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Seções

Editorial

L.

A

bra o dicionário na letra L. Procure pela palavra “loucura”. Você achará algo muito parecido com distúrbio ou alteração mental caracterizada pelo afastamento mais ou menos prolongado do indivíduo dos seus métodos habituais de pensar, sentir e agir. Ou poderá achar ainda sinônimos, como alienação mental, insensatez, doidice... Saindo do dicionário para o senso comum, as definições pouco mudam. O “louco” é sempre aquele desprovido da razão, que não se encaixa nos padrões, o que não é “normal”. Para a medicina, a definição do “ser louco”, ou psicótico, como é preferido chamar, também é baseada nos limites da normalidade. Já para os psicanalistas, a definição do louco chega até a ser poética. Como diria Lacan, o psicótico é aquele que tem o inconsciente a céu aberto. Quando o assunto vem à tona, aquela frase famosa do Caetano Veloso salta aos olhos. Sim, de perto ninguém é normal. Mas é bom saber que esse clichê tão verdadeiro é fruto de outra frase já entoada pelo cantor. Essa mania de colocar rótulos e julgar os que não estão no padrão de normalidade acontece porque nós, narcisos, achamos feio o que não é espelho. Mas quem devemos ouvir, então? Psiquiatras, psicanalistas, assistentes sociais, a voz do povo ou Caetano Veloso? Não importa. A definição nunca será completamente satisfatória ou abordará a complexidade do termo. Até porque ele, em si, envolve distintas e inúmeras áreas do conhecimento e não cabe a nós julgar quem está mais certo ou mais errado. Nos coube tentar entender o que pensam médicos, psicólogos, psicanalistas, juristas, leigos e loucos. Justifica-se, assim, a escolha do nome desse jornal: loucuras, no plural. Não queremos delimitar conceitos, mas propor debates, discussões e reflexões acerca desse tema tão polêmico e ainda tratado com tanto preconceito na sociedade. O que é “ser louco”? Como são tratadas as pessoas assim diagnosticadas? O que pode desencadear essa patologia? Não temos todos um pé na loucura? Ah, se conseguirmos responder a tudo isso... Afinal, apenas uma coisa é certa: na loucura ou na sanidade, o normal – bem como o real – são sempre criações de nossas mentes pensantes.

Expediente

Editorial

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Expediente

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De louco cada um tem um pouco

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Diagnóstico: primeiro passo para a convivência

Olhares Psiquiatras divergem sobre situação de hospitais

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Em busca da humanização do tratamento psiquiátrico

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Do lado de cá

Ana Laura Farias Amanda Souza Davi Lira Débora Duque Denilton Laranjeira Eutalita Bezerra Erizon Oliveira Gianni Paula Gabriela López Ingrid Melo Janaina Negreiros Júlia Arraes

Luísa Ferreira Luiza Falcão Marcella Semente Naira Sérvio Nathalia Pereira Pacífico Neto Pedro Paz Peterson Mayrinck Rafael Souza Sheila Tavares Tauan Saturnino Túlio Vasconcelos

Fotografia

Diagramação

Camila Lemos Clarissa Gomes Davi Lira Erizon Oliveira Denilton Laranjeira Lucas Campelo Rafael Moura Wesley Prado

Aaron Athias Erizon Oliveira Lucas Campelo Mariana Ferraz Matheus Torreão Paulo Andrade Rafael Moura

Produção de Fotografia Aline Franceschini Rachel Queiroz Yuri Assis

Edição de Fotografia Clarissa Gomes Paulo de Andrade Rafael Moura

Edição Aline Franceschini Amanda Souza Ana Laura Farias Gabriela Bezerra Pacífico Neto Júlia Arraes Marcella Semente Vanessa Araújo Yuri Assis

Ilustração Aaron Athias Lucas Campelo

Paula Reis Wilma Morais

p.8 p.9

Entre as grades do manicômio judiciário Muralhas da solidão A estrutura falha é a sociedade

p.10 p.11 p.11

Convivência A esperança em dias melhores

p.12

Vida insólita, saúde mental desfalecida

p.13

{Ensaio Fotográfico} páginas 14 e 15

Representações Sociais A loucura na cabeça do povo

p.16

Reflexão sobre a visão da loucura

O Arquétipo Zero

p.17 p.17

Senso Comum

Edição e revisão final

Transtorno sexual: quando o sexo vira loucura

Diego Robeh Eutalita Bezerra Gabriela Bezerra Rachel Queiroz Raíssa Ebrahim Tatiana Bottentuit Vanessa Araújo Yuri Assis

O céu e o inferno de Pedro Entre a compulsão sexual e o desamor

Colaboradores

Fora do Trilho

p.18 p.19 p.20

Estado de transe Transe Coletivo

p.21 p.21

Universo

p.22 p.22

(Psicanalista)

Tipos, casos e exemplos Sobre a solidão e a importância do outro no tratamento

Michael Arafat

Desabafos artísticos

p.23

O Imaginário no Museu

p.23

Representações na sala de cinema

p.24

Andréa Echeverria

(Estudante de Design Gráfico da Unibratec)

(desenhos dos usuários)

Desenhos das letras L, R, S, U (Universo) e A.

Priscila Santos (Estudante de Artes Plásticas da UFPE)

(exposição no Murilo La Greca)

p.22

Ilustrações da página 21

Arte e Estética Agradecimentos especiais Gilvanice Noblat

Orientação

Onde o concreto vira abstrato

Jornal-laboratório do Curso de Jornalismo da UFPE - 2010.2 | Departamento de Comunicação Social - dcom@ufpe.br

Reportagem

p.4 p.5 p.5

Cadê meu filho que estava aqui? Poder autofágico

(Psiquiatra)

Nelma Melo

(Psicóloga e sanitarista)

Quando a loucura se fez de dentro do manicômio Trechos do diário do hospício Entre gatos e traços

p.25 p.25 p.25

O Deserto Vermelho, filme de Antonioni

p.26

A loucura racional do maluco beleza

p.26

Tereza da Costa

(Assistente Social)

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Utopia Os sonhos que nunca conseguiremos entender

p.27


De louco cada um tem um pouco? Janaína Negreiros

D

e louco cada um tem um pouco! O provérbio parece piada, mas de fato todos nós – seres humanos adjetivados como normais – temos elementos que compõem as estruturas psíquicas neuróticas, psicóticas e perversas. A ansiedade, demência, cisma, angústia, medo, manias, culpa, sarcasmo são alguns desses componentes. O que difere a normalidade daquilo que chamamos loucura é a intensidade com que esses elementos se manifestam e o grau de sofrimento que eles promovem. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 450 milhões de pessoas sofrem ou sofrerão de problemas mentais, neurológicos ou comportamentais ao longo da vida. Todas as doenças e distúrbios que afetam a mente humana são classificados como transtornos mentais. Esses transtornos são divididos em inumeráveis subgrupos que compreendem desde a dependência química à anorexia, pânico, fobias ou perversões sexuais. Para uma categorização generalista, a Psiquiatria divide os transtornos em neuroses, psicoses e perversões. Quando há um desequilíbrio mental que provoca angústia e ansiedade sem afetar o pensamento racional, classifica-se o distúrbio como neurótico. É o caso do transtorno de pânico, do Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) e das fobias. Já a psicose, segundo o psiquiatra e psicanalista Marcos Creder, é caracterizada, basicamente, pelas alucinações e delírios. O delírio é a ideia falsa de realidade com uma crença inabalável, irrefutável e incompreensível. “Não há ninguém, nem argumento que convença o indivíduo do contrário”, destaca. A alucinação se diferencia por ser uma falsa percepção dos órgãos sensoriais sem que haja um objeto. O indivíduo em crise pode ouvir sons, ver coisas ou sentir algo que só existe na mente dele.

No grupo das psicoses, ainda existem as paranoias e as psicoses reativas breves. “Os delírios de ciúmes são um exemplo de paranoia. Nela, o psicótico inventa a verdade, a história, as cenas e vive todas as dores como se vivenciasse o fato”, exemplifica Creder. Já as psicoses reativas breves são resultantes de situações traumáticas, como perdas de pessoas amadas ou catástrofes. Como o próprio nome já diz, são quadros que se instalam por um período curto da vida. Também se classificam como transtornos mentais as perversões sexuais ou parafilias. Os perversos são pessoas com desvios sexuais que sentem prazer na transgressão da norma ou mesmo na dor do outro. Como exemplos, os necrófilos – pessoas que sentem atração sexual por cadáveres –, assim como dos pedófilos, caso mais comum de parafilia que chega aos consultórios. Caracterizados por atos repetidos, sem motivação racional clara e que vão, em geral, contra os interesses até do próprio sujeito, os transtornos de impulso também compõem o grupo das perversões. As pessoas com cleptomania (roubo patológico) ou piromania – comportamento caracterizado por tentativas de colocar fogo em objetos e bens sem motivo aparente, associado a preocupações persistentes com relação a fogo ou incêndio – estão sujeitas a agir completamente por impulso.

Os transtornos mentais são tantos que fica difícil para a população entendê-los ou diferenciá-los. Marcos Creder explica que é comum a confusão entre doença mental e deficiência intelectual, por exemplo. Mas essas são situações completamente distintas. O transtorno mental não implica, necessariamente, em comprometimento das habilidades intelectuais, embora até possam coexistir. Há pessoas com esquizofrenia que, quando não estão em crise, são produtivas e atuam em áreas complexas como a Medicina e o Direito. “Os transtornos mentais levam a alterações noutras funções psíquicas, como a expressão do sentimento, o humor, a concentração, a memória e a percepção e interpretação da realidade”, esclarece o especialista. Embora sejam muitas as faces conhecidas da chamada loucura, ainda não se sabe o que leva um ser humano a perder sua sanidade mental. A Psiquiatria considera um conjunto de razões interrelacionadas de ordem socioambiental, genética e orgânica. Mas o que é loucura, afinal? Isso a Psiquiatria não responde, nem mesmo considera este termo. A loucura é estranha à subjetividade humana, foge à nossa compreensão de conduta. A experiência da loucura é algo que não conseguimos identificar como nosso. É difícil definir. Contudo, explicar o que é normalidade é tarefa ainda mais complexa. Talvez Caetano Veloso tenha a melhor resposta: De perto, ninguém é normal.

Marcos Creder, que também é professor de Psicologia da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e da Faculdade Frassinetti do Recife (Fafire), explica que entre as psicoses, o quadro mais comum é o da esquizofrenia – doença mental que, de acordo com a OMS, acomete cerca de 1% da população mundial. A pessoa com esquizofrenia passa períodos em que tem dificuldade de distinguir o real do imaginado.

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Diagnóstico: primeiro passo para a

convivência

Débora Duque e Luísa Ferreira

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fim de um “namorico” aos cinco anos de idade levou o pequeno Janderson Muniz a ameaçar pular do parapeito do primeiro andar da escola onde estudava. Mas a mãe chegou a tempo de convencê-lo a desistir da ideia que, após o desfecho, foi considerada apenas um capricho do garoto que não teve sua vontade atendida. Quem iria imaginar que aquela reação poderia ser sinal de um problema de saúde sério que afetaria a vida dele e de toda sua família? Doze anos mais tarde, a mãe, Cristina Muniz, ligou os pontos. Aos 17, Janderson, que era cheio de amigos e namoradas, passou a frequentar assiduamente uma igreja evangélica. “Depois de três meses indo para Assembleia de Deus, ele começou a dizer que era o Espírito Santo”, conta a mãe. A mudança repentina sinalizava o começo de uma série de comportamentos “estranhos” que o jovem viria a ter. Era a esquizofrenia batendo em sua porta.

PRIMEIROS SINTOMAS Além de Janderson, 66 milhões de pessoas no mundo sofrem de esquizofrenia. Nos homens, ela costuma surgir entre o fim da adolescência e o início da fase adulta. Já as mulheres, em geral, adoecem um pouco mais tarde, entre 20 e 30 anos. Como a maioria dos transtornos psíquicos, a esquizofrenia não pode ser diagnosticada por meio de exames clínicos. As manifestações da doença são muito variáveis, e todos os sintomas podem ser encontrados em outros transtornos mentais. No entanto, sinais como delírio, alucinação, isolamento, diminuição da afetividade e da vontade de agir, relacionados às mudanças de comportamento do indivíduo, levam à suspeita.

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A mãe de Janderson divide seu tempo entre as atividades de cabelereira e os cuidados com o filho.

Foto: Clarissa Gomes

De acordo com o psiquiatra Frederick Lapa Filho, uma das maiores dificuldades no diagnóstico é que alguns dos sintomas podem ter causas orgânicas, como alterações na tireóide e problemas neurológicos. O aspecto temporal também deve ser analisado. “Para dar o diagnóstico de esquizofrenia, considera-se necessário que o paciente tenha passado pelo menos um mês com um quadro característico”, explica.


Cadê meu filho que estava aqui? “F

iz de tudo para tirar ele da igreja, mas não deu certo”, conta Cristina, que terminou se rendendo à fé do filho. Foram dois anos de luta, dúvidas e oscilações. Na época, moradora do bairro do Engenho do Meio, Zona Oeste do Recife, ela descobriu que Janderson estava caminhando sem roupa pelo campus da Universidade Federal de Pernambuco, perto da sua residência. “Foi minha prima que viu e me avisou. Podiam achar que era um tarado, não é?”, comenta. Depois disso, desencadearam-se comportamentos violentos, e o hábito de beber rotineiramente fez com que a agressividade aumentasse. “Quebrava os copos em casa, ‘botou’ fogo na mesinha de centro, rasgou o sofá. Os surtos foram piorando, tinha um de dia e outro de noite”, relata Cristina. Janderson chegou a bater em um menino de 14 anos, coisa que, garante a mãe, jamais faria se estivesse em condições normais. “Ele foi parar na GPCA (Gerência de Polícia da Criança e do Adolescente), e lá o delegado disse que a gente tinha que procurar um médico e interná-lo”, recorda. O conselho, talvez dito sem o cuidado que lhe deveria ser caro em uma situação como esta, alarmou a mãe. Afinal, ter um familiar diagnosticado com a doença costuma ser uma situação muito desgastante. “Chegar secamente e dar o diagnóstico para a família é muito difícil. O ideal é evitar que o choque seja muito grande. Às vezes, prefiro ir explicando aos poucos”, afirma Lapa Filho. Ele também conta que é comum os familiares dizerem aos conhecidos que o paciente tem depressão ou síndrome do pânico, diagnósticos mais aceitos socialmente do que a esquizofrenia. O psiquiatra ressalta ainda que a família deve se informar sobre o transtorno, até para saber identificar a possibilidade de um surto. “Além disso, muitas pessoas, por falta de informação, encaram sintomas como a diminuição da capacidade de volição, ou seja, da vontade de agir, como se fosse preguiça ou má índole. É importante esclarecer que não se trata disso”, completa.

