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Thomas E. Sniegoski

The Fallen A série The Fallen foi lançada em 2003–2004, com 4 volumes. Sendo que em 2010 foram republicadas com apenas 2 volumes. O primeiro volume contem os dois primeiros livros – The Fallen e Leviathan. E o segundo volume contém o terceiro e ultimo volume – Aerie e Reckoning. Então aqui se encontram os dois primeiros livros...

Sinopse

É véspera de seu aniversário de dezoito anos e Aaron está experimentando sonhos de natureza perturbadora. No sonho tudo é escuro, violento e caótico. Aaron é um guerreiro de armadura no meio de um conflito sangrento. Ele pode ouvir os sons de armas, os gritos de pessoas aflitas, o patético gemido dos moribundos, e outro som que não consegue discernir. Mas quando ele olha para cima, de repente entende, vendo centenas de guerreiros com armaduras descer no campo de batalha do céu.

É o som de asas batendo no ar impiedosamente. O bater de asas de anjos.


LEBALON, TENESSE, 1995

A noite do Tenesse gritava.

Eric Powel correu através da grama atrás da casa de seus avós. Ele caiu no barranco inclinado para o bosque fechado do pântano, com as mãos pressionando seus ouvidos firmemente.

– Não estou escutando – disse entre dentes, a beira de lágrimas – Por favor! Chega, cala boca.

Os barulhos eram ensurdecedores, e não queria nada mais do que correr e escapar deles. Para aonde? As vozes vinham de todas as partes.

Eric correu mais e mais para dentro do bosque. Correu ao ponto de sentir seus pulmões como se estivessem pegando fogo, e as batidas de seu coração eram quase fortes o suficiente para afogar as advertências sinistras da escuridão a seu redor.

Quase.


Debaixo de um salgueiro chorão1 que havia sido seu lugar favorito para escapar do stress da vida adolescente, se deteve para recuperar o fôlego. Cautelosamente moveu as mãos longe das orelhas e foi bombardeado de mensagens sem sentido da noite.

– Perigo – advertiu uma criança, com um alto ruído agudo nas sombras por um pequeno córrego que circulava através da madeira escura. – Perigo. Perigo. Perigo.

– Vieram – falou outra. – Eles vieram.

– Esconda–se! – Gritou algo dentro dos galhos em forma de pingente do salgueiro antes de tomar o vôo do medo. – Antes que seja tarde. – Disse já voando.

Tinham outros por ai na noite, milhares de pessoas falando línguas diferentes, e advertindo sobre a mesma coisa. Algo o cercava; algo mau.

Eric escorou–se contra a árvore tentando se concentrar, e sua mente recordou quando começou a escutar as advertências. Foi em 25 de junho, estava seguro. A memória estava vivamente fresca, isso foi há dois meses e não era fácil esquecer seu décimo oitavo aniversário, o dia em começou a perder sua cabeça.

Antes disso, olhou o mundo como qualquer outro. O coaxar dos sapos no córrego, o som furioso das abelhas pegas pelas armadilhas postas na janela. Sons comuns, cotidianos na natureza, ignorados por muitos.

Mas em seu aniversário havia mudado.

Eric já não ouvia os sons dos pássaros e o triste lamento de um gato na noite. Ouve vozes, as vozes que alteravam a glória de um dia típico de verão charmoso, as vozes que falam de alegria e tristeza, fome e medo. A princípio tratou de bloqueá–las, para poder escutar como 11

Uma árvore. http://www.rakelpossi.com/archivos/image/salgueiro_chorao.jpg


era na realidade, só os sons de animais. Mas quando começaram a falar diretamente com ele, Eric se deu conta o quão difícil era, realmente estava enlouquecendo.

Um enxame de vaga-lumes o distraiu de seus pensamentos, seus corpos luminosos abriram e iluminavam o negro absoluto bosque nessa noite. Elas giraram para baixo como uma mensagem, as luzes transmitiam uma mensagem de grande importância.

– Corre – foi à mensagem que cintilava na luz verde. – Corre, sua vida está em perigo!

E isso foi exatamente o que fez.

Eric se afastou do salgueiro e dirigiu–se correndo para o barranco. Ele o cruzaria e se dirigiria mais adentro do bosque, tão longe que ninguém o encontraria. Depois de tudo havia crescido aqui e duvidava que alguém conhecesse todo o bosque melhor do que ele.

Mas então a pergunta veio, a mesma pergunta que a parte racional de sua mente havia perguntado desde que começaram as advertências.

Do que eu tenho medo?

A pergunta se repetiu uma e outra vez em sua cabeça enquanto corria, mas ele não sabia a resposta.

Eric pulou do barranco. Aterrissou no outro lado com falta de jeito, um pé deslizou por alguma das rochas cobertas de musgo e na água fria.

Ficou sem respiração quando a água invadiu seu sapato, e ele logo o tirou do frio. O toque de o gelo estimulou a mover–se mais rápido. Rastejou sob os galhos que caíram ao longo da margem do rio, e entrou mais a fundo no bosque.


Mas, do que eu estou fugindo? Perguntou uma voz racional, não as vozes do bosque ao seu redor, mas sim a de sua própria mente. Sua própria voz, uma voz tranqüila, que pretendia anular o sentimento de pânico. Esta voz que queria parar e confrontar seus temores, para ver o que realmente era. Não há perigo, disse a voz sensata. Não há nada que te persegue; que te observa.

Eric diminuiu seu ritmo.

– Continue correndo – falou algo que deslizou de baixo de um tronco caído, suas escamas brilhantes refletiam a luz das estrelas.

E quase escutou a voz dos pequenos, um pouquinho. Mas Eric sacudiu a cabeça e começou a caminhar. Outros o chamaram desde as arvores, desde o ar acima de sua cabeça, desde o barro debaixo de seus pés, falando para fugir, para correr como um louco, que era exatamente o que decidiu que era.

E nesse momento, Eric tomou uma decisão. Ele não iria mais escutá-las. Ele não iria correr de uma ameaça invisível. Ele daria a volta e voltaria para casa de seus avós, os acordaria e explicaria tudo o que estava acontecendo. Ele diria que necessitava de ajuda, que necessitava ir a um hospital rápido.

Sua mente se estabilizou, Eric se deteve e aguardou o céu da manhã. As nuvens cinzentas recordavam a lã, e se colocaram a frente lentamente da lua radiante. Não queria lamentar para seus avós. Eles haviam passado por muitas coisas. Sua mãe, um filha grávida e solteira, morreu ao dar a luz. O criaram como se fosse seu próprio filho, dando todo o amor e apoio que jamais tinha esperado. E como ia pagar a eles? Dando mais tristeza.

Lágrimas arderam e inundaram seus olhos, imaginava como seria se regressasse para casa e despertasse o casal de idosos de seus sonhos. Podia ver os olhares tristes de desilusão enquanto ele explicava que ouvia vozes, que tinha dezenove anos e enlouqueceu.

E como se estivessem de acordo, as vozes da noite chegariam de novo: tagarelando, advertindo, temerosas.


– Corre, corre – disseram as vozes, – Corre por tua vida, porque eles estão chegando!

Eric olhou ao seu redor, o barulho era ensurdecedor. Quando o combate com sua loucura começou, as vozes não tinham esse volume, estavam frenéticas. Talvez suspeitassem que fosse recuperar seus sentidos. Talvez soubessem que seu tempo com ele ia acabar.

– Eles estão aqui! Foge! Esconda-se! Não é tarde demais! Corre!

Deu a volta, com os punhos cerrados pela raiva.

– Não mais! – Gritou para as arvores, – Eu não vou te escutar nunca mais! – Adicionou o ar por cima de sua cabeça e a terra por debaixo de seus pés. – Me entende? – Perguntou a escuridão que rodeava o bosque.

Eric se virou em um circulo lento, sua loucura toda havia gritado com seus sussurros clamorosos. Ele não agüentou mais.

– CALA BOCA, – ele gritou com todo o ar de seus pulmões. – CALA BOCA! CALA BOCA! CALA BOCA!

E tudo ficou novamente tranqüilo.

Tão insuportável como as vozes que havia escutado, a falta delas foi igualmente ruim. E não havia nada: não havia zunido de insetos, nem grito de pássaros noturnos. Nem mesmo as folhas sussurraram ao vento. O silêncio era ensurdecedor.

– Bom, está bem então – disse, falando alto para se assegurar de que não havia ficado surdo. Foi difícil pelo abrupto silêncio, e deu a volta para sair da pequena clareira da mesma forma que tinha entrado.


Eric se deteve. Uma figura sólida deteve seu caminho.

É um truque das sombras? O boque, a escuridão e a luz da lua conspirarão para parecer mais louco do que era? Eric fechou os olhos e abriu de novo tentando concentrar–se na figura esquisita. Todavia parecia que bloqueava seu caminho.

– Olá? – Se moveu cuidadosamente mais perto da figura escura. – Quem está aí? – Eric não conseguia distinguir os detalhes do estrangeiro.

A figura se aproximou dele, era um misto feito de escuridão, como as sombras ondulantes se apegavam a figura, formavam parte de sua maquiagem. A imagem cômica de Pig Pen2 das caricaturas de Charlie Brawn, rodeava como uma nuvem de poeira escura e sujeira, rapidamente vista pela imaginação de Eric. De um modo perverso feito a descrição, esta era muito mais inquietante.

Eric rapidamente deu um passo para trás.

– Quem é você? – Perguntou sua voz alta demais por causa do medo. Sempre odiara como sua voz soava quando tinha medo. – Não chegue mais perto – advertiu, fazendo um esforço consciente para que sua voz saísse como ameaça.

A figura oculta no escuro parou. Inclusive estava muito longe da claridade, Eric não podia distinguir nada. Estava começando a perguntar–se se a sua mente tinha começado a jogar com ele, se esta sombra era nada mais que uma criação de sua loucura.

– Você...? Você é real? – Eric perguntou.

Era como se houvesse gritado a pergunta, o bosque estava muito silencioso.

2

Personagem do Snoop.


A escuridão em forma de homem não se moveu e Eric convenceu–se de sua irrealidade. Ainda assim, outro sintoma de sua loucura, pensou com um movimento de desgosto de sua cabeça. Não podia apenas escutar vozes, se auto criticou, oh não, agora tenho também que ver coisas.

– Adivinharei a resposta a essa pergunta, – disse Eric em voz alta enquanto finalmente olhava o produto de sua demência. – O que passa aqui? – Perguntou. – Me dá um sinal ou algo? Quando eu compreender que você não é mais que uma merda louca que minha mente formou, suponho que desaparecerá. – Falou para a figura distante. – Vai. Sei que estou louco, não é necessário prova-lo.

A figura não se moveu, mas as sombras que o rodeavam se desfizeram. A escuridão parecia abrir-se. Como as pétalas de uma flor que se abre a noite, o negro ébano se abriu para revelar um homem dentro.

Eric estudou o homem, buscando em sua memória algum detalhe de reconhecimento, mas estava de mãos vazias. Ele era alto, 1,82 de altura e esguio, vestido com uma camiseta preta e calças combinando. E a pensar na alta temperatura e a umidade do bosque, se deu conta que o homem estava vestindo um casaco cinza.

O homem parecia estar estudando-o também, inclinando a cabeça de um lado pra outro. Sua pele era muito pálida, quase branca. Seu cabelo, que era comprido e severamente preso para traz, era praticamente da mesma cor. Eric tinha ido a escola primária com uma menina que se parecia com ele, seu nome era Cheryl Baggley e ela era também era albina.

– Sei que isto vai soar louco – Eric disse ao homem, – mas... – se atrapalhou ao tentar formular a forma mais sã de perguntar – você é real... de verdade?”

O homem não respondeu de imediato. Como bom forasteiro misterioso refletiu a pergunta, Eric notou seus olhos. A sombra oleosa, que tinham antes parecia haver se agrupado nas pupilas de seus olhos. Nunca tinha visto uns olhos tão profundos e negros como estes.

– Sim – disse o homem pálido secamente, sua voz soou como um gruído de um corvo.


Surpreendido, Eric não entendia o significado da resposta repentina do homem e o olhou confuso. – Sim? Eu não... – moveu-se a cabeça com nervosismo.

– Sim – respondeu o homem de novo. – Eu sou real – disse, enfatizando cada palavra ao dizê–las.

Sua voz era estranha, Eric pensou, como se não se sentisse a vontade falando essa língua.

– Oh... Bom, é muito bom saber. Quem é você? Mandaram-te me buscar? – Perguntou. – Meus avós chamaram a polícia? Eu sinto muito de verdade que tenha tido que vir até aqui. Como pode ver, estou bem. Só estou tratando de algumas coisas e... bom, só preciso voltar para casa e ter uma longa conversa com...

O homem levantou uma rígida mão pálida. – O som de vocês, me ofende – disse, com um sorriso largo nos lábios. – Abominação, eu te mando ficar em silêncio.

Eric sentiu-se como se o tivessem espancado. – Disse... Você acaba de me chamar de abominação? – Perguntou confuso e com medo de elevar o tom de sua voz.

Há poucas palavras nessa língua que o definem melhor – grunhiu o estrangeiro. – Vocês são uma praga em seu mundo, um horror aos olhos de Deus, mas você não a desafia. – Voltou a mão estendida para silenciar o garoto com a palma da mão para cima. Algo tinha começado a brilhar em seu cenho pálido. – No entanto, isso não muda a realidade de que deve ser parado.

Eric sentiu todo seu corpo tremer e sua pele arrepiar. Não precisava das vozes do bosque para advertir de que algo estava mal, ele podia sentir no ar.

Voltou a correr, e lançar-se através do mato grosso. Teria que fugir. Cada parte do seu ser gritou perigo, permitiu que sentisse o instinto de sobrevivência tomasse conta dele.


Quatro figuras fecharam o passo de repente, cada um vestido como o estrangeiro, cada um com uma pele pálida como a face da lua completa. Como isto era possível? Sua mente acelerou. Como quatro pessoas se aproximaram dele sem fazer ruído?

Algo choramingou aos pés dos recém chegados, e viu um menino abaixado ali. Estava sujo, nu, com o cabelo grande, e descuidado, o muco gotejava das narinas e agarrou-se a sua boca suja. A expressão do menino disse a Eric que tinha algo mal com ele, que foi tocado de alguma maneira. E então se deu conta do colar de couro envolta do pescoçoo do menino, e a corrente que levava a mão de um dos estrangeiros, e Eric sabia que algo estava muito ruim.

O menino tentou tirar a corrente, apontando o dedo sujo, gemendo e grunhindo como um animal.

Os estrangeiros fixaram seus olhares em Eric com os olhos parecendo sombra sólida e começaram a cerca-lo, o que eliminou qualquer possibilidade de escapar. O menino selvagem continuou gritando.

Eric deu meia volta para ver que outra figura havia chegado. Sua mão seguia estendida para ele, só que agora estava em chamas.

Sua mente tentava processar esse evento. Tinha fogo na palma da mão do homem, e o mais inquietante era que não parecia incomodar em nada.

Eric sentiu que suas pernas começaram a tremer, o amarelo e vermelho da chama cresceu, saltando no ar com fome. O estrangeiro caminhou com passo firme para ele. Eric queria sair correndo, atacar e escapar daqueles que o haviam encurralado, mas algo lhe disse que seria em vão.

O medo se apoderou dele e caiu de joelhos, sentindo a umidade, o frio começou a passar através de suas calças. Não tinha nenhuma razão pra correr, o menino selvagem caiu para trás e sabia que quatro desconhecidos tinham ficado frente a ele. Manteve seu olhar no homem que estava de pé diante dele, sustentando o fogo na palma de sua mão.


– Quem é você? – Perguntou inevitavelmente, hipnotizado pela chama milagrosa, que parecia estar tomando forma de algo totalmente distinto.

O desconhecido o olhava com os olhos negros e brilhantes, sua expressão livre de qualquer emoção. Eric podia ver-se refletindo dele.

– Por que tudo isso? – Perguntou pateticamente.

O estranho inclinou a cabeça de forma estranha, Eric podia sentir o calor da chama em seu rosto enquanto olhava para cima.

– O que foi que o apostolo Mateus escreveu sobre nós em um de seus estúpidos livros? – O homem perguntou para nada em particular. – O filho do homem enviará para frente, e recolherá de seu reino todos os que ofendem, e aqueles que fazem o mal, e os lançará ao fogo, ou algo do tipo – e terminou com um sorriso horrível.

Eric nunca havia visto nada mais horrível. Era como se o rosto do estranho não tivesse a musculatura adequada para complementar a mais comum das expressões humanas.

– Não entendo – disse com um sussurro.

O homem moveu a chama de uma mão para outra, e Eric a seguiu com os olhos. O fogo tinha se convertido em uma espada.

Uma espada de fogo.

– É melhor não fazê-lo – disse o homem, levantando a espada de fogo sobre sua cabeça.


O menino via a arma de fogo descer, com o rosto voltado para cima como buscando os raios do sol nascendo. E ent達o tudo o que era, tudo o que poderia ser, se consumia em fogo.


Aaron Corbet teve um sonho novo.

Contudo, foi muito mais que isso.

Desde que começaram, a mais de três meses, as visões do sonho haviam voltado, mais e mais intenso, mais vivo. Quase real.

Ele está caminhando por uma primitiva cidade, um lugar antigo, construído com tijolos marrons, barro e palha. As pessoas na cidade estão assustadas, algo está atacando as casas. Correm freneticamente, os gritos tornando-se um eco de espanto que se escutam por toda a noite. Barulho de violência vem pelo ar, o barulho das espadas se chocando em batalha, o lamento dos feridos e algo mais que não podia identificar; um barulho estranho; mas próximo.

Outras noites não tinham parado para analisar os cidadãos assustados, para captar sua atenção, para perguntar o que aconteceu, mas não podiam ver ou ouvi-lo. Ele era um fantasma na confusão.

Homens e mulheres protegiam as crianças pequenas entre eles, corriam ruas cobertas de areia buscando desesperadamente abrigo. De novo escutou suas vozes cheias de medo. Ele não entendia sua língua, mas o significado era bastante claro. Suas vidas e de seus filhos estavam em perigo.


Eram muitas noites em que via este lugar e este triste povo, foi testemunha de sua angustia. Mas nem uma vez viu a fonte se seu medo.

Moveu-se através das ruas escuras do lugar do sonho, sentiu a areia do deserto grudando embaixo de seus pés descalços. A cada noite esta cidade tem estado de volta mais real para ele, e essa noite sentia o medo, como se fosse dele próprio. E de novo perguntou a si mesmo, medo do que? Quem são aqueles que podem produzir tanto medo nas pessoas? Em um beco havia um menino vestido com trapos, um pouco mais baixo que ele, estava escondido debaixo de uma lona estendida que cobria uma barraca de frutas, parecida com abóboras. Ele olhou fixamente para o menino, enquanto caminhava por todo o beco abandonado, andando sobre as sombras. O menino olhou para o céu nervoso durante a execução.

Era curioso que o menino estivesse preocupado com o céu.

O menino se deteve em um canto do beco, e se abaixou em uma piscina escura como a noite. Aguardo com expectativa através do terreno aberto em outra área escura, no outro lado.

Havia medo impactado no rosto jovem de pele morena do menino, seus olhos estavam arregalados. Porque ele tem tanto medo? Aaron olhou a cima de si mesmo e só viu a noite estrelada, como veludo, adornada de brilhantes joias. Não há nada a temer, unicamente admirava sua beleza.

O menino saiu de seu esconderijo e correu pela rua aberta. Estava na metade do caminho quando o vento começou a soprar. Repetidas rajadas de ar que surgem do nada; atirando areia, sujeira e poeira.

O menino cobriu o rosto com os braços formando um escudo detendo a sujeira no ar. Ele estava cego, inseguro de que direção seguir. Aaron queria chama-lo, ajudar o menino a escapar da misteriosa confusão de areia, mas sabia que seus esforços seriam inúteis, ele era só um observador.

E ali estava o barulho. Não pôde identificar exatamente, mas era familiar. Havia algo no céu, algo que jogava com o ar, agitava os ventos, criando repetidas rajadas de ar.


O menino estava gritando. Seu suor molhava seu corpo, como uma sujeira branca tão fina como a areia branca do deserto.

Os barulhos ficavam mais fortes, agora estavam mais perto.

O que é isso? A resposta estava justamente fora de seu conhecimento. Voltou a olhar para o céu. A areia circulava sacudida pelo vento, irritando o rosto e os olhos, mas podia ver, ele queria saber o que era o barulho estranho, que criava rajadas de ar o suficiente para impulsionar areia e rochas. Ele queria saber a fonte de tanto terror que desesperava estas pessoas.

E pelas nuvens do deserto ele os viu. Pela primeira vez.

Estavam vestidos com armaduras. Armaduras de ouro que brilhavam com a luz dançante de suas armas.

O menino correu para ele. Parecia que Aaron era visível. O menino chega, pedindo na língua de seu povo que se esconda.

Esta vez ele entendeu cada palavra. Tratou de responder, mas gritos ensurdecedores chegaram na noite, os gritos excitados dos predadores que descobriram sua presa.

O menino começou a correr, agora mais desesperado.

Aaron não pôde fazer nada, mas ver as criaturas que pareciam pássaros descendo do céu, caindo sobre o menino, seus gritos de desespero e terror, abafados pelo bater de asas poderosas.

Asas de anjos.


LYNN, MASSACHUSETS

Ele escutou o poderoso latido de Gabriel ao redor se sua cama, acordando Aaron de seu sonho, trazendo–o de novo para o mundo real.

Os olhos de Aaron se abriram de supetão sentindo outra explosão de umidade no rosto. Por um momento o sonho tinha voltado, mas o único que o preocupava era prestar atenção ao Labrador Retriever de oitenta quilos chamado Gabriel.

– Unnnngh – se queixou a tempo de mover seu braço do calor da baba que salpicava seu rosto, limpando-o.

– Obrigado, Gabe – disse com a voz rouca. – Que horas são? Hora de levantar? – perguntou a ele.

O cachorro inclinou sua cabeça para lamber a palma da mão, seu corpo bloqueava a visão de Aaron do relógio.

– Está bem, está bem – disse Aaron colocando a outra mão nas orelhas para fazer carrinho no cachorro, e se levantou para olhar o relógio.

Desejando mais atenção, Gabriel rolou de costas e colocou suas patas sobre Aaron. Ele sorriu e esfregou o pêlo do cão antes de olhar o relógio sobre a mesinha de cabeceira ao lado da cama.

Aaron viu a luz do relógio digital 7:29am.


– Merda – disse entre dentes.

Sentindo o espanto de seu dono, Gabriel rolou em suas costas e estômago fazendo barulho.

Aaron teve problemas de sair de sua cama, por causa do frenesi de ter acordado tarde.

– Merda, merda, merda, merda... – repetiu muitas vezes enquanto tirava a camiseta do Dave Mathews e a jogava sobre um monte de roupa suja em um canto do quarto. Ele tirou a calça de moletom e a jogou a chutes no mesmo lugar. Chegaria tarde. Muito tarde.

Havia estudado a noite para um exame de história com o Sr. Arslanian, e sua cabeça estava tão cheia de pequenos detalhes sobre a Guerra Civil que não devia ter ouvido o despertador tocando. Teria menos de meia-hora para chegar à escola High School Kenneth Curtis antes do primeiro sinal.

Aaron encostou=se sobre sua cômoda e tirou do interior uma cueca limpa da segunda gaveta. Pelo espelho, podia ver Gabriel com um olhar de curiosidade em cima da cama.

– O melhor amigo do homem, minha bunda – ele disse ao cão em seu caminho para o banheiro – como você me deixa dormir tanto?

Gabriel chega ao seu lado, entre as cobertas jogadas no chão e suspira profundamente.

Aaron tomou banho, escovou os dentes e vestiu-se em pouco mais de dezessete minutos.

Podia ser capaz de atirar-se muitos degraus, escada abaixo, carregando sua mochila no ombro. Se ele conseguir pegar o carro nesse exato momento e conseguir pegar todas as sinaleiras com o sinal verde, provavelmente chegaria antes do último sinal no estacionamento.


Estaria certo, mas era a última opção que tinha.

No corredor, pegou sua jaqueta sobre o raque e estava a ponto de abrir a porta quando sentiu os olhos de Gabriel sobre ele.

O cão estava atrás dele, olhando intensamente, a cabeça inclinada em um ângulo que parecia dizer: será que não está esquecendo nada?

Aaron suspirou. O cão necessitava ser alimentado e levado para fora para que fizesse suas necessidades. Normalmente havia tempo mais do que o suficiente para ver o que seu cão fazia, mas hoje isso era outra história.

– Não posso Gabe – disse muito depressa girando o corpo para a porta – Lori vai te dar a ração e te levará para fora.

E logo isso o golpeou. Tinha tanta pressa para sair de casa que não havia notado a ausência de sua mãe adotiva.

– Lori? – Chamou enquanto esperava na porta e rapidamente se dirigiu a cozinha. Gabriel seguiu em seus calcanhares.

Isto é estranho, pensou. Lori era geralmente a primeira a levantar na casa dos Stanley. Levantava–se em torno das 5 da manhã, fazia o café para seu marido Tom, para que pudesse ir trabalhar na fabrica General Eletric, onde era segurança, devia estar lá as 7 em ponto.

A cozinha estava vazia e com Gabriel ao seu lado Aaron foi pelo corredor fazendo seu caminho ate a sala de estar.


A sala estava escura, as sombras sobre as quatro janelas ainda estavam presentes. A televisão estava ligada, mas só havia estática3. Seu irmão adotivo de sete anos, Stephen, estava sentado em frente à televisão de vinte e duas polegadas, olhando-a como se estivesse assistindo o programa de televisão mais impressionante jamais produzido.

Do outro lado da sala, debaixo de uma parede coberta de fotos da família que de brincadeira ficou conhecido como o muro da vergonha, sua mãe adotiva havia adormecido no sofá de couro. Aaron se perguntou pela idade que aparentava ela, afundada no sofá, envolvida em um roupão velho azul marinho. Era a primeira vez que realmente pensava em quão velho estava e como seria o dia em que não moraria mais ali. De onde saiu isso? Perguntou–se. Empurrou à estranha e muito deprimente linha de pensamento para longe e tentou pensar em algo agradável.

Quando os Stanley o haviam levado a sua casa como filho adotivo, havia sido a sétima casa desde seu nascimento. O que foi que os assistentes sociais disseram ao seu respeito? Não era um menino mau, só era um pouco introvertido, com um mau gênio, Aaron sorriu. Nunca esperava que a sétima casa seria a última, e tinha imaginado que haveria a oitava, nona e provavelmente inclusive antes da décima tentativa acontecer o retirariam dos sistema de adoção e seria livre para o mundo.

Uma quente pontada de emoção fluía através da lembrança dos cuidados que essa mulher e seu marido o haviam dado nos últimos sete anos. Não importava como se comportava, bem ou mal, se preocupavam com ele, investindo seu tempo, sua energia e o mais importante seu amor. Os Stanleys não só queriam receber um cheque do estado, realmente se preocupavam com ele e finalmente começou a pensar que eles eram os pais que nunca conheceu.

Gabriel havia se aproximado do menino em frente à televisão e lambeu seu rosto, Aaron sabia que era só para poder tomar o restante do pequeno café da manhã do menino. Mas o menino não respondeu, não deixou de olhar a tela da televisão com os olhos e boca aberta.

Stephen era o filho biológico dos Stanley e tinha autismo, a doença mental que frequentemente mal entendida que deixava os doentes tão absorvidos com sua própria 3

Dessa forma. http://migre.me/15MPj


realidade que era rara as vezes que interagiam com o mundo ao redor deles. O menino poderia ser um bom problema e Lori ficou em casa para cuidar da necessidade especial do filho.

Lori bocejou e despertou de supetão.

– Stephen? – Perguntou atordoada, buscando se filho pequeno.

– Ele está vendo seu programa favorito – disse Aaron, assinalando a Gabriel e ao menino. Voltou a olhar sua mãe adotiva. – Você está bem?

Lori se esticou e tirando o cachecol apertado ao redor de seu pescoço, sorriu. Seu sorriso sempre o havia deixado sentir especial e essa manhã era diferente.

– Estou meu bem, um pouco cansada só isso – ela fez um gesto indicando o menino diante da televisão – Ele teve uma noite ruim e a televisão foi à única coisa que o tranquilizou.

Olhou o pequeno relógio do seu avô na parede.

Essa é a hora? –Perguntou. – O que você ainda esta fazendo aqui? Vai chegar tarde à escola.

Ele começou a explicar, mas ela saltou do sofá e começou a empurra-lo para fora da casa. – Eu estava estudando até tarde ontem e hoje não escutei o despertador e...

– Me conta mais tarde. – Disse colocando a mão em seu ombro e ajudando-o a sair.

– Você se importa de alimentar o cão?


– Não, eu farei, eu o levarei para dar um passeio – disse Lori interrompendo – Chegará tarde à escola e a prova de historia.

Foi na metade do caminho para a porta quando lhe chamou seu nome na cozinha. Com um pouco de pânico em sua voz.

Aaron virou a cabeça.

– Quase que me esqueci – disse, com um pote de água para o cão em uma mão e uma taça de ração na outra. Gabriel estava atento ao seu lado, a baba escoria por sua boca para formar um poça em suas patas.

– O que está acontecendo? – Perguntou com um toque de impaciência em sua voz.

Ela sorriu. – Feliz Aniversário! – Disse e franziu os lábios para dar-lhe um beijo. – Tenha um grande dia.

Meu aniversário, pensava enquanto corria para fora da porta em direção ao carro.

Com toda a pressa dessa manhã, ele se esqueceu.

Aaron escutou as notícias no rádio antigo enquanto ia para a aula.

A senhora Mihos, a antiga professora de matemática a poucos meses de sua aposentadoria, levantou para todos verem seu livro Family Circle e deu uma olhada fria.


Ele falou as palavras – Sinto muito – e sentou–se em seu assento. Ele aprendeu que quanto menos falar para a senhora Mihos melhor. Suas regras eram simples: nunca chegar atrasado, a sua vez de ter as notas para explicar as ausências no momento oportuno, e haja o que houver, não sejas astuto. Aaron recordou friamente como Thommy Philips, agora sentado na parte da frente da classe atentamente mantinha a boa fechada, havia tentado dar uma de espertinho. Havia escrito uma carta de brincadeira para explicar suas ausências e recebeu uma semana de detenção. Não havia nada mais que a professora de matemática odiasse mais do que um espertinho.

Aaron casualmente deu uma olhada e viu que estava passando as horas da mudança de assistência de sua condição para explicar sua ausência. Deixou escapar um suspiro de alivio quando a campainha do primeiro tempo começou a tocar. Talvez hoje não seria um desastre total, depois de tudo.

O primeiro período de literatura foi bem, mas na metade do segundo período, em que haveria a prova do senhor Arslanian, Aaron decidiu que podia estar equivocado sobre o dia. Não só esquecerá algumas das informações que havia estudado, mas também tinha umas das piores dores de cabeça que podia lembrar. Sua cabeça parecia que vibrava, zunindo como se alguém tivesse colocado uma máquina de barbear dentro de seu crânio. Conteve sua fúria e tratou de se concentrar em uma pergunta sobre as ramificações sociais e políticas da revolta del pan de richmond4. A fascinação de Arslarian com os acontecimentos obscuros da Guerra Civil ia dar-lhe um aneurisma.

O resto da aula passou em um abrir e fechar de olhos, e Aaron se perguntou se havia desmaiado e sido abduzido por extraterrestres. Apenas havia terminado a última das perguntas que estudou quando o sinal do final do último período tocou, uma grande vantagem para sua dor de cabeça. Rapidamente olhou por cima das páginas se sua prova. Não era o melhor que já tinha feito, mas no estado que se sentia, não acreditava que fosse mal.

– Eu gostaria de te dar mais um par de horas para concluir a prova Sr. Cobert...

4

O Motín de Subsistencias, ou motín o pão, é uma forma de protesto popular comum na Europa desde o século XV ao século XIX , uma mutildão pretende assegurar o abastecimento suficiente de alimentos básicos (batatas, cereais, farinha a o pão) a um preço acessível.


Aaron havia dividido em áreas de novo. Olhou para cima para ver as formas rechonchudas do Sr. Arslanian de pé ao lado de sua mesa, fazendo sinal com as mãos.

– Mas minha esposa fez peru para o jantar de ontem à noite e há sobras me esperando na sala dos professores.

Aaron continuou olhando-o, o zunido de sua cabeça cada vez mais forte e mais doloroso.

– Sua prova Sr. Corbert – disse o senhor Arslanian.

Aaron se esforçou e entregou a prova ao professor.

Logo pegou seus livros e se preparou para sair. Enquanto isso a sala começou a girar e se agarrou a mesa por um momento ao acaso.

– Você está bem Sr. Corbert? – Arslanian perguntou enquanto caminhava pela sala. – Você está um pouco pálido.

Aaron estava espantado que só estivesse pálido. Imaginou que deveria sair sangue pelas orelhas e por seu nariz. Sentia-se muito mal. – Minha cabeça dói. – Falou enquanto seguia para a porta.

– Tome Tylenol – o professor disse – e um pano frio em sua cabeça, é isso que funciona para mim.

Sempre uma grande ajuda, Sr. Arslanian, Aaron pensava enquanto se esforçava para manter seu crânio no lugar e não decorar as paredes com sangue.


O corredor estava cheio de gente que ia e vinha, ou simplesmente passavam o tempo em grupos pequenos em frente aos armários de cores brilhantes, acompanhando as pessoas com olhares frescos. Aaron pensou com sarcasmo na inacreditável socialização que se pode fazer em cinqüenta minutos.

Aaron foi para a parte leste junto com alguns estudantes. Deixaria os livros e logo iria à enfermaria para pegar algo para sua dor de cabeça. Foi piorando, era como escutar um rádio mal sintonizado dentro de sua cabeça.

Manobrou todas as pessoas, deu sorrisos ocasionais e saudou com a cabeça, mas os poucos que o conheciam eram só do tipo amável com ele. Ele sabia que as pessoas o viam como um garoto tranquilo e solitário com um passado negro e fez pouco para parar os comentários sobre o assunto. Aaron não tinha nenhum amigo de verdade no colégio, apenas conhecidos e não demonstrava muita afeição a eles.

Finalmente alcançou seu armário e começou a colocar sua senha. Talvez se ele conseguisse algo para comer se sentiria melhor, pensou, recordando que não havia comido nada após o jantar da noite passada. Balançou-se sobre a porta do armário o abrindo e começou a colocar seus livros.

Uma garota riu dele. Olhou para trás e viu Vilma Santiago em seu armário com três amigas, elas olhavam fixamente em sua direção, mas rapidamente olharam para outro lado e riam completamente em cumplicidade. O que era tão engraçado? Ele se perguntou.

Elas falavam bastante alto para pudesse ouvir-las. O único problema era que elas falavam em português, e ele não tinha a menor ideia do que diziam. Dois anos de francês não o faziam bom em escutar dissimuladamente as conversas das garotas brasileiras.

Vilma era uma das meninas mais lindas que ele já havia visto. Ela havia sido transferida para o Ken Curtis o ano passado do Brasil e dentro de poucos meses se tornou uma das melhores estudantes da escola.


Tão simpática como magnífica, uma combinação perigosa, e uma que o havia deixado golpeado. Eles se viam um ao outro em seus armários todo dia, mas nunca realmente conversaram. Não era que ele não quisesse falar com ela, só nunca pensou em nada para dizer. Voltou para largar os livros em seu armário e outra vez sentiu os olhos das meninas nele. Elas sussurravam agora e ele podia sentir sua paranóia aumentar.

– Ele não é feio! Olha que bunda!5

A dor de cabeça de repente o cegava, como se alguém pegasse uma faca e a inserisse em seu cérebro. A dor era insuportável e ele quase gritou, o que daria a sua audiência umas boas risadas. Ele pressionou sua cabeça sobre o armário gelado e rezou por um momento. Isso não pode doer por muito tempo, pensou. A dor era cada vez mais intensa, sentia que pedaços de cristal eram cravados em seu cérebro. E a dor era cada vez mais forte.

O zunido doloroso se elevou a um ponto insuportável, os circuitos dentro de sua cabeça se sobrecarregaram e antes que caísse inconsciente, se foram.

Aaron esperava pela dor, não queria se mover, pois tinha medo que a agonia da dor voltasse. O que foi tudo isso? Perguntou-se, passou a mão pelo seu nariz para ver se sangrava.

Não havia nada. Nenhuma dor, nenhum barulho ensurdecedor. Agora ele se sentia melhor do que toda a manhã. Talvez isso fosse um estranho processo biológico que se passa quando completa dezoito anos, pensou perplexo, recordando outra vez que era seu aniversário.

Fechou com um golpe a porta do armário e se deu conta que Vilma e suas amigas continuavam falando.

– Estou cansada de comer pizza. Semana passada nós comemos pizza quase todos os dias – elas falavam da cafeteria, de sair e comer pizza. Vilma quis ir na cafeteria, mas as demais queriam comer pizza. 5

Frase dita por elas em português.


Aaron se afastou de seu armário e considerou se iria realmente a enfermaria, e Vilma o olhou. Ela riu timidamente e rapidamente afastou seu olhar. Mas não antes das demais garotas notarem e começarem a tirar sarro dela.

– Por quê? Você acha que uma certa pessoa estará no refeitório hoje?6

Aaron sentiu que suava frio. Sua suspeita foi justificada, de fato as garotas falavam dele.

– É, e daí? Eu acho ele gostoso?

Vilma respondeu aos insultos de suas amigas e elas olharam na direção dele novamente.

Todas o olhavam. E ele sabia o que elas diziam. Vilma e suas amigas falavam dele uma com a outra em português. Mas de algum modo ele podia entender tudo o que elas falavam.

Mas a coisa mais interessante consistiu no que Vilma havia falado.

Eu acho ele gostoso!

Ela disse que ele era gostoso.

Vilma Santiago me acha gostoso!

6

Frase dita por elas em português.


Na parte de trás do Hospital Veterinário do Oeste Lynn, onde Aaron trabalhava depois da escola, um galgo7 chamado Hunter cheirava a grama com grande interesse.

– Alguém que você conheça? – Aaron lhe perguntou enquanto se aproximava devagar do cão de cor malhada para poder acariciar seu rabo em forma de chicote.

O cachorro virou lentamente seu pescoço e moveu o rabo em resposta, antes que outro cheiro desviasse sua atenção para outra parte.

Aaron olhou seu relógio.

Era pouco mais das oito e meia e estava cansado. Tinha a esperança de que Hunter, que havia estado constipado depois que passou por um processo cirúrgico para tirar uma bola de tênis do seu intestino grosso, finalmente fizesse o que precisava, para poder ir para casa e fazer uns deveres antes que fosse tarde.

O cão andou pelas sombras, o nariz quase encostado na terra, girou um pouco em círculos e fez suas necessidades.

– Feliz Aniversário – Aaron murmurou olhando para o céu no crepúsculo. – Devo agradar a alguém lá de cima. 7

Uma raça de cachorro. http://whippet.no.sapo.pt/images/GalgoEspanhol.jpg


Arrastou o galgo de novo para o veterinário, sua mente recordando sua estranha jornada. O que se passou no corredor com Vilma e suas amigas veio a tona novamente em sua consciência, e sentiu uma franqueza na boca do estômago.

Havia se equivocado? Perguntou–se enquanto abria a porta. Passaram de repente do português para o inglês? Não, pensou, não, definitivamente falaram em português e eu entendi. Mas, como isso era possível?

– Você está bem? – Perguntou Michelle tirando sua bolsa da cadeira. – Podia ficar um pouco a mais, mas hoje tenho um compromisso à noite e...

Aaron sacudiu a cabeça. – Eu entendo! Fora daqui. Você me deve.

Michelle sorriu brevemente e se moveu ao redor do balcão. – Obrigado, Aaron. Deve ter aqui tudo o que precisa. Que você tenha uma boa noite.

Despediu–se enquanto saia pela porta e logo voltou a prestar atenção na bolsa aberta. – Muito bem – disse enquanto tirava alguns papéis de seu interior.

– Preenche para mim, por favor?

A senhora Dexter pegou os formulários e soltou a corrente para que seu cão explorasse o vestíbulo. – Eu sinto muito – disse enquanto tirava os óculos da carteira e os colocava. – Tinha a esperança de que ficasse alguém ainda, – começando a preencher o primeiro formulário. – Que sortuda, não?

Sheba se aproximou com cautela, farejando em volta, com suas orelhas para trás.

– Olha–me – lhe estendeu a mão para que pudesse cheirá-la. Ela lambeu e ele começou a acaricia–la.


A senhora Dexter precisou de mais de vinte minutos para preencher os formulários e continuar seu caminho.

– Sheba vai ficar bem – ele assegurou a senhora Dexter que tinha lágrimas nos olhos, enquanto abria a porta pra sair. – O veterinário vai fazer uma cirurgia na primeira hora da manhã. Você pode ligar para cá para saber como ela está e que dia a senhora pode leva–la para casa. – A mulher ficou de cócoras e deu ao cão um último abraço e um beijo na cabeça. – Obrigada por tudo – disse enquanto ela ficava em pé. – Sinto muito por ter vindo tão tarde.

Aaron sentiu uma onda de culpa. Era difícil falar com alguém que amava tanto sua mascote.

Sheba começou a chorar enquanto via sua dona entrar no carro sem ela.

– Está tudo bem menina – disse Aaron enquanto tirava a coleira. – Vamos ver o que vamos fazer essa noite. Teremos um local encantador e posso te assegurar que não estará sozinha.

Levou-a pra dentro. Os olhares dos outros cães a assustaram porque colocou o rabo entre as pernas e apoiou-se contra ele.

– Está tudo bem – lhe assegurou e então o caos começou.

Todos e cada um dos cães começaram a enlouquecer, latindo como loucos, batendo-se contra as porta de suas gaiolas, arranhando furiosamente as patas. Sheba se agarrou mais a ele. Ela o olhou nervosa e logo olhou os cães como se perguntasse: o que está acontecendo? Ele não tinha a menor ideia. Nunca os havia visto agir assim. Talvez Sheba estivesse no cio ou talvez compartilhasse a casa com um cão mais agressivo e os outros reconheciam o cheiro por ela. Começou a chorar pateticamente e me abaixei para acariciar sua cabeça.


Os latidos não se detiveram, na verdade, se intensificou, e sentiu que sua raiva começava a crescer. Isto era tudo o que precisava. Ficou mais do que esperado e agora todo o lugar estava uma loucura.

O que vou fazer? Perguntou–se. Certamente não podia deixa–la em uma gaiola com os demais cães agindo dessa maneira.

– Silêncio! – Gritou, mas os latidos continuaram.

Algumas gaiolas superiores haviam começado a se mover por causa da atividade. Sheba se encolheu contra a porta desesperada para sair. Não a culpou por isso.

– Silêncio! – Aaron gritou de novo, com a voz mais forte e com autoridade.

Um pastor alemão começou a rasgar a porta, os arranhões estavam deixando profundos buracos na madeira. Ele o agarrou pelo pescoço para tirar-lhe fora da gaiola. O cão assustado começou a urinar no chão que ele havia limpado de tarde.

A cabeça de Aaron começou a latejar com o pesado latido, e o cheiro da urina flutuando pelo ar revoltou seu estômago. Não podia mais suporta isso.

– Silêncio! Ou os ponho todos para dormir! – Ele gritou a eles, sua voz enfurecida ecoando pelos azulejos brancos da sala.

O lugar caiu no silêncio completo. De repente cada cão se acalmou, como se suas palavras os assustassem. Como se entendessem o que havia dito.


Era cerca de onze horas quando entrou pela porta de casa. Aaron tirou a chave suavemente da fechadura e fechou a porta devagar atrás dele. Se deteve na entrada, fechou os olhos e respirou profundamente, curtindo o silêncio. De fato, podia sentir como se seu corpo começasse a se apagar.

Os cães não haviam dado mais problemas depois de seu surto emocional. Não tinha mais nenhum gemido quando acomodou Sheba e limpou o que ela fez. Deviam ter a sensação de que falava sério. Contudo, era um pouco estranho, a forma que reagiram. Por outro lado, o que esperava depois do dia em que teve?

Aaron caminhou para a cozinha. Estava decepcionado que Gabriel não estivesse ali para saudá–lo na chegada em casa, pensou que o cão provavelmente foi dormir quando seus pais adotivos colocaram Stephen para dormir. O cão era muito cuidadoso com o menino autista, como se soubesse que ele era especial e precisava ser cuidado.

A luz estava acessa em cima do fogão e um pequeno pedaço de papel grudado por um imã em forma de gatinho preso na geladeira. Era uma anotação de sua mãe adotiva, falava que todos tinham ido para a cama e que seu jantar estava no forno. Na anotação também dizia que havia uma pequena surpresa para ele na sala de jantar. Isso o fez sorrir.

Usando uma luva, pegou uma porção e foi para a sala de jantar. Ao sentar viu um envelope azul embaixo de um bolo de chocolate com uma vela em cima. Pegou o cartão e se perguntou se abriria, acenderia a vela e cantaria feliz aniversário a si mesmo. Deveria ter energia para tal.

Dentro havia um cartão com um jovem coberto de troféus de diversos esportes, e dizia: PARA MEU FILHO CAMPEÃO. Abriu o cartão e leu algo sensível sobre o garoto especial que era e que virara um homem. Cada ano Lori comprava o cartão mais legal que poderia encontrar. Ele fazia o mesmo em seu aniversário e no dia das mães. Aaron suspirou. Sabia que seus pais adotivos não poderiam permitir isso, mas sabia que era inútil devolver o dinheiro.

Já havia tentado antes e sempre insistiram para comprar algo legal para si. Terminou de comer seu jantar: um bife, purê de batatas e guisado, lavou a louça e lutava mentalmente com a ideia de como seria dali a diante. Ele apenas queria ir dormir um pouco, mas a parte mais


estudiosa dele pensou em fazer um pouco das tarefas escolares. Lentamente subiu na cama apoiando-se no bidê e colocou o último pedaço de bolo na boca, sua parte cansada mandou ele dormir e sua parte estudiosa mandou-o estudar.

A maior parte da porta do quarto de Stephen estava aberta, e a luz do abajur do Barney estava acessa. Entrou no quarto para ver como estava o menino. Gabriel estava nos pés da cama começou a mover o pescoço violentamente quando viu Aaron. Moveu-se com cuidado pelo quarto e acariciou a cabeça do cão. Stephen suspirava suavemente, absorvido no sonho que tinha. Aaron viu a manta cobrindo-o até o queixo. O observou por um momento, e logo o tocou suavemente na bochecha antes de se virar e sair.

Na porta, fez sinais com a cabeça para que Gabriel o seguisse. Era mais ou menos a mesma rotina toda noite. O cão ia para a cama com Stephen, mas uma vez que o menino estava dormindo , ia com Aaron dormir.

O cão enorme pulou da cama sem fazer barulho e foi para o corredor. ‘Cuide de Gabriel’, Aaron recordou com carinho a primeira vez que viu o cão, estava amarado em um pátio na rua Mal, seu pêlo cor caramelo quase branco e sua pele coberta de graxa e barro. Era tão pequeno na época, nada a ver como era agora. Quando se arrumava em seu quarto escutou um barulho suave da televisão ligada provavelmente no quarto de seus pais.

O programador desligava a televisão a meia-noite. Desde que podia recordar Tom e Lori sempre tinham a mesma rotina, eles iam para a cama cedo e acabavam dormindo diante da televisão ligada enquanto passava o jornal.

A porta de seu quarto estava fechada e Gabriel a abriu entrando primeiro. O cão pulou sobre a cama e o olhou com os olhos escuros e vibrantes.

Sua língua de cor rosa brilhante, sua respiração ofegante e sua cauda balançando feliz. Aaron sorriu enquanto fechava a porta. A primeira vez que levou o cão para casa, ele era tão pequeno que nem sequer podia chegar à cama sem ajuda, agora nem sequer podia deixar a besta fora. Frequentemente se perguntava se foi sorte que havia ocorrido com o cão, se não houvesse roubado do jardim da casa na rua Mal no amparo da escuridão. Os rumores diziam


que os membros de umas das gangues de rua de Lynn, roubavam cães e os entregavam para lutar.

Quando olhou pela primeira vez para Gabriel supôs que não havia forma de que poderia deixar algo de ruim acontecer com o cão. Eles eram inseparáveis desde então. Aaron tirou os tênis e praticamente caiu na cama. Nunca havia sentido algo mais glorioso. Suas pálpebras, pesadas pelo cansaço, pouco a pouco começaram a fechar e ele podia sentir o corpo preparando para dormir. O cão seguia sobre ele, seu pesado corpo mexia suavemente a cama como essas que funcionam com moedas nos motéis de quinta categoria, essas cama que tinhas visto em filmes.

– O que foi Gabe? – Perguntou, negando-se a abrir os olhos. O cão pulou da cama em resposta e começou a procurar algo pelo quarto. Aaron gemeu. Sabia o que significava. O cão estava buscando um brinquedo. O deus dos brinquedos do cão, uma antiga divindade de borracha barata e com apito que raras vezes se escutava agora. Os 37 Kg do c��o pulou para a parte de trás da cama. Apesar de seus olhos estarem fechados, Aaron sabia que Gabriel parou sobre ele com algo na boca.

– O que quer Gabriel – Perguntou meio dormindo, sabendo muito bem qual seria a resposta do cão. Não foi surpresa quando sentiu a bola de tênis no seu peito. Não foi surpresa quando o cão respondeu a pergunta assim.

– Você quer jogar bola agora? – Falou Gabriel em uma voz muito clara e precisa.

Aaron abriu os olhos e olhou para a cara sorridente do animal. Não havia dúvida agora. O dia tinha sido uma autêntica loucura. E agora estava perdendo a razão.


O Dr. Jonas parecia encantado em revê-lo.

– Não esperava vê-lo às oito e meia da manhã Aaron – disse o homem gordo enquanto caminhava atrás de sua mesa, retirou seu paletó Tweed e pendurou em um gancho de madeira no canto da sala.

– Como tem passado? – Perguntou o psiquiatra, sorrindo calmamente enquanto começava a abrir a bolsa de papel que levava.

Olhou o escritório, pouco havia mudado desde sua última visita. As paredes eram de uma cor creme, tinha uma copia emoldurada de um Monet comprada em uma tenda de presentes do Museu de Belas Artes, tinha uma estranha forma que de certa maneira era reconfortante.

O Dr. Michael Jonas tinha sido seu psicólogo depois de ser adotado pelos Stanleys. Com sua ajuda aceitou e enfrentou muitos dos problemas que tinha tido. O homem se tornou um grande amigo, Aaron se sentia culpado por não manter tanto contado com ele.

– Não sei, talvez 5 anos? – Respondeu Aaron

Jason sacudiu a cabeça, sorrindo através da barba espessa.

– Tanto tempo? – Disse enquanto pegava uma banana e uma garrafa de suco de laranja na bolsa. – Não parece ter passado tanto tempo não é? Uma vez que você chega aos quarenta; os dinossauros como eu, o tempo passa muito rápido – Jonas riu da sua própria piada e sentou na


poltrona atrás de sua mesa. Agarrou a banana e o suco de laranja e ofereceu a Aaron. – Quer compartilhar meu café da manhã? Creio que consigo um copo limpo por aqui. Aaron acenou com a cabeça respeitosamente e sentou–se na frente do médico.

– Como queira – disse Jonas.

Retirou a tampa do suco e tomou um grande gole.

– Se não quer tomar o café-da-manhã, tem alguma razão para faltar a escola; o que aconteceu Aaron? O que posso fazer por você?

Aaron tomou uma respiração profunda e deixou escapar lentamente, tentou recordar os últimos acontecimentos das 24 horas que passaram para não conta-las incoerente. Como exatamente se explica que de repente ele pode entender línguas estrangeiras e, ah sim, que pode entender seu cão.

– Você está bem? – Perguntou Jonas enquanto pegava a banana. O homem sorria, mas havia preocupação no tom de sua voz.

Aaron moveu-se nervoso em seu assento. – Não sei – Respondeu incerto.

– Porque você não me fala o que te incomoda? – Cortou a banana e colocou na boca esperando uma resposta.

Aaron abraçou a si mesmo com força, abaixou a cabeça e começou a explicar. – Não estou certo do que se passa comigo... mas creio que possa ter algum tipo de problema mental.

O médico tomou mais um gole do suco. – Duvido muito –disse – mas se quiser me explicar, estou ouvindo.


Aaron foi muito cuidadoso quando falou o que aconteceu na escola no dia anterior, no corredor com Vilma e suas amigas. Disse que sofreu uma enorme dor de cabeça antes de poder entender o português. Decidiu não aprofundar o assunto, não queria abordar o incidente com Gabriel.

Aaron estava olhando seus tênis a maior parte da explicação, pouco a pouco levantou a cabeça para poder olhar de frente para Jonas. O psicólogo terminou sua banana.

– Está bem – disse Aaron voltando a olhar os tênis. – Se quiser ligar e me enviar a Danvers compreenderei. – Jonas continuou mastigando enquanto recolhia a casca da banana e jogava dentro da bolsa de papel vazia.

– Isso é interessante Aaron – disse depois de engolir. Girou sua poltrona a um lado do consultório e jogou a bolsa de papel fora. – Muito interessante.

– Eu creio que... poderia falar se você preferir – Aaron falou – e... e... não se trata só do português – pensando na conversa com seu cão na noite anterior. – Definitivamente, não só do português.

O médico bebeu um pouco a mais do suco. – Sabe que eu o entendo – disse enquanto limpava a barba. – Tiveste uma dor de cabeça e agora pode falar e entender outros idiomas. Uma habilidade que nunca tinha tido, é isso que está me dizendo?

Aaron começou a sentir vergonha e suas bochechas começaram a ficar vermelhas, começou a se inclinar sobre sua cadeira e olhou seus tênis. – Sei que soa muito estúpido, mas...

– No soaa estúpido – disse o Dr. Jonas. – pero suena un poco raro ¿Tienes otros síntomas?8

8

- Não soa estúpido. Mas soa um pouco estranho. Tem outros sintomas?


Aaron olhou para cima. –Não. Acredita que tem algo a ver com minha dor de cabeça? – O médico estava sorrindo, mas pouco a pouco seu sorriso se desfez. – Há algo de errado?

Jonas se inclinou sobre um monte de papéis que estavam sobre a mesa de seu consultório e pegou um bloco de notas. – Entende o que acabo de dizer Aaron? – Perguntou, pegando uma caneta e escrevendo algo no bloco.

Aaron acenou – Claro, por quê?

– O que eu disse exatamente? –Perguntou o médico.

Aaron pensou um minuto. – Me disse que o que aconteceu não soava estúpido, mas sim estranho e perguntou se tenho outro sintoma.

Jonas acariciou a barba. – O que acabo de dizer, disse em espanhol Aaron.

Aaron se mexeu em sua cadeira. – Mas eu não sei espanhol!

– Nunca teve aulas? – Jonas perguntou. – Ou tem amigos que falam?

Aaron sacudiu a cabeça em sua cadeira. – O único idioma que aprendi foi Francês e nunca falei mais do que 5 palavras.

Jonas acenou com a cabeça e começou a escrever de novo. Quando terminou de escrever colocou a caneta e o bloco encima da mesa e olhou para frente.

– Me descreva a dor de cabeça Aaron, mas fale em espanhol.


Aaron esfregou as teporas. – ¿En castellano? – sorriu inquieto, – Muy bien... – Aaron abriu a boca e começou a falar. – Era como si alguien estuviera clavándome un cuchillo en La cabeza – tocou a parte superior da cabeça – justo aquí. Como si alguien me atravesara el cráneo hasta llegar al cerebro. Nunca he tenido un dolor de cabeza igual9 – se deteve e um sorriso deslizou em seus lábios. – Como fui? – perguntou voltando ao inglês

O médico movia a cabeça com incredulidade –Impressionante – disse mostrando–se cada vez mais interessado.

Aaron se inclinou para frente, ansioso para saber o que se passava. – Você não pensa que sou louco ou algo assim? Você acredita em mim?

A poltrona rangeu em protesto quando o médico se inclinou para trás. Pegou um lápis com uma mão e bateu com a outra na mesa. – Acredito em você e não sei o que fazer – disse pensativo. – Vamos ver...

Aaron olhou o homem que ia com sua poltrona de rodinhas para um canto perto da parede, ele abaixou–se e desapareceu para pegar algo no interior de uma estante. Quando voltou, colocou um livro em cima da mesa, Aaron podia ver do que se tratava e esperava nervoso enquanto o médico olhava as páginas. – Pode dizer... o que eu estou te dizendo... agora – disse lutando pela complexidade das palavras – Não terei outro remédio a não ser... acreditar – Jonas levantou os olhos do livro e o olhou com olhos ansiosos.

– Eu o entendo perfeitamente, era latim, não? – disse Aaron.

O medico acenou com a cabeça lentamente atordoado.

– Parece que ambos vamos ter que nos empenhar em acreditar no inacreditável – disse Aaron. A expressão de Jonas era de um homem que presenciava um milagre. Seus olhos abriram lentamente enquanto fechava o livro de latim. – Aaron, eu... eu... não sei o que dizer. 9

Em castelhano? Muito bem... Era como se alguém estivesse me enfiando uma faca na cabeça... bem aqui. Como se alguém atravessasse meu crânio até chegar ao cérebro. Nunca havia tido uma dor de cabeça igual.


Aaron já estava ficando nervoso. O médico o olhava de tal forma que ele se sentia como um inseto debaixo de um microscópio. – Então você acredita no que aconteceu? – Disse Aaron para romper o silêncio.

– Como? – Jonas movia a cabeça de novo, passou seus grandes dedos através de sua barba espessa. – Não tenho a menor ideia, mas você falou de uma forte dor de cabeça antes que se manifestasse este talento, sugiro que possa ser algo neurológico.

– Neurológico? – Aaron ficou em dúvida. – Como se houvesse algo errado no meu cérebro, um tumor ou algo assim?

O psicólogo se inclinou de novo sobre a poltrona – Não necessariamente – disse indicando as palavras com suas mãos grandes. – Eu escutei histórias de indivíduos que tiveram transtornos neurológicos e conseguiram habilidades únicas.

– Como entender e falar línguas estrangeiras? – perguntou Aaron.

Jonas acenou com a cabeça. – Exatamente, o caso que estou pensando é de um homem de Michigan, creio. Depois de sofre um traumatismo craniano grave por causa de um acidente de patinação, viu que podia calcular problemas matemáticos muitos complexos em sua cabeça. Nem sequer terminou a escola secundária e não teve aulas de teoria de matemática.

– Você pensa que algo assim aconteceu comigo? – Aaron perguntou.

O médico refletiu sobre a possibilidade. – Alguma reação estimulou seu cérebro, e isso fez que explodisse de forma casual essa habilidade que estava escondida toda sua vida – Jonas pegou sua caneta e começou a tomar notas furiosamente. – Tenho um amigo no Mass General, um especialista em neurologia. Podíamos falar com ele, depois de fazer uns testes, mas claro... – umas batidas na porta fizeram Aaron pular da cadeira. – O médico levantou sua manga e olhou o relógio – Maldição! São nove e meia – o coração de Aaron batia forte por causa do susto que tinha recebido. Observou o Dr. Jonas sair detrás da mesa movendo–se para a porta. – Espere um momento Aaron – disse ao abrir a porta e entrar na recepção.


A mente de Aaron começou a pensar, o que acontece se tem algo ruim em mim, algo mal no meu cérebro? Começando a roer a unha do polegar. Talvez fosse melhor marcar uma consulta com o médico nesse caso. Pensou em faltar à escola e começou a sentir pânico. Isso não podia passar em momento pior. Pensou se as universidades olhavam o número de faltas antes de tomar uma decisão. A porta se abriu – Eu sinto muito garoto – disse enquanto entrava no escritório – escuta , tenho muitas consultas hoje, mas porque você não vem amanhã?

– Amanhã é sábado, está tudo bem? – disse Aaron.

– Claro, de qualquer modo eu estaria aqui. Porque não vem a tarde? Podemos fazer uns testes antes de chamar meu amigo do Mass General.

Aaron aceitou com uma ligeira inclinação da cabeça e caminhou para a porta. – Obrigado por receber–me esta manhã doutor – disse com a mão na maçaneta – Sei que faz muito tempo.

Dr. Jonas foi até o armário guardar um arquivo – Não tem problema Aaron. – Disse ao abrir o armário – Estou encantado em voltar a ver você – Aaron abriu a porta e estava a ponto de sair quando Jonas voltou a falar segurando um novo arquivo. O homem estava de pé olhando–o com calma e confiança –Relaxe – disse o psicólogo – vamos resolver isto, eu prometo. Nos vemos amanhã.

Quando saiu, a luz do sol, Aaron não podia evitar a sensação que de repente algo não ia bem em seu mundo. Algo que ele não tinha controle. Aaron cruzou a rua.

Havia chegado a tempo no escritório de seu ex-psiquiatra, mas havia estacionado do outro lado do edifício e ali perto do parque. Sempre gostou deste lugar, com suas gramas verdes e limpas. Apesar de não ter quase nada, havia um encanto, o lugar era um de seus favoritos para caminhar com Gabriel quando o tempo instável da Nova Inglaterra cooperava. Caminhou através da grama para pensar sobre o ocorrido.


Ao chegar ao centro do parque em uma zona aberta recordou um pouco surpreso que o edifício foi construído em forma de sapato. A voz de uma jovem professora de história, a senhora Frost zumbiu em seu cérebro contando a história da cidade.

A cidade de Lynn se estabeleceu em 1629 e se converteu em um importante produtor de calçados. A construção do edifício se iniciou em 1630 atualmente se formava por seções aproximadas de um sapato do século XIX. Nesse momento Aaron estava no interior do edifício. Sempre quis dar um passeio de helicóptero sobre a cidade para verificar se o edifício era mesmo na forma de um sapato. A Sra. Frost havia indicado um livro que estava na biblioteca que continha uma foto aérea do lugar. Como havia previsto de todos os modos terminar o dia na biblioteca, quem sabe mais tarde separasse um tempo para procurar, pensou enquanto caminhava.

Aaron estremeceu de repente como se alguém colocasse um cubo de gelo em suas costas. Tinha uma estranha sensação de que estava sendo vigiado e começou a olhar ao seu redor. Olhou para o quiosque de música antiga. A antiga estrutura que uma vez foi utilizada para consertos de verão, era agora um lugar para crianças que faltavam à escola para passar o tempo. Hoje estava vazia. Continuou olhando ao redor e ali, justo onde estava o telão podia distinguir uma figura de pé ao lado de uns bancos. Tinha um carrinho de supermercado ao lado do homem. Provavelmente recolhia latas para conseguir dinheiro da reciclagem, Aaron pensava que seguiria seu caminho, a distância estudou a figura solitária. Sim, agora estava seguro. O homem estava olhando-o. Aaron realmente podia sentir seu olhar sobre ele. – Provavelmente queria decidir se aproximava–se para me pedir dinheiro – murmurou entre dentes enquanto chegava no outro lado do edifício.

Passou acima de uma caixa, seu Toyota Corolla de cor azul metálico modelo 95 estava estacionado no outro lado da rua e esperou a oportunidade para atravessar a rua. Enquanto procurava as chaves em seu bolso pensava no que ia fazer no resto do dia. Tinha faltado a aula, mas não queria faltar com todas as suas responsabilidades acadêmicas. Queria passar à tarde na biblioteca para começar um trabalho de pesquisa para a Sra. Mulholland, um trabalho indispensável para se formar. Esperava que fazendo uma visita a biblioteca lhe ajudaria a eleger um tema para o trabalho. As ideias dançaram em sua cabeça: a briga do bem e o mal nas obras de Edgar Allan Poe, Herman Melville10 e o simbolismo religioso que Shakespeare usou em suas obras.

10

Escritores.


De repente seus instintos ativaram-se, alguém estava atrás dele. Aaron deu a volta e se encontrou cara a cara com o homem que tinha visto antes. Ele estava vestido com um moletom sujo, umas calças rasgadas nas pernas e tênis. O intenso odor corporal e o cheiro de álcool flutuavam ao redor dele. Viu-se perplexo, sem saber o que fazer quando o homem começou a inclinar-se para ele. Que diabos estava fazendo? Parecia que estava o olhando. Se aproximou e cheirou seu rosto, seus cabelos, seu peito e em seguida recuou. Balançou a cabeça, em resposta a uma pergunta que só ele sabia.

– Posso... te ajudar em algo? – Aaron murmurou.

O homem respondeu em um idioma que Aaron nunca havia escutado antes, uma linguagem que de alguma maneira sentia que não era falado em muito tempo. – Pode entender a língua do mensageiro garoto? – Perguntou o mendigo em um dialeto arcaico.

Aaron respondeu em uma espécie de – Sim – era uma das palavras que deixavam uma sensação estranha. – Eu entendo... mas não entendo a pergunta.

O mendigo continuou o olhando com um olhar muito intenso. Aaron podia até jurar que viu o que parecia uma chama dançando no centro de cada olho, mas sabia que provavelmente era só um truque de luz. – Respondeu minha pergunta só falando – respondeu o homem usando essa língua estranha.

– O... o que eu sou? – Perguntou Aaron. – Não entendo por que...

O estranho mendigo falou algo mais – Nefilim – sussurrou enquanto apontava para Aaron com uma mão suja. – Você é um Nefilim. – A palavra ressoou na cabeça de Aaron e o pânico se apoderou dele. Tinha que fugir. Tinha que se afastar do estranho mendigo e dessa palavra. Tinha que sair tão rápido como podia.

– Realmente tenho que ir – murmurou enquanto colocava as chaves do carro na fechadura e abria a porta. Entrou no carro e o fechou a porta. Não podia recordar de um momento que a necessidade de correr fosse tão grande. Colocou a chave na ignição enquanto saia olhou o retrovisor. Ele estava ali de pé, encarando–o com um olhar intenso. Aaron deu a


volta e voltou ao trânsito enquanto via o mendigo através do retrovisor ficar cada vez mais longe. Ele seguia de pé ali, encarando o carro, movendo a boca, repetindo uma só palavra. Aaron sabia o que estava dizendo NEFILIM uma e mais vezes. Nefilim.

Aaron molhou o rosto com água fria e olhou o espelho, vendo como caia a água sobre sua pele no espelho da biblioteca pública de Lynn. Que diabos está acontecendo? Pensou, recordando do ocorrido, o que está acontecendo comigo? Tinha medo do rosto que olhava no espelho. O que aconteceu com esse mendigo? Perguntou–se pela milésima vez. O que quer dizer ele com linguagem dos mensageiros e que eu sou um Nefilim? Seus pensamentos corriam furiosamente pela sua cabeça. Pegou algumas toalhas de papel na mesa e secou o rosto, ao chegar à porta do banheiro se deu conta que sua mão tremia – acalme-se, – disse a si mesmo em um sussurro.

– O mendigo estava louco, provavelmente tenha falado isso centenas de vezes. Porque você esta quebrando a cabeça? Sabe que essa cidade está cheia de loucos – com um golpe na porta do banheiro, inspirou lentamente para relaxar e abriu a porta.

Havia um guarda com uma jaqueta pendurada no braço, – O que estava fazendo? – perguntou com um sorriso nervoso.

Aaron falou o mais rápido que pode quando saio do banheiro. – Desculpe por ter ficado muito tempo, – disse enquanto entregava as chaves do banheiro.

– Não passa nada – disse o guarda carregando as chaves e entrando no banheiro – Só queria me assegurar de que não tinha caído ai dentro nem nada – Aaron se voltou enquanto fechava a porta e viu que o homem estava rindo. Não tinha muita vontade, mas viu–se rindo igualmente. – Isso não foi como uma cereja no topo do sorvete? – disse a si mesmo subindo as escadas de mármore branco do térreo para o primeiro andar.


Encontrou uma mesa vazia em um dos cantos da sala de leitura e pendurou seu casaco em uma das cadeiras. Não estava certo se poderia trabalhar agora, mas ao menos tinha que tentar. Necessitava demais de uma distração depois das coisas estranhas que tinha vivido esses dias. Tinha trazido um bloco de notas e tirou um lápis de seu bolso dianteiro. Sentou-se e passou horas lendo livros de diferentes autores e temas literários em busca de algo que despertasse seu interesse para começar o trabalho de investigação. Pensava que teria bastante tema para fazer o trabalho sobre a dualidade do bem e do mal nas obras de Poe, quando se deu conta que estava escrevendo fora do bloco, tinha escrito por todo o bloco, se repetia uma mesma palavra em suas diferentes variantes línguas. Nefellum. Nefilem. Nifiliim. Nephilem. Nefilim. Aaron arrancou a página e a olhou. – O que significa? Porque não posso ouvir isso? – Perguntou-se revisando cada palavra.

Levantou-se de sua cadeira e se dirigiu a zona de dicionários da biblioteca. O primeiro livro que pegou era um dicion|rio “webster’s new Word college dictionary”. Colocou o enorme dicionário em cima da mesa e começou a procurar a palavra escrita. Não encontrou nada. Talvez não signifique nada, pensava enquanto regressava para colocar o dicionário no lugar. Talvez seja só uma palavra sem sentido realmente pronunciada por uma pessoa louca. Aaron decidiu que tinha perdido bastante tempo e energia em desvendar uma palavra, dirigiu-se a mesa para começar o esboço de seu trabalho de investigação. Se tinha algo que podia salvar o dia, ao menos o interessava.

Pegou o papel com uma mão e se dirigiu a sala de leitura. Mas a palavra o seguia atordoando-o como se tivesse vida própria e murmurava para ele. Nefilim. Aaron olhou casualmente a sala de informática que normalmente estava cheia, mas hoje se encontrava totalmente vazia. Aproveitou a oportunidade de satisfazer sua curiosidade, se aproximou e sentou-se em um computador. Era a última oportunidade de encontra o significado da palavra misteriosa. Se não podia encontra aqui, ia esquecer para sempre e nunca mais voltaria a pensar nela.

Colocou a senha que tinha recebido da biblioteca em seu primeiro ano de escola e a digitou no site que utilizava frequentemente para as coisas da escola. No link de busca escreveu a palavra misteriosa, apertou enter e conteve a respiração. A página terminou de carregar e então apareceu uma palavra sugerida.

“Você quer dizer Nephelim?”, perguntou o site na parte superior da página. Com um click com o mouse sobre a sugestão esperou que ela carregasse. Aaron se surpreendeu ao ver a quantidade de sites que tinham um tipo de conexão com a palavra misteriosa. Tanta espera


para que no final seja uma grande pesquisa, pensou enquanto navegava nas páginas lendo um pouco de cada uma. Uns vários sites era sobre um grupo de rock, alguns de jogos de RPG, todos com o nome Nefilim, mas nenhum oferecia um significado concreto.

Alguns eram relacionados com a mitologia religiosa que por fim chamou sua atenção. – É isso? –perguntou-se. – Tem algo a ver com religião? – Se for isso não estanharia que não soubesse seu significado. Nunca foi uma pessoa religiosa e tampouco os Stanley. A página mostrava pessoas e lugares relacionados com a bíblia.

O primeiro que viu foi uma definição que leu com entusiasmo. O termo bíblico de Niphilim significa em hebraico ‘os caídos’ em referencia a descendência dos anjos com mulheres mortais que é mencionada em Genesis 6:1–4. Uma referência mais ampla se refere em um testamento do livro de Enoc, que relata como um grupo de anjos deixou o céu para casar-se com mulheres, aprendendo técnicas humanas odiosas, como a arte da guerra.

Aaron sentou–se em uma cadeira atordoado. A descendência dos anjos com mulheres mortais, leu de novo. – Que diabos isso tem a ver comigo? – Murmurou aproximando-se da tela do computador.

Alguém tossiu atrás dele e se voltou para ver quantas pessoas esperando na porta da sala de informática. Um menino gordinho com um caso gravíssimo de espinha que usava uma camiseta do X–MEN bateu no vidro do seu relógio Timex11 e o olhou. Aaron voltou a olhar a tela e leu rapidamente um pouco mais antes de fechar a página e sair.

Pegou uma caneta de seu bolso e um pedaço de papel aonde havia escrito os derivados da palavra misteriosa, riscando os incorretos e deixando a correta. Nefilim. Suspirando profundamente voltou para a mesa e a seus livros na sala de leitura. Sentou-se com toda a intenção de começar seu trabalho, mas viu que não podia concentrar-se, pensava na história das mulheres que tiveram bebês humanos com anjos. Um calafrio percorreu sua coluna vertebral recordando do sonho que tinha com frequência. De novo viu a criança atacado por seres alados vestidos com uma armadura dourada. Era muita coincidência para ser ignorado; ficou de pé e pegou seu bloco de notas. Tinha que saber mais. Era como se lago o empurrasse

11

Site da Timex, quem tiver curiosidade de ver os relógios. http://www.timex.com.br/


pra investigar mais. Talvez encontrasse a maneira de converter isso a uma maneira de pesquisa para o trabalho, pensou.

Aaron usou as placas de referência do teto para buscar o índice da biblioteca, descobriu que a maioria do que buscava se encontrava em uma sala separada da área onde estava. Anotou os títulos dos livros no bloco de notas e começou a busca.

Em um livro chamado O livro perdido do éden aprendeu mais sobre o livro de Enoc. Era um livro inautêntico do Antigo Testamento, escrito em hebraico cerca de 1 a.C., a versão original se perdeu cerca do século IV d.C. e só sobreviveram alguns fragmentos em um vilarejo chamado Bruce que tinha uma copia de Abscede no ano de 1773, provavelmente a partir de uma versão dos antigos gregos. O que sucedeu foram algumas passagens antigas de Enoc, Aaron foi para a conclusão... que não eram os anjos que escolheram descer do céu para ter relações com as filha da terra. Pois naqueles dias os filhos dos homens se multiplicavam e nasciam filhas muito belas. E quando os anjos, os filhos do céu as viram, se encheram de desejo e disseram uns aos outros: “Vamos escolher esposas entre a raça humana e teremos filhos”. Aaron estava surpreso. Nunca tinha ouvido falar de tal coisa antes. Seu conhecimento de anjos se limitava a seres que estampavam os cartões de festas ou nos vitrais das igrejas, com mulheres charmosas em vestidos brancos, e crianças com asas e auréolas sobre suas cabeças.

Fascinado ia consultar a lista de livros que tinha que examinar quando percebeu que estava sendo observado. Girou rapidamente em sua cadeira esperando ver o mendigo louco apontado para ele com seu dedo sujo e chamando-o de Nefilim uma outra vez, mas ao invés disso se surpreendeu em ver Vilma Santiago. Ela lhe deu o mais doce dos sorrisos e entrou tranquilamente na sala.

– Pensei que era você – disse ela com um leve aceno.

– Sim, sou eu – disse Aaron nervosamente levantando de sua cadeira. – Estou fazendo algumas coisas, você sabe, coisas para o trabalho de investigação da Sra. Mullholland... – Vilma o olhou estranhamente e deixou de falar, temendo que seu nariz tivesse começado a escorrer algo pior. – Algo... algo vai mal? – Perguntou fungando o nariz rapidamente.


A garota negou com a cabeça sorrindo de orelha a orelha. – Não é nada disso – disse alegremente. – Eu não sabia que você falava português – disse ela. Aaron confundiu-se a princípio, perguntando-se como ela sabia de seu novo poder. Então percebeu o que havia acabado de dizer.

– Eu... acabo de falar português? Verdade?

Vilma riu e tapou a boca com sua delicada mão. – Sim, sim, e devo admitir que você fala bastante bem, onde aprendeu?

Não tinha ideia do que dizer então deu de ombros – Suponho que sou bastante bom com idiomas!

Vilma acenou – Sim, sei que é.

Teve um momento de silêncio incômodo e logo olhou os livros que estavam enfileirados na mesa. – É só algumas coisas que estou olhando para que me dêem ideias. Não tenho nada decidido ainda, mas...

Ela olhou um livro que se chamava Anjos: de A a Z e começou a folheá–lo. – Eu gosto desse – disse enquanto passava as páginas. – Tudo o que você gostaria de saber sobre anjos e tem uma seção na parte final do livro com figuras ilustradas. Ela levantou o olho do livro e – Realmente acredito que esse é meu livro favorito – Vilma colocou o livro sobre a mesa e começou a olhar o resto. – Eu gosto de tudo o que tem a ver com anjos. – Colocou a mão dentro de sua camiseta e pegou algo delicado de ouro. – Olha isto – Aaron olhou e viu que era um pingente de anjo.

– É realmente bonito – disse olhando o anjo de ouro dela. Mas não era o único bonito.

– Obrigada – Vilma o colocou a corrente dentro de sua camiseta. – Eles me encantam, eles me fazem sentir segura, sabe?


Viu–se sorrindo ali enquanto encarava Vilma através dos livros. Tinha que ser algum tipo de intervenção divina. Mas quais eram as chances?

– É sobre isso que vai fazer seu trabalho? – Vilma perguntou excitada, interrompendo seus pensamentos.

– Não sei... sim, talvez – murmurou, seguro da sua resposta no fim disse. – Talvez faça. Parece que poderia ser muito interessante.

Ela sorriu e começou a falar sobre o tema. – É fascinante, quando eu era pequena e vivia no Brasil minha tia contava histórias de como anjos visitavam as aldeias disfarçados de mendigos e... – Vilma deteve sua historia e olhou para o outro lado. – Sinto em te aborrecer, é que eles me parecem muito interessante e não tenho a oportunidade de falar com alguém sobre esse tema. – Parecia envergonhada, de repente estava outra vez tranquila colocando as mangas de sua jaqueta para cima.

– Não foi nada – disse Aaron com um sorriso que esperava não parecer um idiota. – Talvez se você não estiver muito ocupada podia me ajudar com meu trabalho. – Seus olhos abriram de emoção, – Podia me contar essa história que sua tia te contava no Brasil e poderíamos coloca-la no trabalho, seria realmente fascinante. Se não se importa em me ajudar claro... – Aaron não podia crer no que estava fazendo, ele estava pedindo ajuda a garota mais linda da escola de Lynn. Sou um idiota, pensou.

– Isso seria muito divertido – disse Vilma assentindo. – Inclusive tenho alguns livros que podia utilizar.

Aaron estava em choque total e absoluto. A garota de seus sonhos tinha aceitado ajuda–lo em seu trabalho e parecia entusiasmada com ele. Não tinha a menor ideia do que dizer, medo do que falaria alguma estupidez e colocaria tudo a perder. Vilma também caiu em silêncio total, nervosa olhando os livros em cima da mesa, girou e olhou seu relógio. – Bom, tenho que correr para pegar o ônibus – disse a garota caminhando para a porta. – Talvez pudessemos falar um pouco mais sobre o trabalho segunda-feira na escola. Vai segunda, certo?


Ela sorriu, não podia acreditar, ela tinha se dado conta que ele não tinha ido para a escola hoje, talvez ela achasse ele gato.

– Eu vou, todos os dias – ele disse.

Ela riu e se despediu abanando a mão enquanto saia da sala. – Nos vemos segunda Aaron, tenha um bom fim de semana.

Não pôde fazer nada a não ser ficar ali parado. Isso quase foi o suficiente para parar de pensar tudo sobre os sonhos perturbadores, suas novas habilidades linguísticas e as paranoias do mendigo louco. Quase.


Samuel Chia estava deitado em sua cama, e sonhava voar. De tudo o que havia perdido, que era muito, ainda lhe restava seus sonhos. Uma lembrança de algo bonito, de um tempo antes de sua queda.

Sam virou-se e abriu os olhos ao novo dia. Não precisava olhar nenhum relógio para saber que horas eram, ele sabia que eram exatamente 8 horas da manhã, pois era a hora em que sempre sonhava em voltar a subir.

Ficou em silêncio enquanto ouvia os sons de Hong Kong, muito acima de seu sótão. Se quisesse poderia ouvir as conversas das pessoas na rua, mas hoje isso não lhe atraia muito. Levantou-se da cama e caminhou nu pelo assoalho de mogno; olhando suas enormes janelas que davam uma ampla visão da cidade.

