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João M. Gil & Nuno Verdasca

OLHARES MONTANHEIROS Fotografias & Histórias de Montanha

Prefácios de Carlos Pinto Coelho e de João Garcia


JOÃO Miguel Pissarra Coelho GIL desde pequeno que se interessou pela fotografia, através da leitura e da prática. Tem visto o seu trabalho reconhecido em alguns concursos de fotografia internacionais e nacionais, em exposições e pela venda das suas fotografias, assinadas e numeradas. Ensina fotografia na forma de Workshops. Fotografa principalmente paisagens, pessoas e culturas. Depois de 10 anos noutra profissão, fundou a Alma Lux Photographia em 2007, como fotógrafo profissional. A paixão pela fotografia junta-se à de estar na montanha, à de viajar e de contactar com outras gentes e culturas. Tem visitado algumas montanhas e parques naturais de Portugal, Espanha, Grã-Bretanha, Estados Unidos, Cabo Verde e Alpes, com associações de montanhismo e amigos. É membro do Núcleo de Montanha de Espinho e Federado na Federação Portuguesa de Montanha e Escalada (FPME). É Doutorado em Telecomunicações pelo Instituto Superior Técnico. Foi docente e investigador na Escola Superior de Tecnologia e Gestão, Instituto Politécnico de Leiria, e no Instituto de Telecomunicações, em Coimbra e Lisboa. Nasceu a 10 de Setembro de 1971, em Coimbra.


NUNO Filipe VERDASCA da Costa Pereira desde cedo adquiriu o gosto pela fotografia, tendo realizado um Curso de Iniciação à Fotografia, no Instituto da Juventude em Leiria. Tem participado em vários concursos de fotografia tanto a nível nacional como internacional, tendo já recebido alguns prémios. Faz fotografia de paisagem, viagem, ambientes urbanos, desporto e abstractos. Nos tempos livres, além da fotografia e de outras modalidades, costuma também praticar Montanhismo e Alpinismo, tendo realizado várias actividades em Portugal, Espanha, Alpes, Grã-Bretanha e nas Montanhas Rochosas (BC). É membro do Núcleo de Montanha de Espinho e Federado na Federação Portuguesa de Montanha e Escalada (FPME). É Licenciado em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade Clássica de Lisboa. Desde esse ano desempenha funções no Centro de Virologia do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge em Lisboa, actual Departamento de Doenças Infecciosas. Nasceu a 26 de Novembro de 1972, em Leiria.


olhares montanheiros Fotografias & Hist贸rias de Montanha


© João M. Gil e Nuno Verdasca Design editorial: João M. Gil Editor: João M. Gil

R. D. Carlos I, nº 2 2415-405 Leiria geral@imagenseletras.pt www.imagenseletras.pt 1ª edição: Fevereiro 2010 Impressão e acabamento: Printer ISBN - 978-989-8153-19-7 Depósito Legal nº 3076407/10 Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou usada em qualquer forma ou por qualquer meio, electrónico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou por qualquer meio de armazenagem ou sistema de registo, sem autorização por escrito dos autores.


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Prefácio I Eles subiram às nuvens e trouxeram um livro Todos os dias milhares de humanos sobrevoam os picos gelados dos cumes ibéricos, bebendo café e folheando uma revista, no conforto de aviões aquecidos. De tanto passar ali, já nem se espreita o cenário pela janela. Importam mais os minutos que faltam para o fim da viagem, do que o coalho branco que jaz lá em baixo, quieto e distante como uma velha pintura de sala. O que leva, então, um punhado de outros humanos prestarem-se a pé, com carga às costas, à dureza de itinerários rudes, à deriva de caminhos errados e aos rigores das altitudes, num puro despropósito, quando todas aquelas paisagens foram já descobertas e todos aqueles cenários vistos, fotografados e filmados até à exaustão? Que acintes, que impulsos, que energias fazem despertar para a retoma do já conhecido e explorado? Como será o tempo interior de cada um desses viandantes, de que fé ou almejo são eles peregrinos, que obscura meta perseguem eles? E em que momento se sentirão eles por fim saciados, sabendo que há sempre mais caminho para desbravar, mais perigos por experimentar, mais adrenalina por consumir, mais encanto para surpreender? Onde fica a palavra FIM no itinerário destes aventureiros? Tudo parece incongruente. No entanto, tudo faz todo o sentido. Como a reclusão feliz do eremita na sua cela voluntária, a alegria do navegador solitário entre o oceano e o céu, ou a febre benfazeja do compositor ao piano, buscando a partitura sonhada. Tal como um atleta que se mortifica no massacre diário dos seus músculos, assim se constroem mil vidas diversas do existir dos homens. Quando soa a grande música da existência, são as arritmias que dão cor à harmonia, são as dissonâncias que temperam os andamentos, são os harmónicos que iluminam os acordes. Sem tais coisas não haveria paleta bastante para acolher todos os matizes com que se enfeita a vida. Visto o porquê da razão de ser deste livro, resta percebê-lo. E acolhê-lo no seu absoluto despojamento formal, onde só reside a carinhosa intenção de 1