O Poder Autofágico A

pesar das mudanças de comportamento de Janderson, enquanto os alvos dos surtos sofridos por ele eram o sofá da casa ou, no máximo, um garoto de 14 anos com quem teve uma briga sem grandes consequências, a situação ainda estava sob controle. Mas, quando voltou sua mira para ele mesmo, não foi mais possível ignorar a gravidade do quadro. Foram sucessivos surtos autodestrutivos, a exemplo de bater propositalmente a cabeça no espelho ou cortar levemente o pescoço com uma faca. Em outra ocasião, ele se dirigiu até o viaduto da Muribeca, Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife, e pulou de uma altura razoável. Por sorte, só machucou o pé e passou um tempo andando de muleta, como descreveu Cristina. É comum que esse tipo de comportamento impulsivo e agressivo afete alguns portadores da esquizofrenia. “Isso pode não ter nenhum motivo específico ou pode ter relação com os delírios e as alucinações, por exemplo, se a pessoa está se sentindo perseguida”, diz o psiquiatra. Lapa Filho relata que muitos podem achar a situação tão insuportável que cometem ou tentam cometer suicídio, mesmo que não estejam deprimidos. Por isso, é necessário avaliar se o paciente representa risco para si mesmo ou para outras pessoas. Para o médico, o ideal é evitar ao máximo recorrer à internação, mas, em alguns casos, a família sozinha pode não dar conta de protegê-lo. No dia 25 de abril deste ano, Janderson foi internado numa instituição psiquiátrica, localizada em Olinda. Lá, ele deverá permanecer por pelo menos um ano, com direito a idas para casa nos finais de semana, em caso de “bom comportamento”. As visitas da mãe são feitas em dias alternados e sempre que pode, ela leva lanches e cigarros para Janderson, na tentativa de trazer-lhe um pouco mais de conforto. Agora, as namoradas e os amigos antigos já não aparecem mais. Ela, entretanto, permanece firme para que a solidão e o sofrimento não sejam os únicos companheiros do seu filho.

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Olhares

Psiquiatras divergem sobre situação dos hospitais Mesmo após 200 anos de existência da estrutura manicomial, manutenção dos grandes hospitais ainda não é consenso entre médicos Eutalita Bezerra dos o projeto terapêutico dos pacientes e da instituição e os aspectos gerais da assistência oferecida. Somente os hospitais considerados de baixa qualidade são descredenciados pelo Ministério da Saúde.

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uito se tem falado sobre as propostas para a Reforma Psiquiátrica no País. De um lado, a corrente pela luta antimanicomial – formada por psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais –, que propõe mudanças significativas para o tratamento mental, em especial a extinção dos grandes hospitais. No extremo oposto, nomes como o Conselho Federal de Medicina e a Associação Brasileira de Psiquiatria, que reafirmam a necessidade de uma rede médica integrada e hierarquizada, incluindo hospitais e ambulatórios especializados. A implementação da estrutura manicomial remete há mais de 200 anos, porém as discussões sobre seu funcionamento só foram aprofundadas a partir da década de 1970, com a campanha em prol da Reforma Psiquiátrica. Sobre o tema, é possível observar argumentos como o da psiquiatra Gilvanice Noblat, integrante do Movimento Antimanicomial, segundo a qual o manicômio é um lugar de exclusão. Na contramão desse discurso, o psiquiatra Eudo Lira – médico de dois hospitais psiquiátricos há cerca de 12 anos – defende a existência de unidades hospitalares como única alternativa às famílias que lidam com doentes agressivos. Há várias contradições entre as duas correntes. Segundo Eudo Lira, o primeiro procedimento de um médico diante da chegada de pacientes em estágio psicótico agudo – a popular “crise” – ao hospital é a realização da anamnese. Por meio desse exame, o histórico social e a saúde do doente são avaliados. De acordo com o psiquiatra, o paciente é ouvido e, só depois, medicado. “O médico não dopa o paciente nunca”, garante. Gilvanice Noblat, contudo, rechaça essa versão: “Os pacientes não são ouvidos quando internados”. O Hospital Psiquiátrico José Alberto Maia (HJAM)*, um dos hospitais onde o médico Eudo Lira atua, está localizado em Camaragibe e era considerado o maior manicômio do País. Com cerca de 540 pacientes, a unidade foi descredenciada do serviço de saúde em novembro de 2009, após obter baixo índice no Programa Nacional de Avaliação dos Serviços Hospitalares, o Pnash. Entre os critérios avaliados, estão contempla-

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Sobre o assunto, Lira explica que, com a redução da verba destinada ao hospital, por conta da adoção da corrente antimanicomial pelo Governo, a qualidade da assistência prestada ao interno ficou, realmente, comprometida. “Não é possível manter o mesmo procedimento com a diária reduzida pela metade”, argumenta. Antes do descredenciamento, o hospital recebia, por dia, R$ 52 por paciente. O médico critica o Pnash, afirmando que o programa tem cunho eleitoreiro e trabalha com avaliação pouco eficaz. “Segundo o Pnash, se o hospital tem eletrochoque, perde pontos, embora esse procedimento seja reconhecido e realizado pelas universidades”, afirma. Desde o descredenciamento, os pacientes do HJAM estão sendo realocados para residências terapêuticas. Segundo Gilvanice, essas unidades, que não contam com financiamento do Ministério da Saúde, têm funcionamento diferenciado dos grandes hospitais. “São unidades mais voltadas para a ressocialização das pessoas, tentando incluí-las na sociedade e desenvolvê-las em aspectos mais humanos”, explica. Às residências terapêuticas, Lira não poupa críticas. “Não têm médicos de plantão, não há acompanhamento da evolução do paciente e têm localização péssima, sempre afastadas do centro (Aldeia, Surubim ou Timbaúba)”, enumera. O processo de transferência dos internos também é criticado. O porteiro do HJAM, Anísio Batista, afirmou que os pacientes foram retirados do hospital sem autorização de suas famílias. “Todo dia chega algum familiar aqui para realizar visita e eu aviso que os pacientes foram transferidos”, comenta. De acordo com o psiquiatra Eudo Lira, a distância e a falta de um transporte que contemple esses itinerários dificultam a visita das famílias, afastando os doentes do convívio social.

Entre tantas divergências, há um consenso. As duas correntes consideram os Centros de Apoio Psicossocial (Caps) uma alternativa eficaz para o atendimento às pessoas que convivem com transtorno mental e concordam que não há uma quantidade satisfatória dessas unidades para atender à demanda de pacientes. A Associação Brasileira de Psiquiatria destaca, porém, que os centros não foram projetados para substituir os hospitais especializados. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), os transtornos mentais atingem cerca de 23 milhões de pessoas no Brasil. Dessas, cerca de 5 milhões – o que equivale a 3% da população do País – apresentam transtornos graves e persistentes, necessitando de atendimento psiquiátrico para conduzir suas vidas com o mínimo de independência. São doentes que se mantêm entre os dois lados dessa discussão que parece não chegar a um ponto definitivo.

*Nossa equipe não foi autorizada a conhecer a estrutura do Hospital José Alberto Maia.


Em busca da humanização do tratamento psiquiátrico Apesar das vitórias, o Movimento Antimanicomal ainda tem muitos desafios a enfrentar. O maior deles é mudar o olhar da sociedade sobre os usuários Tauan Saturnino e Sheila Tavares

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o filme Bicho de Sete Cabeças (2001), somos comovidos pelo sofrimento do personagem Neto, que recebe um tratamento desumano no manicômio onde foi internado pelo seu pai. O filme é baseado na história real de Austregésilo Carrano Bueno, autor do livro autobiográfico “Canto dos Malditos”, onde narra sua passagem por vários manicômios, e está longe de ser algo puramente ficcional. O drama de Neto é vivido diariamente por milhares de indivíduos com transtornos mentais, popularmente conhecidos como “loucos”, que ainda estão confinados em hospitais psiquiátricos, ou “manicômios”, sem previsão de retornar para suas casas. É por causa desta realidade de repressão e privação dos direitos de cidadania vivenciada nos manicômios, que surge no Brasil o Movimento Antimanicomial, visando substituir os hospitais psiquiátricos por formas de tratamento mais humanizadas, nas quais o usuário (termo utilizado em substituição à “pacientes”, que conota passividade) desempenha um papel ativo e permanece em convívio com a sociedade. A história do Movimento tem início na época da abertura do Regime Militar, final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Neste período, são criados o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde e o Movimento de Renovação Médica, que funcionavam como espaços de discussão e produção do pensamento crítico na área de saúde. É basicamente no interior destes setores que surge o Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental (MTSM). As reivindicações do grupo giravam em torno de aumento salarial, redução do número excessivo de consultas por turno de trabalho, críticas à duração das internações, ao uso do eletrochoque, além de melhores condições de assistência à população e humanização dos serviços. Por ocasião do II Congresso Nacional do MTSM, em 1987, ocorre uma aproximação entre os trabalhadores, familiares e usuários do sistema de saúde mental. Neste congresso, é produzido o “Manifesto de Bauru”, que marca o efetivo início do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial (MNLA).

Nelma Melo, psicóloga e integrante do Movimento Antimanicomial, critica os grupos que utilizam seu poder econômico e a falta de informação para perpetuar os manicômios

Foto: Camila Lemos

CONQUISTAS E DESAFIOS O movimento tem conquistado importantes vitórias, dentre os quais o comprometimento formal do governo com a reforma psiquiátrica. Entre os objetivos estão o fechamento ou a reformulação dos hospitais psiquiátricos; a política de redução de leitos; desistitucionalização de usuários que estejam há muitos anos nos manicômios; a criação de redes de atendimentos que possibilitem mais liberdade para o usuário conviver com a sociedade. A promulgação da lei federal 10.216 garante os direitos dos usuários do sistema de saúde mental e regulamenta a situação atual dos hospitais psiquiátricos. Porém, há problemas dentro e fora do movimento que atrasam a reforma. Um destes problemas é a existência de duas entidades dissidentes dentro do Movimento: o MNLA e a Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (RENILA). A psicóloga Nelma Melo, uma das integrantes do núcleo recifense do RENILA, apesar de reconhecer que a divisão enfraquece o movimento, afirma que há diferenças irreconciliáveis entre as duas entidades. Contudo, há um importante ponto que as une. Ambas enfrentam o desafio de atrair familiares e usuários para o interior do Movimento. O preconceito faz com que muitos deles se recusem a aceitar sua condição e não queiram que outras pessoas saibam que possuem transtornos mentais. De acordo com a psiquiatra Gilvanice Noblat, que trabalha em um dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) criados a partir da reforma psiquiátrica, “As pessoas tendem a, quando estão bem, negarem a sua doença como forma de sobrevivência para não se estigmatizarem”.

Para além das dificuldades internas do movimento, existe uma grande pressão dos donos de hospitais psiquiátricos no sentido de mudar a lei que regulamenta a Reforma Psiquiátrica e atrasar as políticas de redução de leitos e liberação de antigos usuários. De acordo com Nelma Melo, apesar de ser raro alguém se pronunciar publicamente contra a Reforma, os setores contrários utilizam seu poder econômico e a desinformação da população para perpetuar o modelo manicomial. Segundo a psicóloga, “Até a III Conferência Nacional de Saúde Mental, em 2001, nós tivemos embates diretos com os donos dos hospitais psiquiátricos. Hoje, ninguém se diz ‘manicomial’. Porém, existem várias formas de você enfraquecer, de travar o processo”. Ainda há muito a ser feito para que os manicômios acabem. Entretanto, mais do que uma batalha jurídica, deve-se travar uma batalha de ideias. Além de um avanço nas técnicas medicinais, é necessário haver um discussão social. É importante que olhemos para os “loucos” não como inúteis, mas como seres humanos dotados de direitos inalienáveis. Não como “problemas” e “estorvos” para a família, e sim como pessoas amadas que não devem ser privadas do convívio de seus amigos e familiares para viverem em uma “prisão medicinal”. O manicômio não é apenas um prédio, mas um local que nega a algumas pessoas a dignidade que imputamos a outras. Somente quando todos formos antimanicomiais em nosso íntimo, não haverá mais necessidade de um movimento antimanicomial.

