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Universidad Autónoma de Baja California Facultad de Medicina y Psicología

Revista Científica en Psicología

Vol #1 2018


Estudos de Psicologia ISSN: 1413-294X revpsi@cchla.ufrn.br Universidade Federal do Rio Grande do Norte Brasil

Moser, Gabriel Psicologia Ambiental Estudos de Psicologia, vol. 3, núm. 1, enero-junio, 1998, pp. 121-130 Universidade Federal do Rio Grande do Norte Natal, Brasil

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Estudos de Psicologia 1998, 3(1), 121-130 Evento 121

Psicologia Ambiental1 Gabriel Moser Universidade René Descartes-Paris V

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ostaria, hoje, de falar para vocês sobre a Psicologia Ambiental, mostrar os seus limites, e enfatizar porque é importante termos uma Psicologia Ambiental. Talvez pudéssemos introduzir a preocupação ambiental na Psicologia Geral, ou na Psicologia do Desenvolvimento, entre outras, que também têm essas preocupações. Então, por que falar de uma disciplina com o nome de Psicologia Ambiental? Os primeiros livros foram publicados, naturalmente, nos Estados Unidos, na década de 70, apenas 10 anos antes do que na França, sendo ainda uma disciplina bastante jovem, até mesmo mais jovem do que a Psicologia brasileira. Mas, para deixar claro sobre o que estamos falando, o que é Psicologia Ambiental? A Psicologia Ambiental estuda a pessoa em seu contexto, tendo como tema central as inter-relações - e não somente as relações – entre a pessoa e o meio ambiente físico e social. As dimensões sociais e culturais estão sempre presentes na definição dos ambientes, mediando a percepção, a avaliação e as atitudes do indivíduo frente ao ambiente. Cada pessoa percebe, avalia e tem atitudes individuais em relação ao seu ambiente físico e social. Por outro lado, inter-relação também quer dizer que estudamos os efeitos desse ambiente físico particular sobre as condutas humanas. Então, estamos estudando uma reciprocidade entre pessoa e ambiente.


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Essa inter-relação é dinâmica, tanto nos ambientes naturais quanto nos construídos. Ela é dinâmica porque os indivíduos agem sobre o ambiente (por exemplo, construindo-o), mas esse ambiente, por seu turno, modifica e influencia as condutas humanas. Logo, não estamos estudando nem o indivíduo per se, nem o ambiente per se. Não estamos fazendo Ecologia, pois esta tem um ponto de vista diferente. Nela, cada elemento de um sistema ambiental tem o mesmo peso. Quando se fala de Psicologia Ambiental não é esse o caso porque, como psicólogos, estamos fazendo um discurso sobre a pessoa, sempre em inter-relação com o seu contexto ambiental, é verdade, mas coloca- mos a pessoa como centro de nossa preocupação. Então, a especificidade da Psicologia Ambiental é a de analisar como o indivíduo avalia e percebe o ambiente e, ao mesmo tempo, como ele está sendo influenciado por esse mesmo ambiente. É fato bastante conhecido que determinadas especificidades ambientais tornam possíveis algumas condutas, enquanto inviabilizam outras. Estamos preocupados em caracterizar as incidências específicas de certos micro e macros ambientes sobre o indivíduo. Ou seja, como, por exemplo, a casa de uma pessoa é capaz de influenciar a sua percepção, avaliação, atitudes e satisfazer suas necessidades. Mas também estamos interessados em coisas muito mais amplas, como uma cidade, por exemplo. Como ela influencia o comportamento e o cotidiano do indivíduo? É nesse sentido que estamos interessados em saber como o indivíduo reage às condições constringentes do ambiente, como, por exemplo, o estresse, pois para nós o estresse é uma palavrachave na relação que o indivíduo tem com essa entidade ambiental, a grande cidade. Os problemas das grandes cidades (transporte, moradia, alta densidade demográfica, ruído, poluição) têm uma influência sobre o indivíduo e essa influência depende de como ele percebe e avalia os diferentes aspectos estressantes decorrentes do fato de viver nessa cidade, como no caso da AIDS. Ao passar a viver numa grande cidade por necessidade de estudo ou emprego, temos uma certa expectativa em relação a ela. Ao sair do interior para viver em Natal, por exemplo, ou sair de Natal para morar em São Paulo,temos uma idéia de como vai ser a vida ali, os problemas de


transporte que vai enfrentar, ou a insegurança que existe ali. Esse ambiente vai ter uma influência sobre o nossocomportamento. Será preciso decidir, por exemplo, não sair mais à noite por medo (ainda que, talvez, não precisassemos ter medo), o que causará um certo estresse. Estresse é, certamente, uma palavra central, porque é o resultado da interação entre o indivíduo e o seu contexto físico. Não é o contexto físico isoladamente que causa o estresse. Não é o telefone celular, por exemplo, que provoca o estresse mas, sim, a relação que a pessoa tem com ele. Então, essas são as coisas que nos interessam em Psicologia Ambiental e é isto que faz com que ela seja cada vez mais importante para resolver problemas. A Psicologia Ambiental trata também de certas temáticas bem específicas, que podem nos ajudar a entender por que se fala em Psicologia Ambiental e não só em “enxergar” o ambiente, como fazem outros ramos da Psicologia. Por exemplo, uma temática que é bem importante em Psicologia Ambiental é o espaço físico. Este é um termo que tem sido amplamente esquecido pela Psicologia, seja na Psicologia Geral, Social, do Desenvolvimento ou outras. Não se falava de espaço, mas é óbvio que nos comportamos diferentemente dependendo do espaço em que estamos. Se estamos num espaço restringido, pequeno, atuamos de maneira diferente de nosso modo de agir em um espaço amplo. A avaliação e percepção que temos desse espaço também vão influenciar na nossa maneira de atuar; interagimos diferentemente dependendo do local. Então, o espaço é o primeiro conceito importante. Outro conceito ainda mais importante e específico da Psicologia Ambiental é a dimensão temporal, que se entende ao mesmo tempo como projeção no futuro e referência ao passado, à história. O tempo também é um conceito que tem sido claramente negligenciado em Psicologia. Não se fala do tempo! Na Psicanálise, sim, e talvez seja o único ponto de vista a falar de tempo no sentido de história pessoal. Fala-se um pouco, é verdade, na Psicologia do Desenvolvimento, mas a relação do indivíduo com o tempo é importantíssima para a Psicologia Ambiental. O indivíduo tem uma noção de tempo que está relacionada com a duração de sua vida, que é muito dependente do seu ciclo de vida. Mas enquanto o ciclo de vida de uma pessoa tem caraterísticas


bem peculiares, tantas outras coisas existem com ciclos de vida diferentes. Um árvore pode se desenvolver muito rapidamente, ou muito lentamente, mas ela cresce em um ritmo diferente do humano. Em Psicologia Ambiental a noção de história é importante. Não se deve esquecer que é através de sua história residencial que o indivíduo constrói uma identidade residencial (conceito de place- identity, introduzido por Proshansky), que vai influenciar a sua percepção e a sua avaliação da sua residência atual. Essa questão de tempo (e de considerar o tempo) é muito importante, pois também faz parte de um tema específico da Psicologia Ambiental, que é o problema da adoção de comportamentos pró- ambientais. Ou seja, fazer com que o indivíduo respeite o meio- ambiente e que adote comportamentos que sejam, por exemplo, de restrição do uso de água, de triagem de lixo, entre outros. Nessas problemáticas o tempo é muito importante, porque muitas vezes nesses problemas o indivíduo tenta atuar de maneira individualista e não pensa na comunidade. Ademais, os problemas que podem surgir quando o indivíduo não atua de modo a preservar o ambiente trazem conseqüências não para a nossa geração, mas para a de nossos filhos ou netos. Então, é um problema bem específico da Psicologia Ambiental, pois sabemos que é possível mudar o comportamento do indivíduo. Mas estes estudos da Psicologia Social são feitos levando- se em consideração a influência das atitudes sobre o comportamento, implicando mudanças de curto prazo. Você pode modificar o comportamento dos indivíduos, fazer com que eles adotem comportamentos pró-ambientais, que joguem o lixo no lixo. Isso é fácil! Mas, observe-os três meses depois, ou seis meses depois. Aqueles comportamentos terão voltado a ser o que eram antes; eles não duram muito tempo. Então, este é um problema temporal e muitas vezes temos que contar com esse importante problema na Psicologia Ambiental. Do ponto de vista metodológico, pode-se dizer que a Psicologia Ambiental é um laboratório da Psicologia. Em Psicologia Ambiental, para resolver determinados problemas, ter uma idéia mais clara da complexidade do ambiente, utilizamonos muitas técnicas e resultados da Psicologia, mas também temos que renovar.


Um primeiro aspecto é que a Psicologia Ambiental não utiliza um método preferencial, porque ela tem duas abordagens extremas. Para poder iniciar e compreender as inter-relações do indivíduo com o meio-ambiente temos necessidade de ver o que é feito em Psicologia Experimental, quais os resultados dos estudos experimentais sobre percepção visual, auditiva (quando se trata de ruído) etc.. Mas também temos que saber como, em um ambiente cientificamente puro como o laboratório, o indivíduo reage ao ruído, quais são os efeitos do ruído no laboratório, para depois, com esse conhecimento, analisar essa transação complexa do indivíduo com o ambiente. Isto é, temos uma fonte de estudos experimentais e que estamos contando com os avanços da Psicologia para poder construir o que se sabe sobre Psicologia Geral. É com base nessas informações que se faz experimentações no campo, no meio natural. Por exemplo, no campo se manipula o ruído (ou outras coisas) para verificar algo que sabemos que funciona no laboratório. Esses são estudos pontuais muito importantes. Por outro lado, no outro extremo, estaremos fazendo uma análise sistemática da inter-relação pessoa-ambiente como uma transação, sem privilegiar uma ou outra variável ali presente, vendo como o sis- tema indivíduo-ambiente funciona. Então, muitas vezes a Psicologia Ambiental é uma ida e volta entre estudos quase-experimentais de campo e descrições sistemáticas baseadas em análises multivariadas das variáveis mais poderosas para explicar comportamentos e neces- sidades do indivíduo num ambiente em particular. Como o que se estuda em Psicologia Ambiental são fenômenos bem complexos, não só se usam métodos e técnicas bem conhecidas da Psicologia, particularmente da Psicologia Social, como também são criadas metodologias próprias da Psicologia Ambiental. O exemplo mais conhecido é certamente o método de Barker, que descreve o funcionamento de um sistema por exemplo, esta sala em que nós estamos agora, não somente de um ponto de vista físico, mas considerando também as pessoas que ali estão. Para aquele autor, espaço físico não existe se não tem gente dentro. Mas deve haver um certo número de pessoas para que o sistema possa funcionar adequadamente, cada um organizadamente exercendo a sua função;


com gente demais ou sem ninguém não funciona. Então, ele descreve espaço físico totalmente dependente de seu modo de ocupação. Na Europa, houve duas vertentes de formação da Psicologia Ambiental. Uma foi a Arquitetura; na Inglaterra e nos países nórdicos a demanda que deu origem à Psicologia Ambiental veio dos arquitetos. Já em países como Itália, Alemanha, França e Espanha a raiz da Psicologia Ambiental foi a Psicologia Geral. A preocupação de certos psicólogos era justamente o contexto no qual aconteciam as coisas que eles estavam interessados em analisar. Os psicólogos ambientais são, em grande parte, formados em Psicologia Social, mas alguns também vêem da Psicologia Geral, da Psicologia do Desenvolvimento e também da Psicopatologia, porque esta também vê cada vez mais a importância da relação entre saúde e ambiente. Não é por acaso que certos doentes se encontram em certos lugares e não em outros, da mesma forma que algumas doenças se encontram em determinados lugares e não em outros. Pode-se também ver a relação que o indivíduo tem com o ambiente em que vive, em relação ao surgimento de doenças. O descontentamento do indivíduo com o seu ambiente pode facilitar a emergência de certas doenças, sejam mentais ou físicas. Por que falei anteriormente que a Psicologia Social constitui a maioria das origens das Psicologias Ambientais? Porque os psicólogos sociais deram alguns conceitos que nós utilizamos, como atitudes, representação social, a noção de campo de Lewin e outros. Mas também pelo fato de eles estarem centrados na interação entre o indivíduo e outros indivíduos. Isto pode ser visto como uma iniciação para se entrar no campo da Psicologia Ambiental, porque o tipo de análise é bem parecido. Vimos que as preocupações, metodologias e procedimentos de pesquisa da Psicologia Ambiental têm um pouco de todos os ramos da Psicologia. A Psicologia Ambiental tem uma posição transversal dentro da Psicologia. Além disso, a Psicologia Ambiental é muitas vezes pluridisciplinar, ou multidisciplinar, no sentido de que a complexidade dos problemas ambientais costuma exigir uma abordagem a partir de diferentes pontos de vista, necessitando da colaboração de outras disciplinas como, principalmente, da Geografia Humana, já que esta tem como ponto de partida o espaço. E, como o


espaço é um tema central na Psicologia Ambiental, nós podemos dialogar com os geógrafos humanos, pois para eles também o espaço é uma coisa central. Também pelo fato de que a Geografia Humana leva muito em conta o tempo, ou seja, o horizonte temporal é muito importante para eles. Assim, muitas vezes temos trabalhado em colaboração com colegas da Geografia Humana. Outras disciplinas conexas são o Urbanismo e a Arquitetura. Esta, vista de modo simplificado, trata do micro ambiente da residência, que é uma das coisas mais importantes para o indivíduo (seu apartamento, seu lugar, seu espaço de referência). É nesse espaço que o indivíduo irá se desenvolver, criar uma família, ter filhos, tornandoo bastante importante para sua vida. Tratar com os arquitetos sobre esse espaço construído pelo homem é muito importante para nós. Dialogamos também com o urbanismo, que trata de um macro ambiente construído, que é a cidade. Os urbanistas são responsáveis por seu planejamento, o que faz com que nós tenhamos que trabalhar com eles em certos problemas. Também dialogamos com os sociólogos, mas em menor grau. Os mais importantes são os geógrafos humanos, os arquitetos e os urbanistas. Os sociólogos nos são menos importantes, pois suas preocupações estão voltadas para os poderes políticos, os movimentos de massa e as comunidades. Do meu ponto de vista, como psicólogo ambiental europeu, estes assuntos não nos preocupam tanto, visto que estamos fazendo Psicologia Ambiental. Estamos estudando o indivíduo como parte de uma comunidade, mas a comunidade não é o centro de nossas preocupações. Muitas vezes a Psicologia Ambiental é considerada como uma aplicação da Psicologia. Não é! Dizem que é uma aplicação da Psicologia porque ela responde a alguns problemas da sociedade. É verdade que a preservação do ambiente é um problema da sociedade. Mas já vimos que para mudar um comportamento os psicólogos sociais têm algumas soluções, mas são soluções que não levam em conta a dimensão temporal, o horizonte temporal. Então, temos de construir novos paradigmas para, justamente, resolver esses problemas. Por isso, ela não é uma mera aplicação da Psicologia. A distinção entre pesquisa teórica fundamental e pesquisa aplicada não é muito importante em


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Psicologia Ambiental. Para nós, é verdade que estamos respondendo a problemas da sociedade, mas também temos que forjar novos conceitos. E a Psicologia Ambiental tem conceitos que lhes são próprios. Por exemplo, cognição ambiental, mapeamento mental, história residencial, identidade ambiental, (percepção de) aglomeração, entre outros. Uma disciplina, um ramo, que cria novos conceitos, que tenha novos paradigmas para resolver problemas, não é uma aplicação, é uma disciplina, e não só um ramo. Devemos considerar ainda o fato de que muitas vezes trabalhamos um problema a partir de abordagens de níveis diferentes. Quando queremos saber qual o efeito da grande cidade sobre o indivíduo, temos de ver primeiro como se dá sua satisfação residencial com sua moradia, seja apartamento ou casa. Em seguida, conhecer sua satis- fação com a vizinhança, depois com o bairro e, aí sim, com a cidade. São relações que o cidadão tem com sua residência, sua vizinhança, seu bairro e sua cidade, que vão ser analisadas em diferentes etapas, segundo múltiplas abordagens. Essa situação também não é muito característica da Psicologia, mas sim da Psicologia Ambiental. Com isso, eu penso ter passado um pouco da minha visão do que seja a Psicologia Ambiental, qual seja o seu papel, e porque essa Psi- cologia Ambiental deva ser uma disciplina, tal como a Psicologia Clí- nica, a Psicologia do Desenvolvimento, a Psicologia Social, e todas as demais. É importante que estejamos discutindo a utilidade dessa disciplina. Para terminar, eu gostaria de lhes contar um pouco sobre os nossos campos de trabalho na França. Eu sei que aqui no Brasil, e na América Latina, de um modo geral, a definição dos campos da Psicologia Ambiental é diferente; alguns dos psicólogos ambientais daqui estão bastante voltados para a Psicologia Comunitária que, para nós, não é Psicologia Ambiental. Para nós, a análise da dinâmica envolvida no processo das pessoas se reunirem para juntas enfrentarem e resolverem um problema constitui uma forma de pesquisa-ação, e não faz parte dos meios de atuação da Psicologia Ambiental. Na França temos, primeiramente, preocupações que estejam ligadas ao ambiente construído, especificamente o ambiente urbano, e o ambiente natural. A partir dessas preocupações, estamos, de uma


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maneira geral, analisando as necessidades, as apropriações, as percepções, e as condutas sociais, seja num espaço micro ou macro, casa, bairro, vizinhança, ou cidade. Outro campo de atuação se refere à qualidade do ambiente. São estudos que tratam do estresse mas, sobretudo, tratam da noção de conforto, algo que vem se tornando cada vez mais importante. Quais são as variáveis que vão fazer o indivíduo se sentir confortável ou desconfortável? Quais são as variáveis do contexto físico e social que contribuem para o conforto? Aqui são, também, analisadas as estratégias de adaptação, ou seja, como o indivíduo se adapta ao ambiente físico construído que existe ao seu redor? Quais são as modalidades e limites da adaptação? Limites também, porque se o ambiente for muito constringente, o indivíduo pode não ser capaz de se adaptar; ou então pode se adaptar a um custo tão alto que poderá desenvolver problemas de saúde. O último campo que estamos estudando são as representações ecológicas e os com- portamentos pró-ambientais, questões que, como vocês sabem, são atuais e cada vez mais importantes, aqui em Natal ou em qualquer outro lugar, nos anos que temos pela frente. Muito obrigado por sua atenção, foi um prazer estar aqui com vocês, explicando um pouco do que eu penso sobre a Psicologia Ambiental.

Nota

1

Palestra proferida na Biblioteca Cen- tral da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN, em 27 de agosto de 1997. (Nota do Editor: texto transcrito por Adriano C. R. Costa e revisto por José Q. Pinheiro)


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Gabriel Moser é Doutor em Psicologia, pela Universidade Sobre o autor René Descartes-Paris V, na qual é pro- fessor de Psicologia Social e de Psi- cologia Ambiental, e Diretor do La- boratório de Psicologia do Ambi- ente (CNRS, URA 1270). Endere- ço para correspondência: Institut de Psychologie; Université René Descart es Pari s V; 28, rue Serpente; F75270 Paris Cedex 06; tél: (+33) 01 40 51 99 15; Fax: (+33) 01 40 51 99 19; E-mail: gabriel.moser@psycho.univparis5.fr


International Journal of Clinical and Health Psychology ISSN: 1697-2600 jcsierra@ugr.es Asociación Española de Psicología Conductual España Freixa i Baqué, Esteve ¿Qué es conducta? International Journal of Clinical and Health Psychology, vol. 3, núm. 3, septiembre, 2003, pp. 595-613 Asociación Española de Psicología Conductual Granada, España

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Revista Internacional de¿Qué Psicología y de la Salud/ FREIXA I BAQUÉ. es laClínica conducta? International Journal of Clinical and Health Psychology

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ISSN 1576-7329 2003, Vol. 3, Nº 3, pp. 595-613

¿Qué es conducta?1 Esteve Freixa i Baqué2 (Universidad de Picardie, Francia) (Recibido 8 enero 2003 / Received January 8, 2003) (Aceptado 12 febrero 2003 / Accepted February 12, 2003)

RESUMEN. La definición de la Psicología como ciencia de la conducta adoptada por el Conductismo supone e implica a su vez una conceptualización clara y unívoca de dicho concepto. Pero tal definición se enfrenta con una serie de malentendidos tenaces que dificultan no sólo la comprensión de dicho concepto básico sino también, en consecuencia, la propia conceptualización conductista. El propósito del presente trabajo es intentar exponer algunos de estos malentendidos, entre los que destacan los errores categoriales groseros, los procesos de reificación abusiva, los razonamientos tautológicos disfrazados, la generalización imprudente del modelo médico al ámbito de la conducta y la confusión nefasta entre un fenómeno y su conceptualización. Para ello, y con un tono más didáctico que académico, se recurre a una serie de metáforas de la vida cotidiana: la parte escondida del iceberg no es más que iceberg, las piedras no caen por su propio peso, los hombres y las mujeres no mueren porque son mortales, el bacilo de Koch existe y la máscara no es el rostro.

PALABRAS CLAVE. Conducta. Conductismo. Errores categoriales. Reificación. Epistemología.

ABSTRACT. The definition of Psychology as behavioral science adopted by the Behaviorism supposes and implies a clear and univocal conceptualization of this concept. But such a definition encounters a series of tough misunderstandings which make difficult not only the comprehension of this essential concept but also, consequently, the proper behaviorist conceptualization. The aim of this paper is to try to expose some of these misunderstandings,

1

Texto aumentado y corregido de la conferencia pronunciada en la UNED (Madrid) el 17 de mayo de 2002, lo que explica su carácter coloquial y la ausencia de referencias bibliográficas. 2 Correspondencia: Faculté de Sciences Humaines. Département de Psychologie. Chemin du Thil. 80025 Amiens cedex 1 (France). E-Mail esteve.freixa@u-picardie.fr RIPCS/IJCHP, Vol. 3, Nº 3


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among which appear the coarse categorial errors, the processes of abusive reification, the tautological reasoning disguised, the imprudent generalization of the medical model to the field of the behavior and the confusion between a phenomenon and its conceptualization. For that, and on a more didactic than academic style, a series of metaphors of the everyday life are used: the hidden part of the iceberg is also an iceberg; the stones do not fall because of their own weight; the men and the women do not die because they are mortals; the bacillus of Koch exists; the mask is not the face. KEYWORDS. Behavior. Behaviorism. Categorial errors. Reification. Epistemology.

RESUMO. A definição da Psicologia como ciência do comportamento adoptada pelo comportamentalismo supõe e implica por sua vez uma conceptualização clara e inequívoca do dito conceito. No entanto tal definição depara com uma série de malentendidos que dificultam não só a compreensão do conceito básico mas também, em consequência, a própria conceptualização comportamentalista. O propósito do presente trabalho é tentar expor alguns destes malentendidos, entre os quais se destacam os erros categoriais grosseiros, os processos de reificação abusiva, os raciocínios tautológicos disfarçados, a generalização imprudente do modelo médico ao âmbito do comportamento e a confusão nefasta entre um fenómeno e a sua conceptualização. Para isso e com um estilo mais didáctico que académico, recorre-se a uma série de metáforas da vida quotidiana: a parte escondida do iceberg não é mais que ice- berg, as pedras não caiem pelo seu próprio peso, os homens e as mulheres não morrem por- que são mortais, o bacilo de Koch existe e a máscara não é o rosto.

PALAVRAS CHAVE. Comportamento. Comportamentalismo. Erros categoriais. Reificação. Epistemologia.

