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“Meu sonho não tem fim”.

“Um homem não morre quando deixa de existir e sim quando deixa de sonhar”. www.meusonhonaotemfim.org.br


C.N.P.J. 06.303.537/0001-07 Organização Não Governamental www.meusonhonaotemfim.org.br

O que buscamos nesta vida? O que buscamos nesta vida? O que realmente é importante? Certamente a essência de nossa existência, não é apenas a busca da satisfação individual, buscando aproveitar ao máximo todos os nossos dias. A vida tem que ser muito mais do que isso.

SUMÁRIO Uma ONG movida a sonhos e grandes sonhadores

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Albert Einstein, a humildade e humanidade de um gênio

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Schweitzer e o amor incondicional ao seu semelhante

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Ludwig van Beethoven, a perseverança de um gênio

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O legado social e humano de Betinho

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Doutor Bezerra de Menezes, o médico dos pobres

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Louis Braille, um iluminado num mundo de escuridão

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Charles Chaplin, o gênio de infância triste que fazia rir

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Um raio de luz chamado Chico Xavier

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Helen Keller, uma vida dedicada aos excluídos

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Irmã Dulce, instrumento vivo da misericórdia divina

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Dom Hélder Câmara e o inconformismo com a miséria

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Alexander Fleming e sua obstinação pela cura de milhões

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Salvador Arena, um exemplo de humanidade corporativa

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Oskar Schindler, um homem que reescreveu sua história

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Mahatma Gandhi, símbolo universal da paz e da bondade

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Janusz Korczak e o seu absoluto amor pelas crianças

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Stephen Hawking e a superação da mente humana

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Madre Teresa, o afago materno dos mais humildes

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Martin Luther King, uma vida em nome do amor

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Francisco Bento e Francisco de Assis

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Visite nosso site oficial: www.meusonhonaotemfim.org.br Para maiores informações: Gerais - info@meusonhonaotemfim.org.br Palestras - palestras@meusonhonaotemfim.org.br Projetos Sociais - projetos@meusonhonaotemfim.org.br

NOTA IMPORTANTE: Nossos projetos não têm nenhum fim comercial. Seu conteúdo é dotado de direitos autorais de diversos e diferentes proprietários, ficando claro que a cópia parcial ou integral sem a prévia autorização destes, seja ela qual for e independente de sua finalidade, é punível pelas leis de direitos autorais em vigor.

Obviamente, existe um sentido melhor e maior para vivermos. Acredito que estamos nesta vida por diversos motivos, alguns essenciais, como evoluirmos como indivíduos. O crescimento material e econômico é natural, não é pecado algum vivermos bem, com conforto, porém, devemos ter consciência de que todos os nossos bens, na verdade, não são nossos, são empréstimos. Jamais devemos desperdiçar as oportunidades que a vida nos dá para nos aprimorarmos e evoluirmos como pessoas. Muitas vezes, nossos fracassos são nossos melhores professores e é nestes momentos mais difíceis, que necessitamos encontrar uma razão maior para continuarmos em frente, em nossa luta. Nossa superação, em certos momentos com suor e lágrimas, faz com que nos tornemos pessoas melhores. A capacidade de resistir ao desânimo, as tentações, privações e tristezas, continuando em nosso caminho evolutivo, é que nos torna pessoas especiais. Os “grandes sonhadores”, a essência de nosso trabalho de conscientização e que vocês conhecerão um pouco mais da história nesta revista, não vieram entre nós apenas com a missão de juntar dinheiro e comer do bom e do melhor. Alguns deles até tiveram este privilégio, porém, esta não era a razão de suas vidas. É muito difícil imaginar pessoas como Martin Luther King, Mahatma Gandhi, Madre Teresa, Irmã Dulce, Betinho, Chico Xavier e tantas outras, que constam nesta revista ou milhares de outras anônimas, que lutaram e lutam para melhorar a vida dos mais fracos e mais pobres, motivadas pela idéia de ganhar dinheiro. O que moveu essas pessoas, tão generosas, a trabalhar diariamente por toda suas vidas pelos menos favorecidos e pelo bem comum, sem jamais desistir, foi a busca de seus sonhos, de um mundo melhor, mais justo e fraterno. Quando você tem sonhos com essa magnitude, essa grandeza de espírito, você desenvolve uma força extra, capaz de levá-lo à lugares inimagináveis. Infelizmente, muitos de nós se perdem nesta viagem e acabam distorcendo o sentido de sua existência. Focando todos os seus esforços apenas para acumular bens materiais durante toda a sua vida. Entretanto, quando suas histórias chegam ao fim, percebem que não poderão levar daqui suas riquezas e que a única coisa que se leva dessa vida, é o bem que fazemos ao próximo. Convido-lhe a refletir com as histórias que encontrará nesta revista assim como em suas reflexões, virtudes e pensamentos - e também em algumas das instituições que já realizam lindas obras e são um convite para sermos tocados e envolvidos na tarefa árdua, porém maravilhosa, de evoluirmos como sociedade e indivíduos, com muita harmonia, paz, prosperidade e na glória do bem comum. Alex Cardoso de Melo

© Copyright 1997 - 2007 “Projetos Sociais Meu Sonho Não Tem Fim”.

ONG Projetos Sociais “Meu Sonho Não Tem Fim”. 2


Divulgação ONG “Projetos sociais meu sonho não tem fim”.

Determinação

Ação de conscientização da ONG realizada na periferia da cidade de São Paulo.

BRASIL

Uma ONG movida a sonhos e grandes sonhadores Certa vez, Eleanor Roosevelt, diplomata, ativista dos direitos humanos e esposa do ex-presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt, disse, “o futuro pertence àqueles que acreditam na beleza dos seus sonhos”, uma frase impactante, ainda mais quando sabemos que todos nós somos movidos a sonhos. O sonho da descoberta, o sonho da conquista, o sonho da tranqüilidade e por aí adiante. Enquanto respiramos, sonhamos. Foi assim, de um sonho, que nasceu a ONG “Projetos sociais meu sonho não tem fim”, mais precisamente em agosto de 1997, através de um grande desejo de trabalhar com conscientização social e naquele momento, também prestar www.meusonhonaotemfim.org.br No site oficial da ONG você encontra informações sobre os projetos sociais da organização, reflexões, estudos, pesquisas, matérias de âmbito social, livros, revistas, cronograma de palestras, vídeos da TV Meu Sonho, além de amplo material para pesquisa e download.

uma pequena homenagem à Ayrton Senna da Silva. Essa foi a semente de uma Organização Não Governamental, hoje sinônimo de perseverança, determinação e responsabilidade social. No início, foram criados textos de conscientização com o foco principal no aspecto humano de Senna e distribuídos para um grupo de, aproximadamente, cinqüenta pessoas. Ainda em 1997, iniciou-se a compilação de materiais (imagens e pequenos arquivos de áudio e vídeo) para a criação de um CD ROM, que seria, posteriormente, distribuído gratuitamente, junto à direção de escolas em comunidades carentes, com o intuito de difundir o legado e exemplo de vida deixado por Ayrton, entre crianças destas localidades. Nos anos seguintes surgiram outros três títulos em CD ROM, mais completos e com novos visuais, mantendo a mesma finalidade e características de distribuição do CD ROM inicial. No final de 2002, a ONG realiza um grande sonho, o início do primeiro de seus projetos sociais, as “Exposições meu sonho não tem fim”, que levavam diversas opções de entretenimento e

aprendizado, principalmente, para crianças de comunidades carentes, com o objetivo de conhecerem o maravilhoso legado e exemplo de vida deixado por Senna, focando em seis pilares que eram a base de sustentação do projeto e fortes características na personalidade deste grande campeão: a criança (estendida pela ONG aos idosos e animais), o esporte, o patriotismo, a fé, a família e o amor ao próximo. Essas exposições foram levadas à unidades dos CEU’s, FEBEM’s, escolas e alcançaram um total de mais de 140.000 crianças. Este projeto passou por uma grande reformulação e hoje, com a denominação de “Grandes Sonhadores”, leva os exemplos de vida – um pouco da história e pensamentos – de seus homenageados e inspiradores. Gente como Madre Teresa, Martin Luther King, Gandhi, dentre outros. Pessoas que enfrentaram muitas dificuldades - de formas diversas e distintas - para alcançar seus objetivos, semeando um mundo melhor, mais justo e fraterno. Ainda em 2003, o aumento no interesse por informações dos projetos, fez sur3


gir, seu site oficial, tornando-se no principal canal de informação da organização. Nele, além de pequenas biografias dos “Grandes Sonhadores” e histórico das ações e projetos sociais da ONG, é possível encontrar reflexões, estudos, pesquisas, material para download e diversas outras informações. Em outubro de 2003 surgiram as palestras motivacionais “Acreditando e conwww.abrinq.org.br A Fundação Abrinq é uma organização sem fins lucrativos fundada em 1990, ano da promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente, e que tem como principal missão promover a defesa dos direitos e o exercício da cidadania da criança e do adolescente.

cretizando seus sonhos”, gratuitas e realizadas, principalmente, em comunidades carentes, tendo como foco principal, transmitir informação, reflexão e motivação, sempre relacionados aos exemplos de vida de seus “Grandes Sonhadores”. No final de 2003, surgiu o esboço de um grande projeto a ser realizado a longo prazo. O “Complexo social meu sonho não tem fim”, o qual deverá ser construído, numa ampla área verde e abrigará orfanato, asilo e retiro de animais, além de oficinas de artes e ofícios abertas à comunidade, horta, pomar, canteiro de flores, centro para palestras, entre outras instalações. Em 2004 nasceu o projeto “Amor em Cena”, que são caravanas noturnas, pelas ruas da cidade de São Paulo que

www.gife.org.br O GIFE - Grupo de Institutos, Fundações e Empresas - foi a primeira associação da América do Sul a reunir organizações de origem privada que financiam ou executam projetos sociais, ambientais e culturais de interesse público.

levam à seus moradores, alimentos, brinquedos, cobertores, carinho e atenção e que pretende futuramente, iniciar o encaminhamento destas pessoas para sua inclusão social, indicando-as à agências de empregos, albergues, hospitais, escolas, cursos e outros benefícios. Existem também, ações especiais no dia das crianças e Natal, quando são distribuídos centenas de brinquedos e doces.

O nascimento de um grande sonhador Em 21 de março de 1960 nascia Ayrton Senna da Silva, um grande sonhador... – Se contar, eu nego. Esta era a condição inegociável que Ayrton Senna exigia para ajudar as pessoas por quem se sensibilizava. Sigilo total. Imprensa, jamais. Uma discrição absoluta que se estendia até mesmo para o âmbito da família e assessores de confiança. Julian Jakobi, empresário de Ayrton, não revelou os valores, mas confirmou que ele, de tempos em tempos, costumava ligar de algum lugar do planeta e pedir que doasse dinheiro para instituições ou pessoas. Durante os conflitos da Bósnia, no início dos anos 90, Senna ligou e orientou Julian para que ele ajudasse as crianças vítimas da guerra. E, como sempre, determinou: – Não fala nada disso para o Fabio. O primo Fabio Machado, responsável pelos negócios de Ayrton no Brasil, não ficava sabendo. E quando recebia ordem de Senna para mandar dinheiro para alguma pessoa ou instituição, ela também vinha acompanhada de uma determinação: – Não fala nada disso para o Julian. Todas as pessoas íntimas de Ayrton guardavam a mesma impressão: Ayrton detestava a possibilidade de seus gestos de caridade serem interpretados como promoção pessoal. Em alguns momentos, a decisão de ajudar foi precedida de momentos de profundo sofrimento. Como no dia em que Ayrton visitou uma entidade de assistência a crianças portadoras de graves deficiências. De tão chocado com o quadro que viu, três irmãos portadores de graves deformações, Ayrton começou a passar mal e foi amparado pelas crianças que ele ajudaria. Voltou para a casa dos pais devastado com o que vira. A reação do filho não surpreendeu dona Neyde Senna. Desde a infância, Ayrton demonstrava um sentimento genuíno de compaixão pelos desfavorecidos. Como no dia em que um dos meninos pobres que moravam perto de sua casa, em Santana, bateu à porta. Era um Natal no final dos anos 60. Dona Neyde descobriu, nas palavras do menino, que Ayrton tinha cuidado do presente dele: – Vim buscar a bicicleta. Extraído do livro “Ayrton – o herói revelado”, de Ernesto Rodrigues (Editora Objetiva).

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Divulgação

Albert Einstein, Albert Schweitzer, Alexander Fleming, Ayrton Senna, Beethoven, Betinho, Bezerra de Menezes, Charles Chaplin, Chico Xavier, Dom Hélder Câmara, Helen Keller, Irmã Dulce, Janusz Korczak, Louis Braille, Madre Teresa, Gandhi, Martin Luther King, Oskar Schindler, Salvador Arena, São Francisco de Assis e Stephen Hawking. Grandes sonhadores e realizadores, são a fonte de inspiração da ONG e tema principal de suas ações de conscientização, assim como, de toda a sua história.

Estes projetos assistenciais, no entanto, não tiram o foco principal da organização em conscientização, foco este que fez surgir o projeto “Passageiros da Esperança”. Realizado em terminais de transporte coletivo nas grandes cidades, distribui todo o material criado pela ONG (folhetos, revistas, cartões, etc), levando mensagens e histórias de espe-

rança, força, fé, otimismo e amor ao próximo, sem que haja vínculo comercial, financeiro, religioso ou político, como tudo aquilo que a organização se dispõem a fazer. A idéia, é mostrar os exemplos de vida de seus grandes inspiradores, assim como, seus ideais. Pessoas muito especiais, que são tema freqüente, nos

O plantador de árvores Um rei seguia pela estrada com sua comitiva, quando viu um homem idoso plantando uma arvorezinha. Achou aquela atitude estranha, já que a árvore demoraria em crescer e, quando pudesse dar frutos, o homem, na certa, não estaria mais lá para aproveitar. E então, o rei perguntou ao velho plantador de árvores por que insistia numa tarefa tão inútil. Ao que o homem respondeu: - Fico feliz em plantar, mesmo não sendo eu quem vai colher. Não estamos aproveitando hoje as árvores que foram plantadas há muitos anos? Plantar é o que importa. Não o colher. O rei considerou sábia a atitude do homem e, comovido, entregou um saco com muitas moedas de ouro como prêmio à sabedoria do plantador de árvores. E ele agradeceu assim:

milhares de materiais distribuídos, principalmente, na periferia das cidades. A ONG também desenvolve, reflexões, estudos e pesquisas sobre temas polêmicos e importantes, como a discriminação racial, a fome, a pobreza, dentre outros, com o intuito de conscientizar nossos formadores de opinião e também a população de uma forma geral. Com todo esse trabalho a organização tem a certeza de que o sonho destas pessoas maravilhosas - seus inspiradores - de um mundo mais justo, jamais terá fim, pois, quando um sonho como este torna-se coletivo, deixa de existir o direito de ser abandonado e como sonhadores, todos nós devemos ousar, imaginando um Brasil onde todos estendam, sem exceção, a mão aos menos favorecidos, colaborando para que tenham a oportunidade de serem felizes, lutando por uma vida mais digna e um mundo melhor, assim como, todos os inspiradores da organização - grandes sonhadores e seres humanos maravilhosos - ensinaram tão bem.

- Viu como são as coisas? Acabei de plantar e já estou colhendo frutos valiosos. “O plantio é opcional, mas a colheita é obrigatória. Por isso, tenha sempre muito cuidado com o que planta”.

“Um homem não morre quando deixa de existir e sim quando deixa de sonhar”.

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Humildade

Albert Einstein, o exemplo de vida do gênio humilde.

MUNDO

Albert Einstein, a humildade e humanidade de um gênio Desde as primeiras menções a Albert Einstein, dadas pela mídia em 1902, em jornais da Suíça, Tchecoslováquia e Alemanha - países onde exerceu cargos acadêmicos, antes de imigrar para os Estados Unidos - sempre ficou muito clara a sua preocupação com temas humanistas como o pacifismo, os riscos do supra-nacionalismo, os direitos humanos, as liberdades civis e os direitos e obrigações de judeus e árabes, visando uma vida harmônica e digna no Oriente Médio. Problemas seculares e opiniões, incrivelmente atuais, até hoje, mais de cinqüenta anos após sua morte. Albert Einstein, nasceu em 1879, na Alemanha e iniciou sua carreira como professor universitário vinte anos depois, já na Suíça. Ao contrário do que se faz pensar de pessoas com seu nível intelectual, ele era bem-humorado, muito simples e gostava de paz, música e mulheres. Sempre se vestiu aquém de seu cargo e importância, com a morte de sua segunda mulher, em 1936, seus www.direitoshumanos.usp.br

Desde muito novo Einstein sempre teve a consciência de ser diferente de seus colegas de profissão, certa vez escreveu à seus pais sobre sua "falta de talento para ficar triste muito tempo" e afirmava ser "sempre o mesmo bobo alegre, desde que não tenha um problema no estômago ou algo assim". Jamais demonstrou interesse em ocupar cargos de chefia nas instituições científicas onde desenvolvia seus projetos, mesmo que, em alguns momentos e contra a sua vontade, tenha os desempenhado. Era tão avesso a cargos de liderança, que chegou ao ponto, de em 1952, recusar uma oferta oficial para tornar-se presidente de Israel. Era exemplo único de simpatia, simplicidade e humildade, vivendo junto a elite científica mundial de sua época. Um ambiente cercado de homens de grande talento, mas, por muitas vezes, ostentando egos ainda maiores. Quando em 1919, confirmou-se a sua Teoria da Relatividade, sentiu-se incomodado com o impressionante culto à

sua personalidade, alimentado principalmente pela imprensa, definindo-o como “injusto e desagradável”. Sua natureza pacífica era tão aflorada que evitava atividades competitivas. Aos 16 anos solicitou a cidadania suíça, para evitar, desta forma, o serviço militar na Alemanha. Mesmo assim, era consciente dos problemas do seu tempo. Aproveitou de sua fama para defender duas grandes causas, o pacifismo e o judaísmo. Seu envolvimento com o sionismo, o fez descobrir o que era a vida como integrante de uma comunidade segregada, aproximando-se ainda mais do judaísmo, aumentando muito a sua simpatia natural e defesa pelos grupos oprimidos. Já sua militância pacifista, denunciando o patriotismo, como elemento de manipulação das massas, fez com que ficasse caracterizado como um corpo estranho na vida política alemã, sofrendo grandes ameaças anos mais tarde, com a ascensão nazi-fascista. Foi implacavelmente perseguido pelo Terceiro Reich (1933-1945), de Adolph Hitler, tendo a sua cabeça colocada a Divulgação

A Biblioteca Virtual de Direitos Humanos da Universidade de São Paulo disponibiliza textos completos de documentos, leis e principais tratados relacionados à questão dos direitos humanos.

padrões se tornaram ainda mais singulares. Na época, vivendo na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, seus suéteres amassados e sapatos calçados sem meias, fizeram dele uma figura folclórica no campus da universidade.

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A panela de sopa Uma antiga lenda Judaica, diz que certo dia, Deus convidou um rabino para conhecer o céu e o inferno. Ao abrirem a porta do inferno, viram uma sala em cujo centro havia um caldeirão, no qual se cozinhava uma suculenta sopa. Em volta dele, estavam sentadas pessoas famintas e desesperadas. Cada uma delas segurava uma colher de cabo tão comprido que lhe permitia alcançar o caldeirão, mas não suas próprias bocas. O sofrimento era imenso. Em seguida, Deus levou o rabino para conhecer o céu. Entraram em uma sala idêntica à primeira, onde havia o mesmo caldeirão com as pessoas à sua volta e colheres de cabo comprido. A diferença é que neste recinto todos estavam saciados. Eu não compreendo Senhor, disse o rabino, por que aqui as pessoas estão felizes e satisfeitas, enquanto na outra sala todas morrem de tristeza e aflição, se na verdade tudo é igual? Deus sorriu e respondeu: É por que aqui meu filho elas aprenderam a dar comida umas às outras. “A felicidade é o subproduto do esforço de fazer o próximo feliz”.

O último dos mortais Um homem triste morava na parte superior de uma velha casa em ruínas. Pardieiro sem dono. Paredões sem ninguém. Supunha-se o último dos mortais. Contudo, era firme na fé e orava, quase com orgulho, todas as noites: “Deus de bondade, Deus dos aflitos, da Terra sois o maior. Deus de bondade, graças te dou por ainda me alimentar com algumas batatas por dia”. Creio mesmo ser o último dos mortais... Mais dois anos se passaram, quando, ao sentir-se mais aflito e mais infeliz, resolveu partir ao rumo de outras terras... Quem sabe seria um pouco menos infeliz... Ele, que sempre saía na direção do quintal à procura das raízes que o sustentavam, desta vez saiu do lado oposto, no propósito de partir. Nunca havia saído por lá... Ao descer o último aclive, ouviu um barulho. Alguém gemia... voltou para ver...

www.fvc.org.br A Fundação Victor Civita contribui para a melhoria da qualidade do ensino fundamental com foco na qualificação do professor, prioritariamente em escolas públicas e pobres.

prêmio pelos nazistas. Obviamente, que seu espírito rebelde e enorme estima pela liberdade de pensamento, assim como Charles Chaplin, o fez ser perseguido pela histeria anticomunista do Macartismo, que assolava a sociedade norte-americana no final da década de 40, época em que os Estados Unidos viveu, talvez, o seu período mais retrógrado na era moderna. Desempenhou papel significativo nesta época, sugerindo à todos os seus colaboradores e companheiros o caminho da não-cooperação, adotado por Gandhi, na Índia, contra os britânicos, denominada como desobediência civil e que deu origem ao principio da “não violência”, da qual posteriormente, Martin Luther King, tornaria-se um de seus maiores discípulos. Einstein teve uma relação interessante com o Brasil. A comprovação da relatividade geral veio com a observação de um eclipse solar em maio de 1919, feita no Brasil, em Sobral, no Ceará e na África, na ilha de Príncipe. Ao visitar o país, em 1925, Einstein reconheceu o papel do país na confirmação de sua principal teoria. “O problema que minha mente formulou foi respondido pelo luminoso céu do Brasil”, disse à um jornalista. Albert Einstein é um exemplo concreto de que a humildade pode não ser a maior, mas certamente, é uma das mais belas de todas as virtudes.

Só então, pôde verificar que um aleijado, em chagas, morava embaixo, sobre um leito de palha vivendo somente das cascas de batatas que ele atirava fora... Naquele momento entendeu que, geralmente, o ser humano sempre se considera o mais infeliz, sem sequer, pelo menos, olhar para seu lado... “O homem que sofre antes de ser necessário, sofre mais que o necessário”.

“Não é preciso se drogar para ser gênio, nem ser gênio para ser humano. Mas precisamos de sorrisos, uns dos outros, para sermos felizes”. Albert Einstein 7


Divulgação

Amor

Albert Schweitzer, vida dedicada aos menos favorecidos.

MUNDO

Schweitzer e o amor incondicional ao seu semelhante Mais do que o vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1952, Albert Schweitzer será lembrado como um dos maiores exemplos de desprendimento e amor ao seu semelhante, assim como, à toda forma de vida. Nascido em 14 de janeiro de 1875, em Kaysersberg, na Alsácia Superior, região pertencente na época ao Império Alemão e hoje parte da França, era o filho mais velho de um pastor luterano. Estudou filosofia e teologia na Universidade de Strasbourg, onde obteve seu grau de doutor em filosofia em 1899. Foi simultaneamente professor de filosofia e pregador na Igreja de São Nicolau, tornando-se também doutor em teologia. Seu livro "A Questão do Cristo Histórico" fez dele uma figura mundial em teologia. Durante esse período tornou-se também um músico completo, começando sua carreira como organista. Seu professor de órgão, reconheceu nele um intérprete de Bach de uma percepção ímpar e pediu-lhe para escrever um estudo sobre a vida e arte do compositor. Em 1905, com apenas trinta anos de idade, gozava de uma posição invejável: trabalhava numa das mais notáveis

universidades européias; tinha uma grande reputação como músico e prestígio como pastor de sua Igreja. Porém, isto não era suficiente para uma alma sempre pronta ao serviço. Desta forma, anunciou sua intenção de tornar-se médico missionário e dedicar-se ao trabalho filantrópico. Retornou aos estudos universitários e em 1913 tornou-se doutor em medicina. Com sua mulher, Helene Bresslau, que havia praticado como enfermeira para acompanhá-lo, foi para Lambaréné, no Gabão, então colônia francesa na África Equatorial. A partir daquele momento, passou a dirigir total atenção aos moradores desta colônia francesa que, numa total orfandade de cuidados e assistência médica, debatiam-se na dura vida da selva. Construiu, às margens do rio Ogooué, www.msf.org.br Médicos Sem Fronteiras é uma organização humanitária internacional que leva cuidados de saúde à vítimas de catástrofes, conflitos, epidemias e exclusão social, independentemente de raça, política ou crenças.

com ajuda dos nativos, seu hospital, o qual equipou e manteve com recursos próprios, mais tarde suplementados por diversas doações de indivíduos e fundações de muitos países, principalmente da Europa. Ao deparar-se com a falta de recursos iniciais, improvisou um consultório num antigo galinheiro e atendeu seus pacientes enfrentando obstáculos como, o clima hostil, a falta de higiene, o idioma que não entendia, a carência de remédios e instrumental insuficiente. Tratava de mais de 40 doentes por dia e paralelamente ao serviço médico, ensinava o Evangelho com uma linguagem apropriada, dando exemplos tirados da natureza sobre a necessidade de agirem em beneficio do próximo. Com o início da Primeira Grande Guerra, os Schweitzer foram levados para a França, como prisioneiros de guerra. Passaram praticamente todo o período da guerra confinados num campo de concentração e neste período Albert voltou-se cada vez mais para as questões mundiais, o que levou-o a escrever 8


Um dia, um rapaz pobre, que vendia mercadorias de porta em porta para pagar seus estudos, viu que só lhe restava uma moeda de dez centavos e tinha fome.

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Uma oferta caridosa

Decidiu que pediria comida na próxima casa em que ofereceria seus produtos. Porém, seus nervos e sua vergonha o traíram quando uma encantadora mulher jovem abriu a porta. Em vez de comida, pediu um copo de água. Ela pensou que, o jovem parecia faminto e assim lhe deu um copo de leite. Ele bebeu devagar e depois lhe perguntou: - Quanto lhe devo? - Não me deves nada - respondeu ela - minha mãe sempre nos ensinou a nunca aceitar pagamento por uma oferta caridosa. Ele disse: - Pois, te agradeço de todo coração. Quando o jovem rapaz saiu daquela casa, não só se sentiu mais forte fisicamente, mas também sua fé em Deus e nos homens, ficou mais forte. Ele já estava resignado a se render, deixar tudo, abandonar a faculdade de medicina, muito cara para a sua realidade. Anos depois, essa jovem mulher ficou gravemente doente. Os médicos locais estavam confusos e a enviaram a uma grande cidade da região, onde chamaram o maior especialista para estudar sua rara enfermidade. Quando este escutou o nome do povoado de onde ela viera, uma estranha luz encheu seus olhos, era sua cidade natal e ele subiu ao seu quarto, reconhecendo-a imediatamente. A partir daquele momento dedicou-se a fazer de tudo para salvar aquela vida. Depois de uma demorada luta pela vida da enferma, ganhou a batalha. Finalizado o seu trabalho pediu à administração do hospital que lhe enviasse a fatura total dos gastos para aprová-la. Ele a conferiu e depois escreveu algo, mandando entregá-la no quarto da paciente. Ao receber a fatura, a paciente tinha medo de abri-la, pois, sabia que levaria o resto de sua vida para pagar todos os gastos. Mas, finalmente abriu, seu semblante ficou tomado de espanto, e lágrimas de alegria e gratidão correram por sua face, com uma nota escrita na fatura que dizia: “Pago totalmente muitos anos atrás, com um copo de leite”.

