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o patrimônio industrial da Mooca Aline Cristina Fortunato Cruvinel Trabalho Final de Graduação | 2016


o patrimĂ´nio industrial da Mooca

Aline Cristina Fortunato Cruvinel Orientador: Prof. Dr. Euler Sandeville Junior Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Universidade de SĂŁo Paulo Julho de 2016


agradecimentos Este trabalho é resultado de incentivos constantemente renovados por uma rede de pessoas que vem contribuindo para o meu crescimento, seja como arquiteta e urbanista, seja como indivíduo. Desta rede, fazem parte professores, funcionários e amigos que, ao longo desses anos, não somente me deram apoio pra continuar por caminhos nem sempre tão fáceis ou motivadores, mas fizeram com que eu me reconhecesse nas muitas formas de se fazer arquitetura e como parte integrante da FAU. Em especial, agradeço ao professor Euler, pelo seu modo de ensino, seu conhecimento e apoio, que me permitiram, desde as primeiras aulas em Perus até as últimas orientações, encontrar e expressar minhas reais inquietações e construir novas visões de estudo, das quais este TFG é um exemplo. Além disso, também agradeço à minha mãe, Ellen Fortunato, por todo o amor, apoio e confiança, expressos das mais criativas e, às vezes, difíceis maneiras que geralmente só as mães conhecem, e ao meu irmão Gabriel, por compreender a necessidade da minha ausência desde cedo. Agradeço à Marla, melhor amiga e irmã que a FAU poderia ter me dado, por fazer meus dias mais alegres, por compartilhar perrengues comigo desde a semana dos bixos e por ter me ensinado, ao longo desses anos, a ser uma mulher mais forte e sensível. Aos meus amigos Marcos Felipe e Lola, agradeço por serem essas pessoas lindas e inspiradoras nas quais eu me espe-

lho, e por me apoiarem diariamente, mesmo longe. À Camila, a menina mais acolhedora que eu poderia ter conhecido pra me apresentar a USP, morar junto e dividir a experiência universitária, obrigada pelos conselhos, conversas e comidinhas. A Carol, Denise, Natacha, Bruna, Rebeca, obrigada por fazerem do mundo um lugar mais divertido. Ao Douglas, agradeço pelo carinho, pela calma com que lida com os problemas, pela curiosidade com que vê o mundo e por todas as conversas de bandejão, das quais vou sentir muita falta. Também agradeço ao Claudiney e ao Felipe, pelo apoio nesse último semestre, por opinarem sobre meus textos e mapas e por me acalmarem sempre. Agradeço aos meus amigos Pedro, Leo, Walkiria, Roberta, Jennifer, Beatriz, Adriana, Thiago e Gabi, pelo apoio espiritual que me deram nesses últimos anos. Ao Pedro, também agradeço pelas conversas, conselhos, memes e bolos. Agradeço também às minhas amigas de longa data, Izadora, Karina e Laís, que participaram, mesmo que indiretamente, de todo essa minha descoberta profissional e pessoal. Por fim, agradeço à equipe do DPH, com a qual tive a oportunidade de trabalhar e aprender muito do que está presente neste trabalho. Obrigada a todos por serem maravilhosos em suas particularidades e por me permitirem aprender com isso.


sumário apresentação

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capítulo 2: as operações urbanas consorciadas

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I. mas, afinal, o que é operação urbana consorciada?

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II. Operação Urbana Mooca-Vila Carioca (OUCMVC)

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pra começo de conversa: as transformações urbanas e suas problemáticas

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capítulo 1: as várias faces do patrimônio

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capítulo 3: arqueologia experimental

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I. entendendo os valores culturais

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I. referências afetivas do bairro

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II. os mooquenses

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II. mapeamento

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III. o patrimônio e a cidade

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III. problemáticas

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IV. o patrimônio da industrialização

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IV. propostas gerais

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origens: o espaço urbano a partir da Revolução Industrial e sua influência na formação da metrópole paulista

V. percursos

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conceituações: a conformação dos estudos sobre o patrimônio industrial

considerações finais

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referências bibliográficas

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V. o campo da restauração no século XX

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VI. as Moocas

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A várzea do Tamanduateí no século XIX: o Caminho da Mooca até o Triângulo Histórico Do outro lado da várzea: a Mooca Industrial

VII. o patrimônio industrial da Mooca

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VIII. a arquitetura menor

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“Eu arranjei o meu dinheiro Trabalhando o ano inteiro Numa cerâmica Fabricando potes E lá no alto da Mooca Eu comprei um lindo lote dez de frente e dez de fundos Construí minha maloca Me disseram que sem planta Não se pode construir Mas quem trabalha tudo pode conseguir”

Abrigo de Vagabundo - Adoniran Barbosa


apresentação O bairro da Mooca, objeto de estudo deste trabalho, tem passado por transformações espaciais significativas nas últimas décadas, impulsionadas pela delimitação de uma operação urbana na área, parte de um conjunto de ações definidas para a reestruturação dos eixos ferroviários da cidade. Como consequência, hoje o bairro é palco de disputas que envolvem os interesses públicos, privados - representados pelo setor imobiliário - e da população residente. Nesse sentido, o presente Trabalho Final de Graduação, tendo como estudo de caso um território historicamente marcado pela industrialização, no qual a importância do patrimônio cultural se expressa através da própria identidade local presente nas tradições de seus moradores, traz problemáticas existentes nos campos da preservação cultural, do urbanismo e da gestão urbana municipal, de modo a esclarecer os impactos de instrumentos urbanísticos, tais como a operação urbana consorciada, o tombamento e suas áreas envoltórias, etc., na cidade.

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Orla ferroviária a partir do viaduto São Carlos, em 2016. Ao fundo, as indústrias localizadas na Avenida Presidente Wilson [Aline Fortunato/Acervo Pessoal].

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Para isso, o trabalho estrutura-se em três capítulos, com as seguintes abordagens: no primeiro, há a exposição de estudos e reflexões acerca do patrimônio cultural, que tem como ponto de partida a compreensão da identidade do bairro atualmente construída através da identificação de alguns códigos culturais característicos do local -, permeando também aspectos arquitetônicos, urbanísticos e históricos, além de conceitos desenvolvidos no campo do patrimônio, especialmente o industrial; o segundo capítulo consiste na apresentação da operação urbana prevista para a área, com enfoque no bairro da Mooca; por fim, o terceiro capítulo, intitulado de arqueologia experimental, traz um levantamento da arquitetura menor do bairro e de localidades identificadas através da população, apresentando também um conjunto de medidas - elaborado para resolver as problemáticas verificadas e amenizar processos urbanos que parecem nocivos e iminentes, tais como a gentrificação e o desaparecimento da paisagem devido à verticalização - e um plano de percursos pelo bairro que resgata locais referenciais para os moradores e permite perceber as transformações já em curso.


pra começo de conversa: as transformações urbanas e suas problemáticas A transformação é intrínseca à metrópole, e com a cidade de São Paulo não seria diferente. Da São Paulo colonial, restam poucos exemplares arquitetônicos, ainda que o tecido urbano do centro histórico, em meio às mudanças comuns à passagem do tempo, carregue alguns traços essenciais da Vila de São Paulo de Piratininga ou da cidade já no início do século XIX. Da São Paulo industrial, estimulada pela produção cafeeira do interior paulista, e construída por uma população marcada pela presença do imigrante, ainda é possível encontrar seus traços na paisagem urbana durante uma caminhada pelos bairros da orla ferroviária, nos quais o cotidiano se mostra ainda carregado de tradições familiares e relações de vizinhança. Toledo (1981, p. 141) identificou três cidades distintas entre as metades dos séculos XIX e XX: a São Paulo de barro, com suas construções em taipa e suas extensas chácaras; a metrópole do café, que combinava o ecletismo arquitetônico dos palacetes da elite com os bairros operários que se formavam ao longo da ferrovia; e, por fim, uma São Paulo verticalizada que se (re)construía sob a forma de grandes empreendimentos imobiliários que abusavam do potencial construtivo dos terrenos. Essa reconstrução ainda acontece, e isso se deve, em grande parte, à localização privilegiada das construções mais antigas da cidade, próximas ao centro e atendidas por uma infraestrutura

já consolidada. Seguindo o rotineiro refazimento paulistano, após um século de atividades predominantemente industriais, os bairros do Tamanduateí, cujo desenvolvimento urbano esteve pautado no setor secundário – em função do qual se estabeleceram novas moradias, comércios locais e serviços –, têm sido vistos sob novas perspectivas pelos gestores urbanos, pelos restauradores e pela iniciativa privada. Esses bairros, é certo, apresentam diferenças notáveis em suas configurações urbanas, herdadas de suas particularidades no processo de ocupação ocorrido ao longo do século XX. Ao mesmo tempo, a ferrovia e a indústria aparecem como os condutores dessa apropriação espacial, papel que se nota ainda hoje na paisagem, mesmo com a desativação de indústrias tradicionais da orla ferroviária e com as mudanças de funcionamento da ferrovia, que atualmente faz parte da malha de transporte metropolitano de pessoas. O bairro da Mooca, objeto de estudo deste trabalho, é, assim como seus bairros vizinhos, o Brás, o Cambuci, o Ipiranga e a Vila Prudente, representativo do processo de industrialização da cidade, não só pela arquitetura tipicamente industrial aí estabelecida – desde complexos fabris até pequenas vilas ou residências operárias –, mas também pela memória coletiva construída pela sua população. Nos últimos anos, no entanto, a con11


figuração urbana e econômica da região, composta atualmente por vastos lotes subutilizados devido à desativação sucessiva de fábricas e galpões ali instalados, tem trazido à tona a necessidade de se repensar esse território. Localizada próximo ao centro, caminho para as cidades do ABC – em um trajeto, aliás, consolidado historicamente pela ligação entre São Paulo e o porto de Santos – a região, antigamente desvalorizada devido à característica alagadiça da várzea do Tamanduateí, hoje também é polo atrativo dos empreendimentos imobiliários. Se, por um lado, a mudança parece bem-vinda em um ambiente estrategicamente apresentado como subutilizado e abandonado por um sistema que vê o uso da terra como mais um artifício de acumulação de capital, ela exige uma intervenção criteriosa, para que as preexistências, quase sempre ignoradas, sejam incorporadas à reestruturação em vista. Essa necessidade de repensar o espaço de acordo com sua complexidade, por sua vez, faz questionável o método utilizado pelo Município, em que a cidade se torna legalmente submissa aos interesses do setor privado. A partir dos exemplos que se consolidaram desde a aprovação das operações urbanas até hoje, pode-se observar a espacialização dos interesses de grupos dominantes em detrimento de um bem-estar comum: é o caso da Operação Água Espraiada, com seus 50 mil desabrigados, e da Operação Faria Lima, com suas desapropriações e demolições que, além de alterarem significativamente a paisagem de bairros como Pinheiros

e Vila Olímpia, tornaram inviável a manutenção da população de renda mais baixa na região (FIX, 2003). A cidade, nesse contexto, é palco de conflitos de diversas origens, e cabe à gestão urbana articular tais divergências para não perpetuar processos que vem se tornando rotineiros na ocupação, tais como a expulsão da população residente tradicional, o enobrecimento dos bairros com a consequente substituição dos comércios locais por empresas multinacionais, além do desaparecimento contínuo do patrimônio histórico da cidade em prol desses novos empreendimentos. Dessa forma, a região que por mais de um século teve sua vida impulsionada pela atividade industrial, hoje passa por um processo de reestruturação, que começou sem planejamento, e que se manifestou através de obras pontuais de condomínios, aproveitando-se dos grandes lotes abandonados ou unificando lotes pequenos, muitas vezes demolindo edifícios representativos do patrimônio urbano do bairro. Hoje em dia, a tentativa de controlar e direcionar essas mudanças de acordo com o bem-estar social está moldada pela Operação Urbana Mooca - Vila Carioca (OUCMVC), prevista no Plano Diretor de 2014 – operação que tem sua origem na Operação Urbana Diagonal Sul, prevista pelo Plano Diretor de 2002, no qual, pela primeira vez, a gestão pública urbana altera suas intenções para a região, que até então tinha seu uso predominantemente industrial estimulado. A OUCMVC, em sua 12


proposta, visa reestruturar o território compreendido em seu perímetro a partir do adensamento populacional, de investi-

mentos em equipamentos urbanos e da melhoria da drenagem local, levando-se em consideração também as questões relativas ao patrimônio industrial, típico da paisagem dos bairros abarcados. Tendo-se em vista, no entanto, as dificuldades e limitações de metodologia enfrentadas pelo campo da restauração para garantir a preservação do patrimônio cultural a partir de políticas públicas, e considerando também as experiências relatadas de operações urbanas anteriores, a atuação da OUCMVC, pelo próprio poder de modificar a cidade que oferece ao setor privado, deve ser constantemente avaliada ao longo de sua implementação. A primeira observação que pode ser feita, do ponto de vista da preservação, é o papel secundário que é dado ao patrimônio urbano dos bairros, o que parece evidenciar um processo de adensamento que não será acompanhado por um senso crítico em relação às mudanças de uma paisagem urbana que apresenta interesse cultural, ao potencial de uso dos edifícios históricos para atender às demandas de equipamentos públicos, colocando o patrimônio sempre em um segundo momento de ação, não tão necessário e que talvez não chegue. Mais que isso, a transformação prevista para o bairro sugere possíveis rupturas nas relações intrabairro consolidadas pelas práticas cotidianas de um bairro historicamente operário, e que não são perceptíveis na escala de ação de uma operação urbana, tampouco são suficientemente apreendidas pelos órgãos de preservação.

Localização da OUCMVC, abrangendo distritos da cidade de São Paulo, cidades vizinhas e linhas de metrô e trem. [Base para elaboração: mapa de localização presente no Estudo de Impacto Ambiental da OUCMVC]

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CAPÍTULO 1

as várias faces do patrimônio O conceito de patrimônio cultural, que vem sendo cada vez mais expandido nas últimas décadas, tem possibilitado diferentes abordagens sobre um mesmo objeto de estudo. Isso ocorre não apenas porque o campo da preservação está mais atento às diferentes naturezas abarcadas pelas manifestações culturais - que agora não se vêem limitadas à arquitetura e às obras de arte, mas encontram seus significados e meios de expressão, por exemplo, no ambiente, no corpo humano, na memória -, mas também porque cada vez mais se compreende que um bem cultural, seja ele material ou não, só adquire valores a partir de sua interação com o indivíduo. Nesse sentido, o seguinte trabalho se aproxima de questões pouco assimiladas pela Operação Urbana e pelos órgãos oficiais de preservação: a identidade coletiva dos moradores da

Mooca, a memória e a arquitetura menor, fundamentais para a leitura da paisagem do bairro, sem deixar de lado, no entanto, alguns aspectos históricos e conceituais que se mostram importantes para a identificação dos diferentes valores culturais que coexistem no território.

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Ao fundo, os remanescentes das indústrias Matarazzo, Duchen e Fiat Lux, demolidas em 2007. No portão do terreno, que hoje é utilizado para depósito e queima de lixo, mas no qual a construtora Agre havia previsto edifícios residenciais, os seguintes escritos: “estão destruindo a história da Mooca” e “menos condomínios”. No primeiro plano, a intervenção de uma moradora do bairro, que passou a realizar pinturas nos postes da região [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato]

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Companhia Paulista de Louça Esmaltada, em 1916, na Rua João Antônio de Oliveira [Arquivo Pessoal de Daniel Colombo de Braga]


I. entendendo os valores culturais Atualmente, os estudos acerca da preservação do patrimônio cultural caminham em direção a dois conceitos gerais recentemente assimilados pela legislação brasileira: a noção de imaterialidade, muitas vezes também associada à matéria, de monumentos e manifestações culturais; e a noção de conjunto urbano, reafirmada pelas práticas da chamada conservação integrada, que tenta inserir um exercício interdisciplinar entre diversos campos de saberes na gestão do espaço urbano. Esses conceitos, ainda que possam ser conduzidos a objetos de estudo distintos – a imaterialidade, por exemplo, quase sempre associamos ao saber-fazer, à dança, à música, etc., enquanto o conjunto urbano é fatalmente vinculado à arquitetura, e muitas vezes limitado a ela de modo simplista –, trazem à tona uma característica essencial para o reconhecimento do patrimônio, seja qual for a sua dimensão: a coexistência de diferentes valores. MENESES (p.25), na abertura do I Fórum Nacional do Patrimônio Cultural, realizado em 2009 na cidade de Ouro Preto, alerta para os problemas conceituais que acabam por desviar os trabalhos do campo da preservação ao priorizar representações que não são próprias dos habitantes, usuários ou praticantes do bem cultural, os quais estabelecem relações de cotidianidade, cuja constância e afetividade estimulam a memória

coletiva e a sensação de pertencimento. [...] falar e cuidar de bens culturais não é falar de coisas ou práticas em que tenhamos identificado significados intrínsecos, próprios das coisas em si, obedientemente embutidos nelas, mas é falar de coisas (ou práticas) cujas propriedades, derivadas de sua natureza material, são seletivamente mobilizadas pelas sociedades, grupos sociais, comunidades, para socializar, operar e fazer agir suas ideias, crenças, afetos, seus significados, expectativas, juízos, critérios, normas, etc., etc. – e, em suma, seus valores. [...] (MENESES, 2009, p. 32)

Quando entra no âmbito dos diferentes valores possíveis de serem atribuídos a um mesmo objeto, o historiador os classifica em cinco grupos: os valores cognitivos, que podem abarcar o conhecimento técnico, histórico, arquitetônico, etc., do bem, permitindo uma fruição intelectual a partir de sua interpretação; os valores formais, associados à percepção visual por parte de quem interage com o objeto, o que depende não só da imagem que é vista, mas do indivíduo que a vê; os valores afetivos, 17


erroneamente associados à história, carregados de subjetividade e que reforçam a noção de identidade e pertencimento; os valores pragmáticos, que os qualificam e reforçam outros valores segundo seus usos; e os valores éticos, que dizem respeito às interações sociais que os geram e que os mantêm, e que possibilitam sua manutenção e coexistência com culturas diversas. No entanto, tendo em vista os conceitos citados anteriormente e os valores sabiamente resumidos por Meneses, o que se vê nas práticas das políticas de preservação é um pouco diferente. Além das dificuldades inerentes ao patrimônio, que apenas nas últimas décadas tem conseguido se inserir na gestão urbana, e, ainda assim, enfrenta um inimigo muito mais forte – a especulação imobiliária –, o reconhecimento desses valores sofre com uma hierarquização que limita a leitura dos bens culturais. O olhar de fora, distanciado, ainda que seja essencial para a identificação de valores cognitivos, permitindo a reconstituição de trajetórias históricas, do estudo de técnicas construtivas, dentre outros, não tem sido suficiente para determinar o valor e a real necessidade de manutenção de paisagens para comunidades locais. O que se percebe é uma grande dificuldade de se avançar sobre o subjetivo, sobre o campo de domínio do outro – do morador. Dificuldade, esta, que, nos órgãos de preservação, se refugia e se reafirma através de equipes compostas majoritariamente por arquitetos, sem uma presença expressiva de historiadores, antropólogos ou sociólogos, o que muitas vezes direciona

os trabalhos a partir do material, da arquitetura, como se os valores a serem destacados existissem apenas para pautar a manutenção do que está construído. Essa preferência dada aos valores cognitivos tem, de certa forma, influenciado no estudo do patrimônio do bairro da Mooca que, pelos órgãos de preservação, tem se resumido nos grandes complexos industriais tombados. O que as propostas do Consórcio Mooca-Vila Carioca (CMVC), baseadas em um estudo do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH), mostram é que, mesmo com a criação de um polo cultural abarcando os principais edifícios protegidos, a identidade da Mooca está longe de ser preservada. Ela, ao contrário, pode ser afetada de modo irreversível por uma reestruturação urbana pensada para atender um adensamento populacional que, no entanto, não prevê seus impactos para a população já residente. Mas, afinal, quem é a Mooca?

