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CENTRO DE ESTUDOS E PESQUISA

MINISTÉRIO DA CULTURA FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES MÁRIO GUSMÃO

Ministério das Relações Exteriores

Ministério da Cultura


Presidente da República do Brasil President of the Republic of the Brazil Luiz Inácio Lula da Silva Ministro da Cultura Minister of Culture Gilberto Passos Gil Moreira Ministro das Relações Exteriores Minister of Foreign Affairs Embaixador Celso Amorim Secretário Executivo do Ministério da Cultura Executive Secretary of Culture Ministry João Luiz Silva Ferreira (Juca Ferreira)

Fundação Cultural Palmares Presidente President Edvaldo Mendes Araújo (Zulu Araújo) Chefe de Gabinete Cabinet Chief Juscelina S. do Nascimento Diretor de Promoção, Estudos, Pesquisas e Divulgação da Cultura Afro Brasileira Promotion, Study, Researches, and Publicizing of Afro-Brazilian Culture Director Antônio Pompêo

Secretário-Geral das Relações Exteriores Secretary General of Foreign Affairs Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães Neto

Diretora de Proteção do Patrimônio AfroBrasileiro Afro-Brazilian Patrimony Protection Director Maria Bernadete L. da Silva

Coordenador da II CIAD CIAD II Coordinator Conselheiro Marcelo Dantas

Chefe da Assessoria de Gestão Estratégica Advisor for Strategic Management Chief Clemildes T. Carvalho Coordenadora Geral de Gestão Interna General Management Coordenator Simoni Andrade Hastenreiter Procuradora Geral Attorney General Ana Maria Lima Oliveira

Produzido e publicado no âmbito do convênio PRONAC nº 0611463, firmado entre a Fundação Cultural Palmares/MinC e Associação Cultural Os Negões

A grande refazenda: África e Diáspora pós II CIAD = The great revival: África and Diáspora post CIAD II / Edição Fundação Cultural Palmares; organização Waldomiro Santos Júnior – 1.ed. – Brasília, DF: Fundação Cultural Palmares, 2007. 120 p. ISBN 85-7572-014-1 1. Etnologia – África. I. Fundação Cultural Palmares. II. Waldomiro Santos Júnior. III. Título. CDU 39(6)


A Grande Refazenda The Great Revival África e Diáspora Pós II CIAD Africa and Diaspora Post - CIAD II

Edição/Edition Fundação Cultural Palmares/Palmares Cultural Foundation Organização/Organization Waldomiro Santos Júnior

1ª Edição, Brasília 1st Edition, Brasilia


Textos/Texts 8 - Apresentação/Preface/Waldomiro Júnior 11 - A Grande Refazenda/The Great Revival/Gilberto Gil 16 - Uma ponte por sobre o Atlântico/A Bridge over the Atlantic/Zulu Araújo 19 - Uma reflexão sobre o futuro/Reflection on the Future/Marcelo O. Dantas 25 - O novo cavalo de Tróia/The New Trojan Horse/José Carlos Capinan 28 - O Brasil na rota do pan-africanismo/Brazil on the Route of Pan-Africanism/Carlos Alberto Medeiros 30 - A Necessidade de um Pacto Político entre a África e a Diáspora/The Need for a Political Agreement Between Africa and the Diaspora/Edna Maria Santos Roland 33 - Relações Brasil-África nas rotas das literaturas africanas/Brazil-Africa Relations in the Realm of African Literature/Iris Maria da Costa Amâncio 36 - A Diáspora e o Renascimento Africano/The Diaspora and the African Renaissance/João Jorge Santos Rodrigues 39 - O mito ainda não está morto/The Myth Lives On/Jocélio Teles dos Santos 42 - A internacional negra na Bahia/The Black International in Bahia/Jorge Portugal 44 - Como os filhos se parecem/They look so much alike.../Lepê Correia 46 - De Lucy ao CIAD/From Lucy to CIAD/Maurício Pestana 48 - Um rio chamado Atlântico/A River Called the Atlantic/Paulo Miguez 50 - O trauma da viagem da volta/The trauma of the return journey/Vilma Santos de Oliveira (Yalorixá Mukumby)

Fotos/Photographs 54 60 62 64 68 70 72 74 80 82 84 86 88

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A África aqui/Africa Here A história exposta/History Exposed Africanidade/Africanness As vozes da alma/Voices of the Soul Cortinas descerradas/The Curtain Rises Diversidade em Comunhão/Diversity in Communion Encantos de ébano/The Charms of Ebony O canto da negritude/The Song of Blackness O corpo em liberdade plena/The Body in Absolute Freedom O fazer das mãos/Manual Labor Senhor Resistência/Mr. Resistance Um pedaço da África/A Little Piece of Africa Uma ponte sobre o Atlântico/A Bridge over the Atlantic

Anexos/Appendix 91 - Carta de Salvador/The Salvador Declaration

Imprensa/Press


“Para continuar resistindo, os africanos submetidos ao cativeiro e seus descendentes tiveram que refazer tudo, refazer linguagens, refazer parentescos, refazer religiões, refazer encontros e celebrações, refazer solidariedades, refazer cultura. Esta foi a verdadeira Grande Refazenda”. Gilberto Gil “In order to continue resisting, the Africans who were confined to captivity and their descendants had to revive everything - revive languages, revive family relationships, revive religions, revive encounters and celebrations, revive solidarities, revive culture. This was the true Great Revival”. Gilberto Gil


 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

Preface

Apresentação

Waldomiro Santos Júnior*

Waldomiro Santos Júnior*

The way in which the west perceires Africa invariably consigns the nations of the African continent to a fatalness without future hope. These countries and, consequently, their peoples, are presented as incapable of inserting themselves into the process of global development. A vision that, not by chance, is extended to countries on other continents that, as a result of slave traffic, have populations and cultures marked by Afro-influences. A stigma that is not so different for Black populations who live in countries that today control the economy of the planet. Heads of state, intellectuals, directors of non-governmental organizations, and institutional organisms from countries in Africa and the Diaspora met together in Brazil at the Conference of Intellectuals from Africa and its Diaspora – CIAD and CIAD Cultural -- which took place in Salvador, offering the world another take on the reality of Africa and of peoples of African descent spread throughout the continents. This time, theirs was the perception of protagonists. The Great Revival: Africa and Diaspora Post-CIAD II, a project of the Palmares Cultural Foundation/Ministry of Culture, brings together intellectuals and protagonists involved in the process of Brazilian ethic affirmation and their take on the consequences brought about by the Conference and CIAD Cultural towards the construction of an authentic Brazilian racial democracy and the interrelationship of Brazil with Africa and with other countries in the Diaspora. Not one, but many perceptions, in an interdependent plurality of common proposals and objectives, so that the body of articles gathered here expresses the same respect for diversity that guides the sentiment and the force of those who seek to construct an egalitarian world, free of the barriers of prejudice and intolerance. The title The Great Revival comes from the article written by the Minister of Culture Gilberto Gil, an invitation to us all, of all races, cultures, and countries to be engaged in the process of reviving pathways towards the aim of an African Renaissance, seeing Africa as a primordial element in the construction of a new world order that, above all, considers the meaning of humanness. CIAD is very well described by its coordinator Marcelo Dantas, but for all of the authors, the concern

O olhar do mundo ocidental sobre a África, invariavelmente, remete as nações do continente africano a uma fatalidade sem esperança de futuro. Esses países e, consequentemente, seus povos, são apresentados como incapazes de se inserir no processo de desenvolvimento global. Uma visão que, não por acaso é extensiva aos países dos demais continentes que, em função do tráfico de escravo, têm populações e culturas marcadas pela influência afro. Um estigma que não é diferente também para as populações de negros que vivem nos países que hoje comandam a economia do planeta. Chefes de estado, intelectuais, dirigentes de organizações não governamentais e organismos institucionais dos países africanos e diásporos se reuniram no Brasil na II Conferência dos Intelectuais da África e da Diáspora – CIAD e o CIAD Cultural realizados em Salvador. Ofereceram ao mundo um outro olhar para a realidade da África e dos povos de matrizes africana espalhados pelos continentes. Desta vez, o olhar dos protagonistas. Idealizada pela Fundação Palmares/Ministério da Cultura, A Grande Refazenda – África e Diáspora Pós II CIAD reúne o olhar de intelectuais e protagonistas do processo de afirmação étnica brasileira sobre as conseqüências trazidas pela Conferência e o CIAD CULTURAL, na construção de uma autêntica democracia racial brasileira e na inter-relação do Brasil com a África e os demais países diásporos. Um olhar não único, mas diverso, numa pluralidade complementar de propósitos e objetivos comuns, de tal forma que conjunto de artigos aqui reunidos expressa o mesmo respeito à diversidade que norteia o sentimento e o esforço daqueles que buscam construir um mundo igualitário, liberto das barreiras do preconceito e intolerância. O título A Grande Refazenda vem do artigo assinado pelo ministro da Cultura Gilberto Gil, um convite ao engajamento de todos nós, de todas as raças, culturas e países, no processo de refazer caminhos na direção do renascimento africano, entendendo a África como elemento primordial na construção de uma nova ordem mundial, que contemple prioritariamente o sentido humano. A CIAD é muito bem descrita no artigo do seu coordenador, Marcelo Dantas. Mas há em todos os autores, a preocupação de traduzir o sentimento renovador, a busca por um


renascimento africano, capaz de inspirar um novo posicionamento nas relações internacionais. Um processo em que cabe ao Brasil, conforme evidenciaram os textos reunidos em A Grande Refazenda, o papel de ser um dos protagonistas ativos, de estabelecer uma ponte ligando os dois lados do Atlântico, como sentenciou o presidente da Fundação Cultural Palmares, Zulu Araújo. A diversidade de olhares na visão de cada autor nos remete a reflexão sobre a nossa própria realidade, como fez o antropólogo Jocélio Teles dos Santos, ao relacionar o mito da construção da nossa nacionalidade, a partir de Diogo Álvares Caramuru e Catarina Paraguaçu, analisando as suas conseqüência na consolidação do processo étnico brasileiro. Ou ainda no texto de Vilma Santos Oliveira (Yalorixá Mukumbi), que descortina os traumas dos negros brasileiros herdados (quem sabe?) geneticamente ou impregnados em suas almas a partir do sofrimento dos seus antepassados. Mas há também os olhares críticos sobre o contexto de um mundo cada vez mais interligado. Edna Roland nos traz um paralelo entre a III Conferência Mundial contra o Racismo, em Durban e os atentados do 11 de setembro, ocorridos dias depois, num exemplo de que está na compreensão e aceitação da complexidade étnica, o passo decisivo para a solução dos principais conflitos da humanidade. Íris Amâncio faz uma análise do poder libertário da poesia africana e a interligação entre a literatura desses países e a literatura brasileira, analisando os seus pontos comuns e profetizando a interação literária como um dos instrumentos de consolidação da nossa integração às nações da África. O olhar poético de Jorge Portugal viu na II CIAD e no CIAD Cultural, um paralelo com a II Internacional Nacionalista, de 1889 em Paris. E Lepê Correia identificou no renascimento africano a possibilidade de se oferecer ao mundo um renascimento com a força do movimento que no século XVI, a partir da Itália, mudou as concepções políticas, econômicas, sociais e culturais. A contribuição lúcida de quem participa ativamente de um processo étnico de transformação é outra marca de A Grande Refazenda. Carlos Alberto Medeiros, João Jorge Santos Rodrigues, Maurício Pestana, Paulo Miguez, assim como os demais autores, transcendem a visão acadêmica, trazendo conscientemente o acúmulo dos conhecimentos adquiridos por experiências próprias e no contato direto com as realidades étnicas em nosso país e nos mais diversos países. No anexo, uma mostra selecionada dos registros da II CIAD e do CIAD Cultural na imprensa, refletindo a importância e a expectativa de conseqüências dos acontecimentos protagoniza-

with putting the renovative spirit into words, is the quest for an African Renaissance, capable of inspiring a new stance in international relations. As evidenced in the texts gathered in The Great Revival, a process in which Brazil can play a role as an active participant, with the responsibility, as Zulu Mendes Araújo the President of the Palmares proposes, of “building a bridge” linking the both sides of the Atlantic. The diversity in the way each author perceives things, leads us to reflect upon our own reality, as the anthropologist Jocélio Teles dos Santos did in relating the myth of how our nationality was constructed, beginning with Diogo Álvares Caramuru and Catarina Paraguaçu, analyzing its consequences within the consolidation of the Brazilian ethnic process. Or, as in the text by Vilma Santos Oliveira (Yalorixá Mukumbi), which reveals the traumas of Black Brazilians, inherited (who knows?) genetically, or instilled in their souls due to the suffering of their ancestors. But, there are also critical perceptions concerning the context of a world which is becoming increasingly interconnected. Edna Roland shows us a parallel between the World Conference against Racism III, in Durban, and the terrorist attacks of September 11, which occurred soon afterwards, in an example of how to comprehend and accept ethnic complexity, the decisive step towards the solution of humanity’s main conflicts. Íris Amâncio conducted an analysis of the freeing power of African poetry and the interconnection between the literature of these countries and Brazilian literature, analyzing their common points and prophesizing literary interaction as one of the instruments for the consolidation of our integration with the African nations. The poetic perception of Jorge Portugal saw a parallel between Nationalist International II, which took place in Paris in 1889, and CIAD II and CIAD Cultural. And, Lepê Correia identified the possibility of offering the world a rebirth in the African Renaissance, which gained force from the 16th Century movement, in Italy, changing political, economic, social, and cultural conceptions. The clear contribution of those who actively participate in the ethnic process of transformation is another characteristic of The Great Revival. Carlos Alberto Medeiros, João Jorge Santos Rodrigues, Maurício Pestana, Paulo Miguez, as well as other authors, transcend academic perception, consciously bringing us an accumulation of knowledge, acquired through their own experiences and direct contact with the ethnic realities in our country and in several other countries.


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In the appendix there is a chosen sample of press registers from CIAD II and CIAD Cultural reflecting the importance and expectations of the consequences and of the events protagonized by their participants, which is expressed very well in The Salvador Declaration, the conclusive text, also included in this publication. Besides the written words, the images from CIAD II and CIAD Cultural captured by the cameras of Edson Ruiz and Júnior Esteves, perpetuate the gathering of diversity, the effort towards the interaction of peoples and nations, and the celebration of Africanness. Returning to the themes and proposals discussed at CIAD II and the lively expression of what the poet José Carlos Capinam defines as the ways of knowing and doing raised by CIAD Cultural, The Great Revival: Africa and the Diaspora Post-CIAD II is, at the same time, a documentary register of this unique moment in the history of the relationships among peoples, a broad reflection of the reality of the contemporary world and, principally, a reaffirmation that the inclusion of Africa and diasporic peoples in the process of development, is not only possible, but also inevitable.

*Waldomiro Júnior is a journalist, General Secretary of the Mário Gusmão Study Center (CEMAG), [and] coordinator of the editorial project The Great Revival: Africa and Diaspora Post-CIAD II

dos pelos seus participantes, tão bem traduzidos na Declaração de Salvador, o texto conclusivo, também incluído nesta publicação. Além das palavras escritas, as imagens da CIAD e do CIAD Cultural, captadas pelas câmeras de Edson Ruiz e Júnior Esteves, perpetuam o congressamento da diversidade, o esforço pela interatividade entre povos e nações e a celebração da africanidade. Ao resgatar os temas e propostas discutidas na II CIAD e a expressão viva do que poeta José Carlos Capinam define como saberes, sentires e fazeres, trazidos pelo CIAD CULTURAL, A Grande Refazenda – África e Diáspora Pós II CIAD é ao mesmo tempo, um registro documental desse momento único na história das relações entre povos, uma ampla reflexão sobre a realidade do mundo contemporâneo, e, principalmente, uma reafirmação de que a inclusão da África e povos diásporos no processo de desenvolvimento, não é apenas possível, mas também inevitável.

*Waldomiro Júnior – jornalista, secretário-geral do Centro de Estudos Mário Gusmão (Cemag), coordenador do projeto editorial A Grande Refazenda – África e Diáspora Pós II CIAD


A Grande Refazenda

The Great Revival

Gilberto Gil*

Gilberto Gil*

Ao longo de 50 anos de lutas contra o colonialismo, pelas independências nacionais e contra o sistema do apartheid outrora instalado no coração da África, africanos e afro-descendentes estiveram unidos pela bandeira da libertação. Hoje, depois de tantas lutas e guerras, é preciso reconstruir as economias, recompor solidariedades, consolidar as nacionalidades e, ao mesmo tempo, estabelecer um novo relacionamento econômico com um sistema mundial globalizado. A própria transformação da OUA-Organização da Unidade Africana em UA-União Africana, é o sinal destes novos tempos de renascimento africano. Para responder a este grande desafio da contemporaneidade, todos os filhos da África são chamados. Do lado ocidental do Atlântico, atenderam ao chamado os descendentes de africanos, constituintes de diversos países americanos e caribenhos. Marcados todos pela história colonial da escravidão e pela sobrevivência posterior em sistemas de subalternização social e econômica, fizeram emergir as lutas pela reparação das perdas do passado e pela criação de mecanismos de igualdade que promovam o acesso pleno à cidadania e ao bem-estar. A rigor, os protagonismos negros libertários produziram um caleidoscópio de experiências ambientadas nas circunstâncias de cada sociedade. E assim construíram novas Áfricas. A predominância nesses mundos negros de uma grande diversidade de projetos não produziu uma Torre de Babel exatamente porque não predominou a lógica materialista da sociologia européia, seja a de Durkheim, seja a de Marx, pela qual os interesses objetivos soldariam as solidariedades de grupo ou de classe. O cimento era outro. Acredito que nossas solidariedades sempre foram uma expressão de nossas identidades que vicejaram em uma cultura afro-global, o que significa dizer que as representações que construímos de nós mesmos foram mais fortes do que as condições de exploração e de pobreza a que fomos submetidos. Para melhor entendermos este processo, é necessário fazer uma remissão histórica às características especiais da diáspora africana que formou as Américas. Ela se deu, a partir do século XV, no bojo de um processo de expansão européia e de mundialização do capitalismo. Um processo mundializado de acumulação de riquezas para a Europa requeria o reordenamento de outras populações para as tarefas produtivas no novo mundo, na condição de força de trabalho. Mas quem eram estes outros? Eram exatamente aqueles não cristãos e, portanto,

Throughout the fifty years of struggle against colonialism, for national independence and, at another moment, against the system of Apartheid installed in the heart of Africa, Africans and those of African descent were united under the flag of liberation. Today, after so many struggles and wars, it is necessary to reconstruct economies, reaffirm solidarities, consolidate nationalities, and, at the same time, establish a new economic relationship in a worldwide, globalized system. The very transformation of OAU--Organization for African Unity--into the AU--African Union--is a sign of these new times of African Renaissance. In order to respond to this great contemporary challenge, all of Africa’s offspring are summoned. From the western side of the Atlantic, those of African descent, from various American and Caribbean countries, answer the call. All marked by the colonial history of chattel slavery and by the later survival of dehumanizing social and economic systems, they made the birth of struggles for the reparation of losses in the past and the creation of mechanisms of equality that promoted full access to citizenship and well-being possible. More to the point, set in the given circumstances of their societies, Black freedom-bent activities produced a kaleidoscope of experiences. And in this way, they constructed new Africas. The predominance of these Black worlds of widely diverse projects did not produce a Tower of Babel precisely because European sociology’s idea of materialist logic, whether it be the school of Durkheim or Marx where objective interests motivate the allegiances of a group or class did not prevail. The cement was different. I believe that our allegiances were always an expression of our identities that flourished in a global Afro-culture, which is to say, the representations of ourselves that we constructed were stronger than the conditions of exploitation and of poverty to which we were subjected. In order for us to better understand this process, it is necessary to historically cross-reference the special characteristics of the African Diaspora that formed the Americas. Since the fifteenth century, the African Diaspora has became the staging ground for a process of European expansion and the worldwide spreading of Capitalism. The worldwide process of the accumulation of wealth for Europe required the re-ordering of other populations for productive tasks in the new world, as work force. However, who were these others? They were precisely those non-Christian and, therefore, non-European others. They were the heathens, the


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Muslim infidels, the Indians, the Blacks, and the other barbarians. Their cultures, their identities were considered irrelevant and judged ripe for eradication by the exercising of powers by conquerors, which my friend Caetano Veloso calls the “putrid powers”. The king of Portugal recommended that his governors in Brazil that they “master the heathens” that is, enslave the indigenous villages. As for the Africans, this lordly power would tear people from their cities, from their forests, from their villages, to bring them by force to the other side of the Atlantic and to use them as cogs in an infernal machine to produce riches. Thus, in the common language of slave traffic, each person was called a piece or a load, an individual transformed into merchandise. This was a process different from other slaveries and diasporas, in which the populations were expelled from their countries in tribes, groups, and families, of Jews, Armenians, and other peoples, victims of compulsory dispersal. Each of the Africans, males and females, natives of various regions, ethnicities, and nations, were separated from their group of origin, mixed with a multitude of strangers on slave ships, stored on plantations, in contingents of persons speaking distinct languages, so that they could not communicate with each other and could not plot resistance and rebellion against their captors. For the implementation of transcontinental mercantile slavery it was necessary to produce each slave, that is, to transform free persons into captives. For this, it was necessary to transform each one of the eleven million men and women who came to the Americas into a single person, stranger to everything and to all around him, becoming completely dependent on his owner. In this perverse process of slave production, the aim was to destroy the entire identity of the captive. The destruction of the native name, through which each one identified family, lineage, and place as a free person in African society, is an example. Alien and anonymous, automaton productive machines, this was the objective of this genocidal and ethnocidal practice of slavery. In order to continue resisting, the Africans who were confined to captivity and their descendents had to revive everything, revive languages, revive family relationships, revive religions, revive encounters and celebrations, revive solidarities, revive cultures. This was the true Great Revival. The first step in this monumental process of reinventing humanity was to overcome of the general alienation. In contrast to the alien, the other became the malungo (fellow traveler),

não europeus. Eram os gentios, os mouros da terra, os índios, os negros, os outros bárbaros. Suas culturas, suas identidades eram consideradas irrelevantes e deveriam ser erradicadas pelo exercício dos poderes dos conquistadores, o que meu amigo Caetano Veloso chama de “podres poderes”. O rei de Portugal recomendava aos seus governadores no Brasil “senhorearem os gentios”, ou seja: submeterem as aldeias indígenas à escravidão. No caso dos africanos, este poder senhorial deveria arrancar as pessoas de suas cidades, de suas florestas, de suas aldeias, trazê-los à força para o outro lado do Atlântico e utilizá-los como peças de uma máquina infernal de produzir riquezas. Aliás, na linguagem corrente do tráfico de escravos, cada pessoa era chamada de uma ‘peça’ ou um ‘fardo’, um indivíduo transformado em mercadoria. Este foi um processo diferente de outras escravidões e diásporas, nas quais populações foram expulsas de seus países em tribos, grupos e famílias - falo de judeus, de armênios e de outros povos vítimas de dispersão compulsória. Cada um dos africanos e africanas, originário de várias regiões, etnias e nações, foi separado do seu grupo originário, misturado em uma multidão de estranhos nos navios negreiros, armazenado em senzalas, em contingentes de pessoas de falas distintas, para que não se comunicassem entre si e não engendrassem resistências e revoltas contra o cativeiro. Para a implementação da escravidão mercantil transcontinental, era preciso produzir cada escravo, ou seja, transformar pessoas livres em cativos. Para tanto era preciso transformar cada um dos onze milhões de homens e mulheres que chegaram às Américas em uma pessoa só, estranha a tudo e a todos à sua volta, inteiramente dependente do seu senhor. Nesse perverso processo de produção do escravo, buscava-se destruir toda a identidade do cativo. É exemplar a destruição do nome originário, pelo qual cada um identificava a sua família, a sua linhagem, o seu lugar de pessoa livre em sua sociedade africana. Estranhos e anônimos, máquinas produtivas semoventes, este era o objetivo desta prática etnicida e genocida da escravidão. Para continuar resistindo, os africanos submetidos ao cativeiro e seus descendentes tiveram que refazer tudo, refazer linguagens, refazer parentescos, refazer religiões, refazer encontros e celebrações, refazer solidariedades, refazer culturas. Esta foi a verdadeira Grande Refazenda. O primeiro passo neste monumental processo de reinvenção da humanidade foi a superação do estranhamento geral. Ao invés de estranho, o outro passou a ser o ‘malungo’, o que veio no mesmo navio negreiro, um companheiro de travessia, um parente. Na minha


terra, a Bahia, construiu-se um parentesco simbólico, não sanguíneo e não linhageiro: todos os nascidos na outra costa do Atlântico passaram a se tratar como parentes. Essa nova identidade foi tão forte que, no português falado por eles, os pronomes pessoais para designar o outro- o tu e o você- foram substituídos por “parente”. Nas histórias que ouvi de minha tia-avó, um diálogo entre velhos africanos era assim narrado: - Assunta parente, que feitor ta de olho em parente - Eu sei parente e já abri o olho, parente. Esses parentes, na verdade, se reconheciam como “africanos” na Bahia. Esta nova identidade genérica não destruía as identidades étnicas originárias dos milhares de nagôs, gêges, angolas, congos, moçambiques, bambaras, mandingas, fantis e ashantis. Pelo contrário, permitia a comunicação, a solidariedade e a afetividade entre eles. Outras foram as construções culturais em que os cativos africanos se reconheceram. A constituição no Brasil do sistema religioso do Candomblé é o maior exemplo desta reculturação. A partir de cada culto ancestral trazido de cidades e regiões específicas das muitas Áfricas, constituíram-se panteões solidários de ancestrais místicos, não geografizados ou telúricos e sim arquetipizados, agrupados em grandes denominações nacionais como os Nagôs, os Gêges e os Angolas. Este sistema religioso inter-africano, deu o cimento e a pedra para comunidades negras, abertas à participação de outros não negros, e gerou e reproduziu as “famílias-de-santo”. Assim, ninguém é estranho no Candomblé. São todos parentes de santo. Também no catolicismo, os africanos construíram seus espaços próprios de reconhecimento mútuo e de solidariedade nas irmandades negras, espalhadas por todo o Brasil, onde se cultuam santos negros como São Benedito e Santa Efigênia, onde são relembrados o rei Antonio do Congo e a rainha Nzinga de Matamba, onde se dançam Congadas e Moçambiques. Processo idêntico verificou-se em todas as formações sociais americanas construídas pelos filhos e filhas de África. Entendemos que a dispersão africana nas Américas foi uma espécie de semeadura da diversidade cultural africana, que produziu florestas de híbridos e mutantes, verdadeiras novas Áfricas negro-mestiças. Do lado oriental do Atlântico, os povos que continuaram no Continente Africano experimentaram uma trajetória histórica própria, submetida ao estatuto colonial, forma pela qual os vários países africanos foram integrados na dinâmica mundial do capitalismo. Desde então, a luta pela identidade, independência e desenvolvimento fez nascer uma nova África, embalada pela solidariedade continental representada pela OUA.

