eu estava pra nascer. Mas viram que não tinham dinheiro para o hospital. Meu avô então mandou uma passagem para minha mãe voltar para a Hungria. Eu nasci lá, em 1924. Voltamos em 1930, novamente para São Paulo. Sempre agradeço por terem vindo pra cá. O Brasil realmente é o melhor país do mundo. A natureza é linda, mas o que nos difere são as pessoas. Eu já viajei para tudo que é canto, e posso dizer: não há gente como a brasileira. O negócio da família já era fotografia? Sim, desde a Hungria trabalhávamos com fotos. Temos fotografia nas veias. Meu avô materno tinha uma loja em Buwww.almanaquebrasil.com.br

A família Farkas embarcou da Hungria para o Brasil após a Primeira Guerra Mundial. No centro de São Paulo, abriu uma pequena loja de fotografia. Com o pai no comando, a mãe na caixa e o filho ajudando no laboratório, a loja cresceu. Virou a maior rede do País, a Fotoptica. Mas o rapaz não pensava apenas na vida empresarial. “Nem amador, nem profissional”, Thomaz tornou-se fotógrafo. Foi o primeiro a expor num museu brasileiro. Também comandou a produção de documentários pelo País, num projeto fundamental para a nossa cinematografia, a Caravana Farkas. Hoje, aos 84 anos, afirma nunca ter ganho um tostão em nenhuma das duas atividades. “O meu único objetivo era mostrar o Brasil aos brasileiros.”

dapeste. O irmão do meu pai tinha uma outra loja. Meu tio ajudou meu pai a abrir a Fotoptica em São Paulo. No começo era uma lojinha na rua São Bento, no centro da cidade. Meu pai comandava, minha mãe ficava na caixa registradora. E eu, com uns 13 anos, ajudava no laboratório. Também atendia ao público. Eu que escolhia os cartões-postais de São Paulo para os clientes. E já dava os primeiros cliques? Desde pequenininho tinha muito apego à foto. Lembro de, com 8 anos, pôr o papel fotográfico ao sol para revelar. Tenho uma enorme quantidade de álbuns de infância, minhas ou tiradas por mim. Guardo todos até hoje. Quando fomos morar no Pacaembu, gostava de tirar fotos dos gatos da minha casa, do bairro. Também era membro de uma turma do colégio Rio Branco que andava de bicicleta. Era A Esquadrilha Invencível.


Entre os sobes e desces do bairro, a câmera ficava sempre comigo; eu estava sempre pronto para fotografar. Tirei fotos da construção e da inauguração do estádio do Pacaembu; a torcida, a movimentação em volta da praça Charles Miller... Quando fazer fotos começou a tornar-se algo mais sério? Por coincidência, no mesmo prédio da Fotoptica funcionava um clube de fotografia, o Fotoclube Bandeirante, que comecei a frequentar. Como trabalhava na loja, tinha acesso a todas as máquinas, ao laboratório e conhecia todo o processo de revelação e ampliação. A minha vida desde então passou a ser toda dedicada à fotografia. Mas costumo dizer que nunca fui nem profissional, nem amador. Transito até hoje no meio termo. No começo, quais caminhos pretendia seguir? Eu tirava foto de tudo que me interessava. Não queria trabalhar com fotojornalismo. A fotografia artística, no entanto, ainda era algo muito distante. Então segui no meio do caminho, atrás do que me sensibilizava. As coisas aconteciam e eu acontecia junto. O fotoclube, por exemplo, foi algo que comecei a me afastar aos poucos. Havia um esquema competitivo que eu não gostava. Quando voltávamos das excursões, eram atribuídas notas de zero a 10 a cada elemento da foto. A coisa da competição era muito tacanha, sem uma finalidade mais abrangente e interessante. Aquilo não era pra mim. Eu queria fazer outra fotografia, e percorri o Brasil atrás desse meu desejo.

sei em trabalhar como engenheiro. A única coisa que fiz na área foi desenhar os laboratórios da Fotoptica, e uma coisa ou outra por aí. Em 1949, você fez a primeira exposição fotográfica num museu, o Masp. Foi uma quebra de barreira? O Brasil já estava numa época de valorização da fotografia. Eu era conhecido no Masp, amigo do pessoal do museu. Eles já ansiavam por adotar a fotografia. Resolvemos então montar a exposição. Foi um andar todo dedicado às fotos. O Masp ainda ficava na rua Sete de Abril. Ficou muito interessante. Mais tarde, desenvolvi o laboratório de lá. E também dei aulas no Masp.

Nunca ganhei um tostão tirando fotos. Fazia o que me interessava, o que me emocionava.