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partilhar, em jeito de diário puro e simples, o que foram muitas horas e muitos dias de humano deambular entre pedras e nuvens, árvores e horizontes, cheiros e cansaços, sobressaltos e contemplações, temperaturas e matrizes de um imenso território. Num registo seguro, tranquilo e comedidamente apaixonado, onde a fotografia não se impõe à palavra, antes a sublinha. … E fica-se a gostar das personagens desta história. É que, para subir às montanhas e olhar de alto o mundo há que saber onde pôr os pés a cada singelo passo. Os autores deste livro fizeram-no bem. E agora vêm relatar-nos os seus feitos, com uma fidelidade que nos prende e uma candura que nos conforta. Carlos Pinto Coelho Um Fotógrafo e Contador de Histórias

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Prefácio II Escalar Montanhas é a empresa da minha vida. Mas não sou o único Parece uma coisa de déjà vu, porque as experiências descritas neste livro não me parecem estranhas. Em Portugal já muitos foram os que entre outras coisas amadureceram com a ajuda da Montanha. E eu fui um deles. Digo-o porque também passei por quase todas as montanhas aqui fotografadas e relatadas. Cresci em Portugal, amadureci em muitas montanhas da Europa e parti para o Himalaia para crescer um pouco mais. Este livro também conta a história de mais uma amizade que se rendeu à magia das neves, da altitude e dos elementos. E nos diversos elementos está o tempo… e o tempo anda sempre a tramar das suas… Estas fotografias e estas histórias, combinadas neste livro, são um trabalho louvável pois também permite a muitos outros, que ainda não tiveram a oportunidade de apreciar as raras belezas que a Montanha tem para lhes oferecer, de verem o que andam a perder. Este livro deve-se ler em silêncio e vai ser uma boa inspiração a todos os que visitam a Montanha por puro prazer! João Garcia Um Homem das Montanhas do Mundo

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Notas Introdutórias Um Livro e uma Exposição de Fotografia e de Histórias

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obra   Olhares Montanheiros (OM) nasceu da amizade existente entre os autores e do gosto comum que ambos nutrem pela Montanha e pela Fotografia. Justifica-se por uma relação espiritual e dos sentidos para com a Montanha. Embora o acrónimo OM tenha surgido por acaso, esta palavra de tanta importância espiritual no Budismo e Hinduísmo, também nas raízes do Iôga, faz aqui algum sentido. Não deixa de ser igualmente curioso como “Om” também nalgumas línguas antigas de origem celta significa “nascente”, “fonte”, “água corrente” ou “rio”, que nas montanhas nasce e delas corre (este vocábulo estará na origem etimológica de nomes de rios em Portugal). O significado do título é misto: tratam-se de olhares como resultados da visão fotográfica dos autores; são olhares em altitudes mais altas do que as do seu dia-a-dia; olhares que se pretendem menos óbvios e, por isso, acima do vulgar quotidiano fotográfico e citadino; são também olhares de montanheiros, como praticantes de actividades de montanhismo, mas também no sentido de montanheses, ou seja, oriundos da montanha. Inicialmente a obra concretizou-se sob a forma de uma exposição itinerante. Mas, na sua génese, concluímos que não queríamos fazer uma exposição de fotografias apenas. Queríamos, sim, realizar uma obra que, sendo simples e através das fotografias, conseguisse dar conta dos múltiplos sentimentos e sensações de quando estamos na montanha. Pareceu-nos que, para tal, a forma certa seria a conjugação das componentes Fotografia e Texto. E, de facto, a receptividade demonstrada pelas pessoas que visitam a exposição tem sido a tão desejada e até surpreendente, o que nos levou a darmos mais um passo, com a concretização deste livro. Pretendemos assim que, cá em baixo, no meio destas casas e no conforto por elas proporcionado, se leve o observador em mente e coração lá acima, entre vales e cumes, à neve e ao Sol, ao calor e ao frio, às árvores e aos rios, ao vento gélido e ao aconchego reconfortante de um abrigo nocturno. Convidamos o(a) leitor(a) a realizar pequenas incursões aleatórias pelo livro, conforme as zonas e temas que melhor lhe sirvam como uma evasão imagi5


