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ALINE CRISTINE SANT ANA

COMUNICAÇÃO E JUVENTUDE EM MOVIMENTO: UMA ANÁLISE DAS ESTRATÉGIAS COMUNICATIVAS DO LEVANTE POPULAR DA JUVENTUDE

Monografia apresentada ao curso de Comunicação Social – Jornalismo da Universidade Federal do Pampa, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Jornalismo. Orientadora: Profª Drª Merli Leal Silva

São Borja 2013


ALINE CRISTINE SANT ANA

COMUNICAÇÃO E JUVENTUDE EM MOVIMENTO: UMA ANÁLISE DAS ESTRATÉGIAS COMUNICATIVAS DO LEVANTE POPULAR DA JUVENTUDE

Monografia apresentada ao curso de Comunicação Social – Jornalismo da Universidade Federal do Pampa, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Jornalismo. Área de concentração: Comunicação Social

Banca examinadora:

Profª Dra. Merli Leal Silva Orientadora Comunicação Social – Publicidade e Propaganda (UNIPAMPA)

Profª Dra. Sara Alves Feitosa Comunicação Social – Jornalismo (UNIPAMPA)

Profº Dr. Daniel Angel Burgueno Etcheverry Ciências Sociais – Ciência Política (UNIPAMPA)

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Dedico esta monografia a tudo e a todos que, de alguma maneira, contribuíram para sua conclusão. Minhas famílias, de sangue e de amigos, foram a maior fonte de carinho e compreensão da qual não posso esquecer. À eles dedico os frutos que virão. 3


AGRADECIMENTOS

À minha mãe, Denise Sant’Ana, por ter sido a primeira pessoa a indicar e acreditar na minha vocação para o Jornalismo.

Ao meu pai, Aldenir Santana, por ser meu fã incondicional, que acredita em tudo o que faço, e acha graça até mesmo dos meus fracassos.

Aos professores que tive. Todos aqueles que ao longo da minha formação, me ensinaram valores de coletividade e cidadania. Valores sem os quais este trabalho não seria possível.

À Profª Dr. Merli Leal Silva, pela orientação, pelo apoio intelectual e, principalmente, por mostrar que a Comunicação pode ser uma ferramenta para educar e transformar o mundo.

À Profª Me. Mara Regina Ribeiro Rodrigues, por me acompanhar durante boa parte do percurso acadêmico, mostrando-me, sempre, muitas perspectivas e formas críticas de enxergar a vida.

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A todos os amigos que, estando perto ou longe, fazem parte de uma família afetiva. Obrigada pelo convívio, pela parceria durante as situações de sufoco, pelas alegrias, pelas paixões, pela amizade.

Aos integrantes da Via Campesina, do Movimento dos trabalhadores rurais Sem Terra (MST), do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e do Levante Popular da Juventude, pela experiência de vida da qual pudemos compartilhar.

Aos membros do Setor da Comunicação do Levante que, em especial, contribuíram para a realização da pesquisa.

Ao deus que, se porventura existir, continuará me mostrando a sabedoria da vida, e os caminhos por onde devo seguir.

Por fim, a todas as pessoas que, direta ou indiretamente, colaboraram para a conclusão deste trabalho. São elas que alimentam, todos os dias, a minha crença no ser humano.

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Não há nada tão poderoso neste mundo, como uma ideia cuja oportunidade chegou. Victor Hugo 6


RESUMO

Pela ótica dos saberes populares se alimentam as curiosidades da academia. Do mesmo modo, alimentam a busca pelo conhecimento sobre as formas de comunicação, que nos permitem conviver em sociedade. Ao analisar o mundo da perspectiva antropológica, é possível perceber o quanto esta comunicação revela técnicas e estratégias que representam uma característica emergente da prática e do contexto social (MÉSZÁROS, 2009). Neste sentido, o presente estudo traz uma análise das estratégias de comunicação do movimento juvenil Levante Popular da Juventude, articuladas para as manifestações em prol da Comissão Nacional da Verdade. Para tanto, utiliza-se a metodologia da Hermenêutica da Profundidade (THOMPSON, 2009), como base de análise ideológica nas ações comunicativas do movimento, que puderam ser registradas a partir de uma experiência etnográfica (TRAVANCAS, 2009), vivida entre os meses de fevereiro e maio de 2012. Com isso, a pesquisa revela de que maneira as relações de poder e as ideologias pós-modernas impulsionaram a mobilização social (TORO, 1997) a partir da criação do blog Levante.org.br. Neste âmbito, as formas de análise do conteúdo postado durante as mobilizações dos “escrachos” permitem entender como a Comunicação Popular (FREIRE, 1980) se apropria de conceitos da Cultura da Convergência (JENKINS, 2008) para estimular o engajamento juvenil. Portanto, o estudo mostra-se importante para a grande área da comunicação, ao abordar questões de engajamento social, política e democracia, nas quais as novas redes de sociabilidade se inspiram. Num cotidiano onde os sujeitos emissores são, também, os consumidores da mensagem, julga-se propositivo entender se o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação abrem precedentes para a consciência crítica da democracia participativa (HABERMAS, 1989) e de suas extensões locais (LEVÝ, 2010). Por fim, a relevância científica desta pesquisa apresenta-se como um documento descritivo desta sociedade em transição – ou, como visto, desta juventude em movimento.

Palavras-chave: Comunicação Popular. Estratégias de comunicação. Ideologia. Juventude. Mobilização. Movimentos Sociais

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ABSTRACT

The academy feeds its curiosities through the lens of popular knowledge. Likewise, they feed the quest for knowledge about the forms of communication that allow us to live together in society. By analyzing the world from an anthropological perspective, one can see how much this communication reveals techniques and strategies that represent an emerging feature of practice and social context (MÉSZÁROS, 2009). In this sense, the present study provides an analysis of the communication strategies of the youth movement named Levante Popular da Juventude, in close relation to the demonstrations in support of the National Commission of Truth. To this end, we use the methodology of the Hermeneutics of depth (THOMPSON, 2009), on the basis of ideological research on communicative actions of the movement, which could be recorded from an ethnographic experience (TRAVANCAS, 2009), that took place between February and May of 2012. With this, the survey reveals how power relations and post-modern ideologies boosted social mobilization (TORO, 1997) from the creation of the blog Levante.org.br. In this context, the analysis of the content posted during the mobilizations of the "escrachos" allow one to understand how the Popular Media (FREIRE, 1980) appropriates concepts of convergence culture (JENKINS, 2008) to stimulate the youth engagement. Therefore, the study is important for the large area of communication, to address issues of social engagement, politics and democracy, in which the new sociability networks are inspired. On daily life situations, in which the subject issuers are also the consumers of message, it is intentional to understand if the use of information and communication technologies open for the critical conscience of participative democracy (HABERMAS, 1989) and its extensions (LEVÝ, 2010). Finally, the scientific relevance of this research is a descriptive document of this society in transition – or, as it can be understood from this context, this youth on the move.

Keywords: Popular Communication. Communication strategies. Ideology. Youth. Mobilization. Social Movements.

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RESUMEM

Por la óptica del conocimiento popular se alimentan las curiosidades de la Academia. Asimismo, la búsqueda de conocimiento sobre las formas de comunicación que permitan convivir en sociedad. Analizando el mundo de la perspectiva antropológica, se puede ver cuánto esta comunicación revela técnicas y estrategias que representan una característica emergente de la práctica y el contexto social (MÉSZÁROS, 2009). En este sentido, el presente estudio ofrece un análisis de las estrategias de comunicación del movimiento de juventud levantamiento Popular Juvenil, relacionado con las manifestaciones en apoyo de la Comisión Nacional de verdad. Para ello, utilizamos la metodología de la hermenéutica de profundidad (THOMPSON, 2009), sobre la base de uma investigación ideológica e las acciones comunicativas

del

movimiento,

reveladas

durante

um

trabajo

etnográfico

(TRAVANCAS, 2009), realizado entre febrero y mayo de 2012. Con esto, la encuesta revela cómo las relaciones de poder y las ideologías posmodernas impulsaron la movilización social (TORO, 1997) desde la creación del blog Levante.org.br. En este contexto, el análisis de las formas de contenido publicado durante las movilizaciones de los "escrachos" permitirá entender cómo los medios populares (FREIRE,1980) se apropian de conceptos de la cultura de convergencia (JENKINS, 2008) para estimular la participación de la juventud. Por lo tanto, el estudio es importante para la gran area de la comunicación, al abordar asuntos relativos a la participación social, la política y la democracia, em las cuales las nuevas redes de sociabilidad se inspiran. Em um cotidiano donde los sujetos emisores de mensajes son tambien los consumidores de esos mensajes, consideramos propositivo entender si el uso de las tecnologías de comunicación aben precedentes pa consciencia crítica de la democracia participativa. (HABERMAS, 1989) y de sus extensiones locales (LEVÝ, 2010). Fonalmente, la importancia cientifica de este estudio se presenta como um documento descriptivo de esta sociedad de transición – o como se puede ver, de esta juventud em movimiento.

Palavras-clave: Comunicación popular. Estrategias de comunicación. Ideología, juventude. Mobilizacióin. Movimientos sociales.

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LISTA DE FIGURAS

FIGURA 1: Organicidade do Levante Popular da Juventude ___________________ 33 FIGURA 2: Gráfico dinâmica dos públicos _________________________________ 41 FIGURA 3: Gráfico dos níveis de vinculação para a mobilização social __________ 44 FIGURA 4: Arquitetura da informação - HOME _____________________________ 46 FIGURA 5: Arquitetura da informação - PÁGINAS __________________________ 47 FIGURA 6: Estrutura Linear de pirâmide invertida ___________________________ 48 FIGURA 7: Elementos Discursivos _______________________________________ 54 FIGURA 8: Formas de Investigação Hermenêutica ___________________________ 59 FIGURA 9: A característica transmídia na produção de conteúdo _______________ 63 FIGURA 10: modelo de tabela 1 - Apresentação das postagens analisadas ________ 65 FIGURA 11: Gráfico da distribuição das postagens por categoria ideológica _______ 66 FIGURA 12: Gráfico da frequência das categorias ideológicas de acordo com período das mobilizações ______________________________________________________ 66 FIGURA 13: Gráfico da produção transmídia referente às postagens do “Levante pela Verdade” ____________________________________________________________ 67 FIGURA 14: Processo de construção da notícia _____________________________ 67 FIGURA 15: modelo de tabela 2 - Entrevistados _____________________________ 69 FIGURA 16: Gráfico valores-notícia segundo os entrevistados _________________ 70 FIGURA 17: Gráfico ações-notícia versus argumentos dos entrevistados _________ 71 FIGURA 18: Desenvolvimento metodológico do enfoque tríplice _______________ 72 FIGURA 19: Interatividade com o público e repercussão da campanha ___________ 74 FIGURA 20: Categorização, atualização e formas de pesquisa __________________ 75 FIGURA 21: Desenvolvimento do Enfoque tríplice para a Comunicação de massa __ 75 FIGURA 22: modelo de tabela 3 - Modos de operação da ideologia______________ 77 FIGURA 23: modelo de tabela 4 - Resultados e Discussões____________________ 81

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LISTA DE TABELAS

FIGURA 10: modelo de tabela 1 - Apresentação das postagens analisadas ________ 65 FIGURA 15: modelo de tabela 2 - Entrevistados _____________________________ 69 FIGURA 22: modelo de tabela 3 - Modos de operação da ideologia______________ 77 FIGURA 23: modelo de tabela 4 - Resultados e Discussões____________________ 81

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LISTA DE ABREVIATURAS

Cap. – capítulo Coord. – coordenação Org. – organizador p. – página Vol. – volume

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LISTA DE SIGLAS

AN – Acampamento Nacional CNV – Comussão Nacional da Verdade LPJ – Levante Popular da Juventude MS – Movimentos Socias MP – Movimentos Populares MPA – Movimento dos Pequenos Agricultores MST – Movimento dos trabalhadores rurais Sem Terra ONG – Organização não-governamental SNC – Setor Nacional de Comunicação TC – Teoria Crítica TICs – Tecnologias de Informação e Comunicação Unipampa – Universidade Federal do Pampa UFPel – Universidade Federal de Pelotas UFRGS – Universide Federal do Rio Grande do Sul UFSM – Universidade Federal de Santa Maria

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO _____________________________________________________ 17 1. COMUNICAÇÃO POPULAR E ALTERNATIVA 1.1 Comunicação e Democracia __________________________________________ 20 1.2 O estudo da Comunicação Popular no Brasil _____________________________ 23 1.3 O uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) ______________ 26

2. NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS 2.1 Os Novos Movimentos Sociais no Brasil ________________________________ 29 2.2 O Levante Popular da Juventude e sua relação com os NMS ________________ 31 2.3 Engajamento e Mobilização social dos jovens do LPJ _____________________ 35

3. A COMUNICAÇÃO E O PROCESSO DE NACIONALIZAÇÃO DO LPJ 3.1 Setor Nacional de Comunicação: o órgão emissor do LPJ ___________________ 38 3.2 Estratégias Comunicativas utilizadas pelo Setor __________________________ 42 3.2.1 Apresentação do corpus Levante.org.br ____________________________ 45 3.2.3 Apresentação da amostra #Levantepelaverdade _______________________ 49

4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 4.1 A experiência etnográfica na composição do método ______________________ 51 4.2 Hermenêutica da Profundidade e suas categorias de interpretação ____________ 56 4.2.1 Análise sócio-histórica __________________________________________ 59 4.2.2 Análise Formal e discursiva ______________________________________ 65 4.2.3 Interpretação, auto-reflexão e crítica _______________________________ 76

5. RESULTADOS E DISCUSSÕES 5.1 A relação das estratégias comunicativas com o papel do Setor _____________ 80

CONSIDERAÇÕES FINAIS ___________________________________________ 83 BIBLIOGRAFIAS E OBRAS CONSULTADAS __________________________ 85 14


INTRODUÇÃO

Não há nada tão poderoso neste mundo, como uma ideia cuja oportunidade chegou.

Não há nada tão difícil quanto dar conta da ideia cuja oportunidade chegou. Parafraseando Victor Hugo, é visivelmente incoerente buscar a satisfação quando há possibilidades de melhoras. No entanto, a sensação do desafio aos poucos vai desfazendo aquele medo de não dar conta do recado. Afinal, se nada der certo, o compromisso desfeito ainda beneficiará a decepção, e as chances de um recomeço se equivalerão ao esforço inicial. Então, este trabalho é uma tentativa de que a oportunidade de fazê-lo valha o sucesso da ideia. Mas, primeiro é importante contar como surgiu sua a motivação. Pois bem. No início do ano de 2012, mais precisamente em 12 de janeiro, alunos da UFRGS, da UFSM, da UFPel, da Unipampa e de outras instituições privadas, puderam participar do 3º Estágio Interdisciplinar de Vivência (EIV) que, à princípio, era uma espécie de intercâmbio cultural com o objetivo de reunir jovens do campo e da cidade. Até então, pouco se ouvia falar de um tal Levante Popular da Juventude. Ainda que aqueles jovens participantes do EIV fossem, em sua maioria, pessoas engajadas com o movimento estudantil, poucos sabiam de fato o que era o “Levante” – apelido dado pelos integrantes. Durante todo o mês de janeiro, a experiência com as famílias campesinas, com os espaços de palestras, dinâmicas e socialização, ainda não foi o suficiente para descobrir do que se tratava aquela organização ligada ao MST. Sabia-se, no entanto, que o “Levante” tinha um Projeto Popular de organização e engajamento da juventude em todo o Brasil. Amplo, não? Seria quase um projeto de utopia, com a licença de Galeano. Neste contexto, portanto, surgiu o desejo de uma investigação maior sobre aqueles indivíduos. Terminado o período de vivência no EIV, então, iniciou-se a jornada de acompanhamento do movimento. Foram quase 120 dias de experiência, que sucederam o primeiro Acampamento Nacional do Levante Popular da Juventude. Neste espaço, em especial, foram realizados boa parte dos registros apresentados neste trabalho. O acampamento ofereceu muitas oportunidades para que o condicionamento empírico da pesquisa se concretizasse pela 15


descrição dos detalhes, dos gestos e, sobretudo, pelos relatos orais presenciados. Além disso, a representatividade daquele encontro foi fundamental para constatação do que se pretende abordar aqui – um movimento engajado em seus princípios, mas dicotômico em suas ascensões comunicativas. Encontros, reuniões, cursos de formação, manifestações também foram ambientes nos quais a observação participante fomentou a curiosidade para a vida cotidiana – e não só acadêmica. Ora, este seria o sinal do engajamento com a pesquisa! Se para alguns isso pode ser a constatação de um objeto, naquele momento, no entanto, o nascimento de um possível estudo significava o compromisso com a sociedade, muito maior do que, apenas, com o curso de jornalismo da Unipampa. A escolha do Levante Popular da Juventude como foco direcionador do Trabalho de Conclusão de Curso deve-se à sua capacidade de dialogar com a sociedade e as transformações que nela surgem. Sua relação com os anseios do jovem reforça a ideia de uma nova geração que, ao contrário do que muitos dizem, não está perdida e, sim, ainda tem muito pelo que lutar. As considerações de análise da pesquisa, portanto, se baseiam nas condições pelas quais os jovens que acompanham o “Levante” conseguem interagir. Ao chamar o percurso comunicativo de “estratégia de comunicação” entende-se, pois, que há um planejamento construído para que as relações interpessoais no movimento aconteçam. Neste sentido, é possível entrelaçar as constatações empíricas aos conceitos acadêmicos pertinentes ao estudo da comunicação. No primeiro momento, identifica-se características da organização popular, da narrativa libertadora e dos fundamentos sociais aos quais o aparato da comunicação estão ligados. Neste ponto, é imprescindível a contribuição teórica de Paulo FREIRE (1980) e Cicília PERUZZO (2003) que, ao dialogarem com os conhecimentos populares, trouxeram bons ensinamentos aos paradigmas científicos. Na sequência, faz-se uma revisão sócio-histórica sobre como os movimentos populares tradicionais influenciaram a formação de novos atores sociais, como é o caso do “Levante”. Nesta etapa, associa-se boa parte dos relatos orais às descrições que marcaram o surgimento dos movimentos sociais no Brasil, bem como suas transformações ao longo dos séculos XX e XXI. Para isso, apresenta-se o preâmbulo conceitual das pesquisadoras Maria da Glória GOHN (2007) e Ilse SCHERERWARREN (2011) no que tange à caracterização dos Novos Movimentos Sociais, os quais identificam as causas que levam muitos jovens a participarem do “Levante”. 16


Estes pressupostos teóricos dão base para que a metodologia de análise seja pensada a partir do conhecimento adquirido até então. Pois, como diria MÉZÁROS (2009) a compreensão do contexto no qual os seres humanos adquirem conhecimento é a própria constatação do conhecimento, e que, por sinal, dá condições para que os indivíduos pensem sobre suas realidades. Deste modo, entende-se que os registros da experiência etnográfica foram a “constatação de conhecimento” que, a partir da noção científica, mereceriam uma interpretação sobre qual realidade representam. Assim,

procurou-se

na

metodologia

da

interpretação

ideológica

um

direcionamento para as especificidades nas quais o estudo poderia frisar. Sob a luz dos estudos de THOMPSON (2009), atribui-se a análise da Hermenêutica da Profundidade às formas simbólicas discursivas do movimento – que neste trabalho são representadas pelos registros etnográficos e pela produção de conteúdo para o blog levante.org.br – no intuito de identificar a relação da ideologia com as formas operacionais de comunicação com a sociedade civil. Isto é, a abordagem analítica condiciona uma possível interpretação dos intuitos ideológicos que levaram às formas de comunicação articuladas pelos sujeitos emissores do movimento. Considera-se, pois, que as contribuições de CASTELLS (1999) e, mais tarde, de JENKINS (2008) são os eixos conciliadores das possíveis interpretações aferidas ao contexto social que deu origem ao movimento e suas implicações simbólicas para com a Comunicação. Por fim, almeja-se que esta pesquisa possa se fazer relevante para a área da comunicação, do mesmo modo que pretende dialogar com os seus campos específicos – já que os fundamentos utilizados para a análise têm base nas estratégias comunicativas (relações públicas) que foram utilizadas nos textos noticiosos (jornalismo) veiculados durante o período de repercussão de uma campanha (Publicidade) de mobilização dos jovens.