Você produziu fotos em outros países? As fotos das minhas viagens são só para lembranças pessoais. Gosto mesmo é de fotografar o Brasil. Como começou a criar um estilo próprio? Na Fotoptica, eu era o responsável por importar os livros de fotografia. Também havia muitas revistas estrangeiras. Ou seja, via em primeira mão o que o mundo inteiro estava fazendo na área. Eu analisava e tomava posição, formava conceito sobre o que estava vendo. Algumas coisas, tentava fazer igual. Outras me inspiravam, mas eu começava a criar a partir de uma visão própria. Também viajava e gostava de visitar galerias e museus de várias correntes artísticas. Aos poucos, comecei a criar um estilo, porque tirar fotos me emocionava, como me emociona até hoje. Acredito no caráter instintivo da fotografia. Nunca houve temática preferida. Os temas surgiam e eu estava preparado para esse surgimento. Formou-se em engenharia também, não? Sim, me formei durante os anos 1940, mas nunca me interes-

Um de seus registros mais famosos é o da construção de Brasília. Como foi? Foi uma maravilha, um negócio muito interessante. Fui várias vezes registrar a construção, e estava inclusive na inauguração. Senti que meu coração ficou lá. Fiz fotos dos operários, da mata selvagem, das primeiras edificações sendo erguidas. Numa foto panorâmica, mostrei as várias estradas chegando à futura capital. Ainda hoje, quando visito a cidade, acho tudo incrível.

Durante a festa do quarto centenário de São Paulo, em 1954, você registrou em filme uma apresentação de Pixinguinha e Donga no Parque Ibirapuera. É verdade que só encontrou esse registro décadas depois? Sim. Eu sempre adorei a música brasileira. Mas naquela época não era tão fácil assistir a grandes músicos ao vivo. Soube que o regional de Pixinguinha vinha tocar na festa do quarto centenário. Peguei minha filmadora, que não registrava o som, e fui pra lá. Pus num tripé e filmei tudo. Mas aí esqueci o material. Décadas depois, revirando os arquivos do meu escritório, vi o filme. Fiquei maravilhado. Conversei com o pessoal do Instituto Moreira Sales e eles descobriram um disco que continha as músicas que foram tocadas nessa ocasião. Bastou gravar o som por cima. Ficou muito bonito. Nos anos 1960 e 1970 você comandou equipes de cinema que percorreram o País para documentá-lo. Como foi esse projeto? Essa ideia surgiu do meu amor pelo Brasil. Era uma época em que não havia televisão. Meu único objetivo era mostrar o Brasil aos brasileiros. Mostrar para o pessoal do Sul como vivia o pessoal do Norte e do Nordeste. E vice-versa. Sentia que aquilo era necessário. Foram mais de 30 documentários. Eu agia como produtor. E, em alguns casos, como diretor. De onde veio o financiamento da Caravana Farkas? Do meu bolso. Mas não era caro como hoje. Por trabalhar na Julho 2009

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Fotoptica, eu conseguia o material de filmagem mais barato. Não era algo impossível. Muitos filmes eram para ser exibidos comercialmente. Infelizmente não ocorreu. Mas foram mostrados em universidades, cineclubes. Esses filmes ficaram conhecidos, o que era o meu grande objetivo. Era uma grande caravana sobre o Brasil. A primeira ocorreu em 1964, época de transição política. Houve problemas com a ditadura? Não, porque além de não terem viés político, nossos filmes não eram exibidos para grandes públicos. Só tentaram impedir um, que mostrava como o gado era morto. Mas tentaram em vão. Foi feito exatamente como queríamos.

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Como as equipes eram recebidas nos rincões do País? A sensação de ir para tantos lugares era ótima. Normalmente, alguém do local nos acompanhava, e dessa forma éramos recebidos muito bem. Aí filmávamos a feira, o centro da cidade, a vida cotidiana. Tinha gente que perguntava quando poderiam assistir a si mesmos, porque a tevê não estava difundida, tinham curiosidade de entender o que era aquilo. Eu explicava direitinho. Foi um grande documento sobre o Brasil. A gente foi atrás de saber quem era o brasileiro. Porque o País ainda não se conhecia em sua totalidade. E revelar o Brasil é uma coisa muito, muito importante. O que eu puder fazer, mesmo com 84 anos, ainda farei. Em 1979, você criou a Galeria Fotoptica. Qual era a intenção? Era uma galeria de fotografia que permitia que os fotógrafos brasileiros registrassem seus trabalhos. Uma forma de fazê-los comercializar as obras. Se até hoje o brasileiro não tem o hábito de comprar fotografia, de colecionar como arte – como os norte-americanos e europeus têm –, imagina naquela época. Entre os expositores estava gente que se tornaria referência, como Sebastião Salgado. A galeria acabou, porque quem financiava era a Fotoptica. E o banco que comprou a rede não se interessou em sua manutenção. Como você definiria a função da fotografia? É uma importante documentação do planeta. É uma forma de conhecer o mundo mais importante do que o cinema ou outros meios. É uma técnica largamente difundida por meio de jornais e revistas. Há colecionadores, que as mantém como mantém gravuras, pinturas e esculturas. Já entrou na categoria de arte. www.almanaquebrasil.com.br