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nária ao final de um dia. A sequência não segue nenhuma ordem cronológica, sendo as histórias independentes entre si. A analogia com os rolos de película fotográfica determinou o número de fotografias e respectivos textos (36). Foram efectuadas entre os anos de 1999 e 2008, em várias incursões por montanhas de Portugal, Espanha, França, Itália, Suíça, Grã-Bretanha e Cabo Verde, em conjunto ou não. Também num papel de rigor técnico e informativo, no final do livro é indicado o material fotográfico utilizado para a execução das fotografias. Esperamos que o livro, tal como a Montanha, possa ser usufruído por pessoas de todas as idades, nuns casos despertando o interesse por ela, noutros trazendo recordações de ocorrências vividas, mas sempre incentivando a um convívio respeitoso e são para com a Montanha. No seguimento do âmbito pedagógico e interventivo da obra, incluiu-se um pequeno glossário de termos de Montanha utilizados nas histórias, assim como dois Clamores escritos por duas pessoas que vivem pela Montanha e para a Montanha, chamando a atenção a pontos importantes na sua protecção. Preferimos ir às montanhas, vê-las, cheirá-las, tocá-las, ouvi-las, saboreá-las, sentir-nos pequenos dentro delas. Mas até lá, aqui lhe deixamos estes olhares montanheiros, cheios dos sentimentos e experiências daqueles inesquecíveis momentos. Boas saídas para a Montanha!

A razão pela qual continuo a escrever, em todas as minhas mensagens mais poderosas sobre os destinos de lugares selvagens com que me importo, é ter que usar palavras assim como imagens. Galen Rowell 6


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Pela Montanha

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erifica-se que, infelizmente, as montanhas são cada vez mais maltratadas e menos respeitadas. São os sucessivos incêndios de Verão, a massificação do turismo, a exploração indiscriminada dos recursos ambientais existentes, entre outros. Há, ainda, um fenómeno profundo e imperceptível para alguns, que se vai instalando no decorrer da evolução das nossas sociedades, no sentido da cada vez maior sedentariedade, mecanização, ocupação do tempo, excesso de trabalho, e mesmo da migração das populações do campo para as cidades – há um cada vez maior distanciamento da população em relação à terra, às rochas, às árvores, à Floresta e à Natureza. Quase que, para o mais atarefado cidadão, as notícias sobre estes assuntos são curiosidades de coisas vindas de longe e que apenas se visitam em ocasiões especiais, de festa, em férias ou em encontros de trabalho para team-building. Também se criou em muitos a ideia que ir às montanhas é algo de radical e perigoso. É onde se apanha frio ou tudo é desconfortável. É sinónimo de neve. É onde se sofre acidentes, pelas notícias que tantas vezes surgem nos meios de comunicação. Para outros tornou-se também uma oportunidade de vestir novas roupas, com os mais variados materiais têxteis e das mais variadas marcas e cores garridas. É uma ocasião para usar um novo equipamento electrónico e de, novamente, se manter em contacto com as máquinas e a tecnologia. Na verdade, para muitos, ir às montanhas tornou-se uma forma de ser urbano e de se sentir actualizado e aventureiro. Mas a Montanha é muito mais, e muito menos. Consideramos que, gostando das montanhas, devemos fazer algo mais para defender e preservar os seus ecossistemas e meios, tão frágeis ecológica, cultural e socialmente. Devemos fazer algo mais para as divulgar, na sua essência. Até porque é divulgando-as ou conhecendo-as que se podem proteger melhor, para que a elas se aceda da melhor forma e para que se cresça como melhores cidadãos. Tal como a obra de um artista, têm que ser conhecidas e acessíveis, para serem valorizadas, compreendidas, e mesmo protegidas. Pensamos que uma boa e útil maneira de o fazer é respeitosamente mostrá-las através dos 7


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olhares que temos sobre elas. Pretendemos dar conta da forma simples com que encaramos a Montanha, con-vivendo com ela, e não competindo com ela. Pode estar-se nas montanhas sem grandes aparatos, empresas, dependências, custos ou, até, desnecessários riscos de vida. Pode ir-se às montanhas sem passar frio ou sede. Pode e deve lá ir-se com o espírito aberto para o convívio com as culturas e as gentes locais, na sua sabedoria muitas vezes empírica mas, ela mesma, historicamente respeitadora da Montanha. Como em tudo na vida, tal como numa simples viagem de autocarro numa cidade ou a atravessar uma rua a pé, ir às montanhas implica as suas regras, para levar-se a experiência a bom porto e executá-la várias vezes. Mas, também como em tudo nessa nossa vida, até mesmo na Fotografia, tais regras não servirão para limitar a liberdade, ou fazer ganhar medos, ou proibir. Servirão para, na liberdade e na necessidade do contacto com o Natural, usufruir ao máximo do que há para fazer e voltar a fazê-lo de forma…natural!

