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Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquira Filho” - UNESP Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação Departamento de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo

A DOIS PASSOS DO PARAÍSO

Cemitério Parque em Bauru

Aluna: Aline Silva Santos Orientadora: Marta Enokibara Curso de Arquitetura e Urbanismo Trabalho Final de Graduação Bauru, 2007.


À memória de minha avó Isabel


E a todos que de alguma forma colaboraram para que esse trabalho saísse!!

AGRADECIMENTOS

À Deus, por ter me dado ânimo para chegar até aqui. Ufa!!! Ao Tiago pelo carinho e por ser meu companheirinho de aventuras. À minha família, pelo de sempre. Á profa. Marta pela dedicação, orientação, paciência e por estar sempre disposta a nos atender, mesmo que seja no fim de semana na casa dela. À profa. Norma pelo auxílio e por ter acompanhado com atenção todo este trabalho. Ah, adorei o guia de La Recoleta! Ao prof. Amir Abdala por ter me enviado de bom grado sua dissertação para a pesquisa. À Luciana, amiga e grande psicóloga que me emprestou o material sobre psicologia da morte. A todos os funcionários de instituições que visitei ou entrei em contato e que me auxiliaram. Ao pessoal da Assenag de Ponta Grossa por ter me recebido tão bem para o curso de engenharia de cemitérios. Ao Madá, pelo belíssimo atendimento de paisagismo que me ajudou muitão. À bixete Giovana, que foi um doce de pessoa e tirou fotos do cemitério de Piracicaba para o meu trabalho. À Sassá que me forneceu fotos de cemitérios da Argentina. Ao Gary Robertson por me autorizar utilizar sua bela foto na capa. Ao meu computador, por resistir bravamente até agora.


Apanhado bibliográfico

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1. Os ritos da morte: da idade média à atualidade

8

2. Os cemitérios através da história 3. Cemitérios no Brasil: da igreja aos dias de hoje 4. A questão ambiental

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Cemitérios pelo mundo Cemitério de Père Lachaise Cemitério de La Recoleta Cemitério Parque de Igualada Cemitério de Saint Pancrace Cemitério de Finisterra Memorial Necrópole Ecumênica Cemitério Parque Morumbi Cemitérios Parque: estudos de caso Cemitério da Ressurreição Cemitério Paraíso da Colina Cemitério da Divina Misericórdia

22 23 24 25 26 27 28 39

14 18

30 31 32 33

Projeto

1. A cidade do projeto: Bauru 35 1.1. Aspectos gerais da cidade 35 1.2. Cemitérios em Bauru 36 Cemitério da Saudade 37 Cemitério São Benedito 39 Cemitério Cristo Rei 40 Cemitério do Redentor 41 Cemitério Jardim do Ypê 42 Cemitério Memorial Bauru 43 1.3. Deficiências encontradas 44 2. Condicionantes para a instalação de um cemitério 46 3. Área do Projeto 48 4. O Projeto 51 Por que cemitério parque? 51 O Conceito 51 Descrição do projeto 52 Edifício Principal 58 Capela 61 Áreas de Sepultamento 64 Espelhos d´água e platôs 69 Edifício de serviços 69 Bibliografia 73

Anexo

Dicionário de termos

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ÍNDICE

Introdução


INTRODUÇÃO É intermitente a necessidade das cidades por cemitérios, sendo, portanto, um espaço que deve ser pensado e estudado. É necessário analisar seus impactos nos aspectos urbanos e ambientais, uma vez que em muitos casos estes se encontram mal instalados contaminando lençóis freáticos. O conceito de Cemitério Parque vem a ser um agente amenizador dos tradicionais cemitérios, que se configuram como uma verdadeira cidade onde as moradas dos mortos competem entre si pela grandeza e ostentação. Além do fator de que grandes espaços verdes tratados sempre são bem vindos no urbano. Assim, optei por este ser o tema de meu Trabalho Final de Graduação, propondo um Cemitério Parque na cidade de Bauru, minha terra natal. Porém, não se pode projetar a partir apenas de exemplos e conceitos contemporâneos, nem seguir apenas regras e normas. Acho que para um projeto ser completo, é necessário acompanhar o desenvolvimento histórico e importância que um espaço com determinada finalidade tem impregnado na sociedade. Só assim podemos entender os porquês que eles suscitam, como uso repetitivo de símbolos e forma dos usos. Desta forma, iniciei o trabalho por um apanhado histórico. Por ser um assunto tão amplo e complexo, foi feito um recorte nos costumes do ocidente com pinceladas sobre temas relacionados aos mortos e ritos fúnebres. Durante a pesquisa senti de tal forma interesse pelo assunto que decidi fazer um curso sobre engenharia de cemitérios, que foi ministrado pela Ms. Elma Romano em Ponta Grossa. Lá pude aprender muito do que não sabia quanto à questão ambiental e conhecer profissionais na área que estou abordando, se configurando em uma grande experiência não só acadêmica como profissional. Também foram realizadas visitas de campo e

em cemitérios da cidade e região. A parte do desenho do projeto se mostrou como uma conseqüência do material estudado, sendo na verdade uma forma de mostrar como os conceitos apreendidos poderiam ser aplicados. Não foi proposto um modelo a ser repetido, nem um conjunto de elementos que formariam uma equação exata de um projeto perfeito, mas sim a apresentação de uma possibilidade que, é claro, buscou harmonizar conceitos da melhor maneira possível. Por essa e por outras, considero meu trabalho não apenas projetual, nem apenas teórico, mas um elemento híbrido, onde procurei trabalhar juntamente com o material levantado tudo o que aprendi durante os cinco anos de faculdade, desde a teoria pura até a prática do projeto. Sem mais, deixo ao leitor deste trabalho a ótima colocação de Brás Cubas: “A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pagote com um piparote, e adeus.”


Esquecer-se dos mortos ĂŠ esquecer-se de si mesmo. Alphonse de Lamartine


APANHADO

BIBLIOGRテ:ICO


1. Os ritos da morte: da idade média à atualidade Segundo o historiador social francês Phillip Àries,1 “as transformações do homem diante da morte são extremamente lentas por sua própria natureza ou se situam entre longos períodos de imobilidade”. Iniciando-se uma visão pelos costumes da Idade Média no ocidente, pode-se dizer que em seus primórdios, os indivíduos possuíam maior dominância no momento de sua morte. Isso porque, ao sentir a morte próxima, as pessoas se preparavam e esperavam pelo momento derradeiro sem nenhuma objeção ou resistência2. O sentido de individualidade no momento era nulo, pois se acreditava que todos os homens cristãos e em paz com a Santa Igreja3 teriam a mesma sorte e destinação. Os ritos finais consistiam em uma cerimônia pública, da qual faziam parte desde os idosos até as crianças. Após se situar no leito o moribundo cumpria seus últimos atos4: o lamento da vida, o perdão dos companheiros que o rodeiam, o pensamento em Deus, e se possível, a absolvição sacramental, onde o padre lia os salmos, incensava o corpo e o aspergia com água benta. A morte era tratada de maneira muito simples e não havia dramaticidade. Com o passar do tempo, a partir dos séculos XI e XII, tendo desenvolvimento nos séculos XIV e XV, a Igreja começa a pregação do conceito do juízo final, onde cada indivíduo seria julgado conforme seus atos durante sua vivência na terra. Tal idéia acaba influenciando diretamente no pensamento de vida e morte vigentes. O moribundo em seu leito de morte começa agora a refletir sobre tudo que havia feito até então. O momento final acaba sendo íntimo e reflexivo5, ganhando uma carga de emoção antes inexistente. Então, o leito de morte se torna um lugar onde “o homem melhor tomou consciência de si mesmo”.6 Chegando no século XVIII a morte, como o ato sexual, é considerada uma transgressão que arrebata o homem de sua vida cotidiana e sua sociedade

racional. Passa a ser uma ruptura. E esse sentido de ruptura se mantém, culminando no século XIX a uma mudança de atitude diante da morte: passa de ato banal e costumeiro –mas com toda a sua solenidadea um acontecimento dramático, agitado, emocional e único. O sentimento de preocupação e fascinação pela própria morte são transferidos para a morte da outra pessoa, na maioria das vezes, o ente querido,7 cuja saudade e a lembrança inspirará nos séculos XIX e XX o culto dos túmulos e dos cemitérios, onde visita-se um túmulo como se visita a casa de um parente. Vê-se, no entanto, na civilização contemporânea, um interdito em relação ao assunto da morte, diferentemente do que acontece ao longo da história. O tema é considerado um tabu, e apesar do sofrimento pela separação persistir, não pode ser revelado. Não se pode incomodar a felicidade alheia com o seu sofrimento. O avanço da medicina faz com que se prolongue a longevidade e a morte seja vista como uma derrota. Procura-se esconder ao moribundo se a sua morte se aproxima, e as pessoas não morrem mais em casa, mas sim em hospitais impessoais. O luto tornouse um estado mórbido que deve ser tratado, abreviado e apagado. É como explica José Luiz de Souza Maranhão: “Eis aí a que a sociedade ocidental contemporânea reduziu a morte e tudo a que ela está associado: um nada. (...) A sociedade mercantil vai além ao transformar a morte num resíduo irreconhecível. Ela já não é mais um destino. O que existe é a sua relação negativa com o sistema de produção, de troca e consumo de mercadorias. É o estado de não-produção,

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de não consumação. Ao negar a experiência da morte e do morrer, a sociedade realiza a coisificação do homem.”8

As casas funerárias

comunicacion visual para el reposicionamento del Cementerio General. Trabalho de conclusão de curso, carreira de Desenho Gráfico. Chile, Universidade de Chile, 2004. 8 Maranhão, J. L. S. O que é morte. São Paulo: Brasiliense, 1985.

A idéia das casas funerárias surgem nos Estados Unidos, em decorrência dos novos interditos contemporâneos quanto à morte. Anteriormente, as exéquias eram realizadas no ambiente caseiro. Porém, com a morte saindo do âmbito familiar e passando para o hospital, imaginou-se um local neutro para prestação de homenagens, que não fosse excessivamente anônimo como o hospital nem familiar demais como a casa. Deste modo surgem as “funeral home”, casas funerárias. Assim, estes lugares configuram-se como locais especializados em receber os mortos, diante da dissolução de antigos costumes. NOTAS ARIÈS, Phillippe. História da Morte no ocidente. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977. p. 13. 2 Pode-se observar como exemplo a narrativa do momento da morte de Lancelot, famoso cavaleiro das histórias da Távola redonda: o mesmo quando ferido e pressentindo que a vida logo lhe fugiria, “despojou-se de suas armas e deitou ao chão, esperando por sua morte”. ARIÈS, Phillippe. Idem. p. 19. 3 É interessante lembrar que à época da idade média havia a hegemonia da religião católica. 4 ARIÈS, Phillippe. Idem. p. 20. 5 Assim surge nos séculos XIV e XV o conceito de que o homem revê sua vida inteira de uma só vez antes de morrer. ARIÈS, Phillippe. Idem. p. 32. 6 ARIÈS, Phillippe. Idem. p. 35. 7 FIERRO, Claudia Andrea Poblete. Estrategia de 1