Qual o seu fotógrafo preferido? É o Zé Medeiros, já falecido, um grande amigo meu. Tinha um talento incrível. Você se considera um fotógrafo profissional? Nunca ganhei um tostão tirando fotos. Fazia o que me interessava, o que me emocionava. Sempre fui meio marginal. Aliás, dinheiro sempre foi algo difícil nessa profissão. E, apesar dos fotógrafos brasileiros serem ótimos, demoraram para ter notoriedade internacional. Não conseguiam ter visibilidade nos Estados Unidos, na Europa. A fotografia brasileira não era exportada. Eu mesmo consegui pouca notoriedade no exterior. E os nossos fotógrafos já conseguem esse tipo de visibilidade? Quem quebrou a barreira foram nomes como Sebastião Salgado, Miguel Rio Branco, Mario Cravo Neto... Gosto muito de todos eles. O Salgado, inclusive, está atualmente numa outra categoria. Ele sabe valorizar seu trabalho, cobra caro por ele. Criou uma editora muito importante na Europa. É uma pessoa muito bacana, tanto pessoalmente quanto para a fotografia brasileira. Você faz fotos até hoje? Sim, principalmente da minha família, que é muito grande. Tenho quatro filhos, muitos netos e bisnetos. Todos são intimamente ligados à imagem. Também continuo a trabalhar com as minhas fotos. Atualmente, estou bem interessado em difundir minhas fotografias antigas, que estão em mostras, museus. Tenho uma seleção de fotografias muito grande. O Museu da Imagem e do Som vai fazer um livro com 100 fotografias minhas. Vamos ter novidades. Já usa câmeras digitais? Não, ainda não. Me dou muito bem com a rollyflex, com a leica. Mas o surgimento das digitais não me incomoda em nada. Ainda vou comprar uma, pra experimentar. O que é brasilidade pra você? Brasilidade é descobrir as pessoas, ver as pessoas, entrevistar as pessoas. Toda a minha vida foi dedicada a este país e a esta gente. Antigamente, quando eu ainda não a conhecia direito, era uma maravilha ainda maior viajar pelo Brasil, ver as novidades, as cerimônias populares. As pessoas são maravilhosas. E são as pessoas que promovem a vida. Não há no mundo inteiro um povo como o brasileiro. SAIBA MAIS No site do Almanaque, confira fotos de Thomaz Farkas e o vídeo de Pixinguinha e Donga em 1954.


o (precedida, Da Silva. Locuçã jetivo no ad em geral, de um qual procura a diminutivo) com e se afirma: qu se dar ênfase ao o, riquinho ric “O homem está da Silva”.

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FOGO

C R U Z A DdeOanimais ou plantas, como Coelho, Leão, Pinheiro e Carvalho, são

É comum ouvir por aí que sobrenomes ia para fingir que se converteram ao aram o nome da família na Idade Méd de cristãos-novos – judeus que troc regra não existe. As origens desses o. Talvez alguns até sejam, mas essa catolicismo e assim fugir da Inquisiçã rizada ou ter um apelido de acordo entes podiam morar numa região arbo end desc Os das. varia mais das são nomes s é bem ampla e variada. mais, a lista de nomes de cristãos-novo com características físicas. Além do Julho 2009


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Compositor junta samba e bossa para cantar a Guanabara

Segura a Bucha!

Famoso nas rodas de choro de São Paulo, o violonista Zé Barbeiro lança o primeiro álbum autoral, em que compila o conhecimento de décadas de carreira.

Chutando o Balde Em 2006, o compositor Fred Martins tornou-se conhecido do público ao vencer o Prêmio Visa, numa disputa com músicos renomados como João Donato e André Abujamra. Mas já estava na boca do povo por ser o autor de canções como Novamente e Tempo Afora, gravadas por Ney Matogrosso; Sem Aviso, por Maria Rita; e Hospédes do Tempo, por Zélia Duncan. Agora o niteroiense lança Guanabara, o quarto disco da carreira. As canções surgem de modo suave. Numa primeira audição, podem soar como bossa nova.

Mas vão além. Há uma nítida presença de samba puro, em referências estéticas a figuras como Nelson Cavaquinho, Cartola, Herivelto Martins e Chico Buarque. As letras retomam a tradição dos bons compositores brasileiros, com temas amorosos e de memórias cariocas, que invocam o tempo em que o Rio era só felicidade. Entre as canções, duas com dedicatórias especiais: Tudo Teu, para o músico e escritor Arthur Nestrovski, e Doceamargo, para Baden e Vinicius. (BH)

Em 16 canções inéditas, Nei Lopes desvela sua verve irônica e crítica. Chuta o balde com os “novos sambistas”, o Halloween e até com quem usa boné para trás.

Tudo o que Respira Quer Comer

Artista ligado à Vanguarda Paulistana, Carlos Careqa mostra que a inventividade do movimento permanece ainda no ar.