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II. os mooquenses A identidade do mooquense se encontra nos pequenos costumes da vida urbana do bairro, alguns presentes apenas nas lembranças dos moradores mais antigos: está no futebol mirim dos antigos campinhos de várzea, nos bailinhos de carnaval, nos cannolis do Seu Antônio da Rua Javari, nos jogos do Juventus, nos ainda presentes entregadores de pão, na tradicional festa da Rua San Gennaro, nos pequenos estabelecimentos familiares – filhos e netos de marceneiros, alfaiates, sapateiros não são raros na região. O mooquense não precisa conhecer a história da cidade de São Paulo nem reconhecer qualidades técnicas e construtivas na arquitetura de seu bairro para identificá-lo como seu lar. E é ele, afinal, que atribui os novos sentidos que o espaço, em constante mudança, adquire com o tempo, dando continuidade a algumas tradições, ressignificando outras, e também permeando aspectos culturais que consolidam as relações cotidianas e a memória afetiva no convívio social: o futebol, a culinária, a religião e os espaços de uso comum. O conjunto urbano, que hoje se apresenta heterogêneo, mas que ainda traz identificáveis alguns exemplares de estabelecimentos e moradias tradicionais do bairro que independem da proteção municipal para o reconhecimento de seus valores pelos moradores, se mantém presente através da manutenção de cotidianidades como as citadas acima, bem como das rela-

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Juventus x Marília, em 2016. [Reprodução: Facebook/@eunajavari]


ções de vizinhança ainda preservadas. A noção de pertencimento observada nos relatos de alguns dos moradores transparece no orgulho em se reconhecer como morador da Mooca, em ter em seu vocabulário expressões italianas e o sotaque muitas vezes identificado como característico dos paulistanos, chegando em símbolos de adoração quase patriótica - o bairro tem bandeira e hino, e alguns moradores comparam em tom de brincadeira o bairro a uma nação. Esse discurso com certa competitividade parece ter sido estimulado

pela rivalidade no futebol de várzea presente nas disputas entre os times amadores de bairro e de operários de indústrias da região, que se reuniam no campo dos bois - conjunto formado por três campos localizados entre as ruas Itaqueri, Cassandoca e Fernando Falcão -, no campo do hipódromo, nos campos da bica e no campinho da favela, locais de convívio forjados no território e, hoje, já inexistentes. O Juventus, clube tradicional do bairro, tem sua origem nos campos de várzea: foi fundado em 1924 a partir da fusão de dois clubes formados por operários do Coto-

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Torcedores assistindo a um jogo do Juventus, em 2016. [Reprodução: Facebook/@eunajavari]

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Campo dos bois, sem data. Ao fundo, o conjunto residencial do IAPETC. [Acervo de Francisco Romanucci. Reprodução: Portal da Mooca]


nifício Crespi. Não só o futebol, mas também o comércio local faz parte dessa identidade e das referências afetivas criadas no bairro. Na rua Dona Ana Néri, nº 282, por exemplo, seu Toninho vendeu seus churros de roda, fiéis à receita espanhola de seu sogro e fritos na hora, por mais de 50 anos. Abria às duas horas da madrugada e fechava às onze, e fazia seus churros em um pequeno estabelecimento divulgado pela vizinhança e por clientes que convidavam amigos para experimentar. Hoje, no local, há

um despachante. O “tio do suspiro”, o Sr. Jovino também é outra personalidade do bairro que continuou em seu ofício nos últimos anos, e que faz alguns moradores lembrarem de um tempo em que o pipoqueiro, o engraxate, o amolador de faca, etc., eram facilmente encontrados pelas ruas e conhecidos pelo nome e endereço. Figuras como essas, mais do que representar um passado visto como nostálgico e pitoresco em meio a uma cidade impessoal, evidenciam como as relações urbanas não são as mesmas - o que não é necessariamente ruim - e fazem questionáveis os

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Sr. Jovino vendendo seus suspiros na Rua da Mooca, em 2015 [Foto de Aneteia Ferreira. Reprodução: Saudosa Mooca].

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Família na Rua dos Trilhos, nº 673, na década de 1950 [Reprodução: Portal da Mooca].


rumos que a cidade tem tomado. A arquitetura, nesse sentido, aparece como um suporte para códigos culturais consolidados ou que vão se consolidar: assim como era forte a relação de vizinhança nas vilas, hoje o que se vê é uma arquitetura que reproduz o isolamento do indivíduo e que pouco estimula o acesso à rua. Quando o assunto é a operação urbana e suas respectivas transformações no bairro, os moradores dividem opiniões. Alguns são contrários à destruição do patrimônio, o que resultou, por exemplo, em um movimento em defesa do patrimônio

local, organizado pela associação de moradores do bairro (Amo a Mooca), que impulsionou, por sua vez, o tombamento do conjunto industrial localizado próximo à Estação da Mooca. Outros vêem na OUCMVC uma oportunidade de transformar o bairro para melhor. Maria Lúcia Sancini, moradora da Mooca há 60 anos, está otimista em relação aos projetos vizinhos a sua casa, localizada na área envoltória da orla ferroviária. Apesar disso, ela indica a excessiva construção de prédios no bairro como uma desvantagem, além do enfraquecimento de alguns costumes, como as grandes festas juninas que fechavam ruas inteiras

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Cantina Recanto da Mooca, na Rua Oscar Horta, nos anos 60. Além de servir como padaria, pizzaria e restaurante, possuía uma cancha de bochas [Reprodução: Portal da Mooca]

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Assim como o abraço de 2007, organizado em defesa do conjunto industrial da Rua Borges de Figueiredo, moradores do bairro realizam, em 2014, novo abraço simbólico, em prol do uso público dos Moinhos Gamba. [Reprodução: Cris Faga/Fox Press Photo/Estadão Conteúdo]


e, hoje, se concentram nas paróquias. Seu Armando, por sua vez, imigrante português que mora no bairro há 55 anos e que possui uma lanchonete em frente ao conjunto industrial tombado, vê na OUCMVC uma possibilidade de renovação de um local abandonado há cerca de 15 anos. Segundo o morador, que imigrou para o Brasil por motivos financeiros, antes do fechamento das fábricas, circulavam mais de 15 mil operários pela região, o que impulsionava seu estabelecimento. A Mooca atual, nesse sentido, é composta por antigos moradores que consolidaram vínculos afetivos com o espaço,

e por novos moradores que, em uma recente experiência no bairro, passaram a se identificar com as singularidades locais, o que é facilitado pela arquitetura residencial antiga que dá um aspecto aconchegante para determinadas áreas, um refúgio em meio à cidade grande. É nesse quadro urbano, carregado de significados, que a OUCMVC surge com um plano que pode afetar a vida de moradores dentro e fora do seu perímetro, de modo similar às medidas anteriormente aplicadas ao território durante o século XX, tais como a retificação e o tamponamento de rios e córregos, e a construção de grandes vias expressas e viadutos.

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As indústrias impulsionavam as atividades no bairro, em 1980 [Foto de Lenise Pinheiros. Reprodução: PMSP]

Armando Antônio Louro, morador da Mooca há 55 anos, em sua lanchonete localizada na Rua Borges de Figueiredo [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato]

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III. o patrimônio e a cidade Existem fatores de natureza distintas que dificultam a leitura do patrimônio como parte constituinte da cidade no tempo presente, o que acaba por perpetuar a lacuna existente nas relações entre patrimônio e políticas públicas urbanas, que perdura ao longo dos anos através de ações que desconsideram o potencial urbanístico do patrimônio, que, por sua vez, se bem aplicado, poderia ser tomado como instrumento de reestruturação de áreas específicas da cidade. Essa lacuna, que não se limita à desvalorização do patrimônio, ou então a sua valoração deturpada, nem ao pouco incentivo ao trabalho realizado pelos órgãos de preservação, tem sua origem no caminho nem sempre convergente entre os campos da restauração e do urbanismo, e é mantida por uma lógica de mercado que insere a terra e a cultura como bens de consumo. Somam-se a isso, as limitações da atual formação do arquiteto e a dificuldade de se colocar em prática a interdisciplinaridade.

Já faz um tempo que o urbanismo se distanciou de seus modelos ideais pregados pelo movimento moderno na primeira metade do século XX, mas é bem verdade que isso não significou o fim da demolição do antigo para a construção do novo, assim como os planos estratégicos, tão comuns hoje em dia, e motivados por uma abordagem, em teoria, mais sociológica, não representam sempre um instrumento democrático, mas, ao contrário, consolidam o poder de determinados grupos de interesse que, por sua vez, (re)constroem a cidade como lhes convêm. O patrimônio histórico de São Paulo, nesse sentido, mesmo que presente a partir de extensos estudos que resultam em indicações de tombamento, se insere de modo periférico no desenvolvimento da cidade, assim como na proposição e implementação das denominadas operações urbanas, alertando para a pouca articulação entre os diferentes setores da administração municipal na discussão de um instrumento cada vez mais utilizado nos planos diretores e de grande impacto urbano. O Departamento de Patrimônio Histórico (DPH), órgão municipal responsável pela identificação e regulamentação de medidas em prol da preservação do patrimônio em São Paulo, nesse contexto, encontra suas principais barreiras na especulação imobiliária, na dificuldade de identificação desse patrimônio e na falta de investimentos para sua salvaguarda.

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Imóvel na Rua João Antônio de Oliveira, em 2016. O terreno vizinho a essa casa é um grande vazio, originado possivelmente através de remembramento de lotes, e no qual já se anuncia um novo empreendimento imobiliário [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato].

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Se a especulação imobiliária aparece como uma ameaça ao patrimônio que ainda não é legalmente protegido – é comum notar, por exemplo, a demolição de imóveis antigos em áreas de renovação ou reestruturação urbana, ao longo de eixos viários ou nas proximidades de terminais de ônibus e estações de metrô ou trem, etc. –, a falta de investimentos em restaurações e em intervenções criteriosas acaba deixando os imóveis sobreviventes em uma longa espera. Essa espera acontece porque, mesmo com proteção garantida em lei, quase sempre através do tombamento, o imóvel não alcança sua preservação efetiva no ambiente urbano, sendo, muitas vezes, abandonado e/ou desfigurado. Não

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Torres residenciais recentemente construídas na Rua da Mooca, que exemplificam o padrão de construção que passará a ocupar o bairro nas próximas décadas a partir do adensamento habitacional proposto pela OUCMVC [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato].

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Terreno vazio na Rua da Mooca, hoje usado como estacionamento e que é resultado da demolição de antigos imóveis. Faz parte da reserva de terrenos que atrai os investimentos do setor imobiliário [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato].

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são raros os casos de imóveis demolidos pouco tempo após a divulgação de operações urbanas e de investimentos em infraestrutura, e transformados em estacionamentos, condição em que permanecem por um bom tempo, até se transformarem em altos edifícios, muitas vezes destoantes na paisagem de bairros geralmente marcados pelas residências horizontais. A não identificação do valor histórico, arquitetônico e/ ou urbano de um edifício ou de uma paisagem, por parte de gestores e construtores, perpassa não somente a falta de conhecimento sobre a história, formação urbana e técnicas construtivas, mas é também resultado das práticas acadêmicas e profissionais disseminadas. A pouca articulação entre o desenvolvimento urbano, restauração e projeto de novas edificações é uma realidade que não se limita à administração pública, mas que, na verdade, é construída a partir da formação dos gestores e dos profissionais do setor privado que intervêm na cidade todos os dias através de suas ações públicas ou projetos particulares, seja na construção de um edifício de vinte pavimentos, seja na reforma de uma residência antiga. Em um contexto no qual o ensino é setorizado e a interdisciplinaridade nem sempre é estimulada durante as atividades projetuais, as inclinações pessoais do arquiteto – alguns gostam mais dos projetos que envolvem novas tecnologias; outros preferem projetos de habitação social, bem como residências unifamiliares; outros, espaços livres e mobiliário urbano; etc. – acabam por fazê-lo se sentir menos

responsável pelo todo. Dessa forma, o aprendizado no campo da restauração, muitas vezes, cabe às pessoas que se interessam de modo mais particular pelo tema, e os escritórios, quando não especializados, desenvolvem projetos que se distanciam das teorias e cartas patrimoniais. O estudo mais aprofundado em um determinado tema não é, ele em si, um empecilho: a restauração, aliás, tem suas teorias e práticas enriquecidas pelo estudo de seus especialistas. A dificuldade aparece quando o diálogo não é suficientemente claro entre as partes; quando, por exemplo, ao propor uma nova edificação em uma quadra com imóveis históricos, o arquiteto não consegue ou não se preocupa em articular seu projeto com a arquitetura e a configuração urbana já existentes; assim como quando um projeto de restauro se fecha na arquitetura de um edifício e em suas práticas de restauração arquitetônica muito bem fundamentadas, mas em uma abordagem limitada pelo tecnicismo, e não se articula com o entorno, com as mudanças espaciais e com as demandas da população. Aos órgãos competentes, cabe analisar as intervenções em imóveis tombados ou áreas envoltórias, mas, mesmo atendendo às exigências, tais como gabaritos máximos e recuos mínimos, nem sempre os novos projetos levam em consideração os valores do imóvel ou do entorno, dependendo sempre do bom senso de quem o faz. São comuns, por exemplo, projetos em áreas envoltórias de bens tombados que atendem aos recuos e 27


alturas definidos pelas resoluções de tombamento, e, no entanto, apresentam uma arquitetura que pouco dialoga com o que já existe, através da escolha dos materiais, da volumetria dos novos edifícios, etc. Tal diálogo só pode se dar de modo satisfatório quando os valores atribuídos ao patrimônio são assimilados e apropriados como um elemento de diferenciação e valorização do projeto ou do empreendimento, e essa consciência começa, em parte, no processo de formação dos profissionais envolvidos. Quando a assimilação não ocorre e, no entanto, há a tentativa de integrar o novo com o existente, é comum propiciar intervenções que criam falsos históricos ou que deturpam o real sentido do edifício enquanto patrimônio, ainda que sua função enquanto construção ou estrutura seja mantida. Como consequência, não só obras pontuais no território aparecem desarticuladas com o preexistente, como as grandes intervenções – as operações urbanas são um exemplo – são também uma forma de implantar massivamente uma arquitetura desconexa e com fins essencialmente lucrativos, o que é agravado pela rapidez com que a compra de terrenos e a execução das obras são realizadas pelo setor imobiliário. Nos casos em que há interesse em revitalizar imóveis ou áreas históricas, projetos que podem alterar expressivamente a sua leitura enquanto patrimônio são aprovados porque o interesse e o capital são escassos no campo, e a intervenção, mesmo que danosa em alguns aspectos, apresenta-se como uma oportunidade de permanência e rein-

serção do monumento na cidade. Considerando, então, a complexa rede de visões que o estudo da cidade possibilita, os instrumentos de planejamento urbano aparecem como um meio de consolidar disputas pelo território já existentes, se inclinando sempre para os setores mais poderosos. Isso porque a visão que se tem do patrimônio histórico edificado como empecilho para o crescimento da cidade não é de agora, mas foi consolidada ao longo do século XX pela priorização do sistema viário, pelo desaparecimento da arquitetura antiga por uma arquitetura na qual o crescimento demográfico coubesse e pudesse se deslocar minimamente, e, assim, o patrimônio enquanto conjunto urbano foi se enfraquecendo. Como alternativa à atuação limitada do tombamento e das Zonas Especiais de Preservação Cultural (ZEPECs) no que diz respeito ao patrimônio enquanto elemento que constitui territórios e paisagens, surge o Território de Interesse da Cultura e da Paisagem (TICP), definido no Plano Diretor de 2014 e que já apresenta dois perímetros delimitados: o TICP Perus/Jaraguá e o TICP Paulista/Luz. Sobre ele: Fica instituído o Território de Interesse da Cultura e da Paisagem, designação atribuída a áreas que concentram grande número de espaços, atividades ou instituições culturais, assim como elementos urbanos materiais, imateriais e de paisagem sig-

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nificativos para a memória e a identidade da cidade, formando polos singulares de atratividade social, cultural e turística de interesse para a cidadania cultural e o desenvolvimento sustentável, cuja longevidade e vitalidade dependem de ações articuladas do Poder Público. [Lei nº 16.050/2014. Art. 314, Seção II]

Ainda assim, as políticas públicas se distanciam com frequência dos valores culturais, ambientais e das demandas da população, e a cidade, por sua vez, continua com poucas intervenções que possam servir de exemplo, o que reforça uma postura pragmática e pouco disposta a uma atuação realmente interdisciplinar e participativa. Isso pode ser exemplificado pela dificuldade de articulação entre as Secretarias Municipais, como a Secretaria de Cultura e a Secretaria de Desenvolvimento Urbano, que estabelecem prioridades urbanas diferentes e, em alguns casos, conflitantes. Além disso, uma gestão urbana compartilhada com o setor privado, ainda que financeiramente beneficiada, acaba priorizando as intenções desse grupo. Como resultado, em um ambiente no qual coexistem diferentes discursos, prevalece quem tem mais voz, sendo os instrumentos de preservação usados apenas como medidas paliativas e de resistência. 29


IV. o patrimônio da industrialização O patrimônio industrial, conceito recentemente inserido no campo do restauro, começou a ser estudado mais intensamente a partir da década de 1960 e de modo quase paralelo às questões de preservação colocadas em pauta nesse período. A identificação de espaços e objetos, bem como de processos e técnicas referentes à industrialização, foi suscitada pela ameaça de desaparecimento de tais registros, que só poderiam ser efetivamente protegidos a partir do reconhecimento de seus valores, fossem eles técnicos, artísticos, documentais ou memoriais. No entanto, mesmo com as práticas atuais que reafirmam um tratamento distinto ao patrimônio industrial, como se ele não fizesse parte do que hoje se entende como patrimônio cultural, seu estudo não deve ser feito de modo isolado, mas articulado com as premissas desenvolvidas pelo campo da restauração ao longo de sua história. Dessa forma, alguns pontos essenciais desse processo histórico e teórico serão expostos aqui, na tentativa de

mostrar como os acontecimentos do século XX possibilitaram o reconhecimento do patrimônio industrial e urbano e como alimentaram os atuais desafios da restauração, do urbanismo e das políticas públicas. A partir disso, será possível compreender como o expressivo conjunto industrial instalado na Mooca foi essencial não só para o desenvolvimento econômico da região, mas para formar a identidade do bairro. origens: o espaço urbano a partir da Revolução Industrial e sua influência na formação da metrópole paulista A década de 1780 foi marcada, na Inglaterra, pela chamada Revolução Industrial, e, na França, pela insatisfação com o regime político e pelos problemas sociais e econômicos, que culminariam na Revolução Francesa, em 1789. Essa dupla revolução, como Eric Hobsbawn denomina em seu livro “A Era das Revoluções”, indica o triunfo do capitalismo liberal burguês com notáveis consequências para o mundo, que se veria dominado pelos regimes ocidentais – especialmente o inglês e o francês – desenvolvidos a partir de então. Longe da tentativa de esmiuçar tal processo, para o presente estudo se faz necessário situar o impacto dessas transformações no espaço urbano, bem como da mudança conceitual que a arquitetura teve quando inserida na lógica de mercado liberal, mostrando como a nova ordem

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Interior dos Grandes Moinhos Gamba, antiga fábrica de óleo, sabão e extração de algodão, localizada na Rua Borges de Figueiredo, e tombada em 2007 pelo DPH. Foto de 2015, momento em que o local se apresenta desocupado, após ter sido utilizado por 19 anos (1994-2013) como local para festas e eventos. Seus possíveis novos usos são questões abordadas pelos estudos da OUCMVC [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato].

