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Pedro Santos

CONTOS DE REI


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02


O sonho

Uma alça em cada ombro e dois cintos: um no peito, outro na cintura. Queria tanto voar que construiu as próprias asas. Subiu ao edifício mais alto que encontrou e atirou-se convicto que tinha chegado a hora de cumprir o seu sonho, de voar, de ser feliz. Mas naquele instante choveu. Choveu como se tivessem virado o mundo ao contrário e despejassem o mar com a força da gravidade. Tinha asas de papelão. 03


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04


A dor

Dói. Dá para perceber que dói. Mas não se vê nada, um arranhão, um corte, uma nódoa negra, nada. Encosta a faca ao peito e enterra-a com força. Está morto. A dor não passa. 05


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06


O amor

Duas mulheres muito gordas estรฃo deitadas na mesma cama. Uma contra a outra, de costas voltadas. Um lenรงol dourado tapa mal os seus corpos nus. Uma chora. A outra estรก grรกvida. 07


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08


A dúvida

Olha para o telemóvel. Nada. Olha outra vez. Nada. Será que está a funcionar bem? Desliga para ligar novamente. e se diz alguma coisa entretanto? Nada. Está sozinho. Olha para o telemóvel. Nada. Olha outra vez, a medo, para confirmar. Nada. Será melhor desligar? E se diz alguma coisa entretanto? É melhor não arriscar. Está acompanhada. Tem um amante. 09


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A ilha

É uma ilha, dá para ver daqui que é uma ilha, pequena, perfeita e rodeada de mar. Tem as cores do arco-íris e a beleza inocente de quem nunca envelhece. Se ao menos soubesse nadar... 11


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12


O leitor

Um homem de perna cruzada e óculos muito grossos lê um livro de capa dura e folhas amarelas, gastas. Não consegue concentrar-se. Está apaixonado. 13


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14


A viagem

No pequeno retrovisor está enrolado um terço prateado. Na janela, uma Nossa Senhora de Fátima. Ao todo é possível contar oito espelhos e o condutor fala sozinho, em tom irónico, por cada manobra que alguém executa e que ele acha perigosa ou errada. No rádio ouve-se Sweet child o’mine. 15


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16


A baliza

Num campo de futebol de uma escola, uma turma inteira fazia o aquecimento para a aula de educação física. Duas meninas estavam sentadas nos degraus da bancada. Doía-lhes a barriga. Parada a correia em torno do campo, um miúdo pendura-se numa das balizas para fazer elevações, numa espécie de ritual de acasalamento. a baliza solta-se e ameaça bater com a trave no peito. Um amigo apercebe-se e segura-a gritando: moço! Obrigado, pensa ele, mudo de medo. 17


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18


A artista

São três horas da manhã e por todo o lado há copos de cerveja e homens a mijar contra as paredes. Sentada numa soleira, acompanhada de dois fãs bêbados que elogiam constantemente cada traça que faz, uma mulher desenha o casario que rodeia uma árvore. é noite de Santo António. 19


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20


Os olhos

Os olhos são pequenos, cavados no rosto, raiados de ira e angústia, lavados em lágrimas amargas como quem se despede. São olhos sinceros mas desiludidos. Dá dois passos atrás. Diz adeus. Podem fechar o caixão. 21


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A busca

Uma mulher está de gatas, de joelhos na terra escura, procura algo. Há mais gente em seu redor, olham para o chão também. Um dos filhos, talvez, olha para o céu e sorri. O seu rosto denuncia um atraso mental, não sabe o que faz. A mulher continua à procura, desesperada, talvez chore. É algo importante. Perdeu a alegria de viver. 23


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24


A vida

Uma cara, só uma cara. Tem um sorriso inocente, quase infantil, e os olhos virados, de terror. Os ossos seguram mal a pele flácida, pálida. Está no chão um caderno com folhas arrancadas, perdido entre papéis amarrotados. Na mão direita, a mão justa, um revólver. Os miolos estão na parede. 25



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