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exercĂ­cios, vol 1.

tema: cidade. cps, 10-10-12.


Tarde no Ibirapuera Beatriz Guimarães

Duas e quarenta,

Gente modelo.

observo, Um sol impiedoso em julho

Lembrando do Mercado Central

Esdrúxulo,

E das vizinhanças da Luz,

Mas não tanto quanto

Urina, violência, crack.

O fluxo: Gente no lixo.

À gente modelo, coveiro, À gente no lixo, chuveiro. All-star e jeans Nas garotas arrumadas Em bicicletas. Um casal de lésbicas, Ao ver-me como igual, Desvia de seu caminho Só para exibir-se à nossa frente Corredores em grupo: Músculos.


CIÚME, s.m. Vitor Queiroz

Ciúme é um caruncho,

Ciúme é um aeroplano nazista,

um lacrau

um enorme zepelim,

no fundo do peito,

a cara de pau de um OVNI

um sol invertido, uma besta fera.

maligno, sobrevoando

Ciúme é uma bexiga

em silêncio os motéis,

de puro fel,

as galerias subterrâneas,

uma tela anti-mosquito

o shopping center, as bombas

esburacada, uma gafe,

de gasolina

uma quimera, a inexistência

de uma cidade imaginária.

do hipogrifo.


CIDADE [DES]envolvida Gianne Pereira

Acorda Corre Come Corre Banho Corre Roupa Corre. Corre Metrô Corre Serviço. Tempo? Não! Descanso? Não! Dinheiro? Não!

sobra barulho sobra fumaça sobra fábrica sobra compra sobra operário. sempreconstrução crescente multidão eterna confusão. Asfalto carro moto faixa pedestre sinal correria atenção Cruzamento correria celular telefone pedestre sinal barulho! Mancha no asfalto... In[dó], vin[dó], fin[dó]. Atraindo, repetindo, excluindo. Menos um.


Cidade Thiago Leonello Andreuzzi

na cidade

antes

cagavam cavalos

hoje

s達o os cocheiros


Madrugada Caio César Zancan

Após muito barulho e muita loucura só se pode ouvir o silêncio. Algum malandrão grita de dentro de seu carro “Vai a pé!”, outros passam buzinando e algumas garotas às vezes assobiam para o nosso grupo. Mas fora isso, resta os ruídos da noite. Ainda sentimos os efeitos do destilado, mas estamos mais cansados do que realmente alcoolizados. Uma voadora em um cavalete de um candidato, uma subida em alguma árvore e às vezes apenas gritos e muito barulho. Em certos momentos me pergunto por que não fazemos isso nas ruas quando ela ainda não está vazia. Seríamos taxados de loucos, arruaceiros, bêbados? Com certeza. As ruas nas madrugadas nos dão a liberdade de fazer o que queremos e como quisermos, algo que durante o dia não podemos fazer. Aquilo que fica parado na garganta e é reprimido por nossa situação no dia a dia, as limitações impostas pela sociedade ou então a pior das limitações aquela que vem do nosso medo do julgamento alheio “O que vão pensar de mim?”. O lado ruim dessa liberdade concedida pela madrugada é que ela não está restrita a nós. Ela é para todos e há aqueles que usam dessa liberdade para interesses os quais alguém sai perdendo. Garotas forçadas a certas coisas, casas sendo roubadas e muitas pessoas sendo prejudicadas. Cada beco guarda uma surpresa e como citou alguém em meio a uma multidão “Temos um medo constante de que há sempre alguém por perto”. Enfim sentimos uma fragrância mais natural. O cheiro da erva chega até a dar alívio, afinal não são eles que sempre clamam pela paz? De repente havia alguém caminhando atrás de nós. Acendemos todos os nossos alertas de nossa desconfiança. Sempre pensamos o pior. O lema do: “Atire primeiro e pergunte depois” lá no fundo faz parte de todos nós. Agora todo o grupo fica tenso e os passos do “intruso” começam a ser os únicos dentro do grande silêncio. Irá nos roubar, nos fazer algum mal? Não passa de mais um como nós, voltando a sua casa. Não importa a situação, nossos instintos sempre acusam o perigo e sempre nos preparam para o pior. Alguns ônibus já começam a circular, os trabalhadores já estão indo pra sua dura jornada e o sol ainda nem começou a raiar. Enfim raiou. Nossa liberdade agora foi tirada pela luz do sol. Nossa amizade com a escuridão rendeu momentos divertidos e sem nenhum dano a ninguém. Usamos deste poder para alguma rebeldia, rebeldia sem causa mesmo. No entanto, naquele mesmo dia a amizade com a escuridão de alguém, causou alguma ferida em certa pessoa, algo que possivelmente se curará, mas deixará uma cicatriz para todo o sempre. Nada se pode fazer, a liberdade é concedida indiscriminadamente, mas não vem com um manual de instruções.