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2. Os cemitérios através da história do mundo ocidental A palavra cemitério origina-se do latim coemeterium, que significa local de descanso. O termo foi primordialmente utilizado pelos cristãos novos para designar os seus locais de enterro, as catacumbas1. Na Antigüidade, apesar de haver familiaridade com a morte, as pessoas a temiam. O mundo dos vivos deveria ser separado do dos mortos pois se chegava a temer que os mesmos voltassem para perturbálos. Assim sendo, os cemitérios localizavam-se fora das cidades. Um exemplo é a Lei das Doze Tábuas, legislação que está na origem do direito romano, onde se especificava ser expressamente proibido o enterro in urbe. É interessante ressaltar que cada indivíduo tinha seu local de sepultura marcado por uma inscrição, que significava o desejo de conservar a identidade do túmulo e memória do desaparecido. Tais inscrições em túmulos vão desaparecendo a partir do século V, voltando a surgir por volta do século XIII onde jaziam personagens ilustres. 2 O início do contato dos locais dos mortos com a cidade surge quando, com o crescimento da mesma, começa-se a não haver mais sua distinção com as zonas periféricas. Paralelamente, nesta época nasce o conceito do enterro nas igrejas, ad sanctos. Este costume surge a partir dos enterros feitos próximos aos locais onde jaziam os mártires na busca da purificação da alma. Quando os mártires passaram a ser considerados santos, os locais de almejo se tornaram as igrejas, pois agora este era o local de abrigo de seus corpos e relíquias. Com o passar do tempo, os clérigos passaram a dar o sentido de que o enterro ad sanctos tinha a função de fazer que o fiel pensasse na morte e intercedesse pelos mortos. Na língua medieval, a palavra igreja designava não só o edifício como todo o seu espaço de entorno, e o cemitério indicava mais particularmente a parte externa, o atrium.3

Os locais mais procurados para os enterros eram próximos às santas relíquias e altares, sendo que estes eram conseguidos conforme a importância e doações feitas pelo indivíduo. Assim, aos mais humildes eram reservados os locais o mais longe possível da construção dos templos, nos limites dos terrenos em grandes fossas comuns. Para se ganhar mais espaço, os ossos já secos eram desenterrados periodicamente, e se dispunham empilhados nas galerias dos ossuários, sótãos, junção de abóbadas, sendo algumas vezes organizados de forma artística, onde pequenos ossos integravam lustres e enfeites.4 Inicialmente os átrios configuravam também locais públicos onde ocorriam comércios, dança, jogos e encontros. Apesar de tudo, a religião não permitia que se esquecesse completamente de que o cemitério também era um local santo, fonte de vida sobrenatural tanto para os vivos como para os mortos. Houve tentativas de inibir atividades os jogos e danças em tais locais no início do século XIII, mas é somente a partir dos fins do século XVII que se inicia o sentimento de constrangimento nesta coexistência entre vivos e mortos.5 Áries ilustra bem esse sentimento em seu livro através da citação: “Em meio a esta balbúrdia (escribas públicos, lavandeiras, livreiros, vendedoras de roupa de segunda mão), dever-se-ia fazer um sepultamento, abrir um túmulo e retirar os cadáveres ainda não consumidos; assim, mesmo com o tempo mais frio, o chão do cemitério exalava odores fétidos”.6 A partir do século XVIII a situação do enterro nas igrejas começa a se tornar intolerável, em decorrência de uma série de fatores e tendo como principal modelo a França. O surgimento da medicina Urbana na França que ocorre juntamente com a urbanização das grandes cidades, o pensamento racional advindo do iluminismo e a laicização das relações sociais colaboraram para que se iniciasse o processo de constituição dos

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cemitérios extra muros. A medicina Urbana tinha como grandes objetivos a circulação de itens como a água e o ar, organização e distribuição de locais e elementos necessários para a vida na cidade e análise de tudo que poderia provocar perigos e doenças no espaço urbano.7 A mesma se baseava na teoria miasmática, onde a natureza e o homem eram produtores de emanações que poderiam corromper o ar e causar doenças. Os médicos acreditavam que tudo o que estivesse parado poderia ser um foco emissor de miasmas e a ventilação se configurou, portanto, o principal eixo da estratégia higienista, pois se acreditava que a mesma restaurava o ar. Como conseqüência, foram executadas reformas urbanas como aberturas de vias largas, arborização, nova localização para determinados estabelecimentos, em prol de uma cidade mais saudável. O cemitérios por acumularem grande quantidade de corpos, foram considerados grandes focos de miasmas, sendo transferidos para áreas periféricas das cidades longe das aglomerações urbanas. Um exemplo é o decreto de 1765 do Parlamento de Paris que estabelece a remoção das sepulturas dos cemitérios para fora da cidade, que no final da década de 1780 vai culminar no caso do Cemitério dos Inocentes, que localizado na região central da cidade8, não apresentava cuidados para com os cadáveres, sendo os mesmos amontoados uns sobre os outros. O local é destruído e os corpos foram transferidos para uma pedreira nos arredores da cidade, chamadas de catacumbas9.

Fig. 01. Cemitério dos Inocentes, Paris. Fonte: http://grande-boucherie.chez-alice.fr/Innocents.htm

Fig. 02. Cemitério dos Inocentes, Paris. Fonte: http://grande-boucherie.chez-alice.fr/Innocents.htm CEMITÉRIO PARQUE EM BAURU :: ALINE SILVA SANTOS :: TFG :: ARQUITETURA :: UNESP BAURU

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Assim, no início do século XIX são propostas novas regiões fora da cidade, respondendo às preocupações profiláticas da época, onde são instituídos os cemitérios de: Montmartre, Passy, Mont Parnasse e Père La Chaise. Destes, o mais famoso é o cemitério de Père La Chaise, que acaba servindo de modelo para os outros que seriam construídos posteriormente na Europa e nos Estados Unidos. O cemitério de Père La Chaise se configura até hoje como o maior cemitério de Paris, e um dos mais importantes do mundo. Seu nome é uma homenagem ao jesuíta François de la Chaise, confessor do rei Luís XIV. O projeto, de autoria do arquiteto Alexandre Théodore Brongniart, era altamente arborizado e possuía influências do jardim inglês. Assim, os cemitérios progressivamente saem do âmbito das igrejas, se constituindo em locais reservados especialmente para os mesmos. Com o passar dos tempos, a medicina evolui, a teoria dos miasmas caem e as cidades crescem chegando novamente próximo aos locais reservados aos enterros. Então, os cemitérios acabam por se manter por entre os bairros das cidades. Devido à demanda de espaço, foram criados mais recentemente cemitérios verticais que constituem edifícios que abrigam os jazigos.

a ilustres personalidades. Encontram-se grandemente influenciados pelos dogmas do Romantismo, onde se acredita que o cenário natural tem um impacto positivo na mente do homem10. Devido às paisagens aprazíveis, estes locais se tornaram grandes centros de visitação da população urbana servindo como retiros de descanso e passeio. Acabaram assim por constituirse o cerne dos parques abertos para visitação pública. Por isso, em muitas cidades, os cemitérios vieram antes dos primeiros parques. O primeiro cemitério considerado rural constituise no de Mount Auburn em Boston. Construído devido ao empenho e ideais de Jacob Bigelow, possuía uma área adjacente onde se desenvolveu um jardim 12

Os cemitérios parque Nos Estados Unidos as novas idéias de campos separados para cemitérios vão se tornar presentes apenas a partir do início do século XIX. E é dentro de suas primeiras experiências de cemitérios fora da cidade que surge um novo conceito, o do cemitério rural. Os cemitérios rurais são espaços de enterro com a paisagem trabalhada de forma a manter a natureza, além de apresentar monumentos relativos

Fig. 03 Plano do cemitério Mount Auburn. Fonte: Schuyler, 1986.

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Além do cemitério como completo parque também há outras abordagens contemporâneas para o espaço cemiterial, como é o caso do cemitério de Igualada na Espanha, de Enric Miralles e Carme Pinos e a ampliação do cemitério Saint Pancrace na França, de Marc Barani. Com projeto bem trabalhado o cemitério é um espaço que se tornar belo e agradável à visitação. Um tributo à memória das pessoas queridas que já se foram.

NOTAS TURNER, Jane (Ed.). The dictionary of art. Oxford: Editora Grove, 1996. v. 6. p. 165. As catacumbas eram locais subterrâneos, que os cristãos escavavam quando na época de perseguição durante o império romano. Os mesmos se reuniam em tais locais para se esconder e realizar seus cultos, utilizando também como local para enterrar seus mortos. 2 ARIÈS, Phillippe. História da Morte no ocidente. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977. p. 36. 3 ARIÈS, Phillippe. Op cit. p. 23. No francês era utilizado também um sinônimo para atrium, o charnier, que significava carneiro. (no sentido de origem da palavra carne). 4 ARIÈS, Phillippe. Idem. p. 24. 5 ARIÈS, Phillippe. Idem. p. 25. 6 V. Dufour in ARIÈS, Phillippe. Idem. p. 25. 7 Artigo: Carlos Alberto Cunha de Miranda. Da polícia Médica à cidade higiênica. Acessado em 21 de agosto de 2007. <http://www.proext.ufpe.br/cadernos/saude/policia.htm> 8 O Cemitério dos Inocentes era um dos mais antigos de Paris e não apresentava cuidados para com os cadáveres, sendo os mesmos amontoados uns sobre os outros. No século XVIII com a difusão das idéias higienistas, tal visão passava a ser repudiosa para a população. 9 Alusão às catacumbas cristãs. 10 SCHUYLER, DAVID. The New Urban Landscape. USA: The Johns Hopkins University Press, 1986. p. 37. 1

Fig. 04 Ilustração do cemitério Mount Auburn, por James Smillies. s/d. Fonte: http://www.nps.gov

botânico. Seu projeto mesclou influências de Père La Chaise com elementos do jardim inglês e seu sucesso o fez configurar-se como um modelo seguido por todos os Estados Unidos fazendo nascer o movimento dos cemitérios rurais que posteriormente culmina na tradição dos cemitérios parque. Atualmente os cemitérios parque exemplificamse por imensos campos gramados e arborizados, onde os túmulos são identificados por pequenas lápides padronizadas. Agradável ao estar, os cemitérios parques amenizam as características marcantes de poluição visual dos cemitérios tradicionais com túmulos com tamanhos competindo entre si e um emaranhado de ornamentos. No Brasil, o conceito de cemitério parque chega tardiamente, sendo o cemitério do Morumbi o primeiro a ser fundado na cidade de São Paulo em 1968. Entretanto, vem ganhando força e configura-se em modelo muito difundido atualmente.