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de domínio político e territorial seria, posteriormente, determinante para configurar a ocupação da cidade de São Paulo. Além de sua história e arquitetura, o próprio caráter metropolitano que a cidade ganhou no século XX, e que permanece singular na história da urbanização brasileira, está profundamente vinculado à industrialização e à influência dessa Europa liberal, seja pelo domínio inglês adquirido a partir da Coroa Portuguesa no período colonial, seja pela presença do imigrante já no início da república. Ainda segundo Hobsbawn, o mundo, que na década de 1780 era essencialmente rural, só passaria a sentir as repercussões da Revolução Industrial a partir da década de 1830. O que o Vista do pátio de manobras da Estação da Mooca, possivelmente na década de 1950. À esquerda, mais ao fundo, a fábrica de bebidas da Companhia Antárctica. Autor e data desconhecidos. [Reprodução: Portal da Mooca]

autor denomina como uma “economia industrial amadurecida” se daria na década de 1840, com a construção de ferrovias e da indústria pesada.

Nenhuma outra inovação da revolução

industrial incendiou tanto a imaginação quanto a ferrovia, como testemunha o fato de ter sido o único produto da industrialização do século XIX totalmente absorvido pela imagística da poesia erudita e popular. Mal tinham as ferrovias provado serem tecnicamente viáveis e lucrativas na Inglaterra (por volta de 1825-1830) e planos para sua construção já eram feitos na maioria dos países do mundo ocidental, embora sua execução fosse geralmente retardada. As primeiras pequenas linhas foram abertas nos EUA em 1827, na França em 1828 e 1835, na

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Alemanha e na Bélgica em 1835 e até na Rússia em 1837. Indubitavelmente, a razão é que nenhuma outra invenção revelava para o leigo de forma tão cabal o poder e a velocidade da nova era; a revelação fez-se ainda mais surpreendente pela incomparável maturidade técnica mesmo das primeiras ferrovias. [...] (HOBSBAWN, 1975, p. 32)

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De modo geral, as consequências da Revolução Industrial na Inglaterra sobre o ambiente construído tiveram suas origens em mudanças sociais profundas: a migração de camponeses para locais próximos às indústrias, onde havia demanda de trabalho, aliada à diminuição da mortalidade, ao aumento da porcentagem da população jovem e da expectativa de vida, ocasionaram a redistribuição de habitantes no território e o aumento da população urbana. Esse processo foi estimulado também pelo desenvolvimento dos meios de comunicação territorial (estradas de ferro, navios, canais de navegação, etc.), que aumentaram a mobilidade entre regiões distantes entre si e facilitaram o transporte de mercadorias e mão de obra. A produção da agricultura e das indústrias também aumentou, assim como a oferta de serviços na cidade. Essas transformações aconteceram de um modo muito rápido, e não se sabia ao certo os rumos que tomariam (BENEVOLO, 2011, p. 551-552). É nesse contexto que a arquitetura passa a ser interpretada também como um produto, segundo a lógica econômica que emerge, e a partir daí suscita questões referentes ao seu acelerado desaparecimento e à sua possível preservação, estimulando o debate acerca do tema.

um período que se deve aprender a calcular. Um edifício não mais é considerado uma modificação estável, incorporada no terreno, mas um manufaturado provisório, que pode ser substituído mais tarde por outro manufaturado. Torna-se possível, assim, considerar um terreno edificável um bem independente, com seus requisitos econômicos devidos à posição, à procura, aos vínculos regulamentares etc. (BENEVOLO, 2011, p. 552)

Assim, em um momento em que as inclinações políticas da época questionavam as formas tradicionais de organização pública, novos métodos foram propostos para adaptar a cidade às demandas que surgiam. Ruas mais largas, casas maiores e em maior quantidade, dentre outros aspectos, eram fundamentais para um funcionamento urbano eficiente. Ao mesmo tempo, a cidade antiga, vista por alguns como um empecilho para o desenvolvimento, sofreu significativas alterações: além das demolições, alguns de seus edifícios monumentais passaram a ser abandonados em consequência das revoluções sociais, e transformados em moradias precárias; casas já existentes também abrigavam cada vez mais pessoas, geralmente recém-imigrados (BENEVOLO, 2011, p. 565). Alguns modelos tentam romper radicalmente com a cidade liberal que se constrói, propondo

Nenhum problema jamais é resolvido

definitivamente, e arranjo nenhum pode valer por tempo indeterminado, mas somente por

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mudanças profundas no modo de vida através de edifícios que seriam organizados coletivamente, como seria o caso do Falanstério descrito por Charles Fourier. A rapidez desse crescimento, no entanto, geraria uma expansão da cidade, comumente conhecida como “cidade nova”, que não seria contida por modelos utópicos, e uma periferia se formaria desordenadamente. Ainda sobre essas transformações urbanas, Benevolo disserta:

enquanto mercadoria, a partir de iniciativas nem sempre complementares, evidenciando conflitos de interesses e trazendo à tona novos processos socioespaciais, como a verticalização, a multicentralidade, a periferização e a gentrificação. Ao mesmo tempo, hoje em dia, aqueles que estudam a cidade, sejam urbanistas, restauradores, sociólogos, etc., já não pisam em solo desconhecido quando se referem a tais processos; já é possível identificar suas causas, caracterizá-los e prever suas consequências – ou seja, existem instrumentos suficientes para direcioná-los de acordo com premissas pré-estabelecidas, o que explica o urbanismo atual, pautado em planos estratégicos de ação sobre o território que, em teoria, tentam conciliar os direitos essenciais do indivíduo e do coletivo. A liberdade individual intrínseca ao sistema, por sua vez, culmina em uma questão que se estende desde o século XIX como um desafio para a preservação dos monumentos históricos – a tutela do patrimônio e o direito à propriedade privada –, e se apresenta, de certa forma, como uma barreira para que a função social da propriedade seja cumprida. As influências da Revolução Industrial, então, não se limitam ao crescimento demográfico, à concentração urbana ou ao avanço tecnológico, mas se estendem ao modo prático e funcional de compreender o espaço segundo uma ideologia liberal. É por isso que, nas últimas décadas, temas como a especulação imobiliária, a segregação espacial ou mesmo a espetacularização do patrimônio, assim como práticas denominadas como

Este ambiente desordenado e inabitável

– que chamaremos de cidade liberal – é o resultado da superposição de muitas iniciativas públicas e particulares, não-reguladas e não-coordenadas. A liberdade individual, exigida como condição para o desenvolvimento da economia industrial, revela-se insuficiente para regular as transformações de construções e urbanismo, produzidas justamente pelo desenvolvimento econômico. [...] (BENEVOLO, 2011, p. 567)

Esse ambiente urbano “desordenado”, consolidado pela cidade industrial, originaria algumas manifestações de estudiosos, definindo, por exemplo, os campos da restauração e do urbanismo. A cidade de São Paulo, por sua vez, com sua crescente população de imigrantes concentrada ao longo da orla ferroviária, continuaria sendo transformada segundo a lógica do espaço 34


revitalização, recuperação, reúso, reutilização, reabilitação, etc. (RUFINONI, 2013, p. 203) com objetivos prioritariamente econômicos, tem sido tão frequentes. Nesse contexto, o caráter político do campo do patrimônio cultural, como defende Meneses (2009, p. 38), reside na existência de conflitos na valoração dos bens culturais pelos diferentes sujeitos envolvidos, o que exige, por sua vez, uma gestão compartilhada da cidade para garantir direitos e acesso à cultura, segundo uma cidadania democrática.

industrial” aparece inserida para denominar o processo de registro e estudo de elementos materiais resultantes da industrialização de modo amplo ou, para alguns, da Revolução Industrial. A preocupação teve origens nas sucessivas demolições de edifícios simbólicos não só por suas características arquitetônicas, mas também pelo valor afetivo que lhes era conferido pela população, seja pelo marco que representavam na paisagem, seja pela memória de seus antigos operários e/ou usuários. A partir, então, de casos específicos de edifícios ou mesmo bairros ameaçados, o conceito de arqueologia industrial, bem como os de arquitetura industrial e de patrimônio industrial, foi moldado ao longo das décadas seguintes em diversos países, de modo atrelado à arquitetura ferroviária e/ou pré-fabricada (KUHL, 2008, p. 39). Isso porque o processo de industrialização está intimamente ligado à instalação da ferrovia: ela surge como meio de transporte de matéria-prima, mercadorias e operários e, ao mesmo tempo, sua presença estimula a ocupação de seu entorno; dessa forma, é compreendida também como um elemento do processo de industrialização. À arquitetura ferroviária, somam-se também outras tipologias, tais como vilas operárias, edifícios públicos, religiosos, para servir à população de operários e suas famílias. Além disso, os elementos pré-moldados refletem uma nova lógica de produção, pautada na rapidez de execução. Com o aprofundamento do debate, então, a arqueologia industrial passa a abarcar o estudo dos elementos constituintes

conceituações: a conformação dos estudos sobre o patrimônio industrial Antes de me debruçar sobre o patrimônio da Mooca, parece-me necessário compreender como o processo de industrialização tornou-se assunto de interesse para os campos do restauro e do urbanismo, na tentativa de identificar as origens dos valores atribuídos ao denominado patrimônio industrial e das questões que muitas vezes o distanciam de seu caráter cultural. O debate acerca deste tema, que se iniciara de modo pontual no final do século XVIII, ganhou força na Inglaterra na década de 1950, momento em que a expressão “arqueologia 35


desse processo, visto como um sistema integrado que se manifestaria através da economia, da arquitetura, da ocupação territorial, da organização social, da tecnologia, de costumes, etc. de modo singular. Essa arqueologia não visaria necessariamente à identificação de bens culturais a serem preservados nem se limitaria aos resíduos materiais ainda existentes. Nesse contex-

to, arqueologia, arquitetura e patrimônio industriais se diferem pela maneira que abordam o mesmo assunto: a arquitetura, por exemplo, ainda que leve em consideração as diversas formas com que a industrialização se manifesta, volta-se sempre aos seus edifícios e ao modo como configuram o espaço urbano; o patrimônio, por sua vez, identifica valores culturais muitas vezes associados materialmente a construções, maquinários, ferramentas, dentre outros casos, e, em essência, busca sua preservação e valorização (KUHL, 2008, p. 45). Isso, na prática, nos ajuda a entender por que alguns exemplares da arquitetura industrial apresentam interesse de preservação e outros não. Tais diferenças conceituais, que muitas vezes passam despercebidas, mostram um campo de estudo complexo que pode ser apreendido de modos distintos, complementares ou que trazem à tona conflitos de ideias e interesses. É importante alertar que essa complementaridade não se dá sempre no mesmo campo disciplinar, como mostram as teorias de restauro, marcadas, muitas vezes, por posicionamentos opostos que coexistem. Da mesma forma, diferentes campos disciplinares não são antagônicos nem resultam obrigatoriamente em um embate indissolúvel, como mostram as recentes teorias sobre o restauro urbano, nas quais a restauração e o urbanismo – que historicamente seguiram caminhos com pouco diálogo – parecem se auxiliar. Além disso, por mais sutis que tais diferenças pareçam, entender sua existência é também entender o processo de reco-

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Residências unifamiliares na Rua Ezequiel. As antigas moradias operárias são uma das manifestações da arquitetura industrial no bairro da Mooca.

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nhecimento dos valores do patrimônio: só a partir de um processo de estudo e de diferenciação é possível exercer a função seletiva, própria do patrimônio, de modo consciente, evitando preferências pessoais ou aleatoriedades. É essencial destacar, ainda, que a atenção que o patrimônio industrial recebe a partir dos anos 1950 se desdobra em estudos quase paralelos às discussões teóricas acerca da preservação patrimonial desse momento, das quais resultariam a Carta de Veneza, em 1964. Por outro lado, o processo de conceituação do patrimônio industrial é beneficiado por essas discussões, na medida em que o próprio conceito de patrimônio cultural amplia-se, permitindo abarcar obras modestas e sítios urbanos ou rurais que tenham adquirido significação cultural ao longo do tempo; além disso, o caráter urbano do patrimônio é cada vez mais colocado em pauta pelas discussões sobre paisagem urbana e pelas novas teorias urbanísticas, que passam a se distanciar da metodologia essencialmente funcionalista até então propagada e buscam enxergar a cidade como um sistema complexo a ser compreendido em suas especificidades econômicas, sociais, culturais, espaciais, etc. (RUFINONI, 2013, p. 159). Nesse contexto, considerando o patrimônio industrial como parte integrante do campo de estudo da restauração, a preservação e as intervenções propostas para ele só serão devidamente válidas quando levarem em conta as premissas de restauro e o caráter cultural do patrimônio, seja ele industrial

ou não. Isso quer dizer que, quando aplicado no contexto de uma operação urbana, a abordagem não pode ser unicamente econômica e o desenvolvimento urbano não pode estar baseado apenas em reestruturações viárias.

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V. o campo da restauração no século XX A restauração, entendida hoje como ato histórico-crítico, é guiada por princípios gerais discutidos ao longo do século XX, momento em que também se consolida como campo disciplinar autônomo. Nesse contexto, ainda que as origens da restauração remontem ao Renascimento Italiano, para o desenvolvimento deste trabalho, faz-se necessário expor sucintamente o contexto em que o campo da restauração desenvolve seu caráter cultural e se fortalece a partir da ciência, mantendo, ainda assim, sua pertinência relativa, ou seja, sua aplicação não dogmática pautada em reflexões e teorias, negando qualquer ideia que se apresente como verdade única e absoluta. Esse entendimento é importante não só para contextualizar os conceitos aqui trabalhados, mas para evitar possíveis posturas que neguem a validade da restauração enquanto campo de estudo e que direcionem a abordagem do patrimônio para um viés diverso do cultural – quase sempre para o econômico.

No final do século XIX, o campo da restauração é marcado pela relação dicotômica entre as ideias de John Ruskin e Viollet Le-Duc, que culminariam, através do desenvolvimento cada vez mais complexo de conceitos e de formas de atuação sobre o patrimônio, em diferentes vertentes de restauro. Ruskin, insatisfeito com as consequências do sistema industrial para a cidade, a arte e o homem, defendia que a cidade antiga, suas ruas e edifícios – e também seu interior – carregavam singularidades que passaram a ser substituídas por uma paisagem monótona, caracterizada por planos ortogonais, ruas similares e alheias ao local de inserção, e edifícios modulados idênticos, de pouca qualidade construtiva. Em relação ao restauro, Ruskin o entendia como uma prática prejudicial aos edifícios – vale lembrar que, nesse momento, o restauro não possuía uma base conceitual e era marcado pelo empirismo –, uma vez que alterava um estado marcado pela passagem do tempo. Dessa forma, defendia a conservação do estado de monumentos com raras intervenções, respeitando a matéria original. Em contraponto, Viollet Le-Duc defendia a restauração e participou de diversas intervenções. A partir de um procedimento baseado em estudos rigorosos antes da restauração da obra, fugindo do empirismo e preocupado com as características construtivas dos monumentos, Le-Duc introduziu a restauração enquanto projeto, ainda que sua atu-

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Companhia Antárctica, antiga fábrica de bebidas da região. Em processo de tombamento pelo DPH, o complexo industrial é referência na paisagem do bairro, e é um dos imóveis que exigem estudos criteriosos para sua restauração. A princípio, os proprietários tinham a intenção de adaptá-lo para uso residencial de alto padrão, o que poderia alterá-lo profundamente, com prejuízo para sua preservação como testemunho industrial e impossibilidade de uso por seus antigos operários. [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato].

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ação seja questionada por desconsiderar as estratificações do tempo e por ir de encontro a alguns dos princípios básicos da restauração atual, como o de mínima intervenção. Esses dois representantes abririam caminho para questões importantes do restauro que seriam largamente discutidas ao longo do século XX, e que resultariam em algumas das premissas da restauração através das Cartas Patrimoniais. Dessa contraposição de ideias e posturas de trabalho, por exemplo, temos a crescente preocupação com o valor documental dos monumentos, que pode ser garantido, em alguns casos, pelo respeito às adições ao longo do tempo; além disso, o papel do restaurador enquanto artista também passou a ser discutido, o que gerou um melhor entendimento dos limites da criação – e da necessidade dela – dentro do campo do restauro. Considerando a formação teórica que se deu a partir de então, tomamos como uma das bases desse trabalho a Carta de Veneza e a Declaração de Amsterdã, não só como documentos que sintetizam conceitos e posturas em relação ao patrimônio, mas também como textos representativos de um processo que interessa muito ao presente trabalho: a ampliação do conceito de bem cultural e o entendimento do urbano no campo do restauro. A partir da definição de monumento histórico presente na Carta de Veneza, é possível entender os recentes avanços do campo, que vem tentando olhar mais para os significados construídos ao longo da história do monumento, e não somente para suas qualidades

construtivas ou sua excepcionalidade.

A noção de monumento histórico compreende a criação arquitetônica isolada, bem como o sítio urbano ou rural que dá testemunho de uma civilização particular, de uma evolução significativa ou de um acontecimento histórico. Estende-se não só às grandes criações, mas também às obras modestas, que tenham adquirido, com o tempo, uma significação cultural. [...] Carta de Veneza. Artigo 1º. Maio de 1964.