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Do lado de Cá

Por trás dos muros, hospital psiquiátrico revela cotidiano distinto do retratado nas telas de cinema Eutalita Bezerra

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o redor da residência, árvores cujas frutas já começam a aparecer, embora ainda estejamos na primavera. As folhas verdes contrastam com recortes de papéis coloridos que formam pássaros e flores, anunciando a estação. Num pequeno coreto, rodopiavam, conforme o vento, as criações artísticas dos moradores da Comunidade Nossa Senhora das Graças, hospital psiquiátrico que atende a 144 homens com os mais distintos diagnósticos, mas todos considerados loucos pela sociedade. Eles também guardam em comum as referências sobre o lugar. “Quero ir para casa não, viu?”, pedia um senhor de alvos cabelos. “Aqui é muito bom. É a minha casa”, completava outro, de aparência mais jovial, que garante ter 152 anos e se autodenomina Hitler, o próprio líder nazista. Mesmo recebendo uma visita inesperada, o que se via era um ambiente calmo, limpo e colorido. Cartazes diziam aos moradores quais as regras por ali. No refeitório, é preciso lavar as mãos antes de entrar. Mais adiante, uma cartolina destacava a importância de manter as roupas sempre limpas. As lições, contudo, não eram dadas apenas pelos funcionários, a cumplicidade de dois pacientes idosos emocionava. Ambos aparentavam ter a mesma idade, porém, como um deles necessitava de cadeira de rodas, o outro o levava para passear pelo pátio. Local, aliás, onde muito podia ser visto. Alguns dos rapazes jogavam dominó, enquanto os demais desfilavam com seus óculos de plástico coloridos. Embora o sol ainda se fizesse presente, a hora do jantar era anunciada aos moradores. No pavilhão dos idosos, que tem um refeitório exclusivo, um senhor dizia que não é velho para comer papinha e, portanto, reivindicava um “cuscuzinho com ovo frito”. A risada era geral, inclusive dele mesmo. Num outro refeitório, um hipertenso e um diabético tentavam fugir da dieta. “É sempre assim. A refeição deles é servida, mas eles querem comer o mesmo que os demais”, explicava a administradora da comunidade Anamaria Barros. Ela conhece os moradores por nome e história, sem esquecer nenhum. Aliás, é bom não esquecer mesmo. Um deles até alegou estar com ciúme por não ter sido mencionado à nossa equipe de reportagem. Anamaria, chamada de mãe por alguns moradores, conta que há toda uma rotina a ser seguida para o bem-estar geral. De manhã, música, televisão e trabalhos manuais compõem o momento de recreação. À tarde, os moradores costumam passear pela área externa da casa, no imenso jardim, ou sentar nos banquinhos coloridos. Após o jantar, conversam e assistem TV até a hora do descanso. A Comunidade Nossa Senhora da Graça, localizada na Estrada de Aldeia, em Camaragibe, é mantida por meio de recurso federal, numa diária que varia entre R$ 52 e R$ 90 por paciente, segundo Anamaria. Atualmente, um dos pavilhões com 10 leitos está fechado em função da política antimanicominal, que defende o esvaziamento dos grandes hospitais psiquiátricos. O contrato com a Prefeitura de Camaragibe, inclusive, foi rescindido em novembro de 2009 pelo proprietário Evandro da Fonte, que também é dono do Marante Hotel, no Recife. Enquanto não há lugar para realocar os moradores, eles continuam desenhando pássaros e flores.

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Onde o concreto vira Abstrato No Hospital Ulysses Pernambucano, pacientes convivem com a opressão de um manicômio e a prática de atividades culturais Ana Laura Farias e Naira Sérvio

O Ulysses Pernambucano, conhecido como Tamarineira (referência ao bairro de mesmo nome onde está localizado) possui uma estrutura física melhor do que se imagina. Os internos vagam pelos corredores e pavilhões, alguns bem vestidos, outros nem tanto. A maior parte deles se admira com a presença de pessoas desconhecidas no local. São cerca de 300 funcionários, entre vigilantes, psicólogos, auxiliares de enfermagem, psiquiatras e terapeutas ocupacionais. Muitos trabalham no local há anos. É o caso de Ioneide da Silva, cabeleireira das pacientes. “Estou aqui há cerca de 20 anos e nunca tive problemas no salão. Nada de briga ou coisa assim”, explica.

Os internos seguem uma rotina: acordam por volta das 7h, utilizam a medicação, tomam banho e café da manhã no refeitório. “Essa alimentação coletiva é importante para que eles possam socializar e ter disciplina quanto ao horário”, comenta a Coordenadora do Centro de Atividades Terapêuticas (CAT), Elizabete Rocha. Já houve casos de agressão, como explica a educadora física Fátima Simões. Ela conta que uma interna “partiu para cima” de uma estagiária. Ao defender a garota, a terapeuta foi atingida no braço por um cabo de vassoura. “Só voltei a trabalhar quando a paciente foi transferida. Quando eles perdem o respeito por você, fica difícil para trabalhar”. No entanto, de forma geral, os pacientes respeitam a equipe de saúde. “Eles sempre querem ajudar. Tem mais protetor do que agressor”, defende a coordenadora do CAT. Uma dessas “protetoras” é Carioca, que diz não lembrar de seu nome “original”. “Eu gosto muito daqui. Sou muito bem tratada. É como se fosse um hotel”, diz. Aos 40 anos, ela adora contar detalhes de sua “vida”e criar momentos em sua trajetória, como dizer que foi chacrete, morou no Rio de Janeiro, nos Estados Unidos e na Europa. Também gosta de acrescentar que posou para a Playboy. Boa parte das coisas que diz são delírios e da sua “vida real” não mede esforços para se esquivar. “Tive um filho, mas não gosto de falar dessa parte. Pula, pula, pula. Eu poderia te contar muitas coisas da minha triste vida. Mas se é triste, não tem por que contar, né?”, desabafa.

Foto: Wesley Prado

Mas essa não é a realidade de todos os profissionais. A auxiliar administrativa Sandra de Oliveira, 43 anos, dos quais 20 dedicados ao hospital, comenta que a rotina é muito estressante. Trabalhando oito horas por dia, de segunda a sexta, explica que, apesar da redução do número de internos (de 220 para 160), a convivência com os pacientes está cada vez mais difícil. “Antes,

a gente recebia pessoas apenas com transtornos mentais. Hoje, também atendemos pessoas que se envolveram com drogas ou já praticaram crimes”, explica. Foto: Wesley Prado

É

impossível esquecer aquela grade. Sutil e ao mesmo tempo austera, ela funciona como um limiar entre liberdade e enclausuramento. Aquele portão, que poderia ser o símbolo do Hospital Ulysses Pernambucano, é o limite entre sanidade e loucura. De um lado, 160 internos em cinco pavilhões. Do outro, funcionários, familiares e visitantes do hospital psiquiátrico que também passou a atender, nos últimos anos, dependentes de drogas e egressos do Manicômio Judiciário. Todas essas pessoas sofrem de distúrbios psicóticos, sendo a maior parte vítima de esquizofrenia.

Grade isola internos no Hospital da Tamarineira

ATIVIDADES FACILITAM TRATAMENTO Os internos do Ulysses Pernambucano são acompanhados por equipes de profissionais de diversas áreas, como afirma a coordenadora do CAT: “A base do tratamento é o acompanhamento multidisciplinar do interno, que conta com médico psiquiatra e clínico, enfermeiro, técnico em enfermagem, psicólogo, terapeutas ocupacionais, educadores físicos, arte-educadores e cabeleireiros”. A qualidade de vida, por meio da tríade “reabilitação, readaptação e reinserção do interno na sociedade”, é o foco do trabalho, já que os transtornos psicóticos são incuráveis. Não basta controlar crises com medicamentos tarja-preta: a terapia ocupacional é um dos pilares do tratamento, pois oferece ao interno momentos de descontração e valorização de suas capacidades, além de estimular a interação com outras pessoas. Essas atividades fomentam a capacidade de criação dos internos e melhoram sua auto-estima. Sala de jogos e oficinas de pintura, música, tapeçaria, percussão e biodança são algumas das opções. Para Albério dos Santos, ministrante das oficinas de percussão há oito anos, o trabalho é muito eficiente e disciplinador. “Só pode participar quem estiver de banho tomado, com vestuário completo e sem cigarro. Eles precisam respeitar o espaço”, conta. O convívio com os internos é um aprendizado para os profissionais e promove a desmistificação da doença mental. Fátima Simões, ministrante da oficina de biodança, ressalta que profissionais chegam com medo e distanciamento, mas depois quebram os preconceitos. “Geralmente conseguimos transformar as energias dos internos, pois eles respondem bem às atividades”, destaca. O material produzido pelos internos extrapola as salas da Tamarineira. Telas, esculturas e outras formas de arte já foram expostas em três faculdades do Recife e no Museu Murilo La Greca. O CAT acredita que as produções artísticas aproximam os internos da sociedade.

Elizabete Rocha acredita que atividades artísticas auxiliam o tratamento

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Entre as grades de um

manicômio judiciário Histórias de pacientes do Hospital de Custódia do Estado (HCTP). No limiar do crime e da loucura, o que fica é o isolamento social Marcella Semente e Gabriela López

lá porque foi tomar café e quis levar as duas garrafas, o guarda não deixou e Moisés deu um soco no braço dele. Isolamento.

E

ra como se não pudéssemos estar ali. Visitas não parecem muito comuns, com exceção dos familiares dos pacientes, como são chamados os internos do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HCTP) de Pernambuco. A instituição funciona como presídio para as pessoas com transtornos mentais que cometeram crimes. Localizado na Ilha de Itamaracá, na Região Metropolitana do Recife (RMR), é o único manicômio judiciário do Estado. Criado em 1982, tem capacidade para 372 presos, mas abriga 451. Nunca passou por uma expansão. Segundo a diretora do hospital Ivone França, uma reforma estrutural está em andamento. “Já mandei retirar uma parte do piso que estava todo acabado. Também vamos construir uma Igreja (Católica), Igreja de Santa Terezinha”. Além disso, há uma Igreja Evangélica, um grupo espírita nos fins de semana e reuniões dos Alcoólicos Anônimos (AA). Ali também funcionam uma escola estadual, com a mesma idade do HCTP, e a biblioteca, bastante movimentada. Os cinco pavilhões são organizados de acordo com o grau de periculosidade dos internos. No pavilhão São Francisco é feita a triagem; no São Lucas ficam os presos de alta periculosidade, que vivem sem liberdade de circular pelo hospital e recebem refeição na própria cela. Noventa internos circulam livremente pelo hospital com trabalho e responsabilidades a cumprir. Durante a visita, encontramos internos a caminho do refeitório, cada um com sua vasilha. “Temos pratos e talheres, mas a maioria prefere usar sua vasilha, cabe mais”, contou Santos. No refeitório, alguns comiam com as mãos mesmo, e a fila não parava de crescer. “50 vezes 9! Isso é conta besta, menina! Manda uma de verdade!”, provocou Moisés, um dos internos que nos recomendaram conhecer. “1048 vezes 950... é... 995.600”, respondeu antes da calculadora. E assim foi com multiplicações maiores e raízes quadradas, e sempre instigando! No momento em que conversava com a equipe de reportagem, foi retirado do isolamento – cela individual e fechada para onde vão os pacientes que fazem algo errado no hospital. Estava

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Moisés sempre teve fascínio por facas e seu pai as escondia. Certo dia, na ausência dele, uma das facas havia ficado à mostra. O vizinho acabou sendo vítima do “fascínio” de Moisés que desatava a rir quando se falava no crime. O pai, então, começou a desconfiar e o levou para a polícia. Pressionado, ele assumiu a autoria do homicídio. Diferente de Moisés, há internos do HCTP não possuem transtornos mentais. Para estarem ali, seus advogados apelaram para uma Medida de Segurança, recurso que dá direito a um tratamento psiquiátrico em lugar de condenação numa penitenciária comum. O Código Penal dispõe que, se o infrator não puder ser responsabilizado pelo crime, por ter transtornos mentais, por exemplo, o juiz determinará sua internação. A “preferência” pelo hospital se deve ao fato de que a medida tem um prazo mínimo, de um a três anos; o regime não é o de uma penitenciária, porque é um hospital; só há uma guarita, a de entrada, e cinco agentes responsáveis pela segurança de toda a extensão do local. São 56 pessoas na equipe de médicos e enfermeiros, além de cinco psicólogos, cinco assistentes sociais, dois terapeutas ocupacionais, uma professora de Educação Física, dois fisioterapeutas, dois dentistas, um nutricionista, um farmacologista e três advogados. “Fazemos o acompanhamento dos casos mais críticos e tentamos aproximação de todos com as famílias, mas nem sempre conseguimos. Tem muitos que são do interior ou de outros Estados e a família não pode visitar. Algumas pessoas não saem daqui porque não têm para onde ir, a família abandonou”, explica a psicóloga do hospital, Aline Pina. Os pacientes não podem sair de lá sem alguém da família como responsável. “Não podemos simplesmente largá-los, eles vão para onde? O problema é que grande parte dos crimes foram praticados contra a própria família”, acrescenta a diretora Ivone França. O sistema com o qual o HCTP trabalha é o da alta progressiva, que dura seis meses; após essa etapa, o paciente passa para a liberdade vigiada, em que fica em casa por um ano, visitando periodicamente a Chefia de Apoio a Egressos e Liberados (Cael).

REFORMA PSIQUIÁTRICA Aos problemas ainda sem solução, soma-se mais um: o lugar dos hospitais de custódia no contexto da Reforma Psiquiátrica, em andamento, que busca acabar com o confinamento das pessoas consideradas loucas e tratá-las por meio do convívio social. A psicóloga Aline Pina garante que a reforma ainda não chegou por lá. “Hospitais e presídios surgiram na mesma época e, depois, os dois formatos juntaram-se para formar os manicômios judiciários. E a cultura de isolamento continua”. No Brasil, há 3,9 mil pessoas em cumprimento de Medida de Segurança, a maioria confinada em instituições manicomiais. Os índices apontam para a tendência de crescimento dessa população: em quatro anos houve um aumento de 40,93%. De acordo com a coordenadora da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial Nelma Melo, a Medida de Segurança não tem caráter punitivo. “Sua feição terapêutica deve preponderar. A questão, então, deixa de ser focada unicamente sob o prisma da segurança pública e é acolhida definitivamente pelos serviços de saúde pública”. A reforma é uma articulação, junto ao Ministério da Justiça, para a extinção lenta e gradual dos hospitais de custódia e tratamento psiquiátrico. Os HCTPs devem ser substituídos por modelos alternativos que possibilitem o cumprimento das medidas de segurança impostas.