Fotografar: é colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração. É um modo de vida. Henri Cartier-Bresson 8


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Pela Fotografia

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forma   como a “Olhares Montanheiros” faz uso da Fotografia pretende ir mais além do que o exercício estético e técnico comummente inerente à Fotografia de Paisagens ou de Montanha. É da conjugação do tipo de textos, curtos, simples e descritivos, com as fotografias respectivas que a Fotografia ganha maior dimensão e profundidade. E é na dimensão emocional e dos sentidos onde as fotografias evoluem, quando num segundo olhar se admira cada uma no contexto da experiência relatada. Através dessa combinação, ajuda-se o leitor a viajar à montanha. E para fazer cumprir com os objectivos traçados houve vários ingredientes a que nos mantivémos fiéis na sua execução, no que respeita à Fotografia: procurámos a melhor qualidade nas películas utilizadas, usando diapositivo profissional para a melhor acuidade visual, resolução e profundidade de cor, tão importantes em impressões de grandes dimensões; no terreno, aplicámos as técnicas com rigor e os cuidados necessários; fomos seguindo as regras da composição, adoptando-as ou não, com sentido; fizemos, cada um por si e pelo seu próprio instinto e nas suas saídas de montanha, inúmeras fotografias em inúmeros locais ao longo de vários anos; aplicámos o judicioso exercício de escolher e valorizar as melhores, pondo muitas de lado; fizemos nós mesmo a digitalização rigorosa da película, o processamento digital necessário para respeitar a realidade fotografada sem nunca a deturpar, sem fazer cortes nem alterar cores; para a exposição, fizemos as impressões, garantindo a calibração dos equipamentos e a garantia de excepcional qualidade em grandes dimensões. Se tudo isto é Fotografia, e se Fotografia é muito mais, este livro também tenciona ser um pequeno mas definitivo contributo para esse campo tão vasto que vai muito para além das máquinas.

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Há algo em nós que responde ao desafio desta montanha e sai ao seu encontro... O que obtemos desta aventura é unicamente puro prazer. E prazer é, ao fim e ao cabo, o sentido da vida. George Mallory


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Riscos no céu

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TMB (Tour du Mont Blanc) é um dos trekkings (se assim se pode chamar) europeus mais antigos e conhecidos. Consiste em contornar a pé o maciço do Monte Branco, passando por França, Itália e Suíça. Para pessoas com preparação normal, dura em média 9 dias. Durante o trajecto percorremos colos e vales com paisagens e características completamente diferentes. Esta fotografia foi tirada no segundo dia, na zona de La Balme (aprox. 1700 m), durante a subida para o Colo de Bonhomme. O céu estava riscado de nuvens altas e a temperatura era agradável. Na fotografia vê-se o nosso trajecto de subida, numa bonita zona de prado e floresta. Mais acima, seria só rocha e arbustos pequenos. Nos Alpes, considerados como o berço do Alpinismo e dos desportos de montanha, tivemos contacto com a vivência e a importância que as montanhas têm para aquelas povoações, não existindo barreiras de idades para desfrutar as montanhas. No TMB, vimos homens, mulheres e crianças, dos 8 aos 80 anos e de várias nacionalidades. A disposição dessa gente, e também a nossa, era excepcional, dizendo e ouvindo muitos “Bon jour!”. Ajudava-nos a esquecer as dores nas pernas e a fazer a longa jornada. Não havia lixo no chão, as pessoas não se atropelavam, havia comunicação e contacto visual. Só há contacto visual quando se está tranquilo. Nitidamente, era o Homem na Montanha, no seu melhor.