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1. COMUNICAÇÃO POPULAR E ALTERNATIVA

O mundo dos seres humanos é o mundo da comunicação. Os homens não podem ser verdadeiramente humanos sem a comunicação, pois são criaturas essencialmente comunicativas. (Paulo Freire, 1980, p.149)

1.1 Comunicação e Democracia

Ao mesmo tempo em que é necessário delinear a história do objeto de estudo, neste ponto, é igualmente importante conciliar a contexto social e midiático no qual o Levante Popular da Juventude surgiu. Na primeira década do século XXI muitos estudos relativos à comunicação em rede globalizada já destoavam os paradigmas da comunicação de massas, em que os percursos comunicacionais se dão de maneira verticalizada, entre emissor e receptor, em produção centralizada. Neste período, a relação entre as novas e velhas1 mídias possibilitaram uma dimensão comunicativa, sob a qual atores sociais puderam exercitar a democracia participativa – uma definição originalmente associada aos estudos da Teoria Crítica e aos fundamentos da Escola de Frankfurt. Em HABERMAS (1989), um dos primeiros a esboçar uma ideia concisa sobre o assunto, o conceito de democracia participativa está associado ao que ele chama de “agir comunicativo”, no qual as ações são justificadas pela razão e pelo compromisso ético ligado aos interesses comuns dos indivíduos. Segundo o autor, o debate e a informação ganham espaço na esfera pública, na medida em que os assuntos midiatizados promovem a sociabilidade entre os sujeitos e suas ações. A definição de esfera pública pode, a partir disso, ser comparada ao papel das mídias em promover um lugar onde as decisões sociais são tomadas pelo intermédio e para o intermédio das 1

Para Jenkins a relação entre as novas e as velhas mídias promove o que ele chama de convergência. Segundo ele, “este talvez seja o momento mais perigoso para o movimento democrático que está desabrochando – o momento em que as corporações e os anunciantes ameaçarão cooptar e corroer a ética democrática online. O futuro talvez dependa do que irá exercer maior domínio sobre essa caixa: as regras da velha radiodifusão ou o poder popular da internet” (2008, p.277).

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ações coletivas. Habermas, no entanto, apenas sugere que as mídias sejam um aparato instrumental que direcione o ato político e as razões dialógicas dos indivíduos, e que ao mesmo tempo suscitem a apropriação crítica da realidade (1989, p.295). Mais adiante, nas proposições teóricas desenvolvidas durante a segunda fase da Escola de Frankfurt, Habermas reconsidera os fundamentos da Teoria Crítica (TC) baseados nas objeções marxistas à economia política da época [década de 1930] - que em dado momento deram lugar à crítica da civilização técnica, apontada principalmente por Marcuse, Adorno e Horkheimer [década de 1950]. A proposta de Habermas, por sua vez, não era considerar os primeiros fundamentos críticos em detrimentos dos outros, mas repensar os princípios da TC diante das condições tecnológicas e econômicas que o período da globalização traria. É neste sentido que as contribuições do filósofo alemão direcionam o pensamento crítico sobre as ferramentas de comunicação para a sociedade pós-moderna2. Na mesma linha de pensamento, o sociólogo CASTELLS (1999) considera que a reestruturação da economia e as correntes culturais emergentes da pós-modernidade transformaram a relação da mídia com o indivíduo, principalmente após a década de 80. Apesar de compartilhar dos mesmos pressupostos críticos (e marxistas) de Habermas, Castells acredita que essas transformações possam caracterizar uma nova dimensão do sistema econômico capitalista direcionado ao processo de comunicação de massa. Para ele, o início da globalização e as formas de consumo relacionadas a ela, foi o marco constitutivo para que as inovações tecnológicas assumissem o mercado da informação ou o “capitalismo informacional”.

Não é diferente o caso da Revolução Tecnológica atual. Ela originou-se e difundiu-se, não por acaso, em um período histórico de reestruturação global do capitalismo, para o qual foi uma ferramenta básica. Portanto, a nova sociedade emergente desse processo de transformação é capitalista e também informacional, embora apresente variação histórica considerável nos diferentes países, conforme sua história, cultura, instituições e relação específica com o capitalismo global e tecnologia informacional (CASTELLS, 1999, p. 50). 2

O conceito de pós-modernidade para Habermas consiste numa crítica à fase histórica pós-iluminismo, na qual, segundo ele, surgiram ideias que a sociedade ainda não conseguiu desenvolver em sua totalidade. Apesar de representar um período de progressão, principalmente pelo marco da Revolução Industrial, a Era Pós-Moderna ainda é uma fase não superada pela humanidade e, portanto, não possui uma definição que a contemple. De fato, o que se pode atribuir às definições de Habermas é a caracterização do pósmodernismo como um momento de transição ideológica, cujas incursões funcionalistas se atrelariam à razão e ao pensamento crítico.

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Segundo o autor, essa transição não é de tudo negativa, pois, apesar de explorar o fluxo comunicativo na criação e transmissão de mensagens, a lógica produtiva do mercado da informação abre precedentes para que os sujeitos receptores tenham autonomia na utilização das ferramentas de transmissão. Castells ainda pondera que essa forma de transmissão da mensagem cria um espaço de acesso, no qual os indivíduos podem buscar a informação e, ao mesmo tempo, compartilhá-la. Para ele, esse espaço é uma forma simbólica que representa o lugar (físico ou virtual) onde as pessoas e as informações circulam, e a partir do momento em que se encontram, formam uma “rede”.

Esta “sociedade em rede” (1999), portanto, está

diretamente associada ao contexto de formação de grupos sociais, na medida em que a troca de informações e o contato entre os indivíduos forma nichos de sociabilidade. Ao considerar o cenário globalizado no qual as redes de contato são formadas, TRIGUEIRO (2008) aponta que as formas do agir comunicativo também sofreram transformações, principalmente durante a transição dos séculos XX e XXI. O autor se baseia nos pressupostos culturais identificados por Castells para afirmar que o cenário midiatizado da “sociedade em rede” cria um ciclo de comportamentos cotidianos e transforma as demandas comunicativas num bem público. Para ele, o lugar da expressão, do envolvimento social e da democracia tem ganho mais valor na relação entre os sujeitos e a mídia – o que talvez possa explicar a potencialidade dos sujeitos midiáticos e suas ações. Aliás, o que são os meios de comunicação para os sujeitos midiáticos se não o aporte para que existam publicamente? – discorre. Ao incitar o dito “Ativismo Midiático”, o autor afirma que os sujeitos midiáticos são aqueles que utilizam-se de um dispositivo de uso coletivo

com o propósito de modificar, ressimbolizar os bens culturais midiáticos, através do processo de remembramento ou desmembramento, interligando a relevância ou irrelevância do dominador ou do dominado, nas mudanças dos paradigmas sociais que circulam nas redes de comunicação cotidiana [...]. Os ativistas midiáticos usam, nesses processos, táticas de participantes nas alterações dos conteúdos e formas da programação televisiva para os seus propósitos e seus grupos de referência. (TRIGUEIRO, 2008, P.43)

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A partir dessa afirmação, Trigueiro aponta uma perspectiva importante para a concepção dos atores sociais da pós-modernidade quando correlaciona o espaço de atuação destes sujeitos com a razão propositiva de suas ações. Em outras palavras, o autor identifica que as zonas de interação entre os sujeitos na esfera pública estão cada vez mais aceleradas e, consequentemente, cada vez mais unidas. Neste sentido, é possível perceber que a relação entre os produtores de conteúdo e o público direcionado se dá a partir “da rede de comunicação cotidiana que faz do individuo um emissorcriador-cultural ou um produtor-criador-cultural” (TRIGUEIRO, 2008, p.53) em busca de audiência para seus atos. Independente da apropriação técnica, neste ponto busca-se compreender as formas de organização que caracterizam os grupos de sujeitos sociais, ou ativistas midiáticos, na esfera pública. Mais do que dizer que a revolução tecnológica possibilitou novos mecanismos de atuação social, objetiva-se compreender a dimensão desse processo comunicativo para a constatação dos valores culturais e ideológicos que direcionam os indivíduos.

1.2 O estudo da Comunicação Popular no Brasil

Assim como em boa parte da América Latina, os estudos que envolvem a comunicação dialógica, participativa e alternativa entre os sujeitos têm sido direcionados, desde a década de 80, pelas práticas da organização popular. Seja pela base existencialista da condição humana, seja pela conquista da liberdade, a origem da Comunicação Popular não tem um início. FREIRE (1980), um dos primeiros latinoamericano a apontar a importância dos saberes populares para a formação conhecimento, defende que a prática da comunicação é imanente ao homem. Para ele, a condição da sociabilidade só é possível porque o ser humano é um objeto da natureza capaz de moldá-la e recriá-la. Ao utilizar a expressão “sujeito criativo” o autor contribui para a noção de liberdade e democracia associada à prática da comunicação – ou o “agir comunicativo”–, afirmando que este processo deve partir de uma interação entre Sujeitos iguais e criativos. Assim como na educação, a 21


Comunicação deve acontecer como uma troca de saberes, um encontro de sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados e, deste modo, possibilitar uma “comunicação horizontal”. Freire vai mais além ao criticar os percursos convencionais da comunicação.

O objeto [...] como conteúdo da comunicação, não pode ser comunicado de um sujeito a outro. Se o objeto do pensamento fosse um puro comunicado, não seria um significado significante mediador dos sujeitos. Se o sujeito “A” não pode ter no objeto o termo de seu pensamento, uma vez que este é a mediação entre ele e o sujeito “B”, em comunicação, não pode igualmente transformar o sujeito “B” em incidência depositária do conteúdo do objeto sobre o qual pensa. Se assim fosse – e quando assim é – não haveria nem há comunicação. (FREIRE apud LIMA, 1984, p.66)

Mesmo direcionando seus estudos sobre a comunicação ao exercício das relações sociais e à educação, as proposições de Freire fazem um importante encadeamento com as concepções de PERUZZO (2008) sobre a comunicação voltada aos grupos, mais especificamente aos movimentos populares. Para a autora, o conceito da Comunicação Popular pode ser visto como um processo ou caminho pelo qual os sujeitos se organizam e canalizam seus interesses em comum. Este processo tem caráter mobilizador coletivo na figura dos movimentos e organizações populares, que perpassa e é perpassada por canais próprios de comunicação (PERUZZO, 2008, p. 368). No seu estudo “Comunicação nos movimentos populares” (2004), a autora considera que as formas de comunicação nestes grupos são possíveis através da possibilidade prática e técnica, com uma programação voltada aos objetivos do grupo. Segundo ela, essas formas de comunicação promovem alternativas sociais às comunidades populares, pois “possibilitam emancipação, a luta pela transformação social e almejam o fim da exclusão do que é discriminado pela ‘grande mídia” (2004, p.188). Estas afirmações, portanto colaboram para o entendimento do processo democrático que define o surgimento das ditas “mídias alternativas”. Para muitos estudiosos da comunicação, a definição de mídia alternativa está quase sempre atrelada aos princípios da democracia, do alcance e da disponibilidade de acesso à informação. Mais precisamente no que consiste aos fundamentos da mídia alternativa digital, que será apontada como objeto de análise deste estudo, as contribuições de CASTELLS (1999) evidenciam como a caraterística da “Sociedade em 22


Rede” propicia a criação de esferas de sociabilidade cada vez mais virtuais. No entanto, é importante destacar que os aspectos determinantes da esfera pública virtual são frutos das correntes culturais pós-modernas e nelas encontram-se sua contradição, pois ao mesmo tempo em que proporcionam um espaço aparentemente mais autônomo e mais democrático, mantêm as diretrizes do sistema neoliberal. Para DOWNING (2002), no entanto, as mídias alternativas são capazes de superar suas contradições, na medida em que sustentam princípios contraidelógicos e buscam o exercício da cidadania democrática. No livro “Mídia Radical: rebeldia nas comunicações e movimentos sociais”, o autor argumenta que o papel das mídias alternativas vai de encontro ao diferencial contra-hegemônico oferecido à sociedade. Segundo ele, a manifestação da comunicação alternativa acontece quando os indivíduos assim a desejam, independente das condições técnica ou equipamentos.

O papel das mídias alternativas está onde a base de tudo é a comunicação entre pessoas ativas, e essa comunicação pode ou não, ser mediada por aparelhos. Uma mídia radical tem a missão não apenas de fornecer ao público os fatos que lhe são negados, mas também pesquisar novas formas de desenvolver uma perspectiva de questionamento do processo hegemônico e fortalecer o sentimento de confiança do público em seu poder de engendrar mudanças construtivas. (DOWNING, 2002, p. 50)

Nas palavras de DOWNING (2002), entende-se, portanto, que o processo da comunicação alternativa deve viabilizar condições para que os indivíduos tenham autonomia comunicativa e representatividade nos meios pelos quais se comunicam. É sabido que, em muitos aspectos, as Tecnologias de Informação e Comunicação são ferramentas imprescindíveis para o processo de democratização da comunicação. No entanto, ressalta-se que seu marco constitutivo não supera à racionalidade do agir comunicativo e dos valores culturais. De tal modo, as considerações dos pressupostos populares para a concepção do que neste trabalho entende-se como mídia alternativa, são fundamentais na investigação ideológica do objeto estudado.

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1.3 O uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs)

A possibilidade de percursos comunicativos cada vez mais inerentes ao cotidiano, às facilidades e à rapidez expressam as condições que CASTELLS (1999) denomina de paradigmas da informação. Segundo ele essas condições são o resultado de conquistas materiais que o processo da Revolução Tecnológica proporcionou ao “capitalismo informacional” e que, no século XXI, caracteriza novos paradigmas sociotécnicos. Para isso, o autor destaca cinco aspectos que levam à constatação da adaptação tecnológica na “sociedade em rede”. A primeira característica defende que a informação é a matéria-prima para o agir das tecnologias. Neste ponto, Castells acrescenta que as tecnologias devem se apropriar das informações com o objetivo de moldá-las ao aporte midiático do qual se refere –das revoluções tecnológicas do século anterior. O segundo aspecto refere-se à ingerência (ou penetrabilidade) dos efeitos das novas tecnologias na sociedade. Isto é, como o uso da tecnologia se adapta ao cotidiano das pessoas – fator que proporciona o terceiro aspecto, no qual a implementação material da tecnologia é conveniente em todos os tipos de processos e organizações comunicacionais. A quarta característica refere-se aos sistemas de redes, nos quais os mecanismos de comunicação são reversíveis, facilitando a modificação ou reconfiguração das organizações e instituições através da configuração de seus componentes técnicos – o que para o autor, revela a flexibilidade dos sistemas. A quinta característica dessa revolução tecnológica é o que já se havia apontado como convergência. Nesta etapa, Castells salienta que a convergência de tecnologias específicas se baseia em um sistema altamente integrado, no qual trajetórias tecnológicas antigas ficam praticamente impossíveis de se distinguir em separado (1999, p.107). Para o autor, esta possibilidade de integração entre as mídias é fundamental para que a democratização de informações aconteça, pois, na medida em que propõe a transformação tecnológica, também influi nas condições econômicas e materiais pelas quais a sociedade se comunica. Neste sentido, observam-se as transformações da microeletrônica, da optoeletrônica3, da biotecnologia, das telecomunicações e, sobretudo, da informática na composição das redes de informações que, de acordo com 3

A optoeletrônica está associada ao desenvolvimento de aparelhos eletrônicos que fornecem, detectam e controlam luz para a transmissão de dados.