Introducción El título de este artículo es a la vez simple y complejo. Simple, porque no puede ser mas escueto y directo. Compárese sino con “Propuesta de definición epistemológica del concepto de conducta a través del paradigma conductista radical: implicaciones ontológicas y metodológicas con base a un análisis del lenguaje ordinario dentro del marco del positivismo lógico”, o aún “Errores categoriales subyacentes a la conceptualización mentalista de la conducta en la psicología contemporánea y su refutación en base al conductismo skinneriano: la contribución de la filosofía anglosajona del lenguaje y del Círculo de Viena al debate sobre el estatus epistemológico de la conducta”. Ambos títulos traducen más o menos en efecto el propósito de este artículo. Complejo, porque para responder correctamente a tal pregunta implicaría probablemente escribir un libro. Va- mos pues a intentar una solución de compromiso que, como todo compromiso, será cri- ticable, pero que nos permita, aunque sea modestamente, elaborar una reflexión crítica de lo que entendemos por conducta. Permítanme, para ello, que empiece hablando de Astronomía. Si pidiésemos a la primera persona que nos encontramos que nos descri- biese lo que se puede ver en el cielo, probablemente nos respondiera: “el sol, la luna y


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las estrellas”. En efecto, aparentemente, éstas son las tres categorías de objetos celestes sobre los cuales todo el mundo estaría de acuerdo. Sin embargo, esta categorización es completamente errónea. En primer lugar, el sol no es una categoría en sí, puesto que no es más que una estrella (matinal, cierto; pero estrella al fin y al cabo); por otro lado, entre lo que llamamos “estrellas” hay, evidentemente, estrellas, pero también, planetas (Venus, Marte, etc.). Y también podríamos recordar que la luna no es más que un satélite que gira alrededor de un planeta, siendo los planetas de alguna forma los satélites del sol, que es una estrella como las demás. Estrellas y satélites podrían por tanto, en ultima instancia, bastar para categorizar lo que vemos en el cielo si se considerase la luna como el satélite de un satélite. En resumen, la simple categorización en tres ele- mentos iniciales esconde una realidad muy diferente, no directamente accesible a las apariencias, y que pide una conceptualización del universo mucho más elaborada (y adecuada) que la generada por las simples apariencias. Señalemos de paso que el hecho de saber que el sol es una estrella no nos impide verlo como lo ven las personas que no lo saben; lo que ha cambiado no es la percepción sensorial del objeto, sino su concep- tualización. El ejemplo precedente constituye una ilustración, más o menos conseguida, de lo que se llama error categorial, es decir, un proceso erróneo de atribución de un elemento a una categoría. Este fenómeno es usual, no solamente en la vida cotidiana, sino tam- bién en las ciencias jóvenes, en un momento de su evolución en el que se encuentran todavía prisioneras de las apariencias, de las teorías del “sentido común” y en el que las conceptualizaciones más elaboradas no han sido aún generadas. Este es el caso de la Psicología; el concepto mismo de conducta es un arquetipo de ello (el concepto de “mente” constituye igualmente un ejemplo paradigmático, pero de momento nos vamos a centrar sobre la conducta). En efecto, la idea que la gente se hace en general de la conducta es tan errónea como la que consiste en crear una categoría específica para el sol cuando éste pertenece a la categoría de las estrellas. La concepción tradicional supone que la conducta está constituida por el movimiento visible de un ser vivo o de una de sus partes. Así, saltar una valla es una conducta, de la misma manera que presionar un botón o conducir un coche. Pero, ¿realizar un cálculo “mental” [(7 x 8) – 6]  1/2 = ?), ¿es una conducta? La respuesta tradicional es, naturalmente, no. La conducta será el anuncio del resultado (100), pero no el proceso “mental” que nos ha permitido encontrar este resultado. Desde esta óptica, la conducta es el último eslabón de un proceso iniciado, cierto, por un estímulo (la pregunta), pero cuya parte esencial se sitúa a nivel interno, “men- tal”. Si una escuela psicológica, como el conductismo, declara tener como único objeto de estudio la conducta, parece pues que se descalifica por sí misma, puesto que, en la medida en que no se interesa más que en el resultado, es decir, en el último eslabón de la cadena, niega la parte más importante, es decir, los procesos “mentales” que han su- puestamente permitido enunciar esta respuesta y sin los cuales la respuesta jamás hu- biese sido posible. Se dice pues del conductismo que constituye un enfoque basado en el modelo de “caja negra”. En efecto, en la medida en que el conductismo, según se pretende, sólo se interesa en los estímulos y las respuestas (el célebre esquema S-R), no tiene más solución que, o bien negar la existencia de los procesos “mentales” que se sitúan entre los dos (lo que sería un caso de deshonestidad intelectual, ya que cualquie-


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ra puede constatar fácilmente que antes de dar la respuesta ha necesitado un cierto tiempo durante el cual ha realizado este cálculo “mental”, tiempo proporcional a la dificultad de la operación), o bien meter dichos procesos entre paréntesis afirmando que, puesto que se sitúan en el interior del organismo, puesto que no constituyen fenómenos públicos, accesibles a varios observadores, no pueden ser abordados por el método experi- mental, es decir, no pueden ser estudiados científicamente. De ahí la necesidad de concebir al organismo como una “caja negra”, opaca, que no deja ver lo que se desarrolla en su interior y concentrarse en consecuencia sobre los únicos fenómenos observables: los estímulos y las respuestas. Tal es, brevemente resumida, la concepción que la gente se hace del enfoque conductista. Es necesario sin embargo reconocer, en honor a la verdad, que ciertas formas de conductismo, el conductismo metodológico y el conductismo fi- losófico, directamente derivados de (o asimilables a) las corrientes operacionalistas (que postulan que no se puede abordar un objeto de estudio más que si ha sido correctamente operacionalizado, es decir, traducido a una serie de operaciones públicas y observables) no está muy alejado de esta concepción. Si tal fuese el caso, habría que reconocer que la posición conductista sería absurda, puesto que por un lado, reconocería que lo importante no es tanto la conducta (último eslabón) como los procesos que permiten elaborarla; pero, puesto que éstos son inaccesibles a un observador externo, no habría más re- medio, so pena de caer de nuevo en la introspección (la vieja introspección en reacción a la cual el conductismo se había constituido), que contentarse con la conducta; esta conducta que, aunque sin gran interés en sí, tiene el mérito de ser pública y susceptible eventualmente de proporcionarnos algunas informaciones sobre los procesos “mentales” que le han dado nacimiento. Así es como los psicólogos cognitivistas conciben la con- ducta: poco (¡o nada!) interesante en sí misma, pero constituyendo la única vía de acceso aceptable (ellos también son científicos; por lo tanto, rehusan la introspección) para intentar comprender los mecanismos del aparato (nótese la espléndida metáfora mecanicista) psíquico, “mental”, cognitivo. Pero todo lo anteriormente expuesto está basado en la aceptación, como algo evidente, de la definición de conducta como movimiento muscular visible, público y, de manera complementaria, del carácter “mental” de los procesos internos, privados, que actúan en presencia del estímulo a fin de elaborar la respuesta adecuada. Y, precisamente, lo que vamos a intentar poner en evidencia es que esta dicotomía, “mental”- conducta, es incorrecta ya que deriva de un enorme error categorial.

La parte escondida del iceberg no es más que iceberg Después de haber echado mano de la Astronomía, y antes de pedir prestados algunos ejemplos de la Física, permítasenos, para agravar nuestro caso, apoyarnos sobre la gramática. En efecto, la gramática nos enseña que los verbos describen acciones, es decir, comportamientos, conductas. Hemos tomado, hace un momento, saltar una valla, pre- sionar sobre un botón o conducir un coche como ejemplos de conducta, en contraste con el cálculo mental, actividad que no es considerada como tal en la visión tradicional de las cosas. Sin embargo, calcular es un verbo de la misma forma que lo es saltar, presionar o conducir. Así pues, lógicamente, si se trata de un verbo, éste denota una acción, es


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decir, una conducta. Calcular es, por consiguiente, una conducta pura y simple. Llegados a este punto, creemos adivinar la reacción, escéptica, del lector: “se trata de un sofisma, de un juego de palabras, de una demostración puramente verbal, declarativa, sin ninguna relación con la realidad, con la veracidad de las cosas”. En efecto, no tenemos intención de contentarnos con esta demostración lógica basada sobre definiciones gramaticales para defender nuestro punto de vista, aunque vamos a utilizar de nuevo un argumento lingüístico, concretamente etimológico. Pero antes, quisiéramos pararnos sobre algunos aspectos más evidentes relacionados con el cálculo; no con el cálculo “mental” sino, de momento, simplemente con el cálculo manual. ¿Cómo resuelve un niño, que está aprendiendo a contar, el problema: ¿“cuánto suman 3 y 2 ?”. Sencillamente, se ayuda con sus dedos para levantar primero tres dedos, después otros dos, contarlos y, final- mente, enunciar el resultado: “5”. En efecto, los dedos son las primeras “muletas” que se utilizan en el aprendizaje del cálculo. Y esta es la razón por la cual nuestro sistema de numeración es el sistema decimal, compuesto por diez elementos básicos diferentes (0,1, 2... 9) que corresponde a lo que se llama contar en base 10. ¿Por qué la base 10 más bien que la base 2 (como los ordenadores), la 7 o la 13, por ejemplo? La respuesta es evidente: porque no tenemos 2, 7 ó 13 dedos, sino 10. ¿Una prueba suplementaria? ¿Cómo hacen los franceses para decir 80? Dicen “quatre-vingts” (cuatro-veintes) en vez de “octante” o “huitante” que sería la forma normal si siguiesen el sistema decimal. ¿Saben ustedes por qué? Porque sus antepasados los galos (como los Mayas, y otras civilizaciones antiguas) contaban en base 20 ¿Y por qué 20? Porque, además de dos manos, ¡tenemos 2 pies! La base 20 ofrece, en efecto, el doble de posibilidades que la base 10. Y aunque el sistema decimal fue introducido en Francia hace siglos y siglos, aún que- dan algunas huellas de esta antigua base 20, que mezclan con la base 10 sin que ello les cause el menor problema (los únicos a quienes causa problemas es a los extranjeros, como ustedes y yo, cuando intentamos aprender su idioma). Todo esto para ilustrar un fenómeno bien conocido: cuando se está en fase de aprendizaje del cálculo, uno se ayuda (por eso hablábamos de “muletas”) de los elementos externos que tiene a mano (y perdón por el juego de palabras), elementos que pueden ser contados y manipulados a voluntad (en manipular hay mani, del latín manus-mani: mano). Calcular es pues, al principio, una conducta manual, manifiesta, motora y pública, de contar, con la mano, con los dedos (de la mano y/o del pié, etc.). Nadie puede negar que tal actividad cons- tituye una conducta, con todas las de la letra. Pero, pronto, los 10 o los 20 dedos resultan insuficientes para realizar cálculos que necesitan más de 10 o de 20 elementos. Así pues, los dedos se sustituyen por pequeños objetos fácilmente manipulables, tales como los huesecitos, las bolas (que han generado los famosos ábacos, utilizados aún en ciertas civilizaciones orientales), los guijarros... y ahí queríamos llegar: ¿Cómo se decía un guijarro, una piedrecita, en latín? Sencillamente: cálculo (que ha llegado hasta nosotros en la expresión: cálculo renal o cálculo en la vesícula biliar). Etimológicamente, calcu- lar viene pues del latín calculare y significa: “manipular guijarros, en el sentido de con- tarlos”. Calcular es pues realmente una conducta, y no solamente en virtud de un simple razonamiento lógico, de lo que antes podía parecer un mero sofisma (es un verbo, luego es una conducta), sino también en virtud de su propia etimología, como antes lo habíamos anunciado.


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Así pues, calcular de manera externa, visible, pública, manipulativa no supone ningún problema. Se trata, sin discusión posible, de una conducta. Pero esto no prueba en absoluto que los procesos “mentales” que se desarrollan en nuestro interior mientras realizamos esta actividad, sin la ayuda de ningún elemento externo manipulable, sean también conductas. Vamos a responder a esta objeción. Para ello, es necesario franquear una etapa más: soltar “las muletas”. En efecto, a fuerza de repetir una conducta, se ad- quiere una maestría cada vez más pronunciada; la conducta se automatiza y se vuelve cada vez menos dependiente de su soporte manipulativo. La conducta puede entonces interiorizarse, emitirse sin recurrir a su componente motriz. Este proceso se puede ver claramente en el aprendizaje de la lectura. Al principio, se lee en voz alta, siguiendo el texto con el dedo y moviendo todos los músculos del aparato fonador. Posteriormente, se abandona el señalar con el dedo; se llega luego a leer “para sí”, sin emitir ningún sonido, pero se distingue todavía un ligero movimiento de los labios, hasta que todo movimiento desaparece y se llega a la lectura silenciosa del adulto, a la lectura que se podría llamar “mental”. Esto es lo que sucede con nuestro ejemplo del cálculo “men- tal”. Una vez que nos hemos convertido en expertos en el cálculo, podemos efectuarlo interiormente, “mentalmente”, sin ningún componente kinético. Pero calcular, ya sea de forma manipulativa o de forma “mental”, se expresa siempre por un verbo, por lo que reviste siempre el status de conducta. La única diferencia entre las dos modalidades está en su carácter público versus su carácter privado, exterior versus interior. En resumen, se trata sólo de un simple problema de accesibilidad por parte de un observador externo. Pero una diferencia de accesibilidad no es suficiente para justificar una dicotomía tan marcada como procesos “mentales” versus conducta, fenómenos considerados como pertenecientes a dos categorías tan radicalmente diferentes que se llega a considerar a una de ellas como la causa de la otra. Una simple diferencia de accesibilidad a un fenómeno nunca tuvo el poder de cambiar ni la naturaleza ni el estatus del fenómeno en cuestión, que es independiente del hecho de que se pueda acceder hasta él más o menos fácilmente. En otras palabras, la diferencia de accesibilidad concierne al observador, no al fenómeno. El fenómeno es lo que es, independiente de su accesibili- dad, que es una característica dependiente del observador. Un fenómeno no cambia en su esencia a causa de las limitaciones perceptivas del observador. Los infra- y los ultra- sonidos, los rayos infra-rojos y los rayos ultra-violetas no son fenómenos esencialmente diferentes de, respectivamente, los sonidos audibles y los colores perceptibles por el ser humano por el simple hecho de que no los percibe. De hecho, pueden ser percibidos por otras especies animales, lo que demuestra que no tienen nada de particular en sí, es decir, que su inobservabilidad humana no implica ninguna diferencia de estatus (ontológico). Crear categorías diferentes de fenómenos en función, únicamente, de su accesibilidad humana, constituye un acto de un antropocentrismo descarado, demasiado corriente por desgracia, pero sin ninguna justificación objetiva más que el lisonjeo de nuestro ego. Es hacer del ser humano la medida de todas las cosas, pero las cosas eran así mucho antes de nuestra aparición sobre la tierra, continuarán siéndolo después de nuestra eventual desaparición, y se burlan totalmente, con razón, de la concepción que nosotros tenga- mos de ellas. Existen pues conductas visibles a las que podemos llamar manifiestas y conductas


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escondidas a las que podemos llamar “mentales”, pero ambas son conductas con todas las de la ley; no considerarlas así a causa de su diferencia de accesibilidad, suponer que sólo son conductas las primeras, creando así una categoría diferente para las segundas, añadiendo, para postre, una relación causal entre ambas, constituye, ni más ni menos, un magnífico error de categorización. La analogía siguiente debería acabar de poner en evidencia nuestra posición. Se trata de la analogía con los icebergs. Un iceberg es una masa de hielo a la deriva sobre el océano que presenta, en virtud de las leyes de la Fí- sica, una parte visible y una parte escondida (la parte visible y la parte escondida del iceberg, como se dice normalmente). A nadie se le ocurriría considerar que el iceberg es solamente su parte visible, que su parte escondida pertenece a otra categoría de fenó- menos y, todavía menos, considerar que la parte oculta constituye “la causa” de la parte visible. El iceberg es el conjunto, la suma de la parte visible y de la parte escondida; el hecho de que esté dividido en dos partes por la frontera de la línea de flotación no tiene el poder de generar dos fenómenos diferentes. Del mismo modo, la conducta es el con- junto, la suma de la parte manifiesta y de la parte “mental”, y el hecho de que esté di- vidida en dos por la frontera de la piel no tiene el poder de generar dos fenómenos di- ferentes. Así, las llamadas funciones “mentales” o procesos cognitivos3 , lejos de ser las causas de la conducta, son conductas en sí mismas, conductas que antes de haber sido interiorizadas, transformadas en “mentales”, eran auténticas conductas motoras, públi- cas, manifiestas, externas. En otras palabras, los procesos “mentales” no forman parte de la explicación, sino de lo que debe ser explicado. Es ahí donde la visión tradicional, tanto de la gente de la calle, como de los psicólogos cognitivistas, se revela incorrecta. En efecto, al interrumpir la cadena explicativa de la conducta en el eslabón de lo “mental” se tiene la impresión de haber dado una explicación, cuando lo que se hace no es más que retrasar la solución del problema. Decir que el alumno ha podido responder correctamente a la pregunta que se le hizo porque ha efectuado un cálculo mental co- rrecto no supone avanzar en lo más mínimo, pues aún hay que explicar por qué ha rea- lizado un cálculo mental correcto. La explicación cognitiva, abortando con una respues- ta que parece satisfactoria la búsqueda de la explicación, interrumpe la cadena causal en un eslabón intermedio (interviniente, pero intermedio) e impide proseguir en el ca- mino del establecimiento de la causa primera, la que realmente nos interesa. Esto se parece mucho al razonamiento de los niños que responden a la pregunta: “¿De dónde vienen los pollos?” diciendo: “del supermercado”; y que cuando nos oyen quejarnos de que no tenemos suficiente dinero para terminar el mes nos dicen que vayamos a buscarlo al cajero

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Ahí está también comprendido pensar , considerado sin embargo como lo contrario de actuar, que deriva etimológicamente de una conducta: pesar (evaluar). Del mismo modo que idea, prototipo del concepto abstracto, “mental”, que deriva del griego idea (ver), más explícito en la palabra latina videre (ver). Mejor aún: teoría, considerada como la abstracción total, puesto que designa una sucesión ordenada de elementos abstractos, proveniente del griego teoría: “procesión ordenada de individuos enviados a una celebración religiosa o un oráculo”, donde se encuentra el aspecto de sucesión de elementos organizados y que se emplea todavía en nuestros días, en su primer sentido, en una frase (un poco en desuso, cierto) como: “una teoría de cardina- les se avanza lentamente hacia el Papa”.


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automático de nuestro banco. Ignoran que los pollos (¡por suerte!) no son producidos por los supermercados y que el dinero (¡por desgracia!) no aterriza en el banco si antes uno no lo ha ganado con su trabajo. El supermercado y el banco son variables interme- diarias, no variables independientes (causas). Interrumpir la explicación de la conducta manifiesta en la acción de la conducta no observable equivale a explicar la parte visible del iceberg por su parte sumergida, olvidando que las dos deben ser explicadas en términos de temperatura, densidad, etc. que son las verdaderas causas del fenómeno que nosotros llamamos iceberg. Decir que la bombilla se enciende porque se ha manipulado el interruptor no es falso, pero es muy incompleto puesto que esto no explica por qué manipulando el interruptor la bombilla se enciende. La explicación completa (y, por lo tanto, correcta)4 nos remite a la noción de electricidad, de conducción, de flujo interrumpido o no de electrones, etc. y es en este punto donde la escuela conductista se opone a la cognitiva: en su negativa a conceder un papel primordial al eslabón intermedio, interno, “mental”, no porque esté escon- dido y por lo tanto resulte inaccesible (caja negra), sino porque no constituye más que una conducta, como la conducta manifiesta que se supone debe explicar, y que, en con- secuencia, no forma parte de la explicación sino de lo que debe ser explicado. Lejos de contentarse pues con estas pseudo-explicaciones de medio recorrido (preñadas, por ende, de errores categoriales), el conductismo se vuelve hacia el ambiente, fuente última (o primera; depende de cómo se consideren las cosas) de las conductas, tanto públicas como privadas, según una relación de interacción que no tiene nada que ver con el célebre esquema (unidireccional, mecanicista y reduccionista) estímulo-res- puesta, en el que sus detractores han querido siempre encerrar al conductismo para po- der criticarlo mejor. Pero esto sería otra historia... Llegados a este nivel de nuestro discurso, hemos de confesar, en aras de la ver- dad, que, para desenmascarar lo más eficazmente posible el error categorial de lo que hemos llamado “la parte oculta del iceberg”, hemos utilizado expresiones y conceptos que implican y conllevan otro error categorial, muy corriente también y no menos peli- groso, que vamos a intentar corregir a continuación. Pero nos parece mas “pedagógico” ir por partes, ocuparnos de un sólo error a la vez y enfrentarnos luego con el siguiente, más bien que intentar denunciarlos todos al mismo tiempo corriendo el riesgo de crear confusión y dificultar, al fin y al cabo, la comprensión de nuestra argumentación. ¿Cuál es ese segundo error categorial al que acabamos de referirnos? Sencillamente, el error de situar la conducta en el organismo. Efectivamente, líneas arriba hemos escritos fra- ses como “La conducta puede entonces interiorizarse... Una vez que nos hemos convertido en expertos en el cálculo, podemos efectuarlo interiormente... conductas que antes de haber sido interiorizadas...” y otras por el estilo. Pero la ubicación de la conducta, ya sea en el interior del organismo o en otro lugar, conlleva graves problemas; entre otros, el suponer que la conducta, puesto que puede ser situada en algún sitio, tiene características, propiedades, atributos espaciales, es decir, posee extensión en el espacio (res ex-

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Véase los diferentes tipos de causalidad (formal, eficiente, etc.) que Aristóteles distingue.


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tensa, como dirían los antiguos). Vamos pues a ocuparnos de este asunto. Para ello, vamos a tomar prestada una analogía a un buen amigo nuestro, Josep Roca. Se trata, a decir verdad, de un viejo chiste antimilitarista primario, chiste que conocíamos desde hace muchos años pero al que nunca se nos hubiese imaginado sacarle todo el “jugo epistemológico” que ha sabido sacarle Roca. Se trata de un sargento instructor que está explicando a sus reclutas las bases elementales de la balística. Dice el sargento: “el proyectil describe una curva ascendente hasta llegar a su punto culminante y, a partir de este punto, empieza a caer a causa de, según dice el manual, la fuerza de la gravedad; pero, si queréis que os diga la verdad, así, entre nosotros, yo creo que, sencillamente, el proyectil se cae por su propio peso”. Y aquí es donde uno debía reírse, pues resulta en efecto cómico descubrir que el sargento es tan corto que ignora que “caerse por su propio peso” no es más que la versión popular, sencilla, del lenguaje corriente (vulgata) de la fuerza de la gravedad. Pero no se rían demasiado, puesto que, finalmente, el sargento no iba tan equivocado como parece. O, si prefieren, son ustedes quienes se equivocan al pensar que el sargento es un ignorante. Porque da la casualidad de que, sin saberlo, tiene razón en un punto: no es lo mismo “caer por su propio peso” que “caer a causa de la fuerza de gravedad”. El sargento se equivoca sin embargo al decir que el proyectil “cae por su propio peso”. En realidad, “cae a causa de la fuerza de gravedad”, que no es lo mismo, ni mucho menos. Y si me permiten que después de la Astronomía y de los icebergs les siga hablando de Física (antes de volver a la conducta, que es lo que en definitiva nos interesa), vamos a intentar aclararles todo este asunto. Las piedras no caen por su propio peso Cuando decimos que un proyectil (o una piedra, o un cuerpo cualquiera) cae “por su propio peso”, estamos afirmando de manera clara y explícita que las piedras tienen un peso que les es propio, es decir, que el peso está en la piedra, o, dicho de otro modo, que el peso es una propiedad (en el sentido literal de la palabra propiedad, como cuando decimos que tal fábrica es propiedad de tal persona) de la piedra. Consideramos pues que el peso es una propiedad esencial (en el sentido de esencia) de la piedra, al igual que lo son su forma, su tamaño o su volumen. Es decir, consideramos que el peso per- tenece a la piedra, como le pertenecen su forma, su tamaño o su volumen. Pero, contra- riamente a la forma, el tamaño o el volumen, que sí son cualidades propias de una piedra, el peso no lo es, por la sencilla razón que los cuerpos tienen volumen y masa, pero no volumen y peso. La masa sí que pertenece al objeto, la masa sí que es una cualidad esencial de la piedra, pero el peso no. Recuerden sino las nociones de Física: un cuerpo tiene una masa dada, y dicha masa, que es una característica propia de cada cuerpo, interna al cuerpo, por decirlo de alguna manera, se transforma en peso al interactuar con la fuerza de la gravedad, que es una característica externa a la piedra, una característica del en- torno, del ambiente en el que se encuentra la piedra. El peso no constituye pues una propiedad esencial de la piedra, sino una propiedad relacional. Todos sabemos que una misma piedra “posee” un peso diferente en la atmósfera terrestre y en la luna, por ejemplo, a causa del valor diferente de la fuerza de la gravedad en estos dos ambientes dis- tintos. La masa de la piedra es la misma en la tierra que en la luna; sin embargo, “su” peso varía considerablemente. Y las comillas que hemos utilizado delatan nuestra con-


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cepción equivocada del asunto: la piedra no “posee” un peso, y no se trata, por lo tanto, de “su” peso; la piedra, sencillamente, pesa. Y ya estamos donde queríamos llegar: pesar es un verbo, una acción, una propiedad relacional y no una propiedad esencial, propia, interna al objeto. Así pues, los objetos (y los sujetos), por definición y por pura lógica, no poseen la interacción ni en su interior ni en ninguna parte, sencillamente, interactúan, que es muy diferente. La analogía nos parece ahora suficientemente clara: los verbos expresan conductas y las conductas, que son interacciones, no se sitúan en el interior del organismo. La conducta no es pues una propiedad esencial del sujeto sino una propiedad relacional. Considerar la conducta como algo que reside en el sujeto equivale a confundir el peso con la masa. Ubicar la conducta en el interior del sujeto no tiene más sentido que situar el peso en el interior del objeto. La interacción, ya sea peso o conducta, no se ubica en ningún sitio por la sencilla razón de que no posee atributo de extensión (res extensa, como diría Aristóteles). Tan poco sentido tiene decir que se sitúa en el interior del orga- nismo (versión tradicional) como decir que reside en el ambiente (cosa que nadie de- fendería). Al ver un organismo que se comporta (que “emite” una conducta, como decimos a veces en nuestra jerga) tendemos a considerar que exterioriza una conducta que poseía en su interior, de la misma manera que cuando vemos una piedra (o un proyectil, para volver al caso de nuestro sargento) caer atribuimos su conducta (de caer) a una propiedad interna del objeto: su peso. Cometemos el mismo error que si, después de frotar una cerilla en el rascador de su caja y ver aparecer la llama en la punta del fósforo, afirmáramos que la llama se hallaba en el interior de la cerilla. A la pregunta: “¿dónde se hallaba la llama antes de frotar el fósforo contra el rascador, en la cerilla o en el ras- cador?” la respuesta correcta es: “ni en la una ni en el otro”. La llama no se encontraba en el interior de la cerilla ni en el interior del rascador; la llama es la resultante de la interacción entre ambos. Asimismo, la conducta no es una propiedad esencial del orga- nismo, sino una propiedad relacional; y es por ello que se expresa mediante un verbo, que designa acción, y no mediante un sustantivo (de sustancia, esencia) que designa un objeto con res extensa. Una piedra no tiene peso (sustantivo), pesa (verbo). Un enamo- rado no tiene amor (y que todos los “Romeos” del mundo me perdonen), ama. Un de- lincuente no tiene agresividad, agrede. Y este deslizamiento gramatical que cometemos desde el verbo (la acción, la conducta) hacia el sustantivo (la cosa) corresponde ni más ni menos al proceso de cosificación, sustantivación, reificación (tomando la raíz latina res-rei), proceso tan corriente y habitual que ni siquiera somos conscientes del abuso que cometemos de él. Sin embargo, la reificación constituye otro error categorial clási- co (confundir verbos con sustantivos) en la explicación tradicional de la conducta, error que, añadido a los dos que acabamos de denunciar, configura la visión intuitiva del com- portamiento adoptada implícita o explícitamente por nuestros conciudadanos y frente a la cual el análisis conductista, claramente anti-intuitivo, encuentra graves dificultades para cuajar. Intentemos pues desenmascarar este nuevo tipo de error categorial. Los hombres y las mujeres no mueren porque son mortales Viajemos por un instante a través del tiempo hasta la época prehistórica y observemos la vida cotidiana de una tribu de trogloditas. Una mañana, nuestro protagonista (lla-


