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As Cidades e os Desejos


AS

CIDADES E OS DESE-

JOS

MAIO | 2018


Vamos juntas!?


EDITORIAL As cidades e os desejos É preciso olhar para as cidades. Sentir suas pulsações, seus flagrantes, seus desejos. Elas são ambientes vivos e despertam em nós, mulheres, vontades diferentes e expressas em vários formatos. Cidades são organismos vivos que - tal e qual um corpo - têm tecidos, órgãos e batimentos. Por meio do contato com esses ambientes, predominantemente urbanos e caóticos, nós conseguimos nos ligar com nossas ânsias e nossas febres. Este trabalho - uma reunião de 25 artistas dispostas a refletir sobre os desejos e as cidades é uma forma de dizer para o mundo que nós estamos aqui, que nós estamos vivas. Foram quase 300 trabalhos inscritos para participar dessa publicação virtual. Temos orgulho ao perceber a quantidade de mulheres que escrevem, ilustram, fotografam e se dedicam a outras artes. O Selo Editorial Aliás nasceu como um mecanismo de vazão para estes talentos. Nossa função é criar espaços coletivos e colaborativos nos quais possam estar as aspirações e as produções artísticas de tantas mulheres incríveis que estão por aí. Queremos o olhar delas como protagonistas de suas histórias e de seus desejos. Este livrovirtual é inspirado em As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino. Através da inalação dessa obra, as 25 componentes executaram trabalhos sobre as cidades que mais inspiram. Há Paris, há Fortaleza, há São Paulo. Há espaços tão vertiginosos quanto insurgentes. Os lugares estão lá fora, pedindo para serem visitados, mas também estão aqui, em nós. Cada texto e imagem que compõem essa livro virtual é um local de encontro das artes. Ao longo das próximas páginas, você, leitora, vai encontrar poemas, prosas, ilustrações e fotografias. Um caminho tracejado por desejos, afetos, sonoridades, escândalos, palpites, vontades e passos. É essa a estrada que queremos trilhar. E esperamos que, a cada dia mais, nós estejamos todas juntas.

EQUIPE ALIÁS Anna K Lima, Bruna Sombra, Dávila Pontes, Ingrid Saraiva, Isabel Costa, Jéssica Gabrielle Lima, Mariana Amorim, Taciana Oliveira, Tais Bichara.


ÍNDICE

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ESPAÇO PÚBLICO | ALANA LUA | POESIA | SÁBADO À TARDE | ALICE NAME-BOMTEMPO | PROSA | JANELA | ALINE SHINZATO | ILUSTRAÇÃO | EU SÓ SERIA UM CIGARRO | AMANDA MACHADO | PROSA | AS CIDADES E OS ARES | BRUNA ESCALEIRA | PROSA | PRECISO DE UM CATAVENTO | CECÍ SHIKI | PROSA | TENHO MEDO DE PEIXE | DHIÔW E MARISSA NOANA | ILUSTRAÇÃO | TRÊS ANAS NA ESQUINA | FÁDHIA SALOMÃO | POESIA | 7X1 | JULIANA BERLIM | PROSA | PONTE AÉREA | KAH DANTAS | PROSA | VERMELHO E VERDE ROUGE ET VERT | LÍVIA PRADO | PROSA | ATÉ QUE PONTO SOU CIDADE? | LIZIANE MENEZES | PROSA | MEU BEM, HOJE EU VOU FALAR DE GIRASSÓIS | LUCIANA BRANDÃO | PROSA | BERINJELA | MARIA AMÉLIA MANO | PROSA | MEGALOMANIA ALCOÓLICA DAS NOSSAS POSSIBILIDADES | MARIANA SALOMÃO CARRARA

| PROSA | TANTO | NAIANA GOMES | POESIA |


O MEU CAMINHO ATÉ VOCÊ | NATÁLIA ALBERTONI | FOTOGRAFIA | CARTOGRAMA | RAÍSA CHRISTINA | PROSA | ATRAVESSIA | EXPULSADOR | RENATA FROTA | ILUSTRAÇÃO | TREINO | TAÍS BRAVO | POESIA | CASAS | TAYNÁ FIÚZA | FOTOGRAFIA | NAQUELA CIDADE | THAIS DSR | PROSA | ÓCULOS | TUYRA MARIA | PROSA | RUA TAL Nº 80 | VICTORIA PINA | POESIA | NATAL | VIVIANE NOGUEIRA | PROSA |

BIOGRAFIAS DAS AUTORAS


ESPAÇO PÚBLICO Alana Lua de frente prum vidro espelhado ele vale mais que teu corpo sentada num auditório fechado a cadeira de madeira velha vale mais que teu corpo na rua a paisagem dos bancos é contra o teu corpo debaixo dos carros em grandes alturas as pedras pontudas são contra o teu corpo o espaço como espaço só entre um chão e uma parede uma parede e outra um movimento e outro dos vazios: valem mais que teu corpo teus pés profanos tua passagem suja imunda inunda todos os bairros do Rio basta que pises

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SÁBADO À TARDE Alice Name-Bomtempo pega a voluntários, vai toda a vida até a livraria travessa já ali perto do metrô. tem um livro lá que eu procuro há mais de ano mas a edição era antiga e sumida, relançaram uma nova recentemente. encontra. meio caro mas ok eu mereço e é de estudo, de trabalho. sai, continua, pega a praia de botafogo, toda a vida de novo. adoro essa expressão. vira na primeira rua pro flamengo, a marques de abrantes, né? sentido contrário dos carros. porra. logo de cara tem um café que eu via todo dia quando voltava de niterói, no ônibus, que tinha na parede uma tirinha do calvin e haroldo, que depois virou aquela sequência clássica deles dançando e hoje é um desenho deles numa xícara com um fundo colorido que eu acho bem feio mas eu sempre via aquela tirinha e pensava quero ir nesse café. nunca fui. nao sei bem porque. comentei sobre ele com alguns amigos mas nunca chamei nem me chamaram e é isso. cinco anos já. ok. continua na rua. toda a vida, o que você quer é ir pro aterro, onde vira mesmo? na paissandu, à direita, isso, acertou. atravessa o cruzamento, a rampa, a vista é bonita mas a graça do passeio é também tá sem celular nem nada, uma coisa meio romântica escrota saudosista de não ter com o que registrar senão a sua memória na hora e possivelmente um relato depois, e depois mesmo, porque você até pensou mas esqueceu de levar um caderninho. meio preguiça de caderninho também. pronto, aterro. minha infância. nem vou mais. por ali foi onde aprendi a andar de bicicleta, e nessas pistas eu apostava corrida com meu pai e ficava chateada quando ele ganhava e ficava mais chateada ainda quando eu ganhava só porque ele pegou leve por ter mais força e habilidade que eu. andar, toda a vida, pra esquerda, direção centro. a ideia é ir até o MAM, ponto no qual uma caminhada muito gostosa com dois amigos começou num domingo de novembro do ano passado acho. segue. pouca gente, o tempo tá fechado, é importante que você tenha levado guarda chuva até porque tinha a coisa de comprar o livro e tal, mas agora já posso te dizer que você nem vai usá-lo. à esquerda tem um cachorro implicando com um gato em cima de uma mesinha de pedra e o gato tá puto, dando patada. chatão o cachorro mas acho que ele só quer brincar. fica meio nisso até o gato pular pro chão, o cachorro correr atrás e o gato ser mais rápido e subir no topo da árvore deixando o cachorro feito trouxa latindo embaixo. ha! é meio doida essa divisão de um lado um tantão de árvore e do outro a água. não que geograficamente não faça sentido, não que eu entenda qualquer porra de geografia também, mas são paisagens esteticamente dissonantes mesmo. se você tirasse uma foto de cada, sabe. mas, sem fotos físicas hoje. desculpa, é bem bobo, eu sei. mas é bom também. na próxima, quem sabe. segue aí. cada vez menos gente, já meio escurecendo, dá um medinho mas é gostoso também. são em momentos sozinha assim que eu me sinto mais viva, sabia? sozinha em lugares sem gente, não muito feitos pra gente. não sei você. mas segue. pela beirada. olha pra água às vezes, pro lado pro centro e pro lado pra zona sul. tem uma moça na areia sozinha observando a paisagem. daria uma foto bonita também, esse chapéu branco, ela de vermelho. mais adiante, uma curva, você chegou na marina da glória. aí segue a beirada, isso. bem cheio de nada aqui, acho bonito. tem duas crianças bem pequenas, diria de uns 4 anos, brincando de pique na beirada. porra elas correm pra caralho. segue. eita. ali é o aeroporto já e… é, você pegou a ponta errada. aqui é sem saída, o MAM é do outro lado dos barcos, só tem você e uma moça de bicicleta aqui. mas tudo bem. melhor que o MAM até. Sei que você nunca tinha vindo aqui. mas melhor dar meia volta, lembra, tá escurecendo. chegando na divisória, vai andando pra dentro de novo, pra rua, pra você já catar o caminho de volta pra zona sul. você vai atravessar uma pista agora pouco movimentada e cair na glória, na

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altura do memorial getúlio vargas. tá rolando uma feirinha com comida e música. é tão bom cair numas coisas assim. uma vez eu caí numa feirinha enorme, também andando a esmo, quando viajava em 2014. mas essa feira é bem pequena e você não tá com fome ainda porque comeu um pacote inteiro de biscoito lá na praia de botafogo, quando tava vendo se comprava anel de coco do hippie pra substituir o de joão pessoa que você perdeu nem sabe bem como mas também o anel servia mais pra evitar que você puxe as pelinhas debaixo da unha da mão. você não deixa de puxar de qualquer forma, mesmo com o anel ou com a unha pintada. vira na rua do catete agora, seguindo pro catete mesmo. tá perto já, na verdade. tente dar um role do palácio da república, que eu chamava de palhaço da república quando era criança sem fazer ideia que isso poderia ser lido como uma crítica social foda, mas já escureceu e deve tá fechado e se você tiver paciência tá tendo um lançamento de livro no museu. tem o cinema também, que é uma bosta. na bilheteria tem um cara que talvez você conheça. ele olhou pra você também. mas eu não lembro dele não. talvez seja um flerte. ou só desconhecidos se olhando por alguns segundos. ok, já deu, volta pro caminho. rua do catete, toda vida. eu realmente gosto dessa expressão. galeria do cine são luiz, um monte de gente na parmê, e é tão bom estar sem um monte de gente com você. não ter nenhuma companhia. te falei. seguindo mais, de novo na marques de abrantes. mas pega a senador vergueiro, porque nas andanças nunca se deve voltar pelo mesmo lado da rua e, de preferência, deve-se pegar a rua paralela. quanto mais volta e mais vistas diferentes melhor. tem uma esquina nela com vários stencils de uma menina de franjinha com a mão na boca. eu adoro esse stencil e ficou bonito esse tanto junto. essa rua dá umas voltinhas, e é engraçado porque você tá bem mais acostumada a passar por ela de ônibus, no sentido contrário. ali tem um prédio que uma vez olhei apartamento e nunca esqueci da fachada porque ela é antiga e na época alguma novela da globo usava de cenário pra entrada do prédio de algum personagem. que coisa. fim da rua, tem o catarina onde já comi algumas coxinhas às quatro da manhã, e aí passando, de novo, marquês de abrantes, e vamos, lá, sozinhas, no dito café, pela primeira vez, depois de cinco anos olhando pra ele. será que a moça vai te reconhecer de ter passado algumas horas antes? às vezes te acho bem esquisita. mas se ela achou também, não transpareceu. ufa, senta um pouco. pede algo caro. você não gastou nada a semana inteira, tudo bem. tipo um milkshake, mas com café. como sempre, as duas primeiras opções de salgado que você quer não tem, mas tudo bem também porque você come de tudo. comer é bom. pronto. sentada. sozinha. com café. e tem o livro que você comprou, falei que era importante. mais ninguém, tirando dois casais ao lado que parecem falar de trabalho, um cara mais velho sozinho no lado de dentro com o computador e uma família com uma criança de dez e outra de uns quatro anos atrás, que conversam alto. é bom ouvir eles falando. a mais velha explica como uns comediantes americanos conversam como se contassem piadas incríveis mas que quando você lê a legenda não tem graça nenhuma o que eles falam. olhei pra ela, e ela pra mim. não sei se ela achou estranho. desculpa, só queria dar um rosto à voz. ela tava sorrindo. é bom cruzar o olho com desconhecidos. uma cumplicidade de poucos segundos. mas vira de volta, continua curtindo o seu momento, só seu. come com calma, bebe com calma, não tem hora nenhuma. é bom ler sozinha à mesa, sem distrações que não as do mundo ao redor. gosto dessas distrações. dá um tempinho depois de comer. ouve o trânsito. lê um pouco mais. que coisa purista isso de curtir barulho da rua e não ter celular pra falar com ninguém, eu sei. mas acho que dá pra curtir isso sem transformar num discurso de melhor ou pior, sabe? é só… se isolar do mundo, no mundo, um pouco. sinto meio isso. descobrir o seu próprio tempo. decidi que agora esse café é nosso. paga a conta, volta a andar. agora já não dá mais pra mudar muito o caminho de antes. segue por esse mesmo. outro dia a gente pensa em outro. tem muitos.