who came on the same slave ship, a companion from the crossing, a kinsperson. In my native land, Bahia, a symbolic kinship was forged, not of blood and not of lineage: all those born on the other Atlantic coast came to be treated as kin. This new identity was so strong that, in the Portuguese they spoke, “kinfolk” was substituted for the personal pronouns which designate the other, the second person you. In the stories that I heard from my great-aunt, a dialogue between elderly Africans went like this: -Pay attention kinfolk, the overseer is watching kinfolk. -I know kinfolk, and I’m already on the lookout, kinfolk. These kinsfolk, truly, recognized each other as “Africans” in Bahia. This new generic identity did not destroy the native ethnic identities of the myriad of Nagôs (Sudanese descended), Gêges (Dahomey descended), Angolas, Congos, Mozambicans, Bambaras, Mandingas, Fantis, and Ashantes. On the contrary, it permitted communication, solidarity, and affection among them. Others were the cultural constructions in which the captivated Africans recognized each other. The Brazilian Constitution for the religious system of Candomblé is the best example of this cultural recovery. Based on each ancestral cult brought from specific cities and regions from the many Africas, altruistic pantheons of mystical ancestors, not bound to space nor place, and yes archetypical, gathered in great national denominations like Nagôs, Gêges, and Angolas. This inter-African religious system provided the cement and the stone for Black communities, open to the participation of non-Black others, and generated and reproduced the “saint families”. In this way, no one is a stranger in Candomblé. Everyone is a kin of a saint. Also within Catholicism, Africans constructed their own spaces of mutual recognition and of solidarity through Black Brotherhoods, spread throughout Brazil, where black saints like Saint Benedito and Saint Efigenia were worshiped, where King Antonio of the Congo and Queen Nzinga of Matamba are remembered, where Congadas and Mocambiques are danced. An identical process was verified in all of the American social entities constructed by the daughters and sons of Africa. We understand that the African dispersal in the Americas was a type of sowing of African cultural diversity that produced forests of hybrids and mutants, true new Black-crossbred Africas. On the eastern side of the Atlantic, the peoples that continued on the African continent experienced a historical trajectory, under the colonial regime, a form


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by which the various African countries were integrated into the worldwide dynamic of capitalism. From that point, the struggle for identity, independence, and development gave birth to a new Africa rocked by continental solidarity represented by the Organization of African Unity. This was an attempt to go beyond the solidarity of national liberation struggles toward the institutionalization of Pan-African ideas of continental political unity, as a type of United States of Africa. This process concluded with the victory of the South African revolution which eradicated the last colonialist enclave in Africa. On this road of struggles, various nationalities were forged on the battlefields diversifying, interests and potentialities. Support for Africa was even stirred up in the present process called globalization. We come to hear, insistently, the thesis of African impracticality. The resulting problems of the selfsame colonial occupation came to be demonstrated as intrinsic to Africa: the wars, the epidemics, and the poverty. The African reaction was exemplary. The quest for a new agreement of economic cooperation for development embodied in the African Union replaced the dream of political unity embodied in the Organization of African Unity. Today, who are we the diverse offspring of Africa in the twenty-first century? What can we do? What do we want? These are the questions that the parameters of the worldwide contemporary moment have imposed on us. And, the quest for these answers brought heads of state, intellectuals, and activists for ethnic causes to the city of Salvador on the All Saints Bay, reunited in the second Conference of Intellectuals from Africa and its Diaspora (CIAD II). In the ominous times of chattel slavery and slave traffic, many of the four million Africans, men and women, who came to build Brazil, came through the city of Salvador, hundreds of crossroads between Africa and the Americas. Today, this city continues to be a great crossroads of African, Afro-American, and AfroCaribbean cultures. For this reason, there was no more perfect scenario, than the most African of African cities outside of Africa, to inspire the search for answers in our journey toward the future. In Bahia, Africans and those of African descent from the whole world are at home, sheltered and embraced by their kinfolk and, in this atmosphere of fraternal intimacy, they could expound and debate “in family” the possibilities of exchange and cooperation between the countries of the African continent and the Brazilians and Americans who share this cultural

Esta foi uma tentativa de ir além da solidariedade das lutas de libertação nacional na direção da institucionalização das idéias pan-africanas de unidade política do continente, uma espécie de estados unidos da África. Este processo encerrou-se com a vitória da revolução sul-africana que erradicou o último enclave colonialista em África. Neste caminho de lutas, várias nacionalidades se forjaram nos campos de batalha, diversificaram-se os interesses e as potencialidades. Acirrou-se todavia a secundarização da África no atual processo chamado de globalização. Passamos a ouvir, com insistência, a tese da inviabilidade africana. Os problemas resultantes da própria ocupação colonial passaram a ser mostrados como intrínsecos à África: as guerras, as epidemias, a pobreza. A reação africana foi exemplar. O sonho de unidade política encarnado na Organização da Unidade Africana foi substituído pela busca de um novo pacto de cooperação econômica para o desenvolvimento encarnado na União Africana. Hoje, quem somos nós, os diversos filhos da África no século XXI? O que podemos, o que queremos? Estes são os quesitos que se nos impõem os parâmetros da contemporaneidade mundial. E a busca dessas respostas trouxe chefes de estados, intelectuais, militantes das causas étnicas à Cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos, reunidos na II Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora (CIAD). Nos tempos nefastos da escravidão e do tráfico de escravos, passaram pela cidade da Bahia, centenária encruzilhada entre a África e as Américas, muitos dos quatro milhões de africanos e africanas que vieram construir o Brasil. Hoje, a cidade continua a ser uma grande encruzilhada das culturas africanas, afro-americanas e afro-caribenhas. Por isso, não havia cenário mais perfeito, a mais africana das cidades africanas fora da África, para inspirar a busca das respostas para a nossa travessia rumo ao futuro. Na Bahia, africanos e afro-descendentes de todo o mundo estão em casa, abrigados e afagados pelos seus parentes e, neste ambiente de intimidade fraterna, puderam expor e debater em família as possibilidades de intercâmbio e cooperação entre os países do continente africano e os brasileiros e americanos que compartilham esta mesma herança cultural. A realização desta conferência foi a confirmação do compromisso assumido pelo governo do Presidente Lula e pelo Ministério da Cultura com o Governo do Senegal e com a União Africana com a continuidade de um processo que se iniciou em 2004, na I CIAD, em Dacar, de mobilização de todos os afri-


canos e seus descendentes em torno de um novo pacto para o desenvolvimento da África. Participamos com entusiasmo deste movimento transcontinental de constituição de uma rede mundial de solidariedade, fundado em identidades e em interesses comuns de paz e de prosperidade. Fazer convergir a saga de refazenda cultural, experimentada pelos negros da diáspora com a saga da reconstrução nacional vivida pelos negros do continente africano, deve ser o primeiro movimento intelectual para este nosso mundo-afro. A CIAD de Salvador fez emergir as diretrizes para a produção e difusão de uma contemporânea História dos negros de todo o mundo. Para tanto, é preciso tecer com carinho a rede das instituições de ensino, pesquisa e divulgação de conhecimentos, de modo a possibilitar um sistema permanente de intercâmbio multilateral, virtual e presencial. De igual importância é a viabilização de um calendário de eventos de intercâmbio cultural, que consolide o contato permanente entre artistas, escritores, pensadores, produtores culturais e guardiões de saberes tradicionais, sem o que será impossível afinar as nossas percepções e a nossa sensibilidade, como fizemos em Salvador, com o CIAD CULTURAL, realizado em conjunto com a II Conferência. Outro desafio imperioso é a implementação de uma rede mundial de comunicação afro-diaspórica, que possa formar uma opinião pública internacional afro-centrada, capaz de intervir junto a cada governo nacional e junto às instituições internacionais como um elemento ativo de pressão em favor de um projeto de renascimento africano. Acreditamos assim que, deste amplo processo de mobilização, de pleno reconhecimento entre velhas e novas áfricas, nascerá bela e frondosa uma nova identidade afro-global, includente, em rede, não eliminadora das identidades regionais e nacionais, capaz de consolidar uma cultura negra universalizada. Isto nós queremos, isto nós podemos, isto nós faremos. Ou melhor: refazendaremos.

*Gilberto Gil é ministro de Estado da Cultura do Brasil; poeta, compositor, cantor, presidente da II Conferência dos Intelectuais da África e da Diáspora

heritage. The realization of this conference was the confirmation of the commitment accepted by the government of President Lula and by the Ministry of Culture with the government of Senegal and with the African Union, offering continuity for a process that began in 2004 in the first CIAD in Dakar, for the mobilization of all Africans and their descendents around a new agreement for the development of Africa. We enthusiastically participated in this transcontinental movement for the constitution of a worldwide network of solidarity, founded on common identities and interests of peace and of prosperity. Working for the convergence of the saga of cultural revival, experienced by Blacks in the Diaspora, with the saga of national reconstruction, lived by Blacks on the African continent, should be the first intellectual movement for this, our Afro-world. Salvador’s CIAD aided the emergence of directives for the production and diffusion of a contemporary History of Blacks throughout the world. As such, it is necessary to affectionately weave the network of teaching, research, and outreach institutions, in order to make a permanent system of multilateral, virtual, and physical, exchange possible. The creation of a calendar is of equal importance for scheduling cultural exchange events, one that consolidates permanent contacts between artists, writers, thinkers, cultural producers, and guardians of traditional knowledge, as we have done in Salvador, with CIAD Cultural, which took place together with CIAD II. Another pressing challenge is the implementation of a worldwide Afro-Diasporic communications network, capable of formulating a public, international, Afro-centric opinion, capable of intervening together with each national government, together with international institutions as an active method of lobbying in favor of the African Renaissance project. We believe that from this broad process of mobilization, of full recognition between the old and new Africas, a new inclusive, networked Afro-global identity, beautiful and verdant, will be born, without eliminating regional and national identities, capable of consolidating a universalized Black culture. This is what we want, this is what we can do, this is what we will do. Even better: we will revive ourselves.

*Gilberto Gil is the Minister of the State of Culture of Brazil; poet, composer, singer, president of the second Conference of Intellectuals from African and its Diaspora


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A Bridge over the Atlantic

Uma ponte por sobre o Atlântico

Zulu Mendes Araújo*

Zulu Araújo*

The globalized world of technology that makes instantaneous communication and mass consumption possible also brings to the forefront the paradox of being, a world of exclusion, of individualism among persons and peoples, of the scarcity of elemental conditions for the championing of human dignity, and of racism, at the same time. The City of Salvador in Bahia, in July of 2006 was the scene chosen for the creation, in an affirmative manner, of a possibility of breaking the paradox that transforms our planet into two distinct worlds. The Conference of Intellectuals from Africa and its Diaspora (CIAD) and CIAD Cultural brought to the “Blackest” city on this side of the Atlantic the demonstration of the universality of the two major patrimonies of humanity: culture and thought. Indivisible, accumulative patrimonies that can indeed effectively foment a new world order, formulated on the conception that the term globalization should not and can not be restricted to the technological, commercial field, nor that of financial speculation. It is much more than this: it should obligatorily represent the search for perfect interaction, without interfering in free will, in autodetermination, protecting the free essence of the soul of all peoples. Intellectuals, heads of state, artists, and militants from worldwide Black and human rights movements met together, not to lament the past, but rather, to signal the direction of a new future which does not see history as a fatality and which aims to embrace modernity, without hiding or denying cultural inheritance. Each one brought, from each of their nations, this particular formulation of thoughts in order to seek a definition of this new version of a globalized world together. At CIAD, the meetings, the discussions, and the debates demonstrated the vitality of the thought originating from that continent, the root of all of humanity. And the force of its present was capable of surprising those who even today, in yet another contemporary paradox, identify Africa and its progeny-nations, spread throughout the world, as is the case of Brazil, as little more than human groupings that remained on the far side of the frontier of development, incapable of contributing toward the enrichment of scientific thought.

O mundo globalizado, da tecnologia que possibilita a comunicação instantânea e do consumo de massa, estabelece também o paradoxo de ser ao mesmo tempo, o mundo da exclusão, do individualismo entre pessoas e povos, da escassez de condições elementares para a promoção da dignidade humana e do racismo. Mas a Cidade do Salvador da Bahia, em julho de 2006 foi o cenário escolhido para se estabelecer de forma afirmativa, uma possibilidade do rompimento do paradoxo que transforma o nosso planeta em dois mundos distintos. A Conferência dos Intelectuais da África e Diáspora (CIAD) e o CIAD Cultural trouxeram para a mais negra das cidades deste lado de cá do Atlântico, a universalização dos dois maiores patrimônios da humanidade: a cultura e o pensamento. Patrimônios indivisíveis, acumulativos, que podem sim, efetivamente, fomentar uma nova ordem mundial, formulada a partir da concepção de que o termo globalização não deve e nem pode ser restritivo ao campo tecnológico, comercial ou da especulação financeira. É muito mais que isso: deve obrigatoriamente representar a busca da interação perfeita, sem interferir no livre arbítrio, na autodeterminação, resguardando a essência livre da alma de cada povo. Intelectuais, chefes de estado, artistas e militantes do movimento negro mundial e dos direitos humanos no plano mundial, se reuniram, não para lamentar o passado, mas para sinalizar em direção a um novo futuro, que desconhece a história como fatalidade e que se propõe a abraçar a modernidade, sem travestir ou negar a sua herança cultural. Trouxeram cada um, de cada uma das suas nações, a formulação própria dos seus pensamentos, para juntos buscar a definição dessa nova versão de um mundo globalizado. Na CIAD, as conferências, os discursos, os debates, mostraram a vitalidade do pensamento originado no continente matriz de toda a humanidade. E a força da sua atualidade foi capaz de surpreender àqueles que ainda hoje, em mais um paradoxo contemporâneo, identificam a África e os seus países–filhos espalhados pelo mundo, como é o caso do Brasil, apenas como agrupamentos humanos que ficaram aquém da fronteira do desenvolvimento, incapazes de contribuir para o enriquecimento do pensamento científico. Neste aspecto, o Brasil passa a ter uma responsabilidade


imensa, seja para fazer replicar internamente o acontecido, estabelecendo assim, novos diálogos com a complexa rede étnica de que é constituída a nossa sociedade, seja para multiplicar externamente e em particular nos países diásporos esta rica experiência, que vivemos e convivemos na II CIAD na Bahia. No CIAD Cultural, a música, a dança, as artes plásticas, o áudio visual, o artesanato e a literatura foram provas vivas de que a cultura negra mantém as suas raízes, mas ao mesmo tempo permanece em contínua evolução. E mesmo que os protagonistas do que se convencionou chamar Primeiro Mundo, fechem os olhos e torçam os seus narizes, não dá para deixar de reconhecê-la como o principal elemento influenciador da arte moderna universal. Tudo isso é um indicador positivo de que o Brasil está de fato, assumindo a sua condição de Nação umbilicalmente ligada à África. E, sem dever favor algum, os méritos maiores vão para a política externa adotada pelo Governo Federal. A ordem nesse sentido tem sido muito clara: estabelecer uma relação estreita, uma via de duas mãos com as nações africanas e do Caribe, sem o estigma da dominação, usurpação das riquezas e tutela política. É um conceito novo, não apenas na política brasileira, mas na política externa entre as nações ocidentais, que ainda hoje, no mundo globalizado (ou será que exatamente por isso mesmo), insistem em procurar manter com o continente africano um relacionamento de colonizadores. Méritos do Governo Federal com uma intensa participação do nosso ministro da Cultura, Gilberto Gil. Com alma de artista, de agente cultural e, sobretudo, de homem formulador e inter-relacionado com o pensamento vivo do seu tempo, ele foi capaz de compreender precocemente, décadas atrás, a importância do Brasil estabelecer uma ponte imaginária, mas solidamente edificada, unindo os dois lados do Atlântico. Quanto ao movimento negro brasileiro, que direta e indiretamente contribuiu para o sucesso desta empreitada, tem hoje em suas mãos, uma daquelas oportunidades históricas de fazer com que o Brasil transforme-se de uma vez por todas na grande referência mundial do pensamento moderno e avançado, tanto política, quanto culturalmente, na busca da igualdade, solidariedade e respeito às diferenças, sejam elas de que ordem for. Temos então que, necessariamente, refletir sobre este novo papel que o movimento negro brasileiro terá que desempenhar daqui prá frente, para avançarmos a luta interna do nosso país rumo a verdadeira democracia racial e, ao mesmo tempo, estarmos articulados e solidários com o movimento anti-racista mundial na busca de um mundo melhor para todos.

In this respect, Brazil assumes an immense responsibility, whether in order to respond to the event nationally, thereby creating new dialogues with the complex ethnic network of which our society is comprised, or whether it is to multiply internationally, in particular in countries of the Diaspora, this rich experience that we lived and shared together in July in Bahia. During CIAD Cultural, music, dance, art, audio visual exhibits, folk art, and literature were living proof that Black culture maintains its roots, but, at the same time, remains in constant evolution. And, even while the protagonists of what is conventionally called the First World close their eyes and turn up their noses, it is not possible to fail to recognize Black culture as the principle influencing element of universal modern art. All of this is a positive indication that Brazil is, in fact, assuming its status as a nation umbilically tied to Africa. And, without a doubt, the greatest distinction goes to the foreign policy adopted by the Federal Government. In this context, the mandate has been very clear: to establish a close relationship, joining hands with the nations of Africa and the Caribbean, without the stigma of domination, the usurpation of riches, and political tutelage. It is a new concept, not only in Brazilian politics, but in the foreign affairs between Western nations, that even today in the globalized world (or perhaps, precisely because of this) insist on attempting to maintain a relationship as “colonizer” with the African continent. Kudos to the Federal Government for the dedicated participation of our Minister of Culture, Gilberto Gil. With the soul of an artist, a cultural agent, and, above all, a man who shapes and is involved in the living thought of his time, he was able to see early on, decades ago, the importance of Brazil establishing an imaginary, but solidly built, bridge, uniting both sides of the Atlantic. In terms of the Brazilian Black Movement which contributed directly and indirectly to the success of this enterprise, it has in its hands today one of the historical opportunities of making it possible for Brazil to transform itself, for once and for all, into a major, worldwide reference point of modern and advanced thought, politically as well as culturally, in the quest for equality, solidarity, and respect of differences, in whatever form they may be. We must, then, necessarily reflect on this new role that the Brazilian Black Movement will have to undertake from this moment on, in order for us to advance the internal struggle of our country in the direction of a true racial democracy and, at the


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same time, for us to be part and parcel of the world wide anti-racist movement in our quest for a better world for all. Finally, we will have to construct a bridge in order to serve yet another paradox of the globalized world: that of fulfilling the prophecy stated by the best poet from one of the nations that contributed to the Diaspora, the Portuguese poet Fernando Pessoa, who in his poem Mensagem (Message) proclaimed: God wanted the entire earth to be one, That the seas should join And nevermore separate. For this very reason, we can affirm, without the fear of erring, that CIAD and CIAD Cultural were not merely events, with a beginning and an end, but rather a foundation for this imaginary bridge over the sea, in a journey (this time not in the holds of slave ships), that will always have new beginnings because, as our African ancestors knew long ago, thousands of years before Western civilization, the world is round and spins everlastingly.

*Zulu Araújo is an architect, cultural producer, and president of the Palmares Cultural Foundation/Ministry of Culture

Enfim, teremos que construir uma ponte para servir a mais um paradoxo do mundo globalizado: o de cumprir a profecia do poeta maior de uma das nações patrocinadora da diáspora, o português Fernando Pessoa, que no seu poema Mensagem proclamou: “Deus quis que a terra toda fosse uma, Que o mar unisse E não mais separasse”. Por isto mesmo, podemos afirmar sem medo de errar que a CIAD e o CIAD Cultural não foram simples eventos, com começo e fim, mas um alicerce dessa ponte imaginária por sobre o mar, numa viagem (desta vez, sem os porões dos navios negreiros), que sempre vai ter recomeços, porque, como já sabiam os nossos ancestrais africanos, milhares de anos antes da civilização ocidental, o mundo é redondo e gira permanentemente.

*Zulu Araújo é arquiteto, produtor cultural e presidente da Fundação Cultural Palmares/MinC.