“Escreva as mágoas em areia e a gratidão em mármore”. - Benjamin Franklin

o livro “Kulturphilosophie” (Filosofia da Civilização), no qual lançou sua filosofia pessoal de “reverência pela vida”, um princípio ético relativo a todas as coisas vivas, que ele considerava essencial para a sobrevivência da civilização, retratando também, de forma intensa, a decadência das civilizações.

de médicos e enfermeiras dispostos a ajudá-lo. Reiniciou seus trabalhos para reconstruir seu hospital, totalmente arruinado, como se nada tivesse acontecido e ante a visão de um mundo pósguerra desmoronado, dizia: “começaremos novamente, devemos dirigir nosso olhar para a humanidade”.

Com o final da guerra retornou à África em 1924, após sete anos de permanência na Europa. Desta vez acompanhado

O novo hospital foi levantado numa área mais propícia e com o auxílio de sua equipe pode dedicar algumas horas

Albert Schweitzer em seu hospital no Gabão.

de seu dia a escrever livros, cuja renda contribuía para manter os pavilhões hospitalares. Seu discurso ao receber o Prêmio Nobel da Paz, em 1952 “Das Problem des Friedens in der heutigen Welt” (O problema da paz no mundo de hoje), teve circulação mundial, extasiando o mundo com sua história de vida. Realizou uma série de conferências na Europa, com o intuito de colher fundos para ampliar sua obra na África. Tornou-se muito conhecido nos círculos intelectuais do continente, porém, a fama não o afastou de seus sonhos. Ao retornar à África anexou ao hospital uma colônia de leprosos, atendidos por cerca de quarenta médicos europeus, enfermeiras e trabalhadores nativos. Morreu em 4 de setembro de 1965, em Lambaréné, no Gabão. Porém, seu exemplo e, principalmente, suas reflexões com um profundo teor humanista, ficaram eternizados para as próximas gerações, como a sua crença de que, quando o homem aprendesse a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém mais precisaria ensiná-lo a amar seu semelhante.

“Muito pouco da grande crueldade mostrada pelos homens pode ser atribuída realmente a um instinto cruel. A maior parte dela é resultado da falta de reflexão ou de hábitos herdados”. Albert Schweitzer

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Perseverança

Beethoven, genialidade e perseverança a serviço da música.

MUNDO

Ludwig van Beethoven, a perseverança de um gênio Desde menino, Ludwig van Beethoven sabia tocar piano muito melhor do que a grande maioria dos adultos. Aos sete anos de idade, deu o seu primeiro concerto, aos onze era organista da corte, em Colônia, na Alemanha e aos doze apresentou a sua primeira composição significativa. Com dezesseis anos de idade, foi à Viewww.ines.org.br O Instituto Nacional de Educação de Surdos tem como missão a produção, o desenvolvimento e a divulgação de conhecimentos científicos e tecnológicos na área da surdez em todo o território nacional, promovendo e assegurando, o desenvolvimento global da pessoa surda, sua plena socialização e o respeito às suas diferenças.

na e tocou para uma de suas maiores inspirações, o grande Mozart, que após o recital, disse: – Esse menino vai longe! Um dia o mundo inteiro vai falar dele. O pai de Beethoven era cantor da corte e com o grande talento de seu filho, já se viu com fama e montes de ouro que as pessoas pagariam para ouvir “o menino prodígio”. Parece que pensava mais no dinheiro – e na bebida – do que na felicidade de Ludwig. Costumava chegar em casa cambaleando, já de manhã e logo arrancava o menino da cama diretamente para o piano e forçava-o a estudar até a noite, não poupando os cascudos e safanões quando a criança, exausta, errava uma nota. É de se admirar que a maldade e brutalidade de seu pai não levasse Ludwig a

odiar a música. Talvez, a suavidade de sua mãe o tenha ajudado a superar essas horas difíceis. Mas, quando ele tinha dezessete anos, a mãe morreu. Imediatamente, seu pai vendeu as roupas dela para comprar bebida. Ludwig sentiu profundamente essa perda. Agora não havia mais ninguém para cuidar de seus dois irmãos menores. Tomando para si a responsabilidade da casa, ofereceu-se para trabalhar para o príncipe por metade do salário do pai, para sustentar os irmãos. O pedido foi atendido, a carreira do pai chegou ao fim e Ludwig se tornou imediatamente o chefe da família. Passou o resto da vida cuidando dos irmãos, embora eles fossem causa de constantes problemas e aflições. Em 1792, pouco antes de completar vinte e dois anos, Ludwig mudou-se 10


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O cachorrinho O dono de uma pequena loja de animais colocou um anúncio na porta que dizia, “cachorrinhos a venda”. Esse tipo de anúncio sempre atrai às crianças e logo um menino apareceu perguntando: – Qual é o preço dos cachorrinhos? O dono respondeu: – Entre R$ 30,00 e R$ 50,00. O menininho colocou a mão em seu bolso e tirou umas moedas: – Só tenho R$ 2,37. Posso vê-los? O homem sorriu e assobiou. De trás da loja saiu sua cachorra correndo seguida por cinco cachorrinhos. Um deles estava ficando consideravelmente para trás. O menininho imediatamente apontou o cachorrinho que estava mancando. – O que aconteceu com esse cachorrinho?, perguntou. O homem lhe explicou, que quando o cachorrinho nasceu, o veterinário lhe disse que tinha uma perna defeituosa e que andaria mancando pelo resto de sua vida. O menininho se emocionou muito e exclamou: – Esse é o cachorrinho que eu quero comprar! E o homem respondeu: – Não, você não pode comprar esse cachorrinho, se você realmente o quer, eu te dou de presente. O menininho não gostou e olhando direto nos olhos do homem lhe disse: – Eu não quero que você me dê de presente. Ele vale tanto quanto os outros cachorrinhos e eu pagarei o preço completo. Agora vou lhe dar meus R$ 2,37 e a cada mês darei R$ 0,50 até que o tenha pago por completo. O homem respondeu: – Você não quer de verdade comprar esse cachorrinho, filho. Ele nunca será capaz de correr, saltar e brincar como os outros cachorrinhos. O menininho se agachou e levantou a perna de sua calça para mostrar a perna esquerda, cruelmente retorcida e inutilizada, suportada num aparato de metal. Olhou de novo ao homem e lhe disse: – Bom, eu também não posso correr muito bem e o cachorrinho vai precisar de alguém que o entenda. O homem estava agora envergonhado e seus olhos se encheram de lágrimas. Ele sorriu e disse: – Filho, só espero e rezo para que cada um destes outros cachorrinhos tenham um dono como você.

“Na vida pouco importa como és, mas que alguém te aprecie pelo que és, te aceite e te ame incondicionalmente. Um verdadeiro amigo é aquele que chega quando o resto do mundo já se foi”.

A Infância de Beethoven foi simples e sofrida em Bonn, Alemanha, no final do século XVIII.

para Viena, para estudar com Joseph Haydn, o mais famoso compositor da época. Foram anos de muito trabalho. Aprendeu a tocar diversos instrumentos, como trompa, viola, violino e clarinete, para assim, melhor escrever música para orquestra. Trabalhava sem cessar em suas composições, escrevendo, corrigindo, revisando, rejeitando e começando tudo de novo. Aos poucos, espalhou-se a fama do seu talento. Os vienenses amavam a música e compareciam em massa para ouvir Beethoven. Deu uma série de concertos em 1795, um dos quais em benefício da viúva e dos filhos de Mozart. Daí por diante, seu sucesso estava garantido. Passou os anos seguintes compondo, viajando, dando concertos e afirmandose como grande músico. Aos vinte e sete anos, começou a notar um incômodo zumbido em seus ouvidos. A princípio, ignorou, mas, com o passar do tempo, o som piorava cada vez mais. Por fim, venceu a relutância e consultou alguns médicos. O diagnóstico foi pior do que uma sentença de morte: Beethoven estava ficando surdo. Por um longo tempo, não ousou contar à ninguém. Passou a se esquivar das pessoas. “Confesso que estou levando uma vida muito miserável”, escreveu a um amigo. “Há dois anos que evito todas as reuniões sociais, pois é impossível dizer às pessoas que estou ficando surdo. Se minha profissão fosse outra, seria mais fácil...”. Encontrou refúgio no campo, onde dava longos passeios pelos bosques. “Aqui, a surdez incomoda menos que em qualquer outro lugar”, escreveu. “As árvores parecem me falar de Deus”. 11


Duas crianças Conta a lenda, que estavam duas crianças patinando num lago congelado. Era uma tarde nublada, fria e as crianças brincavam despreocupadas. De repente, o gelo se quebrou e uma delas caiu, ficando presa na fenda que se formou. A outra, vendo seu amigo preso e congelando, tirou um dos patins e começou a golpear o gelo com todas as suas forças, conseguindo por fim, quebrálo e libertar o amigo. Quando os bombeiros chegaram e viram o que havia acontecido, perguntaram ao menino: Divulgação

– Como você conseguiu fazer isso? É impossível que tenha conseguido quebrar o gelo, sendo tão pequeno e com mãos tão frágeis! Nesse instante, um ancião que passava pelo local comentou: – Eu sei como ele conseguiu.

Convencido de que morreria em breve, Beethoven confessou sua vergonha e desespero num testamento endereçado a seus irmãos: “Não podia pedir às pessoas, ‘Fale mais alto por que sou surdo’. Como poderia admitir a fragilidade do sentido que deveria ser mais perfeito em mim do que em outros, um sentido que um dia possuí em alto grau de perfeição?... Devo viver no exílio. Se me arrisco a conviver com as pessoas, sou tomado de terror, há o risco terrível de dar a perceber a minha condição... Que humilhação passei, quando alguém a meu lado ouviu uma flauta a distância e eu não ouvi nada, ou quando alguém ouviu um pastor cantando e eu novamente não ouvi absolutamente nada. Esses incidentes me levaram à beira do desespero, um pouco mais e eu teria posto fim à minha vida...”. No entanto, Beethoven fez algo muito mais corajoso do que desistir, ergueu sua cabeça e entregou-se à arte. Continuou a compor, ainda que a melodia soasse cada vez mais fraca aos seus ouvidos. À medida que perdia a audição, sua música adquiria uma qualidade www.aacd.org.br A Associação de Assistência à Criança Deficiente tem como principal missão, tratar, reabilitar e reintegrar à sociedade crianças, adolescentes e adultos portadores de deficiência física.

Todos perguntaram: – Pode nos dizer como? Respondeu o idoso... – É simples, não havia ninguém ao seu redor para lhe dizer que não seria capaz. “No meio de toda dificuldade existe sempre uma oportunidade”. - Albert Einstein

muito diferente das elegantes obras de compositores que o antecederam. As composições de Beethoven se tornaram fortes, altamente emocionais e vibrantes – como sua vida, corajosa e turbulenta. Por estranho que pareça, compôs suas melhores obras, aquelas que mais conhecemos, depois de perder sua capacidade de ouvir. Beethoven terminou por ficar totalmente surdo. Apesar de viver sozinho e infeliz, compôs músicas sublimes. Sua última sinfonia, a “Nona”, termina com a famosa “Ode à Alegria”. Quando concluiu esta sua obra, Beethoven concordou em reger a orquestra e coro num concerto em Viena. O teatro estava completamente lotado. Beethoven tomou seu lugar em frente à orquestra, de costas para a platéia e ao seu comando, a música começou. Os acordes magníficos enfeitiçaram toda a platéia. Beethoven, que nada ouvia, seguia a pauta em sua mente. Os músicos receberam orientação para olhar para ele, mas que não dessem atenção à sua marcação do ritmo.

Quando terminou, o grande maestro baixou os braços e permaneceu imerso em silêncio, mexendo em sua partitura. Um dos cantores fez um gesto para que ele olhasse a platéia. Ele então se virou e viu todas as pessoas ovacionando-o, aplaudindo de pé, batendo palmas com os braços erguidos. O músico surdo inclinou-se e em cada rosto da platéia rolou uma lágrima. Os anos finais de sua vida foram tristes. Já muito doente, encontrava consolo na leitura das partituras. Passava horas agradáveis lendo composições, principalmente de Haydn, que um velho amigo lhe enviara. Gostava também de ler as obras de Schubert. Morreu em 1827 e alguns de seus amigos diziam que suas últimas palavras foram: “No céu, certamente eu devo tornar a ouvir”.

“Não existe verdadeira inteligência sem bondade”. Ludwig van Beethoven

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Divulgação ONG “Projetos sociais meu sonho não tem fim”.

Cidadania

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“É importante ver, com os dois olhos, os dois lados, para mudar uma única realidade, a que temos”, frase do sociólogo Herbert José de Souza, o Betinho. Uma vida de luta contra a “infância desfocada”, da maioria de

BRASIL

O legado social e humano de Betinho O sociólogo Herbert José de Souza, mais conhecido como Betinho, nasceu em 3 de novembro de 1935, em Minas Gerais. Infelizmente, ele não está mais presente entre nós, porém, o seu inestimável legado, deve ser lembrado e comemorado todos os dias, pois, como ele mesmo sempre dizia “solidariedade, não se agradece, comemora-se”. E esse mineiro, de jeito muito simples e semblante sereno, que escondia uma alma nobre, brava e lutadora pelos direitos humanos e sociais, principalmente dos menos favorecidos, fez de sua vida um exemplo máximo de solidariedade, amor ao próximo e trabalho em busca www.acaodacidadania.org.br No site da “Ação da Cidadania” você encontra diversas informações sobre o legado deixado pelo Betinho em projetos sociais como, Brasil sem fome, Natal sem fome, Click fome, Click fome de emprego, Brasil são outros 500, Inclusão cidadã, dentre outros.

do bem comum, num país tão marcado pela desigualdade social. Esse grande exemplo de vida, começou a ser moldado no início dos anos 60, quando Betinho fazia os cursos de Sociologia e Política e de Administração Pública, na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais. Atuando como líder nacional dos grupos de juventude católica, que representavam, naquele momento, as aspirações de transformação social no país. Ele também já era uma presença certa nos movimentos operários brasileiros da época. Com o golpe de 64, atuou na resistência contra a ditadura militar, dirigindo organizações de cunho democrático, porém, no início da década de 70, devido a pressões e perseguições do regime autoritarista, foi para o exílio, morando primeiro no Chile, depois no Canadá e também no México.

pressão, seu nome tornou-se um dos símbolos da campanha pela anistia. Em 1979 retornou ao país, envolvendo-se instantaneamente e inteiramente, nas lutas sociais e políticas, na busca pela democracia e justiça social. No início dos anos 80, Betinho foi um dos fundadores do ISER (Instituto de Estudos da Religião) e em 1986 da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS), uma das primeiras e mais influentes instituições do país, preocupada com a organização da defesa dos direitos dos portadores do HIV. Dedicou-se também à coordenação do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sócio-Econômicas), onde atuou até os últimos dias de sua vida, de forma brilhante, lúcida e consciente da triste e dura realidade brasileira, de perversidade, exclusão social, controle político e

Com o crescimento dos movimentos pela democratização e liberdade de ex13


www.akatu.org.br O Instituto Akatu é uma organização não governamental, sem fins lucrativos, criado para educar e mobilizar a sociedade para o

um nível insuportável e desumano de concentração de renda. No entanto, mesmo com tamanha nobreza de espírito, quis a natureza não ser benevolente com Betinho. Hemofíli-

co, contraiu AIDS em uma das inúmeras transfusões de sangue a que era obrigado a se submeter. Por essa mesma condição genética, em 1988, num intervalo de apenas três meses perdeu dois

A menina dos fósforos Estava muito frio, a neve caía e já estava começando a escurecer. Era a noite do último dia do ano. Uma pequena menina descalça e sem agasalho andava pelas ruas sozinha, no frio e no escuro. Quando atravessou correndo para fugir dos carros, a menina perdeu os chinelos que tinham sido da mãe e eram grandes demais. Um, ela não achou mais e um garoto levou o outro, dizendo que ia usar como berço quando tivesse um filho. A menina já estava com os pés roxos de tanto frio. Tinha um pacotinho de fósforos na mão e outro no bolso do avental velho. Naquele dia não tinha conseguido vender nada e estava sem um tostão. Com frio e com fome, ela andava pelas ruas morrendo de medo. A neve caía no cabelo cacheado, mas ela não podia pensar nem no cabelo nem no frio. As casas estavam todas iluminadas e havia por toda parte um cheirinho gostoso de assado de Ano Novo. Era nisso que ela pensava. Num cantinho entre duas casas, ela se encolheu toda, mas continuava sentindo muito frio. Voltar para casa, nem pensar: sem dinheiro, sem ter vendido nada, era certo o castigo do pai. Além do mais, a casa deles também era muito fria, sem forro e com o telhado cheio de furos e emendas, por onde o vento entrava assobiando. Com as mãos geladas, pensou em acender um fósforo. Conseguiu. A chama pequenininha parecia uma vela na concha da mão. A menina se imaginou diante de uma lareira enorme, com o fogo esquentando tudo e ela também. Mas logo a chama apagou e a lareira sumiu. Ela só ficou com um fósforo queimado na mão. Acendeu outro que, brilhando, fez a parede ficar transparente. Ela viu a casa por dentro: a mesa posta, a toalha branca, a louça linda. O assado, o recheio, as frutas. Não é que o assado, com garfo e faca espetados, pulou do prato e veio até onde ela estava? Mas o fósforo apagou e ela só viu a parede grossa e úmida. Acendeu mais um fósforo e se viu diante de uma belíssima árvore de Natal. Maior do que uma que tinha visto antes. Velinhas e figuras coloridas enchiam os galhos verdes. A menina esticou o braço e... o fósforo apagou. Mas as velinhas começaram a subir, a subir e ela viu que eram estrelas. Uma virou estrela cadente e riscou o céu. – Alguém deve ter morrido. A avó – única pessoa que tinha gostado dela de verdade e que já tinha morrido – sempre dizia: “quando uma estrela cai, é sinal de que uma alma subiu para o céu”. A menina riscou mais um fósforo e, no meio do clarão, viu a avó tão boa e tão carinhosa, contente como nunca. – Vovó, me leva embora! Sei que você não vai mais estar aqui quando o fósforo apagar. Você vai desaparecer como a lareira, o assado e a árvore de Natal. E foi acendendo os outros fósforos para que a avó não sumisse. Foi tanta luz que parecia dia. A avó ali, tão bonita, tão bonita. Pegou a menina no colo e voou com ela para onde não fazia frio e não havia fome nem dor. Foram para junto de Deus. De manhãzinha, as pessoas viram no canto entre duas casas uma menina corada e sorrindo. Estava morta. Tinha morrido de frio na última noite do ano. Nas mãos, uma caixa inteira de fósforos queimados. – Ela tentou se esquentar, coitadinha. Ninguém podia adivinhar tudo o que ela tinha visto, o brilho, a avó, as alegrias de um novo ano.

* História de Hans Christian Andersen.

“A criança desprotegida que encontramos na rua, não é motivo para revolta ou exasperação e sim um apelo para que trabalhemos com mais amor pela edificação de um mundo melhor”.

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No início de julho de 1997, Betinho foi internado, acometido por uma infecção oral. Vinte e seis dias depois pediu para

Campanha do projeto “Natal sem fome”. Os sonhos de Betinho continuam mais vivos do que nunca.

voltar para casa, onde morreu aos 61 anos, em 9 de agosto do mesmo ano, vítima da hepatite C. Em 11 de agosto, o corpo do sociólogo foi cremado e a seu pedido, as cinzas foram espalhadas em seu sítio, em Itatiaia. Betinho é e sempre será, sem dúvida www.rits.org.br A RITS - Rede de Informações para o Terceiro Setor é uma organização privada, autônoma e sem finalidade comercial, com a missão de ser uma rede virtual de informações, voltada para o fortalecimento das organizações da sociedade

alguma, o símbolo maior da determinação e do trabalho incansável pela cidadania, pela restauração da verdadeira democracia participativa, pela valorização da solidariedade e dos direitos humanos em nossa sociedade. Ele deixounos um legado maravilhoso, desempenhando papel fundamental em momentos importantes da história recente do país. Momentos como a articulação da “Campanha pela Reforma Agrária”, em 1983; a organização, em 1990, do movimento “Terra e Democracia”; a liderança, em 1992, do “Movimento pela Ética na Política”, que culminou com o impeachment do então Presidente da República, Fernando Collor de Mello; a criação da “Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida”, a campanha contra a fome, que ganhou as ruas em 1993; a campanha “Natal sem Fome”, que arrecadou, no seu primeiro ano, em 1994, 600 toneladas de alimentos; a “Caminhada pela Paz” do movimento “Reage Rio”, em novembro de 1995; e, em julho de 1997, pouco menos de um mês antes de sua morte, protagonizou o encontro com empresários de todo o país, lançando a campanha de adesões ao “Balanço Social”, uma espécie de balanço financeiro, onde os principais indicadores são os investimentos sociais feitos por empresas. Movimento este que auxiliou na mudança de se pensar nos problemas e desafios sociais de nosso país, junto à comunidade empresarial. Sua figura humana adquiriu notoriedade definitiva como o incansável coordenador da “Ação pela Cidadania contra a Fome e a Miséria”, ou a “Campanha do Betinho”, como ficou conhecida popularmente. Tão polêmica quanto popular, promoveu a cidadania, o direito ao emprego e a luta pela terra, etapa final do programa de ação planejado e sem dúvida alguma, o maior legado público de sua maravilhosa vida. Ao longo de sua trajetória, além de todas estas ações, publicou diversos livros, artigos e ensaios, sempre com a mesma preocupação, de criticar as estruturas que tornam a vida difícil e in-

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irmãos: o saudoso cartunista Henfil, aos 43 anos, famoso pelo engajamento político e também pelo humor inteligente, utilizado na crítica à ditadura militar e o músico Chico Mário, com apenas 39 anos. O que poderia ser encarado por qualquer um como motivo para uma revolta íntima e acomodação na luta pelo movimento social, foi ao contrário, uma força extra para as próximas batalhas, em memória de seus irmãos, também grandes defensores da causa.

No projeto “Brasil sem fome”, Betinho deixou claro seu inconformismo com um país farto e parte de sua população sem alimento à mesa.

justa para milhões de pessoas. Deixou-nos muitos ensinamentos, muitas vezes resumidos em frases de efeito sobre temas polêmicos como a fome, “a miséria é o maior crime moral que pode-se cometer”; os direitos civis, “democracia serve para todos ou não serve para nada” e a infância, “quando um país deixa matar crianças, é porque começou seu suicídio como sociedade”. Todos nós, seus contemporâneos, devemos tê-lo como uma grande fonte de inspiração, desejando que sua luz e a chama de seu sonho, continuem acesas no coração de cada um de nós e que acreditemos e lutemos sempre por um mundo melhor e mais justo, principalmente, para milhões de brasileiros, como cada um de nós, que vivem a margem de nossa injusta e cruel sociedade, pois, como ele mesmo já dizia, “um país não muda pela sua economia, política e nem mesmo sua ciência; muda sim pela sua cultura”.

“Em resposta a uma ética da exclusão, estamos todos desafiados a praticar uma ética da solidariedade”. Betinho 15


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Desprendimento

Dr. Bezerra de Menezes, uma mão estendida durante toda sua vida aos mais necessitados.

BRASIL

Doutor Bezerra de Menezes, o médico dos pobres

Aos sete anos aprendeu a ler, escrever e a fazer contas. Aos onze, em virtude da transferência de sua família para o Rio Grande do Norte, matriculou-se na aula pública de latinidade que funcionava no município de Serra do Martins e após dois anos dedicados ao estudo do latim, já possuía condições de ministrar estes conhecimentos, vindo a substituir ocasionalmente seu professor. Mais tarde, ao retornar ao Ceará, freqüentou o Liceu em Fortaleza, sendo considerado um de www.abrigobezmenezes.org.br O Abrigo Bezerra de Menezes ampara, gratuitamente, mais de duzentos idosos, dá assistência à centenas de famílias carentes, dentre outras atividades.

seus melhores alunos. Em 1851, mesmo ano da morte de seu pai, mudou-se para o Rio de Janeiro, ministrando aulas de Filosofia e Matemática, para custear seus estudos universitários. Doutorou-se em 1856 pela Faculdade de Medicina, como praticante interno do Hospital da Santa Casa de Misericórdia, onde sempre se classificava com a nota máxima. Nesta Dr. Bezerra de Menezes fase de sua vida ainda usava seu nome completo, que abreviaria anos mais tarde e com o qual, tornaria-se extremamente famoso nos meios acadêmicos, médicos e políticos de sua época. Divulgação

Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti, nasceu no município de Freguesia do Riacho do Sangue, Ceará, em 29 de agosto de 1831. Oriundo de uma tradicional família de políticos do sul do país, foi criado por seus pais, Antônio Bezerra de Menezes, tenente-coronel da Guarda Nacional e Fabiana de Jesus Maria Bezerra, dentro de rígidos princípios religiosos e disciplina militar.