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o último estudo do IBGE4, constituem o setor das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). Para CASTELLS (1999), e mais precisamente para JENKINS (2008), a intervenção dessas tecnologias ultrapassam os espaços físicos e temporais na interação entre indivíduos, constituindo um universo no qual LEVÝ (1996) associa ao virtual. Sobre as esferas as quais o ambiente virtual pode atingir, o autor acrescenta que há uma “amplificação das funções cognitivas”, na medida em que as pessoas se relacionam não com uma máquina simplesmente, mas com um mundo o qual esta máquina projeta. Isto é, um o processo de comunicação por simbiose (1996, p. 147). Nestes termos, pode-se inferir que a internet simboliza um espaço onde a comunicação inter-relaciona indivíduos de diferentes características no mesmo meio. Ela representa um sistema virtual da informática, potencialidades permitem criar, armazenar, recuperar e transmitir informação em escala horizontal (isto é, sem níveis de hierarquia), gratuita e instantaneamente. Além disso, apresenta as características que JENKINS (2008) atribui ao fenômeno da Convergência Midiática, que para ele está associado ao

Fluxo de conteúdos através de múltiplos suportes midiáticos, à cooperação entre múltiplos mercados midiáticos e ao comportamento migratório dos públicos dos meios de comunicação, que vão a quase qualquer parte em busca de experiência de entretenimento que desejam. Convergência é uma palavra que consegue definir transformações tecnológicas, mercadológicas, culturais e sociais, dependendo de quem está falando. (2008, p.27)

Portanto,

conceber

a

internet

como

um

marco

importante

para

o

desenvolvimento das TICs é fundamental para as potencialidades e alcance da mídia alternativa, que esta pesquisa pretende focar. Assim, privilegia-se a concepção de que a internet é um sistema no qual as mídias alternativas digitais residem; e no qual as possibilidades de transmissão e acesso às informações são recíprocas. A internet, neste sentido, é o lugar onde as mídias da contracultura surgem como uma alternativa às estratégias midiáticas dos meios de comunicação de massa dominantes – a partir da qual tem-se uma opção de manifesto da democracia. 4

Pesquisa “O setor de Tecnologia da Informação e Comunicação no Brasil 2003 – 2006” (IBGE, 2009, p.9). Fonte: site oficial do IBGE. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/stic/publicacao.pdf>. Acesso em 20 de abril de 2013.

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No presente estudo, busca-se mostrar que a comunicação pensada para o ambiente virtual é livre de estigmas técnicos para a utilização do meio. Aliás, a própria apropriação da internet ao ambiente doméstico5 possibilitou que as formas do agir comunicativo assumissem uma identidade mais autônoma. No que tange a cultura da convergência na internet, percebe-se que os microespaços são os principais facilitadores de processos de comunicação direcionados e da formação de redes de sociabilidade. Para citar alguns exemplos, as redes sociais, os blogs e canais de vídeos, mostram que a manifestação midiática alimenta a co-existência da esfera pública nos espaços virtuais – e cria, consequentemente, condições para o agir comunicativo.

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Diz-se que a Internet nasceu de um projeto norte americano de pesquisa militar, proposta pela ARPA (Advanced Research Projects Agency) durante o período da guerra fria, servindo como estratégia de ameaça nuclear, em resposta ao lançamento do Sputnik pela ex-União Soviética. No final de década de 60, o sistema foi compartilhado com os centros de pesquisas universitárias, para o seu aperfeiçoamento – o que teria gerado o crescimento externo do sistema.

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2. NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS

O homem, ao contrário dos animais, não é informado por seus impulsos e instintos sobre o que tem que fazer. Mas o homem moderno, ao contrário dos homens de épocas passadas, é o único que não possui tradições que lhe digam o que deveria fazer. De modo que agora ele está perdido. Não sabendo o que tem de fazer nem o que deveria, acontece com frequência que ele não sabe mais o que realmente quer fazer. Viktor Frankl

2.1 Os Novos Movimentos Sociais no Brasil

No livro “Movimentos Sociais no início do século XXI” (2007), a pesquisadora Maria da Glória GOHN faz um resgate histórico dos Movimentos Sociais no Brasil e suas ligações políticas contrárias ao regime militar, entre as décadas de 60 e 80. Dentre outros fatores, a autora aponta que as transformações do cenário sociopolítico na transição do milênio deram condições para que muitos movimentos, baseados na Teologia da Libertação e nas ideias marxistas, se organizassem contra os princípios ideológicos da globalização e, mais consistentemente, do neoliberalismo. GOHN (2007) destaca que as formas de organização e oposição política características dos movimentos sociais campesinos e das frentes sindicalistas, do início do século XIX, foram os principais incentivos para que novas formas de organizações sociais emergissem no contexto da civilização pós-moderna. A partir dos anos 90, portanto, teve-se um marco constitutivo de organizações voltadas às causas específicas, de grupos específicos, que buscam legitimidade nas demandas apresentadas pela sociedade civil. À exemplo da formação do Fóruns Nacionais de Luta pela Moradia, pela Reforma Urbana, de Participação Popular, etc, a autora demonstra os interesses específicos que levaram à formação dos Novos Movimentos Sociais. A partir disso, é importante levantar possíveis diferenças quanto ao conceito político de Movimentos Sociais e Novos Movimentos Sociais. Em GOHN (2007), a concepção de ambos parte das necessidades conjunturais nas quais a sociedade civil busca intervir. No entanto, a história de formação, organização e lutas dos MS são, historicamente, ligadas às lutas por reformas estruturais do sistema político-econômico. No Brasil, um dos maiores exemplos de organização é o MST, que propõe a revolução 27


do sistema capitalista a partir da reforma agrária. Não obstante, os NMS lutam por causas mais direcionadas dentro do contexto social, mas que, de certo modo, são causas referentes à sociedade como um todo. No início dos anos 90, movimentos em prol da educação, da saúde e da ecologia compuseram, junto às ONGs, o universo do Terceiro Setor. Para SCHERER-WARREN (2011), no entanto, toda essa transformação nas formas organização dos movimentos caracteriza a insurgência de NMS ainda mais específicos. Segundo a autora, as mobilizações populares são impulsionadas pela organização e formação dos MS e, dependendo das situações estruturais e conjunturais onde se formam, apresentam singularidades reivindicatórias. E acrescenta:

Os NMS são, todavia, uma realidade recente e são fragmentados numa série de pequenos grupos (o que é inerente à natureza ideológica de alguns destes grupos, os quais advogam o respeito ao pluralismo cultural e à diversidade). Deste modo, os NMS apenas iniciaram, no caso brasileiro, o processo de criação de um novo modelo cultural. Nem por isso torna-se menos importante verificar para que direção aponta esta nova cultura política e que papel assumem os mediadores em seu fortalecimento. (SCHERER-WARREN, 2011, p.53)

Nesta perspectiva, retoma-se a concepção de TRIGUEIRO (2008) sobre as relações midiáticas que os sujeitos mediadores buscam diante da sociedade civil. Assim como pontua SCHERER-WARREN (2011), o autor reafirma a afinidade das novas organizações políticas com a cultura socioativista dos MS. Para ele, os NMS são uma rede de movimentos tensionados pelos conflitos de interesse, contrários aos da cultura global, em oposição ou antagonismo, mas por novas práticas culturais híbridas de coexistência entre o global e o local (2008, p.41). Portanto, esses NMS nascem das demandas de movimentos de atuação local e comunitária, grupos de jovens, grupos da maior idade, dos direitos dos consumidores, dos homossexuais, dos religiosos, étnicos, dos agitadores culturais e tantos outros, que, segundo os autores, mostram-se como organizações populares. Do mesmo modo, são movimentos organizados que traçam estratégias de participação em sistemas

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alternativos de comunicação, na tentativa de minimizar os seus problemas, potencializando seus desejos e suas reivindicações.

2.2 O Levante Popular da Juventude e sua relação com os NMS

A origem do Levante Popular da Juventude se aproxima do contexto de surgimento dos NMS, principalmente pela relação organizacional que o movimento sustenta. Diz-se que suas raízes ideológicas estão diretamente vinculadas aos ideais do marxismo e às pretensões da revolução socialista. Prova disso, é a relação de sua criação com as deliberações político-partidárias da Consulta Popular6 – uma organização partidária que surge em 1997, apadrinhada pelo MST. Conta-se que no final do ano de 2005, um grupo formado por jovens integrantes da Consulta e da Pastoral da Juventude de Porto Alegre se empenhou em criar espaços de formação e organização política para os jovens dos eixos campesino e urbano. Neste momento, aqueles jovens se articularam a partir das bases de organização dos movimentos da Via Campesina7, cujos princípios estão vinculados à organização, à formação (ou consciência) política e às lutas de classes, para realizarem os primeiros acampamentos voltados à juventude. Em fevereiro de 2006, portanto, aconteceu o primeiro acampamento de jovens que se dispuseram a formar o Levante Popular da Juventude. Pessoas ligadas à Via Campesina, às universidades, e às comunidades de Porto Alegre deram início aos encontros para debates nos quais os jovens pudessem intervir, 6

Descrição da Consulta Popular tal qual a organização se apresenta: “na Consulta Popular se aglutinaram militantes de movimentos sociais que não aceitavam a lógica da política imposta pela esquerda eleitoral, que gradativamente foi rebaixando seu programa e se contentando com a perspectiva de serem apenas gerentes da máquina administrativa. Em outras palavras, abandonando a perspectiva de lutar pela conquista real do Estado. Militantes que não mais aceitavam uma militância paroquial e medíocre”. Fonte: Consulta Popular, site oficial. Disponível em:< http://www.consultapopular.org.br/quem-somos/>. Acesso em 25 de maio de 2012. 7 A Via Campesina é uma organização internacional formada por movimentos em prol das causas sociais do campesinato, que no Brasil é composta pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil (FEAB), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Pastoral da Juventude Rural (PJR), Associação Brasileira dos Estudantes de Engenharia Florestal (ABEEF), Conselho Indigenista Missionário (CIMI) pela Organização de Pescadores e Pescadoras Artesanais (OPPA). Fonte: La Via Campesina Internacional, site oficial. Disponível em:< http://viacampesina.org/>. Acesso em 19 de abril de 2013.

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se informar e refletir sobre causas direcionadas à juventude brasileira. Naquele contexto, o sentido de “juventude” não estava ligado, necessariamente, ao período etário8 que a palavra sugere, mas sim ao sentimento de esperança de quem aguarda um futuro. Desde então, o público do “Levante” tem sido jovens, que a partir daquele primeiro encontro, buscam um compromisso social com o futuro da juventude no Brasil. Numa carta composta pelos primeiros integrantes do movimento, o conceito de “Juventude” tem uma conotação própria:

A juventude é muito heterogênea, mas ao mesmo tempo tem um grande potencial questionador, pois ainda não aceitou completamente as formas de dominação e exploração que caracterizam esta sociedade. Além disso, é uma das parcelas que sofre com mais intensidade os efeitos das estruturas de poder atuais, e tem como perspectiva um futuro totalmente incerto. Cabe ressaltar aqui a opção pela identidade juventude, ao invés da identidade estudante, historicamente usada pelas organizações de esquerda. A categoria juventude em comparação com a categoria estudante é muito mais ampla e democrática (pois abrange pessoas que também estão fora da escola, mas ainda assim continuam sendo da juventude), gerando maior identificão, e diminuindo o grau de egoísmo das reivindicações. Definição de “Por que da juventude?”. (Zine: caráter e organicidade do Levante Popular da Juventude. Porto Alegre, RS: produção independente, 2011, p.9.)

A partir disso, em 2010, a estrutura de organicidade9 do “Levante” foi tomando um desencadeamento bastante parecido com a proposta de organização dos movimentos sociais campesinos, e inclusive se expandindo pelo interior do Rio Grande do Sul. Com uma estrutura baseada em setores e células, passou a assumir uma identidade organizacional voltada a três públicos específicos: os jovens da universidade, das comunidades locais e zonas campesinas. Diante da formação um pouco mais consolidada, então, o movimento passou a intencionar um projeto nacional para a mobilização da juventude brasileira. 8

De acordo com Proposta de Emenda Constitucional (PEC42/2008), é considerado jovem no Brasil os sujeitos que possuem entre 15 e 29 anos. Fonte: Conselho Nacional de Juventude, site oficial. Disponível em: < http://www.juventude.gov.br/conjuve/documentos/caderno-da-campanha-pela-pec-da-juventude>. Acesso em 16 de abril de 2013. 9 O termo organicidade possui um conceito próprio quando associado ao contexto dos movimentos sociais. Para a pesquisadora Maria Suely GOMES (2011), a organicidade está associada a todo o processo de desenvolvimento do coletivo e seus envolvidos, bem como à análise de conflitos, tensões, compreensão dos limites e possibilidades da ideia de organização.

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Muito embora os vínculos com a Consulta Popular tenham direcionado as relações com os outros estados, o projeto de nacionalização do “Levante” consistiu, em sua autonomia, um marco civilizatório para o movimento e suas lutas. Em 2011, a expansão do “Levante” por boa parte do Rio Grande do Sul possibilitou que as estratégias para a organização nacional pudessem ser planejadas aos moldes do que se tinha no estado. A proposta de organograma para movimento nacional, portanto, seguiu o seguinte esquema:

Fonte: Secretaria Operativa – Célula São Borja / RS (adaptado). FIGURA 1: Organicidade do Levante Popular da Juventude

Como mostra o gráfico, as frentes são os públicos aos quais o trabalho do LPJ é direcionado. De acordo com a região, cidade ou bairro onde estão localizadas, as frentes compõem as células, que se desenvolvem a partir das proximidades locais dos grupos. 31


Cada célula possui setores operacionais, que são responsáveis pela política de organização e atuação do movimento nas comunidades onde as células estão situadas. Paralelo a isso, existem as Secretarias Operativas, que apesar de constituírem especificamente um setor, são as responsáveis pela a comunicação interna entre as células e as coordenações. O Setor das Finanças é responsável pela movimentação de bens materiais, monetários e qualquer circulação especulativa que envolva a realização das atividades no movimento. Isto é, cabe ao setor planejar as formas de conseguir recursos, doações, parcerias ou incentivos culturais direcionados às oficinas de teatro, estêncil, dança, música– atividades geralmente realizadas nas células. Ao Setor da Formação cabe a tarefa de criar espaços de estudos nos quais os jovens possam debater sobre a conjuntura político-social e os objetivos que o movimento pretende alcançar. Em analogia simples, pode-se dizer que este exerce a tarefa de educar novos militantes. O trabalho desempenhado pelo Setor das Mulheres segue a mesma linha do Setor de Formação, pois constitui o cerne das discussões sobre igualdade, representação e espaço da mulher nas instâncias sociais. É um espaço voltado às causas feministas. As atribuições do Setor de Agitação e Propaganda são voltadas à criação de uma identidade própria ao movimento. Este departamento é responsável por todas as formas criativas para a mobilização dos jovens, seja nos espaços de formação ou não. Cabe a este setor a elaboração de músicas, dinâmicas e oficinas oferecidas pelo “Levante”. Além disso, a criação de materiais gráficos (o zine, os adesivos e os folders), bem como a identidade visual destes elementos, é pensada por esta equipe. O setor da Comunicação, por sua vez, tem sua finalidade ligada à criação das mídias do LPJ. Podese dizer que a formação do Setor da Comunicação, dirige-se ao gerenciamento dos blogs regionais, produção de fotos, textos e envio de releases para a Coord. Estadual. Por fim, as Coordenações Estaduais possuem o mesmo funcionamento das células, porém com uma dimensão mais abrangente do que se apresenta no cenário regional. Estas coordenações possuem representantes para cada Setor e estes mantém contato com as equipes integrantes dos setores em cada célula. Do mesmo modo ocorre com a Coord. Nacional que, de maneira ainda mais extensiva, possui seus representantes estaduais em cada fragmento constitutivo da organicidade.

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2.3 Engajamento e Mobilização social dos jovens do LPJ

Os motivos que impulsionam a mobilização e, mais tarde, a militância são substanciais aos diagnósticos científicos. De fato, o que se pode observar nas pessoas são sintomas da insatisfação e o desejo por mudanças de uma causa específica. A isso, TORO (1997) aponta como sendo indícios do processo de mobilização social que pressupõe uma convicção coletiva da relevância, um sentido de público, que convém a todos. O autor pondera que o despertar para mobilização é uma condição auto-fundada no “desejo de democracia”, cujo cruzamento aleatório de interesses privados ou semipúblicos provocam a crença na autonomia e na liberdade do agir em sociedade. Se para Habermas o conceito de democracia está associado à possibilidade de interação social e criação de normas éticas universais a partir da esfera pública, para TORO (1997) este conceito se reveste na capacidade de criar e escolher uma forma de vida, aceitando seu fundamento na diversidade e na diferença. Para ele, a democracia consiste num projeto ético, tal qual para Habermas, que precisa ser debatido a partir da ação cotidiana pressuposta das relações sociais.