Uma reflexão sobre o futuro Marcelo O. Dantas*

A II Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora – II CIAD, realizada em Salvador, de 12 a 14 de julho de 2006, constituiu um dos maiores encontros de acadêmicos, lideranças políticas e representantes de movimentos sociais já realizados no Brasil. O esforço de reflexão, centrado no tema “A Diáspora e o Renascimento Africano”, permitiu à sociedade brasileira consolidar sua parceria estratégica com o continente africano, ao mesmo tempo em que conferiu maior legitimidade ao esforço de implantar no país políticas de ação afirmativa em prol dos afro-descendentes. Os preparativos para a II CIAD, coordenados pelo Ministério das Relações Exteriores, foram cuidadosos e enriquecedores. Envolveram negociações com a Comissão da União Africana; contatos com intelectuais africanos e dos países da Diáspora; articulação de apoios junto a organismos internacionais; constituição de um Grupo de Trabalho Inter-governamental; reunião preparatória de um Comitê Científico Internacional; e exaustiva consulta a intelectuais e entidades nacionais dedicadas a temas africanos e afro-brasileiros. No processo, adensaram-se os canais de comunicação já existentes entre Brasil e África e abriram-se novas vias de diálogo entre governo e sociedade civil. Para a montagem da Conferência, o MRE e o Ministério da Cultura – por intermédio da Fundação Cultural Palmares – destacaram equipes de trabalho e mobilizaram recursos orçamentários. A iniciativa contou ainda com o apoio do Governo do Estado da Bahia, Prefeitura de Salvador, Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e Força Aérea Brasileira. Entre os organismos internacionais, além da parceria com a Comissão da União Africana, merece destaque o apoio recebido da UNESCO, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e Organização Internacional da Francofonia. A Sessão de Abertura da II CIAD foi realizada na manhã do dia 12 de julho, no Auditório Yemanjá do Centro de Convenções de Salvador, sob o comando do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Estiveram presentes os Chefes de Estado de Botsuana, Cabo Verde, Gana, Guiné Equatorial e Senegal, bem como a Primeira-Ministra da Jamaica, o Vice-Presidente da Tanzânia e o Presidente da Comissão da União Africana. Delegações ministeriais foram enviadas pelos governos de Angola, Argélia, Etiópia e Marrocos. Os demais países africanos se fizeram representar por seus embaixadores em Brasília. Ao término

Reflection on the Future Marcelo O. Dantas*

The Second Conference of Intellectuals from Africa and its Diaspora – CIAD II – which took place in Salvador, July 12-14, 2006, constituted one of the major encounters of academics, political leaders, and representatives of social movements ever held in Brazil. The force of the reflection, centered on the theme “The Diaspora and African Renaissance”, permitted Brazilian society to consolidate its strategic partnership with the African continent, at the same time that it conferred more legitimacy to the force of establishing affirmative action policies in Brazil in favor of Afro-descendents. The preparations for CIAD II, coordinated by the Ministry of Foreign Affairs, were careful and enriching. They involved negotiations with the Commission of the African Union; contacts with intellectuals from Africa and countries in the Diaspora; the coordination of support with international organisms; the constitution of an Inter-governmental Working Group; a preparatory meeting of an International Scientific Committee; and, exhaustive consultation with national intellectuals and entities dedicated to African and Afro-Brazilian themes. In the process, the channels of communication that already exist between Brazil and Africa were deepened and new lines of dialogue between the government and civil society were opened. For the staging of the Conference, the Ministry of Foreign Affairs and the Ministry of Culture, with the Palmares Cultural Foundation as intermediary, detailed working teams and mobilized budgetary resources. The initiative also enjoyed the support of the Government of Bahia, the Municipality of Salvador, the Federal University of Bahia (UFBA), the State University of Bahia (UNEB), and the Brazilian Air Force. Among the international organisms, beyond the partnership with the Commission of the African Union, the support received from UNESCO, the Community of Portuguese-Speaking Countries, and the International Francophone Organization deserves mention. The opening session of CIAD II took place on the morning of the July 12, in the Yemaja Auditorium at the Convention Center of Salvador, under the command of President Luiz Inácio Lula da Silva. In attendance were Heads of State from Botswana, Cape Verde, Ghana, Equatorial Guinea, and Senegal, as well as the Prime Minister of Jamaica, the VicePresident of Tanzania, and the President of the Commission of the African Union. Ministerial delegations


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were sent by the governments of Angola, Algeria, Ethiopia, and Morocco. Other African countries were represented by their ambassadors posted in Brasilia. At the end of the session, deserved honor was paid to Senator Abdias Nascimento, historic leader of the Black Movement in Brazil. In the three days of meetings, co-presided over by Minister Gilberto Gil and Speaker of the South African Assembly (1994-2004) Frene Ginwala, three round tables, twenty-five thematic discussion groups, and three plenary sessions took place. The exercise permitted the conference participants to tackle a number of themes related to the African Renaissance and the appreciation of populations in the Diaspora, including among others, the areas of education, science and technology, health, economy, history, human rights, literature, philosophy, religion, art, cinema, multi-lateral cooperation, social policies, youth, and new cultural expressions. A parallel cultural program accompanied the Conference with film showings, expositions of art and photography, musical performances, and workshops for students. Additionally, the Palmares Cultural Foundation, with the aid of SEPPIR, organized, on the July 15 and 16, in the Vice-Chancellor’s Auditorium at the Federal University of Bahia (UFBA) and in the Caetano Veloso Auditorium at the State University of Bahia (UNEB), the social forum of CIAD II, uniting representatives of the Black Movement and Brazilian and foreign intellectuals for discussion about issues such as the prison problem in Brazil, the situation of women, and the need for closer contact between African-descended communities in Latin America and the Caribbean. A total of two hundred sixty panelists, coming from fifty-three countries, participated in CIAD II. Besides these, various intellectuals, artists, and foreign students, many of whom had never been to Brazil, were in Salvador. It is estimated that the plenary events were attended by a public numbering eight hundred persons per session, while the Thematic Groups attracted nearly two thousand participants. In the parallel cultural activities, which took place from July 11-15, the public exceeded, approximately, thirty thousand a day. At the end of the sessions, the Salvador Declaration was approved. Among the themes included in the document, the following deserve special applause by the public in attendance: (a) The support of affirmative action policies and the adoption of quotas in the universities for

da Sessão, prestou-se merecida homenagem ao Senador Abdias Nascimento, líder histórico do movimento negro brasileiro. Nos três dias de trabalhos, co-presididos pelo Ministro Gilberto Gil e pela deputada sul-africana Frene Ginwala, foram realizadas três mesas redondas de alto nível, 25 mesas de debate em grupos temáticos e três sessões plenárias. O exercício permitiu aos conferencistas abordarem uma pluralidade de temas relacionados ao renascimento africano e a valorização das populações da Diáspora, abrangendo, entre outras, as áreas da educação, ciência e tecnologia, saúde, economia, história, direitos humanos, literatura, filosofia, religião, arte, cinema, cooperação multilateral, políticas sociais, juventude e novas expressões culturais. Uma programação cultural paralela acompanhou a Conferência, com mostras de cinema, exposições de arte e fotografia, shows musicais e oficinas para estudantes. Adicionalmente, a Fundação Cultural Palmares, com o apoio da SEPPIR, organizou, nos dia 15 e 16 de julho, no auditório da reitoria da UFBA e auditório Caetano Veloso da UNEB, o Fórum Social da II CIAD, reunindo representantes do movimento negro e intelectuais brasileiros e estrangeiros para debates sobre questões como o problema penitenciário no Brasil, a situação da mulher e a necessidade de um contato mais estreito entre as comunidades afro-descendentes latino-americanas e caribenhas. Participaram da II CIAD, ao total, 260 palestrantes, vindos de 53 países. Além deles, estiveram em Salvador diversos intelectuais, artistas e estudantes estrangeiros, muitos dos quais jamais tinham estado no Brasil. Estima-se que os eventos em plenário tenham contado com um público médio de 800 pessoas por sessão, havendo os grupos temáticos atraídos cerca de 2.000 participantes. Nas atividades culturais paralelas, realizadas de 11 a 15 de julho, o público presente ultrapassou a marca das 30 mil pessoas por dia. Ao final dos trabalhos, foi aprovada a Declaração (CARTA) de Salvador. Entre as propostas constantes do documento, mereceram especial aclamação por parte do público presente: (a) O apoio às políticas de ação afirmativa e à adoção de quotas nas universidades para estudantes afro-descendentes; (b) O pedido da adoção de políticas específicas para a melhoria da condição da mulher. Reunir a um só tempo chefes de estado, intelectuais, militantes, representantes dos mais diversos segmentos para um pensar coletivo sobre o futuro de tantas Nações e os seus povos, com as suas singularidades e diversidades, na busca de um caminhar em comum, não poderia ser uma obra a ser


concluída em apenas alguns dias. A II CIAD continua a ocupar mentes por todos os continentes, ávidas pela construção desse futuro. Propostas enriquecedoras chegam ao Governo Brasileiro e à Comissão da União Africana, num desdobramento natural das discussões que resultaram na Carta de Salvador. Um movimento que vai prosseguir e que, sem dúvida alguma, vai alimentar de forma enriquecedora a III CIAD, em 2008, em Dakar. São propostas que apontam para necessidades de: - criar mecanismos institucionais que reforcem a solidariedade entre a África e os países da diáspora. - incrementar o intercâmbio de estudantes entre esses países; - realizar estudo sobre o papel da mulher nas sociedades africanas; - implementar programas de conscientização da cidadania para mulheres; - instituir programas que difundam entre as crianças valores básicos e princípios tais como a dignidade, a resistência à opressão, a democracia e a importância do trabalho; - desenvolver uma rede pan-africana de intelectuais; - adotar medidas para maior conscientização internacional sobre os problemas do racismo e da exclusão dos afro-descendentes; - envidar esforço conjunto África - Diáspora para a sistematização de dados históricos e econômicos, visando a sua inclusão nos currículos escolares; - promover o acesso das mulheres às necessidades sociais de base, tais como saúde, educação e cultura; - institucionalizar as perspectivas de gênero e eqüidade nas universidades; - assegurar uma maior participação das mulheres nas instâncias decisórias governamentais e de implementação dessas decisões; - garantir a administração adequada dos recursos naturais, partilhados eqüitativamente, através de uma governança participativa; - promover uma maior integração dos segmentos excluídos da população, de modo a se combater fontes potenciais de conflitos sociais, e vetores do terrorismo e do crime organizado; - ampliar o espaço democrático, mediante o reconhecimento da diversidade e da pluralidade; - incentivar o aumento de atividades que facilitem o conhecimento mútuo e intercâmbio artístico e intelectual entre a África e da Diáspora; - ampliar os meios de comunicação entre a África e a Diáspora, mediante maiores investimentos nas áreas de trans-

students of African descent; (b) The plea for the adoption of specific policies for the bettering of the condition of women. To unite, at one time, Heads of State, intellectuals, militant representatives of the most diverse segments of the community for a collective meditation on the future of so many nations and their peoples, with their peculiarities and differences, in search of a common path, could not have been a task to be concluded in only a few days. CIAD II continues to occupy the minds of all the continents, eager to construct that future. As a natural outcome of the discussions, enriching proposals reached the Brazilian government and the Commission of the African Union which then resulted in the Salvador Declaration. A movement that will continue and that, without any doubt, will nourish, in a positive way, CIAD III in 2008, in Dakar. They are proposals that underscore the need to - create institutional mechanisms that reinforce solidarity between Africa and the countries of the Diaspora; - increase student exchange between these countries; - undertake studies about the role of women in African societies; - implement awareness-raising programs on citizenship for women; - institute programs that disseminate to children basic values and principles such as dignity, resistance to oppression, democracy, and the importance of work to children; - develop a Pan-African network of intellectuals; - adopt means for better international awarenessraising about the problems of racism and the exclusion of those of African descent; - endeavor, along with Africa – Diaspora, to systemize historic and economic facts, aiming for their inclusion in school curriculums; - promote the access of women to basic social necessities, such as health, education, and culture; - institutionalize perspectives of gender and equity in the universities; - assure greater participation by women in decisive governmental issues and the implementation of such decisions; - guarantee the adequate administration of natural resources, shared equitably, through “participatory governance”; - promote better integration of the excluded sectors of the population as a way of combating the potential sources of social conflicts, and threats of terrorism and organized crime; - increase democratic space, through the recogni-


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tion of diversity and plurality; - provide incentives for the increase of activities that facilitate artistic and intellectual mutual understanding and exchange between Africa and its Diaspora; - increase the means of communication between Africa and her Diaspora, by means of better investments in the areas of transportation, radio, television, telephone, and digital inclusion; - establish a political agreement between Africa and its Diaspora, devoted to the promotion of development, citizenship, and the well-being of their peoples; - promote security, having in mind human rights, adequate education, and a healthy environment, among other basic items of survival; - secure resources that assure international collective action, adequate for the solution of conflicts; - recognize the role of intellectuals and provide incentives for them to participate in decisionmaking in the governmental sphere; - deepen good governing, transparency, and respect for human rights, as indispensable factors for assuring sustainable economic development; - study means of reparation for those of African descent whose ancestors were victims of the confiscation of liberty and submitted to slavery; - monitor the implementation of recommendations of the Durban Conference; - provide incentives for better coordination between tradition and modernity, devoted to the demonstration of the compatibility between the universal values of liberty and equality and the particular institutions in each locality; - guarantee the expansion and bettering of education at the primary and secondary levels, as well as in technical schools and universities; - demand the establishment of a true democratic system, on the international level, with the reform of the system of the United Nations and of the Security Council; - provide incentives for exchange in areas of knowledge, such as history, culture, and economic development; - consider respect to cultural diversity as a fundamental value of philosophical knowledge in the Diaspora and on the African continent; - recognize, in the social sciences, the importance of traditional values, without making them something turned over to conservatism, but rather to the affirmation of identity;

porte, rádio, televisão, telefonia e inclusão digital; - estabelecer um pacto político entre a África e sua Diáspora, voltado para a promoção do desenvolvimento, cidadania e bem-estar dos seus povos; - promover a segurança, contemplando os direitos humanos, a educação adequada e o ambiente saudável, entre outros itens básicos de sobrevivência; - captar recursos que assegurem uma ação coletiva internacional adequada na prevenção e solução de conflitos; - reconhecer o papel dos intelectuais e incentivá-los a participar das tomadas de decisões na esfera governamental; - aprofundar a boa governança, transparência e respeito aos direitos humanos, como fatores indispensáveis para assegurar um desenvolvimento econômico sustentável; - estudar medidas de reparação em prol dos afro-descendentes, cujos ancestrais foram vítimas de privação de liberdade e submetidos à escravidão; - monitorar a implementação das recomendações da Conferência de Durban; - incentivar uma melhor articulação entre tradição e modernidade, voltada para a compatibilização entre os valores universais da liberdade e da igualdade e as instituições peculiares de cada local; - garantir a expansão e melhoria da educação nos níveis primários, secundários, mas também nos ramos técnicos e universitários; - reivindicar o estabelecimento de um verdadeiro sistema democrático, em nível internacional, com a reforma do sistema das Nações Unidas e do Conselho de Segurança; - incentivar o intercâmbio em áreas do conhecimento, tais como a história, a cultura e o desenvolvimento econômico; - tomar o respeito pela diversidade cultural como valor fundamental do saber filosófico na Diáspora e no Continente; - reconhecer, nas ciências sociais, a importância dos valores tradicionais, sem deles fazer algo voltado para o conservadorismo, mas sim para a afirmação da identidade; - considerar a reserva de vagas não apenas como uma política de estado para resolver desigualdades, mas também como um meio de promover e viabilizar a produção de um conhecimento feito com o protagonismo da população negra; - avançar em direção a um multilingüismo funcional complementar, em que as “línguas mães” dos povos africanos tenham precedência, mas sem abandonar o conhecimento de uma segunda língua, que permita a comunicação com o mundo;


- descolonizar a História, mediante um balanço sem complacência das idéias motoras que norteiam a consciência histórica na África e na Diáspora, ou seja: as relações dos africanos e de seus descendentes consigo mesmos e com o resto do mundo; - caminhar no sentido de uma história não territorial do Brasil, que se estenda até o Atlântico Sul e considere as influências africanas; - tornar obrigatório o ensino da cultura africana, a fim de combater as raízes do racismo no próprio sistema educacional; - valorizar as religiões, línguas e expressões culturais de matriz africana nos dois lados do Atlântico sem o que não pode haver renascimento africano, nem na África nem na Diáspora; - proteger e assegurar a permanência das tradições religiosa, dos orixás, voduns e inquices na África e na Diáspora; - combater a intolerância religiosa, pondo fim às perseguições e à demonização das divindades tradicionais e espíritos ancestrais; - construir políticas de aproximação entre intelectuais e pesquisadores africanos que estão na Diáspora e aqueles que se encontram na África; - incentivar a construção de novos programas de cooperação para o intercâmbio da produção científica sobre África; - priorizar a relação entre as universidades africanas e da Diáspora, incentivando intercâmbios entre programas de graduação, pós-graduação e pesquisa; - aumentar a cooperação no combate a endemias e nas políticas e programas de saúde básica; - fomentar a produção e intercâmbio de ciência e tecnologia em áreas como transportes, construção civil, eletrônica, micro-biologia, produtividade agrícola e energia; - incluir a sociedade civil organizada nas diversas esferas da cooperação, indo além da esfera governamental; - promover a cooperação científica e tecnológica Sul-Sul; - ampliar a produção dos institutos de pesquisas e recursos financeiros destinados à pesquisa; - assegurar condições adequadas de trabalho, de carreira e de produção do conhecimento para os intelectuais africanos e intelectuais negros da Diáspora; - incentivar políticas editoriais que possibilitem a circulação dos conhecimentos produzidos na África e na Diáspora; - facilitar o trânsito de intelectuais e artistas entre a África e a Diáspora, especialmente no que se refere a vistos e autorizações de trabalho; - seguir lutando contra a pobreza e melhorando os indicadores sociais, nos países africanos e da Diáspora, com especial

- consider a quota system not solely as a state policy meant to resolve inequalities, but also as a method of promoting and making the production of a knowledge proffered by the leadership of the Black population viable; - move towards a common root, functional multilingual system in which the “mother languages” of African peoples have precedence, but without abandoning the knowledge of a second language, that permits communication with the world; - decolonialize history by means of an unflinching assessment of the driving ideas that guide historical awareness in Africa and in the Diaspora, that is, the relations between Africans and their descendents, and together with the rest of the world; - go in the direction of a non-territorial history of Brazil that extends itself across the south Atlantic and considers African influences; - make the teaching of African culture mandatory, with the aim of combating the roots of racism in the educational system; - value African-rooted religions, languages, and cultural expressions, on both sides of the Atlantic, without which there could be no African Renaissance, neither in Africa nor in the Diaspora; - protect and insure the permanence of religious traditions and divinities (orishas, voduns, and inquices) in Africa and its Diaspora; - combat religious intolerance, putting an end to the persecutions and the demonization of traditional divinities and ancestral spirits; - build cooperative policies between African intellectuals and researchers in the Diaspora and Africa; - provide incentive for the construction of new cooperative programs for the exchange of scientific production on Africa; - prioritize the relationship between African and Diaspora universities, providing incentives for exchanges among undergraduate, graduate, and research programs; - increase cooperation in the fight against endemics and in the policies and programs of basic health; - encourage the production and exchange of science and technology in areas such as transportion, civil construction, electronics, micro-Biology, agricultural productivity, and energy; - include civil society organized in diverse spheres of cooperation, going beyond the governmental sphere; - promote South-South scientific and technological cooperation;


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- increase the number of research institutes and financial resources dedicated to research; - insure adequate conditions for work, career, and the production of knowledge for African intellectuals and Black intellectuals in the Diaspora; - provide incentives for editorial policies that make the circulation of knowledge produced in Africa and its Diaspora possible; - facilitate the movement of intellectuals and artists between Africa and its Diaspora, especially in terms of visas and work permits; - continue struggling against poverty and bettering social indicators, in African and Diaspora countries, with special attention to anti-discrimination laws and affirmative action policies; - consolidate the five regions of the African continent, marking the Diaspora as the sixth African region. It is a movement! It deals with, as one can see, an ambitious plan that requires the construction and implementation of solid policies, devoted to the long haul. The government of President Lula stands ready, seeking to anticipate many of these demands, promoting pioneering initiatives on the national as well as international scene. It is, however, necessary to emphasize the participation of intellectuals, students, and the representative of civil society who took part in CIAD II for having produced, in their reflective task, a platform capable of projecting Brazil and its partners in Africa and the Diaspora in the direction of a more just and dynamic future.

*Marcelo O. Dantas received a degree in Economics from the Federal University of Rio de Janeiro. He was in charge of the Steering Committee for CIAD II. A career diplomat he served as economic adviser in Brazilian embassies in Washington, D.C., Mexico City, and Lisbon. He was an advisor for in the areas of Education, Culture, and the Promotion of the Portuguese Language in the Executive Secretariat of CPLP. At present, he heads the Division of Multilateral Cultural Matters in the Ministry of Foreign Affairs

atenção para as leis anti-descriminação e as políticas de ação afirmativa; - consolidar as cinco regiões do continente, destacando a Diáspora como sexta região africana. É um movimento! Trata-se, como se vê, de um programa ambicioso, que requer a construção e implementação de políticas sólidas, voltadas para o longo prazo. De sua parte, o governo do Presidente Lula vem já buscando antecipar-se a muitas dessas demandas, promovendo iniciativas pioneiras tanto no plano interno, quanto no cenário internacional. Mas é preciso ressaltar a atuação dos intelectuais, estudantes e representantes da sociedade civil que participaram da II CIAD por haverem produzido, em seu esforço de reflexão, uma plataforma capaz de projetar o Brasil e seus parceiros da África e da Diáspora em direção a um futuro mais justo e dinâmico.