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mémosle Uhr) sale de su cueva para ir a cazar un mamut y alimentar así a su familia. Al salir observa que el suelo presenta hoy un aspecto diferente de lo acostumbrado: hay como un manto transparente que lo recubre todo (la noche precedente ha helado). Es la primera vez que Uhr se halla confrontado con este fenómeno, que desconoce por com- pleto. Aparte de constatarlo, no le otorga mayor importancia y se lanza corriendo, como de costumbre, en búsqueda de su presa. Evidentemente, ni corto ni perezoso, resbala estrepitosamente y se encuentra en el suelo con la rótula izquierda partida en dos. Mo- raleja: dos meses sin poder sustentar a su familia. La próxima vez que nuestro héroe, ya repuesto de su herida, constata al salir de caza que el suelo presenta esas características peculiares (estímulo discriminativo) que le condujeron al accidente (consecuencia aversiva), modifica su manera de desplazarse a fin de evitar la caída (conducta de evitación), y por aproximaciones sucesivas (moldeamiento) acaba desplazándose de forma adecuada sobre suelos resbaladizos. Cuando se plantea denominar esta nueva forma de desplazar- se respecto a la forma habitual, acuña un nuevo término: prudentemente, de manera prudente. Se trata de un adverbio o de un adjetivo (no de un verbo ni aún menos de un sustantivo), es decir, de un término que califica una conducta. En vez de detallar, ele- mento tras elemento, la nueva manera de desplazarse (“pon el pié derecho bien plano sobre el suelo; desplaza tu centro de gravedad sobre él antes de levantar el pie izquierdo; avánzalo lentamente y luego... etc.”), una vez puestos de acuerdo sobre el catálogo de conductas que se halla resumido bajo el vocablo “prudentemente”, dicho vocablo fun- ciona como una etiqueta que resume y condensa en una sola palabra dicho repertorio conductual. Desplazarse de manera prudente (o prudentemente) no es más que la manera resumida, económica de decir: “desplazarse poniendo el pie derecho bien plano...etc.”). Así, cuando el estímulo discriminativo lo requiere, aparece la conducta adaptada a fin de evitar las consecuencias aversivas, y un simple aviso verbal basta para solicitar tal conducta: “¡familia! hoy, cuando salgáis, debéis desplazaros de manera prudente.” Se trata de un tipo de conducta particular, sin más. Veamos el paso siguiente. En otra ocasión, nuestro hombre, persiguiendo su presa, se encuentra frente a un barranco sobre el que yace un tronco de árbol caído. Para atravesarlo sin caerse, debe desplazarse de una manera que no es ni la habitual ni la que ahora llamamos prudente (no es lo mismo andar sobre el hielo que desplazarse sobre un tronco caído). ¿Deberá acuñar un nuevo término para designar esta nueva forma de desplazarse? Ello sería una solución. Pero puesto que hay varios elementos comunes entre esta nueva forma y la forma llamada prudente (sólo deben emitirse en circunstancias particulares; ambas evitan desgracias, etc.), otra solu- ción consiste en extender, ampliar (generalizar) el sentido de la palabra “prudentemen- te” a otras circunstancias que aquellas que primitivamente sirvieron para generar el tér- mino. Diremos pues que en ambos casos hay que comportarse de manera prudente aunque la cadena de conductas concretas que hay detrás no sea idéntica. Franqueemos ahora una etapa más en este proceso de generalización. No utilicemos este vocablo sola- mente para las formas de desplazarse, sino también para otras actividades, incluso so- ciales, en las que de manera quizás algo metafórica puede hablarse de “prudentemente”. Imaginemos, por ejemplo, que un buen día, en el momento de servir el guisado de mamut, Uhr se da cuenta de que se le ha acabado la sal. Se le ocurre pedirle un poco a su vecino, pero supone que si lo aborda con su rudeza habitual, va a tener que comer sin


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sal. Lo aborda pues de una manera diplomática a fin de evitar que el vecino le niegue el favor. Puede decirse entonces, ampliando de nuevo el campo de la generalización, que se ha comportado de manera prudente. Hasta aquí hemos contemplado la génesis del adjetivo “prudente” y del adverbio “prudentemente” 5 . Imaginemos ahora que nues- tro personaje, vistas las ventajas que acarrea comportarse de manera prudente (ley del efecto), adopta esta conducta no ya de manera esporádica sino de forma habitual. A la larga, el observador de todo este proceso puede resumir la constatación “Uhr se com- porta regularmente de manera prudente” diciendo: “Uhr es prudente”. La introducción del verbo ser es correcta pero peligrosa. En efecto, el observador lo usa como puro re- sumen de “se comporta regularmente”, pero utiliza para ello el verbo que, por defini- ción, denota esencia. De este modo, hemos deslizado el campo semántico desde la conducta (se comporta) hasta la esencia (es); desde la propiedad relacional hasta la propiedad esencial (retomando los conceptos del apartado anterior). Si tuviésemos siempre presente cómo hemos llegado hasta ahí, no habría problema; es decir, si recordáramos que “prudente” es una etiqueta para resumir un catálogo de conductas y que “es” equivale a “se comporta regularmente”, no caeríamos nunca en la trampa de contestar un día, a un nuevo observador acabado de llegar, que no habiendo presenciado la génesis de tal peculiar conducta respecto a la cual muestra una cierta curiosidad, pregunta: “por qué anda Uhr de esta forma cuando el suelo está blanco, y de esta otra cuando cruza un tronco sobre un barranco, y de esta otra cuando va a pedir un poco de sal a su vecino”? diciéndole (en lugar de explicarle las contingencias que han generado y que mantienen dichas conductas): “porque Urh es prudente”. Con tal pirueta lingüística, que no es más que una pura y simple tautología (puesto que la pregunta era: “¿por qué Uhr se comporta de manera prudente?” y la respuesta ha sido: “porque Uhr es prudente”) hemos transformado descaradamente lo que nos servía como descripción abreviada de una conducta habitual en su propia causa. Uhr ya no se comporta de manera prudente por la cuenta que le trae, es decir, en función de las consecuencias, sino en virtud de algo que Uhr posee en su interior y que le mueve a ser prudente: la prudencia. Y fíjense que, sin darnos cuenta, hemos introducido, por primera vez en esta historia, un sustantivo: la prudencia. Hemos pues sustantivado, cosificado, algo que, al principio, sólo era descripción de conducta. Como por arte de magia6 nos

5 No puedo impedirme de aprovechar la ocasión para señalar hasta qué punto el lenguaje mismo que utilizamos se halla impregnado por la concepción mentalista y dualista del ser humano y de su conducta. En efecto, ¿qué quiere decir, literalmente, “prudentemente”? Ni más ni menos que “con la mente prudente”. Y lo mismo para todos los adverbios en “mente”: clara-mente, amable-mente, maliciosa-mente, etc. Y el colmo de los colmos lo constituye el adverbio “mentalmente”, es decir, con la mente mental. ¿Quién dijo aquello de que “el mundo mental miente monumentalmente”? Es por eso que, en la medida de lo posible, debe preferirse la expresión “de manera prudente” a “prudentemente” y, en general, evitar los adverbios en “mente”. 6 Precisamente, hace poco, Los Horcones publicaron un documento sobre el tema que estamos debatiendo cuyo título era: “Ten acts of magic ”, en el cual detallaban magistralmente y con mucho humor este proceso de “tautologización” en diez actos o etapas de un número de circo a base de prestidigitación y magia.


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hemos sacado del sombrero de copa, en el que habíamos introducido sólo un adjetivo y un adverbio, un magnífico sustantivo que, por designar, como es lo propio de todo sustantivo, un objeto, una cosa (de ahí lo de “cosificación”), posee atributos de extensión, de res extensa (de ahí lo de “reificación”). Una prueba adicional de que la prudencia posee ahora atributos espaciales viene dada por el hecho de que hablamos de “poca” o “mucha” prudencia, de una “gran capacidad de”, etc. Y lógicamente, puesto que ocupa espacio, debe situarse en algún sitio. ¿Y qué mejor sitio que en el interior del organis- mo que se comporta “con” prudencia, como decimos coloquialmente? La prudencia es ahora una cualidad propia, esencial del sujeto y no una propiedad relacional. Y es por esto que este apartado se halla íntimamente relacionado con el precedente. Por tanto, nos hallamos frente a afirmaciones como: “los hombres mueren porque son mortales”, “el carbón es negro porque posee la negrura” o, como lo decía ya iróni- camente Moliere en sus comedias burlándose de los médicos de su época (y yo diría, de los psicólogos de la nuestra), “el opio adormece porque posee virtudes adormecedoras.” Dichas afirmaciones no son más que tautologías apenas disfrazadas, puesto que “ser mortal” no constituye en absoluto la causa de la muerte de los hombres, sino la simple consta- tación de que todos los hombre mueren. Sencillamente, llamamos “mortales” a los seres que mueren, y en ningún caso la simple denominación de un fenómeno puede ser trans- formada en su causa. Si substituimos en la frase “los hombres mueren porque son mor- tales” la palabra “mortales” por su definición, obtenemos la perogrullada siguiente: “los hombres mueren porque son seres que mueren”. Y frente a esta tautología ahora desen- mascarada, ni siquiera un niño de 4 años, en plena fase de: “papá, ¿por qué los pájaros vuelan?”; “papá, ¿por qué los peces no se ahogan?” etc. se contentaría con dicha “ex- plicación”. Pero basta con camuflarla un poco y parece una docta sentencia: “Pedro ayuda a su prójimo porque posee una gran bondad”, “Pablo martiriza a los animales porque posee un elevado grado de sadismo”. La bondad y el sadismo, al igual que la prudencia de nuestro ejemplo o la agresividad del ejemplo de Los Horcones, no constituyen las causas de la conducta observada, no son más que la substantivación de la descripción condensada de una conducta habitual, sustantivización erigida al rango de causa en vir- tud de un grosero proceso tautológico disfrazado. Ser bondadoso, ser sádico, no es más que la manera rápida de decir que tal persona se comporta habitualmente de una manera que hemos convenido en llamar bondadosa o sádica (y que consiste, entre otros elementos, en ayudar a su prójimo y a martirizar a los animales indefensos respectivamente), pero en modo alguno puede ello ser la causa de dichas conductas, so pena de tautología flagrante. La pregunta pertinente sería: “¿por qué Uhr se comporta habitualmente de esta manera llamada prudente y, por consiguiente, le llamamos prudente?” Formulada así la pregunta, resulta evidente que la respuesta: “porque es prudente” aparece como inequí- vocamente tautológica y la rechazamos por insatisfactoria, buscando entonces las ver- daderas causas: “porque de no hacerlo así, su familia se moriría de hambre”. Y tal res- puesta, poniendo el acento en las consecuencias de la conducta, desplaza el factor cau- sal desde el interior del sujeto hacia el entorno o, mejor dicho, pone el acento sobre la interacción entre el sujeto y el entorno. Se trata de un notable cambio de perspectiva, ¿no?


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Pues bien, por extraño que nos parezca, es a través de este mismo proceso de reificación abusiva que han sido generados todos los términos tradicionales explicati- vos de la conducta humana: la generosidad, la impulsividad, agresividad, introversión/ extroversión, tenacidad, bondad, sadismo (que tomaremos como ejemplo en el apartado siguiente), simpatía y los centenares de vocablos del mismo estilo de los que usamos (y abusamos) cotidianamente. Apareados a un razonamiento tautológico disfrazado, proporcionan el sistema explicativo de la conducta tanto del hombre y la mujer de la calle como de, con un poco más de sofisticación, evidentemente, de los psicólogos tradicionales. Es precisamente porque la psicología tradicional comete los mismos errores categoriales que la gente de la calle que ésta se reconoce perfectamente (es por eso que hablamos de “concepción intuitiva”) y acepta sin chistar la jerga pseudo-científica de los “profesionales” del asunto, como en la época de Moliere ocurría con la Medicina. ¡Y así estamos! Puesto que hablamos de Medicina no estaría de más que nos parásemos un instante para denunciar otro error de razonamiento, perfectamente enraizado en los anteriores y que contribuye, lógicamente, a mantenerlos: la transposición del modelo médico a los asuntos de la conducta. Una de las críticas más recurrentes dirigidas contra el conductismo consiste en afirmar que éste sólo se ocupa de las conductas (los síntomas) sin preocuparse de los conflictos internos que las ocasionan (las causas). El lector que ha tenido la bondad de seguirnos hasta aquí podría ya objetar tal afirmación de que las conductas no sólo son lo que se observa desde el exterior (iceberg, caja negra, etc.) y que el término “interno” conlleva graves problemas (peso y masa). Pero ello no bastaría para convencer a su interlocutor de que, en el fondo, él tiene razón cuando considera que el conductismo actúa como una aspirina: suprime (temporalmente) la fiebre pero no cura la infección (el paralelo con el modelo médico aparece aquí con toda su esplendor). Intentemos pues convencer con otros argumentos a nuestro contradictor, analizando con cierto detalle la analogía implícita de su razonamiento. ¡El bacilo de Koch existe! Cuando un psicólogo tradicional o un psicoanalista explica la conducta de una persona que disfruta infligiendo sufrimientos a su prójimo, martirizando animales indefensos o azotando a su pareja sexual, aduce la existencia del sadismo (sustantivo) en el interior del sujeto. Si alguien les pregunta por qué se comporta dicho individuo de esta forma, la respuesta no se hará esperar: porque es un sádico. La conducta sádica que presenta es la consecuencia, el síntoma de un trastorno psicológico: el sadismo. Tenemos pues una explicación en dos términos: los síntomas (la conducta sádica) y la causa (el sadismo). Si un terapeuta conductista consigue exitosamente modificar la conducta de tal indivi- duo hasta la supresión total de cualquier manifestación sádica, el psicoanalista aducirá que sólo los síntomas han sido suprimidos (igual que un analgésico disimula el dolor), pero que, como no se ha tratado la causa profunda, el síntoma aparecerá de nuevo bajo una forma u otra (lo que ellos llaman “el desplazamiento del síntoma”). Es evidente que si las cosas fuesen efectivamente tal y como ellos las consideran, las terapias conductistas serían un “engañabobos” que sólo producirían efectos pasajeros sin solucionar en abso- luto la raíz del problema. Si las cosas fuesen así, serían los psicoanalistas quienes ten-


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drían toda la razón del mundo. Pero el problema reside, como siempre, en la conceptualización misma del asunto, conceptualización que, como vamos a exponer, se basa so- bre una analogía seductora pero abusiva del modelo médico. En efecto, si un sujeto tose repetidamente, escupe sangre y presenta una piel pálida (síntomas 7 ), el médico diagnosticará una tuberculosis galopante. Y si alguien le pregunta por qué se comporta dicho individuo de esta forma, la respuesta tampoco se hará esperar: porque es un tuberculoso. Si un curandero consigue exitosamente suprimir los síntomas, nadie osará afirmar que se ha vencido la tuberculosis del sujeto, tuberculosis que va a continuar desarro- llándose hasta causar daños irreparables en el organismo por falta de tratamiento ade- cuado dirigido contra la causa y no contra los meros síntomas. Hasta aquí, el paralelo (la analogía) entre las dos situaciones parece no sólo evidente sino, además, dar la ra- zón a los oponentes al conductismo. Pero analicemos ambas situaciones un poco más profundamente. En el primer caso, la existencia del sadismo ha sido inferida, postulada a partir de los síntomas, y la única prueba de su existencia es precisamente la presencia de los síntomas. Como hemos indicado antes, estamos en presencia de una explicación en dos términos. En el segundo caso, puede igualmente decirse que la tuberculosis ha sido inferida a partir de los síntomas, pero contrariamente al caso del sadismo la única prueba de la existencia de la tuberculosis no la constituye la presencia de los síntomas. Un simple análisis biológico de las secreciones salivares del sujeto bastará para demos- trar que contienen un agente patógeno, concretamente, el bacilo de Koch. La verdadera causa del conjunto de síntomas que resumimos con la etiqueta de “tuberculosis” es el bacilo de Koch. La tuberculosis, como el sadismo, no son más que etiquetas para resumir síntomas (o conductas, como en el ejemplo de la prudencia); pero en modo alguno, bajo pena de tautología descarada – como nos esforzamos en demostrarlo en el apartado anterior-, pueden ser considerados como la causa de dichos síntomas (o conductas). Es por eso que dos términos no bastan para analizar adecuadamente la situación. El tercer término, decisivo, es, por supuesto, el bacilo de Koch. Y nótese que su existencia no ha sido simplemente inferida a partir de los síntomas; el bacilo de Koch posee una existencia propia e independiente de los síntomas que produce. Puede ser aislado, cultivado, estudiado en un tubo de ensayo, sin que provoque tos a nadie; es decir, puede “desco- nectarse” la causa de las consecuencias puesto que, si éstas dependen de aquélla, lo contrario no es cierto. Es por ello que insistimos sobre el hecho de que la existencia del bacilo puede ser demostrada independientemente de la presencia de los síntomas. No se trata pues de una simple inferencia, de un postulado, sino de una realidad que puede ser demostrada. En el caso del sadismo, ¿qué prueba independiente de los síntomas puede ser presentada para justificar su existencia? En ausencia de cualquier conducta (incluso privada) sádica, ¿quién se atrevería a catalogar a un individuo como sádico? Nadie,

7 Para no complicar las cosas, no vamos a introducir aquí la distinción entre síntoma y signo, el primero siendo algo subjetivo (jaqueca) y el segundo objetivo (fiebre). De hecho, los tres “síntomas” que acabamos de enumerar no son síntomas sino signos. Pero dado que cuando se debate acerca de esto siempre se habla de síntomas, vamos pues a seguir la tradición.


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evidentemente; puesto que, en caso contrario, todos ustedes, como yo, podemos ser diagnosticados como sádicos latentes, masoquistas latentes, asesinos latentes, etc. En la realidad cotidiana, nadie considera como sádico a alguien que no presenta ni ha presentado nunca la más mínima conducta sádica. El sadismo no existe con independencia de la conducta sádica; y es por eso que, si se elimina dicho tipo de conducta, se ha eliminado, de hecho, el sadismo, que no era más que la etiqueta para designar tal conducta y que había sido postulado a partir de ella misma. Queda claro pues que en un caso estamos en presencia de una explicación que comporta sólo dos términos mientras que en el otro disponemos de tres. La analogía entre ambas situaciones es, por lo tanto, ilegítima, falsa y abusiva; es decir, puro sofisma. El modelo médico no puede ser así, alegremente, transpuesto a los asuntos de la conducta, asuntos que se ajustan mucho más a un modelo educacional, de aprendizaje, que al modelo médico. Criticar las terapias conductistas con argumentos relativos al modelo médico no es más que el reflejo de una conceptualización errónea de los fenómenos abordados, a pesar de su aparente pertinencia. Pero, me dirán ustedes, ¿cómo explicar entonces el desplazamiento, el resurgimiento del síntoma, constatado a veces después que una terapia conductista lo haya erradicado? Este argumento, clásicamente esgrimi- do por los psicoanalistas, demuestra que, en efecto, poseen una buena capacidad de observación; desgraciadamente (y contrariamente a lo que ellos piensan), es su capacidad de explicacion, de conceptualización la que no está a la altura. En lugar de postular –porque se trata de un simple postulado- que, habiendo eliminado el síntoma sin preocuparse de resolver su causa profunda, el síntoma aparece bajo otra forma, puede proponerse otra explicación a dicho fenómeno utilizando conceptos puramente conductuales. En efecto, en el ámbito médico, la noción de “beneficio secundario de la enfermedad” es ampliamente conocido. Cuando alguien recibe la etiqueta de enfermo por parte de un profesional de la salud al que la sociedad ha otorgado dicha función y potestad, obtiene (como compensación, en cierto modo, de la desgracia de haber enfermado) un cierto número de privilegios secundarios: se le dispensa de trabajar, se le permite quedarse en la cama aún y cuando su estado no lo justifique plenamente, se le toleran ciertos caprichos, la gente a su alrededor se muestra más tolerante y menos exigente, etc. Privilegios que desaparecen bruscamente cuando se le da de alta, lo que explica la existencia de ciertos enfermos “funcionales”, bien conocidos del cuerpo médico y hospitalario, que perpetúan sus dolencias -ahora imaginarias- para prolongar dichos beneficios secunda- rios. De la misma manera, un sujeto que padece fobia a los ascensores, pongamos por caso, recibe un trato “preferente” por parte de su entorno familiar. Si un día ha decidido cenar junto con los Rodríguez, que viven en el noveno piso de un edificio con ascensor, invitará más bien a los Rodríguez a venir a casa en vez de ir a la casa de ellos, evitará alquilar una habitación situada en los últimos pisos de un hotel cuando se salga de va- caciones, reservando una situada en las plantas inferiores, etc.; es decir, se prestará una atención especial al sujeto, se organizarán siempre las cosas en función de su “problema”. Si un terapeuta eficaz le soluciona su problema y le permite (al cabo de unas pocas sesiones de tratamiento y no después de años -¡y aún!- de diván) tomar tranquila- mente el ascensor, se encuentra entonces privado súbitamente del beneficio secundario que su transtorno le proporcionaba (refuerzo social) y es muy probable que presente una


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nueva fóbia (emita una operante de la misma clase) a fin de recuperar los beneficios secundarios que le producía la anterior (a fin de obtener de nuevo el refuerzo que le había sido retirado). Una terapia conductista correcta no se centrará pues únicamente en el cliente (como diría Rogers) sino que informará a su entorno familiar de los riesgos que incurren si dejan de prestar atención súbitamente al ex-fóbico, y les instruirá sobre la manera de hacerlo paulatinamente (programa); es más, les exhortará a desplazar la atención que antes prestaban a su fobia a otros aspectos de su conducta a fin de que no se encuentre privado de algo que antes obtenía mediante su antigua fobia y evitar así que lo busque a través de una nueva fobia. Los estudios de efectividad de las terapias, tanto a medio como a largo plazo, muestran inequívocamente que, cuando el terapeuta incluye dichos aspectos en su tratamiento, no hay ningún desplazamiento ni resurgimiento del “síntoma”. Llegados a este punto del discurso, uno puede legítimamente preguntarse cómo es que si la conceptualización conductista, una vez expuesta con detalle, aparece como mucho más pertinente que sus rivales, no consigue destronarlas e imponerse como ocurre normalmente con toda teoría que supera, en potencia explicativa y en parsimonia, a las otras teorías en boga. Varios factores nos parecen poder explicar esta situación anómala. Pero quisiéramos, como epílogo a esta ya quizás demasiado larga reflexión, exponer por lo menos uno de ellos que, a nuestro modo de ver, constituye un obstáculo relevante a tal cambio de paradigma. Para ello, vamos a echar mano, una vez más, del viejo recurso de la metáfora. La máscara no es el rostro En las antiguas tragedias griegas los actores cubrían su rostro con una máscara, triste o sonriente, según el personaje que debían interpretar. Sólo con ver la máscara se podía predecir el papel que iba a interpretar el actor, puesto que su conducta sobre la escena dependía de la máscara que llevaba8 . Evidentemente, a nadie se le ocurriría confundir la máscara (visible) con el rostro (invisible). Aunque el espectador no podía ver el rostro a causa de la máscara que lo cubría, sabía perfectamente que el actor tenía un rostro propio y que la máscara era, por decirlo de alguna manera, de “quita y pon”, y que un día podía llevar una máscara triste y otro una alegre, pero que ninguna de las dos eran su verdadero rostro. No había por tanto confusión posible entre el rostro y la máscara. Imaginemos ahora que, por una razón dada, un actor conserva siempre, día y noche, durante años y años, una misma máscara sobre su rostro, hasta el punto que se le pega a la cara como una segunda piel y que, al final, la gente olvida por completo que lo que percibe no es el verdadero rostro del sujeto sino una simple máscara9 , máscara que no corres-

8 Este es, etimológicamente, el origen del vocablo “personalidad”. En efecto, la conducta del actor era función de su máscara, al igual que la psicología tradicional pretende que la conducta de un ser humano es función de su personalidad. Y es que el vocablo griego para máscara era “persona”. 9 Algo parecido ocurre con el lenguaje. En efecto, existe una figura de estilo llamada “catacresis” que consiste precisamente en utilizar una metáfora tan vieja y familiar que ya nadie se da cuenta, al usarla, de que es una metáfora (por ejemplo, el pie de la mesa, la antena de televisión, el brazo de la butaca, la hoja de papel).


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ponde mejor al rostro verdadero que otra máscara diferente y quizás más adaptada; es decir, no por ser la más antigua es la más adaptada ni, aún menos, es el rostro mismo. Si llegados a este punto un nuevo director escénico decidiese hacer actuar a este actor con otra máscara y le pidiese que se quitara la antigua, la gente le trataría de loco, le acusaría de querer desfigurar al actor y proclamaría que la nueva máscara se adapta mal al rostro, que no corresponde, no “cuadra”, sin darse cuenta de que lo que ahora llama rostro no es el rostro verdadero sino una simple máscara que, con el tiempo, se ha con- vertido en familiar, en una “vieja conocida”. Para la gente ya no hay distinción entre el rostro y la máscara pues, a sus ojos, constituyen una única cosa; querer cambiar la máscara equivale para ellos a querer cambiar el rostro. Sólo la nueva máscara que propone el director es considerada como una máscara; la antigua, no. En vez de decidir si la nueva es más adaptada que la antigua, como lo pretende el joven e innovador director escénico, es decir, en lugar de escoger entre las dos máscaras, la gente considera que le están proponiendo elegir entre una máscara y un rostro. Lógicamente, frente a esta (falsa) alternativa, prefiere el rostro más que la máscara, lo natural más que lo artificial, lo intuitivo más que lo anti-intuitivo, lo conocido más que lo nuevo (o, como diríamos hoy en día, lo real más que lo virtual). Hasta aquí la metáfora. Al principio, había un fenómeno por explicar –la conductay una explicación propuesta –la teoría cognitiva, por ejemplo-. Está claro que la explicación propuesta tiene que encajar más o menos con el fenómeno que pretende explicar (como una máscara debe ajustarse más o menos al rostro del actor) para ser verosímil. Pero se trata sólo de una explicación entre otras posibles y, en todo caso, distinta de, no identificable con, el fenómeno que trata de explicar. Un fenómeno y su explicación son dos cosas distintas. Y uno puede preferir otra explicación sin por ello modificar en ab- soluto la naturaleza del fenómeno en cuestión. Rechazar un modelo explicativo no im- plica en modo alguno rechazar el fenómeno que debe ser explicado. Pero si una teoría explicativa se ha perpetuado durante siglos (gracias, entre otras razones, a su carácter intuitivo) hasta el punto de que ya no es percibida como una teoría (que puede ser sus- tituida en cualquier momento por otra) sino como el fenómeno mismo, resulta evidente que toda nueva teoría aparecerá como aberrante, como contraria a la evidencia misma, al sentido común más elemental. Cuando una conceptualización se ha confundido hasta tal punto con el fenómeno que intenta conceptuar, llegando a identificarse con él, a no formar más que una sola y misma entidad allí donde en realidad hay dos, entonces criticar, negar o combatir tal teoría equivale a criticar, negar o combatir el fenómeno en cuestión. Y como que negar el fenómeno no es honradamente posible, puesto que existe, como que no se establece ninguna diferencia entre el fenómeno y la teoría secular que lo ha venido conceptualizando, y por lo tanto no se puede negar ésta sin negar aquél, entonces resulta honradamente imposible negar la teoría en cuestión. El conductismo no niega tal o cual fenómeno como se suele afirmar. Niega su conceptualización bajo la teoría cognitiva (u otra) y propone una conceptualización diferente para dicho fenóme- no. El problema proviene de la confusión del concepto con la cosa y como que la cosa ha sido bautizada con el nombre que le ha forjado la teoría primitiva (en los dos senti- dos de la palabra), al negar dicho nombre de pila parece ser que se niegue la cosa en sí,


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puesto que se hallan íntimamente confundidos 10 . Por tomar un ejemplo, el conductismo cuando discute el concepto de imagen mental no discute el fenómeno que los cognitivistas han explicado con el concepto de imagen mental, sino la conceptualización cognitiva de dicho fenómeno en términos de imagen mental. Para darse cuenta de ello es necesario ser consciente de la diferencia entre ambos (el término y su conceptualización); no se trata de un simple matiz, se trata de una diferencia tan fundamental como la que existe entre un rostro y una máscara. Por tanto, no es de extrañar que se prefiera una teoría que parece corresponder perfectamente a un ámbito dado, puesto que es a través de las gafas de esta teoría que se contempla el ámbito; además se llevan estas gafas desde hace tanto tiempo que uno se ha olvidado ya de que las lleva, y como son verdes se ven las cosas de color verde y se acaba por creer que las cosas son verdes. Cuando llega el joven conductismo y propone unas gafas de color marrón, la gente dice que las gafas marrón son malas porque con ellas el mundo se vería marrón, y todos sabemos que el mundo no es marrón sino verde. Y no vale decir a la gente que se quite las gafas verdes y verá que el mundo no es verde (ni quizás marrón, pero que se acerca más al marrón que al verde, por lo que las gafas marrón son, hasta nueva orden, más adaptadas), porque le van a contestar: “¿Pero de qué gafas verdes me habla usted?, si yo no llevo gafas...”, “¿qué mascara?, pero si no lleva máscara...” Hemos empezado hablando de conducta y nos hemos sin duda apartado un poco del hilo central a costa de divagaciones más o menos (yo creo, sin embargo, que menos) “colaterales”. Pero una cosa nos ha llevado a otra y hemos preferido no auto-censurarnos. Volvamos pues a nuestra pregunta inicial. A título de conclusión se nos antoja que no sería un mal resumen parafrasear los célebres versos del último de nuestros grandes poetas románticos (romántico rezagado, como nos enseñaban los manuales de literatu- ra), Gustavo Adolfo Bécquer: ¿Qué es conducta? Dices mientras clavas en mi pupila Tu pupila azul. ¿Qué es conducta? ¿Y tú me lo preguntas? Conducta... eres tú.