Atuou durante anos como cirurgiãotenente no Corpo de Saúde do Exército, largando, posteriormente, essa posição devido a sua entrada na vida pública. Bezerra de Menezes possuía também uma famosa clínica médica, com uma ampla clientela rica. Tudo o que recebia da classe abastada no seu renomado

consultório, gastava com os mais pobres, não só clinicando gratuitamente, como dando à eles, tudo de que necessitassem. Todo este trabalho, em favor dos mais humildes e desamparados, era anônimo, o que não impediu que todos aqueles que conheciam muito bem o seu trabalho, o apelidassem carinhosamente de “o médico dos pobres”. Em uma ocasião, ao atender uma mulher carente, prescreveu-lhe os remédios e entregou-lhe a receita ao que esta respondeu que não tinha dinheiro nem para dar o que comer aos seus filhos, quanto mais comprar remédios. Ele procurou nos bolsos e nada encontrou, olhou em volta e nada viu, reparou então em seu querido anel de formatura e deu-o, sem pestanejar. Esse trabalho comunitário, em prol dos mais necessitados, levou a população do bairro carioca de São Cristóvão a pedir que ele representasse a comunidade na Câmara Municipal. Ele aceitou o pedido e tornou-se vereador eleito pelo Partido Liberal. Bezerra de Menezes pediu baixa do Exército e durante vinte anos (de 1860 a 1880) foi eleito verea16


www.andreluiz.org.br As Casas André Luiz têm, dentre suas diversas ações sociais realizadas a mais de 50 anos, destaque para o trabalho assistencial gratuito à crianças que necessitam de cuidados especiais.

dor, deputado geral e indicado para o Senado, chegando a ocupar por várias vezes as funções de presidente interino da Câmara Municipal da Corte, efetivando-se em julho de 1878, cargo que corresponderia ao de prefeito do Rio de Janeiro nos dias atuais. Jamais obteve favores do governo para suas candidaturas à cargos públicos e como político, era adorado pelo povo, principalmente, nas camadas mais pobres da população. Em agosto de 1886, declarou sua adesão ao espiritismo, tornando-se posteriormente, devido a seu espírito extremamente pacífico e conciliador, presidente da Federação Espírita Brasileira e é até hoje, um dos maiores nomes e difusor da doutrina espírita no país. Como político e jornalista, Bezerra de Menezes, sempre defendeu, entre outras causas, a emancipação dos escravos. Durante a campanha abolicionista, com espírito prudente e ponderado, escreveu “A escravidão no Brasil e as medidas que convém tomar para extinguí-la sem danos para a Nação” e também sobre os problemas de sua terra, no estudo “Breves considerações sobre as secas do Norte”. Nesse período lançou o jornal A Reforma, de orientação liberal. Foi o construtor da Estrada de Ferro Macaé-Campos, que o tornou muito rico, mas acabou falindo, não só por dar tudo que tinha para os mais pobres, como também pela completa falta de apoio do Governo Imperial, que não liberou os recursos necessários para o desenvolvimento de sua ferrovia. Certo dia, quando comandava a empresa de trens, ao findar o expediente, um conhecido chegou até ele dizendo que seu filho havia morrido, não deixou ele continuar, chamou a um canto, tirou a carteira e nem olhou o quanto tinha,

Pare, por favor! Um jovem e bem sucedido executivo, dirigia rapidamente pela vizinhança o seu novo carro. Observando crianças entre os carros estacionados, diminuiu um pouco a velocidade, quando, de repente, um tijolo espatifou-se na porta de seu carro. Ele freou bruscamente, deu ré e saltou do carro, pegando bruscamente uma criança e empurrando-a contra um veículo estacionado, gritando: - Por que isso? Quem é você? Que besteira está fazendo? Este é um carro novo e caro, aquele tijolo vai me custar muito dinheiro. Você tem noção do que fez? - Por favor, senhor, me desculpe, eu não sabia mais o que fazer! Ninguém estava disposto a parar e me atender. Neste momento, lágrimas corriam do rosto do garoto, enquanto apontava na direção dos carros estacionados. - Meu irmão é paralítico e na descida ele caiu de sua cadeira de rodas e eu não consigo levantá-lo sozinho. Soluçando, o menino perguntou ao executivo: - O senhor poderia me ajudar? Ele está machucado e é muito pesado para mim. Movido internamente, muito além das palavras, o jovem motorista, engolindo sua surpresa, dirigiu-se ao jovenzinho, colocando-o em sua cadeira de rodas. Tirou seu lenço, limpou as feridas e arranhões, verificando se tudo estava bem. “Obrigado e que Deus possa abençoá-lo”, disse a criança à ele. O jovem então viu o menino se distanciar, empurrando o irmão para casa. Foi um longo e lento caminho de volta ao seu carro e a sua casa. Ele jamais consertou a porta. Deixou assim, para lembrá-lo de não ir tão rápido pela vida, que alguém tivesse que atirar um tijolo para obter sua atenção. “A maior de todas as doenças atuais é o sentimento que a pessoa tem de ser indesejada e relegada ao esquecimento. O maior de todos os males é a falta de amor e a terrível indiferença para com o nosso semelhante”. - Madre Teresa

deu-lhe tudo, percorreu os bolsos e deu até as moedas que possuía. Não esperou agradecimentos e foi embora, só então percebeu que não tinha dinheiro nem para o bonde, de modo que foi obrigado a pedir à seus amigos a passagem.

serem recusados, de modo que deixavam dinheiro para auxiliá-lo debaixo de seu travesseiro, desde grandes notas até pequenos tostões.

Seu espírito de desprendimento não o permitiu acumular bens materiais e foi em meio a grandes dificuldades financeiras, que foi vítima de um acidente vascular cerebral. Durante seis meses recebeu visitas todos os dias, apenas um de cada vez, que nada diziam, para que ele não tivesse que responder. Todos sabiam da penúria em que vivia em decorrência do derrame, no entanto, tinham medo de oferecer-lhe ajuda e

Seu nome é muito reconhecido ainda hoje e evoca a lembrança de seu passado rico, não em ouro, mas em lições de caridade e devoção à fé abraçada.

Morreu em 11 de abril de 1900, na pobreza, porém, amado pelo seu povo.

“Quanto mais auxiliardes aos outros, mais amplo auxílio recebereis do Senhor”. Bezerra de Menezes

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Generosidade

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Louis Braille e seu sonho de levar a luz ao mundo dos deficientes visuais.

MUNDO

Louis Braille, um iluminado num mundo de escuridão Num belo dia de céu azul do verão francês, cerca de dois séculos atrás, um pequeno menino estava na oficina de seu pai, na cidade de Coupvray, perto de Paris. Louis Braille tinha apenas três anos e gostava muito de ver o pai fazer selas e arreios. O pai lhe dava pequenas tiras de couro para brincar e ele fingia fazer arreios também. Quando crescesse, ele queria ser igual ao pai. O Sr. Braille trabalhava com grande afinco, cortando o couro com mão segura e olhar crítico. Levou uma peça de www.fundacaodorina.org.br A fundação Dorina Nowill para cegos, oferece produtos e serviços que propiciam aos deficientes visuais condições para assumirem o seu papel de cidadãos independentes. Disponibilizam informações à sociedade e serviços como, a conscientização e realização de ações voltadas à prevenção da cegueira.

couro à luz e examinou com atenção para saber que faca utilizar. Largando a peça, atravessou toda a oficina para pegar uma ferramenta adequada para a tarefa. O pequeno Louis foi à mesa de trabalho, pegou a sovela e começou a bater numa tira de couro. Batia com força, tentando furar o couro duro e seus dedinhos não tiveram firmeza para segurar a sovela. O instrumento pontudo escapoulhe da mão e atingiu certeiramente o seu olho esquerdo. O Sr. Braille ouviu o grito de seu pequenino ajudante e correu para socorrer o menino, mas era tarde demais. O mal estava feito. Horrorizados, os pais correram ao médico, na esperança de salvar a vista da criança, mas o ferimento era muito grave. A tragédia se completou alguns dias mais tarde, quando a infecção atingiu o outro olho. Em pouco tempo, o menino não enxergava mais nada.

Naquele tempo as pessoas tratavam os cegos com negligência ou crueldade. As vezes eram expulsos pela família e viviam de esmolas ou eram contratados para trabalhos pesados, como bestas de carga. Em alguns lugares, a cegueira era vista como obra do demônio ou como castigo divino. Porém, as coisas eram diferentes na cidade de Couvpray, onde todos cuidavam do pequeno Louis. Ao ouvirem a batida da bengalinha, interrompiam o que estavam fazendo para ajudá-lo a atravessar a rua ou virar a esquina. Ajudaram a contar quantos passos levava para ir ao mercado, aos limites da cidade, à escola. Passeando junto com o pai, Louis sempre perguntava: – Papai, de que cor está o céu hoje? – Todo azul – dizia o pai. – Todo azul. Mas, embora Louis se esforçasse para se lembrar do azul, as imagens da primeira infância, gradualmente, desapare18


A janela Dois homens, ambos gravemente doentes, estavam no mesmo quarto de hospital. Um deles podia sentar-se na sua cama durante uma hora, todas as tardes, para que os fluídos circulassem nos seus pulmões. A sua cama estava junto da única janela do quarto. O outro homem tinha de ficar sempre deitado de costas. Os homens conversavam horas a fio. Falavam das suas mulheres e famílias, das suas casas, dos seus empregos, onde tinham passado as férias. Todas as tardes, quando o homem da cama perto da janela se sentava, ele passava o tempo a descrever ao seu companheiro de quarto, todas as coisas que ele conseguia ver do lado de fora da janela. O homem da cama ao lado começou a viver à espera desses períodos de uma hora, em que o seu mundo era alargado e animado por toda a atividade e cor do mundo do lado de fora da janela. A janela dava para um parque com um lindo lago. Patos e cisnes chapinhavam na água, enquanto crianças brincavam com seus barquinhos. Jovens namorados caminhavam de braços dados por entre as flores de todas as cores do arco-íris. Árvores velhas e enormes acariciavam a paisagem e a tênue vista da silhueta da cidade, podia ser vista no horizonte. Enquanto o homem descrevia isto tudo com extraordinário pormenor, o homem no outro lado do quarto fechava os seus olhos e imaginava a pitoresca cena. Um dia, o homem perto da janela descreveu um desfile que passava. Embora seu colega de quarto não conseguisse ouvir a banda, ele conseguia vê-la e ouvila em sua mente, enquanto o outro a refratava através de palavras descritivas. Dias e semanas passaram. Uma manhã, a enfermeira chegou ao quarto trazendo água para os seus banhos, e encontrou o corpo sem vida do homem perto da janela, que tinha falecido calmamente enquanto dormia. Ela ficou muito triste e chamou os funcionários do hospital para que levassem o corpo. Logo que lhe pareceu apropriado, o outro homem perguntou se podia ser colocado na cama perto da janela. A enfermeira disse logo que sim e fez a troca. Depois de se certificar de que o homem estava bem instalado, a enfermeira deixou o quarto. Lentamente e cheio de dores, o homem ergueu-se, apoiado no cotovelo, para contemplar o mundo lá fora. Fez um grande esforço e olhou para o lado de fora da janela, que dava, afinal, para uma parede de tijolos! O homem perguntou à enfermeira o que teria feito com que seu companheiro de quarto, lhe tivesse descrito coisas tão maravilhosas do lado de fora da janela. A enfermeira respondeu que, o homem era cego e nem sequer conseguia ver a parede. Talvez ele quisesse apenas dar-lhe coragem.

“Há uma enorme felicidade em fazer os outros felizes, apesar dos nossos próprios problemas. A dor partilhada é metade da tristeza, mas a felicidade, quando partilhada, é dobrada”.

ceram e ele não se lembrava mais da beleza das cores. Aprendeu a ajudar seu pai na oficina, trazendo ferramentas e peças de couro. Ia à escola com Busto de Louis Braille na França. os amigos e todos se admiravam da facilidade com que aprendia e memorizava as lições. Gostava muito de conversar com os professores, principalmente, sobre história e geografia e com o padre sobre as histórias da Bíblia. Mas, na verdade, não estava muito feliz com os estudos, pois tinha um grande desejo que até aquele momento era impossível de realizar, queria ler livros e escrever cartas como seus colegas. Certo dia, um de seus professores falou com Louis sobre uma escola para cegos em Paris. Lá eles tinham livros especiais para cegos. Louis mal pôde acreditar. Implorou aos pais que o mandassem para essa escola e o pároco da comunidade ajudou a levantar o dinheiro para as despesas. Assim, quando tinha dez anos Louis viajou com o pai para Paris e se matriculou no Instituto Nacional para Crianças Cegas. Logo ao chegar, levou aos professores muitas questões que ardiam em sua mente. Soube que a escola experimentava novas maneiras de ensinar os cegos a ler. O fundador da escola tinha mandado imprimir livros com letras grandes em relevo. Os estudantes cegos sentiam pelo tato as formas das letras e, desta forma, aprendiam com este método as palavras e frases. Não demorou, porém, que Louis descobrisse as limitações do método. As letras eram tão grandes que uma história curta enchia muitas páginas. Um simples livro chegava a pesar cem quilos! O processo de passar os dedos sobre as letras era demorado e a leitura tomava muito tempo. Como a confecção dos livros era muito cara, a escola só pode imprimir alguns volumes. Em muito 19


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Ilustração de Louis Braille em sua adolescência.

pouco tempo, o pequeno Louis já tinha lido todo o acervo da biblioteca. Apesar da decepção com a lerdeza do método, o menino de Coupvray estudava muito. Adorava música e tornou-se ótimo estudante de piano e violoncelo. Passava as horas livres estudando no órgão da igreja, pois adorava tocar nas cerimônias religiosas. O amor à música, aguçou ainda mais o seu desejo pela leitura. Além das letras, agora queria ler notas musicais. Queria aprender a escrever. Passava todas as noites acordado pensando no problema. “Tem que haver um jeito”, pensava. “Se os cegos podem aprender como todo mundo, devem ser capazes de ler e escrever também. Tenho que descobrir um jeito”. Foi então, que ouviu falar de um capitão do exército, chamado Charles Barbier, que havia desenvolvido um método para ler mensagens no escuro. A “escrita noturna”, como era conhecida a técnica, consistia em conjuntos de pontos e traços em relevo no papel; correndo os dedos sobre os códigos, os soldados podiam ler os textos sem precisar de luz. Louis viu imediatamente, as possibilidades dessa idéia, pois, para ele da mesma forma que um soldado podia ler e escrever textos no escuro, os cegos também poderiam. Procurou o capitão Barbier, que demonstrou o sistema com a maior boa vontade. Fez uma série de furinhos em uma folha de papel, com um furador muito semelhante ao que tinha tirado a visão de Louis. Virando a folha, mostrou os pequenos relevos dos furinhos

no outro lado do papel e explicou como as combinações de pontos e traços formavam as palavras e frases. Louis voltou ao instituto e começou a trabalhar, incansavelmente, no projeto. Noite após noite, mês após mês, trabalhou no sistema de Barbier, fazendo adaptações e aperfeiçoamentos. Sabia que a idéia era fundamental, mas o código de traços e pontos precisava ser mais complexo e completo, para ter uma real utilidade para os cegos. Como muitas idéias e invenções, a de Louis foi encarada com suspeita. Os diretores do instituto não aprovaram a tentativa de mudança. Tinham gasto uma pequena fortuna na impressão dos livros com letras em relevo e não viam motivo para trocar por um novo sistema baseado em pontinhos. Argumentavam que uma escrita específica para cegos ia segregá-los ainda mais da sociedade. Não aprovavam os esforços de Louis. Quando fez dezessete anos, Louis tornou-se professor do instituto. De dia ensinava a ler pelo método de letras grandes e à noite continuava a aperfeiçoar o novo sistema. Trabalhava longas horas, testando novos padrões, procurando as melhores combinações e, às vezes, adormecia sobre os furadores e papéis. À exceção da música, dedicava todas as horas livres à suas pesquisas, confiante no sucesso. Em 1829, aos vinte anos de idade, Louis chegou a um alfabeto legível com combinações variadas de um a seis pontos. O método Braille estava pronto. Projetou um furador menor, mais adequado à função, sendo que, algum tempo depois, era capaz de escrever tão rápido quanto falava. O sistema permitia também ler e escrever música. A notícia correu e alguns alunos iam secretamente ao quarto de Louis à noite para aprender o novo método. Louis começou a copiar livros – Shakespeare e outros clássicos – logo mais e mais cegos, tomavam conhecimento do método. Começou, então, a receber cartas de todas as partes do mundo, pedindo mais informações sobre sua invenção.

No entanto, infelizmente, muitos não reconheciam a importância do sistema de Braille. Alguns admitiam seu valor, mas não se interessavam. Outros, por inveja, se ressentiam do novo método. Alguns professores do instituto tentaram proibir, de todas as formas, o ensino dos pontos de Louis Braille. Mas, ele continuava a aprimorar e a divulgar a sua invenção, esperando que um dia os cegos do mundo inteiro aprendessem a ler e escrever como ele. Transcrevia novos livros e ensinava a leitura a quantos se interessassem. Falava sobre o método a quem quisesse ouvir, demonstrava quantas vezes fosse preciso, tentando atrair o interesse do maior público possível. Ao fim de tantos dias e noites de trabalho incessantes, sua saúde começou a dar sinais de fraqueza e ele temia que a chance dos cegos aprenderem a escrever pelo seu método, morresse com ele. Entretanto, a idéia terminou por encontrar aceitação. No fim da vida de Louis, diversas cidades da Europa já reconheciam a importância do método Braille e era cada vez maior o número de cegos que adotava os pontinhos em relevo. Era a luz que despontava. Algumas semanas antes de morrer, no leito do hospital, Louis disse à um amigo: – Oh, mistério insondável dos corações humanos! Tenho certeza de que minha missão na terra terminou. Morreu extremamente jovem, no ano de 1852, dois dias depois de completar quarenta e três anos de idade. Nos anos seguintes à morte de Braille, o método se espalhou por vários países e, finalmente, se tornou aceito como método oficial da leitura e escrita para aqueles que não vêem. Assim, os livros puderam fazer parte de suas vidas, graças a um pequeno menino sonhador, persistente e generoso, que dedicou toda sua vida a enriquecer a dos cegos.

“Até que o sol não brilhe, acendamos uma vela na escuridão”. Confúcio

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As pessoas são irracionais, ilógicas e egocêntricas. Ame-as MESMO ASSIM.

Se você tem sucesso em suas realizações,

O bem que você faz

ganhará falsos amigos e

será esquecido amanhã.

verdadeiros inimigos.

Faça o bem

Tenha sucesso

MESMO ASSIM.

MESMO ASSIM.

A honestidade e a franqueza o tornam vulnerável. Seja honesto MESMO ASSIM.

Aquilo que você levou

Os pobres têm muita

anos para construir,

necessidade de ajuda,

pode ser destruído de

mas alguns deles

um dia para o outro.

podem atacá-lo se você

Construa

os ajudar. Ajude-os

MESMO ASSIM.

MESMO ASSIM. Se você der ao mundo e aos outros o melhor de si mesmo, você corre o risco de se machucar. Dê o que você tem de melhor MESMO ASSIM. Madre Tereza de Calcutá

www.meusonhonaotemfim.org.br


Otimismo

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Chaplin, da infância paupérrima a sinônimo de sua época.

MUNDO

Charles Chaplin, o gênio de infância triste que fazia rir No final do século XIX, Londres, não era um dos locais mais agradáveis para se viver. Mesmo sendo a capital do Império Britânico, auto-intitulado como “o império onde o sol jamais se punha” – devido à quantidade de colônias espalhadas pelo mundo – a vida na metrópole era de degradação, com pestes, violência e outros reflexos negativos, do auge da revolução industrial. É neste cenário conturbado, que em 16 de abril de 1889, nasce Charles Spencer Chaplin. Sua mãe, Hannah Harriette Hill, atriz de comédia e seu pai, Charles Chaplin, artista do music-hall, eram artistas fracassados e sem recursos, desta forma, as cruéis realidades da vida, visitaram, freqüentemente, o pequeno www.unicef.org.br A UNICEF - Fundo das Nações Unidas para a Infância, tem como princípio básico, promover o bem-estar da criança e do adolescente, com base em sua necessidade, sem discriminação de raça, credo, nacionalidade, condição social ou opinião política.

Chaplin, durante toda sua infância. Talvez, devido a tanto infortúnio nesta fase – pequeno, paupérrimo e envolto em severos problemas domésticos – tornou-se, no auge da fama, uma das vozes mais ativas e críticas à injustiça ou brutalidade contra o ser humano. Atacando de maneira mordaz e genial, toda e qualquer forma de autoritarismo. Charles foi obrigado a debutar artisticamente com apenas cinco anos de idade, pois, sua mãe – nesta época já abandonada pelo marido – teve que encerrar sua carreira prematuramente, devido a um grave problema de laringite. Novos problemas de saúde de sua mãe, principalmente mentais, devido à fome e a pobreza, tornaram as condições de vida ainda mais miseráveis e fizeram com que ele passasse boa parte de sua infância em orfanatos. Para ele, pior que as dificuldades financeiras, era a ausência de sua mãe. Foi ela que lhe ensinou a cantar e representar. Ainda muito pequeno, quando esteve de cama por duas semanas, devido a uma séria doença, ela sentava-se na janela e representava o que acontecia

fora de casa. Além dela, ele só tinha seu meio irmão, Sidney, companheiro de infortúnio e que o acompanhou por toda sua vida, tornando-se muito importante, até mesmo em sua carreira, atuando por diversas vezes como seu empresário. Aos oito anos foi contratado por uma companhia de bailarinos e posteriormente, conseguiu um emprego num circo, onde pôde desenvolver suas habilidades cômicas. Na adolescência, trabalhou na companhia do acrobata Fred Karno, que fazia sucesso com espetáculos de mímica. Chaplin, superou rapidamente os principais artistas da companhia, tendo em 1909, sua primeira temporada em Paris. Em 1910 embarcou para os Estados Unidos, porém, a Broadway não assimilou seu humor inglês. Mesmo assim, chamou a atenção de alguns jornais, e dois anos depois foi contratado pela Keystone Comedy Film Company, uma das maiores produtoras de cinema 22


Chaplin x Hitler Por uma ironia do destino Charles Chaplin nasceu no mesmo ano de Adolf Hitler (1889) e seus destinos se cruzaram com maior intensidade em 1940, quando Chaplin finaliza o filme “O grande ditador”. Na época de seu lançamento, o mundo enfrentava a II Guerra Mundial (1939-1945) e a ascensão do nazismo, com sua propagada “limpeza étnica”. No filme, Chaplin interpreta dois papéis: um barbeiro judeu (Carlitos) e o ditador Hynkel (referência direta à Hitler).

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Chaplin passou dois anos estudando a vida de Hitler e quando assistia vídeos em que o ditador agradava crianças ou visitava doentes no hospital, ficava indignado, dizia que Hitler era o maior ator que ele já havia visto. Ele ousou, antes de qualquer outro, alertar ao mundo, as barbáries do autoritarismo, deixando registrado em seu filme, uma época absurdamente triste, de intolerância e trevas, porém, que jamais deve ser esquecida, para que não corramos o risco de cometermos os mesmos erros.

da época, realizando em Los Angeles, três filmes por semana com Mack Sennett. No início, ele teve que se adaptar ao estilo de Sennett, com perseguições policiais e exibições de insinuantes banhistas. No entanto, em 1914 no filme “Corrida de automóveis para meninos”, criou um personagem que logo seria identificado pelo público. “Pensei que poderia usar calças muito grandes e sapatos enormes, além de uma bengala e um chapéu coco. Queria que tudo fosse contraditório: calças folgadas, paletó apertado, chapéu pequeno e sapatos enormes. Não sabia se deveria parecer velho ou jovem, mas quando me lembrei que Sennett tinha pensado que eu era mais velho, coloquei um bigodinho que me daria alguns anos, sem esconder minha expressão”, comentou Chaplin na época. Naquele exato momento nascia “Carlitos”. Em 1915, assinou contrato com a Essanay, formando uma equipe competente e consolidando técnica e estilo próprios. Quando começou a dirigir seus filmes, percebeu “que o posicionamento da câmera não era apenas uma questão psicológica, mas também constituía a articulação da cena; era a base do estilo

cinematográfico”. Seu sucesso foi consolidado na Mutual, em 1916, onde realizou suas primeiras obras-primas como “No armazém”, “Rua da paz” e “O emigrante”. Em 1917, com o intuito de romper o monopólio de Hollywood, foi um dos fundadores da United Artists, mas só pôde dedicar-se à ela, depois de rodar nove filmes para a First National, sua contratante na época. Entre eles rodou “Vida de cachorro” (1918) e “O garoto” (1921), obras em que começa a ficar muito claro sua inquietação e envolvimento com causas sociais. Já pela United, lança em 1925 outra obra genial, “Em busca do ouro”. Porém, a tranqüilidade na criação de suas obras estava com os dias contados, quando, em 1927, surge o cinema sonoro, com a estréia do filme “O cantor de jazz”. Charles percebeu que o cinema mudo tinha seus dias contados, no entanto, proibiu que “Carlitos” falasse e se opôs, totalmente, ao cinema sonoro. Em 1928, ano da morte de sua mãe – que a vários anos morava na Califórnia, onde ele a instalou sob os cuidados de uma enfermeira – ganhou seu primeiro

Oscar, pelo filme “O circo” e lançou “Luzes da cidade”, que encerrou os grandes clássicos do cinema mudo. Ao compararmos o roteiro do filme “O circo” com “O rei do circo” (1954), de Jerry Lewis e “Os saltimbancos trapalhões” (1981), dos Trapalhões, vemos a grande similaridade de situações e a enorme influência de Chaplin no mundo da comédia, até os dias de hoje. Chaplin, nunca escondeu sua simpatia pelo socialismo e a defesa das classes oprimidas e depois da crise de Wall Street e a efervescência dos movimentos fascistas europeus, sua consciência intensificou-se, transferindo essas inquietações para seus dois únicos longasmetragens feitos na década que se iniciava. O primeiro, “Tempos modernos” (1936), foi uma maravilhosa sátira sobre a alienação dos operários no processo de produção em massa; já o segundo, é de uma ousadia inédita até então, Chaplin caricatura Adolf Hitler, no filme “O grande ditador” (1940). Na Alemanha e nos países ocupados e aliados, o filme é proibido. Nem todos os americanos se identificam com o discurso pacifista que o protagonista – um gênio, até pouco tempo mudo – divulga no final. Com o término da II Guerra Mundial, Chaplin é rotulado pelos movimentos anticomunistas que surgem e passa a ser mal visto nos Estados Unidos. Apesar do ambiente hostil, rodou outros filmes, sendo o último, “Luzes da ribalta”, em 1952. Neste ano, o departamento de imigração o denuncia de militância comunista, falta de patriotismo e suspeita de adultério. Com a desculpa de tirar férias, embarca para Londres, com sua esposa Oona O’Neil e os quatro filhos, rompendo www.doutoresdaalegria.org.br Os Doutores da Alegria levam à crianças hospitalizadas, suas famílias e profissionais de saúde, a experiência da alegria, pura e simples, em meio à tensão do ambiente hospitalar.