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Alpes

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Parecia o cume

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pico de Peña Trevinca (2127 m, Parque Natural da Sanábria, na Galiza) não se via ao longo da subida que havíamos começado desde o Refúgio em Vilanova. Fôramos rodeados pelo nevoeiro. O nosso mundo era nós, uns metros em redor, o som dos crampons no gelo e de linhas de água ao longe. Ao chegar a um topo, o nevoeiro desvaneceu-se, dando lugar a um céu azul como se vê na fotografia. Era belo, o gelo estava excelente, e a nossa euforia levou-nos a acreditar que este era a “nossa” Peña Trevinca. Ao voltar, o nevoeiro fechou-se outra vez, e sem dar por nada, os quatro virámos para Sul, em vez de seguir para Norte. Uns minutos depois, já sem seguir as nossas anteriores pegadas, desconfiámos do percurso e verificámos as bússolas e mapa. Foi difícil convencermo-nos, mas o nevoeiro e talvez algum veio de minério ferroso haviam-nos trocado as voltas...e às bússolas. Pensámos, conversámos, usámos os pontos de referência ao nosso alcance, e voltámos ao nosso bom caminho. O nevoeiro é capaz de criar outros mundos e de nos fazer perder completamente as referências. A experiência deste dia confirmou-nos que mesmo quatro montanheiros se podem perder facilmente se forem distraídos, cometendo os mesmos erros. O mapa e a bússola são imprescindíveis, mas não podem ser o único meio de orientação.

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Pe単a Trevinca

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No país dos estrunfes

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hegámos   a Folgosinho já de noite. Após uma rápida verificação das mochilas e de um jantar leve, iniciámos a nossa caminhada sob um céu magnificamente estrelado. Bivacámos numa zona de floresta, passando uma noite descansada. No dia seguinte prosseguimos a nossa caminhada, entre variadas zonas de floresta. Na Sra. de Assedasse fizemos uma pausa para descansar, admirámos a paz e aproveitámos a sombra do belo carvalho centenário ao seu lado. Continuando pelos vales, cruzámo-nos com os “resistentes” locais que ainda trabalham naqueles campos. Chegados ao Covão da Ponte, o Sol outonal estava a pôr-se. Recolhemos uns ramos para fazer uma fogueira, preparámos o bivaque e o jantar. Tudo muito leve, rápido e muito simples. Mas a noite foi diferente da anterior, com a temperatura a baixar muito. A decisão de levar sacos camas leves custou-nos uma noite muito fria. Levantámo-nos antes do nascer-do-sol – era altura para fazer muitas fotografias. Os campos estavam cobertos de geada. O rio Mondego, a floresta e a neblina matinal contribuíam para uma atmosfera quase mística. Havia uma profusão de cogumelos enormes (Amanita Muscaria), que pareciam estar também a acordar. Tudo fazia pensar que estávamos em pleno país dos estrunfes, acordando com eles. No regresso, percorremos parte de uma das vias Romanas, lembrança de que aqueles lugares já há muito eram percorridos por muitas gentes. Em Folgosinho, não resistimos a outra refeição digna do local.

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Serra da Estrela

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Alpes

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O grande e o pequeno

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epois   de vários dias de céus encobertos, havia chegado o nosso último dia na zona. Tínhamos chegado a Zermatt pela Europaweg, havia 3 dias, tendo até então visto pouco do Matterhorn. Pois, nesse último dia, o Sol venceu e nós também. Subimos no turístico comboio para Gornergrat. O turístico não faz geralmente parte do que procuramos. Era Verão e em Zermatt o que é turístico não escapa, de forma alguma. No topo, totalmente encoberto, o mundo parecia apenas ser feito de turistas delirantes com o que para eles seria a pura montanha. Nós estávamos fartos de ver nuvens e alguns estavam com antropofobia – aquilo era pior do que esperávamos. Às vezes a grande parede formada pelo Monte Rosa, Liskum, Polux, Castor e Breithorn aparecia e toda a multidão respondia com um mesmo instinto pavloviano – correr na mesma direcção, abrir a boca, fazer “Ah!” e disparar a máquina. Depois de (des)esperarmos o Sol, descemos uma estação e decidimos sair. Aí o Sol existia e os turistas haviam ficado para trás. Tínhamos o calor e a solidão por que ansiávamos. O Matterhorn e seus vizinhos apareciam em todo o seu esplendor e força bruta. Os reflexos nos lagos eram fenomenais, sem vento. Os nossos rolos de slides esgotavam-se. O espaço era nosso, com o céu incluído. O silêncio era apenas raramente quebrado pelo comboio a descer, cheio dos nossos amigos turistas. Alguns de nós conversavam caminhando com as mãos nos bolsos. Outros, silenciosamente, arriscavam-se a contrair uma tendinite no indicador direito, vendo o mundo TTL (Through the Lens). Esta fotografia é a prova disso. Mostra também como num dia de chill out, depois de ter suado e contraído algumas dores nos pés durante vários dias saboreando bem os Alpes, sentirmo-nos grandes ou pequenos é realmente muito relativo. 51