Além disso, assim como exposto na Carta, este trabalho entende como necessária a manutenção permanente, considerando a restauração como um instrumento excepcional que, quando aplicado, deve ser precedido de estudos históricos e arqueológicos. Para essa manutenção permanente, algumas recomendações da Declaração de Amsterdã - que, mesmo sendo um documento destinado ao território europeu, é aplicável e conveniente a outros contextos - aparecem como alternativas: o reconhecimento do patrimônio através de medidas de educação patrimonial, os incentivos fiscais aos proprietários de monumentos históricos e a inserção da conservação do patrimônio como um dos elementos centrais da gestão urbana, sendo “consi40


derada não apenas como um problema marginal, mas como objetivo maior do planejamento das áreas urbanas e do planejamento físico territorial” (Declaração de Amsterdã, 1975, p. 2). Outro ponto em destaque na Declaração e que é utilizado como uma das diretrizes deste estudo é o estímulo a uma reabilitação espacial sem grandes impactos para a população, garantindo benefícios a todas as camadas da sociedade. No contexto da Mooca, considerar tais fundamentos é uma forma de compreender como algumas intervenções, mesmo com o intuito de “revitalizar”, podem ser nocivas ao patrimônio, como aconteceu no caso do restauro do Cotonifício Crespi, que foi parcialmente demolido durante as obras para receber o hipermercado Extra, e como sugerem também algumas propostas para os bens tombados da região, que parecem estimular um processo de gentrificação do bairro. Ao mesmo tempo, as diretrizes presentes nos embasamentos teóricos do campo também apresentam possíveis medidas para impedir ou ao menos amenizar tais processos, que puderam orientar algumas das propostas finais deste trabalho.

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VI. as Moocas A várzea do Tamanduateí no século XIX: o Caminho da Mooca até o Triângulo Histórico Quando se fala na formação da cidade de São Paulo, é impossível esquecer a influência da configuração geográfica para a escolha do sítio onde se estabeleceria as primeiras ocupações portuguesas da chamada Vila de São Paulo de Piratininga. A colina sobre a qual seria construído o colégio dos jesuítas, em 1554, se mostrava como um ponto estratégico pela ocupação indígena, sendo o melhor local para a transposição da Serra do Mar, em uma altitude de 760 metros, conforme já indicava os caminhos feitos pelos índios entre o interior do continente e o litoral – no Vale do Paraíba, a altitude chegaria aos 2000 me-

tros. A instalação em um ponto alto, além de facilitar a proteção contra inimigos, devido à ampla vista sobre o território, também mantinha o grupo a salvo das cheias dos rios, que apareceriam como um obstáculo a partir da expansão de São Paulo no final do século XIX, elevada à cidade desde 1711. Essa localização seria crucial para estabelecer São Paulo como um polo político -econômico, ou, como a literatura especializada gosta de intitulá-la, um “entreposto comercial” na rota cafeeira do interior até o porto de Santos, mesmo não tendo sido uma cidade produtora de café. A história da São Paulo dos índios e, posteriormente, dos colonos portugueses nos interessa porque evidencia uma relação que, ao longo do século XX, foi camuflada por obras de retificação e tamponamento de rios, pela gradual interferência da verticalização na cidade, etc.: a paisagem natural como referencial de localização e integrante das atividades cotidianas dos habitantes. Não se pode esperar, é claro, que a interação de hoje seja a mesma de outrora, mas é evidente como os valores ambientais e históricos desses elementos – os cursos d’água, as matas nativas, dentre outros – têm sido negligenciados, oferecendo um ambiente cada vez mais alterado para os cidadãos e ameaçando seu reconhecimento e usufruto pelas gerações futuras.

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Barcos no Rio Tamanduateí, em 1910 [Fotografia de Vincenzo Pastore. Acervo do Instituto Moreira Salles].

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O campo apresenta uma alternativa

aprazível de capões de mato e pastagens rasteiras. Lindas casas estão espalhadas de todos os lados. Araucárias e algumas palmeiras se elevam acima dos matos, resultando, de todo esse conjunto, panoramas extremamente agradáveis à vista. O Hinhangabahú, simples fio de água, verte abaixo do convento dos beneditinos, no Tamandatahy, e este, serpenteando através das pastagens úmidas, dá maior variedade e mais encanto à paisagem.

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Viagem à Província de São Paulo. Auguste de

Vista Geral da cidade de São Paulo. DEBRET, J. B. Aquarela 12,5 x 23. 1827. Fundação Maria Luisa e Oscar Americano.

Saint-Hilaire. São Paulo. Livraria Martins p. 173

Do território que hoje constitui a Mooca, a primeira paisagem que se tem em mente é a da várzea do Tamanduateí. Registros de viajantes estrangeiros que percorreram o território brasileiro durante o século XIX, nesse contexto, ainda que carregados muitas vezes de impressões superficiais e de juízos de valores alheios à realidade local, possibilitaram um olhar distante em relação à cidade que se construía, podendo oferecer uma noção de como essa paisagem era formada. Auguste de Saint-Hilaire, botânico francês que investigou a região em sua primeira viagem à Província de São Paulo, em 1822, a respeito dos campos e várzeas da cidade, relata:

É possível encontrar, assim como nos estudos feitos por estrangeiros, tais como Daniel Parish Kidder, James Cooley Fletcher, Jean Baptiste Debret, usados aqui como referência iconográfica, registros sobre a geografia e a população de São Paulo também em representações de brasileiros, que confirmam a configuração da cidade, concentrada na colina “[que] era centro de convergência de caminhos de tropeiros ao longo dos quais surgiam pequenos sítios e chácaras” (TOLEDO, 1981; p. 13). Chácaras que seriam loteadas no final do século XIX, originando os bairros do Cambuci, da Mooca, do Ipiranga e da Vila Prudente. 44


Rua 25 de Março e o primeiro mercado da cidade, o Mercado Grande, dividindo espaço e freguesia com o chamado “Mercado dos Caipiras”, caracterizado pelo comércio a céu aberto, e que teriam suas mercadorias escoadas a partir do Porto Geral, instalado às margens do Tamanduateí. Este, por sua vez, tem sua nascente no hoje Parque Ecológico Gruta Santa Luzia, em Mauá, na Serra do Mar, e, além de passar por São Paulo, cruza os municípios de Santo André e São Caetano do Sul. Dessa forma, considerando a extensão do rio e sua presença em diferentes paisagens locais, mesmo no território da cidade de São Paulo, aqui estão abordados seu papel na formação do bairro da Mooca, levando-se em conta não só os aspectos da ocupação inicial da vila, mas o posterior uso de sua várzea e de suas águas para fins comerciais, bem como para as atividades das lavadeiras, especialmente na região da várzea do Carmo, onde hoje se encontra o Parque Dom Pedro II. Outro aspecto que cabe ressaltar dessa região, já quando os bairros industriais do Brás, do Cambuci e da Mooca começavam a se formar, aliado ao processo de abolição da escravidão no Brasil, é a população pobre que se instalaria na região, estabelecendo um modo de ocupação divergente do que se via a oeste, representado pelos palacetes da aristocracia que se instalaria nos Campos Elíseos, os Champs Elisées paulistas, e subiria o espigão central da cidade, em 1891, com a inauguração da Avenida Paulista, eixo de expansão do centro novo.

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Vista da cidade de São Paulo a partir da várzea do Rio Tamanduateí, na década de 1850. Gravura de Richards, em Brazil and Brazilians, portrayed in historical and descriptive sketches. KIDDER, D.P. ; FLETCHER, J. C. ; Philadelphia : Child & Peterson ; New York : Sheldon, Blakeman & Co., 1857. 1

As curvas do Tamanduateí mencionadas por Saint-Hilaire sofreriam suas primeiras alterações no ano de 1848, momento em que foi executada sua primeira retificação, insuficiente, no entanto, para controlar os danos ocasionados pelas cheias do rio, como na grande enchente de 1850. Alguns anos mais tarde, na década de 1860, seriam construídos no local a 1 Sobre a imagem, TOLEDO (1981, p. 38): “O rio Tamanduateí aparece em primeiro plano e, ao centro, a acrópole sob um céu tenebroso. A primeira igreja à esquerda parece ser a da Boa Morte. A de torre mais alta, ladeada por duas igrejas e um convento, seria o Carmo. As três igrejas quase juntas poderiam ser São Pedro dos Clérigos, Sé e o Colégio e a última à direita, São Bento.”

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Essa “cidade nova” cresce segundo modelos europeus – o modelo haussmaniano de Paris, por exemplo, com avenidas largas e geometricamente traçadas, fazendo presentes também exemplares do neoclássico, do eclético e do art déco – e uma política higienista passa a determinar, através do Código Sanitário de 1894, normas de higiene e segurança, alegando um respaldo científico, e ordenando o território segundo a nova realidade: uma São Paulo com taxas extraordinárias de crescimento demoMercado Grande. No pátio e em seus arredores, os caipiras circulavam com suas mercadorias.

gráfico que não sabe ao certo como conter os efeitos da cidade industrial. Essa política higienista se veria espacializada no Parque Dom Pedro II, projeto do arquiteto francês Joseph-Antoine Bouvard, inaugurado em 1922. O parque, além de uma nova tentativa de controlar as enchentes na várzea e as doenças que afetavam a população, era parte de uma política de embelezamento urbano segundo padrões europeus.

Do outro lado da várzea inundada, o bairro do Brás.

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Benedito Calixto. Inundação da Várzea do Carmo, 1892. Óleo sobre tela. 125 x 400 cm. São Paulo: Museu Paulista/ USP.

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Essa tentativa se apresentava como uma forma de rejeitar os padrões da ocupação iniciada no sentido leste, tendo os bairros operários do Brás e da Mooca como portais. Em mapas antigos da cidade, é possível notar o processo de ocupação do bairro. Na São Paulo de 1850, por exemplo, os caminhos que permeavam as chácaras já indicavam as vias que se consolidariam no século XX: o Caminho da Mooca (atual Rua da Mooca), que se divide em três pequenos caminhos, sen-

do um deles o Caminho do Oratório (atual Rua do Oratório) e outro, sem nome, que se assemelha a atual Av. Paes de Barros. No mapa de 1881, a conexão entre a Rua do Mercado e a Rua da Mooca, através da Rua do Hospício, indica o fácil acesso à região a partir do triângulo histórico. Além disso, mostra como a circulação entre a Mooca e o Brás era facilitada pela Travessa da Mooca, ao contrário dos dias de hoje, em que encontra como obstáculo a Av. Alcântara Machado.

São Paulo em 1850. Organizado e desenhado por Frederico Gonçalves, em 1937, a pedido do Departamento Geográfico e Geológico [Arquivo Público do Estado de São Paulo/Memória Paulista]

Planta da Cidade de São Paulo, de 1881, levantada pela Companhia Cantareira e Esgotos, e organizada pelo engenheiro Henry B. Joyner. [Reprodução: Departamento do Patrimônio Histórico]

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Do outro lado da várzea: a Mooca industrial Ainda que a Mooca do século XIX tenha timidamente se desenvolvido como parte dos subúrbios do centro histórico, sendo estimulada pela atividade comercial na várzea do Carmo, é através da industrialização que sua urbanização desponta. Com a inauguração da São Paulo Railway, em 1867, e com a chegada massiva de imigrantes a partir da década de 1880, a região da várzea do Tamanduateí se veria ocupada por fábricas, vilas e residências operárias. A Mooca industrial se formaria de modo integrado aos bairros do Brás e do Cambuci até a década de 1950, quando a construção da Avenida Leste e da Avenida do Estado acarretaria em uma ruptura territorial entre os bairros.

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Imóvel sendo demolido, em 1957, na esquina da Rua Piratininga, para dar lugar à Avenida Leste, atual Avenida Alcântara Machado. É possível notar a pavimentação de pedras e o trilhos dos bondes. Ao fundo, o bairro da Mooca [Estadão Acervo/Fotografia de Domício Pinheiro]

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Planta da Cidade de São Paulo em 1913, da Companhia Lithographica Hartmann-Reichenbach. O loteamento do entorno da Rua da Mooca e da ferrovia já é expressivo, se estendendo também à região do córrego Cassandoca. O Posto Zootécnico, construído em 1905 e que permaneceu no bairro até 1929, se destaca no mapa, bem como o Hipódromo [Reprodução: DPH].

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A Mooca industrial, nesse sentido, consiste no território consolidado ao longo do século XX e que tornou possível a identidade local, a partir da combinação de diferentes culturas estimulada pela convivência em espaços de trabalho e pelas relações de vizinhança. Grandes indústrias da atualidade tiveram suas origens nesse processo, tais como a Lorenzetti e a Ambev, e espalharam suas fábricas e produtos pelo Brasil. A Fábrica de Calçados Clark, o Cotonifício Crespi, os Moinhos Gamba, dentre outras fábricas, movimentaram as ruas da Mooca e impulsionaram sua ocupação. A concentração de imigrantes fortemente influenciados pelas ideologias disseminadas na Europa, por sua vez, foi essencial para impulsionar movimentos de grande expressão na cidade que culminariam, por exemplo, na greve geral de 1917.

O primeiro esvaziamento industrial da Mooca aconteceria na década de 1960, mas novas indústrias ainda se estabeleceriam no bairro, tendo como vetores as grandes avenidas e rodovias. O segundo esvaziamento ocorreria no final da década de 1980, sendo mantidos no bairro alguns galpões para armazenagem, e não mais para produção, e resultando nos espaços atualmente subutilizados ou abandonados, alvos da especulação imobiliária na última década.

Greve no Cotonifício Crespi, em 1917 [Reprodução: Stávale]. q

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A Mooca em 1958, com o tecido urbano industrial já consolidado [Reprodução: Geoportal/Memória Paulista].

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VII. o patrimônio industrial da Mooca De modo geral, o processo de industrialização pode ser identificado em diferentes elementos, materiais ou não, da cidade. Estes, por sua vez, podem ser considerados como patrimônio industrial quando lhes são atribuídos valores culturais, seja por um grupo específico ou por diferentes grupos. A Mooca, nesse sentido, é um exemplo do processo de industrialização de São Paulo e do processo de atribuição de valores por diferentes grupos, sendo atualmente reconhecida pelo seu patrimônio industrial. Para entender melhor como isso aconteceu nas perspectivas dos órgãos de preservação e nos estudos acadêmicos no campo da restauração, uma leitura combinada foi realizada, da qual resultou um mapa-síntese dos tombamentos e levantamentos espaciais realizados no bairro. Nele, constam: imóveis

tombados pelo DPH; imóveis indicados para abertura de tombamento e percursos a serem registrados e/ou valorizados pelo órgão, com base em um estudo realizado especificamente para a operação urbana; e a pesquisa realizada pela arquiteta Manoela Rufinoni em suas teses de mestrado e doutorado, da qual resultou um levantamento de parte do patrimônio industrial do bairro, abrangendo também edifícios já demolidos. A partir do mapa-síntese, foi possível confirmar o papel significativo da industrialização para a formação do bairro, através da função da ferrovia como vetor de ocupação e da concentração de complexos industriais em seu entorno, além da importância de determinados percursos para o bairro: a Rua da Mooca e a Rua Javari. Ao mesmo tempo, outros aspectos, considerados essenciais para a realização deste trabalho, não são tão abordados nessas leituras: a memória coletiva e a arquitetura menor, especialmente as vilas, que, mesmo escondidas dentro das quadras e nem sempre com acesso público, são notadas no desenho urbano. Para compreender a Mooca como expressão da industrialização, então, entende-se que todas essas perspectivas devem estar combinadas, e que a leitura dos moradores – o grupo mais capaz de atribuir valores culturais devido a sua relação íntima e contínua com o local – não pode ser tratada como algo dispensável ou de menor peso no processo de reconhecimento

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Vista da ferrovia a partir da Estação da Mooca, em 2015. No lado esquerdo, alguns edifícios pertencentes à antiga Companhia Antárctica. A OUCMVC prevê a realocação dessa estação para um local mais próximo da Rua da Mooca [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato].

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Depósito de Metais Shirazi Antiga Casa da Roda (Res. 14/Conpresp/14)

(Res. 26/Conpresp/04)

Fábrica de Tecidos Labor (Res. 14/Conpresp/14)

Armazéns Gerais Piratininga (Res. 16/Conpresp/11)

Antiga Creche Marina Crespi (Res. 03/Conpresp/10)

Estádio Conde Rodolfo Crespi (Juventus), Pizzaria São Pedro e Cotonifício Crespi (Res. 14/Conpresp/14)

Residências (Res. 14/Conpresp/90)

Officinas da Sociedade Anônima Casa Vanorden (Res. 14/Conpresp/07)

Antiga Companhia Antárctica Paulista

Chaminé da União

(Res. 05/Conpresp/10)

(Res. 09/Conpresp/07)

patrimônio histórico

Grandes Moinhos Minetti Gamba (Res. 14/Conpresp/07)

bens culturais protegidos área envoltória bens a serem protegidos

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caminhos históricos e urbanos a proteger por meio de projeto de valorização áreas ou caminhos a proteger por meio de registro edifícios industriais identificados no estudo de RUFINONI, existentes e demolidos (2013, p. 282)

* legendas originais do estudo realizado pelo DPH. Contribuições do DPH para a Operação Urbana Consorciada Mooca Vila Carioca. Prefeitura de São Paulo: junho de 2013. recorte espacial: setor da Mooca, dentro do perímetro da OUCMVC.

Armazéns da antiga São Paulo Railway (Res. 14/Conpresp/07)

Galpões e Armazéns (Res. 14/Conpresp/07)

Depósitos para café, posteriormente Ceagesp (Res. 14/Conpresp/07)

Conjunto Sociedade Técnica Bremensis e Schmidt Trost (Res. 14/Conpresp/07)


do patrimônio. De fato, o patrimônio industrial da Mooca se encontra na arquitetura industrial das grandes fábricas, nas casas operárias, nos estabelecimentos criados pelos imigrantes, no(s) sotaque(s) pelo bairro, nas tradições passadas de geração em geração e também nas mudanças, que fazem com que os novos mooquenses, descendentes de antigos moradores ou simplesmente advindos através do adensamento populacional, possam exercitar uma constante “ressignificação” do patrimônio local e do território, sem que o reconhecimento dos valores anteriormente atribuídos seja comprometido. Na prática, o que vemos é que preservar as fábricas e a orla ferroviária está longe de ga-

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Casa e Oficinas Vanorden, em 2015, na Rua Borges de Figueiredo [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato]

rantir a preservação da identidade local, que não está expressa somente na arquitetura, mas que, de modo geral, tem ela como suporte. No mapa-síntese, é possível notar a presença de antigas fábricas do bairro: o Cotonifício Crespi, os Moinhos Gamba, os Armazéns Gerais Piratininga, a Fábrica de Tecidos Labor, dentre outros. Em amarelo, o levantamento de bens a serem protegidos destaca um pouco da arquitetura menor e inclui também a Paróquia São Rafael, mas as informações, que são de 2013, estão desatualizadas: conforme o levantamento realizado no capítulo 3 deste trabalho, algumas construções já foram demolidas desde então.

