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antes de dentro das páginas que formam este livro não vais encontrar “arte fotográfica” nem “arte poética”, mas sim uma vida com muitas vidas, memória de muitas memórias. as palavras nada mais são do que “falas” prováveis das imagens. se num livro se pudessem semear lágrimas este tinha muitas páginas molhadas. as imagens mais antigas serão de 1972 e as mais recentes de finais da década de 90. a recolha continuou e, por isso, aqui encontras quase 30 anos de uma vida de 44 anos a fotografar a torreira. durante as semanas em que fui trabalhando neste livro conversei com as fotos, tratava-as pelo nome, revivi muito. dentro das páginas que agora seguras há, neste momento, 41 amigos que já cá não estão - também falei com eles. na recolha das autorizações de publicação das imagens, cerca de uma semana, conversei com os próprios, com os descendentes ou sobreviventes (viúvas ou viúvos). foram momentos que me fizeram sentir que valeu a pena ter passado tantos anos na torreira a fotogratar o trabalhar no mar. obrigado amigo jorge bacelar, sempre presente nestes momentos em que me atrevo a publicar um livro – coisa perigosa mas necessária. obrigado maria josé soares e antero urbano, que me ajudaram na selecção das “falas” obrigado gentes do mar da torreira – merecieis mais, mas eu só dou o que tenho.

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dedico este trabalho às minhas raízes murtoseiras domingos josé cravo (gorim) meu bisavô benedita dos anjos cravo e josé augusto cravo meus avós e meus padrinhos augusto césar cravo (gorim) meu tio-avô manuel joaquim gorim e manuel gorim júnior meus antepassados (pescadores da torreira e salvadores do nathalie) aos homens e mulheres do mar da torreira

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caminho na areia não sou daqui estranho este chão macio quase não chão quero ver os meus irmãos trabalhadores do mar saber de outras fainas venho de negro a minha cor desde que também eu amo o mar por isso até morrer o venho sempre visitar

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sou só olhos pernas não sei palavras não tenho sou só olhos à minha frente o mar o meu pai no barco o barco no mar a minha mãe nas redes as redes em terra todos no peixe tudo isto vejo em tudo me perco e não entendo amanhã ali estarei sem o saber agora começo a aprender que ser criança aqui é espuma que o mar deixa na areia e secará com o sol e o sal é este o meu infantário

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este rosto vos deixo em testamento riqueza única amealhada em vida sou todos os que foram fui todos os que serão: destino com porta virada para o mar este rosto vos deixo de ser eu Pescador da Xávega este rosto vos deixo cuidai de o não esquecer

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aqui nasci por entre redes caixas de peixe sorvendo maresia para o mar o meu primeiro olhar das ondas o meu primeiro embalo na areia caminho como se terra na companha como se homem aqui me farei mulher terei meu homem e filhos salgados todos de tanto mar

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adormeço no embalo do tinto aquecido ao rubro do mar feito desta massa de mar e areia onde as ondas quebram o sonho de partir para voltar e não precisar de ir por mais que olhe o horizonte nada mais vejo que o meu rosto preso nas redes agarrado aos remos a largar a corda o meu presente serå o meu futuro o passado neles reflectido

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sou a que nunca ficou em casa nunca foi ao mar sou a que ajuda a empurrar o barco a que o espera em terra sou a que escolhe o peixe entre duas picadas de peixe aranha se levanta e nasce na areia um outro rio sou a mãe a mulher a filha a viúva sou a mulher da arte que a arte não lembra

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as ondas beijam-me os pés carícias de irmã os pés enterram-se na areia é este o meu passeio aqui inicio o caminho da vida de ser daqui comigo levo o futuro de ser mãe um dia sendo mulher hoje rente ao mar olhos abertos ao mundo caminho sempre não sei de outro andar

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(tem pelo na venta dizem) é duro viver aqui arrancar com as minhas mãos o pão ao mar ser como o meu homem sem favor de ninguém o sal queima e endurece a pele envelheço com a fome de inverno que o tinto aquece tenho pelo na venta sim não o posso negar tenho pelo na venta sim também o tem o mar

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sinto que posso partir o tempo passou como o norte no cabelo a despedida está feita volto à terra ao seu seio mais fundo a viagem foi longa o destino aproxima-se aí me apearei e serei terra também deixo no mar nos meus irmãos de outros arados a lembrança de uma mulher de negro um guarda chuva em dias de sol vim da terra à terra volto levo comigo o mar sei que vou morrer cheia de vida 144 |


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"quando o mar trabalha" de ahcravo gorim  

Formato: 14X14,8 cm Nº de Páginas: 148 + capas Capa Rígida Preço: €15,00 (+ portes se aplicáveis) Encomendas ao autor: ahcravo98@yahoo.com

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Formato: 14X14,8 cm Nº de Páginas: 148 + capas Capa Rígida Preço: €15,00 (+ portes se aplicáveis) Encomendas ao autor: ahcravo98@yahoo.com

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