Construir a ética democrática significa fazê-la possível e cotidiana e para isto é preciso a participação e a vontade de todos os membros de uma sociedade. A criação de uma cultura e uma ética democrática requer a mobilização social, entendida como a convocação livre de vontades. A mobilização social é uma forma de construir na prática o projeto ético proposto na constituição brasileira: soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana, valores do trabalho e da livre iniciativa e pluralismo político. (TORO, 1997, p.3)

Esta premissa apresenta por TORO (1997) mostra que as escolhas do agir ou não agir contribui para a formação da ordem em que se vive, uma vez que, segundo ele, a ordem social é um produto das nossas escolhas. Mas, antes que o pensamento do autor provoque uma discussão em juízo de culpabilidade, e portanto injusta à história social da humanidade, infere-se à esta afirmação uma possível lógica na qual a mobilização social se baseia: “se fomos capazes de criar o caos, também podemos sair dele” – completa (1997, p.7). Mais adiante em seu trabalho “Mobilização social: um modo de construir a democracia e a participação”, TORO (1997) ressalta que a participação social é um bem 33


que leva à transformação social, ao mesmo tempo que faz parte dela. Isto é, para ele, a participação e as instâncias que motivam a particição social são, simultanemante, meta e meio para a plenitude da cidadania na sociedade. Mas, para que a mobilização seja consolidada é necessário, segundo o autor, que seja criado “um horizonte atrativo, um imaginário convocante que impulsione, de uma forma atraente e válida, os grandes objetivos que se busca alcançar” (1997,p.20). Segundo ele, o proceso de mobilização sucede as etapas que buscam estimular os valores imaginários da luta e transformação; o campo de atuação no que se pretende inferir; a coletivização dos interesses pelos quais se busca lutar; e o acompanhamento de informações sobre o caso reinvindicado. Estas etapas possibilitam, portanto, a fundamentação contextual dos fatores que influenciam a mobilização dos jovens integrantes do LPJ. Nos últimos quarenta anos, muitos fatores influenciaram as formas de mobilizações juvenis no Brasil, e em boa parte dos países latinoamericanos. Não por acaso, o principal fator que teria impulsionado a organização de grupos juvenis entre as décadas de 60 e 80 foi a instauração de governos civis militares pela Latino América. De lá para cá, muitas organizações estudantis fizeram oposição direta aos governos, com protestos e, por vezes, com afronta às forças armadas. O ímpeto das manifestações marcaram a identidade daquela geração de militantes estudantis e da luta pelo direito à liberdade de expressão. Na virada do século, então, as reinvindicações de outrora serviram como incentivo para a organização e memórias das lutas pelas quais o movimento estudantil, em especial, se fortaleceu. Quando o LPJ surgiu, uma das primeiras propostas de reinvindicação estava ligada à educação, cujo eixo de debate se direcionava às políticas afirmativas de acesso ao Ensino Superior. Entitulada “Por uma universidade pública e popular”, o tema era direcionado aos jovens das três frentes de trabalho do “Levante” (campesina, popular e estudantil), mas as mobilizaões foram voltadas, principalmente, aos estudantes. Desde então, boa parte das articulações e reinvindicações estariam ligadas ao movimento estudantil - ainda que a juventude do movimento fosse composta, também, por jovens estudantes do campo e das periferias. Em seu estudo sobre o engajamento juvenil no LPJ, RUSKOWSKI (2009) associa as intervenções das esferas pessoais e a simbologia do ser jovem às causas do engajamento militante. A autora traz um minucioso contexto sob o qual os primeiros integrantes do movimento passaram a se envolver com as causas sociais. Baseada nas premissas de MELUCCI (2001), ela argumenta que “a condição juvenil é marcada por 34


algumas tensões entre a expansão de oportunidades e o controle difuso daqueles que ainda precisam ser tutelados e encaminhados” (RUSKOWSKI, 2009, p.56) por alguém, mas que ao mesmo tempo são capazes de tomar decisões, fazer escolhas e traçar metas para a vida. Tais condições tomam dimensão oportuna num espaço onde todos dividem o mesmo pesar (a condição jovem), em distintas realidades sociais. Um espaço onde o estudante branco de classe média, que não passou no vestibular, possa entender as causas que levam o adolescente negro pobre, da mesma idade que ele, a não ter concluído o ensino fundamental. Esse mesmo espaço possibilita que, tanto o estudante branco quanto o semi-analfabeto negro, entendam as razões que levam o jovem camponês a abadonar o campo por falta de perspectivas sócio-culturais que o mantenham lá. Todos estes espaços podem unir estes sujeitos tão distintos de contexto ao encontro simétrico de suas essências políticas – a juventude. Nestes termos, pode-se aferir que a juventude do “Levante” são jovens que buscam, na contradição de suas realidades, um intuito coletivo. São eles que se apegam aos símbolos do passado para retomar questões que ainda não tiveram uma conclusão pública favorável à toda a sociedade – como é o caso da reivindicação “por uma universidade popular” e, mais tarde, o apoio às investigações da Comissão Nacional da Verdade. Por fim, o que impulsiona a mobilização destes jovens, em seus diferentes contextos, revela um paradigma para a mobilização social, associado ao discurso que o movimento oferece aos seus integrantes: o “Levante” é um espaço onde os jovens podem viver suas constradições em busca de uma representação política e social que as acolham. Talvez seja possível afirmar, a partir das observações etnográficas que o movimento é híbrido em sua composição, mas específico em sua missão - que é organizar a juventude.

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3. A COMUNICAÇÃO E O PROCESSO DE NACIONALIZAÇÃO DO LPJ

Pois o mundo não é humano por ter sido feito pelos homens e tão pouco se torna humano porque a voz humana nele ressoa, mas somente quando se torna objeto de diálogo. Hannah Arendt

3.1 Setor Nacional de Comunicação: o órgão emissor do LPJ

Entre o primeiro e o quinto dia de fevereiro de 2012, o LPJ realizou um Acampamento Nacional (AN) para a reunião de integrantes do movimento presentes em todo o país. O evento, que aconteceu no Autódromo Internacional da cidade de Santa Cruz do Sul (RS), reuniu representantes de 15 estados brasileiros, somando cerca de mil e duzentos jovens, a partir dos 12 anos de idade. Durante os cinco dias de programação, as centenas de pessoas participaram de místicas10, reuniões e plenárias que abordavam temas como feminismo, relações de trabalho, produção de alimentos (agrotóxicos e trangênicos), reforma agrária, meios de comunicação, questões energéticas, educação, saúde, cultura e outras preocupações que ainda envolvem a luta de classes (MARX, 1848) na contemporaneidade. Para a organização do acampamento, as lideranças de alguns estados se articularam para que os jovens interessados em conhecer o LPJ pudessem participar da experiência e, ao mesmo tempo, terem contato com as atividades de formação e organização do movimento. Até então, os estados cujas aticulações políticas (entre as frentes) estavam relativamente mais estuturadas eram o Rio Grande do Sul e São Paulo. Neste momento de encontro, então, as coordenações estaduais se organizaram, de modo que no final da programação uma Coordenação Nacional fosse constituída – representando o marco do processo de nacionalização do “Levante”. Das reuniões e conversas entre as lideranças pouco se podia saber. Algumas decisões sobre a composição de setores e secretarias só chegaram a público após deliberações internas do movimento. Isto porque boa parte das pessoas que estavam no 10

Segundo PRADO (2000) as místicas são manifestações compostas de diversas práticas, rituais e discursos sociais, que colaboram na constituição, manutenção e negociação de uma identidade coletiva e política entre os agentes e participantes do MST.

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evento se quer tinha conhecimento da dimensão e dos objetivos que cabiam ao LPJ. Diga-se de passagem, o acampamento representou um espaço onde as pessoas puderam ter o primeiro contato com as ideias que, anos antes, alguns jovens já colocavam em prática no RS. Por isso, enquanto organização instituída, foi natural que aqueles indivíduos mais experientes direcionassem as formações que viriam compor os setores nacionais. Nos espaços que cabiam às místicas e às plenárias, no entanto, os temas abordados requeriam a participação direta de todas as pessoas presentes. As místicas foram utilizadas como forma de sensibilização e comoção para o debate de temáticas, as quais o LPJ pretendia focar. Boa parte da metodologia para a abordagem dos temas foi baseada nas práticas de mobilizações coletivas, herdadas da forma de organização da Via Capesina. Talvez por isso, a composição da estrutura nacional tenha sido, naquele momento, uma grande mobilização fomentada pelos anseios coletivos, e ao mesmo tempo individuais, para a transformação da realidade do Campo – pois as dicussões procuraram mostrar o quanto a relação entre a produção do campo e o consumo da cidade são condições indissociáveis. Fatores como a utilização de agrotóxicos, a produção de transgênicos e embates legais na apropriação da terra, foram discutidos de modo que os jovens de todos os eixos (campesino, estudantil e popular) pudessem se apropriar da problematização dos temas. Outras questões mais específicas às relações de poder, o lugar da mulher na sociedade e às forças de trabalho, deram base para que os princípios ideológicos do “Levante” ganhassem evidência no discurso de massas, que o movimento assumiria a partir de então:

Sabemos que é extremamente necessária a massificação desta luta, trazendo cada vez mais jovens para o nosso projeto, porque só a juventude tem a força necessária para transformar essa sociedade. É com o trabalho coletivo, combatendo o individualismo e a estagnação, que tomaremos o futuro em nossas mãos. Esse é o caminho para a liberdade com que tanto sonhamos e precisamos para viver. Construiremos uma organização com coerência: devemos fazer o que dizemos e dizer o que fazemos; com autonomia, construída por aqueles que trabalham no Levante; com estudo e disciplina, para dar cada passo com firmeza, conhecendo com profundidade o caminho que devemos trilhar; com o exercício de crítica e autocrítica, porque não devemos temer ou ocultar os erros, mas enfrentá-los de frente, para, então, superá-los. Entendemos que serão esses compromissos que garantirão a construção do Levante Popular da Juventude, do Projeto Popular e da Revolução Socialista brasileira. A tarefa não é fácil: não esperamos ter

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todas as respostas nem construir tudo isso sozinhos, mas nos desafiaremos a dar tudo o que pudermos, porque devemos nos construir como a juventude que ousa lutar, que constrói alternativas e que é parte do povo brasileiro. Somente com alegria, amor e muita animação chegaremos lá! Juventude que ousa lutar constrói o poder popular! (Discurso final apresentado no último dia do Acampamento, em 5 de fevereiro de 2012. Fonte: site regional do LPJ – RS. Disponível em <http://levantepopulardajuventude.blogspot.com.br/2012_02_01_archive.htm l>. Acesso em 17 de fevereiro de 2012.)

Pode-se dizer que este momento de encontro entre os “Levantes” estaduais foi, de tudo, oportuno não só pelo processo simbólico ao qual o movimento estaria vivendo, mas também pelas necessidades de comunicação que se desencadeariam a partir dali. Talvez por consequência mútua, após a nacionalização do LPJ a repercussão midiática dada ao AN foi inevitável, principalmente pelas ligações políticas com o MST, pelo destaque de João Pedro Stédile11 em uma das plenárias da programação, e pela presença do então governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, na abertura da II Feira da Agricultura e Agroindústria Camponesa, que aconteceu paralelamente à programação do acampamento, em local próximo12. Até então, o “Levante” só possuía os blogs regionais, nos quais cada coordenação estadual era responsável por fazer postagens sobre reuniões, espaços de formação e ações coletivas da sua comarca. Não havia um setor específico para dar conta destas funções. O fluxo de comunicação do movimento era interno e as trocas de informações se davam, basicamente, pelas relações interpessoais - isto é, entre diferentes pessoas, que são simultaneamente emissoras e receptoras de uma mensagem. No caso das notícias envolvendo o AN, o material que circulou na imprensa foi baseado, principalmente, nas postagens do blog regional do RS13, que foi o primeiro canal

de

comunicação

instituído

pelos

integrantes

do

“Levante”,

e

que

consequentemente foi a fonte de informações utilizada por outros veículos de comunicação. Com as deliberações do acampamento, algumas necessidades de relacionamento externo começaram a ser pensadas de maneira conjuntural, já que a 11

É o principal líder da Executiva Nacional do MST e também um dos fundadores do movimento. Em uma publicação da revista VEJA, assinada pelo jornalista Reinaldo Azevedo, as presenças de João Pedro Stédile e do governador Tarso Genro são diretamente relacionadas às mobilizações pela Comissão da Verdade, que segundo a revista, possuía intuito oportunista na utilização de verba pública para investigações de pessoas injustiçadas pelo passado. Fonte: Revista Veja. Levante Popular da Juventude. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/tag/levante-popular-da-juventude/>. Acesso em 12 de abril de 2012. 13 Disponível em: <levantepopulardajuventude.blogspot.com> . Acesso em 01 de fevereiro de 2012. 12

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criação de um veículo institucionalizado para o movimento nacional repercutiria na formação de um Setor Nacional de Comunicação (SNC) que pudesse dar conta de um público maior, não tão regional e nem tão restrito aos militantes. Após a repercussão do AN na imprensa, portanto, foi o momento de colocar o blog Levante.org.br no ar. Mesmo não tendo pessoas designadas especificamente para o gerenciamento daquela mídia, alguns integrantes que estavam nas reuniões do encontro nacional montaram uma equipe provisória para a estruturação do blog e suas estratégias comunicativas - que posteriormente seriam utilizadas nas mobilizações em prol da Comissão Nacional da Verdade14. Incialmente, o trabalho da equipe buscou fazer um apanhado de tudo o que vinha acontecendo nos estados onde havia representações do “Levante”. As duas primeiras postagens faziam referência ao acampamento, bem como à importância política que aquele encontro proporcionou ao movimento. Durante todo o mês de fevereiro, a equipe provisória do blog se ocupou praticamente em adequar a logística de postagens, identidade visual e os recursos da plataforma wordpress aos objetivos comunicacionais que se pretendia alcançar com o blog.

3.2 Estratégias Comunicativas utilizadas pelo Setor

Neste ponto, entende-se que as estratégias de comunicação não possuem uma definição conceitual específica, mas partem, principalmente do planejamento de ações pensadas pelos indivíduos geradores (líderes), atribuídas aos indivíduos legitimadores (comunicadores) e, por fim, direcionadas aos beneficiados (massa) pelo movimento (HENRIQUES, 2004) - conforme ilustra a FIGURA 2. Ao considerar que as estratégias para a mobilização popular dependem, portanto, das etapas de coletivação e vinculação ao público direcionado, pode-se dizer que após as reuniões do acampamento, ao menos duas estratégias de comunicação contribuíram para a repercussão midiática do movimento.

14

A Comissão Nacional da Verdade foi criada pela Lei 12528/2011 e instituída em 16 de maio de 2012. A CNV tem por finalidade apurar graves violações de Direitos Humanos ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988. Fonte: Comissão da verdade, site oficial. Disponível em: <http://www.cnv.gov.br/>. Acesso em 12 de fevereiro de 2012.

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Fonte: HENRIQUES, 2004 (reprodução). FIGURA 2: Gráfico dinâmica dos públicos.

Uma delas refere-se à estratégia interna, que deu suporte para as primeiras mobilizações em favor da Comissão Nacional da Verdade. Durante o AN, as lideranças estaduais planejaram ações15 de repúdio aos torturadores do regime militar, cujas identidades seriam divulgadas a partir das investigações da Comissão. O planejamento inicial aconteceu de forma secreta, restrita aos líderes dos estados onde o “Levante” estava mais organizado, pois não seria oportuno que as intenções do movimento tomassem repercussão pública antes da confirmação dos verdadeiros nomes dos torturadores. Foi assim que, no dia 26 de março de 2012, pequenos grupos dos “Levantes” de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pará, Ceará e Paraná saíram às ruas para denunciar os acusados de execução das vítimas e desaparecidos políticos do regime militar. Os atos ocorreram, em sua maioria, na porta da residência ou do trabalho dos acusados, de modo que a simbologia da manifestação16 pudesse “escrachar” a verdade, promovendo a vergonha pública e o “esculacho” dos delatados. A partir de então, a 15

A articulação dos “Esculachos” aqui no Brasil foi inspirada nas mobilizações dos Hijos por la Identidad y la Justica contra el Olvido y el Silencio (HIJOS), da Argentina. Apesar dos integrantes do “Levante” não possuírem nenhuma ligação direta com o grupo argentino, as ações possuem o mesmo intuito: lutar pela memória dos desaparecidos políticos no regime militar. Em seu trabalho sobre “O tempo da memória politica”, BRITO (2012) defende que, assim como os HIJOS se organizaram para reclamar justiça pelos parentes desaparecidos, o “Levante” tem buscado o restabelecimento de um equilibro perdido, bem como o regate da história de pessoas injustiçadas. Fonte: XIV Encontro de Pósgraduação. Pelotas: UFPel, 2012. Disponível em: < http://www.ufpel.tche.br/enpos/2012/anais/pdf/CH/CH_00091.pdf>. Acessado em 25 de novembro de 2012. 16 As manifestações dos “escrachos / esculachos” geralmente envolviam músicas, pichações, encenações e vaias aos acusados.

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repercussão dos “esculachos” (ou “escrachos”, dependendo da regionalidade) ganhou importância política do mesmo modo em que promoveu a imagem do LPJ, principalmente na mídia alternativa17. Outra estratégia que contribuiu para este processo de nacionalização midiática foi a própria criação do Levante.org.br, pois, com a instauração de um veículo de comunicação nacional, o movimento teve a possibilidade de ampliar seu público direcionado. No mês que sucedeu a experiência do acampamento (março/2012), a equipe provisória do SNC organizou um planejamento para a alimentação do blog, de modo que as mobilizações ocorridas em todos os estados pudessem ter destaque na página do movimento. Durante praticamente todo mês de março, o trabalho de postagens e envio de releases pelo SNC se referiram aos “esculachos”. Neste momento, o principal objetivo do setor era desenvolver um critério de produção direcionado ao esclarecimento das ações do “Levante” ao público externo; e ao mesmo tempo garantir um espaço de identidade e a sensação de pertencimento aos integrantes do movimento. Porém, diante da grande visibilidade18 dos “esculachos”, os integrantes do SNC pensaram na conveniência em atribuir outras funções ao blog – fator que propiciou a primeira reunião oficial do Setor, no dia 21 de abril, em Salvador. A partir desta reunião, o blog passou a ser uma ferramenta preponderante aos objetivos ideológicos do movimento. Para “eles”, a utilização de uma mídia que reunisse recursos das TICs, de forma gratuita, seria a melhor forma de criar um espaço público para a interatividade e sociabilidade dos jovens em qualquer lugar do Brasil. A partir disso, o SNC poderia aplicar os fundamentos da Teoria Crítica ao processo de comunicação voltado às características da “sociedade em rede”, de modo a contemplar a mobilização política, a comunicação interna e externa, e a organização da juventude. Na imagem abaixo, o gráfico mostra as perspectivas comunicativas para a mobilização social, segundo HENRIQUES (2004).