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Antigos galpões e armazéns, em 2015, na Rua Borges de Figueiredo [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato]

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Armazéns Gerais Piratininga, em 2012, na Rua da Mooca [Acervo de Kurt Riedel]


VIII. a arquitetura menor A habitual exaltação à arquitetura monumental, apreciada por sua excepcionalidade, tem dividido espaço com o reconhecimento da arquitetura menor, objeto de estudo recente do campo do patrimônio cultural, abarcado a partir das mudanças conceituais que remontam à Carta de Veneza, de 1964. Se, de um lado, o reconhecimento é o primeiro passo para a salvaguarda do patrimônio, protegendo-o futuramente da ação do mercado imobiliário, por outro, ele não impede que essa arquitetura seja inserida na lógica da cultura de consumo – através da qual, muitas vezes, seus valores são deturpados pelo fachadismo, pela espetacularização do monumento e pelo fetiche por tudo o que parece antigo, ainda que não seja necessariamente autêntico. Quando se trata de uma arquitetura de exceção, as ações em monumentos, algumas questionáveis do

ponto de vista do restauro, podem aparecer de modo pontual no território, e geralmente são notados em aspectos estéticos dos elementos construtivos, em substituições de material pouco sensíveis à identidade do monumento em questão, chegando à instalação de usos não condizentes com sua história e arquitetura. Já, quando aplicada também aos conjuntos urbanos, a interferência no patrimônio adquire uma dimensão diferente, com potenciais igualmente danosos se direcionada segundo a mesma lógica de mercado. O que vemos na Mooca, nesse sentido, perpassa não somente a ameaça de desaparecimento de uma arquitetura simbólica ou de sua alteração estética, mas também a transformação de um cotidiano urbano que foi consolidado pela história de ocupação da região e pela memória de sua população. Atualmente, uma reestruturação urbana se mostra necessária e permite colocar o patrimônio em pauta, ainda que sua discussão seja quase sempre superficial. Mais uma vez, o patrimônio, em seu papel coadjuvante de sempre, surge como um empecilho, e não como uma saída, e a complexidade e sutileza dos valores que apresenta são pouco apreendidas pelas formulações às quais a gestão urbana se propõe. Parece difícil colocar em prática a manutenção de relações que a cidade estabelece e que parecem frágeis, mas é verdade também que elas só existem (e resistem)

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Imóveis na Rua da Mooca, em 2016 [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato].

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porque o espaço urbano possibilita. Desde que a Operação Diagonal Sul foi indicada, em 2002, muitas transformações ocorreram no território, de modo desordenado. O tombamento do conjunto industrial realizado em 2007 foi, sem dúvida, essencial para salvaguardar o patrimônio industrial que vinha sendo demolido pelos novos empreendimentos imobiliários. A abordagem dos edifícios como elementos de um conjunto urbano também explicitou o reconhecimento de seus valores para a paisagem da região, leitura que teria sido prejudicada se os edifícios fossem interpelados isoladamente. Ainda assim, o reconhecimento da arquitetura industrial da Mooca, representada nos órgãos de preservação exclusivamente por complexos de grandes dimensões, revela uma seleção que negligencia a arquitetura menor – é possível observar, por exemplo, que o único conjunto residencial indicado para proteção tem sua origem em uma abertura de processo de tombamento de 1990, que até hoje não foi concluído. É compreensível a urgência com que se atuou durante esse período, atendo-se a edifícios mais simbólicos para a paisagem e para a memória coletiva, mas, em um momento no qual o território passa a ser rediscutido e transformado, não se pode contar apenas com o bom senso dos investidores. Nesse contexto, vale a pena observar que o trabalho articulado entre o DPH e a SP Urbanismo – que resultou nas indicações de bens tombados, em tombamento e com interesse de preservação na

proposta consolidada pela OUCMVC – não foi assimilado em aspectos que parecem importantes para a conservação integrada do setor da Mooca: é o caso dos caminhos históricos indicados para registro e projetos de revitalização (o mapa-síntese da p. 54 abarca o estudo do DPH). Na proposta final, a participação do patrimônio ficou limitada aos tombamentos já existentes ou em andamento, sem contemplar algum plano de ação que atuasse no âmbito da paisagem e das práticas culturais do bairro.

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Duas quadras de casas localizadas na Rua Andrade Reis, representadas no mapa SARA BRASIL, de 1930 [Reprodução: DPH].

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Além disso, o tombamento e as Zonas Especiais de Preservação Cultural (ZEPECs) não demonstram ser os instrumentos mais adequados para a preservação efetiva de uma paisagem urbana como a da Mooca: o tombamento atua de modo pontual, e mesmo a possibilidade de atuação em um entorno imediato, a partir de áreas envoltórias, é prejudicada pela dificuldade de aprovação nos órgãos, devido às pressões dentro

dos próprios conselhos; já as ZEPECs, na prática, não atuam por zonas, mas por imóveis, se assemelhando a um tombamento coletivo, e fazendo prevalecer quase sempre as intervenções pontuais sobre cada imóvel, em detrimento de uma abordagem urbana de fato.

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As mesmas quadras da Rua Andrade Reis, em 2004 [Ortofoto do Mapa Digital da Cidade].

Com as casas já demolidas, nas quadras foram construídas cinco torres residenciais [Google Earth 2016].

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CAPÍTULO 2

as operações urbanas consorciadas I. mas, afinal, o que é operação urbana consorciada?

A Operação Urbana Consorciada (OUC) é um instrumento urbanístico que delimita uma área de exceção, dentro da qual a legislação urbanística vigente pode ser reformulada de modo participativo em prol de transformações e intervenções urbanas que beneficiem a sociedade. Ela é regulamentada pelo Estatuto da Cidade e é delimitada por uma lei municipal específica com base no plano diretor em vigor. A partir dela, e levando-se em consideração os impactos ambientais de tais medidas, é possível modificar características do parcelamento do solo e subsolo, bem como seu uso e ocupação, e normas de edificação; e regularizar construções já existentes na área. Para isso, a lei específica deve delimitar o perímetro de aplicação da OUC, indicar um programa básico de ocupação, prever o atendimento à população, definir os objetivos da operação, estabelecer as contrapartidas exigidas dos investidores e as medidas de controle da operação pelos diferentes setores atuantes – gestores, sociedade civil e setor privado. A lei em questão também pode emitir certificados de potencial adicional de construção, os CEPACs, que são títulos livremente negociados e aplicados dentro do perímetro da operação urbana a qual estão vinculados, que possibilitam a construção de áreas adicionais ou modificações de usos e parâmetros

Considera-se operação urbana consor-

ciada o conjunto de intervenções e medidas coordenadas pelo Poder Público municipal, com a participação dos proprietários, moradores, usuários permanentes e investidores privados, com o objetivo de alcançar em uma área transformações urbanísticas estruturais, melhorias sociais e a valorização ambiental. (Estatuto da Cidade, Artigo 32, Parágrafo 1)

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Antigos galpões da Rua Borges de Figueiredo vistos a partir do viaduto São Carlos, em 2016. Ao fundo, os edifícios construídos nas quadras vizinhas, antes da regulamentação da área envoltória do conjunto industrial [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato].

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de um terreno ou projeto que haviam sido anteriormente definidos pelo Plano Diretor.

A seguir, uma síntese dos estudos da OUCMVC é apresentada para mostrar algumas das intervenções previstas para a região. Vale lembrar, ainda, que nem todas são colocadas em prática nas operações - na Operação Faria Lima, por exemplo, os 10% de área prevista para Habitação de Interesse Social não foram cumpridos, conforme indica Mariana Fix - e “os impactos das intervenções são desconhecidos, desconsiderados ou subestimados” (FIX, 2004, p. 10), o que poderia exigir novamente a atuação do Município para corrigir ou amenizar os problemas urbanos acarretados.

Certificado de Potencial Construtivo Adicional - CEPAC é uma forma de contrapartida financeira de outorga onerosa do potencial construtivo adicional, alteração de uso e parâmetros urbanísticos, para uso específico nas Operações Urbanas Consorciadas. (Plano Diretor Estratégico de São Paulo, Artigo 146, Inciso VIII)

Uma das grandes questões que a operação urbana traz para a gestão da cidade, nesse sentido, é a concentração de investimentos em uma só região: as primeiras melhorias são impulsionadas por obras do Município, de modo a atrair o interesse do setor privado para aquela localidade; através do capital adquirido por meio da venda de CEPACs, então, novas intervenções são realizadas dentro dos limites da operação, alimentando um ciclo vicioso (FIX, 2011, p. 6). Se, de um lado, essa estratégia parece uma boa maneira de reunir os recursos necessários para a renovação urbana da região, compensando a falta de verba pública, ela também concentra recursos financeiros que poderiam ser aplicados em outras áreas da cidade, igualmente ou até mais necessitadas que, no entanto, não despertam o interesse do mercado imobiliário. 62


II. Operação Urbana Consorciada Mooca-Vila Carioca (OUCMVC) A OUCMVC, no contexto municipal, faz parte da Macroárea de Estruturação Metropolitana do Plano Diretor Estratégico de 2014 (Lei 16.050/2014) e tem como objetivo geral a reestruturação urbana da área contida em seu perímetro - interpretada como uma área subutilizada, com infraestrutura ins-

talada e baixa densidade demográfica -. a partir de quatro eixos estruturais: uso do solo, mobilidade, drenagem e áreas verdes. A operação derivou da chamada Operação Diagonal Sul, inicialmente determinada pelo PDE de 2002, e que incluía, além da área atual da OUC Mooca-Vila Carioca, parte da OUC Lapa

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Macroárea de Estruturação Matropolitana [Fonte: Substitutivo do PL 688/13. Base Cartográfica: MDC/SMDU; Emplasa, 2007. Elaboração: SMDU, 2014]

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-Brás. No PDE de 2014, o novo perímetro já havia sido incorporado às propostas metropolitanas. À OUC Mooca-Vila Carioca, também se atribuiu o nome de OUC Bairros do Tamanduateí, de acordo com a gestão urbana atual, que tem adotado esta última denominação nas publicações mais recentes.

De modo geral, os quatro eixos estruturais da operação são trabalhados no território através do adensamento populacional e da consolidação da orla ferroviária como uma centralidade regional - vale lembrar que a região abre caminho para a Zona Leste e para as cidades do ABC Paulista -, sendo previstas

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Audiência pública sobre a operação na Câmara Municipal, em 28 de abril de 2016. Um grupo se manifesta contra a desapropriação de duas quadras para a construção de um parque, no Setor Cambuci [André Bueno/CMSP].

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Propaganda de um empreendimento imobiliário [Reprodução: Revista da Mooca].

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também ações pontuais no território, tais como transposições da ferrovia, melhorias no acesso e na mobilidade da região, bem como implantação de sistemas de drenagem para compensar o solo impermeabilizado e de parques e áreas verdes para recuperar áreas contaminadas pela indústria. Além disso, a reestrutu-

ração prevista, que pretende mudar o uso predominantemente industrial para o uso misto, exige o estabelecimentos de novas diretrizes de uso e ocupação do solo. Segundo a agenda definida para o plano diretor, a aprovação da lei específica que regulamenta a OUCMVC foi prevista no programa de metas 2013-2016, como meta nº123, juntamente com a revisão da Operação Água Branca e o início dos estudos para o Projeto Arco Tietê. Atualmente, a OUCMVC possui uma Licença Ambiental Prévia, obtida em julho de 2015, e seu licenciamento está em fase final. Após audiências públicas e reuniões com conselhos participativos, o projeto de lei da OUCMVC foi encaminhado para a Câmara Municipal, que deu início novamente a um processo participativo, através do debate público em um novo ciclo de audiências, agora no âmbito do Poder Legislativo. Antes disso, em 2011, foram realizados estudos preliminares pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (SMDU), seguidos pelos estudos urbanísticos (estudos econômicos, plano urbanístico, estudo de impacto ambiental, etc.) elaborados pelo consórcio CMVC, que são tomados neste trabalho como base para compreender a operação urbana em questão e suas implicações para o território.

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Audiência pública sobre a operação na Câmara Municipal, em 28 de abril de 2016. [André Bueno/CMSP].

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Conforme a caracterização do empreendimento fornecida pela Prefeitura e presente no Relatório de Impacto Ambiental da OUCMVC, o estudo da área abarcada pela operação e a proposição de diretrizes específicas são orientados segundo a subdivisão do território em setores. São eles: Mooca, Cambuci, Parque da Mooca, Henry Ford, Vila Prudente e Vila Carioca.

Tal perímetro também é dividido segundo as prioridades e os objetivos da OUCMVC, formando: o perímetro de transformação, no qual concentram a maior parte das intervenções e que está, por vez, dividido em polos; e o perímetro de renovação. O bairro da Mooca, nesse contexto, é parcialmente englobado pelo setor da Mooca, abrangendo totalmente o polo cultural a ser es-

Setores. Elaborado com base no Estudo de Impacto Ambiental da OUCMVC.

Polos. Elaborado com base no Estudo de Impacto Ambiental da OUCMVC.

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tabelecido na orla ferroviária, um dos pontos centrais de ação da OUCMVC, e a atual gleba da Ambev, a ser parcelada, e na qual está previsto um alto adensamento com controle mínimo de gabarito. Além disso, o bairro é vizinho a dois setores nos quais estão previstas novas estações de metrô e trem - a Estação São Carlos, no setor Cambuci; e a Estação Parque da Mooca, no

Setor Henry Ford. Em relação ao patrimônio, a OUCMVC identifica como eixos de preservação abarcados por seu perímetro o conjunto industrial localizado próximo à Estação da Mooca e o conjunto referente ao Parque da Independência, no Ipiranga, além de alguns poucos imóveis espalhados pelo território, tais como o

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Cotonifício Crespi, o estádio do Juventus, a Tecelagem Labor e a Pizzaria São Pedro. Na distribuição de recursos, a OUCMVC prevê destinar 4% de seu capital, a ser adquirido majoritariamente através da venda de CEPACs, para intervenções e melhorias no patrimônio histórico. Para todo o perímetro, o projeto de lei nº 723/2015, que regulamenta essa operação urbana, define

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Mapa presente na apresentação do Projeto de Lei nº 723/2015, divulgada em maio de 2016, que regulamenta a OUCBT - Operação Urbana Consorciada Bairros do Tamanduateí, antiga OUCMVC.

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como estoque de potencial adicional de construção comercializável através de CEPACs a área total de 5.183.747m², sendo cada CEPAC comercializado pelo preço mínimo de 790 reais. Vale lembrar que a verba de 4% destinada ao patrimônio - uma porcentagem pequena, considerando-se o discurso apresentado pela OUCMVC, que coloca o patrimônio como

uma das características mais simbólicas do território em estudo - será majoritariamente aplicada em melhorias no que é considerado como patrimônio oficial local, indicado no mapa ao lado, e que os 15% destinados aos equipamentos não englobarão necessariamente os edifícios históricos.

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Aplicação dos recursos da Operação [PL nº 723/2015]

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O mapa ao lado, elaborado pelo CMVC, ilustra as principais intervenções no Setor da Mooca, uma das subdivisões do território, e considerado como uma das áreas com maior potencial de transformação, na qual está prevista a instalação de atividades de abrangência regional a partir do polo cultural a ser estabelecido (os edifícios indicados em roxo, próximos à ferrovia, fazem parte deste polo). Em relação à mobilidade urbana, além das conexões intrabairro que serão beneficiadas com o parcelamento da gleba da Ambev, a estação da Mooca, atualmente localizada entre o Antigo Armazém da São Paulo Railway e as

Antigas Oficinas Casa Vanorden, será realocada para a Rua da Mooca. Além disso, esse mapa, divulgado em maio de 2016, indica uma nova estação de trem a ser instalada nos antigos galpões da Rua Borges de Figueiredo. No que diz respeito ao destamponamento do Tamanduateí, a OUCMVC prevê a redistribuição dos fluxos da Avenida do Estado para outras vias locais, de modo a desafogar o trânsito. O mapa também indica a criação de um corredor verde que cortará as quadras vizinhas ao rio. Já em relação às novas construções, a operação segue os parâmetros gerais do plano diretor.

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Projeto de Intervenção Urbana presente no Projeto de Lei nº 723/2015.

Estratégias de qualificação urbana adotadas pela OUCMVC [PL 723/2015].

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CAPÍTULO 3

arqueologia experimental Consciente das mudanças que a OUCMVC tem trazido para a região na última década e levando-se em conta a leitura limitada que os levantamentos oficiais acerca do patrimônio do bairro geralmente apresentam, a terceira parte deste estudo se concentra na identificação e no mapeamento de elementos ainda presentes na paisagem ou na memória de seus habitantes. Nesse sentido, o exercício aqui exposto articula diferentes percepções do bairro, e é intitulado de arqueologia experimental devido ao seu caráter investigativo e aberto às vivências características da Mooca, que estimulam a sensação de pertencimento e a identidade local - a vivência do imigrante distante de casa, que fez do bairro o seu novo lar; a das crianças que brincavam nos campos de várzea, corriam nas ruas de paralelepípedos e iam ao cinema nas manhãs de domingo, antes da macarronada da “mamma”; a do trabalhador, que passava grande parte do seu dia no bairro, e no qual criou vínculos de amizade e fez funcionar as grandes indústrias da região; dentre outros exemplos.

Além disso, é experimental também por ser resultado de um processo de descoberta do bairro pela autora, o que exigiu a superação de paradigmas acadêmicos que, de modo geral, acabam por condicionar o olhar do arquiteto e do urbanista sobre seu objeto de estudo: o levantamento espacial e as propostas apresentadas nas próximas páginas, por exemplo, só foram possíveis quando a costumeira hierarquização entre valores cognitivo, técnico e afetivo, realizada de modo quase inconsciente na hora de avaliar as localidades, foi deixada de lado, possibilitando preencher as lacunas que as leituras tradicionais do espaço deixavam. Com efeito, a arqueologia experimental vem completar o “quebra-cabeça” da Mooca, colocando lado a lado o patrimônio industrial oficialmente reconhecido, a arquitetura menor e a memória da população, a serem considerados como base para os instrumentos urbanísticos de renovação do território. Vale lembrar que a Mooca não é um caso isolado na cidade: ao contrário, exemplifica processos que estão acontecendo em outros bairros, tais como o Pari, o Brás e o Belém, repletos de memórias e ameaçados pela renovação desordenada e, por isso, o estudo aqui desenvolvido pode ser aplicado a outros contextos, incorporando as preexistências e as singularidades identitárias de cada bairro ao projeto de reestruturação.

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O asfalto sobre as antigas pedras da Rua Ezequiel Ramos, em 2016 [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato].