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JANELA Aline Shinzato

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EU SÓ SERIA UM CIGARRO Amanda Machado EEle se senta tranquilamente com as pernas para fora da janela e fuma um cigarro. É ele. É ele de novo. Já o vi na mesma janela esta semana, ao menos mais duas vezes. Na primeira vez, achei inusitado um homem estar numa janela no centro antigo com as pernas ao vento, fumando sereno; na segunda vez, fiquei curiosa pela repetição da cena e até quis fotografar, mas pensei que talvez fosse uma invasão do seu momento sublime de fumar um cigarro na janela, do alto do quinto andar; já na terceira vez, me encantei por completo com o homem, o cigarro, os pés balançando no alto e a fumaça do cigarro dele se dissolvendo no infinito. Nas duas primeiras vezes, já o tinha levado um pouco para minha existência. Parava o trabalho pelo meio e me lembrava dos pés dele no alto, lia um parágrafo pela metade e me lembrava do solado dos sapatos dele sobre a minha cabeça, escrevia alguma coisa e pensava no olhar distraído do homem no seu horário de almoço, respondia a uma pergunta e me interessava em saber se o cigarro era antes ou depois do seu prato; aperitivo ou sobremesa? Separava papéis coloridos e me lembrava de que talvez o cigarro fosse o prato principal. Meus dias se mudaram temporariamente para o apartamento do centro, especificamente para a janela, para o homem, para o cigarro que ele fuma pacificamente. É um prédio velho no centro antigo, mas não é um prédio de estilo colonial, art-déco ou moderno; é só um prédio com linhas retas, janelas de correr, em cima de uma lavanderia e uma loja de molduras. É um prédio ordinário, não é bonito, é pequeno, baixo, são cinco modestos andares, não corrompe a paisagem, talvez eu nunca o visse, se não fosse a fumaça e, depois, pela sola dos sapatos que eu vejo quando passo por ele. Deve ter três quartos, um banheiro e um lavabo, copa e cozinha, a copa vão chamar de sala de jantar, depois da reforma, e na cozinha um basculante com vidros diferentes, cada um se quebrou numa época e não encontraram igual, talvez troquem o basculante. As paredes do cômodo que eu vejo, são verdes. E o homem que fuma, sem afetação, trabalha lá. Da janela ampla de onde ele fuma, não é só ele quem observa a paisagem, eu também vejo o apartamento, já vi outros homens lá dentro, um guincho na janela ao lado e containers na calçada; por isso sei da reforma. E ele tranquilo, aspirando fumaça e soltando-a com generosidade, olhando profundo para o céu da urbe, deve ver alguns telhados, pessoas passando a todo tempo, o trânsito caótico do meiodia e ele incólume com o seu cigarro e as pernas soltas ao vento. E daí, se há alguma lei que proíba um homem de fumar um cigarro com o corpo para fora de uma janela no centro? E daí, se o funcionário da segurança do trabalho chama sua atenção todos os dias? E daí, se o síndico acumula reclamações sobre um fumante suspeito na janela do apartamento de um prédio de família? E daí, se uma mulher passou e ficou olhando-o por alguns minutos nessa última semana? O homem fuma, eu vejo, eu invejo. Não é porque fuma manso numa janela num prédio absolutamente comum e modesto, mas como ele fuma; existe uma intenção, entende? Ele sai de casa pela manhã com o maço de cigarros num dos bolsos, um isqueiro no outro e sabe que ao meio-dia ninguém o impedirá.

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Fuma absolutamente livre e despreocupado em meio ao caos do apartamento e do centro. Ele premedita a sua liberdade. Fuma e é capaz de parar uma guerra com esse gesto, fuma e interrompe um golpe, suspende as ordens de desocupação de um conjunto habitacional abandonado, que deixaria famílias completamente desassistidas e desesperançadas, fuma e apressa a chegada de um filho, poupa uma mãe de horas de trabalho de parto num hospital frio com um médico absolutamente negligente, fuma e amortece as batidas descontroladas do coração antigo de um idoso que quer muito continuar a vida, fuma e dispara uma revolução, fuma e balança os pés sobre as nossas cabeças, fuma e desafia o capitalista com a sua improdutividade passageira, fuma e resiste a toda precariedade do apartamento, fuma e expõe sua própria precariedade e por isso, me salva. Quis fumar, não vou. Não pelo meu histórico familiar terrível ligado ao cigarro, não pelo cheiro forte e permanente que se espalha nem pelas propagandas que não passam mais na TV, não pelos documentários e reportagens com seus dados alarmantes, não fumarei pelo câncer. Resisti ao cigarro mesmo depois de todos os filmes da Nouvelle Vague, resisti à Bardot, Anna Karina e Belmondo, mas quase não resisto ao homem do centro antigo. Divide um cigarro comigo, homem? Deixa eu me sentar do seu lado na janela e durante um cigarro sejamos fumaça. Somos precários, tanto quanto ou até mais que esse prédio antigo reformado. Não tenho medo da precariedade, só queria um cigarro hoje. Queria ser a fumaça que cerca a cabeça do homem, que enche os seus pulmões de um veneno pacificador, que o retira da materialidade da sua vida de operário e o faz alçar voos de liberdade e descanso pela cidade; o soberbo homem que pisa sobre as cabeças do asfalto. A fumaça que afasta os alérgicos, os pudicos, os veganos, os mórmons e que atrai os ébrios da madrugada, que pedem um trago ou um isqueiro emprestado; que impregna nos tecidos, poros, nos cabelos de quem fuma ou se aproxima do cigarro. A fumaça redentora do meio-dia, que começa e termina numa ausência, flutua, se esvai, mas que por alguns instantes ocupa os vazios do homem. Ontem o mundo me pareceu completamente organizado, depois da fumaça, eu quem não era. O caos fora é sempre mais fácil de ser superado. E se eu filasse um cigarro, se faltasse ao trabalho? Quem me impediria de dividir um maço e uma janela no centro? Que lei eu infringiria? Qual o sossego eu perturbaria? Quem me veria? O caos de fora me organiza dentro. Tenho que estar bagunçada para saber encontrar as minhas coisas. Eu só queria um cigarro, um tempo de fumaça e voo, mesmo não temendo cada vidro diferente que eu carrego no basculante da minha cozinha. Eu só seria um cigarro, mesmo que no final de cada experiência, eu fosse descartada, pequena, restos de uma fuga ao meio-dia, no meio do asfalto.

EU SÓ QUERIA UM CIGARRO - As Cidades e os Desejos

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AS CIDADES E OS ARES inspirado n’As cidades invisíveis, de Ítalo Calvino

Bruna Escaleira em Z’aires as pessoas vivem vidas duplas. embora se levantem a cada manhã e saiam para realizar quaisquer tipos de atividades, seus sonhos nunca são interrompidos. continuam correndo normalmente nos oráculos escuros sobre suas grandes camas com pilares, que sustentam longas e esvoaçantes cortinas de voal branco semitransparente. a sonolenta penumbra misteriosa paira nos quartos, mesmo quando os olhos enxergam abundantes raios de sol entrando pelas altas janelas do teto ao chão. eventualmente, em plena pescaria no meio do mar, um marinheiro é assaltado por um déjà vu distante que quase o faz esquecer-se das ondas. trata-se, certamente, de um ricocheteio das cortinas oníricas viajando com o vento. ao voltar para casa para uma ducha no fim do dia, a água caindo em cascata além do chão cimentado e o vapor que se confunde com o revestimento de pastilhas anuviadas logo começam a conduzir o z’aireano ao mundo dos sonhos, de onde nunca saiu por inteiro. mas basta pousar a cabeça sobre o travesseiro para assistir novamente ao amanhecer e se levantar para as atividades do dia. é que em Z’aires os sonhos são a realidade, sonha-se a própria vida. há apenas um verbo para sonhar e viver. assim, entende-se o mistério do povo z’aireano, que não tem nada de duplo, vive sempre em uníssono. dormindo ou acordados, são sempre os mesmos. a vida transcorre ininterrupta, sem fronteiras. completa e livre.

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PRECISO DE UM CATAVENTO Cecí Shiki Inspira. Expira. Inspira. Expira. Esse era o movimento que empreendia no seu corpo, afim de acompanhar a cadência das ondas. Mar e coração revoltos. O ritmo da espuma deixava um rastro de uma fúria contida, maré cheia maré seca. Contemplava o mar como se evocasse um mantra. O corpo tentava se fazer consciente no presente, sentindo a entrada e saída de um elemento que falta em seu mapa astral. A respiração também ditava o ritmo da caminhada. O pé na areia era firme, como quem pisa na cara de...Certamente estaria bem longe àquela hora. Aterrizou em terras solares há poucos anos naquele mesmo por-do-sol, que poderia ser lindo, mas se mostrava indiferente. Preciso de um catavento! – Cortou-lhe o pensamento tal imagem. Estaria o vento terral assombrando seus canteiros? Ou seria a maresia enebriando sua imaginação? Enquanto se detinha na imagem-pensamento, observava uma silhueta ao longe. Um corpo com formas desenhadas por um esforço contínuo movimentava a rede vinda do mar, praticamente vazia. – uma pena – Pensou – tanto esforço e o que vem é nada. No entanto, aqueles espaços negativos da rede lhe traziam memórias das aulas de desenho à beira do mar. Linha. Ponto. Fuga. Horizonte. A perspectiva agora era outra. Apertou os olhos e tentou superar a miopia cotidiana, mas pouco adiantou com o vento maral que soprava forte. Com certa dificuldade, reconheceu a figura que se aproximava. Neto é um pescador que conheceu numa dessas tardes de desenhos à beira do mar. Conversavam entre fumaças saídas de seus lábios sobre histórias de além-mar. Para um pescador, em que as palavras lhe faltam facilmente, Neto era hábil na trama de histórias. Numa delas, disse que ficou a deriva por dias... o mastro havia partido. Seu coração ficou a contemplar sua própria solidão envolto daquela imensidão oceânica. Por dias, o horizonte era como seu amor pelo mar: infinito. Suas memórias o levaram às histórias de seu pai e sua mãe, pescadores do Guajiru, que, outrora, traziam da linha do horizonte, a comida que alimentava sua imaginação. No respiro de suas lembranças, mareou em direção à terra firme, sendo pescado e não pescador. Era rede preenchida de cantos de sereia, monstros marinhos e tesouros de piratas. Ouvir as histórias de Neto fazia nascer o desejo de estar à deriva na imensidão. Chegaria à risca? Faltava-lhe não só a experiência de navegar, mas o juízo, que, segundo seu pai, vivia nos pés. Talvez tenha sido esse juízo que a fez dançar na proa do barco que a levou até a tal linha do horizonte, se fazia pescadora. Assim, soube lidar com a fúria (não mais contida) das ondas. A maré seguia seu fluxo de cheia e seca, as cores do nascer do sol, agora, era sua paleta diária. Inpira e expira a imensidão oceânica, que, agora, lhe dera instrumentos de medição poética.

