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Parte integrante da Folha de S.Paulo. N° 123. Não pode ser vendida separadamente. Foto:Mariana Belaunde

12 a 18 de novembro de 2012

DEDILHAMOS A TEODORO SAMPAIO Conheça a origem, a história e os personagens que fizeram e ainda são parte da Rua dos Músicos

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índice 4

Editorial

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São Paulo, SP

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Mudança

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Capa

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Roteiro

#123 6

Demo a vista Pão na chapa Discos, livros e jazz Baratinho Mais livros Variedade musical Conserto e personalização De pop a samba Megastore O cara do sopro ... E o da batera Para aprender e aperfeiçoar Para todas as idades Feijuca da boa

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Quem Fala

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Perfil

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Origem

30

Galeria

Nesta edição

14 opções para visitar

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www.folha.com.br/ revistasaopaulo

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EDITORIAL

FALE COM A REDAÇÃO

A Rua dos Músicos Inaugurada em 2010, a sãopaulo publica a sua 123ª edição trazendo a história e a realidade sobre a Rua Teodoro Sampaio, a famosa Rua dos Músicos. Especializada no comércio de instrumentos musicais, a Teodoro tem mais de 50 estabelecimentos ligados ao gênero, passando por lojas, luthierias, estúdios, escolas e até mesmo uma livraria com mais de 15 mil obras para aprendizado e aperfeiçoamento. Pegue sua trilha sonora favorita e venha conhecer a maior referência musical da capital paulista. Bom passeio.

Por e-email: saopaulo@grupofolha.com.br Pela internet: folha.com/revistasaopaulo Por telefone: 3224-4263 Por fax: 3224-4261 Por carta: Al. Barão de Limeira, 425, 5° andar, São Paulo - SP, 01202-900

Um jornal a serviço do Brasil

Editora

Barbara Ataide Assistente de edição

Aline Marangoni Editor de arte

Erik Yoneshima Edição de fotografia

NOSSA CAPA A capa desta edição foi fotografada na Rua Teodoro Sampaio e finalizada digitalmente Produção: Aline Marangoni e Barbara Ataide Tratamento de imagem: Erik Yoneshima Foto: Mariana Belaunde

Aline Marangoni Projeto gráfico

Erik Yoneshima Redação

Aline Marangoni Barbara Ataide Designer

Erik Yoneshima Colaboradores

Alexandre Possendoro Allan Cândido Amauri Filho Camila Schiabel Daniel Branco Mariana Belaunde Renato Fernandes Thiago Amarante Ygor Padula PUBLICIDADE

Telefone 3224-7909 4

12 a 18 de novembro de 2012


Apesar de aparentar certa “decadência” em comparação aos áureos anos 80, quando gente do quilate de Renato Russo e sua legião, ainda adolescentes, perambulavam pelo local para pegar emprestado (leia-se usar, devolver, mas não pagar) instrumentos musicais, a rua conserva seu comércio agitado. Ainda mantém sua fama de fornecedora principal da indústria musical brasileira, além de ser, claro, um verdadeiro acervo da história cultural e uma das marcas turísticas da cidade de São Paulo. Como diria o jornalista, escritor e estudioso da capital paulista, Levino Ponciano, 60, “uma das ruas mais queridas dos paulistanos e turistas é a Teodoro Sampaio, que ao longo do tempo foi se tornando point de roqueiros, DJ’s, sambistas, apreciadores de MPB, sertanejos e cantores de churrascaria”.

SÃO PAULO, SP

O REI NA RUA

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mosa rua dos músicos de São Paulo. Prova disso é a pele de bateria com o famoso autógrafo de Pelé que por anos ficou exposta na loja Batucadas 1000, especializada em instrumentos de percussão. É claro que estamos falando da Rua dos Músicos ou, se preferir, a Rua Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiros, zona oeste da cidade, mais precisamente o trecho do número 462 ao 918 da rua, onde há pelo menos 30 anos, se concentra lojas de instrumentos musicais

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e afins. Conhecido nacionalmente e até fora do país, o trecho da rua reúne hoje mais de 50 comércios especializados divididos entre lojas de instrumentos musicais, importadoras, escolas de música, luthierias e estúdios de gravação. Tem até sebos que vendem, além dos livros dos clássicos da literatura e best sellers, biografias dos grandes astros do rock aos contemporâneos da música erudita, CDs e os amados vinis, que ali estão bem longe de deixar de existir.

Arquivo pessoal de Marcelo Domingos

Todo mundo sabe – literalmente – que Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, é o maior jogador de futebol de todos os tempos. Muitos sabem também que o “atleta do século” gosta de música. Não só gosta como arrisca uns acordes no violão, canta – pelo menos tenta – como compõe – ou tenta também. Quem não conhece “abc, abc, toda criança tem de ler e escrever”? Poucos, porém, sabem que o Rei do Futebol já frequentou uma loja de instrumentos musicais na mais fa-

Aline Marangoni

A rua mais famosa de São Paulo, musicalmente falando, já recebeu a ilustre visita de Pelé (e tem autógrafo pra comprovar!)

À esq., pele de bateria autografada por Pelé; acima, por Elton John; e Carlito Tevez.

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Barbara Ataide

seu “elitismo” durante os anos 80 e o início dos anos 90, ela não é hoje, nem de perto, o que já foi um dia. Ali caminhavam com frequência artistas populares da época, em especial os roqueiros do BRock, o movimento do rock brasileiro que se popularizou na década de 80, e que faz sucesso ainda hoje nas músicas de Titãs, Ira!, Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii, entre outras bandas nacionais. É a opinião como a do luthier Tibério Correa Neto, 61, que trabalha há mais de 30 anos na rua, e acompanhou toda a mudança que aconteceu daquele período até os dias atuais. Segundo ele, a movimentação da rua reunia músicos conceituados, moradores que curtiam aquele glamour que a região possuía, e também fãs, que em sua maioria iam às lojas e acabavam comprando apenas palhetas ou baquetas como “desculpa” para disfarçar a real intenção de cruzar com seus ídolos, pegar autógrafos e até mesmo tirar fotos com eles. Nessa época, a rua tinha instrumentos a níveis comparados com a Expo Music, como explica o baterista Adalberto Brajatschek, 40: “Teve uma fase que diziam ‘nem vou na Expo, porque a Teodoro é a mesma coisa’. Mas isso aconteceu na terceira edição. Antes era no Ibirapuera,