*Marcelo O. Dantas é formado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi o responsável pelo Núcleo de Coordenação da II CIAD. Conselheiro da carreira diplomática serviu nas embaixadas do Brasil em Washington, Cidade do México e Lisboa. Foi assessor para Temas de Educação, Cultura e Promoção da Língua Portuguesa no Secretariado Executivo da CPLP. Atualmente chefia a Divisão de Assuntos Multilaterais Culturais do Ministério das Relações Exteriores


O novo cavalo de Tróia

The New Trojan Horse

José Carlos Capinan*

José Carlos Capinan*

“O negro esfarrapado do Harlem Ó negro dançarino de Chicago Ó negro servidor do South Ó negro de África Negros de todo o mundo Eu junto ao vosso canto A minha pobre voz Os meus humildes ritmos...” A II Conferência dos Intelectuais da África e da Diáspora deixou uma poderosa convocação aos milhões de afro-descendentes que por muitas razões ficaram despossuídos ao final do século e após o grande movimento político de libertação colonial, empreendido no continente africano. Uma convocação para construirmos um sentimento de bandeiras unificadoras, capaz de propagar, não somente suas vozes, mas o espírito que os leva a buscar o objetivo de reconquistar o que lhes foi seqüestrado desde quando foram dispersos como escravos pelo mundo. Tinha que ser na Bahia (onde ainda é encontrada viva e cultivada a sabedoria dos ancestrais africanos), o despertar deste sentimento que não foi esquecido durante a guerra de libertação de Angola, Moçambique e demais colônias européias no continente Africano. É o mesmo sentimento libertário, contidos nos versos do imortal poeta Agostinho Neto, líder revolucionário da luta de descolonização de Angola. Sinto que Agostinho, Senghor, Amílcar Cabral e os poetas da guerra de libertação estiveram presentes neste II Ciad. A história recente do negro pós-libertação colonial é dramática, porque os transformou em solitários indivíduos, sem pistas para retomar os que lhes foi cerceado a ver, sem parâmetros para entender o caminho que os dispersou no planeta, destruindo sua formidável herança política e cultural. Esta solidão produz um efeito despersonalizador, sem chances de sentir-sedono do amor próprio como grande responsável pela fecundação das culturas que os seqüestraram, renovando-as e permitindo que chegassem à contemporaneidade com o poder que alcançaram, usando saberes, sentires e fazeres seqüestrados dos escravos negros, além das riquezas naturais que pilharam de seus territórios. Agostinho Neto e os poetas que cantaram na África o momento do renascimento, arrancando do império europeu a sua

The ragged Blackman from Harlem Oh, Black dancer from Chicago Oh, Black servant from the South Oh, Blackman from Africa Blacks from the world over I join in your song My poor voice My humble rhythms… The second Conference of Intellectuals from Africa and its Diaspora, which took place in Salvador, Bahia, July 11-14, 2006, left a powerful appeal to the millions of Afro-descendents who, for many reasons, remained dispossessed at the end of the century, after the great political movement for colonial liberation that was undertaken on the African continent, flags fusing the sentiment that ran through all who felt the lack of an identity capable of unifying not only their voices but the spirit that carries them on the quest to ultimately re-conquer that which was taken from them when they were dispersed as slaves throughout the world. CIAD had to take place in Bahia, where the knowledge of the African ancestors is still found alive and cultivated. The awakening of this sentiment that was not forgotten during the war of liberation in Angola, Mozambique, and the other European colonies on the African continent, a point well made in the verses of the immortal poet Agostinho Neto, a revolutionary leader in the anti-colonial struggle in Angola. I feel that Agostinho, Senghor, Amílcar Cabral, and the poets of the war for liberation were present at this CIAD II. The recent history of the post-liberation, colonial black persons is dramatic because it transformed them into solitary individuals, depersonalized and without tracks to retrace the route, blocked from their view and understanding, that dispersed them around the planet, destroying their formidable political and cultural inheritance. This solitude produced a depersonalizing effect, robbing the self-esteem of agents largely responsible for the reproduction of purloined cultures, renewing and allowing them to come into the contemporary age with the power that they had attained, using knowledges, feelings, and ways of doing things seized from Black slaves. Beyond the natural resources pillaged from their territories. Agostinho Neto and the poets who sang the


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moment of rebirth in Africa, snatching their independence from the European empire, perceived, as the poem Epigrafe (Epigraph) says so well, that Africa was a human territory greater than the limits of the continent. The same vision that motivates the Conference of Intellectuals from Africa and its Diaspora to include this vast territory outside of Africa, no longer like a scattered legacy, but rather as a powerful political and cultural movement, that can be brought together to set the stage for a new African revolution once again. A revolution for the return of those whose hearts and minds can be touched by this appeal for the inclusion of an Africa that desires unification and rebirth, not in the way that aid movements seek to offer them an Africa that, after secular and merciless looting, is the specter of rich nations, shown today as victims of hunger and of AIDS. The African Renaissance does not call for the pity or the guilt of those who robbed them of their riches and destroyed the cultural wellsprings of their ancestry. And the dramaturgy for this renaissance again encounters, in the concept of the Diaspora, a vigorous manner of cementing the pollen that was dispersed by the slave ships onto diverse continents and cultures, to wherever the Black was carried, to plant, build, to create works of art, do domestic service, mine, and produce the wealth of the rich countries. Treated as objects that were obliged to forget that they had a name, a native culture, and their own imaginary, not to mention knowledge and techniques, without which the imperialist slavetocracies of the developed world could have attained the present-day status of power-brokers of the new world order. The dramaturgy of calling together peoples of African descent is as clever as was Black resistance during the slave regime, thanks to syncreticism. To give Blacks in the Diaspora the status of African territory outside of Africa is a great insight, which gives to each Black a new citizenship in a world that insists on denying them the status of humanity. It is a new Trojan Horse, inside the extra-African territories, a gift of new African intelligence to the contemporary world. Oh, Black from Harlem and from all the places in the world, wherever their hearts and minds may be, there is our lost continent, the selfsame planet that you initially populated, giving it homo-sapiens. Where is your religious community, your church,

independência, perceberam, como bem diz o poema Epígrafe, que a África era um território humano que estava além dos limites do continente. A mesma visão que se fez querer a Conferência dos Intelectuais da África e da Diáspora, de incluir este vasto território fora da África, não mais como um disperso legado, mas como poderoso movimento político e cultural, que pode ser agregado para retomar a dramaturgia de uma nova revolução africana. Uma revolução no refluxo dos que podem ser alcançados na mente e no coração por este apelo à inclusão de uma África que quer unificação e renascimento (não pelo caminho que lhes querem oferecer os movimentos de socorro que, após seculares e impiedosos saques, é o espectro de nações ricas, mostrando hoje uma África vítima da fome e da Aids). O renascimento africano não apela piedade ou a culpa dos que lhes roubaram suas riquezas e destruíram as fontes culturais de sua ancestralidade. E a dramaturgia para este renascimento reencontra no conceito da diáspora um vigoroso meio de aglutinação do pólen que foi disperso pelos navios negreiros nos diversos continentes e culturas para onde o negro foi levado para plantar, construir, fazer obras de artes, serviços domésticos, minerar e produzir a riqueza dos paises ricos. Tratados como coisas, obrigados a esquecer que tinham um nome, uma cultura de origem e um imaginário próprio, o negro africano, mesmo assim, deu mais que a sua força de trabalho. Ele semeou conhecimentos e técnicas de fazer, sem os quais, as nações escravocratas e imperialistas do mundo desenvolvido não teriam alcançado o estágio atual de poderosos da nova ordem mundial. A dramaturgia de convocar os afro-descendentes é tão inteligente quanto foi a resistência negra no regime escravo, através do sincretismo. Dar aos negros da diáspora o estatuto de território africano fora da África é um grande insight, que vai representar para cada negro, uma nova cidadania num mundo que teima em lhes negar o estatuto de humanidade. É um novo Cavalo de Tróia, dentro dos territórios extra-africanos, um presente da nova inteligência africana à contemporaneidade. Ó negro do Harlem e de todos os lugares do mundo, onde esteja seu coração e sua mente, aí está o nosso continente perdido, o próprio planeta que inicialmente fecundastes, dando a ele o homo sapiens. Onde está o seu terreiro, a sua igreja, a sua canção, o pé que acaba de marcar um gol no Brasil, a mão que bate um tambor em Cuba ou o esforço que ganha uma maratona na última Olimpíada?


Está na perfumada essência que exala de uma moqueca, de um acarajé e aguça o apetite da cidade do Salvador. Está na voz do Harlem, nas ruas de Paris, nas escolas da rua e nas universidades. Não cessa de pulsar a origem e a força dos ancestrais a jorrar sem parar, semeando a força sem freio que identifica com a vida a presença dos negros no mundo contemporâneo. E o grande rio por onde nos trouxeram amarrados há de ser agora o grande rio do pensamento e do desejo a retornar em marés incontidas, cheias de amor próprio, conhecimento e vitoriosas histórias, ao lugar de onde saímos a repensar o mundo. O grande rio que vai nos levar, não só a participar do inevitável renascimento africano, mas também a propor à humanidade o verdadeiro encontro com a paz e o desenvolvimento, baseado num novo estado sem preconceito, que possa dar à humanidade a razão que lhe falta para que possa ser chamada verdadeiramente de humanidade: o reconhecimento das diferenças, que nos fará a todos, iguais.

*José Carlos Capinan é graduado em Medicina, Direito e em Artes Cênicas, Direção e Interpretação pela Universidade Federal da Bahia, poeta, escritor, compositor, publicitário, jornalista, produtor musical, cineasta, ex-secretário de Cultura do Estado da Bahia

your song, the foot that just scored a goal in Brazil, the hand that beats a drum in Cuba, or the effort that wins a marathon in the last Olympics Games? It is in the perfumed essence that a savory moqueca stew or a fried acarajé that whets the appetite of the city of Salvador. It is in the voice of Harlem, in the streets of Paris, in the schools and in the universities. Ceaselessly pulsating with the origin and the force of ancestors, it gushes non-stop, disseminating the force that identifies the presence of Blacks with life in the contemporary world. And the river, or which they brought us, bound, should now be the great river of thought and desire, the return, on boundless seas, full of self-esteem, knowledge, and victorious histories, to the place from which we set out, not only to participate in the inevitable African Renaissance, but also to contemplate the world. And, to propose to humanity a true encounter with peace and development based on a new state, free from prejudice, that could give humanity the missing reason for acknowledging another’s humanity: the recognition of differences, so that we may all be equal.

*José Carlos Capinan is a graduate of Medicine, Law, and Scenic Arts, Direction, and Interpretation from the Federal University of Bahia, poet, writer, composer, advertising executive, journalist, musical producer, filmmaker, former Secretary of Culture of the state of Bahia


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Brazil on the Route of Pan-Africanism

O Brasil na rota do pan-africanismo

Carlos Alberto Medeiros*

Carlos Alberto Medeiros*

In its contemporary version, the idea of PanAfricanism consists in the existence of common ties of cultural and historical order between African peoples and those of African descent, and these ties necessarily serve as the basis for the construction of common strategies for confronting the multiple problems set in motion by chattel slavery, colonialism, and racism. In contrast to the distorted interpretation of those who intend to associate this idea, of progressive or libertarian character, to a racial “essentialism” that foments hatred and division, the Pan-African ideal, as expressed a little less than a century ago by the great Afro-American thinker, W.E.B. DuBois, who emphasized the solidarity of peoples of African origin, not in order to segregate themselves from the greater human community, but rather with the objective of better integrating themselves into that community, recognizing and appreciating their characteristics and contributions to the common patrimony of all human beings, and at the same time, guaranteeing their equalitarian participation in sharing this patrimony. Pan-Africanism is a key-idea in the conception of an event such as the Conference of Intellectuals from Africa and its Diaspora – CIAD, whose second meeting took place in the city of Salvador, Bahia between July 12-14, 2006. Under the banner of African Renaissance – a movement born in South Africa in the 1990s with the aim of stimulating African peoples and those of African descent to collectively seek effective solutions to the problems that affect them, historians, writers, economists, social scientists, politicians, and activists from countries in Africa, the Americas, and Europe gathered to share their visions about general and specific issues and also to share their proposals for overcoming the difficulties confronted by their national communities. From the point of view of Brazil, it is worth underscoring two important and interrelated aspects. One of these was the support of the federal government, through Itamaraty and the Ministry of Culture, which made the realization of this event possible. We can see in this an important landmark in a country that, despite flaunting the stamp of African origin, not only in culture, but in the phenotype of a large number of its inhabitants, always looked in askance, at least in official circles, at the realization

Em sua versão contemporânea, a idéia de pan-africanismo, ou seja, de que existem laços comuns, de ordem cultural e histórica, entre os povos africanos e afro-descendentes, é a de que esses laços devem servir de base à construção de estratégias comuns para o enfrentamento dos múltiplos problemas gerados pela escravidão, o colonialismo e o racismo. Diferentemente da interpretação distorcida dos que pretendem associar essa idéia, de caráter progressista e libertário, a um “essencialismo” racial fomentador de ódios e divisões, o ideal pan-africano, como já o exprimia, pouco menos de um século atrás, o grande pensador afro-americano W.E.B. DuBois, enfatiza a solidariedade dos povos de origem africana, não para apartá-los do conjunto maior da humanidade, mas com o objetivo de melhor inseri-los nesse conjunto, reconhecendo e valorizando as suas características e contribuições ao patrimônio comum de todos os seres humanos, e simultaneamente garantindo a sua participação igualitária na partilha desse patrimônio. O pan-africanismo é uma idéia-chave na concepção de um evento como a Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora – CIAD, cuja segunda edição se realizou na cidade de Salvador, Bahia, entre os dias 12 e 14 de julho de 2006. Sob o signo da Renascença Africana – movimento nascido na África do Sul, na década de 1990, com o propósito de estimular os povos africanos e afro-descendentes a buscarem, coletivamente, soluções efetivas para os problemas que os afetam –, historiadores, escritores, economistas, cientistas sociais, políticos e militantes de países da África, da América e da Europa se reuniram para expor suas visões relativas a questões particulares e comuns, e também suas propostas para a superação das dificuldades enfrentadas por suas comunidades nacionais. Do ponto de vista do Brasil, cabe ressaltar dois aspectos importantes e inter-relacionados. Um deles foi o apoio do Governo Federal, via Itamaraty e Ministério da Cultura, que possibilitou a realização do evento. Podemos ver nisso um marco importante num país que, apesar de ostentar a marca da origem africana não apenas na cultura, mas no fenótipo de grande parte de seu povo, sempre encarou com desconfiança, ao menos no plano oficial, a realização de eventos dessa natureza, no temor de que neles se pudessem desmascarar as práticas discriminatórias que teimam em caracterizar o nosso quotidiano. Abdias Nascimento mostra muito bem como isso


funcionava em seu pungente Sitiado em Lagos, onde narra as vicissitudes por que passou na capital nigeriana durante o I Festival Internacional de Arte e Cultura Negra... O segundo aspecto importante, intimamente relacionado ao primeiro, é a oportunidade de se realizar um evento desse tipo no Brasil num momento em que o nosso país parece estar despertando da inércia secular que o impedia de reconhecer a existência e a importância da questão racial e, assim, de encaminhar soluções capazes de aliviar o fardo existencial dos afro-brasileiros e acenar-lhes com uma perspectiva de redenção. Nesse sentido, o fato de, poucos dias antes da abertura da CIAD, terem sido entregues aos presidentes da Câmara e do Senado Federal dois abaixo-assinados, um contra, outro a favor dos projetos de lei que estabelecem o Estatuto da Igualdade Racial e adoção de cotas para negros em todas as universidades públicas federais contribuiu para realçar o evento, dando-lhe uma dimensão que, sem isso, ele certamente não teria. Desse ponto de vista, a manifestação da juventude negra, na cerimônia de encerramento da CIAD, cantando o hino do Congresso Nacional Africano, intercalado com gritos de “cotas já”, representou o fecho de ouro do evento, amplificando suas repercussões para além do previsível. Cabe ressaltar, finalmente, a importância do CIAD Cultural, que propiciou um momento adicional de intercâmbio de idéias e experiências entre nós brasileiros e nossos irmãos e irmãs africanos e diaspóricos. Pudemos estabelecer ali um contato mais próximo com pessoas responsáveis por ações, projetos e programas quase sempre muito próximos daqueles em que estamos engajados, estabelecendo vínculos que ultrapassam as relações intergovernamentais ou interinstitucionais – fundamentais, mas insuficientes – para se estabelecerem no âmbito interpessoal cujo valor não pode ser desprezado.

*Carlos Alberto Medeiros é graduado em Comunicação e Editoração (UFRJ); mestre em Ciências Jurídicas e Sociais (UFF) e doutorando em Ciências Sociais (UERJ); ex-subsecretário de Estado de Integração Racial; autor de Na lei e na raça. Legislação e relações raciais, Brasil e co-autor (com Jacques d’Adesky e Edson Borges) de Racismo, preconceito e intolerância

of events of this type, fearing that they might unmask the discriminatory practices that continue to characterize our daily existence. Abdias Nascimento shows very well how this functioned in his cutting book Sitiado em Lagos (Besieged in Lagos) where he narrates the ups and downs he experienced in the Nigerian capital during the first International Festival of Black Art and Culture. The second important aspect, intimately related to the first, is the opportunity of realizing an event of this type in Brazil at a time when our country seems to be waking from a century-long inertia that has impeded the recognition of the existence and the importance of the racial issue and, concomitantly, the ratification of solutions capable of lightening the existential burden of Afro-Brazilians and to promise them a perspective of redemption. In this sense, the fact that a few days before the opening of CIAD two petitions were delivered to the presidents of the House of Representatives and of the Senate, one against, the other in favor of proposals for a law that would establish the Statute of Racial Equality and the adoption of quotas for Blacks in all public federal universities which contributed to highlight the event, lending it a dimension that, without this, it certainly would not have had. From this point of view, the protest of the Black youth, at the closing ceremony of CIAD, singing the hymn of the National African Congress, mixed with shouts of “quotas now” represented the key moment of the event, broadening its ramifications beyond those predicted. Finally, it is worth underscoring the importance of CIAD Cultural which provided additional moments for the exchange of ideas and experiences between us Brazilians and our African and diasporic brothers and sisters. There, we were able to establish closer contact with people responsible for actions, projects, and programs almost always very close to those in which we are involved, establishing ties that go beyond, fundamental but insufficient, intergovernmental or inter-institutional relations, in order to, on the interpersonal level, cement ties whose importance cannot be underestimated. *Carlos Alberto Medeiros is a graduate in Communications and Publishing; holds a masters in Social and Legal Sciences (UFF) and a doctorate in Social Sciences (UERJ); is the author of Na lei e na raça Legislação e relações raciais, Brasil - Estados Unidos (Rio de Janeiro: DP&A, 2004) and co-author (with Jacques d’Adesky and Edson Borges) of Racismo, preconceito e intolerância (São Paulo: Atual, 2002; 4a ed., 2005). He has held various public positions on the state and federal level including State Sub-Secretary fro Racial Integration (1999) and Technical Advisor to the Federal Senate


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The Need for a Political Agreement Between Africa and the Diaspora Edna Maria Santos Roland* The United Nations hosted the third meeting of the World Conference Against Racism, Racial Discrimination, Xenophobia, and Related Intolerance, in Durbin, South Africa, from August 31 - September 8, 2001, after a series of preparatory events over a period of approximately two years. The Conference ended a day later than planned, after a long and tense process, during which the United States and Israel left the negotiating table, alleging that the Conference harbored anti-Semitic points of view. Three days later, the twin (World Trade Center) towers in New York City collapsed as the result of a terrorist attack, initially leading some of us in Durbin to suspect a relationship between the two events. The earlier facts demonstrated that, without a doubt, there is a relationship between the Conference and the attack on 9/11. Not so much a direct and mechanical relationship as was suspected, but rather, from the viewpoint that the very organization of the conference was determined by the growing number of tensions resulting from ethnic and racial conflicts in all most regions of the globe, conflicts that likely were the reason behind the terrorist attack. On September 8, 2001, the international community, gathered in the symbolic city of Durbin, South Africa, concluded the process of negotiation, signing the Durbin Declaration and Plan of Action which was the result of the third meeting of the World Conference Against Racism, Racial Discrimination, Xenophobia, and Related Intolerance. Many were the benefits, as far as they went, despite everything, of signing this historic document: the debate about chattel slavery and the traffic of slaves and their consequences – the discussion of reparations; the debate about the conflict in the Middle East; the debate about which conditions within the international community would determine our perception of racial discrimination and which conditions, combined with racial discrimination, would be seen as responsible for what we conventionally call grievous discrimination. The four points of divergence that blocked consensus reflect in some way some of the challenges raised by the issue of the need for an agreement

A Necessidade de um Pacto Político entre a África e a Diáspora Edna Maria Santos Roland*

A Organização das Nações Unidas realizou a III Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, em Durban – África do Sul, de 31 de agosto a 8 de setembro de 2001, após uma seqüência de eventos preparatórios durante cerca de dois anos. A Conferência terminou um dia além do previsto, após um longo e tenso processo, durante o qual os Estados Unidos e Israel abandonaram a mesa de negociações, sob a alegação de que a Conferência abrigava pontos de vista anti-semitas. Três dias depois, as torres gêmeas de Nova York desabavam sob um ataque terrorista, levando inicialmente alguns de nós que estivemos em Durban a suspeita de que os dois fatos estivessem relacionados. Os fatos posteriores demonstraram que, sem dúvida, há uma relação entre a III Conferência e o ataque de 11 de setembro. Não, todavia, uma relação direta e mecânica como se chegou a pensar, mas a partir da compreensão de que a realização da Conferência foi determinada pelo aumento crescente da tensão resultante de conflitos étnicos e raciais em todas as regiões do globo, conflitos estes que estiveram na origem do ataque terrorista. No dia 8 de setembro de 2001, a comunidade internacional, reunida na simbólica cidade de Durban, na África do Sul, concluiu o processo de negociação, firmando-se a Declaração e Programa de Ação de Durban, que resultou da III Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata. Muitos foram os percalços para que se pudesse, apesar de tudo, chegar à assinatura desse histórico documento: o debate acerca da escravidão e tráfico de escravos e a conseqüência dele decorrente – a discussão das reparações; o debate acerca do conflito do Oriente Médio; o debate sobre as condições com base nas quais a comunidade internacional atualizaria a nossa percepção acerca da discriminação racial e as condições que combinadas com a discriminação racial seriam responsáveis pelo que se convencionou chamar discriminação agravada. Os quatro focos de dificuldade para que se pudesse chegar ao consenso refletem de alguma forma alguns desafios colocados pelo tema da necessidade de um pacto entre a África e a


Diáspora para a paz, a democracia e o desenvolvimento. A Declaração de Durban reconhece as conseqüências das formas passadas e contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata como graves desafios à paz e à segurança mundial, à dignidade humana, à realização dos direitos humanos e às liberdades fundamentais de muitas pessoas em todo o mundo, em particular, dos africanos, afro-descendentes, dos povos de origem asiática e dos povos indígenas. Durban estabelece uma clara relação entre a democracia e a realização do direito a não ser discriminado. O respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais só é possível na vigência do Estado de direito, com o exercício da democracia, através de governos transparentes e participativos, que respondam às necessidades e aspirações da população, sem o que não é possível a prevenção e a eliminação do racismo. Portanto, o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e a intolerância são incompatíveis com a democracia, de tal forma que podemos afirmar que a extensão da existência da discriminação racial e do racismo numa dada sociedade, pode ser um bom indicador do grau de democracia existente, democracia entendida como aquela que se manifesta na vida cotidiana dos cidadãos e cidadãs e não apenas a democracia formal do funcionamento dos poderes constituídos. Os mesmos fatores que impedem o gozo dos direitos fundamentais dos cidadãos e cidadãs no plano interno de cada país, quando realizados no cenário internacional são causa de desequilíbrios, instabilidade e ameaças à paz. Em julho de 2006, no Brasil, a CIAD – Conferência dos Intelectuais da África e da Diáspora – não só ampliou a visão analítica e o entendimento da necessidade de se estabelecer uma inter-relação mundial, com respeito às diferenças étnicas, como, de uma forma efetiva, procurou estabelecer um processo de unidade política, entre os países africanos e os países da Diáspora. Um caminho que, como ficou efetivamente comprovado, passa obrigatoriamente pelo Brasil. Os cerca de 4 milhões de africanos que foram trazidos para o Brasil durante três séculos e meio de tráfico se constituíram num elo fundamental a unir os destinos do nosso país e os do continente africano. Não apenas pelos processos de identidade e identificação que se desenvolveram entre africanos e afrodescendentes de um e outro lado do Atlântico, mas porque há fatores comuns que determinam tanto os processos de exclusão do continente africano nas relações internacionais, quanto os processos de exclusão das populações afro-descendentes nos países multirraciais das Américas. Os afro-descendentes são potencialmente os principais alia-

between African and the Diaspora for peace, democracy, and development. The Durbin Declaration recognizes the consequences of past and present forms of racism, racial discrimination, xenophobia, and related intolerance as serious challenges to worldwide peace and security, to human dignity, to the realization of human rights, and to the fundamental liberties of many people in all parts of the world, in particular, of Africans, Afro-descendents, of peoples of Asiatic origin and Native Americans. Durbin establishes a clear relationship between democracy and the realization of the right to not be a victim of discrimination. The respect for human rights and fundamental liberties is only possible with the vigilance of the State of rights, with the exercise of democracy, through transparent and participative governments, that respond to the needs and aspirations of the population, without which the prevention and the elimination of racism are not possible. Consequently, racism, racial discrimination, xenophobia, and intolerance are incompatible with democracy, in such a way that we can affirm that the continuation of racial discrimination and racism in any given society can be a good indication of the degree to which democracy exists, democracy understood as something that reflects the every day reality of citizens and not only a formal democracy in the workings of governments. The same factors that impede the enjoyment of fundamental rights by citizens, male and female, in the national context, when set in the international arena, are the reason for inequalities, instability, and threats to peace. In July 2006, in Brazil, CIAD – Conference of Intellectuals from Africa and its Diaspora – not only widened the analytic vision and understanding of the need to establish a global inter-relationship with respect to ethnic differences, but effectively sought to establish a process of political unity between countries of Africa and those of the Diaspora. A route which, as it was effectively proved, necessarily passes through Brazil. The nearly four million Africans who were brought to Brazil during three and a half centuries of slave traffic then represent the fundamental link uniting the destinies of our country and those of the African continent. Not only by the processes of identity and identification that developed between Africans and those of African descent from one or the other side of the Atlantic, but rather because there are common factors that lead to processes of exclusion just as much of the African continent in international relations as of African-descended populations in the