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Amor em uma lata de leite Dois irmãozinhos maltrapilhos, provenientes de uma favela - um deles de cinco anos e o outro de dez - iam pedindo um pouco de comida pelas casas de uma das ruas da cidade de São Paulo. Estavam famintos: – “Vai trabalhar e não amole”, ouvia-se detrás da porta; – “Aqui não tem nada não”, dizia outro. As múltiplas tentativas frustradas entristeciam as crianças. Por fim, uma senhora muito atenta disse-lhes: – “Vou ver se tenho alguma coisa para vocês garotinhos!” E voltou com uma latinha de leite. Que festa! Ambos se sentaram na calçada. O menorzinho disse para o de dez anos: “você é mais velho, tome primeiro”. E olhava para ele com seus dentes brancos, a boca semi-aberta, mexendo a ponta da língua. Eu, parado, como um tolo, contemplava a cena. Se vocês vissem o mais velho olhando de lado para o pequenino! Levava a lata à boca e, fazendo gesto de beber, apertava fortemente os lábios para que por eles não penetrasse uma só gota de leite. Depois, estendendo a lata, dizia ao irmão: “Agora é sua vez. Só um pouco”. E o irmãozinho, dando um grande gole exclamava: “como está gostoso!”. “Agora eu”, dizia o mais velho. E levando a latinha, já meio vazia, à boca, não bebia nada. “Agora você”, “agora eu”, “agora você”, “agora eu, ...”. E, depois de três, quatro, cinco ou seis goles, o menorzinho, de cabelo encaracolado, barrigudinho, com a camisa de fora, esgota o leite todo, ele sozinho. Esse “agora você”, “agora eu” encheram-me os olhos de lágrimas. Então, aconteceu algo que me pareceu extraordinário. O mais velho começou a cantar, a dançar, a jogar futebol com a lata de leite vazia. Estava radiante, o estômago vazio, mas o coração trasbordante de alegria. Pulava, com a naturalidade de quem não fez nada de extraordinário, ou melhor, com a naturalidade de quem está habituado a fazer coisas extraordinárias, sem dar-lhes maior importância. “Nada é pequeno no amor. Aqueles que esperam por grandes ocasiões para demonstrar a sua ternura e amor ao próximo, não sabem amar”.

com o país onde viveu durante quarenta anos e que, infelizmente, não teve a sensibilidade de reconhecer sua humanidade, atacando-o com injúrias e calúnias, por diversas vezes desumanas. Instala-se perto da cidade de Vevey, na Suiça. Onde sua esposa renuncia à sua cidadania americana e ele, devolve seu visto de regresso, alegando que “já estava velho demais para agüentar tantas www.cvv.org.br O CVV - Centro de Valorização da Vida é um programa de prevenção ao suicídio e de valorização da vida. Caracteriza-se por ser um movimento filantrópico, civil, sem fins lucrativos e desvinculado de religiões e movimentos políticos.

bobagens”. Em 1956, filmou “Um rei em Nova Iorque”, sua resposta genial e definitiva por todas as humilhações passadas nos Estados Unidos. Em 1971, ganha um Oscar especial “pela incalculável contribuição ao cinema” e um ano mais tarde recebe outro, de melhor trilha sonora, pelo filme “Luzes da ribalta”. Nessa ocasião, decide visitar os Estados Unidos e pisa num palco pela última vez, sendo aplaudido durante muitos minutos. Na madrugada de 25 de dezembro de 1977, os céus desejavam um presente pela data e Chaplin dá seu último suspiro entre nós. Morre o gênio de infância triste que, com seus filmes, fez com que milhões de espectadores do mundo inteiro e de diversas gerações, rissem,

chorassem e por muitas vezes, refletissem sobre as desigualdades e atrocidades de um mundo tão cruel. Charles Chaplin é um exemplo maravilhoso, para tantos pequenos “Carlitos”, espalhados pelas comunidades carentes de todo o nosso país.

“Nunca se abale, pois, até um pé no traseiro, te faz caminhar para a frente”. Charles Chaplin

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Caridade

Chico Xavier com uma de suas maiores paixões: as crianças.

BRASIL

Um raio de luz chamado Chico Xavier Foi na pequena e modesta cidade de Pedro Leopoldo, em Minas Gerais, mais precisamente, em 2 de abril de 1910, que nasceu Francisco Cândido Xavier. Um ser humano exemplar, que merece ter sua maravilhosa história exaltada, sendo um dos exemplos máximos de bondade, caridade, desapego e amor ao próximo, algo que, sem dúvida alguma, transcende todos os dogmas e as tão atuais e perigosas cruzadas religiosas. Filho de um casal muito simples do interior mineiro – seu pai era um operário semi analfabeto e sua mãe uma humilde lavadeira – desde muito novo passou por diversas dificuldades, princi-

O Serviço Social Perseverança é uma entidade filantrópica sem fins lucrativos e que conta com diversas atividades assistenciais, dentre elas, oito creches que atendem mais de 2.000 crianças carentes.

Com o falecimento de sua mãe – uma mulher generosa, dona de casa carinhosa e mãe devota – seu pai foi obrigado a entregar alguns de seus nove filhos aos cuidados provisórios de amigos e parentes. O pequeno Chico ficou sob a guarda de sua madrinha, uma mulher severa, egoísta e perversa, que o maltratava muito. Porém, mesmo dentro de um ambiente de grandes conflitos e extremas dificuldades, cresceu sempre bom, incapaz de uma só palavra obscena ou um gesto de desobediência. Aprendeu a se manter calmo e calado em momentos de sofrimento, principalmente, devido as constantes agressões que sofria de sua madrinha, momentos estes, em que se dirigia ao quintal de sua casa para fazer orações. Tinha sempre consigo os ensinamentos de sua querida mãe, que sempre lhe

falava para ter paciência, pois, precisava crescer mais forte para o trabalho e que quem não sofre não aprende a lutar. Assim, o pequeno menino aprendeu a apanhar calado, sem chorar. Diariamente, à tarde, com diversos vergões na pele e o sangue a correr-lhe em delgados filetes pelo ventre, decorrentes dos espancamentos, se dirigia ao quintal, de olhos enxutos e brilhantes, a fim de realizar suas orações. Algum tempo depois, seu pai se casou novamente com uma mulher boa e caridosa, que como primeira medida recolheu, carinhosamente, a ele e a todos os irmãos que estavam espalhados, pois, desejava do fundo de seu coração, aquela família unida novamente. Divulgação

www.perseveranca.org.br

palmente financeiras e lamentavelmente acabou ficando órfão de mãe, com apenas cinco anos de idade.

Ainda passavam por sérias dificuldades financeiras, pois, o salário do chefe da 25


www.amigosdobem.org.br A ONG Amigos do Bem combate a fome e a miséria no sertão nordestino, promovendo ações contínuas e o desenvolvimento auto-sustentável, a fim de minimizar o sofrimento destas populações tão sofridas.

família dava escassamente para o necessário e os meninos precisavam estudar. Sendo assim, sua madrasta iniciou uma pequena horta em casa e começaram a vender legumes. Com parte deste dinheiro arrecadado, Chico voltou a freqüentar a escola em 1919. A necessidade de trabalhar desde cedo para auxiliar nas despesas domésticas foi, em sua vida, conforme ele mesmo sempre dizia, uma bênção indefinível. Quatro anos mais tarde, com treze anos de idade, terminou o curso primário. Nesta época levantava às seis da manhã para começar, às sete as tarefas escolares e entrava para o serviço na fábrica às três da tarde, saindo às onze da noite. Não existia muito tempo para diversão do pequeno trabalhador. Assim como o trabalho, a doença também viera precocemente fazer-lhe companhia. Primeiro teve problemas nos pulmões, devido ao seu trabalho na tecelagem, depois foram os olhos e também a angina. Em 1927 entrou para o funcionalismo público, como datilógrafo, na Fazenda Modelo do Ministério da Agricultura, um trabalho menos braçal e que o colocou em contato direto com a natureza, pela qual, começou a demonstrar grande admiração. Distante da cidade, amava aquele cenário divino, desde as pedras até os montes pensativos.

dade na região de Pedro Leopoldo, em 1959, mudou-se para a cidade mineira de Uberaba, dando início à sua famosa peregrinação da “Comunhão Espírita Cristã”, visitando lares carentes e moradores de rua, levando-lhes a alegria de sua presença amiga. Sob a luz das estrelas e de um lampião que seguia à frente, iluminando as escuras ruas da periferia, ia contando fatos de grande beleza da natureza humana. Um desses fatos, que ele sempre contava, aconteceu com ele próprio e segundo suas próprias palavras, foi uma lição que ele jamais se esqueceu: José, seu irmão, que fora por muito tempo seu orientador e um de seus prin-

cipais auxiliares, adoeceu gravemente, e para a surpresa de todos, faleceu, deixando ao irmão o encargo de lhe amparar a família. Chico, verificou que José lhe deixara também uma dívida, pois, esquecera de pagar a conta da luz, na importância de onze cruzeiros. Para sua situação financeira na época, isso era muito, pois, no fim de cada mês nada lhe sobrava. Pensativo e preocupado, sentou-se à soleira da porta e acabou adormecendo. Sonhou que um querido amigo lhe aparecia e dizia “não se entregue, confie e espere...”. Horas depois, um senhor da roça bate à porta.

O náufrago Após um naufrágio, o único sobrevivente deste desastre agradeceu a Deus por ainda estar vivo e ter conseguido se agarrar a parte dos destroços para poder ficar boiando a deriva. Este único sobrevivente, foi parar em uma pequena ilha desabitada, fora de qualquer rota de navegação e agradeceu, novamente, por chegar a terra firme. Com muita dificuldade e graças, parte de restos dos destroços, ele conseguiu montar um pequeno abrigo para que pudesse se proteger do sol, do vento, da chuva, de animais e também para guardar seus poucos pertences e, como sempre, agradeceu a Deus. Nos dias seguintes, a cada alimento que conseguia caçar ou colher para o seu sustento, ele agradecia novamente. No entanto, um dia quando voltava da busca por alimentos, encontrou o seu abrigo em chamas, envolto em altas nuvens de fumaça, terrivelmente desesperado, ele se revoltou. Ele gritava chorando: - O pior aconteceu! Perdi tudo! Deus, por que fizeste isso comigo? Chorou tanto, que adormeceu, profundamente cansado. No dia seguinte, logo pela manhã, foi despertado pelo alto som de um grande navio que se aproximava. - Viemos resgatá-lo, disseram.

Em 1931, inicia-se na literatura, como escritor através de psicografias, escrevendo seu primeiro livro. Seriam mais de 400 obras psicografadas publicadas, várias delas traduzidas para o espanhol, esperanto, francês, inglês, japonês, grego, dentre outras línguas.

- Como souberam que eu estava aqui?, perguntou ele.

Após, mais de quarenta anos de incansáveis trabalhos assistenciais e de cari-

“A esperança é uma conseqüência da fé”.

- Nós vimos o seu sinal de fumaça! É muito comum sentirmo-nos desencorajados, desanimados e até mesmo desesperados, quando as coisas vão mal. Mas, Deus age em nosso benefício, mesmo nos momentos de dor e sofrimento.

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Uma lição de amor Nos anos 60, um senhor de nome Benedito, prestava serviços domésticos na residência de Chico Xavier. Num certo período, Chico passou a sair de casa todos os dias à hora do almoço. Não informava aonde ia, dizia apenas que ia visitar um enfermo necessitado de atenção. Comumente solicitava com carinho: - Benedito, faça o favor de preparar um franguinho bem macio, que preciso levar à um doente. Lembre-se de que deve ficar bem tenro, pois ele está muito fraco. Precisa fortalecer-se, pouco a pouco, dia a dia! Quem seria o doente que mereceria tanta dedicação de Chico. Assim, diariamente saía levando uma vasilha com o alimento. Benedito, porém, morria de curiosidade em conhecer tão ilustre doente, mas Chico não revelava seu nome. Um certo dia, Benedito resolveu seguí-lo pelas ruas de Uberaba. Atravessaram boa parte do bairro, entraram num matagal e mais à frente ele estacou o passo. A cena que se seguiu era por demais comovente e inesperada, ao mesmo tempo. No fundo da mata Chico atendia o misterioso doente: um cãozinho vira-lata machucado e faminto. “A compaixão para com os animais é uma das mais nobres virtudes da natureza humana”. - Charles Darwin

- O senhor é o seu Chico Xavier?

importância combinada.

- Sim. Às suas ordens, meu irmão.

Chico agradeceu muito pelo pagamento, e ficando só, abriu o envelope. Dentro estavam onze cruzeiros, para pagar a conta de luz.

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- Soube que seu irmão José morreu e vim aqui pagar-lhe uma bainha de faca que ele me fez há tempos. Aqui está a

Sorriu, descansado, livre de um peso e concluiu - “Que bela lição ganhei hoje. Jamais temer o amanhã, pois este, pertence apenas aos desígnios de Deus”. A cidade de Uberaba, desde a sua chegada, transformou-se num pólo de atração de inúmeros visitantes das mais variadas regiões do Brasil e do exterior, que aportavam com o objetivo de conhecê-lo. Para todos aqueles que já conheciam a sua vida e sua obra, não se mediam distâncias para vê-lo. Seu trabalho sempre consistiu nas tarefas assistenciais, aliadas ao serviço do esclarecimento e reconforto pessoais para todos aqueles que o procuravam.

O sorriso fácil e iluminado do “Velho Chico”.

De um extremo grau de moral, humildade e simplicidade, jamais auferiu vanta-

gens, de qualquer espécie, com seu trabalho como autor ou com relação ao seu carisma e fama, ao contrário, repassou, em cartório, à editoras de divulgação espírita e inúmeras obras assistenciais, os direitos autorais de suas obras e também de sua imagem. Mesmo com a fama e o sucesso de suas mais de 400 obras, jamais constituiu fortuna, continuou tão pobre quanto sempre fora. Aposentou-se e recebeu pelo resto de sua vida somente os proventos de sua modesta aposentadoria. Sua constrangedora humildade e seu desapego material, eram dificilmente compreendidos até por muitos confrades e foi, sem dúvida alguma, a mais notável e marcante exteriorização de sua grandiosidade. O homem que levou uma vida humilde e voltada para a religião, o amor ao próximo e a caridade, tinha um último desejo. Chico jamais suportou a tristeza de seu semelhante e, desta forma, desejava que sua partida fosse num dia em que o “povo brasileiro estivesse muito feliz”, pois, mesmo com muita humildade, tinha consciência da grande simpatia e carinho que milhares de pessoas tinham para com a sua pessoa. Teve este seu último desejo realizado, falecendo no dia 30 de junho de 2002, dia em que o Brasil sagrou-se pentacampeão mundial de futebol. Deixou-nos além da saudade, tantos ensinamentos e lições de amor e bondade, que fica muito difícil nos apegarmos a um em especial. No entanto, jamais devemos nos esquecer de seu exemplo de vida e legado. Relembrar e homenagear alguém como o “Velho Chico”, é celebrar a caridade e a bondade humana, personificada num homem especial que nos ensinou, dentre tantas coisas a “fazermos o bem, sem olhar a quem”.

“Lembra-te de que falando ou silenciando, sempre é possível fazer algum bem”. Chico Xavier

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Idealismo

Helen Keller aos nove anos com sua professora Anne Sullivan. Trabalho perseverante que a tirou de um mundo de exclusão, tornando-a referência mundial na luta pelos direitos dos deficientes visuais e como jornalista, ativista dos direitos humanos.

MUNDO

Helen Keller, uma vida dedicada aos excluídos Helen Adams Keller, nasceu em 27 de junho de 1880, em Tuscumbia, no Estado norte americano do Alabama. Descendente de uma tradicional família do Sul dos Estados Unidos, filha de Arthur Keller, prefeito do Alabama do Norte, ficou cega e surda subitamente, aos dezoito meses de idade, devido a uma doença diagnosticada, naquela época, como febre cerebral e que, provavelmente, tenha sido escarlatina. A pequena Helen foi crescendo como uma selvagem, num universo escuro e silencioso, sendo que, em decorrência disso, foi excluída do mundo. Por indicação de Alexander Graham Bell, Anne Sullivan, uma professora de www.portaldovoluntario.org.br O Portal do Voluntário é um site com conteúdos, experiências e oportunidades para participação de ações voluntárias em todo o país.

vinte e um anos, que havia estudado na Escola Perkins para Cegos, aceitou o desafio de ensinar e educar Helen, que na época tinha sete anos de idade. A própria Anne, quando criança tinha sido cega, mas recuperou a visão através de nove operações. Utilizando o sentido do tato, como elo entre os mundos de ambas e escrevendo as palavras nas mãos de Helen, Anne Sullivan, realizou seu trabalho com uma perseverança inigualável. A nova professora tentou, insistentemente, dar a entender à Helen a relação entre as palavras e aquilo que elas significam. O início do sucesso e da transformação no aprendizado, deu-se com a palavra “água”. Enquanto a água de uma bica jorrava sobre uma das mãos da sua aluna, Anne escrevia “água” na outra. “Mantive-me quieta, toda a minha atenção concentrada sobre o movimento dos seus dedos”, recordou certa ocasião Helen. “Subitamente, senti a emoção de uma idéia que se repetia, e, assim, me

foi revelado o mistério da linguagem”. Desde esse dia, Helen “viu” o mundo de outra maneira. O sentido do tato tornou-se para ela uma espécie de visão. “Não posso dizer se vemos melhor com as mãos ou com os olhos, sei apenas que o mundo que vejo com as minhas mãos é vivo, colorido gratificante”. Em alguns momentos dessa trajetória, Helen chegou a falar, por imitação das vibrações da garganta de Anne, as quais captava com as pontas dos dedos. Durante um mês, Sullivan ensinou-a a soletrar palavras. Enquanto tocava com os dedos de uma mão de Helen um objeto, colocava os dedos da outra mão de sua aluna em sua boca e pronunciava o nome do objeto. Helen só não sabia que estava formando palavras, porque não sabia que elas existiam. Certa tarde, Anne mergulhou a mão esquerda de Hellen num balde d’água e soletrou “água” com a outra mão. Repetiu várias vezes a operação e o milagre aconteceu: Helen entendeu que “água” era o nome 28


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inteligência excepcional, considerada uma das maiores vitórias individuais da história da educação. Sob a orientação de Anne, Helen matriculou-se no Instituto Horace Mann para Surdos, em Boston e anos mais tarde na Escola Wright-Humason Oral, em Nova York.

Helen Keller recebendo o Oscar em 1955, por sua atuação em “Helen Keller in Her Story”. Filme sobre sua impressionante vida.

do líquido que sentia pelo tato. Até o fim daquele dia, aprendeu mais trinta palavras. Em pouco tempo, dominou o alfabeto Braille, demonstrando incrível facilidade em ler e escrever. Anne Sulivan e Helen Keller, tornaram desde então, inseparáveis até a morte de sua querida professora, em 1936. Helen descobriu maneiras engenhosas de sentir as imagens e os sons. Certa vez mencionou, “por vezes, se tiver sorte, coloco suavemente a mão numa pequena árvore e sinto o feliz estremecer de um passarinho que canta” e, por meio do tato, ela conseguia “detectar o riso, a tristeza e muitas outras emoções óbvias. Conheço minhas amigas só por tocar-lhes as faces”. Ela sentia que o silêncio e a escuridão em que vivia, lhe tinham aberto as portas para um mundo de sensações de que as pessoas mais “afortunadas” pouco exploravam, “com os meus três queridos guias fiéis, o tato, o olfato e o paladar, faço inúmeras excursões às zonas limites da cidade da luz”, dizia ela. Com muito carinho, dedicação e perseverança, Anne Sullivan conseguiu ensinar à aluna os alfabetos Braille e manual. Os esforços de sua mente em procurar se comunicar com o exterior, teve como resultado o afloramento de uma

Aos dez anos de idade, aprendeu a falar para dizer, “algum dia cursarei uma faculdade”, o que de fato aconteceu. Em 1904, formou-se com louvor, sendo a primeira cega e surda a completar um curso universitário, recebendo o diploma de bacharel em Filosofia pela Universidade Radcliffe, além de dominar perfeitamente os idiomas francês, latim e alemão. Ela foi uma educadora, escritora, jornalista e advogada de cegos. Tinha muita ambição e grande poder de realização. Ao lado de Sullivan, percorreu vários países do mundo promovendo campanhas para melhorar a situação dos deficientes visuais e auditivos. É considerada, até hoje, uma das grandes heroínas do mundo moderno. Sua luta árdua e vitoriosa para se integrar na sociedade, tornando-se, além de célebre escritora, filósofa e conferencista, uma personagem famosa pelo trabalho incessante que desenvolveu para o bem estar das pessoas portadoras de deficiências. Tornou-se referência de superação em todo o mundo, assim como sua dedicação à defesa dos direitos das mulheres e dos pobres. Graças a Helen, nossa percepção com relação ao deficiente mudou drasticamente. Recebeu centenas de títulos e diplomas honorários por todo o mundo, assim como, tornou-se membro honorário de sociedades científicas e organizações filantrópicas dos cinco continentes. Em 1902, fez sua estréia na literatura escrevendo sua autobiografia “A História de Minha Vida” e, em seguida, no jornalismo, criou uma série de artigos no jornal “Ladies Home Journal”. A partir daí, jamais parou de escrever. Seus livros foram traduzidos para diversos idiomas.

Em 1954, seu local de nascimento, em Tuscumbia, foi transformado em museu permanente. Na cerimônia de inauguração realizou-se também a première do seu filme biográfico intitulado “Helen Keller in Her History”. Posteriormente, em 1955, esse filme ganhou o Oscar, como o melhor documentário de longa metragem do ano. De 1924 até sua morte, foi membro fixo da American Foundation for the Blind, onde pôde trabalhar pelo bem-estar das pessoas cegas e surdo-cegas, comparecendo perante governos, dando conferências, escrevendo artigos e, sobretudo, pelo exemplo pessoal do que uma pessoa severamente prejudicada, pode alcançar. Porém, sua participação ativa na área de trabalho para os cegos, começou muito antes, mais precisamente em 1915, quando o “Fundo Permanente de Ajuda aos Cegos de Guerra”, posteriormente chamado - Imprensa Braille Americana - foi fundado. Ela foi membro de sua primeira junta de diretores. Quando a Imprensa Braille Americana transformou-se na “American Foundation for Overseas Blind” (hoje Helen Keller Internacional Incorporated), em 1946, Helen Keller foi eleita conselheira em relações internacionais. Foi nesta época, que iniciou viagens pelo mundo, em benefício dos cegos, fato esse que a tornou muito conhecida em seus últimos anos de vida. Durante sete viagens, entre 1946 e 1957, ela visitou 35 países em cinco continentes. Em 1953, a convite oficial do governo brasileiro e da “Fundação para o Livro do Cego no Brasil”, veio ao Brasil, onde realizou visitas e palestras no Rio de Janeiro e em São Paulo. Seu exemplo, estimulou a todos e deu um grande impulso à educação e à reabilitação de cegos no Brasil. Uma mesa redonda realizada com sua presença na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo deu 29


O veredicto Conta uma lenda que, na Idade Média, um homem muito religioso foi injustamente acusado de ter assassinado uma mulher. Na verdade, o autor era pessoa influente do reino e, por isso, desde o primeiro momento procurou-se um “bode expiatório” para acobertar o verdadeiro assassino. O homem foi levado à julgamento. Ele sabia que tudo seria feito para condená-lo e levá-lo à forca e que teria poucas chances de sair vivo desta historia. O juiz, que também estava combinado para levar o pobre homem à morte, simulou um julgamento justo, fazendo uma proposta ao acusado que provasse sua inocência. Disse o juiz: - Sou de uma profunda religiosidade e por isso vou deixar sua sorte nas mãos do Senhor; vou escrever em um pedaço de papel a palavra inocente e noutro pedaço a palavra culpado. Você sorteará um dos papéis e aquele que sair será o veredicto. O Senhor decidirá seu destino, determinou o juiz. Sem que o acusado percebesse, o juiz separou os dois papéis, mas em ambos escreveu culpado, de maneira que, naquele instante, não existia nenhuma chance do acusado se livrar da forca. Não havia saída, nem alternativas para o pobre homem. O juiz colocou os papéis em uma mesa e mandou o acusado escolher um. O homem pensou alguns segundos e pressentindo a vibração, aproximou-se confiante da mesa, pegou um dos papéis e rapidamente colocou-o na boca e o engoliu. Os presentes ao julgamento reagiram surpresos e indignados com a atitude do homem. - Mas, o que você fez? E agora? Como vamos saber qual o seu veredicto? - É fácil, respondeu o homem. Basta olhar o outro pedaço que sobrou e saberemos que acabei engolindo o seu contrário. Imediatamente o homem foi libertado. Por mais difícil que seja uma situação, não deixe de acreditar e de lutar até o último momento. Seja criativo! Quando tudo parecer perdido, ouse!

“A vida está cheia de desafios que, se aproveitados de forma criativa, transformam-se em oportunidades”.

origem à criação, no SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) de um Serviço de Orientação e Colocação Profissional de Cegos, que até hoje é responsável pela colocação no mercado de trabalho, principalmente, nas indústrias do Estado de São Paulo, de grande número de deficientes visuais. Numa palestra para 550 pessoas no Hospital das Clínicas, também em São Paulo, alguém lhe perguntou: - “O que você gostaria mais de ver, se Deus lhe desse visão por cinco minutos?”, Helen respondeu: - “As flores, o pôr do sol e o rosto de uma criança”. Hellen fez sua última aparição pública, num encontro do Lions Club, em Washington. Nesse encontro, ela recebeu o “Prêmio Humanitário Lions”, por sua vida dedicada à servir a humanidade e por inspirar a criação e adoção de inú-

meros programas de ajuda aos cegos e também para projetos de conservação da visão. Em 1961, recolheu-se definitivamente, para viver tranqüilamente em “Arcan Ridg”, onde recebia sua família, amigos íntimos e membros da “American Foundation for the Blind” e da “American Foundation for Overseas Blind” (hoje intitulada, Helen Keller International Incorporated). Porém, apesar de seu afastamento da vida pública, jamais foi esquecida. Em 1964, recebeu a “Medalha Presidencial da Liberdade”, maior honra dada a um civil de seu país. Em 1965, foi uma das vinte eleitas para o “Hall da Fama Feminina”, na Feira Mundial de Nova York. Hellen Keller e Eleanor Roosevelt receberam a grande maioria dos votos, entre as cem mulheres indicadas. Hellen Keller faleceu em 1º de junho de

1968 em “Arcan Ridge”, algumas semanas antes de completar 88 anos. Suas cinzas foram depositadas ao lado das de sua querida professora Anne Sullivan Macy, na Capela de São José, na Catedral de Washington. Em seu último adeus, o Senador Lister Hill, do Estado do Alabama, sua terra natal, sintetizou muito bem o que Helen Keller representou para a humanidade. Disse ele: “Ela viverá; ela foi um dos poucos nomes imortais, que não nasceu para morrer. Seu espírito perdurará enquanto o homem puder ler e histórias puderem ser contadas sobre a mulher que mostrou ao mundo, que não existem limitações para a coragem e a fé”.

“Não há melhor maneira de agradecer a Deus pela visão, do que dar ajuda à alguém que não a possui”. Helen Keller 30


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Misericórdia

Irmã Dulce, uma vida dedicada aos mais carentes e desamparados.