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O recorte espacial continua sendo o setor da Mooca, na área da OUCMVC, mas alguns aspectos externos são considerados, levando-se em conta a continuidade do bairro no sentido leste, região indiretamente impactada pela OUCMVC e que, no entanto, não receberá investimentos. Dito isso, a arqueologia experimental se divide em dois mapas: o mapa de referências afetivas e o mapeamento final. O primeiro reúne algumas localidades, pessoas, eventos e aspectos do bairro, presentes ou não, destacados a partir de depoimentos de moradores. Esse mapa foi desenhado à mão, separadamente e de modo esquemático, para indicar as referências espaciais e locais de memória presentes no imaginário da população e situar localidades já demolidas e que, no entanto, ainda são emblemá-

ticas. O segundo mapa sintetiza as informações obtidas ao longo da realização de todo o processo de estudo, incluindo aspectos importantes da formação do bairro - o rio, a Rua da Mooca, as vilas, etc. - e abrangendo: elementos tombados ou indicados para tombamento pelo DPH, bem como caminhos propostos para valorização e registro pelo órgão; imóveis isolados e conjuntos de imóveis identificados pela autora durante caminhadas pelo bairro; imóveis, locais, pessoas e eventos identificados a partir de conversas informais com moradores e de grupos colaborativos que reúnem informações sobre o bairro, tais como: Viva Mooca, Portal da Mooca, Saudosa Mooca, Eu na Javari e o mais recente @instamooca.

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Espaços da memória coletiva considerados na arqueologia experimental: o cinema foi um dos locais de cultura que marcaram o lazer do bairro, atraindo público de todas as idades e sendo sempre citado nos relatos de moradores, especialmente aqueles que passaram sua infância e adolescência nos anos 50 e 60. Na década de 1960, no entanto, cinemas de bairro que se espalhavam pela cidade de São Paulo passaram a perder seu público na medida em que as famílias adquiriam suas televisões. Na Mooca, o Cine Roma, o Cine Aliança, o Cine Ouro Verde, dentre outros, são exemplos disso. Ao lado, em uma fotografia de 1994, o edifício que antes abrigava o Cine Aliança aparece desfigurado e é usado, de modo improvisado, como moradia. O edifício, demolido em 2011, foi, dentre o conjunto de cinemas antigos do bairro, um dos poucos que haviam sobrevivido até o século XXI [Reprodução: Facebook/@cinemasantigosdobrasil].

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A partir dessa leitura, o trabalho passa a se estruturar em duas partes de caráter propositivo: a primeira abrange um plano de medidas para a preservação e valorização dos espaços ainda existentes, construído de modo articulado com as reflexões desenvolvidas até aqui - para isso, foi realizada uma síntese de problemáticas citadas ao longo do estudo, de modo a nortear as propostas apresentadas logo em seguida; a segunda parte, por sua vez, desenvolve um meio de registro colaborativo do que existe e do que já desapareceu no território mas ainda está presente no imaginário da população, sugerindo percursos pelos bairros e possibilitando construir uma base de informações em constante construção.

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Jacqueline Brizida se mudou para a Mooca há dois anos e reúne seus registros fotográficos do bairro no @instamooca.

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I. referências afetivas do bairro Assim como muitos, eu saí a certa altura da Mooca, para retornar ao primeiro apelo. E hoje aqui educo meus filhos. Mas lembrar da Mooca da minha infância é lembrar do jogo de amarelinha nas ruas e calçadas, do pular corda às tardes, de soltar pipa no Campo dos Bois. É lembrar, sim, da eterna e terna rivalidade entre os vizinhos italianos e espanhóis, lado a lado, muro com muro, mais amigos que nada, mas com aquelas referências: “Aquele espanhol…”. “Esse italiano ….”. É lembrar dos “bem nascidos” da Paes de Barros, dos “remediados” que, na maioria das vezes, haviam “subido” a Rua da Mooca, vindos da João Antonio de Oliveira, Ana Nery e outras, fincando âncoras na parte “de cima” da rua dos Trilhos e suas travessas, depois da rua Clark… Lembrar da Mooca da minha infância é lembrar ainda das saudades dos meus pais da sua Mooca de infância, é re-escutar a história da chegada da família na Hospedaria dos Imigrantes; lembrar da Mooca da minha infância é sentir o cheiro das feiras livres, dos feirantes que cumpri-

mentavam a todos pelo nome, é lembrar da inauguração do prédio das Escolas Agrupadas Dr. Fábio da Silva Prado, conceito moderno, integrado com biblioteca e parque esportivo, da sua primeira diretora, Dona Laís, seu colar de pérolas e seu coque à prova de tempestades e tufões. Lembrar da Mooca da minha infância é pegar carona novamente na calota do carrinho de sorvete da Kibon — sorvete, uma vez por semana, pirulitos de chocolate nas outras. Unhhh, onde foram parar? Continuar nas lembranças da Mooca é crescer um pouco e passar a freqüentar as domingueiras do Juventus, onde despertei para as primeiras paixões e as primeiras dores de amores. É achar engraçado e, ao mesmo tempo, sentir orgulho ao ouvir “Me sou da Mooca”. [...] Relato de Mara Magaña publicado no Portal da Mooca, sem data.

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Olhar para as cotidianidades da Mooca, buscando os diferentes significados atribuídos por seus moradores, foi um dos grandes desafios para uma leitura menos superficial da identidade do bairro. Entender tais significados, difíceis de serem apreendidos e/ou espacializados, parecia exigir certa sensibilidade para encontrar, a partir de espaços e de lembranças individuais relatadas, valores que pudessem constituir uma memória coletiva vinculada a um território. Ao mesmo tempo, esse processo exigia também certa objetividade para apresentar elementos dessa memória coletiva de modo suficientemente claro para serem incorporados na regulamentação e reestruturação do ambiente construído. As referências afetivas aqui apresentadas, nesse sentido,

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Na fotografia de 1958, o Parque Shangai, parque de diversões construído nas proximidades do Parque D. Pedro II na década de 1940, e frequentado pelas crianças da região, o que incluía os moradores da Mooca, que caminhavam pela Rua da Mooca até o local. O parque encerrou suas atividades em 1968, cedendo espaço para a construção de viadutos [Reprodução: São Paulo Antiga].

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são alguns exemplos de vínculos criados com o território e escolhidos através de relatos de moradores publicados no Portal da Mooca, que reúne informações sobre localidades, famílias do bairro, curiosidades e lembranças carregadas de certa nostalgia, servindo, por vezes, como intermédio para reencontros entre pessoas que se conheceram na infância, que estudaram ou trabalharam em um mesmo local, etc. Como é próprio da memória, o exercício é seletivo, deixando alguns outros elementos de fora; a tentativa, nesse processo, foi a de apreender os elementos mais frequentes nos relatos. Uma parte dessa seleção, como será possível notar, já desapareceu, mas seu registro é importante para entender as transformações do bairro e sua história.


Os campos de várzea estão entre as localidades mais citadas. Alguns moradores chegam a lembrar das escalações dos times e dos horários em que jogavam. Nos nomes dos campos, sempre se encontrava alguma referência da paisagem: segundo o morador Affonso de Souza Figueiredo, no local do chamado campinho dos bois, existia “um cercado onde ficavam confinados os bois trazidos do interior e que seriam destinados na sua maioria para os matadouros municipais”. Da mesma forma originou-se o nome do campinho da favela, como lembra Edison Archela, ex-morador do bairro: [...] A origem do nome "campinho da favela" deve-se a uma favela que existia nesse terreno. Havia, aproximadamente, uns vinte barracos típicos das favelas antigas (construídos com restos de madeiras, latas e zinco). Na década de 60, a favela foi retirada do local pelo poder público, e durante alguns anos utilizamos aquela área para jogar bola. Chegamos a demarcar um campinho com traves improvisadas. Logo tivemos que

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Morador em sua residência, na Rua do Oratório, por volta de 1980 [Fotografia de Lenise Pinheiro. Acervo da PMSP]

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aprenderam o ofício de pizzaiolo. A Cantina Romanato é, por sua vez, considerada a primeira pizzaria da Mooca, que teve sua origem no armazém instalado no bairro pela família Romanato ainda no século XIX, e encerrou suas atividades por volta de 1950. Os conjuntos residenciais, por sua vez, estimularam a relação entre vizinhos e também as amizades de infância, como o conjunto de casas da Light. Alguns exemplos deles ainda indicam as mudanças no modo de se fazer habitação popular no país na década de 40: o conjunto habitacional construído pelo IAPETC (Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Trabalhadores em Transportes de Carga), abrangendo o terreno onde se encontra-

nos mudar mais para os fundos do terreno; pois, um prédio de apartamentos foi erguido no local (onde funciona - ou funcionou - o cartório eleitoral da Mooca)[...] A origem do nome “campinho da favela” Relato de Edison Archela, sem data. Disponível em: http://www.portaldamooca.com. br/eu_me_lembro/lembro79a.htm

As pizzarias também fazem parte dos espaços de convívio que marcaram a Mooca. Dentre elas, os moradores destacam a Pizzaria São Pedro, protegida através de abertura de tombamento por ZEPEC (res. 14/Conpresp/14), e a Pizzaria do Ângelo. Uma curiosidade sobre as duas pizzarias é que ambos os propriétarios, que são primos - Seu Rafael e Seu Ângelo -, trabalhavam aos fins de semana na Cantina Romanato, onde

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Crianças brincando no parquinho do IAPI Mooca, sem data. [Foto: Celso Abreu. Reprodução: Viva Mooca]

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va o campinho dos bois; e o IAPI Mooca, conjunto construído pelo Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários entre 1946 e 1949. O clube do Juventus, além de ser um dos exemplos mais simbólicos da tradição moqueense a partir do futebol, estimulou o convívio entre os moradores fora dos campos: as matinês de carnaval, as festas juninas e a recreação nas piscinas do conjunto

construído no Parque da Mooca são algumas das formas como o clube passou a fazer parte do cotidiano da população. No que diz respeito à paisagem do bairro, além do Tamanduateí, destaca-se o Córrego Cassandoca, que foi retificado e tamponado na década de 1950, escondido pela a atual Avenida Cassandoca. Antes do tamponamento, alguns moradores lembram que, para a transposição do “riacho”, existia uma pequena

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Parte do grupo que participou da gincana do Canal 5, em 1968 [Arquivo da Escuderia Pepe Legal. Reprodução: Portal da Mooca].

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Torcedores assistindo a um jogo do Juventus, próximo ao estádio Conde Rodolfo Crespi, sem data [Acervo Estadão]

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ponte de madeira.

operários se concentravam para organizar suas manifestações e greves - vale lembrar que próximo a essa praça se encontra o Cotonifício Crespi, onde teve início a Greve Geral de 1917.

Para os jovens, a Escuderia Pepe Legal, grupo fundado em 1966 para participar de gincanas organizadas pelas emissoras de rádio da época, foi outro ponto de encontro do bairro. Além dela, outro local de encontro, com objetivo diferente, foi a Praça Vermelha, localizada no cruzamento da Rua da Mooca com a Avenida Paes de Barros e a Rua do Oratório, onde os

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Piscinas do Juventus, na década de 90 [Reprodução: Portal da Mooca]

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algumas referências afetivas

conjunto da Light (casas perto do campo de bois) ruas de paralelepípedos bailes de carnaval na rua Javari cannolis do Seu Antônio ponte de madeira sobre o riacho Cassandoca suspiros do Seu Jovino churros de roda do Seu Toninho Praça Vermelha fábrica União doceria Di Cunto festa de San Gennaro Escola Estadual Oswaldo Cruz Escola Estadual Padiá Calogeras clube do Juventus (no Parque da Mooca)

campinho de bois Pizzaria São Pedro Parque Shangai IAPI Mooca Cine Roma Cine Ouro Verde Cine Aliança Pizzaria do Ângelo campinho da favela CRIM (Clube Recreativo Industriários da Mooca) andar do Parque Dom Pedro até a Av. Paes de Barros Escuderia Pepe Legal bar do Elídio Cantina Romanato

Para identificar melhor as referências ainda existentes, os elementos que não estão mais presentes no território foram riscados na lista.

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II. mapeamento O mapeamento final consiste no levantamento do patrimônio industrial local abrangido pelo perímetro da OUCMVC, combinando as informações de bens tombados e o levantamento da arquitetura menor do bairro realizado pela autora, de modo a complementar e revisar o mapa-síntese elaborado preliminarmente. A partir deste mapeamento, é possível perceber que, além dos eixos estabelecidos pela Rua da Mooca e pela ferrovia, uma arquitetura residencial operária se encontra distribuída no território, em meio à nova Mooca que emerge.

De modo geral, os imóveis indicados são residências e pequenos estabelecimentos comerciais antigos, avaliados a partir de seus aspectos físicos. Foram levados em conta imóveis antigos descaracterizados que, no entanto, ainda carregam aspectos importantes de sua arquitetura original, considerando as adições como parte de sua história. Além disso, alguns imóveis mais recentes, que dialogam com os antigos de modo a estabelecer uma relação “simbiótica” que estimula a manutenção de ambos, foram indicados.

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A seguir, algumas imagens da arquitetura menor da Mooca, obtidas durante as visitas ao bairro, realizadas entre junho de 2015 e junho de 2016 pela autora.

Rua AndrĂŠ de LeĂŁo, 310.

Rua da Mooca, 1076.

Rua Visconde de Inhomerim, 16-18.

Rua da Mooca, 356.

Rua da Mooca, 947.

Rua Oscar Horta, 67.

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Rua Piratininga, 1020.

Rua Visconde de Inhomerim, 83.

Rua Visconde de Inhomerim, 85.

Rua Guaratinguetรก, 42.

Rua Visconde de Inhomerim, 79.

Rua Visconde de Inhomerim, 12-14.

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III. problemáticas 1) a verticalização massiva de eixos viários do bairro, tais como a Rua da Mooca, a Rua do Oratório e a Avenida Paes de Barros, acentuada pela própria concepção de operação urbana de um modo geral, que possibilita exceções na legislação municipal estabelecida pelo Plano Diretor, oferecendo aumento de potencial construtivo em troca de fundos para investimentos no território. Essa verticalização interfere no espaço de diversas formas: além de acelerar o processo de desaparecimento de antigos imóveis, cria barreiras visuais e espaciais, eliminam relações de vizinhança consolidadas pelo desenho urbano característico do bairro, especialmente por suas vilas operárias.

4) adensamento previsto para o o entorno da Avenida Paes de Barros, em um dos limites da OUCMVC. Na prática, tal medida impulsiona o adensamento de ambos os lados da avenida, o que gera uma ocupação semelhante a leste, extrapolando o perímetro da operação e criando uma área de impacto externa, sem um plano de ação definido e na qual os rendimentos da OUCMVC não serão aplicados. 5) o destino dado à reserva de terrenos vazios próximos a imóveis ou a conjuntos com interesse de preservação, que exigem projetos articulados com as preexistências do bairro. A construção de empreendimentos alheios à realidade e morfologia urbana local podem acelerar o desaparecimento de tais preexistências, por isso, em muitos casos, a manutenção pontual de um conjunto de imóveis não é suficiente quando a arquitetura que coexiste harmoniosamente com ele é suprimida. Atualmente, é comum encontrar no bairro quadras nas quais vilas operárias e antigas residências são gradativamente substituídas ou estão margeadas por empreendimentos que afetam suas relações espaciais primárias - o uso coletivo das ruas da vila, a relação intensa entre a casa e a rua característica das residências do início do século XX ainda sem os quintais frontais, etc.

2) imóveis antigos abandonados ou subutilizados e em péssimo estado de conservação, dando a impressão de descaso e esquecimento, e que poderiam ser reinseridos na lógica urbana apresentada pelo bairro atualmente. 3) loteamento das atuais glebas do Carrefour e da Ambev que, caso realizado de modo desconexo, podem afetar as relações entre a Mooca Baixa e o eixo ferroviário. Essas terras compõem, juntamente com o entorno da Avenida Paes de Barros, as áreas de maior adensamento previsto pela OUCMVC, com controle mínimo de gabarito.

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6) de modo articulado com os vazios urbanos existentes citados anteriormente, ocorre o estímulo à demolição do que ainda existe para aumentar a reserva de terrenos. Essa arquitetura, ainda que nem sempre apresente valores técnicos, estéticos ou históricos de preservação, muitas vezes dão suporte a eventos ou edificações que carregam códigos culturais característicos do bairro - é o caso, por exemplo, das ruas San Gennaro e Lins, que abrigam anualmente a Festa de San Gennaro. Além disso, mesmo quando uma vila permanece em uma quadra alterada, sua relação espacial muda quando nos lotes vizinhos se vê instalada uma arquitetura desconexa. Como consequência, o desaparecimento do patrimônio edificado se mostra iminente; muitos, inclusive, defendem a demolição, alegando que a paisagem está heterogênea demais e, por isso, sua preservação não pode ser suficientemente justificada. Nesse sentido, não só os novos projetos devem ser repensados, mas a manutenção da arquitetura e dos usos existentes deve ser estimulada. Na prática, isso depende da articulação entre as intervenções pontuais no território e a gestão pública.

das externas, que podem afetar a relação da população residente com o espaço. O patrimônio tombado, especialmente o conjunto instalado ao longo da ferrovia, será restaurado e terá seus usos determinados de acordo com seus proprietários, dependendo também da aprovação do DPH. Dessa forma, ele será, sem dúvida, reinserido na dinâmica da cidade, mas até que ponto seu usufruto será garantido para os antigos moradores, operários e para a classe média baixa de modo geral? 8) a abordagem simplista do patrimônio pela OUCMVC. Ainda que retome alguns aspectos do processo de ocupação do bairro em sua leitura espacial, a OUCMVC, no que tange a preservação cultural e histórica do setor da Mooca, propõe: como uma das ações principais, a criação do polo cultural ao longo da orla ferroviária a partir do patrimônio industrial edificado; o destamponamento do Rio Tamanduateí; a reconexão de dois trechos atualmente interrompidos - a Rua Dona Ana Neri e a Rua Luís Gama, ambas possibilitando a circulação entre a Mooca e o Cambuci -; e a construção de uma passagem de pedestres sob a Av. Alcântara Machado, conectando a Mooca e o Brás a partir das ruas Luís Gama e Carneiro Leão. Fora isso, a operação também indica alguns poucos imóveis com interesse de preservação, parte das indicações previamente realizadas pelo DPH para a OUCMVC - os percursos históricos não foram incorporados na proposta final. Em nenhum momento, no entanto, as conexões viárias

7) os possíveis usos atribuídos ao patrimônio industrial tombado, que podem estimular o processo de gentrificação. A operação urbana prevê não somente o adensamento populacional da região, como pretende torná-la um polo metropolitano. Novas estações de trem e metrô, parques, equipamentos públicos e urbanos: os bairros abarcados pela OUCMVC atenderão deman90


citadas são colocadas como ações que retomam relações antigas entre a Mooca e os bairros vizinhos nem há a preocupação em indicar os possíveis impactos disso para as ruas em questão: a reconexão, por exemplo, vai gerar um maior fluxo de veículos e pessoas, estimulando possíveis novos usos e demolições. Além disso, mesmo que o destamponamento do Tamanduateí e o rearranjo do fluxo de uma das faixas da Avenida do Estado sejam um avanço para a reinserção do rio na paisagem, tais medidas não são suficientes para requalificar a área e superar todas as ações que ao longo do século XX condicionaram suas margens à instalação de vias expressas. Uma breve caminhada pelo local já mostra que, mesmo com o rio a céu aberto, o ambiente inibe a circulação de pedestres.

imóveis a serem preservados, por exemplo, é comum avaliá-los segundo suas qualidades técnicas ou sua autenticidade, o que, na prática, faz com que imóveis descaracterizados (residências antigas que passaram por reformas, que tiveram suas janelas e portas trocadas, apresentam adições construtivas, etc.), ainda que componham uma paisagem, sejam desconsiderados.