DECADÊNCIA OU MORTE

Aline Marangoni

MUDANÇA

Músico Tibério Correa Neto durante o trabalho na luthieria

e vinha muita gente de fora [do país] para conferir o evento”. “Magoo”, como do site batera.com.br ao lado de David Mazurchi e Ricardo Abe. Nascido na cidade de São Paulo, ele mudou-se para Itu, interior do estado, quando criança, mas continuou visitando a capital para ir à Teodoro e para se apresentar. Outro luthier, que constrói e conserta instrumentos de corda, Walter Gabriel, 52, compartilha da mesma opinião de Tibério. Chegado à rua em 1990, e sete anos depois na galeria – no número 763 da Teodoro –, ele diz que a rua era “lotada” e de cinco anos para cá perdeu muito movimento. “Aqui era uma lotação, parecia a Feira da Música. Principalmente de sábado, essa galeria era um

inferno”, relembra ele, que já zelou pela qualidade de instrumentos do grupo Fundo de Quintal, Almir Sater, Roberto Menescal, Jairzinho, entre outros. De certa forma, não afetou muito o seu negócio, mas abalou o de outros lojistas. “A procura pelo luthier é a mesma porque sempre precisam de manutenção para arrumar ou regular. O cara compra o instrumento e já vem aqui pra regular”, explica. Quanto à mudança de público e popularidade da rua, ele afirma que “a Teodoro ainda é uma referência”. Mas credita a menor lucratividade na venda de instrumentos por showrooms devido à “facilidade de comprar pela internet”. Segundo ele,

Barbara Ataide

Há quem diga que a rua passou dos tempos de ouro, há quem diga que “ela não é mais aquela”

É fácil encontrar caminhando pelas quadras da Rua Teodoro Sampaio músicos experientes e novatos, homens e mulheres de todas as idades e estilos. Pessoas que transitam pela movimentada via de Pinheiros e que, entre uma passada e outra, pa8

ram para observar a diversidade de instrumentos que as lojas que se concentram por ali oferecem. São instrumentos coloridos, com preços acessíveis ou mais caros. Guitarras, sanfonas, saxofones e flautas espalhados pelas vitrines que competem e se confundem

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umas com as outras, lado a lado. Ao dar início à reportagem, pairava a dúvida de saber se a rua continuava ou não sendo referência quando se fala em mercado de instrumentos musicais no Brasil. Para quem acompanhou o boom da Rua Teodoro Sampaio e

Aline Marangoni

ALINE MARANGONI

À esq. luthier Walter Gabriel; à dir. Adalberto Brajatschek (terceiro) ao lado dos sócios David Mazurchi e Ricardo Abe

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Aline Marangoni

“Tinha uma coisa de instrumento bom, hoje é a maior briga para vender instrumento chinês barato” JOÃO CUCA, proprietário da luthieria Ébano

Barbara Ataide

o movimento caiu bastante em relação ao que foi até nove anos atrás. Outro luthier, João Cuca, 59, foi o primeiro a estar na rua. Antes

dos anos 80, já morava na Rua Cristiano Viana, e depois de fazer aulas de manutenção de instrumentos de sopro, resolveu abrir o próprio negócio. Alugou uma pequena sala na Rua Teodoro Sampaio, em 82, e começou a atrair os primeiros clientes. Acompanhou os mais de 30 anos de história musical da Teodoro, e agora a compara à famosa Rua 25 de Março, também em São Paulo, não pelo gênero de produtos vendidos, mas pela qualidade popular deles e pela concorrência entre os comerciantes. “De repente, se você for na 25 de Março, você vai achar um joalheiro. Mas, a cada 300 vendedores de bijuterias de plástico ‘baratinha’, você vai achar um joalheiro. A Teodoro está ficando um pouco assim, eu acho. E não é saudosismo, não. Tinha uma coisa de instrumento bom,

Empresário João Cuca na loja de sua luthieria

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hoje é a maior briga para vender instrumento chinês barato”, opina. Para ele, que é músico e ainda hoje mantém um grupo chamado Saxomania, não foi só a Teodoro que mudou, mas o cenário da música paulistana em geral. “Tocamos em bares de jazz, mas tem tido poucos lugares pra tocar. Eu não sei, está meio inflado. Não sei se tem muito músico também. Eles excluem grupos, por exemplo. Meu grupo tem sete pessoas, fica difícil bancar cachê pra tudo isso”, diz. A empresária Edília Freire, 45, dona do Sebo Espaço do Livro, também afirma que não teve o seu setor afetado financeiramente. Há 11 anos na rua, ela diz que o movimento só aumentou, assim como sua concorrência. “Quando eu cheguei aqui só existia um sebo, e agora existem mais uns quatro ou cinco ao redor, em torno de um quilômetro”, diz. Os vinis, por exemplo, nunca deixaram de ser procurados em sua loja. “As pessoas falam ‘ah, o vinil voltou à moda’, eu digo que nunca saiu. Desde que eu tenho a loja, eu vendo vinis. Sempre teve público”, observa. Entre álbuns dos Beatles e de Chico Buarque, ela guarda raridades como um dos primeiros discos de Miles Davis, Candeia – samba antigo – e Menininha de Gantois, que são vendidos somente sob negociação. Se a rua perdeu o “glamour”, mudou de público e tornou-se mais acessível e popular, ainda há quem a frequente e a considere a melhor opção para encontrar qualquer tipo de instrumento, serviços ou pelo menos instruções e boas histórias, em mãos e em um único lugar.

Edília Freire, dona do Sebo Espaço do Livro

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Luthier Tibério Correa Neto na inauguração da Músicos; ao centro, Ricardo D’Apice; ao lado, sócios da loja

“Não tínhamos previsto nenhuma iniciativa comercial, era algo assim: ‘temos de comer’”.

Aline Marangoni

CAPA

RICARDO D'APICE, fundador da loja Músicos

Arquivo pessoal de Ricardo D’Apice

DEU CERTO!

Velha guarda da rua diz que o comércio vingou por acaso... E os novos empresários entraram na onda da história ALINE MARANGONI E BARBARA ATAIDE

O ex-baterista da banda Ira!, André Jung, 51, – que integrou também os Titãs na época em que o grupo surgiu como Titãs do Iê-iê – fala com propriedade sobre os “tempos de ouro” da Teodoro, que ainda frequenta, mas raras vezes. Ele era um dos músicos que, no auge da juventude, se encantou pelos movimentos culturais que começaram a ser organizados entre os músicos e artistas da região. Um deles foi o Lira Paulistana, que acontecia onde 12

hoje termina o comércio musical, na Praça Benedito Calixto. Ao lado dos integrantes de sua banda e dividindo o palco – e o papo – com outros grandes músicos, André foi um dos primeiros roqueiros a tocar no teatro que se transformou em um verdadeiro símbolo da música independente paulistana. Ele conta que chegou ali aos 22 anos, encantado pela ideia de sair da casa dos pais. Depois de concretizá-la, foi morar com mais dois amigos em uma das travessas da Teodoro. Jung conheceu há cerca de

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30 anos Ricardo D’Apice, 55, de certo o empresário mais citado durante as conversas sobre a Rua Teodoro Sampaio e sua história de sucesso. Atualmente os dois trabalham juntos no departamento comercial e no marketing da importadora e distribuidora Pearl, uma das maiores do Brasil e do mundo. Mas foi durante a juventude que eles partilharam das mesmas companhias e gostos musicais. Enquanto o músico buscava sucesso e revolução em suas composições, o lojista buscava maneiras de ganhar dinheiro para viver no Brasil.