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multi-racial countries of the Americas. Those of African descent in Latin American and Caribbean countries are potentially the principle allies of African interests and their process of empowerment on the national level, and will positively echo in the relations of their governments with African nations. On the other hand, the strengthening of Africa, advances in developmental processes, the increase in the ability to confront problems of governance, the combat of epidemics that cause great loss of human life, and an increase in the technological capacity of African countries should echo positively in the expectations and the images of the particular capabilities of Afro-descendents here in the Americas. As President Lula stated in a press conference opening CIAD: “The Atlantic unites us, it does not separate us”. The search for a plan of development based on more balanced relationships in the international arena is of interest as much to Brazil and our Latin American partners as it is to African countries. The discriminatory practices confronted by African countries, in particular, and developing countries, in general, are a part of the same system/logic that hierarchizes groups and individuals internally, within each country, along the lines of color, race, ethnicity, combined with other factors such as gender, language, religion, etc. It is, therefore, necessary, according to what was declared by the Durbin Plan of Action and reasserted in Brazil at the conclusion of CIAD, to adopt and to implement, on both the national and international levels, anti-discriminatory measures and politices that recognize, respect, and maximize the benefits of diversity within and between all nations, in a combined effort to promote justice, equality, and democracy in each country, and at the same time to promote peace and development in the international arena. In this sense, quality public information and democratized educational systems play a fundamental role and they promote an increased awareness of the benefits of cultural diversity, within and among all nations. *Edna Maria Roland is Coordinator of the Office on Oversight for Woman and Racial Equality of the Municipal Government of Guarulhos; was the head reporter of the World Conference against Racism, Racial Discrimination, Xenophobia, and Related Intolerance; and is a member of the Group of Eminent Specialists who oversee the implementation of the proposals of the Durban Conference

dos dos interesses africanos e o seu processo de empoderamento interno nos países da América Latina e Caribe repercutirá positivamente nas relações dos seus governos com os países africanos. Por outro lado, o fortalecimento da África, avanços nos processos de desenvolvimento, aumento da capacidade de enfrentar problemas de governabilidade, combate às epidemias que provocam grandes perdas humanas e o aumento da capacidade tecnológica dos países africanos deverá repercutir positivamente nas expectativas e imagens acerca da nossa capacidade enquanto afro-descendentes aqui nas Américas. Como disse o Presidente Lula em entrevista à imprensa na abertura da CIAD: “O Atlântico nos une, não nos separa”. A busca de um caminho para o desenvolvimento a partir de relações mais equilibradas no cenário internacional interessa tanto ao Brasil e nossos parceiros latino-americanos, quanto aos países africanos. As práticas discriminatórias enfrentadas pelos países africanos em particular e países em desenvolvimento em geral fazem parte do mesmo sistema/lógica que hierarquiza grupos e indivíduos internamente dentro de cada país, de acordo com linhas de cor, raça, etnia, combinados a outros fatores tais como sexo, língua, religião, etc. É, portanto necessário, conforme afirmado pelo Programa de Ação de Durban e reafirmado no Brasil, nas conclusões da CIAD, adotar e implementar tanto no âmbito nacional, quanto no internacional, medidas e políticas anti-discriminatórias que reconheçam, respeitem e maximizem os benefícios da diversidade dentro e entre todas as nações, num esforço conjunto para a promoção da justiça, da igualdade e da democracia em cada país e, igualmente, a promoção da paz e do desenvolvimento no nível internacional. Nesse sentido jogam um papel fundamental a informação pública de qualidade e os sistemas educativos democratizados e que promovam o aumento da consciência acerca dos benefícios da diversidade cultural, dentro e entre todas as nações.

*Edna Maria Roland é Coordenadora da Coordenadoria da Mulher e da Igualdade Racial da Prefeitura Municipal de Guarulhos e foi relatora geral da Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata e integra o Grupo de Especialistas Eminentes para o acompanhamento da implementação das proposições da Conferência de Durban


Relações Brasil-África nas rotas das literaturas africanas Iris Maria da Costa Amâncio*

Um dos roteiros que se pode percorrer na relação entre o Brasil e o Continente Africano tem sido o dos diálogos literários, paralelamente às interações históricas, culturais e socioeconômicas. A leitura dos textos africanos de língua portuguesa, por exemplo, corresponde a uma viagem em diferença: durante a trajetória, montam-se e desmontam-se cenas imaginárias em espaços poéticos e ficcionais pouco navegados. Isso porque, em se tratando de referências africanas, os cenários comumente configurados para/por nós, brasileiros, são principalmente os de miséria e analfabetismo, exotismo das roupas coloridas, batuque e rebolado, ou seja: um imaginário que não prevê a elaboração intelectual e a produção de literatura. Por isso, trazer ao Brasil os atuais “protagonistas” dessa viagem literária, foi como descortinar o real cenário que inspira as suas produções, representando um passo importante para ampliar o nosso diálogo literário e a nossa compreensão política sobre o continente africano. Escritores, muitos consagrados como o egípcio Mahfouz Naguib (Nobel de Literatura), nos permitiu, com suas presenças na II Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora (CIAD) e na CIAD CULTURAL, visualizar identidades e diferenças entre o nosso fazer literário, como extensão das nossas realidades sócio-político-econômicas. É um processo que vem de uma viagem de séculos e, neste percurso, eu destacaria algumas das tantas convergências existentes entre o fazer literário brasileiro e as produções das crescentes literaturas africanas de língua portuguesa. Nesse contexto ressaltam-se não só os poetas Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, como também os ficcionistas Jorge Amado, Guimarães Rosa, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, dentre outros. No período de resistência ao colonialismo português e das conseqüentes lutas de libertação nacional (anos 40 a 70), as cenas literárias explicitaram as ambigüidades da relação colonizador/colonizado, bem como as distintas realidades locais, principalmente no que tange às práticas racistas portuguesas e às tentativas de silenciamento das expressões culturais africanas por parte do sistema salazarista. A literatura de Cabo Verde, por exemplo, revela, dentre outros aspectos, a opressão colonial, o flagelo provocado pelo Vento Leste proveniente do Saara e a forte tensão vivenciada pelo caboverdiano, em sua condição insular. Mar, sempre o mar a ir e vir, em uma coreografia geográfica a dialogar paro-

Brazil-Africa Relations in the Realm of African Literatures Iris Maria da Costa Amâncio* One of the itineraries that can be followed when researching the relationship between Brazil and the African continent has been that of literary dialogues, parallel to historical, cultural and socioeconomic interactions. The reading of African texts written in Portuguese, for example, corresponds to a voyage of differences: during the trajectory, imaginary scenes have been set and struck in little-navigated poetic and fictional spaces. This is because, in dealing with African references, the scenarios commonly configured for/by us Brazilians, are principally those of misery and illiteracy, the exoticism of colorful clothing, drumming, and swaying movements, or in other words: an imaginary that does not presuppose intellectual proclivities and the production of literature. For this reason, bringing to Brazil the real “protagonists” of this literary journey was similar to opening the curtain on the real scenario that inspires their productions, representing an important step in the deepening of our literary dialogue and our political understanding of the African continent. Writers, well-honored, like the Egyptian Mahfouz Naguib (Nobel Prize in Literature), permit us, with their presence at the Second Conference of Intellectuals from Africa and its Diaspora (CIAD) and at CIAD Cultural, to visualize similarities and differences between our literary writing as an extension of our socio-politicaleconomic realities. It is a process that covers a centuries-old journey and, in this overview, I will underscore some of the many existing convergences between Brazilian literary writing and the productions of emergent African literatures in Portuguese. In this context, not only do the poets Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Carlos Drummond de Andrade and João Cabral de Melo Neto stand out, but also prose fiction writers such as Jorge Amado, Guimarães Rosa, José Lins do Rego, and Graciliano Ramos, among others. During the period of resistence to Portuguese colonialism and the consequent struggles for national liberation (1940s to 1970s), the literary scenes made the ambiguities of the colonizer/colonized relationship explicit, as well as the distinct local realities, principally regarding racist Portuguese practices and the attempts to silence African cultural expression by the political system under Portuguese dictator Salazar.


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The literature of Cape Verde, for example, reveals, among other aspects, colonial oppression, the punishing West Wind blowing off of the Sahara, and the strong tension experienced by Cape Verdeans as a result of their insular condition. The sea, the constant ebb and flow of the sea, a geographic choreography parodically in dialogue with Manuel Bandeira, as when Ovidio Martins says:

dicamente com Manuel Bandeira, quando assim nos diz Ovídio Martins:

I will ask I will plead I will cry out I’m not going to Pasárgada! For their part, texts from Guinea Bissau register the linguistic strength of Guinean-creole and the political power of Amilcar Cabral, intellectual, poet, and revolutionary leader of two countries at the same time, representing the African Party for the Independence of Guinea Bissau and Cape Verde (PAIGC) and a profound socio-cultural concern. From Sao Tome and Principe, the echoes of racial mixture, problematized in the Negritude poetry of Francisco José Tenreiro are heard along the journey. While Angolan literature charges headlong into the fray of intellectual production during the epoch against Portuguese colonialization, likewise did the poetic potential of António Jacinto, Viriato da Cruz, Alda Lara and Agostinho Neto. The latter is spokesperson and the political-ideological discourse of hope and for the Black Diaspora. Here, literature as a weapon fueled the combat against the Portuguese colonial system, which culminated in national independence. From Mozambique to the world, Noémia de Sousa echoes in Africa with the sounds of Afro-American jazz and blues, and also denounces the oppression and the cruelty of Portuguese colonial racism. At the same time, José Craveirinha imbeds the African cultural matriz in his poetry, restaging scenarios of Mozambican realities, such as oral tradition and resistence to colonial oppression:

Textos da Guiné-Bissau, por sua vez, registram a força lingüística do crioulo guineense e o poder político de Amílcar Cabral, líder revolucionário, intelectual e poeta de dois países ao mesmo tempo, com sua representatividade junto ao PAIGC (Partido Africano pela Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde) e extremado pertencimento sócio-cultural. De São Tomé e Príncipe, ouvem-se, ao longo da viagem, os ecos da mestiçagem racial, problematizada na poesia negritudinista de Francisco José Tenreiro. Enquanto que a literatura de Angola remete ao combate frontal da produção intelectual da época contra a colonização portuguesa, como também ao potencial poético de António Jacinto, Viriato da Cruz, Alda Lara e Agostinho Neto. Este último, porta-voz do discurso políticoideológico da esperança e da diáspora negra. Como arma, essa literatura engendrou o combate ao sistema colonial português, o que culminou na independência nacional. De Moçambique para o mundo, Noémia de Sousa ecoa em África os sons do jazz e do blues afro-americanos e também denuncia a opressão e a crueldade do racismo colonial português. Paralelamente, José Craveirinha imprime a matriz cultural africana em sua poesia, ao remontar cenários das realidades de Moçambique, como os da tradição oral e da resistência à opressão colonial. Nesse breve percurso, relativo às produções literárias do período das lutas pela independência, evidenciam-se algumas especificidades dos países africanos de língua portuguesa. Isso permite verificar que a leitura das literaturas africanas de língua portuguesa, por um lado, contribui para que se fragmente a noção equivocada de que em África é tudo igual ou a de que o africano não demonstrou resistência formal ao processo colonizatório. Possibilita também dar visibilidade a um fazer estético-ideológico que se realiza via escrita, o que pode parecer novidade para quem ainda acredita que africano não escreve ou não tem produção intelectual. Ao mesmo tempo, tais textos poéticos e ficcionais revelam a direta relação entre os intelectuais das excolônias portuguesas.

Oh ancient God of men Let me be a drum Simply a drum In this brief overview, reflecting the literary productions of the period of struggles for independence, some of the specificities of Portuguesespeaking African countries can be seen. This allows

“Pedirei Suplicarei Chorarei Não vou para Pasárgada!”


A recepção das diversas obras das literaturas africanas leva à percepção da existência de um rico universo lingüístico-cultural, como também à compreensão de que existe um cânone literário nessa produção e de que há um forte dinamismo nos processos de cada país, uma vez que, recentemente, novas vertentes estético-discursivas têm se consolidado, articulando cultura, erotismo, globalização e outros temas, para além do discurso libertário anti-colonial. Todavia, embora fiquem constatadas a riqueza e a importância da leitura de tais textos, emerge uma questão de ordem prática: como processar essa viagem, se o acesso ao livro africano continua raro, caro e o mercado editorial brasileiro não investe significativamente no potencial dessas literaturas estrangeiras provenientes de terra de pretos? Essa é uma das questões que a CIAD nos deixou para ser aprofundada, o que será mais uma contribuição não só para o processo interno brasileiro de melhoria da qualidade das relações étnico-raciais, como também para o estreitamento das relações entre os africanos e a diáspora negra de língua portuguesa.

*Iris Maria da Costa Amâncio é mestre em Literaturas de Língua Portuguesa (PUC-MG) (1996); doutora em Estudos Literários (UFG); professora de Língua Portuguesa (PUC-MG); consultora do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PENUD); fundadora do Núcleo Racial da PUC-MG

confirmation that the reading of African literatures in Portuguese, on the one hand, helps to disrupt the misguided notion that, in Africa, everything is equal or that the African did not exhibit formal resistence to the colonizing process. It also helps highlight an aesthetic-ideological mode of creation that realizes itself in written form, which might seem a novelty for those who still believe that the African does not write or lacks intellectual production. At the same time, such poetic and fictional texts reveal the direct relationship between intellectuals from the former Portuguese colonies. The reception of the diverse works of African literatures leads to an awareness of the existence of a rich linguistic-cultural universe, and then to the understanding that a literary canon of this production exists and that there is a strong dynamism in the processes of each country, given that, recently, new aesthetic-discursive directions are being consolidated, articulating culture, eroticism, globalization, and other themes, beyond the libertarian anti-colonial discourse. Still, although the richness and the importance of reading such texts is beyond question, a practical question emerges: how to process this journey, if access to the African text continues to be rare and expensive, and the Brazilian editorial market does not meaningfully invest in the potential of these foreign literatures from Black Africa? This is one of the questions that CIAD left for us to delve, which will be one more contribution not only to the internal Brazilian process of bettering the quality of ethno-racial relations, but also to the strenghtening of relations between Africans and the Portuguese-speaking Black Diaspora.

*Iris Maria da Costa Amâncio holds a Masters degree in Literatures in Portuguese (PUC-MG) (1996); a doctorate in Literary Studies (UFG); professor of Portuguese language (PUC-MG); consultant of the United Nations Program for Development (PENUD); founder of the Racial Studies Center at PUC-MG; author of articles on African Literatures in Portuguese in national and international books, journals, and specialized magazines; author of the book A Ginga da Rainha [The Prowess of the Queen] (Mazza Edições – 2005)


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The Diaspora and the African Renaissance

A Diáspora e o Renascimento Africano

João Jorge Santos Rodrigues*

A Conferência, cuja primeira edição ocorreu em Dacar – Senegal , em outubro de 2004, teve por objetivo reunir intelectuais, representantes da sociedade civil e tomadores de decisão para discussões aprofundadas sobre temas de interesse da África e da Diáspora. No meu ponto de vista esta conferência permitiu algo inédito na historia das relações da África e do Brasil: um encontro de gerações, das possibilidades e acordos de transferências de explicativas que têm cercado as relações bilaterais entre o continente africano e a política externa brasileira. Porém a maior vitória da II Ciad foi a de abrir as portas para uma nova relação povo-povo. Estava em uma viagem com a banda Olodum na Europa durante a Copa do Mundo de 2006 e, no universo europeu, pude pensar bastante o que dizer aos africanos, aos brasileiros, aos brancos, aos afro-descendentes sobre algo tão importante como a luta por direitos que nos é comum, e tratar de temas tão atuais para a África, quanto ao Brasil, tais como juventude, políticas culturais, participação política, mulher negra, economia, inclusão digital.  Em especial, como fazer para superar o apego que certos setores da negritude no Brasil têm com a falsa idéia de que há apenas uma África, limitando esta aos paises Nigéria e Benin? Que tudo na África é revolucionário e que os negros no Brasil vieram de uma única cidade? Que todos os africanos que vieram para nossa terra eram do candomblé, e da cobrança política de fidelidade a uma matiz africana para a música, esporte, intelectualidades? Não encontrei resposta fácil a estas perguntas. Ainda assim, me preparei para falar provocativamente sobre o mundo africano e sua diáspora no mundo, a partir de uma perspectiva soteropolitana, baiana, brasileira.  Ao chegar ao Brasil e ter participado desta importante conferência, pude observar que será necessário incrementar o diálogo entre os jovens de África e do Brasil; aumentar as trocas entre o continente africano e os brasileiros em diversos campos. Me surpreendeu a tentativa de colocar as discussões dos problemas afro baianos e brasileiros no contexto internacional da diáspora africana. Muitos jovens presentes a conferência, por ignorância, apenas queriam saber o que o cantor Toni Garrido fazia pelos negros ou de que forma o Olodum utilizava os seus recursos. Questionamentos indevidos em função da magnitude da conferência e dos seus objetivos mais reveladores

The Conference, which first met in Dakar, Senegal in October 2004, proposed to bring together intellectuals, representatives of civil society, and decision-makers in serious discussions about issues of interest to Africa and the Diaspora. From my point of view, this conference allowed something unheard of in the history of relations between Africa and Brazil: a meeting of generations, of possibilities, and agreements about shifts in the explanatory models that have defined the bilateral relations between the African continent and Brazilian foreign affairs. Therefore, the major victory of CIAD II was that of opening doors to a new people-to-people relationship. I traveled with the group Olodum in Europe during the 2006 World Cup, and in the European universe I thought quite a bit about what something as important as our common struggle for rights means to Africans, Brazilians, whites, for those of African descent and what it means to deal with pressing issues – as much for Africa as for Brazil – such as the youth, cultural policies, political participation, Black women, the economy, and digital inclusion. In particular, how do we move beyond the attachment that certain sectors of the Black community in Brazil have with the false idea that there is only one Africa, limited to the countries of Nigeria and Benin? That everything in Africa is revolutionary, and that all Blacks in Brazil come from a single city? That all the Africans who come to our country practice Candomblé, members of a political collective loyalty to African matrices in music, sports, and systems of thinking? I did not find an easy answer to these questions. Even so, I prepared myself to speak provocatively about the African world and its global Diaspora, based on a Salvadoran, Bahian, Brazilian perspective. Upon arriving in Brazil and having participated in this important conference, I could see that it would be necessary to increase the dialogue between young people in Africa and Brazil; to increase the exchanges between the African continent and Brazilians in a number of areas. The attempt to place the discussion of AfroBahian and Brazilian problems in the international context of the African Diaspora surprised me. Many

João Jorge Santos Rodrigues*


da inconsciência da grandeza da África e de sua diáspora. E o pior: um total desconhecimento das lutas de libertação africana e das vitórias no campo das políticas públicas nos últimos 30 anos de movimento negro no Brasil.  Porém, apesar desta dificuldade de acertar o tom, o compasso, a II Ciad foi uma conferência feliz e oportuna, gestual do Brasil com África, da África com o Brasil, bem organizada pela Unidade Africana, governo Brasileiro, aí com destaque para a Sepir, Fundação Cultural Palmares e Itamaraty. Falei sobre as políticas culturais e, como sempre, comparando as políticas de promoção da igualdade racial no Brasil e as políticas públicas internacionais praticadas em relação a África e os seus descendentes na Europa, nas Américas e no Caribe.  Dei ênfase às políticas públicas na cultura e na educação, destacando o exemplo do Olodum e das entidades negras baianas que compõem o Fórum de Entidades Negras da Bahia que após uma luta que levou um longo e bom tempo, conseguiram criar em 1989 a primeira lei de ação afirmativa em uma Constituição Estadual do Brasil, sobre afro-brasileiros na comunicação social e recentemente, a criação de secretarias públicas de políticas de reparação e de promoção de igualdade racial no município de Salvador e no Estado da Bahia em governos recentes.  Foi justamente este renascimento africano na Bahia nos anos 70 que permitiu uma importante revolução da emoção, das atitudes, e da auto estima dos afro brasileiros da Bahia e uma fusão prevista pelo líder da Guine Bissau Amilcar Cabral nos seus escritos: a unidade da política com a cultura, com o entendimento de que a cultura popular pode sim ser uma alavanca de libertação de um povo e de uma nação. No caso baiano, ao fundir cultura e política, este nosso movimento intelectualmente ligado a Samora Machel, Agostinho Neto, Amilcar Cabral, N Krumanh, Julius Nyerere, Steve Biko, Nelson Mandela, mais com raízes fortes na história dos Quilombos, a Revolta dos Búzios, a Revolta dos Malês, nos conduziu a promover fortes mudanças na sociedade baiana, em especial no combate ao racismo e a intolerância.  O resultado de toda esta ebulição afro-baiana no contexto internacional dos intelectuais africanos e da diáspora terá que ser muito pesquisado, analisado, sem preconceitos e com o objetivo de integrar o saldo obtido do movimento negro no Brasil, nas políticas da África e de sua diáspora como colaboradora dos direitos humanos, da pluralidade cultural e da diversidade humana. A história dos africanos neste lado do mundo, no Brasil, é um dos legados mais importantes da humanidade sobre o prisma das lutas pela igualdade e de reconhecimento.

young people present at the conference, because of ignorance, only wanted to know what the singer Toni Garrido did for Blacks or how Olodum used its resources. In relation to the magnitude of the conference and its objectives, these inquiries were inappropriate, but nonetheless revealing in terms of the lack of awareness of the greatness of Africa and its Diaspora. And the worst: a complete lack of knowledge of the struggles for African liberation and of the victories of the Black Movement in Brazil in the areas of public policies over the last thirty years. However, despite the difficulty of finding the right tone, the right direction, CIAD II was a happy and opportune conference, an overture from Brazil to Africa, from Africa to Brazil, well-organized by the African Union, the Brazilian government, with special mention of Sepir, Palmares Cultural Foundation, and Itamaraty. I spoke about cultural policies, as always, comparing the policies to promote racial equality in Brazil with the international public policies practiced in relation to Africa and its descendents in Europe, the Americas, and in the Caribbean. I emphasized public policies in culture and in education, underscoring the example of Olodum and of the Black Bahian entities that form part of the Forum of Black Entities of Bahia which, after a protracted struggle, managed to see written into a Brazilian state constitution in 1989 the first affirmative action statute, regarding Afro-Brazilians in social communication and, recently, the creation of governmental branches (secretariats) for reparations and for the promotion of racial equality in the city of Salvador and in the state of Bahia. It was exactly this African Renaissance in Bahia in the 1970s that permitted an important revolution in emotion, attitudes, and self-esteem of AfroBrazilians in Bahia and a fusion foreseen by Amilcar Cabral, the leader of Guinea Bissau, in his writings: the unity of politics and culture, with the understanding that popular culture can indeed be a tool of liberation for a people and for a nation. In the Bahian case, the fusing of culture and politics, our movement intellectually linked to Samora Machel, Agostinho Neto, Amilcar Cabral, Nkrumanh, Julius Nyerere, Steve Biko, Nelson Mandela, but with strong roots in the history of Quilombos (maroon settlements), the Buzios and Males rebellions, moves us to promote strong changes in Bahian society, especially in the combat against racism and intolerance. The result of all of this Afro-Bahian unrest in the international context of African and Diasporic intellectuals will have to be well researched, analyzed,


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without biases and with the object of integrating the insights gained from the Black movement in Brazil into the policies of Africa and of its Diaspora as contributor to the quest for human rights, cultural plurality, and human diversity. The history of Africans in this part of the world, in Brazil, is one of humanity’s most important heritages, dealing with the full spectrum of struggles for equality and recognition. In this case, we must keep in mind that the African Diaspora which exists in the capital and in the interior of the state of Bahia is the result of the arrival of forty-two per cent of all of the Africans brought from the original continent and who, during more than three hundred years, came to Brazil where they were enslaved and that, over time, they came to represent seventy-seven per cent of the state of Bahia and eighty-two per cent of the inhabitants of Salvador who, despite the harsh realities of a brutal caste system marked by racial and religious intolerance, were the settlers and producers of a cordial and affectionate civility. We are contributing to the rebirth of an almost prophetic ancient idea of liberty, equality, (and) brotherhood solemnly affirmed by the members of the revolutionary movement of the Búzios Revolt in 1798. The time must come for our liberty, the moment in which we will all be brothers. In this sense, CIAD II was a part of this moment of encounter of the past with the present and the encounter of the joys and pains with the liberty and the equality that we have so wanted to see happen in Africa and in Brazil.