Um Junco chinês com as proteções desenroladas chamou sua atenção, estava navegando com elegância sobre as águas verde-esmeralda da baía de Vitória. Em sua vida havia vivido em muitos lugares, mas nenhum tinha lhe proporcionado consolo até que chegou a este. China falou para ele que tudo iria ficar bem e na maioria dos dias acreditava que era verdade.

Pressionou a testa contra o vidro grosso e deixou que seu corpo sentisse o frio. Sua pele nua respondeu eriçando seu cabelo, embora as sensações humanas fossem toda uma experiência, continuava desejando todos os dias o que uma vez já teve e que perdeu quando se recusou a participar da Grande Guerra. Com sua cabeça pressionada contra a janela, abriu os olhos e contemplou o panorama que tinha diante de si. Sim, ele desejava a glória que uma vez foi sua, mas cada dia esta vista maravilhosa o seduzia com a sua vitalidade. Uma distração que às vezes ajudava-lhe a aceitar mais facilmente seu destino. Às vezes.


Sam colocou seu manto de seda preta desfrutando das sensações que lhe proporcionava o tecido contra sua pele quente, quando tocou o telefone, ele sabia quem era, não porque tinha algum poder psíquico e sim porque ela chamava a cada manhã, na mesma hora.

Joyce Woo era a mulher humana que conduzia seus negócios, incluindo seus Clubes Noturnos, Cassinos e Restaurantes. Sam caminhou do quarto para sua cozinha e deixou que a secretária eletrônica pegasse a mensagem. Queria entreter–se em ver se poderia adivinhar que problemas ela queria lhe contar. Que trivialidades iam incomodá-lo desta vez? Uma falta inesperada de trufas em seu restaurante? Ou que a polícia queria uma compensação maior por se fazer de cegos para alguns negócios ilegais que eram feitos em seus Clubes? Ou talvez finalmente, ia confessar-lhe que vinha roubando–o nestes últimos meses?

Sam abriu uma garrafa de Dom Perignon12 e bebeu enquanto ouvia a mensagem. "Bom dia Sr. Chia, é a Joyce,", disse uma voz de mulher em cantonês. "Na noite passada, houve um incidente no Clube Pearl que talvez precise voltar a falar com o chefe de polícia. Darei-lhe mais detalhes quando você vier ao escritório, só queria que soubesse.". Podia ouvir como virava a página do caderno onde havia escrito suas notas. "Lembro-lhe que tem uma reunião com o comitê do projeto Pier Road."

Dirigiu-se ao banheiro pensando que já tinha terminado quando ela começou a falar de novo. Parou no meio do corredor para ouvir. "Ah, sim, um velho amigo seu passou esta manhã pelo escritório, o Sr. Verchiel. Ele disse que ficaria na cidade por pouco tempo e esperava poder ver você."

– Verchiel – sussurrou. Deixou cair à garrafa no chão, quebrando e espalhando todo seu conteúdo pelo chão.

"Ele disse que entrará em contato com você, há alguns outros problemas, mas podemos falar deles quando você vier ao escritório. Bom dia senhor."

Desligou a secretária eletrônica e permaneceu imóvel. 12

Marca de champanhe.


Verchiel.

Dirigiu-se ao seu quarto e abriu as pesadas portas de madeira de seu armário. Tirou o manto e pegou a roupa que ia usar. Não tinha tempo de tomar banho e não pensava em ir ao escritório. Tinha que sair de Hong Kong, tão simples como isso. Se Verchiel o havia encontrado, então não havia dúvida, Os Poderosos tinham chegado à China. E se esse era o caso, então ninguém do seu tipo estaria a salvo.

Sam terminou de abotoar sua camisa de algodão branco, colocou as calças e fechou o cinto, pensou em alertar os outros do perigo, mas decidiu não fazê-lo, porque certamente já seria muito tarde. Colocou seus pés descalços em um par de sapatos italianos e um blazer esportivo azul. Iria para a Europa, França seria suficiente. Ficaria em Paris até que Verchiel e seus cães saíssem da China. Joyce poderia ocupar–se de seus negócios até que voltasse. Colocou a carteira no bolso do blazer e chamou o motorista. Foi para o aeroporto para alugar um avião e ligaria para Joyce do avião.

– Vai sair Samchia? – Perguntou uma voz de algum lugar da sala. Surpreendido deixou o telefone cair e virou-se para fazer frente a voz.

– Que decepcionante – disse um homem que estava de pé na sala de estar diante da TV de 60 polegadas. – Tenho passado muito tempo te procurando. – Havia uma criança pequena e suja que apertava seu rosto contra a TV.

– Desculpe, prefere ser chamado por teu nome de macaco, Samuel Chia? – Perguntou Verchiel, enquanto deslizava suas mãos dentro de sua jaqueta e avançava lentamente até ele. A criança o seguiu obedientemente.

– O que você quer? – Sam lhe perguntou.

Verchiel percorreu com os olhos a habitação de luxo. – Você acha que isso te esconde de mim? – Perguntou sinalizando uma série de símbolos misteriosos pintados nas paredes do sótão. Para o olho humano parecia mera decoração, mas na realidade era muito mais do que isso. A criança selvagem havia pulado em cima do sofá de Sam, pulando de um lado para outro


enquanto cantarolava para si mesmo. – O feitiço de ocultação deve ter feito horas extras com todas essas mudanças – disse Verchiel, fazendo referencia à recente mudança do governo chinês. – Meu cachorro capturou seu cheiro quando chegamos – Deu uns tapinhas na cabeça do menino. – Você vive como um rei entre os animais – disse ele, enquanto lhe olhava com seus olhos negros. – Por isso abandonou o paraíso? – As palavras de Verchiel doeram–lhe como se tivessem lhe golpeado com um chicote.

– Você sabe que isso não é verdade Verchiel, saí porque não queria tomar partido, eu gostava de Morningstar, amava a todos meus irmãos, mas não podia pensar em outra solução senão fugir. – Sam abaixou a cabeça, mesmo depois de tanto tempo suas ações lhe envergonhavam.

– Você admite ser um covarde – disse Verchiel com um grunhido enquanto se movia para mais perto de Sam. – Se tão somente todo o resto pudesse ser tão honesto. – O telefone começou a tocar novamente e Verchiel centrou sua atenção nele.

"É a Joyce de novo senhor. O inspetor Dalton acaba de telefonar para perguntar se poderia mudar a reunião de segunda-feira para..." – Um jato de luz branca surgiu da mão de Verchiel e derreteu o telefone enquanto este balbuciava, pedaços de plástico preto saíram espalhados.

Assustado, o garoto pulou do sofá e correu para se esconder, como se sentisse a violência que estava prestes a explodir. – O som de suas vozes... – disse Verchiel, apontando sua orelha com a mão direita. – Como um murmúrio de almas, me incomoda muitíssimo. – Verchiel aproximou-se ainda mais.

Sam cerrou os punhos. Uma raiva que nunca antes havia experimentado corria por seu corpo. Pensou.

– Vou te perguntar de novo, porque você está aqui?

Verchiel inclinou a cabeça. – Não é óbvio irmão? – Perguntou. – Não me esperava depois de sua queda? Sim – sussurrou. – Passaram–se milhares de anos – Verchiel sacudiu a


Cabeça. – Um segundo, uma hora, um milênio, o tempo não significa nada para Os Poderosos – disse ele com uma fria indiferença. – Vocês têm atentado contra nosso pai e o tempo não muda nada.

Sam começou a retroceder. – Não tenho sofrido o bastante? Meu exílio auto-imposto neste mundo me ensinou que... – A mão de Verchiel elevou–se em um gesto para silenciá-lo.

– Pare de se lamentar, não quero te ouvir. – O líder dos Poderosos apontava para as janelas que estavam atrás dele. – Você fala como um deles. – Havia repulsa em sua voz.

Sam sabia que provavelmente não serviria para nada, mas se havia aprendido algo dos seres humanos é que não perdia nada por tentar.

– Mas não basta que meu pai me tenha negado minha voz, que meu aspecto não seja mais que uma sombra de minha antiga glória? Não conta para nada? – Tocou seu peito enquanto continuava. – Mesmo que não acredite, tenho sofrido muito.

Verchiel olhou ao seu redor, um sorriso cruel começou a se formar em seus pálidos traços. Olhou-o com um olhar glacial.

– Tem sofrido muito, é? – Perguntou quando seus braços começaram a desvanecer-se. – Seu sofrimento nem sequer começou.

Sam experimentou uma estranha sensação de euforia misturada com terror ao ver as enormes asas nas costas de Verchiel. Uma vez teve asas poderosas, lembrou-se com uma tristeza esmagadora. Asas que poderiam ter lhe livrado da sentença de Verchiel. Mas isso faz muito tempo, antes era uma força poderosa, agora não era mais do que uma sombra atrofiada de uma antiga glória.

Verchiel começou a mover suas asas ritmicamente e a sala encheu-se de repente com ventos tão fortes como as tempestades tropicais.


– Verchiel, por favor – suplicou Sam pouco antes que um cinzeiro de cristal golpeasse seu rosto. Abriu–se um buraco acima de seu olho direito, o corpo de Sam rendeu-se e deixou de lutar contra as correntes. O vento jogou-lhe contra a grande janela e ouviu que algo quebrava, não sabia se era o vidro ou seus ossos. Verchiel bateu suas asas com uma fúria avassaladora.

– Não há piedade para o que você fez Samchia, sua hora chegou, igual aos outros que caíram. – Sam tentou afastar-se da janela, mas a força do vento era muito grande. Quis falar e lhe dizer que estava verdadeiramente arrependido de seus pecados, mas o sangue estava escorrendo por seu rosto e enchendo-lhe a boca, fazendo-o calar. Nunca havia visto seu próprio sangue e agora, estava enchendo-lhe a boca com seu gosto ruim. O vendaval começou a penetrar na espessura de 2,54 cm da janela, formando uma teia de aranha por toda sua superfície. A janela que tinha sido construída para suportar as fortes tempestades do Oceano Pacífico não foi páreo para o poder de Verchiel.

Mais uma vez lutava para falar. – Verchiel... – Conseguiu gritar sobre o som das asas de seu irmão.

Verchiel continuou avançando, batendo suas asas mais e mais rápido. – Não posso ouvir – gritou em resposta.

Sam gritou com mais força. – Desculpe – Ao ver o olhar de repulsa de Verchiel, supôs que ele havia lhe escutado. Uma das cadeiras cromadas da cozinha elevou-se como se fosse feita de estanho e foi jogada pelo ar em direção a ele. Sam fechou os olhos vendo o horrível rosto de Verchiel enquanto este batia suas asas impiedosamente. Seu tempo chegara ao fim, disso tinha certeza. O que mais tinha temido desde que caiu na terra foi finalmente reclamá-lo.

Samuel Chia, anteriormente Samchia da Milícia Celestial, mudou sua mente para outra parte, outra época, antes da guerra, antes das eleições impossíveis, antes da queda. A cadeira não se despedaçou diretamente nele, bateu na janela da esquerda rompendo-a e cedendo à força das asas de Verchiel. Em um abrir e fechar de olhos o vidro rompeu–se em uma chuva de vidros afiados e Sam caiu. Enquanto chegava seu fim, ele sonhou. Sonhou em voar.


Gabriel correu alegremente até a sala de jantar onde se reuniam os Stanley para a reunião das sextas–feiras a noite, onde alugavam um filme e comiam comida chinesa entregue a domicílio. Estava contente de levar seu brinquedo de pelúcia de cor púrpura em sua boca.

Aaron sentou-se no chão com Steve que construía uma torre com blocos duplos de muitas cores. De vez em quando, virava-se para ver a televisão onde estava o Sr. Schwarzenegger. O fato de que fosse a terceira vez que seu pai adotivo havia alugado esse filme nos últimos meses não lhe incomodava, lhe distraía, qualquer coisa para deixar de pensar sobre os estranhos acontecimentos dos últimos dias. Gostaria de poder esquecer-se de tudo, exceto da conversa com Vilma Santiago.

O cachorro deixou cair o brinquedo roxo diante de Aaron, aproximou-se e derrubou a torre de blocos. – Gabriel – disse Aaron chateado, puxando o brinquedo para um lado e tentando reconstruir a estrutura.

– Brincar com pateta uva agora – exigiu Gabriel movendo sua grossa cauda musculosa. Aaron ignorou-o e ajudou o menino a escolher mais alguns blocos para reforçar a torre.

Gabriel lançou-se para frente agarrando o brinquedo com a boca. Deu-lhe uma sacudida feroz e o brinquedo voou batendo na cabeça de Stephen, caindo entre os montes de blocos não utilizados. – Pateta Uva – disse o cachorro ainda mais forte.

Aaron fulminou-o com os olhos. – Não pateta uva – gritou-lhe asperamente fazendo referência ao apelido do brinquedo. Haviam-lhe colocado porque seu rosto parecia uma enorme uva. – Estou brincando com Steve, vá dormir.

Podia sentir o intenso olhar do cachorro sobre ele, como se tentasse usar seus poderes para influenciar sua mente. Aaron não se preocupou em olhá-lo, esperou até que o cachorro finalmente cansou e se foi.

Gabriel virou–se bruscamente e foi para o quarto. Não queria ouvir o cachorro falar esta noite. A maioria eram os ruídos típicos que os cães fazem, gemidos, grunhidos, latidos... etc, mas para Aaron era um idioma, uma linguagem que facilmente podia entender. Esta noite


queria que fosse como costumava ser. Um latido ou um meneio do rabo era toda a conversa que realmente precisava de seu amigo de quatro patas.

Do sofá Tommy Stanley soltou uma gargalhada, em resposta a uma das frases do herói do filme. – Ninguém faz isso como Arnold – disse seu pai adotivo em voz alta, fazendo uma observação sobre os filmes de ação. – Van Sammes e Seagals brigam bem, mas ninguém pega os caras maus como Arnold – disse o nome com um sotaque zombeteiro austríaco e voltou ao filme, que se tratava de um exército de um só homem que conseguia resgatar uma pequena menina dos caras maus.

Aaron ouviu o som de umas unhas fazendo click contra o linóleo da cozinha e, em seguida, um som estranho. Nem sequer tinha que ver o que o cachorro trazia de sua caixa de brinquedos, apenas ao ouvir sabia o que era. Porco Squeaky estava a caminho. Gabriel trazia um porco rosa de pelúcia em sua boca. Com suas mandíbulas apertou varias vezes o corpo do porco e este emitiu um som muito parecido ao que faz um porco grunhido. Como havia feito antes, o cachorro aproximou-se e deixou cair o brinquedo no chão.

– O porco é melhor – disse ele com uma pitada de emoção. – Brincar com o porco Squeaky – Aaron sentiu como aumentava seu temperamento. Estava irritado com tudo, com todas as coisas que lhe tinha acontecido, com o cachorro por lembrar-lhe que as coisas já não eram iguais a antes, consigo mesmo por estar irritado.

– Está latindo muito esta noite – disse Lori da cadeira, afastando a vista do livro que estava lendo. Quando viu que seu marido tinha alugado esse filme decidiu ler a novela romântica que havia comprado. – Talvez precise sair.

– Não – disse Aaron olhando feio para Gabriel. – Ele não quer sair só quer ser um chato.

Gabriel estremeceu como se tivesse sido espancado. Piscou várias vezes e abaixou as orelhas. – Não sou um chato – reclamou o cachorro enquanto saía da sala com o rabo baixo e entre as pernas. – Só queria brincar com Aaron. Cachorro mau. Vou dormir. Cachorro mau – virou-se e saiu da sala.


As palavras de Gabriel o fizeram sentir-se mal. Como pude ser tão cruel? Aaron pensou com desgosto. Lá estava ele, com a capacidade única de entender exatamente o que o cachorro queria, e não lhe prestava atenção, estava tão absorto em seus próprios problemas que nem sequer queria ceder a um simples pedido do cachorro. Estava envergonhado.

– Gabriel – gritou. Aaron teve que chamar-lhe duas vezes antes que finalmente aparecesse.

Parou, olhando-o do batente da porta. – Venha aqui – disse, batendo no chão com as mãos e sorrindo. – Venha aqui.

Gabriel se aproximou de Aaron e começou a lamber-lhe o rosto. – Não sou chato, certo? – Perguntou entre lambidas.

– Não – respondeu Aaron, tendo o cão tolo entre suas mãos e olhando-o diretamente em seus olhos castanhos. – Você não é chato, é um bom garoto.

– Sou um bom garoto – repetiu o cachorro com alegria e voltou a lamber-lhe o rosto novamente.

Gabriel deixou-se cair de lado para que Aaron lhe esfregasse a barriga e Stephen levantou os olhos de seus blocos. Aaron olhou para o menino e sorriu. – Ei homenzinho, o que foi? – perguntou ao menino autista. A mudança de expressão do menino poderia ser descrito como o surgimento do ardente sol através de uma névoa espessa na tempestade. Seu rosto animou-se, geralmente de cor branca, enquanto seus olhos brilhavam com a luz da consciência. Um sorriso tão brilhante que Aaron alegrou–se por sua intensidade.

– Bonito – disse Steve, estendendo a mão.

– Steve? – Perguntou Lori deixando cair o livro. – Tommy olhe Stephen – Mas o som da voz de seu filho já havia atraído à atenção de Tommy. Ambos deslizaram de seu assento para o


chão e viram como seu filho tocava lentamente a bochecha de Aaron com sua pequena mão. O sorriso irradiava em seu rosto, geralmente sem expressão.

– Bonito. – Repetiu o menino. – Bonito. – e tão rápido como havia aparecido à consciência no menino, tinha sumido. As nuvens voltaram a cobrir o sol. Steve não mostrou nenhum sinal de que lembrasse o que acabara de fazer, simplesmente voltou sua atenção para os blocos.

– Ele falou com você – disse sua mãe, agarrando a Aaron pelos ombros e apertando-o com entusiasmo. – Ele realmente falou com você.

Tommy ajoelhou–se ao lado de seu filho com um sorriso de orelha a orelha. – O que acha que isso significa? – Perguntou o homem emocionado. – Ele não havia aberto a boca em dois anos – tocou a cabeça do filho com amor. – Isto significa alguma coisa, certo? – Perguntou em voz alta sem afastar os olhos de Steve. – E se começar a falar outra vez. – Ambos os pais começaram a brincar com o menino e seus blocos, com a esperança de obter alguma outra resposta, alguma coisa, qualquer coisa para demonstrar que não tinha sido apenas um golpe de sorte. Stephen continuou em seu mundo silencioso.

Aaron se levantou. – Quer uma maçã? – Perguntou a Gabriel. O cachorro ficou de pé e abanou o rabo.

– Maçã, sim – disse – Fome, sim – Ao sair da sala não podia desfazer-se da incômoda sensação de que o comportamento incomum de Steve tinha algo a ver de alguma forma com as experiências que ele havia tido nestes últimos dias.

– Bonito – respondeu Gabriel, olhando de lado. – Ele disse bonito – Aaron cortou a maçã em tiras.

– A maneira com que olhava... era como me olhava o velho no parque – deu um pedaço de maçã para o cachorro, este o devorou avidamente. Aaron viu o mendigo em sua mente, apontando-o. Você é um Nefilim, havia lhe dito. Primeiro, sou um Nefilim, e agora sou bonito, disse a si mesmo enquanto se apoiava no balcão.


– Mais maçã? – Perguntou Gabriel, uma espessa baba caía de sua boca para o chão. Aaron deu-lhe outro pedaço e comeu um. Algo estranho estava lhe acontecendo, percebeu que não tinha outro remédio senão descobrir do que se tratava. Pegou outro pedaço e deu o restante para Gabriel.

Era uma loucura, mas estava desesperado para saber o que estava acontecendo. Tinha que ter uma oportunidade. Amanhã, antes de ir para sua consulta com o Dr. Jonas, tentaria encontrar o mendigo.

– Ei Gabriel – disse ao cachorro que continuava mastigando. – Quer vir comigo amanhã ao campo?

Engolindo, o cachorro o olhou. – Mais maçã? – Perguntou.

Aaron sacudiu a cabeça. – Não, a maçã acabou.

O cão pareceu pensar por um momento e respondeu. – Não maçã. Bem, vamos ao campo.

O que estaria pensando? Aaron franziu a testa.

Recuou e jogou-lhe a bola de tênis. Gabriel correu através do campo perseguindo a bola. – Pegarei a bola – ouviu o cachorro dizer, animado à medida que se aproximava do prêmio amarelo fluorescente.

Era uma bela manhã de primavera, só com um toque de inverno que ainda resistia desde umas poucas semanas. Gabriel dava cambalhotas com a bola na boca. Aaron surpreendeu-se do pouco que havia demorado em fazer o cão feliz, desde que adquiriu esta


estranha habilidade de comunicar-se com ele, quando dava um palmadinha em sua cabeça, dando-lhe um pedaço de queijo, chamando-o de bom garoto...

Simplicidade.

É muito impressionante obter tanto por tão pouco, pensava, enquanto observava o cachorro correr até ele.

– Dá–me a bola – Aaron pediu, jogando para ver se ele podia pegar. Gabriel rosnando, os músculos de suas patas traseiras contraídas pela antecipação. Aaron precipitou-se para frente e o cão escapou para evitar que o segurasse. – Vem aqui, cachorro louco – disse com uma gargalhada perseguindo o animal. Uma parte dele não estava desapontada por não ter encontrado o velho. Precisava de uma pausa dos últimos acontecimentos, não sabia se estava preparado para ouvir essas perguntas estranhas com essas respostas ainda mais raras.

Colocou a corrente no cachorro e o animal rosnava para ele. – Agora vou pegar a bola. – O rosnado de Gabriel ficou mais alto, mais alto, mais animado, enquanto lutava para se libertar. Aaron pegou a bola tentando libertá-la da boca do cachorro. – O prêmio é meu – Proclamou Aaron enquanto segurava a bola no alto.

– Não é um prêmio – disse Gabriel capaz de voltar a falar outra vez. – É apenas uma bola.

Aaron olhou para a bola coberta de barro, com nojo enquanto enrugava o nariz. Jogava a bola de uma mão a outra vendo como o cachorro movia a cabeça de lado a lado. – Aposto que a quer – brincou.

– Quero essa bola – respondeu Gabriel, hipnotizado com seu movimento.

Aaron fez ameaça de jogá-la, escondendo a bola debaixo do braço, o cachorro saiu em disparada, buscando a nada. Aaron começou a rir ao ver Gabriel procurando, que inclusive,


olhava para cima para o caso da bola ainda não ter caído. – Yooohoo – chamou ao cachorro. Gabriel olhou em sua direção e Aaron levantou a bola. – Procurando isto?

Surpreso, o cachorro voltou correndo. – Como pegou a bola? – Perguntou assustado.

Aaron sorriu. – Mágica – disse rindo entre dentes.

– Mágica – repetiu Gabriel com um sussurro suave, assustado, com os olhos ainda olhando para a bola.

Algo atrás de Aaron distraiu a atenção do cachorro. – Quem é? – Gabriel perguntou.

– Quem é quem? – Aaron se virou, no início não reconheceu o homem sentado no banco ao sol. Então, saudou-lhe e conseguiu reconhecer quem era. Aaron sentiu que seu coração se acelerava, sua mente encheu-se de perguntas que não sabia se fazia ou se queria ouvir as respostas.

– O que foi? – Gabriel perguntou com preocupação em sua voz.

– Nada – disse sem desviar o olhar do homem sentado no banco.

– Então por que você tem medo?

Aaron olhou para o cão, surpreso pela pergunta. – Não tenho medo – disse, insultado pela insinuação do cão.

O cachorro olhou-o e depois observou o estranho homem. – Medo do estranho? – Te digo que não tenho medo – respondeu Aaron com ansiedade e começou a caminhar até o homem.


– Você cheira a medo – salientou o cachorro enquanto caminhava ao seu lado. – Cheira a velho – disse ele – Velho e diferente – acrescentou entre as correntes de ar.

Aaron pôde ver que o homem sorria com sua longa cabeleira branca, balançando com o ar fresco, próprio da primavera.

– Bonito dia – disse o velho em Inglês, em vez da antiga língua que tinha estado usando quando se conheceram.

Gabriel correu para o homem, abanando o rabo. – Venha aqui – O cachorro saltou colocando suas duas patas sobre o banco e começou a lamber o rosto do desconhecido, como se fossem velhos amigos. – Olá Gabriel – disse-lhe, enquanto o cachorro cheirava-lhe o rosto, o pescoço e as orelhas. – Quem é você?

– Meu nome é Ezequiel, mas pode me chamar de Zeke – respondeu o homem, dando umas palmadinhas na cabeça do cão.

– Está dizendo para mim ou para o cachorro? – perguntou Aaron enquanto agarrava Gabriel pela coleira e puxou-o suavemente. – No chão Gabriel – disse em um tom cortante. – Comporte-se.

O cão ficou em silêncio, inclinando a cabeça, envergonhado por ter sido repreendido.

– Perguntou–me quem eu era e eu lhe disse – Zeke disse enquanto sentava–se no banco e sorria para o cão. – É um belo animal. Tem sorte em tê-lo.

Aaron acariciou a cabeça do cachorro para tranqüilizá-lo.

Zeke riu e lhe sorriu com malícia.


– Então, o cachorro falou com você?

Zeke lhe devolveu o sorriso. – Falou–me com a linguagem do mensageiro ontem – disse, cruzando os braços. – Não me diga que não pode entender o cão?

Aaron sentia-se como se tivessem lhe dado uma bofetada, um suor frio percorreu seu corpo.

– Quem... quem é você? – Não era a melhor das perguntas, mas era a única que lhe ocorreu naquele momento.

– Zeke – respondeu Gabriel amigavelmente lambendo as mãos do homem. – Zeke, Aaron. Chama-se Zeke. – Zeke sorriu e esfregou o queixo do cachorro. – Tenho razão, certo? – Perguntou o cão, ofegando.

– Sou Zeke, e ele como se chama? Aaron? – O velho limpou a baba do cachorro nas calças e estendeu a mão para Aaron, que hesitou no princípio, mas depois lhe deu um aperto de mãos. – Estou muito feliz em conhecê-lo Aaron, sinto muito por ontem. Te assustei?

– Não foi tanto que você me assustou, e sim o tanto que você me confundiu.

Zeke assentiu, entendendo o que ele queria dizer e falou sobre Gabriel. – Aposto que tem sido bastante estranho para você.

– Como você sabe? – Aaron perguntou, não querendo parecer ansioso. O velho inclinou a cabeça para trás, fechou os olhos e cheirou o ar.

– Como sei que o verão está ao virar a esquina? –Perguntou para si mesmo, deixando que o sol da manhã banhasse seu rosto cinza, sem barbear. O homem não parecia tão velho como tinha pensado em um momento, provavelmente teria uns sessenta anos, mas havia algo


nele, em seus olhos, na maneira em que olhava que o fazia parecer muito mais velho. – Está no ar, garoto – disse Zeke. – Posso cheirá-lo.

– Tudo bem – disse Aaron. – Pode–se cheirar que estou passando por um momento difícil. Isto tem sentido.

Zeke concordou com a cabeça. – Um pouco. Posso cheirar que você está mudando e simplesmente assumo que talvez você tenha algum problema.

Aaron pegou a bola de tênis que tinha no bolso. Os olhos de Gabriel ao ver a bola abriram–se como se fosse um desenho animado.

– Não posso acreditar que estou tendo essa conversa – disse, enquanto mostrava a bola para Gabriel e a lançava através do campo. – Vai brincar.

Gabriel se foi correndo atrás da bola.

Os dois pararam, olhando para o cachorro em silêncio. Aaron queria ir embora, mas algo o detinha. Talvez fosse a possibilidade de encontrar uma explicação.

– O que te aconteceu primeiro? – Zeke perguntou, quebrando o silêncio. – Foi coisa de línguas? Ou o cão começou a falar e você pensou que tinha perdido a razão?

Aaron não queria responder, mas viu que suas palavras saíram incontrolavelmente. – Há algumas crianças na escola que falam Português, não sei como, mas de repente eu podia entende-los como se estivessem falando Inglês.

Zeke assentiu compreendendo o que ele estava dizendo.


– Não importa em que idioma te falem, sempre os poderá entender. Você será capaz de entender e falar como se fosse sua língua nativa, é uma das suas vantagens.

Gabriel estava correndo em círculos. – Peguei a bola – gritou, moveu a bola pela grama e a fez rolar para em seguida, jogar-se sobre ela com vigor incansável. – O idioma não tem que ser nem sequer humano, como já pôde comprovar – O velho olhou-o. – Espere ouvir uma árvore falar.

– É uma loucura – murmurou Aaron, confuso.

– É normal que, se pode ouvir animais, pode ouvir as árvores.

– Não estava falando de árvores – disse Aaron cada vez mais nervoso.

– Ahhh, você está falando de tudo isso das línguas e essas coisas? –. Perguntou Zeke. – Bom, será melhor que você se acostume, é o que você é – disse o velho com total tranquilidade.

Aaron se virou para ver o cachorro brincar – Acostumar-me a esta loucura? Acho que não.

Zeke sacudiu a cabeça e levantou as mãos. – Não é uma loucura, você é um Nefilim, não tem escolha.

Essa palavra outra vez. Essa palavra que havia se incrustado em sua cabeça e não lhe deixava em paz.

– Por que continua me chamando assim? – perguntei-lhe, sentindo tenso a espera da resposta.


O velho passou as mãos pelo cabelo branco, inclinou-se para frente e as apoiou nos joelhos. – Os Nephilins são filhos nascidos de mulheres humanas e anjos.

Aaron lhe interrompeu, não queria perder tempo com coisas que já sabia. – Eu sei, procurei na biblioteca, mas me diga o que tem a ver comigo?

– É um pouco complicado, se você me der meio segundo e me deixar falar, você entenderá.

Olhou para Aaron com um olhar intenso e calmo, um olhar que confirmou que ele não era um homem típico. Era um velho tolo, mas parecia que uma vez que era alguém importante.

Gabriel se aproximou de uma árvore e ficou cheirando suas raízes.

– Desculpe – disse Aaron. – Vá em frente.

Zeke esfregou o queixo com barba por fazer, enquanto pensava por onde começar.

– Muito bem, os Nephilins são os filhos nascidos de anjos com mulheres mortais. Não é muito comum, na realidade, as mães têm uma gravidez complicada e muitas vezes não conseguem sobreviver ao parto, mas há vezes em que quando uma criança Nefilim sobrevive...

Gabriel retornou e deixou cair à bola, agora coberta de musgo, aos pés de Zeke. – Olha, Zeke, bola.

Zeke se agachou e pegou-a, passando de mão em mão, enquanto Gabriel a olhava.

– São algo incrível, parte celestiais, parte humanos, uma das criações mais impressionantes do Todo-Poderoso. – O velho quicava a bola uma e outra vez enquanto o


cachorro lhe observava, movendo a cabeça para cima e para baixo. – Os Nephilins conseguem ter uma infância normal, mas uma vez que alcança certo grau de maturidade, a natureza celestial começa a surgir. Aí é quando começam os problemas, como se as duas partes já não se entendessem bem.

Zeke atirou a bola e Gabriel saiu correndo. – Parece que acontece em torno dos 18 ou 19 anos.

Aaron sentiu que as cores começavam a levantar–se e virou-se para o velho.

– Está tentando me dizer que... que minha mãe dormiu com um anjo? Pelo amor de Deus!

Gabriel voltou com a bola, sentindo o mal-estar crescente de seu dono. O cão cheiroulhe o pé, viu que as coisas não estavam bem e foi até Zeke.

– Você sabia sobre seu pai? – Zeke perguntou, sem pegar a bola.

– Não me importa – gritou Aaron, dando as costas para seu cão e para o velho.

Podia ver seu carro estacionado do outro lado e a única coisa que pensava era em sair correndo.

Podia sentir como começava a cair em uma montanha russa emocional, parecia como se Zake tivesse lhe golpeado com um martelo. Sua mãe havia morrido no parto e a identidade de seu pai morreu com ela.

– É aí onde você se engana, Aaron – disse Zeke atrás dele. – Sim, tem importância.


Aaron estava em frente dele, de repente, sentiu-se fraco e sem forças.

– Há um grupo de anjos chamado Os Poderosos. Eles são muito antigos, a primeira criação de Deus.

Gabriel olhava para algumas grandes gaivotas. – Pássaros grandes – murmurou enquanto arrastava-se como se fosse um predador temível.

Zeke levantou–se e se aproximou de Aaron. – Quero que me ouça com muita atenção – olhando-o com intensidade. – Os Poderosos são como a polícia secreta de Deus, como suas tropas de ataque. Seu trabalho é destruir tudo aquilo que seja ofensivo para com o Criador.

Aaron estava perplexo. – Não te entendo – disse sacudindo a cabeça.

– Os Poderosos decidiram há muito tempo que os Nephilins eram ofensivos. Uma praga aos olhos de Deus.

– Os Poderosos matam os Nephilins?

Zeke assentiu lentamente com uma grave expressão em seu rosto. – No início foi um verdadeiro massacre, a maioria eram crianças que não tinham o porquê morrer. – O velho agarrou-lhe fortemente o braço. – Quero que me ouça com muita atenção, sua vida depende disso – o aperto de Zeke era firme e estava começando a doer. Aaron tentou se afastar, mas o homem era muito forte. – Ainda continuam matando, Aaron, você entende o que quero dizer? Os Nephilins continuam nascendo e quando começam a mostrar sinais de sua segunda natureza, Os Poderosos os encontram e os matam.

Aaron finalmente se soltou. – Solte-me – rosnou.

– Eles não têm piedade. A seus olhos você é um monstro da natureza, algo que nunca deveria ter nascido – Aaron começava a sentir muito medo.


– Eu tenho que ir – disse ao homem enquanto procurava seu cachorro no campo. Assobiou e viu Gabriel ao longe, quando levantava a pata contra uma lata de lixo. O cão começou a correr em direção a ele.

Tem que me ouvir Aaron – Zeke lhe advertiu. – Suas habilidades estão despertando e você não toma cuidado.

Aaron virou–se e aproximou-se do velho com os punhos cerrados pela raiva. Não podia se conter. Estava assustado e irritado porque começava a acreditar na história selvagem de Zeke. Queria respostas, mas não queria que lhe levassem a um beco sem saída.

– O quê? – Gritou ele. – Se não tiver cuidado com esses anjos de ataque então descerão voando e me matarão? – Aaron de repente lembrou–se do sonho que havia tido, dando-lhe ânsias de vômito.

– Sei que é uma loucura – disse Zeke. – Mas você tem que entender. Isto vem acontecendo há milhares de anos e...

– Cale-se. – Aaron explodiu. – Cala essa boca estúpida – virou–se e começava a ir embora quando lhe respondeu. – E você, como sabe de tudo isso, Zeke? Como sabe sobre os Nephilins e que Os Poderosos têm a intenção de me matar?

O velho olhou-o perfeitamente calmo. – Acho que sabe a resposta.

Aaron soltou uma gargalhada com um som cruel que lhe surpreendeu.

– Deixe-me adivinhar. Você é um Nefilim, também?

Zeke sorriu tristemente e negou com a cabeça. – Não sou um Nefilim – disse ele e começou a desabotoar o casaco.


Ela usava um suéter folgado verde e uns jeans desbotados. – Sou um anjo caído, um se quiser ser mais específico, – disse enquanto se aproximava. Arrancou o suéter para expor sua carne incomumente pálida e algo mais. Uma protuberância estranha, carnuda, com cerca de uns 6 cm de comprimento que se sobressaia da escápula do velho. Grigori13,

Estava coberta com o que parecia ser uma fina camada de pêlo branco, não, melhor, plumas, plumas brancas. Aaron saltou para trás quando a protuberância começou a se mover para cima e para baixo como uma barbatana.

– Que diabos é isso? – Aaron perguntou fascinado e ao mesmo tempo repugnado por ver apenas os últimos vestígios do que era antes.

– Isso é tudo o que me resta delas – disse Zeke em voz baixa, emanava uma tristeza quase palpável. – É tudo o que resta das minhas asas.

13

Anjos enviados à Terra, aparentemente apenas para vigiar as pessoas


– Você sabe o que, já tive o suficiente – disse Aaron, levantando as mãos e se afastando de Zeke. – Já terminei. Sentia-se como se estivesse caindo mais e mais para as profundezas da loucura, só com a adição de Zeke, tinha um companheiro para a viagem. Inclusive a voz da razão dentro de sua cabeça começava a desvanecer.

Talvez tudo seja verdade, pensou ele. Como poderiam aquelas coisas estar em suas costas, mas os tocos das asas... Ele queria dar em si mesmo um tapa por pensar assim. Não. Seria melhor se fosse um tumor cerebral fazendo-me compreender estes idiomas, fazendo-me pensar que meu cachorro está falando comigo. Isso o faria mais fácil de entender. Então poderia me agitar para o velho mendigo como outro lunático.

Aaron voltou a chamar o cão. – Vamos, Gabriel – disse, batendo palmas. – Vamos dar um passeio.

Ele continuou em frente ao velho louco, e de seus cegos delírios.

– Aaron, por favor – rogou Zeke. – Tenho muito a lhe dizer, a lhe mostrar. Aaron?

Ele não se virou. Não podia permitir-se ser apanhado nesta loucura. Sim, Zeke era bastante convincente, e conhecia todos os botões que devia pressionar, mas anjos? Era demais para Aaron engolir. Extraterrestres, talvez, mas anjos, sem chance. Veria o Dr. Jonas esta tarde e logo teria uma consulta com o médico do Mass General. Entre eles, deveria dar-lhe uma explicação racional para sua condição de falta de realidade, poderia ser chamado de uma condição? Perguntou-se. Encontraria uma explicação racional para sua situação atual. Nesta


fase do jogo um tumor nem sequer poderia ser tão ruim. Pelo menos era uma espécie de explicação concreta que poderia aceitar, entender e manejar.

Anjos. Absolutamente ridículo.

Aaron olhou para baixo para ver se Gabriel ainda tinha sua bola. Era seu brinquedo favorito e poderia muito bem ver a si mesmo aqui às dez da noite com uma lanterna à procura dela.

O cão não estava com ele. Olhou ao seu redor. O cão se distraiu como tantas vezes acontece, por um esquilo ou um pássaro interessante ou algum cheiro na grama.

Aaron viu-o do outro lado do campo em uma seção que tinha cercas. O cachorro estava com Zeke. Ele deu alguns passos em direção a eles e se perguntou como poderiam ter chegado ali tão rápido.

– Ei, Gabriel – ele chamou, colocando as mãos em volta da boca para amplificar sua voz. – Vamos, cachorro, vamos dar um passeio.

O cachorro não lhe prestava a mínima atenção. Estava em pé junto a Zeke, atentamente, olhando para cima junto com o homem, abanando o rabo. Aaron começou a sentir uma sensação incômoda na boca do estômago. Havia se sentido assim no passado, geralmente justo antes que algo ruim acontecesse. Lembrou–se de uma vez. Há um tempo atrás, não muito distante, ele tinha experimentado uma sensação semelhante e descobriu que Stephen tinha aberto a torneira de água quente na banheira quando ninguém estava olhando. Se não tivesse procurado a fonte de seu mal estar, o menino certamente teria se queimado. Aaron pensava que se não tivesse investigado estaria se lamentando.

Aaron começou a caminhar até eles. – Gabriel, vem aqui – disse com sua voz mais severa. – Venha.


O cachorro olhou para ele brevemente, mas se distraiu quando o velho levantou a bola. Zeke olhou na direção de Aaron, com a bola no ar.

A horrível sensação no estômago se retorcia e piorou. Aaron começou a correr em direção a eles e depois a correr mais rápido.

Zeke olhava para a rua que rodeava o campo, verificando-a como se fosse atravessar. Era hora de tráfego pesado. Zeke mostrou de novo a bola para Gabriel e Aaron podia ver a postura do cão, tensa pela antecipação.

– Ei – gritou Aaron, com a voz quebrada. Estava quase lá, não mais de vinte metros de distância. O velho olhou para o tráfego e, em seguida para Aaron.

– Desculpe – disse Zeke, elevando a voz.

O pânico apoderou–se de Aaron e começou a correr mais rápido. – Gabriel –gritou-lhe com toda a força que conseguia de seus pulmões. – Gabriel, olha para mim!

O cão o ignorou, seus olhos escuros estavam hipnotizados pelo poder da bola. Aaron estava quase lá.

– Não há outra maneira – ouviu o velho dizer quando voltou a estudar o fluxo do tráfego e jogou a bola para a rua.

Aaron viu-o como se fosse uma cena em câmera lenta de um filme. A bola de tênis saiu da mão esquerda do velho e navegou pelo ar. Ouviu uma voz que deve ter sido seus gritos. – Gabriel, não – o cão seguiu o movimento da bola e deu um salto. A bola quicou e Gabriel estava lá, pronto para agarrá-la com a boca, quando o Ford Escort branco o acertou de lado e o enviou através do ar, como se não tivesse peso.

Foram os mais repugnantes sons que Aaron tinha ouvido alguma vez, os freios gritando, os pneus lutando para parar no asfalto, seguido pelo baque surdo de um para–choque


batendo na pele, carne e ossos. Sua percepção lenta terminou abruptamente quando viu o corpo sem vida de Gabriel estendido na rua em um monte retorcido.

– Oh, meu Deus, não! – Aaron gritou enquanto corria em direção ao seu animal de estimação.

Caiu de joelhos ao lado do animal. Havia tanto sangue, pensou. Isto manchava a bonita pelagem amarela e escorria pelos cantos da boca. Tinha começado a infiltrar-se através do solo para algum lugar abaixo do seu corpo.

Aaron cuidadosamente passou seus braços em torno de seu melhor amigo. – Oh Deus, oh Deus, oh Deus, oh Deus – exclamou enquanto apertava seu rosto ao lado do cachorro.

Colocou uma orelha junto à pele ainda quente e ouviu uma batida de coração. Mas os sons das buzinas dos carros, e o murmúrio dos curiosos foram tudo o que podia discernir.

– Querem calar a boca? – Gritou bem alto, levantando a cabeça do cão.

Gabriel estremeceu violentamente. Ele continuava vivo. As lágrimas de alegria brotaram dos olhos de Aaron quando se inclinou para sussurrar no ouvido de seu amigo. – Não se preocupe, garoto, estou aqui. Tudo vai ficar bem.

– Aaron? – perguntou Gabriel, sua voz em um gemido fraco.

– Shhhhh, você deve ficar tranquilo agora – disse ao cão em um tom reconfortante. – Estou com você. Você vai ficar bem.

Acariciou-lhe a pele manchada de sangue, não tinha certeza se acreditava no que estava dizendo. Queria acreditar mais, gritar e xingar, mas sabia que tinha que manter o controle. Tinha que salvar Gabriel.


– Aaron... Aaron, gravemente ferido – exclamou Gabriel, e começou a ter espasmos, começou a sair sangue espumoso de cor rosa da sua boca.

– Espere, amigo, espera, rapaz. Vou te ajudar.

Aaron tentou levantá-lo, e Gabriel deu um grito tão cheio de dor que afetou seus sentidos. – O que eu faço? – Perguntou em voz alta, o pânico começou a substituir sua cabeça fria. – Ele está morrendo. O que devo fazer?

O pensamento de rezar se perdeu em sua cabeça, e estava pensando em fazer exatamente isso quando percebeu que nem sequer tinha certeza de como.

– Se quer que Gabriel viva, tem que me ouvir – disse uma voz por trás.

Aaron se virou para encontrar Zeke.

– Afaste-se de mim, filho da puta! – Cuspiu. – Você fez isso! Você fez isso!

– Ouça-me – sussurrou Zeke perto de seu ouvido. – Se você não quer que ele morra, vai fazer o que eu digo.

Pela primeira vez, Aaron sentia–se como se não pudesse continuar. Mesmo depois de tudo o que tinha acontecido preso no sistema sem piedade atual e vicioso, nunca perdeu a esperança de que pudesse se tornar alguém melhor. Mas agora, enquanto assistia seu melhor amigo morrer na rua, não tinha certeza.

– Aaron – Zeke gritou para que lhe prestasse atenção. – Você quer que ele sangre até a morte nesta rua suja?


Virou-se para olhar o homem, as lágrimas escorriam por seu rosto. – Não – conseguiu dizer. –Quero que ele viva. Por favor... Por favor, ajude-o...

– Não – disse Zeke, com um movimento de cabeça. – Você. Você vai ajudar Gabriel. – O homem velho ajoelhou-se. – Não temos tempo para lamentar – disse, observando o animal morrer. – Ponha suas mãos sobre ele, rapidamente agora.

Aaron fez o que ele disse, e colocou as palmas das duas mãos sobre o cão.

– Agora, feche os olhos – o velho ensinou.

– Mas... você não pode... – Aaron começou a protestar.

– Feche os olhos, caramba! – Zeke ordenou.

Aaron fez o que ele disse, com as mãos sobre o corpo de Gabriel. A carne do cachorro parecia ter ficado mais fria, e ele estava desesperado. O barulho ao redor deles diminuiu.

– Por favor, Zeke – rogou, para que Gabriel vivesse.

– Não depende de mim agora – disse o velho. – Tudo depende de você.

– Não entendo. Se formos capazes de leva-lo a um veterinário, talvez...

– Um veterinário não pode lhe ajudar. Estará morto dentro de alguns minutos se não fizermos alguma coisa – disse Zeke. – Você tem que deixa-lo sair, Aaron.

– O que devo deixar sair?... Eu não entendo.


– O que você não entende? Está aí, dentro de você, esperando. Tem estado aí desde que você nasceu esperando pelo momento certo.

Aaron soluçou, deixando cair o queixo em seu peito. – Eu... Eu não sei o que você está dizendo.

– Não há tempo para chorar, rapaz. Pode buscar na escuridão. Está aí, sinto-o em você. Olhe de perto. Pode vê-lo?

– Gabriel vai morrer – Aaron percebeu que o velho se ajoelhou ao lado do animal, colocou as mãos nele, sentindo seu movimento. Não havia jeito de evita-lo. O velho era delirante e perigoso. Não sabia se devia segurar o homem e esperar pela polícia.

Poderia ser melhor para o velho estar atrás das grades, ou pelo menos em um hospital, onde possa receber o tratamento adequado.

Aaron estava prestes a abrir os olhos quando sentiu que algo se agitava em sua mente, e viu alguma coisa. Na escuridão que estava lá, algo que nunca tinha visto antes.

E estava movendo-se para ele. É isso o que o velho estava falando? Perguntou–se, próximo ao pânico.

Como ele sabia que estaria lá? O que é isso? O que estava vindo através da escuridão por detrás de seus olhos?

– Eu vejo algo... – disse, com incredulidade. – O que eu devo fazer?

– Chame-o Aaron – advertiu Zeke. – Não com a sua voz, mas com a mente. Dê-lhe as boas vindas, faz–lhe saber que você precisa dele.


Aaron fez o que ele lhe disse, e estendeu sua mente. Não sabia exatamente o que era, sua forma foi mudando, mas parecia ser uma espécie de animal e movia-se de maneira inevitável.

– Olá? – Ele pensou, sentindo-se estúpido, mas desesperado por tentar qualquer coisa. – Você pode... Você pode me ouvir? – Isso foi tudo? Alguma estranha invenção de sua imaginação provocada pelo estresse da situação? Perguntou-se. Era um rato que se movia através da escuridão até ele, um rato com a pele tão branca que parecia brilhar. – Eu não tenho ideia do que devo fazer, ou o que você é, mas eu estou disposto a tentar qualquer coisa para ajudar a meu amigo.

O rato parou, seus pequenos e brilhantes olhos negros pareciam tocá-lo, lançou-se para trás sobre suas patas traseiras, considerando suas palavras, e então começou a se mover.

– Não... Você me entende? – Perguntou à pequena criatura com o poder de seus pensamentos.

Já não era um rato, e Aaron ofegou. O rato havia se transformado em uma coruja, com penas com cor de neve, e antes que pudesse proteger seu cérebro do que acabava de acontecer, mudou novamente. De uma coruja se tornou um sapo albino e de sapo, em um coelho branco. A coisa dentro da sua cabeça agora estava mudando sua forma a uma velocidade cegante, de mamíferos a insetos, de pássaros a peixes. Mas, apesar de alterar sua forma, seus olhos continuavam sendo os mesmos. Havia uma inteligência impressionante naqueles profundos e negros olhos, e algo um pouco mais de reconhecimento. Eu o conhecia, e de alguma forma, ele sabia disso.

Ele se transformou em uma serpente, uma cobra, e recostou-se para trás sobre seu eixo musculoso de cor branco, se balançando de um lado para o outro, com sua boca aberta em um assobio terrível, pronta para atacar.

– Não gosto disso, Zeke – disse Aaron em voz alta, com os olhos ainda fechados hermeticamente. – Você tem que me dizer o que fazer.


– Não tenha medo, Aaron. É uma parte de você. Tem sido uma parte de você desde que você foi concebido. – Zeke me dizia. – Mas você tem que se apressar. Gabriel não tem muito tempo.

– Não sei o que fazer! – Gritou com um beija–flor que pairando diante dele.

– Fale com ele – Zeke ladrou.

– Meu cachorro está morrendo – Aaron conduziu seus pensamentos para a criatura que mudava de forma, flutuando diante dele em um mar de campos. – Na verdade, já poderia estar morto, mas eu não posso deixar. Por favor, você pode me ajudar? Há qualquer coisa que possa fazer para me ajudar a salvá-lo?

Havia se transformado em um feto que lhe parecia vagamente humano. Simplesmente flutuava ali em seu saco membranoso, não respondeu e seus olhos negros estavam fixos nele. Aaron estava nervoso. O tempo estava acabando, e aqui estava ele, falando com um feto imaginário e com problemas de humor.

– Já tive o suficiente! – Gritou em seus pensamentos. – Se vai me ajudar, faça-o. Se não, vá para o inferno fora da minha mente e deixe-me leva-lo a um veterinário.

Como um barco que muda de rumo, a coisa-garoto pouco a pouco se virou, mudou sua forma para uma espécie de peixe, e começou a nadar para longe.

– É... foi–se, Zeke...

Aaron sentiu a mão do homem sobre seu ombro. – Você não pode permitir que ele se vá. Converse com ele, Aaron. Peça que volte. Se você está pronto ou não, é a única maneira para Gabriel sobreviver.

– Por favor – Aaron projetou–se no mar negro. – Por favor, não deixe que ele morra, eu... Eu não sei o que faria sem ele.


O peixe, agora uma iguana, continuou seu caminho. Um morcego luminoso luz, e então uma centopéia, a força dentro de sua mente desapareceu, tornando-se cada vez menor com a distância. Aaron não estava certo do porque fez o que fez.

Chamou-lhe em uma língua antiga, primeiro falava com ele por Zeke, o que o velho tinha chamado de a Língua dos Anjos, chamou mais uma vez a coisa em sua mente.

– Por favor, me ajude – pensou nessa língua misteriosa. – Se está em seu poder, por favor, não deixe que meu amigo morra.

No começo, acreditou que suas suplicas não tiveram nenhum efeito, mas então viu que um chimpanzé tinha se virado e estava voltando lentamente com um andar cômico.

– Está voltando – disse Aaron a Zeke, não em Inglês, mas sim na língua antiga.

– Abra-se para ele – respondeu. – Pegue–o em si mesmo. O aceite como parte de você.

Aaron sacudiu violentamente a cabeça, com os olhos ainda fechados. – O que significa isso? – Perguntou.

O velho cravou as unhas dolorosamente em seus ombros. – O aceite, ou os dois morrem.

Um gato selvagem estava quase sobre ele, e Aaron olhou nos olhos da terrível fera. – Eu te aceito – pensou na língua antiga, sem saber o que deveria dizer, e a pantera levantou sua cabeça para transformar–se em uma serpente, mas esta era diferente do que qualquer cobra que já tinha visto antes. Suas franjas de seda, cabelos finos que aparecem a partir de partes de seu corpo tubular e pequenos membros musculares que agarraram o ar como se precedessem. E o mais estranho e o mais perturbador de tudo é que não tinha um rosto, algo associado com o aspecto de um réptil. Esta serpente tinha uma expressão, sobre seus incomuns traços faciais, alegria, e estendeu seus braços mal formados, fazendo sinais em um gesto que sugeria que ele também o aceitava.


A besta negra começou a brilhar misteriosamente, e Aaron pôde discernir veias e bulbos capilares que percorriam em todas as partes do corpo da criatura. A luz da serpente o cegou e o sólido negro por trás de seus olhos foi queimado como a noite com a chegada do amanhecer.

Uma onda dolorosa de energia parecia como milhares de volts de eletricidade que de repente, corria por todo o corpo de Aaron. Ele abriu os olhos e olhou para seu cão. Sabia que a vida de Gabriel estava quase no fim.

– É hora, Aaron – ouviu Zeke lhe dizer.

Aaron olhou para ele. Por alguma razão o velho estava chorando.

Sentia um formigamento doloroso em suas mãos e olhava para baixo. Uma energia branca estalou como explosões de raios, dançando de um dedo para outro.

– O que está acontecendo comigo? – Perguntou sem fôlego.

– Você é completo agora, Aaron. Está completo.

Instintivamente Aaron sabia o que tinha que fazer. Olhando suas mãos, virou as palmas para baixo e outra vez colocou sobre Gabriel. Sentiu a energia abandonar seu corpo, saltando de seus dedos para o cachorro, cavando por debaixo da pele e da carne. E o ar ao redor deles encheu–se com o cheiro carregado de ozônio.

O corpo de Gabriel se contraiu, mas Aaron não tirou suas mãos. A pelagem do cão começou a secar o sangue que respingou nele, a arder sem chamas, evaporou–se em mechas oleosas que serpenteavam pelo ar.

– Acho que você fez tudo o que deve – disse Zeke em voz baixa, próximo.


Aaron retirou as mãos do animal. Por um breve momento as palmas de suas mãos brilhavam na pele do cão e depois se foram. A sensação de energia em todo seu corpo se desvanecia, mas sentia-se ainda diferente, tanto mental quanto fisicamente.

– O que eu fiz? – perguntou, olhando de Zeke para o cachorro.

Gabriel estava com a respiração lenta e regular, como se estivesse simplesmente tirando um cochilo.

– O que você tinha que fazer para que Gabriel sobrevivesse – respondeu Zeke com animosidade.

Aaron estendeu a mão e tocou a cabeça do cão. – Gabriel? – disse em voz baixa, não tinha certeza se ele acreditava no que estava vendo.

Gabriel levantou a cabeça languidamente do chão, bocejou e Aaron fixou em seu olhar – Oi, Aaron – disse enquanto rolava sobre sua barriga.

Aaron podia sentir que seus olhos encheram-se de emoção. Inclinou-se para frente e abraçou o cachorro. – Você está bem? – perguntou, apertando o pescoço do animal e plantando um beijo no canto de sua boca.

– Estou bem, Aaron – Gabriel respondeu. O cão parecia distraído, afastando-se do seu abraço.

– O que foi? – Aaron perguntou para o cão que olhava em volta.

– Você viu minha bola? – Gabriel perguntou em uma voz cheia de surpreendente inteligência.

E Aaron chegou à assustadora conclusão de que não foi o único que mudou.


Tarde demais, o anjo Camael pensou; empoleirado como uma gárgula no topo do edifício. Ele olhou para baixo com tristeza, para um restaurante que se consumiu em chamas. Muito tarde para salvá-lo.

Uma coluna de fumaça cinza subia das quebradas janelas da frente do Eddy Café da manhã e almoço; chamas de cor laranja saia como línguas, como coisas vivas, aproximou-se com a mão no coração, na esperança de pegar algo, qualquer coisa para alimentar suas fome voraz.

De onde estava pendurado, Camael viu como os bombeiros apontaram suas mangueiras e tentaram sufocar o inferno com água antes que tivesse uma chance de se propagar pelas estruturas vizinhas. Eles teriam que ser persistentes, pensava o anjo, pois era um fogo muito antinatural que combateriam esta manhã.

Ele havia planejado fazer contato com a garota nesta mesma manhã, para guia-la através da mudança que seu corpo estava sofrendo, e alertá-la dos perigos aos que enfrentará, mas chegaram muito antes do que ele mesmo havia imaginado.

Camael vinha observando a garota – Como se chamava? Susan.

Ele havia estado observando-a desde que captou pela primeira vez o perfume de sua iminente transformação. Era muito mais difícil seguir sua pista nestes dias, o mundo era um lugar muito maior e mais complexo do que havia sido no início. O inimigo utiliza rastreadores, cães de caça humanos, mas não podia suportar a utilizar a tão patéticas criaturas dessa maneira. A Camael parecia muito cruel.

Susan era uma pessoa solitária, como acontecia muitas vezes na natureza da raça, vivem sozinhas, sem amigos íntimos ou familiares. Mas ela tinha um emprego como garçonete, um trabalho que parecia ser o centro de sua realidade. Foi aí onde ela entrou para a vida: rodeada pela vibração das massas do popular estabelecimento de alimento. Ela os servia,


conversava com eles e os mandava de volta para a rotina com uma palavra amável e até logo. Em Eddy’s foi aceita, amada, mas fora de suas portas era frio, era um lugar |spero, hostil. Camael a tinha visto e esperou que os sinais de mudança nela fossem evidentes. Ele inclusive tinha começado a frequentar o restaurante só para poder observá-la mais de perto. Não precisou esperar muito. Sua aparência chegou a ser desalinhada, círculos escuros formaram-se sob seus olhos, um sinal evidente de que ela não dormia. O sonho geralmente era o primeiro, as memórias de toda uma raça de milhares de anos tentando afirmar-se. Isso por si só foi suficiente para que alguns deles enlouquecessem, não importa as mudanças que faltem ainda por vir.

Os bombeiros pareciam ter o fogo sob controle e entravam no edifício, o mais provável era para recuperar os corpos dos que haviam ficado presos em seu interior.

Camael suspirou profundamente. Nesta hora tão cedo, Eddy’s estaria repleto de clientes, os que saíam do turno da noite e os que acabam de começar sua jornada. Verchiel provavelmente se excedeu desta vez, o anjo que pensou que a primeira das vítimas morreu logo no início das chamas.

A garota deve ter ido muito mais longe em sua transformação do que Camael pensava, já que foram capazes de encontra-la com tanta facilidade. Se eu tivesse agido antes, isso poderia ter sido evitado. Poderia ter sido capaz de convencer a jovem a correr antes que Os Poderosos houvessem tido a possibilidade de bloquear seu cheiro.

Ele teria que mover-se mais rápido com o próximo.

Os bombeiros deixavam os corpos queimados detrás de uma tela construída às pressas na praça em frente, onde tinha sido de Eddy’s.

Camael contou dezesseis até agora. A garota ainda não tinha sido tirada.

Havia muita brutalidade nos últimos ataques Dos Poderosos, uma completa falta de preocupação pelas vidas de inocentes, havia certo desespero em suas ações. Pensou no assassinato de Samchia em Hong Kong. Eles estão sempre assassinando, isso era para Os


Poderosos, sua razão de ser. Mas nos últimos tempos... Por que esse repentino aumento de violência? Isso o incomodava. O que havia despertado o vespeiro, por assim dizer? Um pensamento terrível invadiu sua consciência. E se ela era a única? E se Susan era a única que restava de uma profecia de milhares de anos atrás?

Camael recordou o momento em que havia alterado seu caminho escolhido, como se tivesse acontecido momentos antes. Haviam descido do céu sobre uma antiga cidade chamada Urkish, com o poderoso desejo de erradicar o mal que os estimulava. Dizia-se que a cidade era um refugio para os impuros, um lugar onde os que ofendiam a Deus poderiam prosperar em segredo. Os Poderosos estavam em uma missão sagrada, e todos os que estavam contra eles caíram ante sua justiça.

Em uma cabana de barro e palha encontraram um homem velho, um vidente tinha um de seus olhos cobertos por um tapa-olho. Ele estava rodeado por tábuas de argila onde havia escrito uma profecia. Ele foi o ex-capitão de Camael, Verchiel, quem leu pela primeira vez os rabiscos do vidente. Suas palavras anunciavam a fusão de seres humanos e anjos, e desta união nascerá um descendente, mais do que um descendente humano, mais que um anjo, será a chave para reunir os que haviam caído do céu com seu Santíssimo Pai.

– Blasfêmia! – O capitão Dos Poderosos gritou, quebrou as tábuas que estavam sob seu calcanhar.

E nesse dia, todo vestígio da cidade Urkish foi varrida do planeta e da história.

Mas não pôde destruir as palavras, por muito que tentasse Camael não conseguia esquecê-las. Falavam de uma promessa de uma época mais tranquila quando sua existência não seria preenchida com a imposição da justiça e da morte. Essas palavras foram o que o fez abandonar seus irmãos e sua missão sagrada faz muito tempo. As palavras ainda hoje, o perseguiam.

Mas e se Susan era a última? Era uma pergunta que com a qual sempre lutou, quando não conseguia salvar a uma. E se ela era a chave para reunir os anjos caídos com o Céu? E se Verchiel arrebatou tudo com um fogo purificador?


Camael finalmente viu o corpo de Susan, um dos últimos a serem retirados do prédio devastado pelo fogo. Seus membros enegrecidos estavam levantados para o céu, como que implorando para ser salva.

Doía–lhe não haver estado ali para ela...

E se...? Um fio de voz no fundo de sua mente começou as perguntas e rapidamente silenciou–se. Não podia pensar dessa maneira. Tinha que seguir em frente ou todo seu sacrifício seria em vão.

Camael deixou no passado o incidente e dirigiu-se através do telhado. O anjo inclinou a cabeça por detrás do sol da manhã e cheirou o ar.

Havia outros, outros que precisavam dele.

Com o aumento de ataque dos Os Poderosos, teria de agir rapidamente para poder salvá–los.

Zeke pediu a Aaron para se sentar. Havia uma cadeira na pequena sala, uma cadeira de couro preto, provavelmente que ele resgatou do lixo. Uma ampla faixa cinza de fita isolante corria pelo meio do assento e Aaron a tocou para ver se estava pegajosa antes de se sentar.

Depois de terminar o que eles fizeram no campo, os três saíram rapidamente do local para evitar perguntas indesejadas. O motorista do Escort branco pareceu sinceramente satisfeito de não ter matado Gabriel e tinha acariciado o cachorro antes de ir embora. Enquanto a multidão se dispersava rapidamente Zeke sugeriu com a cabeça que saíssem do local.

Eles fizeram uma caminhada de quinze minutos até a Pensão Osmond que ficava na Avenida Washington, não muito longe do centro cidade Lynn. Como Gabriel estava com eles, e


os animais não são permitidos em Osmond, eles deram a volta e entraram pela saída de emergência, que era mantida aberta com um bloco de concreto para permitir a ventilação.

Zeke morava no quarto andar, quarto 416 do edifício em ruínas. Não era o tipo de lugar onde se esperaria encontrar um anjo.

– Um anjo caído – Zeke o corrigiu quando se sentou na cama de solteiro coberta por uma manta verde, puída de traça. – Há uma grande diferença.

Aaron havia comprado refrigerantes e uma garrafa de água para Gabriel em um armazém que estava no caminho para a pensão. – Você tem algo para colocar isso? – ele perguntou ao romper o lacre da garrafa de água.

Zeke se levantou e começou a remexer em sacos de lixo que cobriam o chão. – Desculpe, não – disse ele. – Não posso cozinhar neste quarto, então não há razão para ter um prato.

Aaron derramou um pouco de água na mão em concha e ofereceu–a ao cão. – Tudo bem. Podemos fazer dessa forma.

– Obrigado – disse Gabriel com a voz de boas maneiras. Largou a bola entre as patas e começou a lamber o líquido da mão de seu dono.

Zeke inclinou-se na cama e começou a abrir a lata. – Você está bem? – perguntou a Aaron enquanto procurava algo no bolso de seu casaco esfarrapado.

Gabriel terminou de beber sua água. – Obrigado de novo, Aaron – ele disse, e lambia as gotas. – Estava com muita sede.

Aaron limpou a baba na perna da calça. – Sim, estou bem – disse a Zeke, abrindo a lata para beber o líquido. Seus olhos não deixaram de olhar para o cão. – Parece, não sei, mais esperto?


Zeke tirou do bolso uma garrafa para levar bebidas e derramou o conteúdo em sua lata de refrigerante. – Supõe-se que eu não deveria beber álcool, mas bem – disse com um sorriso, enquanto tomava um grande gole da bebida enriquecida. – Estive esperando por esse primeiro gole durante toda a manhã – disse o anjo caído, lambendo os beiços.

Aaron se sentou na beirada da cadeira e começou a afagar a cabeça de Gabriel.

– Parece mais inteligente? – Zeke repetiu, e então soltou um arroto abafado com a mão. – Sim, acho que sim, mas o que você esperava? Você o salvou, o fez melhor, provavelmente melhor do que alguma vez já foi. – O anjo tomou outro gole.

Aaron sentou-se em sua cadeira, com o refrigerante entre as pernas, e balançou a cabeça em descrença. – Tenho uma lembrança vaga, não tenho ideia do que fiz.

Gabriel deitou a seu lado e fechou os olhos. O quarto estava em silêncio, exceto pelo som da respiração do cachorro como se fosse rapidamente adormecer.

– O que aconteceu comigo, Zeke? – Aaron perguntou. Havia medo em sua voz e se esforçava para manter o controle. –O que é que... fazem os animais na minha cabeça? Fala comigo!

Zeke parou a lata de refrigerante a meio caminho da boca. – Zoológico de Deus – disse ele. – Não é coisa de animais. Vamos tentar não ser desrespeitosos.

Aaron fez que sim. – Desculpe – disse ele com um sorriso.

– A maioria das pessoas os vê como uma espécie de animal, uma pomba ou um leão. Todos são suas criações – Zeke bebeu todo o conteúdo da lata. Então, jogou a lata vazia em um saco de lixo ao lado da cama. – Isso fez com que você esteja completo – disse ele, respondendo à pergunta original de Aaron. – Durante os primeiros tempos desde que você nasceu, você é como deveria ser.


– E como é que eu deveria ser? – Aaron perguntou, irritado com a resposta enigmática do homem.

– Você é um Nefilim, Aaron, até a espinha.

Aaron bateu com os punhos para baixo nos braços da cadeira. – Não me chame assim! – Gritou nervosamente.

Gabriel deu um pulo e levantou a cabeça. – Está tudo bem? – Perguntou.

– Desculpe – Aaron desculpou-se, e se inclinou para coçar o queixo do cachorro. – Está tudo bem. Volte a dormir.

Gabriel inclinou-se e quase que imediatamente retornou a sua soneca.

– Desculpe-me por ser quem te diga isso, mas isso é o que você é – disse Zeke. Ele havia encontrado uma garrafa de uísque e o bebia nesse momento.

– É isso o que um anjo faz? Você chama a si mesmo Gregory? Vai em torno das pessoas para ver se são Nephilins?

Zeke sorriu e apoiou a cabeça contra a parede de gesso rachado. – Grigori – corrigiu. – E não, não é isso o que fazemos. Nossa tarefa chegou diretamente do último andar do Grande Senhor – disse ele, apontando para o teto. – E não me refiro ao louco Al do quarto 5–20 – Bebeu mais um pouco de uísque antes de continuar. – Deus mesmo nos disse o que fazer. Nossa tarefa era muito simples, é incrível como a estragamos. – O anjo caído falou lentamente, lembrando. – Nosso trabalho era manter um olho sobre a humanidade. Mas ainda eram muito jovens quando chegaram aqui, e precisando de orientação. Nós íamos ser seus pastores, você sabe, mantê–los afastados do mal e de problemas.

Zeke ficou em silêncio e um olhar de tristeza sombreou seu rosto.


Aaron colocou sua lata vazia no chão junto de sua cadeira. Alguém em um pequeno quarto começou a tossir violentamente.

– O que aconteceu? –perguntou por fim.

Zeke estava olhando a pequena garrafa marrom em sua mão e não levantou os olhos ao respirar fundo e continuar. – Nos apaixonamos pelas pessoas do lugar, perdemos essa distância profissional. – Ele agitou nervosamente a garrafa na mão. – Começamos a ensinar–lhes coisas, coisas que o Senhor sentiu que não precisavam saber: como fazer armas, astrologia, a forma de ler o clima.

Zeke riu asperamente. – Um de nós, um filho da puta doente, inclusive ensinou as mulheres sobre maquiagem. – O anjo levou a garrafa à boca. – Portanto, se sua namorada passar duas horas colocando maquiagem no rosto antes de sair a noite, pode nos culpar.

– Realmente não tenho namorada –disse Aaron timidamente, imediatamente veio Vilma em seus pensamentos.

Zeke terminou o último gole de sua bebida, ignorando os comentários de Aaron. – E ensinavam outras coisas também: como beber, fumar, ter relações sexuais. Adotamos os costumes locais – disse ele enquanto apertava a garrafa vazia. Irritado por que já não havia mais nada, atirou-a no chão. – Começamos a viver como seres humanos; comportamo-nos como seres humanos. Alguns de nós inclusive adquirimos esposas.

– E foi assim que os primeiros Nephilins nasceram? – Perguntou Aaron.

O anjo caído concordou com a cabeça. – Você entende rápido. Sim, o Grigori tem a culpa de toda essa bagunça, mesmo que não completamente. – Zeke se levantou e tirou o casaco, jogou-o ao pé da cama. – Nós não éramos os únicos anjos que acharam as mulheres humanas atraentes. Havia outros, os desertores da Primeira Guerra dos Céus. Eles vieram à Terra para se esconder.


Uma Grande Guerra dos Céus; Aaron recordou o tema de John Milton's Paradise Ele tinha lido quando estudava Inglês, no segundo ano com o Sr. O'Leary. – Então não era ficção? –Perguntou a Grigori. – Realmente foi uma guerra entre os anjos? Lost14.

Zeke caiu de volta na cama. Aaron notou um cigarro em uma de suas mãos. – Foi muito bom – disse Zeke.

Ele agarrou a ponta do cigarro entre os dedos, apertou-a com força e fechou os olhos. De repente Aaron viu uma chama e fumaça. Zeke tinha acendido um cigarro com os dedos. Estou sonhando, pensou.

– O Grigori não estava lá para isso, mas pelo que ouvi, foi bastante terrível-o velho anjo deu uma tragada e segurou a fumaça. Abaixou a cabeça para trás e soprou a fumaça no ar para formar uma nuvem cinza.

– Eu também não devia fumar aqui – disse. – Mas não posso evitar. Eu me sinto como uma prostituta enjaulada.

Ele deu outra tragada e deixou fluir por de seu nariz. – Morningstar realmente o explodiu – disse Zeke, retornando ao passado. – Não sabia o quão bom ia lhe sair.

Aaron estava confuso. – Morningstar?

Zeke sugou ansiosamente o cigarro como se fosse o último. – Lúcifer. Lúcifer Morningstar. Foi uma vez a mão direita de Deus, então se tornou ganancioso. Ele e os que seguiram seu fodido exemplo.

O quarto cheirava a fumo e Aaron queria que houvesse uma janela. Agitou com a mão diante de seu rosto em uma tentativa de respirar ar não contaminado.

14

O poema diz respeito a historia cristã da Queda do Homem: a tentação de Adão e Eva peloanjo caído Satanás e sua expulsão do Jardim do Éden. sua finalidade Milton, afirmou no livro I, é para "justificar os caminhos de Deus aos homens"[2] e elucidar o conflito entre o Deus eternoprevidência e livre-arbítrio.


– Comparado com o que aconteceu a ele, nós descemos fácil.

Gabriel começou a sonhar enquanto jazia no chão, moveu as patas e remou como se estivesse perseguindo algo. Aaron sorriu distraído com as travessuras de seu cão. Ele sempre havia sentido curiosidade sobre seus sonhos.

Teria que pedir para Gabriel lhe contar quando acordasse.

Voltou sua atenção a Zeke. – Você foi punido?

Zeke assentiu com a cabeça muito lentamente, seus olhos parados nas lembranças do passado. – Nós fomos banidos para a Terra para nunca mais ver o céu novamente. Queríamos ser humanos, poderíamos viver com eles para sempre, eles disseram. – Sugou o cigarro até o filtro tentando conseguir cada último bocado cancerígeno em seu corpo.

– Isso foi ruim? – Perguntou Aaron, tendo o cuidado em sua voz.

Zeke apagou o cigarro e jogou-o no chão. – Não – ele disse em um tom de desprezo. – Na verdade não. Era o que eu queria de qualquer maneira.

Aaron podia sentir uma crescente agitação do anjo. Zeke começou a esfregar suas costas, seu pescoço e ombros.

– Exceto que tomaram nossas asas – disse. Houve um tremor em sua voz.

– Quem... Quem tomou suas asas? – Perguntou Aaron.

– Quem você acha? – Zeke respondeu bruscamente enquanto continuava esfregando suas costas e ombros. – Os Poderosos. Cortaram nossas asas... e mataram nossos filhos.


Zeke enxugou rapidamente os olhos, qualquer traço de emoção. Aaron se perguntou quanto tempo havia decorrido desde que o anjo havia falado do seu passado.

– Eles são cruéis, Aaron – disse. –Podem perceber quando um Nefilim atinge a maturidade, às vezes antes. Caçam e matam antes que ele possa obter pleno uso do seu direito de nascimento. É por isso que fiz o que fiz, para lhe dar uma chance.

Gabriel chegou de repente, como se sentisse a atmosfera predominante de tristeza que agora parecia encher o pequeno quarto com a fumaça de cigarro.

– O que está errado? – O cão perguntou, olhando para Aaron e Zeke.

– É assim que você se vingará? – Aaron perguntou. – Quando nos conhecemos, você fez algo para me tornar completamente um Nephilin? É assim que se vingará Dos Poderosos pelo que fizeram a você?

Zeke sacudiu a cabeça tristemente. – Aprendi muito, não faço nada para interferir.

– E os outros Nephilins que Os Poderosos têm encontrado, os matou?

– Provavelmente – disse Zeke em um sussurro. – Com o tempo.

– Porque eu então? – Aaron perguntou. – Por que fez isso por mim e não pelos outros?

Zeke deu de ombros. – Eu realmente não sei – respondeu. – Algo me diz que você é especial.


Dentro da Usina Nuclear de Lynn, a vinte e cinco quilômetros da cidade de Ucraniana de Chernobyl, um anjo gritou com raiva.

Verchiel abriu duas portas blindadas de segurança na estrutura em ruínas que abrigava o Reator número quatro, o que havia explodido em 1986, tornando os arredores da Ucrânia inabitáveis. Em seu tempo destinado a este mundo, havia sido testemunha do potencial destrutivo da besta humana muitas vezes, e se perguntou com desgosto, quanto tempo passaria antes que eles mesmos se destruíssem de uma vez por todas.

O comandante dos Poderosos entrou na sala do reator, seguido de perto por seis de seus soldados de elite e a criança de olhos selvagens mantido à distância com uma coleira e guia. A criança tossiu e espirrou, e levantou uma nuvem espessa de poeira radioativa, acumulada desde que a local fechou oficialmente apenas alguns poucos anos antes, que se elevou no ar em seu caminho.

A explosão havia espalhado aqui quarenta vezes a quantidade de radioatividade liberada pelas bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. Mesmo agora, os níveis de radiação eram ainda muito altos e muito perigosos para todas as formas de vida. Mas isso era o de menos para os moradores do complexo ou seus visitantes.

Verchiel parou e olhou com desagrado. A grande câmara tinha sido transformada em um local de culto, uma igreja improvisada. Um altar bem organizado estava bem diante dele. Centenas de velas de tamanhos diferentes estavam acesas em frente de uma pintura que representava um anjo abraçado amorosamente por uma mulher mortal. E flutuando no céu acima desta união havia um bebê, um menino brilhante como o sol. Quatro figuras vestidas com túnicas de lã pesada estavam ajoelhadas ante o altar, rezando silenciosamente. Os sacerdotes das crenças profanas. Eles não mostraram nenhum sinal de que sentiram sua presença.


– Sacrilégio! – Gritou Verchiel, sua voz estrondosa ecoando nas paredes metálicas da câmara do Reator.

Uma das figuras moveu-se de sua posição e murmurou alguma coisa entre dentes, e abaixou a cabeça para o altar diante dele. Os outros continuaram seu trabalho em silêncio.

– Bem vindo ao nosso lugar santo – ele disse.

– Você me decepcionou Byleth – respondeu Verchiel quando a figura do altar se moveu lentamente em direção a ele. – Um desertor é uma vergonha para seu anfitrião, mas isso... – Fez um gesto para o santuário. – Ofende ao Todo Poderoso.

Byleth sorriu piedosamente e caminhou para mais perto, com as mãos cruzadas na frente dele – Realmente Verchiel? A crença em uma profecia que prediz a reunificação de Deus com seus filhos caídos na realidade ofende? – O anjo parou diante deles. – Ou simplesmente ofende a você? – Byleth voltou a sorrir.

– O que aconteceu com você, Byleth? – Perguntou Verchiel. – Você foi um dos meus melhores soldados! O que fez você cair tão longe de Sua graça?

O anjo riu baixinho enquanto suas mãos desapareciam no interior das mangas de seu manto. – É isso o que você quer perguntar antes de nos matar?

Os lábios Verchiel se curvaram em uma careta novamente. – É simplesmente uma tentativa de entender como se pode dar as costas a um dever sagrado para com o Criador de todas as coisas.

– Você deve saber essas coisas antes de nos condenar à morte? –perguntou Byleth, com o olhar firme.

– Sim, antes de ser executado por seus crimes – disse o comandante dos Poderosos. – Uma oportunidade para purgar sua culpa antes do inevitável.


– Já vejo – disse o sacerdote pensativo. – Camael já respondeu por seus crimes?

Verchiel calou-se, uma raiva explosiva instalou-se em seu interior.

O sacerdote sorriu, satisfeito com a falta de resposta. – Isso é bom – disse Byleth. – Enquanto ele viva, há a possibilidade de que...

– É apenas uma questão de tempo antes que o traidor se reúna com seu merecido destino. – interrompeu Verchiel, suas palavras destilavam malícia.

– Você sente Verchiel – perguntou o anjo, uma das suas mãos saindo dos limites de seu manto para tocar suavemente sua testa – Há apenas umas gloriosas horas, você o sentiu estar entre nós?

– Eu não sinto nada – mentiu Verchiel. Estava a caminho da Ucrânia, quando sentiu o mal estar psíquico. O anjo vinha seguindo os mestiços por centenas de milhares de anos e nunca havia sentido uma presença tão forte. Isso lhe causava... – E se eu senti o que mais poderia ser, senão a manifestação de outra imperfeição do Criador do mundo? Algo para caçar e eliminar antes de tenha a oportunidade de ofender a mais alguém.

O garoto começou a tossir e Byleth tristemente olhou para a criança humana que lutava contra os limites de sua corrente.

– Essa pobre criatura nunca deveria ter sido trazida aqui, Verchiel – disse o anjo padre. – Os venenos no ar causarão danos irreparáveis.

Verchiel olhou para a criatura com completo desinteresse e olhou de novo para o sacerdote. – Além de lhe encontrar de uma forma oportuna? – Perguntou. – Se deve morrer, então que assim seja, vou encontrar outro macaco para me ajudar com minha caça.

Os outros no altar estavam em pé agora, e haviam voltado a observar o encontro. Todos usavam o mesmo sorriso idiota e Verchiel não podia esperar para vê-lo queimar em seus rostos.


– Há desespero em seu tom, Verchiel. O sentiu tão forte como nós – disse Byleth enquanto compartilhava um momento com seus fiéis companheiros. – E você tem medo, medo de que a profecia esteja chegando a um bom término.

Verchiel gemeu e estendeu suas asas, jogando Byleth no chão junto ao altar em uma nuvem de poeira radioativa. – Que bruxaria negra utiliza o vidente humano para corromper a tantos de vocês? Diga-me para que assim eu possa ter um deles e acabar de destruir o planeta.