Vindo da Argentina aos 19 anos, quase na virada para os anos 80, Ricardo não esperava se envolver com música. Ator de teatro, chegou ao país motivado exclusivamente pelas intervenções culturais que aconteciam por terras brasileiras, o que para ele e seus amigos argentinos era uma novidade, já que fugia do tradicionalismo que estavam acostumados a empregar em suas interpretações. “Não tínhamos previsto nenhuma iniciativa comercial, era algo assim: ‘temos de comer’”, conta. A venda de instrumentos começou pouco antes de efetivamente ir parar na Rua Teodoro Sampaio. Ele comercializava equipamentos usados que trazia da Argentina em sua casa através de anúncios no Jornal Primeira Mão. Deu sorte já nas negociações iniciais. “Uma das primeiras pessoas que visitou a minha casa para ver os instrumentos que vendia foi Lauro Lellis, que é dono do Centro Musical Morumbi. Acabamos tendo uma empatia e, em determinado momento, Lauro me disponibilizou a escola dele para colocar meus instrumentos à venda”, relembra. Enquanto dividia o tempo dando aulas de Artes Cênicas na Universidade de São Paulo, ensaian-

Aline Marangoni

Músico André Jung no showroom da multinacional Pearl

Galeria dos Músicos na Teodoro Sampaio

do e cuidando do negócio, que começava a levantar certa demanda, D’Apice conhecia artistas, músicos e outros profissionais do mercado, como o importador Leopoldo Seeber e o luthier de baterias Tibério Correa Neto. Sabia que no início dos anos 80 a região de Pinheiros era frequentada por muitos artistas, inclusive colegas seus, e foi nesse momento que, parte influenciado parte “perdido”, como ele diz, teve o insight de alugar a loja 8 da Galeria da Teodoro e arriscar o primeiro negócio “oficial” ao lado de mais quatro amigos, dois

brasileiros e dois argentinos. “Eu fiz uma equação simplista, digamos assim, que era ‘se músicos moram em Pinheiros, abriremos nossa loja de músicos em Pinheiros’. Aí, no Estadão apareceu esse anúncio da loja 8 e alugamos. Penamos bastante para arrumar um fiador, pois naquela época eu tinha 23 anos”, diz. Os instrumenos, usados, nem sempre eram seus e nem sempre estavam à venda. Isto porque, para tornar a vitrine inicialmente atrativa, ele pegava emprestado com amigos os aparelhos mais bonitos, mais 13


aprendeu muito com ele no período em que a música instrumental já cedia espaço aos primeiros embalos do rock paulista. Em meio a tanta clientela, somente depois de alguns meses o músico teve oportunidade de se apresentar para Ricardo, que lhe agradeceu pelas indicações. Ele acredita que, de certa forma, teve um papel importante para a divulgação do estabelecimento, “porque era eu quem agitava a coisa nas aulas de bateria”, diz. A imaturidade comercial possibilitou uma empatia naturalmente explícita nos jovens donos da loja Músicos. Aliada ao marketing de relacionamento que Ricardo já aplicava na época, foi determinante para o seu sucesso e o desenvolvimento do comércio na rua. Naquele período se popularizava o movimento do rock

brasileiro, que proporcionou o surgimento de grupos em Brasília, em São Paulo, em Porto Alegre e em outros Estados e capitais. Bandas e casas de shows como o Madame Satã, em São Paulo, eram rapidamente popularizadas pelos jovens da geração. A Rua Teodoro Sampaio contribuiu diretamente para isso, já que Ricardo emprestava (sim, muitas vezes sem cobrar o aluguel!) as baterias para as bandas se apresentarem em casas de shows. “Emprestávamos para Engenheiros do Hawaii, para Conexão Japeri – que foi a primeira banda do Ed Motta –, para a Mercenárias, pra banda do Renato Russo, Legião Urbana (...) Enfim, para as bandas que vinham tocar em São Paulo e que não tinham instrumento”, afirma. Até mesmo algumas bandas 15 se rendiam às facilidades paulistanas

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chamativos e exclusivos. O resultado veio, assim como os primeiros clientes que tinham a opção de, além de comprar, alugar baterias, guitarras e violões. Parte da movimentação inicial que a Músicos ganhou também partiu da indicação do músico e professor de percussão Zé Eduardo Nazário, 60, que, muito antes da loja se instalar, já dava aulas na região. “Eu, sem conhecer a loja, fiquei sabendo que tinha aberto e indicava pros meus alunos”, lembra. Como dava aulas de segunda a sábado, de manhã até a noite, não teve tempo de acompanhar sua inauguração. Zé Eduardo viu o nascimento do Lira Paulistana, tocou e deu aulas no teatro durante anos e, mais tarde, na loja Batucadas 1000, de Marcelo Domingos, de quem foi professor. André Jung também

Músico Zé Nazário, um dos primeiros a tocar no Lira Paulistana

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em conseguir equipamentos para shows. As formações de punk rock Inocentes e Ratos de Porão também já “bateram à porta” da loja 8. “Esse foi um diferencial que criamos no início. Nós éramos jovens, amávamos música, apesar de a nossa área de arte ser teatro, então o nosso tratamento era natural”, opina Ricardo. Depois de tantos empréstimos e shows que presenciou, o lojista perdeu as contas dos “patrocínios” que fez. Sua logo era divulgada na Folha de S. Paulo no painel de programações musicais, e com o boca a boca entre os artistas da cidade e fora dela, a sua popularidade crescia cada vez mais. Precisou se expandir para outra unidade, a loja 20, na mesma galeria. Aumentou também o número de funcionários, pois os cinco sócios já não davam conta de tanta procura. Com o passar dos meses e anos, os vendedores da loja notaram que o comércio musical na rua precisava se expandir. E tinha público para isso. Dali, daquela “escola”, saíram outros empresários que montaram comércios de instrumentos na rua, entre eles Sérgio Di Nardo e Marcelo Domingos, donos da Gang Music e Batucadas 1000, respectivamente. Entre os anos 80 e 90, a rua se resumia em lojas potenciais, cada uma com suas peculiaridades, que atraíam não só músicos como artistas de outros ramos: a atriz Mallu Mader, o Rei do Futebol Pelé e o surfista norte-americano Kelly Slater. Manifestações culturais também aconteciam ali, no meio da rua, como o Toca Brasil, idealizado e colocado em prática pelo músico e empresário João Matic. Por 10 anos, de 2000 a 2010, o projeto era apresentado todos os sábados em frente à loja que leva o seu sobrenome. Reunia artistas independentes e pessoas que