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3. Cemitérios no Brasil: da Igreja aos dias de hoje Por sua colonização européia, os cemitérios no Brasil também se situaram primeiramente nas igrejas. Antes do enterro, entretanto, havia uma série de ritos, pois por ser vista como uma passagem obrigatória a todos, a morte era um momento a ser celebrado, marcado por muitas pompas.1 Assim que o moribundo falecia havia o dobre dos sinos nas igrejas2 e o mesmo era vestido com sua mortalha. Estas geralmente eram roupas semelhantes à de santos, pois: “Ao mesmo tempo que protegia, com a força do santo que invocava, ela servia de salvo-conduta na viagem rumo ao Paraíso (...) Vestir o cadáver com a roupa certa pode significar, se não um gesto suficiente, pelo menos necessário à salvação.”3 Também havia o costume de usar-se vestes usadas em irmandades e confrarias. Os cortejos eram realizados na forma de procissão, geralmente à noite com tochas e velas acesas, causando grande dramaticidade e impacto. Eram acompanhados por todos aqueles que se dispusessem a tal atitude, sendo que a importância do defunto era medida pela quantidade de velas acesas durante o funeral. Também se distribuíam esmolas e peças de roupas a pessoas pobres, conforme disposição em testamento. Durante o translado havia a passagem pelas igrejas da cidade, e eram rezadas missas. As mesmas eram elementos importantes dos ritos para uma boa morte, pois se acreditava que quanto mais prece fossem feitas pela Alma do morto, mais rapidamente

ela migraria do Purgatório ao Paraíso4. Assim, tais cortejos e sepultamentos eram grandes acontecimentos nas cidades, consistindo em verdadeiros encontros sociais onde as damas desfilavam seus melhores vestidos e jóias, sendo uma oportunidade de afirmação de poder e fortuna.5 Pode-se dizer os ritos apresentados perduram de tal forma até o século XIX, período de predominância de poder da Igreja junto ao Estado. A maioria das pessoas eram enterradas nos domínios da igreja, sendo que os com menor poder aquisitivo eram inumados em valas coletivas fora dos templos e os mais ricos e poderosos eram locados em túmulos perpétuos ad sanctos, ou seja, próximo aos santos, do altar e relíquias.6 Não havia a utilização de caixões funerários, sendo os defuntos enterrados diretamente no solo envolto em mortalhas7. Quando uma família não conseguia auxílio da Igreja, para sepultar seus mortos em solo sagrado, muitas vezes abandonava os corpos à porta de uma igreja esperando uma caridade do pároco para lhe dar um destino digno, ou então chegavam a enterrar clandestinamente dentro dos terrenos santos. Já quanto aos indigentes, enforcados, presos e escravos, não tinham lugar nas igrejas, sendo enterrados em locais específicos para os mesmos, como o Cemitério dos Aflitos em São Paulo.8 Mas os que mais sofriam com a hegemonia dos enterros dignos apenas em terrenos católicos eram os que não professavam tal fé, como os

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adeptos do protestantismo. Presentes em número significativo a partir do século XIX, sendo em grande parte imigrantes, os protestantes não possuíam local adequado para enterro, sendo destinados aos cemitérios dos indigentes, como o já citado Cemitério dos Aflitos. Diante deste fato, em 1810, há a construção do primeiro cemitério protestante, o Cemitério dos Ingleses, no Rio de Janeiro. Em São Paulo, apenas em 1851 foi construído o Cemitério dos Protestantes.9

A quebra de uma tradição: o fim do enterro nas igrejas O enterro intra muros começa a ver o seu fim a partir de meados do século XIX. Tal processo, no entanto, não pode ser visto de maneira isolada, pois faz parte de uma transformação maior que ocorre no meio urbano e político das cidades. As novas políticas urbanas e higienistas advindas de países europeus como a França somadas à laicização do Estado iniciaram uma discussão sobre a criação de campos para enterro longe do cerne das cidades. No período difundia-se a teoria dos miasmas – emanações responsáveis pelas doenças epidêmicas – tendo o ar como principal propagador das doenças. Esta teoria aceita por todos os médicos indicava que os enterros nas igrejas eram uma verdadeira ameaça, pois com os enterros em seus domínios, eram grandes focos de emanações pestilentas e conseqüentemente se configuravam em foco de doenças. Entretanto, as

mudanças ocorrem lentamente, e muitas vezes há a resistência da população. Um exemplo é a Cemiterada, episódio ocorrido na Bahia. Após decreto da província em 1836 proibindo o enterro nas igrejas, a população se revolta e destrói completamente o novo cemitério construído extramuros, sendo a maior revolta neste tema realizada em todo Brasil. Este ato contou com a participação de todas as classes sociais, pois para cada um havia uma importância na manutenção dos antigos costumes: para a elite, a manutenção de um jazigo perpétuo dentro da igreja significava a continuidade dos privilégios aristocráticos e a esperança de vê-los no além; para os escravos, o enterro em uma cova de uma irmandade significava a oportunidade de um melhor lugar no outro mundo depois de ocupar o último neste.10 No estado de São Paulo, também houve resistência popular, naturalmente por se tratar da quebra de uma tradição envolvida com a religiosidade, porém não houveram investidas como na Bahia. Aos poucos o conceito foi sendo aceito, e as pessoas se acostumaram com os novos costumes. Clarival Valladares reforçado por Renato Cymbalista, afirma que não só os motivos higienistas são responsáveis pela saída das inumações nas igrejas, sendo a vontade de afirmação burguesa de poder e prestígio um fator importante. 11 A burguesia começa a ver nos cemitérios extra muros uma chance de mostrar todo seu poder e opulência, já que nos intra muros eram proibidas indicações tumulares, e quando

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as mesmas eram permitidas, deveriam ser símbolos singelos.12 Muitas famílias abastadas contratavam escultores de renome, na maioria de origem italiana com formação na Europa para construírem e ornamentarem seus túmulos. Tais obras de arte se tornaram importantes referências, testemunhando fatos da história social das cidades.13 Assim, o Brasil vê nas últimas décadas do século XIX serem construídos os primeiros cemitérios municipais, que inauguram uma fase envolvendo representações funerárias em túmulos individualizados.14 É importante frisar, que apesar de estarem agora separados das igrejas, começam a abrigar elementos religiosos, pois religião e ritos fúnebres são elementos que até mesmo hoje se mantêm próximos. Deste modo, há a construções das pequenas capelas, imagens e cruzes, remetendo à fé. Longe de ser um espaço secularizado, o cemitério é um dos locais mais sagrados da cidade. Daí pode-se deduzir a denominação que tais locais têm de “campo santo”. Segundo Cymbalista, “(...) além dos significados higiênico, monumental e religioso, os cemitérios públicos darão uma resposta urbanística a demandas de ordem afetiva, e os mortos reconquistaram seu lugar dentro do organismo urbano. Morando em sua própria cidade, os

mortos não são mais um problema – ao contrário, são parte fundamental da solução urbanística de todas as cidades que já não podem mais ser imaginadas sem seus cemitérios.”15 Portanto os campos santos passam a ser elementos importantes na configuração das cidades, sendo que o poder público tende a reforçar sua monumentalidade seguindo o século XX: são criadas largas avenidas e alamedas arborizadas em direção aos seus portões que se configuravam agora monumentais. Quanto à disposição interna destes locais, apesar de ser destinado a todas as classes, eram espaços controlados, onde havia um verdadeiro “loteamento” mantendo sempre as distâncias sociais. Tanto no primeiro cemitério da capital como nas demais cidades de São Paulo, mantinha-se o esquema de direcionar terrenos com menor visibilidade e permissão de edificação restrita para indigentes e pobres, enquanto que os locais com maior visibilidade com permissão de construções monumentais se destinavam à concessões pagas, disputados pelas famílias poderosas.16 Podemos dizer que muitos dos primeiros cemitérios extra muros eram municipais, mas logo foram fundados particulares. As irmandades religiosas por exemplo, foram expressivas nestas construções. Muitos imigrantes e outras ordens religiosas também fundaram cemitérios, como é o caso do cemitério dos

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Alemães e cemitério dos Protestantes em São Paulo. Estes primeiros modelos extra muros, com jazigos horizontais e extremamente ornados principiam uma configuração que é mantida até hoje em muitos lugares. É interessante lembrar que apesar disso, a relação das pessoas para com o local mudou, pois na sociedade contemporânea desenvolveu-se fortemente o tabu do tema da morte. Ninguém mais comenta sobre ela, e evita-se ir a cemitérios. Assim, podemos ver que de um acontecimento social passa a ser uma cerimônia restrita que não deve ser amplamente expressada. Em décadas mais recentes novos modelos são trazidos e implantados, acrescentando novas formas de se enterrar os mortos e lhes prestar homenagem. Em 1968 é inaugurado o primeiro cemitério parque do Brasil na cidade de São Paulo, o cemitério do Morumbi17, por iniciativa da Comunidade Religiosa João XXIII. Este tipo é amplamente difundido e hoje se configura como um dos que são mais construídos, por se localizar em locais aprazíveis e confortáveis de se visitar. Outros padrões também são trazidos, como os cemitérios verticais, que tem como exemplo o “Memorial Necrópole Ecumênica”, que é inaugurado na década de 1980 e é considerado atualmente o mais alto do mundo. Mais polêmicos, os crematórios vieram para o Brasil também na década de 80, com o primeiro instalado em São Paulo. Porém este procedimento não é bem aceito até hoje devido às raízes dos costumes de enterro dos corpos.

NOTAS PAGOTO, Amanda Aparecida. Do âmbito sagrado da igreja ao cemitério público. São Paulo: Imprensa Oficial, 2004. p. 57. 2 A quantidade de badalos dos sinos indicava o poder social do defunto, chegando muitas vezes a um excesso que causava incômodo. 3 REIS, João José. A morte é uma festa. São Paulo: Cia. Das letras, 1991. In: PAGOTO, Amanda Aparecida. Op. cit. p. 41. 4 Acreditava-se que apenas a Alma dos santos e puros de coração iam diretamente ao Paraíso. A grande maioria estava destinada ao Purgatório, onde obteriam a redenção dos seus pecados por meio da influência divina dos santos de sua devoção e das orações realizadas pelos vivos. PAGOTO, Amanda Aparecida. Idem. p. 44. 5 PAGOTO, Amanda Aparecida. Idem. p. 60. 6 Os túmulos perpétuos dentro dos templos geralmente se destinavam aos grandes doadores de bens às igrejas. 7 Tal costume se deu apenas quando houve a implantação dos cemitérios extra muros, onde foram adotados os caixões funerários para transporte. 8 O Cemitério dos Aflitos foi construído em 1774 em São Paulo, próximo à Santa Casa de Misericórdia, baseado nos modelos dos “cemitérios dos bexiguentos”, que eram locais para enterro de falecidos de moléstias contagiosas e se localizavam longe do núcleo urbano. Sua finalidade era a inumação de indigentes, escravos, condenados e presos. Desde seu início era considerado um local desprestigiado (para enterro. In: PAGOTO, Amanda Aparecida. Op. cit. p.62). Em São Paulo, até a década de XVIII, a Santa Casa de Misericórdia era a responsável pelo translado dos corpos, sendo que em meados do século XIX a municipalidade passa a assumir tal responsabilidade, concedendo concessões a terceiros inicialmente e sendo autônoma no serviço posteriormente. (In: Prefeitura Municipal. Como surgiu o serviço funerário em São Paulo. Disponível em: < http:// www2.prefeitura.sp.gov.br> Acessado em 22 de agosto de 2007. 9 O Cemitério dos Protestantes foi construído contiguamente ao cemitério dos Alemães, pertencente à igreja católica 1

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e destinada ao enterro de estrangeiros de tal religião. In: MATOS, A. S. de. O cemitério dos protestantes de São Paulo: Repouso dos pioneiros presbiterianos. Disponível em: <http://www.mackenzie.com.br/teologia/Historia%20da%20 Igreja/6%20Presbiterianismo%20brasileiro/5%20Temas%20 diversos/c%20CemiterioP1.htm>. Acesso em: 13. agosto. 2007. 10 REIS, João José. A morte é uma festa. São Paulo: Cia. Das letras, 1991. p. 330. 11 CYMBALISTA, Renato. Cidade dos Vivos. São Paulo: Annablume, 2002. p. 77. 12 Esta característica é vista principalmente no estado de São Paulo, onde surge a nova aristocracia decorrente do cultivo do café. 13 Temos como exemplo o cemitério da Consolação (primeiro cemitério municipal da cidade) em São Paulo onde se encontram várias obras de artistas como Victor Brecheret, Luigi Brizzolara, Galileo Emendabili. In: Prefeitura Municipal de São Paulo. Arte Tumular. Disponível em: < http://www2. prefeitura.sp.gov.br/empresas_autarquias/servico_funerario/ arte_tumular/0001> Acessado em 22 de agosto de 2007. 14 O sentimento de individualização tumular cresce em detrimento dos antigos costumes de túmulos coletivos, principalmente devido ao surgimento das novas relações sociais familiares que se desenvolviam na época, onde os laços afetivos se tornavam mais estreitos. As famílias passaram a se escandalizar com a impossibilidade de reconhecimento e identificação do local de enterro do falecido como ocorria na época das inumações intra muros. CYMBALISTA, Renato. Op. cit. p. 80. 15 CYMBALISTA, Renato. Idem. p. 81. 16 Podemos ver a manutenção de tais costumes até os dias de hoje, onde nos cemitérios tanto públicos como particulares existem localizações de túmulos mais “valorizadas” e outras desvalorizadas, dependendo do local em que se insere. 17 Informação que consta no site do cemitério <http://www. cemiteriomorumby.com.br/> acessado em 22 de agosto de 2007, e confirmada pelo administrador do local, o sr. Keunnji. Mais informações sobre o local e seu histórico foram solicitadas, porém não foram respondidas.