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Nem tudo no Brasil são flores. Há frutos, árvores, raízes... Mal chegaram nessas terras, os portugueses descobriram que nelas “em se plantando, tudo dá”. Assim Caminha escreveu ao rei, e assim se chama o livro que, mais de 500 anos depois, redescobriu as vantagens de tamanha fertilidade. O que esperar de uma obra sobre espécies vegetais do Brasil? Agricultura, paisagismo, nutrição? Mylton Severiano e Katia Reinisch, com fotos de Iolanda Huzak, unem tudo e vão além. Se o termo existisse, teriam feito algo como uma “sociologia das plantas”, realçando o potencial brasileiro. Em 20 capítulos, falam de empresários japoneses e americanos que tinham a www.almanaquebrasil.com.br

patente do cupuaçu sem ao menos possuir o cedilha no idioma. Contam que os índios chamavam o maracujá de “alimento na cuia” (mara kuya), lembram do manifesto pau-brasil, de Oswald de Andrade, apuram como a cana-de-açúcar participa de toda a nossa história. A semente foi plantada em 2007, quando a seção homônima estreou neste ALMANAQUE. Assim como aconteceu com a seção Viva o Brasil, virou livro dentro das comemorações de 10 anos da revista. E continua rendendo frutos mês a mês. (NP) Editora Leitura, 132 p., R$ 49

A Letra Brasileira de Paulo César Pinheiro

Conceição Campos Vida e obra de um dos maiores e mais produtivos letristas do País, parceiro de Tom Jobim, Baden Powell e Guinga, entre outros. Casa da Palavra, 416 p., R$ 40

Andanças pelo Brasil Colonial Jean Marcel Carvalho França e Ronald Raminelli (org.)

Estrangeiros que passaram pelo Brasil entre 1503 e 1808 encontram-se na compilação de narrativas sobre o País. Unesp, 216 p., R$ 39

Ao Som do Samba

Walnice Nogueira Galvão A autora investiga desde o tempo em que o samba ainda não era samba até o advento das escolas e do sambódromo. Perseu Abramo, 190 p., R$ 30


O Calculista das Arábias

LIGUE OS PONTOS

Nossa homenagem a Júlio César de Mello e Souza, o Malba Tahan

a Tinha bagageiro na frente e motor atrás. De origem italiana, começou a ser montado no Brasil em 1953, tornando-se líder de mercado.

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O rei Cassim convocou um sábio para escolher, entre três príncipes, o mais inteligente para casar com sua filha. O velho sábio aplicou-lhes uma prova. Mostrou cinco discos

b Primeiro carro feito no Brasil, usava motor de

de mesmo peso e tamanho – dois deles pretos; os demais,

bicicleta. JK chegou em Brasília a bordo de um, na Caravana de Integração Nacional.

c Foi o carro oficial da presidência de 1982 a 1991. Lançado em 1960, seduziu autoridades e estrelas com conforto, luxo e inovações.

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d Genuinamente brasileiro, seu fabricante dizia que era um carro “muitonacional”, frente aos multinacionais que dominavam o mercado.

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brancos. Vendou os pretendentes, pendurou um disco nas costas de cada um e explicou: “Sereis interrogados um a

ACERVO DA FAMÍLIA

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um. Aquele que descobrir a cor do disco que lhe coube por sorte terá a mão da linda Dahizé. O primeiro poderá ver os discos dos outros dois. Ao segundo será permitido ver o disco do último. E este terá de formular sua resposta sem ver coisa alguma!”. Os dois primeiros pretendentes, interrogados em segredo, não foram felizes na resposta. O último, sem nada ver, anunciou a cor correta do disco que trazia nas costas. Qual seria a resposta? E como o jovem felizardo poderia conhecê-la?

TESTE O NÍVEL DE SUA BRASILIDADE

PALAVRAS CRUZADAS

República fundada em Santa Catarina em 24/7/1840: (a) Cisplatina (b) Princesa (c) Mariana (d) Juliana Primeiro papa a visitar o Brasil, em 11/7/1980: (a) Nicolau (b) João Paulo 2° (c) Bento 15 (d) Bento 16 Em 22/7/1935, estreia no rádio: (a) A Hora do Brasil (b) Jantar com o Presidente (c) Repórter Esso (d) Minuto Notícia Acontecimento de 2/7/1823, comemorado todos os anos na Bahia: (a) Nascimento de ACM (b) República Baiana (c) Independência (d) Carnaval Ana Botafogo, nascida em 9/7/1956, é: (a) Política (b) Incendiária (c) Jogadora de futebol (d) Bailarina A estrada de ferro Central do Brasil, inaugurada em 8/7/1887, ligava o Rio a: (a) Baixada (b) Brasília (c) São Paulo (d) Piauí

Respostas Ronnie Von DIVULGAÇÃO

O CALCULISTA DAS ARÁBIAS – O disco do último príncipe interrogado era branco. Assim raciocinou o felizardo: se o primeiro pretendente viu dois discos e errou, certamente não viu os únicos pretos que havia. Primeira hipótese: os dois discos eram brancos. Segunda hipótese: um disco era preto; o outro, branco. Nesse caso, seu próprio disco seria o branco. Se não fosse assim, o segundo príncipe teria visto um disco preto, concluído que o seu não era igual – já que nesse caso o primeiro acertaria – e teria dado a resposta certa.

Em 9/7/2002 morreu o cearense Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como: (a) Maré (b) Patativa do Assaré (c) Barão de Itararé (d) Domitila Jacaré

BRASILIÔMETRO – 1c; 2d; 3b; 4a; 5c; 6d; 7c; 8b.

valiação

SE LIGA NA HISTÓRIA – 1b (Romi-Isetta); 2c (Galaxie); 3d (Gurgel Carajás); 4a (Fusca). ENIGMA FIGURADO – Alceu Valença. O QUE É O QUE É? – Banda larga. CARTA ENIGMÁTICA – Fundou um grupo de samba, mas ganhou fama mesmo como humorista. (Mussum)

DE QUEM SÃO ESTES OLHOS?