Aline Marangoni

CAPA

Na foto, Ricardo D’Apice, responsável pelo departamento comercial da Pearl

circulavam pela região ou que iam apenas para ver os shows. Matic despertou a ira da vizinhança, dos concorrentes e da polícia. O luthier de baterias Tibério, que revendia alguns de seus produtos ao empresário, contou inclusive ter enfrentado policiais durante uma das apresentações. Apanhou de cassetete por tentar impedir que os músicos que tocavam fossem agredidos e expulsos do local. Mas esse não foi o maior problema que Matic enfrentou. Desde o ano passado ele carrega um processo judicial e foi expulso do imóvel sob acusação de não pagar o aluguel durante anos. Por essa razão, preferiu não conceder entrevista à sãopaulo. Ele ainda mantém a sua loja na Rua, mas o pouco de lucro que

lhe resta é para pagar as dívidas e os custos com o advogado. A frequência com que aparece em público também é menor, e os projetos idealizados por ele que tanto animavam os frequentadores do local parecem estar longe de acontecer novamente. Ainda assim, os shows são relembrados em fóruns e comunidades da internet. O Toca Brasil ganhou até mesmo página no Facebook, apesar de ter deixado de existir. Os irmãos Vicente, Rita e Sérgio Di Nardo também acompanharam o desenvolvimento da Rua Teodoro Sampaio. Os dois primeiros são sócios da Krocodille Pop, que além de vender instrumentos usados a preços acessíveis, aluga seus produtos. Sérgio trabalhou para Ricardo D’Apice na Músicos e depois, ao


lado do luthier Tibério, abriu a Gang Music em 1986, uma das lojas potenciais da rua que existiu fisicamente até 2010, mas que hoje se mantém apenas no comércio virtual. Quando surgiu, embalada pela competitividade com a própria Músicos, tinha a ousadia de se chamar boutique musical. Desbocado, Tibério tira sarro da situação. “Ele [Sérgio] queria colocar o nome de ‘Boutique Musical Gang’ e eu falei ‘está muito viado’. No cartão, estava escrito ‘assessoria musical’, coisa que na época não existia. Hoje todo mundo é assessoria musical”, comenta. O nome Gang surgiu de um fato peculiarmente curioso e que Tibério não se importa em falar. Como a loja de Ricardo D’Apice dominava o mercado na região, trazendo ins-

trumentos de outros países ao Brasil e revendia com muito sucesso comercial, o luthier brinca que os apelidaram de máfia. “Quando nós fomos montar a loja, eu falei pro Sérgio ‘os argentinos são uma máfia. Se são uma máfia, vamos montar uma gangue”, diz. O nome foi adaptado para ganhar um ar mais vendável e artístico, que foi promissor. A rivalidade gerada pelo interesse comercial sempre foi entre os lojistas da rua, ao mesmo tempo, uma amizade. Tibério, por exemplo, fabricava baterias de qualidade internacional. Baseava-se nos melhores produtos estrangeiros para produzir os seus instrumentos. “Eu vendia muita bateria, muita mesmo, e consegui derrubar os fabricantes mais velhos do país, porque eu comecei

a fazer exatamente igual aos importados. O brasileiro ainda estava fabricando defasado 20, 30 anos [de atraso]. Então, deu aquele boom e eu comecei a vender muito”, explica. Qualidade tanta, que ficou reconhecida e concorrida no mercado. A fila de espera poderia levar até três anos, chegando ao ponto de fornecer metade de sua produção à Músicos, ao mesmo tempo em que revendia em sua própria loja. “Eu fabricava 180 baterias para a Músicos e 180 baterias pra mim. Eles queriam fechar toda a produção, mas eu não deixava, porque também tinha as minhas vendas por varejo”, conta. A iniciativa do comércio musical na Rua Teodoro Sampaio foi promissora, e tinha um espírito jovem. Nas conversas com todos esses

Arquivo pessoal de Ricardo D’Apice

Cartazes de shows patrocinados pela loja Músicos nos anos 80

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personagens que fizeram e fazem a história daquele lugar, o trabalho parecia se confundir com diversão, de modo que todos se conhecem, todos falam uns dos outros com autonomia e descrição de quem viveu tempos em que a realidade musical no país era algo sentido e vivido na pele, na alma e nos ouvidos. Como tornou-se referência nacional, pessoas de outros Estados chegaram à cidade para investir na rua. Como é o caso do músico e empresário Max Meyer, 47, proprietário do Studio Meyer, uma escola de música localizada no quarteirão da Teodoro Sampaio entre as ruas João Moura e Cristiano Viana. Ela é uma das mais procuradas, tanto por quem já entende de música, quanto por quem quer aprender os primeiros acordes no violão, ou ainda, soltar as primeiras notas afinadas no canto. O público é variado: homens e mulheres dos 3 aos 80 anos. Assim como outros donos de negócios da rua, o músico Max Meyer não é de São Paulo. Chegou à cidade, e mais especificamente à Teodoro, atraído pela popularidade e pela referência de centro musical que o logradouro já tinha na década de 80. Estudou música em Pouso Alegre, Minas Gerais, fez conservatório e lá se formou, foi quando começou a dar aulas em escolas de música de São Paulo. Até que, em 1994, seu irmão montou o Studio. O prédio era uma hospedaria que ia ser demolida. O irmão dele e o sócio compraram o hotel, fizeram uma reforma e montaram uma estrutura para escola de música, com estúdios e salas de aula. Tanto é que cada sala ainda guarda um depósito que é um extinto banheiro. A escola oferece desde cur-

Aline Marangoni

CAPA

Max Meyer, dono do Studio Meyer, em uma de suas salas de aula

sos de violão e guitarra a violoncelo, flautas doce e transversal e a teoria da percepção musical. Mas o mais curioso é que, segundo o proprietário, o curso mais procurado é o de guitarra, especialmente pela influência da tecnologia, que permite fácil acesso a acervos musicais, e dos clássicos do rock presentes em games como Guitar Hero e nos musicais da televisão. “Hoje é normal, o garoto chega com seis anos de idade e quer tocar Iron Man, do Black Sabbath, porque no Guitar Hero tem o Iron Man”, afirma. Dos empresários atuais da rua, Eduardo Palombo, 30, é um dos mais jovens deles. “Não sou músico. Só trabalho mesmo, sou um investidor, administrador, como quiser chamar”, diz. Diferente dos pioneiros da rua, o lojista a vê estritamente como

um mercado potencial. Somente ele tem cinco lojas no logradouro. A mais antiga delas é a Monte Cristo, que já vendeu para Zélia Duncan – assídua frequentadora – e para Seu Jorge, que chegou a usar a guitarra comprada na loja durante sua participação no show do U2, em 2011. O Outlet Musical é o mais novo negócio de Eduardo, tem apenas seis meses. A proposta da loja é oferecer instrumentos a um preço muito mais baixo do que o original, pois são produtos antigos. Segundo ele, o público de suas lojas varia; nessa, por exemplo, é em sua maioria das classes B e C.