10 El concepto de “cielo”, por ejemplo, recubre cosas muy distintas para un astrónomo, un creyente o un pin- tor. Si el primero afirmase que no existe, el creyente se indignaria y el pintor lo trataría de loco o mentiroso; si el creyente afirmase que la Virgen María subió al Cielo en cuerpo y alma, el astrónomo tendría sus dudas… Sencillamente, utilizan la misma palabra para designar conceptos distintos, y sus conversaciones se transforman en un verdadero diálogo de locos.


Aletheia ISSN: 1413-0394 mscarlotto@ulbra.br Universidade Luterana do Brasil Brasil

Teixeira de Menezes, Ana Luisa Psicologia Clínico-Comunitária Aletheia, núm. 37, enero-abril, 2012, pp. 238-240 Universidade Luterana do Brasil Canoas, Brasil

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Aletheia 37, p.238-240, jan./abr. 2012

Psicologia Clínico-Comunitária Ana Luisa Teixeira de Menezes A busca de articular o conhecimento da saúde com os sujeitos comunitários, tendo como base o direito à vida, o meio ambiente, o amor, a crítica à propriedade privada e as diferenças entre as classes sociais, revela a profundidade com que esta produção merece ser lida, enquanto uma contribuição para a Educação e a Psicologia. Uma percepção que instiga um debate sobre os sentidos e os desafios do desenvolvimento de um pensamento e de uma prática clínica permeados por uma visão biocêntrica e sociopsicológica que integra a dimensão coletiva e singular, dentro de um processo histórico de construção de uma Psicologia ClínicoComunitária. Uma das questões centrais do livro é o fortalecimento dos sujeitos históricos em seu processo de superação e transcendência, em seu percurso de construção de saúde ativa, na responsabilidade por uma convivência transformadora. A saúde é desenhada, enquanto um processo histórico e cultural como prevenção e promoção, nas experiências comunitárias, na discussão sobre o papel do psicólogo nos Programas de Saúde da Família, na implantação de Centros de Atendimento Psicossocial, na Estratégia de Ação da Família e na Saúde Mental. Essa publicação contribui de uma forma consistente com a prática e com a teorização para uma Psicologia Clínico-Comunitária, que desenvolve o processo terapêutico baseado nos potenciais da identidade humana. Esta proposta vem sendo elaborada pelo autor e outros atores sociais desde a década de sessenta, num momento histórico em que houve uma emergência dos grupos terapêuticos e quando os grupos de encontros de Carl Rogers representaram uma proposta significativa para os trabalhos da psicologia clínica. Pode-se considerar que o contexto vivido de repressão social e moral, dos movimentos de educação popular, da música popular brasileira, dos hippies, dos trabalhadores e outros mobilizava as pessoas para uma busca de transformação social, uma sede de crítica e uma esperança de que os movimentos dos grupos que emergiam, poderiam ser uma saída para a desordem social e de relações em que se vivia. No entanto, observou-se um declínio que atravessou a década de 70, através do qual os grupos terapêuticos foram sendo criticados como uma proposta superficial que não trazia resultados eficazes, sendo vistos como práticas nas quais poucos profissionais tinham uma formação mais consistente, tanto do ponto de vista teórico como operacional e com um estigma de que grupo era um trabalho mais para os pobres que não dispunham de recursos para pagar um tratamento individual. Fica evidente que a proposta Clínico-Comunitária descrita nasceu na práxis da Psicologia Comunitária do Ceará que se construiu dentro do processo da derrubada da Ditadura e da participação popular. Esse movimento fez avançar as discussões e práticas no meio acadêmico através de disciplinas de psicologia comunitária na Universidade Federal do Ceará, bem como projetos de extensão realizados a partir


do Núcleo de Psicologia Comunitária e enraizados nos movimentos sociais urbanos e rurais. Os marcos teóricos que fudamentaram a Psicologia Comunitária no Ceará foram a psicologia histórico-cultural de Vygotsky, Leontiev e Luria, a educação libertadora de Paulo Freire, a psicologia da libertação de Martin Baró, a biodança de Rolando Toro e a abordagem humanista de Carl Rogers. Todo esse movimento provocou, na psicologia, como também na educação, uma reflexão sobre novas possibilidades para a ciência e para a clínica, de pensar a relação entre sujeito, grupo e sociedade. Essa discussão é renovada com a leitura desta obra, sem criar dicotomias entre o individual e o grupal, anunciando um alargamento conceitual que, juntamente com propostas metodológicas, produz um pensar epistemológico na direção de um caminho que integra singularidade, grupos e comunidade. E provoca uma discussão para e com a psicologia, sobre a concepção de uma clínica enraizada no movimento, dialógica no sentido freireano, problematizando de forma positiva as noções de participação, consciência e mudança. É uma abordagem que relaciona diretamente a identidade à comunidade, ou seja, a compreensão de que, ao fortalecer as condições de existência comum, as identidades emergem mais inteiras, mais saudáveis. Nessa perspectiva, mudam os direcionamentos de energias e de olhares sobre a doença, mudam-se as escutas e, necessariamente, os espaços por onde se movimentam as práticas clínicas, a percepção de quem são os atores e, por consequência, onde e com quem devemos trabalhar nossa formação. Cezar Góis consegue fazer uma recriação, juntamente com Carl Rogers, Paulo Freire, Rolando Toro e outros, sobre a importância dos grupos e da comunidade, refletindo uma psicologia clínica a partir de categorias teóricas consistentes como: identidade, vivência biocêntrica, corporeidade vivida e arte-identidade. O autor sintetiza, com ousadia e comprometimento, um percurso, um modo de atuar de forma clínica e comunitária na atenção primária e na rede social básica, numa visão integrada às políticas públicas, ao terceiro setor e às atividades comunitárias. Esta obra apresenta uma proposta metodológica que, entranhada com o modo de vida do ser pobre, nos ensina a viver com esta cultura, a partir de um conviver biocêntrico, psicológico e comunitário, tornando-nos mais capazes para lidar existencial e metodologicamente com o sofrimento e com a potência vital. As teorizações e metodologias propostas são fruto de perguntas que nunca calaram na vida do autor: como diminuir o sofrimento e aumentar a potência do povo empobrecido? Onde nos inspiramos? Quem procuramos para pensar juntos? A quem devemos escutar? Com quem necessitamos compartilhar um mundo novo? A visão biocêntrica, na qual a vida é percebida como o centro do universo, permeia essa publicação que, reconhecendo o poder pessoal, propõe também a transcendência do humano. A visão da saúde, a noção de participação e de mobilização desenvolvidas evocam a identificação com uma cosmovisão que pensa a relação com a natureza como uma condição de saúde. Ao longo dos capítulos, fica claro que a percepção de Clínico-Comunitária desenvolvida no livro implica uma noção complexa, viva, não linear e construída socialmente, que necessita ser ressignificada na história vivida do encontro com o ser saudável. Nesse enfoque, a saúde é considerada possível quando o ser humano Aletheia 37, jan./abr. 2012

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reconhece a existência de outros seres vivos e a relevância de perceber-se como um ser que vive em comunidade, na relação consigo e com a natureza, com toda a diversidade que representa a vida. Góis, C. W. de L. (2012). Psicologia Clínico-Comunitária. Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil. Recebido em julho de 2012

Aceito em agosto de 2012

Ana Luisa Teixeira de Menezes – Psicóloga (UFC). Mestre em Psicologia (PUCRS). Doutora em Educação (UFRGS). Pró-reitora de extensão e relações comunitárias da Universidade de Santa Cruz do Sul e professora do departamento de Psicologia e do Mestrado em Educação da UNISC. Endereço para contato: luisa@unisc.br

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Actualidades en Psicología ISSN: 0258-6444 actualidades.psicologia@ucr.ac.cr Instituto de Investigaciones Psicológicas Costa Rica

Kelman, Mario Sergio Neurociencia, Psicoanálisis Actualidades en Psicología, vol. 27, núm. 114, 2013, pp. 39-54 Instituto de Investigaciones Psicológicas Jan sosé, Costa Rica

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Actualidades en Psicología, 27 (114), 2013, 39-54 ISSN 0258-6444

Neurociencia, Psicoanálisis Neuroscience, Psychoanalysis Mario Sergio Kelman Consejo de Investigaciones, Facultad de Psicología Universidad Nacional de Rosario, Argentina mskelman@ciudad.com.ar - mkelman@sinectis.com.ar Dirección postal: 3 de Febrero 1078 – PA – Dto. “2” 2000 Rosario (Provincia de Santa Fe) - República Argentina

Resumen. El objetivo del presente trabajo es reflejar el abordaje de clínica diferencial del psicoanálisis y la neurociencia. El método elegido es el análisis de caso y la argumentación, este último proveniente del campo del Derecho. La casuística ilustra los resultados obtenidos. Como conclusiones, la noción de síntoma es central a cada concepción clínica, e implica un diferencial que establece el campo, la estructura y sus funciones. El diferencial de la ciencia es un diferencial real, que no cifra, capaz de medición. El diferencial del psicoanálisis es un simbólico, capaz de cifrado, con su interpretación. No se trata de una oposición a las neurociencias ni a los fármacos, sino de interrogar sobre su estatuto ético, derivado de la primacía de la posición clínica del arte de curar. Punto de encuentro entre neurociencia y psicoanálisis en el marco de la época, caracterizada por un avance tecnológico y el discurso del capitalismo. Palabras clave: Clínica, psicoanálisis, neurociencia, síntoma, ética. Abstract. The aim of this paper is to reflect the differential clinical approach of psychoanalysis and neuroscience. The chosen method is the case-analysis and argumentation, that cames from the field of Law. Casuistry illustrates the obtained results. In conclusion, the concept of symptom is central to each clinical concept and it implies a differential that sets the field, structure and functions. The spread of science is a real difference, that does not figure, but it is capable of measuring. The spread of psychoanalysis is a symbolic difference, with its interpretation. This is not in opposition to the neurosciences or drugs, but to ask about its ethical status, derived from the primacy of the clinical position in the art of healing. The meeting point between neuroscience and psychoanalysis in the context of our time is characterized by the technological progress and the discourse of capitalism. Key Words: Clinic, psychoanalysis, neuroscience, symptom, ethics.

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Mario Kelman

Justificación del título Si bien el título alude a una generalidad que reúne dos campos muy vastos, el acento de lectura debe recaer en la coma gramatical que separa ambos términos. Apartándose de la función universitaria de un título que puntualiza un tema específico, Neurociencia, Psicoanálisis inscribe un modo de reunión de dos clínicas, un espacio “entre” una y otra que admite un hiato, una separación irreductible.

Introducción A partir del descubrimiento de los neurotransmisores y el surgimiento de tecnologías y fármacos capaces de incidir en el órgano cerebral a nivel molecular, las neurociencias han pasado a participar en forma decisiva, en el lugar que la psiquiatría tiene reservado en el campo de la Salud Mental. El desarrollo de la ciencia y la tecnología producen nuevas demandas que afectan el campo clínico de la medicina como arte de curar, imponiendo nuevos procedimientos, protocolos y universales que tratan los cuerpos y los órganos. Una nueva terapéutica con antiguos modos: producir efectos terapéuticos en los síntomas a través de manipulaciones en el órgano cerebral. Para ello ha sido necesaria la construcción de una ficción de sujeto: el hombre neuronal. Un hombre caracterizado por cadenas asociadas de neuronas con una propiedad dialéctica de inhibiciones y de excitaciones que modulan el paso de estímulos sostenidos por los neurotransmisores. La Neurología ha producido un avance importante con el descubrimiento de los neurotransmisores a nivel molecular, despejando que se trata fundamentalmente de un proceso químico y electromagnético que traduce diferencias de valencias en potenciales de acción. A su vez, los potenciales de acción conducen los estímulos e inervaciones que producen el movimiento. Posteriormente tiene lugar el descubrimiento de la plasticidad neuronal, que formaliza la posibilidad de producción de nuevas neuronas y la sustitución de vías y localizaciones corticales en una estructura dinámica que es singular a cada viviente (Ansermet & Magistretti, 2006). Se concluye que cada paso de estímulo por la neurona produce una huella. A partir de allí, se efectúan mediciones de todo tipo. Kandel (2007) agrega al procedimiento físico una lógica combinatoria de los procesos químicos que, decíamos, producen diferenciales de potencial; visibilizando fenómenos que se rigen por un estatuto energético.

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Se conceptualiza la memoria como la conservación de huellas y facilitaciones neuronales con capacidad de repetición de la respuesta. Esta definición anuda memoria con repetición. Si bien se complejizan los procedimientos combinatorios en un modo no lineal, a través de la modulación; el núcleo conceptual y central del esquema sigue siendo la noción de arco reflejo de Pavlov (Fachinelli y Piersanti, 1971). Toda experiencia de medición, exploración por imágenes y experimentación, intenta la búsqueda de un diferencial que organice la imagen, la construcción epistémica de una estructura que dé cuenta de su surgimiento y funcionamiento. Hay quienes asimilan la huella neural con la huella mnémica freudiana o el significante lacaniano. Se razona por analogía. No parece una afirmación sustentable. Retomaremos este desarrollo más adelante. La defensa y profundización de la clínica y su ética puede ser el punto de encuentro entre neurociencia y psicoanálisis en el marco de la época contemporánea, caracterizada por un avance vertiginoso de la tecnología y el discurso del capitalismo.

Psicoanálisis, neurociencia La coma del subtítulo escribe un espaciamiento, una disyunción sostenida. La reunión lógica de ambos dominios epistémicos y discursivos, no recorta un orden de consistencia de saberes que compiten o se complementan. Ambos saberes reunidos recortan una intersección vacía, de falla: Psicoanálisis y Medicina se intersectan en la falla, en el punto de no saber de cada formalización. Entonces no se trata de encuentro de saberes sino del encuentro del espacio de inconsistencia del saber de cada campo. Falla, vacío donde se aloja la verdad, que involucra necesariamente la relación del goce con el cuerpo, accesible por la vía del síntoma singular. La interlocución se sostiene cuando es posible ponerse en falta respecto del saber, condición para que pueda formularse una pregunta. Por ello, conservando las diferencias, se postula la interlocución de una clínica con la otra. La ciencia afirma una dimensión del saber en la aprehensión de su real pero rechaza la dimensión de la verdad como causa material. Situamos el rechazo de la verdad que porta el síntoma como escritura, en tanto remite a la particularidad de goce del ser hablante. No se refiere a la verdad objetivada y exterior que propone el positivismo lógico, que se resuelve en valores que configuran una tabla que


por ejemplo, confirma o niega el valor de un saber experimental, predicándolo como verdadero o falso. La interpretación del síntoma en tanto escritura no se mide como verdadero o falso, sino que a través de la interpretación se desencadena la verdad singular del ser hablante que el síntoma porta. Verdad entonces, que remite a la dimensión de goce en juego en el síntoma. Precisamente la verdad como causa, es lo que la ciencia rechaza saber. (Lacan, 1965). La ciencia solo admite la incidencia de la verdad como causa en tanto causa formal. El psicoanálisis aporta la verdad en tanto causa material, presente en el síntoma como letra de goce y su sujeto. El campo de goce remite a la energética freudiana, la dimensión libidinal del cuerpo presentada por el síntoma. No solo presentada, sino que el sesgo libidinal constituye la clave que permite la intelección del síntoma y la interpretación que éste porta. El campo de goce lacaniano implica modos de satisfacción que se extienden desde los confines del placer hasta la muerte. Concierne a cada ser hablante en tanto su condición de viviente en un cuerpo, cuya naturaleza se modifica por la incorporación del lenguaje. En consecuencia, hay modos de satisfacción más allá del placer, que resultan paradojales en tanto se consuman a costa del sujeto, tal como Freud lo vislumbró por ejemplo en la dimensión del masoquismo y en la noción de beneficio secundario del síntoma. El saber de la medicina y la tecnología aunque rechacen esta dimensión del síntoma, construyendo un saber formal del organismo, inciden en la relación del goce con el cuerpo, produciendo efectos; ignorados o no, buscados o no (Lacan, 1985). Entonces, se trata de una interlocución posible sobre los modos de abordaje diferencial del cuerpo y la verdad concernida por la vía del síntoma, y de un tratamiento de goce posible, respecto de la clínica médica y la clínica psicoanalítica.

Algunas consideraciones Se constata que la biología contemporánea se aplica prevalentemente al estudio de sistemas de lo viviente, a formalizaciones elaboradas a partir de la física y la química. Una biología que elide la cuestión de la vida y se aplica a una formalización del campo, tal como evidencia la lectura de los escritos de Francis Jacob (Jacob, 1999). Cada vez más se trata de los algoritmos de lo viviente. Con este marco, se retoma la hipótesis de la existencia de una huella neuronal. La huella neuronal se formula como una marca en la superficie protoplasmática, una alteración de la disposición producida por el paso de un


estímulo que modifica el medio celular. La huella neural constituye una metáfora científica que condujo a la hipótesis de un basamento biológico del inconsciente y del lenguaje. Junto a la noción de huella, hace serie la tesis de la emoción como un estado somático asociado a una percepción, sea percepción exterior o de la huella en el sistema nervioso, que activa la disposición neuroquímica (Damasio, 2006). En el Seminario el Acto Analítico (Lacan, 1967), Lacan hace un pormenorizado análisis de la experiencia pavloviana, que sitúa en el contexto de una ideología materialista propio de la época. No sin ironía, Lacan define a Pavlov como un estructuralista lacaniano que monta una experiencia que reproduce la estructura de lenguaje operando sobre el viviente, en este caso, el organismo animal de un perro. Nos dice que Pavlov recibe su propio mensaje invertido. Pavlov obtiene una respuesta refleja en el organismo –secreción gástrica- a partir de un estímulo condicionado –sonido de una trompeta elevado a la categoría de significante- que invierte la secuencia original que reúne la secreción gástrica producida por el alimento con el sonido de trompeta. El sujeto de la experiencia no es el perro, sino Pavlov que sí dispone de la estructura y uso del lenguaje. La experiencia pone en evidencia la incidencia del significante en el organismo y en sus funciones, toma del viviente por el lenguaje que modifica su biología. Lacan añade a la consideración del saber, una energética de goce y una dimensión de verdad. Pavlov puede presentar su experiencia objetivando el saber resultante, solo en tanto forcluye, rechaza el sujeto de la ciencia –en este caso, del lado del experimentador como parte incluida y esencial del experimento- y la hiancia de la verdad respecto del saber, en la respuesta-síntoma. Su teoría parte de la creencia en que el saber hallado y el lenguaje, eso estaba allí desde siempre, en el organismo del perro o por derivación, en el órgano cerebral del viviente humano. Paradoja que sitúa el materialismo de Pavlov como síntoma de la necesidad de que “eso” crea en el Dios creador. Un Dios que habría puesto eso allí. Habría que consignar que Lacan acuña el neologismo Dieure que condensa Dios y Decir. En la perspectiva de la teoría del arco reflejo, la memoria se formula como una reiteración de la disposición y de la respuesta del órgano. Claramente la memoria se formula como una repetición de los estados somáticos, receptores e inhibidores neuronales que dan lugar a través de la combinatoria de frecuencias de potenciales de acción, a una supuesta identidad de la respuesta del organismo y de la motricidad.


Es una memoria concebida como la repetición de combinaciones diferenciales registrables como frecuencia en lo real. Un diferencial real sin cifrado simbólico donde el lenguaje se concibe como una función orgánica más. Es decir, la investigación neurológica establece por medios tecnológicos la detección y medición del paso de estímulos eléctricos por el sistema nervioso, localiza funciones por el consumo de oxígeno o existencia de agua u otras sustancias a través de un espectrograma. En todos los casos, se trata de la búsqueda de un diferencial en lo real que vuelva legible un esbozo de la función y su repetición, recortado y aprehendido en la imagen tecnológica. Este diferencial real es del orden del número, un diferencial que no cifra ni soporta significaciones, a diferencia de un diferencial simbólico que por ejemplo, en la escena de un sueño, cifra una verdad del sujeto que seguramente concierne a su modo singular de satisfacción que define su existencia de sujeto. El diferencial que el síntoma psicoanalítico inscribe es un simbólico capaz de cifrado, que se produce a partir de la inscripción de la inexistencia; como se verifica a través de la interpretación. El diferencial que registra la neurociencia a través de las imágenes y demás recursos tecnológicos es una búsqueda del mismo orden de la que realiza Pavlov, en su célebre experimento. Profundicemos el detalle. La experiencia presenta ante un perro un trozo de carne asociado a un estímulo condicionado, como ser tres tañidos de campana. El perro segrega jugo gástrico como respuesta a la señal pavloviana. Posteriormente obtiene la misma respuesta con el sonido de las campanas sin el trozo de carne. Por último, sustituyendo los tres tañidos de campana por tres luces que se encienden, obtiene la misma respuesta en el organismo animal. Lo que en la experiencia pasa es el “tres”. Es decir, se trata del número, diferencial real sin cifra ni significación. La argumentación y la demostración neurológica encuentran un importante aporte en el estudio experimental de las afasias y demás lesiones cerebrales. El resultado obvio indica que una lesión orgánica interrumpe la función de lenguaje o función respectiva. Si bien se pone de manifiesto que una lesión cerebral puede producir una afasia; constituye un exceso sostener lo inverso. Esto sería, atribuir a la región cortical afectada la causalidad y la determinación del lenguaje y operaciones concernidas, como si el cifrado y la simbolización fueran secreciones del órgano cerebral. No hay reciprocidad, no hay reversión lógica ni epistémica. No porque una afasia o lesión en una zona cortical implique falla de la función, se verificaría en el mismo procedimiento que la función proceda de la zona u órgano no afectado.


Que un órgano se constituya en soporte viviente de una función, no indica que la función surja, esté causada en el órgano. Los antecedentes de la Escuela de Cambridge han sido determinantes del debate. La Escuela de Cambridge sostiene la pertenencia de la ciencia del lenguaje a las ciencias de la naturaleza. Define al lenguaje como una propiedad distintiva de los seres vivientes que lo vincula entonces con la especie, lo cual ubica la ciencia del lenguaje como una rama de la biología. Expresada contemporáneamente en un marco conceptual neodarwiniano compatible con los desarrollos de la psicología cognitiva, se articulan recíprocamente y dan lugar a un programa de investigaciones con el propósito de integrar lenguaje y naturaleza (Milner, 2000). La Escuela de Cambridge plantea un programa que asume el conjunto de estas premisas como un programa posible, necesario y suficiente para definir el objeto de la ciencia del lenguaje; discerniendo entre quienes se proponen estudiar el lenguaje en su aspecto biológico y quienes como Chomsky (Milner, 2000), consideran al lenguaje como un objeto íntegramente pasible de biología. El programa referido particularmente es atribuido a dos autores: Chomsky y Lorenz. Se formula una proposición fundamental: el lenguaje es un órgano. La proposición el lenguaje es un órgano implica dos proposiciones subordinadas:  El lenguaje es innato, o el lenguaje no es un órgano más que si es innato.  El lenguaje es específico. Esto lo hace semejante y diferente de otros órganos que responden a funciones igualmente específicas como el ojo y la visión, lo cual le confiere un estatuto de derecho (Milner, 2000). Lacan (1961) se rehúsa a abordar el origen de lenguaje, pero subraya la evidencia de que el lenguaje se le presenta en exterioridad al viviente. El lenguaje está en lo real y el viviente humano lo incorpora produciéndose un ser hablante, por el anudamiento de las dimensiones real, simbólico, imaginario. Nuevamente, coexistencia de ambas clínicas sosteniendo las diferencias, con un diálogo posible en tanto se sostenga la intersección de no-saber de ambos campos, y una ética compartida a partir de la primacía de la clínica. A continuación, dos viñetas clínicas tomadas de notas de archivo, que evidencian lo diferencial de ambas clínicas, a pesar de lo cual, es factible la práctica y la interlocución. Posteriormente y para finalizar, algunas viñetas adicionales sobre testimonios clínicos relevados en la práctica que manifiesta la existencia de un campo de investigación abierto, en sus inicios y a recorrer.