BRASIL

Irmã Dulce, instrumento vivo da misericórdia divina Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, nome de batismo de Irmã Dulce, nasceu em 26 de maio de 1914, em Salvador, na Bahia. Aos 13 anos, já havia transformado a casa de sua família, num centro de atendimento à pessoas carentes, manifestando nessa época o desejo de se dedicar à vida religiosa e ao auxílio aos mais necessitados, principalmente, após visitar com uma tia, áreas muito carentes da cidade de Salvador. Em 1933, logo após a sua formatura como professora, Maria Rita entrou para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, na cidade de São Cristóvão, em Sergipe. Pouco mais de um ano dewww.irmadulce.org.br As Obras Sociais Irmã Dulce foram fundadas em 1959 por Irmã Dulce e congregam a excelência técnica e o pioneirismo em práticas de humanização no atendimento à população de baixa renda.

pois, era ordenada freira, recebendo o nome de Irmã Dulce, em homenagem à sua mãe. A primeira missão de Irmã Dulce como freira, foi ensinar, em um colégio mantido pela sua congregação, no bairro da Massaranduba, na Cidade Baixa, em Salvador. Porém, o seu pensamento estava completamente voltado para o trabalho com os pobres e, desta forma, pouco tempo depois, já estava dando assistência às comunidades carentes de Alagados e Itapagipe, também na Cidade Baixa onde, futuramente, viriam a se concentrar as principais instalações e atividades de suas obras sociais. Em 1939, enquanto trabalhava em um modesto posto médico, ouviu em tom de súplica, o pedido de um pequeno jornaleiro, uma criança agonizando à sua frente com malária, para ser acolhido por ela, pois, não queria morrer na rua. Obviamente, um coração cheio de bondade como o dela, não conseguiu negar-lhe abrigo, mesmo sabendo que em seu posto médico não havia espaço

e muito menos as condições adequadas para abrigá-lo. Naquele momento, em sua mente, surgiu apenas a lembrança da Ilha dos Ratos, um lugar próximo ao posto médico e onde existiam diversas casas abandonadas. Irmã Dulce, tinha consciência de que todo aquele esforço para salvar a vida do pequeno jornaleiro talvez fosse inútil, diante do estágio avançado da doença. No entanto, não poderia ficar indiferente à dor daquela criança e decidiu lutar com todas as suas forças contra a febre, a fome e o desespero que se expressavam nos lábios trêmulos daquele menino. Já naquele instante inicial, o olhar bondoso e a paz transmitida por Irmã Dulce trouxeram uma nova esperança para o pequeno trabalhador. Com a ajuda de um banhista, Irmã Dulce arrombou a porta de entrada do condomínio de casas, da Ilha dos Ratos, mesmo com o grande temor daquele 31


Um coração de ouro A escola e a flor. A flor e a escola... Tudo ia muito bem, quando o inspetor de alunos entrou na sala. Pediu licença e foi falar com Dona Cecília, minha professora. Ele apontou para mim e para a flor, depois saiu. Ela olhou para mim com tristeza e quando terminou a aula, me chamou. - Quero falar uma coisa com você, Zezé. Espere um pouco. Ficou arrumando a bolsa que não acabava mais. - Nosso inspetor de alunos me contou uma coisa feia de você, Zezé. É verdade? Balancei a cabeça afirmando: - Da flor? É sim, senhora. - Levanto mais cedo e passo na casa do Serginho. Quando o portão está só encostado, eu entro depressa e roubo uma flor. Mas lá tem tanta que nem faz falta. - Sim, mas isso não é direito. Você não deve fazer mais isso. Isso não é um roubo, mas já é um “pequeno furto”. - Não é não, Dona Cecília. O mundo não é de Deus? Tudo que tem no mundo não é de Deus? Então as flores são de Deus... Ela ficou espantada com a minha lógica. - Só assim eu podia. Lá em casa não tem jardim. Flor custa dinheiro e eu não queria ver o copo em sua mesa sempre vazio. Ela engoliu em seco. - De vez em quando, a senhora não me dá dinheiro pra comprar um sonho recheado? - Poderia lhe dar todos os dias, mas você some. - Eu não poderia aceitar todos os dias. Porque tem outros meninos pobres que também não trazem merenda. Ela tirou o lenço da bolsa e passou, disfarçadamente, nos olhos. - A Senhora, de vez em quando, em vez de dar pra mim, podia dar para outras crianças da sala que também necessitam. Minha avó e a mamãe ensinaram que “a gente deve dividir a pobreza da gente com quem é ainda mais pobre”. As lágrimas estavam descendo. - Eu não queria fazer a senhora chorar. Eu prometo que não roubo mais flores e que vou ser cada vez mais aplicado. - Não é isso, Zezé. Venha cá. Você vai prometer uma coisa, porque você tem um coração maravilhoso. - Eu prometo, mas não quero enganar a senhora. Eu não tenho um coração maravilhoso. A senhora diz isso porque não me conhece em casa. - Não tem importância. Para mim você tem. - De agora em diante, não quero que você me traga mais flores. Só se você ganhar alguma. Promete? - Prometo, sim senhora. E o copo? Vai ficar sempre vazio? - Nunca esse copo vai ficar vazio. Quando eu olhar para ele vou sempre enxergar a flor mais linda do mundo. E vou pensar: - Quem me deu essa flor, foi o meu melhor aluno. Está bem? Agora ela sorria. Soltou minhas mãos e falou com doçura: - Agora pode ir “coração de ouro”...

“Não existe grandeza quando a simplicidade, a bondade e a verdade estão ausentes”. - Tolstoi

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dezenas de doentes estavam abrigados nas casas da Ilha dos Ratos. Para alimentá-los, a jovem freira saía de porta em porta, por toda a cidade de Salvador recolhendo comida, roupas e remédios.

Com o temor e a relutância inicial do banhista em auxiliá-la no arrombamento, ela utilizou a seguinte alegação:

Algum tempo depois, ela foi expulsa das casas da Ilha dos Ratos e iniciou uma peregrinação com os seus doentes, que se estendeu por vários anos, até 1949. Primeiro, ela os levou para os arcos da Igreja do Bonfim, mas teve novamente que sair, dessa vez por ordem do prefeito. Foi para o Mercado do Peixe e mais uma vez foi expulsa. Cansada de não conseguir um local adequado para seus doentes, ela lançou mão de um último recurso: foi à superiora da sua congregação e lhe pediu para abrigar os seus doentes no galinheiro do convento. Não sem relutância, a madre concordou, desde que Irmã Dulce encontrasse uma solução para todas as galinhas do local.

- Este pequeno menino está morrendo. Ele bateu à minha porta na esperança de ser socorrido. Deus não atende a todos nós? Não é Ele quem nos dá o ar, a luz, a saúde? Ele recusa alguma coisa quando pedimos com fé e com esperança? Como vamos recusar um pedido de nosso semelhante, do nosso próximo num estado como este, ainda mais se tratando de uma criança desamparada? Com esta alegação, a porta foi arrombada pelo banhista e Irmã Dulce acomodou o menino, trazendo em seguida uma lamparina de querosene, leite, biscoitos e pedindo que uma conhecida sua, que morava na região, passasse a noite tomando conta daquele pequeno enfermo, pois ela necessitava retornar à suas atividades no posto médico. O pequeno jornaleiro seria apenas o primeiro doente recolhido nas ruas, acolhido por Irmã Dulce. No dia seguinte, já melhor, ele próprio foi buscar uma velha mendiga que estava morrendo, vítima de câncer sob uma tamarindeira. Depois, chegou até eles um sem teto tuberculoso e em pouco tempo,

Em pouco tempo, o galinheiro estava limpo, com colchões espalhados pelo chão e os mais de setenta doentes bem abrigados. A madre superiora retornou e elogiou o empenho de Irmã Dulce, sem antes de sair, não deixar de indagar pelas galinhas que ali se encontravam anteriormente, no que foi prontamente esclarecida pela Madre, mencionando de que estavam todas muito bem, na barriga de seus doentes. O albergue improvisado no galinheiro

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banhista que a auxiliava, pelo mesmo saber que, independentemente, de estar abandonado aquele local, tratava-se de uma propriedade privada e que tinha dono.

Madre Teresa e Irmã Dulce, exemplos máximos de compaixão pelos mais humildes e necessitados.

do Convento Santo Antônio, da Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição Mãe de Deus, foi o início da grande obra erguida por Irmã Dulce, uma das primeiras organizações não governamentais do país, que conquistou o respeito e a admiração de todos os brasileiros. Hoje, o Hospital Santo Antônio é o centro de um respeitado complexo médico, social e educacional, aberto aos pobres da Bahia e de todo o Brasil.

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Irmã Dulce morreu no dia 13 de março de 1992, em Salvador, pouco antes de completar 78 anos de idade. A grande fragilidade com que viveu os últimos trinta anos da sua vida, com a saúde abalada seriamente - tinha 70% de sua capacidade respiratória comprometida não impediu, com que ela construísse e mantivesse uma das maiores e mais respeitadas instituições filantrópicas do país, inicialmente, batendo de porta em porta pelas ruas de Salvador, nos mercados, feiras livres ou nos gabinetes de governadores, prefeitos, secretários e presidentes da República, sempre com a determinação de quem fez da própria vida, um instrumento vivo da fé e misericórdia divina.

“Não recuso ninguém, porque os doentes e mais humildes são a imagem de Deus”. Irmã Dulce Irmã Dulce com seus “pequeninos”. Amor incondicional pelos menos favorecidos e excluídos socialmente. 33


Em nossas mãos “Nossas mãos podem fazer muitas coisas... ... oferecer apoio, estender-se para consolar e amparar. ... envolver, dando-nos carinho. ... trabalhar, descansar. ... desenhar no ar o ‘bom dia’ e o ‘até logo’. Para o mudo a mão é a comunicação. Para o idoso é a segurança. Para o pedinte a mão estendida é súplica. Para quem ama, a mão do ser amado, é felicidade. Para quem chora, a mão alheia é conforto. Há mãos que ferem e destroem. Há mãos que acariciam e alimentam.


Há mãos que violentam e amaldiçoam. Há mãos que oram e abençoam. Nossas mãos podem exteriorizar o amor, construindo hospitais, fabricando vacinas, alimentando famintos, medicando enfermos... ... podem concretizar a paz assinando tratados, escrevendo livros, pintando telas, esculpindo. Nossas mãos são abençoadas ferramentas, para edificar nossa sociedade, apoiar os menos favorecidos e acenar com a esperança de melhores dias, para todos nós”.

“Trabalhemos. Há quem sofra muito mais do que nós mesmos. Estendamos a mão aos necessitados, abandonados e infelizes”. www.meusonhonaotemfim.org.br


Divulgação ONG “Projetos sociais meu sonho não tem fim”.

Fraternidade

Dom Hélder Câmara lutou durante toda sua vida por uma melhor partilha do pão. Inconformismo com a “miséria de milhões”.

BRASIL

Dom Hélder Câmara e o inconformismo com a miséria Dom Hélder Câmara, uma das maiores referências brasileiras na luta em defesa dos mais humildes e necessitados, nasceu na cidade de Fortaleza, no Ceará, no dia 7 de fevereiro de 1909. Em 1931, com apenas 22 anos de idade, foi ordenado sacerdote e neste mesmo ano, nomeado diretor do Departamento de Educação do Estado do Ceará, cargo que exerceu por cinco anos, sendo posteriormente transferido para o Rio de Janeiro, onde morou e trabalhou por vinte e oito anos. Em 1952, o Conselho Nacional dos www.abong.org.br

Aos 55 anos, foi nomeado Arcebispo de Olinda e Recife, permanecendo neste cargo durante vinte anos. Nesta época, o Brasil encontrava-se em pleno domínio da ditadura militar. Momento político este, que o tornou, quase que instantaneamente, em um dos grandes líderes, contra o autoritarismo e os abusos aos direitos humanos. Em sintonia com suas funções na Igreja, desempenhou inúmeras funções sociais, principalmente, em movimentos estudantis, operários e ligas comunitárias contra a fome e a miséria. Levantou sua voz, em defesa da comunidade sem vez e sem voz na escala social e lutou pela caridade aos pobres e oprimidos. Paralelamente às atividades religiosas, criou projetos e organizações pastorais,

destinadas a atender as comunidades do Nordeste, que viviam em uma situação de extrema miséria. Devido a sua atuação política e social e de sua pregação libertadora em defesa dos mais pobres, foi chamado de comunista, passando a sofrer enormes retaliações e a ser perseguido por parte das autoridades militares. Foi impedido de ter acesso aos meios de comunicação e divulgar suas mensagens durante todo o período ditatorial e neste momento, sua personalidade ganhou mais dimensão, no Brasil e no exterior, sendo um nome cogitado para receber o Prêmio Nobel da Paz, porém, o “governo autocrático brasileiro”, moveu uma campanha contra a candidatura. Divulgação

A Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais - ABONG, tem, dentre outros objetivos, o de promover o intercâmbio entre entidades que buscam a ampliação da cidadania, a constituição e expansão de direitos, a justiça social e a consolidação de uma democracia mais participativa.

Bispos do Brasil (CNBB), o elegeu Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro. No período em que permaneceu neste cargo, trabalhou, sobretudo, integrando a Igreja e sua comunidade na luta em defesa da justiça social e da cidadania.

No final dos anos 90, com o apoio de outras instituições filantrópicas,

Dom Hélder, discípulo da paz.

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O estranho homem tatuado Ele era assustador. Sentado na grama com seu cartaz de papelão, seu cão e tatuagens nos braços e pescoço. Seu cartaz anunciava que estava cansado e com fome e pedia ajuda. Arranquei, vagarosamente, com o carro e através do retrovisor, contemplei aquele homem. Usava uma bandana amarrada sobre a cabeça, estilo pirata. Estava sujo, mas suas coisas estavam bem organizadas em um pacote. Ninguém parava para ele. Estava muito quente. Eu podia ver nos seus olhos como deprimido e cansado se sentia. O suor escorrendo pelo rosto, enquanto eu estava com o ar condicionado ligado. Peguei minha bolsa e tirei uma nota de dez reais. Francisco, meu filho mais velho, sabia exatamente o que eu estava querendo fazer. - Posso levar para ele, mãe? - Sim, mas tenha cuidado. Eu o adverti e lhe entreguei o dinheiro. Eu prestei atenção, pelo espelho, enquanto meu filho se aproximou do homem e com um sorriso tímido, lhe entregou o dinheiro. Eu vi o homem, assustado, levantar-se, pegar o dinheiro e guardar no bolso de trás. - Bem - pensei comigo mesma - pelo menos agora ele poderá comer alguma coisa. Me senti orgulhosa. Eu tinha feito uma boa ação e agora eu poderia continuar meu dia. Quando Francisco voltou ao carro, olhou-me com tristeza e disse: - Mãe, o cachorrinho está com muito calor. Eu sabia que tinha que fazer mais. E pedi ao Francisco: - Volte e diga-lhe para ficar por ali, voltaremos em 15 minutos. Francisco saiu do carro e correu até o desconhecido tatuado. Pude notar como o homem estava surpreso. Mas, concordou. Corremos até o mercado e compramos comida; um saco de ração e uma vasilha de água para o cachorro; garrafas de água e biscoitos. Voltamos ao ponto onde o deixamos e lá estava ele, esperando imóvel. Com as mãos tremendo (e se ele for perigoso?), agarrei os sacos e saí do carro, minhas quatro crianças seguiram-me, cada uma carregando um “presente”. Quando olhei em seus olhos vi algo que me assustou e me deixou envergonhada por meu julgamento. Eu vi lágrimas. Ele lutava, como um menino, para segurar as lágrimas. Há quanto tempo ninguém mostrava alguma bondade com este homem? Eu disse a ele que eu esperava que não estivesse muito pesado para ele carregar e mostrei o que tínhamos trazido. Ele parecia uma criança no Natal. Quando peguei a vasilha para água, ele a arrebatou de minhas mãos como se fosse ouro e me disse que não tinha como dar água a seu cão. Meus olhos encheram-se de lágrimas quando ele disse: - Madame, eu nem sei o que dizer. Então colocou as mãos sobre a cabeça e começou a chorar. Este homem, este homem “assustador”, era tão delicado, tão doce, tão humilde. Eu sorri, me segurando e disse: - Simplesmente não diga nada. Enquanto nos afastávamos, pude percebê-lo ajoelhado, os braços em torno de seu cão, beijando seu focinho e sorrindo. Eu tenho tanto... minhas preocupações agora me parecem tão tolas e insignificantes. Eu tenho um lar, um bom marido, quatro belas e sadias crianças. Eu tenho uma cama confortável. Eu gostaria de saber onde aquele homem dormiria à noite. Minha filha, Clara, virou-se para mim e disse com a voz muito doce: - Mãe, estou me sentindo tão bem... Embora pareça que nós tenhamos ajudado, o homem com suas tatuagens é que nos deu um presente, do qual jamais me esquecerei. Ele ensinou que não importa a aparência, dentro de cada um de nós existe um ser humano merecedor de bondade, de compaixão, de aceitação. A cada noite eu oro para o homem com as tatuagens e seu cão. E eu espero que, ao longo de minha vida, Deus envie mais pessoas como ele, para me lembrar do que é realmente importante.

lançou a “Fundação Joaquim Nabuco” e a campanha “Ano 2000 Sem Miséria”. Para ele, era inconcebível e fator de constrangimento, saber que, às vésperas do segundo milênio do nascimento de Jesus Cristo, milhões de pessoas ainda viverem na miséria absoluta. Faleceu em 27 de agosto de 1999, víti-

ma de uma parada cárdio-respiratória. Morre Dom Hélder Câmara, porém, fica vivo, dentro de cada um de nós, seu exemplo de vida, principalmente o legado deixado pelo “arcebispo dos pobres”, um bravo homem que, em meio a tantas dificuldades, jamais se afastou de sua meta e de seu grande sonho de levar

os pobres e miseráveis brasileiros à categoria de cidadãos. “É graça divina começar bem. Graça maior persistir na caminhada certa. Mas, graça das graças é não desistir nunca”. Dom Hélder Câmara

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Responsabilidade

Alexander Fleming e a descoberta da penicilina.

MUNDO

Alexander Fleming e sua obstinação pela cura de milhões No dia 6 de agosto de 1881, na pequena Lochfield, na Escócia, nascia Alexander Fleming. Filho de um pequeno fazendeiro, foi criado na pequena propriedade da família, juntamente com seus sete irmãos. Era um aluno brilhante e percebeu muito cedo, que seu país oferecia oportunidades limitadas para a sua carreira. Mudou-se para Londres, na Inglaterra, quando tinha treze anos, onde freqüentou uma escola politécnica e trabalhou como office-boy. Quando decidiu se tornar médico, matriculou-se na Escola de Medicina de Saint Mary, que, posteriormente, tornou-se parte da renomada Universidade www.graacc.org.br O GRAACC - Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer, é uma instituição sem fins lucrativos, que garante à crianças e adolescentes com câncer, o direito de alcançar todas as chances de cura com qualidade de vida, dentro do mais avançado padrão científico.

de Londres. Ao graduar-se, tornou-se professor de bacteriologia e assumiu um posto de pesquisa na Escola Médica do Hospital Saint Mary. Passava a maior parte de seu tempo no laboratório e conseguiu prosseguir com seus estudos mesmo durante a I Grande Guerra, atuando como membro do Corpo Médico do Exército Real. Inconformado com o alto índice de soldados mortos por ferimentos infeccionados, Fleming começou a questionar a efetividade do tratamento de tecidos doentes ou danificados, com os anti-sépticos que estavam sendo usados. Realizou testes brilhantes onde demonstrou que os anti-sépticos mais prejudicavam do que ajudavam, já que matavam células do sistema imunológico, facilitando ainda mais o aumento da infecção. Com o fim da guerra, voltou ao seu emprego na Escola Médica do Hospital Saint Mary e continuou estudando bacteriologia. Seus principais objetivos, eram identificar algumas substâncias que pudessem combater as bactérias,

sem danificar tecidos saudáveis ou enfraquecer os mecanismos de autodefesa do corpo. Em 1921, ele obteve um progresso importante: descobriu que as lágrimas humanas e o muco nasal, assim como as claras de ovos, continham uma substância química semelhante, que dissolvia algumas bactérias. Ele chamou este novo antibiótico de lisozima e publicou diversos artigos sobre sua efetividade. Contudo, a maioria dos cientistas não deu muita atenção para estas descobertas. Fleming prosseguiu com suas pesquisas, mesmo com a falta de entusiasmo atribuída à sua descoberta. Certo dia, em 1928, ele estava em seu laboratório checando algumas culturas de bactérias, quando uma cultura em particular chamou sua atenção: ela permaneceu descoberta, acidentalmente, por diversos dias e havia sido contaminada por um esporo de fungo, que penetrou através da única janela do laboratório. Fleming estava a ponto de lavar o prato quando percebeu algo incomum: na região ao 38


redor do fungo, as bactérias haviam desaparecido por completo. Nas outras partes do recipiente, porém, continuavam crescendo. Fleming ficou intrigado – talvez tivesse chegado a uma maravilhosa descoberta. Ele, imediatamente, começou a produzir mais fungos para que pudesse confirmar sua descoberta acidental. Após oito meses ele concluiu que, o fungo continha uma substância poderosa, à qual denominou “penicilina”, devido ao fungo Penicillium Chrysogenum Notatum, do qual as bactérias se originaram. Após conduzir novos testes, ele descobriu que a penicilina não era tóxica. No entanto, o fungo era extremamente difícil de ser cultivado em laboratório e sem grandes investimentos para novas pesquisas, apenas pequenas quantidades da substância poderiam ser produzidas. Fleming precisava de grandes quantidades para conseguir tratar alguém que estivesse, realmente, doente e demonstrar que era eficaz como antibiótico. Alguns anos mais tarde, durante a II Grande Guerra, vítimas e doenças resultantes deste conflito, exigiam novos remédios para o combate de infecções por ferimentos. Em 1938, na Universidade de Oxford, Howard W. Florey, patologista australiano, pesquisava registros médicos relacionados a infecções, quando leu um artigo de Fleming sobre a penicilina e foi visitar o escocês, que lhe entregou uma amostra que havia conservado em seu laboratório. Florey iniciou um projeto com Ernest Chain, um químico fugitivo da Alemanha nazista, verificando as observações de Alexander Fleming, porém, assim como ele anos antes, não conseguiram arrecadar fundos da Universidade de Oxford para pesquisas adicionais e recorreram aos Estados Unidos, onde obtiveram apoio técnico e financeiro. Em um laboratório, no Estado americano de Illinois, cientistas britânicos e americanos descobriram um novo método de crescimento do fungo, que produzia 200 vezes mais penicilina por litro que o antigo. Em 1940, fábricas inglesas e americanas já produziam bilhões

O nobre e o granjeiro Era uma vez, um granjeiro escocês muito pobre que se chamava Fleming. Certo dia, quando estava trabalhando na lavoura, ouviu gritos que vinham de um pântano ali perto, largou tudo e correu para lá. Encontrou um rapaz enterrado num charco, lutando desesperadamente para não afundar. O granjeiro pegou a mão do rapaz, salvando-o assim, do que poderia ter sido uma morte lenta e dolorosa. No dia seguinte, parou na porta de sua pequena casa uma carruagem, de onde saiu um homem elegante, que se apresentou como pai do rapaz salvo. - Quero recompensá-lo, disse o nobre. O senhor salvou a vida do meu filho. - Não, não posso aceitar pagamento pelo que fiz, discordou o escocês. Neste momento o filho do granjeiro veio até a porta da casa e o nobre perguntou: - É seu filho? - Sim, disse o granjeiro orgulhosamente. - Então proponho um trato. Permita-me proporcionar à seu filho o mesmo nível de educação do meu próprio filho. Se o rapaz se parecer com o pai, não tenho dúvidas de que crescerá e se tornará um homem do qual nos orgulharemos muito. O granjeiro aceitou. Fleming freqüentou as melhores escolas e se graduou na “Saint Mary’s Hospital Medical School”, em Londres. Nas suas pesquisas, em 1928, descobriu a Penicilina. Foi professor da Saint. Mary’s Medicine School, sendo reconhecido como Professor Emérito da instituição. Tornou-se Sir Alexander Fleming, bacteriologista escocês e vencedor do prêmio Nobel de 1945, em fisiologia e medicina. Anos depois, o filho do mesmo nobre esteve doente, com pneumonia e o que salvou sua vida foi a Penicilina. O nome do nobre senhor, era Lord Randolph Churchill e seu filho, salvo pelo granjeiro Fleming, se chamava Sir Winston Churchill, primeiro-ministro do Reino Unido e maior líder britânico do século XX.

de unidades de penicilina. Apesar da produção inicial ter sido reservada para militares, a penicilina tornou-se disponível para a população civil em 1944. Fleming e Florey foram celebrados pela descoberta e em 1945, juntamente com Chain, receberam o Prêmio Nobel de Medicina, porém, jamais beneficiaram-se financeiramente com a venda da substância. Alexander Fleming doou todo dinheiro que recebia para patrocinar estudos médicos. Por ter sido o primeiro a descobrir a penicilina, tornou-se uma celebridade internacional, porém, foi sempre muito modesto, admitindo que outros cientistas haviam tido papel essencial na descoberta. Apesar de sua crescente fama, continuou conduzindo o

maior número de estudos possível em seu laboratório. Seus esforços eram no intuito de descobrir a capacidade de combater bactérias por outros métodos. Alexander Fleming morreu de ataque cardíaco em 11 de março de 1955, na cidade de Londres, deixando-nos um legado de simplicidade, desprendimento e uma das mais importantes descobertas em toda a história humana, que trouxe um benefício, incalculável, para toda a humanidade e foi a responsável direta pela cura de milhões de pessoas com infecções bacterianas.

“As atitudes são muito mais importantes do que os fatos”. Alexander Fleming

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Altruísmo

Salvador Arena, um homem muito a frente de seu tempo, nas questões humanas e trabalhistas dentro do ambiente corporativo.