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ROTEIRO

Dedilhando a Teodoro:

um tour musical

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O paulistano que se interessar em “dedilhar” o trecho musical da Teodoro Sampaio poderá se surpreender com detalhes tipicamente urbanos. Às 9h as primeiras portas começam a se abrir na Rua Teodoro Sampaio. Para um visitante que deseja fazer um tour pelo comércio desde cedo, o ideal é tomar café por ali mesmo, para depois iniciar o caminho rua abaixo. Como o logradouro fica próximo à estação Clínicas da Linha 2 Verde do Metrô de São Paulo, o indicado é ir a pé, já que a rua é bem movimentada, uma das principais vias da região, que serve para o transporte de ônibus e tem mão única no trecho que corresponde ao mercado musical. Claro que essa é uma opção para quem não pretende voltar para casa com apenas uma guitarra ou violão. No caso da compra de instrumentos de maior porte, a região tem estacionamentos que custam a partir de 15 reais a 1ª hora, e ruas adjacentes que são mais tranquilas e residenciais. Dando sorte é possível encontrar vagas disponíveis. Veja no infográfico detalhes dessa viagem sonora – aproveite para ler ouvindo...

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ROTEIRO

Pão na chapa:

Para aprender e aperfeiçoar:

A Padaria Pão de Ouro [nº 567], antes da travessa com a Capote Valente, oferece o melhor pão na chapa com manteiga do local, que pode ser acrescentado de requeijão. Uma boa pedida para acompanhamento é o suco de laranja, bem doce, ou para quem prefere os cafeinados, o tradicional expresso.

5 Mais livros:

No quarteirão entre as ruas Capote Valente e Alves Guimarães existem mais dois sebos que oferecem discos e livros variados. São diferentes opções para buscar um grande álbum musical, uma obra clássica da literatura ou ainda um livro acadêmico.

1 Demo a vista:

Logo no número 462 está o Produssom. O estúdio oferece 11 salas que atendem desde bandas pequenas e iniciantes até produções mais exigentes. A outra unidade, no número 512, possui uma grande sala de 80m² e outra com aproximadamente 35m², ambas ligadas por uma sala técnica equipada para realizar gravações ao vivo.

Rua Teod oro Sam paio

Pela sequência da descida, depois da 1ª travessa, há à direita o Outlet Musical no 636, que oferece instrumentos próximos ao preço de custo. Alguns são produtos antigos, que tem pouco giro comercial, e acabam saindo mais baratos do que os outros atuais e modernos comercializados na rua.

6 Variedade musical:

Pouco antes da padaria, o Sebo Espaço do Livro, n° 539, serve tanto para quem quer comprar livros de música, quanto vinis ou clássicos da literatura. Aos sábados, o local é palco para músicos independentes que se juntam para tocar Jazz, Blues, ou ainda, no último fim de semana do mês, um Choro.

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De pop a samba:

Ainda na galeria, na área de discos, sejam vinis ou CDs, a loja 4, Pop’s Discos, vende desde álbuns apenas instrumentais, como os do músico Zé Eduardo Nazário, até clássicos do rock como Led Zeppelin.

Baratinho:

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Conserto e personalização:

Discos, livros e jazz:

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A Free Note, também no lado par da rua [nº 785], é especializada em Métodos Didáticos, songbooks e partituras. Além dos 15 mil títulos disponíveis, o acervo deles oferece mais de 1.500 DVDs didáticos, nacionais e importados. O ambiente e o atendimento são acolhedores.

Depois da travessa da Teodoro com a Alves Guimarães, fica uma das maiores lojas da região, a PlayTech, que só concorre diretamente em tamanho e variedade de instrumentos com a Made in Brazil. O instrumento mais vendido na loja é a guitarra elétrica, que custa desde 300 reais até aproximadamente 6 mil, de acordo com a marca, modelo e exclusividade.

Ao lado esquerdo, no número 763 está a Galeria dos Músicos, que sozinha oferece 15 diferentes estabelecimentos musicais que variam entre oficinas de luthierias, lojas de instrumentos e de discos. Dos serviços citados, o luthier Walter Gabriel é indicado para quem quer consertar ou busca por um instrumento de corda personalizado.

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Para todas as idades:

Mais abaixo, depois da travessa com a Cristiano Viana, está o Studio Meyer, que, apesar de carregar “estúdio” no nome, é uma escola de música com cara de hospedaria. O local oferece cursos dos mais variados como Guitarra, Viola Caipira, Violoncelo, Gaita Blues, Acordeon, Canto e Teoria da Percepção Musical.

Megastore:

No número 777, ainda na calçada à esquerda, está a Made in Brazil, que entre seu “carro chefe musical” oferece guitarras das mais variadas marcas, cores e formatos. Também é fácil encontrar por ali, a qualquer momento, um dos vendedores “fazendo um som” para a galera que consome ou passeia por seus corredores.

14 Feijuca da boa:

Para quem aprecia uma boa feijoada, a melhor indicação é o restaurante Consulado Mineiro, que fica no número 74 da Praça Benedito Calixto. A refeição é oferecida todos os dias, mas quem for degustá-la aos sábados precisa se preparar, pois há fila de espera. O lado positivo é que há espaço para sentar ou ainda uma larga calçada propícia para novas amizades.

11 ... E o da batera:

10 O cara do sopro:

Do outro lado da rua, a luthieria Ébano reúne profissionais que se uniram ao João Cuca, que já no início dos anos 80 conquistava a clientela e fazia seu nome quando se falava em instrumentos de sopro. São 59 anos de idade, sendo mais da metade deles de profissão.

Pouco abaixo, no 778, está o luthier Tibério Correa Neto, renomadíssimo no ramo de baterias. A dica é: ainda que você não seja baterista, vale a pena bater um papo com ele, pois com mais de 30 anos de profissão, acredite, ele tem muita história pra contar!

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QUEM FALA

“Tenho o hábito de tratar as pessoas de igual para igual, sem fazer muita ‘firula’ para o artista” De estoquista a empresário de sucesso, Marcelo Domingos abre sua casa para a sãopaulo BARBARA ATAIDE

A história musical de “Domingos” – como o chamam os mais chegados – começou muito antes que tivesse dinheiro e talento para abrir a primeira loja. Seu pai, Domingos D’Amico, foi o primeiro baterista de Roberto Carlos, ainda no início de sua adolescência. A mãe, Maria Regina da Cruz, era quem fazia as roupas da Vanderlea, Ronnie Von, Erasmo Carlos e do próprio Roberto na época em que começaram a estourar nas rádios, em meados dos anos 60. “Eu tive uma influência familiar musical muito grande. E quando fui para a Teodoro, me apaixonei”, diz. O músico e empresário Marcelo Domingos, 39, é um dos experts da Rua Teodoro Sampaio. Na verdade, foi. Hoje continua dedicando-se ao mercado musical, mas deslocou sua empresa para a Zona Sul da cidade, onde se encontrou com a sãopaulo. Mudou não por ter perdido a paixão pela Teodoro, mas porque precisava de um espaço maior e mais saudável para criar os quatro filhos, ao lado da esposa e sócia Sheila.