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4. A questão ambiental dos cemitérios Os cemitérios são espaços passíveis de anômalos de compostos das cadeias do fósforo e grande impacto ambiental. Isto pelo fato de que a do nitrogênio, metais pesados e aminas. Assim, é degradação dos corpos pode consistir em grande foco salutar que haja um rigoroso estudo dos solos e da de contaminação.1 profundidade do aqüífero no local em que se pretende Após a cessão das atividades vitais e o a instalação de um cemitério evitando contaminação. enterramento do corpo, inicia-se o processo de Os tipos de solo influenciam nos fenômenos putrefação, onde há a decomposição da matéria da putrefação e transporte de efluentes decorrentes orgânica e que possui uma série de etapas.2 Destas, a da mesma. Solos muito argilosos, impermeáveis e fase coliquativa destaca-se por ser a que compreende saturados em água provocam a saponificação, que é maiores perigos para o meio ambiente, pois é nela um fenômeno conservador, onde a putrefação natural em que ocorre a liberação do necrochorume.3 O é retardada e o corpo adquire um aspecto rançoso. necrochorume é um efluente líquido-viscoso, de cor Já os muito arenosos promovem o dessecamento acinzentada e cheiro fétido, composta por 60% de excessivo do cadáver, a mumificação.8 No aspecto da água, 30% de sais minerais e 10% de substâncias permeabilidade, se for em excesso permite a passagem orgânicas4, dentre elas a putrescina e a cadaverina, direta de agentes contaminadores. Assim sendo, o que são altamente tóxicas e podem transmitir doenças ideal são terrenos com solo silto-argilo-arenosos9, com como hepatite e poliomielite, não possuindo antídotos teores entre 35% e 60% de argila, pois apresentam combatentes eficientes.5 Segundo Leziro Marques capacidade para correta retenção de água.10 Silva, foi observada também a presença de radiotividade em um raio de 200 metros das sepulturas de cadáveres que em vida foram submetidas a radioterapia ou tinham marcapassos cardiológicos6. Em meio natural o necrochorume decompõe-se e é neutralizado, pois se reduz a substâncias inofensivas com o passar de determinado tempo. Porém, dependendo das condições do solo onde o indivíduo é enterrado, o efluente pode atingir o aqüífero freático antes de sua transformação, e por ser facilmente absorvido pela água, a contamina podendo fazer adoecer a população abastecida pela mesma. Há também casos onde o necrochorume pode atingir águas superficiais como córregos. Segundo a engenheira agrônoma Elma Romanó7, a toxidade química do necrochorume diluído Fig. 05. Relação do sepultamento com o tipo de solo. Fonte: Pacheco, na água freática relaciona-se aos teores 2001. CEMITÉRIO PARQUE EM BAURU :: ALINE SILVA SANTOS :: TFG :: ARQUITETURA :: UNESP BAURU

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aqüífero subterrâneo. Mas a contaminação dos aqüíferos subterrâneos e superficiais não consistem nos únicos impactos gerados pelos cemitérios, sendo que estes podem ser classificados como impactos físicos primários. Existem os impactos físicos secundários, que ocorrem quando há a presença de maus odores na área interna dos cemitérios provenientes da decomposição dos cadáveres. Estes cheiros são provenientes de gases gerados pelos corpos e seu vazamento para a atmosfera de forma intensa se deve à má confecção e manutenção das sepulturas e dos jazigos.12 Apesar dos perigos apresentados, medidas investigativas nas áreas de Fig. 06. Tipos de Sepultamento. Fonte: Pacheco in ROMANÓ, 2007. implantação são muitas vezes deixadas de lado, pois geralmente aos cemitérios públicos O tipo de sepultamento também colabora para são reservadas áreas desvalorizadas na cidade, maior ou menor poluição. Podemos dizer que há dois sem qualquer cuidado ou estudo prévio. Um fato tipos de sepultamento: por inumação e por entumulação. que comprova esta afirmação é o dado de que há O primeiro consiste no enterro diretamente no solo, e o problemas de contaminação em 75% dos cemitérios segundo no enterro em construção tumular. públicos brasileiros e 25% dos particulares.13 Muitas vezes a inumação em solos No Brasil não há uma fiscalização rigorosa inadequados favorece a contaminação. Mas também a cemitérios. As leis específicas atuais são recentes, as entumulações se forem em locais mal feitos como a resolução N. 335, de 3 de abril de 2003 do também poluem. Se as construções subterrâneas dos CONAMA, Conselho Nacional do Meio Ambiente, túmulos forem mal executadas, podem extravazar o requerendo licença ambiental para o funcionamento necrochorume. Um exemplo muitas vezes observado dos cemitérios. No estado de São Paulo é exigido em cemitérios horizontais, são jazigos mal vedados, seguir-se também a norma técnica L. 1040/98 da que quando há chuvas permitem a entrada de água e CETESB, Companhia de Tecnologia de Saneamento “lavagem” dos túmulos, levando o necochurume para Ambiental. Existem leis municipais específicas em cada fora do mesmo.11 cidade que devem ser obedecidas, mas na maioria das É interessante frisar que juntamente com o vezes, consistem em um resumo das disposições do necrochorume existem outros elementos poluentes CONAMA e CETESB. O único estado em que se exige emitidos pelos túmulos. Vernizes e adornos que um estudo de impacto ambiental é o Paraná. compõe os caixões podem conter metais pesados Há também inovações no mercado que como o zinco, sendo potencial contaminante para o

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procuram minimizar os efeitos do necrochorume, podendo ser métodos que auxiliem na minimização de impactos ambientais causados por antigos cemitérios instalados incorretamente. Foram criados produtos como pastilhas contendo bactérias consumidoras dos materiais orgânicos presentes no líquido da putrefação, e absorventes que, colocados no caixão, seguram o material expelido formando um gel, se transformando em embalagens para o acondicionamento dos ossos quando na exumação. Entretanto estes são métodos novos e de alto custo para que sejam adotados de maneira expressiva. Assim sendo, são necessários muitos estudos técnicos e consciência ambiental para que os projetos de áreas cemiteriais façam seu papel corretamente e não danifiquem o meio ambiente.

NOTAS Pacheco in ROMANÓ, E. N. de L, MESSIAS, J.N. Curso de engenharia para cemitérios. p. 16. 2 A putrefação compreende quatro estágios: o cromático, que consiste na mudança de coloração, o gasoso onde há a liberação de gases, o coliquativo que se caracteriza pelo amolecimento e desintegração dos tecidos com a liberação do necrochorume e a esqueletização, que é a fase final onde há a secagem dos líquidos transformando-se em pó e aparecimento do esqueleto. VANREL, J.P. Mecanismo da morte. < http://www.pericias-forenses.com.br/mecamorte. htm> Acessado em 4 de agosto de 2007. 3 PACHECO, A. Cemitérios e meio ambiente. < h t t p : / / w w w. a m b i e n t e b r a s i l . c o m . b r / n o t i c i a s / i n d e x . php3?action=ler&id=23638> Acessado em 4 de agosto de 2007. 4 Segundo o tanatólogo espanhol La Cuesta (PROCURAR NOME), um corpo com 70kg libera em média, 45 litros de necrochorume. PACHECO, A. Cemitérios e meio ambiente. <http://www.ambientebrasil.com.br/noticias/index. php3?action=ler&id=23638> Acessado em 4 de agosto de 1

2007. 5 ROMANÓ, E. N. de L, MESSIAS, J.N. Curso de engenharia para cemitérios. p. 19. 6 Pelo fato dos materiais radiotivos serem móveis na presença de água, o professor acredita que o ideal seria que pessoas que sofreram este tipo de tratamento, após o falecimento sejam submetidas à cremação e tenham as cinzas dispostas como lixo atômico. LEZIRO in ROMANÓ, E. N. de L, MESSIAS, J.N. op. cit. p. 26. 7 ROMANÓ, E. N. de L, MESSIAS, J.N. op. cit. p. 19. 8 Para implantar um cemitério. Funerarianet. <http:// ww2.funerarianet.com.br/?area=topico&id=41&id_ topico=117&pagina=26> Acessado em 4 de agosto de 2007. 9 Para implantar um cemitério. Funerarianet. <http:// ww2.funerarianet.com.br/?area=topico&id=41&id_ topico=117&pagina=26> Acessado em 4 de agosto de 2007. 10 ROMANÓ, E. N. L. Caracterização do meio físico no cemitério municipal do Boqueirão e no cemitério municipal de Santa Cândida no município de Curitiba. Dissertação de mestrado. Curitiba, UFPR, 2003. 11 Dado coletado durante o “Curso para engenharia de cemitérios”, ministrado por Elma Nery de Lima Romano e promovido pela associação de Engenheiros e Arquitetos de Ponta Grossa, em Ponta Grossa, entre 31 de maio e 01 de junho de 2007. 12 PACHECO, A. Cemitérios e meio ambiente. < h t t p : / / w w w. a m b i e n t e b r a s i l . c o m . b r / n o t i c i a s / i n d e x . php3?action=ler&id=23638> Acessado em 4 de agosto de 2007. 13 Dado segundo o geólogo Lezíro Marques Silva, que pesquisa o assunto desde 1970, em <http://br.geocities.com/ cemite/>. Acesso em 4 de agosto de 2007.

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CEMITÉRIOS PELO MUNDO


Cemitério de Père Lachaise FRANÇA O cemitério de Pere LaChaise se encontra na cidade de Paris, na França. Construído no século XIX, no contexto da saída dos cemitérios das igrejas, possui o nome em homenagem ao Jesuíta Père François de la Chaise, que vivia em uma capela que existia anteriormente no local em que foi construído. Seu projeto foi feito pelo arquiteto francês Alexandre-Théodore Brongniart e era largamente arborizado. Seu projeto serviu de modelo para diversos outros. Se constitui como um dos cemitérios mais importantes do mundo, sendo um ponto de visitação de centenas de pessoas do mundo todo, pois lá se encontram túmulos de personalidades importantes do país como La Fontaine e Molière. Ao longo de sua história sofreu reformas e hoje abriga até mesmo um crematório. Quanto à sua capacidade, existem atualmente mais de 300 mil pessoas enterradas além das que se encontram em forma de cinzas nos columbatários.