BRASIL

Salvador Arena, um exemplo de humanidade corporativa Sonhador com nome de Salvador. Um grande empresário, que conhecia o nome e sobrenome da maioria de seus funcionários. Que ao ver um de seus colaboradores - seja do escritório ou do “chão da fábrica”, passando por alguma dificuldade para realizar uma tarefa, seja ela mental ou manual, parava, por muitas vezes, o que estava fazendo para auxiliá-lo. Esse era Salvador Arena. Nascido em 12 de janeiro de 1915, em Trípoli, na Líbia – então colônia italiana, terra de origem de seus pais, Nicola e Giuditta Arena. Imigrou com sua família para o Brasil quando tinha cinco anos de idade , instalando-se na Vila Prudente, bairro da cidade de São Paulo, predominantemente, ocupado por imigrantes italianos. Sua família não chegou a passar necessidade, porém, tinha uma vida modesta. Passou a maior www.fundacaosalvadorarena.org.br A Fundação Salvador Arena promove e coopera na solução dos problemas de educação, assistência e proteção aos mais necessitados.

parte de sua infância, manipulando peças e máquinas na oficina do pai, que processava sucata de metais. Aos oito anos, iniciou suas atividades profissionais, fabricando velas para vender nas procissões e contribuindo com o rendimento familiar. Em 1936, aos 21 anos, formou-se engenheiro civil e iniciou suas atividades profissionais na Light, onde trabalhou na implantação do sistema hidrelétrico de Cubatão. Naquele tempo, as máquinas eram todas importadas. Quando quebrava uma peça, não havia outro jeito senão fabricar outra. Por um longo período, ele atuou como aquele que desenhava as peças, projetava seus detalhes e mandava fundí-las. O resultado, muitas vezes, era melhor que o original. Em 1942, com capital inicial de duzentos dólares, fundou a Termomecânica, produzindo fornos e equipamentos para padarias. Posteriormente, já em meados da década de 50 e instalado em São Bernardo do Campo, iniciou a produção diversificada de metais não-ferrosos. Empreendedor arrojado, criou um mo-

delo de gestão próprio, inovador e avançado para a década de 60, que prezava, acima de tudo, seu “valioso capital humano”. Conhecia os funcionários pelo nome e sobrenome, bem como seus familiares, para os quais estendeu benefícios como: cestas básicas com até 60 quilos de alimentos, atendimento médico e odontológico. A política salarial diferenciada da Termomecânica, foi criada por Arena em 1948, quando, após um grande esforço bem-sucedido de produção para atender um grande cliente, ele concedeu, espontaneamente, o primeiro prêmio por produtividade. Não havia legislação a respeito de participação nos lucros e remuneração por produtividade, porém, a prática incorporou-se à rotina da fábrica e sempre que havia trabalho especial, havia um prêmio. Mesmo antes de ser criado o 13º salário, ele pagava um adicional no fim do ano. Com o tempo, dependendo do desempenho anual, calculado por ele mesmo, distribuía a participação nos lucros, que chegava a 15 e às vezes 18 salários no ano. Em um determinado ano, foram 40


Reconhecimento Sonhei que fui ao Céu e um anjo mostrava-me as diversas áreas lá existentes. Andamos, até entrarmos numa sala de trabalho, cheia de anjos e ele me disse: – Esta é a Recepção. Aqui, são recebidas as orações com petições à Deus. Olhei em volta e vi que ela estava muito ocupada, com anjos pondo em ordem uma infinidade de pedidos escritos por pessoas de todo o mundo. Seguimos por um longo corredor, até que chegamos à segunda seção. E o anjo disse: – Esta é a área de Embalagem e Entrega. Aqui, as graças e bênçãos solicitadas, são processadas e entregues às pessoas vivas que as pediram. Notei outra vez como estavam todos ocupados. Haviam muitos anjos trabalhando intensamente, já que tantas bênçãos têm sido solicitadas. Eram empacotadas e entregues na Terra. Finalmente, paramos na porta de uma área muito pequena. Para minha surpresa, só um anjo estava ali, desocupado, não fazendo nada. – Esta é a Seção de Reconhecimento - disse-me embaraçosamente meu amigo. – Como é isso? Não há nenhum trabalho acontecendo por aqui, perguntei. – É tão triste. O anjo suspirou. – Depois que recebem as bênçãos, poucos confirmam o reconhecimento. – E como se confirma que recebemos as bênçãos de Deus? - Perguntei. – Simples. - O anjo respondeu. Basta dizer, Grato, Senhor. – E quais bênçãos devem ser reconhecidas? - Perguntei. E ele respondeu-me: 1. Se você tiver algum alimento, roupas no corpo, um teto sobre sua cabeça e um lugar para dormir, você é mais rico que 75% dos moradores deste mundo; 2. Se você tem dinheiro no banco, em sua carteira ou algumas moedas sobrando em sua casa, você está entre os 8% mais bem sucedidos do mundo; 3. E se você tem seu próprio computador, você é parte do 1% do mundo que tem essa oportunidade; 4. Mas também, se você acordou hoje de manhã com mais saúde que doença, você é mais abençoado que os muitos que nem sequer sobreviverão a este dia; 5. Se você nunca experimentou o temor da batalha, a solidão da prisão, a agonia da tortura, nem as dores da fome, você está à frente de 700 milhões de pessoas; 6. Se puder ir a uma Igreja, Mesquita ou Sinagoga, sem o temor de apanhar, ser preso, torturado ou sem medo da morte, você é abençoado e invejado por mais de três bilhões de pessoas, que não pode reunir-se com outros de sua fé; 7. Se seus pais ainda estão vivos e casados, você é uma raridade; 8. Se você pode manter sua cabeça erguida e pode sorrir, você não é a norma, você é um raro exemplo à tantos que estão em dúvida e em desespero; E, finalmente, se você conseguiu ler esta mensagem, você é mais abençoado que dois bilhões de pessoas no mundo que absolutamente não sabem ler. "Os covardes são incapazes de agradecer verdadeiramente, reconhecer o valor ou de demonstrar amor. Isto é para os corajosos".

pagos, excepcionalmente, 25 salários. Concretizou a idéia de proteger os funcionários das altas taxas de juros do mercado e criou uma cooperativa de crédito, com juros subsidiados, como alternativa de financiamento pessoal. Sabendo que muitos funcionários saiam na hora do almoço para beber um pouco no boteco próximo, instalou garrafões de pinga no refeitório da empresa. Com isso o índice de alcoolismo diminuiu e a produção aumentou, contrariando as previsões de seus colegas empresários. Além de ser um empresário de sucesso, era um grande empreendedor social e seu maior sonho - já naquela época - era criar uma escola modelo. A vontade era tanta, que, no início da década de 60, chegou a montar um colégio dentro da fábrica. Comprou 150 cadeiras e mesas, que foram colocadas num pavilhão pertencente à fábrica. Contratou professores de português, matemática e ciências. Os funcionários encerravam o expediente às cinco da tarde e iam para as aulas. Alguns anos mais tarde, essa escola sairia dos muros da fábrica e passaria a atender a comunidade e as cidades vizinhas no Colégio Termomecânica. Dono de uma personalidade crítica, encontrava disposição para empreender ações humanitárias. Prevendo que o tempo seria curto para todos os seus planos relacionados a filantropia, criou a Fundação Salvador Arena, formalmente constituída em 1964, que passou a funcionar como uma espécie de braço social de sua empresa, concentrando esforços para ajudar os carentes. Sua paixão pela fundação era tão grande que em seu testamento, lavrado em 1991, instituiu-a como herdeira universal e única de todo o seu patrimônio. Deixou claro e expresso através dos estatutos da fundação que sua essência deveria ser cooperar e concentrar os esforços possíveis para a solução dos problemas de educação, assistência e proteção aos necessitados, sem distinção de nacionalidade, raça, sexo, cor, credo ou opiniões políticas em caráter geral. Definiu que, as ações deveriam 41


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A lenda do monge e do escorpião Um monge e seus discípulos, caminhavam por uma estrada, quando ao passarem por uma ponte, viram um escorpião sendo arrastado pelas águas. Imediatamente, o monge correu pela margem do rio, entrou na água e tomou o bichinho na mão. Quando o trazia para fora, o escorpião o picou.

Vista aérea do Campus Educacional da Fundação Salvador Arena.

ser focadas em educação, saúde, promoção social e habitação popular. Na área da educação, deu continuidade ao grande sonho de construção de uma escola-modelo. Adquiriu em 1989, um terreno com mais de cinco alqueires, no Bairro Alvarenga, em São Bernardo do Campo, construindo o Colégio Termomecânica para atender, gratuitamente, crianças e adolescentes da comunidade, com qualidade e excelência de ensino. Hoje, além do colégio, existem mais duas unidades de ensino (Escola de Educação Infantil Salvador Arena e a Faculdade de Tecnologia Termomecânica), formando um verdadeiro Campus Educacional, que atende, cerca de 1.650 alunos, sendo que 75% são procedentes de famílias de baixa renda. Inclusive nas 600 vagas em cursos técnicos de nível superior da Faculdade de Tecnologia Termomecânica em Mecatrônica Industrial, Industrialização de Alimentos, Gestão de Processos Produtivos e Sistemas de Informação. A fundação, tornou-se também referência na área da saúde, na região do ABC. Criou em 1995 o Centro de Diagnose, onde são realizados, anualmente, mais de 14 mil exames gratuitos. Outro de seus grandes sonhos, era contribuir para o barateamento dos custos de construção de casas populares e que permitissem o acesso da população cawww.ethos.org.br O Instituto Ethos mobiliza, sensibiliza e ajuda empresas a gerir seus negócios de forma socialmente responsável, tornando-as parceiras na construção de uma sociedade sustentável e mais justa.

Devido à dor, o homem deixou-o cair novamente no rio. Foi então que o monge pegou um ramo de árvore, adiantou-se outra vez a correr pela margem, entrou no rio, mais uma vez colheu o escorpião e o salvou. Satisfeito, o monge voltou à ponte juntando-se a seus discípulos, que haviam assistido à cena e o receberam perplexos e penalizados. Um deles, então falou: – Mestre, deve estar doendo muito! Porque foi salvar esse bicho ruim e venenoso? Que se afogasse! Seria um a menos. Veja como ele retribuiu à sua ajuda. Picou a mão que o salvava. Não merecia a sua compaixão! O monge ouviu tranqüilamente os comentários e respondeu sereno: – “Ele agiu conforme a sua natureza e eu de acordo com a minha”. Esta parábola faz refletir sobre a melhor forma de ouvir, compreender e aceitar as pessoas. Não podemos e nem temos o direito de mudá-las, mas podemos melhorar nossas próprias reações e atitudes, sabendo que cada um dá o que tem e o que pode. Devemos fazer nossa parte, com amor e respeito ao próximo. “O auxílio ao próximo é seu melhor investimento”.

rente à uma condição digna de vida. Sonhava com a possibilidade de resolver o problema de falta de moradia no Brasil e estudava alternativas para isso. Teve a idéia de utilizar barro prensado para construir casas populares. Projetou máquinas e prensas que formavam kits de uma casa simples, mas completa. Poderia ser montada com facilidade, em qualquer lugar do país, a custos muito baixos, acessíveis às famílias mais pobres. No entanto, faleceu antes de ver concluído este projeto. Porém, por meio de sua fundação houve a continuidade deste sonho e, em 2002 realizou-se um convênio com a Prefeitura de São Bernardo do Campo, num projeto piloto, construindo 170 casas populares e urbanizando uma favela do município. Este homem, tão especial e caridoso, sempre esteve envolvido com as comunidades carentes e os menos favorecidos, fazendo doações importantes para entidades sociais, visando à instalação de salas de aula para creches, melhorias nas dependências de asilos e abrigos infantis e fornecendo alimentação sau-

dável para famílias em situação de extrema pobreza. Em 1983 criou o programa “Adote um Desempregado”, onde, uma vez a cada dois meses, distribuía 2.000 cestas básicas com sessenta quilos de alimentos à desempregados. Cada funcionário da Termomecânica era estimulado a participar, indicando um candidato para receber uma cesta. Salvador Arena faleceu em 28 de janeiro de 1998. Morreu na plenitude de seus 83 anos, deixando-nos um exemplo único de ética, visão e obstinação no cenário corporativo brasileiro. Um homem de convicções pessoais, embasadas em teorias sociais e em sua crença nas pessoas e em suas potencialidades, na dedicação e no amor ao trabalho.

“Devemos ensinar às nossas crianças, que somos parte de uma ‘enorme família’, que temos responsabilidade para com todos os seus membros, responsabilidade para a qual, talvez, não tenhamos crescido o suficiente”. Salvador Arena

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Permita Senhor... ... que eu possa perdoar a quem me fere sem mágoas, sem me sentir uma vítima por isso. ... que eu possa ser um ombro amigo, sem me sentir especial por isso, e sem me revoltar quando esse, não é reconhecido.

... que eu entenda que as dificuldades fazem parte do meu crescimento como ser humano. ... que eu seja humilde e perceba que à minha volta outros sofrem bem mais do que eu.

... que eu consiga sorrir mais, chorar menos e ser feliz com o que me destes.

... que eu tenha mais bondade, piedade, carinho, compreensão e amor para com meu irmão. E, principalmente, me ensine a não pensar somente em mim, deixando de ser egoísta até em minhas orações!

www.meusonhonaotemfim.org.br


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Compaixão

Portões do Inferno. Entrada do campo de concentração de Auschwitz. Dos seis milhões de vítimas do Holocausto, um milhão e meio foram mortas no complexo de Auschwitz-Birkenau. História que nunca deve ser esquecida, para que jamais seja repetida.

MUNDO

Oskar Schindler, um homem que reescreveu sua história Imaginem um homem descrito como cínico, playboy, jogador, alcoólico, desavergonhado, mulherengo do pior tipo, explorador ganancioso de escravos durante a II Guerra Mundial, comerciante no mercado negro, membro do partido nazista (onde era admirado e estimado) e fabricante de armas para as tropas de Hitler. Assim era descrito Oskar Schindler. Mas, na verdade quem era este homem, que começou a ganhar milhões de marcos alemães através de uma cruel exploração de trabalhadores escravos e acabou por despender até seu último centavo, arriscando por diversas vezes sua própria vida, para salvar 1.200 judeus? www.lardascriancas.org.br O Lar das Crianças da Congregação Israelita Paulista, atende crianças a partir dos quatro anos de idade que, sem distinção de cor, raça ou religião, estejam em situação de risco pessoal e social.

Oskar Schindler nasceu em 28 de Abril de 1908, em Zwittan, na Tchecoslováquia. Sua família era uma das mais ricas e respeitadas de Zwittan, mas como resultado da grande depressão dos anos 30, a empresa da família foi à falência. Desempregado, juntou-se como muitos outros jovens na mesma situação, ao partido nazista. Foi recrutado pelos serviços secretos alemães para recolher informações sobre os poloneses, sendo que, esta atividade acabou tornou-o muito considerado e estimado e permitiu estabelecer muitos contatos com oficiais nazistas, o que lhe viria a ser muito útil mais tarde. Deixou sua mulher em Zwittan e foi para a Cracóvia, na Polônia, onde se estabeleceu. Reabriu naquela região uma antiga fábrica de panelas e converteu-a para a produção de armamentos, empregando cerca de 350 judeus, uma vez que estes eram considerados por todos “uma mão de obra barata e muito acessível naquela época”.

A medida que o tempo passava, o plano nazista conhecido como “solução final”, começou a acelerar. Schindler descobriu o terror provocado pelos nazistas e começou a encarar os judeus não só como trabalhadores baratos, mas também como pais, mães e crianças expostas à horrível carnificina dos projetos nazistas de eliminação total dos judeus. Neste exato momento, inconscientemente, Schindler decide mudar drasticamente, o roteiro de sua vida. Ele inicia um plano extremamente arriscado para desviar judeus do seu destino provável nas câmaras de gás. Em sua fábrica, situada no campo de trabalho de Plazow, guardas da SS (o esquadrão de proteção nazista) passam a não ter mais acesso às suas instalações, sem sua prévia autorização. Na fábrica, os trabalhadores passavam menos fome do que em outras instalações do mesmo gênero. Quando a quantidade de comida armazenada atingia o limite crítico, Schindler comprava-a no merca44


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www.tenyad.org.br O "Ten Yad" atua no combate à fome e à miséria. Aproximadamente 2.000 pessoas recebem, diariamente, refeições quentes e nutritivas em seu refeitório assistencial ou através do programa "Refeições Sobre Rodas", que leva alimentos para aqueles que estão impossibilitados de se locomover.

do negro. Os idosos eram todos registrados como jovens de pouco mais de vinte anos e as crianças, registradas como adultos. Advogados, médicos e artistas, eram registrados como metalúrgicos e mecânicos, tudo para poderem sobreviver como elementos essenciais para a indústria de guerra. Em sua fábrica ninguém era torturado, espancado ou enviado para as câmaras de gás. Durante estes anos, milhões de judeus foram mortos nos campos de concentração poloneses como Treblinka, Majdanek, Sorbibor, Chelmno e Aushwitz. Por duas vezes Oskar foi preso pela Gestapo (a polícia secreta nazista), porém, graças aos seus conhecimentos e contatos conseguiu ser libertado. Quando os nazistas foram derrotados na frente leste, Plazow e os campos de concentração vizinhos, foram dissolvidos e fechados. Schindler não tinha ilusões quanto ao que ia acontecer, e desesperadamente, exerceu toda sua influência junto aos nazistas, através dos seus contatos nos círculos militares e industriais em Cracóvia e Varsóvia e foi à Berlim, para salvar os “seus judeus” de uma morte certa. Com a sua vida em perigo constante, usou todos os seus poderes de persuasão, subornou sem qualquer medo, lutou e pediu ajuda. Onde ninguém acreditaria que seria possível, Schindler teve sucesso. Obteve permissão para mudar sua fábrica para Brinnlitz, na Tchecoslováquia ocupada e a levar consigo todos os trabalhadores judeus, coisa que mais ninguém havia conseguido durante a guerra. Desta maneira, os 1.098 trabalhadores que tinham sido registrados na lista de Schindler, não

Antiga fábrica de Oskar Schindler, na região da Cracóvia, na Polônia. Projeto pretende transformá-la em museu para mostras de arte moderna e uma exposição permanente dedicada ao dono ilustre.

tiveram o mesmo destino fatal que os outros mais de 25.000 homens, mulheres e crianças de Plazow, que foram enviados para as câmaras de gás de Auschwitz, a apenas sessenta quilômetros de Plazow. Até à libertação, na primavera de 1945, Oskar Schindler procurou assegurar de todas as maneiras possíveis, a segurança dos “seus judeus”. Gastou todo o seu dinheiro e até mesmo as jóias de sua mulher para comprar comida e medicamentos. Criou um sanatório secreto na fábrica, com equipamento médico comprado no mercado negro. Emile Schindler, sua mulher, tratava de todos os

doentes. Àqueles que não sobreviviam era dado um funeral judeu (num lugar escondido), pago por Schindler. Apesar da família Schindler ter à sua disposição uma enorme mansão junto à fábrica, Oskar compreendeu o grande medo que os judeus tinham das visitas noturnas da SS e, por este motivo, em Plazow, ele não passou uma única noite fora do pequeno escritório da fábrica. Sua fábrica produziu munições para o exército alemão durante sete meses e durante este período, nenhuma munição passou nos testes de qualidade militar, como ele desejava, pois, para ele, nenhuma munição fabricada por Schindler

Não esqueça os maus A seguinte oração foi encontrada entre os pertences pessoais de um judeu, morto num campo de concentração: “Meu Senhor, peço que não te lembres apenas dos homens de boa vontade; Lembra-Te também dos homens de má vontade. Não Te lembres apenas das crueldades, sevícias e todas as violências que eles praticaram: lembra-Te também dos frutos que produzimos por causa do que eles nos fizeram. Lembra-Te da paciência, coragem, confraternização, humildade, grandeza de alma e fidelidade que nossos carrascos, terminaram por despertar em nossas almas. Permite então, Senhor, que todos os frutos por nós produzidos, possam servir para salvar as almas dos homens de má vontade”.

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O Oskar Schindler brasileiro O diplomata Luiz Martins de Souza Dantas (1876-1954), embaixador brasileiro em Paris de 1922 até 1942, sem alarde e lutando contra recomendações oficiais do governo Getúlio Vargas, salvou comprovadamente 475 pessoas de morrerem em campos de extermínio, emitindo centenas de vistos durante os anos mais duros da repressão nazista na Europa. O número certo de pessoas - judeus, homossexuais, comunistas e outras vítimas do nazismo - que encontraram salvação graças a sua assinatura, não é conhecido. O historiador carioca Fábio Koifman, acredita que possa passar de mil. Foi graças a ele e a seu livro “Quixote nas Trevas”, que o diplomata foi reconhecido. Não fosse por ele, o ator e teatrólogo polonês Zbignew Ziembinski, por exemplo, nunca teria chegado ao Brasil. Outro que teria perecido na Europa seria o “anônimo” brasileiro, nascido na Antuérpia, Raphael Zimetbaum. – “Ele falou para minha família de que estaria salvando as nossas vidas”, conta Zimetbaum, que nunca conheceu o diplomata pessoalmente, mas o idolatra. Souza Dantas foi várias vezes advertido pelo Ministério das Relações Exteriores e ficou em prisão domiciliar alemã por catorze meses. Além disso, escapou por pouco, das penalidades de um inquérito administrativo aberto, pessoalmente, por Getúlio Vargas, em 1941. O processo só não foi até o fim porque, no ano seguinte, o Brasil cortaria relações com a Alemanha e Getúlio decidiu abafar o caso. Sua humildade, fez com que não deixasse muitos documentos. “Fiz o que teria feito, com a nobreza da alma dos brasileiros, o mais frio deles, movido pelos mais elementares sentimentos de piedade cristã”, diz Souza Dantas, ao explicar por que dava os vistos, num raro documento, arquivado por Koifman. O embaixador, que não figura em livros de história brasileiros, foi reconhecido pelo Museu do Holocausto de Jerusalém, como “Justo entre as Nações”. Só quem preenche ao menos uma, de três condições, merece o título concedido pelo museu: arriscar cargo e posição social, arriscar a vida e salvar um número expressivo de pessoas. O diplomata não arriscou sua vida, mas quase perdeu o emprego e o status assinando centenas de vistos para perseguidos do nazismo. Na época, Souza Dantas ficou conhecido como um exemplo de diplomata. Quando voltou ao Brasil, em 1944, planejou-se uma grande festa com desfile em carro aberto pela Avenida Rio Branco e decretação de feriado nas escolas do Rio de Janeiro. Assessores de Getúlio Vargas, porém, desmobilizaram as boas-vindas.

deveria ser responsável por tiros precisos contra possíveis civis inocentes. Incansável, conseguiu ainda, convencer a Gestapo a mandar cerca de cem judeus belgas, dinamarqueses e húngaros para a sua fábrica para “continuar a produção de material de guerra”. Em maio de 1945 o pesadelo acabou. Os russos ocuparam Brinnlitz. Na noite anterior, Schindler juntou todos na fábrica e despediu-se com muita emoção. Oskar Schindler e os “1.200 judeus de Schindler” sobreviveram. Poldek Pfef-

ferberg, o judeu que o ajudava a arranjar mercadoria no mercado negro para subornar oficiais nazistas durante a guerra, prometeu mais tarde contar sua história: “O senhor protegeu-nos, salvou-nos, alimentou-nos. Nós sobrevivemos ao Holocausto, a tragédia, a dura batalha, a doença, ao espancamento, a morte! Nós temos que contar a sua história ao mundo”. A vida de Schindler depois da guerra passou por muitas dificuldades. Ele ficou privado de sua nacionalidade, imediatamente, após o fim da guerra,

Oskar Schindler no inicio dos anos 60.

tentou, sem sucesso, ser produtor de cinema, sofreu muitas ameaças de antigos nazistas e pediu asilo aos EUA, tendo a permissão recusada por ter pertencido ao partido nazista. Depois disto, fugiu para Buenos Aires, na Argentina. Fixou-se como agricultor em 1946, tendo sido financiado por judeus agradecidos que jamais o esqueceram. No início dos anos 60, Schindler foi honrado em Israel, declarado "Righteous" (Justo) e convidado a plantar uma árvore na Avenida dos Justos, em Jerusalém. Passou a receber juntamente com sua esposa, uma pensão vitalícia do governo israelita em agradecimento aos seus atos de herói. Uma estátua no Parque dos Heróis, também em Jerusalém, louva-o como o salvador de mais de 1.200 judeus. Hoje, há mais de 6.000 descendentes dos “judeus de Schindler” vivendo principalmente nos EUA, Europa e Israel. Muito mais do que os aproximadamente 4.000 judeus residentes hoje na Polônia, sendo que antes da II Guerra Mundial, a população judaica da Polônia era de mais de 3,5 milhões. Oskar Schindler passou os últimos anos de sua vida de forma humilde. Morreu pobre aos 66 anos de idade, em Hildesheim, na Alemanha, em 9 de outubro de 1974. Seu corpo foi trasladado para Israel e enterrado em Jerusalém com honras de herói.

“Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro”. Talmud – Provérbio Judaico

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Bondade

Mahatma Gandhi, exemplo máximo da luta pela paz e na defesa dos povos oprimidos.

MUNDO

Mahatma Gandhi, símbolo universal da paz e da bondade “Creio eu que todas as gerações vindouras terão muita dificuldade em acreditar que tenha passado pela face da terra, em carne e osso, um homem como Mahatma Gandhi”.

tes de mercadores (a palavra Gandhi significa, vendedor de mercearias e lojas de alimentos). Curiosamente, contrapondo o significado “materialista”, Mahatma, significa “grande alma”.

Esta frase do ilustre cientista alemão Albert Einstein, define muito bem a importância do pacifista indiano Mahatma Gandhi, para o mundo moderno. Uma trajetória de vida e legado, que o tornou exemplo máximo da luta pacífica pela paz.

Aos 13 anos, casou-se com Kasturbai, numa união, previamente acertada entre as famílias dos noivos. O casal teve quatro filhos, todos meninos: Harlal, Manilal, Ramdas e Devdas.

Mohandas “Mahatma” Karamchand Gandhi, nasceu em 2 de outubro de 1869, em Porbandar, Índia. Seus pais, Karamchand e Putliba, eram descenden-

Estritamente vegetariano, experimentou diversos tipos de alimentação, concluindo que uma dieta deve ser suficiente apenas para satisfazer as necessidades do corpo humano. Jejuava muito e usava o seu jejum, freqüentemente, como estratégia política.

www.soudapaz.org.br O Instituto Sou da Paz tem como missão contribuir para a efetivação no país de políticas públicas de segurança e prevenção da violência, pautadas pela democracia, justiça social e direitos humanos.

Aos 19 anos, iniciou o curso de Direito, na Universidade de Londres.

Dois anos depois de formado, em 1893, viajou para Durban, na África do Sul – que naquela época, assim como a Índia, era uma colônia britânica – para trabalhar como advogado. Neste período, após um incidente num trem em Pieter-

maritzburg - quando viajava na primeira classe e solicitaram-lhe que se transferisse para a terceira e ao recusar, foi jogado para fora do trem - iniciou sua trajetória política, advogando contra as leis, extremamente, discriminatórias então vigentes, criando também um movimento pacifista de luta pelos direitos civis dos hindus. Vinte anos depois, ainda na África do Sul, foi preso em 6 de novembro de 1913, enquanto liderava uma marcha de mineiros indianos. Ele inspirava-se no Bhagavad Gita e nos textos de Leon Tolstoi, que na década de 1880, empreendeu uma profunda conversão pessoal para um tipo de anarquismo cristão. Gandhi traduziu a obra de Tolstoi, “Carta para um hindu”, escrita em 1908, em resposta aos agressivos nacionalistas indianos. Esta carta usava a filosofia hindu presente nos Vedas e 47


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nos relatos do deus hindu Krishna, para apresentar seu ponto de vista a respeito do crescimento do nacionalismo indiano, lamentando a ascensão do extremismo na luta pela liberdade da Índia. Ao retornar à Índia, após sua carreira de advogado na África do Sul, deixou de usar as roupas que representavam riqueza e sucesso, passando a usar um tipo de roupa que costumava ser usada pelos mais pobres entre os indianos. Aumentou sua resistência passiva, negando colaboração ao domínio britânico e pregando a não violência como forma de luta. Este domínio já durava mais de duzentos anos e para os britânicos, os indianos eram considerados cidadãos de segunda classe. Após a I Guerra Mundial, Gandhi se envolveu com o Congresso Nacional Indiano e com o movimento pela independência. Ganhou notoriedade internacional, com sua política de desobediência civil usando o jejum como forma de protesto. Teve sua prisão decretada diversas vezes pelas autoridades inglesas, prisões das quais, sempre seguidas de grandes protestos pela sua libertação. Outra estratégia eficiente de Gandhi pela independência foi à política do swadeshi, boicote aos produtos importados, especialmente os ingleses. Aliada a isto, estava sua proposta de que todos os indianos deveriam vestir o khadi – vestimentas caseiras – ao invés de comprar os produtos têxteis britânicos. Os indianos, mesmo desempregados, em grande parte pela decadência da indústria têxtil local, eram forçados a comprar roupas inglesas. Fazendo suas próprias roupas, os indianos arruinariam a indústria têxtil britânica. O tear manual, símbolo desse ato de afirmação do povo indiano, acabou incorporado à bandeira do Congresso Nacional Indiano e à própria bandeira nacional. Gandhi declarava que toda mulher indiana, deveria gastar parte do seu dia fabricando o khadi, incluindo-as no movimento de independência, num período em que, pelas leis hindus, tais atividades não eram apropriadas às mulheres.

Estátua de Mahatma Gandhi na Union Square, em Nova York, símbolo mundial de luta pela paz.