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Moraes Moreira, que nasceu em 8/7/1947, integrou o grupo: (a) Mutantes (b) Doces Bárbaros (c) Novos Baianos (d) Velhos Pernambucanos

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Conte um ponto por resposta certa


I L U S T R AC Õ ES

C : LU

IANO

TA S S O

Roberto Carlos, rei do rock? odo fim de ano é igual. Peru, Papai Noel e um especial de Roberto Carlos na tevê. Há quem diga que a aparição do cantor é tão T sagrada quanto a ceia natalina. Algumas crianças, porém, torcem o nariz: “Isso é música de velho”. Pois saiba que Roberto CarCar-

los já foi um dos mais importantes roqueiros do País. Duvida? Voltemos aos anos 1960, década do surgimento do rock brasileiro. O gênero musical estava bombando no mundo, e muitos garotos amavam os Beatles e os Rolling Stones. Só que alguns músicos liderados por Roberto cansaram de apenas fazer covers dos gringos. Resolveram aportuguesar o iê-iê-iê com a criação da Jovem Guarda. E deu certo. Muitos músicos conhecidos começaram a carreira naquele movimento (leia matéria na p. 7). Porém, muita gente dizia que aquilo era só uma imitação dos astros norte-americanos. Contra o rock, organizaram até uma passeata defendendo a extinção das guitarras. Mas, pouco a pouco, o rock foi se embrenhando na música nacio nacional. E seguiu vários caminhos: do romântico ao punk. Até rock rural se fez por aqui. Mas, diante de tanta polêmi polêmica, um baiano “maluco beleza” é considerado unanimidade. Pule para o texto abaixo para conhecer o nosso mais importante roqueiro.

Nosso rei, na verdade, era um maluco

Em 1990, 184 mil pessoas lotaram o Maracanã para assistir ao show do ex-Beatle Paul McCartney. Até hoje, é o maior público de um show fechado de rock em todo o planeta. Se esses fãs resolvessem dar as mãos em linha reta, formariam uma corrente de mais de 300 quilômetros! Isso porque, de braços abertos, os brasileiros medem, em média, 1,75 metros (você sabia que nossa altura é equivalente à medida de lado a lado quando estamos de braços abertos?). 184 mil pessoas x 175 centímetros é igual a 32,2 milhões de centímetros. Ou seja: 322 quilômetros. Se Paul sozinho é capaz desse feito, imagina se todos os Beatles estivessem com ele...

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Raul Seixas agitou a cena musical brasileira nos anos 1970 e 1980 com seu visual esquisitão, uma mistureba sonora e canções inesquecíveis: Metamorfose Ambulante, Gita, Ouro de Tolo, Maluco Beleza e tantas outras. Morreu em 1989, mas sua obra continua encantando sucessivas gerações. Prova disso é que, desde 1990, um evento toma as ruas de São Paulo todos os anos em 21 de agosto, dia de sua morte. Milhares de fãs de todas as idades percorrem o centro paulistano, entoando músicas e desfilando o visual que caracterizou aquele que foi aclamado o verdadeiro rei do rock do Brasil.

JÁ PENSOU NISSO?

VO E R EPE TIR EM

Eu cantarolaria, ele cantarolaria, nós cantarolaríamos, eles cantarolariam. W W W. LU C I A N OTA S S O. B LO G S P OT.CO M

Cada número no diagrama abaixo corresponde a uma página do ALMANAQUE. Descubra a letrinha colorida na página indicada e vá preenchendo os quadrinhos até completar a mensagem cifrada que escrevemos para você. 5

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Qual e a maior banda do mundo?

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SOLUÇÕES NA P. 26

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Julho 2009


PAR AT Y

Para todos Podem ser muitas as motivações de quem procura essa terra onde, segundo Lucio Costa, “os caminhos do mar e da terra se entrosam”. Pode querer praias, imersão cultural ou gastronomia sofisticada. Sossego ou agitação. Badalação ou história. Paraty é generosa, se revela a todos.

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uem procura desvendar as singularidades de Paraty acaba esbarrando na grafia de seu nome: é Parati, Paraty ou Paratii? Paratii é na antiga grafia, de 1550, quando portugueses fundaram o povoado. A origem pode estar no nome do peixe parecido com a tainha, o pira’ti, que os índios da região pescavam com redes de arrasto. Ou no nome de sua baía abrigada, Para nã iuti, que no idioma tupi significa semelhante ao mar. Para os paratienses de safra, porém, a história é outra: estava o Criador entretido a distribuir terras pelo mundo quando dele se aproximou Pedro, que perguntou por seu quinhão. “A sua é es-

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pecial”, teria dito o Senhor. “Aquela, entre a baía da Ilha Grande e a Serra do Mar, é para ti.” Basta olhar para a sucessão de paisagens cativantes, em que se alternam os verdes vivos da Mata Atlântica e o azul das águas da baía, polvilhada de ilhas, para comprovar que a última versão é a mais correta. Os mapas situam Paraty a 330 quilômetros de São Paulo e a 250 do Rio, bem no meio da BR-101, conhecida como Rio-Santos. Nas palavras do urbanista Lucio Costa, é “onde os caminhos do mar e da terra se entrosam”. Ponto de partida para uma viagem pelo tempo.