17

Aqui considera-se como veículos da mídia alternativa sites, blog, jornais, rádios e revistas que dialogam com as pretensões ideológicas dos movimentos sociais e se colocam a par das atribuições políticas do Estado. 18 Segundo informações do SNC, baseado em análises de audiência do Google Analitics, durante a primeira semana de postagens sobre os “escrachos / esculachos” o Levante.org.br chegou à marca de 3 mil acessos diários.

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Fonte: HENRIQUES, 2004 (reprodução). FIGURA 3: Gráfico dos níveis de vinculação para a mobilização social

De certa maneira, os objetivos traçados pelo Setor foram complacentes ao discurso que o movimento vem difundindo desde a sua criação. Por outro lado, os resultados alcançados com a difusão em massa do canal de comunicação do “Levante” provocam questionamentos sobre o caráter ideológico de suas ações comunicativas. Neste sentido, as formas de comunicação desenvolvidas a partir da criação do blog, fomentam uma análise proeminente das práticas e discursos ideológicos do LPJ neste espaço midiático designado por “eles”.

3.2.1 Apresentação do corpus Levante.org.br

A perspectiva técnica para a utilização do blog se justificou, desde as primeiras reuniões, pela possibilidade de agrupar o conteúdo de muitas mídias em uma só. Isto é, antes do Levante.org.br ter sido idealizado, o blog regional do RS19 desempenhava, de forma insipiente, o papel de veículo nacional das notícias; e por ter sido a primeira mídia registrada pelos fundadores do movimento, foi considerado, durante muito tempo, 19

Após a criação do blog nacional, o levantepopulardajuventude.blogspot.com passou a ser direcionado apenas ao Levante RS, mas o histórico de postagens do blog ainda guarda muitas informações referentes aos outros estados.

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a principal referência ao LPJ. No entanto, a plataforma blogspot e o fluxo de atualização das postagens ainda não atendiam às pretensões do Setor da Comunicação. Com a situação eminente do processo de nacionalização, a proposta era criar um site que funcionasse como veículo oficial para a comunicação integrada entre os blogs regionais. Ao mesmo tempo, pretendia-se projetar uma mídia de referência para que o público externo pudesse conhecer o “Levante”. Neste intuito, a plataforma wordpress foi escolhida para que os recursos da programação em html permitissem a criação de uma identidade visual mais parecida com um site - muito embora o resultado final ainda correspondesse ao perfil de um blog, já que os elementos da página ficaram ordenados de forma linear e vertical. Após ter sido estruturado, então, o blog foi registrado com domínio personalizado, de modo que o endereço digital não fizesse referência ao provedor de hospedagem – como é comum nos sites. A partir disso, o layout foi organizado de modo que cada postagem tivesse sua página (ou um endereço) e, da mesma forma, todas as páginas seguissem um padrão. Isto é, apresentando recursos textuais, audiovisuais, espaço para comentários (interação com público), feeds com as atualizações do facebook e dos blogs estaduais, tags, gadgets das “postagens mais lidas” e dos “últimos comentários”, hiperlinks, páginas conjuntivas20, imagem de apresentação (banner) e contadores de página.

20

De acordo com a tipologia de MIELNICZUK (2003), as páginas conjuntivas são aquelas cujos endereços (ou links) remetem para outra lexia, porém a janela no programa navegador permanece à mesma, apenas muda o conteúdo que aparece na tela.

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Fonte: elaboração da autora. FIGURA 4: Arquitetura da informação - HOME

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Fonte: elaboração da autora. FIGURA 5: Arquitetura da informação - PÁGINAS

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Para o Setor da Comunicação, a implantação deste modelo traria uma representação simbólica à seriedade do trabalho do “Levante”, pois, diferente dos blogs convencionais, apresentaria um discurso mais institucionalizado, impessoal, e ao mesmo tempo jovem. Por outro lado, sua arquitetura da informação conservou a estrutura linear característica dos blogs, uma vez que os sistemas de organização, navegação, busca e rotulagem (ROSENFELD e MORVILLE, 2002) não ofereciam condições de usabilidade interativa para os leitores. Isto é, a forma de navegação para a leitura, para a busca de conteúdos e para a visualização de hiperlinks faz com que “cada nível de acesso seja uma sequência distinta, que fragmenta o discurso do nível anterior” (DÍAZ NOCI e SALAVERRÍA, 2003 apud RIBAS, 2005).

Fonte: DÍAZ NOCI e SALAVERRÍA, 2003 apud RIBAS, 2005, p.6 (reprodução). FIGURA 6: Estrutura Linear de pirâmide invertida.

Para fins metodológicos nesta pesquisa, portanto, considera-se que mesmo com as adequações da linguagem e o registro de um domínio próprio, o Levante.org.br não caracteriza um site (pelo menos durante o período analisado), pois, de acordo com os pressupostos tecnológicos de ESCOBAR (2009), possui três requisitos que o definem como blog:

a) Facilidade e agilidade para a publicação de conteúdos, dispensando o conhecimento de linguagens de programação como HTML, PHP ou JavaScript; b) Disposição do conteúdo, cuja unidade mínima denomina-

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se post, em ordem cronológica inversa, de modo que as publicações vão se sucedendo da mais antiga para a mais recente. Esta, situada no topo da página, é a primeira a ser visualizada pelo internauta na tela de seu computador. C) Data, hora e autor de cada post registrados automaticamente. (ESCOBAR, 2009, p.6)

De todo modo, a constatação que direciona os fundamentos deste estudo não interfere nas proposições analíticas sobre o trabalho desempenhado pelo Setor da Comunicação do LPJ. O que se pretende esclarecer, no entanto, são os mecanismos que direcionam a ação comunicativa dos indivíduos tal como foi. Se para “eles” a criação do blog traz a apropriação simbólica de um site, logo a pesquisa se preocupará com esta representação, porém, não desconsiderará a compreensão técnica que o define – fato que poderá ser importante nos resultados de análise.

3.2.3 Apresentação da amotra #Levantepelaverdade

Em 21 de abril, quando a equipe do SNC esboçou a rotina de trabalho para gerenciar o Levante.org.br , as postagens sobre os “esculachos” já haviam transcendido espaço virtual do blog. A partir do recurso dos botões “curtir” e “compartilhar” do facebook, as notícias se proliferaram na rede social no mês de março, contribuindo para que a equipe do Setor tivesse um insight sobre o caso. A equipe observou que seria possível utilizar as táticas de mobilização, que geralmente eram desenvolvidas pelo Setor da Agitação e Propaganda, para movimentar a juventude de todo o país. À exemplo do que vinha acontecendo com as manifestações midiáticas pelo mundo, o LPJ resolveu apostar no conceito do “ativismo midiático” para conquistar o apoio dos jovens, através das redes sociais. A ideia era criar uma identidade viral, a qual as pessoas poderiam adotar em sinalização de apoio à Comissão da Verdade. Assim, os integrantes do Setor começaram a publicar fotos pessoais, segurando uma placa ou uma folha onde se lia “Levante pela Verdade” – expressão que mais tarde daria nome à campanha. Mais tarde, com as variações que viria assumir, a expressão ganhou a forma aglutinada da linguagem criptográfica da busca por tagueamento (geralmente usada no twitter), acompanha do elemento “hashtag” (#) e escrita sem espaços entre as palavras: 47


#levantepelaverdade. Pode-se dizer que a manifestação da expressão pelas redes sociais, mais explicitamente no facebook, foi o que gerou a curiosidade motivadora desta pesquisa, já que mesmo aqueles indivíduos que não sabiam o que era o “Levante”, se mostraram à favor da campanha. Mesmo tenho seu auge repercutido no facebook, a estratégia do “Levante pela verdade” mostra uma variante significativa no trabalho de comunicação voltado ao blog. Com a elaboração da campanha é possível identificar as transições de estratégias comunicativas voltadas à administração das mídias do movimento, que a partir deste momento, teria um blog nacional, um perfil nacional no facebook, e um canal no Youtube. Portanto, mostra-se conveniente tomar as fases de planejamento, aplicação e repercussão do “Levante pela verdade” como marco desta investigação. Até porque, as incursões simbólicas que justificam a campanha dão base para comparações teóricas com a Indústria Cultural, pois transformam uma mobilização social e política num produto cultural midiatizado.

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4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

O processo de apropriação é um processo ativo e potencialmente crítico, no qual as pessoas estão envolvidas num contínuo esforço para entender, um esforço que procura dar sentido às mensagens que recebem, responder a elas e partilhá-las com os outros. (THOMPSON, 2009, p.37)

4.1 A experiência etnográfica na composição do método

Os fundamentos clássicos que buscam determinar o estudo dos métodos para uma pesquisa científica são, de todo, oportunos para esta pesquisa, quando colocados na perspectiva da dialética marxista21. De acordo com o contexto social e histórico no qual o objeto pretendido tem buscado sua afirmação, as metodologias usadas devem corresponder ao papel transitório, político e transformador do mesmo. Deste modo, torna-se plausível buscar nas referências de Marxistas e Gramscianas, embasamentos que fortaleçam e justifiquem a relação do estudo com as formas de abordagem do objeto. Para uma análise mais contemporânea, as contribuições do sociólogo István Mészáros (2009), seguidor dos fundamentos da dialética marxista, correlacionam os aspectos da construção social do objeto com a metodologia específica que justifica a investigação no campo da comunicação - ambos, seguindo uma linha pesquisa antropológica. Para isso, a projeção de uma pesquisa etnográfica corrobora as expectativas de entendimento do perfil comunicacional do LPJ, que leva à construção das suas estratégias comunicacionais - objetivo central deste estudo. Em MÉSZÁROS (2009), a perspectiva metodológica para a construção social dos indivíduos, bem como suas apropriações coletivas derivam, entre outros fatores, da libertação social do capital e da determinação negativa ao que o sistema (político e econômico) impõe. São pensamentos críticos e inconformidades que, para ele,

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A Dialética Marxista “postula que as leis do pensamento correspondem às leis da realidade. A dialética não é só pensamento: é pensamento e realidade a um só tempo. Mas, a matéria e seu conteúdo histórico ditam a dialética do marxismo: a realidade é contraditória com o pensamento dialético”. Disponível em: < http://www.professores.uff.br/jorge/pesq.pdf>. Acesso em 20 de abril de 2013.

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impulsionam mudanças na estrutura social. Mészáros, que é filósofo de uma corrente de teorias construtivistas sobre a estrutura social e suas transformações, aponta o método da mediação (que aqui pode ser compreendido como uma etapa da comunicação) como a categoria mais importante, tanto teórica quanto prática, em nossa época de transição histórica. Para fins específicos da pesquisa, esta reflexão contribui na busca de um referencial que direcione o entendimento dos aspectos metodológicos que conduzem a mediação feita pelo LPJ. Segundo o autor, a tangente teórica que compõe a mediação é a consciência, ou seja, uma concepção intelectualmente coerente que levará à negação da estrutura social já posta. A parte prática, não obstante disso, é o momento-ação, em que a mediação-prática permitirá o consenso ineludível de uma reprodução sociometabólica22. Para ele, os indivíduos devem ser mediados por si mesmos, assegurando, inclusive, uma interação adequada às transformações da sua natureza.

Se o sujeito histórico conclamado a instituir tal transformação estiver de fato no controle do processo, vislumbrado de reestruturação radical, na qualidade de um sujeito mediado e controlado por si próprio, ao invés de se submeter às determinações fetichistas estruturais e aos interesses concebidos a partir da perspectiva privilegiada do sistema do capital. (MÉZSAROS, 2009, p.278)

Ao assumir a relação dos indivíduos com o processo constitutivo de sua natureza transformadora, MÉSZAROS (2009) se apoia aos estímulos da Antropologia para a aceitação da pesquisa etnográfica. Se para ele a estrutura social é o que define o método para transformá-la, então, torna-se pertinente que neste estudo se conheça a estrutura, isto é, a natureza do LPJ – prática que constitui o método etnográfico. Nesta linha de pensamento, a pesquisadora em métodos científicos para a comunicação, Isabel Travancas (2005), traz uma contribuição da etnografia para o conhecimento intelectual de um determinado grupo ou determinadas sociedades.

22

No livro “Para além do capital: rumo a uma teoria de transição” (2002), Mészáros discorre sobre a lógica a qual o sistema capitalista propõe as relações de produção e consumo na sociedade. Estas relações, que na análise marxista fazem jus à força de trabalho, podem servir como analogia ao sistema social e quaisquer outras divisões hierárquicas que nele possam existir. Segundo o autor, é justamente sobre essas relações hierárquicas que a prática sociometabólica deve intervir. Para ela “ela vem da condição insuperável, sob o domínio do capital, de que a sociedade deva se estruturar de maneira antagônica e específica, já que as funções de produção e de controle do processo de trabalho devem estar radicalmente separadas uma da outra e atribuídas a diferentes classes de indivíduos” (2002, p.94).

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Para ela, a prática da etnografia consiste num esforço intelectual que resulta na descrição densa do sistema político, da cultura ou de vários outros aspectos sociais de um povo. Apesar de a Antropologia ser uma área do conhecimento muito voltada aos estudos de povos, grupos ou sociedades ainda pouco conhecidas pelo pesquisador, TRAVANCAS (2009) delineia uma perspectiva de estudo que acompanha as transformações da sociedade. Ao citar novas possibilidades para métodos de pesquisas antropológicas, a autora afirma que

A Antropologia não será mais a mesma. Antropólogos não estudarão exclusivamente sociedades indígenas ou distintas e distantes do pesquisador. Começarão a desenvolver trabalhos sobre a sua cidade, os seus bairros, os seus habitantes e as suas profissões. (TRAVANCAS, 2005. In: DUARTE, Jorge; BARROS, Antônio, 2010, p.99)

Neste sentido, a apuração de informações que indicarão as referências de análise para o estudo do objeto suscitou um “mergulho” conceitual na rotina dos indivíduos que compõem ou exercem o fazer comunicativo do LPJ. De acordo com TRAVANCAS (2005) há três ferramentas que podem ajudar na prática da pesquisa etnográfica: a observação participante (a), o caderno (b) e as entrevistas (c); A vivência etnográfica, na qual se baseiam os dados colhidos para a pesquisa, possui um recorte temporal entre os meses de fevereiro e maio de 2012, período no qual ocorreram os primeiros “esculachos”. Durante este tempo, as circunstâncias presenciadas nas reuniões e mobilizações forneceram material suficiente para que a observação participante (a) tenha servido como registro científico deste trabalho. Em quase 120 dias de experiência, as anotações num caderno (b) foram a única forma de prender o momento vivido à materialização da escrita, já que alguns integrantes do movimento não permitiram23 a gravação in loco. Os registros, então, seguiram a ornamentação de um haikai24, em que a concisão e objetividade das frases revelavam sentimentos desconexos que só aquele instante 23

Da mesma forma como foi respeitada a não-gravação, em qualquer tipo de mídia, durante o período de vivência, será preservado o anonimato dos personagens que não liberaram autorização de fala para esta pesquisa, considerando as normas do Código de Ética dos Jornalistas onde se lê: “art.6 É dever do jornalista: VIII - respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão;” (FENAJ, 2007). 24 Para GOGA, “o haikai é uma palavra que nós ocidentais não sabemos traduzir senão com ênfase, é o epigrama lírico. Os japoneses possuem uma forma elementar de arte, mais simples ainda que a nossa

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poderia explicar. Em algumas situações, por exemplo, a descrição do contexto se dá através de expressões curtas, frequentemente usadas por sujeitos que faziam parte das lideranças do movimento. Apesar de serem poucas, essas expressões contribuíram para que, ao longo do processo de vivência, a observação aguçasse uma curiosidade sobre a ideologia operante nos discursos daqueles indivíduos líderes. Em duas situações específicas, no Acampamento Nacional (fevereiro/2012) e no Curso de Formação de Lideranças (maio/2012), a repetição de alguns elementos discursivos na articulação verbal dos líderes do LPJ com os jovens foi determinante para a categorização dos objetivos de pesquisa. Nestes dois eventos, registrou-se ao menos três elementos discursivos que apareciam, com frequência, nas pronunciações e conversas entre líderes e integrantes. São eles: formação (1), informação (2) e mobilização (3). Uma anotação do dia 6 de maio de 2012, registrada durante o CFL, no Assentamento Filhos de Sepé, em Viamão25, confirma a relação desses elementos com o discurso ideológico do movimento.

Fonte: elaboração da autora. FIGURA 7: Elementos Discursivos

trova popular. São tercetos breves, versos de cinco, sete e cinco pés, ao todo dezessete sílabas. Nesses moldes vazam, entretanto, emoções, imagens, comparações, sugestões, suspiros, desejos, sonhos... de encanto intraduzível” (GOGA, 1988, p. 22). 25 Município a região metropolitana de Porto Alegre, RS.