Estrutura falha é a sociedade J

ulgar um crime cometido por pessoas com transtorno mental ainda é uma polêmica. No processo, é feita uma perícia para analisar o estado mental e comportamental do acusado no momento em que o delito foi cometido. Mas, como é possível atestar isso? Como são as penas nesses casos? Com especialização em Psicologia Jurídica e experiência de trabalho em manicômios judiciários, a psicóloga Alissandra Pessoa argumenta que a sociedade não está “estruturada” para tratar desses casos. Os psicólogos dos hospitais de custódia desenvolvem um trabalho específico de cuidar da estabilidade emocional dos internos, mas, ressalta Alissandra, “esses profissionais são fundamentais na hora de investigar e atestar a insanidade do infrator. Faltam psicólogos trabalhando na área, a perícia é feita por pessoas que não têm a especialização necessária”. A psicóloga afirma, também, que alguns crimes cometidos por pessoas com transtorno metal são “chocantes”. “A sociedade não quer saber se um pai que matou o filho estava fora de si ou sofrendo algum surto proveniente de transtorno mental na hora do crime. Assim, essas pessoas que precisam de ajuda não recebem cuidados”. Ela conta que, para atestar um transtorno mental, são feitas entrevistas com a pessoa acusada e com quem convivia com ela, além de diversos testes, como de raciocínio lógico. “Somos capacitados para identificar os transtornos, percebemos muito o sofrimento das pessoas que têm transtorno. Quando alguém está fingindo, não consegue simular o tempo todo”. Além disso, muitas vezes, o delinquente não tem problemas mentais, mas é comprovado que possui um transtorno de comportamento, como “uma personalidade mais rígida do que o normal”, que o induz a cometer o crime. Isto é, uma pessoa pode ter a mente saudável, mas, por ter sofrido um trauma ou situações de estresse, teve alterações no comportamento. “Não justifica o ato, mas é importante levar isso em consideração na hora de decidir a pena”.

Muralhas da Solidão “Sou policial militar, passei por muitas situações de estresse e, na polícia, eles esperam acontecer alguma coisa para oferecer ajuda psicológica. Estou aqui há dois anos e meio. Vou sair em dezembro. Ainda não sei o que fazer, vou me aposentar por invalidez. Só tenho um plano: quero publicar o livro que estou escrevendo. Está quase pronto. O título, por enquanto, é ‘Muralhas da Solidão’. Imagino até a capa do livro. Estão vendo aquela janela? Com aquelas vigas na vertical formando a grade? Quero que a capa seja assim, com uma sombra projetada do lado de fora da janela. Não sei se vou conseguir, acho que vai sair meio caro fazer essa capa, mas a gente dá um jeito. No livro, vou contar minha experiência. Teve uma época, por exemplo, em que me isolei. Não saía da cela para nada, não tinha vontade... Me sentia só. Até que o pessoal daqui me chamou para trabalhar. Tem uma coisa que não consegui me acostumar aqui. A comida. É muito ruim... Todo dia é galinha, se não for galinha é fígado. Pelo menos tenho minha própria cela. Geralmente, os quartos são divididos entre três ou quatro pessoas, mas dei meu jeito e tenho uma cela só minha, minha TV, minhas coisinhas, as comidas que minha família traz. Eu sou chato, sou muito organizado. Sou louco por organização (risos)”, Sérgio [nome fictício], paciente do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico de Pernambuco.

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A esperança de dias melhores

Convivência

A Reforma Psiquiátrica trouxe à tona tratamentos mais humanizados, voltados para a socialização dos usuários. Os novos métodos carregam a promessa de uma vida melhor para os pacientes Amanda Souza e Peterson Mayrinck

“S

ó você indo lá para ver” - é o que a psiquiatra Gilvanice Noblat recomenda àqueles que procuram informações sobre os tratamentos aos usuários do sistema de saúde mental. Apesar de poder soar como algo negativo, sua fala é repleta de esperança e certeza de que, após a Reforma Psiquiátrica, a situação dos pacientes melhorou muito. Foto: Denilton Laranjeira

A Reforma Antimanicomial propõe mudanças visíveis no modelo de tratamento vigente. No início da década de 90, o Ministério da Saúde começou a definir uma nova política de saúde mental, que possibilitava o tratamento em várias estruturas: Equipes de Saúde da Família (ESF), Residências Terapêuticas, Ambulatórios, Hospitais Gerais, Centros de Convivência e Centros de Apoio Psicossociais (Caps). Estes últimos são os substitutos dos hospitais psiquiátricos. Oferecem acolhimento e desenvolvimento de atividades, contando, para isso, com equipes de diversos profissionais da saúde. Robson, hoje com 18 anos, é um dos usuários dos tratamentos psiquiátricos oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Aos 13, sofreu traumatismo craniano ao cair de uma árvore. O acidente deixou diversas seqüelas – dentre elas, transtorno de comportamento e agressividade. Aos 14, teve que sair do colégio pois estava sofrendo de bullying. As agressões, embora verbais, levaram-no a tentar se matar. “A professora disse que ele não estava tentando suicídio, que era um pedido de socorro”, diz a mãe, Dona Nilza. Em busca do tratamento ideal para o filho, D. Nilza já havia procurado ajuda de entidades privadas e até mesmo de hospitais psiquiátricos. “Por conta dos seus problemas, eu nunca encontrei um lugar para ele”, diz a mãe, com resignação. Sem desistir, no entanto, ela almejava um lugar onde o filho pudesse aprender, se desenvolver e se relacionar com outras pessoas. “Robson precisa de um lugar onde fique seguro. Ele precisa evoluir nas limitações dele, e se integrar com as outras pessoas”, afirmou. Foi no Caps que ela encontrou o que o filho precisa.

EM BUSCA DE UMA CASA Luana* brinca com um cachorro e deita no chão para alisar o bicho. Chamam-no Freud e explicam que ele tem um papel importante no tratamento. Logo, ela e seu animal saem correndo para outros espaços e o barulho se perde nos corredores. Foi isso que Robson viu em sua primeira visita ao Caps Espaço LivreMente, em Boa Viagem, no Recife. O lugar é composto por equipes multiprofissionais, com presença obrigatória de psiquiatra, enfermeiro, psicólogo e assistente social, aos quais se somam outros do campo da saúde. A estrutura física dos Caps prioriza o acolhimento, o desenvolvimento de atividades coletivas e individuais, a realização de oficinas de reabilitação e outras programação direcionadas a cada caso em particular.

tipos de CAPS

função

Caps I

Funcionam durante o dia e dão suporte a todos os usuários com transtornos severos, em cidades de pequeno porte

Caps II

Localizados em cidades de médio porte, atendem durante o dia, somente adultos.

Caps III

Localizados em cidades de médio porte, atendem durante o dia, somente adultos.

Caps ad

Atendem, durante o dia, pessoas com problemas pelo uso de álcool e drogas

Caps i

Serviços para crianças e adolescentes, atendem durante o dia. Fonte: Ministério da Saúde. Junho/2010

OUTRAS ALTERNATIVAS A nova política de saúde mental determina que a atenção básica aos usuários começa com a integração de profissionais da saúde mental às Equipes de Saúde da Família (ESF). A busca da singularidade de cada indivíduo com transtorno mental é o melhor caminho para o tratamento integral dos usuários. As ESF cuidam de casos mais simples (como a depressão) e encaminham os mais graves para os Caps.

Os ambulatórios psiquiátricos oferecem atendimentos com visitas domiciliares, atividades ressocializadoras e acompanhamento multiprofissional. Entretanto, a psiquiatra Gilvanice Noblat admite que não há uma quantidade suficiente e que seu papel não é bem definido. “O ambulatório não é um modelo com intuito bem definido na Reforma. Ainda não há um ambulatório-modelo no Brasil”, afirma.

Para os que estiveram internados em hospitais psiquiátricos por um longo período, existem as Residências Terapêuticas. São moradias que propõem a reconstrução dos laços sociais e afetivos. Nesses locais, não é permitido morar mais que oito pessoas, que devem contar com suporte profissional preparado para atender às necessidades individuais.

Já o tratamento nas unidades psiquiátricas dos Hospitais Gerais é a mais antiga estratégia de reforma na assistência à saúde mental – a primeira instalada no Brasil foi em Recife, no Hospital Pedro II, em 1947. Nessas unidades, os usuários podem ser internados para tratamento emergencial, substituindo o dos hospitais psiquiátricos.

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A mais emblemática das alternativas aos tratamentos nos manicômios é o Centro de Convivência. São estruturas de inclusão social, mantidas pelos municípios, que envolvem cultura e valorização do usuário. Contudo, em comparação aos outros modelos, ainda não há quantidade suficiente para atender às necessidades da população – dados de 2008 informam que havia apenas 51 espaços como estes no Brasil inteiro, dos quais 96% são localizados no Sudeste. Em Pernambuco, não há nenhum.

* Os nomes dos personagens foram trocados, para preservação da identidade.


Vida insólita, sanidade

mental desfalecida Do nascimento à vida adulta: sofrimento, medo e privações sociais. O diagnóstico de hoje é fruto dos acontecimentos de ontem na vida da dona de casa Sônia Maria de Paula Davi Lira

E

la já viu muitas mortes por ter ser criada ao relento. Nunca foi à escola, sequer sabia o nome do pai, viu o padrasto carroceiro sendo morto quando tinha apenas 12 anos e a mãe alcoólatra desfalecer “de cirrose mardita” aos 18. Por ser mais “branquinha”, acabou sofrendo com as quatro irmãs que eram “mais pretinhas” que ela, e pouco apoio teve dos outros dois irmãos, cada um de pais diferentes. Como herança, “a lama, o candeeiro e uma barraca no Coque”, local utilizado para sua prostituição forçada em troca de cachaça para a mãe. Quase não há vida na vida de Sônia Maria de Paula, 42 anos, mais uma entre tantas outras donas de casa recifenses que compartilham um histórico de vida violento, marginal e agreste, e que hoje moram em áreas vulneráveis espalhadas em quase todos os bairros da cidade. Ela divide sua casa rosa, de oito metros quadrados e fortes grades amareladas, com o atual esposo, o flanelinha Carlos Silva, 43, e apenas um dos seus nove filhos, o caçula, Daniel, de nove anos. Diagnosticada com doença mental, Sônia passou por vários internamentos. Atualmente é depressiva, hipertensa, com trombose nas pernas e tem insônia todos os dias. A condição mental de Sônia foi progressivamente atingindo sua vida. “Aos poucos percebi que minha cabeça estava ficando cada vez pior e a perda dos meus filhos foi o que me deixou mais agoniada”, diz. Segundo ela, desde cedo o seu estado psicológico estava comprometido, faltava apenas a confirmação técnica, via laudos médicos. O primeiro deles foi emitido em 1997, momento em que dois filhos foram retirados da sua guarda pelo Conselho Tutelar do Estado. No diagnóstico médico foi atestado “grave quadro de transtorno mental”. A partir de então, constantes internações psiquiátricas em hospitais da rede pública e, com elas, um legado de medicamentos que se incorporaram exaustivamente à sua rotina.

“Estive no Sanatório Recife duas vezes e acho que piorei, fiquei com mais medo ainda. Os doidos de lá viviam querendo transar à força com as mulheres”, declara. Segundo ela, chegou a passar dez vezes pelo setor de psiquiatria do Otávio de Freitas. “O pior lá é que eles me amarravam na cama e me ‘atolavam’ de coquetel para dormir. Já no Santo Antônio, em Afogados, acabei fugindo por uma brecha”, relembra Sônia, que há três anos espera a aposentadoria por doença pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Para conter os delírios, alucinações de cunho persecutório e controlar os impulsos, além do próprio cuidado com a trombose e a pressão alta, são necessárias dosagens controladas de seis medicamentos. São drágeas de fármacos tomadas durante o dia e à noite, todos com o objetivo de amenizar a angústia, o entristecimento, a baixa autoestima e as várias tentativas de suicídio que perseguem o quadro clínico de Sônia, que ainda sofre com obesidade.

Foto: Davi Lira

Sônia ao lado do esposo Carlos, flanelinha e do caçula Daniel, o único que vive na casa

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cabeça do povo Sentimentos negativos e ideias que mesclam receio com preconceito dão a tônica do imaginário social em relação à loucura Luiza Falcão e Rafael Souza

“M

edo. Eu tinha medo deles. Eu era apenas uma criança e temia ao pensar que, quando ficasse adulta, eu podia ficar assim.” Estas são lembranças da cineasta Cynthia Falcão, olindense, criada na Rua do Sol, cercada de misticismo, antagonismos e histórias. O lugar do medo, onde se consolidaram preconceitos e estereótipos, era como bem já havia comparado Foucault, em seu livro “História da Loucura”: separavam os excluídos do resto da sociedade, criando um “círculo sagrado” ao redor deles. O espaço físico desta segregação, manicômio, era como uma mácula no meio da cidade, uma ferida que precisava ser exposta e tratada. Rua do Sol, 108, um prédio de esquina à beiramar, este é o endereço de uma velha casa construída por famílias aristocráticas de Olinda. O mesmo porão que segregava os empregados, mais tarde abrigaria “loucos”, excluídos da sociedade dita “normal”. Cerca de 30 centímetros

acima da calçada ficavam as janelas de um dos pavilhões do hospital psiquiátrico Comunidade Terapêutica de Olinda, hoje transferido para a Avenida Joaquim Nabuco, um espaço maior, mais humano, com um sítio para lazer. Separados da sociedade, confinados em uma espécie de prisão perpétua, os loucos sempre foram vistos com mistério. De princípio, a maior dificuldade é responder à pergunta “o que é um louco para você?” Mesmo depois de ter trabalhado quatro anos em um hospital psiquiátrico, Eliane Santos, assistente administrativo, não soube responder. “Os médicos do hospital diziam que pode ser genético, que pode dar de repente ou que as drogas podem desencadear um surto. Eu não sei, sei que eles ficam estranhos, que a fisionomia muda quando estão loucos, mas não sei dizer o que é ser louco. E talvez ninguém saiba.” Para o recepcionista de um hotel localizado em frente ao antigo manicômio, Jorge Cunha, o excesso pode ser a principal causa de um surto psicótico. “Quem estuda demais acaba ficando louco. Você tem conhecimento, tem sabedoria, mas não consegue controlar a si mesmo. Deve ser muito triste, muito difícil”, comenta.