Cidade pé de moleque Paraty não é inventada, nem monumental. É delicada. Seu casario, todo branco com salpicos de cores nas janelas e portas, tem a beleza duplicada quando se reflete nas águas que invadem a cidade durante a maré cheia. As ruas se transformam em canais e deixam-na com parecença e ares venezianos. As casas, algumas com símbolos da maçonaria na fachada, são distribuídas em 14 ruas pavimentadas com pedras irregulares. O visual é conhecido como pé de moleque, tal a semelhança com o doce feito de amendoim. As cinco igrejas barrocas de Paraty se mantiveram como raridade, e a arquitetura colonial do centro histórico foi considerada pela Unesco a mais harmoniosa do século 18 no Brasil. A receita de bolo mais antiga do País, o Manuê de Bacia, nasceu aqui – fruto da adaptação do doce português com a criatividade das escravas. Na falta de açúcar, adicionaram melado de cana e temperaram com gengibre. A tradição de bolos e doces permanece até hoje. São famosos os pudins, cocadas e outros quitutes, vendidos em carrocinhas pelas ruas. Mas nem só de história pretende viver a cidade. Paraty viu a chegada de novos tempos quando um ar de modernidade envolveu as 128 casas do centro histórico com ateliês, charmosas pousadas, lojas, cachaçarias e restaurantes. 29

Cidade cinematográfica Paraty já foi cenário de séries e novelas, como O Quinto dos Infernos, Dona Beija e Mulheres de Areia. Filmes rodados por

Preste atenção

O melhor de Paraty é andar pelas ruas labirínticas do centro histórico. Observe cada detalhe e descubra casas e jardins internos que se escondem em várias delas. Mas cuidado, são com olhos atentos e sapatos confortáveis que se caminha pelas ruas de pedra – estas, verdadeiras pedras no sapato. Um descuido e lá se vai o tornozelo. Julho 2009


Paraty tem mais Noite escura. O mar brilha

O mar brilha nas noites escuras de Paraty. E não é efeito da cachaça, mas um fenômeno comum que acontece nas praias mais distantes. Chama-se bioluminescência e é provocado por um microorganismo planctônico que absorve a luz solar e brilha com mais intensidade nas noites escuras.

Casa da mãe do escritor Thomas Mann CASA DE JULIA DA SILVA MANN, MÃE DE THOMAS MANN.

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lá foram mais de 60: O Beijo da Mulher Aranha, de Hector Babenco, Como Era Gostoso o Meu Francês, de Nelson Pereira dos Santos, e Gabriela Cravo e Canela, de Bruno Barreto, com Sonia Braga e Marcello Mastroiani. Conta-se que o ator italiano se enamorou não apenas da cidade, mas da boa pinga da terra. De tempos em tempos, mandava buscar algumas garrafas para descansar em sua adega, ao lado de vinhos de estirpe. São muitas Paraty. Existe a cidade que se manteve singela – apesar de cada vez mais descolada, com seus festivais de música, literatura e cinema. A Paraty criativa, que preserva tradições como a festa do Divino e encanta com o grupo de mamulengos Contadores de Estórias. E a que celebra sua vocação musical, não apenas no sonoro timbre de seu nome, mas porque canta para todos os gostos: jazz, blues e música brasileira, ouvidos à tardinha nos bares do centro. Paraty é, sem medo de errar, sinônimo de lua de mel, de passeio de escuna por uma de suas 65 ilhas, de mergulho submarino, de boa mesa e, principalmente, de sossego. Pode-se escrever de muitas maneiras Paraty. O certo é que a cidade é áurea, impregna a alma e preservou seu melhor quinhão. Para todos.

Paraty tem um passado literário muito antes da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que se realiza na primeira semana de julho. Foi nesta cidade litorânea que nasceu Julia da Silva Mann (1851-1932), mãe de Thomas Mann, o maior escritor alemão depois de Goethe.

Artesanato Uma das cartas na manga da cidade se expressa por meio de quadros, gravuras, esculturas, cerâmicas, azulejos, tapeçaria e artesanato de excelente qualidade. Paraty possui o maior número de ateliês por metro quadrado do Brasil.

Não deixe de saborear Quem se delicia com a cozinha regional e seus ingredientes típicos poderá agendar um jantar com a chef Yara Roberts. À frente de sua Academia de Cozinha e Outros Prazeres, Yara recebe os comensais em casa, no centro histórico, ao redor de uma mesa bem brasileira. Enquanto prepara o jantar, dá dicas inusitadas de temperos aromáticos, revela aspectos culturais e curiosidades sobre a adaptação de ingredientes indígenas. E ainda mostra formas diferenciadas de apresentar pratos étnicos.