9) perda de capilaridades dentro das quadras, características da ocupação da Mooca e de suas vilas operárias, que possibilitam relações de vizinhança e ambientes de convívio e refúgio a partir do desenho urbano. 10) a visão limitada que se tem sobre o que é patrimônio e como preservá-lo: o desconhecimento da identidade dos bairros abarcados pela OUCMVC, e a abordagem quase sempre material do patrimônio, deixando de lado os códigos culturais que podem se manifestar não só pela arquitetura. Além disso, quando o assunto é a arquitetura, há também falhas nos métodos utilizados para a análise e seleção do patrimônio. Na identificação dos 91


IV. propostas gerais 1) Para controlar a verticalização massiva do bairro, foram indicados, a partir do estudo dos locais de interesse de preservação, quadras nas quais a verticalização deve ser limitada. Vale lembrar que o plano de adensamento apresentado pela OUCMVC se mostra ilusório ao sugerir que o adensamento se concentrará apenas em zonas específicas: ainda que estejam definidas zonas de alto adensamento com controle mínimo de gabarito, as zonas de médio adensamento com controle máximo de gabarito podem ser igualmente danosas para a região, levandose em conta que a principal fonte de recursos de uma operação urbana é a venda de potencial construtivo além do limite previamente estabelecido pelo PDE. Além disso, não há um estudo de impacto desses empreendimentos para as regiões vizinhas, como a parte leste do bairro, localizada entre duas áreas de recente expansão imobiliária (a OUCMVC e o bairro do Tatuapé) e na qual obras do setor imobiliário tendem a se multiplicar sem, no entanto, existir um plano de controle para isso. Dessa forma, para amenizar os possíveis impactos dessa transformação, aqui estão indicadas quadras nas quais a renovação construtiva deve ser limitada.

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Mapa elaborado com base no Mapa de Adensamento, presente no Estudo de Impacto Ambiental da OUCMVC, que sugere uma verticalização concentrada na gleba da Ambev, a ser parcelada. As áreas de médio adensamento, no entanto, já passaram por profundas transformações na última década. Além disso, a área envoltória do conjunto industrial da orla ferroviária, que constitui a zona de baixo adensamento (azul claro), possibilita a transferência de potencial construtivo para outras localidades.

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2) Plano de reformas e restaurações da arquitetura menor, com incentivos aos proprietários de imóveis com interesse de preservação que investirem em melhorias e os mantiverem em bom estado de conservação, tais como reduções no IPTU, menores impostos sobre o consumo de energia e água, etc. Além da situação de abandono e de má conservação de alguns imóveis, é necessário lembrar que a maioria dos recursos utilizados para a preservação do patrimônio se destina a grandes monumentos, o que encontra ainda outros obstáculos no caminho,

como a mão de obra mais cara (considerando que, em muitos casos, é preciso contratar profissionais especializados em restauro) e a burocracia para a aprovação de reparos corriqueiros. Um plano de reformas e restaurações, nesse contexto, possibilitaria uma maior abrangência dos recursos disponíveis para o patrimônio, evitando a concentração do investimento e levando em conta que pequenas intervenções podem ser um meio de atuação mais econômico e eficiente para a manutenção da paisagem. Tal plano teria como base, então, ações individuais, incentivadas

Exemplos de imóveis abandonados e parcialmente demolidos: sequência de construções na Rua da Mooca. Alguns deles, mesmo descaracterizados, são aptos a reformas e restaurações. No caso de alterações irreversíveis, recomenda-se a construção de edifícios com gabarito similar ao dos imóveis vizinhos (ver proposta 3) [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato/2006].

Residências que podem ser beneficiadas direta ou indiretamente por um plano de restaurações, não só através da intervenção pontual em seus elementos construtivos, como também através da manutenção de imóveis vizinhos, fortalecendo sua representatividade enquanto conjunto urbano [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato/2016]. q

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3) Consolidação da Rua da Mooca como um eixo comercial que atravessa o bairro, devendo ser estimulados os usos comercial e de serviços em sua extensão, especialmente a partir da apropriação de edifícios antigos e representativos da paisagem, incentivando sua manutenção (conforme já acontece em alguns trechos da rua). Para os terrenos vazios, a criação de pequenas galerias possibilita a extensão de tais usos sem recorrer à construção de shopping centers, incentivando também a capilaridade das quadras, de acordo com as diretrizes urbanísticas do PDE de 2014.

pelo Município, e ações programadas e financiadas pelos recursos arrecadados pela OUCMVC, acordadas entre o setor público e proprietários que não tivessem condições financeiras de bancar os custos de uma intervenção. Dessa forma, essa medida também incentiva a população de baixa renda a permanecer em imóveis de interesse cultural.

Outros imóveis também localizados na Rua da Mooca nos quais aplicamse as propostas 2 e 3 de modo integrado: melhorias nos imóveis antigos e projetos comerciais locais nos lotes vazios, com possibilidade de abertura de galerias nos miolos de quadra. Na terceira imagem, os imóveis geminados apresentam adições (o telhado da casa verde, por exemplo) reversíveis [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato/2016] q

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Implantação de projetos que prevejam a articulação entre o antigo e o novo, determinados caso a caso, mas que, de modo geral, possam estabelecer relações harmoniosas entre ambos, a partir de: gabaritos e volumes pouco discrepantes entre si; instalação de novos usos que valorizem o patrimônio ou, ao menos, não afetem o reconhecimento de seus valores; materialidades diferentes, que possibilitem a distinguibilidade entre o antigo e o novo, sem se apresentarem agressivas ao que já existe. Os vazios devem ser preenchidos de modo a costurar as preexistências.

A adaptação dos imóveis a novos usos é, em alguns casos, decisiva para sua manutenção na paisagem. Não apenas as antigas residências podem se transformar em pequenos comércios, como também os edifícios antigos podem estimular o uso do térreo para atividades comerciais e de serviço, como já acontece em algumas localidades, favorecendo a relação direta entre a arquitetura e a rua.

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4) De modo a amenizar os impactos da verticalização nas atuais glebas do Carrefour e da Ambev, a serem parceladas, aliadas à implantação da estação de trem e metrô São Carlos, propõe-se uma maior diversidade de tipologias habitacionais a serem construídas no local, destinando parte das terras à instalação de Habitação de Interesse Social (HIS). Tal medida, além de estar de acordo com o “mix de rendas” tão defendido pela OUCMVC, possibilita uma gradação de gabaritos mais harmoniosa para a região. Vale lembrar que a verticalização massiva dessa área, ainda que não atinja diretamente imóveis de interesse cultural, altera de modo significativo as relações de escala entre os edifícios - logo em frente, por exemplo, temos a Cia. Antárctica, que perderia sua imponência na paisagem; do outro lado da ferrovia, além do conjunto industrial tombado da Rua Borges de Figueiredo, há regulamentada uma área envoltória com controle de gabarito, que se veria prejudicada, considerando que um dos seus objetivos é a manutenção da horizontalidade da orla ferroviária.

Os desenhos ilustram a contradição entre duas áreas vizinhas regulamentadas em diferentes ações do setor público: o alto adensamento da gleba da Ambev, previsto na proposta da OUCMVC e divulgada em 2014, e o controle de gabarito determinado no tombamento de 2007. Os entornos das estações indicadas são umas das principais áreas de interesse do setor imobiliário.

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5) Redefinição da área envoltória do patrimônio industrial tombado da orla ferroviária A princípio, a medida parece um retrocesso para a política de preservação, flexibilizando a construção nas quadras vizinhas à ferrovia. No entanto, ao observar tais quadras, é possível notar que algumas delas já tiveram seus imóveis demolidos e outras abrigam galpões industriais sem interesse de preservaçao. Ao mesmo tempo, ao caminhar mais pelo bairro no sentido da Mooca Alta, também é notável a quantidade de quadras que mantêm seu uso residencial com imóveis antigos que configuram um modo de vida característico. Nesse sentido, a área envoltória, que limita as intervenções em áreas já alteradas de modo irreversível, também impulsiona a transformação de outras áreas, trazendo à tona algumas incongruências do seu uso como instrumento efetivo de preservação. Dessa forma, liberar algumas quadras já afetadas e definir outras como perímetros a serem preservados (conforme a proposta 1), pode evitar que conjuntos de imóveis ainda existentes no território sejam sacrificados pela verticalização.

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Quadra abarcada pela área envoltória: grandes lotes vazios e nenhuma construção que apresente interesse de preservação [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato/2015]

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corte esquemático da rua Borges de Figueiredo, mostrando algumas quadras da área envoltória do conjunto industrial tombado

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6) Criação do Território de Interesse da Cultura e da Paisagem da Mooca (TICP Mooca), abarcando elementos urbanos materiais, imateriais e de paisagem significativos para a memória e a identidade da cidade, conforme prevê o PDE 2014. O perímetro, a ser definido, deve apreender não somente a área da operação urbana, como também se estender para a chamada Mooca Alta, reconhecendo os diferentes processos de criação da identidade do bairro que, em alguns casos, se associaram a elementos físicos: a topografia, que expressaria a composição social do bairro, bem como as regiões associadas ao hipódromo e ao Córrego Cassandoca, dentre outros exemplos. Além disso, as manifestações culturais e os elementos de memória coletiva apresentados neste trabalho reafirmam as potencialidades do bairro como um território que alimenta uma dinâmica cultural própria.

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Duas imagens extraídas do Google Earth: a primeira, de 2002, e a segunda, logo abaixo, de 2016. A partir de um estudo comparativo delas, é possível observar as alterações ocorridas no território na última década, tais como o desaparecimento da Fábrica de Açúcar União e a construção, em seu lugar, de um conjunto de edifícios. Além disso, a segunda imagem mostra a verticalização massiva nas quadras vizinhas à área envoltória.


7) Revitalização de espaços estrategicamente localizados no bairro, de modo a criar espaços de convívio e circulação que estimulem a apreciação da paisagem e a sua conservação, tais como: a praça recentemente instalada na Rua Wandenkolk, em um terreno resultante da demolição de antigos imóveis; a Praça Vermelha, localizada no cruzamento de três vias importantes do bairro (Rua da Mooca, Rua do Oratório e Avenida Paes de Barros) e historicamente importante para a memória operária.

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Praça na Rua Wandenkolk, em 2016 [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato/2015]

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A valorização da praça auxilia também na valorização dos espaços adjacentes.

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8) Integração de atividades e equipamentos no Eixo Ferroviário Ao longo da orla ferroviária estão concentrados os imóveis tombados pelo DPH que constituirão o polo cultural proposto pela OUCMVC previsto para atender a uma demanda metropolitana. A integração dos diferentes equipamentos que ali serão instalados é limitada pelo direito à propriedade privada, através do qual cada proprietário, dentro dos parâmetros de uso e preservação estabelecidos pelo Município, decide o destino do seu imóvel. Nesse contexto, há a necessidade de acordos entre o Município e os proprietários, a fim de que a função social de tais equipamentos também seja garantida. Entre as medidas possíveis para que isso aconteça, estão: a integração entre as estações de metrô e trem e os equipamentos urbanos; conexões entre os dois lados da ferrovia a partir de passarelas, que poderiam dar acesso aos lotes particulares. Dentre essas conexões, é interessante manter a ligação na atual Estação da Mooca (que será realocada, segundo a OUCMVC), a partir de uma passarela, possibilitando a fácil circulação entre os antigos armazéns da São Paulo Railway e a Cia. Antárctica, na Av. Presidente Wilson, e as Oficinas da Casa Vanorden e os Moinhos Gamba, nas quais estão previstos, respectivamente, uma escola de música e uma faculdade privada. Além disso, para o Parque Porto de Areia, a ser instalado na Av. Presidente Wilson, se sugere uma conexão com os remanescentes das indústrias Matarazzo, Duchen e Fiat Lux, localizados na rua Borges de Figueiredo, e a implantação de

um equipamento público de lazer no mesmo lote, apresentando em seu programa espaços para oficinas culturais, atendimento em terapias holísticas, grupos de leitura, dentre outras atividades de recreação e descanso que possam ter os espaços verdes e a infraestrutura do Parque como suporte. A proposta visa atender à demanda da população que, em 2014, reivindicou tais usos para os antigos Moinhos Gamba, o que não teria sido concedido devido ao projeto já aprovado para a instalação de uma faculdade. Ainda sobre o equipamento, é importante que seu projeto seja condizente com as preexistências, sendo obrigatório obedecer ao gabarito máximo de 25 metros (Conpresp Res. 14/07), e que não prejudique a identificação da autenticidade dos remanescentes. Por isso, propõe-se a criação de espaços arborizados e a inserção de mobiliário urbano - academia a céu aberto, mesas para piqueniques, etc., em suas proximidades, permitindo que a estrutura adquira novos sentidos na paisagem. Além disso, a materialidade e a forma do novo edifício não devem ser agressivas com o que já existe, nem devem tentar imitar o antigo.

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imĂłveis tombados ou em processo de tombamento arquitetura menor a ser protegida equipamento cultural a ser implantado no terreno dos remanescentes da Fiat Lux, Duchen e IndĂşstrias Matarazzo caminhos e capilaridades a serem preservadas 0

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Esquema de ideias para o equipamento cultural: relação de continuidade com o parque; espaços livres próximos aos remanescentes, de modo a colocá-los em evidência; materialidade diversa, mas harmoniosa, evitando contrastes agressivos entre o antigo e o novo.

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Exemplo de apropriação espacial que pode valorizar os remanescentes e atribuir novos usos e significados, de modo integrado ao parque: implantação de espaços de convívio e lazer, tais como churrasqueiras, ambientes de estudo ao ar livre, espaços de cultivo de plantas, dentre outras possibilidades.

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9) Reinserção do Tamanduateí na paisagem.

10) Plano integrado de preservação e conservação de vilas

Como já explicitado, a reinserção do Rio Tamanduateí na paisagem da cidade não será efetiva se o plano de ação se limitar ao destamponamento do rio. O Tamanduateí de hoje é o resultado de uma sucessão de medidas que, ao longo do século XX, priorizaram obras viárias, incentivando a impermeabilização do solo nas margens dos rios. Nesse sentido, a forma mais eficaz de reverter essa situação é a partir de um estudo detalhado de fluxo e demandas das atuais vias, com a possibilidade de mudança do modal rodoviário para o ferroviário, de modo a “desafogar” as vias e a permitir a criação de faixas de proteção ambiental, nas quais a relação entre o rio e as pessoas pudessem ser estimuladas através de percursos e mobiliários de lazer.

Levando-se em conta que as vilas presentes no bairro da Mooca não se limitam às apresentadas aqui, sendo encontrados outros exemplares fora da OUCMVC, e que nem todas possibilitam o mesmo instrumento de proteção - atualmente, por exemplo, a Vila Andrea Raucci está em processo de tombamento, mas outras vilas, por terem imóveis descaracterizados ou totalmente reconstruídos, não são consideradas aptas para o mesmo -, propõe um plano de preservação unificado, com o intuito de manter e valorizar a ambiência característica das vilas de modo geral - deixando as especificidades arquitetônicas de cada vila para serem analisadas caso a caso. Tal plano teria como medidas básicas: a proibição de demolições dentro das vilas (até

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12) Mapeamento colaborativo a partir de plataformas digitais.

que o levantamento arquitetônico e a regulamentação referentes a cada vila - esta, a ser realizada de modo participativo com os moradores - determinem diretrizes específicas); a proibição de remembramento de lotes em quadras nas quais vilas operárias estiverem situadas; e a determinação de recuos e gabaritos em tais quadras.

O mapeamento coletivo de locais a serem preservados, bem como de localidades e imóveis que não existem mais, mas sobre os quais a população pode oferecer um registro, é uma forma não só de reconstituir a trajetória de transformação do bairro, mas também um instrumento de educação patrimonial. A segunda parte deste trabalho, exposta a seguir, é um primeiro mapeamento das informações coletadas até agora, com sugestões de percursos a serem realizados.

11) Incentivo a projetos arquitetônicos em locais adjacentes a edifícios ou conjuntos urbanos a partir de concursos públicos, estimulando a reflexão acerca das questões do patrimônio, tais como a inserção do novo no que já existe, a preservação e valorização de identidade locais e de significados atribuídos ao espaço, etc. Dessa forma, a partir de objetivos previamente estabelecidos, é possível chegar a diferentes soluções projetuais e inserir problemáticas quase sempre ignoradas no processo criativo.

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V. percursos pelo bairro Os caminhos aqui apresentados, traçados de acordo com as informações levantadas ao longo deste trabalho, sugerem algumas das localidades a serem inseridas no mapeamento colaborativo (proposta 12).

percurso 1 O percurso 1 começa na esquina da Av. do Estado com a Rua da Mooca, e o primeiro ponto de parada é a Casa da Divina Providência (1). Inaugurada em 1903 pela Congregação das Irmãs da Divina Providência, tinha como finalidade abrigar crianças órfãs. O estabelecimento funciona até hoje e está em abertura de tombamento como a “Antiga Casa da Roda”, devido à roda instalada para receber os recém-nascidos abandonados, antiga prática das Santas Casas e conventos. Em seguida, temos a Villa da Mooca (2). Composta originalmente por casas térreas geminadas, sendo as duas de frente para a Rua da Mooca usadas para comércio, foi gradualmente demolida e reformada. Atualmente, é composta por sobrados residenciais e de serviços. O único elemento original da construção é o portal, que em 1970 foi reforçado a pedido da população, decisão estimulada pelo desabamento de seu frontão.

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Casa da Divina Providência, em 2016[Arquivo Pessoal/Aline Fortunato].

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Villa da Mooca, em 2016 [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato].

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o ambiente movimentado da Rua da Mooca, surgindo como um caminho tranquilo e reservado dentro do bairro. Uma caminhada pelas Ruas do Lirismo e Wandenkolk, a partir da Rua

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Interior da Villa da Mooca, em 2016 [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato]

Estudo volumétrico da Rua da Mooca: em primeiro plano, a Villa da Mooca (canto inferior direito); em frente, as torres residenciais recentemente construídas no bairro, em uma das quadras formadas pela Travessa Alta Floresta. À esquerda, em azul escuro, uma indústria instalada no que era uma vila. Em lilás, alguns caminhos identificados como singulares do bairro.

O trajeto, então, segue pela Travessa Alta (3), rua estreita que conecta a Rua da Mooca à Rua Dom Bosco e é ocupada por pequenos sobrados, construídos a critério de cada morador. É também chamada de Vila Serafina Chirico Serra. Rompe com 110


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Lavadeiras, 1903 [Guilherme Gaensly. Reprodução: Sampa Histórica].