Un dispositivo Lo que sigue está extraído de notas de archivo de una práctica, llevada a cabo a través de un dispositivo clínico consistente en una entrevista de evaluación subjetiva de pacientes, luego de efectuarse una RMNF (Resonancia Magnética Nuclear Funcional), con el objeto de hacer lugar al discurso en relación al motivo de consulta que causa la necesidad de dicho examen complementario. La entrevista se constituye en un tiempo y un lugar para una oportunidad del sujeto, un relampagueo de verdad entredicha. En todas las entrevistas se verifica que el primer efecto de poder hablar de lo que le ocurre, se corresponde con una sensación de alivio del paciente. Luego de la exposición del cuerpo ante la tecnología, al tomar la palabra recupera un lugar dónde puntualizar y asumir sus propias determinaciones y consecuencias. Cuando esto se alcanza, generalmente es acompañado de un efecto de sorpresa. A continuación transcribiremos notas del Informe del abordaje de diagnóstico neurocientista a partir de la técnica de Diagnóstico por Imágenes y lo relevado en una entrevista con el paciente OC, que posibilite una lectura diferencial. Posteriormente, una entrevista realizada con otro paciente, AE; cotejando los diagnósticos y terapéuticas producidos con referencia a ambas clínicas

Casuística

Estudio: RMN Funcional de cráneo – Tractografía. Paciente: OC Informe El sistema ventricular está conservado. Las estructuras de la línea media se hallan en su topografía habitual. No se detectan signos de leucoencefalopatía ni procesos expansivos infiltrativos. El tronco encefálico, los pedúnculos cerebelosos y hemisferios cerebelosos no muestran alteraciones. Del examen tractográfico Se observa una disminución de las fibras en los centros semiovales de ambos lóbulos frontales y también de las estructuras profundas de los lóbulos temporales.


Del examen espectroscópico También muestra una franca disminución de los picos de N-Acetil Aspartato bilateral en ambos lóbulos temporales a predominio izquierdo que sugiere disfunción y/o despoblamiento neuronal. La estimulación cortical con técnica Bold con test modificado de Boston produce activación de áreas frontales y subcorticales. No se detectaron otras observaciones.

Conclusión:

Estudio de RMNF que muestra principalmente disminución de fibras de los centros semiovales de ambos lóbulos frontales y de estructuras profundas de los lóbulos temporales con alteración espectroscópica de los hipocampos; debiéndose correlacionar con los antecedentes y el cuadro clínico.

Entrevista analítica con el paciente OC El paciente relata que en la fecha se le practica una RMN de cerebro según la prescripción efectuada por la Dra. C (Médica Psiquiatra) con quien está en tratamiento desde hace dos meses, período en el que realiza cuatro entrevistas. Sitúa su síntoma en una agresividad manifiesta en estallidos episódicos que ocurren generalmente en el contexto de discusiones con sus amigos o con su esposa. La ira lo invade y sin darse cuenta se desliza en expresiones de violencia verbal y gritos pero sin llegar hasta ahora a la violencia física. No encuentra explicaciones ni motivos que justifiquen estas crisis, que parecen más bien momentos de fuga o extravío del sujeto. En un primer momento se deja llevar por el odio que lo invade, hasta que en un segundo momento toma noción de lo ocurrido. Un detalle importante. OC relata su problema de violencia como algo que le ocasiona sufrimiento, lo afecta y padece. Lo cual habla de que OC conserva una posición ética respecto de la violencia que experimenta. Identifica su síntoma con su padre, de quien dice que tenía accesos de ira muy similares, fundamentalmente dirigidos al hijo primogénito y hermano mayor del paciente. En esta familia el hijo primogénito tiene siempre el mismo nombre que el padre en las sucesivas generaciones; por lo cual se produce una descendencia generacional donde hay siempre un JM hijo de JM. Se trata de una familia de inmigrantes cuyos bisabuelos radican en Argentina luego de viajar mayoritariamente desde Europa. Su infancia transcurre en un medio muy humilde y pobre de recursos económicos.


El padre mantiene una preferencia notoria con el hijo primogénito brindándole medios y soportes que no le dispensa a él, por ejemplo para la continuidad de sus estudios. OC desde muy corta edad y a diferencia de su hermano, se ve abandonado y librado a sus medios, lo cual se inscribe como una caída del lazo filiatorio. Los enojos de OC se producen cuando en presencia de ocasionales interlocutores, se plantean preferencias. Se observa que el orden de transmisión simbólica que se efectúa en OC, rechaza la diferencia; a partir de lo cual la diferencia se inscribe como oposición que excluye. Se trata de la misma lógica de transmisión que identifica el padre con el hijo primogénito excluyendo lo otro, lo diferente. Falla de la articulación de la alteridad con la diferencia Esto hace que cada vez que OC encuentra una diferencia contingente, se le traduce en una preferencia que lo excluye, lo cual le provoca un acceso de ira pasional que se tramita por la violencia verbal sin llegar por el momento, a un pasaje al acto. Lo pasional es una figura de goce que no encuentra cauce ni amarre por la palabra. Dejarse llevar por el odio pasional es abandonarse a una satisfacción oscura, a lo que el sujeto podrá responder eventualmente transitando una experiencia analítica. En los lazos generacionales de esta familia hay una falla por la cual no se aloja la alteridad ni la diferencia se inscribe como tal. Falla por la cual irrumpe lo pasional desbordado de la contención de la palabra en el límite de la violencia verbal. Esta hipótesis se verifica en dos asociaciones posteriores que relata OC. La primera alude a que en su infancia encuentra felicidad y una estadía placentera visitando las familias de los vecinos que le dan alojamiento. Ello le permite suplir los lazos que no encuentra en su familia de origen y le posibilitan constituir su familia actual, en la que se preocupa que sus hijas tengan autonomía de decisiones y de realizaciones. La segunda refiere a que su padre y su hermano mayor eran hinchas de Rosario Central y dada la situación decide adoptar la divisa de otro club. No se anima a tomar la camiseta del rival clásico que le acerca un tío por temor a la violencia del padre, pero adopta la divisa de “Independiente”, curiosa marca que inscribe una conquista del sujeto por el lugar que él mismo pudo construirse. Si bien no se encuentran en esta única entrevista fenómenos productivos que indiquen una estructura psicótica, esta falla por donde irrumpe el odio sitúa un defecto de la función paterna para articular la transmisión y el lazo en la descendencia generacional y el síntoma adquiere un sesgo paranoide que le permite acotar y regular el despliegue pasional.


Entrevista analítica con el paciente AE Paciente del Dr. C. quién le indica una RMNF. El paciente, en su relato menciona que su problemática se produce desde hace 3 años y medio, cuando nota un episodio de sudor y adormecimiento de una parte de su rostro que luego relaciona al nervio trigémino. Hace una primera consulta con el Dr. K. médico neurólogo de la ciudad de X, que le diagnostica un efecto de stress y le prescribe un psicofármaco. Posteriormente consulta a un médico Psiquiatra de la ciudad S, el Dr. R. que le prescribe antidepresivos. Mantiene entrevistas con terapeutas orientados en la psicología cognitiva conductual quienes le proponen patrones de acción para moderar la ansiedad y organizar su actividad. No obstante, si bien disminuye la ansiedad, subsisten problemáticas de irritación, nerviosismo y depresión alternada con momentos de inquietud. El paciente aporta un detalle pertinente, cuando respecto a preguntas acerca de los años transcurridos desde una situación determinada, responde aportando la fecha del acontecimiento ocurrido. Ante la solicitud de aclaraciones, evidencia la imposibilidad de hacer una cuenta respecto del tiempo transcurrido. El paciente orienta su vida por fechas. Con la particularidad de que dichas fechas constituyen referencias exteriores a su vida, que vivencia como extranjero, al margen de lo que acontece. No hay apropiación del tiempo que le posibilite hacer una cuenta propia. En su relato se escucha su no-inclusión subjetiva, su no-implicación en lo que hace acontecimiento. Relata que ha vivido afuera de su vida y siempre se ha dedicado a cumplir con lo que se le presenta, que toma la forma de imperativo. Su referencia han sido las demandas que se le formulan sin que haya espacio para una decisión propia ni una elección. No puede dejar de responder, siempre desbordado por los mandatos, cuyo intento de cumplimiento sostenido le reporta una satisfacción moral a la que ofrenda su vida. Un episodio significativo permite secundariamente vislumbrar las diferencias entre la interpretación cognitivo-conductual y el psicoanálisis. El paciente relata la reiteración de situaciones de desencuentro. Por ejemplo, deja los lentes en la mesa y luego no puede encontrarlos. Esto fue interpretado por el terapeuta cognitivo como una disfunción de la memoria de corta duración. Leído como que el paciente deja los lentes y al poco tiempo no recuerda donde los dejó.


En la entrevista, el paciente relata que no obstante, puede llegar a verlos cuando encuentra una distancia apropiada que le permite percibir una escena, y en esa escena global distinguir los lentes. En realidad lo que el paciente dice, es que él puede encontrar los lentes cuando se encuentra en la distancia que le permite una percepción de la escena, cuando puede enfocar. Esto es, cuando se puede incluir en el foco que organiza la escena y hay función de marco que establece el cuadro de realidad. No se trata de un problema de memoria, sino que se trata de un problema de inclusión subjetiva, a partir de hacer lugar a lo propio, abriendo otro espacio topológico que el espacio de los imperativos superyoicos

Comentario El paciente OC. El estudio médico por medio de la imagen de la RMNF se orienta por el diagnóstico diferencial de impulsividad o epilepsia y sus respectivos patrones. En el primer caso -impulsividad- se evalúa una posible disminución de volumen del lóbulo temporal del cerebro, posible esclerosis del hipocampo o eventual tumor. En el segundo caso -epilepsia- se evalúa la estimulación de la amígdala y la eventual disminución de los haces dirigidos hacia el lóbulo frontal. Se considera las variaciones de conectores sinápticos, particularmente el acetil-aspartato. En las entrevistas se plantea otra lógica, otra clínica. Las impulsiones se sintomatizan con el apoyo de un partenaire que oficia de otro del síntoma, con accesos pasionales en torno a un real que desborda lo simbólico y lo imaginario, produciendo desanudamientos o crisis. Se releva una falla en la función del nombre del padre, la filiación y la articulación de la alteridad y la diferencia. Lo pasional es figuración de goce. El psicoanálisis aporta una orientación en orden a la estructura que responde a la singularidad del caso por caso, a partir de lo que se escucha. El estudio de la imagen médico-técnica prescinde del discurso y plantea un abordaje del órgano real a través de las convenciones del discurso científico. Sea a través de diagnósticos neurológicos, de clínica general o psiquiátricos, la referencia es la región del órgano, las vías o tractos y las proporciones de neurotransmisores que alojan y determinan una función orgánica alterada. La psiquiatría evidencia una creciente caída de la posición clínica, manifiesta en la publicación y aplicación de los manuales diagnósticos de la serie DSM que han potenciado el afán terapéutico asentado en el fármaco; y tras el fármaco, la industria farmacéutica, laboratorios y empresas de salud. Actualidades en Psicología, 27 (114), 2013, 39-54

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En este contexto, no se objeta el empleo de las imágenes diagnósticas como un recurso válido y útil. La objeción se hace a nivel del uso que pueda hacerse de ello cuando se toma el dato relevado por la técnica desprendido de la clínica y de la palabra del sujeto, como criterio objetivo que conduce a la prescripción automática de fármacos. La publicación en Revistas Científicas de patrones de imágenes en correspondencia con cada cuadro nosográfico del manual DSM, refuerza esta lógica tecnócrata que eleva el síntoma a la categoría de un universal que se continúa en la especificación de protocolos terapéuticos que eliminan la particularidad de cada caso y cierra el acceso a la palabra. Desconoce incluso las nuevas y recientes formulaciones sobre la plasticidad neuronal, que plantean la singularidad de cada paciente y del momento de cada paciente, en una configuración de estructura dinámica y variable. Si esta tendencia prevaleciera, el riesgo inmediato se presenta a través de las consecuencias para la clínica y el sujeto. Lo rechazado es el orden de verdad del estatuto del síntoma. Es evidente que una alteración del órgano produce efectos a nivel de la función. Constituiría un deslizamiento excesivo hacer del órgano la causa de la función y del síntoma, que conduce a una reducción objetivante de lo humano. El segundo caso a ampliar en el comentario es el paciente AE. El programa de la neurociencia se apoya en la ficción del hombre neuronal, es decir, un humano caracterizado fundamentalmente por el sistema articulado de neuronas interconectadas y sus modificaciones. Para responder las preguntas que el síntoma reconducido al órgano le plantea al científico, surge la necesidad de creación de ficciones o construcciones científicas. Tal necesidad de discurso, condujo a la duplicación del órgano real en un órgano de ficción llamado mente. La mente no es otra cosa que la duplicación imaginaria del órgano cerebral vaciado de sustancia, que duplica el conjunto de funciones, atribuyéndole una organización sintética y sistemática. Con lo cual, pretendiendo hallar respuestas, se duplican las preguntas. Aún con el rodeo de la mente, el propósito es el mismo: a través de la sugestión en sus más diversas y sofisticadas formas o del fármaco, se pretende incidir en el órgano para ajustar la función subjetiva alterada, lo cual no solo no resuelve el síntoma, sino que lo incrementa o lo agrava. El caso AE muestra claramente tal supuesto en un paciente al que se le diagnostica tensión por stress laboral y pérdida de memoria de corta duración. El stress no es otra cosa que la incidencia de la demanda en un órgano. Allí donde la demanda no encuentra un límite fuera del cuerpo, el órgano hace de último límite, a sus expensas.


De la entrevista surge que el sujeto en realidad dice haber vivido al margen de su propia existencia. En consecuencia no se trata que no haya perceptum, sino que no hay sujeto “percipiente” en el punto de foco de la visión, no hay percipiens porque allí hay ausencia. Esto hace que el síntoma del no registro de donde dejó sus lentes, en realidad habla de la ausencia del sujeto de su lugar. El cognitivismo o la clínica del fármaco implican respectivamente un ejercicio de la autoridad del fármaco y de la autoridad del terapeuta enmarcada en un tratamiento que apela al poder de la sugestión. En consecuencia, pone la responsabilidad del lado del terapeuta, desresponsabilizando al sujeto. La experiencia psicoanalítica implica un poner al trabajo al sujeto respecto del síntoma que lo trae a la consulta, debiendo implicarse y asumir la verdad de su propia conformación patológica. El sujeto es sujeto responsable de su problemática particular, de su posición en la estructura. En este caso, el intento imposible y sostenido del cumplimiento de los mandatos superyoicos, a costa de la elisión del sujeto, es el punto de goce en que está concernido. La asunción de su verdad particular en el camino de su cura posibilita la rectificación subjetiva. Los siguientes testimonios y referencias clínicas tomadas de notas de archivo de un Ateneo de presentación de casos, demuestran la existencia de una perspectiva de trabajo conjunto. 1. Un paciente se presenta relatando que cada año sufre dos crisis de dolor que irrumpe sorpresivamente, devastándolo. Solo encuentra alivio si inmediatamente se coloca en posición horizontal, acostado sobre la tierra; hasta que el dolor se retira. Interrogado sobre su historia, menciona que nace en zona rural y a muy corta edad queda huérfano de padre y madre. Se cría en soledad, sobreviviendo en un medio salvaje, alimentándose de la recolección y la ayuda ocasional que recibe. A los cinco años comienza a trabajar conduciendo un tractor, como peón de campo. Su historia parece establecer una falla en la filiación. Actualmente el paciente vive cada momento a la espera de la irrupción de la crisis de dolor. Esta espera y el dolor le aportan un Uno que evita la fragmentación. El dolor toma una connotación sintomática confirmando su existencia, es lo que anuda la estructura real-simbólico-imaginario. 2. De un modo similar al caso anterior, existen varios casos en los que hay dolor que toman valor de síntoma, que incluso migran por zonas del


organismo sin responder a la dirección de vías anatómicas de transmisión de dolor. Casos en los que irrumpe el dolor sin ninguna investidura simbólica que constituye la envoltura formal del síntoma. La investidura simbólica metaforiza una verdad del sujeto, mediante la construcción del síntoma en transferencia, cuando se dispone de una instancia de lenguaje que otorga una distancia topológica respecto del organismo. En el relato de estos pacientes se constata el hundimiento de deseo y lo doloroso de una existencia desprendida del deseo, aproximándose al padecimiento de la melancolía que Lacan indica como dolor de existir. Paradojalmente, el dolor confiere cuerpo a la existencia, aún desligada del deseo. La misma lógica, pero sumamente agudizada, se constata en casos de pacientes con miastenia gravis. 3. Una paciente presenta el padecimiento de acúfenos. De su relato se desprende la hipótesis de una proximidad del acúfeno con la alucinación auditiva. Se corrobora la existencia de exigencias extremas y una configuración de imperativos superyoicos que oprimen la subjetividad, ajustan el espacio y tiempo; y el movimiento tiende a su supresión. La hipótesis se prolonga en una falla de la extracción del objeto voz, por lo que no debiera oírse -lo áfono de los imperativos- de pronto se torna audible en la forma de ruidos y zumbidos; próximos, aún cuando con una distancia, respecto de las voces audibles en las psicosis. Todo un espacio se extiende entre lo escrito y el órgano, atravesado por la pulsión de muerte. Campo de investigación a desarrollar, de lo que existe escaso testimonio. Un antiguo aforismo médico afirma que no hay enfermedades, sino enfermos. Freud descubre que cada paciente tiene un modo propio de transitar su enfermedad, una relación singular con su síntoma, que nombra como beneficio secundario, y hasta un modo propio de morir. Compartamos los interrogantes. Lacan (1964/2008) menciona que todo organismo se estructura con una dehiscencia que le es propia. La dehiscencia es la forma de abertura estructural de un cuerpo. Un diamante en bruto pasa por una talla. Pero la talla del diamante no es posible realizarla de cualquier modo. Los cortes tienen que pasar por la dehiscencia de las grietas que estructuran el cuerpo del diamante. ¿Es posible que un organismo conlleve los cortes de un modo propio de enfermar y de morir? ¿Es posible que el corte de la muerte al final de la vida opere donde el corte ya estaba prefigurado en la estructura, donde ha operado la pulsión de


muerte, siendo la letra el borde, límite de lo real? ¿Cuando no hay letra ni borde, será la grieta que arrastre de un modo más o menos irrefrenable a lo irremediable?

Para finalizar Existe un vasto campo de investigación aún inexplorado, en la frontera entre la clínica médica y la clínica psicoanalítica. La conclusión de este recorrido repara en que los abordajes y terapéuticas médicas y psicoanalíticas ni se excluyen ni se complementan. Es posible un abordaje donde las prácticas lleguen a distintos reales, con diversos alcances y produzcan diferentes efectos. Por otra parte, se trata de un campo de investigación abierto en un estado inaugural. Razones suficientes para sostener una interlocución respetando la particularidad de cada clínica. Reunión entonces, que admite la hiancia entre una y otra.

Referencias Ansermet, F. & Magistretti, P. (2006). A cada cual su cerebro. Plasticidad neuronal e inconsciente Buenos Aires: Katz Editores. Damasio, A. (2006). En busca de Spinoza. Neurobiología de la emoción y los sentimientos. Barcelona: Ediciones Crítica. Kandel, E. (2007). En busca de la memoria. El nacimiento de una nueva ciencia de la mente. Buenos Aires: Katz Editores. Lacan, J. (1964/2008). El Seminario Libro XI. Los cuatro conceptos Fundamentales del Psicoanálisis. Buenos Aires: Editorial Paidós. Lacan, J. (1965/1978). Seminario XVIII – El objeto del psicoanálisis. Clase de apertura. Inédito. También publicada como La ciencia y la verdad, en Escritos Tomo II. Pág. 340 a 362. México: Siglo XXI Editores. Lacan, J. (1985). Psicoanálisis y Medicina. Intervenciones y Textos. Buenos Aires: Editorial Manantial. Lacan, J. (1967). Seminario el Acto Analítico. Inédito. Milner, J. C. (2000) Introducción a una ciencia del lenguaje. Buenos Aires: Editorial Manantial. Fachinelli y Piersanti (1971) Freud y Pavlov. Buenos Aires: Centro Editor de América Latina SA. Jacob, Francis (1970/1999) La lógica de lo viviente. Barcelona: Tusquets Editores SA. Lacan, J (1961) Seminario La Identificación. Inédito. Recibido: 10 de octubre de 2012 Aceptado: 15 de febrero de 2013


Psicologia Ciência e Profissão ISSN: 1414-9893 revista@pol.org.br Conselho Federal de Psicologia Brasil

Bock, Ana "A Psicologia no Brasil" Psicologia Ciência e Profissão, vol. 30, núm. Esp., diciembre, 2010, pp. 246-271 Conselho Federal de Psicologia Brasília, Brasil

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“A Psicologia no Brasil”

Entrevista

Para a atualização dos temas tratados no texto A Psicologia no Brasil, primeiro artigo publicado na revista número zero, a comissão editorial da revista Psicologia: Ciência e Profissão indicou duas pessoas para serem entrevistadas, que representassem respectivamente a ciência e a profissão no nosso país. Para falar sobre o desenvolvimento da profissão nos últimos 30 anos, foi entrevistada a professora Ana Mercês Bahia Bock, Doutora em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde leciona e desenvolve pesquisas, com ênfase em Psicologia sociohistórica, atuando e pesquisando principalmente nos seguintes temas: Psicologia, educação, Psicologia sociohistórica, profissão e compromisso social e dimensão subjetiva da desigualdade social. Foi presidente do Conselho Federal de Psicologia por três gestões. Preside o Instituto Silvia Lane – Psicologia e Compromisso Social e é, atualmente, secretaria executiva da União Latinoamericana de Entidades de Psicologia.

Para falar aos leitores da revista sobre o desenvolvimento da ciência psicológica, foi entrevistado o professor Cesar Ades. Doutor em Psicologia experimental (1973), livredocente pela Universidade de São Paulo (1991), é professor titular (1994) do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP). Atualmente, dirige o Instituto de Estudos Avançados da USP. É membro do International Council of Ethologists, da International Society of Comparative Psychology e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Etologia (SBEt), da qual foi fundador. Suas principais linhas de pesquisa


estão na área de etologia e do comportamento animal. PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2010, 30 (num. esp.), 246-271


PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2010, 30 (núm. esp.), 246271

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A Psicologia como Profissão: Entrevista com Ana Bock

Ana Bock Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

Ana Bock – O trajeto da Psicologia pode ser sintetizado como o de uma profissão comprometida com interesses da elite brasileira – que, de certa forma, é responsável pelo ingresso e desenvolvimento da Psicologia no Brasil – até o momento atual, que pode ser chamado de momento de compromisso ou, pelo menos, do começo do desenvolvimento de um projeto de compromisso com as necessidades da maioria da população brasileira, com uma vontade clara, entre os psicólogos, de uma inserção maior. Isso não quer dizer que haja um único tipo de inserção, pois há uma tensão sobre como seria essa inserção. Entretanto, pode-se dizer que todos os psicólogos “A Psicologia no Brasil”


atualme nte gostaria m que a Psicologi a tivesse inserção maior na socieda de brasileir a, o que significa efetivam ente um compro misso maior com outros segment os da socieda de.

o, porque eles imaginam que um dia vão exercê-la. Os cursos de Psicologia têm baixos índices de evasão e de inadimplência, o que mostra um vínculo, e isso tem refletido o interesse por maior inserção. Iracema Neno Cecílio Tada – No começo da profissão, quais áreas tinham maior foco de atuação dos psicólogos? Atualmente, outras áreas estão surgindo? Como você as analisa? Ana Bock – Tínhamos, no início da institucionalização da profissão no País, um compromisso quase que exclusivo com a elite brasileira. Estávamos incluídos no projeto de modernização do País. Sabemos que, na modernização, tudo o que se apresentou como tecnologia ganhou seu espaço social. A tecnologia apresentada pela Psicologia consistia nos testes psicológicos, que, de forma objetiva e tecnológica, contribuíam para a categorização, para a diferenciação, ajudando a encontrar o homem certo para o lugar certo. Estávamos incluídos em processos de seleção de pessoal e orientação profissional. Também com os testes, nas escolas, ajudamos a formar classes mais homogêneas para preparar melhor as

As pesquis as têm mostrad o que os psicólog os gostam muito da profissã o, que se mantêm registra dos no Conselh o mesmo sem trabalha r na profissã “A Psicologia no Brasil”


crianças e os jovens para o trabalho . Ganham os espaço na sociedad e com esses dois campos da Psicologi a.

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Edla Grisard de Andrade – E a Lei nº 4119?

Eu me lembro de termos feito uma matéria no jornal da faculdade, ainda como aluna, que relatava uma história ouvida de um operário. Ele contava que havia perdido uma oportunidade de emprego porque não soube desenhar uma árvore, como o psicólogo havia solicitado. Dizia ele: “O psicólogo mandou desenhar uma árvore e depois disse que eu não servia para o trabalho”.