Sua posição pró-independência, endureceu após o Massacre de Amritsar em 1920, quando soldados britânicos abriram fogo matando centenas de indianos que protestavam, pacificamente, contra novas medidas autoritárias do governo britânico e a prisão de líderes nacionalistas indianos. Uma de suas mais eficientes ações, foi a “Marcha do sal”, protesto que começou em 12 de março de 1930 e terminou em 5 de abril. Gandhi caminhou 320 quilômetros a pé até o mar, ao lado de milhares de pessoas, a fim de coletarem seu próprio sal, ao invés de pagarem a taxa imposta pelo sal comprado. Em maio de 1933, iniciou um novo jejum que duraria 21 dias, em protesto à “opressão britânica” contra a Índia. Em Bombaim, no dia 3 de março de 1939, jejuou novamente em protesto às regras autoritárias e autocráticas para a Índia. Gandhi passou, cada vez mais, a pregar pela independência de seu país, principalmente, durante a II Guerra Mundial, clamando pela saída dos britânicos da Índia. Mesmo ocasionando prisões em massa e violência em uma escala inédita, Gandhi e seus partidários deixaram claro que não apoiariam a causa britânica na guerra, a não ser que fosse garantida à Índia independência imediata. Foi então preso em Bombaim, pelas forças britânicas em 9 de agosto de 1942 e mantido em cárcere por dois anos.

Gandhi sempre teve grande influência entre as comunidades hindu e muçulmana da Índia. Costumava-se dizer que ele terminava rixas comunais apenas com sua presença. No entanto, em 1947, a hostilidade entre hindus e muçulmanos atingiu o auge do fanatismo. Nas ruas haviam milhares de cadáveres, vítimas dessa insanidade sem limites. Os muçulmanos reivindicavam um Estado independente, o Paquistão. Gandhi tentou restabelecer a paz dando início a uma nova greve de fome. Seu sacrifício pessoal conseguiu muito mais que políticos e o exército. A Índia, predominantemente hindu, finalmente conquistou sua independência. Criou-se também o Estado muçulmano do Paquistão. Porém, Gandhi posicionou-se contra a divisão da Índia em dois Estados, prevendo grandes hostilidades entre as duas novas nações, num futuro próximo. No dia da transferência de poder, Gandhi não celebrou a independência com o restante da Índia, ao contrário, lamentou sozinho a partilha do país. Com o passar do tempo, acabou aceitando a divisão e resolveu trabalhar pela paz entre os dois povos, atraindo o ódio dos nacionalistas hindus. Gandhi iniciou um jejum no dia 13 de janeiro de 1948 em protesto contra as constantes violências cometidas entre 48


Aquilo que o coração carrega Conta uma lenda do Oriente, que um jovem, chegou a um povoado e aproximando-se de um velho, perguntou-lhe: - Que tipo de pessoa vive neste lugar? Por sua vez, perguntou o ancião: - Que tipo de pessoa vivia no lugar de onde você vem? - Oh, um grupo de egoístas e malvados - replicou o rapaz - estou satisfeito de haver saído de lá. A isso o velho replicou: - A mesma coisa você haverá de encontrar por aqui. No mesmo dia, um outro jovem forasteiro chegou a entrada do povoado e vendo o ancião, perguntou-lhe: - Que tipo de pessoa vive por aqui? O velho respondeu com a mesma pergunta: - Que tipo de pessoa vive no lugar de onde você vem? O rapaz respondeu: - Um magnífico grupo de pessoas, amigas, honestas, hospitaleiras. Fiquei muito triste por ter de deixá-las. - O mesmo encontrará por aqui – respondeu o ancião. Um homem que havia escutado as duas conversas perguntou ao velho: - Como é possível dar respostas tão diferentes à mesma pergunta? Ao que o velho respondeu: - Cada um carrega no seu coração o meio ambiente em que vive. Aquele que nada encontrou de bom nos lugares por onde passou, não poderá encontrar outra coisa por aqui. Aquele que encontrou amigos ali, também os encontrará aqui porque, na verdade, a nossa atitude mental é a única coisa na nossa vida sobre a qual podemos manter controle absoluto.

“É possível mudar nossas vidas e a atitude daqueles que nos cercam simplesmente mudando a nós mesmos”.

indianos e paquistaneses, sendo vítima de um atentado, quando uma bomba foi lançada em sua direção, mas, ninguém se feriu. Entretanto, dezessete dias mais tarde, em 30 de janeiro de 1948, Gandhi foi assassinado a tiros, em Nova Déli, por Nathuram Godse, um hindu radical que o responsabilizava pelo enfraquecimento do novo governo ao insistir no pagamento de dívidas ao Paquistão. www.sosmatatlantica.org.br A Fundação SOS Mata Atlântica defende os remanescentes da Mata Atlântica, suas comunidades e conserva os patrimônios natural, histórico e cultural dessas regiões, buscando o seu desenvolvimento sustentado.

Godse foi julgado, condenado e enforcado, a despeito do último pedido de Gandhi – ele acreditava que terminaria assassinado – ter sido justamente a nãopunição de seu assassino. Mais de um milhão de indianos, compareceram ao funeral de Mahatma Gandhi e suas cinzas foram lançadas as águas do rio Ganges. Morreu em conseqüência de sua luta incansável pela paz. Enfrentou o Império Britânico sem derramar uma única gota de sangue, e por mais incrível que possa parecer, jamais recebeu o prêmio Nobel da Paz, apesar de ter sido indicado cinco vezes entre 1937 e 1948. Mahatma Gandhi foi, sem dúvida alguma, um dos grandes homens do século

XX. Teve o grande privilégio de ter seres humanos igualmente especiais como Albert Einstein e Charles Chaplin como grandes admiradores e serviu de inspiração anos mais tarde à Martin Luther King, em sua épica luta contra a segregação racial nos EUA. Tornou-se o maior pregador da doutrina da nãoviolência e que desejava apenas que a paz e a justiça reinassem, entre hindus e muçulmanos, indianos e ingleses e entre todos os povos e homens da terra.

“Um covarde é incapaz de demonstrar amor. Isso é privilégio dos corajosos”. Mahatma Gandhi

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Abnegação

Janusz Korczak, uma vida dedicada a educação e aos direitos das crianças.

MUNDO

Janusz Korczak e o seu absoluto amor pelas crianças Janusz Korczak, pseudônimo de Henryk Goldszmit, nasceu em 22 de julho de 1878, filho de judeus ricos, liberais e assimilados à cultura polonesa. Seu pai era um advogado reconhecido e sua mãe vinha de uma família progressista. Avesso à disciplina escolar, passou a infância e a adolescência resistindo às regras institucionais da escola russa em que estudava e devorando obras da literatura universal. Sonhava ser escritor, mas pela insistência de seu pai, inscreveu-se no curso de medicina. Neste mesmo período, seu pai veio a falecer, depois de um longo tratamento, e que consumiu todas as economias da famíwww.unibes.org.br A UNIBES é uma instituição filantrópica que desenvolve e implanta projetos sócio-educativos e de promoção humana, preservando os valores universais e judaicos da ética, justiça social e boas ações.

lia. Para auxiliar sua mãe nas despesas de casa, ele dava aulas particulares e acalentava o desejo de tornar-se escritor participando de concursos literários. Em 1899, obteve uma menção honrosa com um drama assinado com o pseudônimo de Janusz Korczak, herói de um romance polonês. No verão de 1901, Korczak partiu em viagem para Zurique, a fim de aprofundar seus estudos sobre a obra de Johan Heinrich Pestalozzi, educador e filantropo suíço. O interesse de Korczak pelas crianças carentes e pelos fundamentos da educação já estava delimitado tendo ele, naquele mesmo ano de 1901, publicado um artigo intitulado “As crianças de rua”. Em Zurique, Korczak conheceu Stefa Wilczinska, filha de uma família judia aristocrática de Varsóvia, que estudava pedagogia. Influenciado por ela, começou a freqüentar a faculdade de pedagogia e antes de voltar a Varsóvia, fez uma especialização em pediatria em

Berlim, para depois assumir um posto em um hospital pediátrico de sua cidade e concluir seus estudos em medicina. Em 1911, resolveu trabalhar no orfanato e lar para crianças pobres criado por Stefa em Varsóvia. Acumulou os cargos de médico e pedagogo, transformando, gradualmente, o orfanato em uma República de Crianças, organizada sobre os princípios da justiça, fraternidade, igualdade de direitos e obrigações. Graças a suas novas funções, Korczak realiza um grande sonho, inaugurando o orfanato “Lar das Crianças”, em uma rua habitada por judeus pobres de Varsóvia, a Rua Krochalna. O público alvo deste orfanato eram as crianças judias órfãs e carentes, que viviam abandonadas a marginalizadas pelas ruas da capital. No entanto, com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, foi convocado para os serviços de pediatria de dois hospitais e a inspeção de três orfanatos em Kiev. Ao regressar, Korczak reassumiu suas 50


www.parceirosvoluntarios.org.br A Parceiros Voluntários é uma organização sem fins lucrativos criada com a missão de ser um movimento disseminador da cultura do voluntariado organizado, visando pessoas, comunidades e uma sociedade mais solidária.

funções no Lar e, tornou-se nacionalmente conhecido, sendo convidado a auxiliar na direção de outro orfanato para crianças católicas em Prushkov. Nesta época, ele iniciou também diversas atividades educacionais em revistas e rádios polonesas, paralelamente ao trabalho desenvolvidos nos orfanatos, além de escrever vários livros como “O Direito da criança ao respeito” (1929), que foi a base adotada pela ONU, trinta anos depois, para a formulação da declaração dos direitos das crianças, como parâmetro de atuação mundial para a infância. Porém, a crise econômica deflagrada em 1929 e o fortalecimento das ideologias nacionalistas e totalitárias, destruíram ideais revolucionários. O recrudescimento do anti-semitismo na Europa tornou cada vez mais difícil a situação para os judeus, sobretudo na Polônia, que ao ser invadida pelos nazistas, impediu a realização dos planos de Korczak junto a suas adoradas crianças.

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Em 1940, tropas nazistas obrigaram as cerca de 200 crianças do orfanato judaico a mudar-se para o gueto de Varsóvia. Para apaziguar as crianças, Korczak disse-lhes que iriam a uma excursão e que elas, confiantes, deviam segui-lo

Assim como no Holocausto, as crianças - devido a sua inocência e fragilidade - são sempre as maiores vitimas das atrocidades de nossa história.

A grandeza de um pequeno gesto Logo após o término da Segunda Grande Guerra, a Europa começou a ajuntar os cacos do que restara. Grande parte da Inglaterra estava destruída. As ruínas estavam por todo lugar. E, possivelmente, o lado mais triste da guerra tenha sido assistir as crianças órfãs morrendo de fome, nas ruas das cidades devastadas. Certa manhã, de muito frio na capital londrina, um soldado americano estava retornando ao acampamento. Numa esquina, ele viu, do seu jipe, um menino com o nariz pressionado contra o vidro de uma confeitaria. Parou o veículo, desceu e se aproximou do garoto. Lá dentro, o confeiteiro sovava a massa para uma fornada de rosquinhas. Os olhos arregalados do menino, falava da fome que lhe devorava as entranhas. Ele observava todos os movimentos do confeiteiro, sem perder nenhum. Através do vidro embaçado pela fumaça, o soldado viu as rosquinhas quentes, e de dar água na boca, sendo retiradas do forno. Logo mais, o confeiteiro as colocou no balcão de vidro com todo o cuidado. O soldado ouviu o gemido do menino e percebeu como ele salivava. Em pé, ao lado dele, comoveu-se diante daquele órfão desconhecido. – Filho, você gostaria de comer algumas rosquinhas? O menino se assustou. Nem percebera a presença do homem a observá-lo, tão absorto estava na sua contemplação. – Sim, respondeu. Eu gostaria. O soldado entrou na confeitaria e comprou uma dúzia de rosquinhas. Colocou-as dentro de um saco de papel e se dirigiu ao local onde o menino se encontrava, na gélida e nevoenta manhã de Londres. Sorriu e lhe entregou as rosquinhas, dizendo de forma descontraída: – Aqui estão as rosquinhas. Virou-se para se afastar. Entretanto, sentiu um puxão em sua farda. Olhou para trás e ouviu o menino perguntar, baixinho: – Moço, você é Deus? Em diversas situações, pequenos gestos significam muito para algumas vidas. “Fazer o mal? Não sei como isso se faz!” - Janusz Korczak

sem choro e sem protesto, em fila e cantando. Durante a permanência no gueto, ele usou toda sua energia, talento e influência para conseguir alimentos e medicamentos necessários para a sobrevivência de suas crianças. Por ser um dos mais influentes educadores da Europa, Korczak recebeu diversas propostas para escapar do gueto, inclusive um salvo conduto de Adolf Hitler, no entanto, recusou-se a abandonar suas crianças, seus “pequenos

filhos”. No dia 5 de agosto de 1942, foi enviado ao campo de concentração de Treblinka, juntamente com suas crianças e mais doze funcionários de seu orfanato, sendo executados numa câmara de gás ao chegarem ao campo de concentração.

“Eu não posso criar outra alma, mas posso acordar a alma que está dormindo.” Janusz Korczak 51


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Superação

Stephen Hawking, corpo em degeneração e mente em complexo estágio de evolução.

MUNDO

Stephen Hawking e a superação da mente humana Imaginem um homem de grande capacidade intelectual e que, em meados de 1970, quando estava prestes a completar seu doutorado em física, descobriu que era portador de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), uma doença degenerativa, que paralisaria todos os seus movimentos e escutou do médico que teria apenas mais dois anos de vida. Sua primeira reação foi dizer, “então posso tentar entender o universo, porque não vou mais precisar pensar em coisas como aposentadoria e contas a pagar”, ironizando a situação. Sua segunda reação foi arregaçar as mangas e como sabia que a doença progrediria rapidamente, foi obrigado a criar fórmulas simples para explicar – no menor espaço de tempo possível – tudo aquilo que pensava. Dois anos e www.apaebrasil.org.br A APAE - Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, tem como principal missão prevenir a deficiência, assim como, facilitar o bem estar e a inclusão social da pessoa deficiente mental.

meio se passaram, dez anos se passaram, vinte anos se passaram, trinta anos se passaram e ele continua vivo. Durante vários anos foi capaz de comunicar suas idéias abstratas através de um pequeno computador acoplado a sua cadeira de rodas, que possuía apenas quinhentas palavras diferentes. A doença, em vez de conduzí-lo à invalidez total, forçou-o, graças a toda sua perseverança e obstinação, a descobrir uma nova maneira de raciocínio. O dono desta história de vida impressionante é o físico inglês, Stephen William Hawking. Nascido em Oxford, em 8 de Janeiro de 1942, ele entrou na University College, uma das mais renomadas instituições de ensino da Inglaterra, situada em Oxford, onde pretendia estudar matemática, no entanto, acabou optando por física, formando-se três anos mais tarde. Obteve a graduação de doutorado na Trinity Hall, em Cambridge. Depois de obter doutorado passou a ser investigador e mais tarde, professor nos Colégios Maiores de Gonville e Caius.

Após abandonar o Instituto de Astronomia em 1973, entrou para o Departamento de Matemática Aplicada, Física Teórica e desde 1979, ocupa o posto de professor de Matemática. Hawking, mesmo com sua rara doença degenerativa detectada quando tinha 21 anos, continuou combinando a vida em família (com sua esposa, seus três filhos e um neto) às suas investigações em física teórica junto com um extenso programa de viagens e conferências. São várias as passagens marcantes dessa história de superação. Uma delas ocorreu em 1985, em Genebra, quando Hawking teve uma severa pneumonia e após todos os procedimentos de emergência serem realizados, os médicos locais aconselharam a desligar a máquina que o mantinha vivo, porém, sua esposa, na época, não acatou a sugestão em hipótese alguma, removendo-o para a Inglaterra. Ao submetê-lo a uma traqueotomia de emergência, perdeu completamente suas cordas vocais e por definitivo sua voz. Com esta e diversas outras passagens de sua obstinação, o mundo ganhava defi52


Mundo virtual Entrei apressado e com fome no restaurante. Escolhi uma mesa afastada do movimento, pois, queria aproveitar os minutos que dispunha para comer e consertar alguns problemas de programação de um sistema. Pedi um filé de salmão e um suco, afinal de contas, fome é fome, mas regime é regime. Abri meu laptop e levei um susto com aquela voz baixinha atrás de mim. - Tio, dá um trocado? - Não tenho, menino. - Só uma moedinha para comprar um pão. - Está bem, compro um para você. Para variar, minha caixa de entrada está lotada de e-mails. Fico distraído vendo as poesias, dando risadas com as piadas. - Tio, pede para colocar margarina e queijo também. Percebo que o menino tinha ficado ali. - Ok. Vou pedir, mas depois me deixa trabalhar, estou muito ocupado, tá? Chega minha refeição. Faço o pedido do menino e o garçom me pergunta se quero que mande o garoto ir “a luta”. Digo que está tudo bem. Que traga não o pão, mas uma refeição decente para ele. Então ele sentou à minha frente e me perguntou: - Tio, o que você tá fazendo? - Estou lendo uns e-mails. - O que são e-mails? - São mensagens eletrônicas enviadas via Internet. É como se fosse uma carta, só que vem pela Internet. - Tio, você tem Internet? - Tenho sim, é essencial ao mundo de hoje. - O que é Internet? - É um local onde podemos conhecer pessoas, ler, escrever, trabalhar, aprender, tem de tudo no mundo virtual. - E o que é virtual? Resolvo dar uma explicação simplificada, na certeza que ele pouco vai entender e me liberar para comer minha refeição. - Virtual é um local que imaginamos, algo que não podemos pegar, tocar. É lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer. Criamos nossas fantasias, transformamos o mundo em como queríamos que ele fosse. - Legal isso. Adoro! Também vivo neste mundo virtual. - Mocinho, você por acaso tem computador? - Não, mas meu mundo também é desse jeito... virtual. Minha mãe trabalha, fica o dia todo fora, quase não a vejo, eu fico cuidando do meu irmão pequeno que vive chorando de fome e eu dou água para ele pensar que é sopa, minha irmã sai todo dia, diz que vai vender o corpo, mas não entendo, pois ela sempre volta com o corpo, meu pai está na cadeia há muito tempo, mas sempre imagino nossa família junta, com muita comida, brinquedos e eu indo ao colégio para virar médico um dia. - Isso é virtual, não é tio? Fechei meu laptop, não antes que lágrimas caíssem sobre o teclado. Esperei que o menino terminasse de “devorar” o prato dele, paguei a conta e o troco dei para o garoto, que me retribuiu com um dos mais belos e sinceros sorrisos que já recebi na vida e com um “brigado tio você é legal!”. Ali, naquele instante, tive a maior prova do virtualismo insensato em que vivemos, todos os dias, enquanto a realidade cruel nos rodeia de verdade e fazemos de conta que não percebemos!

“A causa real da maioria dos nossos grandes problemas está entre a ignorância e a negligência”. - Goethe

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norte-americano da Califórnia, sensibilizada com o isolamento de um gênio como Hawking, o socorreu. Engenheiros da empresa criaram softwares feitos sob medida para ele, muito fáceis de usar, além de um teclado especial. Ele retornava, com ânimo redobrado, à sua brilhante carreira, destrinchando os pontos básicos da física dos buracos negros, incluindo, mais notavelmente, sua previsão, segundo a qual, os buracos negros não são inteiramente negros. Em lugar disso, se possuirem massa equivalente à de uma montanha, vão irradiar partículas de todo tipo.

Independentemente de todas as limitações físicas, Stephen Hawking sempre foi definido como o gênio de sorriso fácil.

nitivamente um de seus maiores exemplos vivos, de onde podemos chegar com nosso poder de superação e perseverança, aliados a nossa capacidade humana e intelectual. Porém, mesmo com a vitória em tantas batalhas o grau de degeneração de seu corpo evoluía e, gradualmente, ele foi perdendo o movimento dos braços e pernas, assim como do resto da musculatura voluntária, incluindo a força para manter a cabeça erguida, deixando-o com uma mobilidade praticamente nula. Suas mãos retorcidas e fracas já não conseguiam mais segurar uma caneta. Por algum tempo, ele viveu totalmente isolado do mundo. Foi quando uma empresa do Vale do Silício, no Estado

O enorme sucesso de seu livro “Uma Breve História do Tempo”, lançado em 1988, com mais de dez milhões de cópias vendidas em todo o mundo, transformou-o numa espécie curiosa de ícone cultural. Ele se perguntava, quantos dos roqueiros e das estrelas de cinema menores, que já mencionaram o livro em talk shows, realmente o leram. Posteriormente a esta obra, lançou outro grande best-seller “Uma Nova História do Tempo”, que de certa forma, trata-se de uma continuação da obra lançada em 1988. Tornou-se uma das vozes mais vorazes e ativas na luta por maiores investimentos em pesquisas com células-tronco embrionárias, fazendo duras críticas aos Estados Unidos e a União Européia, por tentarem proibir estas pesquisas. Hawking considera que elas poderão permi-

A essência do perdão Um dos soldados de Napoleão cometeu um crime e foi condenado a morte. Na véspera do fuzilamento, a mãe do soldado foi até a presença do grande general, implorar que a vida de seu filho fosse poupada. – Minha senhora, o que seu filho fez, não merece clemência.

tir o tratamento de males, atualmente, considerados incuráveis. As pesquisas são a chave para se chegar ao tratamento de doenças degenerativas e, de acordo com ele, impedir estes estudos, é como se opor ao uso de órgãos doados de pessoas mortas. Mesmo com a continuidade do quadro evolutivo de sua degeneração, graças as novas tecnologias, sua independência, principalmente, de comunicação, foi mantida. Iniciou-se então, um projeto audacioso, que substituiu seu computador, operado manualmente através de seus dedos e instalado em sua cadeira de rodas por um par de óculos que emite raios infravermelhos. Lamentavelmente, devido ao avanço da doença, seus dedos perderam totalmente a habilidade de digitar e a comunicação através do seu antigo teclado começou a tornar-se ineficiente. Seu novo dispositivo, utiliza raios infra-vermelhos e está acoplado na armação de seu óculos. Através da movimentação dos músculos da face, ele pode desviar a direção dos raios e, assim, controlar quais letras aparecerão na tela de seu computador. Este novo método, tornou sua comunicação mais rápida e eficiente, mesmo se comparada com a introdução do método anterior, no final da década de 80. Stephen Hawking, sempre soube aliar como poucos, seja em seus grandes obstáculos na luta pela vida, seja nas descobertas da física cosmológica, o espanto de uma criança à um intelecto genial. Um cérebro extraordinário, que além das enormes lições de vida com que nos brindou, explicou-nos as complexidades da física com uma clareza e simplicidade, até então, inimagináveis para um assunto tão complexo.

– Eu sei, disse a mãe. Se merecesse, não seria verdadeiramente um perdão. Perdoar é a capacidade de ir além da vingança ou da justiça. Ao ouvir estas palavras, Napoleão comutou a pena de morte em exílio.

“Aquele que não pode perdoar, destrói a ponte sobre a qual, ele mesmo deve passar”. - George Herbert

“Diz muito sobre a natureza humana que a única forma de vida criada por nós, o vírus de computador, seja puramente destrutiva. Criamos vida à nossa imagem”. Stephen Hawking 54


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Madre Teresa e seu amor incondicional aos pobres e as crianças.

MUNDO

Madre Teresa, o afago materno dos mais humildes “A maior de todas as doenças atuais, é o sentimento que a pessoa tem de ser indesejada, de estar abandonada e relegada ao esquecimento por todos. O maior de todos os males, é a falta de amor e a terrível indiferença para com o nosso semelhante.” Essa citação de Madre Teresa de Calcutá, mostra um pouco de sua nobreza de espírito e a enorme sensibilidade para os males que atormentam os mais pobres e desprotegidos.

www.franciscanos.org.br O SEFRAS - Serviço Franciscano de Solidariedade, promove ações e atitudes de solidariedade com os empobrecidos e marginalizados, contribuindo para o exercício da cidadania e inclusão social, no modo franciscano de viver.

Agnes foi educada numa escola estatal, durante os tristes anos da I Guerra Mundial. Tinha uma voz muito bonita e logo tornou-se solista do coro da igreja de sua aldeia. Todos perceberam seu gosto pelos ofícios religiosos, ingressando na Congregação Mariana, onde foi aperfeiçoando sua formação cristã e abrindo o coração às necessidades do mundo, ajudando os pobres em sua própria casa. Tinha uma particular impressão das cartas que os missionários da Índia escreviam e que eram comentadas em grupo. A miséria material e espiritual de tanta gente, tocava o seu coração. Aos 18 anos mudou-se para Rathfarnham, na República da Irlanda, onde ficava a Casa Mãe das Irmãs de Nossa Senhora de Loreto. No entanto, o seu sonho era a Índia e o trabalho missionário junto aos pobres. Sabedoras desta aspiração, suas superioras decidiram que ela fizesse o noviciado já no campo do apostolado. Por isso, ao fim de poucos meses de estadia na Irlanda, partiu

para a Índia. O ideal que brilhara pela primeira vez na sua vida aos doze anos, começava a concretizar-se. Foi enviada para Darjeeling, local onde as Irmãs de Loreto possuíam um colégio. Lá, fez a profissão religiosa, tomando o nome de Teresa, em homenagem a uma humilde carmelita de Lisieux, que ensinou aos homens do nosso tempo o caminho da infância espiritual. Passou a ensinar geografia no Colégio de Santa Maria, em Calcutá. Tornou-se diretora, porém, gostava de ensinar e as alunas estimavam-na porque era sempre dedicada e atenta a todos os problemas. Havia muito humanismo nas suas palavras e atitudes. Divulgação

A pequena Agnes Gonxha Bojaxhiu nasceu em Skoplje, na Albânia, em 26 de agosto de 1910. Skoplje vivia em constante conflito com a dominação turca. Seu pai Nicolau, lutava contra os conflitos étnicos, o que levou à sua morte em 1919, obrigando sua mãe,

Rosa, a assumir os gastos da família.

Embora cercada de meninas, filhas das melhores famílias de Calcutá, impressionava-se com o que via quando saia à rua: os bairros de lata com cheiros 55


Numa viagem de trem ao noviciado do Himalaia, recebeu uma claríssima iluminação interior: dedicar sua vida aos mais pobres dos pobres. Ela se referia aos pobres de Calcutá, que todas as noites morriam pelas ruas e na manhã seguinte, eram lançados para o carro da limpeza pública como se fossem lixo. Ela não conseguia habituar-se a esse terrível espetáculo de pessoas esqueléticas morrendo de fome ou pedindo esmolas pelas ruas. Sua simplicidade, fervor e persistência convenceram o arcebispo – mesmo contrário – de que estava perante de uma manifestação da vontade de Deus. Por isso, aconselhou-a a pedir autorização à Madre Superiora, que concordou com seu desejo. Deixou o colégio em 1948 e dirigiu-se para Patna, para fazer um breve curso de enfermagem, que julgava de imensa utilidade para a sua atividade futura. Neste mesmo ano, obteve a nacionalidade indiana e reunindo um grupo de cinco crianças, num bairro imundo, começou a dar aulas. Pouco a pouco, o grupo foi aumentando. Dez dias depois, eram cerca de cinqüenta crianças. Junto com o alfabeto, ela dava lições de higiene (iniciava lavando o rosto dos alunos) e de moral. Depois, ia de abrigo em abrigo levando, mais que donativos, palavras amigas e mãos sempre prestáveis para qualquer trabalho. Não foi preciso muito tempo para que todos a conhecessem. Quando passava, crianças famintas e sujas, deficientes, enfermos de todas as espécies gritavam, por ela com os olhos inundados de esperança e alegria. Mas, o início foi duro. Ela sentiu a angústia terrível da solidão e das enormes dificuldades materiais. www.pastoraldacrianca.org.br A Pastoral da Criança tem por objetivo o desenvolvimento integral das crianças, estando a serviço da vida, esperança, fé, amor, alegria e paz.