Fig. 07. Entrada do cemitério PèreLachaise. Fonte: http:// www.citysnapper.org

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Fig. 08. Plano do cemitério de Père Lachaise. Fonte: http:// albertoforero.com/blog_images/pere_b.jpg

Fig. 09. Vista no interior do cemitério PèreLachsise. Fonte: http://www.citysnapper.org

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Cemitério de La Recoleta ARGENTINA Localizado em Buenos Aires, na Argentina, o cemitério da Recoleta foi inaugurado em 1822, sendo o primeiro cemitério da cidade. Assim, seu tipo é o tradicional cemitério horizontal. Se encontra instalado onde hoje é um grande área de lazer muito popular na cidade, possuindo jardins, feiras, galerias de arte, lojas e cafés. Devido suas construções tumulares, é reconhecido como o monumentos histórico-artístico mais relevante do país. Local de atração de inúmeros visitantes, possui até mesmo guias impressos explicativos, que possui mapa e indica os túmulos mais célebres como de Eva Perón. 24 Fig.11. Plano do cemitério de La Recoleta. Fonte: Plano e itinerário do Cemitério de La Recoleta.

Fig. 10. Entrada do cemitério de La Recoleta. Fonte: Plano e itinerário do Cemitério de La Recoleta. Fig. 12. Praça do entorno onde está inserido o cemitério de La Recoleta. Foto: Aline Silva Santos. CEMITÉRIO PARQUE EM BAURU :: ALINE SILVA SANTOS :: TFG :: ARQUITETURA :: UNESP BAURU


Cemitério Parque de Igualada ESPANHA O cemitério Parque de Igualada localiza-se na cidade de Barcelona, na Espanha, onde havia uma antiga pedreira. Para a sua construção foi instituído um concurso, do qual o projeto escolhido foi o de Enric Miralles e Carme Pinos. Inaugurado em 1991, possui jazigos horizontais e verticais, além de edifício para santuário e serviços. Os arquitetos trabalharam com tratamento espacial apurado, acolhendo a matéria prima do lugar. Foram criadas atmosféricas simbólicas e fortes, que pareciam transformar sentimentos em arquitetura.

Fig. 14. Projeto do cemitério de Igualada. Fonte: Revista Croquis n.30+49/50

Fig. 13. Cemitério de Igualada e entorno. Fonte: Revista Croquis n.30+49/50

Fig. 15. Área de sepultamento vertical no cemitério de Igualada. Fonte: Revista Croquis n.30+49/50

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Cemitério de Saint-Pancrace FRANÇA O cemitério de Saint Pancrace se encontra em Roquebrune Cap-Martin, na França. Em 1992 sofreu uma reforma pelas mãos do arquiteto Marc Barani. O projeto é contemporâneo e se integra com a natureza do local, que possui um terreno altamente acidentado. Os túmulos são acessados por uma série de patamares atingidos por meio de uma grande escadaria. A monocromia provocada pelo material utilizado, pedra branca e concreto, passa uma atmosfera de calma e reflexão, ideais para este tipo de local.

26 Fig.17. Acesso à extensão do cemitério de Saint-Pancrace. Pode-se notar o terreno acidentado. Fonte: Aymonino, 2006.

Fig. 16. Escadaria na extensão do cemitério de Saint-Pancrace. Fonte: Aymonino, 2006. CEMITÉRIO PARQUE EM BAURU :: ALINE SILVA SANTOS :: TFG :: ARQUITETURA :: UNESP BAURU


Cemitério de Finisterra ESPANHA De autoria do arquiteto César Portela, o cemitério de Finisterra se localiza em Finisterra, na Espanha, próximo ao conhecido caminho de Santiago de Compostela. Inserido em um cenário natural, em uma encosta defronte ao mar, consiste em um conjunto de grandes cubos de granitos esparsos na paisagem, formando um conjunto belo e inusitado. Não há muros, nem delimitações. Cada grande cubo possui diversos jazigos verticais, tendo também um em que se encontra uma capela, acima dos demais. Seu projeto, que data de 2001, já ganhou diversos prêmios pelo mundo. Entretanto, apesar de ser uma obra de grande teor artístico e metafórico, até 2005 não havia recebido nenhum corpo, devido entraves políticos e a própria não-aceitação da população, pois muitos acham o local não convencional.

Fig. 18. Cubos inseridos na paisagem de encosta. Foto: Kevin Hui

Fig. 19. Vista do local a partir dos cubos de sepultamento. Foto: Kevin Hui

Fig. 20. Estátua de peregrino no Caminho de Santiago e paisagem com cemitério ao fundo. Foto: Kevin Hui

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Memorial Necrópole Ecumênica BRASIL O Memorial Necrópole Ecumênica é um cemitério vertical localizado na cidade de Santos, litoral brasileiro. Constitui-se na necrópole mais alta mundo e suas construções começaram em 1983. É formado por um conjunto de edifícios que abrigam mais de 10 mil jazigos. Neste tipo de cemitério, os jazigos são dispostos verticalmente no espaço do edifício. A solução verticalizada foi tomada devido a falta de espaços nos cemitérios locais, podendo abrigar maior número de jazigos em uma área menor na cidade. A questão ambiental é tratada, de forma que os lóculos recebem impermeabilização interna e é presente um sistema de dutos que conduzem os gases dos túmulos para a atmosfera de forma sem agredir o meio ambiente. O cemitério também possui local para cremação e cinerários onde as urnas com as cinzas das pessoas ficam.

Fig. 21. Fachada do Memorial Necrópole Ecumênica. Fonte: www.memorialcemiterio.com.br

Fig.22. Lóculos simples do Memorial Necrópole Ecumênica. Fonte: www.memorialcemiterio.com.br 28

Fig. 23. Cinerário com urnas da parte do crematório do Memorial Necrópole Ecumênica. Fonte: www.memorialcemiterio.com.br

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Cemitério Parque Morumbi BRASIL O cemitério parque do Morumbi foi o primeiro cemitério parque do Brasil e influenciou o projeto de vários que vieram após o mesmo. Localizado na cidade de São Paulo, foi fundado em 1968 pela comunidade religiosa João XXIII, quando ainda o bairro do Morumbi possuía poucas casas e edifícios. Os locais de túmulos consistem em amplo gramado onde se localizam os túmulos, ladeados por vias circulares.

Fig. 25. Vista dos túmulos no cemitério Parque Morumbi. Foto: Mônica Lais

Fig. 24. Vista aérea do cemitério do Morumbi. Fonte: www. findagrave.com

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CEMITÉRIOS PARQUE: ESTUDOS DE CASO


Cemitério da Ressurreição

Piracicaba O cemitério parque da Ressurreição localizase em Piracicaba, estado de São Paulo. Fundado em 1971, é amplamente conhecido e visitado pela população. Possui arborização, viveiro de pássaros, playground, centro de aprendizado ambiental, além de uma capela onde ocorrem missas semanalmente. Deste modo é um local que se mantém cheio de vida e constantemente visitado. Ornamentando o local, por toda sua extensão também existem esculturas feitas por artistas plásticos. Segundo o artista plástico Osvair Antônio Perón em reportagem na década de 1990, época em que era administrador do cemitério, este é “um local cheio de vida, vida das plantas, dos pássaros que aqui se multiplicam, vida das pessoas que aqui trabalham e que por aqui visitam, das crianças que aqui brincam, vida eterna das pessoas que aqui jazem”.

Fig. 26. Local dos jazigos do cemitério da Ressurreição. Foto: Giovana N. B.

Fig. 27. Escultura em meio à vegetação. Foto: Giovana N. B.

Fig.27. Alamedas arborizadas próximo ao local dos jazigos. Foto: Giovana N. B.

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Cemitério Parque Paraíso da Colina

Lençóis Paulista O Cemitério Parque Paraíso da Colina encontra-se na cidade de Lençóis Paulista, interior de São Paulo. É um cemitério particular e consta como um empreendimento ainda recente na cidade, possuindo menos de uma década. O projeto possui playground infantil, viveiros com aves exóticas, lago com carpas e locais de descanso. Devido sua infra-estrutura, diversas pessoas visitam o local, independente de conhecerem algum falecido lá enterrado, se tornando um local movimentado e agradável para visitação. Nos finais de semana, as crianças da região vão ao local brincar e o playground fica cheio. Os túmulos distribuem-se em forma circular e as lápides são verticais e discretas. Ao centro há a capela ecumênica. No dia de finados do ano de 2007 apresentou diversas atrações para a população, tendo até mesmo show de pára-quedismo. Apesar de ser um local agradável, é preciso tomar cuidado quanto a alguns aspectos. Talvez no ímpeto de anular a sensação ruim transmitida pelos cemitérios tradicionais, acabou-se criando um cemitério não-cemitério. Tornou-se um local de recreação com o detalhe de possuir lápides. É interessante que o cemitério possua grande visitação e uso, porém deve ser um local que também faça as pessoas se lembrarem que estão em um local de respeito e memória.

Fig. 28. Caminhos e lápides do cemitério parque. Ao fundo cobertura para eventos. Foto: Aline S. Santos

Fig. 29. Área de descanso. Ao fundo, a entrada principal do cemitério parque. Foto: Aline S. Santos.

Fig. 30. Playground dentro da área do cemitério parque. Foto: Aline S. Santos.

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Cemitério Parque Divina Misericórdia

Salta, Argentina O cemitério parque Divina Misericórdia localiza-se na cidade de Salta, na Argentina. Seu projeto constitui-se em extenso gramado onde se distribuem os túmulos com as lápides seguindo mesmo modelo. A arborização é distribuída hora por entre o gramado com os túmulos, hora nas bordas das vias principais pavimentadas. O entorno é constituído por paisagem natural, e transmite sensação de paz e tranqüilidade. Em alguns pontos são encontradas pequenas esculturas, talvez remetendo de maneira sutil aos tradicionais ornamentações cemiteriais a que as pessoas estão acostumadas. Segundo Ana Carolina Catâneo, que visitou o local, o mesmo é alegre e não passa a impressão de um cemitério. Assim pode-se concluir que o mesmo talvez não transmita a sensação de um cemitério tradicional, mantendo um ambiente agradável de visitação.

Fig. 31. Área do cemitério parque Divina Misericórdia, com a pasisagem natural ao fundo. Os pontos coloridos indicam os túmulo.Foto: Ana Carolina Cataneo

Fig. 32. Estátua em meio a vegetação no cemitério. Foto: Ana Carolina Catâneo. 33

Fig. 33. Caminhos principais pavimentados ao lado da área gramada para enterro. Foto: Ana carolina Cataneo.

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O PROJETO


1. A cidade do projeto: Bauru 1.1. Aspectos gerais da cidade A cidade de Bauru localiza-se na região do centro-oeste do Estado de São Paulo. Fundada em 1896, abriga o entroncamento de 3 ferrovias importantes: Noroste, Sorocabana e Paulista. Tal fato fez a cidade se tornar um pólo promissor no estado e crescer francamente. Atualmente configura-se com uma cidade de comércio, sendo também grande pólo universitário possuindo mais de 7 universidades, sendo 2 estaduais. O último censo realizado pelo IBGE1 aponta aproximadamente 350 mil habitantes no ano de 2006. Mas, apesar de tal número, não possui diversas opções de áreas livres de lazer para a população. Quanto aos aspectos naturais, a vegetação original predominante é o cerrado e apresenta um total de 10 córregos2.

35 Fig. 35. Município de Bauru com principais vias. Fonte: Plano Diretor Participativo do Município de Bauru, 2006, desenho da autora.

NOTAS Censo realizado em 2000. A partir dos resultados o IBGE estimou um valor populacional para 2006. 2 Informação coletada a partir do mapa do Plano Diretor Participativo de Bauru de 2006, apresentando os setores de divisão da cidade por Bacias Hidrográficas. 1

Fig. 34. Localização da cidade de Bauru no estado de São Paulo. Fonte: IBGE, desenho da autora.