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TENHO MEDO DE PEIXE Dhiôw e Marissa Noana

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TRÊS ANAS NA ESQUINA Fádhia Salomão um dia intensamente nublado dose de realidade ainda que fantástica o vendedor de agulhas alguém pede um cigarro outro pede só fogo a muralha da china e um ponto final ou só um ponto desenho sobre foto outra intensa abordagem de realidade vento frio na nuca e três anas conversam ana ana de trás pra frente enio não pode ser ana enio não existe de trás pra frente na esquina alguém chega e diz que foi deus quem o mandou viu aquelas mulheres conversando vai colocar o nome delas num livro de oração as três anas ele disse

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o nome dele dose estranha de realidade num dia nublado em que a coisa mais intensa era você mesmo sem estar ali era o mesmo que o seu era o seu nome num dia em que eu não era eu ela não perguntou mas ele disse e não tirou os olhos de ana enquanto falava obrigada de minha parte conheço mas não quero acredito em gente e prefiro assim ela disse numa tarde em que tudo era real intenso e nublado eu também era ana na esquina

TRÊS ANAS NA ESQUINA - As Cidades e os Desejos

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7X1 Juliana Berlim Eu sinto tesão, todos sentimos tesão, melhor ainda sentir tesão com o salário na conta. Naquela sexta, saí de casa pouco depois das nove, momento em que a família brasileira para para assistir às novelas que violarão seus valores mas desenterrarão seus desejos. Meu carro atravessava célere as avenidas e o lusco-fusco saído pelas janelas indicava que as pessoas continuariam vivendo sua Síndrome de Estocolmo e eu a minha, nesta busca pela saciedade depois dos 30 anos. Porque, em lugares públicos, estranha-se que uma mulher desta idade busque solitária satisfação, com esta permanência incômoda aos outros frequentadores. Você tem que entender que a mulher está em exposição. A mulher feminina sabe a marca do seu perfume, do seu sabonete, do seu esmalte. Ela cuida de todos os detalhes, ela sabe o que fazer para seduzir. Ela sabe que tem de fazer sacrifícios em sua alimentação e deixar de lado prazeres, ela se esfalfa em exercícios na academia mas ela também estuda porque há tempo para tudo e o mundo de hoje, ela cuida da família e é boa mãe, esposa e filha, ela é discreta mas charmosa; ela sabe, acima de tudo, seu prazo de validade. Ungida por tantas fórmulas, lá fui eu à Zona Sul viver mais um 7x1. Com sorte sai-se da noite com uma foda. É fácil se não se exige muito e abre-se mão de certos escrúpulos. Mas meu erro é sempre sair de casa com os cadeados todos trancados. Porque não é só o samba que tem sua dignidade, as rockeiras também. O Facebook dizia que a atração seria uma banda cover do U2, como eu gosto de U2, faz tempo que não ouço, seria bom ouvir isso. Seria bom eu estar em outro lugar, atrás daquela pessoa, sem querer esbarrar, de modo casual pedir para me pagar uma cerveja, olhar no olhar e desfazer o mal-entendido, porque você me disse frases e não se dizem frases a uma mulher solitária de mais de 30 anos. Sabe o que eu quero fazer?, vou dizer baixinho no teu ouvido. Como você está vestida? Ai, assim você me deixa louco. Olha o que vou fazer com a minha mão. Quer saber como vou meter meu pau em você? Sempre chego cedo para pagar bandeirada barata, já que atravesso a cidade. Por isso as casas invariavelmente parecem creches, com papos sobre segundo período e estágios arranjados pelo tio em volta das mesas. Vou precisar de uma bebida para aguentar mais uma hora de atraso da banda, no Rio marca-se às dez mas o show só começa meia-noite, no mínimo. Os bares agradecem e praticam a usura sem lei. É tudo muito caro: paga-se pra entrar, paga-se pra ficar, paga-se antes de sair. O brinde são banheiros sujos, som alto e mal equalizado, noites que só acabam de manhã. Com 18 anos esta rotina carrega seu glamour. Mas depois de vinte anos disso, sem nenhuma certeza de nada na vida, resta preencher a comanda e esperar o auge da noite. Há alguns homens atraentes por aqui. De repente. Você vem vestida com que roupa? Acho que preferiria estar em outro lugar.

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A gente coloca Pink Floyd sábado à noite pra tocar e aí rola o que os dois concordarem em fazer. Vou resistir, serei forte. Eu vou meter minha língua dentro da sua orelha e lamber ela toda. Um homem se aproxima. Caucasiano, barba, 1,77m. Aquela camisa xadrez, aquela calça estonada, aquele sapatênis, aquela cara de quem estudou no Santo Inácio e na PUC. Aham, pode ser sim. Vamos ver como ele se comporta, não vou me mexer, eu já vim com um decote do tamanho do Grand Canyon, muito esforço cansa. Começa aqui um novo 7x1? A noite dirá. A banda vai começar. Quem sabe um começo e um desfecho ótimos. Vou pegar uma bebida. Sóbria o bastante para perceber que tinha gente muito empolgada com uma banda cover desconhecida. Queria ser assim, mas os cadeados chegam todos lacrados. O vocalista sobe ao palco de óculos, assim como todos os integrantes da banda exceto o baterista. Quem sabe não tomaram café com aqueles sachês de açúcar que vendem no Congresso. Meia-noite e quinze, eu sabia. Duas horas de gastos com bebidas. Olhei a comanda, 5% do meu salário ali. Em volta de mim, dezenas de comandas tão ou mais recheadas. A casa tinha faturado bem. Começa, banda, me faz faturar também, ele está próximo, a noite é uma criança. Vamos arrasar neste palco. Breve ajuste dos instrumentos e o show começou. Eu não conseguia acreditar em meus ouvidos. O vocalista não conseguia cantar uma nota no tom, esganiçava, fazia poses de pop star. A cozinha fritava e o guitarrista se salvava por pouco. Foi um momento muito doloroso da minha vida ouvir aquela merda. Precisei sair para tomar um ar, não estava bêbada o bastante para contemplar a ópera dos horrores. Encontrei alguns amigos no fumódromo, que estavam putos com a banda. Vamos embora, porque ainda dá tempo de ir ao Calabouço, a gente pega o táxi juntos. É para lá que eu quase fui, mas consegui fugir do movimento óbvio. Voltei para ficar próxima do palco. Onde está aquele macho interessante, barba, cabelo e bigode, que arrastava suas asas na minha direção? Oh-oh, foi ciscar em outro terreiro. De longe eu via o gajo rodopiando a eleita, que se esbaldava ao som daquele som mal ajustado de vocal desafinado e bateria torpe. Ela não se importava em fazer aviãozinho para música ruim, desde que tivesse aquela boca quente colada na sua nuca. Alto lá. Eu queria trepar, mas tenho as minhas dignidades. Há um limite para tudo, e U2 ou qualquer outra banda deste quilate mal tocada é o pior combustível para o tesão, porque... Eu gosto de transar beijando na boca. A gente põe Pink Floyd e eu entro em você enquanto beijo essa sua boca carnuda. 7x1. Durante vinte e dois dias neste mês trabalhar muito e muito poucas chances de sair de novo por causa deste salário, porque pobre é assim, sai umas duas vezes por mês e o restante fica em casa economizando para o salário não acabar. Mas lá pelo dia 10 está o salário passando pela sua timeline, mandando um boa noite, boa sorte, até mês que vem. Por isso que é duro ver que, nas poucas vezes que você sai por essas bandas, fora do seu circuito nuclear de subúrbio, vem uma franga sem gosto musical e tira sua chance grande

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de fazer mais um gol. A banda já estava acabando seu (freak) show e decidi não acompanhar até o final as dancinhas eróticas do Popeye com a Olívia Palito. Quem sabe ainda haja uma chance. Basta ir na direção contrária das expectativas. Chega de voyeurismo, pensei assim que entrei no táxi. Moço, toca pra Vila Isabel, Calabouço, conhece? Aliás, teria como ouvirmos U2? Ele colocou The Joshua Tree no Youtube. Anotei, boa sugestão para uma noite de sábado. Porque a semana ia acabar com um 7x2.

7X1 - As Cidades e os Desejos

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PONTE AÉREA Kah Dantas Tudo começou assim: ele era ninguém, a 3.000km, por quem eu desejaria me apaixonar. Coisa de encanto, de novidade geográfica, entende? E o que mais sucederia a um romance dessa natureza, senão a morte pelo costume? Então, veja você, ele me fodeu o corpo, nossa promessa implícita e, apaixonada pelas paixões e pelos pontos cardeais, deixei que me fodesse o coração também. Não era para ser e eu sabia disso. Não era para ser e mesmo assim foi. Entre uma e outra unha pintada, recordo. Ele todo de malas no aeroporto, as mãos suadas, tremendo, o coração feito tambor no peito. Uma graça! Era quase manhã na capital cearense e ele não tinha dormido no voo, nem dormiria nas horas seguintes aos primeiros abraços e beijos, no portão de desembarque, porque o universo não andava esperando, absolutamente, outra coisa de nós: ocupamo-nos primeiro com a geografia dos nossos corpos e, sem perceber, com aquela das nossas almas também. Recebi-o feito mulher e cidade, e virei fortaleza para abrigar a nós dois. A minha terra tornou-se dele também, e desbravamos suas estradas, ruas e calçadas turísticas de mãos dadas, apaixonados, deslumbrados e transtornados com a beleza do nosso engano. Abraçamos no litoral, na serra e no sertão; amamos com o vento, o frio e o calor. E ele me disse que se sentia em casa dentro de mim, na minha pele, no meu cheiro e no peso do meu corpo sobre o dele. Tínhamos ali uma amorosa tragédia espacial: na reciprocidade, nosso engano transformou-se em verdadeira ponte aérea. Voei de volta para os braços dele, para o meio da natureza de pedra, para os grafites coloridos impressos no cinza, para a narrativa dos carros, para uma temperatura mais amena. Apaixonei-me por cada metro de concreto e asfalto, pela Paulista no domingo, pelos pulmões esverdeados aqui e ali, pelos becos e pela mão dele continuamente embrulhando a minha, quando eu descobri, feito um carinho, que existia amor em SP. Vivemos um milhão de vidas em poucos dias, acredite, em cada mês de visita, quando ainda outra vez ele voltou, quando ainda mais uma vez eu retornei, encontrando-nos em nossos refúgios, urbanos ou naturais, ora ensolarados, ora nublados. Porque o amor não tem lugar no mundo e, ao mesmo tempo, são seus todos os lugares. Por amor estivemos em toda parte. E não houve deus, nos céus, na terra ou debaixo dela, que tenha escapado à inveja de querer viver sob a nossa pele, nossos suores e respiração; ou à cobiça destinada ao magnético encanto que nos lustrava os olhos e guiava os pés. A nossa própria divindade tomou forma assim: fazendo habitar em nós deuses embaixadores, amantes, aventureiros e citadinos, de peito sempre ansioso pelas nuvens. E pelo desembarque dos beijos e abraços. Pelo desejo mais atômico concentrado na nossa secreta umidade. Eu belisco meu lábio, veja só, e dou risada, quando eu penso que tudo começou assim: um ninguém, na outra ponta do mapa, por quem eu jamais desejaria me apaixonar. Não era para ser e eu sabia disso. Não era para ser e, mesmo assim, é todo.