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Ainda assim, não poderia deixar de ser lembrado, citado e ganhar espaço neste especial, já que ficou na rua por 23 anos, 15 deles com loja própria, recebendo com frequência visitas ilustres que iam desde astros do rock como Elton John a craques do futebol mundial, como o argentino Carlito Tévez. Acostumado a lidar com artistas desde criança, diz que os recebe sem “firulas”. A Batucadas 1000, ele tem desde 1996. “Exatamente em 5 de setembro de 1996”, diz ele, orgulhoso em manter fresco na memória o dia da inauguração. “Eu sugeri essa ideia para a – na época, minha namorada – Sheila, que hoje é minha mulher. Ela gostou, montamos juntos a empresa e estamos juntos até hoje”, conta. O empresário chegou à rua ainda moleque. Aos 16 anos de idade, seu primeiro emprego foi para trabalhar como estoquista na loja Músicos, virou vendedor e depois foi promovido para o departamento de marketing. Passou por diversas áreas da empresa e fez escola. A

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segunda loja em que trabalhou foi a P.A. Instrumentos, onde também passou a entender de áudio e tecnologia. Mas foi ao trabalhar com João Matic – na loja que leva o sobrenome do dono –, que percebeu que já era uma pessoa popular na Teodoro. “Muita gente ia me procurar na loja dele, e eu achei que eu tinha a chance de, de repente, montar a minha empresa. Resolvi abrir uma loja ligada ao que eu amo mesmo, que é percussão e bateria”, explica. A Batucadas 1000 enfrentou vários altos e baixos. E com as dificuldades, passou a inovar. Além de loja, virou escola, oficina de luthieria, locadora de instrumentos

musicais e distribuidora. Como surgiu a sociedade entre você e a Sheila? Em que momento se conheceram e decidiram montar o negócio? Ela já era minha namorada desde menino, desde os meus 16 nós estamos juntos. Temos uma história de amor e trabalho. Por que a loja saiu da rua? Muita poluição; poluição sonora, poluição no ar. Eu também estava cansado da mesmice, sabe? De ter que fazer a mesma coisa durante tantos anos. Resolvemos inovar mesmo, mudar radicalmente. Encontramos esse espaço,

que você vê que é gostoso, um espaço mágico, com uma boa energia, uma vista deslumbrante e canalizamos a energia toda aqui. E quando a Batucadas virou distribuidora, nós começamos a revender para outras empresas, como a Made in Brazil, a PlayTech, a Timbres, empresas do Rio de Janeiro, e o pessoal começou a ficar meio contrariado em saber que nós ainda estávamos no varejo. Os produtos da nossa marca entravam na empresa deles e ao mesmo tempo atraiam clientes para a nossa empresa, também do varejo. O principal ponto da mudança foi sair do varejo para poder nos dedicar como distribuidora e atender as outras empresas.

Hoje trabalhamos com a internet. Na época nós fomos a primeira empresa no Brasil, pelo menos em São Paulo, a ter site. Compramos uma linha de telefone muito interessante, e hoje a nossa empresa basicamente está toda em cima da internet e da linha de telefone. A mudança tem sido um aprendizado também, porque lá tínhamos a facilidade de estar com a porta aberta e hoje temos a necessidade de buscar novas ferramentas de trabalho. Mas eu te digo que valeu a pena, 100%. Vocês fornecem também para a Prefeitura? Prefeitura, ONGs, escolas infantis, escolas de Ensino Fundamental, universi-

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ENTREVISTA

E o que você acha que foi fundamental pra você ter todo esse conhecimento hoje, ser conhecido e reconhecido também? Fundamental? Dedicação. Dedicação de fazer o que a gente faz com gosto, com amor mesmo. Desde o começo, desde o primeiro dia da empresa, o diferencial foi a marca. O nome Batucadas 1000 ficou muito forte dentro do Brasil e a dedicação é sempre especial. Seus filhos também estão ligados à música? Tenho dois casais. O Gabriel está com 15 anos, é músico, toca bateria, violão, guitarra e contrabaixo. O Thiaguinho toca bateria também, está com nove anos. A Maria tem seis anos, mas já tem a tendência forte para a arte, para ser cantora. E a Vitória, ainda não sei, porque ela está com quatro meses, ainda não dá para descobrir. Mas provavelmente vai tender também para o lado da música. E agora tudo o que era da antiga loja está na casa atual de vocês? Sim, inclusive, vamos montar um estúdio aqui. Quando saímos da Teodoro, a ideia era na verdade continuar na Teodoro. Eu estava alugando uma sala no prédio em frente para montar um showroom, um escritório, e fazer o mesmo serviço que eu tenho feito aqui, só que lá. Mas quando eu encontrei essa casa, 24

pelo tamanho dela, pela energia, eu resolvi sair de Teodoro de vez. Eu ficava com receio de sair da rua porque eu encontrei muitas raízes lá. Mas não me arrependo não, estou feliz. Algo que me chamou atenção foi os instrumentos exóticos de outros países que vocês vendem. Como funciona o processo de aquisição? Esse é o grande segredo da Batucadas. Foi o que fez a Batucadas passar apuros, e ao mesmo tempo reforçar essa marca. Quando montamos a empresa, a ideia era ter um diferencial, porque como eu sou músico baterista, eu procurava as coisas pra comprar e não encontrava. Então a ideia era qual? Era ter tudo o que ninguém tinha, instrumentos exóticos mesmo, principalmente do Brasil. E conforme o passar do tempo, como fomos amadurecendo como empresa, acabamos adquirindo instrumentos de todas as partes do planeta, e isso virou o grande referencial. Temos instrumentos da Indonésia, da África, do Egito, do Marrocos, instrumento popular brasileiro, e por aí vai. São instrumentos exóticos. Você vai encontrar desde um tamborim, que é brasileiro, a um Durback ou um Djembe, o instrumento mais sagrado da percussão. Hoje a Batucadas tem 14 revendas. Dentro do Estado de São Paulo, trabalhamos com lojas de instrumentos musicais, brinquedos educativos e com o mercado de turismo. E como funciona a importação desses instrumentos? São vocês que procuram? Hoje temos muitos fornecedores que vem até nós para trazer os instrumentos. Antigamente procurávamos. Mas fizemos isso sempre dentro do Brasil.

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dades. Nós temos feito muita prestação de serviços, locando. Fiz uma locação para a Brahma que vai ter um comercial da Copa do Mundo. Já loquei pra comercial da Toyota, comercial da Ford, e da Chevrolet. Temos tido um novo mercado, principalmente porque eu aprendi a trabalhar melhor com a internet e tenho aberto novas fronteiras.

Instrumentos exóticos vendidos pela Batucadas 1000; à esq. pele de bateria autografada pelo baterista Tré Cool; abaixo, autógrafo do surfista Kelly Slater

Para qualquer tipo de instrumento que tenha vindo de fora, os contatos foram feitos dentro do Brasil. Esse tipo de nicho de mercado com o tempo foi amadurecendo e aparecendo. Tem algum instrumento mais procurado? O instrumento brasileiro mais procurado, sem dúvida, é o pandeiro. O pandeiro e o tamborim. E dos instrumentos de fora do Brasil, os mais procurados são o Derback e Djembe da África. O Derback vem inclusive de um lugar que está em crise total, que é da Síria. Eu nem sei por quanto tempo mais teremos fornecimento dele. E qual é o valor médio dos seus

produtos? Os exóticos são mais caros? É, eles são caros, não são baratos. O Djembe custa em média 900 reais, e o Derback uma média de 500, 600 reais.