Se o receio e a noção de perigo tomam conta de qualquer indivíduo quando se trata da loucura, outro fator também é praticamente unânime quando se toca no assunto: a lamentação. O sentimento de pena em relação aos psicóticos é majoritário. Eliane Santos, que trabalhou com internos do manicômio de Olinda, se refe- re aos mesmos com tristeza. Não pelas condições oferecidas pelo hospital (ela até o elogia), mas pela limitação dos pacientes e, principalmente, pelo fato de

a maioria ser esquecida pela família: “A família os esquece, o que provoca uma tristeza muito forte em qualquer um. Eu mesma cheguei a pedir licença do hospital por alguns meses, por não aguentar a solidão e a saudade que eles sentiam”, comenta. Consequência muito ligada aos que terminam em um hospital psiquiátrico, o abandono e a solidão também são apontados como causa da loucura em algumas opiniões. A ideia de “ninguém consegue ser feliz sozinho” e de “terminou tão sozinho que enlouqueceu” é trama recorrente no final de alguns personagens da ficção, como na teledramaturgia brasileira, por exemplo. Não é apenas com o abandono e o descaso que a loucura é relacionada no imaginário social, também é comum formar paralelo com a libido e o elevado apetite sexual encontrado em boa parte dos internos. “Eles tinham bastante desejo sexual, às vezes se masturbavam na nossa frente”, conta Eliane. Medo do comportamento violento, das inesperadas ações e reações, das vontades e da imprevisibilidade. Independentemente de idade, sexo ou religião, o senso comum corrobora a noção de medo e de perigo que eles representam. Séculos de políticas manicomiais consolidaram a ideia de agressividade, ampliando a noção de que eles podem machucar ou até mesmo matar. É raro encontrar quem não demonstre medo ou diz não ter este sentimento frente a indivíduos psicóticos. Poucas são as exceções. Uma delas é Amara Lavô, de 90 anos de idade e muito boa memória, que por toda a sua vida foi vizinha do manicômio da Rua do Sol. “Eles não davam medo”, diz a senhora, apesar de fazer ressalvas. “Eles não davam medo. Isso porque eles não eram loucos como os outros, eram apenas nervosos”, destaca. O comentário é devido ao fato de que muitos dos internos enfrentavam problemas com o alcoolismo. Em maior ou menor grau, a distância social em relação aos “loucos” proporcionou um ideário fortemente negativo, que oscila entre encará-los como ameaça ou como vítimas de um destino cruel. Acima de tantas especulações pejorativas, o comentário de Eliane Santos, que ganhou intimidade com muitos dos internos de que cuidou, elucida outra realidade: “Era um ambiente bom (o manicômio), apesar de tudo. São gente boa, pessoas que querem ser felizes, e que, com cuidado e atenção, conseguem.”

Foto: Wesley Prado

A loucura na

Hospício inquietava moradores de Olinda


Reflexão sobre a

O Arquétipo Zero

visão da loucura

Denilton Laranjeira

L

Assim é a carta sem numeração do Tarot. Diferente de todos os outros arcanos, ele é o único que não se prende aos conceitos atribuídos às demais 21 cartas do baralho, arquétipos humanos. O Louco é livre para fazer o que desejar, sem medos ou preconceitos. Segue seu caminho, vendo tudo, observando e se deixando observar por todos. Aparece quando menos se espera e, tão rápido quanto chega, vai embora... Sempre proporcionando um momento de parar e pensar, refletir sobre nós mesmos e nossas atitudes. Não se prende a nada, não tem as preocupações deste mundo e parece buscar algo que nem todos podem ver. Seu jeito diferente dos demais, por vezes, conduz a dois pensamentos distintos: O primeiro: ele está completamente louco. Nada do que faz parece ter lógica, pobre coitado. O segundo: ele é que é feliz. Embora pareça desprovido de algum sentido, é quem sabe viver. Mas o que realmente os loucos têm a nos dizer? Pare e observe... Quem sabe ele não revela uma alternativa para esse mundo insano em que vivemos?!

Retratos infantis da loucura

Foto: Denilton Laranjeira

ivremente caminha o arcano entre todos os outros. Não está atrelado a um significado e, mesmo assim, ocupa um lugar que é só seu. Caminha pelo Mundo, se insinua entre os Enamorados, contempla a Lua e se deixa contemplar pelo Sol. Observa a pompa do Imperador, a suavidade da Imperatriz, a solidão do Eremita e o verde desabrochar do Mago.

Em uma análise do que a loucura representa para as pessoas leigas muitas variáveis poderão entrar em jogo Andréa Echeverria

(Psicanalista)

E

m uma análise do que a loucura representa para as pessoas leigas muitas variáveis poderão entrar em jogo. Em primeiro lugar, poderemos consultar o profissional que trabalha no diagnóstico desta “doença”, assim mesmo, entre aspas; em segundo lugar, poderemos consultar os profissionais que tratam os loucos. Dentre eles, várias linhas irão nortear as condutas e intervenção. Podemos ainda consultar os familiares, os que convivem com a loucura dentro de casa e, por último, os que são chamados de loucos. A loucura sempre deu o que falar e ainda dá, pois o que foge da regra é sempre difícil, para não dizer polêmico. Muito já se escreveu sobre a história da loucura e de como ela foi usada para segregar os que ousavam questionar o que estava estabelecido na sociedade como correto, como regra, seja ela de conduta de comportamento ou de idéias. No senso comum há a idéia de que a genialidade está muito próxima da loucura, tendo sido alguns artistas chamados de loucos por se destacarem com suas produções. No entanto, como diz o artista plástico pernambucano José Cláudio: “Comparar arte e loucura devia ser crime inafiançável, tentativa de assassinato, sujeito a pagamento de indenização por danos morais. Quem confunde arte com loucura nunca viu um louco nem um artista. Loucura é inércia, é ausência, é oclusão mental, é doença séria, não dá para fazer comparação. Quando Van Gogh ficava louco não fazia nada, ficava inerte num canto, não tugia nem mugia, não pintava, não cortava a orelha, nem sabia que era Van Gogh. Arte é saúde, é acuidade, é inteligência. A loucura veda ao paciente a prática da arte. O louco não tem acesso ao mundo real ou mundo objetivo, não tem como apanhá-lo, é incapaz de discerni-lo, quanto mais de reconstruí-lo ou recriá-lo num todo orgânico que é o que se exige da obra de um artista...” Muitos loucos encontram na arte uma forma de se reconhecer, um veículo de comunicação com o mundo e a sociedade. Na produção artística, o louco encontra uma forma de fazer um nome, de ser reconhecido, de construir uma identidade. Toda identidade se estabelece no convívio com os outros e todo sujeito deveria ter o seu lugar garantido na sociedade. A responsabilidade pelo outro passa necessariamente por uma postura atenta e acolhedora ao outro, lugar onde o desejo deve sempre levar em conta  a responsabilidade que cada um deve assumir pelos seus atos e escolhas. Tentar responder o que é loucura faz com que o tema seja debatido, pesquisado, esclarecido. Enfim, que a fala possa circular e possibilitar o diálogo entre os leigos e os outros que acham que sabem o que é ser louco.

Desenhos de crianças de terceira a quinta-séries colhidos a partir da pergunta: Para você, o que é loucura?

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Transtorno sexual: quando o sexo vira loucura Práticas sexuais obsessivas-compulsivas ainda são vistas com preconceito. Falta de informação sobre o tema dificulta o diagnóstico e, consequentemente, o tratamento dos transtornos

E

m 1987, a banda de rock Ultraje a Rigor lançou um LP intitulado “Sexo!!”, que causou polêmica. A música que empresta nome ao disco questiona o motivo de não se falar abertamente sobre o assunto. “Bom, vai lá, vai ver que é pelas crianças/ Mas quem essa besta pensa que é pra decidir?/ Depois aprende por aí como eu aprendi/ Tão distorcido que é sorte eu não ser um pervertido”, canta Roger. Devido ao assunto ser ainda tão pouco abordado pela mídia, ou abordado erroneamente, a ajuda para doenças psíquicas relacionadas ao sexo é pouco procurada. A busca pelo prazer sexual deixa de ser saudável quando causa sofrimento emocional e dificulta a prática de atividades simples. Frequentemente, os comportamentos relativos ao sexo - ainda tabus para a sociedade ocidental - são taxados como “perversão sexual”. A expressão não é mais considerada oficial pela Organização Mundial de Saúde (OMS), por ter agregado significados preconceituosos e pouco coerentes com as características das doenças mentais. Na história da Psiquiatria, diversos padrões comportamentais foram considerados doentios e depois revistos. A homossexualidade, por exemplo, era considerada um transtorno sexual pela OMS, até a criação do Código Internacional de Doenças, em 1976, quando passou a ser tratada como variação de desenvolvimento sexual. Por outro lado, a pedofilia já considerada “normal”, atualmente é tida como transtorno. A psicóloga Marise Morais explica que essas variações no discernimento da Psiquiatria têm relação com o conceito de cultura. No caso dos transtornos sexuais, os padrões de salubridade são reconsiderados com grande frequência, por causa da variação de olhares que a sociedade apresenta diante desse assunto ao longo dos anos. Atualmente, distúrbios psicológicos relacionados à sexualidade são divididos em três grupos: disfunções sexuais, transtornos de identidade de gênero e parafilias. Esse último engloba o conceito do senso comum sobre a “perversão”. Exibicionismo, voyeurismo e fetichismo são alguns exemplos de parafilias. As pessoas que possuem o transtorno parafílico têm fixação por determinado comportamento sexual, como a sensação de dor física, no caso do masoquismo, ou a atração por animais, na zoofilia. Em todas as derivações, a causa do prazer não está no ato sexual, mas na maneira como ele é executado ou no artifício empregado para o gozo. Segundo Marise, “as parafilias caracterizam-se por condicionar o desejo e a prática sexual a uma condição geralmente de ordem psíquica”.

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Ingrid Melo e Nathalia Pereira

TRATAMENTO O diagnóstico deve ser realizado por profissionais especializados em parafilias. Esse parecer é essencial, pois o fato de uma pessoa apresentar sintomas relacionados à doença não significa que a possui. Nos crimes sexuais, por exemplo, constantemente os suspeitos responsabilizam o transtorno sexual pela violência praticada. Nessa situação, só um especialista será capaz de evidenciar se os sintomas correspondem à doença. Assim como nos demais transtornos obsessivos, as parafilias não têm cura. No entanto, o tratamento pode ser realizado através de sessões psicoterapêuticas e, se necessário, de medicamentos específicos. “O paciente precisa aprender a lidar com seu problema, principalmente se ele se torna ameaça para a sociedade, como, por exemplo, o pedófilo”, explica Marise. De acordo com ela, nos casos em que a obsessão parafílica atinge o auge, o tratamento clínico torna-se insuficiente e os cuidados devem ser repassados a hospitais psiquiátricos. No mundo, dezenas de instituições se dedicam a prestar auxílio àqueles que sofrem de doenças psíquicas relacionadas ao sexo. No Brasil, uma das mais procuradas é a Dependentes de Amor e do Sexo Anônimos (Dasa). Presente em 15 estados brasileiros, a irmandade é orientada por um programa de 12 passos e 12 tradições baseado no modelo dos Alcoólicos Anônimos. “Nossa preocupação básica é a de que o dependente de amor e sexo encontre o caminho que o liberte da autodestruição e assente as bases da sua recuperação espiritual e emocional”, explica o responsável pela Dasa de Pernambuco*, localizada na cidade de Petrolina, sertão do Estado. Segundo ele, nas reuniões é possível perceber que a maioria dos transtornos sexuais está relacionada a problemas oriundos da infância, como propõe a Psicanálise de Freud. Crianças que passam por experiências traumáticas podem nutrir um distúrbio psicológico, que pode ser sexual. Marise ressalta que isso não é regra. “Predispostos somos todos. Diz a música: ‘fantasia na cabeça, todo mundo tem’. Isso vai depender do equilíbrio psicológico de cada um, que não tem momento certo nem motivo exato para desandar”, lembra.

Portanto, o mais indicado é falar abertamente sobre o sexo. Para Marise, a sexualidade deveria ser tão natural quanto um sexto sentido e ser tratado de maneira equilibrada. De acordo com ela, não se pode pensar a prática sexual como algo imoral, tampouco apregoá-la como um circo onde tudo pode – e deve – ser mostrado e realizado, sem se levar em conta o sentimento do outro e o dano que se pode causar. Sentindo-se mais à vontade para debater sobre o assunto, as pessoas também se sentirão aptas a pedir socorro. “Temos que ter o cuidado de não nos transformarmos em autistas sociais”, conclui.

*A identidade do coordenador não é fornecida porque a instituição tem caráter anônimo


O céu e o inferno de Pedro*

Aos 47 anos, Pedro destruiu um casamento estável, se afastou de duas filhas e perdeu o emprego devido a um distúrbio sexual

Ingrid Melo

N

a primeira vez que conversei com Pedro por telefone para combinarmos nossa entrevista, senti que não seria fácil nem para mim, nem pra ele. “Meu depoimento tem que ser detalhado?”, indagou reticente. À minha resposta afirmativa, respondeu com silêncio. Depois suspirou. “Tudo bem, mas não pode ser tudo de uma vez”. Falar sobre um transtorno, seja ele qual for, é delicado. Quando se trata de um transtorno sexual, o relato torna-se ainda mais penoso. Isso porque nossa sociedade guarda certo receio em relação ao sexo e, em muitas rodas de conversa, o tema ainda é considerado tabu. Pedro, 47 anos, trabalha com segurança eletrônica. Antes desse emprego, ele prestava serviços jurídicos em um escritório de advocacia, de onde foi embora quando seu transtorno sexual foi descoberto. Também foi nessa época que se divorciou da esposa, após 16 anos de casado, e precisou se afastar das duas filhas, de 14 e 11 anos. O transtorno de Pedro consiste no interesse por meninos de aparência feminina – uma parafilia conhecida como pederastia. Na adolescência, justificava sua falta de atração por mulheres por meio de sua devoção religiosa e frequentava a igreja diariamente. Porém, quando adulto, sentiu necessidade de construir uma família e se casou.