Um dia, dava voltas e mais voltas, à procura de uma casa, um teto para acolher os abandonados. Caminhou ininterruptamente, até que já não podia mais. Então, compreendeu até que ponto de esgotamento tem que chegar os verdadeiros pobres, em busca de um pouco de alimento, água, abrigo, remédio ou esperança. A lembrança da tranqüilidade material de que gozava no convento, lhe veio à mente, porém, jurou não voltar atrás. Sua comunidade eram os pobres. Aqueles de quem as pessoas já não querem aproximar-se com medo do contágio, porque estão cobertos de micróbios e vermes, que não vão rezar, porque não podem sair nus de casa, que já não comem, porque não têm força para comer, que se deixam cair pelas ruas, conscientes de que vão morrer e ao lado dos quais, os vivos passam, sem lhes prestar atenção, que já não choram, porque se lhes esgotaram as lágrimas. Em março de 1949, Shubashini Das, uma de suas antigas alunas, linda jovem, inteligente e filha de uma boa família procurou Madre Teresa, disposta a ficar com ela e a colocar sua vida a serviço dos pobres. Madre Teresa a aconselha a rezar e pensar melhor sobre essa decisão. A jovem volta para casa, pensa, reza e retorna para ser aceita na nova congregação que começava a surgir, escolhendo como nome para sua vida religiosa, o nome de batismo da sua antiga professora: Agnes. A esta, outras se seguiram, sem qualquer propaganda, atraídas apenas pelo testemunho daquelas que se chamariam, mais tarde, Missionárias da Caridade. Uma vida mais regular começou então para a pequena comunidade. Abriram escolas, enquanto continuavam as visitas aos bairros de lata. As vocações afluíam e a casa tornou-se muito pequena. O primeiro trabalho com os doentes e moribundos recolhidos na rua, era lavar-lhes o rosto e o corpo. A maior parte não conhecia sequer o sabão e a espuma metia-lhes medo. A intenção era que eles soubessem que haviam pessoas que os amavam verdadeiramen-

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nauseabundos, crianças, mulheres e velhos famélicos.

O semblante sempre sereno da “mãe dos pobres”.

te, e ali, eles encontravam sua dignidade, assim como a alegria, que as irmãs ofereciam em abundância. Em agosto de 1952, abriram o primeiro lar infantil Sishi Bavan (Casa da Esperança) e a congregação começa a expandir-se pela Índia (Ranchi, Nova Delhi e Bombaim) e por todo o mundo. Madre Teresa percorre como de costume, as ruas prestando ajuda aos mais necessitados, quando, de repente, para diante de um espetáculo horripilante: uma mulher agonizava no meio de escombros, roída pelos ratos e formigas. Madre Teresa aproximou-se e ouviu um queixume, em voz muito tênue dizendo, ter sido o próprio filho a lançá-la ali. Recolheu-a e levou-a ao hospital mais próximo. Quando viram aquele semicadáver, responderam que não poderiam aceitar aquela mulher. Com a insistência a aceitaram, porém, a mulher morreu pouco depois. De regresso a casa, pensou nos moribundos como aquela mulher, que todos os dias morrem pelas ruas de Calcutá sem ninguém lhes prestar assistência, criando assim a “Casa do Moribundo”, a qual dedicou, impecavelmente, suas melhores energias físicas e espirituais. Em 1965, fundou sua primeira casa na 56


O pacote de biscoitos Era uma vez, uma moça que estava à espera de seu vôo, na sala de embarque de um grande aeroporto. Como ela deveria esperar por algumas horas pelo seu vôo, resolveu comprar um livro para matar o tempo. Comprou, também, um pacote de biscoitos. Sentou-se numa poltrona, na sala VIP do aeroporto, para que pudesse descansar e ler em paz seu livro. Ao seu lado sentou-se um homem. Quando ela pegou o primeiro biscoito, o homem também pegou um. Ela se sentiu indignada, mas não disse nada. Apenas pensou: “Mas que cara de pau! Se eu estivesse mais disposta, lhe daria um soco no olho para que ele nunca mais esquecesse!" A cada biscoito que ela pegava, o homem também pegava um. Aquilo a deixava tão indignada que não conseguia nem reagir. Quando restava apenas um biscoito, ela pensou: “o que será que este abusado vai fazer agora?” Então o homem dividiu o último biscoito ao meio, deixando metade para ela. Ah! Aquilo era demais! Ela estava bufando de raiva! Então, ela pegou o seu livro e as suas coisas e se dirigiu ao local de embarque. Quando ela se sentou, confortavelmente, numa poltrona já no interior do avião, olhou dentro da bolsa para pegar uma bala, e, para sua surpresa, o pacote de biscoitos estava lá, ainda intacto, fechadinho. Ela sentiu tanta vergonha! Só então ela percebeu que a errada era ela, sempre tão distraída! Ela havia se esquecido que seus biscoitos estavam guardados, dentro da bolsa. O homem havia dividido os biscoitos dele sem se sentir indignado, nervoso ou revoltado, enquanto ela tinha ficado muito transtornada, pensando estar dividindo os dela com ele. Já não havia mais tempo para se explicar, nem para pedir desculpas... Quantas vezes, em nossa vida, nós é que estamos comendo os biscoitos dos outros e não temos a consciência disto? Há quem proceda de forma muito diferente da que nós gostaríamos. Isso tira a nossa calma e nos dá a impressão de que ninguém faz nada certo. Raciocine claramente. Antes de concluir, observe melhor! Talvez as coisas não sejam exatamente como você pensa! Não pense o que não sabe sobre as pessoas.

América Latina, na Venezuela e em 1967, outra no próprio coração da cristandade, em Roma. Em 1968, a congregação estende-se por outras regiões: Ceilão, Itália, Austrália, Bangladesh, Ilhas Maurício, Peru e Canadá e nos anos seguintes em Londres e Gaza, na Palestina, para atender aos refugiados. Seguem inaugurações, México, Guatemala, Alemanha Oriental, Rússia, Cuba, dentre outros. Mesmo jamais gostando de falar a respeito, recebe homenagens por todo o mundo, desde Skoplje, sua terra natal que a nomeia “Cidadã Ilustre”, a “Medalha Presidencial da Liberdade”, a mais alta condecoração do país mais poderoso da terra e o Prêmio Nobel da Paz, que recebe em outubro de 1979. Em 1983, sofre o primeiro grave ataque do coração e o médico lhe diz que tem coração para mais trinta anos, ela toma isso ao pé da letra e nem febre alta a faz descansar. Realiza um dos seus sonhos em 1989, abrindo uma casa na sua Albânia natal que, apesar de ser um dos países mais pobres, injustos e atrasados do planeta, orgulhava-se de ser o país mais ateu do mundo, o único em cuja constituição figurava paradoxalmente o ateísmo como “religião do Estado”. Em setembro de 1989, sofre um novo e mais forte, ataque do coração, recuperase e retoma ao trabalho, com mais vigor do que antes, apesar do marcapasso. No dia 05 de setembro de 1997, sofre sua última parada cardíaca. Uma fila de quilômetros formou-se durante dias a fio, diante da igreja de São Tomé, em Calcutá, onde seu corpo foi velado por mais de uma semana. O mesmo veículo que, em 1948, transportara o corpo de Mahatma Gandhi, foi utilizado para realizar o cortejo fúnebre da querida “Mãe dos Pobres”.

O que passou, passou, converse mais! Seja mais leve, não se preocupe... “Amor, se multiplica quando se divide”.

“Se você não puder alimentar cem pessoas, alimente pelo menos uma”. Madre Teresa de Calcutá

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Coragem

Martin Luther King, mártir na luta pelos direitos humanos e de igualdade racial.

MUNDO

Martin Luther King, uma vida em nome do amor Acima de tudo, Martin Luther King tinha um grande sonho que não tinha fim. O sonho de que um dia, seus filhos, viveriam num mundo onde não seriam julgados pela cor da sua pele, mas pela essência do seu caráter. Em 23 de agosto de 1963, à sombra do Memorial de Lincoln, em Washington, ele vinha cobrar uma promessa feita cem anos antes, pelo então presidente da república, Abraham Lincoln, de “uma nova nação, concebida em liberdade e dedicada à idéia de que todos os homens são iguais”. Na sua frente uma multidão de 250 mil pessoas formava a maior concentração, até então vista no país, a favor dos Direitos Civis. www.dialogoscontraoracismo.org.br O Diálogos Contra o Racismo, reúne mais de 40 instituições da sociedade civil, na luta pela igualdade racial no Brasil.

Os negros, dizia ele, receberam promessas de igualdade, mas a América ainda não as honrara. Pagaram com um cheque sem fundo. Em meio a uma estonteante prosperidade de um país riquíssimo, os afro-americanos viviam isolados em ilhas de miséria, em guetos urbanos, atormentados pela segregação e pela brutalidade policial. Mas, alertou, estavam fartos. O verão do descontentamento chegara. A América só teria paz, se os negros tivessem garantidos seus Direitos Civis. Quando fossem realmente integrados à sociedade mais pujante da terra. Voltando-se para a sua comunidade, alertou-lhes que de maneira nenhuma permitissem abrigar em seus corações ódio e amargura contra os brancos. “Não podemos marchar sozinhos!” Grande admirador de Mahatma Gandhi, ele encontrara no caminho da “não violência”, uma arma válida e poderosa em sua luta. Novamente, ele repetiu que tinha um

grande sonho, de que algum dia, mesmo em sua racista Geórgia, os filhos de escravos e o dos senhores de escravos se sentariam à mesa da fraternidade e até o Mississipi, viraria um oásis de irmandade. Que ninguém jamais seria julgado pela sua cor e sim pelo seu caráter. Que se ouviria, por toda a América, o clarim da liberdade. Todos então, independente da raça, sexo ou religião se dariam as mãos e, em júbilo, repetiriam; “Finalmente livres! Graças a Deus, finalmente estamos livres!” A grandiosidade de Martin Luther King, só pode ser entendida, ao conhecermos um pouco do inimigo contra qual ele lutava, usando apenas a retórica da “não violência”. A escravidão nos Estados Unidos foi extinta, em 1863, pelo presidente Abraham Lincoln, assassinado dois anos mais tarde. Porém, no mesmo ano de sua morte, em Lulanski, no Tennessee, é fundada a Ku Klux Klan, principal 58


Enquanto leis federais afirmavam que “os afro-americanos eram cidadãos plenos dos Estados Unidos” e proibiam que “os Estados lhes negassem proteção igualitária e um justo processo judicial”, cada Estado americano tinha suas próprias leis segregacionistas, com direitos e deveres, diferentes para negros e brancos, que também eram mais rigorosas no sul.

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Elas proibiam os negros de residir em determinados bairros, estudar na maioria das escolas, hospedar-se em hotéis reservados à brancos, utilizar elevadores sociais e comprar em certos estabelecimentos. Os obrigavam a utilizar salas de espera "só para negros" em terminais rodoviários, ferroviários e aeroportos. Eram servidos em lanchonetes no balcão, sem fazer uso de copos de vidro ou pratos de louça e só lhes permitiam que se sentassem em alguns bancos ao fundo dos coletivos, mesmo que houvessem lugares vazios no restante do ônibus. Era comum ver em bancos de praças, bebedouros, hospedarias, estabelecimentos comerciais e até em igrejas, cartazes com os dizeres “No black!” (Proibido para negros). Foi uma época de sonhos e pesadelos para os americanos. Uma história nascida no século XIX e que ganhou dramaticidade com o passar do tempo, até o começo

Martin Luther King durante seu famoso discurso “I have a dream” (Eu tenho um sonho).

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responsável por mais de cem anos de atentados terroristas, linchamentos e outras violências racistas. Apesar de clandestina, era uma organização que agia com total liberdade de forma pública e muitas vezes, com participação ou cobertura das próprias autoridades políticas e policiais locais, principalmente nos Estados do sul do país.

Fruto estranho, de Billie Holiday Billie Holiday, considerada por muitos, a primeira dama do jazz, gravou entre 1933 e 1944 mais de 200 canções, porém, nenhuma delas foi mais polêmica do que Strange Fruit. Escrita por Abel Meeropol em 1939, esta canção anti-linchamento e precursora dos direitos civis nos Estados Unidos, demonstra todo o horror vivido pelos afro-americanos, principalmente, nos Estados sulistas na primeira metade do século XX. “As árvores do sul carregam a fruta estranha, sangue nas folhas e na raiz, corpos pretos que balançam na brisa do sul, fruta estranha que pendura das árvores”. * * Trecho da música “Strange Fruit”

da reação, uma virada na história, com contornos ainda mais trágicos e definitivos nos anos 1960, quando sua luta virou a América pelo avesso. Martin Luther King Jr., filho primogênito de Martin Luther King e Alberta Williams nasceu no dia 15 de janeiro de 1929, em Atlanta, na Geórgia, Estados Unidos. Ele freqüentou escolas públicas onde havia segregação racial. Foi um aluno brilhante, se formou no colegial aos 15 anos de idade e concluiu a faculdade aos 19. Em 1951, formou-se em um Seminário Teológico. Quatro anos depois, obteve seu doutorado em Teologia pela Universidade de Boston, onde

www.afrobras.org.br A Afrobras é uma ONG que tem por objetivo trabalhar para o progresso, desenvolvimento social, cultural e educacional da comunidade de afrodescendentes brasileiros.

conheceu Coretta Scott, uma estudante de música com quem se casou em 1953. O casal teve quatro filhos. Em 1954, aceitou um emprego como pastor na Igreja Batista em Montgomery, no Estado do Alabama. Essa igreja era uma poderosa instituição negra e possuía um público politicamente consciente, que já se manifestava contra a discriminação. Após o envolvimento em 1956, no caso Rosa Parks, ele realiza durante vários anos, diversas manifestações pacíficas, e, em certos momentos, irônicas, como quando o então candidato a presidência John F. Kennedy, disse que acabaria com a discriminação nas moradias financiadas pelo governo federal “com uma penada”. Dois anos depois, já como presidente e sem ter resolvido o problema, começou a receber pelo Correio, milhares de canetas enviadas pela população negra. “Se era por falta de caneta...” Em 1963 organiza a “Marcha para Washington”, protesto que contou com a participação de mais de 200.000 pessoas, que se manifestaram em prol dos Direitos Civis de todos os cidadãos dos Estados Unidos. Foi nesta marcha, que ele fez o seu mais famoso discurso, “I have a dream” (Eu tenho um sonho). A marcha serviu como um último passo em direção à promulgação da Lei dos Direitos Civis de 1964, que proibiu a segregação racial em locais públicos, empresas e escolas. Você sabia? A música Pride (in the name of love), um dos maiores sucessos da banda irlandesa U2, é uma homenagem à Martin Luther King. Uma, dentre as centenas de músicas escritas em sua homenagem, desde a década de 50.

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Os postais que envergonharam uma grande nação

O exemplo de Rosa Parks

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As leis de segregação racial nos Estados Unidos, obrigavam passageiros negros a ocupar apenas os assentos no fundo dos ônibus e a conceder seus lugares à passageiros brancos, no caso do ônibus estar lotado. Mesmo cumprindo estas leis, eles eram, freqüentemente, humilhados e agredidos por racistas brancos. No dia 1 de dezembro de 1955, na cidade de Montgomery, no Estado do Alabama,

Ônibus em Montgomery, antes e depois do ato de coragem de Rosa Parks (sentada no ônibus, na foto a direita).

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Na primeira metade do século XX, principalmente nos Estados sulistas dos Estados Unidos, tão comum quanto cartões postais da “Estátua da Liberdade” ou das “Cataratas do Niágara”, eram postais com imagens da execução sumária de afro-americanos linchados, enforcados e queimados. Um homem negro corria o risco de ter esse fim em diversas situações do

Imagem de um postal, horror e vergonha.

cotidiano como, caso olhasse ou conversasse com uma mulher branca sem a prévia autorização. Rosa Parks, uma líder da Associação Nacional de Avanço do Povo Negro (NAACP), recebeu ordem de um motorista de ônibus para ceder seu assento à um passageiro branco. Por se recusar a seguir a ordem do motorista, Rosa Parks foi detida e levada à prisão. Martin Luther King, foi eleito presidente da Associação para o Avanço de Montgomery (MIA) para coordenar o boicote à lei de segregação no transporte público. Em fevereiro de 1956, dois meses após o incidente com Rosa Parks, um advogado da MIA entrou com um processo no Tribunal Federal contra a lei de segregação dos ônibus da cidade de Montgomery. O Tribunal decretou que a lei era inconstitucional, o governo de Montgomery apelou contra a decisão, mas sem sucesso. A primeira batalha pelos direitos civis nesta região, extremamente segregacionista, havia sido vencida.

Ao contrário de Martin Luther King, Malcom X, líder negro muçulmano, passa a pregar que violência se combate com violência. Porém, crescem as manifestações pacíficas organizadas pelos defensores dos Direitos Civis. Negros mostram o poder de compra, entrando em supermercados e enchendo o carrinho. Chegando ao caixa, perguntavam pelo funcionário negro do local. Como nunca havia, abandonavam tudo e iam embora. Em 1965, os protestos organizados continuaram e ele lidera uma nova marcha, que teve como conseqüência a aprovação da Lei dos Direitos de Voto, que abolia o uso de exames, que eram realizados na população negra com o intuito de dificultar a possibilidade destes votarem. Ele também passou a trabalhar para melhorar a situação econômica dos negros nos Estados Unidos e aos 35 anos, ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Seis dias após a premiação ele foi preso no Alabama ao participar de uma manifestação pacifista contra o racismo. Em junho Malcom X é assassinado e este fato desencadeia a retirada da expressão "nãoviolência" de comitês estudantis negros, substituindo-as, pela primeira vez, pelo termo Black Power. Em 4 de abril de 1968, Martin Luther King estava em Memphis, no Tennessee, para apoiar a greve de lixeiros, predomi-

O vendedor de balões Era uma vez, um homem que vendia balões numa quermesse. Evidentemente, o homem era um bom vendedor, pois deixou um balão vermelho soltar-se e elevar-se nos ares, atraindo, desse modo, uma multidão de jovens compradores de balões. Havia ali perto, um menino negro. Ele estava observando o vendedor e, é claro, apreciando os balões. Depois de ter soltado o balão vermelho, o homem soltou um azul, depois um amarelo e finalmente um branco. Todos foram subindo até sumirem de vista. O menino, de olhar atento, imaginava mil coisas, mas uma coisa o aborrecia muito, o homem não soltava o balão preto. Então aproximou-se do vendedor e lhe perguntou: - Moço, se o senhor soltasse o balão preto, ele subiria como os outros? O vendedor sorriu para o menino, arrebentou a linha que prendia o balão preto e enquanto ele se elevava nos ares disse: Não é a cor filho, é o que está dentro dele que o faz subir. “Quem aceita o mal sem protestar, coopera realmente com ele”. - Martin Luther King

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Uma lenda chamada Jesse Owens Em 12 de setembro de 1913, nascia em Oakville, no segregacionista Estado do Alabama, EUA, um pequenino garoto negro chamado James Cleveland “Jesse” Owens. Ninguém – nem o mais otimista dos homens – poderia supor que naquele momento, não nascia apenas mais uma possível vítima da terrível segregação racial que atormentava – e iria atormentar por décadas vindouras – o sul dos EUA e sim, um homem que se tornaria sinônimo de superação e exemplo maior, de que não nos diferenciamos pela cor de nossa pele, mas, pela nossa capacidade, pelo que carregamos em nossa mente e dentro de nossos corações.

Porém, ao invés das três medalhas de ouro, ganhou quatro, um fato inacreditável, ainda mais, se tratando de quatro provas clássicas (100 e 200 metros rasos, salto em distância e revezamento 4 x 100 metros).

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Mesmo vivendo em um ambiente turbulento e alvo constante da segregação racial, que crescia num ritmo terrivelmente vertiginoso na primeira metade do século XX nos EUA, Owens chegou confiante na Olimpíada de Berlim em 1936. Sempre dizia, sem querer ser presunçoso, que acreditava que ganharia três medalhas de ouro naquela Olimpíada. Motivos para tal confiança não lhe faltavam. Jesse tornou-se um excepcional atleta, especialista em provas curtas (100 e 200 metros rasos) e salto em distância. Um ano antes da Olimpíada de 1936, já havia estabelecido quatro recordes mundiais (100 metros, 220 jardas, 220 jardas com barreira e salto em distância).

Jesse Owens treinando pela Universidade de Ohio, em 1933.

Diz a lenda, que Adolf Hitler, o ditador nazista – em plena ascensão com seu infernal “Terceiro Reich” – adepto da supremacia e pureza da raça ariana, recusou-se a entregar as medalhas à Jesse Owens e retirou-se do estádio após uma de suas incontestáveis vitórias. Mesmo assim, com seu feito extraordinário e exemplo de superação, ao voltar aos EUA ele passou por grandes dificuldades, a ponto de que para sobreviver aceitou desafios absurdos, como correr contra cavalos, cachorros e motocicletas. Certa vez desabafou dizendo, que apesar de seu feito, não podia fazer publicidade de alcance nacional, porque não seria aceito na região sul de seu país e que mais doloroso do que Hitler não ter lhe cumprimentado, foi não ter sido convidado para ir à Casa Branca, receber os cumprimentos do presidente dos EUA, que ele defendeu e amou por toda a sua vida. Posteriormente, já na década de 50, ele finalmente conseguiu estabilidade financeira ao abrir uma firma de relações públicas, onde dava conferências pelos EUA, principalmente, nos Estados não segregacionistas e, com uma vida financeira mais tranqüila, passou a patrocinar e participar de vários programas esportivos para jovens.

Quatro anos depois, em 31 de março de 1980, em Tucson, Arizona, Jesse Ownens faleceu, aos 66 anos, vítima de câncer, porém, o seu exemplo de que a nobreza do espírito humano sempre triunfará frente a ditadores populistas e adeptos de segregações étnicas, raciais e religiosas, jamais deverá ser esquecido.

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O reconhecimento tardio de seu país, veio apenas em 1976, quando recebeu do presidente Gerald Ford a Medalha da Liberdade, a maior condecoração que um civil pode receber nos EUA.

Jesse Owens na cerimônia de premiação do salto em distância, na Olimpíada de Berlim, em 1936. Owens ganhou nesta prova uma de suas quatro medalhas de ouro no evento. Ao seu lado esquerdo o japonês Naoto Tajima, terceiro colocado na prova e do lado direito, o segundo colocado, o “ariano” Carl Ludwig Lutz, fazendo a saudação nazista.

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Trechos adaptados do discurso “I have a dream”!, realizado em Washington D.C., EUA, em 28/08/1963, por Martin Luther King.

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nantemente negros. Criticado por hospedar-se no elegante hotel Holiday Inn,

mudou-se imediatamente para o Lorraine Hotel, no bairro negro da cidade. Foi assassinado, neste hotel, por um franco atirador chamado James Earl Ray, fugitivo branco, que admitiu a autoria do crime. Sua morte fez explodir distúrbios de ponta a ponta do país. Seu sonho foi relembrado e festejado oficialmente, nas Olimpíadas de Atlanta, sua terra natal, em 1996. Ali, seus herdeiros ideológicos, viram negros e brancos de mãos dadas conquistando vitórias neste novo tempo de globalização e o mundo inteiro pôde assistir, ao vivo e a cores, à confirmação de uma de suas principais pregações: "Estou convencido de que a arma mais poderosa do povo oprimido na luta pela liberdade e justiça, é a arma da não-violência".

Martin Luther King Memorial, em Atlanta, EUA. Em sua lápide os dizeres “Livre finalmente, livre finalmente, obrigado Deus Onipotente, eu estou livre finalmente”.

Martin Luther King foi morto, mas suas palavras, seus ideais, sua luta, seu sacrifício e principalmente, seu sonho de um mundo melhor, mais justo e igualitário,

serve de exemplo para milhões de pessoas em todo o mundo. Passadas algumas décadas de seu covarde assassinato, todos nós devemos, de alguma forma, lutar pela igualdade, não só racial, como completa, de todos os seres humanos. Temos a obrigação de passar adiante os ensinamentos, sonhos e o legado deixado por este ser humano tão especial, para que eles jamais tenham fim. Lições, como a intrínseca em uma de suas célebres frases, uma dentre inúmeras outras, na qual dizia, “nossa geração não lamenta tanto os crimes dos perversos, quanto o estarrecedor silêncio dos bondosos”.

“Aprendemos a voar como pássaros, a nadar como peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos”. Martin Luther King

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Humanidade

BRASIL

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Baseado na história “Uma pequena história do sítio”, extraída da revista Chico Bento. (edição nº 405, de julho de 2002) Agradecemos o carinho, compreensão e generosidade habituais de todos os funcionários da Mauricio de Sousa Produções.

“Todas as coisas da criação, são filhos do Pai e irmãos do homem. Deus quer que ajudemos aos animais, se necessitam de ajuda. Todas as criaturas em desgraça têm o mesmo direito a serem protegidas”. São Francisco de Assis

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PROCURAM-SE SERES HUMANOS... ... que não percam a VONTADE DE VIVER, mesmo sabendo que a vida é, em muitos momentos, dolorosa, ... que não percam a LUZ e o BRILHO NO OLHAR, mesmo sabendo que fatos escurecerão seus olhos, ... que não percam a GARRA, mesmo sabendo que a derrota e a perda são adversários perigosos, ... que não percam o OTIMISMO, mesmo sabendo que o futuro que os esperam não é tão alegre, ... que não percam a vontade de SEREM GRANDES, mesmo sabendo que o mundo é pequeno, ... que não percam o EQUILÍBRIO, mesmo sabendo que inúmeras forças querem que caiam, ... e acima de tudo, que acreditem que Deus, independente de nossa vertente religiosa, não se revela pelo que possuímos ou somos socialmente e sim pela alegria, amor e bondade que carregamos dentro de nós, mostrando-nos que a vida é construída nos sonhos e concretizada no amor.

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onde houver dúvida, que eu leve a fé;

Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz!

onde houver trevas, que eu leve a luz! onde houver erro, que eu leve a verdade;

Onde houver ódio, que eu leve o amor;

Fazei que eu procure mais consolar, que ser consolado; onde houver desespero, que eu leve a esperança;

compreender, que ser compreendido;

onde houver ofensa, que eu leve o perdão; onde houver tristeza, que eu leve a alegria;

onde houver discórdia, que eu leve a união;

amar, que ser amado.

Pois é dando que se recebe, perdoando é que se é perdoado e é morrendo que se vive para a vida eterna!

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Revista “Meu sonho não tem fim”