Você conheceu muitas personalidades na sua carreira? Conheci muita gente. A Batucadas, desde o começo, atraiu muitos músicos famosos, atletas famosos, jornalistas, desenhistas, personalidades e pessoas “descoladas” do meio. Nós tivemos, por exemplo, visitas ilustres como a do surfista Kelly Slater, que foi junto com o skatista Bob Burnquist. Um levou o outro para a loja. De músicos consagrados como o Ivan Lins, Ana Carolina, bateristas de bandas famosas, como o Tré Cool, que é o baterista do Green Day – toda vez que ele vem para o Brasil, ele procura a gente –; Jack Jonhson, os irmãos Caruso também, o Paulo e o Chico; Genival Lacerda, figu-

rinha do forró; o Carlito Tévez, jogador de futebol; entre outros jogadores de futebol que foram na loja. O Carlito Tévez foi na época em que ele jogava pelo Corinthians. No final do Campeonato Brasileiro, quando eles ganharam, ele foi lá fazer compras para a festa de comemoração. O Jack Johnson foi por intermédio de alguém. Foi super simpático, chegou de ‘chinelão’ na loja. O Tré Cool? Toda vez que ele vem pra cá ele fica na minha casa, almoça com a gente, fica de chinelo, fica tocando “batera”, se diverte, vamos a shows juntos... Levei-o, inclusive, para um ritual de Djembe que tinha antigamente na Companhia de Percussão Paulo Campos. Ele “pirou” lá. Tenho o hábito de tratar as pessoas muito de igual para igual, sem fazer muita “firula” para o artista, para quem seja. E eu acho que é isso que tem dado muito certo. Você acredita que a Rua Teodoro Sampaio ainda é uma referência para o mercado musical brasileiro? Com certeza. A rua vai ser sempre uma referência. Depois que a Músicos plantou essa “sementinha” ali, vieram outras grandes lojas, tipo a Gang, depois a PlayTech, e a Made in Brazil. E a única coisa “chata” da rua é que ela tem muitas lojas, mas muitas que vendem a mesma coisa. Antigamente era mais legal, pois tinham um diferencial. O [lojista] Pai do Rock era especializado em guitarra, a Batucadas no “lance” de percussão, e o Matic também na parte de guitarras exóticas. O grande diferencial que sobrou na Teodoro hoje são o Matic e a Krocodille Pop, com toda a certeza.

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PERFIL

MÚSICA? DESDE 50, ELE SABE Importador Leopoldo Seeber esteve por trás dos principais acontecimentos da Rua Teodoro Sampaio e do mercado musical brasileiro

BARBARA ATAIDE

Olhar de quem já viveu muito na vida e desconfia de quem pode chegar de mansinho e duvidar de sua experiência. Leopoldo Seeber, 71, carrega uma barba longa e branca, que já o acompanhava anos antes, mas que agora ganha uma predominância em sua aparência ao tempo que desbota mais e mais. Os óculos são também um acessório marcante em seu rosto enrugado pela idade. Voz grave e cheia de histórias para contar. Para quem logo chega sem começar a conversa, ele até intimida: tem jeito de quem 26

gosta mais de um papo breve, sem tempo a perder. Mas é só estender a conversa por alguns “minutinhos” que logo se percebe que ele tem muito para contar, e quer contar. Leopoldo começou, aos 15 anos de idade, a trabalhar na Casa Manon, uma das mais tradicionais e completas lojas de instrumentos e acessórios musicais de São Paulo. Ao lado do pai e do avô, o garoto aprendeu a entender e se apaixonar por música. Muitas vezes, não por vontade própria, conta ele, mas porque quando chegavam os clientes,

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diziam “Vá falar com o Leopoldo”. ”Eu trabalhei numa firma que era a maior importadora do Brasil. Ela representava 50% do mercado. Então, tudo o que aconteceu no mercado de instrumentos musicais, eu tenho noção desde 1941. Quando eu me dei por menino conhecedor – de 1950 pra cá – tudo o que você verificar sobre instrumento musical que tem aqui [no Brasil], passou antes na minha mão. Não porque eu era importante nem nada, mas porque eu trabalhei numa empresa que representava tudo isso. Um fa-

bricante na Alemanha pensava ‘ah, eu quero vender pro Brasil’. Diziam ‘vá à Casa Manon!’. Os donos da tal loja, já idosos – inclusive meu pai –, abandonavam e diziam ‘fala com o Leopoldo’”. Ele apelidou a empresa de “pia de água benta”, pois atraia pessoas que depois viriam a se tornar grandes músicos, como Cesar Camargo Mariano, pianista e arranjador brasileiro consagrado internacionalmente. Ganhou ainda mais renome ao ser convidado para dirigir, produzir e fazer os arranjos para o álbum “Elis”, da cantora Elis Regina, em 1972. Foi assim que, meio por aca-

so, o importador vivenciou tempos em que a compra de equipamentos estrangeiros era algo praticamente inatingível. Mas dava-se um jeito! Os pedidos de produtos eram feitos à carta, e chegavam depois de meses ao seu destino. Os instrumentos e acessórios então, muito mais. “Demoravam um ‘mundaréu’ para chegar”, diz ele. E os tramites aconteciam na confiança de que tudo daria certo, assim como o pagamento. A tecnologia foi avançando e lá pela década de 60, ele já podia utilizar o telefone à manivela com um pouco mais de habilidade. O importador vivenciou ainda o auge da Ditadura Militar, que assim como influenciou, privou e prejudicou outras áreas comerciais, abalou o mercado musical de 1964 a 1985. Leopoldo conta como despistava a fiscalização e trocava mercadorias importadas por produtos nacionais. “Eu me lembro de ter comprado milho, açúcar, soja. Comprava do governo brasileiro, pagava para ele, mostrava aquele documento de que tinha pago e com isso, eles permitiam que trocasse aquela ‘soja’ por um instrumento musical na Europa”, conta. A empresa em que trabalhava dominava metade da cota permitida para o mercado nacional. “Se eles liberavam 10 mil dólares, 5 mil eram nossos”, diz. Somente empresas pioneiras e que tinham anos de tradição souberam se adaptar e se mantiveram nessa realidade, as pequenas faliram. É por estas experiências e outras mais que Leopoldo Seeber se compromete a afirmar, sem arrogância, que se tem uma coisa da qual entende é o mercado musical brasileiro. “Muita gente tem o Leopoldo como um grande amigo, um grande