S E RVIÇ O Como chegar A TAM oferece voos diários para São Paulo e Rio de Janeiro, saindo das principais cidades brasileiras. Confira em www.tam.com.br Onde ficar

Pousada Porto Imperial Praça da Matriz, centro histórico. Tel.: (24) 3371-1205.

Pousada Flor do Mar Rua Fresa, 257, em frente ao cais. Tel.: (24) 3371-1674. www.almanaquebrasil.com.br

Onde comer

Banana da Terra Especialidades paratienses nos pescados e frutos do mar. Tel.: (24) 3371-1725. Restaurante do Hiltinho Não deixe de experimentar o camarão casadinho e a lula recheada. Tel.: (24) 3371-1432.


BRACATINGA Mimosa scabrella

Anjo do verde Regeneradora e generosa. Cobre de verde áreas degradadas crescendo a olhos vistos. Oferece pólen e néctar quando a maioria das plantas hiberna. Ainda realiza uma proeza: dá dois tipos de mel, um da flor, outro da casca. E, florida, é linda de se ver.

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IOLANDA HUZAK

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spécie típica do planalto sul, sua vida é curta mas intensa. Nasceu, já sai crescendo rapidinho, louca pela luz do sol, de quem muito precisa. Logo chega aos 5 ou 15 metros de altura. O tronco, de seus 40 centímetros de diâmetro, é reto e alto nos bosques; e curto e ramificado caso ela cresça isolada. Se medrar em lugar bem ensolarado, com apenas dois anos atinge a mocidade, floresce e dá frutos, miríades de vagens que contêm três ou quatro sementes. Por tudo isso, é ideal para regenerar solos degradados. Do sul de Minas até o Rio Grande do Sul, árvore alguma a supera nessas vantagens. Veja o que constatou um estudo em terreno arrasado pela exploração de xisto betuminoso: a mata de bracatinga ali plantada forrou o chão com mais de seis toneladas de folhedo por hectare ao ano, mais que o dobro do eucalipto (três toneladas), devolvendo ao solo mais de 200 quilos de nitrogênio. Chega o gelado frio do sul, as árvores se retraem, muitas delas se despem de suas folhas. Quem socorre o gado quando o pasto míngua? Quem socorre as abelhas quando somem as flores? É a esguia mimosa, planta perenifólia, ou seja, está sempre coberta de folhas. Com suas folhas, suas flores e sua seiva, serve como reser-

va de alimento no inverno para os pa pachorrentos herbívoros, as laboriosas abelhas; e outros insetos, como a cochonilha, para parasita de que daremos notí notícia adiante. Ornamental, e florescendo em pleno inverno como o ipê, ela enfeita campos e cerrados; e nas cidades arboriza ruas e praças, de verde e amarelo tingin tingindo a paisagem. Bracatinga, bracaatinga, abracaatinga, bra bracatinho, paracaatinga, eis seus nomes popu populares, de origem tupi-guarani – composi composição de imbyra (lenhosa) + caá (árvore) + tinga (clara). Para os botânicos, Mimosa scabrella. O gênero Mimosa reúne 480 espécies nativas dos nossos trópicos, muitíssimas delas brasileiras. O sobrenome scabrella, que designa a espécie bracatinga, deriva do latim scabres: sujeira. A “culpa” é da cochonilha. Aos 25 anos esta árvore encerra seu ciclo vital. O tronco acastanhado, de cerne rosa-claro, ainda poderá servir como madeira, ou para o sacrifício final: virar fogueira para esquentar no inverno, pois que a bracatinga, pela superior capacidade de armazenar energia solar, é uma verdadeira usina térmica vegetal. Se fosse gente, virava mito. Anjo.


Prefeito, vereador, secretário, veja que fácil

IOLANDA HUZAK

Mina de ouro da Mata Atlântica

olher as vagens quando começam a cair. Secar ao sol para facilitar a retirada das sementes (um quilo contém cerca de 66 mil). Para acelerar a germinação, ferver as sementes por três minutos ou deixar dois dias de molho na água. Semear no viveiro em terra argilo-arenosa. Num mês, já brota. Com cinco centímetros, transplantar para embalagens individuais. Aos três, quatro meses de idade, pode plantar que ela desembesta a crescer. Viu só, autoridade, como é fácil deixar sua cidade mais bela e saudável?

E agora com vocês a...

IOLANDA HUZAK

cochonilha!

Parece chiste da natureza. Quando a cochonilha fi fica adulta, passa os últimos cinco meses de seus dois anos de vida inserindo seu estilete na casca da bracatinga; suga a seiva, digere e elimina gotículas escuras e docinhas. O tronco fica lambuzado. Vem uma espécie de abelha, ingere, regurgita uma parte; vem outra e leva aquilo para a colmeia. Para a cochonilha, excremento; para uma abelha, alimento; para outra, matéria-prima. Que coisa, não? O bienal mel, o mais precioso que há, resulta do que o organismo da co cochonilha expele. Benfazejo parasita.