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O bosque verde

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inda   os últimos foliões de uma noite de Queima das Fitas regressavam a casa, quando chegámos a Coimbra para ali ir ter com um amigo que connosco iria fazer a sua primeira saída para a montanha. Seguiu-se a longa viagem até ao Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido (nos Pirenéus Aragoneses), aproveitada para pormos a conversa em dia, o que ajudou a passar o tempo. No dia seguinte, já com as mochilas às costas e os bastões na mão, dirigimo-nos para o Refúgio de Góriz, no coração do Parque. Uma temperatura primaveril acompanhava-nos. Já só havia neve nas altitudes mais elevadas ou nalgumas vertentes viradas a Norte. Ao longo do percurso fomos muitas vezes saudados pela presença de marmotas que permitiam uma grande aproximação. Não sei se era por estarem ainda fracas, devido à hibernação, ou se queriam apanhar o máximo de raios solares. Ou talvez soubessem que não éramos nenhuma ameaça. Foram dias calmos que permitiram algumas caminhadas em redor do Refúgio. Numa delas, no cimo de Punta Arrablo (2520 m) encontrámos um elemento estranho ao ambiente de montanha – uma concha de vieira! Ainda hoje estou curioso por saber como é que ela foi lá parar. Teria sido deixada por alguém que fazia o Caminho de Santiago? Talvez perdido, porque nunca encontrei referências a nenhum itinerário que passasse por ali. Ou teria outro significado especial? Deste local conseguimos vislumbrar o Cañon de Añisclo, o Cilindro de Marboré, o Monte Perdido e todo o Vale de Ordesa. Os seus bosques, que na Primavera apresentam folhagem nova e verdes vivos, introduzem uma alternância cromática muito bonita ao longo do vale. Esta fotografia foi tirada no grande bosque de faias (Fagus sylvatica) do vale, no nosso regresso. A tonalidade esverdeada que observamos deriva da luz que trespassa as tenras folhas verdes das faias, ajudando-as a despertar para um novo ciclo. O passeio não terminou sem que o mais afoito de nós tivesse a coragem de dar um mergulho nas águas frias do Rio Arazas.

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Pirenéus

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Caem os f locos de neve e o silêncio

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ntro   numa clareira, saindo da densa floresta de carvalhos. Tinha seguido pelo caminho, bem marcado, debaixo das copas de magníficos carvalhos. No decorrer dos meus passos, tinha decidido que seria o melhor caminho de montanha em floresta que até então conhecera, e que não deveria ser percorrido por muitos que fossem incautos. Tinha, eu próprio, assinado mentalmente um acordo de princípios, em como ali voltaria com pessoas especiais para mim. Não outras. Estaria a ser justo? Sentira-me acolhido por aquela floresta centenária, quase divina, enquanto percorria o trilho por entre troncos imponentes, como se estivesse a ser premiado por alguma coisa de cuja explicação não entenderia. Talvez pelo simples facto de estar ali, e em respeito. Apenas o facto de ali estar, então, era o importante para o meu Ser. E de futuro, tinha um acordo para acautelar, em favor e lealdade para com aquelas árvores.


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Serra do Gerês

O dia tinha estado mau, em termos de luz para fotografar. Sabia que, contudo, para o final da tarde haveria uma massa de ar frio a chegar à zona, vinda de Leste. Poderia trazer neve. E, justamente, foi no momento de chegada à clareira, como que a festejar os mágicos momentos de convívio com aquelas árvores, que fui brindado com os primeiros flocos de neve de Outono. E quando cai neve, cai também um silêncio único. Deixam de se ouvir os ruídos à nossa volta, dos regatos ou de algum veículo ao longe. Digo para mim próprio, em voz alta, “Aaaahhh. É para isto que venho à montanha”. 87


Sabia que a vitória não é atingirmos o cume, mas regressar cá abaixo são e salvo e sentar-me em volta de uma mesa, com os amigos, a recordar como foi. em “A Mais Alta Solidão”, João Garcia