aliado, a pessoa que sabe tudo, mas ninguém conta as verdades, sabe? Todo mundo ficou erudito sem escola. Certo?”, observa. Hoje ele presta consultoria para muitas lojas das quais viu nascer na Rua Teodoro Sampaio. Presta serviços nacionais e internacionais. Se quiserem importar, falam com ele. Se quiserem exportar, também. Leopoldo vivenciou o tempo em que a rua começou a desenvolver esse ramo de mercado. Conheceu o João Cuca, que conforme esclareceu à sãopaulo, iniciou a sua jornada na rua num tempo atual se comparado à experiência de Seeber, já em 82. “O João Cuca foi a primeira pessoa a ter uma firma de instrumentos musicais aqui na rua e ele é famoso porque mexe em sopros, em saxofone... Não tinham outras lojas, pois eram no centro velho da cidade, na 24 de Maio, Santa Efigênia. Aqui não tinha lojas de instrumento musical, de jeito nenhum. (...) O João Cuca é o pai da rua”. Leopoldo fala com prioridade sobre a origem, o desenvolvimento e o auge da música na Rua Teodoro Sampaio. Ele descreve que quando o argentino Ricardo D’Apice chegou ao local e montou a loja Músicos, o local virou um point da juventude artística, que na época arriscava os primeiros “shows de garagem” e apresentações entre amigos. Nos bastidores de tudo o que chegava, saia, aparecia e se movimentava pela rua, lá estava ele, auxiliando e dando consultoria a quem lhe pedisse ajuda. Afinal, são mais de 30 anos de casa na Teodoro Sampaio.

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Ilustração de Ely Ricci

ORIGEM CERTEIRA Muito antes de abrigar o comércio musical, a Teodoro Sampaio já era frequentada pela burguesia e servia de palco para a infância de Oswald de Andrade ALINE MARANGONI

Desde a sua criação, no ano de 1897, a Teodoro Sampaio já era considerada uma das importantes vias de São Paulo, a começar pelo nome, que lhe foi dado em homenagem a um dos engenheiros, geógrafos e historiadores mais importantes do Brasil. Naquele período, o lote Vila Cerqueira César, do qual a rua

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pertencia, acabara de ser inaugurado pelo vereador José Oswald Nogueira de Andrade, pai do escritor Oswald de Andrade. Em um de seus livros, Um homem sem profissão: memórias e confissões, sob as ordens de mamãe, o artista revela, com ar de orgulho, a contribuição do pai para a região:

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“A Vila Cerqueira César tinha sido aberta pelo esforço de meu pai. Ele a arruara, transformando-a da Chácara Água Branca dos Pinheiros e do Sítio Rio Verde num bairro urbano, onde conseguiu fazer penetrar, nos primeiros quarteirões da Rua Teodoro Sampaio, o bonde da Light”.

lação e por ficar relativamente próxima da Paulista, inaugurada anos antes, em 8 de dezembro de 1881. A avenida era o grande ícone da capital, frequentada pela “elite”: ricos e famosos. Segundo Levino Ponciano, “em outras palavras, a principal artéria desse imenso corpo chamado São Paulo”. No início do século XX, a Teodoro era vista como a rua principal de Pinheiros e apresentava os primeiros comércios. Mas a especialidade musical só chegou 80 anos depois, quando, popularizada por uma elite artística e estudantil, virou cenário de encontros, manifestações culturais e reivindicações políticas, entre eles a criação do teatro Lira Paulistana, que acontecia na altura da Praça Benedito Calixto. A demanda relacionada à movimentação de artistas e músicos independentes pela região – muitos deles moravam na Vila Madalena, bairro vizinho – e à busca por instrumentos musicais e produtos ligados ao gênero fez com que, na década de 80, surgissem as primeiras lojas especializadas. Em outro trecho da obra, Oswald de Andrade descreve momentos de sua juventude que passou pela região. Fala de seu pai e de sua mãe e descreve detalhes do bairro e acontecimentos que presenciou ali.

¨Meu pai, de preto e chapéu-coco,

tendo ao lado o motorneiro, era quem conduzia o bonde com os seus próprios braços.

¨

HISTÓRICO DA RUA

Por herança de seu sogro, ao casar-se com Ignês Henriqueta de Sousa Andrade, tornou-se proprietário da Chácara da Água Branca, da Chácara de Pinheiros e do Sítio Rio Verde. Em 1890 loteou a área. A realidade do bonde foi vista por poucos que ainda estão na rua. A única pessoa entrevistada pela sãopaulo que afirmou ter vivido e, ainda mais, ter andado no bonde, foi o senhor Tommaso Greco, imigrante italiano que mantém sua alfaiataria na Galeria (agora dos Músicos) há 56 anos. Ele também acompanhou o crescimento e desenvolvimento da Rua, inclusive na área de móveis e principalmente musical. Quando questionado sobre o barulho dos instrumentos como guitarras e baterias, ele disse não se incomodar mais. A rua serviu, então, como pano de fundo para a juventude do artista plástico, já que seus pais residiam à Rua Teodoro Sampaio, no número 114, esquina com a Oscar Freire. Anos depois, o garoto viria a se tornar um dos artistas mais importantes da história brasileira como um dos precursores da Semana de Arte Moderna. A região passou a ser considerada nobre pelos paulistanos, em especial por ser vizinha da Conso-

O artista – nascido em 1890 – diz que, naquele período, seu pai era vereador municipal e também por isso foi o precursor do desenvolvimento da região. O cargo, ele conquistou devido a um convite do líder Cerqueira César, razão pela qual nomeou o bairro com seu nome, em sua homenagem. “Uma banda de música estrondou na manhã, quando o veículo vermelho apontou nos trilhos virgens [...]. Meu pai, de preto e chapéu-coco, tendo ao lado o motorneiro, era quem conduzia o bonde com os seus próprios braços. Dona Inês olhava do portão da casa do compadre Antenor, à Rua São José, atual Oscar Freire, onde armara seu quartel-general, junto à esquina da Teodoro Sampaio”. De acordo com o jornalista Levino Ponciano, estudioso da metrópole paulista citado na introdução desta reportagem, nos primeiros anos de 1900, a Rua Teodoro Sampaio era a via principal do bairro e estava ladeada de estabelecimentos comerciais e de residências. Em 1913, chegou o primeiro bonde, linha 29, que ia até Pinheiros. E anos depois, já em 1944, foi construído na região um dos maiores hospitais do mundo, o Hospital das Clínicas. Seja de Pelé, Oswald de Andrade, Ira! ou dos jovens músicos que frequentam a rua, a Teodoro Sampaio ainda respira em meio a competitividade do e-commerce, de feiras como a Expo Music e de outras ruas como a Santa Efigênia, que também vende instrumentos, mas a outro nível de excelência. Por quanto tempo sua fama como especializada em instrumentos musicais vai sobreviver, ninguém sabe informar. Mas uma coisa é certa: ela ainda vive e sua história jamais será apagada.

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GALERIA

Manifestações artísticas, visitantes e instrumentos vendidos na Rua Teodoro Sampaio

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Rua Teodoro Sampaio