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1.2. Cemitérios na cidade de Bauru Atualmente a cidade de Bauru apresenta 6 cemitérios, sendo 4 de caráter municipal e 2 de caráter particular. Os municipais apresentam o modelo tradicional de jazigos, enquanto que os particulares apresentam os modelos verticais e parque. O órgão responsável pelos cemitérios municipais de Bauru é a Emdurb, Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural, cabendo à Seplan, Secretaria de Planejamento, a aprovação das áreas de implantação. Quantos às especificações técnicas a serem seguidas para seus projetos, devem ser observadas a Lei Municipal nº 4379, de 22 de março de 1999 e a Norma Técnica L1.040 de janeiro de 1999 da Cetesb. Em 2003 o Conama, Conselho Nacional do Meio Ambiente, lança a resolução N. 335 de 3 de abril, dispondo sobre o licenciamento ambiental, sendo portanto imprescindível seu conhecimento para correta escolha de local para o projeto e suas disposições. Segundo o gerente do necrotério municipal, José Tavares Martins, a quantia de cemitérios municipais hoje em dia é suficiente para a demanda da cidade. Porém, o mesmo alerta que em aproximadamente 5 anos será necessário a construção de mais uma área cemiterial, pois apenas o Cemitério do Redentor e Cemitério Cristo Rei ainda apresentam jazigos que possam ser adquiridos, estando os outros todos já com proprietários. Segundo os dados municipais são computadas aproximadamente 200 mortes por mês, sendo desta quantia, 150 pessoas enterradas em cemitérios municipais. Quanto às localizações, observando o mapa da cidade, pode-se dizer que existem diversas áreas na cidade que se encontram longe das mesmas, podendo configurar dificuldades na visitação.

Durante o mês de maio de 2007 realizou-se visita aos cemitérios presentes na cidade, assim como levantamento de dados referentes aos mesmos.

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Fig. 36. Mapa da cidade de Bauru com localização dos cemitérios. Fonte: Aline Silva Santos, a partir de informações presentes nos mapas do Plano Diretor Participativo de Bauru de 2006.

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Cemitério da Saudade Fundado em 1908, o Cemitério da Saudade é o mais antigo dos presentes na cidade1. Localiza-se na região do Centro, lindeiro à avenida Rodrigues Alves, uma das principais vias de Bauru. Seu histórico é interessante e amplamente conhecido pela população bauruense. O doador da área foi João Henrique Dix, proprietário do Grande Hotel Dix, o melhor da cidade à época. O mesmo acompanhava a construção todos os dias. Quando da instalação dos portões, Dix perguntou aos construtores se faltava muito para o término da obra e os mesmos responderam que se morresse alguém no dia, no outro já poderia ser enterrado lá. Assim, Dix foi para casa e suicidou-se com um tiro no peito, sendo então o primeiro a ser enterrado na Saudade. De modelo “tradicional”, o cemitério apresenta jazigos tanto horizontais como também gavetas, totalizando 5.700 túmulos. Possui velório municipal próximo, sendo o mesmo de utilização gratuita. É o que possui maior quantidades de estátuas, capelas e onde se encontram túmulos de pessoas de grande importância histórica para a cidade. Apresenta-se como uma cidade, cheia de construções das mais variadas, mostrando as diferenças sociais através da ostentação da morada após a morte.

Fig. 37. Jazigos verticais, em gavetas. Foto: Aline Silva Santos

Fig. 38. Entrada principal do Cemitério da Saudade. Foto: Tiago Machado da Silva

Fig. 39. Cemitério da Saudade, túmulos horizontais e capelas. Foto: Aline Silva Santos.

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O interessante do local é o fato de poder-se ver a história da cidade. Desde o túmulo ornamentado de um importante membro que hoje é homenageado com a nomenclatura de uma avenida até populares, considerados milagreiros após a morte, com túmulos repletos de flores, santos e mensagens de agradecimentos. O ponto negativo encontrado dá-se pelo fato da presença de excessivos ornamentos diferentes, muitas vezes transmitindo sensação de intimidação, não se configurando um local agradável para visita. Também nota-se o abandono e falta de manutenção em diversos túmulos. Atualmente encontra-se saturado, não havendo mais jazigos à venda, sendo enterrados no local apenas pessoas que já os possuem.

NOTAS O primeiro cemitério de Bauru não existe mais hoje e encontrava-se em Aymorés, distrito de Bauru, sendo datado de 1888. in: PAIVA, Carlos Fernandes de. Complemento às Narrativas Sintéticas dos Fatos que motivaram a fundação de Bauru. Bauru: Conselho Municipal de Educação de Bauru, 1977. 1

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Cemitério São Benedito O São Benedito é o segundo cemitério mais antigo de Bauru. Fundado em 1949, possui 2.350 túmulos. Localiza-se no bairro Vila Independência, lindeiro à avenida Castelo Branco, importante via da cidade. Assim como o cemitério da Saudade, não possui mais possibilidade de aquisição de jazigos estando saturado. Também em modelo “tradicional”, apresenta apenas túmulos horizontais, sendo de menor porte. São encontradas, portanto, as mesmas características citadas no cemitério anterior.

Fig. 41. Estátua presente em túmulo. Foto: Aline Silva Santos

Fig. 40. Entrada do cemitério. Foto: Aline Silva Santos.

Fig,42. As duas cidades: a dos mortos à frente e à dos vivos atrás. Foto: Aline Silva Santos.

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Cemitério do Redentor O cemitério do Redentor foi fundado no ano de 1963. Segundo o gerente do Necrotério Municipal, José Tavares Martins, é o único cemitério que mantém sepultamento direto na terra, possuindo um total de 4.460 túmulos. Encontra-se no bairro Jardim Redentor. Neste local há tanto a possibilidade de compra de jazigo como também a de utilizar o serviço gratuito, para munícipes que porventura não tenham condições de compra. Neste procedimento, o túmulo permanece do indivíduo por 3 anos até a exumação do corpo, quando a prefeitura o libera a área para um próximo falecido. Assim, há uma área em que não há túmulos construídos, sendo diretamente na terra, muitas vezes não identificados e outra área com túmulos construídos. Há uma área para velório à entrada, sendo a utilização da mesma gratuita. Uma observação a ser feita é a forma de enterramento diretamente no solo, que pode ser prejudicial. Apesar de não haver nenhum estudo feito no local, pode-se supor um grande impacto ambiental pela utilização deste procedimento.

Fig. 43. Entrada do cemitério. Foto: Aline Silva Santos

Fig. 44. Túmulos simples à frente e túmulos mais ornamentados ao fundo. Foto: Aline Silva Santos

Fig. 45. À frente, túmulos na terra, ao fundo, túmulos “construídos”. Foto: Aline Silva Santos

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Cemitério Cristo Rei Fundado em 1981, o cemitério Cristo Rei é o cemitério municipal mais recente, possuindo 1.950 túmulos. Apresenta-se no modelo “tradicional”. Localiza-se no Bairro Parque Primavera, em uma área de bairros carentes do município, servindo praticamente toda região norte da cidade. Ainda possui jazidos para serem adquiridos pela população.

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Fig. 47. Cemitério Cristo Rei, vista do cruzeiro e placa de inauguração. Foto: Aline Silva Santos

Fig. 46. Entrada do cemitério. Foto: Aline Silva Santos

Fig. 48. Túmulos no cemitério. Foto: Aline Silva Santos

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Cemitério Jardim do Ypê O cemitério Jardim do Ypê foi inaugurado em 1971. Configura-se no modelo “jardim” ou “parque” e é de caráter particular. Localiza-se no bairro Parque das Nações, próximo à área de condomínios fechados. No local também se encontra velório. A sensação de visita é mais agradável que os modelos tradicionais, possuindo amplo gramado e menor poluição visual.

Fig. 50. Área dos túmulos. Foto: Aline Silva Santos

Fig. 49. Alamedas Floridas. Foto: Aline Silva Santos

Fig. 51. Entrada do cemitério. Foto: Aline Silva Santos

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Cemitério Memorial Bauru O cemitério Memorial Bauru é o mais recente cemitério da cidade e localiza-se na área central, em frente ao cemitério da Saudade. Apresenta-se em modelo vertical, na forma de um prédio. Durante sua execução, houve muita curiosidade da população, principalmente da região de como seria o espaço, pelo desconhecimento do modelo de cemitério vertical. Apresenta velório e capela ecumênica no térreo, sendo que os jazigos se localizam no primeiro andar, em forma de gavetas. Todas as gavetas e placas de identificação são padronizados. Como forma de conter o necrochorume, é colocado cal dentro da área da gaveta para a neutralização do material. É um local de agradável visitação, sendo que à frente possui pequeno jardim com lago de carpas que atrai a atenção dos moradores próximos. A infra-estrutura apresenta também cozinha e apartamentos para os familiares do falecido. Atualmente apresenta apenas um andar, porém, o projeto concluído pretende chegar a um total de 12 andares.

Fig.52. Entrada do cemitério. Foto: Aline Silva Santos, 2007.

Fig. 53. Local dos jazigos. Foto: Aline Silva Santos, 2007.

Fig. 54. Ferragens no edifício indicando processo continuação da construção. Foto: Aline Silva Santos, 2007.

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1.3 . Deficiências encontradas

A apropriação do espaço Nota-se que os cemitérios na cidade de Bauru, tanto particulares como municipais, configuram-se com adensamento de túmulos. Isto porque muitas vezes leva-se em consideração o mote do aproveitamento até o esgotamento das áreas para a localização de túmulos. Assim, acaba-se gerando ambientes desconfortáveis e sem acessibilidade em prol do aproveitamento espacial sem critério.

Fig. 56. Problemas na rampa de acesso do Cemitério Jardim do Ypê. Foto: Aline Silva Santos, 2007.

Fig. 55. Adensamento de túmulos, no cemitério Cristo Rei. Foto: Aline Silva Santos, 2007.

Mobilidade e acessibilidade A acessibilidade é uma questão pouco resolvida nos cemitérios existentes na cidade de Bauru. Nas pesquisas de campo, notou-se que, com exceção do Cemitério Vertical, todos apresentavam deficiência de acessibilidade aos sanitários, como por exemplo, rampas com inclinações muito acentuadas, degraus perigosos e banheiros não adaptados a cadeirantes.

Outro problema notado é o acesso aos túmulos. Em alguns cemitérios municipais, as construções tumulares encontram-se muito unidas, e algumas vias secundárias são estreitas. No cemitério parque Jardim do Ypê, é necessário caminhar sobre o gramado para chegar-se ao jazigo desejado. Neste processo, pisase sobre diversos túmulos, o que causa mal estar em algumas pessoas, além do tipo de cobertura de piso não ser acessível a cadeirantes ou pessoas com muletas e andadores. Estacionamentos Alguns cemitérios visitados não apresentavam estacionamentos ou então possuíam número insuficiente de vagas, obrigando muitas vezes ao visitante a parar em locais incorretos.

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Fig. 57. Carros estacionados na rua devido à falta de locais adequados no Cemitério Jardim do Ypê. Foto: Aline Silva Santos, 2007.

Manutenção Em todos os cemitérios municipais haviam túmulos com falta de manutenção. Tal fato ocorre pelo fato de o responsável pelo cuidado da construção tumular ser o dono do jazigo, que nem sempre se dispõe a fazê-lo. Tais atitudes em cemitérios deste modelo podem ser extremamente prejudiciais, pois ocorrem por exemplo vazamento de líquidos dos túmulos, bem como infiltração nos mesmos pelas águas das chuvas, aumentando o risco de poluição do ambiente pelo necrochorume.