ANDRÉ BENEDITO

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lfeu Kaiser Leão, que veio fazer uns reparos aqui em casa, se considera “um mateiro”. Pois não é que nunca tinha ouvido falar em mel de bracatinga? Mais surpreso ficou ao saber que dá mel da casca também. Provou do nosso – “parece melado”. É por causa do ferro e outros minerais, que este mel tem quatro vezes mais que outros. O apicultor Vladimir Vicenz, da Ecomel, explica que o mel da flor “deixa um amarguinho no fim”. Faz bem ao estômago, fígado, intestinos, circulação. Pelo baixo teor de glicose, diabéticos podem consumir. “E para prevenir gripe, é insuperável”, acrescenta Vladimir. O mel da casca, escuro, passa por dois processos enzimáticos, o das cochonilhas e o das abelhas. “É mais saudável”, explana o moço. “Os europeus levam 60 mil toneladas por ano. Eles gostam porque é diet, também pode ser usado por diabéticos.” O arte-educador Tony Alano visitou bracatingas em Urubici, no planalto catarinense. Encantou-se com a produção do mel “de melato” e se indigna por haver gente que usa o tronco como madeira: “Estão matando a galinha dos ovos de ouro para fazer estacas!”.

SAIBA MAIS No site do ALMANAQUE, confira outras informações sobre a bracatinga.

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Procura-se Na agência de empregos, a moça se alista para uma vaga como empregada doméstica. – Tenho uma vaga disponível, mas precisamos de uma pessoa estável –, comenta a selecionadora. – Com certeza sou a pessoa indicada. Fiquei 12 anos na última casa... – 12 anos? Puxa, que maravilha! E onde era essa casa? – A casa de detenção.

Ônibus lotado O bêbado entra no ônibus. Espreme daqui, espreme dali, cai por cima de uma beata na primeira freada brusca: – Mas veja se pode! O senhor vai para o inferno! E o bêbado, puxando a campainha: – Para, motorista! Errei o ônibus!

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No consultório O rapaz anda transtornado, com delírios de que é Deus. Decide então consultar um psiquiatra: – Doutor, estou tão nervoso que não sei por onde começar... E o médico, em tom de brincadeira: – Comece pelo princípio. – Bem, no princípio eu criei o Céu e a Terra...

Causos de

Rolando Boldrin

Candidato a deputado Sempre que chega uma eleição me vem uma saudade danada do Genésio. Ele era do sertão da Bahia, chegou com uma trupe de migrantes e se acostou lá na minha terra. Genésio devia ter uns 50 anos quando resolveu, por ser muito popular, se candidatar a deputado. É preciso que se diga que era analfabeto de pai e mãe. Apesar de viver há 36 anos em São Joaquim da Barra, não perdia aquele sotaque de baiano da molesta. Isso posto, vamos à campanha política. Nos discursos, ele estava sempre acompanhado, como é natural, por seus cabos eleitorais – sempre tem aquele que dá os palpites apelativos ao pé do ouvido do candidato: Cabo eleitoral (ao ouvido do Genésio) – Fala da fome, Genésio. E ele falava... Mas o que atraía mesmo a multidão era o bordão que o Genésio usava para abrir cada comício: Genésio (com sotaque do sertão da Bahia) – Eu sou a fulô que nasceu na Bahia... E veio dá o botão aqui em São Joaquim da Barra. Era risada geral. Nessas caminhadas discursivas, eis que Genésio chega na cidade de Ituverava. Genésio – Eu sou a fulô que nasceu na Bahia e veio dá o botão em São Joaquim da Barra. Povo de I-ga-ra-pa-va... Cabo eleitoral (corrigindo ao pé do ouvido) – Genésio! Não é Igarapava, é Ituverava! Genésio – Povo de I-tum-bi-ara... Cabo – Genésio! Você errou de novo. Não é Itumbiara. É Ituverava! Genésio (ainda no microfone) – Dêxa de sê burro, ô cabo! Pois tu sabe que cidade do interiô é tudo a mêma merda... É claro que o querido Genésio perdeu as “inleição”... Adaptado de Contando Causos, de Rolando Boldrin (Nova Alexandria, 2001).

ponto final

Fala, Pedrão! O rapaz vai ao cinema com um amigo. A certa altura, desafia: – Duvida eu dar um tapa na cabeça desse careca? – Duvido! E tasca um tapão no sujeito sentado diante dele. – Fala, Pedrão! Quanto tempo! E o careca: – Que é isso, rapaz, quer apanhar?! Meu nome é Fernando e eu não te conheço! – Puxa, mil desculpas. É que você é a cara do Pedrão. O sujeito se enfeza e vai sentar lá na frente. E o rapaz, para o amigo: – Duvida eu dar outro tapa na cabeça desse careca? – Ah, agora é que eu quero ver... Plaft! – Ô Pedrão, você tá aqui! Te confundi com outro cara ali atrás e quase apanhei!

Antes do combinado Com menos de um mês de casada, a filha chega na casa da mãe toda roxa. – Mamãe, o Paulo me bateu! – O Paulo? Pensei que ele tivesse viajado. – Eu também, mamãe. Eu também...


Almanaque 123_Julho  

O Almanaque Brasil é um verdadeiro armazém da memória nacional

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