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VERMELHO E VERDE ROUGE ET VERT Lívia Prado vermelho e verde rouge et vert cafezinho 2,40 euros moedinhas no pires checamos o banheiro sim muitas referências ao filme vermelho e verde disrupção na cidade monocrômica nem olhando ali do topo essa cidade nem subindo a torre nem o morro da catedral nem assim posso retê-la não posso impedir que os anos se acumulem no rastro do café vermelho e verde eu não vivo num filme não posso evitar que se distancie na velocidade dos dias aquela loja onde tudo era mais barato e o letreiro era rosa nem comer kebab de madrugada ou comprar bebidas depois das dez só nos alimentation générale nem dizer bonsoir ao chegar bonne soirée ao sair nem comemorar natal vermelho e verde com um peregrino feijão caseiro e entre uma improvisada família que a distância de casa aproxima nem posso me forçar a sentir de novo a liberdade que eu ainda não sabia liberdade porque a atravessava com a mente em provas exposés se eu falar grego com aquele senhor à beira do espeto de carne será que ele me responde sim responde e não sou capaz de prolongar o diálogo além do aprendido há muitos anos em frente a um computador de conexão discada em minas distantes minas não posso impedir que os anos se acumulem no seu rastro na velocidade dos dias que eram mais ou menos curtos segundo o inverno e um casaco era suficiente quanto me preocupei por casacos o medo do frio pra depois enfiar o pé na neve na polônia e me sentir absurdamente em casa na neve e na polônia e quase perder os dedos do pé pelo sapato furado e os da mão pela foto sem luva quanto me preocupei pelas fotos devesse talvez ter sentado e feito palavras-cruzadas em cada praça a que nunca voltarei única maneira de impedir que me doam mais tarde por irrecuperáveis que é baldio o esforço de possui-las retê-las souvenir fotos casacos o único que posso fazer com sinceridade é sentar-me um pouco em cada praça e deixar que assim fiquem sendo um pouco minhas aquele café vermelho e verde nunca me pertenceu nem poderia fui ter com ele com olhos de avidez e de urgência e buscando fora o que não sabia encontrar dentro enquanto punha as roupas pra secar na sacada mínima que ninguém mais pra nosso espanto parecia usar e as pessoas e os turistas nos olhavam da rua nosso microapartamento instantâneo aquário os olhos pregados em nós em nossas toalhas lavadas na lavanderia em frente à livraria alemã secando ali acortiçando a irretocável paris a mui cinematográfica rue des abbesses nossas muito cinematográficas vidas que a gente orquestrava da plateia nossa paris não era poderá algum dia ser a dos atentados mas era poderá algum dia não ser a da tensão muda a dos árabes só nos kebabs ou nos alimentation générale e só depois das dez longe dos olhos nossa paris era a dos filmes um pouco mais além estava a de verdade a de imigrantes só bem vindos na hora de comprar um celular barato ou fazer um reparo subpago as portas da cidade suponho que serviam pra deixar longe os bábaros e en attendant les barbares foram deixando fora os próprios cidadãos que nunca o foram e não o serão à força de repetir liberté égalité fraternité laïcité laïcité que pour les autres nossa frança não era a de policiais despindo mulheres com armas ou será que sempre tinha sido e nós internacionalistas esclarecidas secando roupa na varanda mínima a dois quarteirões da vida

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ATÉ QUE PONTO SOU CIDADE? Liziane Menezes Fortaleza me invade assim como Sampa invadiu Caetano. De um outro espaço vim, olhei todas as árvores secas que passaram diante de mim na estrada a me levar ao encontro daquela que se plasmaria comigo, fazendo de mim o que sou hoje, uma mulher-cidade a viver sob as memórias desta terra iracêmica que luta e esbraveja para ser uma cidade-mulher, cidade despida, personagem, criadora do sujeito coletivo que resiste e ocupa. Quem são os verdadeiros donos da cidade? A cidade pertence a alguém ou ela mesma se basta? As cidades habitam em mim, tenho a cabeça formada de prédios, carros, praias e calçadas. O colorido da minha pele é depósito de vários sóis, o do benfica, o da bezerra, maraponga, aldeota, do sol que entra na janela do ônibus para eventualmente secar e disfarçar algumas lágrimas que correm. Eu sirvo a Fortaleza num trâmite barthesiano, choro a presença do ausente, aquele que desapareceu de mim, mas que deixou morada – veio, me habitou, foi embora sem me dizer, a ausência mais dolorosamente presente, talvez aquela cadeirinha branca do passeio público que possibilita a visão do mara hope no pôr-do-sol seja tão inexplicavelmente melancólica quanto a angústia daquele que espera o retorno de um nada, pois tudo já foi. Só a figura da cidade para entender a bagunça aqui dentro, e falo especificamente de Fortaleza porque ela habita em mim desde muitos anos, acho até que irá habitar sempre, mesmo se um dia ela for ausente. Quem ousará dizer que nada é construído diante do não-comparecimento? É um vazio habitante sempre. É memória de que, um dia, eu, mulher transeunte, tive medo e amor por Fortaleza, mesmo não mais pisando em seu asfalto quente. Tive medo pela violência que se fez morada, tive amor por ela me abraçar nessa minha serena solidão. Ah cidade, ah Fortaleza, como eu amo essa tua palavra, como eu admiro o quanto que tu me traduz. Se Ítalo Calvino criou as suas cidades, eu crio as minhas Fortalezas, sempre imaginadas também, poéticas dentro do meu chulo critério estético, crio o meu locus citadino dentro da minha dinâmica de me contentar com tão pouco e querer tão muito. Ah Fortaleza, hoje tu abraçou essa minha cabeça que voa tão longe como uma ave de rapina.”

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MEU BEM, HOJE EU VOU FALAR DE GIRASSÓIS Luciana Brandão Eu sei, eu sei. Se você estivesse por aqui você me olharia com aqueles olhos de desdém e diria “girassóis, mais uma vez, Mariana?” e pediria que eu falasse sobre lírios, rosas, crisântemos, ou até mesmo quem sabe alguma cactácea. Tudo menos girassóis, você diria. Mas hoje o sol não saiu de trás das nuvens, e você não está aqui, e a rede amarela repousa silenciosa sem o nosso peso, e já faz quatro anos, e por isso eu vou falar sobre girassóis. De novo. Mas primeiro eu vou falar sobre aquela vez que você me levou pra conhecer a sua avó, aquela primeira vez de todas, quando era março e fazia calor e você decidiu que subir a serra com o um ponto zero sem ar-condicionado emprestado do teu primo era uma ideia melhor do que pegar o semidireto das duas e quinze. Pra gente ter mais privacidade, você me disse, porque dá pra por o som alto e ir cantando e acender um ou outro cigarro nas curvas. Até dá pra ir de shorts, você disse, e sem correr o risco de ser furtada por algum passageiro de má fé suando o ônibus parasse em São Leopoldo. Eu não via o problema de ir de calças, e achava boa a ideia de ir no ar-condicionado, porque afinal de contas era março e fazia calor, e eu também não entendia a necessidade tão grande de fumar o tempo todo, mas o aniversário era da sua avó e aquela era a nossa primeira vez e então você disse, vamos, vai ser divertido e eu só sorri e balancei a cabeça e a gente foi. E aí chegamos lá, os abraços, as boas vindas, o canteiro de girassóis bem cuidados, a avó contente, setenta e cinco anos e cheia de saúde. Eu elogiei a pele hidratada e sem rugas, no que ela riu e me confessou que o segredo era ficar bem longe dos homens que eles só traziam problema. Eu ri e pensei que ela estava repleta de razão e em seguida pensei que naquela noite eu dormiria abraçada na neta dela e achei aquilo tudo meio irônico e falei que ela estava certa, o que mais eu poderia falar. Então dei um feliz aniversário meio encabulado e me dirigi até a mesa dos docinhos. Os teus primos corriam em volta da mesa dos docinhos. Achei divertido ver as crianças se divertindo daquele jeito, ajudava a me sentir menos sozinha. Porque não tem nada mais deprimente do que ser a pessoa solitária parada de pé ao lado da mesa de doces, afanando brigadeiros às escondidas. E você tinha que fazer as vezes de boa neta da aniversariante, cumprimentar todos os parentes que não te viam há mais de ano, sorrir pras tias e balançar a cabeça e dizer que na faculdade tudo ia bem, que no trabalho não podia estar melhor, e os namorados, ah você não tinha tempo pros namorados, eu ouvia você dizer de cantinho enquanto eu me aproximava da mesa cuidadosamente decorada com a toalha florida e os docinhos cobertos por granulados. Enquanto os teus primos corriam ao meu redor e ao redor da mesa, berrando pega! pega!, e correndo de um lado pro outro correndo, e a menorzinha escondida atrás das minhas pernas, a tia é o ferrolho, ela gritou com as mãozinhas apertando

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minhas canelas, enquanto eu me perguntava quando seria a próxima ocasião familiar que eu te faria companhia. E se haveria uma próxima ocasião familiar, será que algum dia, eu me perguntava, e abanava a cabeça de um lado pro outro pra afastar as expectativas. Porque por enquanto era só eu de pé ao lado dos doces, com o sorriso estampado no meu rosto naquela tarde quente de março, e os teus primos correndo, correndo ao meu redor, as bochechas vermelhas inchadas do calor, e eu tentando causar uma boa impressão a qualquer custo, rezando sabe se lá pra qual santo que, por favor, ninguém perceba as poças de suor empapadas embaixo dos meus braços naquela blusa de cetim roxa horrorosa. Aquela, que eu peguei do fundo da gaveta de última hora, pensando que esta é a única peça de roupa que ainda tenho que não dá na pinta, e como pegaria mal chegar no aniversário da vó pela primeira vez dando na pinta. Uma pena que eu tivesse sido ateia por todos aqueles vinte e tantos anos, porque daí nenhum dos santos atendeu as minhas preces e a cada oração a marca do suor se espalhava mais e mais e tudo o que eu conseguia pensar era que em algum lugar lá em cima São Pedro e Santo Antônio estavam se divertindo à beça apontando pra mim e rindo enquanto tomavam um trago. Por deus, eu juro que tudo o que eu mais queria naquela hora era um bom trago. Mas eu também achei que não fosse pegar bem tomar um trago na frente da vó, e de qualquer jeito não tinha cerveja, só tinha refrigerante e os gritos das crianças com sede de tanto correr e por isso enfiei o quinto brigadeiro na boca sem nem bem ter terminado de mastigar os anteriores e já fui logo me servindo de guaraná quente no copinho de plástico, pra ver se ajudava a refrescar e distrair um pouco, e a priminha me empurrando pra frente, tia, tia, me serve de coca, por favor, bem na hora que o outro priminho errou o trajeto e bateu nela e tropeçou em mim e antes que eu pudesse me dar conta do que estava acontecendo agarrei a toalha florida da mesa e fomos pro chão, eu, o primo, os docinhos todos e a guaraná quente. Logo antes de cair no chão eu lembro de fechar os olhos bem fechados e pensar que aquilo não podia estar acontecendo. Eu te juro, Karla, eu queria chorar. Feito uma criança que fez xixi nas calças na frente de todos os coleguinhas no primeiro dia de aula, eu queria correr dali e me esconder no banheiro e chorar e chorar e chorar até meu mundo de lágrimas lavar embora todos aqueles confetes e guaraná. Mas ao invés disso eu só me coloquei de pé discretamente e comecei a catar um ou outro brigadeiro do chão, naquela inútil e ridícula tentativa de reparo, assoprando os cajuzinhos e colocando eles em cima da mesa sem toalha e pensando podia ser pior eu podia ter derrubado o bolo todo. Pensei até que talvez ninguém tivesse notado meu pequeno-grande desastre, apesar de que obviamente todos tinham notado, o silêncio reinando pela sala como prova. E foi aí que você e sua vó se aproximaram de mim, a vó dizendo nossa mas que amiga desastrada que você tem, Karla, e você rindo não sei se porque concordava com ela que eu era mesmo uma desastrada ou se porque na ingenuidade da vó ela estava convicta que eu era mesmo amiga, e eu me desmanchando em milhares de desculpas com aqueles olhos vermelhos marejados achando que eu tinha arruinado tudo e você rindo e me pegando pela mão e me levando pro banheiro dizendo graças à boa deusa, agora pelo menos a gente pode tirar essa blusa roxa horrorosa que você inventou de usar, enquanto os teus primos pulavam no chão e brigavam pra ver quem conseguia catar mais brigadeiros. No banheiro eu pedi um cigarro, e foi aí que eu me dei conta de que a gente ia ser diferente, porque você disse que não, você disse bem assim, nem pensar, mariana, a fumante aqui sou eu e agora você entra aí em baixo do chuveiro que eu vou pegar uma roupa decente pra você trocar. Como eu fiquei feliz quando cinco minutos depois você estava de volta com aquela