– Sempre tão dramático Verchiel – disse Byleth, esforçando-se para se colocar de pé. – Não houve magia, nenhum feitiço corruptor. Nada mais do que uma visão de unificação e o fim da violência.

Uma espada de fogo cresceu na mão de Verchiel. As partículas enormes de poeira e sujeira irradiavam no ar, acendiam quando entravam em contato com a chama divina. Seguindo seu exemplo, seus soldados também manifestaram ardentes armas.

– E o que tem essa visão idílica para te trazer até aqui? – Perguntou o líder dos Poderosos. – Você se esconde nas terras envenenadas, criadas pelos animais, negando seu verdadeiro lugar na ordem das coisas. Isso é algum tipo de punição, Byleth? Você acha que este profeta mestiço que você pensa que está vindo vai olhar para você com carinho por isso? – disse Verchiel com desgosto. – Patético.

– Este lugar e a terra envenenada ao redor dela nos lembram o que fomos e em que nos transformamos – disse Byleth. – Uma vez, estivemos cheios de sua santa virtude, em uma missão de acabar com o mal, mas nos deixamos levar pela violência e uma justiça própria que dizia que agíamos em seu nome.

– Tudo o que eu faço, faço por Ele – respondeu Verchiel, com sua espada de fogo, ardendo e irradiando um calor intenso.

– Isso é o que você crê que seja verdade – disse Byleth. – Mas há outra maneira, um caminho que colocará um ponto final ao nosso exílio e o início da nossa redenção. – O anjo estendeu sua mão, incitando Verchiel a olhar para o altar. – Esse é o caminho, Verchiel. Este é o nosso futuro.


Verchiel sacudiu a cabeça. – Não, é uma blasfêmia. – Ele levantou uma mão para seus soldados. – Afaste-os do altar – ele ordenou.

Os Poderosos saltaram no ar, suas asas se agitando e criando uma nuvem de finas partículas radioativas.

– Nós vamos lutar contra vocês, Verchiel! – Byleth gritou, enquanto uma arma de fogo cresceu em sua mão, e outras ardiam nas mãos de seus fiéis seguidores, no entanto, pareciam lamentáveis em comparação com as espadas dos Poderosos. Fracas asas cresceram de suas costas.

– Olhe para você – disse Verchiel enquanto avançava até eles e seu santuário sagrado. – Acredito que esta heresia tenha te reduzido a uma mera sombra de sua antiga glória. Que triste.

– Nossos pecados do passado nos têm feito assim! – Byleth gritou com raiva, enquanto saltava sobre Verchiel, com a espada erguida.

No entanto, ele foi interceptado pela selvageria da guarda de elite de Verchiel e forçado a permanecer no chão sob seus pés. Verchiel observava com grande divertimento como os sacerdotes eram transportados para fora do santuário.

– Este é o futuro, você disse? – Perguntou, enquanto os olhava através das velas acesas e a obra de arte.

Eles lutaram contra seus captores, mas os soldados dos Poderosos se mantiveram firmes. – Não acabará conosco – sibilou Byleth. – O que foi anunciado caminha agora entre nós.

Verchiel olhou para o altar, com uma feroz indignação ardendo em seu peito. – Eu não vejo nenhum futuro aqui – disse ele, ao mesmo tempo em que agitava suas asas poderosas. As fortes rajadas de vento apagaram as velas e derrubaram o quadro ofensivo. – Tudo o que eu vejo é o fim.


Verchiel sorriu maliciosamente quando se virou de novo para os sacerdotes, mas seu triunfo se transformou rapidamente em confusão quando viu os olhares serenos em seus rostos.

– Está longe de terminar, Verchiel – disse Byleth. – Veja por si mesmo – acrescentou com um aceno de cabeça em direção ao altar.

O líder dos Poderosos virou-se e viu com horror como as velas, uma por uma, voltavam a acender-se. Num acesso de fúria, esticou suas asas e se lançou sobre o sacerdote sorrindo, um soldado que uma vez esteve a seu serviço.

Empurrou ferozmente a ponta de sua espada de fogo no peito de Byleth, divertindo-se com a mudança de sua expressão, de um sorriso iluminado a uma dor insuportável.

Os sacerdotes, seguidores de Byleth ofegaram em uníssono. – Por favor – um de seus fiéis seguidores implorou melancolicamente.

Verchiel inclinou a cabeça, olhando a carne do anjo renegado, borbulhar e escurecer enquanto era consumido por dentro. – Eles imploram por misericórdia, mas, infelizmente, suas palavras caem em ouvidos surdos.

Byleth deslizou para o chão, a espada de Verchiel ainda dentro dele, seu manto pesado começava a queimar. – E... e como são recebidas as tuas palavras, Verchiel? – Ele engasgou quando levantou a cabeça, pedaços de carne líquida caindo no chão, coberto de poeira. – O que tem a dizer o Senhor dos Senhores, quando fala com você?

Verchiel puxou sua espada do peito do padre. – O Todo–Poderoso e eu... não precisamos nos falar. Byleth sorriu horrivelmente, seus dentes carbonizados, simples protuberâncias que sobressaiam das gengivas feridas e negras. – Como eu imaginava.

Verchiel sentiu aumentar a raiva. – O que te diverte Byleth? A minha falta de comunicação com o Pai Celestial provoca em você esse sorriso diante de sua iminente morte?


Seu corpo ardeu em chamas, o sacerdote lentamente levantou as carbonizadas e esqueléticas mãos aos lados de seu rosto, onde costumavam ser suas orelhas. – Ouvidos... surdos – Byleth sussurrou. – Ouvidos surdos. – E então ele riu.

O som enfureceu Verchiel. Jogou para trás seu braço e o levantou para o céu e o baixou até o padre queimando, duas, três vezes, reduzindo seu ofensor a cinzas. Em seguida, afastou– se dos restos fumegantes para lidar com seus prisioneiros. – Isso é o que a profanação de suas crenças lhes trouxe – disse ele, dirigindo sua atenção para os restos do líder deles.

A espada de fogo reduziu-se a nada, e Verchiel caminhou em direção à porta, que o levaria para fora da câmara envenenada.

– Mate-os – disse ele, sem emoção, de costas para eles. – Quero esquecer que alguma vez existiram.

E ele saiu da habitação, os gritos dos sacerdotes moribundos seguindo-o em seu caminho, as palavras malignas de uma antiga profecia febrilmente dando voltas em sua mente.

Michael Jonas olhou para o relógio. Deixou sua caneta sobre os relatórios que estavam quase concluídos e pegou o telefone. Onde está? Perguntou-se o psiquiatra.

O tom de discar zumbia em seus ouvidos enquanto procurava o número de telefone de Aaron em arquivo. Discou o número e escutou que começava a chamar. Aaron Corbet havia sido o mais pontual em todos os anos que o havia tratado, e para Jonas pareceu estranho que ele simplesmente não viesse para sua consulta, especialmente depois de sua discussão ontem pela manhã. Estaria mentindo se dissesse que não estava fascinado pelo talento bastante singular que o jovem havia mostrado.


Em seus vinte e cinco anos de prática, nunca tinha visto algo tão estranho e sem duvida, emocionante. Certamente, Aaron podia ser enganoso, e falava fluentemente Português, espanhol e latim, mas seu estômago lhe dizia que não. Jonas se remexeu impaciente com o pensamento dos artigos que poderia publicar graças a este caso específico, e os elogios que receberia de seus companheiros.

– Olá? – respondeu uma voz de mulher, do outro lado da linha.

– Sim, Olá. – disse Jonas em sinal de saudação. – Aaron está, por favor?

– Não, não está. – respondeu a mulher. – Posso perguntar quem é?

Precisava ser cauteloso, já que a confidencialidade médico–paciente era importante. – Eu sou Michael Jonas. – respondeu profissionalmente. – É a Sra. Stanley?

– Sim, Dr. Jonas. Como você está? Aaron saiu com o cachorro esta manhã e não voltou.

Houve uma pausa e Jonas sabia o que estava por vir. Depois de ser um psiquiatra durante tantos anos, podia ler as pessoas e suas reações. – Há algum problema, doutor? É... Aaron está indo vê-lo outra vez?

Ela estava preocupada e queria que ela se sentisse a vontade sem partilhar os assuntos pessoais de Aaron.

– Não há necessidade de pânico, Sra. Stanley. Estou apenas verificando, ligando para ver como ele está. Poderia dizer-lhe que entre em contato comigo quando chegar? Estarei no escritório até depois das 18:00 horas.

– Claro doutor – disse, com menos tensão em sua voz. – Eu darei o recado.

– Obrigado, Sra. Stanley. Tenha um bom dia.


– Digo-lhe o mesmo – respondeu-lhe e desligou.

Jonas colocou o receptor na base e olhou novamente para o relógio. Interessante, pensou. Aaron saiu cedo e ninguém o viu desde então. Jonas se perguntou se o havia afugentado. Talvez eu não devesse ter mencionado seu amigo do Mass General.

A caricatura de um artigo científico com umas asas voando pela janela dançava em sua mente, e sorriu. Jonas pegou a caneta para retomar a sua papelada semanal e viu que não estava sozinho.

– Jesus Cristo – ofegou enquanto encostava as costas contra a cadeira, surpreso.

Um homem estava na frente de sua mesa. Parecia mais velho, mas era alto, impressionante, e ainda usava um terno, Jonas podia ver que ele estava em boa condição física.

– Como você chegou aqui? – Jonas perguntou nervosamente.

O homem simplesmente ficou olhando para a mesa. Parecia estar estudando documentos de Jonas.

– Posso ajuda-lo em alguma coisa, senhor...?

O desconhecido não disse nada, sem deixar de olhar para a parte de cima da mesa. E então, levantou a cabeça e olhou para Jonas. Era bonito de uma forma distinta. Lembrava o ator que costumava interpretar James Bond e que depois protagonizou o filme sobre o submarino russo. Mas seus olhos eram estranhamente diferentes. Havia algo errado com eles. Jonas pensou nos olhos de uma coruja de pelúcia que sua avó guardava em uma estante de vidro em sua casa de praia em Maine: preto escuro no centro e rodeado de ouro.

– Camael – respondeu o desconhecido com uma voz poderosa. – Sou Camael e vim em busca do menino.


O cheiro azedo de medo do ser humano estava misturado com uma forte essência dos Nefilins. Era um odor masculino, uma fragrância masculina. – Eu não quero machucar o menino, mas é imprescindível que o encontre.

O Dr. Jonas se colocou de pé e bateu com as palmas de suas mãos gordas para baixo, sobre a área de trabalho. – Ouça – ele disse – não tenho a menor ideia do que você está falando.

O psiquiatra era um homem grande. Poderia ter sido poderoso uma vez, mas os anos tinham sido pouco amáveis e seu corpo tinha ido para o lixo. Apontou com um dedo quadrado em direção à porta com autoridade. – Então, vou ter que lhe pedir para sair.

Como se estivesse planejado, a porta do escritório abriu–se lentamente e Camael rosnou quando dois dos Poderosos de Verchiel entraram na sala.

Os dois perceberam imediatamente e emitiram um silvo da serpente de suas bocas. – O traidor. – cuspiu um com o cabelo preto, seu corpo agachado de joelhos, preparado. Tinha passado um milênio desde que Camael os havia enviado, mas acreditava que este se chamava Hadriel.

– O que diabos está acontecendo aqui? –Proferiu o humano. – Deixem meu escritório, todos, ou vou...

– Silêncio, macaco! – Advertiu o outro anjo.

Camael sabia o nome deste com certeza. Era Cassiel, um dos agentes mais cruéis de Verchiel.


– Eu recomendo que você se coloque a salvo, doutor. – Camael advertiu. Ele não tirava os olhos dos Poderosos, sentindo a calma que precede uma batalha, enchendo-lhe lentamente.

– Este macaco vai chamar a polícia – disse o psiquiatra nervoso ao levantar o telefone de sua mesa.

Cassiel se moveu como um borrão. Sua mão saiu em disparada e de sua mão emanou uma abrasadora luz branca. – Eu lhe pedi para ficar quieto.

O médico gritou em agonia enquanto seu corpo estalava em chamas. Bateu contra a parede e caiu no chão, completamente envolvido em fogo. Estremeceu e caiu morto e em cada lugar onde ele tocou, começou a queimar.

Camael usou essa distração para atacar. Em sua mente, ele viu a arma que queria e esta se formou em sua mão, composta por fogo celestial. Atacou, balançando a lâmina em chamas para Hadriel, que parecia absorto na agonia do psiquiatra. Mas o anjo reagiu rapidamente, convocando uma arma de sua propriedade, uma lança, e bloqueou o golpe que, sem dúvida, teria cortado–lhe a cabeça.

As armas que se enfrentaram, soando como o rugido de um trovão.

– O grande Camael. – Hadriel zombou quando o bloqueou e empurrou para frente com sua lança em chamas. – Um dos nossos mais velhos, obrigado a viver entre os animais humanos.

Camael esquivou–se para evitar que lhe cravasse a lança e empurrou sua lâmina para baixo, cortando em dois a arma de seu atacante de forma explosiva. – Você fala demais, Hadriel – disse, enquanto caminhava e se lançou contra ele, o punho da espada bateu no lado da cabeça do soldado, fazendo com que se ajoelhasse sobre seus joelhos. – Um traço humano, eu acho – disse Camael ao anjo atordoado.

Camael ouviu o sussurro de outra arma, cortando o ar. Abriu suas asas e voou para cima justo quando a espada de Cassiel passou por baixo dele, sem causar dano algum.


– Você está sozinho, Camael? – perguntou–lhe Cassiel quando, por sua vez, levantou do chão e abriu suas asas para juntar–se a ele no ar.

Camael rebateu o empurrão de Cassiel e manobrou de perto. Cravou um joelho fortemente no estômago do anjo. – Minha missão é toda a companhia que preciso – disse ele enquanto aproximava seu rosto ao do anjo. – Eu vim para desfrutar da minha solidão.

Cassiel desabou no chão.

O escritório estava em chamas e uma espessa fumaça preta encheu o ar.

– Desprezado por seus irmãos, temido pela classe que uma vez você destruiu. – Cassiel lutava de todas as formas. Levantou os olhos para Camael e sorriu. – Tudo pelas divagações de um animal afetado pela loucura.

– Não sinta pena de mim, irmão – disse Camael enquanto deslizava para baixo, para o anjo, com a espada na mão. – Mas pergunte a si mesmo: O que acontece se o vidente estava certo? E se tudo for verdade? O que acontece então?

Cassiel gritou e atacou novamente. – Nunca chegará a ser – gritou, na mesma hora em que aparecia um punhal em sua mão e esfaqueava Camael, puxando-a para trás. – Mentiras, tudo mentiras!

Camael recuou diante do golpe da lâmina de Cassiel, lançou-se para trás e cravou seu calcanhar no peito do anjo. Cassiel foi jogado de volta pela força do golpe e caiu sobre uma cadeira em frente da mesa.

A fumaça havia se tornado mais espessa e Camael sabia que não passaria muito antes que o escritório fosse totalmente consumido pelo fogo. Tinha que verificar a identidade desse garoto. A essência deste Nefilim era forte, pode ser a mais forte que já tenha sentido alguma vez, pensou ele. Muito forte, na verdade, de modo que Os Poderosos não tenham necessidade de rastrear para encontra-lo. Ele ficou tenso, esperando, esperando que Cassiel se levantasse, sua mente estava em guarda. Ele por acaso, poderia ser a razão pela qual Verchiel tinha


aumentado a frequência e a selvageria de seus ataques? Perguntou-se de novo se este poderia ser o Único.

Camael gritou de dor e raiva repentina quando a lança de Hadriel atravessou seu ombro por trás. Essa foi uma negligência sua. Distraído por seus pensamentos, ele havia se esquecido de verificar se os seguidores de Verchiel ressurgiam através da espessa fumaça, uma nova arma na mão.

– Termine – ordenou Cassiel, conforme ele se levantava por entre as chamas.

Hadriel jogou para trás a ponta da lança e atirou-a para frente novamente, mas desta vez Camael estava pronto. Saltou do chão com as asas estendidas. Ele havia convocado novas armas, espadas curtas, do arsenal de sua mente e as agarrou com firmeza em cada mão.

O ataque de Hadriel passou por debaixo dele e antes que ele pudesse reagir, Camael empurrou uma de suas espadas brutalmente para baixo, cortando o crânio do anjo, como se fosse o tronco de uma árvore podre.

– Não! – Cassiel gritou enquanto corria rápido para Camael, ansioso por vingar seu companheiro caído.

– Os soldados de Verchiel tornaram-se descuidados – Camael zombou enquanto puxava a arma do crânio do anjo e bloqueava o ataque furioso de Cassiel. Empurrou para cima com a outra lâmina e atravessou o peito de seu atacante.

Cassiel gemeu e bateu suas asas freneticamente, enquanto caia no chão apertando a ferida no peito.

Camael caminhou através da fumaça e do fogo até seu inimigo caído. – O que Verchiel sabe sobre esse menino Nefilim? – Perguntou. – Diga-me e te deixarei viver.

Cassiel colocou-se de pé, encostando–se à parede. – Você vai me deixar viver? Você está se ouvindo, Camael? Pensei que você havia desertado dos Poderosos, porque estava cansado da


violência, de toda a matança. – O anjo tinha uma mão trêmula sobre sua ferida que sangrava. – Acho que você se tornou o que eu mais odeio – sussurrou Cassiel, ao mesmo tempo em que enfiava a mão no fogo, através da parede e a tirava, com o crânio do psiquiatra ainda queimando e o atirou contra ele.

Camael interceptou o crânio ardente, cortando-o em dois, conforme ia se aproximando. Aproveitando esse momento, Cassiel estendeu suas asas e saltou para as cortinas queimadas do outro lado da sala. O anjo fugiu passando pelo material em chamas e, em seguida pelo vidro da janela, para escapar junto com uma explosão.

O fogo ardia mais brilhante, maior, quando uma explosão repentina de oxigênio alimentou o fogo.

A identidade do Nefilins era mais importante do que a perseguição, Camael apressou– se para a mesa. Os papéis espalhados sobre sua superfície já tinham começado a queimar e se enrolar. Seus olhos examinavam detalhadamente os documentos, em busca de algo, qualquer coisa que lhe dissesse onde estava o menino.

Debaixo de uma pasta carbonizada nos bancos, ele viu. Uma única frase rabiscada em um pedaço de papel anexado a um arquivo. O paciente acredita que agora tem a capacidade de entender e falar todos os idiomas estrangeiros.

Camael pegou a pasta. Algo estalou por cima dele e se afastou para o lado na hora em que uma parte do teto desabava em uma chuva de detritos inflamados. Ao longe, os uivos tristes dos caminhões de bombeiros enchiam o ar. Ele tinha o que precisava e se preparou para deixar o lugar com pressa. O tempo era essencial, pois tão logo Verchiel soubesse de seu envolvimento, com toda certeza quebraria todo o inferno.


Dentro do campanário abandonado da Igreja do Sacramento Bendito, Verchiel olhou fixamente a familiar cara da mortalidade humana. Desde o regresso dos poderosos no pântano verde que era o Chernobyl, seu rastreador havia caído gravemente doente. A pobre criatura estava sobre um leigo de lona plástica em uma zona escura na torre onde uma vez tinha um sino pendurado. Estremeceu–se, gemendo em voz baixa, ia pouco a pouco morreu com os venenos radioativos que tinha estado exposto em sua última caça.

– Não há mais nada que posso fazer por ele? – Perguntou Verchiel ao curandeiro humano que estava administrando medicamentos nas feridas de Cassiel.

O curandeiro chamado Klaus girou seu olhar cego para o som da voz de Verchiel. Tinha os olhos coberto por cataratas.

– Isso é tudo que posso fazer meu amo, – disse enquanto pegava habilmente uma agulha de ouro do interior de uma maleta de couro desgastado e habilmente colocou uma linha grosa na agulha de ouro. Sua falta de visão não havia afetado sua habilidade com a agulha. Não passou muito tempo antes de saturar.

– Sua habilidade me serviu muito. – Disse o líder dos Poderosos, vendo os olhos do jovem moribundo coberto de negras feridas do lado. – Vai ser irritante encontrra outro. Verchiel se moveu através da bagunça da torre, o espaço utilizado agora como enfermaria, o curandeiro e seu paciente, o menino estava quase morto por completo. – E você Cassiel? – perguntou suavemente – Me serviste por completo também?

– Sim, milord – respondeu Cassiel sem respiração enquanto estava no seu leigo empoeirado; enquanto isso o curandeiro cego mexia em sua ferida.


– Disse que Camael estava ali antes de você chegar? – Perguntou Verchiel enquanto olhava o curandeiro, cujo trabalho consistia em atender as formas físicas dos anjos, fechar as feridas de seus soldados habilmente.

Embora primitiva para as normas angelicais, os macacos humanos em ocasiões especiais surpreendiam inclusive ele com suas habilidades.

Verchiel abaixou-se junto com o curandeiro enquanto contemplava a tarefa. – Ele se curará? – perguntou Verchiel – A ferida não vai mata-lo?

Kraus estremeceu pelo poder da voz de Verchiel. – Nã... não – gaguejou o homem enquanto dava uma olhada cega para seu amo. – A lesão necessita tempo pra recuperar, mas se curará.

O que há nos animais defeituosos, os cegos, os que têm problemas mentais que os fazem ser tão bons servos? Verchiel se perguntou, pensando nos humanos prejudicados que frequentemente são levados a loucura só por estar na presença dos anjos.

– Ficará bem aqui – proclamou Verchiel e suavemente tocou a parte superior da cabeça do homem de mais idade com a ponta dos dedos. – Cuida do rastreador, alivia sua morte se for necessário.

O homem ficou sem respiração, seu corpo contemplava como se estivesse em êxtase, como se houvesse sido tocado por Deus, a melhor coisa seguinte. Kraus se agachou, fechou sua maleta de instrumentos médicos e se escorou no corrimão escuro pra ajudar a um membro de sua própria raça que estava morrendo.

Talvez suas imperfeições os fizessem ser mais receptivos. Essa era uma hipótese de Verchiel, que tinha a esperança de explorar mais a fundo algum dia, quando sua missão fosse finalmente contemplada. Ele saiu de sua contemplação. Todos os dias tinham muito que fazer. –


Sinto tão fortemente o Nephilim, que informação tens trazido dele? – Verchiel perguntou a Cassiel que estava sentado no solo de madeira. –Trago informações sobre Camael, – disse Cassiel com impaciência. – Viver entre os macacos o converteu em frágil e débil, é... só é uma questão de tempo antes de que ele fosse um traidor e fosse destruído...

– Frágil e débil você disse? – verchiel perguntou com um sorriso amargo nos lábios carnudos. Na igreja a missa começava com o som de um órgão de tubos. Os acordes melosos de um hino deveriam chegar na torre do sino.

A música era perturbadora. – Mas não tão frágil e débil para impedi-lo de matar Hadriel e ferir você tão gravemente? – Cassiel se retorceu, tratando de recuperar–se. – E... o espaço era estreito e havia uma fumaça cegadora. Por favor...

A música chegou ao seu fim na igreja e os murmúrios da oração começaram.

– Assim você não me trás nada do mestiço?

Cassiel ajeitou–se. Um líquido negro começou a escorrer ao redor da ferida com pontos. – O fogo queimava fora do controle e Camael estava ali. Não havia muito que pudéssemos fazer...

As doces palavras de seu soldado deixaram Verchiel furioso quase tanto como as tentativas dos homens para falar com Deus, como na cerimônia da igreja abaixo. Verchiel se abaixou para a ferida de Cassiel e colocou seus dedos debaixo dos pontos. Cassiel gritou.

– Silêncio,– cuspiu Verchiel quando rompeu os pontos e um espesso líquido negro começou a sair da carne do anjo.

Como se atrevem a falar com ele pensou indignado pelos fiéis orando na igreja abaixo. Se meu Senhor não fala comigo então porque eles tem a audácia de crer que escutara a tão


patética missa? Pensou Verchiel perturbado. Deixou de lado as suturas e pedaços de pele arrancados que estava pendurado no fio. Cassiel estava em silencio se retorcendo no chão com a ferida aberta e chorando.

– Você falhou comigo, – grunhiu Verchiel enquanto recolhia Cassiel do chão e o levantava no alto. – E não me dou bem com o fracasso.

O órgão começou a tocar outra vez e os macacos começaram a cantar. Por que insistem em fazer isso? Perguntou–se.

Eles creem que os sons distorcidos de suas bocas primitivas agradariam o Criador, ele que havia orquestrado a sinfonia da criação?

Cassiel agitava suas assas enquanto se esforçava para compreender seu líder. – Maestro Verchiel, têm misericórdia – implorou ele.

Verchiel necessitava ouvir algo diferente que os lamentos dos animais abaixo, algo que pudesse se acalmar de seu estado frenético. Sustentando a Cassiel pela garganta ele pegou uma das assas de seu soldado.

– Por favor... Não – declarou Cassiel.

Verchiel pegou a assas delicadas nas mãos e começou a dobrá-la, a torcê-la. O som era horrível, agudo, a cartilagem cedeu pela pressão. O anjo gritava, pedindo e gritando para ser perdoado pelas suas infrações.

Verchiel deixou cair de suas mãos de Cassiel. O anjo soluçava, sua assa estava torcida em um ângulo obsceno.

– Pedido atendido, – ladrou Verchiel, sabendo que o curandeiro estava escutando escondido nas sombras, esperando para servir; – Decepciona–me outra vez e te arrancarei as


assas de seu corpo, – confiou Vercheil a Cassiel enquanto dava as costas. Tinha decidido ser misericordioso, era o que o Criador tinha dito.

Aaron estava sonhando outra vez.

Um velho com um olho de cor branco leitoso esta utilizando uma vara pontiaguda para escrever em uma tabua de argila roxa.

Aaron olhava ao seu redor. Onde demônios eu estou? Perguntou-se. Ele estava em uma estrutura de um só cômodo, uma cabana, coberta de palha e feita de grandes tijolos de barro. Lâmpadas primitivas de azeite que estava ao redor do cômodo eram a única fonte de luz. Cheira a odor corporal e urina.

O velho era mortalmente delgado, tinha o cabelo e barba muito compridos. Havia coisas que viviam em seu selvagem cabelo. Terminou um símbolo na tábua de argila e levantou lentamente a cabeça peluda e olhou para Aaron.

Observou a escritura e falou em uma língua gutural. – É de você que vejo o futuro. Escrevo de você agora.

O olho mal se moveu para a direita e Aaron não pode deixar de pensar na lua. O velho abaixou uma mão esquelética coberta por uma camada fina de pele cheia de manchas, quase transparente e estendeu a tábua para que Aaron pudesse ver, para que pudesse ler. Olhando para baixo na sequência de símbolos primitivos Aaron sabia o que o homem escreveu. Era de alguma forma, uma profecia, algo sobre a união da mulher anjo e o homem mortal, criando uma ponte para os que tinham caído.


Que diabos significa isso? Perguntou-se. Ele começou a falar, mas se deteve, foi interrompido por uns gritos que vinham de fora da cabana e algo mais. O velho começou a olhar para ele fixamente e levantou uma mão para cobrir o olho mal.

– Vejo agora – sussurrou – Você viu teu destino. Agora deve cumpri-lo. Os gritos estavam cada vez mais pertos e tinha outro zunido no ar, um zunido que era familiar que lhe chega com temor.

O som de assas batendo.

Aaron se despertou com um grito apavorado, asfixiando. Seu coração se acelerou e por seu corpo nervoso escorria suor.

Ele podia ouvir a agitação e logo o silêncio.

Gabriel estava junto a ele em cima da cama, também tinha despertado e o olhava fixamente.

– Eu te acordei garoto? – perguntou Aaron atordoado, tirou uma mão das cobertas e acariciou a cabeça do cão. – Eu sinto muito, pesadelos outra vez.

Ele deu umas palmadinhas no cão, começou a acalmá-lo, a pulsação ficou mais lenta. Gabriel era tão bom como um calmante.

O cão lambeu a mão afetuosamente. – O velho estava morto de medo, não? – disse Gabriel.

– Velho? Te referes a Zeke, Gabe? – perguntou Aaron, começando a cerrar os olhos, continuando acariciar o pêlo embolado que cobria a cabeça dura do cão.


O cão voltou a olhar para ele. – Não, não Zeke – respondeu ele – o velho do sonho. Ele me deu medo também.

Isso o golpeou com a força de um martírio. Aaron lutou contra os travesseiros e com o cobertor para sentar. Ele estendeu a mão e acendeu a luz.

– Como você sabe do homem em meu sonho Gabriel? – Aaron perguntou aterrorizado pela resposta que o cão podia dar.

– Eu o sonhei, – respondeu o cão com orgulho. E sua calda balançou com alegria. – Tenho sonhos diferentes agora, não correndo e saltando e perseguindo gatos.

Aaron se inclinou para trás e deixou que sua cabeça encostasse contra a cabeceira da cama – Não posso acreditar nisso. Tive o mesmo sonho que eu?

– Sim, – disse Gabriel. – Por que seus olhos pareciam como a lua Aaron?

Aaron sentiu como se estivesse em uma montanha russa agora, perpetuamente naufragando cada vez mais fundo na obscuridade, ganhando velocidade, sem nenhum sinal do final do passeio. E não havia nada mais que ele quisesse mais que parar.

–Por favor, pode parar, – sussurrou.

Gabriel se arrastou mais perto e colocou o queixo em cima da perna de Aaron. – Está bem Aaron – disse o cão com devoção – Não fica triste.

Aaron abriu os olhos e começou a acariciar o cão de novo – Não passa nada Gabe. Tudo está girando fora do controle. Que está acontecendo? O que está acontecendo que... não está bem?


Gabriel se sentou e pressionou sua cabeça contra seu amo. – Eu fiz muito dano e você me diz para se sentir melhor, – disse o cão inclinando a cabeça – Te atormenta como sou agora... diferente? Aaron olhou seu melhor amigo em seus olhos e sacudiu a cabeça. – Não, não estou atormentado por isso. Disso tudo, essa é a única coisa acerca desse negócio que estou disposto a me acostumar. – Estendeu a mão e acariciou a cabeça do cão. – E todo o resto, os sonhos bizarros, as coisas que Zeke me disse... – se encostou contra a cabeceira de novo e suspirou pesadamente – Não quero isto Gabriel. Eu já tenho problemas suficientes. Tenho que terminar a escola secundaria com PAM15 boas o suficiente para entrar em uma boa universidade.

– Programa de Ações Mundial? – perguntou o cão. – O que é PAM?

– Pro-médias de classificação, – explicou Aaron – Se tem algo muito bom, muito bom mesmo em minhas aulas da escola.

Gabriel fez um gesto de compreensão.

–Toda esta merda sobre anjos e nephilim, não me importa se é verdade, simplesmente não posso lidar com isso. – E nesse momento Aaron tomou uma decisão. – Eu vou dizer a Zeke que terminou. Não quero saber de mais nada. Tudo vai voltar a ser como antes do meu aniversário.

Olhou para o relógio da mesinha de cabeceira. Era cerca das 4 da manhã e queria voltar a dormir, estava cansado, tanto mentalmente como fisicamente. Mas também tinha os sonhos.

– Bom vamos tentar outra vez, – disse enquanto estendeu sua mão e apagou a luz. Colocou a cabeça no travesseiro e passou o braço ao redor do cão.

– Boa noite Aaron, – disse Gabriel enquanto se movia para compartilhar o travesseiro. – Trate de sonhar sonhos bons. 15

como um vestibular


– Farei meu melhor esforço amigo, – respondeu Aaron e em pouco tempo caiu em um profundo sonho ativando suas fantasias, não de velhos, nem de antigas profecias, e não de anjos, sim de correr muito rápido debaixo do sol, perseguindo coelhos.

Verchiel sem fazer barulho desceu a escada de madeira em forma de caracol da torre do sino da Igreja Do Santíssimo Sacramento. A escada estava envolvida por uma total obscuridade, mas não significava nada para um ser que havia navegado no vazio antes do Todo Poderoso provocar a luz da criação.

Ao pé das escadas tinha uma porta trancada com chave e Verchiel quis simplesmente que o mecanismo de trava se abrisse para entrar no lugar do culto. O anjo encontrou o caminho para o corredor aonde os homens santos se preparavam para ir à frente da congregação e saiam do altar. Olhou por cima dele no limite com a torre e viu uma cruz gigante de ouro que estava suspensa, símbolo de sua fé. Desde seu lugar no altar, se sentou na igreja, saía à luz do sol da manhã nas janelas que se diluía através dos vitrais coloridos.

Havia certa tranquilidade aqui que ele não esperava dos macacos.

Verchiel se abaixou e dirigiu-se para o altar. Quando caminhou metade da igreja se voltou para olhar cruz. Assim foi como os primitivos tinham feito, pensou. Essa foi a forma que inventaram para comunicar-se com Deus.

Recordou das incontáveis vezes que se divertia com suas práticas ordinárias, eles reconstruíam seus altares de pedras e madeiras e tratavam de falar com o único e verdadeiro Deus através de um ato de oração. Era um pensamento inquieto, mas talvez este lugar de culto poderia restabelecer sua conexão com o céu e outra vez conseguir conversar com o criador sobre todas as coisas.


Lembrou como faziam, a forma que oravam e se moveu para uns dos bancos de madeira. Atordoado, Verchiel se ajoelhou e juntou as mãos diante dele, seus olhos escuros estavam fixos no altar.

– Sou eu Senhor, – as palavras pronunciadas na língua dos macacos. – Tem passado muito tempo desde a última vez que te falei e necessito da tua ajuda.

O anjo olhou ao seu redor por todo o santo lugar em busca de sinais de que estava sendo escutado. Não tinha nada mais que a declaração de sua própria voz.

Talvez se estivesse mais fechado. Saiu do banco e se dirigiu de novo para o altar.

– Minha missão, minha razão de existência cresce nestes dias obscuros.

Olhou fixamente a cruz de ouro, suspensa no ar em cima do altar.

– Tem uma profecia de que estou seguro que irá ter conhecimento. Ela fala do perdão e misericórdia para os que estão caídos de sua graça, Pai Celestial.

Verchiel começou a passear diante do altar.

– Diz que perdoariam os seus pecados mais horríveis e que haverá um profeta, um que atuará como o portador da absolvição.

Estava–se pondo inquieto e enojado. O ar corria ao seu redor com hostilidade reprimida. – E será um Nephilim, – Verchiel cuspiu envergonhando pela palavra. – Um Nephilim, uma criatura incapaz de viver debaixo de seus olhos, uma piada de vida que eu dou meu maior esforço para erradicar de seu mundo com fogo e as inundações.


O anjo deixou de passear. – Os malvados dizem que o tempo da profecia está perto, que a ponte entre os anjos caídos e o céu se estabeleceria. – Ele subiu no altar, seu olhar nunca vacilou sobre o símbolo de ouro. – Eu necessito que me digas, Senhor.

Sigo meus instintos e não faço caso das escrituras de blasfêmias daquele velho? Ou eu ignoro o objetivo concedido sobre mim depois da primeira guerra do céu? Necessito saber Pai? Devo continuar com as mesmas tarefas e destruir tudo o que o ofende ou deveria dar um passo atrás e deixar que prevaleça essa profecia?

Verchele esperou, esperou algum sinal, mas não tinha nenhum, suas perguntas se reuniram com ele em um impertinente silêncio.

A raiva que tinha servido na guerra durante todos esses milênios explodiu no interior dele. Suas assas saíram de suas costas e uma lâmina poderosa de fogo apareceu em suas mãos. Sacudiu a espada em chamas perante a cruz e expressou seu nojo. – Diga-me Deus meu, porque estou perdido. Me dê uma ideia da tua vontade.

Ouviu um ruído em algum lugar sobre o altar e caiu em silêncio.

Será que o Criador ouviu minha declaração? Pensou o anjo. Foi o Todo Poderoso que concedeu um sinal para dissipar minhas dúvidas?

Uma velha saiu do cômodo dos fundos, com um balde de plástico cheio de água em umas das mãos e um esfregão na outra. Era óbvio que havia escutado sua suplica e tinha curiosidade por ver quem rezava poderosamente.

Seus velhos olhos abriram um por um. O balde de água com sabão escapou das mãos e derramou no solo do altar.

Que quadro tão impressionante de se contemplar, pensou, abrindo suas assas completamente, mantendo-as abertas a luz do sol.


Ela ficou tentada a fugir, tinha um pânico selvagem em seus movimentos, mas se deteve em seco. Uma mão enrugada pela idade se agarrou em seu peito e sua boca aberta em um grito silencioso. A mulher caiu no chão em um monte, seu olhar fixo murmurou sobre o símbolo de ouro de sua fé a cima dela.

Verchiel sorriu. – Assim é bom saber de você outra vez – ele murmurou adivinhando o que acabava de ver. – Farei tua vontade.

Ainda com a roupa de dormir Aaron desceu as escadas. Gabriel esperou com impaciência na parte inferior. Aaron bocejou e bateu os lábios. Tinha o mau sabor do sono ainda no interior da sua boca.

Esperava conseguir um pouco de suco e logo ir para o piso acima para escovar os dentes, antes que tivesse que falar com alguém.

Tinha dormido mais do que queria, mas depois de ver que havia tido alguns problemas a noite e era domingo, não era só isso, simplesmente tinha muita sede.

– Posso comer agora? – perguntou Gabriel ao lado de seus pés descalços.

– Tão logo quando eu tomar um pouco de suco, – ele disse ao cão.

O chão de madeira estava frio na sola de seus pés e ajudou a despertar o atordoamento que vinha com a manhã. Lori estava sentada na mesa da cozinha alimentado Stephen com seus cereais.

– Oi – disse Aaron tirando da porta da geladeira suco.


– Oi, você mesmo, – sua mãe respondeu.

Gabriel se foi longe para saudar Lori e Stivie com um bom dia. Aaron quase bebeu no bico, mas pensou melhor e buscou um copo no armário. Ele o encheu pela metade e se apoiou na pia e tentou acalmar sua sede.

Lori o olhava fixamente. Ela tinha esse olhar no rosto, aquele que dizia que algo ia mal, que tinha má notícia para contar. Aaron estava familiarizado com esse olhar: era o mesmo olhar que havia dado quando a viagem familiar a Disney World fora cancelada porque a agência de viagens atuava de forma ilícita nos negócios. Nunca foi à Disney.

– O que aconteceu? – perguntou.

Stivie decidiu comer sozinho e tomou a colher dela. Ele agarrou um monte de cereal açucarado na colher e logo a meio caminho da boca, derramou no chão. Gabriel se pôs a trabalhar de imediato na limpeza do chão.

– Stivie, não – disse Lori enquanto pegava a colher do menino e tirou a taça de seu alcance.

– O que é? – Aaron perguntou, aproximando dela.

O jornal de domingo estava sobre a mesa e deu a volta para que pudesse ler a notícia.

PSIQUIATRA MORRE EM MEIO A CHAMAS

Aaron não estava seguro porque se sentia tão afetado, e se deu conta da imagem que acompanhava a historia. A foto era dos bombeiros que lutavam contra o incêndio em um edifício de escritórios. Ao pé da foto dizia: Dr. Michael Jonas morreu ontem enquanto estava em seu escritório em Boston na Rua 257, envolto em chamas. Os funcionários estão investigando o


incêndio, mas creem que foi um vazamento de gás que pode ter sido o responsável pela explosão.

Aaron tirou os olhos do jornal e olhou para sua mãe – Meu Deus, meu – foi todo o que pode dizer.

Lori se inclinou sobre a mesa e apertou sua mão. – Eu sinto muito carinho, – disse ela como apoio, – Tentou vê-lo ontem à noite?

Aaron escutou a pergunta na borda de seus pensamentos. O Dr. Jonas estava morto. Se supôs que ia ver ao homem ainda, mas a conversa que teve com Zeke, não tinha sentido por completo. Tinha pensado em ligar para ele na segunda para pedir desculpas. A mão de sua mãe estava na sua. Ela a apertou. – Aaron?– perguntou.

– Desculpa,– disse – Estava imerso aos meus pensamentos. O que você disse?

– O Dr. Jonas ligou enquanto você estava fora, – respondeu ela –Trataste de responder a chamada?

Aaron moveu lentamente a cabeça. – Me ligou? Eu... Não vi a mensagem.

Quando chegou em casa na noite interior estava cansado. A família tinha saído para jantar e a tranquilidade da casa era atrativa. Tinha alimentado Gabriel, o levou para fora e logo foi para cama ver um pouco de televisão. Ele nem sequer tinha pensado em verificar a caixa de mensagens.

– Não sabia que ele ligou, – disse ainda pensativo, imaginando o homem que tinha visto à apenas dois dias, cheio de vida e desejo de ajuda-lo. – Como pode acontecer isso? – perguntou sem esperar respostas.


– Disseram que foi provavelmente vazamento de gás, – respondeu Lori enquanto agarrava a tigela de cereais e levava a geladeira.

Stivie deixou sua cadeira escalando para baixo e saiu para a sala sem pensar em nada no seu caminho.

Gabriel rondava Aaron e se deu conta que o cão não tinha se comido. – Eu sinto muito amigo, – disse, foi na geladeira e pegou uma bacia de comida para o cão.

Lori estava lavando os pratos do desjejum. – Se tratando de vazamento de gás uma faísca de fogo podia fazer o truque.

Aaron preencheu com comida o recipiente de Gabriel e o colocou ao lado de seu prato de água. Sua mãe seguia falando, mas era a última palavra que criou a imagem perturbadora em sua mente.

Viu Zeke acender seu cigarro.

– Se tratava de vazamento de gás...

As palavras de sua mãe percorreram sua cabeça.

Zeke acedeu a ponta dos dedos com fogo. Fogo desde a ponta dos dedos.

–... só uma faísca poderia fazer o truque.


Aaron não poderia esperar para a segunda–feira chegar.

A escola Ken Curtis tornou-se seu refúgio. Uma vez dentro de seus muros, as regras eram simples, ir para a aula, fazer lição de casa, fazer o exame. Não era assim no mundo real recentemente, um lugar que estava se tornando menos real para ele a cada dia que passava.

Na escola poderia descartar os pensamentos de cães conversando, Nephilim, Os Poderosos e a morte ia para o fundo de sua mente já confusa, pelo menos até que o sino tocava às duas e meia. A escola era à ultima distração, e foi exatamente o que ele desejava.

Na hora do almoço, Aaron estava em seu armário para deixar os livros das aulas da manhã. Não estava com fome, mas sabendo que tinha que trabalhar na clínica depois da escola, pensou que provavelmente deveria comer alguma coisa.

Seu livro de psicologia caiu no chão, e seus pensamentos se voltaram para Michael Jonas, quando se inclinou para pegá–lo. Perguntas jorraram como se uma torneira estivesse aberta ao máximo. O que realmente causou o incêndio? Ele viu um flash da ponta dos dedos de Zeke e seu cigarro aceso.

Por que eu estou pensando assim, ele perguntou, devolvendo o livro a prateleira do seu armário. Ele sabia que Zeke não tinha nada a ver com o fogo que pôs fim à vida de seu psiquiatra. O jornal disse que havia começado durante a tarde, quando ele e Gabriel estavam com o anjo caído em seu quarto de hotel.


Mas e os outros? Pensou com uma intuição. Que tal... Os poderosos?

Seu estômago se contorceu, quando fechou o armário. Você pode ter que pular o almoço e ir para a biblioteca.

Com a cabeça para baixo, virou-se e quase bateu em Vilma Santiago.

Aaron cambaleou para trás.

– Oi, – falou nervoso. – Não te vi, me desculpe.

–Olá.

Ela parecia indiferente à sua falta de jeito, mas ficava tão nervoso em torno dela que talvez ela achasse normal. Logo depois de seu armário, viu dois de seus amigos jogando Secret of the Weasel, tentando não ser capturado.

– Como você está? – Perguntou Aaron sem convicção. Se ele não tivesse enrubescido, no entanto, seria apenas uma questão de tempo.

– Estou bem, – disse ela. – Como você está?

–Estou bem – disse ele com uma piscada idiota e um sorriso nervoso. –Muito bem. – Sua mente estava em branco, vazia de toda a atividade elétrica. Ele não tinha ideia do que dizer em seguida, e quis saber como ela reagiria se começasse a chorar.

O silêncio foi se tornando cada vez mais desconfortável enquanto falava. – Você vai comer? – Ele perguntou, olhando ao redor com pressa.


E de repente a ideia de um almoço parecia maravilhosa. – Sim, a comida é excelente, é hora do almoço, com certeza, eu vou comer. – Aaron não poderia acreditar no que estava fazendo. Ele era um completo idiota. Não a culpou pelo menos, se ela se virasse e fosse embora. Não. Se sair correndo.

– Quer almoçar comigo? Ela perguntou com sua voz suave, como se esperasse rejeição.

Ele ficou em silêncio. Não tinha palavras disponíveis, por favor, tente novamente mais tarde. Fiquei horrorizado, eu não podia sequer pensar em uma coisa estúpida a dizer.

Vilma de repente pareceu embaraçada. – Se você tem algo para fazer, eu vou entender bem...

– Eu adoraria – finalmente conseguiu dizer. – Desculpe... Eu só estou um pouco... você sabe, surpreso que você quer falar comigo.

Ela sorriu, e sentiu-se como se a temperatura no hall subisse vários graus.

Ótimo, agora eu estou suando, ele pensou. Muito legal.

– Sou cheia de surpresas, Aaron Corbet – disse, com uma mecha de seu cabelo escuro na face. – Então você quer ir para o refeitório ou fora do campus?

Nesse momento alguém chamou o seu nome. Ambos se voltaram para ver a Senhora Vistorino, a secretária do escritório de aconselhamento, vindo pelo corredor. Ela era famosa por trajes de calças coloridas e naquele momento usava sapatos verde limão para combinar.

–Aaron – a Sra. Vistorino chamou novamente. – Eu estou contente que te achei.


– Há algo de errado? –perguntou com cautela, a sensação de enjôo na boca do estômago retornado.

–Há um representante do escritório de admissões Emerson College, e quer vê-lo agora.

– Emerson? – Aaron murmurou para si mesmo. – Mas eu não...

A mulher virou-se e começou a voltar de onde veio. –Disse-me algo sobre uma bolsa de estudos integral, por isso, se eu fosse você, eu moveria sua bunda para lá agora.

Vilma tocou seu braço. – É melhor você ir – disse ela, olhando feliz para ele. Ele estava dividido. Ele realmente queria ir almoçar com Vilma, mas a oportunidade de obter uma bolsa integral era algo que eu não podia perder. – E quanto há você? – ele perguntou. – Eu realmente quero...

– Nós podemos marcar o almoço para amanhã – disse, interrompendo. – Não se preocupe comigo. Ela se virou para suas amigas que ainda estavam de boca aberta do outro lado do corredor. – Vou comer alguma coisa com elas. Não há problema, de verdade – Vilma apontou para o final do corredor. – Talvez você possa juntar–se comigo mais tarde para me dizer como foi a sua entrevista?

– Claro – respondeu ele, surpreso com seu interesse. –Vou encontra-la no seu armário após a última hora – ele virou-se para ir e dizer adeus, mas depois decidi não fazê-lo. Seria errado.

Mas, ao virar a esquina perdeu o controle, olhou para trás e acenou. Vilma foi olhando para ele e acenou de volta. Suas duas amigas intrometidas estavam com ela agora e ambas começaram a rir.

Quando estava indo para o escritório da orientação revia mentalmente os pedidos enviados as universidades. E tanto quanto tentasse, não poderia recordar qualquer pedido para


Emerson. A Sra. Vistorino estava no telefone atrás de sua mesa quando Aaron entrou no escritório.

– Está no escritório do Sr. Cunningham – sussurrou enquanto colocava sua mão no telefone. "Sr. C foi embora pelo resto do dia."

Ela retirou a mão no telefone para retomar a sua chamada. – Boa sorte – disse ela com a boca, enquanto ele estava na porta do escritório. Então ele girou a maçaneta e entrou.

O homem estava de costas para Aaron olhando pela janela para o estacionamento da escola. Aaron fechou a porta suavemente e pigarreou. O homem virou-se e olhou com um olhar tão intenso, era como se ele estivesse tentando ver através cabeça de Aaron, dentro de seu cérebro.

– Uh... Olá – disse Aaron, longe da porta. – Sou Aaron Corbet. A Sra. Vistorino disse que queria falar comigo?

Ele estendeu a mão ao homem. Era algo que seu pai adotivo havia ensinado. Quando conhece alguém pela primeira vez, sempre apresentar-se e apertar as mãos com a pessoa. Isso mostra o caráter da pessoa, ele disse. O homem olhou para a mão de Aaron, como se estivesse decidindo se estava limpo o suficiente para tocar.

– E você é...? – Aaron perguntou para quebrar o silêncio constrangedor.

– Chamo–me Mensageiro– disse o homem com uma voz, e tomou a mão de Aaron na sua.

– É muito bom conhecer– te Senhor... Mensageiro.

E Aaron entrou subitamente em pânico. Ele não se lembrava de alguma vez se sentir assim antes. Queria correr para o mais longe quanto possível deste homem. O que está


acontecendo comigo agora? Perguntou-se, usando cada parte da sua força de vontade para não retirar a sua mão.

O Mensageiro soltou-o e Aaron rapidamente trouxe sua mão a seu lado. Sentia-se estranho, uma sensação de formigamento, como quando trouxe Gabriel da beira da morte. Esfregou a palma contra a perna da calça.

– Estou contente por ter encontrado você primeiro – disse o mensageiro, estudando Aaron com um olhar estranho em seus olhos. – Você amadureceu muito mais rápido do que a maioria, um sinal de que você é certamente mais do que você aparenta.

Aaron foi surpreendido pelas palavras do representante da facundade, inseguro por seu significado e como reagir. – Perdão? – Começou. – Eu realmente não entendo o que...

– Eu acho que você sabe – trovejou a voz do Mensageiro e por uma fração de segundo Aaron viu o homem que ele era. Ele estava vestido com uma armadura que parecia ser feita a partir de luz solar, e em sua mão segurava uma espada flamejante. De suas costas emanavam duas asas enormes.

– Sou Camael, – disse ele com uma voz como um rugido ensurdecedor de um gato da selva. – E eu vim para protege-lo.

Aaron fechou os olhos e abriu-os novamente. Camael havia retornado ao seu estado humano. Sem armas, sem asas, sem uma espada de fogo, somente um cavalheiro de aparência distinta, com cabelos grisalhos em suas pontas e um cavanhaque prateado.

– Mensageiro minha bunda – queixou–se Aaron com desgosto. –Eu deveria saber. Zeke disse que viriam atrás de mim.

Camael olhou perplexo. – Zeke?– Perguntou.


– Ezequiel – disse Aaron. – Zeke é um Grigori .

– Um Grigori – afirmou Camael interessado, acariciando seu cavanhaque. – Então você entrou em contato com nossa raça.

– Sim e ele me disse que Os poderosos estão atrás de mim pelo que sou, mas eu não vou me deixar capturar facilmente.

Camael riu. – Espírito forte é bom. Vamos precisar de um pouco desse fogo se quisermos enfrentar o que está sobre nós.

Aaron começou a recuar em direção à porta, por um momento, confuso. – Você não é um deles... Os poderosos?

Camael sacudiu a cabeça, casualmente se sentou na beirada da mesa o Sr. Cunningham. – Uma vez minha sagrada missão era erradicar toda a sua classe. Ele afirmou a Aaron e depois cruzou os braços. – Mas isso foi há muito tempo. Eu vim para salvar, não para destruir. Se minhas suspeitas estiverem corretas, você tem um destino muito importante para cumprir Aaron Corbet.

Aaron se lembrou de seu sonho do fim de semana, do velho e seus avisos. – Isto tem alguma coisa a ver comigo e a construção de algum tipo de ponte?

Camael assentiu. – Algo que você faz parte.

Aaron poderia sentir novamente a perigoso curiosidade que o levou a esta bagunça. Se ele tivesse inicialmente ignorado, nunca teria ido em busca de Zeke e as coisas permaneceriam como estavam, ou ele tentou se convencer disso. Bem desta vez poria fim a tudo aqui e agora. Não queria ouvir mais de Camael.


– Desculpe desapontá-lo, mas isso não vai acontecer – disse Aaron abruptamente e virou-se para a porta. –Eu não me importo o que ou quem você acha que eu sou; eu não tenho nada a ver com essa profecia ou o seu negócio– Agarrou a maçaneta.

– Você pode não ter opção – Camael disse friamente.

Aaron se virou para o anjo. – É aí que você está errado – disse ele tentando manter sua voz controlada, para que ninguém ouvisse a loucura que se falava no escritório. –Disseram-me que sou um fenômeno da vida, mas agora eu tenho controle do meu futuro. Eu Aaron Corbet. – Ele apontou o dedo em seu peito para o efeito. – E eu tenho tudo planejado. Vou terminar a escola, ir para uma universidade boa, vou ser o primeiro na minha classe e eu vou ter um trabalho que eu gosto – Aaron não tinha ideia do que esse trabalho seria, mas estava dando suas opiniões e não conseguia parar mesmo se tentasse. – Eu vou conhecer uma garota legal, se casar com ela, e eu vou ter um monte de crianças.

Camael não disse nada, ele estava assistindo sem emoção o que lhe permitiu delirar pelas palavras – Assim é como vai ser e você percebeu que não mencionei nenhum anjo, Nephilim, ou velhas profecias. Desculpe, não há espaço suficiente.

O ser angelical se levantou e caminhou em sua direção. – Você é diferente Aaron. Eu posso sentir, vem de você em ondas. Deixe-me ajudar...

– Não – cuspiu Aaron. – Eu estou bem... – Ele abriu a porta. – Retorne para o céu e deixe–me sozinho no inferno!

E ele correu do escritório, e pensou que ouviu o anjo sussurrar: – Isso é o que nós estamos tentando evitar.

Camael não queria ser visto e foi-se.


Ele parou em uma área cheia de grama em frente da escola sob o mastro da bandeira e assistiu os alunos saindo para o mundo, encerrando o dia. Os jovens sempre o haviam fascinado. Tão cheios de vida, tão certos de que têm um conhecimento completo de tudo à sua volta e do universo.

Estão tão seguros de algo, deve ser a felicidade. Ele lembrou como tinha sido a primeira vez que abandonou o acolhimento do seu comando. Embora soubesse que o estava fazendo era certo, ainda tinha a incerteza persistentemente infectada nas trevas de sua mente, e que não podia ser dissipadas. Mas no fundo sentiu que aquilo que o vidente previu era verdade, mas se tivesse conhecido de antemão os sofrimentos que suportou todos estes séculos depois da profecia, você ainda teria tomado a causa?

Quantos salvaram? Quantos eliminou com o conhecimento de sua verdadeira natureza?

Quantos tirou do caminho destrutivo dos poderosos? E onde estavam eles agora? Perguntou-se.

Escondidos? Esperando o momento em que seriam reconhecidos através dos olhos de Deus? E por esse fato, quantos voltariam a ver esse dia de aceitação? Quantos foram assassinados mesmo antes de ter conhecimento de que haviam sido tocados pelo céu?

Valeu à pena? Pensou, olhando o último dos estudantes que abandonara a escola, e se amontoava em frente ao prédio de tijolos laranja em pequenos grupos de discussão.

Mas sou forte o suficiente? Perguntou-se Camael.

O menino estava com uma mulher muito atraente, pelo que Camael conseguia entender das preferências dos seres humanos: cabelos escuros, pele cor de cobre, com um sorriso radiante. E ao que parece, Aaron gostava.

Isso não pode ser pensou o anjo. As questões mais importantes para esse menino eram as coisas do coração. Ele não tem ideia de quanto está em jogo.


No entanto, havia algo sobre a menina, a forma como eles se moviam, o poder em seu sorriso...

– É ele que tem causado tanta excitação?– Disse uma voz por trás.

Camael virou o rosto para Verchiel, que estava cerca de um pé de distância. Ele ficou tenso e uma arma que pensou veio do céu.

– Claro que é – continuou Verchiel. Ele abaixou a cabeça ligeiramente para trás e respirou o ar captando o aroma do Nephilim que tinha seguido até agora. – Cheira diferente de qualquer outro o poder celestial, é inundado com um cheiro de lixo.

Camael deu uma olhada rápida para ver onde estava a menina e Aaron. Eles estavam conversando no fim da estrada principal da escola.

Ele olhou para trás para ver que Verchiel o tinha cercado. – Olhe – disse Verchiel, – completamente alheio ao mundo ao seu redor. Ele não pode sequer nos ver. Quanto poderoso pode ser?

– Não é que não pode vê-lo – disse Camael. –Ele simplesmente não quer.

Verchiel pensou por um momento, seu olhar como um falcão ainda estava em Aaron. – Eu vejo... negar a sua verdadeira natureza. Ele se apega a sua humanidade, enquanto reprime a natureza angelical.

A menina riu de algo que Aaron disse e Verchiel fez careta. –Eu odeio os sons que eles fazem – disse ele olhando com nojo. – Não é verdade?

– Falei com o menino e ele rejeita tudo – Camael disse calmamente, com apenas um toque de decepção no amor de Verchiel. – Ele não quer ter nada a ver com a sua herança.


Aaron e a menina começaram a mover-se através do estacionamento.

– Então ele não é nenhuma ameaça imediata para nós? – Perguntou Verchiel movendo lentamente a cabeça enquanto seguia o casal com seus olhos sem pestanejar.

– Ele se contenta como ser humano – disse Camael olhando atentamente para Verchiel.

– Sua satisfação não importa no mínimo – disse Verchiel dirigindo a sua atenção para Camael. – Ele ainda tem que ser sacrificado para seu próprio benefício – O anjo sorriu, consciente do efeito das suas palavras. –É muito perigoso deixa–lo viver.

Camael ouviu o som de portas de carro batendo e suspeitou de que o casal havia entrado no veículo de Aaron. A espada de fogo ficou evidente na sua mão e ele se manteve firme, pronto para lutar, se necessário.

–Então você tem que passar por cima de mim – disse Camael, com uma potência que irradiava de seu corpo e carregou o ar em torno deles.

– Você puxa uma arma contra mim? – Verchiel perguntou, com semelhante energia começando a escapar de seus olhos e subindo até o topo da cabeça.

No estacionamento, os carros foram inexplicavelmente disparando alarmes, acendendo as luzes e as buzinas, soavam como se anunciassem a chegada de um rei. Os humanos correram freneticamente apressados confusos e incapazes de ver a batalha que se travava à frente deles.

– Nós éramos irmãos uma vez Camael, compartilhamos o mesmo direito de servir nosso Senhor Celestial com igual zelo e é isso aqui em que chegamos?

No calor do estacionamento Camael captou o som de um único veículo andando e afastando-se lentamente. Aliviado de que Aaron havia escapado, por um momento não disse nada.


– Eu vim aqui para te avisar, Camael – disse Verchiel com sua energia diminuindo. – Como seu irmão que você desprezou eu acho que devo pelo menos isso.

Camael não guardou a sua arma, estava explorando a área à procura de mais soldados de Verchiel.

–Tudo está sendo finalizado – disse Verchiel casualmente colocando as mãos nos bolsos casaco e se afastando. – Depois de tanto tempo, finalmente vai acabar. É o dia do Juízo Final, por assim dizer.

Camael viu que Verchiel começou a distancia-se. Queria chama-lo para explicar-lhe o que acabara de dizer, mas duvidava que Verchiel compartilhasse algo mais.

– Este momento de trégua acabou – disse Verchiel. – Se você ficar no meu caminho, não vou pensar duas vezes em mata-lo– disse ele para seu irmão. – Tenha cuidado com o lado que você escolher, se você escolher errado, irá partilhar do mesmo destino.

A arma na mão de Camael retornou gradualmente de onde veio. E quando ele viu o seu ex–companheiro retroceder, sentiu uma familiar agitação no seu interior. Sabia que se sentia bem. Foi algo que tentou trancar ao decidir seguir as palavras da profecia bíblica, algo que ele tinha mantido a distância, impedindo a sua libertação. Mas as palavras de Verchiel tinham retirado das sombras e alimentado seu crescimento.

E seu nome era dúvida.


Aaron conduziu o seu Toyota Corolla ano 95 pela Western Avenue e entrou na praça McDonough. Ele tinha ido à área de Lynn milhares de vezes desde que aprendeu a dirigir, mas nunca teve tanta atenção como agora.

Vilma era deste bairro. A tabacaria ‘O Febonio’, a mercearia Snell, a loja para homens Mitchell Shop, estabelecimentos de que ele nunca soube que existiam até agora, usaria todas essas referências se alguma vez tiver a oportunidade de voltar.

– É aqui, Aaron. À esquerda – Vilma disse, apontando através do para-brisa.

Aaron acompanhou a direção e viu a rua estreita um pouco além de uma pequena loja com o letreiro “Todo brasileiro. ’’

– Aqui? – Ele perguntou, acendendo o alerta e freando o carro.

–Sim– disse ela. – É um beco sem saída, e uma verdadeira dor de cabeça entrar e sair dele.

Aaron esperava o tráfego na pista da direção contrária diminuir. Um homem em uma caminhonete preta com algumas listras à espera de uma nova camada de tinta acenou e entrou no beco chamado Belvidere Place.


–É a casa marrom do final – ela disse, colocando a mochila no chão à sua volta.

A rua era muito pequena, apenas ligeiramente maior do que o seu carro. Uma cerca de metal no final da rua a separava de uma igreja e um pátio de estacionamento. Havia oito casas, quatro de cada lado, todas muito semelhantes.

Aaron parou diante da última casa à direita, desligou o motor e virou–se para olhar para Vilma. Ela olhava para frente, sua mão começou a se mover em direção a maçaneta da porta. Ela não pode esperar para ficar longe de mim, pensou. Ele sabia que estava distraído desde que deixou a escola. Não importava quanto tentou, estava tenso e não poderia evitar os efeitos de seu encontro com Camael, temia que seu mau-humor afetasse Vilma.

– Eu sinto muito que sua reunião com Emerson não tenha funcionado – ela disse com voz cheia de simpatia.

Ele havia dito que o representante da admissão tinha sido um idiota e que ele tinha dado ao homem um pouco de atitude, portanto ele provavelmente o excluiria da lista de potenciais formandos.

– Bem – disse ele com um encolher de ombros. –Eu realmente não quero sair daqui de qualquer jeito.

Odiava mentir para ela, não pressentia nada de bom para seu futuro, mas que escolha tinha? Não havia nenhuma maneira de compartilhar com Vilma o espetáculo dos fenômenos em que sua vida havia se tornado na última semana. Ele tinha até começado a se perguntar se era uma boa ideia iniciar qualquer tipo de relacionamento com ela. A última coisa que queria era que ela fosse absorvida pelo redemoinho de loucura que girava em torno dele.

O silêncio no carro era quase insuportável. Vilma finalmente abriu a porta e olhou para baixo.

Ele sorriu.


– Obrigada pela carona. Agradeço-lhe muito – ela disse sorrindo de volta. –Eu acho que tinha que levar todos os livros do armário para a minha casa esta noite. Minha bolsa estava a ponto de arrebentar pelas costuras – ela disse, acariciando a cheia mochila de nylon em seu colo.

– Não tem problema – ele disse enquanto deslizava as palmas das mãos pela maciez do volante.

– Quando precisar.

– Você sabe que você pode me chamar se você quiser – ela disse, enquanto brincava com o zíper de sua mochila – Se quer, você sabe, falar sobre as coisas. Como a coisa com Emerson e posso te ajudar com seu projeto.

Aaron a olhou, realmente a olhou. De repente, o nervosismo que estava sentindo, a falta de confiança em si mesmo era um problema. Naquele momento, decidiu que Vilma não era apenas a menina mais linda que eu já tinha visto, mas também a mais real. Não havia jogos com ela. Dizia exatamente o que pensava em sua mente e ele gostava disso. Muito.

– Agora, por que você quer fazer isso? – Ele perguntou, olhando novamente para volante. – Eu tenho certeza que você tem coisas mais interessantes para fazer com seu tempo do que falar comigo.

Ela pareceu pensar por um momento e então começou a mover a cabeça lentamente.

– Você provavelmente está certo. Limpar os meus primos sujos, lavar a roupa, minhas funções, você está certo, eu tenho muitas mais coisas para fazer antes de falar com um menino bonito no telefone.

Ficou um pouco surpreso, o nervosismo arranhava a parte traseira da sua cabeça.


– Você está dizendo que você acha que eu sou bonito, ou há algum outro cara que você vai chamar?

Vilma riu e olhou para os céus com seus belos olhos amendoados.

– Eu presumia que você fosse um menino obscuro, melancólico, porém muito anti– social– Ela balançou a cabeça com fingida descrença.

Vilma ria dele, mas Aaron não se importava. O som era uma das melhores coisas que ele tinha ouvido, e riu também.

– Eu nunca tinha sido chamado de anti-social antes– disse. De novo a olhou.

–Obrigado.

Estendeu a mão para apertar o braço. – Eu gosto de você, Aaron – ela disse.

Nunca quis tanto beijar uma garota. Sim, houve um tempo com Jennine Surrette no secundário, mas isso foi porque nunca tinha feito antes. Beijar Vilma agora parecia quase como a sua primeira vez. Todos os outros beijos desde Jennine eram mais como uma prática que conduzia a este.

Começou a inclinar a cabeça para ela, seus lábios eram lançados contra os dela com uma força irresistível da qual ele não poderia lutar, contra o qual não queria brigar. Aaron ficou aliviado ao ver que ela parecia ter a mesma dificuldade, inclinando–se para ele também.

Houve um golpe repentino do lado da janela do passageiro, e a magia que os uniu foi rompida bruscamente.


Uma menina pequena, com a aparência de Vilma com cerca de sete ou oito anos, olhava atentamente para o Toyota sorrindo. Havia uma brecha aberta no seu sorriso cômico, onde os dentes deveriam estar. Vilma sacudiu as mãos para a menina que saiu correndo e rindo.

– Minha prima – ela disse. Parecia um pouco envergonhada.

O momento se foi, brilhando em um frasco, agora livre para ser capturado em outra ocasião. Mas tudo bem. Beijar Vilma poderia esperar, esperava que não muito tempo.

– Eu gosto de você também – ele disse; e brevemente tocou sua mão. Sentia-se muito quente. Vilma abriu o bolso lateral de sua mochila. Ela pegou uma caneta rosa e um pequeno bloco de papel e começou a escrever.

– Aqui está o meu número de telefone e meu e–mail – disse enquanto rasgava o papel do bloco e entregava-o. – Ligue-me entre seis e nove horas, minha tia e meu tio podem ser monstruosos quando alguém liga demasiado tarde. Envie-me uma mensagem a qualquer momento e eu vou entrar em contato contigo o mais rapidamente possível.

Ele olhou para o número de telefone. Era como se alguém tivesse dado o número vencedor de um bilhão de dólares na loteria, só que melhor.

– Você me dá o seu depois – ela disse enquanto saía do carro, carregando sua mochila nas costas. –Eu tenho que ir lá dentro e matar minha prima. – Ela se virou e se inclinou uns poucos centímetros para trás. – Talvez você possa me dar o seu quando nos falarmos esta noite – ela sugeriu com outro sorriso vencedor.

Estava prestes a dizer-lhe que tudo bem, quando se lembrou que tinha que trabalhar.

– Não posso. Essa noite tenho que trabalhar e provavelmente não voltarei até depois das nove.


Ahh, me dando um tempo – Vilma disse com uma simulação de decepção.

– Dá-me a caneta – ele pediu.

Ela deu para ele, sorrindo o tempo todo, e viu que ele começou a escrever na parte inferior do papel que lhe tinha dado.

– Eu vou dar-lhe agora – disse finalmente. Ele dobrou o papel e rasgou o seu número.

– Dessa maneira não haverá dúvida sobre minhas intenções. – Ele entregou-lhe a folha de papel.

– E quais são exatamente as suas intenções, Sr. Corbet? – Ela perguntou enquanto deslizava o papel no bolso de fora.

– Com o tempo, Sra. Santiago – disse com um sorriso diabólico. –Tudo no seu devido tempo.

– Obrigado por me trazer – ele ouviu quando ela riu e bateu a porta.

Viu–a caminhar em direção à varanda. Ela abriu a porta branca e virou-se para cumprimenta-lo antes de desaparecer no interior.

O relógio no painel dizia que era quase três horas. Tinha menos que cinco minutos para percorrer a cidade para trabalhar, mas realmente não se importava. Enquanto lutava para sair do pequeno beco, ele percebeu que não estava realmente preocupado com alguma coisa naquele momento. Tudo estaria bem. Ele não se lembrava de já ter se sentido assim.

Mas era algo de que poderia se acostumar.


Ezequiel bebia uma garrafa de uísque barato e pensava sobre a questão da redenção.

Ele se mexeu em sua cama para se sentar e encostou a cabeça contra a parede de gesso fresco. Deu uma longa e pensativa tragada em seu cigarro.

Redenção. Curiosamente era algo em que pensava muito nestes dias, desde o encontro com o menino.

Zeke inclinou-se novamente para a garrafa de licor em sua boca. A fumaça do cigarro brotava do nariz conforme o uísque corria para baixo em sua garganta. Queimava, mas continuou bebendo. Era uma espécie de castigo, ele pensou quando afastou a garrafa de sua boca e substituiu-o com um cigarro, uma punição por tudo o que tinha feito.

Era estranho pensar nisso após todo este tempo, ele pensou, olhando para a parede na sua frente. Uma barata subia por ela e ele silenciosamente desejou-lhe sorte. Ele poderia ter falado com o inseto diretamente, só que suas habilidades primitivas de comunicação com os animais eram terríveis.

O perdão é mesmo possível? Após o Grigori ser exilado, havia tratado de fazer todo o seu melhor possível. A Terra se tornou sua casa. Ele sabia que nunca voltaria a ver o céu novamente. A ideia de que ele poderia ser perdoado ainda não tinha sequer passado pela sua mente até o dia ele viu o menino no campo.

Ele deu outra tragada em seu cigarro e segurou à fumaça em seus pulmões. Lá estava ele, cuidando de seu próprio negócio, olhando para as latas disponíveis através do lixo quando percebeu claramente através dos campos que podia sentir a presença do menino. Ele tinha encontrado outras pessoas através dos séculos, mas nenhum teve esse efeito sobre ele. Aaron era especial. Ele era diferente.


Zeke jogou a fumaça de seus pulmões em uma nuvem. O cigarro estava acabado e lançou o filtro no chão. Queria outro, e considerar pedir a um vizinho até que o comprasse. Ele lembrou que devia cigarros a várias pessoas no prédio. Ele teria que suprimir o desejo de fumar.

– Que poderia eu dizer a Ele, o Criador? – Ele perguntou enquanto pegava a garrafa.

–Desculpe por estragar as coisas – ele sussurrou, e bebeu um pouco de uísque.

Ele colocou a garrafa em seu estômago e olhou para o teto, concentrando–se em uma poça de água que lhe lembrava a Itália. Dizer o que sentia seria suficiente?

Zeke escavou através da espessa névoa de sua memória para encontrar o que era estar na sua presença. Fechou os olhos e sentiu o seu calor inundando a sua memória. Se houvesse, apenas uma maneira de estar de novo diante do Pai de todas as coisas e lhe pedir perdão... Ele abriu os olhos e colocou os dedos em seu rosto. Suas bochechas estavam molhadas de lágrimas.

– Patético – ele murmurou, enojado com seu espetáculo emotivo. – As lágrimas não vão me fazer um pouco mais bondoso. – disse em voz alta quando levantou a garrafa para beber. Inclinou a cabeça para trás e bebeu goles grandes. Ele arrotou alto, um som que parecia tremer as vigas. – Eu deveria – pensou – começar a compartilhar dicas de maquiagem – disse sarcasticamente.

O odor de repente lhe golpeou. Cheirava a fumo. E não era do tipo que desesperadamente ansiava. Alguma coisa estava pegando fogo.

Ele se levantou de sua cama e caminhou descalço da sala para a porta. Se Maria Gorda foi para o salão com sua gordura da cozinha de novo, nós todos estaríamos em sérios problemas. A mulher poderia queimar a água, pensou enquanto abria a porta da sala. Uma lufada de ar o acertou e ele cambaleou para trás, usando os braços para proteger a sua face. O salão estava em chamas e rapidamente encheu de fumaça.


O pânico apoderou-se dele, não pela sua própria segurança, estava quase certo de que as chamas não poderiam mata-lo, mas pela segurança das outras pobres almas que chamavam ao Osmond de casa.

Ele cambaleou para o corredor, a mão sobre sua boca, protegendo do turbilhão de nuvens nocivas de ar. Havia um alarme de incêndio no corredor, ele lembrou. Se ele pudesse alcança–lo, teria a chance de salvar algumas vidas.

Zeke pregou-se contra a parede, sentindo o seu caminho ao longo de seu comprimento.

Podia ouvir os gritos das pessoas que ficaram presas dentro de seus aposentos pelo calor intenso.

A fumaça era cada vez mais espessa. Ele ficou de quatro e começou a engatinhar. O chão era de madeira e foi ficando quente ao toque, formando bolhas nas mãos e nos joelhos enquanto se movia de forma constante para frente. Ele não poderia estar longe agora.

Zeke olhou para cima, com os olhos queimando e lacrimejando tentado discernir as formas do alarme na parede, e foi quando ele os viu. Havia dois deles, pouco a pouco abrindo caminho através da fumaça e do fogo. Ele tentou gritar, mas tudo que conseguiu foi um sério ataque de tosse que quase estourou os seus pulmões.

A fumaça foi se dissipando e apareceram na frente dele, espadas flamejantes empunhadas com asas que lentamente atiçavam o fogo.

– Olá, Grigori, – disse o anjo, que Zeke temia ter reconhecido como um dos que haviam ajudado a quebrar suas asas há muito tempo atrás.

– Nós viemos para amarrar as pontas soltas – disse o outro.

Ambos sorriram ameaçadoramente para ele.


E Zeke percebeu que o horrível incêndio era a menor de suas preocupações.

Aaron guardou seu carro na garagem de sua casa na Baker Street logo após as nove. Ele desligou o motor e se perguntou se tinha forças para deixar o carro e entrar em casa.

Dizer que ele estava esgotado era um eufemismo. Era a primeira vez que voltava do hospital veterinário depois de suas habilidades lingüísticas – Como havia dito Zeke? Florescessem.

Havia sido uma loucura a partir do momento em que cruzou a porta na hora certa. A documentação estava atrasada e a sala de espera estava cheia de uma variedade de cães e gatos, cada um com seu próprio problema. Havia até mesmo um papagaio com uma asa quebrada e uma tartaruga em uma caixa com algum tipo de fungo no casco.

Ele se pôs a trabalhar imediatamente, certificando-se de que todos tinham preenchido a documentação necessária e se desculpando pelo atraso.

Era como se os animais pudessem sentir sua capacidade de se comunicar com eles. Enquanto tentou falar com os proprietários, animais de estimação tentavam de tudo para chamar sua atenção. Um cachorro Beagle chamado Lily, corria sem parar em torno de sua bola favorita. Bear, uma mistura de Labrador e pastor alemão de cor negra, tristemente lhe contava que não podia correr muito rápido devido ao seu quadril. Uma gata angorá branca chamada Duquesa miou pateticamente, em sua jaula de transporte, que estava perfeitamente bem e não precisa de uma consulta ao médico. A história era verdadeira, Aaron pensou, e provavelmente compartilhada pela maioria dos animais que o esperava.

Foi constante: alguém ou alguma coisa estava conversando com ele a partir do momento que ele entrou no lugar. Aaron não tinha certeza se era cientificamente possível, mas estava convencido de que sua cabeça ia explodir. Tudo o que conseguia pensar era em sua cabeça como um balão cheio de muito ar, e Bang! Não era mais um balão...


Aaron saiu do carro com um grunhido cansado. Teria sido perfeitamente feliz em gastar o resto da noite no carro, mas estava com fome. Ele colocou sua mochila nas costas e começou a viagem dolorosa de volta a sua casa.

Ele sorriu enquanto se lembrava de como tinha impedido seu cérebro de explodir no trabalho. Os animais tinham sido o seu exercício, Michelle saía correndo atrás de caminhões se abaixando e levantando, indo e voltando do canil, queria a documentação e a sala de exames limpa para trazer o próximo paciente. E aqui estava eu, prestes a explodir, quando pensei nela. Pensou em Vilma e uma espécie de calma apoderou-se dele. A vibração dos pacientes tornou-se nada mais que um ruído monótono, e foi capaz de terminar a noite com mínimo de estresse. Só pensava em seu rosto sorridente, junto com o que tinha dito no carro, e foi suficiente para acalmar e aliviar a pressão interna.

– Talvez lhe enviasse um e–mail depois de comer – ele pensou com um sorriso.

Houve um rugido ameaçador em cima dele e olhou para cima. Grossas nuvens cinza como metal líquido ondulavam em todo o céu noturno, a ponto de apagar completamente qualquer vestígio da lua e das estrelas. Parece que teremos uma tempestade muito grande, ele pensou enquanto voltava sua atenção para pegar a chave da porta traseira.

O grito do lado de dentro foi assustador.

Aaron abriu a porta rapidamente e correu para a casa.

– Mãe? – Gritou. Ele largou a mochila no chão.

Houve outro grito, agudo e cheio de terror. Era Stephen. Aaron tinha certeza disso. Correu o corredor em busca de seus pais adotivos e seu irmão.

– Mãe! – O chamado de volta enquanto ele corria pela cozinha. – Pai!


Mais gritos.

Ele encontrou sua família na sala de estar, encolhida no chão na frente da televisão que mostrava apenas uma imagem estática. Lori estava com Stephen nos braços, balançando de trás para frente, embalava o menino e dizia-lhe que tudo ficaria bem. Gabriel estava ao lado deles, seu rabo duro, seu pelo eriçado.

– Que ele tem? – Aaron Perguntou. Nunca tinha visto Stephen tão agitado.

– Eles estão chegando! – A criança chorou novamente. – Eles estão chegando! Eles estão chegando! Eles estão chegando! – Seus olhos estavam brancos, e espumosa saliva saia dos cantos da boca.

– Ele esteve assim por meia hora – disse Tom, com o pânico na sua voz. Ele acariciou os cabelos úmidos de suor de seu filho. – Nós não sabemos o que você está tentando dizer!

– Eles estão chegando! Eles estão chegando! Eles estão chegando! – Stephen gritava enquanto ele lutava para se libertar dos braços de sua mãe.

Eu... Acho que deveríamos ligar para 911 – Lori gaguejou. Havia lágrimas em seus olhos quando ela olhou para Aaron e para seu marido.

Tom passou a mão tremula sobre seu rosto.

–Eu não sei... Eu não sei. Talvez, se esperarmos um pouco mais...

Aaron se virou dos seus pais para se encontrar com Gabriel, mas parou. O cão olhou para o teto e cheirou o ar. Ele começou a rosnar.


– Gabriel? O que está errado, rapaz? O que você cheira?

Um trovão abalou a casa do teto ao chão. As luzes piscaram brevemente, em seguida, a corrente parou de funcionar completamente, mergulhando a casa na escuridão.

– Eles estão chegando! Eles estão chegando! – O menino continuava a chorar inconsolavelmente.

– Alguma coisa ruim – disse Gabriel com uma atitude ameaçadora em suas costas.

– Isso é o que Stephen está tentando dizer. Algo ruim está por vir.


Houve outro trovão e as janelas da sala tremeram com o barulho deixando todos nervosos. Aaron começou a sentir a mesma sensação esmagadora de pânico que sentiu no escritório de orientação ao estar cara a cara com Camael.

– Temos que sair daqui – disse ele, olhando para o teto. – Nós... Devemos levar Stephen o hospital imediatamente.

As palavras de Gabriel ecoavam na cabeça de Aaron. – Alguma coisa ruim está chegando.

Eu não sei Aaron – disse Lori. – Parece ter se acalmado. – Ele olhou para seu filho, e não havia incerteza nem medo em seus olhos.

Os gritos de Stephen realmente diminuíram. Sua voz tornou–se rouca, mas ainda tentava dar seu aviso.