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2. Condicionantes para a instalação de um cemitério O projeto de um cemitério, seja de qual tipo for, - parque, tradicional, vertical – é complexo e exige o empenho de diversos profissionais para que tenha sucesso. Devem ser levados em consideração aspectos ambientais e construtivos para que o mesmo não seja nocivo ao ambiente que ocupa. Para o caso do cemitério horizontal, primeiramente é necessária análise do solo, em que devem ser analisadas suas características, além da verificação de presença e nível de aqüífero freático. Tais procedimentos devem ser feitos por geólogos ou engenheiros ambientais. Em seguida, devem ser propostos os edifícios, túmulos, paisagismo, por arquitetos. Sendo que deve ser feita toda uma rede de captação dos efluentes advindos dos edifícios e túmulos, que necessita ser desenvolvida por um engenheiro hidráulico. Também é salutar a consultoria de empresas especializadas no ramo como das construções tumulares, que muitas vezes desenvolvem sistemas próprios para a captação de efluentes. Quanto às legislações, existem as de caráter federal, estadual e municipal, sendo que todas devem ser seguidas. As mesmas encontram-se especificadas abaixo, com suas principais observações. Legislação federal Em nível federal devem ser seguidas duas resoluções do CONAMA, a resolução N. 335, de 3 de abril de 2003, que dispõe sobre o licenciamento ambiental de cemitérios, e a resolução N. 368, de 28 de março de 2006 que altera alguns dispositivos da Resolução nº 335, de 3 de abril de 2003. Estas a proíbem a construção de cemitérios em Áreas de Preservação Permanente, de mananciais para abastecimento humano ou que exijam o desmatamento de Mata Atlântica. Além disso, exigem

que nos cemitérios horizontais, as sepulturas seja construídas no mínimo a um metro e meio acima do nível máximo do aqüífero freático e nos cemitérios verticais se recomenda que os lóculos sejam confeccionados de materiais que impeçam a passagem de gases para os locais de circulação dos visitantes e trabalhadores e não possibilitem o vazamento de líquidos oriundos dos cadáveres. Seguidos os critérios, o projeto consegue licenciamento ambiental, sendo um passo em direção à sua construção. Legislação estadual No caso do estado de São Paulo, devem ser seguidas as instruções contidas na Norma Técnica L1. 040 da CETESB (1999) para cemitérios horizontais. Nela há o reforço de especificações presentes nas resoluções do CONAMA, além de exigir as caracterizações geográficas, geológicas e hidrogeológicas da área. No caso dos estudos revelarem que o aqüífero freático é potencialmente vulnerável, devem ser construídos poços de monitoramento para verificação de não contaminação. Também especifica o tipo do solo adequado para o local, sistemas de drenagem e exige que internamente o cemitério deve ser contornado por uma faixa arborizada de largura mínima de 5m no seu perímetro, podendo deste 20% ser usado para construções não tumulares, sistema viário ou logradouros de uso público. Para as construções adjuntas ao cemitério como áreas de velórios e necrotérios, deve ser seguido o Decreto Estadual nº 12.342, de 27 setembro de 1978, que dispõe sobre normas de promoção, preservação e recuperação da saúde no campo de competência da Secretaria de Estado da Saúde.

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Legislação municipal No âmbito municipal, no caso de Bauru temse a Lei Municipal Nº 4379, de 22 de março de 1999, que fixa regras de implantação e uso dos cemitérios existentes no Município de Bauru. Esta legislação eleva para 2 metros o nível mínimo que o túmulo deve ser construído acima do lençol freático. Também especifica que 20% da área deve ser arborizada e serem necessários 15 metros de isolamento do perímetro do cemitério (30 metros se for zona não provida de rede de água), devendo ser áreas ajardinadas ou livres abertas, podendo ser utilizadas para, por exemplo, estacionamentos ou construção de necrotérios. Há a recomendação para utilização de áreas elevadas na contravertente das águas que possam alimentar fontes de abastecimento ou de utilização pelos munícipes. Para que o projeto seja encaminhado para aprovação pela Secretaria de Planejamento do Município, o mesmo deve já ser encaminhado de estudos especializados, comprovando a adequabilidade do solo e nível do lençol freático.

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3. Área do projeto Segundo Maria Helena Carvalho Regitano, funcionária do Seplan, durante as discussões do Plano Diretor Participativo de 2006, surgiu uma área de interesse para implantação de um possível futuro cemitério. O local de interesse se encontra nas proximidades do bairro Mary Dota, o maior núcleo habitacional da cidade de Bauru.

por uma área descampada cercada por vegetação nativa, ficando lindeira a uma estrada de terra. Esta estrada consiste no prolongamento da Avenida Rosa Malandrino Mondelli, que termina em uma ponte que atravessa o córrego Vargem Limpa que se encontra anteriormente à área. A partir das informações obtidas optou-se então trabalhar com a área já proposta pelas discussões do Plano Diretor. Foram feitas visitas ao local, e verificou-se seus usos. Constatou-se que a área possuía traves de futebol, indicando uso da população para o lazer, porém em todas as vezes em que se esteve na área a mesma estava sem pessoas. Também se notou que a área é usada como depósito de entulhos pela população, prejudicando a vegetação e solos presentes. Desta forma, a proposta de um cemitério parque no local atenderia as necessidades locais, além de agregar uma área livre verde ao bairro. Devido à carência de áreas verdes e de lazer da região, e da preocupação com a preservação do córrego, também propôs-se como plano futuro um parque anexo ao cemitério, complementando e continuando a paisagem. Segundo o professor Eduardo Luiz de Oliveira, após meados de 2007 a área acabou sendo Fig. 19. Localização do local proposto na cidade. Fonte: Aline Silva Santos, a partir de informações presentes nos mapas do Plano escolhida pelo Condema – Conselho Municipal do Meio Ambiente – para ser local de um parque Diretor Participativo de Bauru de 2006. municipal. Regitano aponta que a população local reivindica um novo cemitério no local pelo fato de os mesmo terem que se utilizar do Cristo Rei, e para tal, precisam atravessar a rodovia Marechal Rondon, fato NOTAS dificultoso. 1 Assim, o corpo técnico da Seplan localizou Não se conseguiu descobrir realmente se a sugestão da área veio primeiramente do corpo técnico da uma área no entorno que houvesse possibilidade Seplan de Bauru ou da população. de construção do mesmo1. O local caracteriza-se CEMITÉRIO PARQUE EM BAURU :: ALINE SILVA SANTOS :: TFG :: ARQUITETURA :: UNESP BAURU

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Localização MAPA DO LOCAL E proposta de divisão de áreas


4. O projeto O projeto apresentado visa mostrar idéias e indicativos de soluções julgadas adequadas e necessárias a partir de material coletado através das pesquisas bibliográficas, cursos, entrevistas e pesquisas de campo. Não pretende ser um modelo, mas sim um indicativo de possibilidades feito a partir de reflexões dos estudos realizados.

Por que cemitério parque? Dentre os tipos de cemitério pesquisados, o que demonstrou ser mais aprazível para instalação na cidade de Bauru é o do Cemitério Parque, principalmente na área indicada para projeto. A paisagem do cemitério parque se incorporaria com o cenário natural do perímetro final do bairro, proporcionando além de um equipamento necessário, uma área verde agradável através do cuidado paisagístico. Quanto ao ambiente cemiterial, paisagens aprazíveis fazem com que as pessoas se sintam em paz e ambientes arborizados são mais saudáveis. A ausência de ostentação tumular, inerente dos cemitérios parque, promove uma proposta de igualdade entre os enterrados, sem distinções de qualquer gênero. Assim, pelos seus conceitos de igualdade e proposta de áreas verdes, este foi o modelo preferido para ser aplicado.

O conceito

O cemitério é um lugar de dualidades: dor, paz, tristeza, alegria, saudade, presença, esquecimento, lembrança, perda, encontro... Ir ao cemitério é ir em busca de um sentimento, de despertar memórias quase esquecidas e procurar encontrar razões para o que pode aparentemente não ter tido razão. Através do exercício projetual, buscou-se confrontar e exteriorizar esses sentimentos presentes nas pessoas. Seja tanto através das construções como no tratamento paisagístico. Observa-se que atualmente alguns cemitérios parque, no intuito de eliminarem as características dos cemitérios tradicionais do local, acabam por se tornar “não-cemitérios”: há tantos equipamentos e atrações que se esquece onde está. Assim, acaba-se perdendo o respeito ao ambiente. A proposta procura fugir deste partido e propor espaços que despertem sensações e sentimentos diferentes. Assim, são criados locais que inspiram ao mesmo tempo respeito, reflexão, paz e descanso. Para tal, optou-se então por construções sóbrias, com alguns detalhes característicos e paisagem com arborização abundante. Há também áreas exploratórias onde a pessoa pode caminhar, descansar e conhecer novas paisagens.

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Descrição do projeto O projeto do cemitério parque constituise de área para enterros, estacionamento, edifício com administração, velórios e preparação funerária, capela ecumênica, marquise, mirante, edifício para manutenção e serviços gerais e grandes áreas verdes para passeio e descanso. Sua área é de 26.100 m2, possuindo um total de 605 túmulos, sendo 144 destes do tipo vertical. Possui também estacionamento para 46 carros. Dentro da área do cemitério parque é priorizada a caminhada, sendo que os carros podem somente acessar o estacionamento. Ao entrar no cemitério há uma grande área aberta, pontuada por algumas árvores. Pode-se então seguir para o edifício principal que fica contíguo à entrada, à grande rampa que leva à capela, mirante e área livre gramada, ou então à área de túmulos, onde há os horizontais nos gramados arborizados e os verticais logo abaixo do mirante. A área de serviços e manutenções é acessada principalmente por veículos e fica na área mais ao fundo do cemitério. Durante todo o projeto procurou-se também tornar os espaços acessíveis através de pisos de fácil locomoção, como o bloco intertravado, rampas com inclinações recomendadas pelas normas e sanitários adaptados a portadores de necessidades especiais. Quanto às espécies vegetais utilizadas, escolheu-se espécies que pudessem formar caminhos, pontuar locais, formar pequenos maciços coloridos e dar transição entre a paisagem natural e a construída. Para tanto escolheu-se o pau-mulato, pau-ferro, farinha seca, faveiro, jacarandá mimoso e espatódea. Quanto às espécies ornamentais, foram escolhidas espécies neutras como a espadinha, formando extensos maciços. Apenas próximo à igreja-velário e da área verticalizada que se utilizou

a sálvia, espécie com cor de destaque avermelhado, pontuando estes locais significativos do projeto.