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No caderno de registros, o desenho (reproduzido acima) acompanha uma explicação pronunciada por um dos líderes do LPJ, na qual as expressões trabalho de base (1), comunicação (2) e lutas (3) fazem referências aos termos discursivos já citados, respectivamente:

A nossa organicidade pretende nos dar base para debater pautas da sociedade, construir um projeto político e formar lideranças para o trabalho popular. As nossas estratégias temáticas são colocadas na intenção de facilitar o engajamento político das classes. Por isso, buscamos fazer um trabalho de base [1] consolidado a partir de um bom plano de comunicação [2] interna, e preparar os jovens para a luta [3]. Sabemos que estamos num momento delicado para tratar dos movimentos sociais, pois a contradição econômica os coloca em estado de estática nas lutas [3]. Mas, ao mesmo tempo, este é momento para avançarmos nas bandeiras, sobretudo com a crescente aberturada comunicação [2]. Por isso enxergamos a mídia alternativa com uma ferramenta, que nos permite conquistar um espaço de expressão e organização [1] da juventude.

A observação destas expressões, portanto, suscita uma análise sob a qual identificam-se as matrizes ideológicas que compõem o discurso comunicativo do LPJ e suas estratégias de comunicação. No entanto, estes aspetos não são facilmente percebidos a partir da observação etnográfica. É preciso, além disso, conhecer a profundidade semântica em que se instalam as dimensões do processo comunicativo. Logo, julgou-se propício a realização de entrevistas (c) nas quais os próprios indivíduos pudessem explicar a relação dos termos específicos com suas estratégias comunicacionais. No primeiro momento, foram realizadas entrevistas informais com integrantes de Coordenações Estaduais e Municipais, os quais esclareceram algumas informações sobre o esquema estrutural do movimento. Mais tarde, para fins metodológicos de pesquisa, foram realizadas entrevistas formais26com os quatro indivíduos responsáveis pelo Setor da Comunicação (ou comunicadores), de modo que suas falas pudessem explicar como funcionaram as estratégias de comunicação explicar a dimensão ideológica que compõe o discurso no blog Levante.org.br. Nesta etapa, a pesquisa ganha um aprofundamento fundamental aos diagnósticos semânticos da comunicação de massa, pois ao associar referenciais ideológicos com o 26

Gravadas e autorizadas pelos indivíduos por meio de termo de consentimento (APÊNDICE 1).

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discurso dos seus disseminadores, é possível compreender a forma como a prática comunicativa será direcionada ao coletivo. Por isso, os dados fornecidos pelos registros etnográficos e pelas entrevistas dos comunicadores do LPJ indicam uma necessidade de interpretação hermenêutica27 que justifique a prática midiática destes emissores.

4.2 Hermenêutica da Profundidade e suas categorias de interpretação

A análise de fatores como a cultura, a ideologia ou até mesmo a comunicação de massa é relativamente extensa. Mas a utilização da Hermenêutica da Profundidade (HP) enquanto referência metodológica pode servir para a interpretação da etnografia, e justificar a relação do método científico com a análise da prática, das formas simbólicas e suas ideologias. No livro “Ideologia e Cultura Moderna”, THOMPSON (2009) define que o conceito de ideologia pode ser usado para referir-se às maneiras como o sentido (significado) serve, em circunstância particulares, para estabelecer e sustentar relações de poder. Em muitos caminhos, o autor se alicerça nas contribuições de Marx e Engels ao desenvolver as atribuições metodológicas da HP. Para ele, o conceito da ideologia marxista28 apresenta possibilidades de entender as ideias não só por elas mesmas pelas condições reais que a vida sócio-histórica as propõe. Neste sentido, a análise ideológica em THOMPSON (2009) foca os direcionamentos constitutivos da produção de sentido, aos quais é possível identificar os modos de operação da ideologia nas relações de poder. Para isso, o autor pontua cinco classificações que podem contribuir para a interpretação desses modos de operação. São elas: legitimação, dissimulação, unificação, fragmentação e reificação. No primeiro modo, Thompson argumenta que a produção de sentido ideológica está associado à necessidade de tornar justa e dignas as relações de poder. A legitimação, como ele chama, pode valer-se das cadeias de raciocínio lógico (racionalização), buscando defender ideias que servem ao interesse de todos (universalização), a partir das narrativas que reforçam histórias do passado - fazendo-o 27

Em termos gerais, a Hermenêutica pode ser considerada como um percurso filosófico para a interpretação de sentidos e símbolos numa narrativa, seja ela textual ou oral. 28 Para Marx, Ideologia “é uma doutrina teórica e uma atividade que olha erroneamente as ideias como autônomas e eficazes e que não consegue compreender as condições reais e as características da vida cotidiana” (MARX , 1933 apud THOMPSON, 2009, p.51)

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parecer eterno e aceitável (narrativização). O segundo modo, ao qual o autor chama de dissimulação, consiste na omissão de processos sociais existentes. Essa estratégia de ocultamento de sentidos acontece quando há um desvio de interlocutores interessados (deslocamento); a amenização, geralmente positiva, na descrição de algum fato (eufemização); ou através do uso figurativo da linguagem (tropo). No terceiro modo operativo da ideologia, o autor aponta a unificação como justificativa para a construção de uma identidade coletiva. Para isso, ele destaca os princípios gerativos da padronização discursiva e da simbolização de unidade entre os indivíduos de um grupo. No quarto modo, Thompson considera as possibilidades de segmentação de grupos que possam ameaçar uma condição de poder. Neste caso, a fragmentação apresenta mecanismos de diferenciação e expurgo alheio, capazes de expelir futuros problemas para o grupo. Na última classificação, o autor pondera a reificação enquanto forma de destituir a relevância do contexto sócio-histórico de um grupo. Essa fase da ideologia defende que o estado das coisas surgiu de forma natural (naturalização), de modo que sua atemporalidade (eternização) justifique a referência (nominalização) das coisas tais como são. Em seu estudo sobre metodologia hermenêutica na pesquisa social, GUARESCHI (2003) acrescenta a “banalização” aos modos de operação da ideologia, por entender que o processo de naturalização dos fatos “leva à diluição da realidade ou da importância do tema, induzindo à conformidade e ausência de reflexão crítica” (2003, p.321-325). Com isso, o autor ressalta a importância da contextualização histórica na aferição de sentidos produtivos da ideologia e reafirma a necessidade de explicitar uma conexão entre as formas simbólicas e as relações de dominação as quais estas formas sustentam. Neste sentido, as contribuições de GUARESCHI (2003) buscam sentido no que, para THOMPSON (2009) consiste no referencial hermenêutico.

Este referencial coloca em evidência o fato de que o objeto de análise é uma construção simbólica significativa, que exige uma interpretação. Mas as formas simbólicas significativas, elas estão estruturadas internamente de várias maneiras. Para poder levar em consideração a contextualização social das formas simbólicas e suas características estruturais internas, devemos empregar outros métodos de análise. Tentarei mostrar que hermenêutica da profundidade (HP) apresenta um referencial dentro do qual esses vários métodos de análise podem ser sistematicamente inter-relacionados, suas potencialidades podem ser consideras e seus limites definidos. (THOMPSON, 2009, P.356)

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A partir dos pressupostos de THOMPSON (2009), a metodologia da HP oferece mecanismos sob os quais é possível decifrar a profundidade ideológica nas práticas comunicativas – que neste trabalho, estarão representadas no blog do LPJ. Além disso, a HP dialoga com outras formas de investigação que buscam referência na análise do discurso, bem como as representações simbólicas que ele possui. Para o autor, essas representações, ou formas simbólicas, são construções que tipicamente representam algo, dizem alguma coisa sobre algo e “que podem ajudar o analista a ver o objeto de uma maneira nova, em relação aos contextos de sua produção e recepção à luz dos padrões e efeitos que o constituem” (2009, p.357). Em sua abordagem descritiva sobre a pesquisa da HP como um referencial metodológico, THOMPSON (2009) destaca que a relação de troca na qual os bens simbólicos são produzidos caracteriza o processo de “transmissão cultural”, que, para ele, consiste na fundamentação histórica do conceito de comunicação de massa. Esse aspecto traz argumentos interessantes para a atribuição da metodologia deste trabalho. Ao tomar a definição de comunicação de massa a partir do modelo de transmissão de bens simbólicos, torna-se propositiva a comparação com o modelo de comunicação do LPJ. Apesar de ser um Novo Movimento Social, dentre os quais estimula a comunicação entre as minorias sociais, o LPJ também faz uso dos mecanismos da comunicação de massa no momento em que se enquadra nas atribuições da transmissão cultural que, de acordo com THOMPSON (2009), seguem três aspectos básicos: o meio técnico de transmissão (ou componentes materiais); o aparato institucional de transmissão (ou estratégias comunicativas) e o distanciamento espaço-temporal (ou formas de transmissão). Para este estudo, no entanto, optou-se focar no “aparato institucional de transmissão dos bens culturais” como forma de sinalizar a estrutura da HP, sob a qual será possível identificar o “conjunto específico de articulações institucionais dentro das quais o meio técnico é elaborado e os indivíduos envolvidos na codificação e decodificação das formas simbólicas estão inseridos” (THOMPSON, 2009, p. 223). Essas articulações institucionais permitem, ainda, revelar quais regras, recursos e relações hierárquicas de poder existem entre os indivíduos que ocupam as posições institucionalizadas. 56


Numa dimensão menos ampla, então, a pesquisa parte da análise das notícias no blog Levante.org.br como percurso inicial que direciona o entendimento das estratégias de comunicação do movimento. Considera-se, pois, que as experiências etnográficas e as entrevistas realizadas com os integrantes do Setor Nacional de Comunicação do LJP, possam revelar diagnósticos que contemplem a profundidade metodológica da pesquisa. Deste modo, a metodologia aplicada se baseia na tríplice análise da HP para a formulação da: - a análise sócio-histórica, que fundamenta as referências ideológicas do objeto; - a análise formal ou discursiva, que apresenta a forma como o discurso do LPJ é construído, transmitido, e suas possíveis interpretações; - a interpretação, auto-reflexão e crítica, que justifica a relação das estratégias (formas) de comunicação com o discurso apresentado no blog.

Fonte: THOMPSON, 2009, p.365 (reprodução) FIGURA 8: Formas de Investigação Hermenêutica

4.2.1 Análise sócio-histórica

57


O percurso da análise sócio-histórica do LPJ revela símbolos e caraterísticas que dialogam com as ideias marxistas dos movimentos sociais da base estudantil, desenvolvendo-se numa sociedade de convergência midiática e de muitas controvérsias ideológicas. Ao mesmo tempo em que está direcionado a um público de minorias, o procedimento comunicacional do movimento conserva características da comunicação de massa, na medida em que mantém relações hierárquicas na transmissão dos bens simbólicos. As observações registradas na experiência etnográfica confirmam essas relações, principalmente no que tange aos setores e às lideranças do movimento, mostrando que “na investigação social o objeto das nossas investigações é, ele mesmo, um território pré-interpretado”, e que segundo Thompson, é passível das apropriações impessoais e cotidianas.

O mundo sócio-histórico não é apenas um campo-objeto que está ali para ser observado; ele é também um campo-sujeito que é construído, em parte, por sujeitos que, no curso rotineiro de suas vidas cotidianas, estão constantemente preocupados em compreender a si mesmo e aos outros, e em interpretar as ações, falas e acontecimentos que se dão ao seu redor. (THOMPSON, 2009, p.358)

Neste ponto, o autor chama atenção para outros fatores que podem compor a característica do mundo sócio-histórico no qual o objeto está inserido, entre eles os campos de interação entre os indivíduos; as instituições sociais; a estrutura social; e os meios técnicos de construção da mensagem – este último que será focado cm mais propriedade. No caso do blog do LPJ, suas apropriações tecnológicas são resultadas da relação subjetiva na qual os indivíduos do movimento mantém entre eles e público pósnacionalização. É evidente que a extensão dessas relações, que podem ser presenciais ou não, têm seu fundamento na apropriação de espaços comuns, onde os hábitos e expressões dos indivíduos ganham sentido. LEVÝ (1996) aponta que “o universo cultural, próprio dos seres humanos, estende ainda mais esta variabilidade de espaços e das temporalidades. Por exemplo, cada novo sistema de comunicação e de transporte modifica o sistema das proximidades práticas, isto é, o espaço pertinente para as comunidades humanas” (1996, p.22). Para ele, o ambiente virtual permite a mobilidade e liberdade nas condições de interação do 58


indivíduo com a sociedade. Trata-se, de “um processo de transformação cultural”, diz ele. Na mesma linha de pensamento, THOMPSON (2009) mostra o aprofundamento da influência dos processos midiáticos na interação e formação de identidade dos sujeitos sociais. Segundo o autor, apesar da “transformação cultural” apontada por Levý, o contexto de interação social entre os sujeitos que já nasceram neste meio de transição, mantém, ainda que de maneira diferente, os princípios ideológicos que motivaram a relação entre eles. Para o autor, a perspectiva da análise hermenêutica quanto aos fatores sócio-históricos devem conservar a importância das tradições históricas na prática ideológica dos indivíduos. Thompson ainda completa que, as formas de mediação entre os sujeitos em sociedade dependem do projeto simbólico que eles constroem ativamente; e as transformações previstas para essa mediação condizem com, nada mais que, a experiência contemporânea na qual os sujeitos estão submetidos. Para o autor, a subjetividade nas relações humanas, a qual ele denomina self, torna-se totalmente dependente deste tipo de experiência.

Enquanto experiências vividas permanecem fundamentais, há uma crescente suplementação das experiências mediadas, que possuem um papel cada vez maior no processo de formação do self, que revela, consequentemente todas as relações que o vão construindo e transformando (THOMPSON, 1998, p.202).

Mais adiante, desta vez seguindo os pressupostos de democracia considerados por Habermas, Thompson aponta a possibilidade de auto-gestão das novas formas de comunicação, sociabilidade e reorganização de uma esfera pública virtual (2009, p.149), que segundo ele, caracteriza uma transformação estrutural dos bens simbólicos apropriados pela mídia. Neste ponto, pode-se identificar as caraterísticas da Cultura da Convergência, na qual as atribuições entre produtores e consumidores midiáticos se misturam. Neste sentido, as ações dos sujeitos sociais protagonizam a relação entre eles e a mídia, de modo que a forma e o espaço no qual atuam seja o diferencial que os defina. Para JENKINS (2006), a Cultura da Convergência possibilita que a narrativa entre-as-mídias seja formada por um elo de ações realizadas pelo homem. Segundo ele, mesmo no universo hipertecnológico da era convergente, as ações midiatizadas são 59


influenciadas diretamente pelo seu interlocutor. Isto é, ainda que a democracia virtual traga transformações culturais na relação midiática com os sujeitos sociais, o contexto das mídias contemporâneas faz novas exigências aos consumidores e depende da participação ativa de comunidades de conhecimento. A isso, JENKINS (2006) denomina “narrativa transmídia”, que consiste na prática de explorar a potencialidade de diferentes mídias (audiovisual, impressa ou virtual) que compõem um mesmo referencial. Para ele, a narrativa transmidiática possibilita a criação de um universo, na medida que

Os consumidores assumem o papel de caçadores e coletores, perseguindo pedaços da história pelos diferentes canais, comparando suas observações com as de outros fãs, em grupos de discussão on-line, e colaborando para assegurar que todos os que investiram tempo e energia tenham uma experiência de entretenimento mais rica (JENKINS, 2006, p. 52).

No caso das ações do “Levante pela verdade”, não só o ciberespaço29 serviu como alternativa para a comunicação entre eles. Há características de convergência nos momentos em que os sujeitos utilizam a transmidiliadade para fazer proliferar suas ideias em diferentes lugares. O blog permite o compartilhamento das notícias com as redes sociais, que por sua vez viralizam30 os vídeos produzidos durante as manifestações, que por seguinte, mostram cartazes, banners e folders a respeito da campanha (ANEXOS A, B e C).

29

Em LEMOS (2007) a compreensão para Ciberespaço “institui o ‘tempo real’ e a possibilidade de acesso a informações em todos os espaços do globo. O desencaixe nos permite vivenciar processos globais não enraizados na nossa tradição cultural. As mídias eletrônicas criam assim processos desterritorializantes em níveis político, econômico, social, cultural e subjetivo”. Disponível em: <http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/andrelemos/territorio.pdf>.Acesso em 20 de abril de 2013. 30 Viralizar pode ser entendido como uma linguagem utilizada, principalmente na internet, para compartilhar ou difundir uma ideia e/ou produto rapidamente.

60


Fonte: Blog Levante.orb.br. FIGURA 9: A característica transmídia na produção de conteúdo.

4.2.2 Análise Formal ou discursiva

Os muitos eixos compõem o aprofundamento daquilo que se investiga, levam a constatação de construções simbólicas cada vez mais complexas, que se apresentam a partir de uma estrutura articulada. De acordo com os seguimentos da HP, a segunda etapa de análise consiste na percepção dessas complexidades, isto é, das formas e elementos que, explícitos, mostram uma simbologia sob a qual é possível ter várias interpretações. THOMPSON (2009) adverte que a análise formal ou discursiva alcança as dimensões que se pretende a partir de análises semióticas; análises da conversação; análise sintática; análise narrativa e análise argumentativa. No contexto apresentado neste estudo, pretende-se fazer uma apropriação do que o autor chama de “sintaxe prática”, a fim de apreender as formas simbólicas discursivas em suas diversas mediações. Seja por imagens ou palavras, escritas ou orais, a presença de elementos discursivos (frases ou expressões) pode revelar instâncias ideológicas de uma narrativa. A partir das opções para a investigação hermenêutica, procurou-se identificar quais “Formas Simbólicas Discursivas” sustentaram o discurso dos sujeitos 61


comunicadores do LPJ (Setor da Comunicação); e quais vias argumentativas poderiam explicar suas formas discursivas. Neste ponto, opta-se pela “análise da argumentação” das entrevistas realizadas, como referencial explicativo à construção narrativa, já que sua lógica “torna explícito os padrões de inferência que caracterizam um discurso abertamente político” (THOMPSON, 2009, p.374).