João Jorge Santos Rodrigues is a writer, with a Bachelors Degree in Pre-Law from the Catholic University of Salvador, a Masters in Law (UNB); president of Olodum; member of the Steering Committe of Palmares Foundation; ex-Director of the Gregoidio de Mattos Cultual Foundation; ex-President of the Federation of Afro-Carnival Entities of Brazil

Temos neste caso que levar em conta que a diáspora africana existente na capital da Bahia e no Recôncavo é resultado da vinda de 42 % de todos os africanos tirados do continente original e que vieram para o Brasil durante mais de trezentos anos para serem aqui escravizados e que ao longo do tempo, ao fim e ao cabo, se transformaram em 77% da população do Estado da Bahia e 82 % dos moradores de Salvador, tendo sido os  colonizadores e produtores de civilidade, cordial e afetuosa, numa sociedade brutal, de castas e marcada pela intolerância racial e religiosa.  Fizemos renascer uma antiga idéia de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, quase profética dos membros do movimento revolucionário da Revolta dos Búzios de 1798 que afirmava de forma solene: “Há de chegar o tempo da nossa liberdade, o tempo em que seremos todos irmãos”. Desta forma a II Ciad foi parte deste tempo de encontro do passado com o presente e das alegrias e tristezas com a liberdade e a igualdade que tanto sonhamos ver acontecer na África e no Brasil.

*João Jorge Santos Rodrigues é presidente do Olodum; ex-diretor da Fundação Cultural Gregório de Matos em Salvador; fundador e integrante da Coordenação do Conselho de Entidades Negras da Bahia e presidente da Federação dos Blocos Afros do Brasil


O mito ainda não está morto

The Myth Lives On

Jocélio Teles dos Santos*

Jocélio Teles dos Santos*

A realização da II Conferência Internacional de Intelectuais Africanos e da Diáspora reflete um contexto deveras singular. E destacarei dois pontos: primeiro, a decisão do governo federal em realizar a Conferência, através do Ministério das Relações Exteriores e do Ministério da Cultura, revela releituras e re-interpretações acerca das relações do Brasil com países africanos e diásporicos. E penso que a política externa brasileira, nos últimos anos, é uma espécie de revival da política externa independente elaborada no governo Jânio Quadros. Naquele período é bastante evidente a percepção que a política brasileira para com os países africanos tinha como matéria-prima a convivialidade racial, ou seja: um sistema de valores baseado na interpretação de uma etnogênese da miscigenação cultural que aconteceu no Brasil. Esse era o tom da política externa independente nos anos sessenta, a qual indicava uma articulação internacional em um ambiente marcado por tensões entre os Estados Unidos e a ex-URSS, assim como revelava mais um projeto de cunho nacionalista. Parece-me, portanto, que a tônica da política externa brasileira atual foi um dos elementos norteadores da realização da II CIAD; o que há de novidade nesse continuum de percepções acerca das relações com os países africanos, se comparado com os anos sessenta, foi a incorporação de países herdeiros de tradições de matrizes africanas como os do Caribe e da América Latina. E ressalto, em um contexto pós-CIAD, a necessidade de uma maior aproximação com instituições e organizações desses países, ainda marginais, se pensada a quantidade de acordos institucionais já celebrados entre o Brasil e países africanos. Segundo, também deve ser notado neste contexto nacional as novas demandas apresentadas no ambiente político stricto sensu, acadêmico e ativista. Refiro-me às resoluções de instituições universitárias e de governos municipais em adotar ações afirmativas, notadamente o sistema de cotas. Na história recente do Brasil, o debate sobre as ações afirmativas é algo que provoca tanto polarizações, quanto demonstra uma profunda mudança na percepção das nossas relações raciais na sociedade brasileira. Afinal, como compreender que, de acordo com o Instituto Data Folha, 65% da população brasileira apóiam as cotas para negros nas universidades? Se estes dados indicam um reconhecimento das desigualdades e do racismo, também possibilitam interpretações apressadas de intelectuais e ativistas afro-americanos ou afro-brasileiros. O argumento reiterado,

The realization of the Second International Conference of Intellectuals from Africa and its Diaspora reflects a truly unique set of circumstances. And, I will underscore two points: first, the decision by the federal government to host the Conference under the auspices of the Ministry of Foreign Affairs and the Ministry of Culture reveals re-readings and reinterpretations about the relations of Brazil with African and diasporic countries. And, I think that Brazilian foreign politics, in the last few years, is a type of revival of the independent foreign politics elaborated by the government of Janio Quardros. In that period, the perception that Brazilian political relations with African countries was something of a primary resource for racial conviviality is sufficiently evident, that is to say, a system of values based on the interpretation of an ethno-genesis of cultural miscegenation which took place in Brazil. This was the tone of independent foreign politics in the 1970s which indicated an international articulation in an atmosphere marked by tensions between the United States and the former Soviet Union, as well as revealing yet another project of nationalist stirrings. It seems to me, therefore, that the cure for Brazilian foreign politics today was one of the guiding elements for the realization of CIAD II; what there is of new in this continuum of perceptions about the relations with African countries, when compared with the 1970s, was the incorporation of countries that inherited traditions of African matrices such as those of the Caribbean and Latin America. And I stress, in the context of post-CIAD, the necessity of a greater approximation to the institutions and organizations of these still marginalized countries, considering the number of institutional agreements already in force between Brazil and African countries. Second, something also needs to be said in this national context about the new demands presented in the, strictly speaking, political, academic, and activist atmosphere. I refer to the resolution of university institutions and of municipal governments to adopt affirmative action, particularly, the quotasystem. In recent Brazilian history, the debate about affirmative action provokes as much polarization as it bears witness to the profound change in the perception of racial relations in Brazilian society. Finally, how does one explain that, according to the Bureau of Statistics (Instituto de Data Folha), sixtyfive per cent of the Brazilian population supports quotas for Blacks in the university? If these facts


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indicate a recognition of inequalities and racism, they also make possible the cursory interpretations of Afro-American or Afro-Brazilian intellectuals and activists. The reiterated argument, even given the context of CIAD, is that the myth of racial democracy is dead. It is a discourse that more than more likely reflects a self-serving rhetoric of political proposals rather than an accurate analysis. I think that it is necessary to distance ourselves from the infinite intellectual experiments and from common sense which treat our myth of origin as a simple ideology or false awareness, something common between those influenced by a banal reading of Marxism. On the other hand, there is the vulgarity of those who use any mythical word in order to glorify some event or individual and/or to inflate something that might be considered false. Myth is the object of knowledge, and, therefore, it can be applied to that which refers to unequal relations and, at the same time, to the construction of a primordial reference in the “birth“of Brazil. It is worth remembering that our myth of origin does not include the Black. It deals with the encounter, in the first decade of the sixteenth century, of the colonizer, represented by Diogo Alvares Correia, and of the colonized, the Indian maiden Paraguaçu. What the mythic narrative constructs is the institutionalization of the marriage between outcome asymmetric subjects. It is the nuptial denouement between modern weaponry and the bucolic atmosphere of nature in the land of Brazil (Terra Brasilis). The sexual relationship between Diogo Alvares, that has attached itself to his name Caramuru, and Catarina Paraguacu, demonstrates the place reserved in the symbolic construction of the nation. It is in the corporal, sexual union, consecrated in the Catholic baptism and marriage, where the myth establishes itself: “many children will populate Bahia“ says the narrative. The bodies of the colonized and of the colonizer incarnate the institutionalization of mythic power. The relations of power between colonizer/colonized demonstrate the disappearance of differences, they do not indicate constant tension, and much less contestation or negotiation. What this reading of cultural encounters suggests as a prototype, for the “foundation” of Brazil, is the equilibrium of contrary entities. Therefore, the challenge is to think of how this manner of myth of origin has acquired new contours throughout the centuries, at one point including Blacks, and how the attempt to annex Asians, the

inclusive visto no âmbito do CIAD, é que o mito da democracia racial está morto. É um discurso simplista que reflete bem mais uma retórica de convencimento de propostas políticas que uma acurada análise. Penso que é necessário escapar das inúmeras tentativas intelectuais e do senso comum em tratar o nosso mito de origem como simples ideologia ou falsa consciência, algo comum entre aqueles influenciados pelo marxismo vulgar; por outro lado, há uma vulgarização daqueles que usam “a torto e a direito” a palavra mito para glorificar algum evento ou indivíduo e/ou nomear o que seja considerado falso. Mito é objeto de conhecimento e, portanto, pode ser pensado no que se reporta às relações desiguais e, ao mesmo tempo, à construção de uma referência primordial no “nascimento” do Brasil. E vale a pena lembrar que o nosso mito de origem não inclui o negro. Trata-se do encontro, na primeira década do século XVI, do colonizador, representado por Diogo Álvares Correia, e do colonizado, a índia Paraguaçu. O que se constrói na narrativa mítica é a institucionalização do casamento entre sujeitos profundamente assimétricos. É o desenlace nupcial entre a força do arcabuz e o ambiente da natureza na Terra Brasilis. A relação sexual entre Diogo Álvares, que teve acrescido ao seu nome Caramuru, e Catarina Paraguaçu, mostra o lugar reservado na construção simbólica do país. É na união corporal, sexual, consubstanciada no batismo católico e no casamento, que o mito se estabelece: “muitos filhos [que] povoarão a Bahia”, diz a narrativa. O corpo do colonizado e do colonizador cristaliza a institucionalização do poder mítico. As relações de poder colonizador/colonizado demonstram o desaparecimento das diferenças, não indicam tensão constante, muito menos contestação ou negociação. O que ali se estabelece é a leitura de que encontros culturais na “fundação” do Brasil tiveram como protótipo o equilíbrio de contrários. Portanto, o desafio é pensar de que modo esse mito de origem foi adquirindo novos contornos ao longos dos séculos, incluindo os negros, e como ocorreu nos anos setenta, do século XX, a tentativa de acréscimo dos asiáticos, denominados de “amarelos”. O que é mais provocante nessa construção mitológica é a sua etnogênese transnacional: a ideologia da democracia racial está presente em países latino-americanos como a Venezuela, a Colômbia, o Equador e até mesmo Cuba. Trata-se menos de produção simbólica local, mas, transnacional em um contexto de colonização. Certamente, a II CIAD teve o propósito de aproximar


perspectivas distintas e dissonantes, apesar da falta do debate com os críticos dos afro-centrismos, deslocados, impedidos e ausentes nos debates. De todo modo, esperamos que a Conferência provoque mais reflexões sobre as relações raciais e a possibilidade de novas relações sul-sul, principalmente quando percebidas as dinâmicas social brasileira e latino-americana.

*Jocélio Teles dos Santos é professor de Antropologia e diretor do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO), da UFBA; doutor em Antropologia Social; autor dos livros “O dono da terra. O caboclo nos candomblés da Bahia (1995): Ritmos em trânsito. Sócio-antropologia da música baiana (1998); O poder da cultura e a cultura do poder. A disputa simbólica da herança cultural negra no Brasil (2005); publicou artigos em revistas especializadas no Brasil e no exterior

so-called Yellow Race happened in the 1970s, in the twentieth century. What is more provocative in this mythological construction is its transnational ethno-genesis: the ideology of a racial democracy is present in Latin American countries like Venezuela, Colombia, Ecuador, and even Cuba. It has less to do with local symbolic production and more to do with the transnational, in the context of colonization. Certainly, the CIAD II had the mandate to bring together distinct and dissonant perspectives, despite the lack of a debate with critics of displaced, impeded or absent Afro-centrisms in the debates. At any rate, we hope that the Conference provokes more reflections about racial relations and the possibility of new south-south relations, principally evidenced in Brazilian and Latin American social dynamics.

*Jocélio Teles dos Santos is professor of Anthropology and director of the Center for Afro-Oriental Studies at the Federal University in Bahia, doctor of social anthropology, author of “O dono da terra. O caboclo nos candomblés da Bahia” (Caboclo - Lord of the land: Indigenous roots of Bahian Candomblé); Ritmos em trânsito. Sócio-antropologia da música baiana (Rhythms in movement: The socio-anthropology of Bahian music); O poder da cultura e a cultura do poder. A disputa simbólica da herança cultural negra no Brasil (The power of culture and the culture of power: the symbolic dispute about Black cultural heritage in Brazil)


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The Black International in Bahia

A internacional negra na Bahia

Jorge Portugal*

Jorge Portugal*

It had to be this way: in the city of Salvador, under the invisible gaze of the ancestors, with the rhythm and the pulsation of hearts in syncopated beat. The call of the alabe, echoing over the airways, sent out the invitation. And everyone made their way here: open smiles, clasped fists, a handful of ideas, theories in-the-flesh, living legends. In the heart of Black Rome, Blacks from throughout the world gathered and dialogued. A city invented by Jorge (Amado) and Dorival (Caymmi) opened its arms in welcome Steve (Wonder), Matilde, Gilberto (Gil), Antonios, Vicentes, Joses, and transformed itself into Casa de Farinha with Budiao speaking English, Zé Pinto, French, Julio Dandao, Spanish. Clearly, many spoke Yoruba, Kiscongo, and Bahian Portuguese, but the general language was the common talk of reparation, of equality, of ongoing struggle for dignity and justice. At every moment, one encountered in flesh and blood, the words that I wrote to the music of Lazzo Matumbi: My ebony skin is my bare soul Scattering the light of the sun, mirroring the light of the moon It has the plumage of the night and the freedom of the street My skin is language And the reading is all yours! It was good to see all of those people gathered together, to film that inventory of intelligence, to confirm that concepts like peace, citizenship, and ethics were used, necessarily, for the abolition of other words like racism, intolerance, exploitation. Even better is the fact that all of this was enunciated by Black intellectuals who not only think but rather feel the violent impact of such words. The CIAD II had the character of a Black International. A concrete consequence of the growing maturation of world-wide Black movements, it was a call to awareness and to the discussion of everything that has to do with our fundamental issues. A dialogue of highly positive voices on a planetary scale had the mandate of not limiting itself solely

Tinha que ser assim: na cidade do Salvador, sob os olhares invisíveis dos ancestrais, com o ritmo e a pulsação dos corações em batuque. O toque do alabê, amplificado pela mídia contemporânea, convocou. E foram chegando todos: sorrisos abertos, punhos cerrados, idéias a mancheias, teses em pessoa, lendas vivas. Os negros do mundo se encontraram e se discutiram no coração da Roma Negra. A cidade inventada por Jorge e Dorival recebeu Steve, Matilde, Gilberto, Antônios, Vicentes, Josés, e transformou-se, numa imensa “Casa da Farinha”, com Budião falando inglês, Zé Pinto, francês, Júlio Dandão, espanhol. Claro que muito se falou yorubá, quicongo e baianês, mas a língua geral foi mesmo o idioma comum da reparação, da igualdade, da luta permanente por dignidade e justiça. A todo momento, encontrava , carne e osso, os versos que escrevi para a melodia de Lazzo Matumbi: “A minha pele de ébano é a minha alma nua espalhando a luz do sol, espelhando a luz da lua tem a plumagem da noite e a liberdade da rua minha pele é LINGUAGEM e a LEITURA é toda sua!” Foi bom ver toda aquela gente reunida, filmar aquele inventário de inteligências, constatar que palavras/conceitos como paz, cidadania, ética, passam, necessariamente, pela abolição de outras como racismo, intolerância, exploração. Melhor ainda que tudo isso tenha sido dito por intelectuais negros, que não apenas pensam, mas que sentem o impacto violento de tais palavras. A segunda CIAD teve o caráter de uma Internacional Negra. Conseqüência concreta do amadurecimento crescente dos movimentos negros mundiais, foi um “chamado à consciência” e ao debate de todos os que se debruçam sobre as nossas questões essênciais. Diálogo de vozes propositivas em escala planetária, teve o condão de não se limitar apenas ao território acadêmico do Centro de Convenções.Traduziu-se em música, dança, espalhou-se, ocupou o corpo escancarado da cidade, contagiou outros segmentos, excitou imaginações. Claro que alguns eventos, de reflexão inclusive, poderiam ocorrer na veia aberta das ruas; em grandes aulas públicas


onde se misturassem “iniciados” e práticos. Óbvio que a televisão, sobretudo canais abertos, poderia transmitir a muito mais pessoas os conteúdos dos encontros em tempo real. Decerto que nas cercanias do Centro de Convenções poderíamos ter a oferta de nossa culinária mais à mão dos participantes, para ali levando os temperos e segredos de Dinha, Cira, Alaíde, Dadá e tantas outras. Mas são desacontecimentos que não subtraem o valor substantivo do grande evento.O fato maior é que até hoje a cidade fala, comenta, reflete. E é preciso desdobrar permanentemente a energia do instante-matriz e transforma-la em políticas públicas plantadas no chão do real. Promover encontros nacionais com maior freqüência; chamar o ensino médio à participação constante; incluir a sabedoria do povo na reflexão. CIAD. Conferência internacional dos intelectuais negros na diáspora.Caruru de Cosme e Damião.Democratização de idéias e de lutas. “Apesar de tanto NÃO, tanta dor que nos invade...” VIVA NÓS!”

*Jorge Portugal é professor de Língua Portuguesa, compositor, poeta, apresentador de TV

to the academic territory of the Convention Center. It was translated into music, dance, it spread itself, occupying the sprawling body of the city, infecting other segments, stirring imaginations. Clearly, some events, including the meals, could have occurred in the open air, in large public classrooms where the already-initiated and the practical might have mixed. Obviously, television, especially the non-cable stations, could have transmitted live, to many more people, the content of the encounters. Certainly, we could have made our cuisine in the neighborhoods surrounding the Convention Center more available to the participants, spicing the event with the seasoning and the secrets of Dinha, Cira, Alaide, Dada and so many others. But these are missed opportunities that do not subtract from the substantial value of the great event. The major fact is that the city continues to speak, comment, and reflect. And it is necessary to permanently unleash the energy of the monumental moment and transform it into public policies rooted in reality. To promote more frequent national encounters, to call for the participation of educational channels, to include the knowledge of the community in the reflection. CIAD: International Conference of Black Intellectuals in the Diaspora. Food of the Gods. The democratization of ideas and struggles. In spite of so many NOs, so much pain that afflicts us... Live on!

Jorge Portugal is a teacher of Portuguese, composer, poet, and television host


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They look so much alike...

Como os filhos se parecem

Lepê Correia* I was there and for this reason I can guarantee, without any mythification, that it was true. But I keep imagining my neighbor from the outskirts of Recife, who believes “an intellectual is a guy who talks in television commercial about soy bean shipments, called PIB“(GPD). I was there and I saw, with my own eyes, and I heard with my own ears, a truth that we, the old Europe and the new America, are afraid to admit. Africa thinks, and its intellectuals have, the same gifts of cognition as do intellectuals from the so-called civilized world: they speak with profound knowledge, with a precise perception of the past, of the present, and of the future. They were there, in the immense conference room, and none of them wore loincloths, not a one stroked a lion’s mane. One does not even have to be an intellectual. My same Black neighbor from the outskirts of Recife, would understand perfectly “the size of my house in the Good Lord’s universe“. There, in the midst of intellectuals, heads of state, and activists from nongovernmental organizations, I understood in the wider sense, what “African Renaissance“ signifies. And, it is good to make it clear, for those of lesser sensibilities, that the expression does not mean an Africa being born anew, but rather precisely an umbilical relationship with a literary, artistic, and scientific movement, much like that which occurred in the fifteenth century, beginning in Italy, transforming the conceptions of Europe and the world, under the inspiration of GrecoLatin models of civilization. It is true that the rest of the world pretends to ignore, while we, here in Brazil, in general, prefer to believe that “the rebirth of consciences“ is an exclusive priviledge of European civilizations. I, for my part, already began to tell everyone, as I am doing now, what for some time has been happening in Africa, with an important detail: It is the Africa mirrored in my own rich cultural heritage, in its current contributions, and which is being recognized by Diasporas the world over. No, do not think that this is just any conference paper. As Joseph Diescho said ”We are not about doing a dance of resurrection pretending that we are the descendents of kings”. What happens is that those who, for so many centuries have silenced us, now are shocked because they cannot silence

Lepê Correia.*

Eu estava lá e por isso posso garantir, sem qualquer mitificação, que tudo foi verdade. Mas fico imaginando o meu vizinho, aqui da periferia do Recife, para quem “intelectual é um cabra que fala na televisão e sabe o que é aquele negócio que passa em reclame de carregamento de soja, chamado: PIB.” Eu estava lá e vi, com os meus olhos e ouvi com os meus ouvidos, uma verdade que nós, a velha Europa e a nova América, teimam em não enxergar: a África pensa e os seus intelectuais não diferem dos intelectuais do chamado mundo civilizado. Falam com conhecimento profundo, com a percepção precisa do passado, do presente e do futuro. Estavam ali, no imenso salão de conferências e nenhum deles estava de tanga, nem alisando juba de leão. Aí não se precisa ser nem mesmo intelectual. O meu vizinho negro, daqui da periferia do Recife, saberia perfeitamente entender “o tamanho da nossa casa dentro desse mundo de meus Deuses”. Ali, em meio aos intelectuais, aos chefes de estado, aos militantes das organizações não governamentais eu compreendi em toda a sua extensão, o que significa “Renascimento Africano”. E é bom deixar claro, para os de menor sensibilidade, que a expressão não significa a África nascendo de novo, mas precisamente uma relação umbilical com movimento literário, artístico e científico, que no Século XV, a partir da Itália transformou as concepções da Europa e do mundo, sob a inspiração dos modelos de civilização greco-romana. É uma verdade que o resto do mundo finge ignorar, enquanto nós, aqui do Brasil, em geral, preferimos acreditar que o “renascer das consciências” é um privilégio exclusivo das civilizações européias. Eu, de minha parte, já comecei a dizer a todo mundo (como estou fazendo agora), o que já, há algum tempo, vem acontecendo na África, e com um detalhe importante: é a África espelhada em seu próprio passado civilizatório, suas contribuições atuais, e sendo reconhecida pelas diásporas do mundo inteiro. Não, não pensem vocês que isso é relatório de participante de congresso. Como disse o namíbio Joseph Diescho: “Nós não estamos a fazer dança de ressurreição fingindo que somos descendentes de reis.” O que acontece é que os que, por tantos séculos nos calaram, agora se surpreendem porque não puderam calar a nossa música, a nossa literatura nem o nosso progresso científico. Principalmente este último, que não é coisa do hoje em dia.