Uma história assim é meio purgatório sempre que a gente conta. É difícil viver quando seu céu é, ao mesmo tempo, seu inferno

Pouco tempo após o nascimento da primeira filha, seus interesses sexuais ganharam força. Ele perdeu a atração pela cônjuge e, ao mesmo tempo, começou a se envolver com um garoto. Sentia-se culpado tanto pela mulher, quanto pelo menino com quem se relacionava e entrou em depressão: “A dependência sexual também é manifestação de uma doença emocional que pode levar à morte prematura ou à loucura”, conta. Com ajuda da esposa e da religião, conseguiu se recuperar e retomar sua vida. A tranqüilidade durou novamente apenas até que sua segunda filha nascesse. Desde então, passou a praticar a pederastia com mais frequência e alternava entre casos sem importância e envolvimentos mais extensos que o devastavam física e psicologicamente. Aos poucos, sua esposa começou a desconfiar que ele a estava traindo. Não se preocupava em manter as aparências, nem cuidava para não deixar rastros que o comprometessem. “Eu estava tão desesperado que sem perceber eu pedia que me descobrissem”, analisa. Pedro acredita que o fato de sua doença se manifestar com mais intensidade após o nascimento das filhas tem relação com duas coisas. Primeiro, ambas eram meninas; segundo, elas o lembravam da própria infância. Segundo ele, sua mãe era uma mulher bastante austera, cuidava zelosamente de sua criação e de seus nove irmãos. Contudo, não demonstrava o mínimo de afeto e não permitia qualquer intimidade entre eles. “Até hoje, com 83 anos, ela se incomoda com a presença dos filhos e expulsa os netos com olhares”, ressalta. Assim, Pedro registrou que todas as mulheres são iguais à sua mãe e criou um bloqueio contra elas. “De acordo com a psicanálise, a relação com a mãe determina a relação que teremos com as mulheres; assim como, para as meninas, a relação com o pai, determina como elas se envolverão com os homens”. Pedro só compreendeu isso recentemente, após muito tempo de reuniões nos Dependentes do Amor e do Sexo Anônimos (Dasa) e cinco períodos da faculdade de psicologia em andamento. Até possuir essa consciência, precisou conhecer o fundo do poço. Em 2003, sua filha mais velha, então com oito anos, chamou um colega para fazer um trabalho escolar em sua casa. Quando voltou do emprego, Pedro os encontrou e imediatamente sentiu-se atraído pelo menino. Pedro ofereceu-se para levá-lo de volta à casa. No caminho, procurava desculpas para tocá-lo, como verificar se o cinto de segurança estava atado ou abrir e fechar a janela. A atração se tornou mais intensa e Pedro o fez prometer que iria à sua casa novamente o dia seguinte. Nesse dia, contudo, ele precisou sair mais tarde do trabalho e, quando chegou em casa, o menino e a filha estavam dormindo na sala. Pedro quis acordá-los, mas a esposa não deixou e, em um acesso de raiva, ele lhe bateu. “Eu havia passado o dia inteiro muito ansioso esperando pela noite. Quando cheguei em casa, eu simplesmente precisava daquele garoto”, lembra. Sem ter como se explicar, ele foi ao bar mais próximo. Ficou lá até duas horas da manhã e depois dirigiu desesperado por horas até o sono o fazer parar. “Eu pensei muitas vezes em me matar, me achava uma aberração. Foi aí que decidi que precisava tomar uma atitude”, recorda. No outro dia, pesquisou sobre o problema. Foi assim que descobriu o Dasa e decidiu ingressar na irmandade.

* Nome fictício para preservar a identidade do perfilado.

Desde então está em tratamento e após alguns deslizes (como eles denominam as recaídas), completou dois anos e sete meses de prática do celibato. Porém, a esposa, não o perdoou e pediu o divórcio. Ao final de nossas conversas, eu compreendi uma frase que Pedro usou ao explicar porque deveríamos conversar um pouco por vez. “Uma história assim é meio purgatório sempre que a gente conta. É difícil viver quando seu céu é, ao mesmo tempo, seu inferno”.

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Entre a compulsão sexual e o desamor Criada em uma família desestruturada, Rita buscava no sexo a solução para suas lacunas afetivas. A obsessão rendeu-lhe relacionamentos instáveis e perigosos

Nathalia Pereira

“C

heguei ao Dasa por mais um de um relacionamento destrutivo”. A economista carioca Rita*, 53, começa assim sua carta de apresentação ao grupo de apoio Dependentes de Amor e Sexo Anônimos. Ela convive com a compulsão sexual há mais de trinta anos, contudo, só conseguiu forças para reconhecer a doença e procurar ajuda há sete . Sexo sempre foi o elemento decisivo nos relacionamentos de Rita. A garantia da saciedade sexual a fez envolver-se com pessoas subordinadas à sua companhia. Quase todos seus relacionamentos fixos foram com dependentes químicos no auge da compulsão. Os casos amorosos aconteciam entre pessoas que estavam juntas para anestesiar as dores de suas respectivas obsessões, não curá-las. Quando solteira, Rita recorria à masturbação obsessiva e ao exibicionismo para satisfazer seus desejos sexuais. Segundo ela, era comum o uso de objetos – vibradores, controles, garrafas – e material pornográfico e masturbacao em locais públicos. Também gostava de se exibir. Vez ou outra, desabotoava de propósito botões de blusas, fingia não reparar a saia levantada ou andava sem roupa dentro de casa quando notava que alguém poderia vê-la. Em relacionamentos, Rita fazia sexo compulsivamente, e nada a satisfazia. “Sugava o outro até nada mais restar”, lembra. Mesmo durante o casamento de nove anos, com o pai de suas duas filhas, continava sentindo um vazio existencial e afetivo que não sabia como remediar. Disfarçava a dor com o prazer do orgasmo. Após o divórcio, Rita reencontrou um ex-namorado alcoólatra e, mesmo sabendo que o rapaz a havia espancado inúmeras vezes no passado, retomou o relacionamento. Ela não sabia mais viver sem um parceiro sexual e percebeu isso quando as agressões físicas se repetiram. No auge do desespero, “fundo de poço físico, moral e espiritual”, conheceu o Dasa. Apesar do preconceito que sentia pela irmandade, resolveu tentar o tratamento. Acostumada a tomar antidepressivos e comprimidos para dormir desde a adolescente, Rita encontrou, com a ajuda do grupo de apoio, o remédio para suas obsessões. O primeiro passo do tratamento foi descobrir a causa da angústia que sempre sentiu: o descaso dos pais e as agressões físicas e psicológicas sofridas durante a infância. Rita associou o transtorno compulsivo à lacuna afetiva que sentia quando criança. Sua mãe e o irmão mais velho a agrediam frequentemente e seus pais mantinham um casamento superficial e sem amor. “Era uma criança invisível. Cresci num lar cheio de segredos, medos e insegurança financeira. Também me sentia profundamente abandonada pela minha mãe. Tudo propício para ser uma mulher dependente de amor e sexo. Buscando amor através do sexo”, relata.

Seguindo o programa dos 12 passos do Dasa, a economista optou pela abstinência sexual – incluindo a masturbação – que dura há seis anos. Para ela, distanciar-se do sexo era o essencial para a formação de uma “sobriedade emocional” para reformular a vida. Sem o prazer sexual como anestésico, Rita entendeu que a solução mais saudável para o seu problema era a construção do amor-próprio. Não ia encontrar caminho fora de si. A próxima etapa do tratamento é a retomada da vida sexual. O medo de repetir padrões é o principal entrave para o fim da abstinência, mas Rita confia que pode fazer diferente depois de tantos anos de auto-análise. “A mudança é que hoje não preciso do sexo para me sentir inteira. Nesse tempo de recuperação trabalhei essa inteireza”, afirma.

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* Nome fictício para preservar a identidade do perfilado.


Estado de transe e possessão

Transtorno psicológico é provocado por grandes emoções, causa perda da consciência e é confundido com delírios psicóticos. Possessão de espíritos é o caso mais comum Pedro Paz e Túlio Vasconcelos

T

ontura, tremedeira e desmaio. Estas foram as sensações de Josefa Paula Cabral, 81 anos, ao incorporar um espírito no primeiro dia em que foi ao culto de uma das unidades da Igreja Universal do Reino de Deus da sua cidade, Jaboatão dos Guararapes, há 12 anos. “No começo, o ‘bicho’ me pegou várias vezes. Quando acordava, não lembrava mais de nada, somente dos instantes finais”, conta a aposentada. O que mais impressiona é o que Josefa pensa desse momento: “Acho bonito alguém ser possuído por um espírito e o pastor conseguir expulsá-lo, porque assim está se libertando, se curando”.

Transe Coletivo Vários casos já foram descritos na literatura médica brasileira. Hoje, entende-se que tudo não passou de manifestações culturais e religiosas

N

o início das pesquisas, muitos psiquiatras dedicaram-se às formas coletivas de “loucura religiosa” associadas ao tema do messianismo crença em um enviado de Deus que, através de poderes sobrenaturais, restabeleceria a ordem entre aqueles que nele creem. Esses estudiosos tinham um entendimento marcado pelas teorias do evolucionismo e racialismo, que afirmavam que a cultura dos negros estaria em estágio primitivo, se comparada à dos brancos.

A sensação de se sentir tomado por uma entidade qualquer é o estado de transe mais comum, principalmente em lugares que têm tradição religiosa. Após o “boom” dos programas evangélicos na TV aberta brasileira, impulsionado pelo processo de redemocratização do país, há 20 anos, cenas como essa, descrita anteriormente, são recorrentes aos olhos dos telespectadores.

A pesquisa científica sobre o tema se tornou mais ampla somente nos anos de 1930, com a institucionalização da Sociologia no Brasil, e tem se intensificado nos últimos 20 anos. Hoje, grande parte dos cientistas considera que esses fenômenos são resultado de manifestações culturais e religiosas, ao contrário da associação que se fazia a doenças psíquicas induzidas, nas primeiras pesquisas. Conheça três lugares no Brasil que foram palco de supostas “loucuras coletivas”, segundo os psiquiatras que as descreveram:

Mas quem nunca quis, alguma vez na vida, ter a experiência de sair do próprio corpo por um instante ou viver um sonho como se fosse realidade - seja para se livrar de problemas pessoais ou concretizar algo que deseje muito? O estado de transe é a perda momentânea da consciência, geralmente provocada por uma situação de grande emoção. Essa alteração da capacidade de julgar os próprios atos pode também ser evidenciada na hipnose, que é um estado da mente induzido, ou até mesmo em um fenômeno catártico, em que são liberados sentimentos outrora reprimidos. O Código Internacional de Doenças (CID) reconhece o estado de transe e possessão como transtorno psicológico. O Tratado de Psiquiatria de Kaplan e Sadock, um dos mais consultados pelos psiquiatras, também. Seria, então, o transe uma doença da mente?

Para o coordenador da pós-graduação em Neuropsiquiatria da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Éverton Botelho, não. Segundo ele, há diferença entre estado de transe e delírio, este último provocado por doenças psíquicas. “No transe, há alteração da consciência, no delírio, não. O que existe no delírio é a falsa crença em uma distorção da realidade. Essa falta de lógica é um sintoma da alteração na competência de entender o ambiente que nos cerca (uma das funções da mente), provocada por alguma doença psíquica, o que é muito diferente dos casos de transe”, explica. A possessão é marcada pela estranheza e incompreensão do ambiente onde o indivíduo se encontra. E a crença religiosa pode influenciar o seu conteúdo: “Há pessoas que são vulneráveis ao fenômeno porque acreditam estar sendo possuídas por algum espírito, ao serem sugestionadas afetivamente, seja por ritmos de tambores ou discurso de um líder religioso com grande capacidade de convencimento”, afirma o neuropisiquiatra. O professor do Departamento de Psicologia da UFPE Luis Felipe Rios também não entende o fenômeno como patológico e acrescenta, ainda, que a crença nos espíritos deve ser compreendida como um movimento cultural de determinados grupos sociais. “Saúde tem a ver com a capacidade de lidar com os problemas da vida. Quando a gente não consegue estar nesse processo de enfrentamento, passamos a sofrer muito, isso é que é adoecer. E qualquer religião é uma instituição legítima para que as pessoas busquem respostas para seus problemas. Ela dá conta do sofrimento humano, embora seja preciso ter cuidado para que “verdades” religiosas não sejam interpretadas ao pé da letra”, alerta o professor.

Canudos (Bahia)

Raimundo Nina Rodrigues (1896) Antônio Vicente Mendes Maciel Belo Monte, mais conhecido como Antônio Conselheiro, líder do povoado de Canudos, que foi massacrado pelas tropas monarquistas brasileira, sofria de uma doença mental grave, chamada de delírio crônico de Magnan. Atuando sobre uma massa de pobres, mestiços, desequilibrados e vulneráveis, em um momento histórico conturbado, sob fome e seca, atiçou fenômenos histéricos e místicos de grandes proporções na região.

Pedra-Bonita (Pernambuco) Osório Cesar (1939)

O delirante João Santos era uma espécie de líder religioso e acreditava ter descoberto, nas redondezas do município de Flores, uma área sagrada, repleta de riquezas e maravilhas celestes, onde ainda reinaria o legendário rei português Dom Sebastião. Movidas por ele, na busca e ânsia por aquele éden agreste, dezenas de pessoas se suicidaram e praticaram sacrifício humano.

Campo Grande (Mato Grosso do Sul) N. Pires (1946)

A população da cidade creditava a um pai delirante, portador de ideias místicas, e ao seu filho anêmico, de inteligência aparentemente subnormal e tido como “santo milagroso”, a cura de uma multidão de doentes, paralíticos, asmáticos e ulcerosos. A cidade contava com 30 mil habitantes na época e, ao que parece, a mortalidade aumentou nesse período. Para saber mais: DALGALARRONDO, P. (do Dept. de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas). Estudos sobre religião e saúde mental realizados no Brasil: histórico e perspectivas atuais. Revista de Psiquiatria Clínica, São Paulo, v.34, supl.1, 2007.