Ana Bock

Ana Bock – ALein° 4.119/62, que regulamenta a profissão no Brasil, foi como uma certidão de nascimento antes que o bebê tivesse nascido, ou seja, não tínhamos, naquele momento, algo que pudesse ser denominado profissão: não havia uma categoria profissional, não havia (a não ser os testes) um conjunto de ferramentas de trabalho, não havia um discurso que identificasse os psicólogos, enfim, não havia nenhuma condição social para o reconhecimento oficial, legal, de uma profissão de psicólogo. É interessante observar que os psicólogos foram surpreendidos pelo Projeto de Lei. Quando o Projeto de Lei já estava pronto, os psicólogos foram chamados para opinar sobre ele. Não gostaram, e, a partir disso, trabalharam para modificá-lo, para produzir emendas. O Projeto modifica quase completamente o texto original. Aprovada a Lei, restou o desafio de construir a profissão. Tínhamos um certo reconhecimento social que provinha das elites, mas a sociedade como um todo desconhecia a Psicologia e sua contribuição. Os anos 70 e o início dos anos 80 são fundamentais para a mudança de rumo da profissão no País. Na faculdade em que fiz o curso, por exemplo, existia um professor que criou uma disciplina chamada Caracterização sociopsicológica do trabalhador brasileiro, no início dos anos 70. Íamos para Osasco, São Bernardo do Campo, Santo André conversar com grupos operários sobre a Psicologia, e a população desconhecia completamente o que estávamos falando. Quando perguntávamos se conheciam psicólogos, a resposta era negativa. Quando perguntávamos se, na empresa onde o operário trabalhava, ele tinha feito seleção, alguns entrevistados diziam conhecer o psicólogo da seleção de pessoal, que era tido, no imaginário operário dos anos 70, como um porteiro de luxo que impedia seu trabalho usando ferramentas cuja efetividade a população desconhecia. Eu me lembro de termos feito uma matéria no jornal da

faculdade, ainda como aluna, que relatava a história ouvida de um operário. Ele contava que havia perdido uma oportunidade de emprego porque não soube desenhar uma árvore, como o psicólogo havia solicitado. Dizia ele: “O psicólogo mandou desenhar uma árvore e depois disse que eu não servia para o trabalho”. De certa forma, até hoje, na seleção de pessoal, permanece esse problema do desconhecimento de como essas atividades podem servir para efetivamente selecionar. Se um profissional da seleção pedisse para que o operário apertasse um parafuso e avaliasse que não apertou bem, seria fácil entender não ser aprovado, mas mandar desenhar uma árvore soava estranho. Isso mostra o caminho de elite da profissão. Nossas formas e instrumentos de trabalho utilizavam e ainda utilizam recursos que, muitas vezes, não são compreendidos pela maioria da população, às vezes porque são sofisticados para quem tem pouca escolarização, às vezes porque se tem dificuldade de entender a relação com o objetivo para o qual se emprega a técnica. Edla Grisard de Andrade – Quer dizer, não era significativo para a camada pobre ou mesmo média da população? Ana Bock – Isso; havia uma relação distante com a população, que era tensa, de medo, de desconhecimento. Era um enigma o que aquele profissional efetivamente fazia e, ao mesmo tempo, havia um reconhecimento de certo poder no que ele fazia, na possibilidade de tirar do lugar, mandar para outro lugar, reprovar na escola, colocar na classe especial. As pessoas não sabiam o que faziam os psicólogos, e daí o imaginário de que os psicólogos adivinham a cabeça do outro ou que tratam de gente que tem a cabeça fraca, que é doido. Os pais muitas vezes se referiam aos psicólogos dessa forma. Os exemplos são para dizer que era uma profissão que não tinha nenhum interesse, nenhum projeto para se aproximar efetivamente da população e fazer um tipo


de serviรงo que fosse percebido


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como necessário ou para responder às suas necessidades. Estávamos efetivamente ligados aos interesses da elite brasileira e ao seu projeto de modernização. Esse caminho não é sem pedras. Encontra-se, na história da profissão no País, pessoas que buscavam outras formas e outros compromissos para a Psicologia. Os psicólogos, quando entravam na saúde pública e levavam o modelo de trabalho que estavam acostumados a utilizar com a elite, encontravam dificuldades muito grandes para exercer esse trabalho, porque as técnicas e as ferramentas eram todas intelectualizadas, os recursos de linguagem sofisticados, e não serviam para a maioria da população. Isso é vivido como uma crise que se acentua nos anos 70 com o desenvolvimento do pensamento críti co na sociedade, decorrente da ampliação do movimento social que se organizou para combater a ditadura militar. É o lado contraditório da ditadura. Ela vem para nos calar, para nos impedir, mas, contraditoriamente, produz um tensionamento, uma insatisfação, e vai produzindo nas universidades e na sociedade em geral um pensamento crítico. Edla Grisard de Andrade – E abre a brecha para o projeto do compromisso social, é isso? Ana Bock – Sim, é isso. Alguns aspectos dos anos 70 nos permitem compreender porque o projeto do novo compromisso social vai surgir nesse período. O fato de termos a ditadura militar e a perseguição aos intelectuais, a toda a esquerda, deve ser levado em conta. A parte intelectual dessa esquerda recua para as instituições universitárias e vai fazer o seu trabalho de militância ali, ensinando Marx, que propicia leituras mais críticas. Contraditoriamente, na ditadura militar, o marxismo, um pensamento que estava resguardado às esquerdas brasileiras, começa a se espalhar. Outra coisa é todo o movimento operário, que “A Psicologia no Brasil”

cresce. Há um caldo de movimento social importante: o fortalecimento dos sindicatos,


as grandes greves de 1970, 1972, em São Bernardo, o surgimento da liderança do Lula. Essa movimentação à esquerda propicia o surgimento, nos cursos de Psicologia, de pensamentos críticos, principalmente de questionamentos sobre de que lado estavam os psicólogos. Começa a surgir o desenho de uma nova profissão.

metade da década de 70. Era uma outra camada social que ingressava nas universidades, que até então eram reservadas às elites. Isso muda a Universidade, isso muda a formação e muda a profissão.

Também é fator importante a abertura das universidades para a camada média. A ditadura precisava do apoio das camadas médias para se sustentar. Ao mesmo tempo, quando ela abre o País aos grandes investimentos internacionais, começam a se instalar os grandes monopólios. Os pequenos negócios, como a vendinha da esquina, a padaria, a costureira, o alfaiate, o sapateiro, vão começar a falir, e os filhos da camada média vão perder sua possibilidade de manutenção do status de camada média. Claro que a ditadura perderia o apoio dessa camada se isso se mantivesse assim. Então, a ditadura negocia com esse grupo a possibilidade de que seus filhos, não mais herdeiros dos pequenos negócios, se tornem psicólogos, médicos, engenheiros, advogados. E assim as universidades vão ampliar as suas vagas. Há um grande boom das universidades na primeira

Edla Grisard de Andrade – Quantas universidades de Psicologia nós tínhamos nessa época? Ana Bock – Tínhamos poucas; é nos anos 70 que muitos cursos vão surgir. São Paulo passa a ter um grande número de cursos que colocam no mercado um número enorme de profissionais. Sou o nº 2.771 no Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP– 06), inscrita em 1977. Como esse Conselho tinha, à época, mais de 60% dos psicólogos

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inscritos no País, significa que não éramos mais de 5 mil (aproveito para salientar que estamos em meados dos anos 70, imagine em 1962, quando a Lei foi promulgada!). Em 1980, já se encontram nas estatísticas 30 mil. Há um salto. Crescemos em progressão geométrica, principalmente no Sudeste, depois nos espalhamos mais lentamente pelo País. Nos anos 90, em alguns Estados do Norte e do Nordeste, ainda se tem uma escola de Psicologia por Estado. Hoje não há nenhum Estado que tenha só um curso. Mas o boom dos anos 90 tem outras condições e características. Iracema Neno Cecílio Tada – A partir da década 70, quais áreas de atuação têm mais destaque? Ana Bock – Vou chegar lá, mas quero fazer outra correção antes. Acho que, nos anos 90, o outro boom que vai acontecer nas escolas não é ainda por uma política de acesso das camadas pobres. Atualmente, há ampliação de vagas nas universidades federais, tem o Programa Universidade para Todos, o Prouni, e agora sim, há um projeto de acesso das camadas pobres. Mas o que leva ao grande boom das escolas na década de 90, que leva Rondônia a ter sete cursos, Santa Catarina a ter 23, é o projeto neoliberal, de redução e privatização dos serviços que eram do Estado, o projeto do Estado mínimo. É essa redução dos serviços prestados pelo Estado, mas não de redução do seu controle, que vai permitir que os grandes investidores da bolsa de valores, negociantes que tinham negócios de outra natureza, passem a investir na educação, levando à abertura de escolas particulares no ensino fundamental, no ensino médio e nas universidades, campo que tinha uma demanda reprimida muito grande. Isso é um parêntese que faço, apenas para destacar que temos crescimento das universidades por vários motivos, no decorrer da História. Nos anos 70, era devido à cooptação das camadas médias pela elite.

Então, chega-se aos anos 70 com esses fatores: a ditadura, o movimento social, a classe média na Universidade. Isso vai trazer para a Universidade e para a organização da categoria profissional, dos sindicatos, do próprio Conselho, questionamentos sobre que profissão temos. Era muito comum, naquela época, encontrar semanas de Psicologia que tinham como questões que Psicologia queremos, que psicólogos queremos ser. Era um movimento de construção de identidade, e estava posta a questão será que eu quero ser esse psicólogo que está aí, da elite? Isso vai se fortalecer enormemente nos anos 80, quando acontecem duas coisas importantes: a entrada dos psicólogos na saúde mental, encontrando ali o movimento sanitarista já organizado e avançando a passos largos, e o surgimento, a partir das universidades, da Psicologia comunitária, que nasce nos estágios dos alunos. Eles vão fazer suas experiências junto ao operariado, em São Bernardo, Osasco, no caso de São Paulo, ou vão trabalhar na favela, junto ao movimento de creches ou nas comunidades de bairro. É o momento do desenvolvimento do pensamento do Paulo Freire. A Igreja vai utilizar o pensamento freiriano como um pensamento capaz de organizar as populações. É o momento das organizações das pastorais operárias. A Psicologia na saúde mental, dentro do serviço público, vai se distinguir completamente da saúde que se fazia nas clínicas psicológicas particulares, que nem se chamava saúde. E isso vai mudar muito a cara da profissão. Os psicólogos vão entrar na saúde, vão se organizar na saúde, vão se destacar, vão virar lideranças na saúde. Essas novas práticas vão, aos poucos, penetrar nas Universidades, modificando a formação. A Psicologia comunitária também teve esse mesmo papel. Ela, diferentemente da saúde, começou nas universidades e se espalhou para a profissão. De qualquer forma, eram dois movimentos que a profissão


fazia que se integravam, se alimentavam desenvolvimento de um novo projeto para a

e

propiciavam

o


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profissão: o projeto do compromisso social. Edla Grisard de Andrade – Qual a repercussão disso para a Psicologia? Ana Bock – Isso fortalece um pensamento novo no campo da Psicologia. A Psicologia comunitária é um contato direto e uma expressão direta de projeto de compromisso com a população. São os psicólogos trabalhando nas favelas, nas comunidades e associações de bairro, nas creches, junto com as mães no movimento de creche e nas entidades sindicais. É dessa experiência que, acho, vão começar a surgir e a se desenvolver novas áreas e novas possibilidades de intervenção: uma nova tecnologia para o trabalho do psicólogo, ampliando as formas restritas que havia. Ana Maria Almeida comenta, a partir da pesquisa realizada em 88 pelo CFP, que resultou no livro Quem É o Psicólogo Brasileiro, que não tínhamos um instrumental de trabalho diversificado. Os psicólogos faziam a mesma coisa em todos os lugares em que atuavam. Nos anos 80, isso se modifica. Outros fazeres começam a se instituir como real possibilidade de trabalho em Psicologia. Cabe lembrar que, em 2000, quando realizamos a I Mostra Nacional de Práticas em Psicologia: Psicologia e Compromisso Social, tivemos dificuldades para que os psicólogos, que atuavam de maneira distinta do que se poderia chamar de tradicional, reconhecessem que o convite para mostrar seu trabalho era para eles. Eles achavam que não atuavam em Psicologia porque não faziam as atividades que estavam marcadas e que identificavam o campo. Mas, termos recebido dois mil trabalhos mostra que a nova Psicologia já estava inventada. Tudo isso significa que já havia um novo jeito de se colocar na sociedade, comprometido com necessidades, com carências, com exigências que vinham de outros segmentos da população. “A Psicologia no Brasil”

Edla Grisard de Andrade – Claro que é tudo


muito dialético, mas às vezes me pergunto se não é também uma reparação com a população, porque a profissão começou voltada para as elites e, em certa medida, por todo esse movimento contraditório, acaba atendendo as demandas da população.

preciso construir uma nova psicologia adequada às necessidades da nova clientela. Eu diria que essas são tensões na profissão, tensões que são quase permanentes.

Ana Bock – Sim, é um atender as demandas da população, como disse no começo, não sem contradições, não sem intenções. Existe um voltar-se para a população que está diretamente relacionado a interesses corporativos, de ter emprego, não exatamente ao acesso da população. Mas está tudo colocado em um mesmo campo, há um diálogo e uma tensão permanentes entre aqueles que constroem o projeto do compromisso social, porque acham que a Psicologia deve colaborar com a transformação da sociedade, dando condições dignas de vidas para a garantia dos direitos humanos, e entre aqueles que só estão interessados em ter emprego e acham que, para isso, é preciso que a Psicologia possa ser estendida a outras pessoas. A Psicologia é um bem social e todos devem ter acesso a ela, mas há uma divisão entre aqueles que acham que essa ampliação significa apenas utilizar os recursos existentes com a nova clientela e aqueles que acham que é

Iracema Neno Cecílio Tada – E há um distanciamento do compromisso teórico, crítico, com a técnica. Ana Bock – Há um distanciamento. Há pouca preocupação com a reformulação da técnica. Por quê? Essa é justamente a questão que me levou a estudar o fenômeno psicológico como é visto pelos psicólogos. Como temos, talvez hegemonicamente ainda, o pensamento de que o fenômeno do psicológico é um fenômeno natural do humano, universal no humano, tomamos nossos conceitos das várias

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Não passa pela cabeça – ainda – da maioria dos psicólogos, que nossa psicologia é uma psicologia branca, masculina, europeia ou americana. Há estudos específicos da negritude, da existência negra no Brasil, em que mais de 50% da população se reconhece negra. Essa questão não é percebida. Não discutimos, no curso de Psicologia, essas questões, não fazemos pesquisa para conhecer essa realidade psíquica da maioria de nossa população.

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teorias psicológicas e os aplicamos a qualquer humano. É a ideia de que todos são iguais, todos são dotados dessas potencialidades, que vem do pensamento liberal e que permite que se aplique à Psicologia, da mesma forma, a mesma técnica para todo mundo. Não passa pela cabeça – ainda – da maioria dos psicólogos, que nossa psicologia é uma psicologia branca, masculina, europeia ou americana. Há estudos específicos da negritude, da existência negra no Brasil, em que mais de 50% da população se reconhece negra. Essa questão não é percebida. Não discutimos, no curso de Psicologia, essas questões, não fazemos pesquisa para conhecer essa realidade psíquica da maioria de nossa população. Há um estudo de Franklin Ferreira que mostra quão poucos estudos existem sobre a questão negra no campo da Psicologia. Temos dificuldade de perceber o quanto as construções da Psicologia acabam ocultando a desigualdade social, as diferenças sociais, porque vamos aplicar os mesmos conceitos, o mesmo esquema teórico para qualquer sujeito. Essa questão a profissão ainda tem para enfrentar nos próximos anos. Há muita coisa escondida por detrás de nossos conceitos, porque ainda não fomos capazes de dar visibilidade, de enxergar com clareza que, em nossos conceitos, em nossas técnicas, está embutido um padrão de branco, masculino, europeu, e que, nas nossas teorias de desenvolvimento, ainda estamos presos a conceitos e construções que têm como modelo crianças americanas ou suíças. Ainda não vemos problema nisso, porque não se evidenciou a questão no campo da Psicologia. Nós ainda não duvidamos que os sujeitos sejam universais, não pusemos a questão verdadeiramente na Psicologia de forma que todo mundo possa dizer: “Onde está esse sujeito? Ele é índio. Será que posso usar os meus recursos teóricos que foram criados na Europa branca para entender o dinamismo psíquico do

índio? Servem? E o negro? E a mulher brasileira


das periferias que chefia sua família?” Mas o projeto do compromisso social já colocou essa questão sobre a mesa e, com certeza, vamos avançar nela. Edla Grisard de Andrade – Por outro lado, há quem diga que esse tipo de pensamento enfraquece o cientificismo da

Psicologia, há quem critique muito essa ideia de psicologias. Ana Bock – Há mesmo. Você tem toda razão, por isso digo que é um debate necessário. Minha opinião aqui explicita UMA posição, mas não a única posição. Há muitos pensamentos distintos no campo da Psicologia (há psicologias) que precisam ser debatidos. Quando se começa a dizer que nem todas as pessoas são iguais, que esse conhecimento não serve para algumas, começa-se a questionar a própria sustentação do pensamento moderno, de que todo mundo é igual e pode ter as mesmas condições. Já foi a época em que nobres eram uma coisa e servos eram outra. O pensamento liberal rompeu essa certeza e disse que todo mundo pode ser igual, depende do

esforço de cada um. Foi dado um salto revolucionário do pensamento feudal, sem dúvida alguma. Então, é difícil superar isso sem que se caia na ideia de que os sujeitos são novamente colocados como desiguais pela sua condição. O reconhecimento da desigualdade tem de ser um reconhecimento da desigualdade social aliado a um pensamento de que as condições sociais constituem subjetivamente os humanos, para o psicólogo poder, ao considerar os sujeitos de forma desigual, entender que são as condições sociais e subjetivas, históricas, que estão produzindo essas diferenças. Edla Grisard de Andrade – Isso amedronta o profissional que está lá na ponta, junto com a população. Ana Bock – Claro, pois levamos cinco anos para nos formar, e agora tudo o que


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se aprendeu não serve para trabalhar na Unidade Básica de Saúde ou em um Centro de Referência em Assistência Social (CRAS). Nós nos sentimos desarmados. A dificuldade de nos instrumentalizarmos para trabalhar nesses locais faz, muita vezes, com que prefiramos achar que todos os sujeitos são idênticos e que se pode usar o mesmo recurso, pois é o que aprendemos. Edla Grisard de Andrade – Como a senhora vê a função da Academia nesse processo, como formadora? O quanto a Academia ainda está, ou não está, distante do profissional que repete técnicas descontextualizadas, porque as aprendeu na Academia? Ana Bock – Tenho visto a Academia com muito pessimismo, talvez porque esteja muito dentro dela, há muitos anos. Eu pensava que as diretrizes curriculares, só pelo fato de serem algo que nos moveu do lugar, poderiam produzir outra realidade de formação acadêmica, sem deixar de reconhecer que muitos cursos fazem hoje um esforço para absorver as questões da população; eu acho a ciência dura. Há esforço nos estágios, professores fazendo inovações, colocando os alunos em situação, mas o conhecimento é duro. Ele não se move. Continuamos tendo, nos cursos de Psicologia, as teorias ensinadas sem suas bases epistemológicas, sem que se ensine qual humano está presente, qual humano é o modelo em cada uma dessas teorias. Tenho dito que nossa formação é tecnicista, ou seja, ensinamos para aplicar o que ensinamos. Não temos tido uma postura universitária e científica que implica duvidar, questionar, interrogar o conhecimento a partir do contato problematizador com a realidade. Acho que é isso que temos que fazer: ensinar um contato problematizador com a realidade. Podemos e devemos ensinar todas as psicologias que são produzidas no mundo todo, mas não podemos continuar com essa postura colonialista de receber e aplicar. É preciso traduzir, e isso significa

dialogar com os conhecimentos produzidos em outros países de modo a reinterpretá-los. Edla Grisard de Andrade – E não se constrói uma teoria que seja própria do Brasil. Ana Bock – Nós precisamos ter um conhecimento que SIRVA para o Brasil, ou seja, para todos os brasileiros. Se ele é produzido aqui ou reinterpretado aqui, não importa muito. O que não se pode é aplicar mecanicamente o que é produzido a partir de outras realidades. Os povos latinoamericanos têm realidades parecidas e desafios parecidos. No entanto, estamos isolados. Deveríamos fazer um esforço mais coletivo, pois precisamos ter aliados para a produção de uma nova psicologia. Há esforços no México, em Cuba, na Argentina, no Uruguai, no Chile, cada um pensando, em seu país, qual o melhor jeito de se libertar da psicologia americanizada ou europeizada. Até agora, não nos aliamos completamente para esse esforço. Lemos um autor americano porque se traduz aqui o livro, mas não lemos o autor de língua espanhola. Dificilmente os alunos estudam Baró, por exemplo, ou autores argentinos, como pensamento importante na América Latina. E eles, os outros latino-americanos, leem quase nada de português. Ainda estamos distantes, não temos a construção feita, mas já estamos nesse tempo histórico, e é por esse motivo que conseguimos dizer que temos que formar a Psicologia na América Latina, que ainda temos que criticar o pensamento do homem universal, do homem natural, ainda temos que sair dessa ideia de que os sujeitos fazem um esforço para produzir sua individualização, a partir do puxar seus próprios cabelos. Então, eu diria que já estamos no tempo de um novo compromisso social. Nesse sentido, sou otimista. E acho que é a prática dos psicólogos nos locais de trabalho, em todas essas frentes que se abriram – na área jurídica trabalhando nas Varas, em

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penitenciárias, no Conselho Tutelar, na assistência social, nos CRAS e nas

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medidas socioeducativas, na saúde pública, na área do trabalho, na educação, discutindo seu fazer, se organizando para um novo pensamento. Edla Grisard de Andrade – No início da entrevista, falaste algo sobre, no início dos anos 70, ser dado ao psicólogo a oportunidade de trabalho, mas dizia-se o que ele deveria fazer. Hoje eu ainda vejo que, no campo jurídico, por exemplo, pelo menos na minha realidade em Santa Catarina, o psicólogo que entra no tribunal de justiça recebe um pacote do que deve fazer. Ainda se mantém esse funcionamento, embora um pouco mais crítico. Ana Bock – Um bom termômetro disso é avaliar a entidade de cada área. Há setores que têm entidades bastante representativas, com congressos fortes, que agregam a categoria, que reúnem pessoas que pensam criticamente sobre a Psicologia e, com isso, se tem a prática avançando e a organização avançando, criando possibilidades. Quando se avança na prática, avança-se na organização, e vice-versa. Iracema Neno Cecílio Tada – Quando temos a prática avançando com a organização, podemos, quem sabe, por meio dos eventos científicos, levá-las para a Academia e, com elas, rever alguns construtos, algumas teorias que já estão tão firmes. Ana Bock – É isso, você tem razão. É importante agregar. Tem-se a práti ca profissional avançando, a organização avançando e o conhecimento avançando; tem-se as entidades sendo pressionadas para superar aquele modelo tradicional. Não quer dizer que conseguirão superar, mas elas estão sendo pressionadas. Iracema Neno Cecílio Tada – O Paulo Rosas, no texto publicado no número zero da revista que é a base para esta conversa sobre o desenvolvimento da profissão, coloca o

quanto a Academia estava distante da prática profissional, sem fornecer instrumentos para o psicólogo atuar. O psicólogo estava atuando aleatoriamente, buscando, em sua prática, condições e recursos para sua atuação. Ele chama esse fenômeno de psicologia paralela, casuística, limitando-se a uma reflexão sobre a experiência individual. No começo da tua fala, eu estava angustiada, pensando que não mudamos muito. Mas mudamos por termos as associações, as organizações, que permitem que o profissional, com a Academia, possa repensar um pouquinho sua formação inicial. Ana Bock – Nós mudamos, e a existência do projeto do compromisso social, do qual partilho, demonstra isso. Nesse movimento histórico contraditório, temos as organizações que vamos formando e há uma camada média – hoje podemos falar até de uma camada mais pobre – que entra na universidade. Vão se criando contradições. Meus alunos, que são de uma faculdade da elite paulista, são 900 jovens que agora convivem com cem alunos que são do ProUni, ou seja, 10% deles vêm da camada pobre da população. É interessante pensar que existem lá 900 representantes da elite convivendo obrigatoriamente com essa camada mais pobre. A organização social, o crescimento do movimento social, o momento de democratização do País, o projeto de governo atual, voltado para a maioria da população, o fortalecimento da crítica à perspectiva neoliberal, temos tudo isso. Mas temos, por outro lado, uma sociedade moderna que se individualiza cada vez mais, e esse talvez seja um dos elementos que traz valorização e demanda à Psicologia. O indivíduo toma um lugar cada vez maior na preocupação social, no projeto da modernização da sociedade, e então tudo o que servir para avaliar esse indivíduo é bom. E tudo o que servir para avaliar a felicidade também. Hoje começamos a falar, no campo da Psicologia, de felicidade. O que é isso que estamos trabalhando? Contraditoriamente, percebendo que o indivíduo está correndo


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o risco de ser considerado descolado do contexto, do seu meio. Aí vem a força social contraditória que vai rebater, dizendo que não podemos considerar o indivíduo isoladamente. São pensamentos do nosso tempo e que estão aí para serem debatidos. Por isso, a organização e a formação se tornam aspectos importantes, porque são espaços privilegiados do debate e da conversa. Não temos que pensar em ter um pensamento único; temos que nos esforçar para dialogar, para trocar ideias e para avançarmos todos na direção de nossos projetos. Poderíamos nos perguntar: estamos melhor ou pior? Há um movimento, e vamos poder avaliar se é pior ou se é melhor conforme essas forças contraditórias se colocarem: se o fortalecimento da ideia do sujeito coletivo, de sujeito contextualizado é grande e enfrenta a ideia de indivíduo isolado, que busca a sua felicidade individual. De um jeito ou de outro, esse confronto existirá. Nosso pensamento não é hegemônico, mas existem horas em que nosso pensamento disputa lugar com o hegemônico. Respeitamos a diversidade da Psicologia, não queremos um pensamento único, mas queremos o direito de colocar nosso pensamento na cena social para que ele possa ter certo reconhecimento e possa ser considerado uma alternativa. Iracema Neno Cecílio Tada – E quando você estava no Conselho, quais foram as principais dificuldades da profissão? Ou no sindicato? Edla Grisard de Andrade – No eixo ciência e profissão. Ana Bock – No sindicato, a realidade era outra. Mas também já faz muito tempo que estive no sindicato. A questão principal era que o psicólogo não se percebe como trabalhador. Há dificuldade de construir um pensamento sindical na categoria dos psicólogos, estamos “A Psicologia no Brasil”

mais para sujeitos endeusados do que para meros mortais trabalhadores. Não importava


ganhar pouco, porque gostavam do que faziam. Então, era e é muito difícil conseguir construir, dentro da categoria dos psicólogos, um pensamento sindical. Acho que nosso ingresso no serviço público e em muitas instituições vai permitindo isso, mas ainda é muito difícil. As pesquisas têm mostrado que, quando se pergunta aos profissionais por que foram cursar Psicologia, os quatro tipos de resposta não se referem a uma atividade social. Referem-se a um prazer com o conhecimento, um prazer em conhecer o outro, em conhecer-se melhor e em ajudar o outro. Em nosso campo, é difícil encontramos a clareza de que Psicologia é um trabalho na e para a sociedade; as respostas indicam um projeto mais voltado para si mesmo ou para os sujeitos individualizados. Ainda hoje, dificilmente se encontra a argumentação de trabalhos sociais como motivo para a escolha da profissão. Isso mostra que construímos nosso imaginário, nossos significados sobre a profissão incluindo pouco a ideia de que é um trabalho para a

sociedade, do qual a sociedade precisa. Pensamos, muitas vezes, que sempre existiu Psicologia, e, se não existiu, as pessoas deveriam sempre ser muito infelizes. Não percebemos que foi a própria história humana que tornou necessário um conhecimento como o nosso, que servimos ao pensamento moderno e que poderemos desaparecer com a superação desse pensamento. Essas ideias de felicidade, de sujeito, de indivíduo, são todas da modernidade. Sem falsa modéstia, acho que fizemos um excelente trabalho no Conselho. Falo isso sem modéstia, porque não fui eu quem fiz, mas um conjunto muito grande de pessoas que trabalhou por esse projeto, ocupando as direções dos Conselhos Regionais, sendo colaboradores dos Conselhos Regionais e

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A perspectiva histórica nos dá humildade, nos dá a capacidade de nos apaixonarmos pela questão da Psicologia, pela importância da inserção social da Psicologia na nossa sociedade; essa perspectiva nos permite a crença absoluta de que a Psicologia pode e deve se inserir na construção de uma sociedade melhor, que ela tem condição de fazer isso.