O fato do Brasil ter sediado a CIAD, primeiro foi uma mostra do trabalho ardoroso e ardiloso de nossos intelectuais negros em provar como é importante termos negros nas várias instâncias do poder, comprometidos com a causa do nosso povo; segundo, como é valoroso o Brasil poder começar a curar-se de seu torcicolo, virar a cabeça em direção de um espelho, onde as imagens são familiares, com imitações mais autenticamente extensivas, onde a jinga não tem que ser trocada pela ingestão de um cabo de vassoura para poder ser recebido, no máximo, pela porta do lado. Já era hora de construirmos rodovias de mãos duplas. A II CIAD, trouxe para o Brasil uma perspectiva de podermos construir, junto a nossos irmãos africanos, uma alternativa afrocêntrica, com base no humanismo, para pluralizarmos o mundo. E já que “a psique humana (...), na qualidade de herança comum transcende todas as diferenças”, (NISE DA SILVEIRA JUNG) é possível essa construção sem o desejo fundamentalista de salvar nem excluir ninguém, embora sem termos que abandonar nossas experiências singulares. A CIAD e o CIAD Cultural representaram o nosso termômetro, uma maneira de sairmos do micro para o macro sem perdermos a identidade e, ao mesmo tempo, a volta do macro para o micro, com uma visão mais ampliada da consciência do caminho que estamos traçando, para enriquecermos nossos projetos literários, artísticos e científicos, visto que, nessa “porta do não retorno” por onde entramos o que nos sustenta é a força da reconstrução, do refazimento e da revisão das raízes fincadas no centro da “fissura entre o passado e o presente”, (DIONE BRAND) significando o traçado do mapa por onde transitamos diasporicamente, para resolver o nosso passado e conseqüentemente tomarmos posse de nosso futuro-presente. O Cultural foi a prova de que não éramos apenas os anfitriões colonizados – papel que cansamos de representar – mas, os caçulas-guardiões de segredos inimagináveis, e do lado de cá, também produtores de ciência, arte e literatura, instrumentos conscientes da busca de alavancarmos a auto-estima de nosso povo. “Olhando para o futuro buscando a oportunidade de ser, mesmo que não queiram...”(Diescho). Como são parecidos os filhos e os amantes daquela mulher que do outro lado do Atlântico gerou em seu ventre a humanidade!

*Lepê Correia é psicólogo, comunicólogo, pós-graduado em História (UFPE), professor de psicologia da Comunicação e Psicologia Publicitária (UFPE), membro do Conselho Consultivo da Revista Palmares , poeta e escritor, autor, entre outras obras de Caxinguelê: Poemas de Negritude e Resistência Negro-Urbana em Pernambuco – Século XIX

our music, our literature, nor our scientific progress. Principally, the latter, which is not a recent event. The fact that Brazil is hosting CIAD, was first an example of the hard and tricky work of our Black intellectuals to prove how important it is to have Blacks in a variety of power positions, committed to the cause of the community; secondly, how valuable it is for Brazil to be able to begin to shake off her demons, to confront the mirror where the oh so familiar images, fictions that present themselves as reality, where we do not have to swallow some prickly half-truth in order to make it through the day. It is high time for us to build highways together. The second meeting of CIAD brings to Brazil a perspective of being able to construct together with our African brethern an Afro-centric alternative, with a basis in humanism in order to plurialize the world. And since “the human psyche...in the sense of common heritage transcends all difference“ (Silveira: 1978, 73) this construction is possible without the fundamentalist desire to save or exclude anyone, without us having to abandon our unique experiences. CIAD and CIAD Cultural represent our thermometer, a manner of moving from the micro to the macro without losing our identity and at the same time, a return from the macro to the micro, with a vision expanded by the awareness of the journey that we are mapping, in order to enriche our literary, artistic, and scientific projects, given that, in this “door of no return” through which we entered, what sustains us is the force of reconstruction, of the remaking, and of the revision of the roots planted in the center of the “fissure between the past and the present” (Brand: 200, 5), signifying the graphing of the map through which we “diasporically” move, in order to resolve our past and consequently to make possible our future-present. The Cultural was the test that we were not only the colonized hosts – the role that we are tired of representing – but rather, the offspring-guardians of unimaginable secrets, and as a result, also producers of science, art, and literature: conscious instruments in the quest to raise the self-esteem of our community. “Looking toward the future, searching for an opportunity of being what could not even be imagined“ (Diescho). How alike are the children and the lovers of that woman who from the other side of the Atlantic bred in her womb humanity! *Lepe Correia is a psychologist , communication specialist, with an advanced degree in History from the Federal University in Pernambouco, a member of the Executive Board of Revista Palmares, poet and writer, author of Caxinguelê: Poemas de Negritude e Resistência Negro-Urbana em Pernambuco – Século XIX, among other works


46 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

From Lucy to CIAD

De Lucy ao CIAD

Mauricio Pestana*

Maurício Pestana*

When North American and Ethiopian scientists announced to the world the discovery of the human’s oldest ancestor, the 3.2 million year-old African Lucy, a feeling that already existed among us was scientifically confirmed: Mother Africa is truly the womb and the cradle of humanity. The scientific finding only proves what Africans and their descendents in the Diaspora have demonstrated throughout the last centuries, that is to say, the so-called “civilized” world geographically and anthropologically transverses Africa. In this context, a new perspective becomes possible, a differentiated way of looking at the African continent. It must be noted that since the emergence of that which we call “modern civilization” many have been the ways of looking at the African continent and its present inhabitants and descendents. Ways of looking almost always permeated with preconceptions and discrimination. Within this context, representatives of civil society, heads of state, artists, and intellectuals met in Salvador, the largest Black city outside of Africa, in 2006, at the Second International Conference of Intellectuals from Africa and its Diaspora – CIAD II -- with a singular intention: to address issues of interest to Africa and its Diaspora, with the determined aim to deepen knowledge and understanding in order to promote better cooperation and development in order to reduce the deep inequalities that exist. It was an example to the world and indeed to our “Black Movement” that, in spite of linguistic, religious, cultural, and even political differences, a new Black world is possible and only the union between Africans and the Diaspora can contain the deep wounds suffered over centuries of exploitation. During the conference, the example of integration and efforts proposed by the heads of state, politicians, artists, and researchers, White and Black, demonstrated the possibility of a new way of looking and a new way of acting for Africa and its Diaspora, breaking the mold from object of study to protagonists of our history and of our future. If, on the one hand, the great challenge and merit of CIAD II was that of gathering different and even divergent thoughts about the future of Africa and of its Diaspora, CIAD Cultural with its artists, musicians, painters, intellectual writers of the most

Quando cientistas norte-americanos e etíopes anunciavam ao mundo a descoberta do mais antigo ancestral do homem, a africana Lucy, de 3,2 milhões de anos, confirmava-se ali cientificamente um sentimento já existente entre nós, a mãe África é realmente o ventre e o berço da humanidade. O achado científico só comprovara o que os africanos e seus descendentes na Diáspora vêm demonstrando ao longo dos últimos séculos, ou seja: o mundo dito “civilizado” passa geográfica e antropologicamente pela África. Neste contexto abriu-se uma nova perspectiva, um olhar diferenciado para o continente africano. Há de se notar que desde o surgimento do que denominamos como “civilização moderna” vários têm sido os olhares para o continente africano e seus atuais habitantes e descendentes. Olhares quase sempre permeados de preconceitos e discriminação. Dentro deste contexto reuniu-se em Salvador, maior cidade negra fora da África, no ano de 2006, A Conferência Internacional de Intelectuais da África e Diáspora – CIAD. Representantes da sociedade civil, chefes de estados, artistas e intelectuais vieram à Bahia com um único intuito: aprofundar temas de interesse da África e da Diáspora com o firme propósito de ampliar o conhecimento e o entendimento para promover uma maior cooperação e desenvolvimento no sentido de reduzir as profundas desigualdades existentes. Foi uma demonstração ao mundo e de quebra ao nosso “movimento negro” que, apesar das diferenças lingüísticas, religiosas, culturais e até políticas, um novo mundo negro é possível e somente a união entre africanos e a Diáspora pode conter as profundas feridas causadas por séculos de exploração. O exemplo de integração e esforços proposto pelos chefes de estados, políticos, artistas e pesquisadores, brancos e negros, demonstrou na conferência a possibilidade de um novo olhar e uma nova ação para a África e Diáspora, rompendo a barreira do objeto de estudo para protagonistas da nossa história e do nosso futuro. Se por um lado o grande desafio e mérito do CIAD foi o de reunir pensamentos diferentes e até mesmo divergentes sobre o futuro da África e da Diáspora, o CIAD Cultural com seus artistas, músicos, pintores, escritores, intelectuais das mais diferentes correntes de pensamentos, puderam demonstrar que ao rufar o ronco dos tambores uma energia ancestral maior


pulsa em nossos corpos e corações. Foi impossível ficar sem se mexer, sem interagir. Era a força aglutinadora e essencial do espírito africano agindo de forma espontânea e mostrando por que sobrevivemos a tudo e continuamos a resistir. Este poder aglutinador cultural fez com que negros da Guiné ou Venezuela, de Moçambique ou das Guianas, da Jamaica ou Lesoto, do Haiti ou da Nigéria, da Costa do Marfim ou de Cabo Verde, de Angola ou do Peru, do Brasil ou de Camarões, dos Estados Unidos ou da África do Sul enfim, dos diversos países africanos e da Diáspora que lá estiveram reunidos, transformassem a semana no encontro de um só povo, uma só nação, ou como diria o poeta: “Não dá pra fugir dessa coisa de pele, vivida por nós, sentirá por nós”. Muitas foram às discussões, intervenções, palestras e manifestações culturais, mas sem dúvidas o sentimento mais fluente que podemos perceber ao final da conferência e, sobretudo, no CIAD Cultural foi: se demos ao mundo, mesmo com todas as diversidades, a contribuição cultural com gênios como Bib King, Bob Manley, Cartola e Pixinguinha, se demos ao mundo, apesar do racismo, personalidades da envergadura política como Nelson Mandela e Martin Luther King; se conseguimos vencer preconceitos no mundo acadêmico com pessoas do porte de um professor Milton Santos, Pepetela, Tony Morrison; enriquecemos os cofres e a economia do velho mundo com o suor do trabalho escravo, é chegada a hora de cobramos deste mundo uma reparação sim, de tratamento, de respeito e até de recursos, pois como foi demonstrado com o descobrimento de Lucy tudo começou e passa pela África e seus descendentes negros ou brancos espalhados pelo planeta!

varied streams of thought, was able to demonstrate that with the beating of the drums a greater ancestral energy pulsated in our hearts and souls. It was impossible to remain still, without interacting, it was an essential and binding force of African spirit reacting in a spontaneous manner and showing why we survive and why we continue to resist. This binding cultural power made it possible for Blacks from Guinea or Venezuela, from Mozambique or Guyana, from Jamaica or Lesotho, from Haiti or Nigeria, from the Ivory Coast or Cape Verde, from Angola or Peru, from Brazil or Cameroon, from the United States or South Africa, finally, from diverse African countries and the Diaspora which were gathered there, to transforme the week into the encounter of a single community, a single nation, or as the poet would say: It is useless to run from this skin thing, lived by us, it will be felt by us”. Many were the discussions, interventions, presentations, and cultural events, but without a doubt the most readily identifiable sentiment that could be perceived at the end of the conference, and above all in CIAD Cultural was: if we gave the world, even with all the diversity, the cultural contribution of geniuses like B.B. King, Bob Marley, Cartola and Pixinguinha, if we gave the world, in spite of racism, personalities of far-reaching political import such as Nelson Mandela and Martin Luther King, Jr.; if we managed to overcome preconceptions in the academic world with persons of such stature as Professor Milton Santos, Pepetela, Tony Morrison; we have enriched the coffers and the economy of the Old World with our sweat under chattel slavery. The time has come to collect our reparation from this world, yes, of consideration, of respect and even of resources since as it was demonstrated with the discovery of Lucy, that it all began and passed through Africa and her Black or White descendents spread throughout the planet!

*Maurício Pestana é publicitário e cartunista

*Maurico Pestana is an advertising executive and cartoonist


48 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

A River Called the Atlantic

Um rio chamado Atlântico

Paulo Miguez*

Paulo Miguez*

I do not believe that there exists a more favorable area in which to celebrate the relations between Brazil and African countries than that of culture. There is enough history, affection, and emotion to guarantee the necessary cultural cement for the construction of a bridge linking the two sides of the Atlantic. I even know, we all know, that culture and its historical, affective, and emotional impact does not stand out as a determining factor in the arrangements that set the priorities on the list of international relations. Here, the movement is “hegemonized” by dictates that serve political strategies and economic interests, for example, the processes of regional and international integration that traditionally brought together countries that often have little or nothing in common. However, it is also here that the historical as well as cultural ties that link us to Africa can forcefully come to bear. What other country besides Brazil, awash in such a meaningful common cultural repertoire, could extend a hand to Africans in order to participate in their struggle for development of their societies? What other nation in the world could offer itself with as many assets as Brazil to assist in efforts to construct networks that might connect the African Diaspora with Africa? In this sense, and even in the mine field in which the economic and political games are played, Brazil can and should have a differentiated role in relation to the community of African nations. African nations cannot expect from us, from Brazil, any other position than that of ever and always moving forward, in the sense of becoming an active partner in the economic and political issues that involve our processes of development, whether on the level of bilateral relations, or in the atmosphere of regional and multi-lateral organizations in which it participates, a partner interested in establishing and incrementing just and balanced commercial relations with these countries; a partner capable of promoting cooperative actions, clearly divested of lucrative ends; a capable partner who, together with the international community, acts in defense of the interests of poorer countries; a partner in the sense of applying indispensable aid and resources to the resolution of the most serious problems that affect African nations.

Não creio que haja campo mais favorável do que o da cultura para acolher as relações entre o Brasil e os países africanos. É que há suficiente história, afeto e emoção para garantir a argamassa cultural necessária à construção de uma ponte ligando os dois lados do Atlântico. Todavia sei, sabemos todos, que a cultura e sua carga de história, afeto e emoções não pontua como determinante nos arranjos que organizam o tabuleiro das relações internacionais. Aqui, o movimento é hegemonizado por ditames que atendem a estratégias políticas e interesses econômicos, do que são exemplares os processos de integração regional e internacional que costumam reunir países que muitas vezes pouco ou nada têm de comum entre si. Mas é também aqui que podem entrar, em força, os laços históricos e culturais que nos ligam à África. Que outro país, que não o Brasil, pode lançar mão de tão significativo repertório cultural comum para participar da luta dos africanos pelo desenvolvimento de suas sociedades? Que outra nação do mundo pode se oferecer com tanta propriedade como o Brasil para acolher os esforços de construção de redes que conectem a diáspora africana com a África? Nessa medida, e mesmo no terreno minado em que se realizam os jogos da economia e da política, o Brasil pode e deve ter um papel diferenciado em relação à comunidade das nações africanas. De nós, o Brasil, não podem esperar os países africanos outro comportamento que não seja o de avançar sempre mais no sentido de vir a ser um parceiro atuante nas questões econômicas e políticas que envolvem os seus processos de desenvolvimento, seja no plano das relações bilaterais, seja no âmbito das organizações regionais e multilaterais de que participa – um parceiro interessado em estabelecer e incrementar relações comerciais justas e equilibradas com estes países; um parceiro capaz de promover ações de cooperação claramente desvinculadas de interesses lucrativos; um parceiro capaz de junto à comunidade internacional atuar na defesa dos interesses dos países mais pobres; um parceiro no sentido de reunir os apoios e recursos indispensáveis à solução dos gravíssimos problemas que afetam as nações africanas. Os últimos quatro anos parecem indicar uma inflexão significativamente positiva da política externa brasileira em direção à África e sua comunidade de nações. Mais significativo ainda


é percebermos que este movimento passou a incorporar a dimensão cultural que até então se mantivera ausente ou, na melhor das hipóteses, sub-representada pela simples presença de alguns artistas em visitas diplomáticas de praxe. São dignas de registro, neste particular, as ações articulando cultura e desenvolvimento iniciadas pelo Ministério da Cultura no âmbito da CPLP e, também, a realização recente, em Salvador, na Bahia, da II Conferência dos Intelectuais da África e da Diáspora. Certamente ainda é pouco para o amplo arco de possibilidades que encerram as relações entre o Brasil e os países africanos e que devem ter no campo da cultura seu leito privilegiado – muito pouco mesmo para quem como nós, o Brasil, devemos tanto do que somos aos povos africanos e suas culturas. Mas podemos considerar ser este um bom começo para um processo do qual se espera a continuidade, o aprofundamento e a aceleração necessárias para garantir a solidez que merece a ponte que, sonhamos, possa aproximar as duas margens deste oceano ao qual um profundo conhecedor de suas águas e seus navegantes, o embaixador e historiador brasileiro Alberto da Costa e Silva, referiu como sendo “um rio chamado Atlântico”.

*Paulo Miguez é doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas (UFBA), professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia; ex-secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura; ex-diretorfinanceiro da Empresa Nacional de Telecomunicações de Moçambique

The last four years seem to indicate a significantly positive tone in Brazilian foreign politics in terms of the relationship with Africa and its community of nations. Even more significant is the idea that we grasp that this movement has begun to incorporate the cultural dimension which until that time was absent or at most hypothetical, under-represented by the habitual but empty presence of some artists on diplomatic visits. Worth noting, in this context, are the actions articulating culture and development initiated by the Ministry of Culture in the environment of CPLP and also the recent realization, in Salvador, Bahia, of the Second Conference of Intellectuals from Africa and its Diaspora. Certainly, it is still not enough for the wide range of possibilities that describe the relations between Brazil and African countries and which should have a privileged place in the area of culture, very little indeed for those who, like us, in Brazil, owe so much of what we are to the peoples of Africa and their cultures. We can, however, consider this as a good start for a process that promises the necessary continuity, deepening, and acceleration to guarantee the deserved solidity of the bridge which, we hope, can span the two shores of this ocean, or, as Brazilian historian and Ambassador Alberto da Costa Silva, well versed in its waters and its voyages, referred to it, as “a river called the Atlantic”.

*Paulo Miguez holds a doctorate in Communications and Contemporary Cultures from the Federal University of Bahia, professor at the Federal University of the Reconcavo, Bahia; former secretary of Cultural Policies in the Ministry of Culture; former financial director of the Mozambique National Company of Telecommunications


50 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

The trauma of the return journey

O trauma da viagem da volta

Vilma Santos de Oliveira (Yalorixá Mukumby)*

Vilma Santos de Oliveira (Yalorixá Mukumby)*

Even though we are far from completely understanding the phenomena of genetic heritage, science today admits that, within the same family, not only are physical-biological traits transmitted from one generation to another, but also emotions and even knowledge related to one’s survival. For those of us who profess a religious faith inherited from the African forests and plains and even for those who follow other religions, there is another component that needs to be considered in order to explain this link that binds the generations: the soul, which is capable of leaving behind the everyday present in order to interact with the past and the future. Science and religion will enable me to find a reasonable explanation for what I typically call “the trauma of the return journey”. For many years, I asked myself, why did we, Brazilian Blacks, not imagine ourselves on a journey of reencounter with Africa? Why, if not all of us, but a thin majority of our Blacks, when they thought about knowing a country, a different culture, did they visualize Europe or the United States? And, in the case of Europe, countries with little or no identity with our culture? Then I arrived at the conclusion that we carry in our genetic inheritance, in our souls, the bitter memories of the suffering of our ancestors, in the holds of slave ships. Perhaps for this reason, even going to Europe, we Brazilian Blacks do not imagine ourselves crossing the Atlantic on a ship, but always in a plane. Intuitively, we do not want to repeat the fateful route of our ancestors. It is a stigma, an unconscious and collective trauma, that impedes us from seeing and recognizing a real Africa, that preserves on its continent an immense diversity. An Africa that is not a country, but rather various countries, that does not have only one people, but rather various peoples, with realities that preserve common points of identity, but also evince peculiarities specific to each one. In Salvador, at the Conference of Intellectuals from Africa and its Diaspora (CIAD) and CIAD Cultural, I was even more certain that we, here in Brazil, in fact suffer from the trauma of the return journey, but, at the same time, it was proved to me in a practical way, that we can indeed conquer this obstacle to reencounter our roots. There, on one side, were heads of state, intellectu-