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camiseta velha e surrado do Ramones dizendo que era só o que tinha conseguido encontrar no meio do seu velho armário de adolescente. Vesti a camiseta ainda com o cabelo comprido e molhado, me olhei no espelho e fiquei pensando o que seria pior as suas tias saberem da gente ou acharem que eu era feia de mais pra sobrinha delas, e acho que você devia ter visto a mistura de insegurança com náusea no meu rosto, porque você passou os dedos de leve pela minha face esquerda tocando meus cabelos e guardando uma mecha com cuidados atrás da minha orelha, naquela primeira vez daquele gesto que depois virou meu gesto favorito das nossas trocas de carinhos, e me deu um beijo na boca e disse: Mari, não precisa te preocupar, tá tudo certo, e sorriu aquele teu sorriso com gosto de halls de cereja e me conduziu de volta pro pátio onde já estava todo mundo reunido cantando é big é big pra vó. Descer a serra no final das contas foi bem mais fácil, eu quase nem enjoei e você fumou nem meia carteira. E chegar em casa contigo foi mais fácil ainda, você lambendo minha barriga e dizendo que eu não tinha me lavado direito e que ainda dava pra sentir o gosto do guaraná e eu rindo e depois a gente se amando abraçadas uma na outra. Mas eu queria falar de girassóis. Porque quando eu acordei na manhã seguinte você tinha me trazido café na cama, com um pedaço de bolo e um girassol só pendendo de dentro de uma garrafinha com água e eu achei aquilo muito bonito porque era a primeira vez que você me trazia café na cama e eu perguntei de onde você tinha tirado o girassol e você disse que a vó tinha colhido especialmente do jardim que ela mesma plantava e mandado pra amiga destrambelhada, e que ela tinha gostado muito de mim e dado uma piscadinha enquanto tampava o pote com umas fatias do que sobrou do bolo de aniversário, se desculpando que não ia poder mandar nenhum brigadeiro, a risada contida entre os dentes de porcelana. Karla. Hoje faria quatro anos e pela primeira vez eu pego o carro e subo o caminho da serra sozinha, dessa vez com ar-condicionado, e no rádio já não toca nenhuma música de rock, só tem a voz do Chico baixinha sussurrando sobre como o teu paletó enlaça o meu vestido e eu lembro daquele girassol e de todos os que vieram depois e lembro dos teus seios entre as minhas mãos e dos nossos beijos e da tua barriga e lembro de todos e cada um dos momentos e eu choro, eu choro, karla, feito aquela criança no primeiro dia de aula, eu choro todo aquele choro contido enquanto o ar seco e frio bate na minha cara e seca essas lágrimas endurecendo a pele das minhas bochechas e eu penso como, como eu vou contar pra sua vó o que aconteceu e eu penso que a única pessoa que eu queria do meu lado que saberia me ajudar seria você e que justamente você não. Então eu penso que vou começar falando dos girassóis.

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BERINJELA Maria Amélia Mano Último dia útil do ano. Sueli, a ex chacrete, espera o ônibus. Terminal: um homem cego mede com a bengala à distância entre o ônibus e a plataforma. Um homem louco corre atrás de mulheres jovens na rua. Uma belina de capô aberto vende berinjelas. No chão, uma criança ajeita os produtos que a mãe tira de uma sacola para vender em toalha estendida. São vidros coloridos, lindos, cada um. De longe, Sueli observa. Pode ser perfume, pode ser licor. Podem ser molhos. Chega o coletivo, ainda tem lugar para sentar. Uma mãe jovem com a criança grande no colo. As perninhas da criança estão marcadas de feridas e picada de pernilongo. A criança está desperta, balançando as perninhas, enquanto a mãe dorme quase sobre ela. Um homem no banco detrás conta como despistou a polícia, parece camelô. Menino carrega um balão: está feliz. Um carro de bombeiros passa com sirene tocando em direção oposta. Inicia a viagem. Sueli guarda a bolsa junto ao corpo. Ali, o bilhete da mega-sena da virada. Milhões, muitos planos para muitos anos. Se não ganhar, tem que arranjar dinheiro. Pode explodir um cofre, pode roubar um banco, pode se esconder no terreno baldio ao lado de casa por dias. Lá é cheio de mato e vai encher de carrapichos as roupas, ficar com perna marcada de mosquitos como a menininha do ônibus. Mas vai ser feliz. Vai perdoar o pai e o pai vai perdoá-la. Vai abraçar a mãe e os irmãos. E sonha: depois de dias, não sabe quantos, vai sair do esconderijo e pegar ônibus para o Maranhão. Avião, nem pensar que é risco. Só se ganhar na mega. Se não, é ônibus, que não dá na vista. Uns seis a sete dias de viagem, despistando. Ninguém vai desconfiar. Vai chegar em São Luiz e procurar o pai, aquele que contava histórias para as árvores, que dizia que fazia chover quando queria. Que a defendia de todas as assombrações e todos os demônios. Que se afastou de vergonha quando ela caiu na vida, depois de ser famosa, de ser chacrete. De repente, o homem que parecia ser camelô, apresenta revólver e manda todo mundo esvaziar bolsas. Recolhe celulares. Cobrador abre cofre. Não pode ser, não pode ser, pensa Sueli. A mãe acorda, a criança das perninhas marcadas de mosquito se encolhe mais no colo: elas se abraçam. Homem cego começa a gritar e agitar a bengala. O balão do menino estoura. Susto. O motorista freia e o assaltante se desequilibra. Cai revólver e todas as portas se abrem. As pessoas se atiram para fora enquanto o homem grita. É tarde. Sueli corre, corre, corre muito. Abraça a bolsa, ouve o próprio coração bater, não olha para trás. Por instantes, pensa no homem cego, na criança dos mosquitos, no menino do balão, na mãe que dormia. Volta ao terminal, exausta. Senta por segundos na calçada. Quando a respiração volta ao normal, sente que o tempo para e tudo ainda está lá, onde deixou: a belina, os vidros coloridos. É perfume, perfume de madeira, de canela, de citronela, de alecrim. Perfume para casa, para dar energia boa no ano que vem.

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E Sueli escolhe perfume de arrumar casa e sonhos. Espera outro ônibus. Busca seus pertences na bolsa valiosa, tudo ali, bilhete da mega ali. O que interessa. Tudo e mais que tudo: certeza de sucesso. Amanhã, vai rir de tudo isso. Vai nem ligar para o patrão, vai nem dar baixa na carteira de trabalho, vai nem contar para Alfredo que deve estar com a esposa, que nem ligou pra Sueli no Natal. Natal que passou sozinha, vendo televisão, filme de neve. E ri sozinha, Sueli ri. Sueli, a mais atrapalhada das chacretes, a que errava coreografia, que levantava perna na hora errada: chute atrasado. Agora, é senhora desconhecida, solitária, que trabalha no telemarketing, que fecha os olhos quando pronuncia um nome: Alfredo. É bom ter um segredo, um amor em segredo, uma cidade em segredo, proibida, perdida, misteriosa, como uma renda cobrindo um ombro, insinuando, vestido de noiva. O que sempre sonhou. Quem sabe agora. Quem sabe agora... Já no segundo ônibus, revisa de novo a bolsa sem acreditar: vidro vermelho de cheiro de pitanga doce, cartão da mega, duas berinjelas de um roxo especial, o revólver que pegou do chão do ônibus, no descuido, no desequilíbrio. Se não é amanhã com os seis números, será na segunda, no cofre do banco, pensa. É o último dia útil do ano. Vai rechear berinjela, vai ligar logo para o pai, vai comprar passagem para São Luiz. Só esperar o sorteio pra saber se de ônibus ou de avião. Esse ano promete!

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A MEGALOMANIA ALCOÓLICA DAS NOSSAS POSSIBILIDADES Mariana Salomão Carrara Faz um frio ideal, para o encontro ideal, na cidade ideal, que é justamente a nossa. Não sei por que nesse café, talvez porque seja um pouco bar, ou porque seja neutro, nenhuma de nós duas jamais gostou ou desgostou daqui. Ela entra charmosamente atrasada, num esforço teatral para empurrar a porta grande de vidro, joga o cigarro e me procura. É engraçado porque ela parece estar em alguma outra cidade ideal – sabia que viria com essa boina vermelha. Gosto do cabelo ondulando na gola da jaqueta, e o olho inchado e fundo me conta – e eu de todo modo já sei – que dormiu tarde, e acordou cedo pra faculdade, ou mesmo que não acordou pra faculdade quando isso é tudo que precisa fazer, e deixar de fazê-lo é que é o grande dilema cotidiano que vai afundando os olhos. Não me encontra. Já me viu e não sei se me nega ou se de fato não me imaginava assim. Aceno. E ela sorri, depois vem tímida entre as mesas. Senta e me olha. Logo tira desajeitadamente a jaqueta e me permito olhar os seios soltos no vestido, e não sei com certeza se prefiro tanto assim aos meus. Doze anos, doze anos esperando esse encontro e não dizemos nada. Fico pensando se é mais importante que ela se orgulhe de mim ou eu nostalgicamente a admire. Mas é evidente que me vale mais o meu triunfo, porque sou eu quem fico, eu permaneço – e é por mim que ela vive. Ela será um dia, assim, de olhos fundos, só a sombra bonita dessa juventude que a gente afundou junto com os olhos em bebidas baratas, camas perigosas e manhãs inconciliáveis com o nosso sono, tédio, culpa, projetos, tudo que a gente queria fazer e já não cabia nas horas do dia e por não caber nas horas do dia esticávamos inutilmente a noite até afundar também a Lua na megalomania alcoólica das nossas possibilidades. Ela é toda uma grande possibilidade. E me olha como se eu estivesse sentada aqui já toda posta, quase sacramentada em algo que talvez hoje ela deteste. – Então eu não esqueci. Acertei o dia? – pergunto – E o ano? Hoje ela faz 20 anos mas eu faço 32 e já tinha esquecido essa mania de juntar os cabelos num maço como se fosse prendê-los e depois soltar logo em seguida, as mãos falsamente convictas procurando uma presilha na bolsa, uma presilha que tanto eu como ela sabemos que não existe, esses cabelos que ela ainda não aceita e nesse aniversário eu já posso dizer que uma das melhores coisas é ter aprendido a amar o meu cabelo e deixá-lo em paz. – Hoje mesmo – ela levanta os olhos do cardápio e surpreendo uma dor brilhante e quase molhada no olhar assustado. – A gente terminou a faculdade?

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E me dou conta de que quase esqueci esse pavor, essa vertigem que vinha todo dia com o som do despertador, a dúvida se conseguiria, se queria continuar, e aguentar o que viria depois, e de repente já não sei se ela prefere que eu diga que sim ou que não. – Sim. Acho que as coisas estão bem. – Estão? Vejo que ela tem medo que eu tenha me acostumado, e também eu tenho medo de ter me acostumado – e no fim das contas o melhor de tudo não é ter me acostumado? O cabelo, o corpo, o trabalho, os poucos amigos, os horários, contas. A solidez, a concretude dos dias, o calendário implacável, a infalibilidade das viagens de férias; doze anos se passaram e agora você convive com tudo isso como imaginou que não conseguiria. Porque você é toda uma grande impossibilidade, menina. – Não é o que você queria ouvir? – pergunto e ela me olha desconfiada, depois volta ao cardápio. – Ou você prefere o medo? De falhar, de não ter dinheiro, de ser sozinha... Ou você queria a glória? – neste ponto percebo um arquear de sobrancelhas num deboche. – É, você quer a glória. Ainda que a glória fosse só um ou outro parente bestificado com o brilho do nosso êxito. Todas essas pessoas a quem era preciso impressionar, essas pessoas que eu apaguei da minha volta ano a ano sem nem perceber, toda essa camada de gente contra quem era preciso brilhar. – Não, eu só não imaginava você assim. – Assim como? – Satisfeita. – Apaziguada. Eu sou você apaziguada, e é isso que você vai aprender a achar bom. – Essa paz nunca me pareceu um objetivo. – Uma hora você vai perceber que é o melhor que pode te acontecer. E ainda está muito cedo, isso é outra coisa que você vai aprender. Trinta e dois anos ainda é muito, muito cedo. Precisamos marcar um reencontro daqui mais doze anos. – Daqui doze anos já não será cedo? – Talvez não. – Talvez dessa vez você mesma esteja enganada sobre 44 anos não ser mais cedo e quando nos encontrarmos ainda seja cedo. – Tanto melhor. – Mas é cedo porque você ainda não fez nada do que eu quero agora, só por isso, e no fundo está com as mesmas angústias, esperando que aconteçam, que se façam, que apareçam. Ela chama o garçom, subitamente íntima. Pedimos a mesma coisa, porque isso não muda. Um café, junto com a caipirinha, que ela não poderia pagar se hoje não fosse por minha conta, porque ela vive ainda na graça de juntar as moedas e os dias e torcer para que equilibrem.