Tom inclinou e beijou a cabeça do menino. – Eu nunca o tinha visto assim antes, talvez Aaron esteja certo. Talvez devêssemos levá-lo, apenas por precaução.

– Ok, vamos leva-lo no meu carro, – Aaron disse, antes que ele e Gabriel entrassem na cozinha no escuro.

– Ele não usa meias, – ouviu sua mãe dizer atrás dele. – Deixe-me ir lá em cima para buscar um par de sapatos e meias. Você provavelmente deveria levar o seu casaco, também, só por precaução...


– Não há tempo para isso, mãe – gritou Aaron. Seu pânico foi intensificado-se . – Temos de sair daqui agora mesmo.

Cada fibra do seu ser gritava para fugir, largar tudo e correr tão rápido quanto pudesse durante a noite. Ele tomou cada gota de seu autocontrole para não deixar seus pais e nem seu irmão menor para trás. Não faria nada disso, apesar do que seus sentidos lhe diziam.

Depois de muitos anos tumultuados no sistema de adoção, os Stanleys foram às únicas pessoas, a única família que tinha ficado com ele, o enchendo de amor, e o mais importante, de aceitação...

Seu pai adotivo se aproximou por trás. – Calma, rapaz. Ele vai ficar bem. Não há nenhuma razão para ir como um louco contra sua mãe. Vou colocar os sapatos e vamos sair daqui rapidamente.

– Não há tempo – disse Gabriel, de repente, olhando para a porta da cozinha.

CLACK!

Todos pularam ao som repentino da trava da porta da cozinha quando esta escorregou, como se movida por uma força invisível.

– Que diabos é isso? – Tom perguntou, tratando de se colocar ao redor de seu filho.

–Vá embora, – disse Aaron com força. Pegue a mãe e o Stephen e saia pela porta da frente.

A porta começou a abrir lentamente com o rangido estridente que Tom estava tentando consertar com óleo desde o verão, e três homens entraram com uma explosão poderosa de vento. Os sentidos de Aaron se aguçaram muito rápido e ele fez uma careta ante intensidade da dor. Ele sabia o que estes homens eram. Eles não eram homens.


Eles eram anjos.

Fiquei fascinado pela maneira em que eles se moviam. Não entraram andando em casa, mas sim como se deslizassem sobre rodas com uma correia transportadora.

– O que é isso? – Gritou Tom Stanley, empurrando Aaron para fora do caminho. – Saiam da minha casa. – Ele disse antes que eles entrassem na sala.

Tudo aconteceu rapidamente. Tom levantou-se, os punhos cerrados, com a intenção de defender sua casa e família. De repente, veio fogo nas mãos de um dos invasores e seu pai cambaleou para trás, cobrindo seus olhos ao cair no chão.

Aaron não conseguia acreditar no que estava vendo. Era como o seu sonho. Os três invasores tinham espadas. As espadas eram de fogo.

– Chamem a polícia! – Gritou o seu pai, quando lutava para se levantar.

Aaron correu para ajudar.

– Levante-se! Você tem que levar a mãe e o Stephen para fora daqui.

Um dos invasores se movia lentamente na direção deles, com o rosto estranhamente iluminado pela luz de sua arma. Havia algo de perturbador sobre a maneira como ele olhava-os enquanto caminhava.

Eles eram mortalmente pálidos, quase luminescente na sua brancura, e suas características eram perfeitamente simétricas, perfeitas demais. Aaron sentiu como se estivesse assistindo manequins virem à vida.


–Tem–se assustado, macacos? – Disse o invasor com uma voz como unhas correndo por um quadro-negro. – A nossa presença os fazem tremer?

– Fique longe deles! – Lori gritou da porta da sala de estar.

Em seus braços carregava o Stephen, fraco e quase catatônico com seus olhos grandes e vidrados como pratos. Gabriel junto deles, se pôs tenso, e os impedia de entrar na cozinha.

Aaron trouxe o pai para seus pés e empurrou-o para a sala de estar. O desconhecido levantou a espada flamejante sobre sua cabeça. As asas salpicadas de manchas de café dramaticamente se abriram a sua volta. Aaron e seu pai permaneceram imóveis impressionados com a visão de algo que antes se pensava para ser puramente um mito ou ficção.

O anjo estava preparado para derrubá-los. – Nós somos Os Poderosos, os arautos da sua perdição. Olhe para nós com medo!

A lâmina de fogo começou a sua descida, e Aaron se pôs antes de seu pai para parar o golpe. De repente houve uma onda de movimento e uma coloração, como um borrão, branco e amarelo aterrissou na frente da espada que os atacava e rosnou furiosamente.

Gabriel.

– Não! – Aaron Gritou enquanto assistia o invasor sobrenatural dar golpes a seu querido amigo.

A mandíbula do cão tomou o pulso do anjo com um rangido úmido como o som de algo sendo esmagado entre os dentes. Aaron fez uma careta pelo som apenas por imaginar a dor.


A espada de fogo caiu das mãos do anjo e desapareceu em um instante antes de poder tocar o chão e a criatura começou a gritar. O som foi como nada que Aaron tenha ouvido antes, parecia, em parte, um grito, em parte canção de baleias e em outra parte um guincho de freios.

– O que está acontecendo? – Lori perguntou em voz alta, segurando seu filho.

– Temos que sair daqui! – Tom gritou enquanto corria para frente de sua família e passava os braços ao redor deles protetoramente.

Gabriel estava pendurado no pulso anjo, rosnando e mordendo, como se tentasse separar a mão fora do braço. O anjo parecia surpreso com a ferocidade do ataque do animal.

Os outros dois, que não estavam envolvidos, se aproximaram para avaliar o estado de seu parceiro.

– Dói, irmãos! – Se lamentou o soldado Poderoso quando tentou freneticamente de soltar-se de um agitando Gabriel. – O animal não é como deveria ser. Ele foi alterado!

O anjo agitava os braços freneticamente e Gabriel finalmente o deixou ir, caindo no chão.

– Gabriel venha! Agora! – Aaron gritava.

O Labrador ficou onde havia caído, agachando-se, mostrando as presas e rosnando para os anjos. Um sangue negro e espesso, como o óleo de motor, desceu das feridas do anjo, formando poças que reluziam no chão amarelo.

– Não! – Disse o cão entre rosnados. – Vá para fora com a mãe, pai e Stephen. Eu vou manter estes animais aqui.


Aaron se irou – Eu não vou deixar você! – Gritou ele.

Mas sabia que cada segundo estava contado. Aaron rapidamente reuniu sua família e levou para o corredor. Tentaria sair pela porta da frente, para seu carro e, em seguida, voltaria pelo seu amigo.

Eles entraram pela porta da cozinha e se detiveram. Outro anjo estava de cócoras no corredor, seus olhos brilhavam no escuro. – Não irão a lugar algum, macacos estúpidos, – ele sussurrou.

Uma rajada forte de vento atingiu a casa desde seu exterior e esta rangeu e gemeu com a força do golpe. Aaron sentiu-se tenso, sentindo que algo péssimo estava por vir. A porta da frente estourou de forma explosiva, sendo arrancada de suas dobradiças, quase achatando o anjo que estava agachado contra a parede, e levando ele e seus homens de volta para a cozinha em uma chuva de detritos.

Aaron protegeu os olhos das lascas de madeira que voaram, e quando olhou para cima, viu que um deles estava na porta, um anjo de longos cabelos brancos. A maneira como ele estava parado, a maneira como olhava e sua postura...

Aaron tinha certeza de que estava na presença do líder que Zeke chamava de Verchiel.

O recém-chegado inclinou a cabeça e olhou de modo estranho para aqueles que estavam diante dele. Outros entraram na casa atrás de seu líder, todos com a cor pálida de morte, todos com o mesmo tipo de roupa.

Deve ter tido promoção em algum lugar, Aaron pensou perversamente a ponto de rir.

Os anjos seguiam Verchiel de muito perto enquanto avançavam através do corredor, como se lhes pertencessem, e Aaron forçou sua família a voltar para a cozinha, para fora do seu caminho destrutivo.


– O que aconteceu aqui? – Perguntou Verchiel com uma voz baixa e melódica que era quase agradável ao ouvido.

O soldado de Os poderosos estendeu seu braço ferido ao seu mestre e desviou o olhar. – O animal foi alterado. – Verchiel dirigiu o olhar para eles, para sua família, e um olhar sombrio sobre Gabriel, e retirou-se para a sala.

“Fique longe de minha família,” o cachorro rosnou ameaçadoramente, arreganhando os dentes e colocando-se entre os Stanleys e o líder dos anjos.

– Ele fez isso com você? – Verchiel perguntou incrédulo, olhando para cachorro de Aaron. – É pior do que eu imaginava – ele sussurrou. – O Nephilim estendeu seu poder a um animal humilde.

“Eu não sou humilde,” Gabriel resmungou, e pulou para o seu novo advers|rio.

Em um instante, apareceram asas poderosas atrás e a espada de Verchiel afastou esmagando o cão violentamente.

O animal gritou de dor quando bateu na parede do fundo, perto da janela, e caiu no chão.

– Veja os danos que causou monstro! É por isso que devemos agir, – rosnou Verchiel, e suas asas bateram lentamente. – É por isso que os impuros devem ser expurgados deste mundo. – O anjo fez uma pausa, considerando o que tinha dito antes continuar. – Mas, se persistir, as consequências seriam inimagináveis.

Aaron deixou sua família para ir ao lado do seu cão. – Você está bem? – Perguntou. Gabriel levantou e sacudiu seu corpo com força, arremessando os efeitos de sua lesão como com |gua. "Eu estou bem, Aaron,” disse o cão, ajustando suas vistas em Verchiel. "E eu não vou deixa–lo te machucar.


Aaron levantou–se e deu uma tapinha na cabeça de seu cão. "Ok, isso está acabando.

Gabriel olhou para seu mestre, uma expressão de zombaria em seu rosto canino.

Aaron se dirigiu a Verchiel. – Não importa o que você pensa... Eu não sou um perigo para você ou sua missão.

Verchiel inclinou a cabeça para um lado enquanto ouvia. Pelo canto do olho, Aaron foi capaz de ver que mais soldados angelicais haviam entrado na sua casa e cercado ele e sua família. Ele não reagiu. Eu não queria mostrar qualquer sinal de agressão.

– Tudo o que você já ouviu sobre mim é uma mentira. Eu não quero ter nada a ver com Nephilim ou a profecia louca que vem com ele. Eu disse a Camael, eu desisti disso. De qualquer forma isso não fará parte da minha vida – disse Aaron com firmeza. – Por favor, deixe a minha família e a mim sozinho.

Verchiel sorriu e Aaron lembrou que estava na presença de algo desumano.

Camael pensa que você é o escolhido – Verchiel disse presunçosamente, movendo a cabeça de um lado para o outro.

– Está enganado – Aaron respondeu enfaticamente – Não quero nada mais que levar uma vida normal.

– Ele crê que tu és aquele cuja vinda foi anunciada numa profecia antiga, que vai reunir os anjos caídos com Deus.

Aaron sacudiu a cabeça com força lembrando-se da viagem na cachoeira dos seus sonhos. – Não sei nada sobre isso e não quero saber.


– Os criminosos – cuspiu Verchiel. – Aqueles que lutaram ao lado dos Anjos obscuros contra o Pai durante a Grande Guerra e fugiram, aqueles que desobedeceram a suas ordens sagradas, estes são aqueles que falam os escritos antigos. Se essa profecia se concretizar, seriam perdoados.

Aaron não disse nada. Ele olhou para seus pais, que estavam reunidos com Stephen, os soldados de Verchiel os cercaram com suas armas de fogo. Eles pareciam estar em estado de choque. Eu queria dizer desculpas por trazer isto em cima deles. Eu esperava que houvesse tempo para isso mais tarde.

Verchiel sacudiu a cabeça. – Você pode imaginar o Todo-Poderoso olhando favoravelmente sobre o produto de um anjo e um animal? É um insulto à sua glória.

– Eu juro que não tens nada a temer de mim – disse Aaron. – Por favor, nos deixe em paz.

Verchiel riu, ou, pelo menos, Aaron pensou que era um riso. Soava mais como o grasnar de algumas grandes aves de rapina.

– Medo de quê, Nephilim? – Verchiel disse com o que parecia ser diversão.

– Não tenho medo de alguém como você. Uma chama laranja brilhou na palma da sua mão e começou a crescer. – Os poderosos têm a missão de apagar tudo o que poderia desagradar o Senhor dos senhores. Este tem sido nosso propósito desde a Criação, e fizemos bem durante muitos milênios.

Verchiel empunhava agora uma espada flamejante enorme, e Aaron ouviu Lori ofegar.

– É um pesadelo, – ela disse baixinho, – uma espécie de sonho ruim.

Se apenas isso fosse verdade, pensou tristemente.


Verchiel observava as chamas da arma em suas mãos, os olhos brilhantes de um preto sólido. – E, finalmente, quando a nossa missão for concluída, Ele nos dará este mundo e todos os que vivem nele saberão que para se sentar ao nosso lado a palavra é a lei. O líder dos poderosos admirava sua arma. – Mas ainda há muito a ser feito.

– Você deve morrer, e tudo que foi manchado por seu toque. – Ele gesticulou em direção a Gabriel e, através da casa os pais de Aaron e Stephen.

– Ouça o que estou dizendo – disse Aaron, dando um passo à frente. Dois dos soldados de Verchiel o pegaram, e o colocaram mais ou menos de joelhos. – Por favor, – ele implorou enquanto lutava contra seus captores.

Verchiel ainda apontando sua espada para Tom, Lori, e Stephen, que novamente começou a rolar nos braços de sua mãe, gemendo e gritando para a atenção de um anjo.

– Reze tudo o que quiser, Nephilim. Não fará nenhum bem. Você vai ser destruído. Ele fez uma pausa, subitamente interessado no choro da criança.

– Todos, exceto o jovem – o anjo disse, pensativo.

– Acho que vou levá-lo.

Verchiel obteve um grau de perversa satisfação em ver o Nephilim contorcer-se. – Este era o O Salvador? O que iria conseguir a paz entre o céu e a terra que não tinha sido visto desde o Gênesis? Era ridículo e, contudo ainda havia algo nele.

– Traga-me a criança. – Ordenou com um aceno de sua mão.

Se alguma vez haveria paz, não seria até que os inimigos do único Deus verdadeiro fossem transformados em cinzas sopradas no vento. Essa crença, de sua própria invenção, foi à única que alguma vez poderia chegar a imaginar.


– O deixe em paz! – Aaron tinha gritado quando o chamaram, lutando fortemente contra seus captores.

O maldito cão se moveu desafiantemente na direção dele, a pele da boca vincada em um grunhido feroz. Tinha sangue dos anjos no seu nariz.

– Vamos ver quem tem a pior mordida? – Perguntou Verchiel, e levantou sua espada para bater no cão.

– Não! – Gritou o Nephilim. – Vamos, Gabriel. Por favor, venha para mim.

Hesitando, o cão voltou ao lado de seu dono, rosnando para os anjos que o seguravam. – Bom garoto – Ele ouviu Verchiel dizer. – Tudo bem, tudo bem.

Verchiel decidiu que era hora de mostrar ao menino como estava errado. Fez um gesto para Uriel, que ainda curava-se da ferida do animal contaminado pelo toque do Nephilim.

– A criança, – ele ordenou Uriel. – Traga-a aqui.

O anjo o arrancou aos berros dos braços da sua mãe, enquanto que Tufiel e Sammael sujeitavam os pais. A cacofonia de gritos e gemidos pôs os nervos de Verchiel à flor da pele, mas conteve–se. Afinal, eles eram apenas animais.

Uriel trouxe a criança retorcendo–se para Verchiel, que o agarrou pelos cabelos para uma análise mais aprofundada.

– Essa criança – disse o anjo ferido – parece estar cheio do espírito.

Sim, pensou Verchiel, observando o olhar turvo da criança.


– A criança vai ser muito útil – Ele levou a espada que estava queimando sob os olhos da criança e passou a lâmina de um lado para o outro. Seus olhos seguiram o fogo com cuidado.

– Um cão talvez – disse em voz alta. – Você tem os olhos de um rastreador.

Foi então que o Nephilim começou a andar para frente, e Uriel voltou com a criança em seus braços.

– Acalme-se, Nephilim, – Verchiel disse em tom suave. – Eu disse a você, eu quero o pequeno, não vou causa-lhe dano.

– Há um grande poder crescendo dentro dele– notou Verchiel, estudando o Nephilim. Podia senti-lo irradiando perigosamente do corpo jovem.

– Os pais, porém, – ele disse lentamente, apontando com sua lâmina para o marido e a mulher. – São de pouca utilidade. E foram infectados por sua presença...

Tufiel e Sammael soltaram rapidamente os dois quando a chama da lâmina de Verchiel rugiu para a vida e com fome envolveu o casal em seu fogo ardente.

Os pais de Aaron gritaram por alguns segundos que pareceram uma eternidade. Seus esqueletos enegrecidos, queimados até o cabelo, a pele e os músculos, desabaram no chão, em um abraço desajeitado.

Verchiel olhou para ele, aparentemente, saboreando sua expressão de desespero. – Agora, – ele disse com um indício de sorriso nos lábios pálidos, sem sangue. – Podemos continuar?– Gabriel jogou a cabeça para trás e começou a uivar, e Aaron tinha certeza que ele nunca tinha ouvido nada tão triste.


Seus pais foram mortos, queimados vivos diante de seus olhos. Lembrou–se de seu aniversário, na verdade, quando ele se levantou e olhou para o sono da mãe nesta mesma sala, e pensou que agora ela não estava em sua vida. Seu coração disparou e mal podia respirar.

O cheiro acre de carne queimada permeava o ar doentio, e ele fez tudo possível para evitar o vômito.

Verchiel dizia alguma coisa, mas ele não estava ouvindo. O alarme de incêndio estava soando a todo volume do teto acima dele e apenas escutava.

A imagem das duas pessoas que ele mais amava no mundo sendo consumidos pelo fogo se repetia diante de seus olhos, como se os restos mortais ainda ardessem diante dele.

Mais preocupante ainda, Aaron perguntou-se se o fogo utilizado pelos anjos assassinos era o mesmo que o de cozinhar ou do que saiam das cabeças dos fósforos. Talvez tenha sido um fogo especial, concedidos apenas a altos funcionários especiais dos portões do céu. Aaron sorriu mais parecido com uma careta de dor aguda. De repente, eu sou tão especial, talvez eu possa manejar este fogo também.

Ele percebeu um movimento com o canto do olho e desviou o olhar para longe do que restou de Lori e Tom Stanley.

Stephen estava sendo levado para fora da casa. O anjo, como ele havia sido chamado? Ele se perguntou. Uriel? Uriel estava levando seu irmão através da porta quebrada da entrada. Mas para onde? Para onde estava carregando seu irmãozinho? Ele não usava sapatos ou meias. Aaron pensou em tentar seguir, mas foi distraído pelo último pesadelo que se desenrolava no meio da sala.

Foi Gabriel.


Quatro anjos rodeavam o cão enquanto Verchiel se colocava à frente. Ele ainda tinha a espada na mão, a mesma que tinha usado para matar os pais de Aaron, para queimá-los até os ossos.

Gabriel estava lutando, espumando pela boca e estalando a mandíbula tentando conseguir uma fatia das criaturas que o seguravam. Aaron queria incentivar o seu cão, mas descobriu que ele simplesmente não tinha forças.

Ele olhou de volta para seus pais. Mesmo os ossos tinham quase desaparecido agora, e se perguntou se os seus iriam queimar tão rápido.

Algo o chamou. Ele podia ouvir o eco distante na distância, mas não prestou muita atenção. Ele estava ocupado vendo o fogo terminar a tarefa horrível que tinha começado.

Novamente chamaram-no, mais forte, mais nítido e Aaron percebeu que o som não vinha de dentro da sala, mas a de algum lugar dentro de sua cabeça.

Ele virou-se para ver Verchiel levantar a espada acima de Gabriel. Parecia estar acontecendo em câmera lenta.

Como é que tudo que é terrível parece acontecer em câmara lenta? Ele perguntou com um medo enorme.

Aaron mais uma vez ouviu o som de seu nome, desta vez muito mais forte. E parte dele se sacudiu de seu topor e se deu conta de como estava irritado. Como estava. Eles haviam matado seus pais, levado seu irmão. Não podia deixar que também matassem Gabriel. Mas o que eu podia fazer? Era demais para eu suportar.

Dois anjos ainda o tinham em suas mãos. Ele estava de joelhos, com os braços nas costas. Sentiu mãos agarrá-lo pela cabeça. Eles queriam que olhasse para ver a lâmina de Verchiel tirar a vida de seu melhor amigo.


A voz dentro da sua mente estava incitando-o a satisfazê-la, não com palavras, mas com uma sensação de excitação do inicio. Ele sabia o que o estava chamando. A última vez que aconteceu isso era mais como serpentes, e manteve os braços abertos, aceitando–o.

Era agora mais velho, mais maduro, mais forte.

E por mais que ele odiasse admiti-lo, era parte dele.

Uma onda de força correu o seu corpo e Aaron levantou-se, atirando seus captores com poderes extraordinários.

Verchiel baixou sua espada e olhou. – Somente estas adiando o inevitável – disse, adiantando-se para Aaron. – Mas se você está tão ansioso, então podes morrer antes do animal.

E se fecharam em torno dele. Cada um tirou uma espada de fogo e Aaron arrastou-se para o seu ataque. Ele estava disposto a morrer lutando.

As janelas da sala explodiram para dentro, enchendo-a de cristais, enquanto mais dois entraram na sala.

Os poderosos pareceram estar tão assustados quanto ele. Gabriel foi libertado por seus captores e correu ofegante nervosamente para o lado de Aaron.

O anjo chamado Camael endireitou-se lentamente à sua altura total, imponente ante a janela quebrada, uma espada flamejante em seu poder.

E ao lado dele, um homem com pele queimada em um vermelho escarlate e na mão sustentava o que parecia ser um bastão com múltiplos pontos de seis polegadas, era o Grigori, Zeke.


– Camael tem dito algumas coisas interessantes sobre você, Aaron – disse Zeke, com uma piscadela de lado, quebrando o silêncio palpável. Ele ergueu seu bastão como se balançasse para um arremesso.

– Eu disse a você que eras especial.


O barulho era mais forte que milhares de unhas arranhando um quadro negro. Os poderosos uivaram seu estridente grito de batalha e voaram para os defensores de Aaron com suas armas de fogo. Por um momento, haviam duvidado dele. Em suas mãos, Aaron rastejou para o monte que ainda brilhava vermelho, o monte de terra que, agora, era seus pais. Gabriel, em silêncio e com tristeza, moveu-se com ele. No monte de cinzas, Aaron podia ver os crânios de Lori e Tom ardendo, seus olhos vazios em um negro acusatório.

– Eu sinto muito – sussurrou e esticou uma mão trêmula acima da fogueira de cinzas e ossos. Rapidamente a retirou quando sua carne se queimou pela intensidade do calor.

– Não é sua culpa – Disse Gabriel, consolando-o. Tratou de lamber as feridas da mão de seu dono.

A intensidade dos gritos o tirou de seus pais e focou sua atenção na batalha que se desenrolava na sala de estar. Aaron foi surpreendido pela sua ferocidade. Zeke enterrou seu taco com pregos adornados na ponta em um lado da cabeça de um dos atacantes. O anjo caiu de joelhos, sangrando quando Zeke golpeou com o taco com um grunhido e o golpeou uma vez mais antes que pudesse se recuperar. Então, satisfeito com a morte que havia concluído, o anjo caído dirigiu sua atenção selvagem a outro atacante.

Os movimentos de Camael eram hipnotizantes, obscurecidos. Movia-se entre Os Poderosos, cortando e apunhalando, a espada de fogo passava pela carne com facilidade prejudicial. Era como ver a beleza de uma dança complexa, mas com resultados mortais. Aaron podia ver que ele estava lutando, contra seu caminho havia Verchiel que simplesmente estava de pé, com arma em mãos, esperando com paciência cronometrada seus soldados lutarem e morrerem ao seu redor.


A cena assustadora de violência se revolveu dentro de Aaron. Podia sentir que tudo estava se retorcendo em seu interior, muito mais forte que antes, como se tivesse muitas enguias elétricas debaixo de sua carne. Estava emocionando-se pela batalha, a vista, os sons e odores.

E então viu como Verchiel o olhava firmemente do outro lado da sala. As narinas do anjo se dilataram, como se cheirasse algo no ar. Ele resmungou e então começou a mover-se até Aaron.

– Quer sair, Aaron – disse Gabriel ao seu lado. Cheirando acima e abaixo. – Está dentro de ti e quer sair.

Aaron não podia separar os olhos do anjo que o olhava através do quarto.

De repente, Gabriel passou a língua por seu rosto o surpreendendo, Aaron olhou o cão.

– O que há dentro de ti está dentro de mim – explicou Gabriel – Posso sentir tua luta, mas não pode mantê-lo trancado.

Verchiel estava quase sobre eles.

Pouco a pouco, Aaron se colocou de pé, com os olhos firmes na forma sinistra do anjo que se movia inevitavelmente mais perto. “Talvez devesse deixar que me matasse,” Aaron pensou. Era uma opção que deveria ter considerado antes que seus pais se transformassem em cinzas. Talvez se houvesse oferecido sua vida, sacrificado-se, o líder dos Poderosos não os teria matado.

– Liberte-o antes que seja tarde demais – ouviu Gabriel dizer com pânico em sua voz.


Verchiel se deteve diante de Aaron – Tudo chega ao fim quando estiver morto – grunhiu. Levantou sua arma e Aaron encarou seus olhos negros sem vida, sabia que, mesmo que tivesse se oferecido, o horrível destino de sua família não haveria mudado.

Podia sentir o calor da espada de Verchiel sobre seu rosto quando se aproximou. Algo bloqueou seu golpe. O fogo da espada estalou violentamente ao chocar através do taco de madeira, sacudindo Aaron de sua paralisia.

– Saia daqui, menino! – lhe gritou Zeke, quando sacou a metade enfumaçada do taco e a chocou com toda a sua força no rosto de Verchiel. Verchiel se surpreendeu com o golpe do anjo caído, mas apenas por um instante. Uma linha de sangue negro escorria de seu nariz aquilino16 para tingir seus lábios e dentes perfeitos.

Aaron e Gabriel se lançaram para Verchiel, a intensidade de sua ira os enganou ao pensar que poderiam ajudar seu amigo. Mas as asas de Verchiel atacaram novamente, e a repentina torrente de ar os jogou para trás.

Verchiel agarrou Zeke pela nuca e o levantou do chão com uma força inumana – Não foi suficiente te tomar as asas e a vida de seus filhos sujos? Agora quer que ponha fim a tua vida?

– Não! – Gritou Aaron.

Zeke lutou, o pedaço do taco caiu de sua mão enquanto se retorcia – Você tem de viver, Aaron – Disse com a voz tensa pela dor.

– Que assim seja. – retrucou Verchiel enquanto atravessava sua espada de fogo pelas costas de Zeke, em uma explosão que chispou sangue fervente e vapor. Zeke gritou, jogou sua cabeça para trás em um gemido de agonia e dor.

16

É um nariz fino e comprido.


Aaron se lançou sobre Verchiel e agarrou seu braço em um poderoso agarre. – Filho da Puta! – gritou – Você o matou! Você matou meus pais, filho de uma..

– Solte–me, imundo – disse Verchiel, arremetendo um golpe que enviou Aaron a toda velocidade pela sala. Atingiu uma cadeira no canto da sala de estar, ricocheteou e caiu no chão. E lutou para permanecer consciente.

Através dos olhos nublados pelas lágrimas, Aaron viu imagens do corpo de Zeke com a espada de Verchiel que se sobressaía sobre seu peito e caiu de joelhos. Um grito como o pranto de uma águia preencheu o ar, e Camael correu do outro lado da sala empunhando sua arma, abrindo caminho até Verchiel. A expressão em seu rosto era selvagem.

Gabriel correu para o lado de Aaron, puxando a sua roupa. – Levante-se – disse entre dentes – Tens de libertá-lo, se não vai morrer. Todos nós vamos morrer.

Aaron se colocou de pé e cambaleou até Zeke enquanto Camael e Verchiel lutavam ferozmente, suas espadas ardiam mais quente, mais brancas, cada vez que se chocavam. Pôs-se de joelhos junto ao antigo Grigori e tomou as mãos dele entre as suas.

– Vai ficar bem – disse-lhe Aaron, com os olhos fixos na poça negra no centro do peito do anjo caído. – Vou-te... ajudar. Espera e...

Zeke apertou-lhe a mão e Aaron tirou os olhos da ferida para encarar seus velhos olhos.

– Não se preocupe comigo, criança. – Disse Zeke em um sussurro. – Não há nada que possa fazer, exceto...

– Exceto, o quê? – Perguntou Aaron aproximando–se da boca do anjo.– O que posso fazer? Diga-me...


Houve uma explosão, e, instintivamente, Aaron lançou seu corpo sobre Zeke para protegê-lo. Enquanto olhava através de uma nuvem de poeira de gesso e de escombros caídos, viu que Camael e Verchiel seguiam sua luta através do telhado para o céu. Ouvia seus gritos que ressoavam na noite como uma tormenta.

– Terá de fazê-lo realidade, Aaron. – disse Zeke, tirando a atenção do menino do buraco acima deles. – Pelo bem de todos que caíram.

O aperto de Zeke em sua mão era intenso, e Aaron se encheu de uma enorme tristeza. Podia senti-lo em seu interior uma vez mais, o poder agitando-se no centro de seu ser. Mas ele não queria liberá-lo, pois sabia que a liberação decidir tudo o que era e tudo o que alguma vez sonhou ser seria mudado para sempre.

–Tem de fazer com que aconteça – disse o velho.

A presença capotou e rolou dentro de Aaron, lutando contra as barreiras que haviam sido impostas. E sabia que, sem importar o quanto se esforçasse para negá-lo, não podia evitar seu destino por mais tempo. Pouco a pouco, gradualmente, baixou a guarda e o poder se lançou para frente tal como havia salvado Gabriel aquele dia. A energia passou através dele, uma força sobrenatural fazendo cada célula de seu corpo palpitar com vigor.

Aaron abriu os olhos e olhou a seu amigo, e o anjo caído estava sorrindo.

– É certo – murmurou o Grigori – Tudo é verdade...

Aaron se sentia como se também estivesse em chamas, ardendo por dentro. A presença irradiava de seu corpo em arcos e não estava seguro se somente a carne seria capaz de conter seu poder, que ainda seguia crescendo.

Sentia como se sua pele estivesse derretendo. Arrancou sua roupa, arrancou sua camisa para contemplar seu corpo nu que, com toda certeza, foi incendiado. Estranhas marcas negras estavam sangrando através de sua pele exposta, desde a parte mais profunda de seu ser.


Com uma mistura de fascinação e terror, viu-os aparecer por todo seu corpo. Pareciam marcas tribais, tatuagens usadas por alguns temíveis guerreiros primitivos há milhares de anos.

– Que é.. o que está me acontecendo? –perguntou–lhe com temor.

Gabriel se deitou no chão e se manteve perto, com os olhos repletos de assombro – Deixe que aconteça, Aaron – disse para consolá–lo – Tudo vai ficar bem.

Havia uma dor aguda, uma dor insuportável nas costas de Aaron. – Oh, Deus – ofegou sem ar, a agonia intensificando-se. Manchas roxas da inconsciência eminente floresceram perante seus olhos.

Passou a mão por seus ombros e agarrou violentamente suas costas. Seus dedos tocaram dois pontos sensíveis a ambos os lados de seus ombros: duas coisas cresciam, parecidas a um inchaço que pulsava com cada frenético golpe de seu coração. A pressão dentro deles estava crescendo. Tenho que deixa-lo sair! – Passou as unhas pelas protuberâncias carnosas e tinha as mãos molhadas, de repente a pele se dividiu e se abriu com um som muito semelhante ao de um tecido quando rasgado.

Aaron gritou alto e claro, em uma mescla de dor e alívio quando um pedaço completo de plumas saiu de suas costas, desdobrando–se continuamente em toda sua extensão plena e gloriosa.

Sem ar, olhou por cima dos ombros em completo assombro.

Asas.

As asas são de um negro consistente como os de um corvo e brilhavam umidamente. Os músculos, os quais nunca havia sentido antes, contraíram-se e relaxaram, as asas começaram a bater agitando o ar. Baixou a vista para as estranhas marcas que cobriam a pele de seu corpo e uma estranha calma pareceu passar por ele, então, teve a sensação de que, finalmente, havia alcançado uma serenidade que havia lutado para encontrar por toda sua vida.


Pela primeira vez, Aaron Corbet se sentia inteiro, completo.

Gabriel estava sentado olhando e esperando. Podia apenas conter seu entusiasmo, sua cauda se movia com fúria sobre o piso. – Está bem? – Perguntou o cão.

– Nunca me senti melhor– Disse Aaron e olhou através do buraco do teto. Podia ver a forma dos Poderosos, eles se precipitaram e se entrelaçaram como morcegos através do céu noturno em combate aéreo com Camael.

A repentina urgência de unir-se à batalha era embriagadora. Estendeu a mão. Viu as imagens passando por sua mente até que viu a que chamava a atenção.

Aaron pensou nesta arma e esta arma somente apareceu. Ele pensou seriamente e sentiu o fogo brilhar na palma de sua mão. A arma crescia, o fogo tomou a forma de uma espada de batalha muito poderosa. Sustentou a lâmina ardente no alto, imaginando o dano que esta poderia fazer a seus inimigos.

Uma vez mais olhou ao céu acima e flexionou seus complementos recém nascidos.

– Tenha cuidado, Aaron – disse Gabriel colocando–se de pé. – Eu ficarei com Zeke. Ele não deve ficar sozinho.

– Golpeie-os até matá-los, menino. – disse Zeke levantando os polegares para cima.

E Aaron saltou no ar, as asas virginais o levantaram com facilidade do solo. Como se fosse algo com que havia nascido para fazer.

A dúvida havia ido, afugentada pela fé de alguém que havia caído. Não importa o quanto ele tentou, não poderia Camael apagar a recordação do rosto de Ezequiel. No céu sobre a casa de Aaron, espadas de fogo estavam em pleno combate, em vão tratou de deixar a recordação de lado e se lançou ao ataque.


Camael gritou para o céu noturno cheio de tormenta e chegou a Verchiel com sua espada de fogo celestial. O líder dos Poderosos lançou-se fora do golpe da espada e caiu , o que permitiu aos de sua elite ocupar seu lugar na batalha. Parecia como se o ex-capitão de Camael não quisesse perder seu valor em uma batalha com o traidor da causa.

O anjo Sabriel agitou sua arma, uma cimitarra17 que assoviou ao cortar o braço da jaqueta de Camael e a carne macia que foi exposta. Fez uma careta de dor e cerrou suas asas apertadas contra seu corpo. Logo deixou-se cair rapidamente como uma pedra para longe de seus atacantes. E enquanto baixava, açoitando o ar ao seu redor, voltou a recordar ao Grigori.

Ele havia buscado a este Zeke que Aaron havia lhe falado, esperando que de algum modo o anjo caído lhe ajudaria a convencer Aaron de abraçar seu destino. Ele havia seguido a pista pelo resquício de cheiro do menino até um hotel em ruínas, onde se deparou com o edifício em chamas e viu Gregori a ponto de ser assassinado por dois dos soldados de Verchiel.

Sem querer cair excessivamente longe da batalha atual, Camael esticou suas asas para frear sua descida e se arqueou em direção ao céu com três golpes vigorosos. Os Poderosos preencheram a noite de gritos ansiosos. O céu se encheu deles, cada um esperando uma oportunidade para vingar-se da pessoa que havia abandonado sua sagrada missão para ir ao lado dos caídos. Ele havia ajudado ao Grigori contra Os Poderosos, foi impressionado pela forma em que o anjo caído se havia comportado na batalha. Não podia recordar ao Grigori ser um perito em combate, mas por outro lado, a Terra era um lugar duro e com frequência violento e brutal e até os seres celestiais teriam que adaptar-se para sobreviver.

Depois de escapar do edifício em chamas, Ezequiel queria saber por que Aaron era tão importante, por que Verchiel estava disposto a arriscar muito para vê-lo destruído? E foi então quando Camael compartilhou com ele a profecia que os difíceis e cansados traços de Zeke adquiriram uma expressão completamente nova.

A cimitarra é uma espada de lâmina curva mais larga na extremidade livre, com gume no lado convexo, utilizada por certos povos orientais, tais como árabes, turcos e persas, especialmente pelos guerreiros muçulmanos. 17


Era uma expressão de esperança, a esperança do perdão, esperança na redenção, a esperança para todos eles. E embora soubesse que era mais provável que Zeke morrera, não podia tirar a recordação daquele momento de sua cabeça. Ele usou a fé do Grigori como uma espécie de bandeira para dissipar as dúvidas que o haviam afetado nos últimos tempos e incentiva-lo à vitória contra seus inimigos.

Animado pela esperança de Ezequiel, Camael virou de forma inesperada, capturando a um dos quatro soldados com surpresa. Agitar sua espada com todo o amor por seu Deus lhe deu força e cortou a cabeça do anjo com um só golpe. Ele o viu cair em espiral para baixo no pátio estalando em chamas ao chocar-se contra o gramado perfeitamente cuidado.

Imaginou aos humanos em suas casas, felizes e ignorantes da guerra sangrenta que desenrolava-se fora de suas janelas no céu. A magia angelical utilizada para mascarar o ataque à casa de Aaron esta noite devia ser grande em verdade, pensou, ainda ocupado com a emoção da batalha.

Ao ver seu companheiro morto, os outros três fugiram voando em diferentes direções, e Camael buscou no céu o seu verdadeiro inimigo, Verchiel. Se seu líder caísse, Os Poderosos sem dúvida deixariam de lutar, ao menos até que conseguissem outro líder. Isto lhe daria tempo para levar Aaron à algum lugar, escondê-lo até que pudesse aceitar a volta que sua vida havia dado.

Descobrindo o seu valor, dois dos três assaltantes desceram das nuvens, dando seus gritos sanguinários de batalha. Camael se dirigiu para eles, encontrando seu ataque de frente com uma ferocidade que ele não havia sentido desde a Grande Guerra. Pareciam surpreendidos, acreditavam que seus anos entre os seres humanos o haviam tornado fraco.

Esse não foi o caso em absoluto. Ele empunhou sua espada como se fosse uma extensão de seu corpo, balanceando-se em um amplo arco, cortando através de uma das asas, e estripando ao outro. Havia uma parte dele que depreciava isto pois se tratava de soldados que havia dado ordens uma vez, os soldados que o haviam seguido até a mais inútil das batalhas se ele houvesse pedido. Mas havia outra parte que se deu conta que isso fazia muito tempo, e já não era mais o mesmo ser que os havia levado e que já não eram mais seus soldados. Havia crueldade em seus olhos, uma crueldade que aninhava-se na brutal prática da vida. Se ele tivesse ficado como seu líder, a ele também seria posto o olhar frio pela superioridade, igual à Verchiel.


Um som abaixo o distraiu. Ele pairou montando as correntes de vento e escutou com cuidado. Havia vindo da casa de Aaron, e o pensamento horrível que Verchiel poderia haver matado ao Nephilim entrou em sua mente.

Novamente se ouviu o som e ele reconheceu o que era. Foi um grito de guerra, um grito de guerra.

Do buraco na estrutura do teto algo surgiu. Movia-se a uma velocidade incrível, nas asas tão negras como um céu sem lua. Levava uma arma de fogo e sua pele exposta estava coberta de marcas que Camael reconheceu como sigilos angelicais, marcas levadas somente pelo maior dos guerreiros do Céu.

Camael de repente compreendeu o que estava vendo. Era o portador da esperança para o futuro em carne. Aaron Corbet havia completado a transformação. Ele contemplou com profunda admiração como Aaron se elevou mais. Camael nunca havia visto algo como aquilo, tão cheio de energia, e não podia deixar de se perguntar quem dos anfitriões celestiais poderia haver gerado uma criatura tão magnífica.

Os anjos dos Poderosos se sentiram atraídos por esta nova criatura como tubarões em água cheia de sangue. Rodearam sua presa, uma breve avaliação de suas debilidades, e logo atacaram. E Camael viu com assombro Aaron se defender.

O Nephilim foi impressionante para seus olhos, com as asas estendidas ele se lançou sobre o céu, arrasando a seus atacantes com zelo e sem inibições.

– Este é o que acredita que salvará à todos? – Disse uma voz detrás, surpreendendo–o. Camael girou com a espada empunhada. Esta foi a segunda vez em um dia que havia deixado Verchiel aproximar–se sigilosamente. O líder dos Poderosos estava perto. Em um nível muito perigoso.

– Vou te ver morto e queimado – Verchiel franziu o cenho enquanto empurrava um punhal de fogo sobre Camael.


E não pode fazer outra coisa que aceitar a apunhalada, sentindo o calor da arma romper a superfície de sua pele e começar a queima-lo desde seu interior.A dor foi repentina e abrasadora e ele nem sequer teve a oportunidade de gritar ao cair do céu, entregando–se ao abraço negro da inconsciência antes de golpear o solo.

Verchiel viu a caída do traidor para o abraço da Terra

– Não teria que terminar desta maneira – disse com pesar – Este mundo poderia ter sido nosso se sua mente não houvesse sido envenenada pelas ideias delirantes dos inferiores.

Um de seus soldados gritou lastimavelmente e Verchiel voltou sua atenção à batalha aérea.

O Nephilim amaldiçoado, olhando a outro de seus soldados de elite entrar nas proezas da lâmina da criatura.

Como que este monstro luta com tanta força? , perguntou-se, olhando com fascinação perversa enquanto se movia através do ar em asas negras, como se fosse uma segunda natureza. Foi difícil para ele imaginar que este pesadelo de união da Terra e do Céu era apenas um pensamento humano fazia uns poucos dias.

Outro de seus soldados gritou na derrota e caiu do céu em chamas. O estilo do Nephilim era cru, errático, carente de disciplina, sem restrição, lutou com eficaz ferocidade desenfreada contra os que não sabiam o que esperar. Os Poderosos haviam se suavizado ao longo dos séculos, não haviam provado um bom adversário mas Verchiel sabia deste inimigo. Era a personificação de tudo o que havia lutado, tudo o que ele depreciava, e ansiava vê–lo finalmente vencido.

Para destruir a esta criatura, este símbolo de um futuro pervertido muito horrível para ele imaginar, seria a maior vitória de todas. Matar ao Nephilim e a profecia morreria com ele.


Verchiel mostrou o punhal que havia utilizado para matar seu ex comandante. Com um pensamento, o punhal desapareceu e convocou outra arma, uma que considerava sagrada. Não tinha sido usada desde sua batalha contra o exército dos Morningstar. Chamou a esta espada que traz a tristeza, e foi só a mais profunda e importante das batalhas.

Esta seria uma batalha.

A espada se materializou em sua mão e apontou para o reino dos céus. E com palavras arcanas utilizadas por sua classe para dobrar os elementos à sua vontade, chamou uma tormenta sobre o mundo do homem de Deus, uma tormenta que lhe ajudará na derrota do mais horrível dos males.

Uma tormenta para lavar a praga maligna da profecia.


A tormenta que cobria seu bairro estava aumentando sua ferocidade com nuvens escuras como o aço, pareciam o suficientemente densas para toca-las. Aaron conduziu através delas, sentiu o vapor da água um pouco molhada em sua pele desnuda, isso foi como um tônico revigorante para o próximo ataque. Os poderosos haviam se retirado de repente, as nuvens os ocultavam e o mais provável é que estivessem se reagrupando. Aaron supôs que o tomariam de surpresa, e ele estava pronto.

Olhou ao redor, por toda a extensão do céu sobre Baker Street, tratando de compreender os últimos acontecimentos dos últimos minutos. Tinha asas. Ele estava voando. E se viu envolvido por uma luta por sua vida, a centenas de pés acima da sua casa. Era uma loucura, parecia um pesadelo. Contudo, sabia que era real.

Os Poderosos haviam sido implacáveis, vinham por todos os lugares acima. E ele havia lutado bem. Com sua espada de fogo, lutou como se fosse algo que tivesse feito todos os dias de sua vida, como se tratasse de algo que devia fazer.

Uma vez que aceitou a transformação, a presença de outro mundo havia preenchido sua mente com um conhecimento incrível. Lembrou-se de coisas que ele nunca havia conhecido. Aaron prontamente conhecia Os Poderosos, não só como seres celestiais que inclinaram-se sobre o castigo e a destruição, mas como guerreiros que em tempos foram uma causa nobre.

A tormenta trovejou e os céus acinzentados se iluminaram estranhamente por um relâmpago. Seus olhos exploraram as nuvens. Mais jogos dos Poderosos? Perguntou–se enquanto olhava em busca de sinais de um ataque eminente.


Os ventos eram cada vez mais fortes e foi golpeado por sua força enquanto continuava buscando no céu a seus inimigos. Um trovão se sentiu desde a parte superior da cabeça até os pés que sacudiu o ar, e os relâmpagos iluminavam o céu. Era agora uma verdadeira tempestade, ventos fortes, relâmpagos, chuva e trovões. E, ainda assim, não via aos Poderosos, estavam em alguma parte escondidos.

Aaron olhou com curiosidade para o clima agitado em cima dele e disparou-se para cima movendo suas asas de ébano. Ele cortou a nuvem e olhou além da tempestade para seu bairro. Não se surpreendeu de ver tudo em calma, a noite estava cheia de estrelas sobre a cidade de Lynn, em todas as partes exceto em Baker Street.

Ele ficou sem respiração pela dor repentina quando algo oculto nas nuvens o agarrou pelo tornozelo e com fúria o atirou para baixo. Atacou as cegas com sua espada e o agarre que havia sobre ele foi abandonado, mas não antes de que se encontrasse de volta na tormenta.

O vento uivava e a chuva caia em cortinas. O céu estava chorando, o pensamento o distraiu, não sabia de onde vinha esta ideia. E antes que tivesse a oportunidade de pensar mais nisto, por cima do uivo dos ventos e o sussurrar da chuva torrencial, ouviu uma voz poderosa.

– Nephilim!

Aaron girou no ar, em busca da fonte, mas com conhecimento do que seria.

Verchiel surgiu da tempestade, era uma vista impressionante, suas asas brancas o levavam com facilidade pelo turbulento ar. Manteve em alto uma espada de fogo que crepitava enquanto a chuva caia sobre ela.

Aaron olhou nervosamente sua própria arma e perguntou-se se seria conveniente convocar a algo maior.

– Teu tempo terminou – disse o líder dos Poderosos.


A tempestade aumentava mais e Aaron tinha dificuldades para permanecer no ar.

– Acabarei com tua existência como poeira ao vento – Verchiel disse enquanto voltava seu rosto para o céu pálido e estendia os braços.

Relâmpagos serpenteavam do céu, um raio caiu ao lado da casa de Aaron enquanto olhava com terror.

– Não!! – Aaron gritou, lutou contra os ventos para descer. Gabriel, Zeke, sua mente acelerou-se.

Quando outro raio desceu soou como o estalar de um enorme chicote, e o teto explodiu em um flash branco e começou a queimar. Estava tão afligido que descuidou de sua retaguarda. Seus instintos o advertiam que não desse as costas à Verchiel, mas ele não prestou atenção. Tinha que chegar à seus amigos, se havia algo que podia fazer teria que ser agora.

Aaron foi detido pelas costas, braços e asas estavam contra seu corpo. Ele viu impotente como sua espada caiu de suas mãos e se evaporou no ar.

– Isso é só o começo – o anjo lhe sussurrou ao ouvido com malícia.

A respiração de Verchiel cheirava a especiarias e decadência, e fez a Aaron querer calalo. Forçou todos os músculos, mas sem êxito. O líder dos Poderosos obteve bons resultados. Os poderosos ventos da tempestade os sacudiam, soprando sobre seus corpos como troncos presos na correnteza de um rio. E entretanto lutava.

Aaron gritou de raiva, tirou proveito dessa emoção que agora corria por ele. Golpeou com violência e em um golpe brutal bateu sua cabeça no rosto do confiante Verchiel. Foi justamente o que necessitava para aliviar o exagerado controle do anjo sobre ele, e Aaron foi capaz de girar seu corpo ao redor. Olhou a face zombeteira de seu agressor, aos sólidos olhos negros, e em suas ilimitadas profundidades viu a morte de milhares.


Eram como ele, mesmo as crianças, inconscientes da herança que os havia marcado para a morte. Aaron podia sentir sua dor, seu desespero, seu medo ao que estavam se convertendo. E como foi dirigido seu terror? Como estes seres do Céu e da Terra ajudaram a compreender suas verdadeiras origens? Só com mais horror, como Verchiel e seus soldados chegaram a eles. E eles foram assassinados, cruelmente, metodicamente, tudo em nome de Deus.

A tempestade trovejou e Aaron liberou um de seus braços e passou as unhas pelo rosto do anjo, arranhando um destes horríveis olhos, negros sem fundo. Verchiel gritou por cima do uivo da tempestade, seu grito como o de uma ave marinha. Retrocedeu e agarrou seu rosto ferido.

Aaron se apartou de seu atacante, adrenalina pura bombeava a través de seu corpo, e algo mais. Ele, por casualidade, olhou uma casa abaixo e viu que estava em chamas e parte do teto havia se derrubado. Sua ira intensificou-se e começou a gritar, um som aterrador, não poderia ser produzido por cordas vocais humanas.

Verchiel continuou com suas piadas. – E quando estiver morto, nos moveremos através desta cidade como uma tormenta de fogo e em todas as partes onde houver ido, todo mundo com que tivesse tido o mínimo contato, serão arrastados pelas torrentes de fogo.

Aaron se lançou sobre Verchiel, a espada de fogo formou-se em sua mão, preparada para atacar. – Os matou– gritou, recordando dos rostos dos anjos que havia matado ao longo do tempo, assim como a seus entes queridos.

Verchiel bloqueou seus golpes com uma rapidez deslumbrante, um sorriso maligno que se estendeu lentamente através de seus pálidos traços. As quatro fendas sangrentas que Aaron havia feito no rosto do anjo já haviam começado a curar.

– Sim, eu disse, e é só o começo, – Verchiel disse com um sorriso enquanto defendia-se com ferocidade igualável. – É uma doença, Aaron Corbet – Verchiel cuspiu seu nome como se tratasse de veneno em sua língua, – E cortarei teu corpo deste mundo que tem infectado.


Aaron voou com o anjo e se foi para ele por trás – Toda essa morte– começou a dizer.

Verchiel girou com uma rapidez incrível. Aaron apenas conseguiu esquivar a espada do anjo que passou sobre sua cabeça. Pode sentir o calor pelo couro cabeludo.

– O faz em nome de Deus?– Perguntou Aaron com incredulidade.

– Tudo o que faço, – disse Verchiel com um assobio, a fúria gravada em seu rosto com cicatrizes, – Eu faço por ele.

– Que espécie de Deus serve? – Aaron perguntou, lutando para evitar os ataques do anjo, com a esperança de que a ira de Verchiel o fizesse descuidado. – Que espécie de Deus te autoriza assassinar inocentes em seu nome?

Aaron deu um golpe no rosto do anjo, fazendo com que sua cabeça se jogasse para trás e para o lado. Uma perversa emoção atravessou-lhe o corpo ao ver o retrocesso do anjo pela força do seu golpe. Antes da transformação, não teria durado dois segundos contra esta força louca dos Céu, mas agora Aaron acreditava que poderia, ao menos, dar a Verchiel algo a que recordar.

Verchiel cuspiu sangue pela boca ferida e se balançou adiante, brandindo sua espada. Seu ataque foi implacável, Aaron se inclinou para trás e se afastou. Aaron bloqueou a caída implacável da espada, os golpes eram tão fortes que começaram a fragmentar sua própria lâmina, finalmente causando que se desintegrasse na mão.

– Renda-se, monstro – Disse Verchiel com uma voz tão suava como veludo. –É a vontade de Deus – O anjo estava disposto a reduzir-lo à metade.

Aaron flexionou suas asas e se arremessou para Verchiel, golpeou com seu ombro no estômago do anjo.


Agarrou o pulso de Verchiel, evitando que a espada de fogo o golpeasse em sua caída.

– É o desejo Dele que estas seguindo, Verchiel, ou o seu?– Perguntou ao tempo em que lutavam nas garras da tempestade.

Verchiel conduziu o joelho e o colidiu contra um dos lados de Aaron. Sentiu que o ar de seus pulmões escapava e o agarre do pulso do anjo vacilou.

– Eu sou o líder dos Poderosos– ouviu que Verchiel pronunciava ao tempo que intensificava o golpe – O primeiro de todos os exércitos criados pelo Pai de todos.

Aaron queria chamar outra arma para defender-se, mas a ardente dor em seu lado e nos pulmões apenas fez possível que ficasse em pé. Ele não queria morrer para converter–se em outra das pobres almas que caiam pela espada de Verchiel.

Verchiel veio para ele com espada em mão. Levantou a grande espada sobre sua cabeça. – Seus desejos, meus desejos – disse com os olhos desorbitados pela sede de sangue.

Os ventos se enfureciam, soprando sua espada enquanto Verchiel se preparava para levar a lâmina para baixo, sobre Aaron. – Todos eles são um e o mesmo. – disse lutando contra os ventos e a tempestade que ele mesmo havia criado.

Aaron debilmente conseguiu ter outra arma para continuar a luta, quando houve um som de explosão que parecia envolver todo o céu. Era um som que Aaron imaginou poderia haver sido escutado no início da criação.

Um raio se lançou para abaixo do céu, e protegeu os olhos da intensidade de seu esplendor. Como o dedo da mão esquelética de alguma deidade primitiva composta inteiramente de energia azul crepitante, golpeou a parte superior da cabeça de Verchiel, como para mostrar seu descontento.


O anjo gritou de dor quando o relâmpago invadiu seu corpo, a ponta saindo livre pela ponta de um pé. Seu corpo parecia brilhar desde dentro, a boca aberta em um grito sufocado pela inquietude da tempestade. Verchiel explodiu em chamas, seu corpo já não podia conter a fúria que prolongou o poder através dele. E, como Ícaro18, que havia voado muito perto do sol, caiu do céu.

– Um e o mesmo, está seguro disso?– Perguntou Aaron a Verchiel , vendo como a chamas do poderoso caia em espiral para a Terra. Logo, voltou sua atenção aos céus.

– Está seguro?

Verchiel estava estendido em um lado no chão frio e úmido, açoitado por uma dor imensa que nunca havia sentido antes. Seu corpo estava queimado, negro pelo poder do raio, que ardia ao esfriar-se no ar da noite.

Ele deu a volta para olhar em direção ao céu onde residia seu Mestre.

As nuvens da tempestade desfaziam-se, a magia angelical utilizada para manipular o clima em toda sua fúria foi se dissipando como anéis de fumaça arrastadas pelo vento.

– Por quê? – ele grunhiu, pouco a pouco levantou o braço queimado, chegando a uma mão e acenou à noite cheia de estrelas. Mas o Criador manteve silêncio. E logo estavam ali os fiéis de seu anfitrião, os que haviam sobrevivido, olhando para baixo sobre ele, seus rostos vazios de emoção. Um se inclinou para levantá–lo do solo, o levou sobre seus ombros. O levaram longe do campo de batalha, longe da cena de sua derrota mais atroz.

Para quem não sabe, Ícaro na mitologia grega, ficou conhecido por deixar Creta voando – tentativa frustrada em uma queda que culminou na sua morte. 18


– Por que me abandonou?

O chão estava cada vez mais próximo, e Aaron flexionou seus músculos recém desenvolvidos em suas costas. Suas asas se agitaram uma vez mais, e logo outra vez para frear sua descida. Aterrissou em uma pequena porção de grama em frente da casa, caindo para frente em uma corrida para chegar aos restos fumegantes que haviam sido a sua casa.

– Stephen? – Gritou, correndo pelo caminho que estava cheio de destroços de telhas e madeira queimada. Talvez o tenham deixado. Talvez eles decidiram que não queriam ao menino depois de tudo...– Stephen?...Gabriel? – Gritou freneticamente entre as ruínas.

– Gabriel! – Aaron voltou a gritar colocando as mãos a ambos os lados da boca, desesperado por alguém da sua família que tivesse sobrevivido. – Gabriel, Zeke, está aí?

Ele sentiu a presença de um anjo atrás dele e se deu a volta, uma nova arma de fogo saiu em sua mão, esperando. Ele já havia matado a muitos seres celestiais hoje, e não tinha nenhum problema adicionar outro à conta.

– Fique longe de mim. – advertiu.

Camael mancava, sem prestar atenção à sua ameaça. – O menino se foi–, disse.

O anjo parecia saído do inferno, com o rosto e a roupa salpicada de sangue seco. Estava pressionando sua mão contra uma ferida no peito, tratando de deter o fluxo de sangue.

– Onde está?– Aaron perguntou com uma combinação de emoções que se apoderaram dele. Estava realmente contente que seu irmão adotivo, contudo, estava vivo, mas um terrível horror o preenchia ao pensar que o haviam pego.


Camael tropeçou mais próximo. – Os poderosos...o levaram. Tratava de detê-los, mas...– removeu a mão da ferida e a examinou cuidadosamente. – Eu estava tendo dificuldades. – Do bolso traseiro da calça, tirou um lenço branco e o colocou cuidadosamente debaixo de sua jaqueta, contra a lesão. – E não, não sei onde o levaram.

O anjo parecia estar caindo para frente. Aaron o sustentou, mas Camael foi preso nos torcidos restos do parapeito da varanda de ferro forjado.

– Está bem?– Perguntou Aaron.

Camael assentiu com a cabeça lentamente, seus olhos o estudavam. – É sem dúvida um espetáculo para os olhos, – disse com um sorriso sonhador. – Um que ansiava para presenciar desde...

Aaron levantou sua mão para acalmar o anjo. Não queria ouvir mais, especialmente agora.

Gabriel saiu por detrás da casa chamando-o com entusiasmo. O rosto de Aaron se iluminou ao ver seu amigo canino e se ajoelhou para abraçar ao cão.

– Você está bem – disse enquanto acariciava a cabeça do animal e lhe beijou a cabeça. – Bom menino, bom cão.

– Me alegro de te ver – disse Gabriel, – Mas tem que vir rápido.

Gabriel se afastou e correu até a esquina da casa.

– Gabe? – Disse Aaron.


– Não há muito tempo. – disse o cão enquanto desaparecia pelo pátio.

Zeke estava deitado imóvel no meio do pátio ao lado do balanço, Gabriel se deteve ao seu lado.

– O tirei da casa depois que o raio caiu, mas acho que ele vai morrer. – o cão olhou a Aaron com tristeza em seus olhos. – Vai morrer, Aaron?

Aaron se ajoelhou na grama junto ao anjo caído e tomou com suavidade sua mão. – Não sei, Gabe – disse. A mão de Zeke estava fria, como uma pedra tirada de um arroio da montanha. – Eu.. eu acho que poderia.

– Ah – disse o cão tristemente, parado ao lado do Grigori. – Pensei que talvez poderia fazer algo por ele.

Os olhos de Zeke se abriram lentamente. – Olhe você – disse, esboçando um sorriso em seu rosto bronzeado. Zeke deu um aperto débil na mão de Aaron. –Crescido. – Começou a tossir violentamente e saiu sangue escuro por seus lábios. –Maldita seja – disse ao limpar debilmente o sangue. – Não se sente tão quente.

Aaron foi pego pelo pânico. – Que devo fazer? – Perguntou à Zeke enquanto o tinha agarrado à sua mão. – Devo chamar uma ambulância? Ou..

Zeke sacudiu sua cabeça, o sangue escorria por sua boca. Ele parecia não se dar conta, ou talvez só não o importava. – Não– disse com um gesto de sua mão, sua voz começava a soar mais como um gorgolejo. –É muito tarde para isso.

Camael havia se unido a eles, e Aaron o olhou em busca de orientação. – Há algo..qualquer coisa eu posso fazer para ajudá-lo?


O anjo moveu sua cabeça de cabelos prateados e fechou os olhos. – O Grigori está morrendo. A espada de Verchiel deve de haver golpeado algo vital.

Zeke engasgou-se e começou a convulsionar violentamente.

Aaron lhe agarrou a mão e inclinou-se mais perto. – Zeke? – perguntou –Tens... te dói?

– Está bem, menino – disse. Sua voz era débil, quase um sussurro. – Mais ou menos eu tive a minha parte, de todos os modos.

O anjo caído silenciou por um momento, olhando sem piscar para o céu cheio de estrelas.

– Mas, sim, tenho algo que dizer. – disse, voltando os olhos dos céus a Aaron.

– O que é? – Perguntou.

Zeke tragou com dificuldade e tomou uma respiração larga e tremula. Parecia cheia de líquido. – Quero dizer que o sinto.. – disse, sua voz se apagava em um gorgolejo chiado.

Aaron não entendia. – Por quê? O sente?

O Grigori parecia estar buscando forçar para responder. – Por tudo – disse, tratando de ser escutado. – Quero dizer-lhe que o sinto por tudo o que eu fiz.

Ao princípio, Aaron não estava seguro do que tinha que dizer, mas de repente, como o raio que golpeou à Verchiel no céu, se fez completamente claro.


Aaron sabia exatamente o que havia que dizer. Em toda sua vida, nunca esteve tão seguro de alguma coisa.

Seu corpo começou a tremer, os pelos de seus braços se levantaram, como se estivesse a ponto de receber a maior descarga elétrica do mundo. Manteve a mão de Zeke e sentiu que a energia começou a mover-se, uma força que parecia concentrado no peito começou a mover-se pelo braço do anjo caído.

Repentinamente Zeke se pôs rígido, mas Aaron sustentava-o. Viu com assombro como rachaduras começaram a aparecer na carne do Grigori, da qual brilhava uma luz branca.

Gabriel se levantou de um salto e retrocedeu, – Que está acontecendo com sua pele? – ladrou – O que está acontecendo?

Mas Aaron não respondeu.

O que havia sido uma vez o corpo de Zeke, parecia como manchas de uma pintura descascada, o que havia debaixo se lançou com uma luminosidade incrível de se ver.

Isto é do que se trata tudo isso, pensou enquanto Aaron olhou através da luz branca, entretanto agarrava com força a mão de seu amigo.

Agora, Aaron não olhava à um anjo caído, desterrado à Terra, morrendo das feridas sofridas ao tentar protege-lo. Agora viu um ser incrivelmente belo, seu corpo era composto, em sua totalidade, de pura luz.

Isto é o que deve haver parecido antes de sua caída, Aaron penso, quase comovido até lágrimas saiam de seus olhos pela gloriosa visão. Bonito, Aaron pensou, recordando louvar a seu irmão.


O anjo Ezequiel olhou acima através da bruma leitosa de luz, seus olhos cheios de expectativa. E Aaron se deu conta de o que ainda não havia dito, o que havia que dizer ao fim de instaurar a seu amigo emancipado.

– Estás perdoado – lhe sussurrou na língua dos mensageiros, e sentiu que as lágrimas ardentes de emoção ainda mais cálidas que seus olhos, correram por seu rosto.

Soltou a mão de seu amigo e a aura da energia que o rodeia cresceu em intensidade, mais brilhante, mais cálido. Aaron se pôs de pé, longe do espetáculo do renascimento que se desenrolava ante ele.

Ezequiel se levantou do chão com suas asas delicadas de luz. E ele voltou o rosto beatífico para o céu e sorriu.

– Obrigado – disse com uma voz na mente de Aaron, como as primeiras notas da sinfonia mais bonita imaginável. Se sentiu abrumado pelo fluxo da emoção sem limites.

Logo, em um flash branco, como o nascimento de uma estrela, Ezequiel havia ido, restaurado à um lugar que muito tempo o negaram.

Perdoado.


Choveu, Aaron caiu sobre seus joelhos na grama. Seus olhos estavam fechados, mas via a charmosa imagem de Ezequiel queimando em suas retinas. Ele começou a relaxar e sentiu suas assas em suas costas retroceder, as assas feitas de ossos e cartilagem e suas penas negras desapareceram atrás de seus ombros. Sua pele começou a formigar e abriu os olhos para ver que as marcas negras em seus braços e peito tinham também começado a desaparecer.

Gabriel o alcançou, o rabo movia–se tão furiosamente que parecia como se o cão não tivesse controle sobre seu traseiro. Ele inclinou sua cabeça contra o braço de Aaron e o cutucou com seu focinho exigindo ser mimado.

– Isso foi genial Aaron – o cão disse felizmente. – Eu quero ir para casa.

Aaron olhou Camael – Que demônios aconteceu? –perguntou, lutando para parar de tremer as pernas bambas. –O que eu fiz?

O anjo estava olhando o céu acima com saudades de seu lar, mas tinha muitos machucados sujos.

– Eu não tinha duvida Aaron Corbet – disse Camael sacudindo sua cabeça, olhando do céu para ele. – Você é o Elegido, cuja a vinda tinha sido premeditada a muito tempo. Finalmente chegou a hora de ....

– O que disse?– Aaron queria saber.


O anjo acariciou a barba prateada enquanto falava. – Tens o poder de dar absolvição, – Camael explicou, uma insinuação de sorriso nos lábios – Qualquer um que esteja caído da graça de Deus será concedido o perdão em tua presença, sempre e quando admitem o erro de suas ações.

– Isso é genial Aaron, – Gabriel disse, olhando para seu dono, com o rabo abanado felizmente. –Verdade que é genial?

–Sim é genial. Assim que eles são perdoados, o que significa isso? – Aaron perguntou ao anjo. –Para onde foi Zake?

Camael de novo olhou para o céu. – Voltou para casa.

Aaron também olhou para o céu. E não tinha nenhum sinal da tormenta que estava antes.

– Você está me dizendo que Zeke foi de volta para o céu.

– Tua gente tem muitos sinônimos para onde ele foi: paraíso, Elíseos, nirvana, o solo da casa feliz, céu é só outro nome– Camael explicou.

Aaron refletiu sobre isso. – E eu o enviei para lá?

Camael apontou para Aaron com um largo e bem cuidado dedo. – Você é a ponte entre os caídos e Deus.

– Deus, humm? – Aaron deslizou as mãos casualmente para os bolsos atrás de sua calça jeans. Ele olhou para o que aconteceu com sua casa, dolorosamente recordando o que tinha sido feito a seus pais, tudo em nome de Deus. Ele franziu a testa e se afastou.


– Sabe que, – ele disse, caminhando ao redor da casa para chegar na frente. –Eu não acredito.

Camael o seguiu. – Não pode escapar disso Aaron, – ele disse o alcançando. –És teu destino. Foi escrito.

Aaron virou, detendo o anjo. – A mil anos atrás,– ele terminou. – Sei tudo sobre isso e não estou muito seguro em servir a um Deus que permite que isso aconteça, – ele assinalou para os restos de sua casa. – Sem mencionar as centenas, talvez milhões de outros que Ele permitiu Verchiel matar em seu nome. – Aaron estava furioso, pronto para dizer ao criador o necessário. –Você me diz como se supostamente deveria fazer isso.

Os vizinhos dos Stanley começaram a aparecer, cautelosamente caminhando por suas casas para ver a devastação causada pela tormenta.

Aaron olhou para o que restava do único lugar que sempre conheceu, ambos, o anjo e ele olhavam, enquanto a ultima chama se queimava em cinzas brilhantes.

– Entendo tua ira, – Camael disse.

Subindo a escadaria de tijolos onde um dia fora a porta de entrada, Aaron parou onde restava os escombros onde um dia fora sua casa. – Sério Camael, realmente entende? – ele parou na sala de estar onde seus pais foram mortos. – Há alguns dias atrás eu não acreditava em Deus, em anjos, e em espadas flamejantes, não me importava com Deus. – Ele pegou um pedaço de madeira que brilhava com uma cor rosa. – E agora descobri que sou parte de um elaborado plano de reedificar o céu, de reunir a todos os filhos caídos de Deus para que eles possam ser uma grande família feliz de novo.

Ele recordou da chata simplicidade das noites de filmes com sua família adotiva e quase começou a chorar. Mas estava muito cansado para lágrimas.


– Como se supõem que vou fazer isso por Ele, quando Ele nem sequer se mexeu para salvar a minha família? Pode me dizer isso, porque estou muito curioso.

O triste lamento das sirenes se podia ouvir a distancia.

– O todo poderoso, – Camael começou, – o todo Poderoso e suas ações e sua falta delas... são parte de um esquema muito grande. Talvez nós não entendemos mas...

– O Senhor trabalha de maneiras misteriosas, – Aaron interrompeu sarcasticamente. – É assim que vai tentar explicar isto? Que tudo isto é parte de algo que não podemos ver previamente?

Tinha vizinhos do outro lado da rua, a casa demolida. Havia medo em seus olhos, Aaron quase podia ouvir os pensamentos que atravessam sua mente. Como poderia isto acontecer sem eu saber? ?Nem mesmo sabiam que estava chovendo. –Houve um explosão? Eu vivo na casa ao lado. Isto poderia ter acontecido comigo. Espero que todos estejam bem.

– Deve ser difícil de entender, este é um momento de tragédia. É um dilema. Eu também vim para refletir sobre o meu tempo neste mundo. – O anjo caminhou para uma área onde a parede desabou e caiu de joelhos diante dela. – O Pai está ciente de tudo, – ele disse olhando através dos destroços. – Não importa quão difícil ou as coisas parecem ser acidentais, ele tem um plano.

Camael empurrado um pilar para o lado e deu algo para Aaron. Era uma armação quebrada e sem danos e dentro dele estava um retrato de toda sua família. Todos eles estavam usando chapéus de papai-noel, incluindo Gabriel. Aaron pegou-a e olhou para a imagem feliz. Ele lembrou quando foi tirada, dois anos antes, quando tinha ficado horrorizado ter que usar aquele estúpido chapéu. Ele ficou mais atônito quando os Stanleys tinham usado essa foto para o seu cartão de Natal deste ano.

Aaron retirou cuidadosamente a moldura, uma lembrança da vida agora alterado horrivelmente por um destino remoto.


– Às vezes o mal tem que ir além do bem, – Camael disse em outra tentativa de fazê-lo entender as manobras do Criador. – Você entende o que eu estou tentando dizer? – ele perguntou.

Gabriel espirou pelo cheiro de queimado dos restos que tinha sido uma poltrona reclinada, pressionando o nariz contra o retorcido esqueleto de metal em busca de algo. Aaron ia dizer para o cão ter cuidado, quando Gabriel empurrou uma bola para debaixo do tênis de Aaron.

– Olha, Aaron – ele disse entusiasmado, falando distorcido pela bola rolando em torno de seu queixo. – Eu encontrei a minha bola. Eu tinha perdido ela para sempre. – O cão ansiosamente deixou a bola cair de sua boca. Por um breve momento seu amigo estava feliz, toda a tristeza passada poucas horas atrás foram empurradas para uma lado.

Aaron não gostou da explicação de Camael sobre como as coisas funcionavam, mas significava que não tinha outra opção além de aceitar. A Loucura de Deus tinha um sistema, por assim dizer.

Ele olhou a foto de sua família de novo, então dobrou-a e colocou em seu bolso traseiro.

– Eu tenho que encontrar meu irmão, – Aaron disse, olhando para o anjo que estava ao seu lado. – Você me ajudaria a trazê-lo de volta?

Os caminhões de bombeiros podiam ser ouvidos na Baker Street, luzes piscando, sirenes uivavam como se lamentassem toda a tristeza de que foram testemunhas.

– Eu vou fazer isso, – disse Camael com pouca emoção. Aaron poderia ver a semelhança quando lhe perguntavam se queria creme de leite no seu café.

Gabriel trouxe a bola para Aaron e caiu a seus pés. Ele sacudiu a cauda, enquanto sua cabeça se inclinava para frente e delicadamente lambeu a mão. –Não se preocupe, – ele disse, – Nós vamos encontrar Stephen. Você vai ver Aaron, tudo ficará bem.


E ele olhou em volta, para as ruínas de sua casa adormecida, refletindo sobre as ruínas em que sua vida tornou-se, pensando sobre o desconhecido que estava à sua frente, Aaron não tinha certeza de que tudo ficaria bem novamente.


– Tem certeza sobre isso, Aaron? – Perguntou o Diretor Costan de sua mesa no escritório da escola Kenneth Curtis.

Haviam passado dois dias desde que a monstruosa tempestade supostamente cobrara a vida de sua mãe adotiva, seu pai e seu irmão mais novo, e Aaron sentiu que seria melhor deixar a escola e a cidade o mais breve possível.

Aaron assentiu com a cabeça enquanto entregava ao homem os papéis que tinha assinado oficializando sua saída de Ken Curtis.

– Tenho certeza, senhor. Eu não posso ficar aqui. É o melhor.

Havia sido o mesmo no hospital de animal, as pessoas perguntavam-lhe se estava certo de que era isso o que realmente queria fazer. Claro que não, mas a ameaça Dos Poderosos não havia lhe deixado outra opção.

O Sr. Costan pegou os papeis e franziu o cenho.

– Você sabe, não é de minha incumbência, mas fugir de algo não vai fazer nenhum...

– Eu não estou fugindo. – Aaron cortou, perturbado pela sugestão de seu diretor.


A imagem perturbadora de Verchiel e seus soldados descendo do céu, com espadas de fogo nas mãos, provocando o caos na escola e todo mundo dentro dela.

– É só que, há muitas memórias aqui. – disse, – Acho que uma mudança de cenário pode me beneficiar. – E quanto mais rápido se colocasse a caminho, mais rápido poderia encontrar Stephen, ele pensou, enquanto observava o homem atrás da mesa diante dele.

Camael tinha explicado–lhe por que Os Poderosos tinham levado seu irmãozinho. Tinha algo a ver com pessoas com deficiência ���"os imperfeitos", como Camael friamente referiu– se a eles, eles têm algum tipo de sensibilidade angelical, o que os faz escravos perfeitos. O pensamento de seu irmão mais novo como escravo para o monstro Verchiel gelou-o até os ossos, e fez-lhe ferver de raiva. Tinha que encontrar Stephen antes que lhe fizessem qualquer dano.

O diretor examinou a documentação e os colocou em uma pasta aberta em sua mesa.

– Muito bem. Não parece que você vá mudar de opinião. E já que agora você é maior de idade... – O Sr. Costan fechou a pasta, se levantou e estendeu-lhe a mão.

Aaron estava suportando o melhor possível e pegou a mão estendida do diretor.

– Boa sorte, Aaron. – disse Costan. – E se você algum dia quiser voltar para terminar seu último ano, tenho certeza de que poderíamos aprova-lo.

Aaron apertou rapidamente a mão do homem. – Obrigado por tudo. – ele disse enquanto virava rapidamente e saia do escritório, desesperado para escapar antes que o diretor mais uma vez, tentasse fazê-lo reconsiderar sua decisão.

O relógio na recepção marcava um pouco depois das nove. Se ele se apressasse, poderia limpar seu armário, tirar seus livros, e estar fora da escola antes do final do primeiro período.


Os corredores estavam vazios quando fez seu caminho para seu armário pelo que seria a última vez. As lembranças inundaram sua mente. Lembrou-se do primeiro dia do ano como se fosse há apenas alguns meses atrás. O lugar parecia tão grande então, pensava que nunca iria aprender a andar por ali. Aaron sorriu tristemente, se apenas seus problemas tivessem sido tão leves como esse.

Em seu armário tirou os livros e recolheu seus pertences, checou novamente para se certificar de que não tinha deixado nada para trás. Fechou a porta metálica e foi inundado com intensa tristeza e raiva.

Não é justo, pensou. Ele deveria deixar esse lugar como todos os outros: terminar o último ano, assistir a graduação com a Toga e Chapéu, ficando ridículo, em seguida, ir para a faculdade.

Mas o destino havia lhe tratado com uma mão cruel, e seu destino estava em um caminho totalmente diferente.

Aaron atacou e chutou o armário para liberar algumas de suas frustrações acumuladas. O som era ensurdecedor nas salas vazias. Ele perdeu o controle dos livros debaixo do braço, que caíram em desordem. Aaron tinha vontade de gritar, mas de alguma forma conseguiu se controlar. Agachou-se para recuperar seus pertences, com um suspiro profundo, sentindo–se como um completo idiota. Um completo idiota irritado.

– Quer um pouco de ajuda? Aaron olhou para cima rapidamente, sentindo o peso da repentina tristeza caindo ainda mais na depressão. Por esta razão, queria sair antes que o período de aulas terminasse. Ele não queria vê–la.

Vilma Santiago se ajoelhou ao lado dele e lhe ajudou a apanhar seus livros.

– Obrigado. – ele disse, tentando não olhar nos olhos dela.


– Você ia embora sem dizer adeus, certo? – Ela disse em voz baixa enquanto entregava– lhe seu livro de história.

Ele a olhou e viu então que seus olhos estavam úmidos e vermelhos. Ela havia chorado.

– Eu não sei como, mas sabia que você estava aqui. – Ela mostrou-lhe um pedaço de papel cor de rosa, um passe. – Eu disse que tinha que ir ao banheiro.

Ela sorriu e riu um pouco. Embora cheia de tristeza, mas o som era assustadoramente lindo, e seu coração doía. Nervoso, endireitou a pilha de livros, não tendo certeza de como deveria conduzir sua explicação.

– Eu não queria passar por todo o assunto de despedida, – ele disse, desejando com todo seu coração que pudesse lhe dizer que estava apenas tentando mantê-la segura. – Simplesmente não posso lidar com qualquer coisa que seja triste.

Estava morrendo por dentro. De todas as coisas que deixava para trás, Vilma era o que mais lhe doía. Não havia mais ninguém aqui para dizer adeus. Aaron levantou-se, segurando a pilha de livros debaixo do braço.

– Para o que vale a pena. – ela disse fungando. – No Brasil... quando minha mãe morreu, não achava que seria feliz novamente.

Uma lágrima começou a cair de seu olho esquerdo e Aaron quase deixou cair os livros para enxuga-la.

– Desculpe. – Ela parecia envergonhada e rapidamente levantou as mãos para remover a umidade do rosto. – Sei que você tem passado por muitas coisas, não quero que você se sinta pior.


O sinal das nove e quinze começou a tocar e o corredor vazio se encheu com seu toque estridente e metálico.

– O que estou tentando dizer Aaron, é que não vai doer assim para sempre. Nesse momento, é provável que você não acredite, mas confie em mim, ok?

Ele concordou com a cabeça e tentou sorrir. – Obrigado. – disse enquanto o corredor se enchia de alunos que iam de uma sala para outra. – Eu realmente aprecio isso.

Começou a se afastar de seu armário, e dela. Tinha que sair agora ou então nunca iria.

– Eu tenho... tenho que ir. – gaguejou, se afastando.

Ela começou a segui-lo. – Para onde você vai?

– Não sei. – respondeu com sinceridade. – Eu... Só quero ir. – Tinha que encontrar seu irmão e algo dentro dele insistia para que viajasse para o norte. Camael disse que seria melhor confiar nesses impulsos.

Aaron começou a afastar–se dela.

– Você vai voltar? – Ela perguntou agora ao seu lado.

Ele negou com a cabeça. – Não, eu duvido. – disse, e afastou os olhos para longe dela com fingida indiferença. Isto estava matando-o. Odiava ser tão mal, mas era para o seu próprio bem. Aaron voltou a ouvir as palavras frias e ameaçadoras de Verchiel dizendo que iria matar a todos que estivessem perto dele.

– Eu realmente tenho que ir. – ele disse, e apressou o passo, deixando-a para trás.


Ela movia-se diante dele, bloqueando seu caminho, apoiou-se contra o muro, e puxou–o para seus braços. Ela cheirava impressionante, limpo, como talco pós-banho e a frutas e flores. Ela deu-lhe um abraço e um suave e quente beijo na bochecha, que fez suas pernas começarem a tremer.