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Equipamento Fotográfico Na execução das fotografias deste livro, os autores usaram: João M. Gil Corpos de Máquinas: Nikon F80 (35mm); Hasselblad XPAN II (panorâmica); Mamiya M7II (6x7, Médio Formato, MF) Objectivas: Nikon 24mm f/2.8D Nikkor AF, Sigma 28-80mm f/3.5-5.6 Aspherical Macro HF para 35mm; Hasselblad Xpan 45mm f/4 e Hasselblad XPAN 30mm f/5.6 para XPAN; Mamiya 7II N50mm f/4.5L para M7II Rolos: Kodak Ektachrome (E) 100VS e 100GS; Fujichrome Velvia ISO 50 e 100 (35mm e 220) Tripés: Manfrotto 190MF4 MagFiber com cabeça Manfrotto 484RC2 Mini e com sapata RC2; Posso P5200 (tripé barato, leve e simples, funcional) Filtros: UV, Polarizadores, Graduados de Densidade Neutra, Kaiser, Tiffen, Cokin, Sigma e Hasselblad Digitalização de Película: Digitalizadores Minolta Dimage Scan Elite 5400 (35mm) e Nikon Super Coolscan 9000 (35mm e MF), usando o software Vuescan de Ed Hamrick ou Nikon Scan Impressões para Exposição: Impressora Epson Stylus PRO 7800, papel fotográfico Acid Free e tintas Epson Ultracrome K3 (impressões executadas pelo próprio) Nuno Verdasca Corpos de Máquinas: Nikon F90X; Nikon F80 (35mm) Objectivas: Sigma 28-70mm f/2.8, Sigma 24-70mm f/2.8 EX Aspherical D, Nikon 24mm f/2.8D Nikkor AF Rolos: Kodak Ektachrome (E) 100VS, 100SW, 100GX e 100G; Fujichrome Velvia ISO 50 e 100; Provia ISO 100; Sensia ISO 100 Tripés: Manfrotto 055C/HE 30 com cabeça Manfrotto 056 3D Junior; TITAN (tripé barato, leve e simples, funcional) Filtros: UV e Polarizador Kaiser e Hoya 90


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Glossário Autonomia - característica da actividade em montanha em que a alimentação e abrigo do montanhista apenas depende do próprio. Bastão de caminhada - bastão como os de esqui, para transferir o esforço dos pés, tornoselos e joelhos para os braços, em longas caminhadas com peso, útil para atravessar regatos. Bivacar - passar a noite na montanha sem o abrigo de Refúgio ou tenda, ou tendo montado e desmontado tenda simples entre o pôr-do-sol e o nascer-do-sol seguinte. Circo - zona rodeada de cristas, concentrando várias linhas de água ou de gelo num único vale. Colo - ponto mais baixo entre dois picos pertencentes à mesma crista montanhosa, ligando dois vales e servindo de passagem ao montanhista. Corredor - zona inclinada de neve ou gelo delimitada por rochas, dando acesso a cotas mais altas. Cota - designação topográfica referente à altitude. Crampons - peças metálicas com saliências pontiagudas (8, 10 ou 12 pontas) que se aplica sob a base das botas. São necessários para progredir em neve dura e em gelo, em segurança. Gite d´etape - designação francesa para referir uma casa simples para albergar caminhantes, em geral típica e inserida nas povoações por onde passam os percursos. Haute Route - Grande Rota de caminhada em alta montanha que liga duas povoações dos Alpes, Chamonix em França e Zermatt na Suíça. Manta térmica - folha plastificada e metalizada usada para cobrir o montanheiro e reduzir o arrefecimento do corpo, em caso de emergência e resgate. Piolet - pequena picareta, destinada a auxiliar a progressão e segurança do montanhista sobre pendentes de neve ou gelo. Primeira camada - peça de roupa que se usa em contacto com a pele, para transpirar e aquecer eficientemente. Refúgio - instalação preparada e gerida para acolhimento, conforto, protecção e segurança de montanheiros. TMB - o Tour du Mont Blanc é a Grande Rota de caminhada em alta montanha que contorna o maciço do Monte Branco. Travessia - tipo de caminhada em montanha, entre zonas distintas e envolvendo várias horas. Trekking - longa e dura caminhada, especialmente se em regiões remotas e durante vários dias. Vertente - face ou lado de uma montanha. (Algumas destas definições foram baseadas no Dicionário de Escalada e Montanha, criado por Luís Avelar, em http://luis-avelar.planetaclix.pt/dicionario/dicio_a.htm).