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– Pode ser, menina. Mas eu espero de outro jeito. Eu acordo e sinto o domínio do meu tempo, eu tenho noção do que é possível, e, mais ainda, do que não é possível, é isso a paz. – Acho triste. Triste e desesperador é você acordando todos os dias diante de um buraco, uma nebulosa enfurecida que você não sabe se vai te engolir, afogar, atirar pelos ares, ou se vai te encher de glória. – Você devia estar feliz de nos ver assim, fortes. Sem o fantasma da loucura, do abandono, sondando os seus subempregos, suas provas, noites, os seus amores. – Você casou? Dou risada. Eu tinha achado que essa ia ser a primeira pergunta, porque eu era isso, essa menina exasperadamente dividida entre os prazeres insondáveis do sucesso – artístico? Profissional? Político? – e as maravilhas de um destino comum. – O que você quer que eu responda? Ela não sabe. Tem 20 anos e eu sei que ela quer que eu diga que vivo numa comunidade de amor livre com outros oito amigos numa casa de vila, ou pelo menos que eu seja amada, que eu seja muito bem amada porque ela acha que 32 anos definitivamente não é cedo pra isso, e ela realmente não sabe de nada, e como é horrível não saber de nada. – Não sei... Eu só espero que você tenha acertado. E de novo me sinto uma pintura pronta, eu que até hoje de manhã me sentia tranquila e lentamente adolescendo. – Nós tivemos nossos amores. Ando bem feliz. Dá um longo gole na bebida sem tirar os olhos dos meus, e eu sustento incansavelmente a minha felicidade porque não tenho dúvidas. Ela me julga com insolência, ela que não sabe de nada, e depois esquece o olhar no fundo do bar – deve estar pensando no namorado. Não, minha linda, ele não vai ficar. Nem ele, nem muitos outros, e isso vai ser uma delícia. Talvez ela queira me ver, queira que eu levante, tire o casaco. Vai notar que as roupas continuam quase as mesmas. Não é a mesma pele, nem os músculos, mas a gente também nunca foi tão boa nisso, foi? A diferença é que eu me sinto ótima. – Então... O que você me diz? – Digo que pode ficar tranquila, seremos felizes. – E se eu não quiser ser isso, ter a felicidade que você tem? – Daí não sei, corra. Eu prefiro sinceramente que a gente seja assim como eu sou. – Corra para fazer o quê?

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– Você quem sabe, você que me quer diferente. Pode dar certo, ou pode dar errado, e essa angústia é só sua. – Mas você, hoje, se pudesse ser diferente, como seria? – Já disse, essa angústia é sua. Você se sente melhor que eu porque pra você parece que ainda qualquer coisa é possível. E tudo impossível. E por sentir que tem tanto à sua frente você me olha assim como se eu fosse a mediocridade, como se eu tivesse me encaixado, moldado, mas a verdade é que você tem esse mundo inteiro do lado de fora de você. – Eu peguei o que me cabe, tenho meu mundo quase inteiro dentro de mim. Ela balança a cabeça, é possível que esse tipo de felicidade não seja nada do que ela imagina. – E o pior de tudo é que você vai ganhar, porque você já é, você é que fica. Você vai me engolir, ano a ano – ela vai dizendo e chorando, e eu me pergunto há quantos anos não choro assim disforme, esse choro difuso, sem consolo nem objeto. Mas é um choro tão convicto que chego a achar que ela tem razão. – Vou ganhar porque você vai perceber que sou eu o que você quer. Quer acordar e pisar num chão. Acordar sentindo que as coisas podem acontecer, e podem não acontecer, porque o mundo já não está mais inteiro lá fora. Você quer isso, e vai ficar bem. – Não, eu posso correr. Eu posso arriscar, ir atrás de alguma coisa que você não foi. Deixar tudo pra trás. – Largar a faculdade. – Isso é um começo. – Você olha pra mim e prefere que eu não exista? – Eu não quero ser você. – Mas de alguma forma você é, eu não me fiz do nada. Ela fecha a bolsa, mexe de novo no cabelo por baixo da boina. Não sei o que ela vai fazer saindo daqui. Mas talvez eu não tenha medo. Essa menina, que ainda não sabe de nada, e que é toda ela uma possibilidade, e uma impossibilidade, de algum modo ela vai acertar, e talvez de fato as coisas sejam lindas. Vendo tudo assim doze anos mais alta, eu tenho quase certeza que não vai faltar caminho. Levanta, não me toca, pede desculpas, e diz que talvez ela me destrua e me arruíne, mas que é importante tentar. E eu continuo sem medo, porque mesmo pra mim ainda é tão cedo. Quero dizer que tanto faz, que as coisas vão sendo boas de qualquer jeito. Mas ela caminha com a nossa timidez estranhamente determinada e firme e hoje ainda é tão cedo. Termino a caipirinha devagar, e me animo com o sábado que começa. Eu mesma querendo, talvez um dia desses, já sabendo tudo que sei, terminar um café, uma caipirinha, fechar a bolsa, pedir desculpas à mulher que sentará comigo daqui mais 12 anos, e tentar, afundando de novo os olhos, os dias, salários, afundando também a Lua na megalomania alcoólica das nossas possibilidades.

MEGALOMANIA ALCOÓLICA DAS NOSSAS POSSIBILIDADES - As Cidades e os Desejos

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TANTO Naiana Gomes rabiscou-me a cidade na pele e na pele da cidade toca, meu bem ao tempo trazer e levar tudo ou quase tudo e atravessar a triste enchente com um livro nas mãos ou uma rua escura e deserta sem saber que o medo não vencerá esta manhã luminosa que o medo não alcançará o mar quando mergulharmos após mais um salto da ponte velha agora a ressaca nas pedras agora o gato branco abandonado passa agora por seus pensamentos agora todos esses fios soltos caídos aparentemente ao acaso agora na sua cabeça serão nuvens e nuvens inteiras no céu porque aqui são luminosas todas as manhãs mesmo quando chove tanto.

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O CAMINHO ATÉ VOCÊ Natália Alberto

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CARTOGRAMA Raísa Christina I - Rio de Janeiro Ao lado do portão de entrada do condomínio onde estava hospedada, pus-me ereta, o coração vibrando pelos dedos da mão, as pernas rijas para me manter de pé a esperar por ele. “Estou a caminho”, disse-me pelo aplicativo. No reflexo dos carros prateados que passavam na rua em frente, eu me via recortada com o vestido em tons de azul e me perguntava se estava bonita o bastante para aquele momento. Minha intuição foi se tornando cada vez mais aguda depois de ter sido mãe: sabia que precisava encontrá-lo, ainda que aquilo me desestabilizasse. Contemplava o meio de tarde em Santa Teresa, o fluxo de turistas a propagar-se por bares, mercadinhos e lojas de artesanato. O dia cinza havia criado uma faixa encorpada de nuvens entre a cidade e o sol. Não era verão, mas ainda assim a pele úmida compreendia por que os estrangeiros tanto se apaixonavam em meio àquele conglomerado de prédios e morros num pedaço danificado de litoral e mata atlântica. Sorri ao percebê-lo deslocando-se na margem esquerda do meu campo visual alterado pela velocidade dos neurotransmissores. Com olhos, dentes e mãos, eu continuava sorrindo pronta para chorar. Sua aparência de homem maduro me impressionou a ponto de a barriga doer toda vez que eu me dava conta de que não poderia seguir muito adiante. O silêncio das igrejas no centro do Rio me acalmava nos intervalos das caminhadas sem ele, que eram já ensaios da vida por vir. II - Buenos Aires Eu vestia preto da cabeça aos pés. Havia apenas um pedaço de rosto visível entre os olhos e a ponta do nariz. Eram camadas e mais camadas de tecido a envolver a pele, a proteger o corpo talvez menos do frio e, num nível inconsciente, mais do impacto de todos os sinais de sua presença sobre mim. Em plena madrugada, seu pai me esperava no aeroporto. No caminho até sua casa, realmente considerei se caberia a mim, em tom de brincadeira, pedir-lhe sua mão em casamento, como dizem que os rapazes faziam com os pais das moças tempos atrás. Você me recebeu num primeiro abraço e foi nesse mesmo abraço que, ao longo dos dias, desaprendemos a ser uma versão antiga de cada um para existirmos estalados, sons e estrelas a buscarem forma em outro corpo possível somente por estarmos juntos, porque juntos consumimos e produzimos uma certa quantidade de líquidos, sem nos darmos conta, já estávamos os dois em casa como se nada pudesse ser diferente: a zona norte da capital portenha, o volume de seu cabelo cacheado, o embaraço da minha fala, a pouca luz. Estava nervosa, sentia fome e cansaço, mas não conseguia comer nem dormir. Dividimos a cama. Sob a manta, minha cabeça deu muitas voltas até pedir o que você provavelmente não precisou responder. Nos dias seguintes, passeávamos à tarde e as manhãs e as noites eram

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para o exercício do amor, da cozinha e das imagens. Trabalhamos juntos, entre afazeres domésticos e desejos selvagens. Quis visualizar um lapso de futuro onde estaríamos velhos, o que raramente me ocorreu imaginar com outras pessoas. Ainda acontece. Meses depois, quando imagino do alto dos meus trinta anos a mulher que talvez alcançarei aos sessenta, é num lugar muito quieto que ela vive, há papeis ao redor, não vejo tanta coisa, mas você está lá, não sei se numa visita breve ou numa narrativa inteira. Você está lá. III - Fortaleza David não tinha barba, mas tinha dois irmãos, pais separados, uma companheira, uma filha, uma bicicleta sem freio e uma escada de quatro metros e meio. Morava no bairro vizinho ao meu. Marcamos um encontro na praia. Após alguns minutos de conversa na areia, resolvemos mergulhar. O tempo entrou numa lógica atípica, o que nos fez esquecer o avanço da maré. A menina que estava reparando em nossas mochilas de repente entrou no mar aperreada para nos avisar: uma onda havia molhado os objetos que havíamos posto sobre a canga, óculos, livro, chinelos, trocados. Ela apanhou o que pôde e levou para as pedras do espigão, onde secavam ao sol. O mar talvez quis nos avisar algo, pensei. Nosso beijo salgado foi interrompido sistematicamente pela quebra das ondas. Saímos da água, recolhemos nossos pertences na mochila molhada, calçamos as havaianas e fomos até a ponte - aquilo que insistimos em chamar assim, ainda que não se trate de uma construção que leva alguém de um ponto a outro, ainda que parta da terra firme, projetando-se sobre o mar, para lugar nenhum, apenas para barrar um pouco as águas. Como a escada de quatro metros e meio de David, a ponte também parecia servir para nada, a não ser para nos fazer olhar Fortaleza. Gostava de imaginar David a subir e descer a escada vezes seguidas durante o dia, sol a pino, o movimento repetido de panturrilhas, glúteos, quadríceps e ombros. Aquilo explicava sua magreza, seu bronzeado. Do topo da escada, da ponte, da bicicleta sem freio, eu queria saber que pensamentos lhe assaltavam, que palavras lhe enchiam a boca, que conjunto de teimosias lhe faziam agarrar uma ideia, que besteira era aquela que punha a gente a rir um da cara do outro sem parar. A maior besteira do mundo.