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Fora do trilho Sobre delírios, definições e liberdade Júlia Arraes

D

efinições sobre a loucura e termos a ela relacionados vêm de todos os lados. Médicos, psicólogos, psicanalistas, juristas, leigos, artistas, etimólogos e qualquer um que esteja disposto a entrar no debate. Todas são definições baseadas nos pontos de vista e lugar de fala de cada um. Algumas vezes as opiniões convergem. No caso dos delírios, é quase unanimidade que se trata de algo alheio à realidade, uma criação baseada em idéias falsas, algo que não existe. É a partir daí que começam a surgir as diferenças. Para o médico psiquiatra, é fundamental detectar os delírios para diagnosticar uma psicose e tratar corretamente o indivíduo. Para os psicanalistas, quem delira tem o inconsciente a “céu aberto”. Para os leigos, delirar é algo não racional. Para etimólogos, o delírio significa “sair dos trilhos”. Antes de tudo é fundamental diferenciar delírio de alucinação. O segundo é percepção passageira, o primeiro tem contexto e adquire o caráter de realidade. Simplificando: uma coisa é você tomar um alucinógeno e ver elefantes cor-de-rosa, outra é acreditar que os elefantes existem e querem invadir a sua casa. Delírio, para ser chamado como tal, deve primeiramente ser individual. É preciso que apenas uma pessoa acredite no seu delírio, caso contrário, pode consider-se crença, seita ou até religião. Além disso, a pessoa que delira não aceita argumentos contrários ao que está delirando. Para ela, tudo aquilo é uma verdade irrefutável.

Sobre a solidão e a importância do outro no tratamento

E

m um aspecto, psicanalista e psiquiatra concordam. É possível, sim, viver sendo psicótico e tendo delírios, com auxílio de medicamentos e muita conversa. Ambos também acreditam que o importante não é entender o conteúdo dos delírios, mas sim respeitá-lo. Afinal, tudo aquilo para o outro é real. Muitos psicóticos se tornam agressivos quando sentem sua verdade sendo invadida. “Quando alguém chega dizendo que está ouvindo vozes, não posso dizer que é mentira. Digo para a pessoa ligar o rádio, se distrair, não dar ouvidos àquilo...”, diz Ana Lúcia. É comum que certas pessoas nunca consigam parar de delirar. No entanto, aquela realidade paralela pode não mais interferir na sua vida profissional e nas suas relações sociais. Por mais que um psicótico acredite que o mundo vai acabar, ele aprende a conviver com essa convicção, sem que ela atrapalhe o seu dia-a-dia. Em alguns casos, é claro, não é tão fácil.

Psicóticos sofrem de um dos piores tipos de solidão, pois eles não têm a escolha de viver a realidade criada por eles. Segundo Ana Lúcia, a conversa com o psicanalista ou psiquiatra pode fazer com que o psicótico se sinta menos só e que consiga gerar questionamentos e ações produtivas a partir de seus delírios. Ela cita casos clássicos de artistas como Arthur Bispo do Rosário, que encontrou na arte uma forma de reduzir o sofrimento. Se dizendo o escolhido de Deus para reconstruir o universo, ele transformava sobras e lixo, muitas vezes dos hospitais onde estava internado, em bordados e estandartes, que já viraram exposição de museus. Apesar de casos inspiradores como esse, Gilvanice lembra que a loucura não pode ser romantizada, pois será sempre uma limitação, geralmente acompanhada de sofrimento. “Não é bonitinho ter uma voz que lhe manda lavar a mão com cinco sabonetes diferentes”, diz. Uma coisa é consenso entre médicos, psicanalistas, leigos, etimólogos: importante mesmo é viver com dignidade. E é bom sempre lembrar que, na loucura ou na sanidade, o normal – bem como a realidade – são sempre criações (ou convenções) de nossas mentes pensantes.

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Tipos, casos e exemplos Místicos e religiosos, persecutórios, de grandeza, eróticos... Delírios podem ser de diversos tipos, sendo mais ou menos difíceis de serem tratados. Segundo a psiquiatra Gilvanice Noblat, os persecutórios são os mais comuns: a pessoa acha que alguém está lhe seguindo, roubando e escutando seus pensamentos. Seja qual for a classificação, é a “realidade” que norteia o conteúdo dos delírios – que acompanham os avanços tecnológicos de gerações. Por muito tempo, o delírio de ter os pensamentos capturados por freqüência de rádio foi comum. Hoje, chips de computador também são considerados vilões por muitos psicóticos. No caso de megalomania, o conhecimento tem interferência no delírio. “Ninguém pode delirar que é Napoleão se não sabe nem quem é o sujeito”, diz Gilvanice. Segundo a psicanalista Ana Falcão, os delírios de megalomania são muito difíceis de serem tratados. Ela comenta que “Deus” não visita consultório de psicanalistas. “Se ele é Deus, quem sou eu para tratá-lo”, brinca. De acordo com ela, a psicanálise ainda é pouco utilizada no tratamento de psicóticos, por restrições de todas as partes envolvidas. “Quando atendemos psicóticos, mudamosde posição, porque, nesse caso, eles têm certeza de que são eles quem sabem [de tudo]”, diz Ana. Como os resultados nunca são imediatos, a família fica desestimulada e desiste.


O

imaginário no museu

Museu Murillo La Greca exibe obras de pacientes do Centro de Atividades Terapêuticas do Hospital Ulysses Pernambucano

Denilton Laranjeira e Erizon Oliveira

Desabafos Artísticos Desenhos dos usuários do Hospital Ulysses Pernambucano realizados em oficinas à parte. Poemas

Foto: Erizon Oliveira

Obrigado amigos pelos os votos de comfiança. Amigos são asim nas hora boa e nas hora rum. Amigos não são aqueles que desroi mas aquele que comstroir. como as rosa não de espino. asim são os verdadeiro amigos e amigos de verdade que me ajudarão a chegar aqui. E eu vou te caregar até quato eu poder. Amigos como vocês e pra sigarda (...) garda o seu amigo nu lugar com espinho e traira e não agada a Deus. Muito obrigado por apoitas em mi. e sabe que eu não sou a cariosa do pedaço mas sim gente legal

Tapeçarias compoem o acervo da exposição Imaginário no museu Murillo La Greca.

A

exposição Imaginário é composta por pinturas, tapeçarias e cerâmicas produzidas durante todo ano de 2010, por cerca de 80 artistas que foram ou ainda são pacientes do Hospital Psiquiátrico Ulysses Pernambucano, na Zona Norte do Recife. As obras foram exibidas na Escola de Artes do Museu Murillo La Greca, que fica próxima ao hospital, entre 19 de outubro e 13 de novembro.

Ana Paula de Sivas Amigos do pedaço Beixo e abraço

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Segundo a coordenadora do Núcleo de Arte Educação do Murillo La Greca, Gleyce Heitor, o museu gosta de se relacionar com a comunidade e, todos os anos, de acordo com a disponibilidade, é aberto um espaço de integração social entre os internos do Ulysses Pernambucano e a sociedade, dando visibilidade às obras produzidas pelos pacientes. A terapeuta ocupacional e coordenadora do Centro de Atividades Terapêuticas (CAT), Elizabete Rocha, comprova que as atividades artísticas ajudam bastante a evolução do grupo. De acordo com ela, os pacientes do centro são os que passam menos tempo internados e normalmente usam menos medicamentos. Nas duas primeiras exposições, algumas obras chegaram a ser vendidas, e os recursos arrecadados, divididos entre o artista e o hospital. Esta foi a terceira exposição realizada pelo Ulysses e a segunda de coordenação do La Greca.

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Paralelamente à exposição, há também um curso de grafitagem, disponibilizado pelo La Greca para os pacientes do hospital. O estagiário do museu e professor de grafitagem, Daniel Uchoa, explica que as aulas são uma oportunidade de discussão entre os pacientes sobre temas como reabilitação, liberdade e construção de identidade. “A finalidade é dar uma oportunidade de expressão para o grupo que se dispõe a fazer as aulas”, completa Daniel. No final do curso, todos os participantes montam um painel, que é exibido na frente do museu.

SERVIÇO

Doimim 1 Voks pra mim fazer caridade aqu nesesidade isse familia

O museu Murillo La Greca fica na Rua Leonardo Bezerra Cavalcanti, 366, Parnamirim, Recife. Mias informações: (81) 3355-3127|(81) 3355-3128|murillolagreca@gmail.com

07-04-200010 José Soares Eliane Soares José Santos Filho

“Mulheres o que dizer, das mulheres ser, (...) inimaginárias e supremas” Miguel Campos

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Foto: Erizon Oliveira

As pessoas precisão muito do Hopital Ulysses Penbucano porque não tem onde fica Ulysses é um lar que a a pessoa vem e fica um tempo e fica se medica e volta para casa!

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Detalhe de um quadro pintado por um usuário da CAPS do Hospital Ulysses Pernambucano


Representações na sala do cinema Em muitos filmes no decorrer da história do cinema, o transtorno psicótico se tornou o principal personagem Gianni Paula de Melo

A

o contrário do que se pode pensar, a loucura não é romântica. O sofrimento costuma estar presente na vida de quem possui transtornos psicóticos, principalmente devido aos valores questionáveis e preconceitos da sociedade contra eles. Este quadro representa um prato cheio para as narrativas e, entre esclarecer e simplificar, o fato é que o cinema incorporou esta temática inúmeras vezes.

O Iluminado (1980)

Psicose (1960)

A ambiguidade do protagonista é explícita; a condição de contraventor não o torna menos sensível à vivência de tédio e privações dos usuários daquele manicômio. No entanto, a crítica feita pelo filme parte de um lugar de incômodo que tende a refutar qualquer valor ou mérito da psiquiatria. Algo parecido ocorre no nacional Bicho de Sete Cabeças (2000) da diretora Laís Bodansky. Baseado na experiência do brasileiro Austregésilo Bueno, representante da luta antimanicomial no país, o filme também expõe as atitudes abusivas tomadas dentro dos hospitais psiquiátricos, desde a medicação excessiva até a “domesticação” a partir de choques elétricos.

999) Clube da Luta (1

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Questionando o confinamento e os procedimentos para tratar a loucura, algumas produções se destacam. Um estranho no ninho (1975), dirigido por Milos Forman e estrelado também por Jack Nicholson, mostra a realidade de um hospício, onde impera o tradicionalismo e as arbitrariedades, como o uso de eletrochoques. O personagem de Nicholson, embora não seja psicótico, simula esta condição para tornar mais branda sua pena judicial por determinados crimes cometidos.

(2001)

Clássicos como Psicose (1960) e O Iluminado (1980), de Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick, respectivamente, oferecem cenas memoráveis como o assassinato da personagem Marion Crane (Janet Leigh), no caso do primeiro filme, em umas das seqüências mais conhecidas de todos os tempos. Em O iluminado, o personagem Jack (Jack Nicholson) aparece várias vezes batendo em sua máquina de escrever até resolver empunhar seu machado e liberar seu ímpeto agressivo.

O tratamento ao qual Alex, encenado por Malcom McDowell, é submetido, incita as melhores reflexões do longa-metragem. O posicionamento da ciência e da sociedade diante daqueles que não respeitam suas normas se revela desumano e humilhante, mostrando que o sistema formula as estratégias mais extremas para enquadrar os indivíduos.

ica (1971) Laranja Mecân

Uma Me nte Brilh ante

O binômio loucura-violência é responsável por uma grande quantidade de personagens do audiovisual. Não é difícil de entender a razão disto, pois a combinação destas temáticas de impacto garante interessantes conflitos ao enredo. No entanto, ao insistir no entendimento do louco como indivíduo que representa uma ameaça para as outras pessoas, o cinema pode colaborar para a reafirmação de estereótipos.

Nos dois filmes, a loucura é abordada de forma unilateral, isto porque ela surge para respaldar o gênero suspense/terror e, assim, a complexidade dos personagens que possuem transtornos psicóticos está reduzida a posturas enigmáticas, obsessivas e, posteriormente, violentas. Em outro filme do Stanley Kubrick, Laranja Mecânica (1971), os desvios de comportamento também podem ser entendidos como resultantes de um desequilíbrio mental.

Janela Secreta (2 004)

A temática da loucura perpassa muitas outras produções cinematográficas recentes como no instigante Clube da Luta (1999), na sensível história de Uma mente brilhante (2001) ou no previsível Janela Secreta (2004). Nestes três exemplos, é a experiência esquizofrênica que rouba a cena dos filmes e é esboçado certo conflito narrativo entre o que é real e o que é criação da mente dos personagens. No entanto, poucos parecem conseguir mergulhar no íntimo daqueles que não compartilham a cognição padrão. Assim, a sensibilidade diante do drama do transtorno psicológico atinge seu grau pleno em filmes como Através de um espelho (1961) e Julieta dos espíritos (1965). O primeiro, dirigido pelo sueco Ingmar Bergman, apresenta uma família repleta de conflitos entre os quais a psicose de Karin (Harriet Andersson). Através de um espelho, junto a Luz do Inverno (1962) e O silêncio (1963), compõe a famosa Trilogia do silêncio de Bergman e a partir, justamente, de poucos diálogos e valiosas encenações e planos, a experiência desgastante da doença mental é conduzida de forma delicada e precisa. Seu contemporâneo, o italiano Federico Fellini, também esbanja sutileza em Julieta dos espíritos, estrelado por Giulietta Masina. No entanto, este apresenta um posicionamento mais positivo em relação ao diálogo do indivíduo com seus transtornos psicológicos, vislumbrando a possibilidade de convivência tranqüila entre o louco e sua loucura.