– Cuide-se, Aaron Corbet. — ela sussurrou em seu ouvido. — Vou sentir muita saudade.

E ele sentiu seu coração romper–se em um milhão de peças afiadas que rasgaram suas entranhas.

Ele não disse mais nada, obrigou-se a sair pelo corredor. Depois de entregar seus livros no escritório principal, praticamente saiu correndo do edifício.

Do lado de fora, sobre seus passos, o vento soprou e Aaron puxou o colarinho de sua jaqueta de couro em torno de seu pescoço. Apesar de ser oficialmente primavera, ainda havia uma mordida cruel do inverno no ar. Ele tinha o carro estacionado na calçada em forma de ferradura da escola, e pôde ver Gabriel e Camael que esperavam por ele no carro. Isso é tudo, pensou, e pôs suas mãos no bolso em busca de calor, quando começou a descer os degraus.

Alguma coisa estava em seu bolso, algo que não tinha estado lá antes.

Puxou o pedaço de papel dobrado e abriu-o. Era de Vilma e era o seu endereço de e– mail e número de telefone. Ela deve tê-lo colocado lá quando o abraçou. Na parte inferior do papel, com uma letra delicada, ela escreveu: Só se você quiser falar.

Aaron pensou em jogar fora o papel, mas não se atreveu a fazê-lo. Colocou-o de volta dentro do bolso e continuou seu caminho para o carro. Por alguma razão, sentia-se estranhamente quente.

Ele podia ouvir Camael e Gabriel falando enquanto se aproximava.


– Pela última vez, não. – ouviu o anjo dizer, com um toque de petulância em sua voz.

– Qual é o problema? – Aaron perguntou ao entrar pela lateral do carro.

Gabriel tinha deixado a bola de tênis cair aos pés de Camael, e Aaron soube imediatamente qual era o problema.

– Não vai jogar a bola para mim, Aaron. Perguntei-lhe amavelmente e ele se negou. Acho que é um chato.

O anjo estava furioso. – Eu nunca joguei uma bola e eu não tenho nenhuma vontade de fazê-lo. Não tem nada a ver com o meu temperamento.

Aaron agachou–se ao nível do cão. – O que eu te disse sobre tentar forçar a pessoa a jogar com você?

O cão brincalhão bateu na bola com a pata e a prendeu na boca antes que pudesse ir longe.

– Gabriel? – Advertiu.

O cachorro baixou a cabeça, envergonhado pela reprovação de seu dono. –Ele não estava fazendo nada, e eu fiquei entediado.

– Ele disse que não iria jogar e você tem que respeitar isso.

– Desculpe Aaron. – Gabriel disse, com suas orelhas planas contra a cabeça.


Aaron acariciou amorosamente as orelhas do cão. – Está bem. Vamos tentar ter um pouco mais de consideração. – então lançou um olhar fulminante para o Anjo. – Embora seja provável que não teria lhe matado jogar a bola um par de vezes.

– Eu ainda acho que é chato. – murmurou o cão antes que ele desafiadoramente pegasse sua bola com a boca.

– Você sabe qual é sua tarefa? – Camael perguntou, ignorando o animal, com as mãos cruzadas atrás das costas.

Aaron se virou e olhou para trás, em direção à escola, registrando cada detalhe da estrutura de tijolo e concreto. – Sim. – disse, colocando a imagem da sua escola secundaria na memória. – Estou pronto para ir.

Ele estava abrindo a porta do motorista quando Gabriel deixou escapar um grito.

– Escopeta. – rugiu e surpreendentemente subiu na porta do lado do passageiro.

Camael olhou para ele com uma expressão de confusão no rosto. – O que você disse? – perguntou ao cão.

– Eu disse escopeta. – Gabriel explicou. – Isso é o que você deveria dizer quando quer viajar no banco da frente.

Aaron não podia parar de rir. Não importa quantas conversas teve com o animal, a nova inteligência de Gabriel conseguia surpreendê-lo.

– Isso é o que eu pensei que você havia dito. – Aaron disse. Então olhou para Camael. – Você se importaria de ir no banco de trás?


– Na frente ou atrás. – resmungou Camael com nojo. – Não importa. Desprezo estas geringonças infernais, não importa onde viaje.

– Ótimo. – disse Aaron, abriu a porta e empurrou o banco do motorista para frente de modo que o anjo poderia se entrar atrás. Então, deu a volta para a porta do passageiro onde estava seu melhor amigo. – A escopeta é toda sua. – disse Gabriel, e deixou o cão subir no banco ao lado do motorista.

– Impressionante. – disse o cão, com a língua rosa brilhante pendurada de sua boca feliz.

Aaron começou a fechar a porta. – Cuidado com o seu rabo. – disse.

Ele sentou atrás do volante e ligou o carro, mas não o colocou em movimento. Aaron estava olhando para a escola de novo, sua escola e pensando em todas as coisas que perdeu nos últimos dias: a coisa mais próxima de uma mãe e um pai que tinha conhecido; sua casa, seu trabalho, sua escola e até mesmo sua humanidade.

Pensou em Vilma, com os olhos vermelhos pelo choro. Se ao menos pudesse explicarlhe.

– Estamos prontos, Aaron? – perguntou Camael impaciente, do banco de trás.

Aaron utilizou o espelho retrovisor para olhar o banco de trás e o anjo sentado ali.

– Para ser honesto não, eu não estou. – disse, colocando o carro em movimento. – Mas, pelo que você me disse sobre a profecia e tudo mais, acho que realmente não tenho muita escolha.

Parou o carro fora do estacionamento e dirigiu-se pelo caminho de entrada. No fim do estacionamento esperava sua vez para sair, e seguiu o fluxo do tráfego, levando o carro para o


norte e a incerteza do futuro, as memórias ainda estavam nos entes amados e perdidos que infelizmente, deixou para trás.

– Para onde vamos Aaron? – Gabriel perguntou, com a cabeça movimentando-se com entusiasmo de um lado para outro, enquanto observava os outros carros na estrada.

– Não tenho certeza. – ele respondeu, mudando de pista para passar uma minivan.

– Então, como vamos saber se chegamos? – Disse o cão. Aaron podia sentir que o animal estava olhando para ele, esperando por uma resposta. Esticou–se e arranhou debaixo do pescoço do cachorro. – Não se preocupe. – disse, com os olhos na estrada. – Tenho a sensação de que nós saberemos.

Presumi–se que deva ser assim, pensou com desdém enquanto pegava a saída que os levaria a estrada em direção ao norte.

Predestinado, gostemos ou não.

A Igreja e Orfanato Santo Atanásio, vazio desde 1959, estava sombrio e no final de uma estrada que é raramente usada no oeste de Massachusetts.

Supõe-se que o transformaram em um lar de idosos em algum momento em meados da década de oitenta, mas o custo de remodelação e renovação dos edifícios superava largamente seu valor.


Havia um ar de inquietude sobre o lugar, como se as degradadas e antigas estruturas tivessem ganhado um sentimento por ser abandonada. Foi esta atmosfera que lhe deu a reputação de ser um bom esconderijo.

Ficou assim durante os últimos quarenta e tantos anos atrás, sua estrutura pouco a pouco se consumindo, à mercê dos elementos, ausência de vida, com exceção das criaturas selvagens dos campos que tinham encontrado seu caminho lentamente no interior dos edifícios, viveram dentro das paredes e fizeram ninhos no campanário.

Infelizmente vago até poucos dias atrás.

De uma cadeira de madeira sobre o altar da Igreja de Santo Atanásio, Verchiel olhou para o teto arredondado, com manchas de umidade e examinou a representação dos céus pintados lá.

O anjo se moveu desconfortavelmente na cadeira, ele estudava a obra de arte. Pedaços de carne queimada dolorosamente caiam de seu corpo para o chão do altar.

– Eu não tenho a menor ideia. – ele refletiu em voz alta enquanto olhava o castelo dourado flutuando entre as nuvens, e anjos que tocavam harpas alegremente ao redor do recinto. Kraus, o curandeiro, deslizou suavemente em direção a ele, debaixo do braço levava sua maleta de couro desgastada, cheia de instrumentos médicos. Apesar de cego, parou em frente à cadeira de Verchiel, sentindo sua presença, sua divindade já que só os imperfeitos poderiam.

– Estou aqui para atender suas necessidades, Grande Verchiel. – Kraus disse, inclinando a cabeça em sinal de reverência.

Verchiel estava em agonia perpétua já que o raio carbonizou toda a superfície de seu corpo. – Venha. – ele disse, com um aceno de sua mão enegrecida, os nervos vibraram em uma dor cegante com o menor movimento.


O curandeiro ajoelhou-se diante de Verchiel. Colocou a maleta no chão, abriu o feixo, e rolou para expor os instrumentos neles contidos. Suas mãos pairavam sobre a grande variedade de bisturis, lâminas, serras e instrumentos de cura utilizados por seu antecessor, e centenas de outros antes dele.

Pelo toque encontrou o que precisava, um bisturi de doze polegadas que brilhava fortemente com os raios de sol que entravam pelas fendas das janelas fechadas.

– Posso continuar? – Perguntou o macaco humano, a amargura de sua voz ofendeu os sentidos intensificados de Verchiel.

Quanto mais rápido fosse tratado, mais rápido poderia estar longe dos animais ofensivos. – Faça o deve fazer. – respondeu Verchiel. Levantou um dos braços e o presenteou para o curandeiro, um som como o sussurro de folhas secas ao vento enchia o ar.

O curandeiro inclinou-se para frente, e com grande habilidade, começou a cortar a carne queimada, morta.

A dor era insuportável, mas Verchiel não gritou, porque era parte do preço que devia pagar. O que pediam os macacos quando precisavam de perdão por suas indiscrições? Fazer penitência, assim que era chamado.

Era óbvio que tinha decepcionado seu Santo Mestre, por que não teria sido punido assim? A dor era sua penitência. Por deixar de matar o falso profeta que tinha que sofrer, para mostrar que ele estava realmente arrependido.

Kraus cuidadosamente removeu uma tira de pele morta para expor a carne crua e úmida por baixo. Ia curar com o tempo, Teria que fazer isso com todo o seu corpo; com toda a pele queimada, toda a pele morta teria que ser removida. Seria um processo longo e doloroso, mas era algo que Verchiel estava disposto a suportar, a penitência que teria que pagar para receber o perdão do Criador.


O som de um choro de criança o distraiu de sua agonia.

O irmão do Nephilim, ele chamou de Stephen o imperfeito, sentou-se do outro lado do altar e moveu-se para os lados, procurando com os olhos abertos para o que havia sido colocado diante dele.

Era um capacete vermelho-sangue, forjado nas fornalhas do Céu: Um presente para a criança de seu novo mestre.

O menino voltou a grunhir, seu pescoço esticou–se sobre ele, quase como se estivesse de alguma forma consciente de seu destino, e que, cedo ou tarde o teria.

– Eu vou te mudar; meu mascote. – disse Verchiel em um assobio, seu corpo tremendo pelo tormento da dor cada vez que sua era arrancada. Um amontoado de carne morta crescia a seus pés, enquanto o curandeiro continuava sua horrível tarefa.

– Vou te mudar para caçar os falsos profetas.

O garoto balançou a cabeça de lado a lado, seus gritos repetitivos dizendo "não" ecoando no lugar que uma vez foi santo.

– Uma ferramenta de absolvição. – disse Verchiel enquanto descansava a cabeça na cadeira e voltava a olhar para o teto da igreja e as imagens muito humanas do Paraíso. Um lugar que, se fosse para fugir para ele, apenas os verdadeiramente dignos seriam autorizados a entrar.

– Meu instrumento de redenção!

Fim!!


Thomas E. Sniegoski

Leviathan

2º livro da Série The Fallen

Aaron está fugindo dos Poderosos, que matou seus pais adotivos e levou seu irmão, Stephen. Com o seu cão, Gabriel, e Camael, o antigo comandante dos Poderosos, ele é atraído para norte até uma pequena cidade em Maine. Aqui, Aaron, que ainda não aceitou essa herança recente, encontra conforto na isolada e coeso comunidade. Mas quando Camael e Gabriel desaparecem, e sua hospedeira, de repente ataca Aaron, ele é forçado a aprender mais sobre a Guerra no Céu e os muitos Poderes que estão lutando pelo domínio. . . da humanidade.


No meio do sul das Montanhas Serbian, aninhado intimamente ao Rio Black, localizavase o monastério Crna Reka. O vento uivava choroso, como o triste lamento de uma mãe que perdeu sua criança, enquanto soprava em volta das pedras mais altas e a esparsa vegetação, soando como um santo ermitão.

Era um lugar solitário, um lugar para reflexão e remissão. A igreja por si foi construída dentro de uma ampla caverna durante o século treze – uma homenagem ao arcanjo Michael.

Os monges ermitãos logo construíram suas celas em volta da igreja, e uma pequena ponte levadiça erguida sobre o Rio Black.

Por uma grande benção de Deus, o rio desaparecia embaixo, bem antes do monastério, e reaparecia algumas centenas de metros depois, escasso protegendo o monastério do rugido da água.

O repetente ajoelhava-se esgotado, numa esteira fria, numa sala vazia do monastério nas pedras, e ouvia as orações do mundo. Não importa o tempo, dia ou noite, alguém em algum lugar, procura a ajuda, ou a orientação do Divino. Uma mulher em Praga reza pela alma de sua mãe, recém-falecida, um homem em Glasgow pela saúde de sua mulher afetada por câncer, um fazendeiro rezava pelo alívio de uma espantosa seca, e um caminhoneiro estacionado na sarjeta de uma estrada em Scottsdale suplicava por força pra viver outro dia de sua vida. Tantas vozes, uma cacofonia de choros por ajuda – isso fez sua cabeça girar.


Ele tentou emprestar a eles sua própria força, e pediu ao Criador que escutasse suas súplicas.

“O Senhor dos Senhores me ouve?” ele se perguntou. O penitente esperou que sim. Ainda que os outros acreditassem que o Santo Pai havia parado de escutá-los há muito tempo atrás, isso não o impedia de defender o lado dos que rezavam – condução ao paraíso.

Olhos fechados, ouvidos cheios dos sons da benção, o homem ajoelhado sorriu.

Uma menina de seis anos chamada Kiley, rezava com a paixão de um santo por uma bicicleta nova em seu aniversário.

Ele havia rezado com todo esse fervor por qualquer coisa? A resposta era óbvia – era a razão dele continuar vagando pelo planeta, procurando outro dos mais sagrados lugares, esperando suprimir a queimação que havia iniciado em seu âmago.

O pecador preocupado com perdão – perdão para o demônio que ele havia fabricado.

O som de unhas arranhando o chão de pedra em volta dele, o arrancou de sua concentração, e ele abriu seus olhos. Um rato parado em suas patas traseiras, focinho balançando ansioso em frente a ele.

“Bem, ol|,” o penitente disse suavemente, sua voz cheia de afeição pelo roedor peludo.

Ele e o rato viraram bons amigos desde que chegara ao monastério, seis meses antes. E em uma excursão por pedaços de pão e queijo, o pequeno animal o deixava a par dos eventos de fora da reclusão.


De dentro da manga de seu roupão, o penitente tirou uma casca de pão trazida do jantar e ofereceu { pequena criatura. “E como você est| hoje?” ele perguntou em um dialeto que somente o rato entenderia.

“Outros aqui,” o rato respondeu num alto guincho agudo e arfado, enquanto pegava o pão nas patas da frente.

Pelos últimos dois meses ele havia sentido algo crescendo pelo espaço celeste, construído de repente pelos poucos dias passados. Alguma coisa com potencial para grande perigo – e ainda magnífico. Ele tinha suas suspeitas, mas ele não queria por suas esperanças para serem destruídas de novo.

“Outros como você,” o rato terminou, nervosamente, roendo o pedaço de pão.

De repente o penitente estava feliz de ter mandado os irmãos da Crna Reka para a cidade abastecer esse dia. Se o que o rato dizia era verdade, ele não devia desejar arriscar o bem estar de mais ninguém. Os irmãos estavam totalmente confortáveis em seus lugares de quietude e solidão, e ele não queria ver nenhum deles sofrendo pela sua caridade. Ele ouviu, concentrado nos sons do monastério ao redor dele: o rugido leve do Rio Black, fluindo abaixo da construção, o rangido da ponte lá fora, a pancada da ventania na garganta das montanhas acima; o ruído do trovão. Não, não um trovão no geral, algo mais agourento. O penitente levantou o rato do chão e o colocou na palma da mão. “E onde exatamente você viu esses outros?” ele perguntou. “L| fora.” O rato respondeu, continuando a morder. “No céu. L| fora no céu.” Era onde o penitente havia começado a sentir sua presença. Eles estavam todos em volta dele. O chão do monastério começou a tremer, como se estivesse no aperto de um gigante furioso. Pedra, poeira e madeira caíram de cima, e as paredes começaram a desintegrar-se. Ele


apertou a pequena forma viva em seu peito para protegê-lo dos escombros caídos. Uma explosão, completa de som e fúria, atingiu o monastério, e as paredes antes dele, caíram, deslizando pela garganta do Rio Black para revelar as montanhas Serbian, e aqueles que o esperavam. Eles pairaram ali, pelo menos vinte em número, seus sopros poderosos sacudindo o ar – o som como uma corrida, uma batida de coração na selvageria do vale em volta deles – e nas suas mãos eles seguravam armas de fogo. O penitente deu um passo para trás do precipício e segurou o trêmulo rato mais perto. Não tirou seus olhos deles. Ele não estava com medo. Alguns inclinaram as cabeças, e seu olhar recaiu sobre eles, lembrando o tempo passado, quando ele havia comandado seu respeito – mas há muito, muito tempo atrás. – Levantem suas cabeças, – ordenou uma voz furiosa, na linguagem dos mensageiros. Seus números começaram a dividir, e se direcionaram em frente. –O tempo desse ser reverenciado passou quando a primeira semente da Grande Guerra foi plantada. O penitente estava familiarizado com o que falou: um anjo de fúria do Coro dos Poderosos. Seu nome era Verchiel, e ele possuía as cicatrizes de alguém que tinha recentemente travado uma batalha feroz. O penitente se perguntou por que eles não haviam se curado, e quase perguntou ao anjo – mas decidiu que não era a hora. – Nós viemos por ti, filho da manhã. – Verchiel disse, apontando sua espada de fogo como o coração de um inferno. Com essas palavras, os anjos de Poder chegaram mais perto, suas armas crescendo para a batalha. – Seu tempo de corrupção tem deixado o mundo de Deus por ser acabado,” – Verchiel disse, com um vislumbre de luz em seus profundos olhos escuros de noite densa. – Você não vai receber luta de mim, – o penitente replicou, olhando para o espantoso Poderoso, drenando inexoravelmente o aperto do rato que continuava segura em suas mãos contra seu peito. “Só mantenham suas vozes baixas,” ele continuou, enquanto corria um dedo


pela macia pele trêmula da cabeça do ratinho. “Vocês estão assustando o rato.” – Peguem-no! – Vercheil clamou numa voz que intuía à loucura, cicatrizes quentes e vermelhas em sua pele clara. E então voaram até ele. O penitente fez o que imaginou fazer. Sem armas espalhando fogo de suas mãos, sem asas abertas para carregá-lo para longe. Ele deslizou a frágil criatura que se tornara seu amigo para dentro de um bolso em suas simples vestes, e se deixou atingir. Algemas de um tipo de ouro que não era encontrado no mundo, suas superfícies gravadas em uma magia angelical de repressão, que o golpearam asperamente, prendendo seus pulsos, e ele sentiu imediatamente a força de sua mágica sendo drenada. Alguns dos Poderosos, mas não todos, o arranharam, lhe bateram, golpeando-o com suas asas - mesmo que ele não estivesse oferecendo resistência. O penitente conseguia entender o ressentimento deles, e não fez nada para impedir seus abusos. – Basta! – Verchiel ordenou, e os soldados angelicais deram um passo para longe da forma inclinada do penitente, que jazia no chão. O líder dos Poderosos aproximou-se, e o prisioneiro olhou dentro de seus frios e impiedosos olhos. – Tão irado, – ele sussurrou e estudou a expressão de crueldade queimar pela face angelical do comandante. – Tão cheio de ódio cego. Eu já vi este olhar antes. É muito familiar para mim. Verchiel gesticulou para seus homens levantarem o penitente pelo chão, e eles simplesmente fizeram isso – mas ele continuou a examinar a preocupação nas feições do líder. – Eu costumava ver isso toda vez que via meu reflexo. – Ele disse enquanto era carregado para cima, pelos Poderosos. Suas palavras alcançaram um sensível acorde. A expressão de Verchiel se transformou em uma fúria desenfreada, e ele se lançou contra o penitente, e uma nova arma de chamas tomou forma. Essa espada será para partir meu crânio em dois – ou talvez uma batalha para separar minha cabeça dos meus ombros? ele se perguntou. A arma se transformou em uma clava, e o anjo a brandiu com uma força de despedaçar montanhas. Ela se ligou ao lado da cabeça do prisioneiro, e uma explosão, mais como o nascimento de uma galáxia, floresceu atrás de seus olhos.


Enquanto ele caía no vazio, ele era acompanhado pelos evanescentes sons do mundo que estava deixando para trás, os murmúrios de quem rezava, o gemido dos ventos nas montanhas, as asas dos anjos vingadores, e a rápida batida de coração do pequeno animal assustado. E então, por um momento, tudo ficou alegremente silencioso.


Aaron Corbet acelerou pela sétima avenida I–95, indo para o norte. Ele aumentou o volume do toca-fitas e casualmente lançava um olhar para direita, para ver o anjo Camael se retrair como se estivesse com dor. – O que há de errado? – Aaron perguntou. – Você sente alguma coisa? O que é? O anjo balançou sua cabeça, sua expressão enrugada em desgosto. – O barulho, – ele disse apontando um dedo delgado para o painel do toca-fitas. – Isso traz lágrimas aos meus olhos. – Aaron sorriu. – oh, você gosta? – Não, – o anjo gemeu enquanto balançava a cabeça. – Me machuca. – Essa é a banda de Dave Matthews! 19 – Aaron exclamou, verdadeiramente atordoado. – Eu não me importo de quem é a banda, – o anjo grunhiu, se movendo agitadamente sobre o banco do passageiro. – Faz meus olhos lacrimejarem. Aborrecido, Aaron apertou o botão de ejetar, e a fita subiu devagar, com um leve clique mecânico. – Tá aí, – ele disse, girando o volante com as duas mãos. – Está melhor? – O rádio voltou e o som do Top 40 encheu o veículo. Uma boyband20 popular – ele nunca os diria para se separar – estavam cantando sobre amor perdido. Ele olhou de novo para Camael, para ver que 19

Dave Matthews Band é uma banda norte-americana formada em Charlottesville, Virgínia em 1991, pelo cantor e guitarrista Dave Matthews. 20

Boy band é um tipo de grupo pop constituído de cantores do sexo masculino


o anjo continuava emburrado. – O que há de errado agora? Eu já desliguei minha música. – E eu aprecio,– o anjo guerreiro disse, então olhou para fora da janela, o cenário se passava rapidamente. – Mas eu acho todas as suas ditas – musicas – tão extremamente dissonantes. Ofendem meus sentidos. Gabriel afundou de volta e barrou o focinho amarelo e branco entre os assentos. – como a música sobre Tasty Chow,21 – o cachorro disse. Feliz por estar falando sobre qualquer coisa que pudesse terminar em seu estômago, Aaron pensou enquanto agarrava o volante com as duas mãos. – Como é essa música mesmo, Aaron? – o retriever perguntou. “Eu esqueci.” – Eu não sei Gabriel, – ele disse, mais irritado. – Essa não é nem mesmo uma canção – é uma musiquinha de comercial de ração. – Não me importo, – o cão disse indignado. – Eu gosto muito dessa música – e o comercial é bom também. Tem crianças e filhotinhos, e eles brincam, nadam, correm, pulam e então os cachorrinhos comem Tasty Chow... Gabriel parou no meio da frase, enquanto Aaron alcançava o rádio para desliga-lo, pondo o carro em silencio. Ótimo, ele pensou enquanto dirigia. Exatamente o que eu precisava. Sem a distração da música, sua mente viajante tinha outra oportunidade para examinar quão completamente insana sua vida se tornara. Apenas duas semanas atrás, em seu aniversário de dezoito anos, Aaron aprendeu que era alguma coisa chamado Nephilim – a herança de uma mãe humana e um anjo. Aaron nunca conhecera seus pais biológicos, estando em um orfanato por toda a vida. Então, quando começou a exibir habilidades únicas, como ser capaz de falar e entender idiomas forasteiros – humanos e animais – ele pensou que talvez estivesse enlouquecendo. O que exatamente estaria acontecendo se ele não parasse de pensar nestas coisas. Ele deu um olhar de relance para o homem poderoso – não, anjo – sentando no banco de passageiro ao seu lado. 21

A tradução literal é “cachorro delicioso, ou delícia de cachorro," mas trata-se do nome de uma ração, então eu preferi manter o original.


– Então, de que tipo de música você gosta? – ele perguntou para quebrar o silencio. Camael uma vez fora o líder de um exército – um Coro de anjos, os Poderosos, que se propuseram a eliminar todas as coisas que ofendessem a Deus. Depois de Lúcifer ser derrotado na Grande Guerra do Paraíso, muitos de seus seguidores caíram para a Terra. Expulsos do paraíso, esses anjos começaram uma vida pelo mundo dos homens, alguns mesmo tomando esposas e tendo filhos. Era trabalho dos Poderosos destruir esses derrotados, e sua abominável descendência, os Nephilim. – Você está falando com alguém que ouviu a sinfonia da Criação, – o anjo disse em um tom condescente. – Como os sons produzidos pelos de sua primitiva espécie podem se comparar? Enquanto Aaron sabia, uma de suas muitas missões para eliminar os inimigos do Paraíso, Camael esteve fazendo segredo de uma profecia – a profecia que descrevia uma criatura, tanto humana quanto anjo, que iria re-estabelecer a ligação entre os anjos caídos da Terra, e Deus. Isso iria – o nephillim – perdoar os pecados dos anjos, e permitindo lhes voltar ao paraíso. Depois de muita violência e morte, Camael pensou que isto era uma coisa boa de verdade, mas sua opinião não foi compartilhada pelos seus segundos em comando, um sórdido pedaço do trabalho, que atendia pelo nome de Verchiel. – Então, você não gosta de nada disso? – Aaron perguntou, aturdido pelo desprendimento do anjo com o espectro da música inteira. – Você não gosta de clássico, ou jazz – ou rock, ou sertanejo? Nada disso? Tudo lhe dá dor de cabeça? O anjo o olhou, seus olhos queimando com a intensidade. – Eu não tenho tido tempo para experimentar todos os tipos de sua música, – Ele disse. – Como você bem sabe, eu tenho andado ocupado. – Camael deixara os Poderosos para seguir a profecia. Por quatrocentos anos ele vagou pelo planeta, tentando salvar a vida dos Nephilim, esperando que cada um fosse o que a profecia havia predito. Agora, incentivados por Verchiel, os Poderosos fariam qualquer coisa para eliminar a ameaça dos mestiços do mundo de Deus, fazendo da profecia, não mais que uma velha memória. – Mas você tem estado por aqui desde sempre, – Aaron disse com uma risada incrédula. – Eu não quero ser uma dor na bunda, mas...


– É exatamente o que você é, garoto. – Camael disse, olhando para trás, no lado da janela. – Você é o Um – tanto quanto é uma dor da bunda. – Então, antes de se tornar um Nephilim, que já era ruim o bastante, Aaron Corbet também era o sujeito da profecia. Não era uma coisa que ele havia sido até – até os Poderosos, sob o comando de Verchiel, tentaram mata-lo. Os ataques resultaram nas mortes de seu psiquiatra, seus pais adotivos e um anjo caído chamado Zeke – que o ajudou a finalmente tocar seus poderes angelicais e se salvar. – Sinto muito, – Aaron disse, reduzindo enquanto um carro vermelho o acompanhava na estrada de duas pistas e acelerava para passar. – é só que você veio todo cheio de si, ‘sou um anjo e tudo mais’ – quando na verdade você realmente não sabe do que está falando. – Mesmo que há muito tempo eu não esteja associado com o Coro, eu sou um dos Poderosos, – Camel disse, – um dos primeiros criados por Deus, e é meu direito ter uma opinião que discorde da sua . As habilidades chamadas á vida com o ímpeto de Zeke não salvaram somente a vida de Aaron, mas também a de seu cachorro, Gabriel. Quando o labrador foi atropelado por um carro e mortalmente ferido, Aaron chamou seus poderes e curou o cachorro, que resultou em transformar Gabriel em algo mais que somente um cachorro. – Você não pode ter uma opinião verdadeira, a menos que você realmente escute a coisa. É como dizer que você não gosta de brócolis, quando você nunca provou.– Ele disse, frustrado com a atitude do anjo. – Eu gosto de brocólis, – Gabriel falou de repente. – Eu adoraria um agora mesmo. Tudo o que você falou sobre Tasty chow me deixou muito esfomeado. Aaron olhou para o relógio digital no painel. Era um pouco perto de meio-dia. Eles estavam na pista desde que amanheceu, e tinha sido um longo tempo desde o café da manhã. Talvez eles pudessem parar e arranjar algo para comer. Então ele lembrou de Stephen e se sentiu imediatamente culpado. Quem sabia o que estava acontecendo com seu irmão adotivo? Quando os Poderosos atacaram sua casa, os anjos capturaram seu irmão adotivo de


sete anos. Stephen era autista, e de acordo com Camael, angelicais sempre costumavam usar pessoas deficientes como servos por causa de sua sensibilidade única com o sobrenatural. Essa era a principal razão deles estarem na estrada, para resgatar Stephen. Isso e impedir que os Poderosos machucassem qualquer outra pessoa. Aaron se importava com isso. Aaron estava distraído com o som de alguma coisa gotejando, e olhou para baixo, para o extintor de emergência, para ver a baba caindo da boca de Gabriel. – Gabriel, – ele ralhou, se voltando para empurrar o cachorro de volta em seu assento, – Você está babando! – Eu te falei que estava com fome, – cachorro falou, se inclinando de novo. – Não consigo parar de pensar no comercial da tasty Chow . Aaron olhou para Camael, que estava quieto enquanto olhava fixamente para fora da janela. – Então, no que você está pensando?– ele perguntou. – Eu estou ficando com fome. Devemos parar e arranjar alguma comida? – Não faz diferença para mim, o anjo falou sem olhar. – Eu não tenho necessidade de comer. Aaron riu, divertido. – Você sabe, está certo, – ele disse. – Eu nunca te vi comer – Eu amo comer,– disse Gabriel de trás. – Como isso é possível? – Aaron perguntou, se encontrando interessado em outro aspecto do estilo de vida alienígena levada por um anjo. – Tudo precisa comer para sobreviver – ou isso é algum tipo bizarro de super poder sobrenatural sem sentido que eu não entendo? – Nós nos alimentamos de energia da vida, – Camael explicou. – Tudo o que vive irradia energia – nós somos como os plantas e o sol, absorvendo essa energia para manter a vida. Aaron pensou sobre isso por um momento. – Então, desde que você está sentado aqui comigo e Gabe – você poderia estar comendo bem agora?


O anjo assentiu. – Você pode dizer isto. – Eu não estou comendo agora, mesmo que eu desejasse estar, – disse o cachorro, irritado. – Ok, ok, – Aaron respondeu, se preparando para pegar a próxima saída. – Nós vamos achar algum lugar para um lanchinho, mas então teremos que voltar para a estrada. Eu não quero Stephen com os assassinos filhos da puta mais do que ele já esteve. Enquanto ele pegava um desvio e imergia à direita, em uma rua menor, mais isolada da estrada, Aaron pensou sobre tudo o que deixara para trás. Cada trecho da estrada, cada curva, cada retorno que o levavam longe, cada vez mais longe da vida que costumava ter. Ele já se achava sentindo saudade da escola, uma coisa que pensava ser impossível. Era o último ano, depois de tudo, e em algum modo perverso havia olhado para além de todos os papéis e provas finais, as aceitações e rejeições das faculdades. Mais isso não iria acontecer; se tornando um Nephilim ele notara isto. Aaron pegou uma curva da trilha e parou em um cartaz de mariscos fritos, hambúrgueres, e cachorros quente. Haviam mesas de piquenique alocadas em uma área sombreada – perfeito para Gabriel. Enquanto adentrava o terreno lamacento, uma imagem de Vilma veio à mente. Antes do colapso, quase havia acreditado que estava indo sair com uma das garotas mais bonitas que já tinha visto. Eles nunca tiveram uma oportunidade para aquele encontro, e provavelmente, nunca teriam. De repente, Aaron não estava mais com tanta fome quanto antes.

Vilma Santiago sentou na cadeira mais distante do fim da cafeteria em Kenneth Curtis High School, e estava feliz por estar sozinha. Era um lindo dia de primavera, e a maioria do corpo estudantil estava almoçando ao ar livre, então não teve dificuldade para achar uma mesa vazia. A memória indefinível do sonho da noite anterior – ou era um pesadelo? – a incomodava com sua escorregadia evasividade. Ela não dormira bem por dias, e isso finalmente estava começando a afetá-la. A garota se sentia cansada, irritada, com pontadas de dor de cabeça, que latejava bem atrás dos seus olhos. Mas, mais do que isso, ela se sentia triste. Vilma abriu o saco de papel que continha seu almoço, e tirou um iogurte e um sanduíche enrolado em um plástico. Ela estava em tal estado esta manhã, que sequer conseguia


lembrar do que era o sanduíche que fez. Ela esperou que o almoço que tinha preparado para seu sobrinho estivesse, pelo menos, comestível, ou ia ouvir da sua tia quando voltasse para casa. Sem se importar em checar o que tinha no sanduíche, ela colocou de volta no pacote. O iogurte ira ser suficiente, pensou enquanto tirava a tampa de plástico, então percebeu que não tinha uma colher. Não era grande coisa, lá estava cheio de colheres descartáveis e objetos da mesa – mas o desapontamento intenso e irracional do momento a fez querer chorar. Vilma estava se sentindo um pouquinho emocional desde que Aaron Corbet havia deixado a escola – deixado o estado, pelo que o que ela sabia – à duas semanas atrás. Ela não fazia ideia de por quê sentia tanta falta dele. Ela havia acabado de conhecê-lo. Ela colocou de volta a tampa no iogurte e o empurrou para longe. Ela realmente não se sentia com muita fome, de qualquer jeito. Havia alguma coisa sobre Aaron que não conseguia entender completamente, mas um tipo de conforto e calmaria parecia envolvê-la sempre que ele estava por perto. Mesmo que eles nunca tenham tido um encontro – ou mesmo segurado as mãos, pelo que consta – ainda assim, Vilma sentia como se uma parte muito importante dela tivesse sido retirada cirurgicamente quando Aaron se foi. Ela se sentia incompleta. Ela queria acreditar que era uma paixonite idiota, um rolo adolescente, que eventualmente iria esquecer, mas alguma coisa dentro dela dizia que não era. E isso apenas a fazia sentir-se ainda mais miserável. Vilma sentou de volta em sua cadeira, olhando para fora da cafeteria, e mexendo inconscientemente no anjo que estava preso em uma argola ao redor de seu pescoço. De acordo com as notícias, os pais e o irmão adotivo de Aaron haviam morrido em um incêndio quando a casa deles fora atacada durante uma louca tempestade de raios e trovões. Ele disse que estava indo embora porque lá haviam muitas memórias tristes. Mas ela sabia que ele estava ocultando alguma coisa por trás – mesmo que não soubesse como ou por quê ela sabia. Não pela primeira vez, ela sentiu seus olhos queimarem com a emoção. Alguns murmúrios infelizes, que Aaron era o responsável pelo fogo que ceifou a vida de sua família, mas Vilma não acreditou nisso nem por um segundo. Com certeza, ele era uma criança adotiva que fora empurrado já fazia tempo. Ele tinha direito de estar zangado. Mas, ela sabia no fundo de sua alma, que ele não seria capaz de machucar qualquer pessoa. Mesmo assim, o mistério de sua partida abrupta continuava a incomodá-la. Vilma pulou quando uma voz de repente se dirigiu a ela. Ela esteve tão perdida em pensamentos que não percebeu a aproximação de uma funcionária da cafeteria. – Desculpe, querida, – disse a grande mulher com um sorriso. Ela estava vestida em um uniforme azul claro, seu louro cabelo descolorido, preso embaixo de uma malha. – Eu não


queria te assustar. – Tudo bem – Vilma respondeu com um sorriso envergonhado. – Só não estava prestando atenção, eu acho. – Você terminou aqui? – a mulher perguntou, gesticulando para o almoço desprezado de Vilma. – Sim, obrigada – ela respondeu enquanto a mulher deslizava os restos pela mesa e as puxava para seu saco de lixo. Vilma continuou sentada, gentilmente apertando o anjo de ouro em sua garganta. Talvez fosse o por quê dela não estar dormindo. Desde que Aaron se foi, suas noites eram amaldiçoadas com pesadelos. Ela acordava nas primeiras horas da manhã, em pânico e coberta de suor – que relembravam o que causara tal reação desconhecida. Tinha que ser por isso. Aaron não somente a entristeceu, a deixando, agora ele a mantinha acordada com sonhos ruins. Ela desejou que ele estivesse aqui, então poderia dar a ele um pedaço de sua mente. E então, quando terminasse, ela o abraçaria forte e eles se beijariam. Vilma imaginou como aquilo seria, e sentiu o coração acelerar, e seus olhos se encherem de lágrimas. –Vilma! – alguém chamou, a voz ecoando através da lanchonete quase vazia. Ela enxugou seus olhos rapidamente, e olhou ao redor. De uma porta atrás do corredor, ela via sua amiga Tina andando em direção a ela. A garota estava usando óculos escuros, e andava como se estivesse desfilando em uma passarela de Paris. Vilma sorriu e acenou. – O que você está fazendo aqui? Tina perguntou em seu sotaque de português. Vilma franziu. – Eu não sei – ela respondeu tristemente. –Só não estava afim de sair. Tina empurrou os óculos escuros de volta para sua testa e cruzou os braços.


–Eu aposto que você nem sequer almoçou – ela disse, um olhar de desapontamento em seu belo rosto. Por outro lado, Vilma estava a ponto de contar a ela, mas não tinha força. – Não – ela disse, seus dedos de novo indo para o querubim dourado. – Eu não estava com fome. Tina olhou para ela, sem dizer nada, e Vilma começou a se sentir culpada. Ela se perguntou se seus olhos mostravam que ela estava chorando. – O quê? – Vilma perguntou com um sorriso forçado, voltando para inglês. – Por que você está me olhando assim? Tina se abaixou, agarrando-a pelo braço, e a puxou para fora da cadeira. – Qual é? – ela ordenou em um tom. – Você est| vindo comigo e Beatrice, e nós estamos indo para o Pete’s para um lanchinho. Vilma tentou se soltar, mas a amiga segurou seu braço mais rápido. – Olha Tina – ela começou. – eu realmente não me sinto...– Mas ela notou a expressão no rosto da amiga. Era concentrada, genuinamente preocupada. –Vamos lá, Vilma – Tina disse, soltando seu braço. – Nós não conversamos por dias. Vai fazer você se sentir melhor. Está deslumbrante lá fora, e Beatrice prometeu não falar sobre quão gorda ela está ficando. Vilma riu. Parecia bom rir com alguém, ela percebeu. –Vamos, – tina disse, segurando sua mão. Tina estava certa, Vilma sabia, e com um vigoroso aceno, ela pegou a mão da amiga e a seguiu para fora, em busca de Beatrice. Seria ótimo sair com seus amigos, ela precisava de uma distração. As três garotas seguiram pela rua em direção ao Pete’s. Tina as presenteou com lendas sobre como sua mãe a expulsaria de casa, se sequer pensasse em furar seu umbigo, e Beatrice, como habitual, falou sobre seu tamanho que aumentava. Mas Vilma estava perdida em seus próprios pensamentos. Ela pensou em como seria ótimo este clima, agora que a primavera finalmente tinha decidido se mostrar, e se perguntou se o sol estava brilhando tanto onde Aaron Corbet estava – e se não estava, ela desejava a ele os raios do sol.


Dentro da caverna, Mufgar do clã de Orisha, estava de cócoras em suas pernas ossudas, tirando quatro pedras pomes22 de uma bolsa de couro ao seu lado. A diminuta criatura, com a pele curtida da cor de uma moeda suja empilhada nas pedras, e com a ajuda de três fôlegos, puxou a lembrança do fogo nas rochas. As pedras vulcânicas começaram a combustão, então brilhou furiosamente em vermelho, enquanto as quatro pedras encantadas com a magia usada por eles a mais de um milênio. Mufgar agarrou um punhado de grama de cima das pedras, e imediatamente jogou na chama. Shokad adicionou alguns gravetos para alimentar o furioso fogo, enquanto Zawae e Tehom dobrava suas armas e as colocava contra a parede da gruta até que eles estivessem precisando de novo. O fogo intensificou seu calor, e Mufgar ajustou seu acessório de cacique, que era feito da caveira de um castor e a pele de duas raposas vermelhas, em cima da sua cabeça muito grande e mal-formada. Sentando antes do ruído da fogueira, ele levantou seus longos e delgados braços para o teto da gruta. – Mufgar do clã Orisha convocou este conselho, e você teve que responder. – ele gorgolejou no idioma gutural de seu povo. Ele se inclinou em frente ao fogo e cuspiu nas chamas. As pedras vulcânicas começaram a virar brasas, então brilharam em um vermelho furioso enquanto os quatro murmuravam encantamentos usados pelos de sua espécie a mais de um milênio. Mufgar arrancou um punhado de grama de cima das pedras, e imediatamente lançou nas chamas. Shokas adicionou alguns gravetos para alimentar o fogo furioso enquanto Zawar e Tehom guardavam suas armas e as colocavam contra a parede da gruta até que precisassem delas novamente. O fogo resplandeceu calorosamente e Mufgar ajustou seu chapéu de capitão, que era feito do crânio de um castor e da pele de duas raposas vermelhas, em cima de sua cabeça larga 22

Pedra-pomes ou púmice é uma rocha vulcânica de muito baixa densidade, formada quando gases e lava formam um colóide que por arrefecimento solidifica sob a forma de uma rocha esponjosa. http://pt.wikipedia.org/wiki/Pedrapomes


e mal feita. Se sentando antes do crepitar da fogueira, ele ergueu seus longos e delgados braços para o teto da gruta. – Mufgar do clã Orisha convocou este conselho, e você tem que responder. – ele rosnou no linguajar gutural de seu povo. Ele se inclinou para o fogo e cuspiu nas chamas. A viscosa saliva estalou e chiou enquanto jazia nos gravetos fumegantes. – Abençoado por aqueles que são os Poderosos, aqueles que nos permitem experimentar a alegria de existir, mesmo que não tenhamos direito a esta dádiva. Os outros três limparam a gargantar e, um depois do outro, cuspiram na labareda. – Louvores aos Poderosos – Os Orishas disseram em uníssono. – Nós somos como um – Mufgar disse enquanto ele abaixava seus braços. – O conselho está assentado.– Isso começou. Mufgar olhou para os três que haviam se unido a este chamado, entristecido por como seus números diminuíram através dos séculos. Ele lembrou de um tempo em que uma gruta desse tamanho não seria suficiente para conter todos os números do clã. Agora era uma lembrança distante. – Eu convoquei este conselho, porque nosso misericordiosos mestres nos deram uma perigosa tarefa – Mufgat disse, direcionado a seus seguidores – Uma tarefa com uma recompensa muito generosa, se formos bem-sucedidos. – Ele olhou para o que restou de sua tribo, e viu o medo em seus olhos – o mesmo medo que ele sentia profundamente em seu coração. Shokad, o shaman, balançou a cabeça, seu longo e entrançado cabelo adornado com os ossos de muitas criaturas da floresta, balançando como sinos tocados pelo vento. Ele murmurou alguma coisa inaudível sob sua respiração. –Alguma coisa te preocupa, Shokas? – Mufgar perguntou. O velho Orisha correu uma mão ossuda em sua boca e olhou para o fogo crepitante. – Eu tenho tido sonhos preocupantes ultimamente – ele respondeu, as pequenas e escuras asas em suas costas se agitando – Sonhos que mostram um lugar lindo, um lugar onde todos de nossa espécie conquistaram e não vivem sob o jugo dos Poderosos – ele sussurrou, fazendo cautelosas referenciam ao hospedeiro dos anjos que era seus mestres. Mufgar assentiu com sua cabeça adornada de caveiras. – Seus sonhos mostram um futuro muito interessante – ele observou, batendo a longa trança da barba em seu queixo. – Se formos bem sucedidos em nossa nova tarefa, nossos mestres disseram que iriam nos premiar com a abençoada liberdade. Nossa independência que temos que conquistar. – Mas ... para concluí-la, nós temos que caçar o Nephilim – Tehom gaguejou. – capturalo e trazê-lo para Verchiel. O grande caçador parecia como se fosse romper em lágrimas, ele


estava preenchido de medo. – Se desejamos ser livres dos Poderosos – Mufgar disse a todos eles – Devemos completar essa missão sagrada. Então, somente então, seremos capazes de buscar pelo Lugar Seguro. Com a menção ao destino mais sagrado dos Orishas, todos os quatro se benzeram, por um toque no centro da testa, um na ponta do nariz, na boca e outro no peito. Zawar se levantou em seus pés, freneticamente dançando de um pé descalço para outro. Suas asas flutuando nervosamente. – Mas nossa tarefa é impossível – ele disse, puxando o longo e fibroso cabelo da cabeça – O Nephilim vai nos destruir com facilidade – veja como ele feriu o grande Verchiel em combate, você viu as cicatrizes – todos vimos às cicatrizes. Mufgar lembrou das queimaduras cobrindo o corpo de Verchiel. As cicatrizes eram severas, mostrando a fúria e força que o Um o infligiu. Se aquilo podia ser feito com quem era o líder dos Poderosos, que chance eles teriam? – Essa tarefa nos foi incumbida – ele disse com a autoridade que o fazia líder. –Não tem outro jeito. – Não – Shokad interferiu, balançando lentamente a cabeça de um lado a outro. –Isso não é verdade. Os sonhos me mostram um mundo onde nossos mestres foram destruídos pelo Nephilim. Mufgar se sentiu completamente amedrontado, Os sonhos do shaman raramente estavam errados, mas o que ele falaria – ia contra o modo dos Orishas. Desde a criação, eles serviam os Poderosos. – Você fala blasfêmia – o líder assobiou enquanto apontava um longo, áspero dedo para o shaman. – Não iria me surpreender se o Lord Verchiel aparecesse ele mesmo nesta gruta e te transformasse em cinza. Tehom e Zawar conferiram juntos, seus olhos enormes escaneando a escuridão por sinais da chegada repentina dos anjos aterradores. Shokad alimentou o fogo com outro punhado de gravetos – Eu falo somente do que vejo na atmosfera – ele disse, movendo suas mãos no ar em volta. –Há um novo tempo vindo, os sonhos me dizem. Nós só precisamos prestar atenção. É tentador abraçar essas novas ideias, Mufgar pensou, deixar de lado os velhos modos e pensar somente nos novos. Mas durante sua longa vida neste planeta, ele tem visto a cólera dos Poderosos em primeira mão, e não queria correr o risco de ter isto direcionado a ele.


– Eu não vou ouvir mais dessa loucura – Mufgar declarou, sua voz estrondando com poder. – Nosso serviço aos mestres é o que nos mantém vivos. Zawar se levantou e foi para seus pertences escondidos em volta da parede da gruta. – Nós vivemos somente enquanto os Poderosos nos deixarem – ele disse, procurando por alguma coisa entre seus apetrechos. Encontrando, retornou para o fogo, onde ele se sentou e abriu o pequeno pacote. Dentro estavam os restos secos e enrugados de ratos do campo e toupeiras. – Quando eles não mais precisarem de nossas habilidades, eles irão nos destruir, como eles fizeram com nosso criador. – Zawar disse e pegou um rato e arrancou sua cabeça para dar ênfase. Ele ofereceu os pedaços para os outros. Mufgar não podia acreditar em suas orelhas. Todos eles haviam sido atingidos pela loucura? Como eles podiam falar tanta traição? Ele se perguntava. Mas profundamente, ele sabia. Os Poderosos não tinham amor por eles, pensavam que não eram melhores que animais. – Nosso criador quebrou as regras de Deus nos fazendo. – Mufgar explicou em uma tentativa de restaurar suas sanidades com a história de seu povo. – Nós somos manchas no mundo de Deus. Os Poderosos nos deixaram viver – para provar nosso mérito a nós mesmos, o valor da vida dada pelos seus irmãos caídos. Quando nós fizermos isto, poderemos ganhar nossa liberdade e ser capazes de procurar o Lugar Seguro. De novo, os Orishas se benzeram. Mas e os outros de nosso clã? Tehom perguntou, pegando uma toupeira endurecida de suas provisões. – E aqueles que desafiaram nossos mestres e foram encontrar o nosso mais prezado paraíso? Mufgar não queria ouvir isso, não importa o que sentia, questionar os métodos antigos ia somente trazer o julgamento para eles. Ele lembrou de como tentou convencer os outros a ficar, todo o tempo desejando ter coragem para ir com eles. Mas ele era o líder, e escravo das tradições antigas. Mufgar cruzou os braços e estufou o peito. – Eles estão mortos – ele disse definitivamente – Eles desobedeceram nossas leis. O shaman olhou para Zawar e Tehom, que estavam ambos mastigando sua refeição de insetos secos, então se voltou para Mufgar. – Mas e se eles não estiverem mortos? – ele perguntou em um sussurro clandestino. –E se eles conseguiram encontrar o paraíso pelo qual estamos tão ansiosos? Pense nisso, Mufgar, pense nisso.


O chefe olhou para o fogo, ponderando as palavras do Shaman. Poderia ter sido sempre tão simples? Fugir despercebido e encontrar seu próprio paraíso? – Lord Verchiel disse que qualquer um que negasse seus desejos seria expulso da existência. – Shikas deslizou para mais perto. – Mas os tempos estão mudando, Grande Mufgar – ele disse – Verchiel e os Poderosos estão distraídos pela profecia. – O Nephilim – Tehom disse em um sussurro, cuspindo fragmentos da toupeira seca no fogo. Zawar sentou-se próximo a ele, acenou e sacodiu suas asas – É dito que vai trazer perdão para os caídos – ele arrancou um pedaço da roupa e passou entre os dois dentes da frente. – E nossos mestres não querem isso, eu acho. Havia horas desde que ele comeu, e Mufgar agarrou uma carcaça da algibeira aberta. – Então você sugere que desobedeçamos os Poderosos, ignoremos nossas ordens – desistamos de nossa chance da verdadeira liberdade. Ele pegou um pedaço da cabeça do rato e esperou por uma resposta. A carne seca tinha bem pouco sabor, e ele rememorou sua refeição favorita. Tinha bastante tempo desde a última vez que se deleitara com carne canina. Ratos e toupeiras eram bons por um tempo – mas carne de cachorro era algo com o que ele muitas vezes sonhava quando sua barriga uivava para ser preenchida. – Um grande conflito está vindo entre nossos mestres e os Nephilim – o santo homem proclamou – E somente um irá sobreviver. O poder do Nephilim é imenso. Atacá-lo seria seu convite para a destruição. Zawar e Tehom acenaram em concordância. – Deixe o Nephilim destruir os Poderosos – Zawar falou. –E então seremos livres – Tehom adicionou.


Mufgar engoliu seu último pedaço e se levantou. Ele ouvira o bastante. Era tempo de passar o julgamento. Ele levantou os braços sobre sua cabeça novamente, olhando para o fogo e os seguidores ao redor. – Eu, Mufgar, líder do Orisha Deheboryn, ouvi as palavras do meu clã e apliquei minha grande sabedoria em seus interesses. Em seu olho mental viu uma imagem daqueles que deixaram o clã na busca pelo Lugar Seguro. Ele os viu vivendo na beleza do paraíso – mas uma nuvem escura atrapalhou, e do céu, fogo caiu sobre eles. Os Nephilim não derrotaram os Poderosos, e pela tradição de seus antigos modos, os Orishas foram destruídos para sempre. – Nós continuaremos a caçar o Nephilim – Mufgar falou, evitando os olhares desapontados de seus seguidores. – É o único modo que posso garantir a continuidade da existência da nossa espécie. Vamos rastrear o inimigo de nossos mestres e captura-lo – quando conseguirmos, nós devemos ser livres; Mufgar abaixou os braços – Eu tenho dito – ele disse em finalização. – Este conselho está terminado. – Ele se virou do fogo e rumou para a parte escurecida da caverna onde deveria descansar antes de continuar a caçada. – Você julgou por todos nós – ele ouviu Shokad dizer às suas costas. Mufgar alcançou a adaga de osso presa em sua perda e a lançou pelo ar, suas asas o carregando através do fogo. Ele pousou em cima do Shaman, batendo suas costas no chão. Zawar gorgolejou com medo enquanto Mufgar posicionava sua faca na garganta do velho Orisha. – Eu não ouvirei mais sua conversa blasfêmica. – Mufgar disse, olhando dentro dos olhos repletos de medo de Shokad. Ele ferroou a pele courácea da garganta do mais velho com a ponta da adaga, puxando um bocado se sangue. – E se eu fizer, o Nephilim não vai ter sua chance com você – você já terá julgado a si mesmo. Mufgar recolheu sua lamina e deixou o Shaman e os outros cobertos pelo fogo minguante. Sozinho, enrolado em uma bola no chão da caverna, o líder perseguiu um sono profundo. Finalmente o achou em quanto o fogo diminuía, as pedras esquecidas para trás, deixando a caverna no escuro.


O rabo de Gabriel balançava loucamente, enquanto Aaron se aproximava da mesa de piquenique da parte de trás do restaurante da estrada. – Este é nosso lanche, não é Aaron? – o cachorro disse alegremente, balançando seu traseiro ia de um lado para outro, com o esforço da musculatura do rabo – Com certeza cheira bem – ele disse com um pesado ofegar, farejando as garrafas da sacola que Aaron trazia. – Estou tão faminto, poderia comer comida de gato. Aaron riu enquanto colocava as sacolas na mesa de Madeira. – Foi uma piada, Gabe? – ele perguntou ao cão excitado. – Não – o cachorro replicou, seus olhos nunca deixando as sacolas brancas. – Eu realmente poderia comer comida de gato. Aaron riu de novo e começou a tirar a comida das sacolas. Camael estava sentado em um dos bancos de madeira, olhando para o espaço, como se estivesse assistindo alguma coisa a quilômetros de distancia. Por tudo que Aaron sabia, ele poderia muito bem estar fazendo isso. – Ele fez seu tempo difícil desde que eu saí? – Aaron perguntou a Camael. Por alguma razão, Gabriel não era dado ao anjo, e era inclinado a dificultar as coisas quando Aaron não estava por perto. – Ele tagarelou, mas eu o ignorei – Camael disse sem se virar, – e ele comeu alguma coisa do chão, um hábito sujo. – Aaron olhou para o cachorro sentado obedientemente a seus pés. – Você sabe que não deve fazer isso – ele falou severamente.


Gabriel brincou com seu rabo um pouco mais. – Eu estava mascando – ele disse, como se isso fosse fazer tudo ficar bem. – Não interessa – Aaron disse, pegando um dos sanduíches embrulhados. – Você pode adoecer. – Mas eu gosto de chiclete. Aaron se abaixou na frente do cachorro, e começou a desembrulhar o sanduíche. – Chiclete não é para cachorros. Sem chiclete, entendeu? O labrador o ignorou, de repente passando o focinho dentro do embrulho do sanduíche para ver o que Aaron segurava. – É pra mim? É esse meu lanche? – Anrram, é esse. Aaron respondeu enquanto tirava a carne do pão. – Aliás, você não precisa do pão. Ele descartou o embrulho em uma das sacolas vazias. – Ei, o que você está fazendo? Gabriel se desesperou – Aquele era meu lanche, você falou. Por que você está jogando fora? Aaron segurou o hamburguer. – Aqui, tá aqui o que você quer. Eu só joguei o pão. Vai te deixar gordo. Gabriel não pôde parar de olhar para a sacola. – Mas eu quero o pão também – ele choramingou debilmente. Aaron assentiu e balançou a cabeça. Primeiramente foi divertido ser capaz de se comunicar com seu melhor amigo, mas agora, ele achava que estava cada vez mais negociando com uma criancinha. – Olha, você vai comer isso ou não? ele perguntou – normalmente, você nem mesmo tem um lanche, então isso deveria ser um deleite. O cachorro tirou relutantemente os olhos do hamburguer na mão de Aaron. Mastigou uma vez e então engoliu com um glurp sonoro. Aaron se divertiu ao lado do cachorro.


– Está muito gostoso né? Gabriel lambeu os beiços e olhou dentro dos olhos do seu dono. –Tem mais um? – Não – disse Aaron. –Eu trouxe um para mim e um para você. É isso. –Você vai comer o seu pão? Gabriel perguntou. – Sim, vou comer o meu pão. – Vai fazer você ficar gordo. – Você é demais, Gabriel – Aaron riu. Ele pegou uma garrafa de água e serviu um pouco em um copo de papel – Aqui uma aguinha para descer seu hamburguer – ele disse enquanto abaixava o copo no chão na frente do cachorro. Gabriel começou a beber do copo, com cuidado para não derramar. – Eu continuo faminto. Ele gruniu entre lambidas. – Desculpe – disse Aaron, pegando seu próprio sanduíche e sentando ao lado de Camael. –Pense em quão bom vai ser seu jantar. O cachorro gruniu e vadeou para farejar um pedaço de grama do canto do estacionamento. Aaron o assistiu ir. Ele odiava ser mesquinho, mas se ele atendesse Gabriel toda vez que ele dissesse que estava faminto, o cachorro pesaria uns trezentos quilos. Ele não podia contar todos os labradores obesos que vira quando trabalhava na clinica veterinária, em Lynn, Massachussets. Eram goldens retrievers, claro – adoravam comer. Ele suspirou enquanto pegava seu hambúrguer e mordia. Estava bom, preparado bem como ele gostava, meio malpassado, com alface tomate e um pouco de maionese. Ele mastigou por um momento, engoliu, e se virou para Camael, ainda sentado silenciosamente e encarando o espaço.


– Para o que exatamente você está olhando? – Eu vejo muitas coisas – o anjo respondeu, sua voz como um trovão à distancia – Um pai e um filho pescando em um córrego, uma senhora lavando roupa no quintal, uma raposa fêmea ensinando seu pequeno a caçar sapos. – Ele parou, inclinando a cabeça para examinar algo de outro angulo. – É o que eu não estou vendo que me interessa. Aaron abriu outra garrafa de água e tomou um gole. – Tá, o que você não vê? –Até agora, não vejo sinal de perseguição. – E isso é uma coisa boa, certo? Aaron pegou outro pedaço de seu sanduíche e alcançou uma caixinha contendo fritas francesas. Ele virou metade e enrolou com o restante de seu hambúrguer e colocou na frente de Camael. A ação quebrou o olhar de aço do anjo, e ele olhou para o embrulho perto dele – EU te disse que não preciso comer – ele disse com um sinal de aborrecimento. Aaron mordeu metade de uma frita grande e mastigou. –Você não precisa – ele falou – Não quer dizer que você não possa. Tente uma. Camael lentamente colocou suas mãos nos dois lados da caixinha – Como eu estava dizendo – ele falou, estudando as fritas francesas como se elas fossem novas formas de vida. – Eu não tenho visto sinal dos Poderosos desde que deixamos sua cidade, em Lynn, isso mostraria que as barreiras mágicas que eu deixei para mascarar nossa passagem foram proveitosas. – É isso que você tem feito? Aaron perguntou com surpresa. Ele comeu o último pedaço do sanduíche. –Eu estava um pouco preocupado sobre quão lento nós estávamos indo. Pensei que você estava um pouco envolvido nessa coisa de visão turística. Camael tirou uma batata frita da caixa e a encarou. – Eu tenho estado nesse planeta por centenas de anos, criança. A necessidade de 'visão turistica' foi extirpada tempos atrás. E então o anjo fez algo que Aaron nunca imaginou ver. Camael atirou a batata dentro da boca e começou a mastigar. Ele mastigou pelo que pareceu uma insana quantidade de tempo e


então engoliu. – Adequado. – ele falou, virando a caixa e alcançando mais uma. Aaron tomou um gole de sua água e estalou os lábios. –Você acha que essas barreiras serão o bastante? ele perguntou – Quer dize, vai mantêlos fora de nossas costas até que possamos achar onde eles estão mantendo Stephen? O anjo estava comendo as fritas como um profissional, de três e quatro por vez. Para alguém que não precisava comer, ele certamente parecia estar aproveitando. Aaron pensou enquanto esperava por sua resposta. – As barreiras são meramente uma distração. Minhas habilidades mágicas não são nem perto das de Verchiel e dos arcontes23 a seu serviço –Arcontes? – Aaron interrompeu. –Anjos dos Poderosos que são mestres nas complexidades da mágica angelical. Eles vão ver através de nossos artifícios mais cedo ou mais tarde, mas vamos deixar as barreiras nos comprarem tempo suficiente para achar o que você está começando a escavar. Aaron estava sentindo a estranha sensação desde que deixou Lynn para trás. Ele ainda não entendia o que era – parecia uma ânsia, uma necessidade de viajar para o norte. Através de New Hempshire, Vermont e agora, Maine, ele estava começando a ser puxado inexoravelmente para o norte. Mesmo enquanto ele sentava, terminando seu lanche, podia sentir a pulsação em sua mente, o impelindo para frente. – Você acha que o que eu estou sentindo nos levará a Stephen – ele perguntou com esperança. Camael havia terminado a última das batatas, e estava sacudindo a embalagem para se certificar que estava vazia. 23

arcontes, do original 'Archons': magistrados da Grécia Antiga.


– Suas habilidades ainda são jovens, Aaron. Elas são tão misteriosas para mim quanto são para você. – Mas é possível, certo? – ele persistiu. – Como se talvez, eu fosse de alguma forma conectado a Stephen – estou sendo puxado para ele. O anjo acenou lentamente – É possível – ele disse, suas largas mãos batendo no seu cavanhaque prateado. – Mas pode significar que você está sendo impelido a alguma outra coisa – alguma coisa de maior importância. – Eu não entendo. – Aaron olhou atento para o anjo – Para o quê eu poderia estar sendo puxado se não Stephen? O que poderia ser mais importante que ele? O anjo permaneceu em silêncio, continuando a bater seu queixo barbeado, parecendo perdido em seus próprios pensamentos. –Camael – Aaron instigou, aumentando sua voz. – É um lugar muito ardiloso – Camael finalmente respondeu, seus olhos lampejando. Então ele se voltou para Aaron e fixou nele um intenso olhar. – Aerie – ele sussurrou. – Você poderia estar nos levando para Aerie. Rostos brilharam atrás dos olhos de Camael; imagens daqueles que ele salvou da fúria destruidora dos Poderosos, através de inumeráveis séculos desde que deixou a morada dos anjos. Para onde eles foram? Essa era uma questão que frequentemente se fazia. Alguns eram eliminados depois, os Poderosos eventualmente os seguiam e eram bem-sucedidos em seus objetivos malévolos. Mas havia outros, outros que haviam planejado encontrar um lugar muito especial, um lugar que ainda escapava dele. – Aerie? – Aaron estava perguntando. – Não é um ninho de pássaros ou algo assim? – É um lugar que não é como nenhum outro neste mundo, Aaron, um lugar especial – um lugar secreto onde aqueles que caíram esperam sua união com o paraíso. – Camael dobrou suas mãos para trás, lembrando os tempos que ele pensou que o havia encontrado – somente para ser tristemente desapontado. – Você já esteve nesse lugar? – O Nephilim perguntou.


– Não, o Aerie é escondido de mim, porque eu não sou totalmente confiável – ele respondeu – Lembre-se, uma vez eu fui o líder dos Poderosos, e eles não gostariam de nada mais além de queimar Aerie e todos os que estão lá. – Você tem certeza que esse lugar realmente existe? – Aaron perguntou. Camael tentou imaginar o que seria de sua existência sem a ideia da presença de Aerie para confortá-lo. Ele duvidava que seria capaz de continuar sua missão sem a promessa de alguma coisa melhor esperando por aqueles que ele lutava para salvar – alguma coisa melhor para ele mesmo. – Existe – ele respondeu quietamente – Tenho certeza disso o tanto quanto sei que é de você que a profecia fala. E Aaron, aqueles que vivem lá, neste lugar secreto, eles acreditam na profecia que você protagoniza. –ele fez uma pausa – Eles estão esperando por você, garoto. Aaron parecia abalado por esta última revelação. De um jeito, Camael sentia piedade do jovem e de sua percepção humana do mundo. A ideia do que ele realmente era, e qual era seu verdadeiro propósito de existir, deveria ser demais para sua mente primitiva. Apesar que, ele precisava admitir, até agora, o garoto não estava indo tão mal. – Todas as pessoas em Aerie – estão esperando que eu faça a eles o mesmo que fiz com Zeke? Camael acenou, lembrando do valente Grigori que o havia ajudado a resgatar Aaron do ataque dos Poderosos na casa dele. Zeke fôra mortalmente machucado, e o Nephilim usara seu dom profético para perdoar suas transgressões e alcançar seu retorno ao paraíso. – É seu dever libertar todos os arrependidos. – ele disse. Aaron parecia estar digerindo suas palavras, a importância de seu destino cavando ainda mais profundo. – Antes de fazer mais alguma clemência, nós vamos encontrar Stephen – ele falou – Onde quer que esta ânsia nos leve, seja à meu irmão ou a Aerie, ou a um lugar que faça excelentes tacos, encontrarei Stephen e o tirarei do bastardo Verchiel, essa é nossa prioridade número um – entendido? Aaron suplicou, uma intensa seriedade em seu olhar. Camael pensou em discutir com o jovem, mas ele sentiu que isso seria inapropriado. Não importava quão diferente Aaron Corbet havia ficado desde que acordou os poderes angelicais que existiam dentro dele, ele ainda pensava em si mesmo com um humano. – Entendido. – ele respondeu.


Ainda havia muito para Aaron aprender – mas isso viria com o tempo. – Aquilo não foi muito legal – Gabriel lamentou enquanto farejava pelo chão da área de piquenique. – Não foi muito legal mesmo. Ele estava seguindo um aroma, alguma coisa que fez seu estomago gemer e sua boca salivar. Gabriel estava faminto – apesar de que eram raras as vezes que não estava sentindo as pontadas de fome. Em um barril verde de lixo, ele encontrou os restos retorcidos de uma embalagem de sorvete. Haviam outros pedaços de lixo que deixou para trás, mas ele os investigaria mais tarde, depois de dar à embalagem sua completa atenção. O cachorro estava magoado que Aaron fosse tão insensível com suas necessidades. Ele estava faminto, e Aaron continuava a não deixar que tivesse o pão que ele ia jogar no lixo, de qualquer jeito. Era frustrante e só servia para deixa-lo mais faminto. Gabriel cutucou a embalagem com seu focinho, puxando o delicioso aroma de sorvete de baunilha seco e cookies de chocolate para dentro de suas sensíveis narinas. Sua língua saiu para lamber a embalagem, a umidade fazendo o aroma mais acre. Não coma coisas do chão, ele lembrou de Aaron o avisando. E ele sabia que não deveria, mas estava chateado, e tão faminto. Gabriel pegou a embalagem de sorvete e começou a mastigar. Não era muito gostoso, mas hey, cachorros não tinham paladar refinado. A gostosura de alguma coisa era baseada inteiramente em seu cheiro. Se cheirasse como algo de comer, era bom o bastante para um cachorro, especialmente um labrador. Pouquíssimas coisas requisitavam mais de uma ou duas mastigadas, e o papel da embalagem logo estava deslizando pela garganta de Gabriel abaixo, e dentro de seu estômago. Insatisfeito e um pouco culpado, Gabriel voltou sua atenção para longe do barril e em direção a uma família de três que estava almoçando em outra mesa de piquenique. O cachorro se aproximou deles, o rabo balançando em um cumprimento feliz. Eram dois adultos, uma mãe e um pai, e uma garotinha perto da idade de Stephen. Uma onda de tristeza passou pelo animal enquanto ele assistia a família. Ele perdera os outros membros de seu próprio pacote. Tom e Lori estavam mortos, e os Poderosos levaram Stephen para longe. Mas pelo menos ele ainda tinha Aaron. Não era como costumava ser, mas serviria por enquanto. Ele ainda não estava certo sobre aquele chamado Camael. Havia algo sobre ele que não era totalmente confiável. Ele cheirava demais como aquele maldito Verchiel para ser aceito em seu bando. – Oi cachorrinho ! – a garotinha guinchou enquanto se virava no banco e pegava uma visão dele.


Gabriel podia sentir o cheiro de alarme que emanava dos poros de seus pais enquanto ele se aproximava. Ele não se ofendeu, depois de tudo ele era um cachorro desconhecido, e haviam muitos do tipo dele com quem eles deveriam ser cautelosos. Ele sentou, como Aaron havia ensinado, e levantou uma pata em cumprimento, balançando uma vez, e mexendo o rabo. A garotinha riu alegremente e ele percebeu que os adultos sorriram também. –Posso acaricia-lo? – a garota perguntou, já deslizando do banco. – Deixe ele te cheirar primeiro, Lily – o pai disse cautelosamente – Você não quer assustá-lo. A criança levantou sua mão e Gabriel cheirou a pele rosada da palma. Fragmentos de aroma grudavam em sua carne: sabonete que parecia chiclete, bolachas de queijo; suco de fruta, o perfume de sua mãe. Gentilmente ele lambeu a mão da criança. Ela gritou com alegria, e começou a fazer carinho na cabeça dele – Você é um bom cachorro, não é? – ela falou – e suas orelhas são tão macias. Gabriel já sabia disso, mas ele não se privava de aproveitar a atenção das crianças, até que pegou o delicioso aroma de comida. Ele levantou seu focinho, no prazer olfativo, enquanto ele assistia a mãe de Lily colocar um cachorro-quente na mesa onde a garota estava sentada; – Vem Lily, deixe o cachorrinho voltar para sua família, e você comer seu almoço. Lily fez carinho em sua cabeça de novo e se inclinou mais perto – Adeus cachorrinho – ela disse, beijando seu nariz enquanto seu estômago roncou audivelmente. – Isso foi sua barriga? Ela perguntou. Gabriel olhou profundamente em seus olhos. – Sim – ele respondeu com um baixo latido. Ela não podia entendê-lo como Aaron, mas ainda assim, ela pareceu atenta a sua resposta – como se de alguma forma ele fosse capaz de tocar sua mente. – Você está com fome? – ela perguntou.


Gabriel não podia mentir para a criança, e latiu afirmativamente enquanto usava sua mente para dizer a ele que adoraria um pedaço de seu almoço. A criança de repente se virou e andou em direção à mesa de piquenique. Ela partiu seu cachorro quente, um pedaço generoso – pão e tudo mais – e trouxe de volta pra Gabriel. – Não sei se você deveria fazer isso, docinho – o pai alertou. Lily presenteou o cachorro com a comida, e ele gentilmente puxou de sua mão, engolindo num glurp. Obrigado Lily – ele pensou, olhando em seus olhos. – Por nada – ela respondeu com um lindo sorriso. O pai de Lily andou, carregando seu próprio sanduíche em uma mão – Okay – ele disse, tentando empurrar a criança de volta para a mesa – Acho que o cachorrinho já teve o bastante. Diga adeus agora. Gabriel olhou na direção do homem – Antes de eu ir – ele direcionou seus pensamentos em direção ao pai de Lily – Posso ter um pedaço do seu sanduíche? Sem um momento de hesitação, o homem partiu um pedaço do seu hambúrguer e jogou para o labrador. Gabriel estava satisfeito. As dolorosas pontadas em sua barriga vazia haviam sido temporariamente caladas com a ajuda de Lily e seus pais – foi muito generoso da parte deles dividir seu lanche com ele – e ele estava rumando de volta para Aaron, explorando enquanto ia. O tilitar de uma corrente foi a primeira coisa a capturar sua atenção, e então veio para ele o aroma dela. Gabriel parou de um pedaço gramado que era a pequena área destinada para crianças. Ele percebeu alguns tilintares, um leve deslizar e o playground de madeira em formato de trem. De novo, o som das correntes e da frente do playground apareceu outro cachorro, seu focinho colado na areia como se ela estivesse seguindo um cheiro que capturara sua atenção. O rabo de Gabriel começou a balançar freneticamente enquanto ele trotava grama abaixo e latia amigavelmente um cumprimento. Quão bom isso pode ser? Ele pensou. Uma barriga cheia e agora alguém com quem brincar.


A fêmea recuou, alarmada pela sua aproximação. Seu rabo tremeu cautelosamente. Ela também era um golden retriever amarelo, e usava uma linda bandana vermelha em volta do pescoço, e também a corrente. Ele se moveu para mais perto – Sou Gabriel – A fêmea continuou a encarar, e ele percebeu que os pelos em seu pescoço começaram a se eriçar. – Não tenha medo – ele disse suavemente – Eu só quero brincar – Ele se abaixou no chão para mostrar a ela que ele não queria atacar. – Qual seu nome ? A fêmea se moveu lentamente para ele, farejando o ar procurando sinais de ameaça. Que estranho, pensou Gabriel. Talvez a família dela não a deixe brincar com outros cachorros. – Eu sou Gabriel – ele disse outra vez. – Tobie – ela respondeu, pelos ainda eriçados. – Olá, Tobie. Você quer me perseguir? Ele perguntou suplicante, subindo nas quatro patas. Tobie farejou até ele novamente, e rosnou nervosamente. Devagar, ela começou a voltar, seu rabo entre as pernas. Gabriel estava confuso. – O que foi? – ele perguntou, avançando para ela. –Você não precisa me pegar se não quiser, ao invés disso eu poderia pegar você. Tobie o repreendeu com um latido. Sua boca puxada para trás em um rosnado enquanto ela continuava a voltar para o play. Gabriel parou. –O que está errado? – ele perguntou, genuinamente desconcertado e completamente desapontado. –Por que não quer brincar comigo? – Não é cachorro – Tobie respondeu enquanto farejava o ar em volta dele. –Diferente – ela cuspiu e girou de volta para o playground na direção que ela veio. Gabriel estava embasbacado. Primeiro, ele não fazia ideia do que Tobie quis dizer, mas então pensou no dia que quase morreu. Ele vacilou, lembrando da intensidade da dor que sentiu quando o carro o atingiu. Aaron havia feito alguma coisa a ele aquele dia, ele posicionou suas mãos sobre ele e fez a dor ir embora. Foi aquele o dia em que tudo ficou mais claro. Aquele dia ele ficou diferente?


Ele deixou a área do play, sua mente considerando a ideia de que ele não seria mais um cachorro, quando ouviu Aaron chamar. Gabriel apertou o passo e encontrou seu amigo e Camael. Eles estavam limpando seu lixo e prontos para continuar a jornada. – Onde você esteve? –Aaron perguntou enquanto eles rumavam para o estacionamento. – Por aí – Gabriel respondeu, não estando muito a fim de papo. Um carro estava no caminho da saída enquanto eles esperavam para alcançar seu próprio veículo. Atrás, ele viu Tobie olhando na direção dele. Não era apenas uma janela de vidro que o separava dela, ele pensou tristemente em quanto assistia o carro descer a estrada. – Você está legal? – Aaron perguntou quando se curvou para coçar a mandíbula do cachorro. – Tô bem – Gabriel respondeu, incerto de suas palavras – lembrando da verdade revelada em outras. – Não é cachorro. É diferente.

– Isso vai ferroar, meu soberano – Verchiel assobiou com desprazer enquanto o curandeiro colocava pedaços de tecido embebidos em sua pele queimada do braço. –Por que eu não curo, Kraus? – o líder dos Poderosos perguntou. O homem cego deixou de lado o material saturado e alcançou outro pedaço de tecido ensopado da tigela de madeira com óleo de cura, feito de plantas extintas desde que Caim tirou a vida de seu irmão Abel. –Não está em minha posição dizer, meu senhor – ele disse, seus olhos cegos brilhando em branco na luz do crepúsculo que vinha do Céu na velha sala de aula. A escola abandonada nos terrenos da igreja de São Athanasius, no leste de Massachussets, havia sido a casa dos Poderosos, desde a batalha com Nephilim. Era onde eles tramavam – esperando a oportunidade de continuar sua guerra com que questionaria sua


autoridade sobre o mundo dos homens de Deus. Verchiel se ergueu desconfortável na cadeira costa-alta de madeira roubada da igreja próxima, enquanto o curandeiro posicionava outro pedaço umedecido em sua pele queimada. – Então me responda isto: Essas feridas lembram injúrias causadas em um bizarro ato da natureza, ou elas carregam a assinatura de algo mais... divino? Ele estava tentando isolar a causa de sua intensa agonia, que havia sido sua companhia constante desde que ele fora atingido pela luz durante a batalha com Aaron Corbet. O anjo quis deixar a dor de lado, numa caixa onde ele pudesse jogar fora. Mas a dor não o deixava. Ela ficava, uma lembrança que deveria ter ofendido seu Criador – e estava começando a ser punido por sua insolência. – Meu trabalho é curar, Grande Verchiel – Kraus disse – Eu não devo presumir Verchiel de repente explodiu de seu assento, a pesada cadeira de madeira deslizando para trás enquanto suas asas cresciam para sua assombrosa forma. Kraus vacilou as asas do anjo o empurravam para ele. – Eu te dou permissão macaquinho, o anjo vociferou sobre o clamor causado pelo bater de suas asas. – Me diga o que você sente em seu coração primitivo – suas mãos tocavam as cicatrizes em seu tórax enquanto ele falou. – Diga-me se você acredita que foi a mão de Deus que me tocou desse jeito ! – Por favor, meu senhor – Kraus gritou, curvando-se no chão. – Eu sou um servo tão humilde. Por favor, não me faça pensar em tais coisas ! – Eu te digo, Verchiel – disse uma voz em torno da sala. Verchiel lentamente voltou sua atenção a um canto escuro da sala de aula, onde uma jaula enorme de ferro estava pendurada pelo teto, as barras cravadas com marcas de arcanos. Balançava na turbulência causada por sua fúria. O estranho pego do Monastério nas montanhas Serbian espreitava por entre as barras de ferro, sua expressão intensa em seu rosto encovado. – Você se importa de ouvir o que eu tenho a dizer? – ele perguntou, sua voz um sussurro seco. – Ah, nosso prisioneiro está acordado – Verchiel disse – Pensei que os danos causados por meus soldados fossem te manter quebrado mais tempo que isso.