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A TRAVESSIA Renata Frota

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TREINO Taís Bravo eu ando precisando de alguém que deseje meu corpo enquanto ando em busca de um corpo pode ser até menos um pedaço de pele não contra sobre ou melhor entre a minha pele sou eu raspando o tempo enquanto ando a pele cobre boca pernas ouvidos engole retira todas as células mortas seu pézinho macio novamente anuncia uma voz distante dos olhos é oferta não é um corpo enquanto ando neste contexto meu quadril treinado a fronte

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contida o olhar desvia o corpo não é meu na rua eu ando precisando não ser um alvo no largo do machado por exemplo um pedaço de pele sobre a minha pele é alarde não é como a sua mão a sua mão é você a minha pele sou eu o contato entre é este ponto de insistência a tentativa de puxar um fiapinho estender o limite em alguma medida entre as células mortas o infinito que sou eu que é você a sua pele sobreposta ao meu desejo algo fora da precisão e dos recuos a invenção nunca garantida de uma partida dezembro 2016

TREINO - As Cidades e os Desejos

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CASAS Tayná Fiúza

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NAQUELA CIDADE Thais DSR Foi naquela cidade que aprendi a caminhar. Sozinha com o sob minha cabeça, as calças suadas grudando em minhas pernas e o cheiro de protetor solar no rosto. Cheguei como uma criança e uma estrangeira, com medo e curiosidade. Embora tenha sido a coragem a me levar ali. Verdade que não toda ela, afinal confesso que também fugia. Minha história me caçava e me batia todas as noites a partir das 21h. Tinha dias que era insuportável conviver com a dor, só não era mais impossível que continuar a me esconder de mim mesma e por isso estava ali, fugindo e construindo. Talvez fosse uma covarde corajosa no final das contas. O atrevimento de querer mudar me dava o sentimento de que eu poderia mesmo, era real, e eu disse que faria. E lá estava eu com uma mochila nas costas sem ter onde dormir, mas com a certeza que seria melhor que antes. Era tudo ou nada. E eu tinha pouca coisa para perder. Foi naquela cidade que eu tive a ousadia de amar e dizer que estava amando. Até falava seu nome, as vezes – para algumas pessoas. No início eu continuasse a te esconder, é verdade. Mas é preciso reconhecer terreno, e depois que se apanha muito passa-se a desconfiar de todas as situações. No entanto, foi bem ali que comecei a adubar minha plantação que só passou a existir porque aquela cidade de alguma maneira me ajudou a me permitir. Foi naquela cidade... tá bom, talvez não toda a cidade. Dizer isso soa pretencioso. Quem queremos enganar, não estamos seguros em lugar nenhum. E se em algum momento ela disse que me amava foi porque eu a obriguei a dizer. A cidade tinha seus donos, todos aqueles homens velhos em conserva. Eu sorria esperando suas mortes. No rosto um olhar sereno. Um dia essa cidade não será de vocês, quem sabe poderá ser de todas nós. Talvez não fosse toda a cidade. Quem sabe só aquelas ruas que caminhava de segunda a sextafeira, ou mesmo só o meu quarto. Os muitos por onde passei. A cidade tem seu preço, e eu suei por cada aluguel. Em troca gozava em paz as vezes. Estaria mentindo se eu dissesse que não sei qual é a parte daquela cidade que as coisas aconteceram. E não posso mentir em troca de alguma poética. Era tudo culpa da universidade. Meu espaço seguro eram aqueles prédios. A paz de dormir embaixo da escada, de saber exatamente onde teria sombra se quisesse ar fresco ou onde teria sol se quisesse me esquentar. Para além das estruturas, foi ali que encontrei pessoas para me dizer pela primeira vez que não tinha nada de errado em ser estranha, em amar do jeito que amava. Com o tempo tinha até um grupo de esquisitos que eu andava junto. E nós fizemos daquele espaço tão distante a nossa própria cidade. Cogitei dezenas de vezes morarmos ali mesmo, invadir aquele espaço e declarar que dali pra frente aquele era nosso país. Hoje sonho com uma ilha no Rio de Janeiro, a intenção

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permanece: não esperar pela morte para ter um espaço nosso. Vale dos homossexuais, dizem. E eu aqui querendo toda uma nação. Mas bem que poderíamos começar por aquela planície. Em alguns momentos consigo fechar meus olhos e enxergar um lugar assim tão nosso. Mulheres do Maracatu tocando todos os dias ao meio dia. Foi naquela cidade que eu cheguei o mais próximo de me sentir assim. Talvez só porque não era a única. As vezes somos dois ou três, mas fazemos um barulho danado. Não ser a única pessoa me fazia me sentir com a força de um milhão. Era esse o nosso lema: você não está só. Claro que quando caminhava sem ninguém ao meu lado ou com aquela garota em específico, nossa... o medo voltava com tudo. Parecia que todos ali sabiam ou nos odiavam. Nos odiavam por saber. Por isso, mesmo naquela cidade eu não pegava em sua mão. Estava quase indo embora quando decidi dar esse salto na qualidade da minha coragem. Porém, mesmo hoje é só passar uns homens, não precisa nem ser grande, pode ser uns jovens magrelos de dezessete anos, eu me solto de seus dedos. Nesse caso é a covardia da sobrevivência. Todas as cidades nos fazem covardes. As vezes penso assim. Em outros momentos acredito que somos corajosos só por existirmos queira a cidade ou não. Em alguma medida somos nós que a transformamos. A gente precisa dela, mas ela também precisa da gente. É o nosso sangue que humaniza essas terras, mesmo quando escorre pelo asfalto. Eles se acham muito bonzinhos em sua fé pelo amor. Nós estamos ali na inconveniência do teste. O que vocês vão fazer com nossos corpos? Com a nossa existência? Óbvio que somos muito mais que isso e sinceramente ser só a gente nos basta. Talvez não precisássemos morrer pra isso, mas assim que tem sido. Foi naquela cidade que aprendi a lutar para ser quem sou. Lá foi o lugar que descobri que as vezes não quero fazer nada, só viver e respirar o ar da vida que nos é tão curta. Por que precisamos nos mexer tanto quando tem gente que passa a vida toda sentada? Também foi lá que percebi que a maior parte do tempo essa escolha não nos é dada. Nem se quer é possível. É sempre um tudo ou nada. E não dá para fugir para outra cidade, se quisermos continuar por aqui, é um urbano que nós mesmas precisamos construir.

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ÓCULOS Tuyra Maria Ontem o mar levou meu óculos e, durante toda a manhã de hoje, vi apenas esboço. Fiz o caminho pra escola a pé (de bicicleta sem enxergar direito não dá) e vi esboço das cores, dos carros, das calçadas. Vi esboço de prédio, de gente e até esboço de voz. Estranhamento. Estou ali ouvindo meu nome e consigo associar os timbres às memórias, mas não consigo enxergar. O tempo foi companheiro e, mal percebi, já estava caminhando outra vez. Parei em um, dois, três... quatro. Isso, quatro lugares, quatro rascunhos. Tomei gosto por andar, mas, com tanto sol, senti as ideias mudarem de lugar quando desabei na cama. Quem sabe agora elas fizessem mais sentido? O corpo começa a sentir, ou melhor, deixar de sentir. Não sente vontade, força também não tem. Hoje não vai dar pra voltar. Continuo, sem contar as horas, apenas parada, dando uma olhada aqui e acolá no celular. Droga! Algo me lembrou da consulta. Não quero ir, não consigo, mas vai ser pior ter que marcar de novo. Cheguei. Espero meia hora, entrego o cartão. Mais meia hora e escuto alguém tentando dizer meu nome: Não dá mais certo hoje... Mas, senhora, não posso outro dia, não tem jeito? Espere mais um pouco, mas não garanto. Espero uns 40 minutos pra confirmar que realmente não tem mais vaga. Sabe quando você é criança e esquecem de você na escola? Ou quando as férias acabam e você tem que ir embora da casa da vó? Não tem aquele nó? Sim, esse mesmo. Eu, que evito ao máximo chorar na frente de alguém, derramei, sem sequer tentar evitar, 5 lágrimas e ainda consegui dizer: eu só queria um encaminhamento pra fazer terapia. A moça, desconsertada, disse que teria feito algo antes, se soubesse... Agradeci e saí caminhando na direção de casa. Eu, que luto pra não chorar em público, chorei. Chorei na frente do mundo. Caminhei chorando, enxergando menos ainda e desejei que o destino fosse um tanto mais longe ou bem do outro lado. Acreditei que poderia caminhar mais rápido até levantar voo, mas a casa estava perto demais e eu não saberia onde nem quando parar. Além de tudo, sem ver direito, poderia esbarrar em algum pássaro e não sei como pedir licença nem desculpa em passarinhês. Já muito perto de casa, lembrei do óculos (terceiro que se foi em menos de 1 ano e o segundo devorado pelo mar) e me dei conta do recado: o mar levou meus olhos pra que eu entendesse, pra que eu me desse conta de que preciso voltar a enxergar, preciso ver além do esboço de mim.

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RUA TAL Nº 80 Victoria Pina te encomendarei por sedex verdades que no caminho podem ser extraviadas ou demorar a chegar nesse meio tempo pode acontecer desta casa mudar de endereço e tu passar a morar junto dela e nenhum de nós dos nós chegar a saber onde é que fica o ponto de encontro enquanto isso usarei de um mapa cartografando bancas da cidade atrás do teu nome nas conversas de calçada notícias nas colunas do jornal ignorando as manchetes principais circulando anúncios de aluguel atrás de um lugar para morar na minha asa e o que você trouxer de ti

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NATAL Viviane Nogueira todas as vezes que eu leio ou repito o nome da cidade onde tudo aconteceu meu coração acelera um pouco. salvador é uma cidade que em rotas aéreas fica a 1481 quilômetros em linha reta do aeroporto de congonhas e a 1438 quilômetros do aeroporto de guarulhos, os mais próximos da minha casa. são exatos 1868 quilômetros da minha atual residência até a dele em salvador e eu não tenho certeza se as cartas registradas viajam de caminhão pelas rodovias ou se pegam voos noturnos mais baratos vendidos pela decolar.com. salvador é um dos nomes que damos a jesus cristo, de quem comemoramos o aniversário hoje, natal. jesus salvou a humanidade sendo morto por seres humanos demais. eu sempre fico em dúvida se deveríamos falar em falta de humanidade quando falamos das atrocidades cometidas pelos motoristas de ônibus que freiam muito forte e derrubam os velhinhos que estão sentados no banco preferencial antes da catraca. aconteceu de salvador ser um nome sem hífen, mas se não fosse assim seria salva-dor, assim como salva-vidas, que é o bombeiro das águas. “teo era como um bombeiro”. é irônico que eu tenha sentido a dor de um osso quebrado numa cidade chamada salvador. a gente se sente muito frágil quando sofre um acidente, quando está fora de casa com o horizonte desconhecido, um mormaço desconhecido, um sotaque desconhecido. a gente fica muito frágil quando um ônibus se choca com um carro que deveria te levar para uma casa que você vai fingir ser sua por alguns dias. a gente fica muito frágil quando entra na ambulância e responde que não estava de cinto-de-segurança e que não tem convênio médico nem mãe ali. eu dei entrada no hospital aproximadamente uma hora e quarenta minutos depois de escrever umas frases sobre ver minha casa no urubu sobrevoando o viaduto, o carro parar no cruzamento e seguir em frente. uma hora e quarenta minutos depois de ver o ônibus vindo e saber que ia bater. eu não faço ideia de quantos segundos ou minutos durou o acidente. eu não sei se eu gritei. não sei onde meu ombro bateu. lembro da dor. do desespero de sentir a fratura em mim. dentro de mim, não no fluxo do tempo, da rotina. um osso que era contínuo se separa e se torna uma ponte despencada na estrada que vai para o sítio. se você tenta passar por cima, cai no rio. eu lembro dos homens do samu que vieram de moto me socorrer. eu não entendia mais nada, mas eles falavam de possível fratura da clavícula. e eu pensava será possível eu não estar fraturada? não sei como a gente consegue se prender em esperanças assim. ver, sentir a ponte despencada no rio e se perguntar será possível que esta ponte esteja inteira? não importa. o que importa é que todas as vezes que penso em salvador penso como se essa cidade fosse jesus cristo. meu psiquiatra me perguntou na última consulta se eu estava feliz em salvador. se eu estava bem. e eu disse a ele, no caderno que deixei naquela cidade, que sentia que havia perdido minhas roupas, meu contorno, o conteúdo dos meus bolsos. eu me sentia bem sim, eu disse ao médico. talvez salvar a dor esteja ligado a isso de sublimação, de arte abstrata, de cores vibrantes e pastéis misturadas e auto-retratos impressionistas. eu me sentia bem porque eu já não era. com a ponte quebrada e ele ali. eu já não era a mesma que desceu do avião e sentiu desespero com o mormaço do aeroporto. eu nunca havia viajado de avião, eu falo isso para todo mundo. eu nunca havia saído do estado pelos ares. e sair do estado pelos ares é tornar-se gasoso. eu demorei quase um mês para