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do Federal, que passaram a envolver uma quantidade muito grande de gente disposta a construir um novo projeto para a Psicologia. Uma das dificuldades é enfrentar a resistência para o novo projeto. A categoria ainda não está completamente interessada no projeto do compromisso social. O desafio, para nós, era poder fazer a relação desse novo projeto com interesses corporativos, por exemplo. Quando se luta por políticas públicas, está se defendendo outro projeto de compromisso social para a Psicologia e também se está defendendo emprego para os psicólogos. O desafio da boa política hoje está em poder juntar os interesses dos psicólogos no projeto do compromisso social, mas favorecendo as condições de trabalho, ampliando o lugar social do psicólogo, produzindo reconhecimento pelos gestores públicos. O desafi o é esse. Por exemplo, nos testes psicológicos, foi difícil para nós demonstrarmos e convencermos a categoria da importância e da necessidade da regulamentação e da avaliação dos testes, mas ela está completamente convencida. O nosso novo código de ética, que agora já sofre nova pressão para mudar, foi notícia nos jornais, que diziam: “Os psicólogos agora vão ser dedo duro”. Fomos em frente e convencemos completamente a categoria de que era preciso repensar nosso código de ética. E assim poderíamos citar várias das iniciativas que tivemos. Já citei a I Mostra, mas pode-se acrescentar: a criação do Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira – FENPB, a questão dos direitos humanos, a resolução da orientação sexual, o fortalecimento das formas democráticas de estruturar e funcionar dos Conselhos (os Congressos – CNP e a Assembleia de Políticas, de Adminstração e de Finanças – APAF), o Banco Social de Serviços, o CREPOP, enfim, muitas das iniciativas demoram a ser reconhecidas e aceitas. Mas esse é o papel do gestor, e nunca nos recusamos a

esclarecer, demonstrar, debater e mesmo retomar e mudar.


O segredo talvez esteja em uma gestão afetiva das entidades. Sei que a maioria da categoria não pensa como nós pensamos, nem estamos querendo isso, mas tenho um respeito absoluto pela existência de diversos pensamentos, porque reconheço esses diversos projetos como frutos da História, das

possibilidades sociais que o Brasil deu para o desenvolvimento da profissão. Nada do que existe no campo da Psicologia me é estranho, porque tudo tem sua justificativa no processo da evolução da profissão, inclusive o pensamento que defendo, que também tem as limitações históricas. A perspectiva histórica nos dá humildade, nos dá a capacidade de nos apaixonarmos pela questão da Psicologia, pela importância da inserção social da Psicologia na nossa sociedade; essa perspectiva nos permite a crença absoluta de que a Psicologia pode e deve se inserir na construção de uma sociedade melhor, de que ela tem condição de fazer isso. Tudo isso permite uma gestão muito carinhosa das questões da profissão.

Ana Bock – De respeito, de as pessoas perceberem que dialogamos com o diferente, esse tempo todo. Ana Bock – Às vezes as pessoas falam que já estamos no Conselho há muito tempo. Mas o nosso projeto se modifica, ele caminha, e o que se mantém nos grupos que vêm ocupando o Conselho Federal e os Conselhos Regionais é esse respeito à categoria, saber que o meu projeto para a profissão não é o único. Então, o que temos de fazer é possibilitar o diálogo de projetos. E o espaço das entidades deve ser um espaço cidadão, ou seja, do direito de cada um defender o seu projeto. Edla Grisard de Andrade – E esse espaço se dá melhor, em sua opinião, nas associações?

Edla Grisard de Andrade – De respeito. Ana Bock – Ele tem se dado hoje nas entidades, porque se comprometeram com o


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espaço coletivo que é o Fórum das Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira (FENPB), e com espaço na América Latina, que é a União Latinoamericana de Entidades de Psicologia (ULAPSI). Mas não acho que seja só. No campo da Psicologia, desenvolvemos a ideia de que as entidades são um espaço para a diversidade, para o embate, para o diálogo, concepção que, podemos dizer, a cultura da Psicologia hoje alimenta. Quando há uma entidade pouco democrática, todos criticam. A Universidade deveria ser um lugar do diverso, mas temos tido pouco o embate das formulações distintas. A Universidade ainda tem, ao meu ver, muita característica de igreja, no sentido do lugar da certeza, da verdade. O professor tem uma abordagem e tem certeza, dá aula como se estivesse contando ao aluno qual é a verdade, não se relaciona com o saber que transmite como um saber provisório, que é fruto de um consenso temporário. Então, o aluno se relaciona da mesma forma com o saber que ele ouve, recebe, incorpora. E isso faz da Universidade um lugar muito duro, muito antigo, muito superado em seu formato. Edla Grisard de Andrade – Que interessante. Tive uma experiência como professora e vivi o oposto, os alunos exigindo de mim um dogma, como se que eu tivesse de dizer para eles o que está certo. Ana Bock – Sim, é desse jeito que eles se relacionam com o saber, e nós reforçamos essa postura. Nós mesmos, professores, não nos relacionamos com o saber como um consenso provisório. O saber tem sido visto por todos como A VERDADE. E o aluno demonstra que se relaciona assim também quando pergunta: “Mas o que está certo?”, “Quem está com a verdade?” Tenho achado, nos últimos tempos, que esse é um dos “A Psicologia no Brasil”

aspectos mais importantes para a mudança: a relação que mantemos com o saber em Psicologia. Sabermos que a Psicologia nem sempre existiu, sabermos que ela é criada


para responder a necessidades específicas de um tempo histórico, saber que seus saberes são consensos sociais, frutos de acordo, na medida em que o que chamamos de TEORIA é um saber que responde adequadamente a uma pergunta da sociedade, enfim, defendo uma postura histórica frente ao saber em Psicologia e, claro, frente à profissão. Mas voltando à questão da avaliação da gestão do Conselho, gostaria de indicar ainda que tenho uma avaliação positiva, acho que caminhamos. Tenho certeza de que nos movimentamos na direção de termos a História em nossas mãos. Acho que isso é importante. A Psicologia não tinha as rédeas da sua história nas mãos dos psicólogos, e os psicólogos caminharam nessa direção. Acho que esse é o grande avanço da Psicologia dentro do cenário brasileiro. Edla Grisard de Andrade – Olhando um pouquinho prospectivamente, como tu achas que estará daqui a trinta anos? Ana Bock – Se já tiver superado o pensamento moderno, podemos até não ter mais Psicologia (risos). Daqui a trinta anos, talvez a gente tenha

nova crise para superar, porque acredito que, nos próximos dez ou vinte anos, vamos crescer, e, talvez em trinta anos, tenhamos novas questões nos emperrando ou nos desafiando. Acho que dá para arriscar a previsão do futuro para os próximos dez anos. Nos próximos dez anos, os psicólogos ganharão um enorme reconhecimento social, porque é tempo suficiente para estarmos nos espaços e sabermos o que devemos fazer. Isso poderá ocorrer se o País continuar com essa cultura, que vai se desenvolvendo, com a possibilidade de a população ter suas reivindicações atendidas, desse valor que os Fóruns Sociais Mundiais têm trazido e que está relacionado ao fato de termos na sociedade organizações, movimentos que dão força a essas questões, até com o envolvimento da própria elite – que começa a

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se envolver em movimentos de qualificação e de atendimento universal da escola, por exemplo. Nós, muitas vezes, estamos nos espaços, mas ainda não sabemos exatamente o que fazer. É o que acontece, por exemplo, com os psicólogos dos Centros de Referência em Assistência Social (CRAS). Isso está relacionado com o Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas (CREPOP), que é uma invenção importante do campo da Psicologia, porque vamos produzir ininterruptamente, mudando e oferecendo à sociedade, aos gestores, aos estudantes, aos professores, aos psicólogos, referências para a construção ou para a reformulação de uma prática condizente com o novo projeto. O CREPOP é uma coisa ainda tímida, ainda engatinhando, mas, em dez anos, teremos uma referência importante, e isso significará, sem dúvida alguma, a possibilidade de


ampliaç ão, que envolve um reconhe cimento muito grande da inserção social dos psicólog os na socieda de brasileir a. Edla Grisard de Andrad e– Então nós temos um compro misso marcad o para daqui a dez anos. Ana Bock – Eu fui ao Mato Grosso do Sul, e a profess ora que me convido u lembro u que eu havia

ido lá em 2001 para a instalação do curso de Psicologia e havia feito a conferência de abertura. Ela me avisou que o texto estava no site deles. Fui olhar depois de já ter preparado minha fala, e pensei: “Puxa, olha o que eu disse aqui. Não penso mais isso”. Então, comecei minha conferência dizendo estar muito feliz de voltar, porque em nove anos eu mudei. Os assuntos eram os mesmos, eu falava da profissão, da história da profissão, do mercado de trabalho, mas algumas coisas eu expliquei melhor, reformulei. Sinal de que não temos outra alternativa a não ser acompanhar a História.


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A Psicologia como Ciência: Entrevista com Cesar Ades

Cesar Ades Universidade de São Paulo

Henrique Figueiredo Carneiro – A proposta para comemorar esses 30 anos da revista Psicologia: Ciência e Profissão é publicar uma edição especial, resgatando a história da publicação e a história da Psicologia em nosso país. Trabalharemos nas duas vertentes da revista: a Psicologia como ciência e como profissão. A partir dessa intenção, buscamos pessoas que são referência para essas áreas no País para ter essa conversa. Inara Barbosa Leão – Nesses trinta anos, “A Psicologia no Brasil”


como o senhor avalia a situação da ciência psicológi ca no Brasil? O Paulo Rosas, no texto publicad o na revista número zero, era otimista quanto à possibili dade de avanço e pontuav a algumas dificulda des. Não temos, necessar iamente , que nos prender àqueles indicado res, até porque nossa situação é muito diferenci ada, mas podería mos começar por esse tema.

Cesar Ades – Sou um otimista de plantão, de carteirinha. Sempre olho o lado construtivo, o muito que há por fazer. A Psicologia me encanta desde que comecei, nos tempos da Maria Antonia, e vejam que comecei quando existiam três cursos de Psicologia no Brasil inteiro. Uma pessoa era considerada excêntrica, diferente, se escolhesse a Psicologia como carreira. Fico impressionado de ver a expansão da área. Há uma nova consciência psicológica, e o número de psicólogos condiciona progressos na pesquisa, na compreensão, na atuação social. Pelo menos temos a força do número, sem dúvida, estamos presentes. Tenho pensado muito no papel social, no valor estratégico da Psicologia e conversado com a Ana Bock a respeito disso. Já coordenamos uma mesa sobre o assunto no III Congresso Brasileiro Psicologia: Ciência e Profissão (2010). A Psicologia tem que se colocar estrategicamente, em função de sua inovação e de cenários futuros. Ela não tem o valor de outras iniciativas que são estratégicas na medida em que geram recursos, ela é estratégica em função do bem-estar que pode gerar, e isso é essencial.

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Cada vez mais, as ciências entram em interação e interdependência, e esse é especialmente o caso da Psicologia. Pode ser que exista uma Física independente, mas a Psicologia é, por natureza, interdisciplinar. Não se pode pensar em uma Psicologia sem Antropologia, sem educação, sem biologia, sem fisiologia. Somos um pouco híbridos, cada psicólogo elege uma área externa com a qual se relaciona, aprende a falar outras linguagens, comunica-se com outros cientistas. E outros cientistas hão de aprender a nossa linguagem.

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Henrique Figueiredo Carneiro – Esse é um ponto que me chama muito a atenção. Ontem à noite, quando cheguei ao hotel, passava na televisão um programa sobre Psicologia que eu não conhecia. Creio que era Psicologia em destaque, ou algo similar. Talvez fosse de algum canal universitário, mas, de qualquer forma, um programa voltado para a Psicologia chamou-me a atenção porque é raro ser visto, pelo menos em outras cidades. Sobre essa estratégia da Psicologia, uma das questões que me chama a atenção é a linguagem do psicólogo em relação ao contexto da sociedade. Pareceme que ainda é algo muito técnico. Essa estratégia passa pela forma como o psicólogo se coloca diante da sociedade? Cesar Ades – Sim, passa pela maneira como o psicólogo se coloca diante da sociedade. A Psicologia se esgota em disputas internas, deixa de ressaltar o que é comum, o que constitui o cerne psicológico. Como nos dividimos em escolas, isso nos deixa sem uma linguagem integrada, e mais, sem uma posição integrada em relação à sociedade. De quem é a nossa mensagem? Do psicanalista, do experimentalista, do teórico comportamental, do fenomenólogo, do lacaniano, do reichiano? A graça da Psicologia é ser assim diversa, não quero que haja uma única linguagem, mas ela precisa encontrar uma proposta unificada dentro da diversidade. O ponto que eu quero ressaltar aqui tem a ver com o nome da revista, um nome perfeito, Psicologia: Ciência e Profissão. São empreendimentos integrados; o fato de ser profissão não é contraditório com o fato de ser ciência. Quero aqui defender o lado científico da Psicologia. Inara Barbosa Leão – A partir da minha prática, acho que o inverso está sendo mais difícil de trabalhar. Tenho acompanhado, por exemplo, o trabalho dos psicólogos que são contratados para executar atividades na política de assistência social. O que eles aprendem de teoria não facilita seu trabalho.

Em compensação, as estratégicas que estão desenvolvendo, ainda que o Conselho Federal esteja tentando mapeá-las por meio do Centro de Referências Técnicas em Psicologia e Políticas Públicas (CREPOP), não as tenho visto se transformar em discussão sistemática, nas universidades ou mesmo nas associações, talvez por ser algo muito recente. Cesar Ades – É recente, sim. Quando falamos de ciência, usamos de uma série de arquétipos. No caso da Psicologia e das ciências humanas, são arquétipos que às vezes amedrontam, imagens que distorcem o que há de essencial na Psicologia, o contato entre pessoas. Alguns veem a perspectiva científica como perigosa, na medida em que reduzisse o senso do contato entre pessoas. Não me parece justificado o temor. O que nos define é o interesse pelo indivíduo concreto, que sofre, que fica alegre, que precisa de apoio, de instrução. Nada há, na atitude científica, que coloque isso de lado. Por atitudes como essas, discute-se pouco, em Psicologia, o papel de sua natureza científica, até que ponto a postura científica é essencial tanto para o ensino e para a prática como para a geração de conhecimentos. Inara Barbosa Leão – Que tipo de ciência é a Psicologia? Cesar Ades – A Psicologia, desde que tudo começou, desde a época do (Paulo) Rosas, se vale do privilégio, um pouco fantasioso, de ser uma leitura da mente. As pessoas ficam um pouco preocupadas com essa capacidade mágica de o psicólogo penetrar nos meandros da mente, “eu não sabia que eu era essa coisa complicada, eu sou isso?” Em compensação, a Psicologia perde um pouco por não ser considerada, plenamente, ciência, por ser tomada mais a partir de seu jeito intuitivo, como uma arte. Sem desistirmos da ideia de que


queremos entender como

funciona a mente, é importante ressaltar que o que estamos fazendo é ciência.


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A Psicologia é uma ciência especial, como são a biologia, a Astronomia e outras ciências. A dificuldade que se enfrenta, quando se coloca a relevância do ponto de vista científico, é a noção de que ciência é positivismo, é coisa do Círculo de Viena, é o uso de um modelo fisicalista. É simples demais afastar a ideia de ciência em Psicologia com o argumento de que ela leva a uma posição que reduz o ser humano e o identifica com um animal de laboratório. É uma posição fácil de se tomar, mas ela leva a negligenciar a questão muito relevante, a questão do tipo de ciência que estamos praticando. Cada vez mais, as ciências entram em interação e interdependência, e esse é especialmente o caso da Psicologia. Pode ser que exista uma Física independente, mas a Psicologia é, por natureza, interdisciplinar. Não se pode pensar em uma Psicologia sem Antropologia, sem educação, sem biologia, sem fisiologia. Somos um pouco híbridos, cada psicólogo elege uma área externa com a qual se relaciona, aprende a falar outras linguagens, comunica-se com outros cientistas. E outros cientistas hão de aprender a nossa linguagem. Não se trata de fazer da Psicologia uma ciência exclusivamente experimental. Talvez os que nutrem alguma resistência à ideia de ciência em Psicologia tenham uma concepção rígida de ciência, tomem a ciência como muito menos criativa e menos socialmente engajada do que é. A Psicologia, como qualquer ciência, parte da descrição e da análise, estrutura-se em torno da pesquisa, tem de buscar um consenso em torno de suas conclusões principais, tem regras para estabelecer o rigor de suas afirmações, busca um conhecimento válido a respeito de algo que existe. Mas a pesquisa que ela defende se constitui a partir da abertura em relação às peculiaridades de seu objeto, desse algo que existe. O que interessa mais é a vida psicológica humana, o “A Psicologia no Brasil”

bem-estar humano.


Inara Barbosa Leão – Esses novos desafios que estamos encontrando na Psicologia, como o senhor entende que eles permitem que nós, psicólogos, ao lidarmos com a ciência, tenhamos condição de dizer: “Isso aqui está nos limites da ciência psicológica, e isso aqui está muito incipiente, é delirante”? Cesar Ades – Colocar um limite entre o delirante e o rigoroso é uma tarefa de todos os momentos. Há muita controvérsia ainda – eu não sou contra a controvérsia, porque ela é o motor da reflexão – em torno de questões básicas em Psicologia. São questões que nos acompanham, mas que temos de situá-las sempre em novos patamares epistemológicos, a partir dos conhecimentos adquiridos. Ao longo desses trinta anos que festejamos, temos lidado, de forma mais ou menos implícita, com problemas clássicos: a natureza da subjetividade e da consciência, a questão da experiência e da aprendizagem, a determinação social do comportamento, as origens evolutivas da motivação humana, etc. Nada de muito novo (é só ler William James para constatá-lo), mas essas questões têm de ser retomadas e reformuladas em função do progresso do conhecimento psicológico, que pode ser impressionante em algumas áreas. Há

progressos notáveis nas interfaces. Antigamente, quando se falava em cérebro e comportamento, era a partir de muita inferência, tanto que Skinner, com uma certa ironia, chegou a referir-se ao sistema nervoso conceitual (em vez de sistema nervoso central). O que se sabia decorria de experimentação em animais de laboratório, de medidas de potenciais externos, de casos excepcionais de lesões e de intervenções cirúrgicas. Os métodos modernos de neuroimagem põem, por assim dizer, o cérebro a nu, surpreeendendo-o durante sua atividade, sem necessidade de medidas invasivas. É possível conhecer as regiões do cérebro mobilizadas durante funções mentais definidas; sabemos muito mais a respeito de onde, no cérebro, sentimos e

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pensamos, inclusive de forma inconsciente. Lembro-me de um estudo não muito antigo em que se descreviam as regiões cerebrais especificamente ativadas quando se olha para um bebê (um pouco dentro do que Lorenz imaginava que fosse a sensibilidade instintiva diante da aparência infantil). Não cabe isolar-se no estudo da subjetividade como subjetividade; os fenômenos com os quais lidamos envolvem, sistemicamente, formas e determinantes neuropsicológicos. Não é redução, mas um trânsito em ambos os sentidos através do qual se constroem concepções mais abrangentes e completas. O neurocientista necessita das análises psicológicas para saber o que olhar e o que registrar no cérebro. Um exemplo, entre muitos outros, do quanto progrediu o conhecimento psicológico, um exemplo de que gosto bastante, é justamente o do comportamento dos bebês. Lembro- me de ter ficado sem fôlego quando li, em Science, o primeiro artigo de Meltzoff e Moore sobre as respostas imitativas de crianças recém-nascidas. Nos últimos trinta anos, foi feito um levantamento sem precedentes, através de muita pesquisa original, com metodologias cada vez mais sutis e reveladoras, sobre a cognição e o afeto de bebês. Sabemos muito mais sobre como percebem o mundo, sobre como se lembram e se esquecem das coisas, sobre como adquirem a linguagem, e, especialmente, o quanto são competentes e complexos na sua interação social. É importante dizer que sabemos mais hoje do que há trinta anos, do que há vinte, há cinco anos. Se não ressaltarmos o avanço do conhecimento, seremos condenados a longas discussões epistemológicas ou nos exporemos à concepção difundida de que as ciências humanas, e a Psicologia em particular, não chegam a ser verdadeiramente científicas. Dispomos de metodologias melhores, e o movimento de crítica e de

embate interno a respeito de como se dão as coisas, no comportamento humano, aguça as teorias. Falta muito ainda por investigar: isso não significa que não seja apreciável o progresso já efetuado. Inara Barbosa Leão – Esses conhecimentos novos praticamente não têm chegado aos cursos de graduação. Fiquei algum tempo na Associação Brasileira de Ensino de Psicologia (ABEP) e acompanhávamos as bibliografias dos cursos, que eram as bibliografias básicas do começo do século 20. Cesar Ades – De que adianta pesquisar e descobrir, se as pesquisas e as descobertas não chegam na sala de aula e se o conhecimento transmitido é basicamente um conhecimento tirado de manuais? O aluno sente quando você apresenta ideias recentes e conhecimentos novos, isso o leva a participar do movimento da ciência. A mudança na maneira de considerar o ensino de graduação da Psicologia tem a ver com o debate, ao qual me referi, sobre o papel da ciência. Fico muito preocupado com o número de cursos de Psicologia que existem no Brasil, alguns criados recentemente. Que tipo de ensino é praticado? Que tipo de conhecimento é transmitido? Inara Barbosa Leão – Nos três últimos anos, houve uma contenção da abertura, mas foi algo enlouquecedor nos anos anteriores. Cesar Ades – A formação em graduação, do jeito que se multiplica, é certamente deficiente. Há um desequilíbrio, faltam professores capacitados para tantos cursos e tantos alunos. Henrique Figueiredo Carneiro – A maioria dos cursos abertos tem corpo docente com qualificação muito limitada e muitos desses cursos não almejam sequer pós-graduação, ter pesquisa. Cesar Ades – Considerar a Psicologia uma


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ciência envolve a responsabilidade de ensiná-la como tal. É muito cômodo (e pouco produtivo, a meu ver) adotar uma perspectiva técnica para a formação do aluno de Psicologia, como se o aluno, quando formado, tivesse apenas o papel de atuar em questões profissionais específicas, sem ter-se aprofundado e sem compreender a fonte e as limitações dos conhecimentos que aplica. Publiquei um artigo no primeiro (ou segundo, se se levar em conta um número especial) número de Psicologia: Ciência e Profissão, isso, há uns trinta anos. A mensagem estava no título: Treino em pesquisa, treino em compreensão. Continuo achando que o treino em pesquisa é parte essencial da formação e prepara o estudante para a sua atividade profissional. O aluno, quando entra no curso de Psicologia, muitas vezes quer atuar como clínico, e espera, na fantasia, ter logo um paciente deitado num divã, para exercer psicanálise. Isso se entende, o exercício da Psicologia é praticamente todo aplicado, e, muitas vezes, clínico. Mas a minha experiência na USP, acredito que seja o mesmo em outros cursos de Psicologia, indica que os estudantes gostam de pesquisa e se entusiasmam quando envolvidos em pesquisa. Aproveitam esse treino de várias maneiras, principalmente por sentirem que o conhecimento é algo relativo e em transformação. Quando se critica a abordagem científica, muitas vezes se pensa na aplicação de uma camisa de força metodológica e em uma ciência onde tudo já foi descoberto. A ciência define o seu campo e se autodefine enquanto está sendo efetuada. Uma ciência completa e redonda não tem graça. Nunca consegui, pessoalmente, identificarme com qualquer das grandes figuras da Psicologia. Não acredito que haja vantagem em ser seguidor, de forma exclusiva, desta ou daquela escola psicológica, em ser skinneriano, piagetiano, lacaniano, jungiano, darwiniano ou de outra designação. Mais vale seguir o que são as coisas, mesmo que nos surpreendam e nos choquem nossos

pressupostos. O aluno ganha quando se dá conta desse aspecto em-se-fazer do conhecimento. Ele gosta de perceber que seu professor não tem todas as respostas, quando tem a honestidade de dizer que não sabe. O treino em pesquisa é um belo e importante objetivo para qualquer curso de Psicologia. Henrique Figueiredo Carneiro – O senhor tocou em um ponto essencial do nosso trabalho, esses mitos que se criam em torno da figura do psicólogo, visto quase como um bruxo. Quando o senhor busca o treino em Psicologia, em uma Psicologia como ciência, esse é o caminho que começamos a construir, é uma estratégia para dirimir essa concepção mítica da Psicologia? Cesar Ades – O treino em pesquisa incentiva uma certa modéstia, ao mostrar que a Psicologia sabe de suas limitações, mas, ao mesmo tempo, tem de transmitir a ideia de que é possível descobrir e conhecer algo com alguma certeza. A alegria do cientista é descobrir: entra nisso uma vaidade raramente confessada (risos). Algo que eu achava diferente, algo que eu supunha conhecer, não é exatamente como eu pensava, e, às vezes, no final da pesquisa, vejo-me dono de um pouco mais de incerteza. O estudante adora ser parte do processo. Demonstra mais interesse do que quando parte apenas daquilo que pessoas geniais elaboraram e em que ele tem que acreditar. As perguntas que levam ao trabalho prático podem muitas vezes ser perguntas para as quais a pesquisa já ofereceu respostas, como, por exemplo: em que medida a percepção e a produção de expressões de emoção difere entre mulheres e homens? Mas a graça é refazer o caminho e redescobrir, além da abstração necessária, da teoria, a percepção de que, em assuntos relevantes e do dia a dia, a observação e o registro sistemático podem ter a sua vez.

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Fico grati fi cado por ter parti cipado, recentemente, da criação da revista Psicologia: Ensino e Formação, da ABEP, e por ter

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Vai sempre haver um certo desequilíbrio entre ensinar e pesquisar. Por mim, todo docente deveria estar envolvido em pesquisa e ter as condições materiais de fazê-lo. Não acredito em universidades de puro ensino. Mas como conciliar a necessidade de pesquisa com os aspectos mais concretos das horas-aula e do salário?