Coleta e tratamento de dados

A análise discursiva baseou-se nos conteúdos das postagens sobre o “Levante pela Verdade” (entre fevereiro e maio), a partir da possibilidade de interpretação da experiência etnográfica vivida no mesmo período - fator que justifica a escolha do recorte temporal. Neste sentido, a perspectiva da análise discursiva fornecerá um leque de possibilidades quanto às instâncias de comunicação correntemente presentes numa narrativa, que segundo Thompson, define a análise da sintaxe prática:

Embora as instâncias do discurso sejam sempre situadas em circunstâncias sócio-históricas particulares, elas também apresentam características e relações estruturais que podem ser analisadas formalmente, com a ajuda de vários métodos que eu chamei de análise discursiva. (THOMPSON, 2009, p.371)

No caso do blog do Levante.org.br buscou-se identificar a presença dos termos formação, informação e mobilização conforme o contexto das postagens, a concatenação de frases ou expressões e a interpretação da doxa31 (ou vida cotidiana) na construção na notícia. Quanto às informações coletadas nas entrevistas, foram apresentadas apenas as categorias supracitadas, que comporão a análise argumentativa, posteriormente. No primeiro momento, realizou-se o mapeamento geral das postagens feitas entre fevereiro e maio. A partir disso, foram elencadas quais possuíam os termos de

31

Em THOMPSON, a doxa é “uma interpretação das opiniões, crenças e compreensões que são sustentadas e partilhadas pelas pessoas que constituem o mundo social” (2009, p. 364).

62


referência às categorias ideológicas do discurso do LPJ. Na sequência, buscou-se identificar elementos de transmidialidade na divulgação das notícias, bem como as características da arquitetura da informação no blog.

TABELA 1 Apresentação das postagens analisadas no site Levante.org FORMAS SIMBÓLICAS DISCURSIVAS

Qtd.

Mês FORMAÇÃO

Fev / 2012

Mar / 2012

INFORMAÇÃO

MOBILIZAÇÃO

Quem Somos

Quem Somos

Quem Somos

Carta Compromisso (05/02)

Carta Compromisso (05/02)

Levante Contra a Tortura (30/03)

Esculacho em São Paulo contra torturador (26/03)

Levante pela Verdade (30/03)

Esculacho no RS (26/03) Esculacho contra torturador em BH (26/03) Levante sofre retaliações (29/03)

Abr / 2012

Contra a reação (03/07)

Ato público pelo direito à justiça (09/04)

Carta aberta aos bravos jovens do Levante Popular da Juventude (12/04)

16 anos de massacre: Levante realiza ações em 14 estados (17/04)

Mai / 2012

Empresas rompem contrato com torturador (21/05)

Carta Compromisso (05/02)

2

Esculacho em São Paulo contra torturador (26/03) Esculacho no RS (26/03)

6

Esculacho contra torturador em BH (26/03) Levante sofre retaliações (29/03) 16 anos de massacre: Levante realiza ações em 14 estados (17/04)

Balanço: Levante mobiliza 11 estados contra torturadores (14/05)

4

3

Esculacho torturador Dilma (14/05)

Fonte: elaboração da autora. FIGURA 10: modelo de tabela 1. 63


Relação de postagens segundo as categorias ideológicas

Formação Informação Mobilização

Fonte: elaboração da autora. FIGURA 11: Gráfico da distribuição das postagens por categoria ideológica

De acordo com a contextualização nas quais as ações ocorreram, é possível fazer uma relação da ocasionalidade das categorias de postagem com o valor simbólico para as ações do movimento naquele período. Em fevereiro e março, por exemplo, o LPJ estava começando as organizações para os escrachos, o que poderia acarretar numa maior disposição do site para a mobilização e informação das ações do movimento.

14 12 10 8

Formação

6

Informação Mobilização

4 2 0

.

Fevereiro

Março

Abril

Maio

Fonte: elaboração da autora FIGURA 12: Gráfico da frequência das categorias ideológicas de acordo com período das mobilizações. 64


Março

12 10 8 6 4 2 0

Abril

site Maio

redes sociais vídeos produtos impressos

Fevereiro

Fonte: elaboração da autora. FIGURA 13: Gráfico da produção transmídia referente às postagens do “Levante pela Verdade”.

Até aqui, entende-se que cada material analisado compõe uma notícia, ainda que não seja formalmente jornalística32, já que, segundo TRAQUINA (2005), a notícia é o que resulta de um processo de percepção, seleção e transformação dos acontecimentos (matéria-prima) em pauta (produto).

Fonte: elaboração da autora. FIGURA 14: Processo de construção da notícia, segundo TRAQUINA (2005)

32

O formato jornalístico formal refere-se à construção narrativa a partir do lead, adequado às especificações da mídia. Isto é, deve-se assegurar as peculiaridades textuais às notícias produzidas para o rádio, para a TV, para o impresso e para o digital.

65


No livro “Teorias do Jornalismo - por que as notícias são como são” TRAQUINA (2005) aponta que diversas variantes podem interferir na construção das notícias, entre as quais, as pessoas, o sistema social, a ideologia, a cultura, o meio físico e tecnológico e a história. Estes fatores, associados à definição que cada um dá aos valores-notícia, mostram porque e para que as notícias são como são. Ao discorrer sobre as intenções discursivas da notícia (2005, p.25), o autor elenca cinco ações nas quais elas podem estar fundamentadas. São elas: 

Ação pessoal (AP): notícias como produto das pessoas e das suas intenções;

Ação Social (AS): notícias como produto das organizações e de seus constrangimentos. Explica a existência de rotinas organizacionais, mas não de onde elas advêm;

Ação ideológica (AI): são originadas por forças de interesse que dão coesão aos grupos. Esses interesses podem ser conscientes e assumidos ou não;

Ação Cultural (AC): produto da cultura e das restrições por ela impostas. De base antropológico-literária, põe a notícia como uma “ficção de maneira simultaneamente intencional e não-intencional”;

Ação do meio Físico e Tecnológico (AFT): as notícias dependem dos dispositivos tecnológicos que são usados no seu processo de fabrico e do meio físico em que são produzidas;

Ação histórica (AH): são um produto da história, durante a qual interagiram as outras cinco ações anteriores. A partir das descrições inferidas é possível relacionar a competência das

intenções na construção da notícia aos bens simbólicos mais frequentes nas postagens. Mas, antes disso, a análise destas formas simbólicas nas entrevistas com os indivíduos comunicadores deve preceder à constatação dos valores-notícia que direcionam a produção no blog. Ademais, coloca-se à disposição de análise as partes mais relevantes das entrevistas (decupadas), de forma que a averbação dos termos identificados configurem relevância à proposta investigativa.

Análise da argumentação O conteúdo apresentado a partir da seleção das entrevistas garante que toda a lógica explicativa informada pelos integrantes do Setor da Comunicação do LPJ tem um intuito ideológico. Foram realizadas quatro entrevistas formais, sob as quais buscou-se 66


entender como funcionou o processo de abastecimento de conteúdo no blog, no período entre fevereiro e março de 2012. Cada integrante foi entrevistado separadamente, em dias e locais diferentes, de modo que suas falas pudessem apresentar perspectivas pessoais e críticas do processo averiguado.

TABELA 2 Entrevistados NOME

FUNÇÃO

ESTADO

Jean Carlos

Arquiteto da informação

Minas Gerais

Hellen

Redação/Edição

Paraná

Edison Júnior

Web designer

São Paulo

Rafael

Arquiteto da informação

Rio Grande do Sul

Fonte: elaboração da autora. FIGURA 15: modelo de tabela 2.

A presença das categorias ideológicas foi unânime em todos os depoimentos. No entanto, alguns pontos divergiram entre eles, quando questionados sobre valores que direcionam a produção de notícias para o blog. Este momento de divergência, de explicação e argumentação foi fundamental para que, na pesquisa, se pudesse “fragmentar o corpo do discurso em conjuntos de afirmativas ou asserções organizadas ao redor de certos tópicos em termos de determinados operadores lógicos, ou quase lógicos” (THOMPSON, 2009, p.374). No gráfico abaixo é possível identificar alguns pontos citados como requisitos que, segundo os entrevistados, conferem valor às notícias do blog.

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Fonte: elaboração da autora. FIGURA 16: Gráfico valores-notícia segundo os entrevistados (baseado em TRAQUINA, 2005)

De maneira geral, os valores-notícia identificados nos depoimentos se aproximam do que TRAQUINA (2005) define como “critérios para seleção” e “critérios para construção” de pautas. De acordo com as classificações do autor, fatores como morte, relevância, proximidade, conflitos e controvérsias e notabilidade, estão associados aos critérios para seleção de pautas. Já os outros termos, como personificação e aprofundamento (do assunto), são apontados como critérios para a construção de pautas. A partir da classificação dada aos valores notícia é possível relacionar o argumento apresentado pelos indivíduos às suas intenções noticiosas, nas quais estão fundamentadas as notícias do blog. Neste ponto, faz-se um paralelo entre as considerações de THOMPSON (2009) com as intenções discursivas apresentadas por TRAQUINA (2005), uma vez que a argumentação baseada na intenção das ações pode revelar o exponencial de persuasão do discurso no blog. Abaixo, o gráfico mostra a relação das respostas dos indivíduos, quando perguntados sobre critérios de notícia, com a argumentação para fundamentá-los.

68


Fonte: elaboração da autora. FIGURA 17: Gráfico ações-notícia versus argumentos dos entrevistados

Nesta etapa, o aprofundamento hermenêutico alcança as características estruturais internas das notícias, de modo que as considerações analíticas não se baseiem apenas de pressupostos teóricos. Apesar de muitos elementos discursivos serem evidentes, principalmente nos textos, a comparação com o que os produtores da informação têm a dizer é fundamental no entendimento de mensagens para a comunicação de massa. Até porque, a “análise da produção e transmissão é essencial à interpretação do caráter ideológico das mensagens, pois ele lança uma luz sobre as instituições e as relações sociais dentro das quais essas mensagens são difundidas” (THOMPSON, 2009, p. 395).

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Fonte: THOMPSON, 2009, p.395 (reprodução). FIGURA 18: Desenvolvimento metodológico do enfoque tríplice

Durante o período de postagens do “Levante pela Verdade”, a relação entre o surgimento de pautas e a forma de abordagem das mesmas foi, segundo os integrantes, um caminho estratégico a ser percorrido. Isto porque após o período de nacionalização, a visibilidade em torno dos “esculachos” fez com que o LPJ fosse associado a uma série de organizações partidárias, sem que sua proposta estivesse clara à sociedade civil. Deste modo, a apresentação do perfil do movimento, articulado às notícias produzidas, fizeram com que o blog nacional fosse uma das formas institucionalizadas de comunicação externa. Outro fator interessante levantado a partir do mapeamento está no caráter documental das notícias. Nos meses de fevereiro e março, por exemplo, poucos textos foram divulgados no blog nacional, pois, segundo os registros etnográficos, o movimento ainda não contava com uma estrutura ideológica forte em todos os estados nos quais tinham representantes – fato que ficou explícito após a comparação com o fluxo de produção dos outros meses. Na entrevista, Jean Carlos comenta este ponto:

Até a reunião da Coordenação Nacional, no dia 21 de abril em Salvador, a gente não tinha executado nada ainda. A gente estava na tentativa de contato com o pessoal de outras regionais para colocar na prática uma proposta de comunicação integrada. É neste momento que nós começamos a inserir as notícias no blog, ainda que já tivessem passado, de modo que ele pudesse representar a nossa ferramenta de comunicação externa - que nesse momento era direcionada aos jovens dos outros estados. Ao mesmo tempo, nos surpreendemos com a dimensão e a visibilidade que o movimento ganhou, em função dos esculachos (mesmo que isso não tenha significado tanto em número de membros). E, a partir dai, o nosso direcionamento

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passou a ter uma mão dupla: falar ao público que a gente quer organizar, que no caso é a juventude da classe trabalhadora; e debater as pautas que a sociedade nos apresenta. Por isso, ao longo dos meses, fomos arrumamos o blog na medida do possível, porque quem não conhecia o Levante antes dos esculachos, agora pode entrar no blog, conhecer a nossa proposta e se contextualizar da nossa luta. (Jean Carlos)

Ainda que boa parte das postagens referentes às primeiras ações tenha sido inserida com o decorrer do tempo, a preocupação com os fatos passados mostra o interesse do movimento em resgatar o percurso histórico que justifica as mobilizações. A memória do LPJ, neste sentido, foi sendo organizada na medida em que as experimentações para a melhoria do blog foram se adequando às suas expectativas. Na entrevista, Helen destacou que o blog ainda não está como “eles” idealizam, mas ressaltou que muita coisa importante pôde ser resgatada para que o Levante.org.br seja um veículo onde os jovens consigam, minimamente, entender e buscar a luta do LPJ. Ela pontua ainda que a estratégia de comunicação e organização dos Esculachos foi muito restrita, e que na época dificilmente “eles” conseguiriam lidar com a publicização das ações através do blog.

Na verdade, os esculachos já vinham sendo planejados por uma equipe de comunicação provisória, de São Paulo. Quando aconteceu o processo de nacionalização, o Levante já dialogava com as ideias da Comissão da Verdade, para cobrar respostas da justiça sobre os desaparecidos políticos. Isso já era uma pauta de luta que, com a nacionalização e os grandes veículos de comunicação, ganhou destaque. Até então, o Levante só tinha blogs regionais, mais especificamente no Rio Grande do Sul – não vou saber informar ao certo. O papel informativo do nosso blog só ganhou destaque depois, quando a mídia já estava falando do assunto e então muita gente se atentou. Na época ainda não tínhamos uma estrutura relativamente composta para dar conta do blog. Por isso acredito que, no primeiro momento, a nossa maior estratégia de comunicação foram as ações por elas mesmas, pelo teor da atividade. Poucas pessoas dentro do movimento sabiam como iríamos intervir pela Comissão da Verdade. Foi uma precaução interna por causa do contato com as grandes mídias. A galera de São Paulo preferiu ter cuidado quanto a isso. O que foi até melhor, porque depois conseguimos pensar o que queríamos com o blog. (Helen)

Após estruturada a equipe que hoje gerencia o blog, as postagens foram direcionadas de modo que construíssem um espaço comum entre os “Levantes” de 71


todos os estados. Todo conteúdo publicado é discutido por um Conselho Editorial, composto por pessoas do Setor Nacional da Comunicação e das Secretarias Operativas. Nem sempre todos participam, mas normalmente são as pessoas que estão a par da conjuntura, mobilização e organicidade do movimento que discutem as pautas. De forma geral, os entrevistados ressaltam que o cuidado com as peculiaridades culturais, vocabulares e políticas foram dando identidade à linguagem dos textos. Ao mesmo tempo, procurou-se investir no potencial interativo das redes sociais (facebook e twitter) para promover o caráter transmídia das notícias. Vídeos, artes e fotos ganharam destaque principalmente nas páginas do facebook, acompanhados da hashtag “Levante pela verdade” (#levantepelaverdade33). Em especial, a utilização das tags e dos gadgets de “postagens mais lidas” e dos “últimos comentários” contribuiu para que os conteúdos se tornassem visíveis e eficientes na categorização de temas e na otimização das formas de pesquisa no blog.

Fonte: CARTA ABERTA, Blog Levante.org.br , em 12 de abril de 2012. FIGURA 19: Interatividade com o público e repercussão da campanha (imagem em ANEXO). 33

Apesar de ser um recurso de tagueamento utilizado no twitter, a hashtag “Levante pela verdade” foi usada com mais frequência no facebook, já que o perfil do Levante no Twitter não alimenta a interatividade com os usuários. “O nosso perfil no twitter está esquecido”, afirmou Jean Carlos.

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Fonte: CARTA ABERTA, Blog Levante.org.br , em 12 de abril de 2012. FIGURA 20: Categorização, atualização e formas de pesquisa (imagem em ANEXO).

De todo modo, entende-se que as estratégias da comunicação estiveram diretamente relacionadas à produção, construção e apropriação dos valores notícias e ferramentas da convergência midiática. O blog, neste sentido, apresenta uma lógica discursiva que, em comparação aos argumentos dos integrantes, reforçam a característica da comunicação de massa – fatores que predestinam a possível reinterpretação da ideologia mostrada pelo movimento.

Fonte: THOMPSON, 2009, p.395 (adaptação da autora). FIGURA 21: Desenvolvimento do Enfoque tríplice para a Comunicação de massa 73


4.2.3 Interpretação, auto-reflexão e crítica

A partir do processo comunicativo estruturado para as notícias do “Levante pela Verdade”, encontra-se muitos pontos de concordância e divergência entre o que foi observado na vivência etnográfica e os argumentos apresentados em entrevista. Nada disso pondera, pois, na superação de uma verdade sob a outra. Mas a comparação entre elas são fundamentais para a formulação de um diagnóstico coerente à proposta deste estudo. De acordo com as categorias de análise da HP, a fase da interpretação da ideologia consiste no ponto cíclico de reconhecimento daquilo que se pensa conhecer. Ao contrário do que se pode imaginar, a terceira etapa hermenêutica não significa um fim, ou uma conclusão, mas uma fase de reflexão sobre tudo o que foi afirmado anteriormente. Para THOMPSON (2009), reinterpretar a ideologia “é explicitar a conexão entre o sentido mobilizado pelas formas simbólicas e as relações de dominação que este sentido ajuda a estabelecer e sustentar. A interpretação da ideologia é um processo de síntese criativa” (p.379). No caso do LPJ, o mapeamento das categorias de análise das notícias e do discurso dos líderes revela que a formação (e organização) dos jovens ainda é um objetivo a ser contemplado na prática da comunicação do blog. Os gráficos apontam que, no período que compreendeu o início das mobilizações de “esculachos”, as notícias deram maior visibilidade para as atividades que o movimento exercia do que para o cursor ideológico dos seus objetivos. Num discurso registrado no dia 05 de maio de 2012, por um dos líderes do movimento, ouvia-se:

Nós atuamos na juventude porque entendemos ser esta a fase de formação na vida dos indivíduos. Por isso, precisamos da comunicação para contemplar a organização, flexibilização e maior alcance do movimento. Talvez a contradição esteja em conciliar a militância com o cotidiano do trabalho, mas o Levante está abrindo espaços para isso. Até porque, nossa visão de militância não é de uma fase, não é passageira, como a estadia na universidade. Somos jovens que olham o futuro, mas que, acima de tudo, lutam pelas marcas que o passado nos deixou.