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recolher minha fumaça e fazer virar pedra sabão. eu comecei a escrever isso tudo porque dentro do meu livro da marília, que tem aquele último poema sobre o deslocamento e a paralisação diante da hélice, estava uma folha encontrada num espaço da faculdade de arquitetura da universidade federal da bahia, onde ele e eu nos sentamos para comer um lanche, pouco antes do beijo. a folha vista agora, seca, perdeu a ponta e tem um lado mais inteiro, mais venoso que o outro. fiquei pensando quem sou eu, quem é ele nessa folha. lembro que guardei a folha no livro a poética do espaço de gaston bachelard quando voltei para são paulo em um outro avião da avianca. eu deixei esta folha no livro, perdida por dias na bagunça da minha casa até que peguei e guardei nesse livro chamado câmera lenta e ainda não sei o que isso quer me dizer. penso só naquele poema que fala da lataria do avião, imprescindível entre a gente.

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BIOGRAFIAS DAS AUTORAS

Alice Name-Bomtempo É bacharel em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e atua como roteirista de séries e programas de TV. Escreveu e dirigiu os curtas-metragens Todas as Memórias Falam de Mim (2015) e Na Esquina da Minha Rua Favorita com a Tua (2017). Escreve críticas e análises audiovisuais nas revistas Ganga Bruta e Moventes, além de textos e ensaios pessoais em seu Medium “alicenbomtempo”.

Aline Shinzato Artista de São Paulo, formada em artes visuais pela UNESP e em apreciação de cães pela vida. Rabisca caminhadas, cosmos, ar, mar, folhas, hora do almoço e respiros encontrados entre duas horas para ir e duas horas para voltar.

Amanda Monteiro Atualmente estudante de Teatro pela Universidade Federal do Ceará. Fez cursos de teatro pelo Adamastor em Guarulhos (Nac no Sesi-Leopoldina); Espetáculos em São Paulo: 299, uma história que passa pelo real mas é totalmente ficcional (Nac-Sesi 2014); Aurora da Minha vida (Adamastor 2011); Em Fortaleza, Cama de Baleias (2017) e Tecno-Artaud (2018).

Kah Dantas Kah Dantas tem 27 anos, é cearense, mestre em Literatura Comparada e pensa que gosta de ler e de escrever desde sempre. É autora do romance autobiográfico Boca de Cachorro Louco, tem alguns contos publicados e premiados em concursos literários e apresenta seus textos sob a identidade literária Conta, Kah!, compartilhando-os em suas redes sociais.

Bruna Escaleira Formada em Jornalismo e pós-graduada em Jornalismo Cultural, atualmente, pesquisa poesia erótica e feminismos no Mestrado em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa na USP. Escreve a coluna “AzMina dão a letra”, sobre literaturas feitas por mulheres, para a Revista AzMina. Tem dois livros de poesia publicados: entranhamento (Editora Patuá, 2014) e algo a declarar (Editora Com-Arte, 2016). Faz parte do coletivo Circular de Poesia Livre e ministra oficinas de criação literária em espaços como Casa das Rosas e Sesc.

Ceci Shiki Ceci Shiki é artista urbana, ilustradora e mãe. Sempre topa trabalhos colaborativos que envolvam a cidade, o desenho, a pintura e as relações. Já participou do Laboratório de Arte Contemporânea em 2013, que culminou na exposição coletiva a(o). Num processo colaborativo participou também da exposição Ocupações, no CCBNB, em 2015, e do projeto A Conversa Infinita, de Alexandre Veras, em 2016. Atualmente, pesquisa a cidade, seus territórios, e processos colaborativos e coletivos que a (des)constroem, dentro do PPG-Artes, da UFC.

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Dhiôw e Marissa Noana Dhiovana Barroso - Formanda em Jornalismo pela Estácio do Ceará, e Artes Visuais pelo IFCE, é ilustradora e quadrinista. Fez cursos na área de Artes no Porto Iracema e já deu oficinas de Fanzine no projeto Ceará Pacífico. Marissa Noana - Formanda em Artes Visuais pelo IFCE e professora do PIBID em uma escola de ensino médio no Conjunto Ceará. Dá oficinas de bordado, entre elas, uma oficina no Museu da Cultura Cearense do Dragão do Mar. Fez parte da organização da Confederação de Arte Educadores do Brasil em 2015.

Fádhia Salomão Fádhia Salomão é cineasta. Graduada em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos, trabalha com cinema há mais dez anos. Gosta de dias cinzas, de escrever, de ver árvores que dançam com o vento. Na maior parte do tempo se sente quase uma formiga .......... aspirante a cronópio.

Juliana Berlim Professora de Língua Portuguesa e Literatura do Colégio Pedro II. Conduz, no mesmo colégio, o projeto de iniciação científica Neuromancers, de leitura e pesquisa sobre romances de ficção científica, bem como faz parte do corpo docente da pós-graduação lato sensu Ererebá - Educação das Relações Étnico-Raciais no Ensino Básico. Participou de duas edições da FLUP - Festa Literária das Periferias, com a publicação de quatro contos no total.

Lívia Prado Mineira radicada em São Paulo e ocasionalmente em Montevidéu, Lívia Prado é internacionalista, historiadora ou tradutora, segundo a necessidade e a lua. Participou, em 2017, das antologias literárias “São Paulo em Palavras” e “Pedaladas Poéticas” (Aquarela Brasileira) e da coletânea “Mário-casa” (Risco Editorial), escrita a muitas mãos pelos prosistas da 5a edição do Curso Livre de Preparação do Escritor (CLIPE) da Casa das Rosas, em São Paulo.

Liziane Menezes Liziane Menezes é mestre em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará, trabalha como professora do curso de Letras/Espanhol na Universidade Estadual do Ceará, e pesquisadora no âmbito da literatura latino-americana. Nasceu no Sertão de Crateús.

Luciana Brandão Luciana Brandão nasceu e cresceu em Porto Alegre, onde reside ainda hoje. É autora da coletânea de textos Eu não sei falar, que foi publicada independentemente em Porto Alegre, em agosto de 2016. Participou de cursos e oficinas literárias ao longo do último ano. Mantém uma página no Facebook onde divulga os textos e as vídeo-poesias que cria.

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Maria Améia Mano Médica de Família e Comunidade da periferia de Porto Alegre há 18 anos, se inspira nas mulheres que ouve, nas escutas que aprende. Trabalha com educação popular (perspectiva de Freire) e narrativas em saúde.

Mariana Salomão Carrara Paulistana, nascida em 1986. Tem um livro de contos (Delicada uma de nós) e dois romances publicados (Idílico, e o recente Fadas e copos no canto da casa). Recebeu prêmios nacionais como Off-flip, SESC-DF, Felippe D’Oliveira (2015 e 2016), Sinecol, e Josué Guimarães. Publicou um conto na revista do SESI/SP, outro na revista do SESC-SP e um na Revista Liberdades, do IBCCRIM. Uma primeira versão do romance Fadas e copos no canto da casa foi finalista e menção honrosa no Prêmio Nascente USP-2009. É Defensora Pública desde 2011.

Naiana Gomes Jornalista, escritora e produtora cultural. Em 2017, publicou o livro-objeto Transforme isto em outra coisa: um percurso pelas histórias de Fernanda Meireles; e tornou-se assessora de imprensa do projeto cearense Formação de Cineastas Indígenas - Um olhar etnográfico, da Associação de Mulheres Indígenas Jenipapo-Kanindé. Em 2010, escreveu O sítio da alegria, livro infantil distribuído pelo Programa de Alfabetização na Idade Certa (PAIC) nas escolas públicas do Ceará. Mantém junto com amigos o projeto Fóssil Coração de Peixe.

Natália Albertoni Formada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, Natália Albertoni foi repórter cultural da revista Movie e do núcleo de revistas da Folha de S.Paulo. Hoje, exerce a função de RP na Hysteria, núcleo da Conspiração Filmes formado apenas por mulheres. Também constrói cenas experimentadas ou imaginárias com fotografias, letras e linhas. As histórias curtas, que resultam em algo como contos materializados em imagem e texto, partem sempre da palavra: um poema, uma canção, o trecho de um livro ou uma frase roubada.

Raisa Christina Raisa Christina é artista visual e escritora, nascida em Quixadá (Ceará). Recentemente concluiu pesquisa dedicada a poéticas no desenho e na criação de mapas de jovens skatistas e seus percursos errantes em Fortaleza. É autora do livro de autoficção mensagens enviadas enquanto você estava desconectado, publicado pela Editora Substânsia em 2014. Integra a Antologia de Contos Literatura Br, publicada pela Editora Moinhos, em 2016, e a revista Para Mamíferos N° 4, 2017. Mantém a página http://corposonoro.tumblr.com/

Expulsador Jornalista e pós-graduada em Teoria Psicanalítica pela Universidade de Fortaleza (Unifor) e aluna do curso de Licenciatura em Artes Visuais do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE). Atualmente, divulga suas produções artísticas pelo pseudônimo Expulsador. Em seus trabalhos, busca levar inquietações pessoais para o papel no intuito de discutir o que é vir a ser mulher.

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Taís Bravo Taís Bravo é escritora e tradutora em formação. Autora do livro digital Todos os meus (ex) heróis são machistas e coautora da zine possível (publicada pela Alpaca Press). É uma das fundadoras da revista Capitolina. Alguns de seus trabalhos podem ser lidos em veículos como Garupa, Subversa, Diversos afins e Escamandro. Atualmente, cursa Letras na UFRJ. É uma das criadoras e editoras de conteúdo da iniciativa Mulheres que Escrevem.

Tayná Fiúza Cientista, fotógrafa amadora, carimbeira. Mãe de planta, cachorra e gata. Atualmente, em trânsito entre terra da luz e cidade do sol. Sempre estupefata com a vida e sua teimosia em ser.

Thais DSR Professora de Geografia, mestra em educação, lésbica e feminista.

Tuyra Maria Tuyra Maria é professora de Literatura da rede pública de ensino, trabalha com literatura marginal, poeta e desbravadora de estradas sertão a dentro.

Victoria Pina Victoria é multiartista e poeta, percorrendo linhas entre a palavra e o desenho, a produção amadora audiovisual e a execução de esculturas com sucata. Na margem de um experimentalismo, a artista traça, delineia, tece e transforma o seu trabalho, abrindo o campo para possíveis manifestações, caminhos e fios de costura…

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As Cidades e os Desejos  

O livro - uma reunião de 25 artistas dispostas a refletir sobre os desejos e as cidades - é uma forma de dizer para o mundo que nós estamos...

As Cidades e os Desejos  

O livro - uma reunião de 25 artistas dispostas a refletir sobre os desejos e as cidades - é uma forma de dizer para o mundo que nós estamos...

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