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Autoria das Fotografias Fotografias da autoria de João M. Gil: págs. 18, 21, 26, 28, 33, 38, 40, 43, 48, 51, 52, 60, 63, 68, 70, 76, 82, 88 e capa Fotografias da autoria de Nuno Verdasca: págs. 15, 17, 22, 24, 31, 34, 45, 46, 55, 57, 59, 67, 73, 74, 79, 80, 85 e 87 Todas as fotografias se encontram à venda, assinadas e numeradas. Contacto: olhares-montanheiros@alma-lux-photographia.com

Agradecimentos Várias pessoas nos ajudaram de diversas formas. Mostramos a nossa simpática gratidão a: Carlos Pinto Coelho, João Garcia; José Maria Saraiva, José Carlos Pires; António Costa, Amândio Albuquerque, Brian Goodfellow, Maria João Verdasca, Teresa Galvão Lourenço, João Barroso, Víctor Gil, Augusto Mota, Luís Avelar, Joaquim Pinheiro Brites, Fernando Mendes, José Antunes, Carlos Gomes, Rui Gameiro, Sandra Portela, Luís Jordão, Ágata Rodrigues, João Carlos Martins. Gostaríamos de agradecer a todos os nossos amigos com quem temos partilhado estas aventuras, pelos tão bons momentos de companheirismo e convívio que nos têm proporcionado. Uma palavra de apreço ao Núcleo de Montanha de Espinho a que pertencemos, pela sua actividade cívica, energia e leveza de espírito com que vão para a Montanha.

Bem hajam as montanhas e as lentes de uma máquina fotográfica. 92


Olhares Montanheiros | João M. Gil & Nuno Verdasca

Clamores pela Montanha Os grandes acontecimentos começam sempre de pequenos nadas! Os problemas do clima, do ambiente e da biodiversidade estão a ser acompanhados pelo acentuar da diminuição da mancha florestal, a nível mundial. Espero que a insignificância de “o milhão de carvalhos para a Serra da Estrela”, cuja onda se alastrou a muitos outros pequenos actos, venha a reflectir-se em muitas ondas de gente, que nunca serão demais, para repor na Serra da Estrela, a floresta que ela merece e de que tanto precisamos! Que um dia se estendam para outras montanhas de Portugal e para o Mundo. José Maria Saraiva Um Semeador e Defensor da Montanha

Os sinais da presença do Homem na Montanha perdem-se no tempo, muito para lá das revelações arqueológicas e dos relatos históricos da ocupação do território. Os ecossistemas e a biodiversidade tão ricos e únicos da Peneda Gerês deviam-se, acima de tudo, a uma sábia acção do Homem na gestão dos recursos naturais, ao longo de milénios, sem a ingerência dos agentes perturbadores do Estado e das seitas hodiernas. E identicamente se passa noutras montanhas do Mundo. Elas, as montanhas, chamam-nos de novo, para as ajudar a restabelecer os equilíbrios a que se habituaram. Elas têm saudades das vezeiras, dos rebanhos e de escutar as músicas dos seus pastores. Retribuem-nos por cada pinga de suor, magicamente, o encanto e o prazer de viver esta cumplicidade. Contai connosco! José Carlos Pires Um Comunicador e Defensor da Montanha

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Apoios e Colaborações


Algumas Opiniões sobre a Obra “Olhares Montanheiros” “Bem-hajam pela doce viagem de Paz e de Sonho que me foi dado fazer. Bem-hajam! Continuem a trazer-nos a voz, no silêncio, da Mãe-Natureza.” Maria Alexandra Cristino “Obrigado por me terem cortado a respiração! Bem-hajam por saberem olhar a beleza! Que grande emoção!” Inês de Sousa Amorim “Não basta uma máquina fotográfica para fazer fotografias destas. É preciso um grande amor pela fotografia e pela Natureza.” Margarida Lima “Very High Quality Work” Olivia Perin “Belas Fotos! De quem vive a montanha com o coração. Obrigado pela atenção.” João Simões “É difícil, por vezes, conseguirmos registar, passar para o papel todas as emoções, os sentimentos, os medos ou ansiedades. Mas vocês souberam fazê-lo de uma forma eloquente. Obrigado por estas belíssimas fotos e palavras que em muito contribuíram para uma mudança do meu modo de “olhar” as montanhas.” Patrícia Martins “A máquina fotográfica tem muito valor convosco, onde estejais...” João Dias “Splendide, c´était comme si on avait fait partie du voyage!” LS “Vamos com vontade de viver as montanhas...” Ana, Brian e Sara

ISBN 978-989-8153-19-7

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Olhares Montanheiros | Fotografias & Histórias de Montanha  
Olhares Montanheiros | Fotografias & Histórias de Montanha  

Este é um extracto do livro “Olhares Montanheiros | Fotografias & Histórias de Montanha”, de João M. Gil & Nuno Verdasca, lançado a 20 de Ma...

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