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Na fala, pronunciada em espaço de formação para lideranças do próprio LPJ, a idealização de um papel preponderante destinado à comunicação pode significar expectativas além do apresentado, até então, no blog nacional do LPJ. Porém, considerando os fatores de conjuntura, amadurecimento e experimentação do produto midiático, é possível perceber o quanto a disposição de notícias favoreceu o feedback com o público externo, ainda que isso não tenha aumentado significativamente o “alcance” do movimento em número de integrantes. Por outro lado, a consciência crítica das pessoas que gerenciam o blog parece confortar os ideais de informação e mobilização dos jovens, na medida em que o trabalho do Conselho Editorial busca uma representatividade simbólica das juventudes do Brasil. Mas, ao mesmo tempo em que essa dinâmica de comunicação assegura que os princípios ideológicos estejam de acordo com a utilização da ferramenta (o blog), ela estimula uma relação de poderes, na qual a logística de produção seja de líderes para a massa. Na tabela abaixo, é possível identificar alguns modos de operação da ideologia no discurso dos sujeitos comunicadores, a partir das estratégias de comunicação utilizadas.

TABELA 3 Modos de operação da ideologia identificados a partir da análise argumentativa Modos de operação da ideologia

LEGITIMAÇÃO

Algumas Estratégias Típicas de Construção Simbólica Racionalização: a composição dos setores responsáveis pela administração do LPJ é, consensualmente, formada pelos indivíduos mais experientes no movimento ou os que já lidavam com as relações políticas externas antes de entrarem no Levante; a organização, por seguinte, é baseada nos pilares dos movimentos de campesino: organização, formação e luta. Universalização: os acampamentos representam espaços de formação onde o movimento pretende falar ao público das três frentes (campesina, estudantil e popular); a criação do blog nacional que também pudesse atender a todos os públicos, em todos os estados. Narrativização: a retomada das injúrias que marcaram o regime militar como bandeira de luta; o apoio à Comissão Nacional da Verdade; o dialogismo com as causas do movimento estudantil e da reforma agrária.

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Deslocamento: o planejamento dos “esculachos” aconteceu de maneira restrita às alguns integrantes do São Paulo e, depois, percorreu outros estados. DISSIMULAÇÃO

Eufemização: as fotos do #levantepelaverdade como alternativa de mobilização pela web. Tropo: o uso do termo “esculacho” e “escracho”, para referenciar as ações de repúdio, agressão verbal e maltrato aos acusados. O termo, que é comumente usado quando se trata de vergonha em público, foi facilmente aceitado pelos jovens em associação às manifestações.

UNIFICAÇÃO

Padronização: os modos de operação das células; as reinvindicações e lutas; o uso dos termos esculachos e escrachos. Simbolização da unidade: a criação do blog Levante.org.br.

FRAGMENTAÇÃO

Diferenciação: uma postagem para cada mobilização em locais diferentes, ainda que elas tratem da mesma coisa; cada estado possui um blog e identidade visual próprios. Naturalização: os espaços de formação. Eternização: a organicidade.

REIFICAÇÃO

Eternização: a referência à ídolos socialistas, principalmente ligados ao Estado, tais como Hugo Chávez, Salvador Allende, Fidel Castro e Carlos Marighela. Nominalização: a referência das causas do movimento à um “projeto popular”.

Fonte: Adaptado de THOMPSON, 2009, p.81. FIGURA 22: modelo de tabela 3.

Neste sentido, o conceito de mídia alternativa ganha uma conotação parabólica, na qual a produção acontece em linhas contrárias aos ideais da comunicação hegemônica, mas ainda conserva sua forma de fazê-la. Este ponto de análise, de certo modo, abre brechas para que a contextualização do estudo justifique a inexperiência estimada no início da organização nacional do movimento, sem que a crítica seja injusta. Por isso, entende-se que o momento de implantação de novas mídias para o relacionamento com o público tenha caracterizado um marco nas relações de poderes sob as quais os indivíduos teriam que lidar posteriormente. Fato que justifica a

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comunicação two-step flow34, na qual os líderes do grupo são formadores de opinião e, ao mesmo tempo, fontes de uma informação privilegiada que motivará as ações dos demais. É neste sentido que, as vias argumentativas das entrevistas contribuíram para a reinterpretação do discurso ideológico observado durante a experiência etnográfica, principalmente por aparecerem, com mais evidência, na aferição dos valores-notícia. Apesar de, em muitos momentos da entrevista, “eles” reconhecerem as relações de poderes que sustentam a organicidade do Setor foi possível identificar a consciência e a humildade que os leva a assumir, cada qual, o seu papel. Na medida em que os indivíduos entendem o sistema embrionário do movimento, percebem que as dimensões estruturalistas dão base para o funcionalismo comunicacional com a sociedade. Este pensamento é o que define os meios de comunicação como uma ferramenta operante da ideologia que, segundo HABERMAS (1989), é responsável por estabelecer um padrão de moralidade, valores e organização das massas. As reuniões de pautas, a preocupação com a identidade visual, bem como os elementos de transmidialidade presentes nas postagens mostram a necessidade de usar o blog como uma ferramenta que transmite valores culturais e, principalmente, uma ideologia institucionalizada do movimento. Além disso, o direcionamento das pautas de cunho social, cultural e ideológico revela a capacidade do grupo em lidar com questões de identidade e coletividade. Neste sentido, é possível identificar a relação das atribuições editoriais com os princípios ideológicos socialistas, os quais o movimento tenta difundir a partir das categorias “informação” e “mobilização”. E mesmo que o quesito “formação” tenha aparecido de forma insipiente nas estratégias de comunicação, a contextualização, a personalização de mitos, e a adaptação da linguagem, contribuíram para uma possível formação política daqueles que acompanham o blog. Pois, quando um veículo de comunicação gera referências para a mudança de atitudes e mentalidades nos indivíduos, ele está, acima de tudo, formando seres capazes de agir em prol daquilo que acreditam. Isto pode significar que o trabalho realizado no blog confere um espaço de legitimidade midiática ao LPJ, onde a construção do discurso se destina, sobretudo, à prática mobilizadora e à coresponsabilidade35 social dos jovens. 34

O Two Step Flow, ou “Fluxo de duas etapas” é um sistema comunicacional pensado por Lazarsfeld e Katz (1948) no qual as pessoas tomam decisões a partir da influência pessoal do “líder” de um grupo ao qual pertençam. Neste sistema, os autores consideram que ninguém é influenciado inconscientemente. 35 Em FRANCO (1995) o conceito de co-responsabilidade está associado à participação que os indivíduos assumem em compartilharem problemas e a responsabilidade pela sua solução. Para o autor, ser a co-

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5. RESULTADOS E DISCUSSÕES

Os jornalistas têm os seus óculos particulares através dos quais , veem certas coisas e não outras, e veem de uma certa maneia as coisas que veem .Operam uma seleção e uma construção daquilo que é selecionado. (BORDIEU, 1997, P.12)

5.1 A relação das estratégias comunicativas com o papel do Setor

Apesar do LPJ ter surgido em meio à era da convergência, e possuir ferramentas para o exercício da mesma, as estratégias de comunicação utilizadas por eles revelam uma relação insipiente comum aos meios de comunicação de massa que utilizam a narrativa transmídia, mas que não necessariamente praticam a convergência. No que tange à comunicação interna, é possível perceber o quanto as relações de poder direcionaram as ações comunicativas, principalmente no período que antecedeu as mobilizações do “Levante pela Verdade”. Com as primeiras articulações em favor da Comissão da Verdade nota-se que alguns integrantes específicos participaram do planejamento das ações. Neste momento, não houve um planejamento estratégico direcionado aos setores de incumbência, mas um acordo restritivamente interno, que revela possíveis relações hierárquicas no movimento. Quanto às estratégias de comunicação externa, percebe-se que as TICs foram um fator fundamental para que o LPJ ganhasse destaque com o público juvenil (até porque esta era a única forma de lidar com a dimensão nacional que o movimento ganhou). Junto a isso, percebe-se que, para o movimento a criação do blog nacional trouxe uma importância simbólica da representatividade midiática para com o público externo. Pode-se dizer que para eles a legitimidade do “site” sobreporia a significância de um blog, na medida em que pudesse passar compromisso e organização com as causas da sociedade. Diferente da proposta dos blogs, que geralmente possuem caráter mais informal e pessoal, a proposta do “site” é de representar uma instituição, isto é, falar em nome de todos. Mesmo que as condições técnicas tenham sido um embargo para que, na responsabilidade acontece quando um sujeito entende que a sua participação é uma parte essencial no todo. É um sentimento gerado pelo espírito de solidariedade.

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teoria, a realização de um “site” se concretizasse, os objetivos traçados pelo setor foram alcançados. É de considerar, ainda, que o trabalho realizado pelos administradores do blog se aproxima das características dos profissionais da comunicação, ponderando a organização, a utilização das ferramentas e o compromisso com a ética e os valores sociais. Pode-se dizer que, neste sentido, eles realizam jornalismo sob a perspectiva da comunicação popular e alternativa. Indo mais além, é possível (por que não?) dizer que a equipe do blog nacional do movimento realizou um trabalho específico de jornalismo, já que o conceito mais amplo de Comunicação também pode ser associado aos setores da “Agitação e Propaganda” (publicidade) e as “Secretarias Operativas” (relaçõespúblicas). E mesmo que o blog não configure um veículo de comunicação, cujas habilidades comunicacionais se aproximem de um modelo profissional, as possibilidades de aprimoramento técnico ainda podem direcioná-lo para isso. No que consiste às lutas pautadas pela conjuntura atual da sociedade civil, entende-se que suas articulações, aliadas ao agendamento político, consistem em estratégias para a mobilização social, bem como define TORO (1997). Neste sentido, mostra-se como estas estratégias contribuíram para representatividade social do LPJ e, de certo modo, para o fomento da comunicação popular e alternativa no Brasil.

TABELA 4 Resultados e Discussões sobre as estratégias de comunicação do LPJ Comunicação de massa

Funções

Contribuiu para

- Criação do blog nacional

- Atender as demandas de âmbito nacional; promover um espaço de apresentação do movimento; ser a mídia oficial, que concentre todas as vias de produção midiática referentes ao Levante.

- Legitimizar o processo de nacionalização e possibilitar um espaço de esclarecimentos à sociedade sobre o que o é LPJ; quais seus objetivos; porque e para que se mobilizam.

- Campanha #Levante pela verdade

- Mobilizar jovens de todo o país, de forma criativa e representativa.

Amenizar a imagem marginal e vandalizada deixada pelas manifestações dos Escrachos/Esculachos. Com esta forma criativa de protesto, o LPJ também mostrou um potencial cultural ao seu favor.

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Comunicação do grupo

- Articulação dos Escrachos/Esculachos

- Criação de um Setor Nacional para a Comunicação

Funções

Contribuiu para

- Planejar como, onde e quando as manifestações poderiam acontecer. Ter cuidado com as possíveis intervenções da mídia, vazamento de informações, anonimato dos manifestantes e confrontos com a polícia.

- A organização e o ineditismo dos atos no Brasil. De modo geral, foi o que expôs o movimento aos grandes veículos de comunicação. Promoveu a representatividade política associada à Comissão da Verdade.

- Gerenciar a logística de produção e criação de conteúdo para o blog, respeitando os espaços regionais. - Pensar em formas de relacionamento com as mídias regionais em todos os estados.

- A organização das tarefas relativas, especificamente, às mídias. Com o tempo, houve o amadurecimento sobre as possibilidades estratégicas para a mobilização social, aliadas ao uso das TICs.

Fonte: RABELO, 2002, p. 169 (adaptado pela autora). FIGURA 23: modelo de tabela 4 - Resultados e Discussões.

Por fim, para diagnósticos gerais deste estudo, é possível inferir que as estratégias de comunicação do LPJ seguiram preâmbulos políticos mais visíveis às estratégias midiáticas para a Comunicação de Massa, do que propriamente para Comunicação Popular. No entanto, considera-se pertinente apontar que os fatores organizacionais do movimento sustentam as relações ideológicas que “eles” pretendem alçar com a juventude. Os espaços de formação, por exemplo, são ações fundamentais para que a transmissão de uma ideologia libertadora, dialógica e educativa (FREIRE apud LIMA, 1984) seja possível através da comunicação interna. Já as estratégias direcionadas à comunicação externa, portanto, revela-se a equidade com os pressupostos estratégicos da comunicação para a mobilização (HENRIQUES, 2004), uma vez que consideram: a flexibilidade e dinamismo aos produtos de comunicação; a reafirmação da identidade jovem na produção de textos e materiais audiovisuais; a convergência, integração e unidade dos instrumentos e linguagens; a visibilidade aos resultados concretos; recursos para a comunicação dirigida em suas regionalidades e, talvez o mais importante no que consiste ao blog; a construção de uma memória das causas pelas quais o “Levante” se engaja. 80


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em lugar de chegar a um conjunto de regras, ou alguns quadros sinópticos, ou a uma conclusão sobre o valor, o significado do mito fica irredutível na sua monumental extensão, como é próprio da história. Seu valor está na concretude do relato e no seu alto grau de relação com o contexto . Claude Lévi-Strauss

Até aqui, todo o esforço para entender a essência comunicativa do Levante Popular da Juventude significou mais do que um compromisso com os resultados que poderiam ser apresentados no trabalho. Compreender as estratégias que levaram esses indivíduos a se mobilizarem, da forma como o fizeram, demostra o quanto a observação pode ensinar maneiras menos pragmáticas de adquirir conhecimento. Talvez isso não seja ciência. Talvez seja só uma experiência. De todo modo, contribui para que o olhar viciado aos teores acadêmicos pudesse dinamizar a essência da pesquisa, associando-o à curiosidade. O quesito da curiosidade, neste sentido, impulsiona o detalhamento, o cuidado ao explicar as coisas, o compromisso com a ética, com a moral e com o que, de fato, o estudo objetiva. Entre outras considerações, pondera-se que o leitor não tenha conhecimento do universo apresentado pelo objeto analisado, mas que ainda assim, seja possível compreendê-lo a partir das descrições. Aliás, neste ponto, é imprescindível colocar o quanto a experiência vivida, acompanhada e registrada foi importante para as análises gerais deste trabalho. Não seria possível, pois, entender as categorias ideológicas do discurso, bem como seus modos de operação, caso não houvesse a argumentação precisa do que esses elementos significaram naquele contexto. Mesmo que, de certo modo, a análise tenha se prendido à narração crítica do percurso temporal que deu origem à experiência, talvez essa condição não seria possível caso não houvesse um distanciamento imediato do objeto. Isto é, após vivenciados os 120 dias de contato com os indivíduos, foi necessário um desprendimento das relações que sustentaram, até então, a pesquisa participante. A partir disso, foi preciso ver o LPJ com outro olhar: o olhar de quem está de fora, de quem não conhece a organicidade e a conjuntura de formação do movimento.

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Neste período, muitas constatações foram surgindo de modo que a construção deste trabalho pudesse ser coerente com suas propostas científicas e, do mesmo modo, com as relações criadas com os indivíduos ao longo do tempo. A constatação das estratégias de comunicação, por exemplo, só surgiu a partir de uma conversa com um dos líderes do movimento, meses após o término da vivência. Após este período, a proximidade com o LPJ já não inferia diretamente na interpretação do que os gestos, a interlocuções e as articulações políticas poderiam significar. Pode-se dizer que o momento pós-experiência etnográfica e o consequente afastamento do grupo impulsionou a fase de amadurecimento para o que tudo aquilo poderia sugerir. Dali por diante, os livros sobre política, movimento sociais, ideologia, comunicação popular e indústria cultural foram os melhores aportes que deram condições para que esta pesquisa surgisse. Portanto, pode-se dizer que o momento da vivência possibilitou uma interpretação do movimento, que viria a ser reinterpretada após a associação do discurso ideológico com o conhecimento adquirido posteriormente. Isto é, ainda que se tenha vivenciado o contexto do coletivo, e se trabalhado com suas células territoriais, foi preciso transcender as interações sistêmicas que o compõem para a concepção do que “o todo” revelaria: um grupo cujas relações instáveis e subjetivas proporcionam uma rede permeável aos anseios da juventude, e que, logo, se reflete nas formas de expressão, de comunicação e de movimento dos seus sujeitos.

O ser humano é tão intenso e ao mesmo tempo tão subjetivo, tão idealizador, que até nos âmbitos mais intrínsecos dos planejamentos de ações, ainda assim, é tão somente abstrato. É impossível alcançar as peculiaridades da realidade que julgamos ideal. Porém, devo tomar cuidado para não ser injusta, pois é inegável que o Levante seja, em conjuntura política e organização, menos contraditório do que muitos outros movimentos do âmbito político-social.

Notas da autora, em 05 de maio de 2012. Assentamento Filhos de Sepé, Viamão, RS.

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Monografia - Comunicação e Juventude em movimento  

Uma análise das estratégias comunicativas do Levante Popular da Juventude. Monografia apresentada como critério parcial para obtenção do tít...

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