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A INCÓGNITA A INCÓGNITA Estava escuro e frio. Não o costumado escuro, pois que não era tão carregado. Era possível enxergar umas quantas coisas, mas não conseguia descobrir a sua natureza. O ar estava gélido. Fazia-me tremer interiormente e provocava-me um ligeiro entorpecimento dos membros, que aumentava à medida que o tempo de permanência naquele lugar (que nada de convidativo devia ter) se alongava. Contudo, não fiquei gelado. Pensei: ”Para o ambiente estar assim, é porque estou em qualquer lado onde há neve, e em abundância!”. Olhei o chão para ver se o meu raciocínio estava certo. Não. Não estava! O que pensei não condizia com a realidade, pois que se condissesse, eu teria que ver tudo branco; mas... não vi! Tudo era escuro à minha volta. Um escuro irritante, desanimador, brutal!!! Duvidei, então, da minha vista. “Seria que eu... - engulo em seco - ... estava cego?! Não! Não podia ser possível! Seria duro de mais para mim!” Alípio Ferreira

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A INCÓGNITA Quis chorar ante a ideia de que não me iria ser possível contemplar tudo aquilo que ardentemente desejaria que me viesse a rodear. Apesar de quase o necessitar, não consegui!!! Caí em prostração mas não fui capaz de meditar. O escuro tolhia-me. Pouco depois voltei à realidade. Como até aqui tivesse estado sentado, com as pernas encolhidas, a cabeça caída sobre os joelhos e os braços a cercarem-mos para não deixarem cair aquilo que retraído estava, pensei que seria tempo de me levantar. Levei as mãos ao chão para me apoiar. Fiquei atónito!!! – O que lhe teria acontecido?! – Nada encontrei em que me pudesse suster!!! Tateei em volta, procurando qualquer coisa onde me segurar. Nada... nada encontrava. Suores frios já me invadiam. Não desesperei; no entanto, fiquei apreensivo. Voltei a procurar. Desta vez foi com os pés. A mesma negativa. Fiquei interrogado: - “Onde me encontraria eu? Que sítio seria aquele onde nada existia imediatamente Alípio Ferreira

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A INCÓGNITA abaixo de mim a que me pudesse segurar? Como teria ido parar àquela incógnita?” De repente... qualquer coisa muito distante, - Mas estaria ela muito longe? Não. Não parecia. Era capaz de estar mesmo muito perto. -, uma luz (?!) apareceu de qualquer lado. Não conseguia descobrir o seu ponto de partida, se da esquerda, se da direita, se de trás, se da frente, porque cegava e parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo. Cada vez o seu brilho se tornava mais fulgurante, e o calor que emanava mais sufocante. Partindo dos confins divergentes desse largo ponto terrivelmente brilhante, de intensa luz e insuportável calor, viam-se enormes pedaços disformes de qualquer coisa, voando a uma nunca imaginada velocidade. Todos convergiam para determinado ponto, supostamente perto de mim, como se estivessem de comum acordo, ou alguém os tivesse mandado comparecer naquele sítio e eles tivessem entendido. A cada instante estão mais perto do ponto!...?... A distância vai diminuindo... Estão já muito perto!... Encontraramse!...???... Alípio Ferreira

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A INCÓGNITA Oh!... que estupenda explosão! Assustadora e maravilhosamente fantástica. Por momentos nada enxergo. Finalmente é-me possível vislumbrar o resultado. A isto não se pode chamar um resultado; deve-se chamar um resultadão! Porque houve tamanha modificação, que não me consigo convencer de que o que presencio é exatamente o que existe, que não estou a dormir. Mas será que não estou mesmo em profundo sono? Se assim é, qual o fundamento. Qual a necessidade do que estou a ver, e o que será tudo isto?... Dos enormes pedaços abruptos dessa “qualquer coisa” formou-se uma grande bola. Talvez devido à grande fricção eles aqueceram imensamente tomando umas formas maleáveis, que depois de encontrados, pararam, dando ensejo a que a temperatura baixasse, provocando assim a solidificação das matérias componentes. E porquê naquele feitio?! Neste fenómeno nem todos os bocados ficaram ali. Depois de agregados, e ainda em forma maleável, alguns se desprenderam do todo de partes em blocos de igual modelo, indo para longe, redondos ou não, e vagueavam. Um deles ficou perto. Era Alípio Ferreira

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A INCÓGNITA pequeno em relação a esse todo de que derivava; disforme devido a reentrâncias mais ou menos parabolóides.

Alípio Ferreira

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A incógnita