Cidade Nãna Duarte A precariedade dos transportes públicos daquela cidade chuvosa era impressionante; ao mesmo tempo, ela não deixava de combinar com a própria cidade, com seus pontos de ônibus lotados de pessoas frustradas com a demora de seus transportes, irritadas com as buzinas incessantes dos carros presos no congestionamento e absolutamente desoladas porque no meio do caminho até o ponto de ônibus suas roupas foram encharcadas por motoristas estressados que passam rápido demais por poças d'água que ficam próximas à calçada. No meio de todas essas pessoas molhadas e incomodadas com a vida, estava um rapaz que já tinha passado desse estágio de mau humor para um novo nível de descontentamento: a indiferença. Luca carregava uma mochila imensa nas costas e livros pesados enrolados num saco plástico de supermercado nos braços. Para completar, além de suas roupas estarem molhadas por causa da chuva que caía na cidade desde a manhãzinha, ele estava sofrendo a pior dor que alguém que fica fora de casa o dia inteiro pode sofrer num dia chuvoso: meias ensopadas. Com a terrível sensação de que seus pés estavam enfiados em buracos na superfície de um rio congelado, Luca parou de reclamar mentalmente sobre como o ônibus estava demorando, e sobre como as pessoas em volta exalavam um ar quente e desagradável fruto de sua transpiração. Não. Ele não iria mais se irritar com essas banalidades. Afinal, o que mais poderia acontecer de ruim naquele dia? Nada. E o que mudaria em sua situação se ele ficasse reclamando, resmungando e descontando sua raiva em desconhecidos propositalmente esbarrando com força neles? Nada também. O rapaz então parou de contemplar sua própria desventura para observar a desgraça que era a cidade em que vivia. Pra começar, toda aquela gente espremida num ponto de ônibus no centro da cidade. Uns arrumados e engomados (ou pelo menos deveriam estar assim antes da chuva), outros desleixados, e todos eles irritados e pensando em como esse amontoado de pessoas era desagradável. Observando o trânsito, Luca podia ver a mesma coisa, mas dessa vez encenada por motoristas egocêntricos e seus carros. Uma hora ou outra um adolescente apressado esbarrava em todos do ponto e fazia com que toda a raiva e frustração da massa de gente se direcionasse a ele. Da mesma maneira, um motoboy atarefado passava por entre os veículos maiores e virava alvo de todo o estresse acumulado pelos tão civilizados motoristas. Enquanto Luca assistia tranquilamente o desenrolar dos conflitos por quais passam os cidadãos comuns, sua mente devaneava sobre aquele lugar, e sobre como tinha ido parar ali, naquela cidade horrorosa, fria, quente, abafada e chuvosa, cheia de pessoas insuportavelmente normais. Ah, a falta que ele sentia dos seus bichinhos de estimação, cuja presença fora substituída pela dos pombos que, na visão daquela gente, infernizavam a cidade. Para ele, os pombos eram uma companhia interessante: não falavam, não perguntavam, não se metiam na vida alheia pelo simples desejo de se


sentir úteis e simpáticos. Na verdade, Luca gostava tanto dos pombos que dera nome aos que mais frequentavam sua varanda: Arquimedes, Pitágoras (chamado carinhosamente de Pit) e Euclides. Mas naquela cidade, tudo o que era diferente, quieto e não tão sociável era invisível - até que começasse a chamar atenção por ser diferente; então se tornava um incômodo comum, ao qual a população reagia com escárnio ou pena, como se o diferente precisasse de ajuda para se tornar igual. Os devaneios do rapaz das meias molhadas se tornaram em raiva ao mesmo tempo em que seu ônibus chegou no ponto, reiniciando o ciclo de irritação-raivatranquilidade. O que era extremamente inconveniente, porque agora, dentro do ônibus, num assento ao lado da janela, Luca teria uma hora para pensar em como detestava a cidade nova enquanto via a paisagem da dita cuja ao atravessá-la para chegar em casa. Maravilha.


confissão Aline Zouvi

eu vi o morro cair. - seguro o café pelo copo, não pela asa vi a pedra do Cristo, suave e doce, deslizar procurando a água. com serenidade, o morro se dissolve sem medo de morrer: cumpre sua função. predinhos fósseis sedentos de água e sal – uma espera de milênios, talvez. hoje, porém, continuam sem se molhar. o mar vem tranquilo, serpenteando, sem tocar o granito que geme de carência. mas os morros caem. prédios de sorte suspiram, felizes, a morte do encontro entre iguais.

Exercícios - Volume 1  

tema: cidade.

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