Quando a literatura se fez dentro do manicômio Experiências vividas em hospício pelo escritor Lima Barreto ganharam registro memorial em diário e versão ficcional em novela inacabada

Gianni Paula de Melo

A

nalise o caso: você é escritor e cria um intrigante personagem ultranacionalista, com ideias tão românticas quanto estapafúrdias, que vai parar no Hospital Nacional dos Alienados, no Rio de Janeiro. O ano é 1911 e a tal estória – O triste fim de Policarpo Quaresma - é publicada no formato de folhetins. Oito anos mais tarde, no natal de 1919, é você quem está lá, naquele ambiente descrito com detalhes na ficção. Esta grande ironia cruzou o caminho de Lima Barreto, escritor pré-modernista, cuja obra foi reconhecida tardiamente pela crítica e o mercado editorial. Contrariado com certa indiferença dedicada aos seus livros, ao mesmo tempo em que mantinha a rotina do funcionalismo público, o escritor desenvolveu um quadro de alcoolismo e, posteriormente, começou a ter alucinações decorrentes do vício. Após o seu primeiro internamento, a crise de Lima Barreto tornou-se mais aguda e nesta segunda experiência, em 1919, quando é levado ao Hospital Nacional dos Alienados, ele passa a registrar suas impressões sobre o ambiente e as pessoas d aquele lugar. Neste processo, a representação do universo da loucura é feita de dentro para fora. Embora muitas obras sejam resultado de longas pesquisas ou de observações críticas pertinentes, o registro literário surgido da vivência do internamento, produz um efeito de gravidade mais sincero no leitor. Naquele local, definido como “meio hospital, meio prisão”, a experiência literária é a sua possibilidade de fuga. Produção, neste caso, se restringe, no primeiro momento, às notificações feitas em um diário que assume verdadeira função terapêutica. O olhar lançado sobre a instituição é lúcido e visionário. O ceticismo em relação aos procedimentos da psiquiatria se fundamenta na própria experiência degradante. O desinteresse dos médicos ante o indivíduo, promovendo tratamentos generalizados para as “diferentes loucuras”, era um dos aspectos mais criticados pelo autor. Seu lado cronista, então, também tem espaço no registro íntimo e o diário propõe um salto do autobiográfico para a reflexão social pertinente. Mais tarde, o memorial deu suporte à criação da novela Cemitério dos Vivos, que conta a história de Victor Mascarenhas. Curiosamente, este personagem tem uma vida literária produtiva conciliada com um cargo público e seu hábito pela bebida ocasiona seu confinamento em um hospício. Bastante familiar, não?

Trechos do Diário do Hospício “Nunca travamos relações, mas nós os conhecíamos. Ele [o alienista], porém, não se deu a conhecer e eu, no estado de humilhação em que estava, não devia ser o primeiro a me dar a conhecer. Não lhe tendo nenhuma antipatia, mas julgo-o mais nevrosado e avoado do que eu. É capaz de ler qualquer novidade de cirurgia aplicada à psiquiatria em uma revista norueguesa e aplicar, sem nenhuma reflexão preliminar, num doente qualquer.” (p. 55-56) “Que dizer da loucura? Mergulhado no meio de quase duas dezenas de loucos, não se tem absolutamente uma impressão geral dela. Há, como em todas as manifestações da natureza, indivíduos, casos individuais, mas não há ou não se percebe entre eles uma relação de parentesco muito forte. Não há espécies, não há raças de loucos; há loucos só. (...) Há uma nomenclatura, uma terminologia, segundo este, segundo aquele; há descrições pacientes de tais casos, mas nós temos milhões deles, e, se nos fosse possível conhecê-los todos, ou melhor, ter memória dos seus vícios e hábitos, é bem certo que, nessa população que cada um de nós resume, havia de haver loucos, viciosos, degenerados de toda sorte.” (p. 67-68) “Aqui no Hospício, com suas divisões de classes, de vestuário etc., eu só vejo um cemitério: uns estão de carneiro e outros de cova rasa. Mas, assim e assado, a loucura zomba de todas as vaidades e mergulha todos no insondável mar de seus caprichos incompreensíveis. (...) Todos eles estão na mão de um poder que é mais forte do que a Morte. A esta, dizem, vence o amor; a Loucura, porém, nem ele.” (p. 90-91) “Houve quem perguntasse: bebemos porque já somos loucos ou ficamos loucos porque bebemos?” (p. 128)

(A numeração das páginas referem-se ao livro Diário do Hospício e Cemitério dos Vivos, edição de 2010, lançada pela Cosac Naify.)

Entre gatos e traços Dos artistas que experimentaram conciliar psicose e criação, Louis Wain possui uma das produções mais emblemáticas. O pintor inglês, nascido no final do século 19, estudou na West London School of Art e costumava retratar animais e cenas campestres. Dentre os trabalhos que mais marcaram a sua carreira estão os desenhos antropomórficos de gatos, pintados para distrair sua esposa Emily Richardson que descobriu-se com câncer. Com a morte de Emily, Louis, que era esquizofrênico, começou a ter crises mais freqüentes e seu transtorno foi se revelando nas próprias pinturas. À medida que seu quadro psicótico ficava mais grave, os gatos se tornavam mais abstratos, com expressões menos passivas. Sua trajetória artística, de certa forma, traduz a renovação dos seus parâmetros de cognição e sua percepção diferenciada do mundo.

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A loucura racional do maluco beleza Yuri Assis

E

m 1977, o baiano Raul Seixas entoava a canção que lhe serviria de epíteto pelo resto da história da música brasileira. O maluco beleza sintetizava a fuga da normalidade como libertação. A loucura era condição necessária para decifrar o sentido do humano e da vida, sob um olhar profético. Raul percebia uma sociedade envenenada pelo fetiche consumista, que erguia valores tortos de normalidade. Ser louco agregava subversão e protesto numa só atitude. Segundo Paulo Luna, mestre em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, “a loucura é por ele [Raul Seixas] apresentada como fonte da sabedoria e de iluminação, comparada a um estado de êxtase religioso conforme o formulado pelas religiões orientais”. Os indivíduos ditos normais eram encarados pelo cantor como submissos às convenções sociais. A insanidade era, portanto, uma espécie de lucidez que lhe permitia quebrar as correntes e escolher de plena vontade em qual direção seguiria. Contudo, a loucura no cancioneiro de Raul Seixas não se restringe a uma posição pessoal. Suas músicas atuam como porta-vozes de uma postura de vida. Como a mosca na sopa, o compositor veio perturbar o sono das gentes para despertá-las da hipnose a que estão imersas por comodismo ou ignorância. Raul assume o papel de conselheiro, disposto a reorientar as ovelhas perdidas. Essa noção de insânia se aproxima de um dos conceitos que Sócrates ligava à loucura. De acordo com o filósofo grego, esta se tratava de uma manifestação divina, sendo classificada conforme seus fins. A loucura profética, por exemplo, ocorria quando um deus possuía o corpo de um homem, o oráculo, para se comunicar com os demais. É ao incorporar essa alegoria que o cantor se torna um ícone contracultural, agindo como messias para uns e como completo doido para outros. No fim das contas, a música de Raul Seixas levanta uma reflexão sobre o conceito de loucura e os critérios empregados para defini-la. O maluco beleza, entretanto, deixa pistas de que a sanidade, na qual o ser humano acredita piamente, sofreu distorções. Apesar do indivíduo aceitar a sensação de conforto trazida por verdades incompletas, o sapato continua apertando o calo. Parece que a solução é controlar a maluquez misturada com a lucidez e ficar maluco beleza, com certeza.

O Deserto Vermelho, de Michelangelo Antonioni, mostra a solidão da loucura Após acidente, mulher passa a enxergar o mundo sob outra ótica. Entre tentativas de readequação, ela exemplifica fragilidade de laços e o descaso humano

Rachel Queiroz

C

inza, chuvoso, viscoso. É assim que o espectador vê o filme O Deserto Vermelho (1964), de Michelangelo Antonioni. Também é assim que a personagem principal do enredo, Giulliana (Monica Vitti), vê a sua vida. Diz ela, “é como se eu tivesse os olhos molhados”. Giulliana é uma mulher abastada, com um marido que trabalha na fábrica de Ravenna, cidade onde se passa o filme. Embora tenha uma boa casa, um filho que ama e um marido com bom emprego, a mulher se sente infeliz. Ela sofre um acidente de carro e passa um mês no hospital. Desde de sua saída, pretensamente curada, ela se sente infeliz. Sente-se idiotizada porque sempre precisa de alguém ao seu lado. Giulliana diz se sentir a todo tempo como se estivesse em um plano inclinado, tentando manter-se de pé. A personagem encontra em Corrado (Richard Harris), amigo de seu marido, alguém que a escuta diferentemente de quem já sabe há algum tempo de sua situação. Entre os dois, vai crescendo uma aproximação, que, para ela, é pautada na atenção e no amor e, para ele, no sexo. Confidenciando a sua fragilidade, a protagonista diz que gostaria de ter perto de si todos que já a amaram, como uma muralha protetora. Ela mostra que tem consciência de que precisa estar cercada de apoio para viver melhor. Porém, todos no filme estão ao lado de Giulliana por obrigação. Em momentos de desespero, a mulher confessa ter medo das cores, da fábrica, das pessoas. Mas ninguém parece ter parado para escutá-la. Seu marido, Ugo (Carlo Chionetti), a trata como uma criança e fala sobre ela taxativamente: “ela ainda não raciocina direito”. Ugo é um conformista que não analisou o estado da mulher em nenhum momento após o acidente. Ele assume que a situação é irreversível e por isso, não faz nada para mudar. A personagem não encontra o apoio que buscava, e tem consciência disso. Embora ainda apresente sequelas psíquicas, Giulliana sabe que precisa se adequar ao padrão de vida estabelecido e tenta fazê-lo. Nas cenas em que isso ocorre, sua roupa adquire os tons cinzas de Ravenna, como se ela estivesse se reintegrando à sociedade que começou a contestar por causa da sua nova visão pósacidente. As cores são parte importante no filme de Antonioni. Sua protagonista nem sempre funde-se aos cinzas da paisagem, o que quer dizer que nem sempre aceita o marasmo que existe naquele lugar, com sua fábrica poluidora, sua realidade de infidelidades e falta de amor ao próximo. Nas cenas em que ela tem as conversas mais conscientes com Corrado, vê-se elementos vermelhos no cenário. Entretanto, a relação que existe entre eles é desértica de sentimentos, assim como todas no filme.

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Valério, filho da personagem, pergunta por que a fumaça que sai da fabrica é amarela, e ela responde que é por causa do veneno. Quando o menino lembra que havia passarinhos no local, ela responde que já não há, porque eles sabem que é perigoso voar por ali e por isso fugiram. A mulher entende que está só, em suas cores medonhas e suas contestações. Sabe que ela é venenosa para aquela população cinza, como a fábrica de fumaça amarela, e que eles não se aproximam dela por isso.


Os

Sonhos que nunca

conseguiremos entender Ana Laura Farias

V

isitar o Hospital Ulysses Pernambucano foi uma experiência inusitada. Desde que me decidi por essa pauta, eu sabia que essa não seria uma tarefa fácil. Mas ao chegar lá percebi que minhas pesquisas e leituras prévias sobre o assunto não adiantariam muita coisa. Tudo porque os textos que utilizei (de posts em blogs a trechos de Foucault) falavam das estruturas dos manicômios, do tratamento, mas não ensinavam o principal: como lidar com pessoas que sofrem de distúrbios psicóticos. Entrei sem saber nada sobre esse assunto, e agora, admito que saio sabendo pouco. Muito pouco, se comparado às profissionais que dão sangue e suor por aqueles internos. A Tamarineira tem uma tensão que só elas não percebem. E eu não fiquei alheia a essa tensão, que, em alguns momentos, confesso, chegou ao medo. Depois, entendi que tinha mais medo da minha própria ignorância que da reação dos pacientes. Achei que iria encontrar, com as nuances dos diferentes tipos de distúrbios e personalidades, a maior parte dos pacientes clamando por liberdade, pelo “mundo exterior”. E esse, com certeza, foi o maior dos meus enganos. Claro que alguns dos internos sonham com a saída do hospital, como uma moça que avisava a todo momento que tinha recebido alta no dia anterior. Um dia que não existia no calendário; a tão sonhada alta não veio. Contudo, o que a minha apuração não ia me mostrar é que muitos deles não querem sair dali. Um mês atrás, releria essa frase e pensaria que cometi algum erro. Como alguém pode não querer sair de um manicômio? Outra surpresa: muitos deles consideram que o hospital é um “hotel”. Em alguns casos, preferem ficar por terem consciência, ainda que remota, do distúrbio que possuem. Sabem também que, estando fora dali, podem perder o controle e ficar sem nenhum tipo de assistência, de socorro. Já outros têm uma vida tão conturbada que preferem ficar isolados da sociedade com a qual nunca tiveram uma convivência pacífica. É o caso de um dos pacientes, talvez o mais comportado deles, que age, aparentemente, com extrema lucidez. A “normalidade” relatada por algumas das agentes de saúde causou estranheza aos meus ouvidos leigos. Como um rapaz com um comportamento tão exemplar poderia estar internado? Foi aí, então, que aprendi que, na Tamarineira, nenhum (pre)conceito pode ser tomado com a velocidade que o jornalismo exige. O rapaz de temperamento brando matou a mãe a golpes de enxada, no auge de um surto psicótico. Assim como “aqui fora”, lá nada é homogêneo. As pessoas têm diferentes comportamentos e atitudes. E também sonham de forma diferente. Alguns querem sair, outros querem ficar. Uns querem presentes materiais mais caros, como câmeras fotográficas ou carros. Outros encontram num cartão telefônico a maior realização de suas vidas. Afinal, é por meio dele que podem ouvir a voz da mãe que há anos promete visitá-lo “no dia seguinte”. E não vai, assim como muitas vezes o Estado e a sociedade simplesmente não vão. Talvez por acreditarem, como um dia eu acreditei, que pesquisar e ler Foucault é suficiente para entender aquela realidade.

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Universidade Federal de Pernambuco Curso de Comunicação Social/Jornalismo Jornal Laboratório 2010.2


Jornal Loucuras (Edição e Produção de Fotografia)  

Jornal Laboratório da turma 2008.1 de Jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco. Atribuições: levantamento e seleção de pautas; ediçã...

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