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Edifício Principal Procurou-se transferir a dualidade inspirada pelo cemitério para o desenho do edifício e sua textura. Criou-se uma sucessão de modelos ortogonais que eram preenchidos de forma alternada, formando um conjunto de “claros” (onde se constituíam espaços livres) e “escuros” (espaços fechados). Adotou-se diferentes tipos de materiais, como o concreto, blocos de demolição e aço cortain. O concreto passa frieza, sentida pela morte, dura e cruel para muitos, e os blocos transmitem o aconchego sentido ao se encontrar novamente com um ente querido. Os grandes pilares e vigas de aço cortain, traçam um emaranhado que junta todos estes materiais. Quanto à organização dos ambientes, propõese neste único edifício o velório, tratamento de corpos, administração e sanitários públicos. O mesmo foi projetado de forma que as funções, apesar de se encontrarem no mesmo prédio, sejam acessadas de forma independente, não superpondo atividades diferentes. Administração Aproveitando-se o desnível do terreno, a administração fica no nível superior e pode ser acessada diretamente pela calçada sem necessidade de entrar no parque. Também há uma entrada de serviço para funcionários, com estacionamento, acessada pelo nível inferior onde uma escada leva para o escritório. O escritório administrativo possui além de sanitários para os funcionários, sanitário para visitantes adaptado a portadores de necessidades especiais. Sala de preparação de corpos Obrigatória a toda funerária, a sala de preparação de corpos é o local onde os corpos são lavados e trocados para serem colocados no caixão. Há a previsão de bancada para serviços e duas mesas de inox. A janela desta sala dá em direção a um jardim,

que ao mesmo tempo que imposibilita a visualização da atividade interna proporciona bem estar aos funcionários que lidam com situações emocionais e visuais pesadas. Também há um banheiro especial, que é obrigatório, onde o funcionário pode se higienizar corretamente antes de sair da sala, além de um dml exclusivo para limpeza deste recinto. Segundo Alessandro Rodrigues, da funerária “Reunidas” da cidade de Bauru, é obrigatória fossa séptica para tratamento dos resíduos resultantes das atividades. Assim sendo, propõe-se a mesma, que se localizará e poderá ser acessada em local específico na área do jardim. Centro velatório O edifício possui dois espaços velatórios espelhadas no nível inferior que são acessados de dentro do cemitério. As mesmas são separadas por um espelho d´agua que fica ao centro. Cada um dos espaços velatórios possuem sala de estar, com abertura para jardim privado, copa, banheiro adaptado a portadores de necessidades especiais e sala velatória. A urna funerária é introduzida na sala por meio de porta exclusiva que dá acesso à área restrita a funcionários, privando os enlutados do contato da preparação do corpo e chegada da urna no ambiente. Acima de cada sala há um terraço jardim, acessado por meio de escadas contíguas ao acesso principal à sala velatória, proporcionando um ambiente reservado com vista para todo cemitério parque. Sanitários públicos Os sanitários públicos do cemitério se concentram todos no pavimento superior do edifício principal e são acessados por dentro do cemitério por meio de uma sucessão de rampas.

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Capela Para a área do cemitério foi proposta uma capela ecumênica, pois a morte e a religião sempre se encontraram muito próximas. Por sua importância então, o edifício se localiza na parte mais alta do projeto, o seu coração, o mirante. Seu acesso se dá através da travessia de uma grande marquise que demarca sua localização e proporciona uma área sombreada para parte do mirante e sua grande rampa de acesso. Com formas arredondadas, sem portas e com entrada livre, sua forma lembra parte de uma espiral, símbolo muito encontrado na natureza e que para crença de alguns remete à vida e busca da iluminação. O material utilizado é o bloco de demolição, tendo uma textura e aspecto que causam aconchego e proteção. São propostos pequenos rasgos nas paredes em direção ao púlpito, propondo iluminação cênica. Há também panos de vidro que possibilitam a visão panorâmica do entorno proporcionada pelo mirante. A parte de trás do edifício acolhe a área de velário. Deste modo, a capela procura ser um local acolhedor e neutro para que pessoas de todas as crenças possas fazer suas preces.

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Áreas de sepultamento Área Horizontal Os jazigos horizontais estão dispostos de maneira circular, procurando desta forma amenizar a característica de loteamento que muitas vezes os jazigos têm, totalizando o número de 461 jazigos. Os túmulos são distribuídos em anéis, com cobertura de grama. Seus caminhos lindeiros possuem duas texturas diferentes: em seixos com concreto e blocos intertravados contíguos. Os seixos promovem uma sensação de maior contato com a natureza, sendo que o bloco intertravado por sua vez, possibilita o acesso tranquilo a cadeirantes e pessoas com dificuldades motoras. Ao invés de se utilizar totalmente estes anéis para se locar túmulos, em alguns trechos os jazigos são substituídos por arborização, proporcionando sombra ao visitante. Desta forma, preferiu-se priorizar o bem estar do usuário do local em detrimento da tentava de aproveitar ao máximo a área de jazigos sem nenhuma qualidade, como acontece em muitos cemitérios parque: gramados extensos apenas bordeados por árvores, tendo que se ficar a pleno sol no gramado para visitar os túmulos. Ao centro de cada forma circular há um espaço arborizado, com piso permeável, no mesmo modelo dos tangentes aos túmulos, proporcionando um ambiente de meditação, reflexão e descanso. Os jazigos Os jazigos são compostos por três compartimentos para as urnas funerárias e uma para ossurário, todas separadas por placas de concreto. São construídos em alvenaria e impermeabilizados para que não haja vazamento do necrochorume, nem infiltração de água. Com o tempo, a substância desnatura dentro do próprio jazigo, não apresentando risco ambiental.

Os jazigos triplos também são propostos para cessão a pessoas sem condições financeiras para a compra de um e indigentes. Estes tipos de túmulos são utilizáveis por vários indivíduos difernetes náo havendo um proprietário: após 3 anos, que é o tempo comum para decomposição corpórea, os corpos são exumados e vão para um ossuário, podendo então dar lugar à outra pessoa necessitada. Por isso, nestes jazigos não haverá a presença de ossuário, sendo contruído um conjunto de ossuários para tal, próximo à área de lóculos verticalizados. No caso de Bauru, essas pessoas são enterradas individualmente em covas rasas, ou seja, diretamente no solo, sem direito à lápide, possuindo apenas um número em um bastão de madeira para identificacão. Na proposta procura-se manter a igualdade entre as pessoas dando mesmo tratamento e conservação a todos os jazigos, sendos todos construídos e impermeabilizados. Assim, seriam túmulos solidários onde três pessoas diferentes podem ser enterradas até que o tempo de concessão acabe e vá para o ossuário. Para lápides propõe-se pequenos blocos com espaço para colocação de vasos ou plantio de pequenas flores. Estas lápides também são propostas para utilização nos túmulos cedidos pela prefeitura, sendo que no caso de indigentes conterão apenas dados numéricos, como já é o padrão de identificação utilizado.

Área Vertical Como forma de aproveitamento do muro abaixo do mirante, propõe-se uma área para túmulos verticais. Estes contabilizam em XXX jazigos. Quando os cemitérios verticais encontramse na forma de edifícios, que é como ocorre na maioria das vezes no Brasil, existe a necessidade de

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ventilação dos jazigos com posterior filtragem e queima dos gases. Tal procedimento é necessário pelo fato dos gases liberados pela decomposição dos corpos serem inflamáveis, havendo risco de acidentes como explosões nestes edifícios. Já no caso de túmulos verticalizados aos ar livre, não ocorre este problema, pois quando os jazigos são abertos, os gases se dissipam rapidamente já que se encontram em ambiente aberto, não ocorrendo riscos. Entretanto, a partir de pesquisas encontrou-se o sistema espanhol DUWE de construção de jazigos verticais, onde há sistema de drenagem e ventilação para túmulos ao ar livre. Neste caso a ventilação é justificada no sentido de que em contato maior com o oxigênio os corpos se decompõe mais rapidamente, podendo aumentar a rotatividade dos jazigos em até 3 vezes. Assim sendo, optou-se por incluir sistema de ventilação nos lóculos, juntamente com sistema de drenagem dos jazigos. Neste caso propôs-se drenagem, pois a tubulação e encaminhamento dos líquidos é mais facilitado pela posição verticalizada em relação aos túmulos horizontais. Os resíduos líquidos então são encaminhados à um filtro biológico para neutralização de agente contaminantes. Para o detalhamento e especificação do sistema de drenagem e ventilação utilizou-se como embasamento o projeto de Enric Miralles e Carme Pinós para o cemitério de Igualada. Neste projeto os túmulos verticais possuem ventilação, sendo que os gases saem por meio de pequenas aberturas acima da fileira de jazigos, passando por um filtro de carvão ativado para neutralização dos odores. Quanto ao material, optou-se pela utilização de estrutura de concreto de forma que possam ser construídos por sistema de pré-moldagem, agilizando a construção e se integrando com o concreto que faz

parte da parede do mirante. Propõe-se lápides simples e padronizadas em concreto ou pedra, com local para apoio de flores e local para nomenclatura.

Ossuários

Após completar três anos de sepultamento, os restos mortais dos corpos dos jazigos das sepulturas não-particulares (cedidas pela prefeitura) são transferidos para um ossuário. No projeto, propôs-se o mesmo em muro contíguo ao dos túmulos verticais, seguindo o mesmo tipo de material construtivo. Foram projetados 145 nichos.

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Espelho d´água e platôs

Edifício de serviços

Dois grandes espelhos d´água foram propostos no projeto, sendo em níveis diferentes. Os mesmos, porém se interligam por uma lâmina d´água e um percurso de pedras por entre platôs que a água faz. Por meio de caminhada através de gramado pisoteável, pode-se acessar os platôs, descendo até o nível do espelho d´água inferior. Estes patamares são livres, sendo possível chegar perto das pedras e acessar a água que escorre pelas mesmas.

Para serviços de manutenção e viveiro de plantas, foi proposto um edifício de serviços. O mesmo se localiza na extremidade da área, e pode ser acessado diretamente por veículos de carga em estrada paralela a da entrada do estacionamento. O edifício possui área coberta para maquinário, armários e trabalho, área de descanso para funcionários, sanitários com chuveiro e viveiro de mudas para manutenção da vegetação do local.

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Legislações e Normas

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ANEXO


DICIONÁRIO DE TERMOS (baseado na resolução n. 335 do CONAMA de 3 de abril de 2003.) cemitério: área destinada a sepultamentos. cemitério horizontal: é aquele localizado em área descoberta compreendendo os tradicionais e o do tipo parque ou jardim. cemitério parque ou jardim: é aquele predominantemente recoberto por jardins, isento de construções tumulares, e no qual as sepulturas são identificadas por uma lápide, ao nível do chão, e de pequenas dimensões. cemitério vertical: é um um ou mais pavimentos compartimentos destinados a

edifício de dotados de sepultamentos.

columbário: é o local para guardar urnas e cinzas funerárias, dispostos horizontal e verticalmente, com acesso coberto ou não, adjacente ao fundo, com um muro ou outro conjunto de jazigos. cinerário: é o local para acomodação de urnas cinerárias sepultar ou inumar: é o ato de colocar pessoa falecida, membros amputados e restos mortais em local adequado. sepultura: espaço sepultamentos.

unitário,

destinado

a

construção tumular: é uma construção erigida em uma sepultura, dotada ou não de compartimentos para sepultamento, compreendendo-se. jazigo: é o compartimento destinado a sepultamento contido.

carneiro ou gaveta: é a unidade de cada um dos compartimentos para sepultamentos existentes em uma construção tumular. lóculo: é o compartimento destinado a sepultamento contido no cemitério vertical. exumar: retirar a pessoa falecida, partes ou restos mortais do local em que se acha sepultado; urna, caixão, ataúde ou esquife: é a caixa com formato adequado para conter pessoa falecida ou partes. urna ossuária: é o recipiente de tamanho adequado para conter ossos ou partes de corpos exumados. ossuário ou ossário: é o local para acomodação de ossos, contidos ou não em urna ossuária. nicho: é o local para colocar urnas com cinzas funerárias ou ossos.


Imagem da capa interna é de autoria de Gary Robertson (2006), retirada do diário de viagem virtual do mesmo, hospedado no site TravelBlog. Retrata o Cemitério de Lychakivskiy, que fica em Lviv na Polônia. A fotografia foi utilizada com autorização do autor e transformada em formato preto e branco por Aline Silva Santos.


CONTATO aline silva santos e-mail: aline123@uol.com.br


TFG Arquitetura e Urbanismo - UNESP 2007