O prisioneiro apertou as barras de sua jaula com as mãos sujas. – Já agüentei piores – ele disse. – Às vezes é um preço a pagar. As asas de Verchiel se fecharam, retraindo-se para asa carne das costas de sua costa nua. – De fato – o anjo respondeu rispidamente. Kraus continuava enrolado no chão, cabeça curvada. – Você vai me deixar agora – Verchiel falou dispensando o humano curandeiro. – Pegue suas coisas e vá. – Sim, senhor – o homem cego disse, agarrando sua mochila contendo suas ferramentas de cura e cuidadosamente tateando seu caminho para a saída. – Por que eles fazem isso? – o prisioneiro perguntou enquanto assistia o curandeiro sair – Que perversa necessidade é satisfeita pela degradação que impomos a eles? É uma questão que tenho rondado durante anos. – Possivelmente damos propósito a suas vidas mundanas – Verchiel respondeu, avançando para a jaula. – Provemos alguma coisa que estava perdida quando eles viviam entre os de sua própria espécie. – Verchiel parou ante a jaula balançante e olhou dentro dos olhos de seu prisioneiro. – Ou talvez eles não sejam tão inteligentes quanto pensamos – ele disse com perverso prazer. – E isto é razão suficiente para abusar e explorar deles? – prosioneiro perguntou. – É isso, se servir a um bem maior. Eles estão nos auxiliando a carregar o que Deus vai. Eles estão servindo seu Criador, tanto quanto nós, você pode pensar em um propósito mais completo? Ainda vestido no esfarrapado roupão marrom do monastério Serbian, o prisioneiro sentou com um sorriso, se inclinando contra as barras da jaula – E você seriamente se pergunta o que o atingiu? Ele zombou, fazendo referencia às cicatrizes de Verchiel. – Não pensaria que você é tão obtuso, mas então de novo... Verchiel se aproximou, espreitando através das barras negras. – Por favor divida


comigo seus pensamentos – ele sussurrou – Estou ansioso para ouvir a percepção de alguém como você – o mais renomado dos caídos. Sim, por favor, o que o Senhor Deus tem pensado esses dias? O prisioneiro casualmente alcançou dentro de seu robe o rato. Gentilmente tocou a ponta da cabeça com os dedos, e o soltou em sua palma aberta. – Isso eu não posso te contar, Verchiel – ele disse, olhando a pequena criatura subindo da frente de seu roupão para seu ombro. – Tem estado completamente silencioso desde que o Criador e eu nos falamos pela última vez. Mas olhando para sua condição atual, eu tenho que achar que o Criador não está nada contente com você também. E então o Prisioneiro sorriu – um sorriso repleto de calor e amor, e tão esfuziantemente lindo. Como ele poderia não ser uma das crianças mais queridas de Deus. Verchiel sentiu a raiva crescer, e tomou todo seu auto-controle para não alcançar a jaula e render seu cativo, membro a membro – E eu acredito que ele goste de você – o líder dos Poderosos rosnou, se afastando das barras – O príncipe das mentiras? –Touché – o prisioneiro disse, enquanto o rato explorava o topo de sua cabeça – Mas lembre-se – ele disse zombeteiro – Eu tenho alguma experiência nessas coisas.


Caminhando pelo bosque, em busca de sua presa, Mufgar chefe dos Orisha Deheboryn sabia que a decisão que tomou na noite anterior havia sido a mais correta. Com sua magia elementar original, Mufgar tinha coagido a terra, a rocha, e pedra do sistema de túneis em que viajou para alterar seu caminho labiríntico e abrir um corredor para a superfície. – Nunca vamos pegar uma peste aqui, – Havia dito ao seu grupo quando a terra de uma parede próxima tornou-se algo líquido que girou e caiu para revelar um túnel recém feito que subia até a superfície. – É na superfície onde nosso destino nos espera. Mufgar tinha dado graças aos elementos por sua ajuda, deixando uma oferenda de frutos secos antes de começar sua ascensão ao novo sol da manhã. Havia passado oito horas desde que ele e sua tribo haviam surgido da terra, havia oito horas, que ninguém tinha falado uma palavra com ele. Sentiu raiva, medo e decepção com a decisão que havia jogado sobre eles. Ele realmente lamentou que tenham questionaram sua decisão, mas sabia que não abandonaria o seu dever para com seus mestres. Eles caçariam o Nephilim como os Poderosos haviam ordenado, o capturariam, e ganhariam a sua liberdade. Isso vai ser assim, ele pensava, relembrando a estranha visão que teve durante o sono. Uma visão de êxito. Mufgar levantou a mão para deter o avanço através do pequeno bosque. Escutou com atenção os sons ao seu redor, o canto de vários pássaros, o sussurro do vento entre as árvores cheias de folhas e algo mais.


– É o Nephilin Mufgar? – Tehom assobiou para o lado, levantando sua lança e olhando nervosamente sobre a floresta. – Não, o chefe Orisha disse. Escutou mais uma vez o barulho dos sons na distância, o som das máquinas. Como se chamam mesmo? Buscou em seu cérebro a palavra que soava estranha. Automóveis, recordou com grande satisfação. Não são Nephilins – sussurrou – são veículos que transportam aos outros. – Mufgar observou, cercado pelo bosque em algum lugar à distância. – O vi em uma visão – Disse compartilhando de sua experiência com seus súditos para lhes dar confiança em sua liderança. Se virou e olhou para Shokad. – Em meus sonhos tive uma visão. Uma visão em que o Nephilin vinha a nós – Ele rapidamente desviou dos olhares com o cenho franzido em seu velho rosto. – E caíram contra as nossas forças. Mufgar levantou sua lança na intenção de reunir seus caçadores. – E por nossa valentia, o senhor Verchiel nos dará a nossa liberdade, vamos encontrar a localização deles. Todos os Orishas inclinaram suas cabeças mal formadas, festejando com fúria. Havia sido um sonho muito estranho, tão claro como o dia que estava nascendo. Tudo estava ali para ele, todas as respostas que havia buscado. As dúvidas que tinha experimentado desde a última assembleia estavam se dissipando como fumaça no vento. Uma visão sagrada lhe havia sido concedida, ao menor dos espíritos dos grandes criadores, uma visão que lhe disse que ele sairia vitorioso. Não podia pedir nada melhor. Mufgar se voltou para o Chaman que estava atrás. O velho Orisha se pôs de joelhos, colocou um punhado de ossos e suaves pedras brilhantes em uma bolsa a seu lado.


– Não confia na visão dos sonhos do seu chefe, Shokad? – O Chaman perguntou. A criatura não falou nada e jogou os ossos e as pedras no chão diante dele. Com suas asas implantadas, as agitou nervosamente quando começou a ler o resultado de sua jogada. – Ummm – Murmurou, esfregando o queixo quando ele discernia os signos. – Que dizem Shokad? – Mufgar perguntou. – Os ossos e as pedras falam de vitória e liberdade? O velho ficou em silêncio quando o Orisha recolheu suas ferramentas de adivinhação e as devolveu a sua bolsa. – Fala Chaman – Mufgar ordenou. – seu chefe te ordena que revele o que viu. – Os ossos e as pedras falam de morte – Shokad disse com gravidade. Zawar e Tehom seguraram a respiração ao seu lado. – Morte? – Tehom perguntou com sua voz cheia de temor. – A morte? Mas, para quem? – Zawar queria saber. Shokad negou com a cabeça, sacudindo as mechas de seu cabelo que se uniam. – Eles não são claros, mas não posso imaginar nada, somente que é para aqueles que vão contra a força dos Nephilins – Disse olhando para Mufgar, desafiando palavra do chefe. – Mas o que será dos que abandonam os desejos de seus senhores? – Mufgar exigiu se movendo. – O que será daqueles que desafiam Os Poderosos? Também morrerão? O Chaman franziu o cenho. – É possível – Ele respondeu – Mas isso não troca o fato de que a morte é nossa companheira. Você tem que escolher nosso caminho sabiamente, ou pode ser possível que nunca tenhamos a oportunidade de buscar o paraíso que desde muito tempo temos perseguido.


Zawar e Tehom se entreolharam, as mensagens contraditórias do chefe e do Chaman trariam a maldição da discórdia em suas tropas. – Grande Mufgar – Zawar sussurrou enquanto olhava para o bosque em busca de qualquer sinal de advertência de uma morte eminente. – O que faremos? Mufgar olhou para o som do caminho à distância. – Só há uma opção – Disse, longe deles, na estrada. – Caçá-lo e conseguir nossa liberdade. Ele sequer se voltou para ver se eles estavam seguindo. Mufgar pensou no que era necessário, pois sabia que estavam atrás dele. O havia visto em seu sonho.

Aaron manteve sua velocidade a 45 Km, de volta a estrada. Aumentou a pressão no volante quando suas emoções aumentaram no seu interior. Eles se aproximavam de seu destino, podia sentir pelo zumbido em seu corpo. – Sou eu, ou sente o mesmo? – Camael grunhiu, olhando o caminho diante deles. – Que? – Aaron disse – Vê algo?– O anjo permaneceu em silêncio forçando os olhos como se tratasse de ver mais claramente. Aaron não podia aguentar mais. A sensação que sentia era como uma bandeirada laranja na linha de chegada 24. Estava muito perto de que? Não estava muito seguro, mas seu corpo lhe dizia que aqui é onde se supõe que deveria estar. – O que vê? Pelo amor de Deus! – Gritou–. Camael lentamente voltou sua atenção para o garoto. Seu olhar era de aço, frio. 24

ele está se referindo a formula 1 achamoos.


– Desculpe. – Aaron disse, tratando de sufocar o sentimento de emoção desenfreada que corria por seu corpo. – Acho que encontramos Stephen, estou emocionado. Não quis gritar. O anjo se virou para olhar o caminho diante deles e apontou. – Nesta distância, não muito longe daqui, vejo um vilarejo. –Isso é tudo? – Perguntou com impaciência – Isso é tudo que vê? Um vilarejo? Gabriel, que dormia em um profundo sono no banco traseiro, começou a se mover. Pelo espelho retrovisor Aaron podia ver o Labrador se sentar, espreguiçando languidamente enquanto inspecionava ao seu redor. – Onde está o vilarejo? – O cachorro perguntou – Tudo que vejo é uma floresta. Camael olhava longinquamente. Aaron respondeu – Tenho a sensação que pode ser onde Verchiel está predendo Stephen. – Há algo nesta cidade – Camael disse lentamente, com os olhos fechados se concentrando, com sua mão acariciando lentamente sua barba prateada. – Mas não sei dizer o que é. Está confuso. Aaron se inclinou para o porta-luvas e abriu. O anjo retrocedeu, mas Aaron lhe tocou um pouco enquanto se agitava no compartimento, enquanto tratava de manter os olhos na estrada e no carro na pista. – Como se chama? Talvez possa encontra-lo num mapa. – Disse fechando o porta-luvas e abrindo o mapa em seu colo. – Se chama Alegria – Camael falou. – Creio que é um vilarejo antigo, segundo do padrões humanos.


– Está aqui? – Aaron perguntou dividindo sua atenção entre o mapa e a estrada. Quero ver quanto tempo mais teremos que dirigir. – Vamos parar agora – Gabriel disse prontamente da traseira. – Vamos ver quão longe pode aguentar primeiro, – Aaron disse enquanto olhava o cão pelo espelho retrovisor. Gabriel parecia incomodado com suas quatro patas e agitado ao redor do banco. – Não creio que possa esperar – Disse com um toque de pânico em sua voz. Aaron iria responder quando o odor encheu o ar vindo da parte traseira. – Oh Meu Deus – Disse, abanando freneticamente o nariz. – Que está acontecendo? Camael perguntou com seu toque de arrogância habitual, quando o vento da janela aberta açoitava seus cabelos. Então Aaron viu como a expressão do anjo passou de desconforto a absoluta rejeição. – O que é esse fedor?– Perguntou com um grunhido furioso. – Pôs uma mão sobre o nariz e a boca, Aaron apontou por cima do ombro para o único habitante do banco traseiro. O anjo se virou para o cão. – Que você fez? Gabriel se limitou a olhar pela janela traseira. – Ele tem gases, – Aaron explicou, com sua voz abafada por sua mão que estava ainda em seu rosto. – Isso ocorre quando come coisas que não deveria. – É cruel – Camael disse, olhando para o cão – Tem que fazer algo para que isso nunca volte a acontecer. – Aaron olhou pelo retrovisor. – O que comeu nesse descanso, Gabe? – Repreendeu já sabendo que o cão deve ter comido qualquer coisa.


Gabriel não respondeu. Aaron na realidade não esperava que fizesse. Parou o carro ao lado da estrada. – E agora o que? – Perguntou Camael. – Só há uma maneira de lidar com esse problema – Disse enquanto descia do carro e se abaixava. Abriu a porta de trás para deixar seu amigo sair. – Talvez um dia vai aprender a não comer tudo que vê pela frente.– Repreendeu o cão. Gabriel saltou ao chão. – Não comi tudo que vi. – Espera um minuto – Aaron disse, vendo como caminhava, com o focinho firmemente plantado no chão da floresta. – Alguém te deu de comer? – Tenho que fazer minhas necessidades. Gabriel respondeu a pergunta de seu “dono” e começando a entrar floresta adentro. – Falta muito?– Aaron perguntou exasperado. – Gabriel, temos que seguir. – Não posso fazer se está me olhando! – Olhou decididamente o cachorro antes de desaparecer entre um grupo de vidoeiros. – Quando aconteceu de ser tão malditamente melindroso? – Aaron murmurou entredentes – Provavelmente aconteceu quando te trouxe de volta da morte. Se dirigiu para a parte dianteira do carro onde Camael estava olhando a estrada. – Então, o que parece? – perguntou o anjo – O que vamos encontrar em Alegria? – Camael moveu lentamente a cabeça.


– Honestamente eu não sei – Aaron cruzou os braços e olhou a estrada. – Pois como eu estou me sentindo nesse momento, teria que decidir que é definitivamente algo interessante. – Sem dúvidas estou de acordo com isso – disse Camael. Inclinou a cabeça para trás e aspirou o ar profundamente. Aaron o viu ficar tenso, e olhar com cautela. – Que há de mal? – Não pode cheirar? – Ele perguntou. Aaron cheirou o ar. Não cheirava nada, a não ser a floresta em pleno florescimento primaveril. – Não cheiro nada, mas a floresta... – começou e então ele tomou uma respiração fugaz. Era um odor almiscarado, um odor de animal, mas que não reconhecia. – Que é? Camael estendeu a mão, Aaron, viu como uma centelha de chama, cor de laranja aparecia e se converteu em uma espada de fogo. – Orishas – O anjo grunhiu. Aaron estava a ponto de lhe perguntar o que era um Orisha, quando Gabriel latiu de medo, quebrando a quietude da floresta, separado por uma explosão de disparos. – Gabriel – exclamou, com uma arma de fogo que ganhou vida em sua mão. Aaron entrou na floresta, com sua espada de fogo cortando os arbustos e ramos baixos em seu caminho. Camael estava ao seu lado quando prontamente se detiveram em frente a uma clareira.


–Que diabos são estas coisas?– Aaron sussurrou com assombro. Eram quatro no total, criaturas feias, de uns três metros de altura, com a pele cor de cobre manchado. Pareciam primitivos, vestiam tiras de couro e peles, com o cabelo comprido e enfeitado com ossos. Um levava um punhado de fantasia que pareciam peles de animais. De suas costas surgiam um pequeno e negro par de asas com penas que flutuavam ruidosamente como persianas e cortinas esvoaçantes. Haviam lançado uma rede improvisada sobre Gabriel, e estavam tratando de submeter ao cão que estava lutando. – São Orishas – Camael respondeu – A tentativa falida de meus irmãos caídos para criar vida. – Não com muito êxito, posso dizer? – Miseráveis fracassos que deviam ter sido erradicados há muito tempo e não foram pelos Poderosos. Utilizam os Orishas como seus escravos, como caçadores e rastreadores. – Assim, então não são tão perigosos, não é? – Aaron perguntou enquanto olhava para os Orishas que eram obrigados a retroceder porque Gabriel os atacava ferozmente. – Pelo contrário – Camael disse – Eles demonstram ser muito ferozes em batalhas. A cabeça de Gabriel surgiu de debaixo da rede, e tentou morder seus agressores. – Aaron, um pouco de ajuda! – Gritou olhando para seu amigo. Os Orishas se voltaram e começaram a cercar Aaron e a Camael grunhindo ameaçadoramente. Três tinham lanças rústicas um, sacou uma faca de uma bainha em sua perna ossuda. Aaron ficou tenso com sua arma de chamas a sua frente. – Que fazemos? Perguntou ao calmo anjo que estava de pé ao seu lado. – Os Poderosos provavelmente puseram um preço pelas nossas cabeças. – Camael disse com neutralidade, como se falasse do tempo – Os Orishas trataram de nos capturar e se isso não for possível com certeza trataram de nos matar.


Os seres primitivos estavam mais perto, Aaron os ouvia grunir, com um som agudo, como um ventilador que precisa de conserto, só que muito mais horrível. – Que fazemos? – Perguntou novamente. – Creio que é óbvio rapaz. – O anjo lhe disse, com suas asas enormes e brancas, preguiçosamente abertas em suas costas. – Os matamos. – Algo me dizia que iria dizer isso. – Aaron disse e igual aos Orishas, gritou um grito de guerra e se lançou a suas presas. O poder que estava dentro de Aaron queria sair da pior maneira possível. Podia sentilo correndo por dentro, como um tigre preso em sua jaula num zoológico. Tudo havia começado quando Camael mencionou pela primeira vez os Orishas. E igual a Gabriel se perguntando podia sair, o poder dos Nephilins estava tentando se levantar, empurrando as restrições que havia sido impostas sobre ele. Os Orishas estavam “pegando” vôo, suas pequenas asas cor de ébano vibrando com o desenfoque da sua velocidade, o poder angelical lutava para ficar livre, mas Aaron não se permitia. De fato, só a ideia de se submeter à transformação, como havia feito aquela noite horrível em Lynn, tremeu de medo. – Tem sorte de estar usando uma dessas malditas – murmurou para si mesmo, enquanto levantava sua arma em chamas e derrubava o primeiro de seus atacantes do ar. A criatura gritou de agonia, caindo no chão, com uma de suas asas em chamas. Rolou no chão, com suas penas queimando. Aaron voltou sua atenção para Camael. Outro Orisha se moveu com uma velocidade enorme para o anjo, com sua lança dirigida para o rosto. No último segundo a criatura trocou repentinamente a direção e se dirigiu para o peito de Camael. Com uma grande dor, o anjo levantou sua espada e cortou a criatura guerreira em duas.


– Aaron cuidado – Gritou Gabriel atrás dele. Aaron girou rapidamente, justo a tempo de bloquear o ataque de outra das horríveis criaturas. Era o do cocar pomposo. – Vão cair sob nossa força – Gritou o chefe em sua língua selvagem. Aaron brandiu sua espada, o Orisha se moveu para trás, quando uma rajada de fogo quase cortou sua cabeça demasiadamente grande para seu corpo. O poder interno do Aaron agora era selvagem, lutando para se libertar. Mais uma vez, o chefe partiu para o ataque, desta vez a faca o atingiu, afundando na carne macia dos ombros de Aaron. Lançou um grito de dor quando a criatura saiu de seu alcance. – Aaron está bem? – Estou bem, Gabriel – Disse enquanto observava o cachorro tratando de enfrentar os ataques do Orisha que tinha perdido a asa e rolava pelo chão da floresta. – Só presta atenção, essas coisas são perigosas. A ferida doía, uma estranha sensação de dormência começou a se estender por seu braço, assim era difícil sustentar a arma. Veneno? Se perguntou. Voltou-se para Camael justo a tempo de ver o anjo guerreiro cair de joelhos. – Alguma vez te disse que os Orishas molhavam suas armas em um narcótico que imobilizava suas presas. – Camael perguntou num discurso um tanto confuso. – Não me diga, – Aaron disse com sarcasmo, quando a espada caiu de sua mão dormente, se transformou em nada antes de bater no chão da floresta. Não mais preocupados com eles, agora que as drogas estavam correndo em suas veias, os Orishas sobreviventes, voltaram sua atenção para Gabriel. Aaron observava impotente como seu amigo perdeu o controle da criatura com asas queimadas e correu para se juntar aos seus companheiros. – Sai daí Gabriel!


O chefe tinha recuperado a rede, os três guerreiros avançavam lentamente sobre o rosnar do cão. – Você deve saber, pelo menos, que não te abandonei. O Labrador resmungou, se mantendo em pé. – A lealdade é um erro – Camael disse enquanto se equilibrava sobre os joelhos e caia para o lado – tendo em conta o veneno do Orishas. Os Orishas se lançaram contra Gabriel. Dois agarraram o cão, que grunhia enquanto o chefe atirava a rede por cima de sua cabeça. Rapidamente pegaram o Labrador. – Vamos comer muito essa noite, meus irmãos. – O chefe disse com emoção quando se inclinou para cheirar o animal que continuava grunindo. – Uma refeição de acordo com os guerreiros que estão prestes a receber a sua liberdade e uma passagem segura para o paraíso! Os Orishas começaram a se animar, com suas armas carregadas de veneno, elevadas ao céu como um grito de vitória. – Eles vão comer o Gabriel? – Aaron perguntou com horror. Todo seu corpo havia endurecido, caiu no chão perto de camael. – Primeiro se ocuparam do cão – Disse o anjo decidido – E logo nos levaram a Verchiel com as primeiras luzes da alvorada. – O que vamos fazer?– Aaron perguntou enquanto mantinha seus olhos nos Jubilosos Orishas, que pareciam estar fazendo um grande esforço para atormentar o pobre Gabriel. – Depende de você – Camael respondeu com calma. – Que demônios se supõem que isso significa? – Aaron gritou enojado. – Você tem o poder. Tudo que necessita fazer é usa-lo.


E como tinha, Aaron sentiu a presença dele formigado em seu corpo de novo. –Não sei do que está falando. – Mentiu utilizando todas as suas forças para manter a palavra. – Não jogue comigo Aaron – O anjo rebateu – Posso sentir como luta. Deixe-o sair. – Não... Não posso fazer isso – Aaron respondeu, congelado pelo medo – Não sei se posso controlar. – Pensei que estava além disso – Falou o anjo exasperado – O poder é parte de você, é o que é agora. No fundo Aaron sabia que o anjo estava certo, mais mesmo assim era assustador. A força era selvagem e com um grande potencial para destruição. Lembrou-se de como havia se sentido no dia em que Verchiel matou seus pais adotivos. Tal força, tal poder havia sido emocionante no começo. Sou forte o suficiente? – se perguntou – Ou vou ficar louco como os antes de mim ficaram? – Não... Não posso. – Cada vez era mais difícil de falar. – Você pode – Disse Camael – Sim você tem o poder, Gabriel irá morrer e nós seremos entregues a Verchiel. Aaron ficou em silêncio. Viu claramente como o chefe dos Orishas se afastava e retirava dois pares de algemas de uma pasta escondida nos arbustos altos. – Quando o veneno dos Orishas desaparecer, não irá a lugar algum. – A feia criatura riu enquanto se movia para Aaron. – Faça alguma coisa! – Gritou Camael. Por um momento Aaron pensou em deixar o poder se libertar, estava sentindo claramente uma onda elétrica ao seu redor, o verdadeiro caráter sobrenatural através de seu corpo. Recordou da dor insuportável quando as asas se abriram nas suas costas, se estendendo


plenas e gloriosas. Fez uma careta, recordando a forte sensação ardente, quando antigos símbolos angelicais apareceram em sua pele, indicando sua transformação em algo mais que humano. Ele pensou nisso, mas não fez nada, o Orisha apertou as algemas, friamente, ao redor dos pulsos. Camael suspirou. Ele havia tido tantas esperanças no garoto, mas agora estava começando a ter dúvidas. – E agora tu, grande anjo – O chefe Orisha disse feliz enquanto se dirigia a Camael com o segundo par de algemas. – E agora eu. – Camael rosnou e começou a se levantar, em um salto. – Mais veneno! Mais veneno! – O líder gritou com pânico, tirando a faca da bainha na sua perna. Os outros guerreiros realizavam uma busca frenética as suas armas. Camael estava bastante chateado e incomodado. O anjo sabia que Aaron estava resistindo, temeroso de sua natureza recente, e havia visto esta como uma oportunidade perfeita para o garoto domesticar seu poder, para obter o controle. Mas enquanto olhava o jovem estendido no chão, depois de ter sucumbido aos efeitos do veneno dos Orishas, se deu conta do quanto estava enganado. Não estava pronto em absoluto, Camael começou a temer pelo cumprimento da profecia angelical. O velho Chaman se agitava no ar na frente de Camael, com os braços abertos. O solo sob os pés do anjo começou a tremer, ele se sentiu empurrando a terra tão repentinamente como se fosse líquido. Os outros Orishas seguravam suas armas paralisantes com veneno. Isto não vai ser tudo, pensou o anjo com o fogo aceso em suas mãos. Camael sacou sua espada de fogo, fazendo retroceder os guerreiros com um grande movimento de suas poderosas asas, se levantando do chão suavemente. Com um uivo de fúria, o chefe se lançou para Camael, movimentando-se com uma velocidade sobrenatural. Camael era mais rápido, brandiu sua espada de fogo e cortou o líder dos Orishas em dois. – Seu sonho era somente isso. – Disse enquanto o corpo caía em suas partes, em chamas. – Um sonho.


Sim seu líder, o Orisha com as asas queimadas pareceu perder seu impulso de lutar. A besta flutuando, jogou sua lança e começou a correr. Camael atirou a lança longe, em seguida logo ela se cravou no ser primitivo que estava correndo. Uma língua de fogo serpenteava desde o final até o principio das folhas que estavam incendiadas, em um instante o guerreiro Orisha se viu envolvido em fogo celestial. A criatura chiou, palavras de uma oração a um anjo caído morto há muito tempo, que foi seu criador, E foi incinerado. Há mais um, Camael pensou enquanto pousava na terra, as asas dobradas em suas costas. Espada pronta, seus olhos de pássaro escaneando as árvores e os arbustos em busca de sinais do velho Orisha, mas não encontrava a criatura em nenhuma parte. Aaron gemeu com a febre induzida pelo veneno, Camael dirigiu sua atenção ao Nephilim. Sua espada se dissipou à medida que avançava para o jovem. Se ajoelhou perto dele. Tocou o mecanismo de bloqueio das algemas de Aaron e viu as algemas caírem no chão. – Levante, garoto. – Disse com severidade. – Aaron abriu os olhos. – Camael? – Sussurou – Como? – Eu eliminei o veneno do seu sistema – Disse, agarrando o menino pela frente da camisa e o pondo de pé. – É algo que você poderia ter feito, se tivesse se incomodado. Cambaleava como um bêbado. – Por quê? Porque esperou tanto tempo? – Camael se aproximou de Gabriel que seguia preso sob a rede. – Eu estava esperando você tomar uma atitude. – O anjo lhe respondeu enquanto tirava a rede do cão. Gabriel se levantou e se sacodiu da rede. – Obrigado Camael. Ouviu um dos cadáveres dos Orishas que ainda ardia. – Então... Então isto era algum tipo de teste? – Aaron perguntou, tropeçando para eles com as pernas que ainda se encontravam rígidas do veneno. Gabriel acariciou a mão de seu


amigo. – Esta bem? Eu estava muito preocupado com você. – Aaron acariciou displicentemente a cabeça de Gabriel, esperando a resposta de Camael. – Esteve muito valente contra Os Poderosos, mas agora vem a parte difícil – Disse o anjo. – Queria ver o que era capaz de fazer. – Não se preocupe por mim. Vou estar pronto para fazer frente à Verchiel quando chegar o momento. – Camael franziu o cenho indicando os corpos dos Orishas descartados como lixo no chão. – Estes não são mais que pragas no grande esquema das coisas, insetos insignificantes que deveriam ter sido eliminados com um tapa com facilidade. – Ainda sou novo nisso – Aaron se defendeu. – Tenho dificuldades para matar. Ha muita coisa que necessito aprender antes de... – Não tenho tempo – Camael interrompeu – Verchiel é como um animal ferido, tem que por todo seu poder para o derrotarmos. – Que é isso? – O anjo escutou Gabriel a murmurar – Lançou uma olhada para ver o Labrador cheirando um pedaço de terra, com o nariz rosa pressionado no chão, tinha a testa peluda enrugada com concentração. – Estarei pronto – Aaron disse com valentia, distraindo Camael da curiosidade do cão. – Não se preocupe comigo. – Espero que tenha razão, Aaron Cobert, – Camael disse com preucação – Poque há muito mais em jogo que sua própria vida. Estava a ponto de sugerir que continuassem a viajem quando o chaman Orisha saltou na frente do cão, com os olhos desorbitados pela loucura, e afiados dentes descobertos com um sorriso de selvagerismo. – Não vai me impedir de ir ao Lugar Seguro! – O chaman gritou quando se lançou para


o animal assustado, apoderando do lado de Gabriel, o mordendo na coxa. O cão uivou de dor, a criatura despedaçou, quando escorregou para fora da proteção da floresta, limpando o sangue do cão da sua boca. Camael e Aaron correram para o lado de seu companheiro machucado. – Me mordeu Aaron – Gabriel se queixou pateticamente. – Isso não é muito agradável. Não pude nem se quer morde-lo primeiro. – Tem uma mordida bastante profunda – Aaron disse enquanto examinava a ferida perto dos quadris do cão. – Que vamos fazer? – Aaron perguntou, olhando a Camael para que lhe ajudasse. – É uma excelente pergunta – O anjo contestou, cruzando os braços sobre o amplo peito – Que vai fazer? – Não sei o que vou fazer – Aaron disse quando colocava a mão na perna do cão que estava sangrando. – Talvez não tenha a força suficiente – Camael respondeu com um tom condescendente, Aaron quis lhe dizer para ele ir tomar no seu cú angelical. Ele todavia estava com raiva do anjo por ter colocado suas vidas em perigo só para lhe provar, ainda que parte dele entendesse o porque Camael havia feito isso. Se ele é de fato o que a profecia falava, e eles estavam bem seguros que eram, então ele tinha a responsabilidade principal de ajudar os anjos caídos que vivem pelo planeta. – Sim– acrescentou Gabriel, interrompendo seus pensamentos – Se esforça mais. – Já basta – Aaron disse, pressionando a mão contra a mordida. Se tão somente pudesse recordar o que disse aquela manhã terrível em Lynn quando Gabriel havia sido golpeado por um carro. Depois de tudo, se pode trazê-lo de volta quando estava a beira da morte, então, sem dúvidas poderia curar uma simples mordida. – Dói, Aaron.


– Eu sei amigo. Vou solucionar, tão rápido como... – Camael se inclinou mais perto. – Deixa a sua humanidade ir embora e abrace o seu lado angelical – ele disse – Não deve ter medo de você. Aaron se lembrou de umas palavras parecidas que Zeke disse naquele fatídico sábado. Que tinha sido na verdade apenas há duas semanas? Tantas coisas tinham mudado em tão pouco tempo. Fechou os olhos e quis que o poder emergisse. Podia senti-lo aqui, em algum lugar escuro atrás de seus olhos. Fez um sinal, mas ignorou a chamada, talvez chateado com ele por não permitir que se manifestasse durante a batalha com os Orishas. Se concentrou ainda mais, seu corpo tremia com o esforço. – Isso é tudo, tome as rédeas. – Ouviu Camael dizer tranquilamente ao seu lado. – Tome o controle, o adapta ao seu gosto. Aaron ordenou ao poder emergir, lentamente voltou sua atenção para ele. Empurrou de novo com sua mente, de repente, com a velocidade do pensamento, se moveu, tomando a forma de mamíferos, insetos, repteis, todas as formas de vida, a casa das bestas de deus. A força surgiu através dele. Aaron ofegou com as acometidas do mesmo. Seus olhos se abriram de repente, olhou para o céu que estava entardecendo, as nuvens, o universo além da visão. – Está aqui. – Sussurou, sentindo o pulsar do corpo com o antigo poder. – Excelente – Camael disse ao seu ouvido – Agora lute, tome o controle, deve mostrar quem é que manda. Aaron fez como ele disse. Combatendo com poder, tratando de esmaga-lo com a força de seu poder, mas Aaron o saudava, encurralando, movendo suas forças quando era necessário. Sentiu que o poder o inundava, o alimentando em sua parte superior, movendo-se ao longo de seus braços e mãos. – Eu... Sinto que está te acontecendo algo, Aaron. – Gabriel disse com medo em sua voz rouca. – Estou bem. – Aaron lhe tranquilizou ao sentir um fluxo de energia bruta fluindo na


ponta de seus dedos sobre a perna lesionada do cão. Ele queria poder para curar seu melhor amigo, ficou olhando a ferida aberta, esperando que se fechasse, mas nada aconteceu. Mais uma vez, ele quis, o poder dançou ao redor da ferida, mas não aconteceu nada. Aaron se afastou, cansado, com as mãos formigando dolorosamente. – Não entendo. – Disse em um sussurro sem fôlego. Levantou a vista para Camael que estava por cima dele. – Fiz o que me disseste, tomei o controle e lhe ordenei que sarasse a ferida de Gabriel, mas não aconteceu nada. Camael olhou pensativo para o Labrador, distraído, tocando com seu dedos seu cavanhaque. – Interessante. – Observou. – Talvez o animal se tornou mais complexo do que era antes, entende? Aaron sacudiu a cabeça confunso. – Não sei... – Quando curou esse animal... – Esse animal tem um nome. – Gabriel interompeu com incomodo. – Calma. – Aaron disse, acariciando a cabeça do cão, o consolando. – Como ia dizendo – Camael disse, olhando o cão. – Quando curou esse animal, o poder se exerceu na carne viva, em sua forma mais pura, em seu estado mais potente. Mandou curar Gabriel, e também deve ter alterando algo. – Não me sinto alterado. – O cão disse – Minha perna, no entanto, dói. – Está dizendo que Gabriel agora é uma forma de vida complicada demais para eu possa curá-lo?– O anjo assentiu com a cabeça – Mas, como poderia fazer isso?– Aaron perguntou enquanto acariciava a lateral do cão.


– Não – Camael corrigiu – Você deu uma ordem , e a presença dentro de você obedeceu – Se não tinha tido medo do poder que vivia dentro dele antes, sem dúvidas tinha agora, mas isso não muda o fato de Gabriel ainda está sentindo dor. – Gabriel necessita de cuidados médicos – Aaron disse olhando seu melhor amigo. – Ele pode ser uma forma de vida complexa, mas ainda precisa ter a mordida limpa. – Então te sugiro que continuemos com nossa viagem – O anjo disse – Talvez encontremos ajuda médica para ele no vilarejo. – Soa bem – Aaron disse depois de refletir um pouco. Estendeu a mão e jogou o cão de trinta e cinco quilos sobre os ombros. – Não se preocupe – Disse com sarcasmo ao anjo, grunhindo com esforço. – O peguei. – Sim, eu sei – Camael disse enquanto caminhava pela floresta em direção ao carro. – Meus erros de merda – Aaron resmungou, depois do anjo, com cuidado de não tropeçar com seu “pacote”. – Assim é como somos– Gabriel disse levando o assunto com total naturalidade. – Que somos? – Anjos. – E agora é um expert em anjos? – Bem, eu sou um ser complexo – O cão respondeu com altivez.


Eu sou o Shaman. Eles deveriam ter me escutado. Shokad o Orixá pensou, enquanto febrilmente exercia sua magia abrindo um túnel no mais profundo da terra. Nunca deveríamos ter tentado capturar o Nephilin. Os ossos e as pedras tinham dito o mesmo. Mas escutaram? Não. Eles deixaram que seu medo os cercasse. O chefe os prometeu a vitória e eles acreditaram. Se ao menos tivessem me ouvido... Pensou amargamente.

Tinha a garganta seca como poeira de feitiço. Shokad deixou de falar e a terra se fechou ao seu redor.

Ele se cercou da parede do túnel em busca de sinais de vida. Com cuidado para não quebra-la, pegou uma minhoca da terra, estava suja, e meteu em sua boca. Mordeu com força, o gosto do musculoso corpo chegou a sua boca. Comeu até se fartar, depois se pôs de joelhos no túnel para descansar.

Aonde irei agora? Ele pensou. O xamã fechou os olhos, sua mente o lembrou de imediato de imagens felizes de como poderia ser no Lugar Seguro. Viu seu povo, Deheborny, que o havia abandonado há muito tempo. Vivia em harmonia com a natureza, não temia a ira dos Poderosos.

– Eles não morreram. – Sussurrou completamente emocionado com a visão.

Tinha que conseguir escapar da ira de Vechiel, e de seus soldados para encontrar o paraíso.

Shokad se encontrou, várias vezes, envolto na glória das visões do seu povo nos confins do Lugar Segiro. Encheu-se de alegria, com um novo propósito.


O xamã abriu os olhos na escuridão do túnel e se pos de pé. Podia sentir como se lhe chamassem. Ouviu que sussurravam em seus ouvidos o levando para seu lugar secreto. Safe Place estava lhe chamando, tudo que precisava fazer era seguir.

Se pôs em frente à parede de terra sólida diante dele e recitou as antigas palavras ensinadas por seus seguidores angelicais.

Com estas palavras, poderia se comunicar com os elementos, os dobrando aos seus pedidos. Shokan pediu a parede de terra que possa lhe permitir a passagem, e foi como tinha solicitado. Fluiu em torno dele. Ele se aproximou do paraíso prometido. As asas na espada bateram com entusiasmo, seguindo o caminho através da terra. O Lugar Seguro sussurrava em seu ouvido, cada vez mais perto.

Uma vez mais viu na sua mente, a tribo que havia deixado há muito tempo. Eu sou feliz, pensou.

Se Mufgar tivesse a coragem de abandonar as velhas maneiras, ele, Zawar, Tehom e todos poderiam ter experimentado essa alegria.

Shokan disse as palavras do feitiço, o mais rápido, a terra diante dele esapareceu como a água. Parte correndo, parte voando, ia para o Paraíso, as imagens daqueles que vieram antes dele, passando por sua cabeça. Tutrechial, Suria, Adririon, Tandale, Savlial. Todo mundo estava lá. Achei que alguns tinham sido mortos em serviço para Os Poderosos. Era curioso, mas não queria discutir no Paraíso.

– Oh, Shokad, está quase lá.

O Orixá começou a rir dentro do túnel em direção à superfície. O solo foi misturado com rochas por isso era mais difícil de se mover, mas isso não o parou. – Tão perto, Shokad. Muito, muito perto.


O Shaman fez o seu caminho para a superfície. Suas mãos estavam machucadas e sangrando, o ar estava frio e úmido. Então ele perguntou onde estava o sol quente.

Shokan saiu do buraco no chão, olhou para a estranha luz esverdeada. Estava em uma vasta caverna subterrânea. Em algum lugar distante, para além da parede de rocha, podia ouvir uma torrente de água.

– Estou aqui, disse ele em voz alta – esperando que seu povo estivesse presente para lhe dar as boas-vindas. Eles não fizeram, mas algo se moveu entre as pedras, na extremidade oposta da caverna.

– Olá – Shokad disse em direção ao barulho. Era um som estranho, como algo grande, pesado rastejando por entre as rochas.

– Sou Shokad.

Talvez eles estejam com medo, pensou, enquanto caminhava no chão da caverna.

– Eu não vou fazer nenhum dano – disse em voz alta. – Eu também tenho procurado o paraíso.

À medida que se aproximava, ele mal podia distinguir as rochas. Havia sacos em forma de ovos, pendurados sobre uma grande massa, mais negro do que as mais profundas sombras da caverna. Se torcia e se movia, estava vivo.

– Quem é você? – Shokad sussurrou com cautela. – Onde estão os meus?

Ele ficou na ponta respondidas.

dos

pés para olhar dentro dos

sacos e as

suas questões foram


O xamã Orixá queria gritar, rogar ao poder divino que o trouxe aqui e perguntar por que ele tinha mostrado esse horror, mas não teve chance. Algo deslizou em grande velocidade das sombras atrás dele, segurando seu braço.

Shokad queria gritar, porque nem ele, nem o seu povo tinham encontrado o Paraíso.

Então isso era felicidade, Aaron pensou enquanto se dirigia para o centro da cidade. Esperava mais, se parecia com as outras cidades pequenas que tinha visto nas últimas semanas. As lojas estavam ultrapassadas, as janelas estavam cheias de lembranças empoeiradas. Havia um parque de grama comum com um quiosque branco de música, extravagante, no centro. Era uma bela tarde ensolarada, as pessoas andando pela rua, entrando e saindo das lojas, enquanto as crianças jogavam bola no parque.

– Como estás Gabe? – Aaron perguntou ao cachorro estirado tranquilamente no assento traseiro.

– Eu estou bem – Gabriel respondeu, Aaron se deu conta que Gabe não estava assim tão bem.

A mordida do Orisha era má. Parecia que estava infectada. Necessitava encontrar um veterinário rápido.

– Aguenta amigo – Aaron disse se acercando do centro da cidade.

– Vê alguma clinica veterinária? – Perguntou ao anjo sentado no assento do carona.

Camael permaneceu em silêncio, olhando pela janela, furioso, e isso que toda a viagem


tinha ficado ausente.

– Olá? Qual o problema? Vê algo? – Aaron perguntou.

O anjo o olhou enfadado.

– Não é nada – Disse, mas Aaron sabia que algo estava pondo suas penas em pé.

– Bem, vou perguntar, a umas dessas pessoas – Aaron disse enquanto estacionava o carro em frente de uma pequena loja de ferragens.

Um homem grande que usava um gorro sujo dos Red Sox, camisa Xadrez e um macacão, saiu da loja com uma sacola, guardando seu troco em um porta-moedas de borracha.

Aaron se inclinou para Camael, baixou a janela do passageiro e gritou: – Com licença!

O homem, com o rosto bronzeado, enrugado pela idade, meteu o porta-moedas no bolso traseiro do macacão, e se inclinou ligeiramente para olhar pela janela. Deu uma rápida olhada.

– Olá – Aaron disse com sua voz mais amistosa. Inclusive o saudou – Pode nos ajudar?

O homem não disse nada, sem deixar de olhá-los com cautela. Aaron tinha ouvido que as pessoas do Maine desconfiavam dos estranhos, mas isso era um pouco longe demais.

Camael, no entanto, se manteve completamente imóvel, e Aaron se perguntou se ele ia se fazer de invisível de novo.


Aaron havia descoberto que o fazia, de vez em quando, quando não estava com interesse de tratar com os humanos. Há última vez que fez foi há dois dias, quando se deterão para passear com o cachorro e foram abordados por quatro idosos.

Algumas irmãs que queriam saber tudo sobre labradores retrievers, como Gabriel. Depois Aaron disse a Camael o quão grosseiro tinha sido, e o anjo respondeu, dizendo que ele também podia fazer isso. Mas Aaron não podia fazer por si mesmo.

– Meu cão foi mordido por algo no bosque, tenho que leva-lo a um veterinário.

O velho olhou para o cão com o olhar em sua mordida.

– O que mordeu ele? – Perguntou com sua voz rouca, falava com o sotaque inconfundível do Maine.

– Guaxinim – Aaron disse rapidamente – Por suposição, espero que não tenha raiva.

– Nunca tinha visto uma mordida de Guaxinim como essa – O velho grunhiu, examinando a ferida pela janela.

– Bem, só vimos depois, quando escapava. Suponho que poderia ter sido outra coisa também.

O velho olhou para Aaron enquanto ajustava a borda de seu goro.

– Não foi um Guaxinim, tem que ser outra coisa. Aaron sorria forçadamente, sentindo que ia perder a paciência.

– Sim, supondo que tenha razão – Fez uma pausa e contou até dez. – Me perguntava se


haveria algum veterinário por aqui?

O homem parecia pensar por um minuto ou dois, e logo assentiu lentamente com a cabeça.

– Sim, há.

E ficou em silencio, sem deixar de olhar.

Sentiu que seu sangue fervia, Aaron se perguntava quanto tempo passaria até que Camael convocasse uma espada e enviasse esse velho chato para o inferno.

– Creio que poderia me dizer como chegar lá? – Perguntou. Seu rosto começava a doer de tanto manter o sorriso.

– Está bem Aaron – murmurou para si, enquanto caminhava para a porta principal. Havia um letreiro de metal com o nome “Kevin Wessell – DVM”

– Se preocupe com Gabriel, vou estar aqui fora, vigiando.

Aaron lutou para trocar o peso pra conseguir girar a maçaneta da porta.

– Obrigada pela ajuda Camael – Disse com ironia – É um anjo muito bom!

– Camael já foi – Gabriel informou.


– Eu sei que ele já foi – Aaron grunhiu. Girou a maçaneta e empurrou a porta com o pé.

– Então porque segue falando com ele?

– Não sei, Gabe – Aaron grunhiu enquanto entrava numa pequena saleta – Estes dias estão uma loucura.

O lugar era velho, não era como a clínica em que tinha trabalhado em Lynn. A sala tinha as paredes cobertas de papel de parede escuro, havia molduras com fotos de cães de caça penduradas nas paredes. Os assentos eram de plástico e estavam colocados encostados na parede, uma mesa velha de centro, coberta de revistas e livros infantis. A recepção era em frente.

A parede estava deserta, Aaron podia ouvir os sons dos papéis e um suspiro de exasperação vindo de detrás do consultório. Aproximou-se e viu uma mulher rodeada de montões de papel e pastas médicas. Seu cabelo era de um usual vermelho escuro preso em um apertado rabo de cavalo.

Era evidente que ela não o tinha visto entrar, porque ‘limpou’ a garganta, e observou como ela se surpreendeu com sua aparição.

– Você me assustou – Disse com uma risada nervosa. Afastou uma mecha de cabelo do rosto.

– Sinto muito – Tratando de suspender Gabriel em seus braços.

– Podemos ver o veterinário? – Perguntou.

– Claro – Ela respondeu movendo um monte de pastas que se equilibravam perigosamente. – Me da só um segundo aqui e veremos o que podemos fazer.


– Eu não me sinto bem. – Gabriel se queixou em seus braços.

O cão estremeceu e Aaron supôs que a febre estava subindo.

Sentiu que ia perder a calma. Já havia perdido muito tempo com o maníaco do goro dos Red Sox, não ia permitir que seu cão sofresse mais.

– Olha – Disse quase gritando – Preencho quantos formulários quiser, poderia chamar o veterinário? Creio que tem uma infecção bastante desagradável, quero que tome uns antibióticos tão rápido quanto seja possível.

– Está bem, está bem – A ruiva disse enquanto saia detrás do balcão. Vamos leva-lo a parte de trás para que eu possa examiná-lo. – Fez um gesto de quem parecia segura. – É o Dr. Wessell? – Aaron disse desconcertado.

– Não – Ela respondeu – Quase fui. Nesse momento sou Kate McGovern – Ela começou a rir. – Mas não se preocupe, também sou um veterinária com licença.

Aaron riu timidamente enquanto levava Gabriel para a sala de exames.

– Sinto haver me comportado como um idiota, é que tenho tido um dia bem longo, eu pensei que era...

– A recepcionista? – Lhe perguntou. Abriu a porta de exames e deu um passo para trás para deixa-lo entrar.

– Sim – Não parece suficientemente velha para...


– Tenho vinte e sete anos – Ela disse, fechando a porta – É devido aos meus genes irlandeses. Posso mostrar meu diploma da universidade de Illinois do colégio de medicina veterinária. Esclareceu enquanto lhe ajudava a deitar Gabriel na maca.

– Como está amigo? – Perguntou ao cão, acariciando a cabeça e esfregando as orelhas.

– Meu nome não é amigo – Gabriel grunhiu – É Gabriel.

– Se chama Gabriel – Aaron disse.

– Olá Gabriel – Kate disse enquanto colocava as luvas de látex – Vamos dar uma olhada e ver o que podemos fazer por você.

Ela examinou a ferida da pata, tocando suavemente a pata.

– O que foi isso? – Perguntou.

– Acho que foi um guaxinim – Respondeu, sem convicção, Aaron.

– Um guaxinim? – Perguntou olhando mais detalhadamente a ferida – Se isso é uma mordida de guaxinim eu sou uma recepcionista adolescente.

Camael podia sentir a brisa, uma das muitas coisas que podia sentir desde que finalmente chegou a Alegria.

Caminhou lentamente por Portland Street, a direita havia uma trilha de terra. Algo na


atmosfera dizia que pertencia a esse lugar, que era bem vindo. Havia algo mais, algo que não podia identificar. Era uma sensação estranha, sabia que havia algo oculto. Tinha uma sensação agradável.

O anjo ampliou suas percepções quando voltou a estrada Onto Acadia. Estava tão silencioso como a morte, não havia nada a vista. Só se ouvia era a suave e cálida brisa e o ondular dela a distância. Havia lojas pelos dois lados da pequena rua: Agente de Bens Raízes de Johnson, McNulty Contábil, Dr. Charles Speegal, oculista e o edifício maior que pertencia à funerária Carrol, que ocupava quase todo o lado da rua.

Tudo nessa cidade parecia normal. Isso o desarmou, pensou que essas sensações não as havia experimentado há mil anos. Aqui havia uma sensação injustificada. O anjo se perguntou se ele e Aaron haviam encontrado o esconderijo de A Aguilera.

Ele cruzou a rua em direção ao edifício branco, de dois andares, da funerária Carrol, olhou ao seu redor detidamente. Onde estão os outros?

Outra vez voltou essa sensação que não pode identificar, como quando uma grande baleia rompe a superfície para tomar ar antes de submergir novamente nas profundezas escuras e turvas.

Esta vez foi algo que lhe era familiar; o cheiro de uma presença etérea, tentando se ocultar para não ser descoberta. Agora que tinha o odor, tinha que ter cuidado para não perder o rastro. Era antigo, muito, muito antigo. Era um sopro de caos, que não havia se respirado desde os dias da criação.

Camael ouviu o barulho de uma porta se abrindo, se voltou para a funerária. Era invisível. Um ancião vestido com um traje escuro e gravata, estava de pé, no andar mais alto o olhando. Camael estava perplexo, era como se ele fosse capaz de vê-lo, mas claro, isso era impossível. Os sentimentos de tranquilidade se triplicaram, bombardeando Camael, o deixando sereno, imprimindo a essência antiga. Não importava que tratara de esconder-se debaixo da serenidade que a cidade irradiava, sabia que no centro de Alegria havia caos.


O homem continuou o olhando com seus olhos negros e profundos. Camael se deu conta que o homem de traje escuro podia lhe ver. Como isso é possível? Camael se perguntou.

A cabeça do ancião fez um movimento estranho, sorrindo. Logo, pestanejou lentamente, Camael se deu conta que seus olhos estavam cobertos de uma membrana branca. Não havia visto isso antes em nenhum humano. Ao se daria conta de que poderia está em perigo, Camael esteve a ponto de convocar uma arma de fogo. O ancião se inclinou para frente, seus ossos rangeram dolorosamente, tossiu. Pequenos projéteis do tamanho de uma cereja foram expulsos pela boca, e caíram sobre o rosto e o colo de Camael.

O anjo se enfado se limpou.

– Veneno – Resmungou. Gemeu com um dos projeteis.

Era a segunda vez, nesse dia, que uma forma primitiva tentava lhe envenenar.

Camael fechou os olhos, sentindo o veneno em seu corpo. Surpreendentemente, se sentia bem, se deu conta que não tinha forças para abrir os olhos. O mundo parecia desvanecer embaixo de seus pés.

Caiu no chão.

Quase inconsciente, ouviu o som dos passos do ancião, arrastando os pés enquanto descia as escadas. E caiu inconsciente, se consolando com a serenidade da cidade.

Que bom que o trouxe – Ela disse tirando Aaron de seus pensamentos – Podia está morto.

Aaron acariciou o cão enquanto observava a Dra. McGroven raspar o pelo da para do cão, logo, roçou a ferida com solução salina. Ela a secou com um pouco de algodão. Se inclinou para examiná-lo mais de perto.


– A boca tem micróbios, se assume que todas as mordidas estão infectadas – Ela disse, derramando mais líquido na ferida. – Está muito grave para ser uma mordida de Guaxinim – Ela levantou a vista para encarar Aaron.

– Te disse que pensava que era um guaxinim – Respondeu nervoso. De maneira nenhuma ia lhe explicar que Gabriel tinha sido mordido por uma criatura temível, criada por anjos caídos.

– Não consegui ver bem, talvez foi o tipo de animal.

– Foi um Orisha, Aaron – Gabriel disse se queixando.

– Eu sei, eu sei. Aaron disse tranquilamente.

– É bastante inquieto – A veterinária disse jogando os tufos de algodão usados em uma lixeira, depois tocou carinhosamente a cabeça de Gabriel.

– Não sei bem – Aaron respondeu com um sorriso indiferente – Precisa de uma vacina anti-rábica?

– Uma merda. – Gabriel grunhiu, levantando a cabeça da maca.

– Quando o vacinou pela última vez? – A Dra. McGroven perguntou. – Doeu – O labrador se queixou.

– Faz uns seis meses – Aaron disse, sem fazer caso do seu melhor amigo.

– É melhor prevenir do que remediar. – Ela disse pegando uma seringa de uma caixa e um frasco de um refrigerador pequeno debaixo da bancada.


– É melhor se lamentar do que uma picada. – Gabriel grunhiu.

– Não parece muito feliz. – A veterinária disse levantando a seringa.

– Não, mas ele não tem escolha. Tem que deixar tomar a vacina para que não fique doente. Aaron disse enviando a última frase especificamente para o cão.

– Acredita que ele entende?

–Eu sei que ele entende, – Aaron respondeu, esfregando o pescoço de Gabriel – Este tipo é especial.

– Não são todos? – Ela disse e com um movimento rápido, administrou a injeção.

O cão uivou.

– Tranquilo – Ela sussurrou, apoiando o focinho de Gabriel, acariciando as orelhas – Isso não foi tão mal, não é?

– Ela é boa, Aaron. – Disse o cão movendo seu grande rabo, golpeando alegremente a maca. Aaron começou a rir.

– Não se preocupe – Gabriel não está muito mal. Um pouco de carinho, e atenção, e ele esquecerá por completo o trauma.

A veterinária jogou a seringa em um recipiente de plástico em cima da bancada.


– Está bem – Ela disse buscando sua caderneta.

– Vamos ver, mantenha a ferida descoberta para que seque... Compressas quentes três vezes ao dia, duas semanas de amoxicilina duas vezes ao dia para eliminar a infecção – Disse Aaron, enquanto olhava a Gabriel se sentar com cuidado sobre a maca.

McGovern, sorriu, enquanto escrevia.

– Muito bem – Ela disse assentindo com a cabeça – Tem interesse por ciências veterinárias?

– Eu trabalhava em uma clinica veterinária – Aaron explicou. Recordou com melancolia.

Rapidamente se voltou para Gabriel.

– Quer descer?

– Deixa que eu ajudo – Ela disse, e juntos desceram Gabriel para o chão.

– Sei que esta aqui temporariamente, mas podias me dar uma mão na clínica enquanto cura a ferida de Gabriel. Não posso pagar muito, que dize? – Ela falou.

Sem dúvida era uma oferta tentadora. Havia algo nesta pequena cidade que atraia Aaron. Parecia estar no lugar que queria estar. E o fato de ganhar dinheiro para reforçar sua minguante conta bancária não era uma má ideia.

– Não deveria perguntar ao doutor Wessel primeiro? – Perguntou.


A Dra. McGoven assentiu lentamente.

– Imagino que sim, mas desde que meu ex-marido se foi, eu diria que isso me dá margem para quebrar as regras um pouco. Te Interessa?

– Aceita Aaron. Estou cansado do carro. – Gabriel se queixou.

– Tenho que consultar meu companheiro de viagem – Aaron disse, encolhendo os ombros. – Mas se ele aceitar, sim, estou de acordo, me encantaria aceitar.

– Genial – Disse, lhe estendendo a mão – Sou Katie, sei que ele é Gabriel, mas e você? Como se chama? Gostaria de saber já que vamos trabalhar juntos.

–Sinto. – Ele estendeu a mão – Aaron – Disse – Aaron Corbet.

– Encantada, Aaron. – Ela disse soltando a mão dele. – Porque não vai ver seu amigo e me diz depois o que decidiu.

Aaron e Gabriel saíram do edifício. Era uma tarde calma de primavera, se dirigiram para o carro.

Gabriel era capaz de caminhar sozinho, com um mínimo de dor, graças a Katie.

– Onde está Camael? – Gabriel perguntou a Aaron quando abriu a porta e lhe ajudou a subir no assento traseiro.

Ele lançou um olhar rápido para a mordida em sua pata, olhando e lambendo o antisséptico que a cobria.


– Não sei – Aaron respondeu – Deixa a sua pata quieta – Adicionou, olhando ao seu redor, em busca de sinais do anjo.

Desde a batalha em sua casa, com o comandante dos Os Poderosos, tinha umas estranhas obrigações.

Aaron sempre havia sentido a presença do anjo, ainda que pudesse sentir algo estranho em Alegria, não sentia a presença de Camael. Isso não era bom. Teria que esperar que ele aparecesse.

Nesse momento, Katie saiu para jogar material, da parte de trás de todo o seu terreno.

– Fica aqui um minuto – Aaron disse a Gabriel.

Correu para ajudar ela com três grandes caixas que sustentava em seus braços e fechar a parte traseira de todo terreno.

– Katie, parece que vou aceitar sua oferta – Disse enquanto ela apareceu, atrás das caixas que equilibrava.

– Genial – Ela respondeu – sua primeira tarefa... – Claro, com isso? – Aaron Interrompeu.

– Dar uma mão a sua chefe com essas caixas – Disse – Maldito seja! Estão muito pesadas.


– Aonde você acha que ele foi? – Gabriel perguntou do banco traseiro enquanto Aaron continuava sua busca. – Eu não faço ideia – ele disse, escaneando as ruas em busca de sinais do rebelde Camael. – Talvez ele achou outro Nephilim que goste mais e fugiu para a cidade. – Você acha que ele faria isso? – Gabriel perguntou apavorado. – Só estou brincando – Aaron gargalhou enquanto olhava a cafeteria. Um casal de idosos saiu da cafeteria, e Aaron tentou ver dentro da loja enquanto a porta se fechavam lentamente mas sem sorte. Além disso, por que ele estaria em uma cafeteria? ele nem precisa comer, Aaron pensou enquanto parava seu carro na faixa de pedestres, permitindo uma senhora atravessar com um carrinho de shopping. Mas de novo, eles poderiam ter pego batatas-fritas. No retrovisor ele observou o Labrador levantar sua cabeça e cheirar o ar. – Você quer que eu saia e veja se consigo encontra-lo? – Gabriel perguntou. –Talvez eu possa sentir seu cheiro. Ele realmente cheira estranho, sabe. – Não, está tudo bem, Gabe – Aaron respondeu. – Ele vai aparecer. Porque não achamos um lugar para ficar que aceite animais? – Eu sou muito mais que um animal – o cachorro disse com orgulho. – Tenho certeza que é – Aaron respondeu, indo para a esquerda na Rua Berkely. – Katie


disse que tem um lugar que aluga quartos aqui. No final da rua sem saída tinha uma grande casa branca cercada por uma floresta de coloridas flores. Uma placa com quartos para alugar se movimentava com o vento. – Aí está – ele disse, estacionando na curva em frente à casa e desligando o motor. – Você fica aqui. Eu vou ver quanto eles cobram e se eles permitem animais. – Você diga para eles que eu não sou só um animal – Gabriel falou através da janela aberta enquanto Aaron ia em direção ao um arco de madeira enfeitado de flores roxas. – Posso te ajudar? – perguntou uma voz envelhecida de algum lugar da vegetação. – Sim – ele respondeu, surpreso, sem ter certeza em que direção responder. – Estou procurando por um quarto. Uma mulher saiu de trás várias árvores. Ela o olhou através de um escuro óculos de sol preto que a fez parecer um dos X–Men, e limpou suor de sua testa com uma mão com luva. – Eu tenho alguns – isso não é uma coincidência? – Aaron riu nervosamente. – Legal – ele disse com o que ele esperava que fosse um sorriso encantador. – Você está sozinho, ou com mais alguém? – ela alongou o pescoço para ver o carro estacionado. – Pensei que ouvi você falando com alguém. – Eu estava falando com o meu cachorro – ele disse, estudando seu rosto por uma resposta. A mulher franziu o cenho. – Você tem um cachorro? Aaron assentiu lentamente. – Você quer que eu alugue um quarto para você – com um cachorro? – ela perguntou incrédula. Ele suspirou. – Desculpe por desperdiçar seu tempo – ele disse com um aceno educado enquanto virava e ia em direção ao carro.


Ele estava em baixo do arco florido quando ele ouviu bem perto a voz da mulher atrás dele. – Que tipo de cachorro é? – Ele é um labrador amarelo – Aaron respondeu, sem ter certeza que diferença fazia. – Amarelo? – ela repetiu, olhando o veículo. Aaron assentiu. – Sim, amarelo. Ela o seguiu enquanto ele ia para o carro. – Meu pai geralmente criava labradores – ela disse enquanto tirava suas luvas e enfiava no bolso de trás de sua calça jeans. – Ás vezes eu tenho um ponto fraco por eles. Aaron abriu a porta de trás do carro, mostrando Gabriel. – Hey, Gabe – ele disse. – Tem alguém que quer te conhecer. A velha mulher manteve distância, mas avançou para espiar dentro do carro. Gabriel se sentou alegremente e balançou seu rabo contra o banco traseiro. Soou como o som de uma bateria. – Do que você o chamou? – ela perguntou. – Gabriel. – É um bom nome – ela olhou para o carro. – O que aconteceu com a perna dele? – ela perguntou, apontando para a ferida. – Oh, ele foi mordido por um gambá, eu acho. – Aaron disse. – Essa é uma das razões pela qual estamos procurando um lugar para ficar. A perna precisa melhorar um pouco antes de seguirmos em frente. – Isso não é mordida de gambá – a velha mulher disse com um balanço de cabeça. Ela inclinou no carro e deixou Gabriel cheirar sua mão magra e cheia de calos. – O que te mordeu rapaz? – ela perguntou, coçando sua cabeça.


– Eu acho que era chamado de Orisha – Gabriel latiu. – Olhe só para isso – ela disse com um sorriso gentil. – Dá até para pensar que ele está tentando me responder. – Ele é muito falante – Aaron disse, dando positivo com o dedo pelas costas da mulher. – Ele é domesticado? – ela perguntou, ainda coçando as macias orelhas do cachorro e depois para o focinho. – Claro que sim – Aaron respondeu, mostrando sua indignação. – E ele não late, nem come as coisas. Gabriel é um cachorro normal e bondoso. Ela levantou do carro e foi direto ao ponto com Aaron. – Bem, você não parece um roqueiro, então será 200 dólares por semana com refeições, mas você terá que comer comigo. Isso não é um restaurante. – Está ótimo – ele respondeu alegremente. – Será ótimo comer outra coisa ao invés de fast food. A velha mulher o estudou por um minuto, virou e começou a andar pelo caminho do jardim. – Não vá me agradecendo – ela disse, recolocando os óculos e removendo as luvas do bolso. – Nunca mencionei se eu era uma boa cozinheira. Ela parou de repente e se virou para ele. – Já que você irá viver em baixo do meu teto por um tempo, talvez você queira me dizer seu nome. – É Aaron – ele disse com um sorriso. – Aaron Corbet. – Aaron – ela disse algumas vezes, guardando na memória. – Eu sou a senhora Provost costumava a ser Orville, mas depois que meu marido morreu em 1972, eu quis voltar com o meu nome de solteira. Nunca me importei com o que ele me deu, especialmente o nome. Ela continuou seu caminho, colocando as luvas na mão enquanto andava.


– E então, você é? – ele perguntou de repente. Ela parou e virou com uma careta decorando seu rosto. – Eu sou o quê? – ela perguntou, irritada. – Você é uma boa cozinheira? – ele perguntou com um sorriso. Como se ela tentasse esconder, um pequeno sorriso se formou em seu rosto, mas ela rapidamente se virou para que Aaron não pudesse ver. – Depende para quem você perguntar – ela disse, recolhendo as tábuas de madeira na porta da frente. – Meu marido achava que era ótima, mas olhe como ele terminou. – Legal – Aaron disse enquanto andava para dentro da sala e olhava em volta. O tema eram uvas. Tinham lâmpadas roxas, um vaso com parreiras desenhadas; até a colcha da cama tinha uvas desenhadas. Era meio brega; mas ele achou legal. Gabriel correu para dentro e imediatamente achou um lugar para deitar do lado da cama king–size, onde a quente luz do sol passava pela janela. – É aí aonde ele irá dormir? – A senhora Provost perguntou. – O chão é ótimo, mas ás vezes eu gosto de dormir com o Aaron. – Gabriel latiu. – É aqui aonde gostaria que ele dormisse? – Aaron perguntou com um pequeno sorriso. – Ele pode dormir onde quiser, diabos. – ela disse, indo em direção ao closet. Ela abriu a porta e tirou um cobertor desenhado de uvas. – Só pensei que se ele fosse dormir no chão, ele talvez ficaria mais confortável deitado nisso. Á medida que ela se aproximou, Gabriel levantou e a deixou colocar o cobertor no feixe de luz solar. – Isso mesmo, garoto – ela disse, amaciando o material. – Experimente. E o cachorro fez exatamente isso, deitando no cobertor dando um forte suspiro de cansaço.


– Acho que o seu cachorro está cansado. – ela disse enfiando a mão dentro do bolso. Ela deu a Aaron uma chave. – Aqui está sua chave. Funciona na porta da frente, também, que eu fecho exatamente ás nove da noite todo dia. – a senhora Provost foi até a porta. – Eu janto ás seis. – ela disse enquanto andava até o hall. – Se você gosta de torta de carne, te vejo na cozinha. Se não gosta, você está por sua conta. –Eu gosto de torta de carne. – Gabriel pulou de sua cama enquanto a mulher fechava a porta. – Por caso tem alguma comida que você não gosta? – Aaron perguntou, ajoelhando-se para checar a perna machucada. – Na verdade eu nunca pensei nisso. – Gabriel respondeu pensativo. – Faremos o seguinte, – Aaron disse, acariciando sua cabeça. – Porque você não pensa nisso mais profundamente enquanto eu vejo se consigo achar Camael. – Você ficará bem? – Ficarei bem. – Aaron se colocou de pé e foi para a porta. Ele estava para sair quando Gabriel chamou. – Aaron, você acha que iremos achar Stephen aqui? – Aaron pensou por um momento, tentando entender os estranhos sentimentos que ainda estavam com ele. – Eu não sei. Deixe-me dar uma procurada e conversaremos depois. – Então ele partiu, deixando seu melhor amigo sozinho para descansar e se recuperar. Aaron andou casualmente na rua Berkely, observando o ambiente. Ele virou á esquerda, em uma rua sem sinal, marcando pontos para que não se perdesse. Várias casas excêntricas, bem conservadas, muitas com lindos jardins de flores domésticas iguais da senhora Provost. No final da rua sem nome ele parou para avaliar sua situação. Ainda não tinha sinal de Camael, e a sensação bizarra que ele vinha sentindo desde que chegou em Blithe o incomodava. Era como se ele tivesse tomado muita cafeína depois de uma longa noite de estudo. Ele sabia que tinha a habilidade de interpretar essa estranha sensação, mas ele não sabia como começar.


Ainda tinha tanta coisa que ele precisava aprender sobre toda essa coisa de Nephilim. – Você precisará domar essas habilidades. – Camael disse durante sua ida para Blithe. Quanto mais cedo, melhor. Aaron achou as palavras do anjo um pouco irritantes. Domar essas tão importantes habilidades era como ler um livro sem saber o alfabeto. Ele não tinha o princípio básico. Ele recordou um pouco antes da primeira vez que deixaram Lynn. Camael tinha falado como um anjo, a experiência os cinco sentidos – não como sensações individuais, mas como uma poderosa percepção de tudo ao seu redor . “Faça como eu faço,” o anjo disse para ele, fechando os olhos. “sinta o mundo e tudo o que o torna um buraco, como apenas seres da nossa espécie pode.” Aaron tentou, mas apenas acabou com uma chata dor de cabeça. Camael ficou claramente desapontado – aparentemente Aaron não estava virando o Nephilim que o líder dos Poderes achou que era. Talvez não seja sobre mim que que a profecia falava, ele pensou. Talvez Camael finalmente percebeu isso, e foi embora para encontrar o[i] verdadeiro salvador dos anjos caídos. Algo farfalhou na floresta atrás dele, e Aaron se virou em direção ao barulho. Ele notou um brilho vermelho nas sombras, e então, como se soubesse que foi descoberto, um guaxinim saiu de seu esconderijo. Isso é estranho, pensou Aaron, observando o animal. Pensei que guaxinins fossem noturnos. Ele recordou como os ouvia tarde da noite pela janela de seu quarto enquanto eles tentavam entrar nos latões de lixo. O guaxinim chegou mais perto, seus olhos oscilando. Estava se movendo estranhamente, e ele perguntou se era raivoso. – E então? – ele perguntou em voz alta, sabendo instintivamente que o animal o entenderia. – Você é raivoso? O guaxinim não respondeu. Só continuou a encarar, parado firmemente perto. A medida que Aaron olhou em seus olhos, um esmagador senso de euforia se apossou dele. Era tudo o que podia fazer para evitar explodir em risadas e então acabar com lágrimas nos olhos, de pura alegria. Ele fechou os olhos e sentiu as ondas de emoção. Stephen. Seu pequeno irmão estava aqui, em Blithe, ele tinha certeza disso. Aaron podia senti-lo, esperando para ser pego, abraçado, se divertir. Stephen não estava machucado, e isso trouxe um grande alívio para Aaron que nem poderia imaginar. Nada nunca iria ficar entre


eles de novo. – Com licença, – uma voz de repente interrompeu seu devaneio. Aaron abriu seus olhos e viu que o estranho guaxinim fora embora, substituído por um policial que o estava olhando estranhamente. – Algum problema, senhor? – o policial perguntou, indo mais perto, sua mão no cinturão da arma. Aaron rodou, sentido como se tivesse em uma montanha-russa. – Estou bem, – ele disse. O que acabou de acontecer? – Você não parece bem, – o oficial disse severamente. – Você andou bebendo? – ele perguntou, indo para frente para cheirar o hálito de Aaron. Aaron balançou a cabeça, sentindo sua força e seu senso retornando lentamente. – Não senhor, estou bem. Acho que estou com insolação ou alguma coisa. – Posso perguntar o que faz aqui? – Na verdade estou procurando por um amigo meu, – disse Aaron, passando uma mão na testa para limpar o suor. – Alto, cabelo cinza e cavanhaque, vestido em um terno preto? O policial continuou o olhando com os óculos espelhados. – Eu gostaria de ver uma identificação, – ele disse, estendendo a mão. Aaron estava ficando nervoso. Primeiro Camael desaparece, então o estranho guaxinim, e agora um xerife do mal. Enquanto entregava sua carteira de motorista ao guarda, ele não podia evitar se perguntar quais outras surpresas a cidade de Blithe reservaria para ele. – Só visitando Blithe, Senhor Corbet? – o policial perguntou, devolvendo sua identificação. Aaron colocou a licença de motorista na carteira. – Provavelmente estarei aqui por uns dias, – ele disse, colocando a carteira no bolso de trás. De repente Aaron não conseguiu se segurar, a calma que tentou dificilmente manter estava indo por água abaixo. Ele não conseguia


manter a boca fechada. – Algum problema, Oficial...? – ele perguntou, com uma oscilada em sua voz. – Dexter, – o pilical disse, tocando a ponta de seu chapéu. – Chefe da Polícia Dexter. E não, não tem nenhum problema agora. – ele sorriu, mas Aaron não viu nenhum sentimento naquilo. Na verdade, parecia mais um rosnado do que um sorriso. – Blithe é uma cidade tranquila, Senhor Corbet, e é o meu trabalho certificar que a cidade se mantenha assim, se é que você me entende. Aaron assentiu, mordendo sua língua. Pesar de tudo, ele era um estranho, e isso imediatamente o fez suspeito. O Chefe Dexter começou a andar em direção ao carro parado na rua. Aaron ficou tão preso ao bizarro feitiço de emoção que nem ouviu o policial estacionar. Ele olhou de volta para a área florestada. – Chefe Dexter? – ele chamou. O policial parou, com a mão na maçaneta de seu carro. – Por acaso você não viu um guaxinim quando estacionou aqui, certo? – Aaron perguntou. Dexter abriu a porta, e o barulho de seu rádio encheu o silencioso ar da vizinhança. Ele sorriu aquele rosno sorriso de novo antes de se sentar no banco do motorista. – Sem guaxinins nessa hora do dia, Senhor Corbet. Eles são noturnos. – Foi o que pensei. – Aaron assentiu. Ele olhou o policial. Tinha alguma coisa nele... – Aproveite sua primeira visita, Senhor Corbet, – o Chefe Dexter disse. – Espero que ache seu amigo, – ele completou, antes de fechar a porta do carro, fazendo uma curva em U, e indo embora. Por uma mulher que trouxe seu cachorro para sua bateria de exames anual, Katie McGovern soube que seu ex-noivo estava desaparecido por pelo menos quatro dias. Aparentemente, o cachorro – um poodle de oito anos chamado Taffy – tinha uma hora marcada para Segunda-feira de manhã, mas ninguém tinha entrado no escritório até Katie chegar naquela tarde de Quarta–feira. É muito incomum o Dr. Wessell perder uma hora marcada. Espero


que esteja tudo bem, a dona do cachorro de meia-idade disse, sua voz com preocupação. Katie inventou uma história sobre uma emergência familiar que Kevin teria que resolver quando ele voltasse – se ele voltasse, disse uma voizinha no fundo de sua mente. Ela tentou ignorar a voz, limpando o escritório e pegando as horas marcadas de Kevin. Da organização vem à ordem, sua mãe sempre dizia. E da ordem vem respostas. Mas o estranho formigamento que ela vinha sentindo na boca de seu estômago desde que recebeu o primeiro email de seu ex-amante duas semanas atrás continuou a crescer. Acho que achei uma coisa que talvez a interesse – se importa em vir me ver? Katie pensou que era outra tentativa de Kevin de trazê-la de volta a sua vida, e ela ignorou a mensagem – até ela receber outra alguns dias atrás. Não tenho certeza se posso lidar com isso. Preciso realmente vê-la. Por favor, venha. Tinha uma certa urgência na mensagem que palpitou sua curiosidade. Ela ligou para ele no dia seguinte, mas ninguém atendeu na clínica. E quando Kevin não respondeu as inúmeras mensagens que ela deixou vários dias, ela decidiu tirar algumas férias e ir para Maine. Eles podem ter terminado há mais de dois anos, mas isso não significava que não eram amigos. O escritório estava um completo desarranjo – Kevin tinha uma tendência a ficar distraído. Na verdade, foi uma distração com outra mulher que colocou um fim na relação deles. Mas isso era diferente. Katie olhou para seu relógio; já era quase seis horas, e se sentia como se tivesse parado de respirar a tarde inteira, entre horas marcadas, tentando manter o lugar em ordem, e descobrir onde Kevin foi. Ela pensou em Aaron Corbet. Ele certamente era a pessoa para ajudala na ausência de Kevin. Ela procurou o arquivo do cachorro dele na mesa dele e começou a ler. As palavras ‘mordida de guaxinim’ aparecia como um dedão machucado. Katie já viu várias mordidas em seus anos como veterinária – e a do Gabriel não foi causada por um guaxinim. Ela não tinha nem certeza se a mordida era de algo que andava nas quatro patas. Na verdade, a ferida parecia como se tivesse sido feita por uma pequena criança. Algo a mais para adicionar a estranheza de Blith, ela pensou. A veterinária suspirou e fechou a pasta com os papéis. Ela foi para o gabinete de


arquivos próximo a mesa e puxou a gaveta. Katie colocou o arquivo de Gabriel junto com os outros que ela tinha organizado e tentou fechá-la. Mas alguma coisa estava bloqueando. Ela colocou a mão e apalpou atrás da gaveta. Ás vezes algum arquivo saia do lugar e ficava preso na correia. Sua mão se fechou no que se parecia com um livro. Ela o removeu e fechou a gaveta. Provavelmente era algum livro de anotações de um veterinário, ela pensou, trazendo-o para a mesa para dar uma olhada. Era um livro de anotações, certo, mas era bem mais pessoal: o diário de Kevin. Ela lembrou dele escrevendo nisso toda noite antes de se deitar. Era uma coisa que começou na faculdade. Ajuda a organizar meus pensamentos, ele disse uma noite em que ela perguntou sobre o hábito. Ela folheou as páginas e parou na data 1º de Junho? Vi outro hoje na minha caminhada. Juro que eles estavam me espiando. Me dá arrepios. Pergunto-me o que Katie iria pensar disso. Essa foi a hora exata que ela recebeu o primeiro e–mail dele. Com uma sensação engraçada na boca do estômago, Katie virou para a data mais recente para a última mensagem que ele mandou: 8 de Julho. Encontrei outro e coloquei no freezer com os demais. Não sei a causa. Não quero alarmar as pessoas ainda. Nunca em todos os meu anos vi algo como isso. Eu me pergunto se tem algo a ver com como os animais tem se comportado estranho ultimamente. Eu posso jurar que eles estavam me espiando. Eu preciso de que mais alguém veja isso – alguém que eu confie. Eu vou pedir para Katie vir. Estou me sentindo um pouco assustado agora, e será bom encontra-la. – Que diabos você está falando? – Katie disse para o diário, sua frustração aumentando. Era a última coisa escrita e, como as outras, revelou nada. Katie colocou o diário na mesa e pensou no que acabou de ler. – Você encontrou algo e colocou no freezer, – ela disse consigo mesma, roendo as unhas. Seus olhos escanearam a área, e se levantou. – Tudo bem, vamos dar uma olhada, então. – Ela não viu um freezer, apesar de que a maioria dos veterinários tem um para manter algumas amostras. Deve ter um por aqui em algum lugar, ela pensou.


Ela se afastou da mesa e foi em direção as salas de exame. No final do corredor tinha uma porta que inicialmente pensou que seria um closet. Katie agarrou a maçaneta, girou, e se encontrou vendo um lance de escadas de madeira que desapareciam na escuridão. Ela tateou a parede a procura de iluminação, não encontrando nenhuma, ela usou a parede fria para se guiar. No fim da escada ela podia ver a forma de uma lâmpada que parecia suspensa na escuridão. Ela alcançou-o e puxou a corrente. A lâmpada ascendeu, iluminando a área suja abaixo do prédio. Ela reconheceu a bicicleta de Kevin, equipamento de esqui, e até uma canoa, mas foi o freezer no canto mais distante que chamou sua atenção. Se enfiando no meio de casacos de inverno pendurado nos canos, Katie se aproximou do freezer. Estava em frente da máquina sentindo uma onda gelada irradiar dela. Seus dedos começaram a formigar de ansiedade. – Vejamos o que te assustou, Kev – ela disse em um sussurro, abrindo o freezer. Uma nuvem de ar gelado se levantou, e ela inalou o gás congelado em seus pulmões, tossindo. O peculiar cheiro de coisas mortas congeladas encheu o ar, e notou bizarros símbolos nos sacos ao longo do freezer. Ela abaixou, pegando um dos sacos. Estava coberto em uma pequena camada de gelo, escondendo o que tinha dentro, e Katie tirou a camada de gelo para poder ver o que tinha. A coisa dentro do saco a olhou com congelados olhos esbugalhados e mortos. – Caramba, – Katie McGovern disse enquanto observava a espécie no saco plástico. Um arrepio sinistro desceu sua espinha, fazendo-a tremer. – Agora sei por que você estava assustado.

Stephen Stanley se escondeu em uma parte escura de sua mente, tentando com todas as forças se segurar nas coisas que o faziam ser quem ele era – momentos que deixaram incríveis marcas em seu fraco consciente. Mas a dor excruciante estava automaticamente levando essas memórias embora. Uma por uma elas desapareciam: o azul, azul do céu coberto de pássaros; o formigamento cinza e branco da televisão; o cachorro amarelo correndo no jardim com uma bola vermelha na boca; Mamãe e Papai o segurando, o beijando. E Aaron – seu protetor, seu companheiro – tão bonito.