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contribuído com o primeiro artigo do seu primeiro fascículo, tocando justamente numa prática de pesquisa muitas vezes empregada em minhas aulas, através da qual os alunos podem avaliar aspectos da teoria de William James a respeito de emoção. O objetivo da revista é chamar a atenção para o processo de ensinar, de permitir que as experiências de ensino possam estimular outras experiências. A discussão sobre o que é Psicologia passa pela reflexão acerca do que é ensinar Psicologia. Inara Barbosa Leão – Naquele momento do número zero da revista Psicologia: Ciência e Profissão, falava-se muito da limitação dos métodos disponíveis. O senhor vê como um aspecto facilitador ou como complicador essa amplitude de métodos e técnicas que temos hoje? Cesar Ades – Por mais métodos que tenhamos, há lacunas e mitos. Não é possível dizer que tenhamos chegado à plenitude. Há certamente coisas interessantes para, ainda, investigar. Houve progresso, e o progresso é perceptível quando se trabalha dentro de um campo científico. Não há critérios para decidir se um artista contemporâneo é mais (ou menos) adiantado do que Leonardo da Vinci, não se trata disso no campo artístico. Mas, em ciência, não há dúvida de que sabemos mais a respeito de memória do que se sabia na época de Ebbinghaus ou de Ribot. E essa ampliação de saber leva necessariamente a uma ampliação das formas de aplicação. Voltando ao tema da formação do aluno: na reforma curricular que fizemos, quando eu era diretor do Instituto de Psicologia da USP, abrimos opções suplementares para os estudantes escolherem disciplinas de pesquisa em todos os campos. Não era puxar o currículo para a minha área, não, mas a adoção de uma concepção de ensino.

Henrique Figueiredo Carneiro – A formação do psicólogo nas universidades ainda é um calcanhar de Aquiles. Cesar Ades – Vai sempre haver um certo desequilíbrio entre ensinar e pesquisar. Por mim, todo docente deveria estar envolvido em pesquisa e ter as condições materiais de fazê-lo. Não acredito em universidades de puro ensino. Mas como conciliar a necessidade de pesquisa com os aspectos mais concretos das horas-aula e do salário? Em geral, as universidades não estão dispostas a subvencionar a pesquisa (em termos do salário de seus docentes): essa é uma questão que merece ser pensada. Henrique Figueiredo Carneiro – E sobre esse diálogo interno que o senhor mencionou, que perpassa o corpo docente, sobre a formação do psicólogo, o senhor pode comentar? Cesar Ades – É muito pessoal a minha posição, talvez possa convencê-los! Acredito que exista, por trás dos inevitáveis vieses com os quais se abordam os fenômenos psicológicos, uma realidade que resiste e da qual temos condições de nos aproximar, por correções sucessivas. É uma posição realista. As pessoas se comportam e podem ser vistas se comportando, as pessoas sentem, eu sinto, você sente; pensam, eu penso, você pensa; tenho certeza de que você sente e pensa, seu pensamento e seu sentimento não são criação minha. Incomoda-me uma visão relativista muito comum em Psicologia. Ela afirma, e eu concordo plenamente, que o conhecimento científico depende da postura epistemológica que se assume. Como tenho uma certa experiência e obedeço a certos princípios, vejo as coisas de uma certa maneira. OK, mas o objeto não deixa de existir. Esse tipo de relativismo (muitas vezes colocado dogmaticamente) leva a uma postura que tenho combatido, porque embasa uma falta de diálogo. Só poderei ser plenamente entendido se for por alguém do


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meu grupo, ou seja, por alguém que partilhe os meus pressupostos; os outros, nem mesmo espero que entendam. Há aqui uma certa concepção da liberdade teórica em Psicologia: cada um descreve os processos psicológicos tais como os define, quase como se se tratasse de um ser humano à parte, e são eliminados os confrontos (necessários) com outras perspectivas. Essa posição talvez evite conflitos diretos, mas não contribui para o estabelecimento de pontes e tira a Psicologia do que eu chamaria de uma interdisciplinaridade interna. Sem diálogo interno, como apresentar à comunidade científica e à sociedade um corpo de conhecimentos seguros? Além disso, como estabelecer interfaces externas se as internas não são cultivadas? Pensei uma vez em organizar um congresso sobre o comportamento de bebês, convidando um etólogo, um psicanalista, um psicólogo experimental, um fenomenólogo, um analista do comportamento, um adepto da teoria crítica e outros psicólogos de outras correntes. Haveria de início a variedade e a incompatibilidade teórica esperadas, mas quem sabe surgisse a percepção de que as diversas posições convergem no mesmo bebê, e que explicar porque chora e atendê- lo na sua aflição pudessem se beneficiar de uma superação das fronteiras teóricas. Tem de haver diálogo interno. A interdisciplinaridade não é, contudo, algo que se imponha por decreto, mas decorre de interesses convergentes e de uma vantagem em termos de metodologia. Tenho um colega neurofisiólogo, Gilberto Xavier, interessado em retomar, no campo experimental, ideias psicanalíticas a respeito de memória. Não sei se os seus resultados e reflexões serão aceitos tranquilamente por psicanalistas, “A Psicologia no Brasil”

mas, se entendermos um pouco mais os mecanismos da memória a partir de sua iniciativa, terá valido a pena.


Não se trata de impor um certo esquema de ciência, mas de deslocar o centro da atenção para o objeto de estudo, entendido como independente, no limite, das formas de apreendê-lo. Se eu tenho que me maravilhar, não é apenas com a contribuição dos grandes psicólogos, que modificaram e constituíram a minha ciência e são por isso admiráveis. Tenho de manter aberta a capacidade de me surpreender com fatos novos, com sínteses originais e de rever, em função disso e do debate crítico, os meus próprios pressupostos. Henrique Figueiredo Carneiro – Estou entendendo, de nossa conversa, que talvez o ponto referencial para que esse diálogo interno seja frutífero seja exatamente a pesquisa, se a pesquisa puder dialogar internamente. Cesar Ades – Exatamente. Isso acontece quando descobrem que se interessam pelo mesmo assunto. contra a especialização, ela é necessária, ninguém dominar a Psicologia toda. Em geral, permanecemos

várias pessoas Não significa ir jamais poderia dentro de um

círculo imediato de estudiosos que nos entendem e usam a mesma linguagem, mas há elementos a partir dos quais estabelecer o confronto e o copensamento. Um tipo de copensamento é que fazemos o tempo todo no Instituto de Estudos Avançados, que é um domínio privilegiado para a interdisciplinaridade. Participei, por exemplo, de uma sessão em que um economista e um físico debatiam o conceito de entropia, acredito que para mútuo aproveitamento. Temos um grupo de pesquisa no IEA centrado na questão da desnutrição: dele participam especialistas em biologia, nutrição, Psicologia e Sociologia em bons termos e, acredito, com boas ideias. Estão para publicar um livro cujo título inclui nutrição e sofrimento psíquico.

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Henrique Figueiredo Carneiro – Parece-me, pensando a partir da sua fala, que esse é um caminho para articular, com nossos alunos em formação, a forma de dialogar com outros campos do saber. Cesar Ades – Você não perde sua individualidade por relacionar-se, essa é a ideia. Há um medo de perder a essência no confronto com outros campos do saber. Ao contrário, a individualidade é a maneira através da qual podemos nos relacionar. É importante que você pense como psicólogo para que a interação tenha frutos. Henrique Figueiredo Carneiro – Psicologia e psiquiatria, por exemplo, que fazem parte de um campo em questão e sobre o qual existe uma eterna discussão. Hoje há vários especialistas que lidam com a questão do cérebro. Por que não podemos estar junto com esses especialistas e discutir com eles a partir de um ponto, como o senhor colocou, do sofrimento psíquico, por exemplo? Cesar Ades – Temos um acesso especial aos fenômenos psicológicos, pelo nosso foco, pela nossa formação. Lidamos com indivíduos, é essa a nossa especialização, sabemos um pouco mais a respeito de como indivíduos se desenvolvem, como sentem e pensam, como se comportam. O psiquiatra sabe mais sobre a maquinaria cerebral, sobre núcleos, sinapses e neurotransmissores, e sobre remédios capazes de atuar sobre essa maquinaria. Não há como negar a importância desse conhecimento, e temos, como psicólogos, que aproveitar os pontos de convergência e de complementação. Os psiquiatras se dão conta, cada vez mais, da importância dos estudos psicológicos. Fui convidado há pouco, com uma colega do IPUSP, para escrever capítulos (psicológicos) em dois manuais de psiquiatria. Henrique Figueiredo Carneiro – Essas questões nos convidam também a uma

reflexão sobre a relação da Psicologia com ciência e a política, não? Cesar Ades – Existe uma disputa entre psicólogos e psiquiatras, que é política. A história da Psicologia é a história da luta em torno dos decretos e das leis que permitem ao psicólogo ter autonomia na sua atuação profissional. É de se esperar que algum atrito haja com outras áreas profissionais, com a psiquiatria em particular, e é claro que temos que nos defender institucionalmente. Essa é a função dos Conselhos. A ideia à qual me referi de colocar a Psicologia dentro de um projeto estratégico também constitui uma defesa institucional. O aperfeiçoamento de nossa pesquisa e de nossa prática é que nos confere a força principal, não apenas a disputa política como tal. Inara Barbosa Leão – Respaldados pelo nosso conhecimento, com todas essas transformações que podemos exemplificar, a nossa ciência psicológica, na sua opinião, tem se aproximado mais das necessidades cotidianas? Por exemplo, sempre fomos muito próximos da educação, mas quando o psicólogo está nas escolas, ainda há um receio da sua atuação, e os psicólogos também demonstram incertezas sobre como deve ser sua atividade. Ao mesmo tempo, temos alguns enfrentamentos na área da saúde que não se resumem a essa questão de quem pode ou não fazer terapia. Algumas áreas mais próximas ao serviço público agora já estão nos cobrando mais. Isso ainda é reflexo dessa nossa complexidade ou não tivemos ainda condição de resolver? Cesar Ades – Sua questão é relevante. Não basta ter boa intenção para atuar. Entre a teoria, a concepção que tenho da atuação, e atuar, há muito espaço. A escola na qual vou atuar é real, concreta, preciso estar equipado para dar soluções. E há um espaço em que a pesquisa guiada por conceitos básicos e a percepção do que acontece no contexto


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histórico e situado onde a nossa prática precisa se instalar, em que novas soluções podem ser exploradas. Uma experiência rica foi ter participado, com a minha colega Emma Otta, de um curso, dado no Instituto de Psicologia da USP para estudantes de graduação, sobre a motivação na sala de aula. É impressionante como, embora todos os docentes (e estudantes) concordem quanto à relevância da motivação durante o processo de ensino-aprendizagem, o campo ainda requer bastante pesquisa, pelo menos na área do ensino superior. Há uma contribuição muito importante a ser dada pela Psicologia. Agora, como definir, em termos institucionais, a presença e a participação do psicólogo na escola? É outra questão. Inara Barbosa Leão – Nós teríamos conhecimento acumulado para dar conta de algumas dessas questões, mas ainda não conseguimos utilizá-las, sistematizá-las? Cesar Ades – A abordagem científica envolve o contato direto com o objeto. Tenho que estar perto do que me interessa, observando. Esse contato gera uma série de conhecimentos, ideias, intuições, às vezes sem coerência interna, mas estou ali, em contato. É impossível fazer Psicologia sem contato direto, aberto, com as pessoas e com seu ambiente de vida. Trazê-las para o laboratório? Sim, às vezes é essencial, mas preciso também conhecê-las em seu contexto de vida. Henrique Figueiredo Carneiro – Estou realizando em Fortaleza uma pesquisa sobre vítimas de violência em espaços públicos. Nesse sentido, o grupo de pesquisadores vai trabalhar com as vítimas nas delegacias, na hora que vão fazer o boletim de ocorrência. São experiências como essa a que o senhor se refere? “A Psicologia no Brasil”

Cesar Ades – Ir à delegacia, na hora da


ocorrência, observando e perguntando e tentando o mais possível ser fiel ao que está ocorrendo, é entrar em contato com a ecologia do fato psicológico. Não há como prescindir dele. Existem metodologias para trabalhos de campo como esse. Fazer ciência não significa necessariamente saber de que jeito atuar sobre a realidade social, há que se distinguir um pragmatismo bem intencionado, e que muitas vezes funciona, e o conhecimento mais estrutural do que está acontecendo. É diferente procurar pelos princípios teóricos que dão conta da forma que a violência assume e planejar uma intervenção local. Há, aqui também, um campo rico para um vai-e- vem entre teoria e aplicação. A questão não é o psicólogo seguir uma cartilha teórica. Seguir é que me incomoda um pouco. Inara Barbosa Leão – Seguir e não refletir. Cesar Ades – Isso. E não ver que às vezes o dado pode desmentir a bela teoria que tenho. Sinto por Lacan e Lorenz, às vezes a observação pode desmenti-los.

Inara Barbosa Leão – Até porque não se pode cobrar deles explicações para fenômenos que não presenciaram. Cesar Ades – Isso mesmo. Não acho que todo psicólogo deva ser um cientista. Há certa vocação para isso, deve-se achar graça nisso. Também há certa vocação para ser um bom terapeuta, e há prazeres muitos no exercício da terapia. As coisas funcionam de maneira mais primitiva do que se imagina. Quando duas pessoas se encontram, elas colocam em jogo mecanismos ensaiados durante todo o seu desenvolvimento e também durante a evolução social complexíssima da espécie humana. O que acontece entre duas pessoas é sutil, rápido, complexo, inconsciente e racional de um jeito para o qual a ciência ainda

Henrique Figueiredo Carneiro – E não há nada de mal.

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não tem resposta completa. É necessário fazer uso desses mecanismos, mesmo que não os compreendamos totalmente, mas também vale explorá-los cientificamente.

É difícil atribuir a expressão facial das emoções, um tema que Darwin tratou de maneira espetacular e que me interessa sobremaneira, a influências culturais localizadas e arbitrárias. Se você der a volta ao mundo, verá que sorrir é sorrir, chorar é chorar, manifestar nojo é manifestar nojo, mesmo que a circunstância em que essas emoções são sentidas possa variar bastante de um lugar a outro.

Cesar Ades

Inara Barbosa Leão – À medida que vamos complicando o mundo, complicando a vida, necessariamente vamos complicar a Psicologia também. Essa ideia da possibilidade de leis concretizadas, de enunciados que contemplem a maioria dos fenômenos, vem se mostrando cada dia mais distante da Psicologia. Cesar Ades – Essa é uma longa discussão. Não há um conjunto simples de princípios, mas há princípios básicos. O problema é a inserção histórica e cultural do fenômeno psicológico. Nunca haverá uma teoria completa, definitiva, do fato comportamental, porque ela tem de ser reformulada ou pelo menos modulada a partir da mudança que ocorre nos parâmetros contextuais. Mas não se pode ceder ao reducionismo cultural, que relativiza tudo e não dá conta do transcultural. Se você der a volta ao mundo, perceberá que as pessoas permanecem psicologicamente semelhantes ao mesmo tempo em que se distinguem por causa de sua experiência peculiar (serão as leis da aquisição de experiência similares?). É difícil atribuir a expressão facial das emoções, um tema que Darwin tratou de maneira espetacular e que me interessa sobremaneira, a influências culturais localizadas e arbitrárias. Se você der a volta ao mundo, verá que sorrir é sorrir, chorar é chorar, manifestar nojo é manifestar nojo, mesmo que a circunstância em que essas emoções são sentidas possa variar bastante de um lugar a outro. Matsumoto, discípulo de Eckman, especialista renomado em expressões faciais, fotografou atletas de judô, cegos e videntes, quando ganhavam medalhas ou não, durante uma olimpíada. As expressões de uns e de outros são praticamente indistinguíveis, um

forte argumento a favor da determinação biológica. Há, contudo, indicações recentes e controverti das de que há variações interculturais na expressão facial, dialetos emocionais. Falei desse assunto na última reunião (2010) da ANPEPP, em Fortaleza. Meu ponto é este: não há contradição entre uma determinação biológica e uma determinação cultural. O dialeto se manifesta dentro de uma linguagem universal das emoções, são aspectos integrados, facetas que compõem o conhecimento psicológico. A regra geral abrange suas próprias flutuações locais e históricas. Inara Barbosa Leão – E nessas interações, os limites seriam dados por quem? (risos) Cesar Ades – Como eu vejo, é criar oportunidades de contato entre psicólogos de linhas diferentes em torno de problemas comuns: o que interessa a um pode não ser tão afastado do que interessa ao outro. Concretamente, seria avaliar o ensino de Psicologia, pensar a atuação como fonte riquíssima de conhecimento, eliminar a barreira entre ciência básica e ciência aplicada. Por que não? São ati tudes institucionais pelas quais temos de batalhar. Se é que a Psicologia tem que se situar em uma rede de relevância social, cabe que transcenda, sem perder o senso e a graça dos olhares diversos, as suas cisões através de um diálogo interno. Henrique Figueiredo Carneiro – Um psicanalista com certa tendência a psicólogo vai dizer que trabalha com laços sociais. Cesar Ades – Por que não? Inara Barbosa Leão – E, com tanta novidade, como garantir coerência, respeitabilidade? Dentro das confusões, encontra- se justificativa para tudo. Já vimos, em uma visita a um curso de especialização que pedia credenciamento, a oferta de uma disciplina


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sobre terapia de vidas pregressas. Como lidamos com isso? Cesar Ades – Não há solução mágica nem imediata. Não garanto nada, mas, se houver um trabalho de confronto, uma reflexão epistemológica feita e refeita, oportunidades boas de intercâmbio, quem sabe? Senão, tudo é possível (risos). Estamos em um momento bom, de boa produção da ciência brasileira. Há um aumento notável do número de artigos brasileiros publicados em revistas de impacto, estamos começando a nos integrar na comunidade internacional da ciência. A internet, os intercâmbios internacionais transfiguram a ciência provinciana que estávamos acostumados a fazer. Não digo que esteja tudo bem em Psicologia, precisamos urgentemente parar e ver o quanto temos que fazer, mas houve expansão. O Paulo Rosas já falava de expansão, no seu artigo de trinta anos atrás, hoje, então! O momento é propício para um salto na qualidade e para uma inserção maior da Psicologia, tanto em nosso meio como na comunidade internacional. Inara Barbosa Leão – Nesse período que vem do otimismo do Paulo Rosas até agora, o que você acha que impulsionou o avanço da Psicologia, mesmo em períodos tão desfavoráveis pelos quais o País passou? Cesar Ades – Há fatores de desenvolvimento e fatores que emperram o desenvolvimento. Uma atitude crítica é essencial. Muita coisa se fez em universidades públicas e em algumas universidades particulares no campo do apoio à pesquisa. O progresso se deve muito simplesmente ao fato de ter havido investimento em ciência. Nada ocorre por mágica, sem investimento. Tivemos e temos a Fapesp, a Capes, o CNPq. Henrique Figueiredo Carneiro – E o modelo de pós-graduação hoje é muito respeitado.

Cesar Ades – Muito respeitado, viu-se isso no mais recente simpósio da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP). Não quero ser ufanista, há muitas restrições. A questão é como proporcionar boa formação, dado o grande número de cursos de Psicologia, como oferecer formação que inclua ciência e tenha professores capacitados. Nossos pósgraduandos, quando dão aula em algumas faculdades particulares, nem sempre colocam em uso o que aprenderam, ficam tolhidos porque não têm condição de produzir pesquisas. São questões dramáticas. Inara Barbosa Leão – E é para as faculdades particulares que vai a grande maioria dos alunos. Cesar Ades – Fico contente, de um lado, pela existência das muitas faculdades particulares: são fontes de emprego para os nossos pósgraduandos! De outro lado, evidentemente, preocupa-me o nível de ensino. Inara Barbosa Leão – Essa ampliação da oferta de pós-graduação aparece como um indicador de que poderemos fazer tanto quanto foi feito anteriormente, ou melhor? Cesar Ades – Certamente. O problema é que geramos Mestres e Doutores para serem absorvidos pela carreira docente, por universidades. Há limitação, nem todos poderão ser aproveitados. Valeria a pena discutir a possibilidade de o título de Mestre ou Doutor representar um trunfo profissional, fora da universidade. Henrique Figueiredo Carneiro – Que a função do Doutor e do Mestre não seja apenas no recorte da Universidade? Cesar Ades – Sim, não poderia a pessoa com título ser um profissional mais capacitado? Inara Barbosa Leão – O senhor acha que não estamos conseguindo mostrar isso para

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aqueles Mestres e Doutores que saem das universidades? Cesar Ades – O contexto social precisaria valorizar o título. Henrique Figueiredo Carneiro – Se a formação passa pela pesquisa, e se essa relação entre Psicologia e sociedade não for muito bem colocada para os alunos em formação... Cesar Ades – Penso que há vantagens para o psicólogo que trabalha em aplicação atualizarse prestando atenção às publicações científicas em sua área. Minha filha, psicóloga clínica, trabalha com transtornos de alimentação (nem todos são pesquisadores na família). Noto o quanto é importante para ela a leitura de artigos de pesquisa e a participação em congressos. Temos a dupla tarefa de interessar nossos futuros psicólogos pela problemática social e de torná-los consumidores de ciência. Nossa posição em relação à sociedade, como classe de profissionais, a nossa proposta estratégica, depende da ação dos Conselhos e das Associações em Psicologia. Lembro-me de ter ouvido uma exposição do Professor Zago a respeito das prioridades de investimento do CNPq (do qual ele era presidente). Delas não constava a Psicologia, e isso é sintomático da posição que nos acostumamos a ter dentro do nosso contexto acadêmico e social. Inara Barbosa Leão – Voltando à questão da pós-graduação e à possibilidade de ela perder esse caráter mais acadêmico: tenho visto coisas em relação à pós-graduação. Os alunos vão porque não acham emprego, e lá terão bolsa. E, ao mesmo tempo, existe esse discurso fácil da sociedade do conhecimento e da solução dos problemas do mundo pela sociedade do conhecimento. Mas isso nos parece que quebra um pouco a ideia de uma formação

para a pesquisa que pudesse ser articulada com a profissão.


Cesar Ades – A questão é complexa. Falei sobre a necessidade de haver empregos externos para o Mestre ou o Doutor, mas é necessário tomar cuidado em não tornar a pós-graduação uma conti nuação da graduação e uma forma de esperar pelo emprego. A pós-graduação não deve desviar- se de seu objetivo, que é acadêmico, mas seria interessante discuti-la em termos de um peso possível em termos de mercado. Henrique Figueiredo Carneiro – Com relação ao início da nossa conversa, dos 30 anos atrás e agora, a questão dos três cursos iniciais que o senhor colocou continuou em minha cabeça. Cesar Ades – É algo impressionante. Havia 20 vagas aqui na USP para psicólogo, e a nota era eliminatória, então o pessoal se dava ao luxo de aceitar 10, 12 estudantes. E o número de candidatos era em torno de 30 para 20 vagas. Henrique Figueiredo Carneiro – A Psicologia hoje, no Brasil, tem presença no Norte, no Centro-Oeste, no Nordeste. Gostaria de ouvir um pouco do senhor sua impressão sobre isso, e como isso repercute na ciência.

Cesar Ades – Pode-se fazer muito mais hoje em dia porque há mais gente que pensa, mais gente que pesquisa, um número maior de áreas a serem exploradas, um acesso cem por cento maior às fontes bibliográficas. Mas nem sempre a qualidade acompanha o número. O curso que tive na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, por carente que fosse em relação aos padrões modernos (não tínhamos manuais traduzidos, eram poucos os laboratórios e os espaços para o treino em aplicação, a Psicologia mal deslanchava como profissão, não havia computadores nem internet, etc.) não deixou de ser extremamente estimulante, talvez porque, contrariamente aos alunos de hoje, nos sentíssemos no começo de tudo. A expansão geográfica da Psicologia é muito bem-vinda: contribui para que a nossa ciência esteja mais perto de todos os aspectos da realidade brasileira.


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Henrique Figueiredo Carneiro – E a discussão sobre produção científica na Psicologia, é outro calcanhar de Aquiles que nos chama a atenção? Cesar Ades – A exigência de produtividade, quando começou a ser sentida, gerou resistência, principalmente entre docentes da área de ciências humanas. Criticou-se o produtivismo por privilegiar certos tipos de pesquisa, por criar um desequilíbrio entre os vários requisitos da carreira, prejudicando o interesse didático, etc. Hoje os docentes estão mais reconciliados com a necessidade de publicar e de publicar com qualidade, e as pressões da CAPES surtiram, pelo menos, maior consciência de que pesquisa precisa ser divulgada e lida. Campos novos de comunicação se abrem, por exemplo, com a possibilidade de pesquisadores brasileiros publicarem em revistas de Psicologia de outros países da América Latina. Sobra ainda o sentimento, que eu acho justificado, de que não se deveria publicar por publicar. Uma professora carioca, cuja palestra assisti na reunião da ANPEPP em Fortaleza, disse, de uma forma muito pessoal e divertida, que a obsessão em publicar afasta o pesquisador de um rico lazer cognitivo, da vontade de pensar as coisas sem compromisso, da criatividade, de não estar com pressa.

Inara Barbosa Leão – Pedir dois artigos a um aluno no primeiro ano do mestrado, por exemplo. Não se pode dar um tempo necessário para o aluno amadurecer? Cesar Ades – Ele ter que publicar sobre a tese dele é importante, senão ela fica esquecida na estante da biblioteca. Mas publicar é apenas o ponto final de um longo processo de amadurecimento, de aprendizagem da arte de pesquisar. Inara Barbosa Leão – Agradecemos pela entrevista. Cesar Ades – Muito obrigado a vocês, que me estimularam com os seus questionamentos; as perguntas iluminam também a quem responde. A Psicologia cresceu de uma forma impressionante e assumiu um papel importante entre nós. Sobra uma grande responsabilidade quanto à qualidade da formação, quanto à inserção do campo social e quanto ao incentivo para a pesquisa. Considero a comemoração dos 30 anos da revista Psicologia: Ciência e Profissão menos uma recapitulação do que foi feito nos últimos 30 anos passados e mais um olhar para a frente, para o que queremos fazer e para o que esperamos que aconteça para a Psicologia. Se houver ciência, está bem.


Ana Bock Doutora em Psicologia Social pela PUCSP. Professora titular do departamento de Psicologia Social da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo – SP - Brasil E-mail: anabock@terra.com.br Endereço para correspondência: Rua Irundiara, 35 – Vila Nova Conceição São Paulo, SP – Brasil CEP 04535-050 Cesar Ades (Universidade de São Paulo) Professor titular. Diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP Professor titular do Instituto de Psicologia da USP, São Paulo – SP – Brasil E-mail: cesarades@gmail.com Endereço para envio de correspondência: R. Pamplona 825/34 São Paulo, SP – Brasil CEP 01405-001

Revista de psicología  

Se han recopilado 5 artículos científicos y se han puesto en un solo documento como práctica escolar.

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