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Travessa Alta Floresta: a maioria das casas, apesar de recentemente construídas ou reformadas, reafirmam um modelo de ocupação característico do bairro que se consolidou ao longo do século XX por suas vias estreitas e residenciais, com casas que dão acesso direto para a rua [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato/2016].

Do ponto (4), é possível avistar o Tamanduateí dos dias de hoje: retificado e tamponado, visto somente a partir de frestas de concreto e cercado pela movimentada Av. do Estado. A paisagem atual é resultado de um processo que se iniciou ainda no século XIX, com a primeira retificação do rio.

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Início do tamponamento. Vista a partir do Terminal Parque D. Pedro II, em 2016 [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato].

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A Rua Andrade Reis (5) é um dos pontos do bairro que tiveram sua paisagem alterada significativamente: as duas quadras que formam a rua foram completamente demolidas e, no lugar das antigas residências que as ocupavam, foram construídos condomínios. É possível notar, ainda, que a quadra vizinha ao empreendimento abriga três vilas e um conjunto de residências antigas. Uma dessas vilas foi projetada pelo arquiteto Gregori Warchavchik e se localiza na Rua Barão de Jaguara (6). Construída em 1929, o padrão entre as residências, que apre-

sentam poucas alterações em relação ao projeto original, é mantido por um acordo entre moradores. Seguindo novamente pela Rua Dom Bosco, chegamos à Rua Lins, que dá acesso à Rua San Gennaro (7). Nelas, acontece a festa de San Gennaro todo mês de setembro, desde 1973, quando a primeira festa foi organizada para arrecadar fundos para a reforma da Paróquia San Gennaro (9). Na esquina entre a Rua Dona Ana Néri e a Rua da Mooca, se encontrava um autoposto de gasolina (8) que era ponto de referência do bairro, devido a

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Os sobrados de Warchavchik, em 1929 [Reprodução: São Paulo Antiga].

O autoposto, em 1950 [Reprodução: São Paulo Antiga].

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sua arquitetura. O posto ainda existe, mas foi reformado, tendo sua primeira estrutura e edificações demolidas. O percurso sugere também uma caminhada pelas Ruas André de Leão e Doutor Freire, passando pela Avenida Alcântara Machado, que separa a Mooca e o Brás. O percurso, então, continua pela Rua da Mooca, no sentido Terminal Dom Pedro, passando pela antiga fábrica de Tecidos Labor (10) e pelo local onde se encontrava até a década de 1960 o Cine Roma (11).

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Fábrica Labor, em 2016 [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato].

Corte esquemático do lado ímpar da Rua da Mooca, até a fábrica Labor. Apesar da verticalização de pontos do bairro, a Rua da Mooca mantém, em grande parte da sua extensão, uma arquitetura horizontal e imóveis antigos. q

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percurso 2 O percurso 2 começa nos Armazéns Gerais Piratininga (1), localizados entre a Rua da Mooca e a ferrovia, exemplo das técnicas construtivas industriais do início do século XX. A construção dos primeiros galpões do conjunto é anterior a 1910, segundo seu estudo de tombamento, e parte dele foi projetada pelo arquiteto Victor Dubugras. Os Armazéns abrem caminho, então, para o conjunto industrial presente na orla ferroviária: seguindo pela Avenida Presidente Wilson, encontramos a Antiga Companhia Antárctica (2). Inicialmente usado como sede da Cervejaria Bavária, o edifício aí localizado abrigou a Cia. An-

tárctica entre as décadas de 1920 e 1990. Os atuais proprietários pretendem restaurá-lo e instalar nele um complexo cultural, comercial e um hotel. Ao lado da Cia. Antárctica, encontramos os antigos armazéns da ferrovia (3) e um acesso para a estação da Mooca - como ela será realocada, esse acesso se transformará em uma transposição da ferrovia; hoje em dia, a transposição só é feita através da estação, sendo necessário pagar a tarifa de trem. A transposição permite chegar à Rua Borges de Figueiredo, onde está localizada a antiga Casa Vanorden e suas oficinas (4). Fun-

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Armazéns Gerais Piratininga, em 2012 [Acervo de Kurt Riedel]

Anúncio da Cerveja Antárctica [Reprodução: São Paulo Antiga]

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dada no início do século XX, a tipografia Vanorden produzia materiais para orgãos públicos e para as ferrovias. O prédio da esquina, onde se instalava a administração da tipografia, era complementado com uma sequência de galpões, nos quais os materiais gráficos eram produzidos. Hoje os edifícios são usados provisoriamente como estacionamento, mas eles fazem parte do polo cultural previsto na OUCMVC.

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Antigos armazéns da ferrovia (à esquerda) e o acesso para a estação da Mooca, em 2016. Foto a partir da estação [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato]


Em frente às oficinas Vanorden, encontramos a chaminé da União (5), único elemento preservado da fábrica de açúcar. Instalada no bairro em 1929, a fábrica permaneceu no bairro até 2009, quando foi demolida.

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Vista aérea, década de 60 [Reprodução: São Paulo Antiga]

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Anúncio da tipografia, de 1922 [Reprodução: São Paulo Antiga]

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Luzes da Mooca, empreendimento construído no local da fábrica [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato]

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Casa Vanorden em 2016 [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato]

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Logo ao lado das oficinas, temos os antigos Moinhos Gamba (6), que constituíram um complexo industrial construído a partir de 1909, sendo responsáveis pela fabricação de óleos vegetais e sabão, refinação de sal e açúcar, moagem de trigo e fabricação de tecidos. Entre os produtos populares da fábrica, encontram-se o óleo Gamba, a farinha Maria e Savóia, o sabão Negrinho e o óleo vegetal Sublime, extraído do caroço de algodão. Nas últimas décadas, abrigou o Moinho Santo Antônio, um espaço para eventos. Está atualmente desocupado e no local será instalada uma faculdade particular.

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Os Moinhos Gamba, em 2015 [Arquivo Pessoal/Aline Fortunato].

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[Foto de Orlando Bernacci, sem data]

Os Moinhos Gamba, em 2013 [Acervo de Kurt Riedel].

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Seguindo pela Rua Borges de Figueiredo, temos os remanescentes da fábrica de fósforos da Companhia Fiat Lux, da fábrica de biscoitos da Société Établissements Duchen (7) e dos depósitos pertencentes às Indústrias Matarazzo (9). Tais construções, instaladas no bairro a partir de 1910, encerraram suas atividades na década de 1980. Nos galpões da Matarazzo, se encontrava o supermercado SuperBom!, uma das empresas da fa-

mília. Em 2007, após anos de abandono, o DPH abriu o processo de tombamento das fábricas, mas as edificações já se encontravam parcialmente demolidas. Em frente ao terreno dos remanescentes, hoje utilizado para depósito e queima de lixo, e nos quais, antes do tombamento, estava prevista a construção de um condomínio, temos algumas vilas operárias (8), já alteradas. Caminhando até o viaduto São Carlos, ainda encontramos alguns

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Fábrica de Biscoitos Duchen, sem data [Reprodução: Portal da Mooca].

Parte dos remanescentes das antigas fábricas localizadas na Rua Borges de Figueiredo, em 2013 [Acervo de Kurt Riedel].

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galpões, parte deles pertencente à Sociedade Técnica Bremensis e Schmidt Trost (10 e 11), sendo todos eles tombados. Voltando pela Borges de Figueiredo, o percurso segue pela Rua Ezequiel Ramos e, depois pela Rua João Antônio de Oliveira, passando por algumas vilas e residências antigas (12) até chegar na Paróquia São Rafael (13), uma das paróquias mais simbólicas do bairro que, assim como a Paróquia San Gennaro, organiza al-

gumas festas para os moradores. Ao longo da Rua Guaratinguetá, então, encontramos novamente exemplares da arquitetura menor, e no ponto 14, na Rua João Antônio de Oliveira, podemos observar a quadra vizinha à chaminé da união, na qual se encontra uma antiga vila, cercada por novos empreendimentos residenciais. Por fim, concluímos o percurso seguindo pela Rua Borges de Figueiredo (15) até a estação de trem.

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Criança brincando na Rua Borges de Figueiredo, sem data ou autoria [Reprodução: Saudosa Mooca].

A primeira Paróquia São Rafael se instalou no barracão de uma fábrica, e seu atual edifício foi construído entre 1937 e 1950 [Acervo da Paróquia São Rafael].

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percurso 3 O percurso 3 começa na Rua Borges de Figueiredo, e segue em direção à Rua da Mooca. No caminho, encontramos a Padaria Di Cunto (1), inaugurada em 1932 pelos irmãos Di Cunto, no mesmo local em que seu pai, o italiano Donato Di Cunto, havia fundado uma primeira padaria, em 1896. A padaria foi inovadora no bairro ao iniciar, em 1939, os serviços de entrega a domicílio, e, atualmente, é a mais antiga fabricante de

pannetone em atividade. Já na Rua da Mooca, no local onde hoje se encontra o edifício da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, existia a fábrica de Calçados Clark (2), instalada no bairro em 1904. A Companhia também construiu nas proximidades a Vila Clark, para seus operários. Seguindo em direção à Rua Taquari, passamos pela Escola Estadual Oswaldo Cruz (3). Fundada no ano de 1914 e nomeada como Grupo Escolar Oswaldo Cruz em

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Furgão utilizado para as entregas dos irmãos Di Cunto na década de 1930 [Reprodução: São Paulo Antiga].

Anúncio da Fábrica de Calçados Clark [Reprodução: Portal da Mooca]

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1917, a escola marcou a infância de muitas crianças que cresceram no bairro ao longo do século XX, não só pelo ensino, mas também pelas atividades extracurriculares, como o escotismo e a bandinha rítmica. Na mesma quadra, até a década de 1960 se encontrava o Cine Moderno (4). Sobre ele:

Um pouco mais à frente, ainda na Rua da Mooca, existia a Serraria Amélia (5). Construída nos fundos da casa da família Licastro, no início do século XX, foi responsável por fornecer materiais para a maioria das construções do bairro, especialmente após a Segunda Guerra Mundial. Na mesma quadra, no nº 2519, existia também o Cine Ouro Verde (6), fundado inicialmente como Cine Icaraí, e que encerrou suas atividades na década de 1960.

Localizado no antigo nº 407 da Rua da

Mooca, correspondente ao 2241 atual, onde hoje funciona uma agência do Bradesco. Primeiro cinema da Mooca, inaugurando em 1911 a tradição da rua em sediar os cinemas do Bairro. Começou como um cinema e bar, ostentando o pomposo nome de Palácio Moderno, da firma “Falgetano e Maffi “. Além da exibição dos melhores filmes, os freqüentadores podiam desfrutar de bebidas finas e afamados vinhos italianos. O Cine Moderno marcou a estréia no ramo de exibição cinematográfica de Ângelo Falgetano, um ex-vendedor da Antarctica e de seu irmão Luiz que, posteriormente, teriam outros cinemas na zona leste. O Cine Moderno desapareceu no começo na década de 60. Portal da Mooca. Disponível em: http://www.portaldamooca.com.br/cine-

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ma_mooca1.htm

Desfile de 1970, na rua da Mooca [Acervo da Família Alves. Reprodução: Estadão].

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Já na Rua Taquari, encontramos duas localidades importantes para o movimento operário do bairro: a Praça Vermelha (7) e o Antigo Cotonifício Crespi (8), atualmente ocupado pelo hipermercado Extra. A Praça Vermelha foi um ponto de encontro de movimentos sociais que não se limitaram ao bairro, mas que envolveram pessoas em toda a cidade, tendo a Greve Geral de 1917 como exemplo. O Cotonifício, além disso, é simbólico para formação do bairro por oferecer uma infraestrutura que

estimularia, ao longo do século, a manutenção de localidades e hábitos próprios da identidade local: o exemplo mais contudente disso é o clube do Juventus, que até hoje mantém sua sede no estádio Conde Rodolfo Crespi (9), localizado na Rua Javari, mesmo depois de receber propostas para vender o terreno. Outro local que faz parte desse complexo é a Creche Marina Crespi (10), construída em 1936 e administrada pela fábrica até a década de 1970. Nas décadas seguintes, o edifício moderno con-

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Família Licastro na Serraria Amélia [Acervo da Família Licastro. Reprodução: Portal da Mooca].

Operários do Cotonifício Crespi, em 1950 [Acervo da Família Catto. Reprodução: Veja São Paulo].

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tinuou sendo utilizado para fins educacionais e, em 2010, após os contratos com a prefeitura terminarem, foi invadido por 65 famílias, sendo reintegrado ao proprietário em 2014. Por fim, temos a Pizzaria São Pedro (11), uma das pizzarias mais tradicionais do bairro, e a Rua Iolanda (12), que liga a Rua Javari e a Rua da Mooca e apresenta algumas residências da sua configuração original.

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Rua Iolanda, em 1938 [Benedito Junqueira Duarte/Acervo Casa da Imagem].

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Creche Marina Crespi, foto da época da construção [Reprodução: Vitruvius].

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considerações finais Na tentativa de realizar um estudo acadêmico interdisciplinar, que pudesse abranger os campos da preservação do patrimônio cultural e do urbanismo, através de exemplos comuns da atualidade, este trabalho, pode trazer à tona questões de diferentes naturezas e, dentro dos limites da arquitetura, propor possíveis soluções a elas. Devido à complexidade dos temas abordados, e também pelo próprio caráter interdisciplinar, que, de modo geral, permite diferentes pontos de vista sobre o mesmo objeto de estudo, muitas dessas questões pareciam fugir do domínio da arquitetura e do urbanismo, caminhando, por vezes, em direção às estruturas políticas, determinantes dos processos urbanos aqui tratados - a gentrificação, o patrimônio cultural como mercadoria, a impessoalidade e efemeridade das novas arquiteturas que, por sua vez, vem estimulando construções com prazo de validade curto, dentre outros exemplos. Ao mesmo tempo, ainda que não pudesse ser totalmente solucionado a partir da arquitetura e do urbanismo, tal quadro também exigia uma resposta, mesmo que paliativa, que pudesse desacelerar tais processos e melhorar sensivelmente a qualidade de vida dos envolvidos. Nesse sentido, o processo de pesquisa, levantamento de dados e a própria forma de apresentação do trabalho - em tópicos curtos que trazem sempre um novo olhar sob a Mooca

- se mostraram importantes para compreender o processo de formação do bairro e os conflitos que permeiam sua renovação, servindo de exemplo para outros casos similares no território brasileiro e possibilitando a sugestão de soluções. Além disso, a chance de mergulhar em aspectos culturais identitários de um local, só possível devido às iniciativas de registro de memória já existentes e que demonstram há tempos o interesse da população em preservá-los, é mais uma evidência da necessidade de se levar em conta os valores afetivos do território na gestão da cidade, e não deixá-los esquecidos em meio aos processos participativos realizados pelo Município. Dessa forma, este trabalho resulta não somente no estudo de um bairro na perspectiva do patrimônio, mas abre espaço para o questionamento das atuais práticas de renovação do território.

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VIOLLET-LE-DUC, Eugène Emmanuel. Restauração. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.

Campo dos bois: uma nova versão – Silvestre Fabri Minha infância na Rua Dom Bosco (parte III) – Aristides Brenno Lazzarinni Mamonas da Rua Javari – Soraya Ruffo

outras referências

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PORTAL DA MOOCA. Relatos de moradores da Mooca. Disponíveis em: < http://www.portaldamooca.com.br/index.php/ eu-me-lembro>. Acesso em junho de 2016.

Os anos 80 na Mooca... – Victor Hugo Sanchez Reminiscências da Mooca de baixo – Gilberto Canhadas O caminhão-cinema da Antárctica – Marco Aurélio Mobrige

Os operários da IRF Matarazzo – Luiza Ferreira das Neves

Saudades do IAPI e adjacências – Rafael Lopes Bustos

O bebedouro para cavalos – Cecília Machado

Doces lembranças do Colégio Santa Catarina – Soraya Ruffo

Lembranças do Cozzi – Pedro Rodrigues

Recordações do Centro Comercial da Mooca – Pedro Lewczuk

Os tanques da Rua Domingos – Vicente Ferrão

O enterro do meu avô Sr. Guido Romanato – Edgard Alexandre Romanato

Odores da Mooca – Valdir Terezzino

Quantas saudades da Rua Dom Bosco – Guilherme Naveira

Bica da Rua do Oratório – Mario Fiamenghi

Bons tempos... – Cecília Machado

Rua Javari: ainda há poesia no futebol – Luiz Fernando Bindi

O esquadrão do Glorioso da Mooca – Sérgio Muzzolino Sarno

Mooca: onde sobrevive a gentileza

Lembranças não faltam, tampouco saudades. – Paulo Sampaio

Quantas recordações... – Maria Pilar Maiztegui Valdivieso

Alguém se lembra da Rota 76? – Débora Lemos

O campo dos bois – Marcio Luiz Donato

Lembranças do Prado, das piscinas da Mooca e etc. – Eduardo Tonetti

Acompanhando a caravana da Ju-Jovem – Rodrigo Carvalho Leme

Os Bondes na Mooca na década de 40 – Roberto João Dal Medico

Agruras da guerra – Ademar Lazzarini

83 anos de recordações – Olinda Augusto Marchena

Catando sucatas – Antonio Soares

Lembranças do IAPI – Nelson Massaini Jr.

A origem do nome Campo dos Bois – Wilson Palhares

Lembranças de Hélio Ribeiro – Sérgio Muzzolino Sarno

Minha infância na rua Dom Bosco (parte II) – Aristides Brenno Lazzarini

Saudades do Padre Raposo, do Pandiá, do campinho da favela – Marcio Fon-

O Papai Noel da Rua da Mooca – Cevale

seca

Rua Javari... Reminiscências – Ronaldo Cipullo

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A venda do Seu Chiquinho – Luiz Roberto Tacito IAPI – Nelson Massaini Jr. Memórias de Sérgio M. Sarno – Sérgio M. Sarno Saudades e orgulho da Mooca – Julio Cesar Alcantarilha O clube de basquete do IAPI – Denise Placeres Marini A vila da Merda – Valter Rodrigues Da Mooca me lembro do Senhor Palmorino Mônaco – Mario Lopomo Lembrar da Mooca – Mara Magaña Como era verde a minha Mooca – Alcides Barroso Garcia Rua da Paz – Antonio Carlos Germano Gomes Paixões da Mooca - Mônica dos Santos Castellano Rodrigues Origem dos times mirins que atuaram no Campo dos bois - Francisco Chiquinho Romanucci O último jogo no Campo dos Bois - Francisco Chiquinho Romanucci Mooca de tantos times famosos e uma raspadinha inesquecível - Julio Clemente Gomes (Julinho) A molecada na Javari que chocava bondes - Edgard Romanato Conhecer e viver na Mooca é fazer parte da história de São Paulo e nunca se esquecer das origens - José Luiz Gai

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o patrimônio industrial da Mooca  

Trabalho Final de Graduação - FAUUSP - Aline Fortunato

o patrimônio industrial da Mooca  

Trabalho Final de Graduação - FAUUSP - Aline Fortunato

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