Tão bonito. Cinco Archons circulavam o corpo da criança e continuaram o ritual que tão frequentemente acabava em morte. Stephen lutou fortemente enquanto o Archon Jaldabaoth pintava símbolos de transfiguração em sua nua, e pálida pele, murmurando sons e palavras que uma boca humana nunca conseguiria. Archon Oraios enfiou uma longa agulha de ouro no estômago da criança para implantar as mágicas sementes da transformação. As feridas na carne de Stephen começaram a formigar – a queimar. O garoto berrou enquanto seu corpo era submetido a dolorosas mudanças. Archon Jao colocou uma mão delicadamente na boca da criança para silenciar seus gritos. As coisas estavam indo ótimas, e os Archons esperavam pacientemente enquanto a transformação acontecia. Logo não sobraria mais nada de Stephen. Sua lembrança de Aaron brilhava, o conforto desse amor diminuía uma pouco a dor que ele, um garoto de sete anos estava sendo obrigado a suportar. Aaron iria vir por ele. Aaron iria resgatá-lo da dor; ele só precisava se apegar aquilo que ainda restava. Archon Sabaoth foi o primeiro a notar. Ele abaixou sua cabeça e começou a escutar. Sons estavam vindo do corpo da criança – outros além dos gritos de sua dor. Sons de algo quebrando, rasgando, triturando: O corpo do garoto tinha começado a mudar – a crescer – evoluir além de seus sete anos. Essa era a parte mais perigosa do ritual, e os Archons estudavam o garoto com olhos vidrados, procurando por sinais que a mágica talvez tivesse ido embora. Archon Katspiel se lembrou de um caso em que a estrutura óssea cresceu desproporcionalmente, deixando a pobre criatura horrivelmente desconfigurada. Sua mente foi destruída psicologicamente pela dor que foi obrigado a suportar. Foi uma pena, realmente, aquele caso tinha um grande potencial – tanto quanto este último. Stephen suportou tanto quanto aguentou, se agarrando a última memória de seu irmão, amigo e protetor – mas estava desaparecendo, parte por parte. Ele queria se segurar nela, lembrar o lindo rosto do menino que prometeu nunca deixa-lo, mas a dor era imensa. Qual era o nome do garoto? ele se perguntou enquanto se curvava, sem saber a resposta, sem se importar. Não importava. Agora era só dor. Ele era a dor – e a dor era ele. Archon Erathaol abriu as ataduras em volta dos pulsos e tornozelos do sujeito


enquanto os outros assistiam. Parece que o ritual foi um sucesso, eles observaram enquanto o sujeito se curvava em uma posição fetal. O que uma vez foi uma criança indefesa era agora um adulto, seu corpo alterado em perfeito físico, e sua sensibilidade para o sobrenatural altamente elevada. Os Archons obtiveram sucesso em sua tarefa. Verchiel ficaria satisfeito.


Era bem possível que fosse o melhor bolo de carne que Aaron já comeu. Ele enfiou na boca a última garfada de purê de batatas e ervilhas, deixando uma boa porção de bolo de carne sem comer. Gabriel estava ao lado da cadeira olhando pateticamente com uma poça de baba entre as patas.

Aaron olhou para a Sra. Provost por sobre a mesa da cozinha. Ela estava bebericando uma xícara de café instantâneo – feito com saquinhos de café, não aquela droga granulada, ela o tinha informado.

– Você se importa? – ele perguntou, apontando para o pedaço de carne coberto por um molho escuro e apontando para o cachorro.

– Eu não me importo – ela disse, tomando um gole do café. – Eu teria dado a ele um prato se você deixasse.

Aaron pegou a carne e deu para Gabriel. – Ele já jantou, e além disso, muita comida de gente não é bom para ele – ele disse enquanto o cachorro devorou, de forma gulosa, a carne dos dedos dele, tendo certeza de lamber cada gordurinha e molho dos dedos. – O faz ter gases.

– Você está tentando me deixar constrangido?– Gabriel resmungou, lambendo os beiços.

Aaron riu e esfregou as orelhas macias e aveludadas do cachorro amarelo.

– Isso é algo que eu entendo – a senhora disse, se levantando do assento. – Alguns dias


eu me sinto como aquele dirigível para pneus25, tão cheia de gases.

Aaron conteve uma risada.

Ela alcançou o prato dele por sobre a mesa e o empilhou sobre o dela. – A refeição não poderia ter sido tão ruim– ela disse, encarando o prato dele vazio. – Eu nem tenho que lavar esse aqui – ela disse com um sorrisinho sábio.

– Eu não quis ser um porco – Aaron disse enquanto a Sra. Provost levava os pratos sujos para a pia. – Estava realmente bom. Obrigado de novo.

Ela abriu a torneira e começou a lavar os pratos. Aaron pensou em perguntar se ele poderia fazer isso por ela, mas algo lhe disse que ela provavelmente diria apenas algo indecente, então manteve a oferta para si. Quando ela quisesse que ele fizesse alguma coisa, tinha certeza de que ela não seria tímida em pedir.

– De qualquer forma, eu estava cozinhando pra mim – Sra. Provost disse, esfregando um dos pratos do jantar com uma esponja em formato de maçã. – E além disso, é bom ter companhia para jantar de vez em quando.

Aaron se perguntou se a senhora estava solitária desde a morte do marido. Ele não tinha visto evidência de crianças ou netos.

Mas por outro lado cozinhar para alguém pode ser um verdadeiro pé no saco depois de algum tempo... faz você lembrar porque antes você estava comendo sozinha.

Bom, talvez ela estivesse bem afinal de contas. Ela deixou os pratos no escorredor e pendurou o pano de prato sobre o cabide de metal preso em frente ao armário abaixo da pia. Então ela voltou para a mesa para terminar o café. Aaron não tinha certeza se ele devia agradecê-la e ir para o seu quarto ou ficar e conversar. A cozinha estava silenciosa exceto pelo zunido do refrigerador no canto e da respiração ritmada 25

se referindo ao dirigível da Goodyear


de Gabriel enquanto ele se afastava para dormir;

– De onde você é, Aaron? – Sra. Provost perguntou abruptamente enquanto ela levava a caneca de café até a boca.

– Sou de Lynn – Lynn, Massachusetts – ele esclareceu.

– Não achei que fosse Lynn, Dakota do Norte – a senhora respondeu, colocando a caneca sobre o tampo da mesa cinza manchado. – A cidade do pecado, hum? Tem família lá?

A expressão dele deve ter mudado dramaticamente, porque ele viu um olhar de incerteza nos olhos dela. Ele não queria que ela se sentisse mal, então respondeu da melhor forma que soube. – Eu tinha – ele disse enquanto olhava para as mãos que estavam espalmadas sobre a mesa. – Eles morreram em um incêndio algumas semanas atrás.

– Sinto muito – Sra. Provost disse, agarrando a xícara de café com as duas mãos.

Aaron sorriu para ela. – Está tudo bem – ele disse. – Verdade. É por isso que eu estou no Maine agora. Você sabe, mudar de cenário para tentar clarear minha cabeça.

Ela assentiu. – Já pensei em sair daqui uma vez – na época em que conheci meu marido – ela disse, com um olhar distante. – Porém nunca o fiz. Ao invés disso acabei me casando.

Sra. Provost se levantou abruptamente e levou a caneca de café para a pia. Gabriel acordou com um sobressalto e ergueu a cabeça do chão, querendo ter certeza de que não estava perdendo nada. Aaron se abaixou e acariciou o topo da cabeça dele. – Então você nunca saiu de Blithe? – ele perguntou enquanto ela lavava a xícara.

– Não. – Ela colocou a xícara no escorredor com os outros pratos. – Mas com frequência eu penso no que poderia ter acontecido se eu tivesse saído – se minha vida não teria sido diferente.


Estava ficando desconfortável na cozinha, e Aaron se viu fazendo uma pergunta antes que pudesse pensar sobre ela. – Você tem filhos?

Sra. Provost secou as mãos no pano de pratos e começou a arrumar a bancada. – Eu tenho um filho, Jack. Ele mora com a esposa e a filha em San Diego.– Ela tinha pego a esponja em forma de maçã da pia e estava limpando as partes superiores do conjunto de vasilhas. – Nunca fomos próximos, meu filho e eu – ela disse. – Depois que Luke morreu, que era meu marido, a distância cresceu mais e mais.

– Você já foi visitar eles? – Aaron perguntou, suspeitando que ele já sabia a resposta.

– Não – ela disse, limpando o balcão pela segunda vez. – Eles me compraram um desses computadores no ano passado, de Natal, então nós podíamos manter contato por e–mail e tudo mais, mas eu acho que Internet não é confiável. Ela e a Rede de Compras em Casa.26

– Você tem um computador? – Aaron ficou empolgado de repente. Fazia dias desde que ele teve a oportunidade de checar seus e–mails e se comunicar com Vilma.

– Foi o que eu disse, não foi? – Sra. Provost apontou para a sala. – Está no escritório fora da sala – ela disse. – Meu filho insiste em pagar por isso mesmo que eu nunca toque no negócio. Você pode usar se quiser.

– Obrigado – ele disso.

– Mas não vá olhar pornografia – ela avisou, colocando a esponja em forma de maçã de volta ao seu lugar do lado da pia. – Eu não tolero pornografia nessa casa – isso e a Rede de Compras em Casa. Camael sabia que não estava em Aerie, mas uma voz dentro de sua mente tentou convencê-lo de que estava.

26

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– Acalme-se, anjo – disse a presença que sussurrava, presa em seus pensamentos ardentes. – É isso que você procurou.

Ele queria muito acreditar nisso, para sucumbir aos desejos da linguagem reconfortante e finalmente baixar suas defesas.

– Bem vindo a Aerie, Camael – ele falou suavemente. – Estivemos esperando por tanto tempo você chegar.

Uma imagem de Aaron – o Nephilim – tremeluziu em sua mente. Se isso realmente é Aerie, ele vai precisar ser trazido aqui, Camael pensou enquanto tentava se mover dentro do fluido espesso e viscoso que o rodeava. Rebentos musculares se apertavam ao redor de seu corpo, o segurando firme.

– Não há motivo para se preocupar – a voz soou de modo tranquilizante. – O garoto vai chegar a tempo. Esse é o seu momento, guerreiro. Se deixe levar e permita que Aerie seja tudo que você desejou.

O saco de membrana ao redor dele começou a pulsar, um ritmo pulsante que pretendia embalá-lo em uma complacência tranquila. A batida do coração do refúgio.

– Baixe sua guarda, anjo – a voz ordenou. – Você não pode viver tudo pelo qual desejou – até que você se entregue completamente a mim.

Bem lá no fundo, Camael sabia que isso era errado. Ele queria lutar contra isso, evocar uma espada de fogo e queimar a nuvem insensata que parecia envolver sua mente, mas ele não tinha forças.

– Suas dúvidas são um obstáculo, guerreiro. Coloque-as de lado, conheça a serenidade que você se esforça para alcançar. Não sendo mais capaz de lutar, Camael fez o que foi mandado e a grande besta que fingia ser a voz do santuário, Ela começou a se alimentar.


Após algumas horas de conversa fiada, Aaron finalmente foi capaz de usar o computador quando a Sra. Provost anunciou que estava indo para a cama. Ele escorregou o mouse suavemente pela superfície azul brilhante do mouse e clicou em Enviar. – Pronto – ele disse, enquanto o e–mail desaparecia no espaço cibernético a caminho de Vilma.

– O que você disse? – perguntou Gabriel, que descansava no chão do estreito escritório.

– Na verdade, nada. – Aaron deu de ombros. Ele começou a desligar o computador. – Eu disse que estava pensando nela e que espero que ela esteja bem. Conversa fiada, só isso.

– Você gosta dessa fêmea, não gosta, Aaron?

– Eu não gosto de pensar nessas coisas, Gabriel – ele disse, desligando o computador e se reclinando na cadeira do escritório. Ele passou os dedos por seus cabelos escuros. – Verchiel e seus capangas iriam adorar se vingar de mim indo atrás de Vilma. Para o bem dela, e–mail é a coisa mais próxima que vamos ter por um longo tempo. – Ele deu uma pausa, desejando que pudesse mudar as coisas. Então ele balançou a cabeça. – É o melhor jeito.

– Pelo menos você pode falar pelo computador – Gabriel disse, tentando ser positivo.

Aaron se levantou e apagou a luz. – É, eu acho que é alguma coisa – ele disse, e os dois saíram do escritório silenciosamente, indo para o quarto.

Lá dentro, Aaron tirou a roupa e se preparou para deitar. – Você vai dormir comigo ou vai ficar no chão? – ele perguntou ao cachorro.

Gabriel andou em direção À manta de lã no chão e a cheirou. – Eu acho que vou dormir aqui essa noite – ele disse enquanto andava em círculo antes de desabar no centro da manta.

Aaron puxou as cobertas da cama e se arrastou pra baixo delas. – Bom, se você quiser subir me acorde e eu te ajudo.


– Eu vou ficar bem aqui embaixo. Assim eu posso me esticar sem me preocupar em te chutar e machucar minha perna.

Aaron apagou a luz ao lado da cama e disse boa noite ao seu melhor amigo. Ele não tinha percebido o quanto estava cansado. Seus olhos rapidamente ficaram pesados e ele se sentiu, indo para as profundezas do sono.

– E se ele não voltar?– Gabriel perguntou de repente, com suas palavras fazendo com que Aaron ficasse alertadamente consciente.

– O que foi, Gabe? – Aaron perguntou de forma sonolenta.

– Camael – o cachorro disse. – E se Camael não voltar? O que nós vamos fazer então?

Era uma boa pergunta, e era uma que Aaron vinha evitando desde que o anjo desapareceu naquela tarde. O que ele faria sem a orientação de Camael? Ele pensou sobre o poder de natureza diferente que existia dentro dele, e seu coração começou a acelerar. – Eu não me preocuparia com isso, amigo – ele disse, sendo a sua vez de ser positivo. –Provavelmente ele está fazendo coisas de anjo em algum lugar. É isso. Ele vai voltar antes que a gente perceba.

– Coisa de anjo – Gabriel repetiu uma vez, e então mais uma vez. – Provavelmente você está certo – ele disse, temporariamente satisfeito. – Nós o veremos amanhã.

– Isso – Aaron disse de novo, fechando os olhos que pareciam ter virado chumbo. – Nós o veremos amanhã.

Antes que percebesse, Aaron foi puxado para as profundezas do sono, afundando mais e mais no abismo negro da inconsciência, sem nem um sinal de luta.

Mas alguma coisa estava esperando.

Aaron não podia respirar.


O aperto do pesadelo o segurou rápido, e não importa o quanto ele lutasse pra acordar, ele não podia se libertar daquele contagioso aperto de terror.

Ele estava envolvido por um saco feito de carne um casulo de algum tipo, e de suas paredes cheias de veias era produzido um fluido de cheiro podre. Aaron lutou dentro da bolsa, a substância leitosa subindo constantemente até bater em seu queixo. Logo iria cobrir seu rosto, encher sua boca e narinas, ele começou a entrar em pânico. Então sentiu algo dentro do saco com ele, algo que se enrolava ao redor de seus braços e pernas tentando fazer com que ele se debatesse ao mínimo. Aaron sabia que aquela coisa queria segurá-lo em seu abraço apertado para que o fluido pudesse cobri-lo completamente em sua podridão. Seu corpo ficou paralisado.

– Não – ele gritou enquanto um pouco da substância espessa e gelatinosa espirrou em sua boca. Tinha gosto de morte e o deixou entorpecido.

Ele teve sonhos similares quando suas habilidades angelicais começaram a se manifestar. Naquela época não se importava com eles, e se importava menos ainda agora. Ele intensificou a batalha para se libertar, mas o pesadelo não abrandava, continuando a segurá-lo em um firme aperto.

Aaron estava completamente submerso agora, o fluido morno o fazia afundar, o levando para um lugar onde ele poderia parar com toda a luta. E quase teve sucesso.

Quase.

De repente, em sua mente, ele viu uma espada de luz. Era a mais magnífica arma que ele já tinha visto. Nunca, em toda sua imaginação, poderia ter construído uma espada tão poderosa e grande. Era como se a espada tivesse sido forjada de um dos raios do sol.

Enquanto ele a alcançava, ela irradiava um brilho radiante e sobrenatural, queimando o casulo cheio de líquido que o segurava e a esfera que habitava.

Ele acordou de sobressalto, o corpo ensopado de suor. Gabriel tinha se juntado a ele na cama, e seus olhos castanhos brilhavam de forma assustadora em uma estranha luz que dançava ao redor do quarto.


– Gabriel, o que...– ele começou, sem fôlego.

– Bela espada – o cachorro disse, simplesmente.

Totalmente acordado agora, Aaron percebeu que ele segurava alguma coisa na mão esquerda. Devagar ele dirigiu o olhar para ela, para o que ele trouxe do reino do pesadelo.

Uma espada de sol.


– O que você acha que isso significa? – Gabriel perguntou a partir do pé da cama, quando Aaron saiu do banho e pegou uma camisa limpa. Ele empurrou os braços nas mangas e puxou a camiseta vermelha para baixo sobre seu estômago.

– Foi como os sonhos que eu tinha antes desta coisa toda de Nephilim explodir – ele disse, alisando os cabelos no espelho e decidindo que parecia bem. – Onde eu estava experimentando velhas lembranças que não me pertence.

– Como a espada? – O cão perguntou.

Aaron tremeu quando lembrou da incrível vista da espada, que parecia ter sido trazida do sonho. Ele sabia que não era responsável pela criação da lâmina. Ele tinha certeza que pertencia a alguém de grande importância, mas a pergunta era quem e por que a arma foi dada a ele. E só ficou com ele por um curto período de tempo. Como se sentisse que já não era necessária, ela se dispersou em uma explosão ofuscante de luz. – Assim como a espada – Aaron finalmente respondeu. – E como os sonhos, eu acho que foi dado para me ajudar.

– Eu pensei que tudo era muito assustador – disse Gabriel, e suspirou enquanto descansava seu focinho entre as patas.

– Eu concordo – disse Aaron, sentado ao lado do cão para colocar seu tênis – mas tudo tem algo a ver com esta cidade.

– Isso é um mistério? – Gabriel perguntou, sua orelhas de abano, de repente alegre.


Aaron riu e deu uma afanada na cabeça do cachorro. – É certamente. Escute, eu tenho que ir para a clínica, esta manhã, mas você precisa ficar aqui e dar a sua perna a chance de curar. Por que não pensa em todas as nossas pistas e veja se você consegue algumas respostas.

– Eu sempre quis resolver um mistério – disse Gabriel, feliz.

– Está bem então, Scooby. – Aaron deu um outro safanão no cão de estimação e se dirigiu para a porta.

– Scooby? – Disse o cão, a cabeça inclinada em um ângulo peculiar. – Ele é um cão na televisão, muito bom em resolver mistérios.

Gabriel inclinou a cabeça para o outro lado.

– Não se preocupe – Aaron disse quando saiu para o corredor. – Isso não é importante. Vejo você esta tarde.

– Tenha um bom dia, Salsicha – ele ouviu o cachorro dizer quando ele fechou a porta. E ele começou a rir, maravilhado novamente o quão esperto seu amigo havia se tornado. Aaron estava ocupado na clínica veterinária a partir do momento que entrou pela porta. Ele não achava possível que uma cidade tão pequena, ter muitos animais que precisam de cuidados. Pontos, vacinas de raiva, testes dirofilariose27, uma pata quebrada, você nomearia isso, ele e Katie lidaram com isso naquela manhã e durante a tarde.

É uma sensação boa, estar trabalhando com animais de novo, Aaron pensou quando conteve um terrier escocês particularmente mal-humorado, com o nome de Mike, que estava fazendo alguns exames de sangue. A dirofilariose é zooantroponose, considerada emergente, causada pela Dirofilaria immitis. O gênero Dirofilaria tem a origem do seu nome no latim Diru (cruel, desumano) e Filaria (novelo de linha). Acomete, principalmente, cães, podendo atingir, em menor escala, outros mamíferos domésticos e silvestres e o homem. 27


– Não machuque que eu não machuco! – o pequeno cão ganiu quando seu dono observava, a preocupação em seus olhos.

– Está tudo bem – disse Aaron para o cão. – Quando estiver feito, você pode ter um "biscoito" e ir para casa. Tudo bem?

O cão parou imediatamente o seu esforço.

– É isso – disse Katie, colocando o frasco sobre o balcão e se voltando para o proprietário. – Vou mandar isso para o laboratório esta tarde e lhe dar um retorno assim que souber alguma coisa.

Aaron entregou Mike de volta para seu dono e os escoltaram até o saguão para liquidar a fatura. – E não se esqueça disso – ele disse, segurando um biscoito quando a mulher se virou para sair.

A mulher sorriu, e Mike avidamente devorou o cookie.

– Eu nunca menti – Aaron disse para o cão com uma piscadela e oferece-los um adeus.

– Próxima vítima – disse Katie, cansada, saindo da sala de exame. Pela primeira vez naquele dia, a sala de espera estava vazia.

– Estamos bem agora – Aaron disse. – A próxima é, ele olhou para o livro de agendamento – uma vacina de raiva para as quatro. Nos dá duas horas até lá.

– Você sabe, você é realmente bom com eles – Katie disse, encostada à mesa.

– Ora, muito obrigado, doutora – Aaron disse, sorrindo. – Eu aprecio o trabalho.

– Não, na verdade, eles parecem confiar em você. É um talento que você não vê com


tanta frequência.

–Bem, vamos apenas dizer que eu falo a língua deles – ele disse ele com um sorriso.

Katie abanou a cabeça e olhou para o relógio. – Você diz que nós temos duas horas antes do próximo compromisso?

Aaron fez que sim.

Ela foi para a porta, tirou um anel de chaves do bolso e trancou a porta da frente. – O que acontece? – ele perguntou, um pouco surpreso. – você está sendo um companheiro legal, estranho neste lugar, eu tenho algo que eu quero mostrar para você – ela disse passando por ele e pelo corredor. – É no porão.

Aaron a seguiu até a porta no final do corredor. Havia uma súbita tensão no ar que não tinha estado lá antes, e o preocupava. – Isso tem alguma coisa a ver com seu antigo namorado? – ele perguntou.

– Sim – ela disse com um ligeiro aceno. – Eu acho que sim. – Ela abriu a porta e começou a descer as rangentes escadas de madeira para a escuridão. – Kevin entrou em contato comigo, me pedindo para vir para Blithe para ajuda-lo com algo, mas ele não foi muito claro quanto ao que era o problema.

Ao pé da escada, ela chegou em uma escuridão e puxou a corrente para a luz, que dissipou as trevas dos cantos da sala subterrânea. – Então eu apareci e o achei desaparecido – ela continuou, enquanto esperava que Aaron se juntasse a ela. – O escritório estava em desordem. Ele não esteve aqui para as consultas pelo menos quatro dias. – Katie correu a mão trêmula pela testa. A curiosidade de Aaron foi aguçada, mas algo estava claramente perturbando Katie, e esse era o motivo de preocupação.

– Sim, ele era um pouco estranho, e isso é parte da razão pela qual não estavamos mais juntos, mas ele levava seu trabalho muito a sério. Eu mesmo fui à polícia para reportar pessoa desaparecida, mas o Chefe Dexter disse que eu devia lhe dar algum tempo, como ele colocou? – Apenas no caso dele estar fora, semeando sua veia selvagem. – O veterinária riu com pouco


humor.

– O que você achou, Katie? Aaron perguntou baixinho. Ela olhou para ele, então se voltou para um freezer velho no canto.

– Primeiro eu achei o seu diário, e isso mencionava, coisas que ele havia encontrado na cidade.

– Que tipo de coisas?

Respirando fundo, Katie cruzou a adega para o freezer. Aaron acompanhou de perto, por trás dela.

– Coisas erradas – ela disse, abrindo a tampa do aparelho. – Veja por si mesmo. – Katie chegou dentro das entranhas geladas do congelador e retirou um saco plástico. Ela deixou a tampa se fechar, então colocou a bolsa em cima e a abriu, derramando o conteúdo congelado. O cadáver de um animal caiu sobre o capô com um baque forte, e Aaron recuou, surpreso e um pouco repelido.

– O que é isso? – ele sussurrou enquanto estudava o corpo coberto de gelo. Era do tamanho de um gato doméstico médio e tinha alguma semelhança com, a de todas as coisas, um guaxinim, mas não era nem de perto. Nem por isso. O corpo estava coberto de pêlo longo e cinzento, mas os membros eram escamosos, como um peixe. garras curvas como a de uma ave de rapina cresciam de três dos seus pés, o quarto terminava em um tentáculo atrofiado.

– O que é isso? – Aaron perguntou de novo, incapaz de tirar os olhos para a visão bizarra.

– Seu palpite é tão bom quanto o meu – respondeu Katie. Ela tirou uma caneta do bolso do casaco de laboratório e começou a cutucar o cadáver. – Isso não poderia ser o que mordeu o seu cão não é?


Aaron sacudiu a cabeça. Era feio como um Orixá, mas não tinha nenhuma conexão com a lesão de Gabriel.

– Parece ser um pouco de tudo, uma verdadeira mistura evolutiva. – Katie deu de ombros e continuou. – Temos alguns atributos de pássaros e roedores, bem como peixe, e há também um pouco de cefalópodes jogado em boa medida. – Ela puxou a caneta fora e limpou-a contra a perna da calça. – E isso é só um. – Ele olhou para ela duramente.

– Há mais? – ele perguntou inquieto.

Ela assentiu com a cabeça, apontando para o freezer. – Há pelo menos sete outros lá dentro, cada um mais grotesco que o anterior. Uma, talvez duas, poderia passar como se a Mãe Natureza teve um dia ruim, mas essa quantidade?

– O que você acha que isso significa? – Aaron perguntou, olhando para a monstruosidade em cima do freezer e imaginando com nojo como se pareceria por dentro.

– O que eu acho que isso significa? – Katie repetiu. Ela começou a colocar a caneta de volta no bolso, depois pareceu pensar melhor e a jogou em um barril velho ao lado do forno. – Eu acho que alguma coisa nesta cidade está fazendo monstros.

Aaron e Katie se apressaram do porão, como se as perturbadoras criaturas no congelador, de repente ganhassem vida e estivessem os perseguindo. Silenciosamente, perdido em seus próprios pensamentos, eles voltaram para o saguão, onde Katie abriu a porta da frente.

– Então você pode ver porque estou um pouco assustada – ela disse, esfregando os braços com as palmas das suas mãos como se quisesse eliminar frio de inverno.

– Você tem alguma ideia do que está causando isso? – Aaron perguntou, se inclinando


contra o balcão da recepção. A memória do sonho da noite anterior e seu confronto ontem com o estranho guaxinim de repente inundou sua mente e o fez vacilar. Poderia isso de alguma maneira estar conectados?

– Parece ser algum tipo de mutação – Katie estava dizendo. Ela caminhou ao redor da mesa e foi abrindo a gaveta de baixo. Procurou dentro por um momento, então removeu um pacote fechado de Oreos28. Ela abriu o saco e colocou um em sua boca. – Desculpe – ela disse com a boca cheia.

Ela lhe ofereceu o pacote. – Eu tenho um desejo incrível por isto quando estou estressada. – Aaron pegou alguns biscoitos quando Katie continuou com sua teoria. –Talvez algum tipo de dumping29 de substancias químicas ilegais ou de fabricação de medicamentos. – Katie mordiscou como um esquilo em um Oreo, os olhos olhando para o espaço. – Algo que pode mudar um animal em um nível genético ...

– Aqui? – Aaron perguntou, surpreso. – Nem existe uma indústria grande o suficiente por aqui para causar esse tipo de dano? –

Katie terminou sua bolacha e pegou outra. – Não mais, mas costumava haver um negócio na cidade de fabricação de barcos. O importante empregador foi o major Blithe antes de fecharem 15 anos atrás. A fábrica abandonada ainda está de pé na água. Evidentemente, os donos queriam se expandir, mas a terra era instável devido a cavernas subaquáticas que cobria a costa como uma colmeia. Então eles levaram a empresa para a California.

– O que, você é uma especialista em Blithe? Eu pensei que você fosse de llinois. – Aaron riu, lambendo as migalhas de suas mãos. Katie deu de ombros.

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Bolacha recheada Oreo– http://www.blablaismo.com.br/wp–content/uploads/2010/05/Oreo.jpg

Dumping é uma prática comercial que consiste em uma ou mais empresas de um país venderem seus produtos por preços extraordinariamente abaixo de seu valor justo para outro país (preço que geralmente se considera menor do que o que se cobra pelo produto dentro do país exportador), por um tempo, visando prejudicar e eliminar os fabricantes de produtos similares concorrentes no local, passando então a dominar o mercado e impondo preços altos. É um termo usado em comércio internacional e é reprimido pelos governos nacionais, quando comprovado. Esta técnica é utilizada como forma de ganhar quotas de mercado.


– Eu ia me mudar para cá com Kevin antes da separação, então eu fiz alguma pesquisa.

– Você acha que algum tipo de resíduos tóxicos da fábrica de barco se infiltrou no solo? – Aaron pegou outro Oreo.

– Quando vim pela primeira vez na cidade na outra noite, eu fiquei um pouco perdida e me encontrei na estrada que leva à antiga fábrica. – Ela fechou a bolacha e retornou para a gaveta. – Havia uma enorme quantidade de atividade por lá, especialmente para um lugar que está supostamente abandonado. Eu acho que há algo acontecendo na Blithe, e eu acho que o meu ex percebeu isso, e é por isso que ele está desaparecido.

Aaron lembrou sua briga com o chefe da policia. Seria isso paranoia agora, ou esta pequena cidade a beira-mar realmente tem um profundo e escuro segredo? Ele não duvidava. Mas havia algo, algo que parecia falar para o lado desumano da sua natureza. Ele havia falado com Camael também, e agora, como ex-namorado de Katie, ele também estava desaparecido. – Talvez você deveria ir à polícia do Estado – sugeriu. – Isso seria provavelmente a coisa mais inteligente a fazer, especialmente se você acha que Kevin poderia ter–

Katie abanou a cabeça enfaticamente. – Não, ainda não. Eu tenho que ter certeza dos detalhes antes de começar a fazer loucas acusações.

Aaron sentiu um nó começar a se formar na boca do estômago. – E os detalhes são ...?

– Eu quero fazer check–out da fábrica hoje. – O nó no estômago cresceu desconfortavelmente apertado.

– Eu não estou certo de que é uma boa ideia, Katie.

– É a única maneira que eu posso pensar de provar que algo está acontecendo aqui. Não se preocupe – ela acrescentou com um sorriso nervoso. – Eu vou ficar bem. Vou bisbilhotar um pouco, obter as provas que eu preciso, e estar de volta aqui em um momento. Sirenes de alarme estavam tocando na cabeça de Aaron, mas duvidou que houvesse qualquer coisa que poderia dizer para mudar a determinação da mulher. A voz da razão lhe


disse que estava indo lamentar seriamente o que estava prestes a dizer, mas odiava ainda mais a ideia de Katie ir sozinha. – Eu vou com você – ele rapidamente antes que pudesse mudar de ideia.

Katie se aproximou dele, um olhar genuíno de gratidão em seus olhos. – Você não precisa – ela disse e estendeu a mão para tocar seu ombro. – Este é algo que tenho que fazer, apenas no caso de Kevin

– Não, eu vou com você – Aaron interrompeu.

Ele deu de ombros. – Afinal, nós de fora-da-cidade temos que ficar juntos. – Antes que pudessem dizer mais nada, a porta se abriu e uma mãe e dois filhos entraram transportando um coneteiner de animais30 de estimação com um gato miando.

– As quatro horas, eu acho – Aaron disse, olhando para o relógio. – Um pouco mais cedo.

– Obrigado, Aaron – . Katie olhou diretamente em seus olhos antes de sair de trás do balcão para acompanhar a família na sala de exame. – O que eu faria sem você?

30

aquelas gaiolinhas para trasportar animais, que vende em pet shop.


Gabriel acordou sobressaltado. Ele havia sonhado que estava perseguindo um coelho por uma floresta densa, encurralando e se agachando sob densos arbustos e galhos baixos, quando seu sonho adormecido voltou inesperadamente ao pesadelo. O coelho parou e virou-se para encara-lo com olhos que não lhe pareciam certo. Eles eram invulgarmente escuros, quase líquido em seu brilho, e quando eles piscavam, um revestimento leitoso parecia cobri-los brevemente. Gabriel tinha visto muitos coelhos em seus últimos anos, mas nunca um que era assim. Era errado, o coelho estava errado.

Seu corpo começou a contorcer-se, ondular como se algo dentro dele estivesse tentando sair. Lentamente, cautelosamente, Gabriel afastou, rosnando em seu tom mais ameaçador. O animal estava no chão. Seu corpo continuando a pulsar e vibrar, seus assustadores olhos nunca deixaram o cão. Gabriel vociferou: Uma sucessão interrupto de explosões afiadas e rosnados, esperando assustar o coelho para longe. Ele queria correr, mas não queria virar as costas para a criatura. Quão embaraçoso, ele tinha pensado nas garras de seu pesadelo, ser perseguido por um coelho.

O coelho de repente parou de se mover, embora o seu firme olhar nunca deixou Gabriel. Lentamente, sua boca começou a abrir maior e ainda mais vasta. O coelho ouviu um úmido estalo perturbar, quando as mandíbulas do animal surgiram a partir de sua boca. Ele quis correr, mas estava com medo. Mandíbula do coelho estava pendurada terrivelmente, sua boca um abismo enorme de trevas. De dentro, o som do movimento chegou. Gabriel gemeu com medo e foi se virando para fugir, quando alguma coisa explodiu a partir do corpo do coelho ....

Ainda abalado com o sonho perturbador, Gabriel olhou sobre o quarto para a coluna em cima da cama, contorcendo o nariz, procurando no ar por qualquer coisa fora do comum. Tudo parecia estar bem, mas depois pegou um cheiro de algo que fez sua boca começar a


encher de água. Comida, e se pudesse confiar em seus sentidos, era naco de carne. Ele tinha comido no café da manha e metade de uma maçã antes de Aaron sair para trabalhar, mas a ideia de um lanche era muito sedutora.

Gabriel virou-se para farejar a ferida na perna. Aaron queria que ele ficasse quieto, mas ela estava se sentindo muito melhor. O cão saltou para o chão e estendeu as horas de inatividade de seus membros. Sentia-se bem, e mal notou algum desconforto. Ele caminhou em círculo ao redor da sala, só para ter certeza. Havia um pouco de aperto nos músculos da coxa, mas nada que pudesse impedi-lo de ir para baixo para uma comunicação.

Ele ficou parado na porta e pulou em suas pernas de volta para pegar a maçaneta com força em sua boca. Lentamente, ele virou a cabeça, puxando ligeiramente até que a porta estava aberta. Gabriel fez o seu caminho pelo corredor e desceu as escadas com cuidado. Ao pé da escada, novamente inalou, localizando a cozinha como a fonte de seu deleite, e foi direto para a porta.

Sra. Provost estava sentado na mesa da cozinha e estava prestes a morder um sanduíche de pão de carne, quando Gabriel apareceu.

– Bem, veja quem é – ela disse com uma sugestão de um sorriso. Ela deu uma mordida grande e começou a mastigar.

Gabriel andou para a cozinha, balançando o rabo, unhas clicando no chão de linóleo. Seus olhos estavam fixos no prato de comida, e ele lambeu os beiços de fome.

– Agora me deram os horrores da rotina de fome – Mrs. Provost disse quando limpava a boca com um guardanapo de papel e olhou para longe. – Aaron falou que não era para lhe dar qualquer coisa, mesmo se você viesse pedir.

Ele viu de perto quando ela mordeu a deliciosa combinação de pão e carne. Como Aaron pode fazer isso comigo de novo? Ele questionou, lembrando o incidente na parada de descanso. Sentiu a saliva começar a escorrer da boca e parar sobre o chão abaixo dele. – Não olhe para mim – disse a Sra. Provost, terminando a última parte da primeira metade. – Ele era muito sério, me fez prometer e tudo mais, então você pode muito bem ir de


volta para seu quarto. – Ela pegou a outra metade. Gabriel tinha certeza que ele nunca tinha estado com tanta fome, e não podia acreditar que a mulher não iria dividir ainda que um pequeno pedaço de seu sanduíche. Era muito egoísta. Lembrando o seu sucesso com a menina e sua família, ele chegou com sua mente para tranquilizar a mulher que Aaron não ficaria bravo se lhe desse apenas uma mordida. Tenho certeza de que seria bem se você me desse uma mordida de um sanduíche. Sra. Provost convulsionou violentamente quando sua mente suavemente roçou a dela. A mesa tremeu, derramando o copo de café ao lado de seu prato. Gabriel deu um passo atrás, assustado.

Ela tinha abaixado seu sanduíche para baixo por um momento, mas pegou novamente, abrindo a boca para dar uma mordida. Mais uma vez, Gabriel empurrou levemente, sugerindo que seria muito legal da parte dela dividir. Ela congelou e gradualmente virou em sua cadeira. Sua cauda abanou em antecipação quando ele se aproximou. Mas a velha olhou para ele, uma expressão estranha em seu rosto, como se nunca o tivesse visto antes. Ela ainda estava segurando o sanduíche na mão, e ele continuou com a esperança de que receberia uma parte dele, mas um instinto primitivo lhe disse que algo estava errado. Ele sentiu o pelo em suas costas começam a subir. Rapidamente o cão olhou pela cozinha para os sinais de perigo, o nariz se contorcendo ansiosamente enquanto procurava por um cheiro que estava fora do comum.

Havia uma sugestão de algo, mas ele não sabia o que era. Sra. Provost fez um estranho barulho na parte traseira de sua garganta e pele ao redor de seu pescoço parecia se expandir, como uma rã. E então ela piscou os olhos, num movimento lento, lânguido, e Gabriel viu que a mesma cobertura leitosa sobre os olhos que ele tinha visto no coelho, em seu sonho.

De repente, ele não se importava se tinha conseguido uma mordida do sanduíche naco de carne. Recuou para a porta sem tirar os olhos da estranha mulher de idade. O cheiro dela havia mudado. Era como o oceano, mas mais velhos. Ele tinha que encontrar Aaron. Gabriel se virou e correu para a porta da frente. Novamente, ele pulou e agarrou a maçaneta com os dentes. Ele podia ouvir sons de aproximação da mulher atrás dele. A maçaneta girou, e ele ouviu o estalido do trinco e outro som. A mulher estava tossindo muito alto, arduamente. Gabriel tinha acabado de puxar a porta aberta quando sentiu o primeiro dos projéteis atingindo a perna esquerda. Arriscou uma olhada rápida e viu um objeto circular, menor que uma bola de ténis coberto no piso molhado, espinhos brilhando, furando sua coxa. Quis arrancá-lo com seus dentes, mas temia os espinhas pudesse prejudicar sua boca. Aaron vai tirá-lo, Gabriel pensava quando voltou para a porta aberta. Mas a Sra. Provost estava tossindo novamente e ele sentiu as picadas de mais farpas à medida que o feria. De repente a porta parecia tão longe. Como pode ser isso? Gabriel perguntou. Ele estava correndo tão rápido quanto pôde, contudo, não parecendo estar indo em


qualquer lugar. Foi tudo tão confuso. Uma dormência horrível estava se espalhando por seu corpo, e ele caiu no chão na porta, o nariz apenas pegando uma pitada do cheiro do Maine de fora da cidade.

Mas havia algo que ele cheirava, e vinha da mulher. Gabriel sentiu as mãos lhe agarrando e arrastando seu corpo de volta para o corredor. Se cheira errado, pensou enquanto ele lentamente caía no esquecimento, como algo do oceano. Aaron não podia acreditar no que ele havia se comprometido.

Seus pensamentos correram quando ele saiu para se dirigir a casa da Sra. Provost. Eu tenho que estar louco. Mas era tarde demais, ele havia acordado em ajudar Katie na busca a fábrica abandonada, e era isso que estava indo fazer. Quem sabe, pensou, talvez eu serei capaz de descobrir o porquê eu tenho me sentindo tão estranho, ou onde Camael foi, isso era um fato.

– Sra. Provost? – ele gritou, caminhando em direção à cozinha. Ele estava esperando por algo para comer antes de sua Missão Impossível começasse. Seria tão fácil fazer um sanduíche, mas ele queria ter certeza que sua anfitriã não estava planejando outra coisa. Ele não queria irritá-la, algo lhe dizia que seria uma coisa ruim.

A cozinha estava vazia, mas notou um prato com meio sanduíche comido de pão com carne na mesa. Aaron voltou para o corredor e chamou novamente. – Mrs. Provost? Você está em casa?

Não obtendo resposta, decidiu ir para cima e verificar Gabriel. Ele teria de limpar a ferida do cão, em seguida, alimentá-lo e, provavelmente, pegar algo para comer antes de embarcar em suas manobras noturnas com Katie.

– Ei, Gabriel, como você está se sentido, garoto...– Aaron disse quando ele abriu a porta e entrou no quarto. Seus olhos caíram sobre a cama vazia, depois foi para o edredom no chão, e ele viu com uma apreensão crescente que, também, estava faltando o seu melhor amigo. Aaron entrou mais no quarto, deixando a porta aberta atrás dele.


– Gabriel – ele chamou de novo quando ele olhou em volta da cama, não encontrando nada. Ele começou a entrar em pânico. Talvez o cachorro tenha se machucado tanto que teve que ser levado ao veterinário, o que também explicaria o sanduíche meio comido e ausência da Sra. Provost. Aaron resolveu dar uma ligada para Katie, só para ter certeza.

Ele se virou para a porta e parou. Sra. Provost estava no corredor, apenas fora da porta.

– Você me assustou – Aaron disse com um sorriso surpreso. Quase imediatamente, ele sabia que algo não estava certo. – O que há de errado? – ele perguntou, avançando em direção a ela. – Onde está o Gabriel – ele está bem?

A mulher não respondeu. Ela simplesmente olhou para ele estranhamente com os olhos que pareciam muito mais escuros do que tinham sido antes.

– Sra. Provost? ele perguntou, parando em seu caminho. Instintos que só poderiam ser ligado à parte desumana de sua identidade começou a gritar em alerta: – Existe alguma coisa ... O pescoço da velha, de repente se inchou. Ela se inclinou para frente, tossiu violentamente, e expulsou algo em direção a ele.

A espada de seu pesadelo de repente estava nas mãos de Aaron, e instintivamente ele golpeou de lado os projéteis. A maioria explodiu em pó ao entrar em contato com a lâmina de luz, mas os pedaços de alguns caíram no chão de madeira, e ele tentou fazer sentido sobre o que estava vendo. Pareciam uvas gordas, uvas gordas com espinhos afiados, pareciam sair para fora dela. A velha grunhiu, com desagrado, um som borbulhante molhado como um cano entupido, e ele viu que sua garganta mais uma vez começou a se expandir. Aaron balançou a lâmina de luz branca, dirigindo seu brilho poderoso para o que ele tinha sido enganado em acreditar era uma mulher muito velha e legal.

– Não mais – ouviu-se dizer em uma voz que não parecia em nada com ele. luminescência da lâmina banhou Sra. Provost em sua luz sobrenatural, e sua garganta imediatamente esvaziou, expelindo uma nuvem de gases nocivos. Suas mãos calejadas subiram para proteger os olhos contra a luz cegante, e ele viu algo que gelou o sangue nas veias, por um segundo.


Aaron avançou em sua direção. – O que você é? – ele perguntou, sua voz potente. – E onde está o meu cão?

Onde está Gabriel?

A mulher se agachou no chão. Sua mente correu com a estranheza de tudo isso, e ele pensou nas coisas congeladas no subsolo da clinica. Isso estava tudo ligado? Se perguntou, e uma voz lá no fundo lhe disse que estava. Sra. Provost saltou do chão, um silvo desumano escapando de sua boca enquanto ela o atacava, a tentativa de golpear a lâmina para longe. O cheiro estranhamente doce de carne queimada perfumava no ar, e Aaron cambaleou para trás, assustado com o ataque. A velha gritava, mas mais parecia o grito de um animal em sofrimento. Atirou-se da sala, segurando sua mão ferida, onde ela havia tocado sua arma. Aaron desejou que a estranha espada se fosse e correu atrás dela. Sra. Provost estava correndo de forma irregular na direção da escada, como se ela já não estivesse no controle de suas funções motoras. Ele só podia assistir horrorizado quando seus pés ficaram emaranhadas e tropeçou, caindo abaixo das escadas e gritando um monte.

Aaron desceu os degraus quando o corpo da mulher derramou molemente na sala de estar. Ele se ajoelhou ao lado dela e chegou a tocar o pescoço procurando o pulso. Seu ritmo cardíaco era irregular, e sua mão começava a formar bolha, mas mais do que, ela parecia relativamente incólume. Um murmúrio baixo, escapou de sua garganta, e ela começou a se contorcer no chão.

Aaron estendeu a mão e abriu sua boca, mantendo um olho em sua garganta para não engasgar. Ele inclinou a cabeça levemente para que ele pudesse ver em sua boca. Algo nas sombras na parte de trás da boca dela afundou longe, fugindo para baixo em sua garganta. Perturbadoramente suficiente, baseada na visão rápida, o quer que fosse o lembrou de um caranguejo eremita que tinha como um animal de estimação. Ele rapidamente tirou as mãos dela.

Algo estava vivendo dentro Sra. Provost. Novamente, ele pensou de volta para a clínica nos animais congelados no freezer, seus corpos alterados trançado em alguma forma nova e monstruosa de vida. Ele se perguntou se eles também tinham algo se escondendo dentro delas.

Ele tocou o queixo da mulher de novo,abrindo um pouco sua boca.


– Quem é você? – ele perguntou, esperando que ao usar o seu dom sobrenatural de línguas, ele pudesse falar com a coisa se escondendo dentro da Sra. Provost. Se ele trabalhava em cães e outros animais, porque não nisso?

Seu corpo estremecia, a carne sob as roupas começou a se contorcer.

– Quem é você? – ele perguntou de novo, com mais força.

Começou como um rumor resmungando no que parecia ser o estômago da velha, e ele olhava com horror crescente que a protuberância que se formou em seu abdômen viajou para cima, em direção a seu peito e depois na garganta dela. A pele do pescoço expandido, e Aaron logo se afastou. Ele estava prestes a convocar a sua arma de luz quando a boca da Sra. Provost se abriu e uma horrível gargalhada encheu o ar, seguido por uma voz tão fria.

– O que sou eu? – perguntou em uma linguagem composta de zumbidos e cliques.

– Eu sou Leviathan. E nós somos uma legião.

– Venha – uma voz explodiu na escuridão, ecoando no vazio sem fim que tinha tornado seu ser.

– Ouça a minha voz e venha comigo.

Stephen não sabia por que, mas se encontrou respondendo, atraído pelo som que invadia a sua solidão. Ele reverberou através de seu casulo de sombra, tocando-o, confortandoo de maneira que a escuridão não podia.

– Oblivion deve reclamar você.


E depois havia uma luz, queimando através do discurso de ébano, e ele fez uma careta, virando o rosto, cego pela sua intensidade impressionante.

– Não tenha medo da luz da minha justiça – disse a voz. – Há um poderoso próposito esperando por você além do Sombrio crepúsculo, trabalho esperando para ser feito. – E o brilho continuou a crescer, a escuridão consomiu, o puxando do abraço de sombra e no coração da iluminação.

–Vinde a mim – disse a voz, tão perto. – E renasca. – Renasca.

Verchiel se ajoelhou perante ele, que meros momentos antes tinha sido uma criança. Silenciosamente, os Archons observavam quando um anjo segurou o rosto do menino magicamente aumentado em ambas as mãos e olhou para os olhos vazios de consciência.

– Você pode me ouvir? – ele perguntou. – Seu Senhor e Mestre tem necessidade de vós.

O anjo examinou o magnífico corpo musculoso do menino que virou homem, satisfeito com o trabalho de seus mágicos. Os símbolos misteriosos que tinham sido pintado, em seguida, queimado em sua carne nua, tinha formado permanentes cicatrizes decorando o físico perfeito. Essas foram às marcas que o distingue de todos os outros; símbolos que provavam que ele havia sido tocado pelo divino, transformado em algo que transcende a simples humanidade. Novamente, Verchiel olhou nos olhos do homem.

– Eu o convido para sair. Há muito a ser feito – ele sussurrou. Carinhosamente, ele tocou o rosto sem expressão do homem, correndo os dedos longos e delicados pelos cabelos loiros e umedecidos de suor. – Eu tenho necessidade de você – ele sussurrou, inclinando a boca próximo ao do próprio homem. – O Senhor Deus tem necessidade de vós. – Verchiel trouxe uma mão ao queixo do homem, abriu a boca e soprou levemente na boca aberta, um breve fogo de gelo azul iluminou a caverna da boca aberta. O corpo do homem, que tinha sido Stephen, contraiu uma vez e depois ficou quieto. Verchiel continuou a olhar, desejando que o homem voltasse a consciência, uma concha vazia pronta para ser moldada em um instrumento de precisão cirúrgica. Um instrumento de redenção.


O corpo do homem começou a se debater, pulando no chão da marquise, e um sorriso languidamente espalhou na palidez de Verchiel, marcado suas feições.

– É isso – ecoou. – Eu estou esperando, estamos todos à espera. Consciência subitamente inundou os olhos do homem, e seu corpo ficou rígido com o choque da mesma. Ele começou a gritar, um agudo gemido de renascimento que estreitou-se a um suspiro enquanto ele rolava de lado a lado no chão frio e solário. Verchiel gesticulou em direção à porta, e vários de seus soldados entraram no quarto. Eles levantaram o homem, gemendo e tremendo, a partir do chão e segurou-o no alto.

– Olha você – disse Verchiel, um sorriso frio, sem emoção no rosto. – O potencial para a grandeza emana em ondas. – Ele ergueu um dedo, longo, e apontou para o homem que estava a chorar pateticamente. – Mas há algo faltando. Algo que vai fazer você completo. – Ele se virou para os Arcontes, que segurava peças de uma armadura, a cor mais avermelhada que sangue derramado. – Vistam–o – O Poderoso líder ordenou. E os magos fizeram como lhes foi dito, cobrindo o corpo do homem em metal vermelho forjada nos fogos do céu. Quando eles completaram a sua tarefa, eles se afastaram, e Verchiel se aproximou. Cada centímetro de carne transforada do homem estava envolto em metal vermelho-sangue, exceto a cabeça. Ele era uma visão assustadora em seu traje vermelho de guerra, mas ele olhava pateticamente para Verchiel, olhos com um fluxo de lágrimas de medo e confusão.

– É tudo tão novo para você agora – Verchiel disse, estendendo as mãos para o homem. – Mas eu vou fazer isso direito.

Fogo apareceu entre as mãos estendidas do anjo, a princípio não era maior do que a chama sobre a cabeça de um fósforo, então cresceu em uma bola de fogo laranjada. – Eu vou te ensinar – disse o anjo quando o fogo cresceu mais escuro, tomando forma, consolidando em um capacete de côr de sangue. – Você será minha ferramenta de absolvição. – Ele colocou o capacete na cabeça do


homem. – Meu instrumento de absolvição.

Verchiel retrocedeu, admirando o rosto com medo de pé diante dele, vestido com a cor da raiva pulsando.

– Malak – ele disse, estendendo a mão, introduzindo aqueles ao redor dele para a nova arma em seu arsenal. – Caçador de falsos profetas.


No apartamento sobre a clínica, Katie estava perdida em seus pensamentos, em um lugar escuro e úmido, carregado com centenas de barras de metal, corroído pelo tempo, substancias tóxicas se infiltrando pelos lençóis aquáticos, invadindo o ecosistema da torre Maine.

O microondas começou a apitar, e ela saiu do devaneio perturbador para responder ao insistente chamado. Ela pegou a xícara de sopa de frango de dentro e se sentou na pequena cozinha. Seu estômago estava inquieto com o nervosismo, mas sabia que deveria comer alguma coisa antes de suas manobras noturnas. No meio das colheradas, Katie puxou um bloco amarelo e revisou a lista de coisas que ela precisaria reunir antes de sair a noite. Ela marcou o primeiro item no bloco com o dedo. – Lanterna. – Ela disse pensativamente – Eu vi uma por aqui em algum lugar.

Ela se levantou da cadeira e se aproximou de algumas caixas que estavam cuidadosamente arrumadas no corredor, do quarto de Kevin. Quanto tempo ele estivera aqui e ainda não estava tudo desempacotado? Katie mexeu em algumas caixas e encontrou a lanterna, apontou para quarto e ligou. O feixe cortou através das sombras que se acumulavam com a chegada do crepúsculo.

– Acho que é um empecilho – ela disse, voltando para a mesa e colocando a lanterna ao lado do bloco. Ela estava quase sentando, quando ouviu uma leve batida na porta. Olhou de relance para o relógio. Ela estava esperando por Aaron, mas ainda eram 7:00. Talvez ele tivesse vindo mais cedo para tentar falar com ela sobre o planejamento da aventura.

– Um pouco cedo, você não... – ela começou, parando quando viu que não era Aaron que estava na soleira. O contente chefe de polícia estava parado em pessoa na porta, e a olhava.


– Posso ajuda-lo com alguma coisa, chefe? Perguntou Katie.

Era como se ela o tivesse acordado. Ele meio que teve um sobressalto e polidamente irou o chapéu. –Desculpe incomodá-la madame – ele disse – Mas tenho algumas novidades sobre o Dr. Wessell.

Katie sentiu seu coração escorregar, como se o chão sob seus pés repentinamente cedesse, e ela caísse em um abismo sem fundo.

– O que é? – ela perguntou em um sussurro, dando um passo para o lado, convidando-o a entrar.

Ele entrou, e ela fechou a porta atrás dele. O silêncio no aposento era quase ameaçador, e o chefe Dexter tossiu nervosamente na mão.

– Posso lhe oferecer alguma coisa? Ela perguntou e andou para a cozinha, tentando retardar o inevitável.

– Um copo de água seria ótimo. – ele respondeu.

Ela pegou um copo de um armário e começou a servir a água.

– Tem que deixar correr um pouco – ela disse de repente, colocando a mão na água. – Demora um pouco para gelar.

Ele assentiu, conscientemente girando o chapéu nas mãos. Ela estendeu o copo a ele, então se encostou-se à pia e cruzou os braços ao redor do peito.

– É ruim? – ela falou finalmente. Comandante Dexter estava tomando um gole de seu copo quando estremeceu violentamente, como se tivesse sido atingido por um gelo ártico. O copo saltou de sua mão e espatifou no chão.


– Comandante? – Katie perguntou, se movendo em direção ele.

Seus olhos estavam fechados, mas ele levantou uma mão para tranquiliza-la.

– Dr. Wessel – ele começou, sua voz soando estranha...rouca. – Ele descobriu algumas coisas sobre nossa cidade, coisas que deveria ter mantido em segredo.

Katie estava ajoelhada no chão da cozinha, juntando cuidadosamente os pedaços de vidro, quando as palavras do policial começaram a surgir.

– O que exatamente o senhor está sugerindo, Comandante? – Ela perguntou, lentamente se levantando, a palma de uma das mãos cheia d estilhaços. – Fez algo a Kevin?

Ela estava chocada pela resposta do homem. Sargento Dexter cacarejou, e foi um dos sons mais aborrecidos que ela já ouvira, como se sua garganta estivesse cheia de catarro, e deveria ser um truque da luz, mas alguma coisa parecia errada com seus olhos – Ele trabalha para o todo – como todos fazemos – ele disse sonhadoramente, e começou a balançar de um lado para o outro.

Katie de repente estava assustada, muito, muito assustada. Alguma coisa não estava certa com o homem. Alguma coisa não estava certa com a cidade toda. – Acho que é melhor você ir agora – ela disse em sua voz calmante. – Ele serve o todo, ela pensou, O que diabos ele quis dizer?

– Saia – ela falou, virando suas costas para ele desafiadoramente e andando para o lixo ao lado da pia para despejar o vidro em suas mãos. Ela não queria que ele soubesse que havia assustado-a.

Nunca demonstre o medo. Era algo que ela aprendera no seu trabalho com animais. Ainda assim, ela manteve um pedaço grande de vidro na mão, apenas para o caso de precisar se defender, mas quando se voltou, viu que ele estava andando em direção à porta.

– Não posso deixar pessoas vagabundeando por aí. – ele disse naquela voz dura e


rouca, enquanto alcançava a porta e a abria. – Não quando estamos tão perto de ser libertos.

Katie não fazia ideia do que o homem estava falando, e estava pronta para bater e trancar a porta atrás dele.

Mas o sargento apenas abriu a porta e andou, como se estivesse esperando que alguém o recepcionasse. É isso, ela pensou, e se dirigiu para o telefone. Ela tentaria a polícia estadual. O número deles estava na caderneta amarela que ela deixara na mesa da cozinha. Katie apertou o afiado pedaço de vidro em sua mão enquanto se movia no que parecia câmera lenta pela cozinha, a dor do material penetrando sua carne a manteve concentrada. Com o canto do olho, ela viu o policial começar a se abaixar. Ele estaria indo para sua arma? Katie ficou fora de alcance. Só um pouco mais longe. Ela colidiu com a mesa circular da cozinha, quase deslocando a bacia, e estava alcançando o telefone quando ouviu o barulho. Não o som de uma arma, mas o som de uma tosse, um som intermitente.

Sua mão estava no gancho quando sentiu atingi-la no pescoço, algo que fez a pele dela queimar como se houvesse respingado ácido. Por reflexo, sua mão foi para o pescoço, e ela arrancou o objeto de sua carne. Parecia com um ouriço do mar, preto e brilhante, a forma arredonda coberta de espinhos afiados, mas de onde havia vindo? Ela pode sentir a paralisação se espalhando de seu pescoço para o seu corpo com uma incrível rapidez.

Katie olhou em direção ao sargento pela porta aberta quando ele deu outra poderosa tossida. Um spray de projéteis voaram de sua boca, caindo em seu corpo, e ela percebeu com crescente horror que ela não conseguia sentir nada. Ela levantou uma mão, a que segurava o estilhaço de vidro, e assistiu, quase distraída enquanto o sangue continuava a fluir dos cortes, descendo pelo seu braço para cair no chão. Ela sentiu como se através de um sonho, o mundo em volta de repente não fazendo sentido. Katie olhou para os ouriços grudados em sua pele. Eles deviam ser revestidos de algum tipo de veneno, ela se dobrou enquanto ia ao chão, batendo sua cabeça no canto da mesa.

Katie caiu com o rosto voltado para a porta aberta. O sargento ainda estava parado em pé lá. Ela queria gritar, mas tudo que ela podia fazer era deitar ali e assisti-lo em pé, como um porteiro, esperando alguém chegar. Ela ouviu o som de unhas arranhando a madeira dos degraus lá fora. Não soava mesmo como uma pessoa, ela refletiu, mas como um animal tendo dificuldades para subir os degraus.


– Estamos tão perto – Dexter disse, olhando pela porta com antecipação. Nada pode impedir que o todo seja liberto.

De novo havia o coment|rio sobre o “todo” e ela debateu com o significado enquanto lutava para manter a paralisação longe de suas pálpebras, para não fecharem. Ela precisava ver o que estava subindo os degraus, tinha que ver o que o policial. Aguardava tão ansiosamente. Fez sua aparição, balançando pelo portal, e entrou no apartamento com grande dificuldade. Katie sabia que perdera a habilidade de gritar algum tempo atrás, mas isso não a impediu de tentar, enquanto uma monstruosidade muito similar aos mortos no freezer do porão veio em direção a ela. Era a coisa mais horrível que ela já vira na vida, um objeto de pesadelo, seu corpo com características de muitos outros animais, mas sem a identidade de nenhum deles. Um castor, uma serpente, um polvo, uma garça, e até mesmo um peixe: Todos estava representados na horrenda massa que bamboleava pelo chão da cozinha. O monstro tinha grande dificuldade no chão de azulejos, um de seus membros de trás, uma barbatana com unhas, deslizou pela superfície lisa, sem se apoiar. Cheirava um pouco como uma água viva, e ela silenciosamente desejou que seu sentido do olfato tivesse sido paralisado também.

O policial felizmente se ajoelhou ao lado da abominação. – Para manter o segredo – ele disse num leve gorjeio – você deve servir o todo – Ele se abaixou e começou a pele, escamas e penas que cresciam do corpo da criatura. Você deve fazer parte do todo.

Katie de repente estava preenchida com um sentido opressor de medo, enquanto seus olhos cresciam, vacilavam e começavam a fechar. Ela viu o animal começar a estremecer, a boca retorcida abrir, como se não conseguisse respirar. Então, ainda bem, seus olhos desligaram a visão do pesadelo em frente a ela.

Katie ouviu a besta resfolegando, o cheiro de água viva dançando sobre ela enquanto engasgava para respirar.

Então ela ouviu um som que, de primeira não conseguiu identificar. Era um som agudo, um que a faria recuar se não tivesse sob os efeitos da toxina, um som espetacular, seguido do som de alguma coisa derramando, alguma coisa esguichando no chão. – Parte do todo – ela ouviu Dexter dizer suavemente na escuridão, enquanto ouviu algo com muitas pernas deslizando em direção a ela. Enquanto ela afundava, mais profundamente no esquecimento, ela sentiu aquilo tocá-la.


– Querido Deus – soou seu último pensamento, enquanto se rendia ao veneno correndo por suas veias. Está rastejando para dentro de minha boca.

Aaron não tinha ideia do que iria encontrar, enquanto cuidadosamente escalava os degraus de madeira que levavam ao apartamento de Kevin Wessell. Ele chamou tanto na clínica quanto no apartamento, mas Katie não respondeu em nenhum lugar. Aquele terrível sentimento de medo, o qual já estava um pouco familiarizado ultimamente, formou um caroço em seu estômago. A coisa que vivia dentro da Sra. Provost havia continuado a falar sobre algo chamado Leviathan e como o “todo” seria liberto em breve. Ele não fazia ideia do que estava falando e finalmente trancou a mulher no porão. Ali realmente não havia muita escolha, ele tinha que encontrar Gabriel e Camael, e se assegurar que Katie estava bem.

A porta do apartamento estava destrancada, e ele a abriu e entrou na cozinha, batendo levemente enquanto colocava sua cabeça para dentro. – Katie – ele chamou. As luzes estava acesas, e tudo parecia normal até ele notar os respingos de sangue no chão, perto da mesa a cozinha. Havia outra poça de alguma coisa no chão, próximo às marcas de sangue, e ele se ajoelhou ao lado. Era limpo, gelatinoso e ele tocou com a pontinha dos dedos, levando para o nariz. Cheirava forte, lembrando-o da Praia de Lynn durante a maré baixa: um horrível fedor de ovo podre. Aaron esfregou a substância gosmenta na perna de sua calça e explorou a cozinha. Ele encontrou a caderneta com a lista de Katie e a lanterna sobre a mesa. Ela devia ter estado pronta para ir à fábrica abandonada.

A fábrica. Ele pegou a lanterna da mesa e testou. A fábrica parecia um bom lugar para continuar a procura por seus amigos desaparecidos. Ele duvidou que houvesse alguma coisa tão simples quanto um derramamento tóxico, a coisa que vivia dentro da Sra. Provost havia contado aquilo a ele. É claro, aquilo era apenas o modo como às coisas eram ultimamente: nada era normal, ou fácil.

Aaron saiu para a noite, levando a lanterna com ele. Ele e Katie haviam discutido sobre como chegar à fábrica mais cedo no dia, e ele pensou que podia achar seu caminho. Mantendose a maior parte nas sombras, ele prosseguiu através da rua espiralada para o porto. O caminho era assustador. Ali não havia sinal de vida em lugar nenhum, cada casa que passava estava mergulhada em escuridão. Ele começou a se perguntar como os cidadãos de Blithe possuíam


uma daquelas coisas, como o da Sra. Provost, vivendo dentro deles. Ele franziu, uma tensão desconfortável se formando em sua garganta.

Não demorou antes que pudesse ouvir o som do oceano e o cheiro de forte do ar marinho. Aaron vagou da área de madeira para um aterro arenoso e para uma solitária faixa de estrada que terminava em um uma alta cerca gradeada. Ele já podia distinguir a forma da fábrica além. Uma luz apareceu na direção oposta, e Aaron buscou cobertura, olhando para a estrada atrás de um espaçoso pedaço de arbusto e grama alta. O caminhão diminuiu enquanto se aproximava da cerca, e Aaron assistiu o motorista lentamente sair. Com uma chave que estava em seu bolso, ele destrancou o cadeado e a corrente, abrindo a cerca para o veículo passar. Além disso estava escuro. Aaron podia ver a traseira do caminhão estava cheia de pessoas. Jovens e velhas, homens, mulheres e crianças – algumas ainda vestidas com seus pijamas e roupões. Com um grande eco, suas questões sobre os cidadãos se tornaram horrivelmente limpos.

O motorista trancou a corrente outra vez, depois de dirigir para dentro, então continuou rumo à fábrica. Os postes iluminavam a área do estacionamento, e Aaron notou que ele estava muito perto. Deveria ser a noite da substituição, pensou enquanto emergia do esconderijo, oculto pelas sombras, e se apertava entre a porta para dentro da propriedade. Usando o carro estacionado como cobertura, Aaron fez seu caminho mais perto da fábrica. Alguns carros estavam estacionados na frente do espaçoso prédio, suas luzes ligadas e apontando para a estrutura por iluminação. Ele reduziu enquanto um carro da patrulha veio lentamente da esquina. Espreitando sobre o capô de um Volvo azul, Aaron viu que o carro era dirigido pelo xerife Dexter, e esperou até que o policial tivesse rodeado o prédio antes de se aproximar.

Aaron assistiu o grupo que estivera atrás da pickup andar do estacionamento para a fábrica. Uma pequena cidade com um segredo, desaparecimentos misteriosos, os habitantes agiam estranhamente; se ele não estivesse vivendo isso, pensaria que estava preso em um filme ruim de ficção científica. Eles entraram na construção através de uma porta grande e enferrujada e Aaron podia ouvir o som que podia ser apenas uma britadeira.

Ele não queria se fazer notar, então evitou a entrada principal e procurou por outra, um caminho menos óbvio para a fábrica. Ele parou perto da lateral da construção, as sombras lançadas pela estrutura deteriorado serviam muito bem para escondê-lo. Ele estava excepcionalmente cauteloso com a patrulha do xerife Dexter, mantendo-se perfeitamente ainda na escuridão e prendendo a respiração a qualquer carro que passasse.


Encontrou o que parecia ser uma saída de emergência antiga, e tentou abri-la. Não deu certo, estava trancada pelo outro lado. – Droga – ele assoviou. Ele olhou em volta por alguma coisa que pudesse usar para forçar a porta, mas não havia nada. Além do mais, não queria atrair nenhuma atenção. Ele precisava entrar. Vamos lá Aaron. Pense.

E então aquilo estalou nele, era uma ideia selvagem, mas quanto mais pensava, mais ele se convencia que iria funcionar. Aaron fechou seus olhos e pensou em uma arma, uma arma de fogo. Era uma experiência diferente das outras vezes que havia encantado uma espada de fogo. Ele não estava sendo atacado de nenhum jeito, então se perguntava se poderia funcionar. A espada de luz, veio forte de seu recente pesadelo, imediatamente surgiu em sua cabeça, como se ansiosa por ser utilizada outra vez, mas ele a considerou muito grande e trocou para o formato mais delicado que tinha em mente, Aaron descreveu uma adaga com uma lâmina fina e longa, e abriu seus olhos para vê-la ganhando forma em sua mão.

– Você cortaria aquilo? – ele sussurrou enquanto a faca ganhava forma. Talvez não estivesse tão perdido porque depois de tudo, ele refletiu enquanto trazia a brilhante manifestação de seu poder para a porta e passou a lâmina laranja entre o batente e a própria porta. Ali havia pouca resistência enquanto a lâmina destruía o mecanismo de tranca, o aroma pungente de metal derretido flutuando para o ar em tufos de fumaça oleosa.

Ele deu uma batida forte na porta, e a abriu o bastante para deslizar para dentro. Estava fresco, úmido e completamente vazio de luz. Aaron trocou a ferramenta de fogo e ligou a lanterna que havia posto em sua mochila. Ele estava em um corredor que parecia ser usado para armazenamento. Cada pedaço de equipamento antigo, cadeiras, mesas, e todo tipo de porcaria estava empilhado dentro. Silenciosamente ele passou por uma pilha de porcaria, indo para a porta do outro lado, ouvindo atentamente sons de atividade lá fora.

Aaron foi para o outro lado e prosseguiu pelo corredor curto. Os sons de máquina eram mais baixos agora, o choro dos geradores de energia, o rugido das máquinas pesadas, o bip bip bip dos veículos voltando. Ele apertou o passo, então parou nas sombras de outro corredor, encarando com grande medo. Se isso um dia foi uma fábrica, um lugar onde as pessoas vinham para trabalhar, para fazer coisas – barcos a vela, na verdade – certamente não era mais. Dentro da fábrica, no meio da estrutura decadente, havia um enorme buraco.

Aaron se esquivou para mais perto, usando os montes de lixo empilhados em enormes montes como cobertura, e perscrutou através da borda do buraco. Os moradores de Blithe estavam trabalhando lá no fundo, usando todos os tipos de equipamento de construção para


fazer a abertura ainda maior. Ele realmente reconheceu pessoas da cidade, o maníaco com seu boné sujo do Red Sox, e uma mulher mais velha que estivera na clinica veterinária com um periquito doente. As pessoas abaixo se moviam como formigas, usando pás, picaretas e britadeiras, batendo e cavando em áreas muito pequenas para máquinas tão grandes, enquanto outros descartavam barris carregados com o produto de seu trabalho.

Isso é demais, ele pensou, não queria nada além de encontrar Gabriel e Camel e sair de Dodge, mas não conseguia fazer aquilo, não poderia deixar Katie e não poderia deixar a cidade na escravidão do Leviathan, o que quer que fosse. Ele desejava que seu mentor estivesse ali, ele poderia ter usado um manual para anjos guerreiros.

Ele lembrou algo que Katie havia mencionado sobre cavernas subterrâneas e túneis abaixo da fábrica e se perguntava se eles eram a razão para essa atividade frenética. Como se fosse impelido se moveu cautelosamente para mais perto, descendo as escadas que o levavam para o fundo do buraco. Havia luzes sensíveis pelas paredes, mais ou menos cinco pés, e as sombras eram arremessadas sobre os trabalhadores, como se eles incansavelmente trabalhassem, e fossem a bizarra versão distorcida deles mesmos, sobre a parede do túnel mais uma reflexão sobre os horrores misturados que vivam dentro deles.

Ao pé das escadas, encontrou uma entrada para um túnel, cujos cantos não estavam retalhadas e ásperos, como as que foram trabalhadas pelas máquinas. Lanterna na mão, e se assegurando que não estava sendo observado, Aaron se arremessou através da abertura e começou a descer ainda mais abaixo da terra. As paredes para passagem de ar eram estranhamente lisas, como se fossem polidas, talvez pelo fluir do oceano uma vez, ele pensou, enquanto colocava a mão sobre a pedra fria. Ainda era molhada, fria, como se o mar tivesse deixado sua própria essência para trás. Havia um declínio no chão do túnel, e Aaron nervosamente se perguntou quantos pés abaixo da superfície ele havia viajado. Esse pensamento estava rapidamente suprimido quando um som furioso de algum grito agudo veio da passagem na frente.

Era um animal chamando por ajuda freneticamente, e Aaron lentamente, cuidadosamente, fez seu caminho pelo declínio. Ele veio de repente para uma curva acentuada, espreitou em volta, o túnel se bifurca, um lado virado para a esquerda, descendo ainda mais para a escuridão, o outro acabava em uma câmara de onde ele estava certo que os sons de desespero estavam vindo. O lamento de protesto se tornou ainda mais agitado e Aaron estava cada vez mais perto da situação.


Ele cautelosamente entrou na câmara e encontrou uma clinica veterinária provisória. Uma mesa, provavelmente da cafeteria da fábrica, havia uma mesa de exame no centro do quarto, e um homem, suas roupas endurecidas com sujeira, estava no processo de puxar um grande Gato de uma das muitos carregadores em volta da caverna. Os carregadores seguravam todo tipo de criaturas quadrúpedes – gatos, cachorros, coelhos, e Aaron checou todos por um sinal de Gabriel. Mas seu melhor amigo não estava preso naqueles.

O homem imundo pegou o gato peludo pelo cangote e trouxe para a mesa. O outro animal começou a choramingar, sabendo que algo ruim estava prestes a acontecer, o homem prendeu o felino que se contorcia na mesa e começou a examiná-lo, toscamente checando orelhas, olhos e então dentro da boca. Poderia ser este o Kevin Wessel desaparecido? Aaron se perguntou enquanto o homem deixava o gato e se movia para fora do seu campo de visão.

Um estranho miado choroso, o tipo que Aaron nunca havia ouvido antes, preencheu a caverna. O homem retornou para examinar a mesa, seus braços cheios, e Aaron teve que piscar duas vezes antes que sua mente pudesse ajustar ao que ele via. Era uma daquelas...coisas que Katie havia lhe mostrado no freezer do porão – apenas esse estava vivo, agarrado gentilmente nos braços do homem. Os animais na câmara berraram e arranharam as grades de suas gaiolas. O gato se debateu contra as amarras relutou enquanto o homem ajustava a abominação próximo a ele. O animal híbrido, deveria ter sido uma vez, um cachorro, talvez um terrier, mas agora era horrivelmente mais do que isso.

O homem começara a acariciar a terrível besta, suas mãos incrustradas batendo repetidamente no topo da cabeça desnuda, carne rosa em suas costas. Sua atenção para o animal, que estava rosnando, mais frenético, quando Aaron percebeu que os que os bulbos cresceram formando fileiras de tumores.

A cacofonia do lamento do animal era quase ensurdecedora, e Aaron queria olhar para longe. A pobre besta sabia o que estava para acontecer, e isso o levava à loucura. A natureza angelical que residia nele, de repente começou a se agitar, sentindo também o potencial de perigo daqui e estava se esforçando para defender isso. A massa intumescida nas costas da criatura continuou a crescer, e o homem parecia com uma expressão estúpida de desinteresse, como se visse coisas como aquela todos os dias.

De repente a carne das costas da criatura explodiu com um estampido, e um fluído quente espirrou pelo ar.


O que Aaron viu a seguir, congelou-o até os ossos. Enquanto o fluído escorria da incisão que crescera, alguma coisa emergia do buraco da ferida, era como uma aranha, como um caranguejo. Ele nunca vira algo como aquilo, mas certamente aquilo estivera à espreita atrás da garganta da sra. Provost.

Era preto e brilhante, a concha quitinosa que cobria seu corpo capturava a luz das lanternas Coleman localizadas ao redor da caverna. A criatura rastejou pelas costas do animal e caiu em cima da mesa.

Os animais presos latiram, miaram e gemeram em protesto enquanto a coisa espinhenta se aproximava do felino. Aaron podia entender a intensidade do desespero deles, mas tinha que ignorar seus choros frenéticos, porque não havia nada a se fazer. O gato não teria chance. No que pareceu um piscar de olhos, ele assistiu o forma multiforme de vida deslizar pela cara do gato e abrir caminho dentro da boca do animal em pânico, desaparecendo por sua garganta, o gato tossiu e engasgou, mas em não mais que segundos o pânico cedeu, e o gato relaxou, deitando perfeitamente calmo, seu rabo peludo balançando no ar. Ele podia ter jurado que ouviu um ronronado.

Sua mente corria enquanto discutia o que devia fazer, mas a decisão estava quase saindo quando ele ouviu o som de seu nome sendo sussurrado.

– Aaron – a voz silvou no túnel atrás dele, e se virou da caverna para o canto, para ver Katie se aproximando. Seus dedos imediatamente foram para seus lábios, incentivando-a a ficar quieta.

Ela sorriu estranhamente para ele, e ele sentiu os pelos de trás de sua nuca de repente se arrepiarem.

Alguma coisa não estava certa, e ele encontrou a espada de luz de repente em suas mãos, bem enquanto a garganta dela inchava e um cacho de objetos eram cuspidos por sua boca aberta. Ele as golpeou para longe e assistiu com desgosto enquanto Katie se recolhia violentamente da luz da espada. A ideia de uma daquelas coisas aranhosas rastejando dentro da boca dela o fez sentir enjoado, mas ele ficou no chão, espada erguida, esperando pelo próximo ataque.


Havia movimento no túnel atrás dela, e o povo de Blihe se moveu em uma onda, deixando Katie para pegar ele. A essência angelical dentro dele rosnou para ser liberta, mas não podia soltar aquele tipo de poder contra aquelas pessoas, eles não eram responsáveis por seus atos.

Aaron balançou a lâmina na frente deles, esperando afastá-los, esperando comprar para si mesmo tempo o bastante para escapar profundamente no sistema de túneis, mas eles eram muitos, e estavam muito rápidos.

Os habitantes de Blithe estavam em cima dele. Ele não tinha espaço para manobrar, não tinha espaço para bloquear os objetos afiados que saiam de suas bocas. E o poder que morava em seu centro se transformou em frustração, enquanto uma chuva de projéteis atingiam sua carne, se prendendo em seu queixo, seu pescoço e atrás de suas mãos – e os paralisantes efeitos da toxina começaram a correr através de seu sangue.

– Eu não vou machuca-los – ele disse decidido ao poder raivoso, e os residentes de Blithe se aglomeraram em torno dele, o jogando no chão.

E o poder que era seu por herança, cedeu a seu destino, e permitiu que a escuridão da inconsciência se apoderasse dele para um abraço de boas vindas.


A onda rolou com um calmante estrondo, apressando-se para cumprimenta-lo, fluindo em torno de sua pernas nuas como lambidas animadas de cachorros ansiosos para conhece-lo. Aaron olhou para fora sobre a vastidão do Oceano Atlântico, observando as aves planando na brisa suave, e sentiu uma paz que não tinha conhecido a algum tempo.

– É bonito aqui, não é, Aaron? – perguntou uma voz jovem.

Aaron olhou para baixo para ver Stephen sentado na areia ao lado dele. O menino tinha um balde de plástico e uma pá e estava ocupado cavando um buraco no chão molhado. Aaron olhou para o buraco e viu que era muito mais profundo e maior do que ele tinha imaginado. Aposto que existem túneis sob aqui, ele pensou por alguma razão. Quilômetros e quilômetros de túneis.

– Você me ouviu, Aaron? – Stephen perguntou, chamando a sua atenção para longe do buraco.

Aaron olhou para o rosto expectante do menino.

– Sinto muito, Stephen– ele disse. – Eu acho que derivei por um minuto.

O menino estava vestindo apenas um par de sunga vermelha brilhante, e Aaron podia ver que ele estava ficando queimado do sol. Se não fossemos cuidadosos, ele pensou, o menino poderia pegar insolação – exatamente como naquela vez quando... – Eu só disse como é bonito aqui, isso é tudo, – Stephen interrompeu sua linha de pensamento. A criança continuou a trabalhar em seu buraco. – Eu não quero nunca mais sair.


Aaron riu quando se ajoelhou ao lado do menino. O surf correndo sobre os pés descalços, tão quente.

– Temos de ir para casa algum dia, – ele disse enquanto bagunçava o cabelo loiro do menino. – Não quer ver mamãe e papai de novo?

Stephen virou-se e apontou para a praia.

– Eles estão lá, – ele disse. – Eu posso vê-los quando eu quero.

Aaron olhou para cima e viu Lori e Tom Stanley sentados em cadeiras de praia debaixo de um grande guarda-chuva amarelo, um caixa térmica vermelha e branca entre eles. Eles compraram o Dr. Pepper, ele recordou inesperadamente, a primeira e última vez que eles já tinham usado a caixa térmica vermelha e branca. Algo que havia sido deixado dentro dele depois da viagem, praia e que tinha estragado, deixando para trás um odor desagradável. Eles nunca foram capazes de tirar o cheiro dele, de modo que eles mantinham a caixa termica a distância. Aaron tentou se lembrar há quanto tempo tinha sido. Foi a mesma viagem que Stephen pegou insolação.

Lori e Tom acenaram alegremente de suas cadeiras de praia, e Aaron timidamente acenou de volta, de repente, tomado por uma tristeza que não podia compreender.

– Não me sinto triste, – disse seu irmão de criação, enchendo o balde com areia. – Não há nada que estar triste aqui.

– Como você sabia que eu estava me sentindo triste? – Aaron perguntou.

Stephen não respondeu, e continuou a cavar seu buraco, tornando-se maior, mais profundo. Aaron levantou-se e olhou para fora sobre o oceano. Nuvens negras se formavam ao longe, talvez uma tempestade chegando

– Isso tudo parece tão familiar, – ele disse, mais para si do que para Stephen, quando o vento arrepiou os cabelos escuros.


– E é tão ruim? – perguntou o rapaz.