Mesmo ainda estando longe de conhecer com exatidão o fenômeno da herança genética, a ciência admite hoje que, dentro de uma mesma família, não são apenas as características físico-biológica que são transmitidas de uma geração a outra, mas também emoções e até conhecimentos relacionados com a sua sobrevivência. Para nós que professamos uma fé religiosa herdada das selvas e savanas africanas e mesmo para os seguidores das demais religiões, há um outro componente que não se pode deixar de levar em consideração, para explicar esse elo que liga as gerações: a alma, que é capaz de sair do presente cotidiano, para interagir com o passado e o futuro. Ciência e religião me proporcionaram encontrar uma explicação, pelo menos convincente, para o que eu habituei chamar de “trauma da viagem da volta”. Durante anos me questionava por que nós, negros brasileiros, não nos imaginávamos numa viagem de reencontro com a África? Por que, se não todos, mas a esmagadora maioria dos nossos negros, quando pensam em conhecer um país, uma cultura diferente, visualizam sempre a Europa ou os Estados Unidos? E, no caso da Europa, países com pouca ou até mesmo nenhuma identidade com a nossa cultura? Então cheguei à conclusão que trazemos em nossa herança genética, em nossas almas, as lembranças amargas do sofrimento dos nossos ancestrais nos porões dos navios negreiros. Talvez por isso, mesmo indo para a Europa, nós, negros brasileiros não imaginamos cruzar o Atlântico em um navio, mas sempre em um avião. Intuitivamente não queremos repetir o caminho da sina dos nossos antepassados. É um estigma, um trauma inconsciente e coletivo, que nos impede de ver e reconhecer uma África real, que guarda em seu continente uma imensa diversidade. Uma África que não é um país, mas vários países, que não tem um só povo, mas vários povos, com realidades que guardam pontos de identidade, mas também peculiaridades próprias de cada um. Em Salvador, na Conferência dos Intelectuais da África e Diáspora (CIAD) e o CIAD Cultural me deram ainda mais a certeza de que nós, aqui no Brasil, temos de fato o trauma da viagem da volta, mas ao mesmo tempo, me comprovou de forma prática, que podemos sim vencer esse obstáculo ao reencontro com as nossas raízes. Ali, ao nosso lado, estavam chefes de estado, intelectuais,


representando um novo pensamento africano, mesmo que esse novo pensamento não reflita (como não poderia ser, num continente de tamanha diversidade) o pensamento unitário de toda a África. Existe sim, uma África de olhos voltados para o futuro e não debruçada sobre o seu passado, lutando para exorcizar os seus traumas herdados da herança genética dos seus ancestrais, impregnados em suas almas. A CIAD e o CIAD Cultural me comprovaram que podemos sim, fazer uma viagem de volta às nossas origens africanas, cruzar o oceano em um navio e retornar, sem reviver em nossos corpos as dores e sofrimentos infligidos aos nossos ancestrais. Quem como eu, atua numa militância em favor das causas dos negros brasileiros, num trabalho com pouco e até mesmo nenhum recurso material, sabe reconhecer o que esse encontro de todas as Áfricas representou. Estávamos todos ali, militantes, intelectuais, chefes de estado. Todos tratados com respeito e dignidade. Ninguém foi colocado em alojamentos superlotados, dormindo no chão, com alimentação precária ou, até mesmo, sem alimentação. Todos estavam hospedados e muito bem hospedados em hotéis, com transporte para o local das conferências e todas as condições. Um padrão que deveria ser normal para eventos como esse, mas que infelizmente, não é seguido, quando as questões a serem discutidas estão relacionadas com negros e índios. Essa ressalva não é desproposital. É para marcar que algo de novo está acontecendo em nosso país. A CIAD não reviveu para os militantes negros convidados a participar, o mesmo trauma da viagem da volta, o trauma de participar de eventos em condições que, no mínimo simbolicamente, nos remete aos porões dos navios negreiros. É bem possível que o fato de termos um Presidente operário, um ministro da Cultura negro, uma ministra da Reparação Social negra, tenha feito a diferença. Mas o importante agora é estarmos atentos para que não haja retrocessos. Estarmos firmes no propósito de seguir em frente, ampliando as nossas ligações com a África e os países de herança africana e juntos encontrarmos as saídas para o nosso desenvolvimento social e econômico. No Brasil, precisamos criar o hábito de discussões permanentes sobre a realidade dos afro-descendentes, a partir de eventos como a CIAD e o CIAD Cultural, que resultem em ações que tragam conseqüências. Assim, acredito que, rapidamente, venceremos não apenas o trauma da viagem de volta, mas todos os traumas que ainda nos faz um país de desigualdades, preconceitos e incertezas em relação ao nosso futuro. *Vilma Santos de Oliveira é presidente do Conselho Municipal da Promoção da Igualdade Racial de Londrina(PR) e yalorixá do Terreiro Ilê Axé Ogum Megê

als, representing a new African thought, even as this new thought might not reflect (nor could it reflect in a continent of sizeable diversity) the united thought of all of Africa. Indeed, there exists an Africa of eyes fixed on the future and not turned towards the past, struggling to exorcize its inherited traumas of a genetic heritage from its ancestors, written on its soul. CIAD and CIAD Cultural proved to me that we can indeed make a journey of return to our African origins, to cross the ocean on a ship and to return without viscerally reliving the pains and suffering inflicted on our ancestors. Those who, like me, participate in militancy for the causes of Black Brazilians, in work with little or no material resources, know how to recognize what this encounter of all of the Africas represented. We were all there, militants, intellectuals, and heads of state. All treated with respect and dignity. No one was housed in overcrowded lodgings, sleeping on the ground, with not enough to eat or nothing to eat. Everyone was lodged, and very well lodged, in hotels, with transportation to the conference and attention to detail. A model that should be the norm for such events, but sadly, it is not followed, when the issues to be discussed are related to Blacks and Native Americans. These measures are not unintentional. They serve to indicate that something new is taking place in our country. CIAD did not revive for the Black militants invited to participate in the same trauma of the return journey, the trauma of participating in events in conditions that, at least symbolically, relegate us to the holds of slave ships. It is quite possible that the fact that we have a working-class President, a Black Minister of Culture, a female Minister of Social Reparations, has made a difference. However, the important thing now is that we guard against losing ground. We will be strong in the proposal to continue forward, increasing our ties with Africa and countries with African heritage and together we will find the solutions for our social and economic development. In Brazil, we need to create the habit of on-going discussions about the reality of those of African descent, based on events like CIAD and CIAD Cultural, which result in actions that bring consequences. In this way, I believe that, in short order, we will conquer not only the trauma of return, but all of the traumas that still make us a country of inequalities, prejudice, and uncertainties in relation to our future.

*Vilma Santos de Oliveira is president of the Municipal Council for the Promotion of Racial Equality in Londrina (PR) and yalorixá (priestess) of the religious community Ilê Axé Ogum Megê


54 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

Africa Here They came from every continent. They crossed oceans, hundreds and thousands of kilometers, to arrive at the city of Salvador, Salvador of Bahia, on the All Saints Bay. At the place where the first slave auction square was constructed, heads of state, intellectuals, and artists from nations in Africa and its Diaspora came together to share with the world the new thought that writes tjhe Africas on every continent. A thought which is alive, contemporary, and inclusive, contributing to the humanization of the planet. It began on July 11, 2006 at the opening of the Second Conference of Intellectuals from Africa and its Diaspora (CIAD) and CIAD Cultural.

A África aqui Vieram de todos os continentes. Atravessaram oceanos, percorreram centenas, milhares de quilômetros, até a Cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos. Na terra onde se construiu o primeiro pelourinho, chefes de estado, intelectuais, artistas das nações da África e da Diáspora, se reuniram para mostrar ao mundo o novo pensamento que une as áfricas de todos os continentes. Um pensamento vivo, contemporâneo, inclusivo, contributivo com a humanização do planeta. 11 de Julho de 2006 foi o começo, a abertura da II Conferência dos Intelectuais da África e da Diáspora (CIAD) e do CIAD Cultural.


O presidente do Brasil, na presenรงa de outros cinco chefes de Estado, abre oficialmente a II Ciad (The President of Brazil, in the company of five other Heads of State, officially opens CIAD II).


56 A Grande Refazenda, รfrica e Diรกspora Pรณs II CIAD

Presidente do Brasil (President of Brazil), Luiz Inรกcio Lula da Silva Presidente do Senegal (President of Senegal), Abdoulaye Wade Presidente de Gana (President of Ghana), John Kufuor


Presidente de Cabo Verde (President of Cape Verde), Pedro Pires Presidente de Botsuana (President of Botswana), Festus Mogae Presidente da GuinĂŠ Equatorial (President of Equatorial Guinea), Teodoro Obiang Nguema Primeira Ministra da Jamaica (Prime Minister of Jamaica), Portia Simpson Miller


58 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

Presidente da Comissão da Unidade Africana (Chairman of the Commission of the African Union), Alpha Omar Konaré Ministro de Estado da Cultura do Brasil (Minister of Culture Brazil), Gilberto Gil, co-presidente da II Ciad (co-President of CIAD II) Ex-presidente do Parlamento Sul-Africano (Former President of the South African Parliament), Frene Guinwala, co-presidente da II Ciad (co-President of CIAD II)


Secretária de Política de Promoção da Igualdade Racial do Brasil (Secretary of Policies for the Promotion of Racial Equality in Brazil), Matilde Ribeiro Prêmio Nobel da Paz (Nobel Peace Prize Laureate), Wangari Maathai Cantor (Singer) Steve Wonder, convidado especial(Special Guest) Presidente Lula com o presidente da Comissão da Unidade Africana (President Lula with the President of the Commission of the African Union)


60 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

A história exposta History Exposed A look through the lens, over time, juxtaposing the everyday life of Black Brazilians at various historical moments. Past and present together, framed by the city square, in the photography of Januário Garcia.

Um olhar através da lente, por sobre o tempo, colocando lado a lado o cotidiano de negros brasileiros de tempos diferentes. O passado e o presente juntos, emoldurados na Praça pela arte de Januário Garcia.


62 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

Africanidade Africanness Lively colors printed on silhouettes, and sometimes majestically crowned heads, make a luminous contrast. At CIAD, the identity of African and Diasporic peoples regally paraded through the conference salons and the streets and squares of the city of Salvador, expressing all of the effervescence of a past materialized in a stimulating present of new roads towards the future.

As cores vivas estampadas por sobre as silhuetas, às vezes coroadas com majestade por sobre as cabeças, formam um contraste luminoso. Na CIAD, a identidade dos povos africanos e diásporos desfilava soberanamente nos salões de conferências e nas ruas e praças da Cidade do Salvador, expressando toda a efervescência de um passado materializado numa contemporaneidade estimuladora de novos caminhos para o futuro.


64 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

As vozes da alma Voices of the Soul Similar to the heart, it pulsates in the energy of the voices that sing in praise of God and the orishas [deities].

Como o coração ele pulsa na energia das vozes que cantam em louvor a Deus e aos orixás.


66 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD


68 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

Cortinas descerradas The Curtain Rises Men and women on stage. Blacks singing a single history, all of their histories of pains, struggles, and victories. Black men and women of Bando [de Teatro Olodum]. Black men and women of Olodum [Cultural Group], on stage as the curtain rises, revealing truths that have been hidden for centuries.

Sobre o palco homens e mulheres. Negros contando numa só história, todas as suas histórias de dores, lutas e vitórias. Negros e negras do Bando. Negros e negras de Olodum, no palco com as cortinas descerradas. Bando de Teatro Olodum revelando verdades há tantos séculos ocultas.


70 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

Diversidade em comunhão Diversity in Communion Europe, America, Africa. Neckties and bare chests. Men and women. Blacks and whites. CIAD II was a grand stage for diversity. Differences that came together in the harmony of a single race: the human race.

Europa, América, África. Gravatas e torsos. Homens e mulheres. Negros e brancos. A II CIAD foi um imenso palco para a diversidade. Diferenças que se uniram na harmonia de uma única raça: a raça humana.


72 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

Encantos de ébano The Charms of Ebony Ebony women. Black women sculpted by a God. Portraits of universal beauty, revealed in all their regalia, by the attentive eye of another woman.

Mulheres de ébano. Mulheres negras esculpidas por um deus. Retratos de uma beleza universal, exposta em toda a sua realeza, pelo olhar atento de outra mulher.


74 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

The Song of Blackness Voices which, in another time, were raised in reverence to the orishas [deities] in the jungles and savannas of Africa and which later, in lament, crossed the Atlantic in the holds of slave ships. Voices which during centuries comforted the pain and suffering on plantations. Voices which kindled hope, ignited freedom struggles and revolts, [which, rocking to and fro,] soothed the dreams of children in runaway slave settlements. Voices which today encourage us to continue forward. Voices which celebrate the joy of those who never cease to build a new world.

O canto da negritude Vozes que outrora se elevaram em reverência aos orixás nas selvas e savanas da África e que mais tarde, em lamento, cruzaram o Atlântico nos porões dos navios negreiros. Vozes que durante séculos confortaram dores e sofrimentos nas senzalas. Vozes que acalentaram a esperança, incitaram lutas e revoltas pela libertação, adormeceram e embalaram os sonhos de crianças nos quilombos. Vozes que hoje nos encorajam a seguir em frente. Vozes que celebram a alegria dos que nunca desistem de construir um novo mundo.


76 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD


78 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD


80 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

The Body in Absolute Freedom The feet, firm, glide over the ground, supporting the body in perfect balance. Then they take off and the body floats in the air and spins in the most diverse directions, challenging gravity, guided by hidden hands. The body in absolute freedom, in absolute harmony with the soul.

O corpo em liberdade plena Os pés deslizam sobre o chão, firmes, sustentando o corpo em perfeito equilíbrio. Depois se impulsionam e o corpo flutua no ar e gira nas mais diversas direções, desafiando a gravidade, guiados por mãos ocultas. O corpo em liberdade plena, em completa harmonia com a alma.


82 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

Manual Labor In the bible, God made man from clay. In Africa, Oxalá gave man clay, wood, straw, and all of the fruits of nature so that he might play at being God and, with his hands, make new creations. A Labor that the Diaspora spread throughout all God’s world.

O fazer das mãos Na Bíblia, Deus fez o homem do barro. Na África, Oxalá deu ao homem o barro, a madeira, a palha e todos os frutos da natureza para ele brincar de Deus e com as suas mãos fazer novas criações. Um fazer que a diáspora espalhou por todo o mundo de Deus.


84 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

Mr. Resistance

Senhor resistência

It is a ninety-two year old history written with the force of centuries of ancestors. Abdias Nascimento. A long life of resistance against conformity, against the myth of racial superiority, against all biases and false democracies. At CIAD II, acknowledgement. Honorary awards, a biographical exhibition. Homages to the one who used his voice and art to defend equality among all.

São 92 anos de uma história escrita com a força dos séculos dos seus ancestrais. Abdias Nascimento. Uma longa vida de resistência ao conformismo, ao mito da superioridade racial, a todos os preconceitos e falsas democracias. Na CIAD o reconhecimento. Condecorações, exposição biográfica. Homenagens a quem usou a voz e a arte para defender a igualdade entre todos.


86 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

Um pedaço da África A Little Piece of Africa The square was captured. The ancient cathedral square built by the Portuguese colonizers was now populated by the art, by the beliefs, [and] by the Black peoples on both sides of the Atlantic. The one-time Portuguese cathedral square stood, during CIAD II, as a little piece of Africa.

A Praça foi tomada. A antiga Sé erguida pelos colonizadores portugueses estava agora povoada pela arte, pelas crenças, pelos povos negros dos dois lados do Atlântico. A Praça da Sé, antes portuguesa, na II CIAD se ergueu como um pedaço da África.


88 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

A Bridge over the Atlantic “CIAD and CIAD Cultural were not simply events, with a beginning and an end, but rather a foundation for this imaginary bridge over the Atlantic, on a voyage (this time, not in the holds of slave ships) that will always have new beginnings because, as our African ancestors already knew, millions of years before Western civilization, the world is round and rotates eternally.” -- President of the Palmares Cultural Foundation, Zulu Araújo, at the close of CIAD Cultural.

Uma ponte por sobre o Atlântico “A CIAD e a CIAD Cultural não foram simples eventos, com começo e fim, mas um alicerce dessa ponte imaginária por sobre o Atlântico, numa viagem (desta vez, sem os porões dos navios negreiros), que sempre vai ter recomeços, porque, como já sabiam os nossos ancestrais africanos, milhares de anos antes da civilização ocidental, o mundo é redondo e gira permanentemente” – Presidente da Fundação Cultural Palmares, Zulu Araújo, no encerramento da CIAD Cultural.


CARTA DE SALVADOR “Nós, os participantes da 2ª Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora - 2ª Ciad, reunidos em Salvador, de 12 a 14 de julho de 2006: RECORDANDO a 1ª Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora - 1ª Ciad, realizada em Dacar (Senegal), de 6 a 9 de outubro de 2004, sob o tema geral “A África no Século 21: Integração e Renascimento”; CONCORDANDO em que o tema da 2ª Ciad, “A Diáspora e o Renascimento Africano”, agrega e enseja perfeita continuidade em relação à 1ª Ciad; Reconhecendo a importância da participação do Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, que abriu os trabalhos da Conferência; EXPRESSANDO à Comissão da União Africana e ao Governo da República Federativa do Brasil seu apreço pela organização da 2ª Ciad, iniciativa que lança as bases para uma cooperação permanente entre a União Africana, principal organização do continente, e os países da Diáspora; DESTACANDO a riqueza dos debates ocorridos nas três mesas redondas e doze grupos temáticos; Comunicamos que: • A crescente consciência de uma cidadania africana, com suas repercussões políticas, econômicas e culturais, e o entendimento dos Estados da África, reunidos em torno à União Africana, constituem elementos essenciais ao Renascimento Africano; • A Diáspora africana, presente em todo o globo terrestre, representa parte fundamental do patrimônio cultural e político africano e mantém viva a consciência de suas origens; • As comunidades de origem africana enfrentam dificuldades de variada natureza em seus países e um real encontro da Diáspora com suas raízes ancestrais tem papel fundamental na superação dessas dificuldades, podendo os Governos e a sociedade civil contribuir para as soluções por meio de uma maior consciência da cultural africana; • O encontro de intelectuais, no contexto da Ciad, incentiva e contribui para a integração da Diáspora com suas origens ancestrais; • O desenvolvimento da África será dinamizado por meio da contribuição da Diáspora Africana; A 1ª e 2ª Ciad se apresentam como relevantes mecanismos para a compreensão global do Renascimento Africano. Declaramos que:

THE SALVADOR DECLARATION “We, the participants of the second Conference of Intellectuals from Africa and its Diaspora, CIAD II, gathered in Salvador, from July 12-14, 2006. REMEMBERING the first Conference of Intellectuals from Africa and its Diaspora, CIAD I, which took place in Dakar (Senegal) from October 6-9, 2004, under the general theme “Africa in the Twenty-First Century: Integration and Renaissance”; AGREEING that the theme of CIAD II, “The Diaspora and African Renaissance,” builds upon and provides opportunities for complete continuity with CIAD I; RECOGNIZING the importance of the participation of the President of the Federative Republic of Brazil, Luiz Inácio Lula da Silva, who opened the Conference; EXPRESSING their appreciation to the Commission of the African Union and to the Government of the Federative Republic of Brazil for the organization of CIAD II, an initiative that lays the groundwork for lasting cooperation between the African Union, foremost organization of the African continent, and the countries of the Diaspora; EMPHASIZING the richness of the debates occuring during the three round table discussions and the twelve thematic group encounters; We announce that: The growing consciousness of an African citizenship (Pan-Africanism), with its political, economic, and cultural repercussions, and the mutual understanding of the African States, united under the African Union, constitute essential elements for the African Renaissance; The African Diaspora, apparent in every part of the globe, represents a fundamental part of African cultural and political patrimony and keeps alive the awareness of its (African) origins; Communities of African origin confront a wide variety of difficulties in their countries, and a real encounter of the Diaspora with its ancestral roots plays a fundamental role in overcoming these difficulties, enabling governments and civil society to contribute to solutions by means of a greater consciousness of African culture; The meeting of intellectuals, in the context of CIAD, motivates and contributes to the integration of the Diaspora with its ancestral origins; The development of Africa will be energized through the contribution of the African Diaspora; CIAD I and II offer appropriate platforms for the global understanding of the African Renaissance. We declare that:


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• CIAD II underscores the necessity of maintaining the dialogue between African and Diasporic intellectuals between and after the meetings; • The African Union should promote activities in the Diaspora as an important part of its organizational strategy, and reinforce and support the Directorate of Civil Society and Diaspora Relations (CIDO: African Citizens Directorate of the African Union), responsible for contacts with communities of African origin in other countries; • African communities and the countries of the Diaspora should support the work of the Directorate, in particular, and of the African Union Diaspora Initiative, in general; • The African Union should establish a Steering Committee of intellectuals to assist the Commission of the African Union in preparing for CIAD III. • In the best tradition of intellectual investigation with social responsibility, we aspire to work together with the Steering Committee in order to promote strategic cooperation among intellectuals and governmental authorities in Africa and the Diaspora, through organized and sustainable mechanisms. We also seek to develop protocols for the coordination of research, teaching, and dialogue, as well as other activities of strategic interest, in order to invigorate the African Renaissance and integrate these activities with those of the African Union and other multilateral initiatives. • The Federative Republic of Brazil, host of CIAD II, and the African Union should consider the creation of an International Center of Africa and the Diaspora that, among other functions, would serve as one of reference points for enhancing cooperation among academic, intellectual, and artistic organizations and institutions, promoting regional meetings, scientific projects, seminars, artistic events, and youth encounters, among other activities, with the aim of deepening and encouraging African thought worldwide. • The United Nations Educational, Scientific, and Cultural Organization (UNESCO) is invited to include in its program and budget for the 2008-2009 biennium and for its medium-term 2008-2013 strategy, support for CIAD II followup activities and other initiatives that promote the strengthening of ties between Africa and its Diaspora; • CIAD II is an example of the close relations between African countries and countries of the

• A 2ª Ciad realça a necessidade de que o diálogo entre os intelectuais africanos e da Diáspora seja mantido entre e após as reuniões; • A União Africana deverá promover atividades da Diáspora como parte importante de seu organograma e reforçar e apoiar o Departamento da Sociedade Civil e das Relações com a Diáspora (Cido), responsável pelos contatos com as comunidades de origem africana em outros países; • As comunidades africanas e os países da Diáspora devem apoiar o trabalho do Departamento, em particular, e da Iniciativa da União Africana para a Diáspora, em geral; • A União Africana deverá estabelecer o Comitê de Coordenação de Intelectuais para auxiliar a Comissão da União Africana nos preparativos da 3ª Ciad. • Na melhor tradição da investigação intelectual com responsabilidade social, aspiramos a trabalhar juntamente com o Comitê de Coordenação para promover a cooperação estratégica entre os intelectuais e autoridades governamentais na África e na Diáspora, por meio de mecanismos organizados e sustentáveis. Também buscaremos desenvolver modalidades para a coordenação da pesquisa, do ensino e do diálogo, bem como outras atividades de interesse estratégico, para dinamizar o Renascimento Africano e integrar essas atividades com aquelas da União Africana e outras iniciativas multilaterais. • O Governo da República Federativa do Brasil, anfitrião da 2ª Ciad e a União Africana deverão considerar a criação de um Centro Internacional da África e da Diáspora que, entre outras atribuições, funcionaria como um dos pontos de referência para ampliar a cooperação entre as organizações e instituições acadêmicas, intelectuais e artísticas africanas e da diáspora, promovendo reuniões setoriais, projetos científicos, seminários, manifestações artísticas e encontros de jovens, entre outras atividades, a fim de adensar e encorajar um pensamento africano mundial. • A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) é convidada a incluir em seu programa e orçamento para o biênio 2008-2009, e para sua estratégia e médio prazo 2008-2013, o apoio a atividade de seguimento da 2ª Ciad e outras iniciativas que promovam o estreitamento dos laços entre a África e a Diáspora; • A 2ª Ciad é um marco das estreitas relações entre os países africanos e os países da Diáspora e testemunho da crescente importância da África no mundo;


• A concretização do Renascimento Africano é elemento essencial para que o século XXI inicie uma era em que todos os povos e países tenham acesso à riqueza e à cultura, em pleno respeito da dignidade, dos direitos e dos valores das crianças, mulheres, idosos e homens de todas as etnias e crenças.”

Diaspora, as well as a witness to the growing importance of Africa in the world; • The realization of the African Renaissance is an essential element for the twenty-first century’s initiation of an era in which all peoples and countries may have access to wealth and culture, in full respect for the dignity, rights, and values of children, women, the elderly, and humans of every ethnicity and belief.”


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A Grande Refazenda África e Diáspora Pós II Ciad The Great Revival - Africa and Diaspora Post - CIAD II Execução do Projeto Project Execution Sociedade Cultural Os Negões Os Negões (The Blacks) Cultural Society Presidente/President – Paulo Roberto P. do Nascimento Projeto Editorial, Coordenação Geral e Organização Editorial Project, Coordination and Organization Waldomiro Santos Júnior Projeto Gráfico Graphic Project 2designers@uol.com.br Administração do Projeto Project Administration Ana Cristina Figueiredo Pesquisa Research Sílvia Mendes de Jesus Produção Executiva e Revisão Executive Production and Review Dora Dias Tradução Translation Patrycia Fox e Elisabeth Dahistrom Fotos Photographs Edson Ruiz e Júnior Esteves Impressão Press Gráfica JM


Neste livro, com formato 21 x 28 cm, impresso em papel couché fosco de 115 gr/m² o miolo e 300 gr/m² a capa, foram utilizadas fontes Bodoni e Futura. Fotolitos pela Italia Color. Impressão nas oficinas da Gráfica JM. Acabamento pela Finish. Salvador, Bahia, Maio de 2007


A grande  
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