Aaron olhou para o irmão e viu que Gabriel já se sentara ao lado da criança, abanando a cauda enquanto Stephen afagava a cabeça.

– Olá, Gabriel, – Aaron disse o cão.

água

O cachorro abanou o rabo, em resposta, ofegante, feliz. Ele havia estado correndo na e estava encharcada, a areia aderindo à pele em seus pés.

– Qual é o problema com você, Aaron? – a criança perguntou. – Tudo aqui é tão perfeito, tão pacífico. Deixe-se aceita-lo.

O céu estava escurecendo quando as nuvens derivaram perto da costa.

– Eu quero, – respondeu Aaron, um sentimento de pura alegria começou a borbulhar dentro dele, mas ele forçou-o de volta. – Eu realmente, realmente quero, mas isso parece errado. Como se eu tivesse vivido isso antes.

– Mas você estava feliz, certo? E você pode ser assim de novo. É um presente para tudo que você teve de suportar. Stephen estava subitamente em pé no meio do buraco que havia cavado. "Deixe-me tirar sua dor. – Ele esticou os braços queimados em direção ao seu irmão mais velho, com um sorriso no rosto. Parece bastante simples, Aaron pensou enquanto observava as nuvens cinzentas vagar no mar. Elas pareciam estar mudando de direção, deixando o céu sobre sua cabeça perfeita, imaculada pela tempestade. Tudo o que ele precisa fazer é aceitar este tempo, este lugar, como sua realidade, e tudo estaria bem. Mas não estaria. – Isto está tudo errado, – ele disse em voz alta com um aceno de cabeça furiosa. Ele gesticulou para o oceano e o mundo além dele. – Isso não está certo, esse momento já passou. É uma memória de três anos atrás.


– Pare com isso, Aaron, – Stephen exigiu. – Não estrague o que eu fiz para você.

Aaron olhou para a criança irritada quando as nuvens caíram de novo dentro do mar, baixa e escura, cheia de tempestade. A distância, uma ameaça de estrondo de trovão sacudiu o ar. – Isso tudo é um sonho, um pesadelo, na verdade.

– Aaron! – o menino gritou, batendo o pé.

– O que você é? – Aaron perguntou, de repente um vento forte chicotadas em sua roupa.

– Stephen nunca falou assim, ele quase não falava nada. – Aaron olhou para o cachorro, que continuou a abanar a cauda alegremente, embora o vento soprava areia em sua boca. – E isso não é Gabriel. Só parece com ele. Aaron se aproximou da criança. – Vou perguntar de novo, – ele disse severamente. – O que você é?

De repente estava negro como a noite na praia, e os arcos de raio percorriam o céu quano trovões explodiam. O mar tinha sido levado ao frenesi pela tempestade, com ondas batendo violentamente na costa. – Você pode ser feliz de novo! – a criança gritou durante a tempestade. – Tudo que você precisa fazer é–

– O que. é. Você? – Aaron cuspiu. Do canto do olho, ele podia ver as águas do oceano, ao longe, começar a espumar e ferver.

– Eu já existia desde o quinto dia da criação, – Stephen disse com uma voz arrepiante. Algo se moveu sob as águas turvas. Algo grande.


– Eu era aquela centelha de incertezas nos pensamentos do Criador, quando Ele esqueceu o mundo – quele breve momento de caos – ntes da Gênesis.

Um monstro saí das profundezas do mar, pele mais escura do que as trevas que agora os cercava. Parecia ser, pelo menos, uma centena de metros de altura, seu corpo balançando como um verme, acima do mar a tempestade assolava. Centenas de tentáculos de diferentes graus de espessura e comprimento cresceram de seu corpo, contorcendo–se no ar como se estivesse desesperado para entrelaçar algo em seu abraço. Aaron não conseguia puxar os olhos longe da visao do pesadelo quando ele ondulou através do mar batendo em direção à praia.

– A escuridão do oceano tornou-se minha casa, – disse a coisa que se assemelhava a seu irmão. – E lá prosperei, escondido sob as ondas, – até que o Senhor Deus sentiu a minha grandeza e enviou seus mensageiros angelicais para apagar minha gloriosa luz.

O monstro estava mais perto agora. Grande, em sacos opacos pendiam medonhosamente de seu corpo brilhante, balançando como pêndulo, uma vez que deu uma guinada mais à terra. Aaron foi incapaz de tirar os olhos da visão terrivelmente impressionante, surpreso, ele nem podia sequer pensar, quanto mais falar.

– Você é tão maravilhoso que Deus decidiu levá-lo?

A coisa Stephen ignorou sua pergunta. – O oceano era o meu domínio, e qualquer um que ousasse atraversar eram sujeitas a minha ira, e logo desenvolveu um gosto para a vida daqueles que o Criador enviou para me destruir. – A enorme besta do mar surgiu acima de Aaron. Mesmo com essa distância, ele pôde ver que a seu corpo estava coberto de linhas de finas escamas que brilhavam com as cores do arco-íris. Se isso não fosse completamente horrível, ele poderia tê-lo achado bonito. Houve um clarão ofuscante de luz, seguido por uma explosão de um trovão e as nuvens abriram em um dilúvio de chuva.

– Isso é o que tem me mantido vivo ao longo dos milênios, e que acabará por libertarme da minha prisão sob o mar." As viscosas gotas revestiu o corpo de Aaron, forçando-o para baixo em cima da areia. O terreno não conseguia absorver o grosso, fluidos leitosos, e se agruparam em torno dele, sempre crescente.


O animal chegou à costa, centenas de pequenos apêndices musculares impulsionando o pesadelo para a praia. – Eu sinto em você uma força que tanto assusta e – emocionante, – disse o monstro, a sua voz já vinha de dois lugares, — do seu irmão pequeno e a da coisa na praia, um perverso efeito estéreo ecoava no ar. – Eu nunca encontrei alguém como você. – Aaron lutou para ficar em pé, mas sentiu o chão sob seus pés turno, levantando–se para segurá-lo rapidamente. A falta de chuva continuou a cair, revesto seu corpo em uma camada de lodo.

– Que lugar é esse? – ele perguntou desesperadamente ao seu falso irmão.

– Poderia ter sido o seu paraíso individual, – explicou a entidade, a sua voz de nojo retumbou. – Assim como uma abelha em uma flor, eu usei a promessa do céu pessoal para atraílo para mim. Um lugar onde você teria ficado satisfeito até o dia final." Stephen balançou a cabeça em desapontamento. – Mas você o rejeitou.

– Não é real, – cuspiu Aaron, tentando manter o fluido que caia do céu e corria pelo rosto de entrar em sua boca. – É uma mentira. – A coisa que havia assumido a aparência de Stephen se moveu de seu buraco e caminhou casualmente em direção ao gigante que havia emergido do mar. – Seja ele mentira ou verdade, – disse aproximando-se da frente da besta. A criatura respondeu a abordagem da criança estranha, abrindo sua bocarra cavernosa.

A chuva de lodo estava caindo mais forte agora, e Aaron se sentiu sugado violentamente para debaixo da superfície. Seus braços ficaram presos na lama que se acumulava e aumentava no chão, e ele se debateu em uma tentativa vã de se libertar da terra com fome, mas com poucos resultados. Stephen tinha entrado na boca do monstro marinho, a abertura circular era anelada com dentes afiados. Isso lembrou a Aaron da boca de uma piranha. O menino estava ali, espiando quando lentamente começou a se fechar. – Tudo termina da mesma forma, – ele disse de dentro do bucho do monstro. – Você estará dentro da barriga da besta– para alimentar Leviathan. As últimas palavras soaram em seus ouvidos, acima da fúria da tempestade, a grande besta bateu a boca fechada, indo para trás e jogou o seu corpo de volta no mar turvo. Aaron se esforçou, mas parecia que quanto mais ele lutava, mais rápido ele era puxado mais pronfundamente. Isso tudo termina da mesma maneira, ele ouviu a voz inumana reverberar em sua mente, e sua cabeça começando a afundar abaixo da superfície. Ele tentou gritar, berrar sua crença de que tudo isso era alguma distorcida manipulação de mente, mas foi interrompido


abruptamente, quando uma mistura de areia e do lodo caiam em torrentes do céu negro, corria em sua boca e estabelecei em sua garganta. Você estará dentro da barriga da besta, o monstro tinha gorgolejado. Para alimentar Leviathan.

A besta que era Leviathan reclinou sua forma massiva contra os limites apertados da parede da caverna, onde havia estado preso por incontáveis milênios. O monstro estava contente por agora, pelos muitos dos sacos digestivo que pendia de seu corpo que estava cheio de vida de anjos – transbordando com poder, que iria trazer a divindade escura para a eventual liberação.

Sua última alimentação – os meia-raça – Os Nephilim, lutaram bravamente para estarem livre do abraço de fome de Leviathan, suas mentes cheias de pânico.– Seu esforço é inútil. – O monstro vermifugou seu caminho nos frenéticos pensamentos de Aaron. – Tome conforto em saber que o poder que reside dentro de você, – agora flui em mim, será usado para reformar o mundo. Através dos olhos de meus seguidores eu vi o que o mundo do Criador, tornou-se: um lugar oscilando diariamente à beira do caos

Leviathan mostrou ao jovem rapaz dentro de sua bariga, perturbadoras imagens do mundo em geral. Cenas de guerra, a violência descontrolada, e a morte passou diante dos olhos da mente Nephilim's, um mundo aparentemente tocado pela loucura.

– Isto é o que Deus tem feito, – a besta rosnou. "Eu posso fazer melhor. Quando eu finalmente estiver livre da minha prisão debaixo da terra e do mar, eu vou usar o seu poder, sua maravilhosa força, e empurrar este lugar pelo pandemônio. E então eu moldarei-o à minha gloriosa imagem. – Milhares de Leviathan pretos saiam da casca desovada contorciam-se ansiosamente por baixo da capa de proteção de suas escamas.

Será que eles, que iria realizar a vontade do animal, alterando e distorcendo a fauna existente, de dentro para fora. A idéia de ser liberada sobre o planeta o fez tremer felizmente em expectativa. O Nephilim continuou a lutar, recusando-se a permitir que os nutrientes digestivos começassem o processo de sua absorção. Isso irritou o grande besta, e mais uma vez, aprofundou no cativeiro da sua mente. Cruelmente rasgou suas memórias, e encontrou a lembrança de uma vida mais mundana, ou era, até o poder de Deus dentro de sua frágil concha humana despertar e exercer alguma antiga profecia de redenção há muito esquecida, Leviathan não tinha tempo para a profecia, tinha um mundo a conquistar.


Aquele chamado de Aaron depateu e resistia e enquanto Leviathan pegava impiedosamente através de suas memórias. A besta viu o despertar da angelica natureza, a ressurreição de seu animal de estimação - absorvendo o humilde animal com uma força de vida que atualmente achava muito delicioso, a morte de seus guardiões parentais e da furiosa batalha com o líder das tropas dos Poderes, Verchiel.

O monstro se contorceu dentro de sua prisão de pedra. A muito tempo Verchiel tinha antecipado, e aqueles que o seguiram, para procurar e erradicar a glória que era de Leviathan em nome de Deus, – mas nunca chegou a ser. Por alguma razão, ele havia sido poupado desse ataque. Leviathan continuou a existir, se alimentando de presas que lhe permitam sobreviver, puxando os de natureza angelical para ele. Tal como o astuto anglerfish31, a besta do mar psiquicamente pendia a promessa tentadora de felicidade ante as criaturas patéticas do Céu, e foi só uma questão de tempo antes de serem ludibriadas, descansando dentro de seus vorazes sacos digestivos.

Quando finalmente foi capaz de emergir de sua prisão subterrânea, Verchiel e os Poderes terão de ser lidar com ele. E eles sentiriam a ferocidade da ira de Leviathan e saberam a sua fome insaciável. A imagem de uma pequena criança, o irmão do Nephilim, brilhou na mente do monstro. Foi o menino, que tinha usado para levar o Nephilim aqui para Blithe. Mas o Nephilim percebeu a trama, e tentou libertar-se, sem sucesso. Leviathan faria tudo ao seu alcance para manter o mestiço como o seu próprio. A força da vida dentro dele era forte, inebriante, e ele iria servir bem o gigante no seu eventual domínio do mundo. Podia sentir que o Nephilim estava pensando na criança de novo, a criança nas garras de Verchiel.

Este agitado Nephilim, fez a luta mais do que necessária, interrompendo os prazeres do processo digestivo. Leviathan ficou irritado, e novamente forçou seu caminho para o pensamento do ser angelical. Seria necessário para garantir a juventude que qualquer esperança de resgatar seu irmão das garras dos Poderes fosse inútil.

– Desista, – disse Leviathan ao Nephilim. –Seu esforço é em vão. – A grande besta dolorosamente recuou, a atividade mental do ser angelical freneticamente lutando dentro de uma de suas muitas barrigas, causando desconforto renovado. Na mente do jovem havia um pensamento, uma imagem de uma luz ofuscante, uma luz tão brilhante que poderia penetrar até o mais infinito de profundidade infernal. E a luz, aquela luz 31

Anglerfish são os peixes ósseos no ordem Lophiiformes[1], nomeado para sua modalidade característica de predation, wherein um crescimento fleshy da cabeça do peixe ( esca) atos como a lure; isto é considerado analogous a dobrar. http://images.nationalgeographic.com/wpf/media–live/photos/000/002/cache/angler–fish_222_600x450.jpg


horrível, lancinante, tinha começado a tomar forma, tornando-se algo que encheu a antiga divindade com um sentimento de pavor. A luz na mente do Nephilim havia se tornado uma arma, uma arma que Leviathan não tinha visto desde a fatídica batalha que tinha prendido na caverna subterrânea. A luz tornou-se uma espada – a espada do mensageiro de Deus. Aaron estava se afogando. Tentou com todas as suas forças combatê-la, para manter o líquido sujo de dentro de seu corpo, mas havia uma voz, uma voz calma e suave que tentava convencê-lo de que esta era a coisa errada a fazer, que a luta só prolongaria a sua dor. Em seguida, os tons suave como a seda dentro de sua cabeça, que lhe prometiam o fim ao seu sofrimento, se só desistisse, lhe disse que seu irmão estava morto, que o anjo Verchiel tinha destruído a criança logo após ele ser levado, que a luta foi em vão. E havia a tristeza avassaladora deste conhecimento, combinada com a pesada tristeza que já tinha sido escriturada: a morte de seus pais, sendo obrigados a fugir da vida que ele construiu para si próprio – deixar Vilma – era muito doloroso. Ele tinha quase começado a acreditar que era melhor para ele se submeter, permitir que a solução leitosa enchece a boca e o fluxo para os pulmões.

Mas, então, a espada estava lá, – a misteriosa arma aparentemente forjada a partir dos raios do sol, perfureva na escuridão de sua miséria interior, queimando o manto de tristeza e desespero que envolveu-o e revelando a verdade. A verdade.

Aaron gritou dentro do saco membranoso, expulsando os líquidos residuais que tinha conseguido encontrar o seu caminho em seu corpo. A espada estava na sua mão, como tinha estado na noite em seu sonho, brilhando como um novo amanhecer, revelando a verdadeira natureza do pesadelo que o tinha levado cativo. Afastou-se da espada de luz e clivou seu caminho através do muro carnudo e elástico da sua prisão. Em sua mente, ele ouviu um grito, – o grito de um monstro em dor.

O fluido imediatamente começarou a escorrer de um corte aberto no órgão digestivo, e ele era capaz de respirar. O mau cheiro do ar dentro do saco era sujo, mas eram o que seus pulmões doendo quiriam, no entanto. Ele engoliu avidamente no ambiente fétido, como um homem morrendo de sede, tossindo os restos do líquido invasivo. A câmara carnuda, em que ele ainda estava preso, começou a balançar, sons de raiva e dor trovejando em torno dele.

Ele tinha que sair, escapar do agarre, e ele atirou-se no corte que tinha feito. Foi o que ele imaginava nascer deveria ser, apertando a cabeça pelo corte que tinha, milagrosamente, já


começava a cicatrizar. Aaron caiu da ferida, caindo a uma grande distância antes de aterrar em cima de um sólido chão de pedra com um baque estridente. Estrelas explodiram diante de seus olhos, e por um momento ele pensou que poderia perder a consciência, mas agitou=o, lutando para ficar, a arma de luz ainda na mão.

Ele olhou em volta e viu que estava em uma vasta caverna subterrânea. O lugar estava estranhamente quieto, exceto para o thrum distante da arrebentação. Espessas manchas de um fungo luminescentes cresciam nas paredes, jogando uma escassa e estranha luz verde sobre a extensa caverna.

O golpe veio de trás. Sua mente comparou–a com a aproximação de um trem de carga, atingindo-o com tanta força que foi jogado no ar contra uma parede distante. Sua cabeça estava zumbindo, e os ossos de suas costas e pernas gritavam seu protesto enquanto ele lutava para recuperar seu equilíbrio. Ele estava sangrando de uma dúzia de lugares, mas ainda assim conseguiu segurar a espada de luz e brandindo–o enquanto lutava para ficar ereto.

– A espada do mensageiro, – algo gritou de dentro da escuridão da caverna, e então ele se inclinou para isso, revelando um corpo tubular tão grande que mal conseguia se mover. –Eu pensei impossível para alguém como você empunhar uma arma tão poderosa. – Embora seu corpo continuasse a protestar, Aaron segurou a lâmina mais apertado quando o monstro negro aparecia acima dele. Ele estudou os detalhes da criatura que só poderia ser Leviathan. Seu corpo estava coberto de finas e interligandas elos, como cota de malha, e ele balançava como uma cobra em cima dele. Repulsa, Aaron poderia ver as coisas vivas sob o seu corpo, as coisas parecidas com aranhas que teria gostado de rastejar para baixo das gargantas de todos os seres vivos no planeta.

Ele atacou-o com um tentáculo tão grosso como um tronco de árvore, e Aaron se jogou rapidamente sobre o piso da caverna. Era como o crack ensurdecedor dos maiores chicote do mundo, o apêndice carnoso fragmentou a rocha onde ele tinha estado uma vez. Leviathan mudou seu grande tamanho dentro da caverna para acompanhar o progresso de Aaron, o topo de sua cabeça esfregando contra o teto na tentativa de manobrar sua enorme massa no espaço confinado.

– Onde você está indo, Nefilins? – ele pediu em sua voz tonitruante horrível. – Você não pode escapar de mim. Renda-se ao inevitável. Algumas das coisas pretas parecidas com aranha cairam do corpo do monstro e ansiosamente afundaram em todo o piso da caverna para chegar a ele. A lâmina do mensageiro


– como Leviatã tinha chamado – fez um urto trabalho nas coisas rastejantes. Enquanto ele despachou a prole do monstro, algo começou a incomodá-lo. Desde o despertar dentro do saco digestivo do monstro, ele não sentia a presença de seu poder angélico. Quando ele destruiu mais animais de estimação de Leviatã, ele tentou se lembrar da última vez ele sentiu a força, sempre tão ansiosa para ser liberada.

Tinha sido atrás nos túneis, quando ele tinha sido atacado por Katie McGovern e os moradores de Blithe. Isso havia gritado para ser livre e ele repreendeu, empurrando-o, como fizera desde a primeira batalha com o anjo Verchiel.

Leviathan contorceu seu volume mais perto. Tinha o grande monstro alguma forma de chupou–lo isso dele? Aaron perguntou quando outro dos tentáculos de Leviathan chegou até ele envolvendo-o em suas garras. Ele atacou o apêndice muscular, e recuou a lâmina, pairando no ar diante dele como uma cobra esperando sua oportunidade para atacar.

– Onde você está? – ele sussurrou para a presença que deveria estar despertada dentro dele. – Eu realmente poderia usar de sua ajuda agora, – disse Aaron, alerta ao tentáculo do monstro atacando novamente. Não houve resposta, e Aaron sentiu uma onda de desespero quando ele jogou a sua força na luta contra a diminuição dos apêndices abundante que chegavam para ele. Ele trouxe a lâmina para baixo e viu quando cavou fundo na preta carne muscular do animal.

– Yarrrrggghhhh, – Leviathan rugiu quando ele puxou violentamente o braço machucado para longe, e com ele, a espada do mensageiro. Aaron assistiu estarrecido quando o tentáculo goleou, desalojando-o incómodo, enviá-o através da caverna, longe de seu alcance, onde desapareceu em um clarão ofuscante. O pânico se estabeleceu contato. Sem nenhum contato com a natureza angélica, ainda é possível para mim, me defender? ele se perguntou freneticamente.

Ele pressionou as costas contra a parede da caverna e tentou evocar uma arma de sua própria criação. Aaron deu um suspiro de alívio quando uma lâmina de fogo, insignificante em comparação com o esplendor da espada do anjo, começou a se formar em sua mão. Ao menos o poder não tivesse sido tirado dele. Leviathan não perdeu tempo e atacou novamente. O gigante se torceu dentro dos limites da caverna, trazendo sua enorme massa em direção a Aaron. A espada de fogo brotou totalmente à vida em suas mãos, e ele estava levantando a lâmina para se defender contra este último ataque, quando sua atenção caiu sobre os muitos sacos carnudos que pendiam obscenamente a partir da frente da besta.


Aaron congelou enquanto olhava para o conteúdo dos numerosos estômagos da besta do mar: o sumido Camael, os seus pobres Gabriel, uma das criaturas feias que o havia atacado a caminho de Blithe e tantos, todos presos dentro das barrigas da besta. O horror de tudo isso era demais para ele ficar.

– A visão de mim, da minha magnificência, o enche com admiração, – Leviathan disse, descendo para reivindicar Aaron como o seu próprio. Seu contorcido corpo se moveu, e uma chuva de tentáculos caiu de cima para apanha-lo dele. Aaron cortou o implacável ataque, a arma ardente cortando muitos dos membros. O animal gritou de dor, mas ainda atacava. E enquanto ele lutava, Aaron não poderia evitar mas retornar o seu olhar para um ser misterioso que ele viu flutuando dentro de um dos sacos digestivo. Ele sabia que, – de alguma forma, instintivamente? – que este era um anjo, mas essa mesma coisa também lhe disse que este era um anjo de enorme prestígio e poder. Um arcanjo. Através da pele opaca e líquido leitoso podia ver a armadura ornamentada que pendia do corpo magro do ser celestial.

– Olhe para aqueles que caíram ante minha força, Nephilim, – borbulhava o monstro, atacando seus ouvidos e mente.

– Ele era o Arcanjo Gabriel, mensageiro de Deus, uma extensão da palavra do Criador, e ele foi derrotado tão facilmente quanto os outros.

A Mente de Aaron foi subitamente repleta de imagens de batalha do monstro com o mensageiro de Deus. Ele viu o guerreiro alado descer dos céus, sua armadura dourada brilhando lindamente na penumbra do mundo primordial. O anjo mergulhou sob as ondas agitadas para enfrentar sua presa, empunhando uma impressionante espada de luz. A batalha que Aaron testemunhou só poderia ser descrita como proporções enormes: a força da mais pura luz contra as trevas insondáveis e dois poderes opostos se unindo em um conflito que literalmente abalou o mundo. As águas oceânicas em torno deles cozinhava e batiam, chutando pedra, sujeira e lodo. Grandes montanhas submersas se moveram e se desintegraram, em seguida, o fundo do oceano se separou, um abismo apareceu abaixo dos adversários, ainda perdido em meio ao conflito. E eles caíram no abismo escancarado, engolido pela fúria cataclísmica desencadeada pela sua luta. A visão veio a um fim abrupto com a visão perturbadora e final de Leviathan engolindo o diminuto anjo Gabriel dentro da sua boca cavernosa. O mensageiro de Deus lutou pateticamente enquanto era gradualmente engoligo goela abaixo da besta–emparedado dentro de um dos muitos estômagos do monstro; eterno alimento para o animal, preso em uma caverna, muito abaixo do mar.


Leviathan riu dentro da mente de Aaron, um som baixo, gorgolejante, cheio com uma perversa confidencia. Nem um mensageiro de Deus em pessoa pode derrotar o monstro, Aaron pensou quando continuou a sua batalha com os tentaculos. Qual a chance que eu tenho? ele perguntou, seus esforços contra o gigante começaram a ficar lentos. Ele sabia que era isso que queria o monstro, mas ele não poderia abalar a sensação de que sua luta contra a besta não iam ser suficiente.

O ataque de Leviathan foi implacável, e não demorou muito para que um dos tentáculos, se enrola-se no pulso que segurava a sua arma de fogo. Ele tentou se afastar, de alguma forma, usar a lâmina de fogo contra a parte negra viscosa, mas não teve efeito. Houve um estalo súbito e dor, cegando-lhe, o pulso estava quebrado. Aaron gritou em choque, vendo a espada cair de sua mão, evaporando o ar frio e úmido da caverna antes que pudesse sequer tocar o chão. Aaron lutou para agarrar o tentáculo do monstro se enrolando em volta dos braços, pernas e cintura, comprimindo quase todos os movimentos. Ele encontrou-se sendo levantado da terra e carregado para cima. Para cima, para a boca do monstro.


Os tentáculos de Leviathan o arrastaram para mais perto. Aaron tentou escapar do que o estrangulava, mas o monstro que o mantinha era muito forte. A besta marinha atacou sua mente, então, debilitou sua determinação, tirando-lhe o desejo de lutar. A aranha e os seres que viviam sob as escamas blindadas do monstrengo, rangeram e assobiaram enquanto o corpo de Aaron era constantemente jogado para cima.

Estava quase na boca de Leviathan, em um abismo de dentes afiados, quando ouviu outra voz em sua cabeça. Era suave no inicio, um sussurro, como o som do vento movendo-se entre as arvores em uma noite fria de outono, Centrou-se nesta nova voz, agradável como uma cócega, lutava para manter-se consciente.

Abriu os olhos e encontrou-se olhando uma das muitas bolsas opacas que pendiam da gigantesca besta, a que levava o Mensageiro de Deus. Os olhos do Arcanjo Gabriel se abriram e Aaron sabia que essa presença estava dentro de sua mente.

– Durante muito tempo tenho esperado sua chegada. – sussurrou uma voz que soava como o mais belo dos instrumentos de corda.

A voz do monstro foi silenciada de imediato, afogada pelo som animado de uma sinfonia cósmica, apesar de sua terrível situação. Aaron estendeu a mão para comunicar-se com esta ultima entidade, com sua mente.

– Como é possível? – perguntou Aaron. – Como você pode saber que eu estaria aqui, que eu viria? Aaron podia sentir a crescente irritação de Leviathan. Algo estava bloqueando o acesso a sua mente, e para o monstro não importava em nada.


– Eu sabia que meu tormento não ia durar uma eternidade. – disse o anjo Gabriel, a música celestial dentro de sua cabeça ia crescendo de forma ensudercedora. – Que meu sucessor viria para completar a tarefa que me foi resignada. – a voz do anjo cantou.

Aaron não entendua completamente o significado das palavras do Ancanjo.

– Sucessor? – ficou em dúvida. – Eu não entendo.

Os olhos do anjo voltaram a se fechar.

– Não há tempo para maus entendidos. – o ser angelical baixou a voz, o som de sua voz era cada vez mais débil. – Você é como eu. – disse. – Um Mensageiro de Deus. – Espera! – Aaron gritou enquanto o arrastava para fora dos sacos digestivos e ia até a cara do mosntro. Contorceu-se nas garras dos tentáculos, os osso das mãos estava, fraturados, enquanto dolorosamente tentou de novo entrar em contato com o Ancanjo.

– O que você quer dizer? – gritou. – Ainda não entendo!

Um tentáculo, da grossura de um tronco de arvore encabeçou a luta e o agarrou, levando-o para cima.

Aaron encontrou-se pendurado boca abaixo, pela perna, diante do monstrusoso rosto de Leviathan. Os olhos saltados para os lados da cabeça o estudavam com grande interesse e tinha sua enorme boca redonda franzida e cuspia enquanto falava.

– O que há para entender? – perguntou a horrível divindade do mar, sua voz soava como o ultimo suspiro de um homem que se afoga fazendo eco em sua cabeça, – Sua luta é inútil. Se entregue a minha supremacia, você sabe que é a essência de sua vida, e a de seus companheiros que, finalmente me permitirá obter minha liberdade.


De alguma forma, Leviathan não havia ouvido as palavras do anjo Gabriel. O monstro não ouviu o guerreiro angelical proclamá-lo como um Mensageiro de Deus, e Aaron começou a se perguntar se tudo isto era uma espécie de truque perverso da parte da besta do mar, que lhe dava a mínima luz de esperança, para depois rasga-la selvagemente.

O grande buraco de uma boca foi se aproximando e Aaron se via, pateticamente refletido na superfície cristalina de seu bulbo, olhos comos os de peixes, estavam pendurados boca abaixo, esperando que eu me deixasse cair na boca cavernosa do antigo montsro submarino.

“Mensageiro de Deus, uma merda, um não tem oportunidade no inferno.” Aaron pensou enquanto se preparava para ser engolido.

– Isso é no que você quer acreditar. – disse a apenas audível voz do Arcanjo Gabriel. – Essa é a forma em que ele têm derrotado todos nós, ao nos fazer crer no que não é verdade.

Aaron se contorcia, as palavras do anjo afugentaram a duvida que o monstro havia gerado.

– Quando você perceberá da inutiçidade de suas ações? – Leviathan perguntou, dando– lhe uma sacudida violenta. – Porque lutar quando não se pode ganhar; pequeno Nephilin? O tempo de luta passou. Agora é o momento da rendição.

Aaron achou que as palavras saiam de sua boca antes de se dar conta do que ia dizer.

– Não vou me render a você. – disse Aaron, uma raiva poderosa se acumulava nele. Começou a lutar, tentando se libertar da besta antiga.

Leviathan começou a rir, apertando as garras em sua perna e o atraiu até sua boca, bocejando.


– Valoroso mesmo no momento do inevitável. – ele gorjeou. – Talvez, sua área vital seja mais doce.

O fedor que emanava da garganta do monstro era suficiente para deixar um corpo inconsciente e Aaron tentou desesperadamente prender a respiração. A carne dos tentáculos do monstro marinho estava gosmenta, escorregando sob seus dedos, e ele não pode conseguir um agarre bom o bastante sobre a pele para fazer algum dano. Sentiu que segurava o apêndice sobre ele e afroxou, se preparou para cair no esquecimento, bem na hora em que o Anjo Gabriel disse: – Eu te darei novamente minha arma preferida. Pegue-a agora como a teve na primeira vez em que você lutou com o pesadelo. Eu te dou a Portadora de Luz, use-a bem; Mensageiro de Deus.

Aaron sentiu a lâmina do Mensageiro, Portadora de Luz apareceu em sua mão e a dor aguda de sua mão quebrada imediatamente foi aliviada, já que seus ossos milagrosamente estavam de novo inteiros.

– O que é isto? – Leviathan grunhiu, seus enormes olhos tentavam se concentrar nele e na arma que surgia para a vida, brilhante em suas mãos.

Aaron sentiu-se fortalecido. A capa de desespero que o havia tido em suas garras, se dissipou como a neblina pela manhã na presença do sol nascente.

Virou seu corpo para fora e jogou sua espada para um dos olhos do peixe que lhe davam olhares lascivos. Portadora de Luz atravessou a superfície molhada das orbitas saltadas, contando-a em fatias, abrindo o órgão gelatinoso. Leviathan gritou em uma mistura de agonia e raiva, e Aaron foi libertado de seu domínio.

O monstro continuou gritando de dor, sua gigantesca massa ia à empaliçada proximidade da cova submarina. Aaron aterrissou precariamente sobre o conjunto de bolsas que pendiam da parte dianteira da besta Leviathan. Tentou se agarrar, para não ser expulso do abalado ventre. Seu corpo delizou através da superfície da goma dos órgãos digestivos que pareciam como se esfregasse uma mão sobre um balão inflado. Aaron cravou suas unhas na superfície carnosa e se agarrou.


O monstro marinho estava dilacerado, gritava com toda sua raiva, em sua cova, seu olho ferido e inchado estava fechado, chorando rios de liquido espesso e amarelo que parecia gema de ovo.

– Você sofrerá por isto Nephilin! – gritava enquanto seu corpo se curvava em uma tentativa de localizá-lo com seus sentidos restantes. – Vou fazer com que seu encarceramento em meu estomago faminto dure uma eternidade. Você será minha comida favorita e eu te saborearei por muito tempo!

Aaron começou a deslizar, agarrou-se aos inseguros sacos de tumor. Seu rosto estava pressionado contra a superfície de uma das membranas opacas e de novo, encontrou-se olhando o rosto do Ancanjo Gabriel, flutuando dentro dos líquidos digestivos do gigante.

– Mensageiro. – uma voz fraca soou dentro de seu cérebro. – Liberte-se. – e o anjo abriu os olhos, sua intensidade inspirava a agir.

Aaron retirou o braço com um grito e o levou a frente, golpeou no lugar onde os sacos digestivos estavam conectados ao peito de Leviathan. A celestial lâmina passou através do tecido conector com facilidade e os órgãos que pendiam, caíram do corpo do monstro como uma fruta madura cai de uma arvore.

Leviathan caiu, jogando seu corpo contra sua prisão de pedra, fazendo com que algumas partes das paredes e o teto desmoronassem, uma chuva de escombros caia até embaixo, sobre o solo da cova.

Aaron deixou-se cair. Havia feito todo o possível, cortando muitas das possíveis prisões do estômago, mas havia muitos e ele não podia chegar a todos eles.

Aterrissou sobre uma pilha de bolsas cavernosas, começou a cortar os órgãos cheios de líquido, tentando liberar aos que estavam presos dentro da besta antes que ela superasse sua fúria. Líquidos leitosos drenavam das tripas abertas, cobrindo o solo com uma capa de sucos digestivos com mau cheiro. Leviathan gemia pesarosamente, sua grande massa de serpentina estava apoiada contra a parede da cova submarina, estava aparentemente preso em uma espécie de choque, talvez como resultado de ter sido separado de sua fonte de alimento; Aaron


adivinhou, mas no fundo sabia que a besta não permaneceria dócil por muito tempo. Era apenas questão de tempo antes que sua raiva o alimentasse para devolver o golpe a pessoa que lhe impunha dor.

– Feriu a besta. – disse uma voz atrás dele. Aaron se virou para ver a forma pálida do anjo Gabriel. Sua armadura, uma vez gloriosa era agora da cor de uma moeda suja, pendendo sobre seu grande esqueleto. O Arcanjo tremou, pouco consciente, em um poça de líquido viscoso.

– Agora há de acabar a tarefa que eu não pude terminar. – fez um gesto com uma mão esquelética para os outros sacos, até os que ainda encontravam-se dentro. As pulseiras que uma vez provavelmente esteve ajustada firmemente nas musculas mãos, estavam gastas, soavam vagamente, ameaçando romper-se.

– Em nome do Criador, mate a besta Leviathan.

Aaron aproximou-se dele.

– Eu... Não posso fazer isso. – disse. Ofereceu a espada a Gabriel. – Aqui. – disse. – Faça você. – o anjo caiu de joelhos no solo saturado de líquido.

– Eu não posso. – ofegou Gabriel. – Se eu lutar com o monstro apenas acelerarei minha inevitável morte.

Aaron se virou para os sacos digestivos.

– Talvez um dos outros possa ajudar. – sugeriu, olhando as formas dos outros seres angelicais que haviam sido mantidas cativas no ventre do temível monstro. Muitos haviam se encolhido em posição fetal, presos em um mundo tomado por Leviathan. – A maioria está em estado camamitoso como eu. – engasgou Gabriel.

Aaron se ajoelhou junto a dois sacos que continha seu cachorro e Camael.


— Eles vão ficar bem? — perguntou, colocando uma mão tremula ao lado de seu labrador, procurou sentir uma batida do coração ou qualquer outro sinal de vida.

— Não foram prisioneiros da besta por muito tempo. — disse o Arcanjo. — Eles vão sobreviver se Leviathan não conseguir recuperá–los. O monstro se moveu, um baixo gemido trêmulo fez eco em toda a caverna sob a água.

Aaron ainda tinha presa a Portadora de Luz com força em sua mão.

– Você tem alguma ideia do que está me pedindo que faça, você quer que o mate?

Gabriel inclinou a cabeça para um lado. – Você tem alguma ideia da magnitude do poder que você tem ai dentro? – retrucou o anjo.

– Nephilin! – o monstro fazia estragos, seu corpo musculoso estendia-se tão alto como o teto lhe permitia, seu olho inchado estava fechado e gotejava da ferida.

Sua cabeça se movia da esquerda para a direita como que procurando sua presa.

– Vou conseguir você, e tudo pertencerá a mim!

Aaron ficou petrificado, vendo como a enorme monstruosidade gosmenta começava a ondular em sua direção. Seus tentáculos se contorciam no ar, como se de algum modo sustentassem o órgão sensorial que havia lhe roubado com violência. –Até mesmo o monstro sabe o que mora dentro de você. – disse o anjo Gabriel. – E você ainda o nega.

Leviathan arrastou os pés mais perto, seus tentáculos atacavam e rodavam no ar, tentava encontrar sua presa.


– Onde você está Nephilin? – cuspiu. – O poder que havia dentro de mim... Acho que se foi. – Aaron balbuciou, com os olhos cravados sobre a besta do mar.

– Eu tento me comunicar com ele, mas não responde. Acho que Leviathan poderia ter feito algo e...

– É isso o que deseja que aconteça? – perguntou o Arcanjo. – Ou é o que realmente aconteceu?

No principio, Aaron não entendia o que o anjo estava sugerindo, mas o significado ficou claro de repente.

– Eu estive dentro de sua mente; Nephilin. – disse Gabriel, tocando seu rosto com um longo dedo, o delicado indicador. – Vi o medo que enche seus pensamentos.

– Não..., não acho que eu seja suficientemente forte para controla-lo. – disse Aaron de repente, olhando com olhos cheios de terror, como Leviathan se aproximava.

– E se ele se for. – Gabriel sugeriu. – Já não teria o que temer.

Aaron concordou com a cabeça, envergonhado de seu medo, o que lhe permitia colocar em risco tanto as vidas de seus entes queridos, quanto o destino da humanidade. – O poder dos céus é seu legado. – explicou o anjo com voz fraca. – É o que existe dentro de você o que te permitirá realizar seus deveres sagrados como Mensageiro. – Gabriel se colocou de novo em pé, tremendo. – Pertence a você, é seu amo.

Aaron chegou a perceber que seu poder angelical não havia ido embora, que havia estado ali o tempo todo, escondido sob o véu da incerteza, esperando pacientemente que se desatasse.


– Próprio poder. – o anjo disse, voltando a atenção do rapaz para o inimigo se aproximando rapidamente. – Demonstra que você é um Emissário do céu.

Leviathan estava quase sobre eles, Aaron fechou os olhos e olhou o que havia criado para manter o poder a tona. Imaginou-se de pé diante de uma porta gigantesca, construída por ele mesmo, de troncos de uma poderosa arvore. Era como algo que tinha visto no filme; utilizado para manter King Kong em seu lado da Ilha Caveira. Na cara da porta de bloqueio e no centro da fechadura, o niolo da fechadura. Produziu uma chave mestre, antiga e a conduziu até o miolo da fechadura. A porta vibrou e tremeu, como se algo enorme estivesse esperando do outro lado, desejoso de ser colocado em liberdade. Podia ouvir a respiração; respirava de forma lenta e constante, como uma locomotiva que gradualmente aumentava sua velocidade.

Proxisoriamente colocou a chave na fechadura. Sabia que isto era o que tinha que fazer, que já não podia ter medo da força que compartilhava com seu corpo, tinha muito em jogo para ter medo. Com uma respiração profunda, Aaron virou a chave no miolo da fechadura e escutou um som, como se viesse sob alguns clicks ao girá-la.

A respiração lenta e constante do outro lado da porta parou abruptamente.

Podia sentir como crescia a antecipação, já que suspeitava o que estava prestes a fazer. Sem hesitar mais, Aaron abriu as grandes portas de madeira e liberou seu poder.

Aaron ofegou quando as marcas arcaicas começaram a aparecer sobre sua carne.

Queimando de dentro para fora, saindo para a superfície, uma erupção negra e fumegante em sua pele. Não tinha nem ideia do que eram os estranhos selos, ou o que significavam, mas eram o primeiro sinal de que o antigo poder interior, que residia dentro dele, estava prestes a ser libertado.

A sensação foi muito menos dolorosa neste momento e não de todo desagradável. Era como a maior urgência do mundo, pensou enquanto se viu preso na transformação de seu corpo. Os músculos os quais recentemente soube que existiam, obtidos de forma irregular, as asas presas empurravam latentes debaixo da carne das costas até a superfície.


Aaron fez uma careta como se sua pele estivesse sendo dividida e rasgada, as extensões de plumas que lhe permitiam voar. Flexionou o tendão que tinha sob a pele de suas costas e sentiu como a força dentro das grandes asas começava a se agitar.

O poder era embriagador e Aaron sentia-se preso na enormidade de sua força.

Não queria mais explodir pelo mundo, mas devia vencer o inimigo antes disso e depois passaria para o seguinte. Era um poder de batalha que havia se transformado em parte dele e se deleitava na arte da guerra.

A transformação estava quase completa. Aaron olhou com novos olhos a arma nuclear que ainda apertava em sua mão.

– Isto não é meu. – disse; sua voz ouvia-se como o ronronar de um predador da selva. Jogou a Espada de Luz para seu iniciador, o Arcanjo Gabriel, que pegou a espada com facilidade, pegando a força do contato com a arma esplêndida.

Uma espada desenhada para o próprio Aaron ganhou vida em sua mão. Ele olhava a arma com um crescente sentido de antecipação.

– Isto me pertence. – disse; admirando a potente lâmina, que provocava e lambia o ar com avidez.

– Sim. – disse Gabriel com a cabeça. – Claro que sim.

O poder cantava nele e Aaron teve dificuldades para lembrar de que era exatamente o que tinha tanto medo antes, mas apenas por um breve instante, o ataque do monstro Leviathan. – Encontrou-me Nephilin. – grunhiu ele, seu olho machucado ainda jorrava grandes quantidades de líquido amarelo e uma variedade de outros, estava volumoso. – E o que você vê, pode ser meu.


Antes que pudesse agir, Aaron sentiu que sua mente era brutalmente assaltada e sua percepção do aqui e agora, de repente, estava gravemente alterada. Estava de pé, já não estava em nenhuma cova submarina, tinha a espada de fogo na mão, o legendário monstro se aproximava por cima dele; Aaron agora encontrava-se no meio da sala de jogos de sua casa em Lynn, Massachusetts, seus pais adotivos estavam sentados em um sofá da sala. Era sexta feira a noite, era a noite de cinema na casa Stanley.

– Vai sentar-se e ver o filme ou vai sair? –Tom Stanley perguntou de sua poltrona, a caixa plástica da locadora de vídeos estava em seu colo.

Aaron sorriu com tristeza para seu pai adotivo, uma mistura de felicidade e de tristeza se apoderava dele, e não acabara de se lembrar porque se sentia desta maneira.

Um novo sentimento abriu espaço para a superfície de sua alma, violentamente, ao longe sentiu como tentavam arrancar as emociões que sentia. Aaron realmente tremeu, piscando arduamente, o nível dos sentimentos que se apoderavam dele eram intensas. “O que está acontecendo?” Ele se perguntou, estava muito velho para jogar a culpa de tudo, na puberdade.

– É o Novo Vingador. – disse seu pai, segurando a caixa plástica. – É nele que sua família morre pelos terroristas e ele se vinga. – havia um sorriso em seu rosto emocionado.

– Você sempre gostou deste tipo de filme... – disse uma voz dentro de sua cabeça que soava mais como o grunhido de um animal do que a sua. E de novo estremeceu.

– Você está bem; querido? – a única mãe que tinha conhecido, perguntou do canto do sofá. Deixou de lado sua mais recente série de novelas românticas. – Parece um pouco fora de si. – disse com evrdadeira preocupação. –Porque não se senta, vê um filme e eu te faço um pouco de sopa?

A voz amuada dentro de sua cabeça estava de volta.


– Essa foi sua primeira linha de defesa contra todo tipo de enfermidades. – disse; deixando que o sentido de sua declaração começasse a penetrar. – Eu te ajudei um pouco contra Verchiel.

Uma raiva alimentada pela dor incendiou em seu peito, e a palma de sua mão direita começou a parecer anornalmente quente, tinha a sensação de formigamento, como se estivesse adormecida.

Lori Stanley se levantou.

– Vamos. – disse; tocando-o pelos ombros. – Sente-se com Stephen e Gabriel, e eu te farei algo para comer. – dirigiu-se para a cozinha.

Pela primeira vez, Aaron notou que seu irmão adotivo estava sentado no tapete, rodeado de blocos de todos os tamanhos e formas. O cachorro estava dormindo junto a ele, sua respiração era rítmica e tranqüila. Aaron coçou a sensação de formigamento na palma de sua mçao e se perguntou onde tinha escutado o nome Verchiel antes.

– Realmente acho que esta vai ser boa. – disse emocionado, seu pai de sua poltrona, olhando a foto de capa da caixa de vídeo. Distraido, Aaron olhou para baixo para ver que os pequenos blocos sobre o tapete continham alguma escrita em cada face. Mas isso era impossível, sabia que Stephen mal podia falar, nunca esqueceria isso. Aaron ajoelhou-se ao lado da criança, seu corpo estava dilacerado pelo turbilhão de emoções que estavam tentando tomar conta dele. Não tinha a menor ideia do que estava errado com ele, até que leu o que Stephen tinha declarado no chão.

Sua mãe e seu pai estão mortos, disse a frase, em letras de plástico colorido que ele lembrava, tinham desnecessariamente imãs na parte de trás, para que pudessem ser colocados na porta da geladeira.

Aaron se colocou d epé, sentia um incêndio no centro de sua mão enquanto sua mãe voltava para o cômodo com um prato fumegante de sopa. Aaron estava segurando uma Espada de Fogo agora, e a olhou com espanto como se nunca a tivesse visto antes.


– Sente–se Aaron. – disse seu pai, fazendo um gesto com a mão para ele que se afastara de frente da televisão. – Está vai ser a melhor noite de filmes da história. – mais uma vez, Tom fez um gesto para que ele se sentasse, para que esquecesse todas essas emoções em conflito que aumentavam em seu interior, sem parar, para que esquecesse que agora estava segurando uma Espada de Fogo.

– Aqui está sua sopa. – disse Lori, segurando o prato para ele. – É de frango com estrelas. – ela disse. Era isto o que queria, mais que tudo, mas algo dentro dele, algo que estava muito irritado e muito poderoso lhe disse que não ia ser assim, que tudo era uma mentira.

Novamente olhou as palavras escritas em letras plásticas.

“Sua mãe e seu pai estão mortos.” As palavras eram como os fortes golpes de um martelo, que rompia a falsa fachada de um mundo que já não existia e Aaron começou a gritar.

Atacou com sua Espada de Fogo, cedeu à ira que tentava com tanta força lhe mostrar todo o engano. Aaron não sentiu nada quando a arma de fogo passou através da forma de sua mãe. Ela gemeu como o gorjear fúnebre das rodas em uma estrada molhada pela chuva. Seu pai gritou ainda com impaciência quando tanto a caixa de vídeo quanto seu corpo caíu para o lado, consumidos pelo fogo. – É tudo uma mentira. – gritou Aaron, deixando que a chama viva de sua arma se estendesse na sala de jogos, a carbonização da falsidade e os gritos do irreal cresciam com mais força.

Aaron tomou consciência das garras de Leviathan, o monstro retrocedeu da ferocidade e a violência de seus pensamentos. Este foi o céu pessoal de sua natureza angelical desenvolvendo-se dentro de seu cérebro, algo do que a besta do mar já havia sido testemunha. Um céu que consistia em falsidades queimadas para revelar a realidade, o inimigo vencido se consome no fogo da batalha. Era uma versão do paraíso, Aaron duvidou que esta grande besta houvesse criado alguma vez na mente de sua presa uma felicidade tão perfeita que implicasse sua própria desaparição.


E não podia suportar a ideia disso.

O monstro uivou em seu descontentamento e o jogou longe. Ao pode reagir rápido o suficiente, suas asas estavam encrespadas por ter sido entrelaçado nos tentáculos múltiplos da besta, e bateu na parede da cova, caindo no solo rochoso.

– O que acontece com você? – Aaron perguntou enquanto se colocou em pé e deslizou através da rocha solta. Ele flexionou suas asas de ébano, seu prodigioso ciclo golpeou o ar viçado da cova submarina. – Viu algo que não te agradou?

Sentiu que o poder dentro dele, tinha uma pitada de crueldade, davia-se a explosão das debilidades de seu inimigo, ele estava curiosamente distante nas fendas de sua armadura e não se deteria perante nada para conseguir triunfar. Aaron se perguntou exatamente até onde chegaria e se fosse necessário, era forte o suficiente para detê-lo? Só teria que esperar que eles se encontrassem.

Aaron estendeu suas asas e saltou no ar, com a espada no alto. Um grito selvagem de guerra escapou de sua boca, deixando-o tanto assustado quanto emocionado com sua ferocidade. Voou até o monstro, balançando-se, pronto para enterrar a arma em chamas na carne da criatura e colocar fim no pesadelo da ameaça a cidade de Alegria e também ao mundo. Reduziu a besta cega pela metade, sua Espada de Fogo em repetidas ocasiões golpeou o corpo de Leviathan. As faíscas de chama saltavam ao contato da arma com a carne do monstro, mas em vão. As escamas eram como uma armadura, a proteção da antiga besta ameaçava seu ataque. Sua natureza angelical chiou com desgosto, e ele tentou colocar de lado, a sede de sangue abrasadora para poder reconsiderar seu curso de ação, mas a ferocidade embriagava e ele continuou com seu ataque febril sobre a besta. – Ataque tudo o que desejar; pequeno Nephilin. – gorjeou enquanto faíscas de fogo dançavam no ar com cada novo golpe em suas escamas, aparentemente impenetráveis. – Não me importo.

Uma das mil extremidades de Leviathan atacou, enrolando-se ao redor de uma de suas pernas. Antes que pudesse levar sua lamina para baixo, para cortar a conexão, o monstro agiu, lançando-o contra a parede, com sua ferocidade selvagem. Sua cabeça e a parte superior de seu


corpo bateram de lado contra a parede da cova e ele sentiu crescer um entumescimento pelo impacto.

– Todos se acham superiores. – começou o monstro, dando-lhe um empurrão para o lado oposto da cova com o mesmo selvagerismo. – Os justos contra os malvados, há alguma duvida do resultado?

Leviathan o jogou no solo e precisou de toda a força interior que podia juntar para não cair inconsciente. O anjo interior falava, mas também, lutava para não sucumbir a ferocidade do araque. Aaron olhou como a massa do gigantesco animal se aproximava e como soava a queda de uma forte chuva. Não podia começar a discernir a fonte do som até que sentiu uma das duras extremidades de Leviathan como se jogasse para pegar sua mão estendida. Seus fios eram aranhas arrastando-se por debaixo das escamas de seu amo, caiam sobre ele. Aaron podia sentir que se moviam em suas costas e seus pernas. Sentiu repugnância. – Nunca poderia imaginar a força que você tem. – o monstro se lançou. – O excesso de confiança sempre foi sua perdição.

Aaron sentia novamente como ele tentava intrometer-se em sua mente, e o bloqueava, bloqueou temporariamente atrás da vala fortificada que havia construído mentalmente para manter sua natureza angelical, recém despertada, isolada. Tinha que pensar, para idealizar uma maneira de vencer o monstro antes que ele tivesse oportunidade de fazer o mesmo com ele, mas o tempo era essencial.

Aaron levantou-se do solo, o abominável apito das aranhas presas a sua roupa tentando chegar a sua boca onde podiam meter-se para dentro, deixando a presa dócil o suficiente para que seu progenitor pudesse consumir com menos esforço. Ele não quis saber de nada disso, soltou seu corpo com a mão e abriu suas asas, golpeando-as com fúria.

Leviathan se lançava mais e abriu seu olho machucado para olhá-lo. A órbita havia começado a sarar, mas o rasgo do corte da espada através dele ainda podia se ver.


– Não há lugar para onde você possa fugir, não há nenhum lugar onde se esconder. – sussurrou a besta. – Outros mais forte que você tentou me destruir e olha o que aconteceu com eles.

Aaron viu os sacos digestivos cortados. Pode ver que ainda restavam muitos esquecidos, enquanto que outros, a seu ver, tinham mais probabilidade de estarem mortos, as forças de suas vidas se dissiparam pelo pesadelo antes que eles.

Leviathan deslizou mais perto, e Aaron comtemplou a agitação na boca do monstro, olhando sua suave e rosada garganta, uma ideia começou a tomar forma.

Sua natureza angelical havia recebido seu segundo ar e ele se lançou para frente, desejoso de continuar a luta. Aaron apertou os dentes com o esforço, colocou-lhe um cadeado redutor mentar ao redor do pescoço da poderosa força e jogou-a para ele. O poder dos céus lutou, com vontade de jogar a Espada de Fogo e novamente saltar na briga querendo sair para a batalha contra o antigo mal das profundidades.

Mas isso não era seu plano, mesmo que detê–lo era provavelmente uma das coisas mais difíceis que tinha tido que fazer. Aaron afogou um grito de dor enquanto a essência de sua natureza angelical brigava contra ele para ser liberada.

– Ainda não. – Aaron sussurrou entre dentes, enquanto o monstro arrastava os pés mais perto, onde se colocou de joelhos. Os inícios de uma lâmina celestial provocaram seu alcance, mas ele desejava manter a distancia, convertendo toda sua atenção na besta que agora o dominava.

– Que jogo você fará desta vez; Nephilin? – Leviathan perguntou, obviamente esperando que seu conflito voltasse a retornar.

Aaron sacudiu a cabeça, olhando a cara do pesadelo horrível que era Leviathan.

– Eu não jogo. – disse para a besta. Ele levantou as mãos para frente, mostrou para a monstruosidade que ele não tinha armas. – Não posso lutar contra você.


Leviathan começou a rir, em um estrondoso e terrível borbulhar.

– Que sensível de sua parte Nephilin. – disse, seus tentáculos se contorciam no ar com antecipação.

Aaron estava sob o monstro e estendeu os braços em sinal de rendição. Seu corpo estremecia ainda com dor, enquanto tentava conter as furiosas forças que lutavam desesperadamente para sair e se defender, mas ele as deteve porque não tinha chegado o momento.

– Leve-me. – disse para a criatura que se parecia com um verme que tinha existido nas arvores do tempo.

E Leviathan o entrelaçou em suas garras, levando-o para cima, para sua boca faminta.

– Vou usar seu poder assim. – disse ele, olhando fixamente com seus olhos frios e sem piscar, a saliva viscosa começava a sair de seu orifício, circulando pela longitude de seu corpo preto e reluzente.

– Coma-me. – gritou Aaron. – E eu espero que você se afogue! – acrescentou quando as extensões musculares o empurraram, para sua goela aberta, e ele o engoliu inteiro. A primeira coisa que notou era o fedor incrível. Cheirava ainda pior no interior. Recordou o cheiro podre de um rato que tinha matado na parede da cozinha da casa de Stanley e em como ele havia pensado que nada podia cheirar tão mal.

Não podia estar mais enganado.

Preferia usar o roedor morto ao redor de seu pescoço como jóia pelo resto de sua vida do que suportar o fedor das entranhas de Leviathan.

Se não fosse pelos fluidos lubrificantes espessos que fluíam da besta enquanto os músculos da garganta se contraiam, enviando-o para baixo, até seu estômago, estava a


possibilidade de que o aroma de funcionamento interno do monstro poderia muito bem tê-lo deixado inconsciente.

O sistema digestivo de Leviathan estava começando a ter seus efeitos sobre ele também. Sua pele queimava e sentiu uma onda de fatiga inegável, tentando purgar a luta de seu espírito. Inclusive a presença angelical se fez cada vez mais dócil, e Aaron sabia que logo seria hora de colocar seu plano em prática.

O interior da besta borbulhava e cuspia à medida que sua massa avança com uma série de poderosos espasmos musculares para o que Aaron acredita que era seu esôfago, em seu caminho a um dos sacos digestivos que ainda ficavam pendentes do corpo de Leviathan. Fazia– se difícil respirar e ele sentiu os olhos pesados. Aaron lutou com a ideia de ter um pequeno cochilo antes de continuar com seu curso de ação, mas pensou melhor, lembrando o destino dos seres angelicais que o grande mal havia comido.

Perversamente, a viagem pelo regulador de pressão do mostro lembrava um dos tobogans do parque de diversões quando tentava dobrar seu corpo de tal maneira que pudesse ver para onde ia. Era preto como um peixe o estomago do mosntro e Aaron tentou convocar uma bola de fogo e mantê-la enquanto ele continuava seua viagem ao retorcer o ventre da besta. A metade dele desejava que ele não precisasse da fonte de luz, mas o interior de uma criatura do caos não era o mais agradável dos lugares para se visitar.

Produziu um abrupto giro no tubo digestivo e Aaron se encontrou prestes a ser depositado em um dos órgãos digestivos restantes. Isto não era parte de seu plano e convocou um faca de fogo, apontando para a parede carnosa da passagem digestiva, deteve seu progresso. Sentiu que seu redor se agitava e supôs que havia causado mal estar na grande besta, O filho da puta ainda não sabe o significado da palavra pensamento, liberar seu poder dominante dentro dele e embora fosse mais manejável do que havia sido antes de ser comido, aproveitou a oportunidade para se libertar. Seu plano tinha êxito, Leviathan teria muito mais do que se preocupar com um simples mal estar.

Uma incrível onda de energia corria por seu corpo coberto de líquido e sentiu de imediato sua letargia. Colocou-se no corredor do estomago e abriu suas asas a medida que pôde, ainda se aferrava a lâmina da faca que agia como um gancho, que não permitia que o jogasse para mais abaixo no estomago de Leviathan. Agora exercia a plenitude de seu latente poder, Aaron conjurou uma espada impressionante de fogo celestial, iluminando seu nauseabumdo meio ambiente e de imediato começou a colocar seu plano em movimento.


Estava prestes a mostrar para Leviathan os efeitos desastrosos de comer algo que não estava concordando ser comido. Se fosse capaz, teria sorrido para a besta Leviathan.

A medida que engoliu o último pedaço, uma onda de alegria passou pelo monstro de um jeito que nunca havia experimentado. Leviathan podia sentir o pulsar de poder do Nephilin dentro dele, e sabia que esta fonte de força seria o que finalmente lhe permitiria sair de seu cárcere de pedra, e reclamar o mundo acima como seu, Olhou para os outros que haviam sido parte de seu alimento, as criaturas angelicais, as cascas de inúteis, escorridas e jogadas pelo chão de sua prisão, e se deu conta de que nenhum o havia feito sentir tão glorioso como estava agora. A desova mudou-se com entusiasmo por debaixo das escalas de proteção de seu pai, sentindo que logo seria hora de sair da cova para o mundo, onde seu reinado se iniciaria.

Imaginou que o Criador, em toda sua infinita sabedoria, enviaria outras pessoas para feri-lo, soldados do reino celestial, e todos se encontrariam com um destino parecido aos que haviam vindo antes. Com a força do Nephilin, não havia nada que pudesse deter Leviathan.

Saciado pela mera promessa de novas energias angelicais, Leviathan se preparou para o fluxo transformador de potência que logo o inundaria. Inclinou-se com toda sua grandeza, semelhante a uma minhoca a grabel contra a parede da cova e imaginou o que estava em seu futuro. Depois de incontáveis milênios, tinha os meios para ser livre. O habitante das profundidades enviaria sua desova da cova, para mais além dos assentamentos, com o que os habitantes, agora sob seu controle, se alegrariam. Agora tinha um numero considerável e as ferramentas necessárias para ser liberado de sua rochosa prisão.

E então, seu trabalho começava a partir.

As fantasias do monstro de um mundo transformado, esculpidas como uma representação de sua própria caótica natureza. Ele se viu em um lugar coberto de agitados mares, a maioria das massas de terra engolidas pela agitação vulcânica, os céus pretos de cinzas expulsos para a atmosfera para clarear o sol que odiava. E toda a vida no novo mundo, que abundavam no que restava das terras assoladas e nadando por baixo da escuridão, as profundezas do oceano, para elogiar seu nome em adoração.


– Leviathan. – imaginava o que proclamaria. – Bem aventurada à maneira na qual nos tocou com sua glória resplandescente. Louvado seja o Senhor das profundezas, Santificado sejas.

Sentia uma aguda pontada de dor na parte baixa de sua massa, uma sensação de ardor que parecia ir aumentando. O monstro afastou-se da parede onde tinha se recostado, com a cabeça raspando o teto da caverna submarina, já que se levantou.

– O que é isto? – perguntou-se com um sussurro sibilante cheio de choque e surpresa, quando o mal-estar intensificou. – O que está acontecendo?

Nunca havia experimentado tal agonia, era como se um fogo furioso estivesse dentro de seu corpo, mas, como isso era possível? Ele se perguntou. O calor de sua dor se intensificava, o calor abrasador se expandia frente às regiões inferiores de seu tronco serpentina, se extendia por tudo.

– Isto não pode estar acontecendo. – exclamou Leviathan quando o primeiro dos sacos digestivos que lhe restavam explodiu, os líquidos contidos em seu interior haviam alcançado as temperaturas ao ponto de ebulição em seu interior, fazendo estragos em seu corpo. Leviathan gemia de dor, era incapaz de agir. Outro dos sacos rompeu-se, pulverizando as paredes de uma corrente borbulhante, seguido de outro, e depois outro.

O monstro desmaiou, sua dolorosa forma chocava contra a superfície rochosa das paredes da cova. A desova, normalmente protegida por debaixo de sua armadura de escamas, choveu até o solo da caverna, galopando ao redor de forma frenética, um pânico que impulsionava a loucura pela dor de seu progenitor.

Leviathan não queria nada mais do que escapar de sua prisão, para ter uma oportunidade de demonstrar ao Criador que também tinha uma razão de ser, em seus pensamentos, que considerava febris, vislumbrava como o paraíso desenhado por ele mesmo ia desvanecendo rapidamente ao longe. Pensou em preto, nos oceanos de caos que o olhavam como Deus e Senhor.


– Teria sido magnífico. – queixou-se Leviathan quando a Espada de Fogo estralou no meio de seu corpo e algo ardeu quando uma estrela surgiu da ferida latente.


Camael se afastou lentamente pela ruptura dos órgãos digestivos e olhou ao ser redor desconhecido, com um olhar cauteloso.

Enquanto estava preso dentro da prisão, lhe fizeram acreditar que tinha encontrado o paraíso angelical, O Paraíso, e todos os séculos de exílio e conflito que experimentou tinham chegado ao fim. A profecia havia acontecido: Os Anjos caídos da Terra foram perdoados pelos Céus. Foi cumprida.

Ao olhar ao redor da cova subterrânea, o redor lhe fez voltar à realidade.

Ela não tinha encontrado O Paraíso, onde agora se encontrava era muito diferente do paraíso em que algum anjo teria gostado de estar.

Um gemido triste aumentou em intensidade, soando ao redor da caverna, despertando ao anjo mais diatnte de seu ambiente. Camael virou-se para ver o monstro Leviathan no que parecia ser um agarre de tortura. O corpo do gigante do mar estava brutalmente golpeado contra a parede da cova, gritando de dor. Uma Espada de Fogo cresceu em sua mão, uma precaução para o caso de ser necessário se defender.

– Está conseguindo o que nós não pudemos fazer. – disse uma voz próxima, e Camael virou-se para o Arcanjo Gabriel, murcho e magro, com a espada apoiada na parede de pedra.

Camael inclinou a cabeça, reconhecendo o anjo pelo que era e quem era. – De quem falas; grande anjo? – perguntou Camael, voltando sua atenção a besta.


– O Nephilin. – o desidratado Emissário dos Ceus sussurrou. – O último Mensageiro de Deus. – Aaron. – ofegou Camael à medida que Leviathan continuava sua dança de agonia. Olhou assombrado como a pele da besta ardia. As protuberâncias que pendiam obscenamente da parte frontal do monstro, e a que havia sido cativo no interior, explodiam, seu conteúdo, pulverizava o ar com uma nevoa de vapor. – Teria sido magnífico. – disse a criatura de pesadelo, confusa pela arma de fogo.

De repente o rasgou em dois e saiu da ferida o que parecia uma brincadeira de nascimento.

Estava prestes a chamar o Nephilin, mas decidiu se calar. Camael observou ao mestiço, a descendência do anjo e humano, surpreendeu-se e talvez até mesmo um pouco preocupado pelo que viu.

O Nephilin saltou da ferida no estômago da besta marinha, suas asas de plumas negras batiam furiosamente, tentando secar os fluidos internos que manchava sua beleza de elegante ébamo. Em sua mão tinha uma Espada de Fogo. Uma arma tão intensa que poderia rivalizar com as realizadas pelos soldados de elite dos Céus. Este não era o recém-nascido angélico que surgiu para a vida há apenas algumas semanas para vingar as pessoas amadas que eram brutalmente assassinadas, Camael o observou. Isto era algo diferente. Camael observou como o jovem transformado, se elevou no ar diante da besta agonizante, suas poderosas asas batendo no ar, erguendo para se colocar diante da cara de seu inimigo. Leviathan atacou o Nephilin, seus tentáculos em forma de chicote tentavam captura-lo, mas caindo no vazio, os movimentos do anjo eram mais rápidos. – Maldito. – rugiu Leviathan. Matéria grossa e coisas vivas, verdes, saiam do estômago pela ferida aberta, até o solo da cova.

– Maldito seja você e o Mestre ao que você serve. Aaron perdurava-se diante do rosto resmungão da besta, com a espada preparada para atacar. Camael estava maravilhado com o espetáculo.


– Você tem uma mensagem do grande figurão do piso de cima. — Camael ouviu o grito do Nephilin enquanto levava a flamejante lâmina até abaixo em um arco de grande alcance destinado a cabeça de Leviathan. – Você está morto.

A lâmina de fogo rompeu através da espessura do incrível crâneo da besta marinha fazendo um profundo buraco. Grande parte da espada ficou profundamente enterrada dentro de seu craneo monstruoso. Golpeou violentamente, em uma vã tentativa de tirar a arma de fogo, mas logo cresceu ainda mais.

Aaron retirou a espada e a manteve com orgulho sobre sua cabeça, batendo as poderosas asas, sustentando-a ao alto. Um terrível grito de vitoria chegou ao ar e Camael comtemplou, com profunda admiração, como o gigantesco corpo da antiga divindade marinha começou a queimar. As primeiras chamas saíram da ferida da cabeça de Leviathan, como um jorro de fogo laranja, o feroz calor se propagou ao longo do enorme monstro. A escamosa carne, os músculos e os ossos alimentaram as chamas celestiais. Aaron voou para o solo da cova enquanto o corpo do monstro desmoronou em uma pira32 gigantesca de cinzas que ardiam. Aproximou-se ameaçadoramente até Camael. As deformidades de Leviathan se revolviam no solo da cova, suas cascas estavam em chamas. Os últimos vestígios do antigo monstro marinho que restavam vivos, mas não por muito tempo.

Camael agarrou sua arma, sem saber as verdadeiras intenções do Nephilin. Não seria a primeira vez que tinha dado testemunho da loucura de uma ascendência mestiça depois de manifestar a plenitude de seu celestial poder.

Aaron apresentou-se ante ele, com a arma celestial na mão. Estudou o rosto terrível do Nephilin. Em seu estado debilitado, Camael não tinha certeza se poderia sobreviver a uma batalha com tal adversário, mas se preparou. Nenhum deles falou, mas o anjo guerreiro observava o menor indicio de ataque. Iria para a batalha, seus primeiros golpes teriam que ser letais.

– Isso realmente me irritou. – disse Aaron, enquanto um pequeno sorriso aparecia em seu rosto de guerreiro. – Alegra-me ver que você está bem.

32

Estrutura, em geral feita de madeira, aonde se queima o corpo humano como parte de um ritual funerário, também chamada de pira funerária.


Camael baixou a espada, confiando em que o estado mental do Nephilin ainda estava intacto, pelo menos no momento.

Aaron colocou a mão em torno de Gabriel, observando o subir e descer da respiração do cachorro. O pelo amarelo do labrador estava cheio de lodo.

– Hey. – disse-lhe em voz baixa, dandi ao seu melhor amigo um suave chacoalhão. – É hora de se levantar.

No início o animal não respondeu, sua mente ainda estava no paraíso canino. Aaron o sacudiu outra vez um pouco mais forte.

– Gabriel, acorda.

– Estou acordado. – respondeu o Arcanjo com cansaço, ainda repousando seu surrado corpo contra a parede da cova.

Aaron levantou os olhos.

– Eu estava falando com o cão. – disse ao Mensageiro de Deus. – Seu nome é Gabriel também. – ele sorriu brevemente e voltou a olhar para seu amigo, que finalmente começava a se mexer. – Hey sócio, vai se levantar?

O cachorro esticou as quatro patas e o pescoço, emitindo um grunhido baixo e gutural, que começou em algum lugar das regiões baixas de ser amplo peito. Então suspirou, com os olhos de cor marrom escuro; quase abertos.

– Aaron, eu estava sonhando. – disse meio adormecido. – estava caçando coelhos e tinha um montão de coisas boas para comer. Aaron acariciou a cabeça do cão com amor.

– Você pode fazer todas essas coisas aqui, sem ser comido por um monstro do mar.


O cachorro levantou a cabeça e olhou ao seu redor. – Onde estamos? – perguntou, sentando-se. – A última coisa que me lembro... A velha. – disse com uma expressão de surpresa, com os olhos abertos no rosto canino. – Cuspiu-me algo e me fez insensível.

– Sim, eu sei. – Aaron concordou com a cabeça. – Mas acho que eliminamos isso. – disse e olhou na direção dos restos que ainda ardiam do mitológico monstro marinho.

– As prisões não podem continuar existindo sem a mente da besta. – disse camael, de pé sobre os carnosos sacos que Aaron liberou do corpo do monstro. Estava revisando para ver qual dos cativos de Leviathan ainda estava vivo. – Todos eram parte de uma grande besta e as partes não podem sobreviver sem o todo.

Gabriel rigidamente se colocou de pé e se sacudiu, salpicando todos os lados com as gosmas digestivas que ainda se prendiam em seu pêlo.

– Cuidado com isso. – disse Aaron e cobriu seu rosto com suas asas, bloqueando os respingos. – Já tenho bastante desse lixo me cobrindo.

– Então, não notará um pouco mais. – disse o cão e sorriu com o sorriso especial e único do labrador.

— Talvez ainda haja um chance de que possa se meter de novo em um desses estômagos. — queixou-se Aaron com fingida seriedade, dando ao cachorro um olhar de olhos tortos. Gabriel latiu e moveu o rabo, nenhuma experiência é pior do que estar preso no intestino de uma besta marinha. – Quem é? – perguntou o cachorro de repente, dando um passo a frente, com contrações de nariz. Aaron notou que o Anjo Gabriel estava junto a ele e parecia estar estudando seu cão com o mesmo nome.

– Gabriel. – disse Aaron ao animal. – Este é Gabriel. – fez um gesto para o Arcanjo.


Gabriel pisou suavemente mais perto, o nariz continuava farejando, meneando o rabo com cautela.

– Esse é um nome muito bonito. – o cachorro disse ao ser angelical.

O Arcanjo olhava o cachorro de Aaron com uma expressão brincalhona em seu rosto mal tratado.

– Você colocou o nome no animal depois de mim?

Aaron encolheu os ombros. – Não especificamente. É apenas um nome bastante comum. Quando era um cachorro parecia um Gabriel, isso é tudo.

– Eu já era muito adorável quando era um cachorro. – disse o cão com uma inclinação de cabeça.

O anjo que continuava debilitado dirigiu-se com cuidado até o cachorro, esticando um mão tremula para tocar a cabeça do animal. O labrador não parecia temer nenhum problema com isso, lambendo a mão do anjo, carinhosamente.

– Este animal foi mudado. – disse o Arcanjo, acariciando a pele ao lado da cara linda de Gabriel. – Não é como deveria ser. – o anjo olhou para trás, como que procurando uma explicação.

– Gabriel é muito importante para mim. – começou Aaron. – Foi ferido mortalmente. Eu o salvei. – Você o salvou. – o anjo repetiu, sustentando a cara do cão por baixo da barbicha e olhando seus escuros olhos cor chocolate. – E muito mais.

– Ele o fez. – disse Gabriel, olhando para trás.


– Que outras maravilhas você pode realizar Aaron Corbet; O Nephilin? – o Anjo Gabriel perguntou, com fascinação em sua voz.

Aaron não sabia o que dizer, consciente de si mesmo sob a observação dos olhos Do Mensageiro de Deus.

– Eu realmente não sei, mas...

– Ele é o escolhido da Profecia. – falou Gabriel. O ex-líder de Os Poderosos estava de joelhos junto aos sacos digestivos, agora esvaziados e os restos dos seres angelicais que continham. Olhou para os corpos dos seres celestiais, a beira da morte.

– De que outras maravilhas ele é capaz? – perguntou a Camael, tristemente entre os dilacerados e os moribundos.

– Pode enviar nossos irmãos caídos para casa.

Aaron se lembrou o que tinha feito quando Ezequiel morreu. Seu recém-despertado poder havia perdoado o anjo caído de seus pecados e permitiu sua volta ao Céu. Esta capacidade, este poder de redenção, era o que a antiga Profecia havia assumido como o poder de sua vida, teoricamente com tudo, e gostasse ou não, era seu trabalho reunir aos anjos caídos da Terra com seu Criador.

Ele se sentiu atraído para os anjos moribundos, seu corpo inteiro, começando a sentir um formigamento como se uma grande carga elétrica estivesse se construindo com força dentro dele. Aaron estava familiarizado com estes sentimentos. Moveu-se entre os corpos murchos, suas forças vitais tomadas pelo voraz apetite de uma criatura do caos e sentia uma tristeza difícil de superar.

“Quanto tempo, quantos séculos tem estado o monstro, mantendo-os aqui?” Ele se perguntou, olhando para baixo no que antes eram seres de uma beleza explendida. Agora nada mais do que conchas vazias de seu antigo explendor. Os que haviam caído de graça, os soldados a serviço do Criador, peças retorcidas de vida dos anjos criados para a servidão: Todos estavam


aqui, unidos entre si, todos precisavam desesperadamente uma coisa que ele era capaz de lhes dar.

Libertaria–os;

Aaron sentia uma grande tristeza, desgraça. Quando o poder sobrenatural agitou em seu interior, agitou-se em uma bola fervente no centro do peito. Ele sabia exatamente o que fazer, agora sentia como uma segunda natureza nele, como respirar, ou piscar.

Ele colocou suas mãos sobre eles, um atrás do outro, o turbilhão de energia girou em seu interior, que percorria ao longo de seus braços e em suas mãos. Tanto se podia tratar de Orixá, de caídos, ou de elite celestial; Aaron tocou em todos, acendendo suas essências moribundas com a força da redenção.

– Agora terminou. – disse para eles, seus corpos brilhavam intensamente como as estrelas, caídas do Ceu durante a noite para mostrar o alcance de sua fabulosa beleza.

Camael deu um passo para trás, banhado pelo resplendor de sua tranformação, e Aaron se perguntou se apenas era medo o que via na expressão de seu rosto ou era inveja?

Que os anjos tivessem se convertido em sustento para a fome de um monstro, já não era uma preocupação, as chamas finais de explendor divino já prosperava em cada um deles.

– Sois livres. – disse Aaron à medida que se perndurava no solo da cova, deleitando-se na experiência de seus renascimentos. Estendeu suas asas de cor negra brilhante e abriu os braços. – É hora de voltar para casa. – proclamou e com essas palavras, a escuridão unida, a misteriosa toca de Leviathan encheu-se com a luz do divino e qualquer rastro do mal que ainda vive dentro da caverna do monstro foi derrotado e aniquilado pela limpeza dos brilhantes raios celestiais.


Os vivificados anjos gravitaram até o Arcanjo Gabriel, levitando ao redor do Mensageiro de Deus, banhando-o com suas auras luminosas. Através da luz Aaron pôde ver que Gabriel estava ficando mais forte, ganhando a sustentação de seus irmãos angelicais.

Aaron sentia-se em paz enquanto via como as criaturas dos Céus que tanto haviam sofrido se reuniam, e deixou que seus angelicais rostos retrocedessem de novo dentro de seu corpo saciado, por hora. Os selos arcanjos que foram gravados em sua pele começaram a desvanecer, e suas asas dobradas, se retiraram gradualmente por sob a carne e o músculo de suas costas.

Ambos, Camael e seu cachorro haviam se unido, sem querer interferir de modo algum com ele, uma vez encarcerados na comunhão dos anjos.

— Eles estão muito felizes de vê-lo novamente. – disse o cachorro, meneando o rabo alegremente.

– Estiveram muito tempo sem a companhia dos seus. – disse Camael, com os olhos cravados na cena diante dele, e Aaron duvidou se o guerreiro não estava de alguma forma falando por si mesmo também. O Arcanjo Gabriel foi restaurado a verdadeira glória, armadura cintilante, como se tivesse sido recém forjado e polido, as asas de cor da neve virgem abriram-se em suas costas. A envergadura do Mensageiro era enorme, e as enroscou nas crianças dos Ceus, atraindo-os para si.

– Temos muito a lhe agradecer, companheiro Mensageiro. – disse o Arcanjo com sua voz rica e poderosa, que vibrava no ar como as notas graves tocadas em um oração de igreja. – O monstro foi vencido e nossa liberdade recuperada. Aaron ficou sem fala, mesmo depois de tudo o que havia visto em sua vida passada. As imagens diante ele o assombraram, todos eles flutuavam no ar, Gabriel no centro de seu universo, todos os que haviam sobrevivido a sua terrível experiência, envolto em seu abraço amoroso. Ele estava lhes guiando de volta, o Arcanjo Gabriel estava lhes escoltando para casa.


– Saiba que minha benção te acompanha em sua perigosa viagem, Valente Nephilin. – continuou o anjo. – E que seus atos de heroísmo serão comentados no Reino de Deus.

Seu cachorro deu–lhe um empurrão com a cabeça. – Ouviu isso Aaron? – perguntou com entusiasmo. – Vão falar de você no Reino de Deus.

Aaron acariciou seu amigo em êxtase, ainda fascinado pela visão impressionante diante dele.

– Com estes atos, fez muito para apagar os pecados do Pai e de cumprir com os editais da Profecia...

Aaron estava tão absorto nos sons melodiosos da proclamação de agradecimento do anjo que não captou o significado da ultima frase, mas fundiu-se gradualmente nele, impregnando seu cérebro, e as campainhas de alarme começaram a soar.

Ele nem sequer tinha ouvido as últimas palavras de agradecimento pronunciadas pelo Mensageiro. O Arcanjo Gabriel levantou a cabeça para o teto da cova, o resplendor celestial sobre eles crescia com intensidade. A Portadora da Luz havia aparecido em sua mão, e sinalizou a poderosa lâmina para o teto da cova até seu celeste destino mais além do teto de rocha e por cima do mundo do homem. Aaron atacou para frente, protegendo os olhos da luz cegante de sua ascensão. – Espera. – gritou enquanto tentava encontrar o Arcanjo no radiante espetáculo. – O que você sabe sobre o pecado do Pai?

Podia apenas ver mais ou menos o contorno do anjo Mensageiro no centro da bola, na expansão de luz. Através dos olhos entrecerrados, viu que Gabriel estava olhando para ele.

– Você disse os pecados de meu Pai? – Aaron lhe perguntou, querendo desesperadamente que o Emissário dos Céus explicasse o que havia dito. – Você sabe quem é meu Pai? Por favor...


A luz queimava tão intensamente agora que ele não teve mais remédio do que deixar de olhar, ou ficaria cego.

– Você é filho de seu Pai. — disse Gabriel na luz do Céu. – No inicio eu não o vi, mas logo foi óbvio.

De costas para as criaturas que pareciam integradas pela luz viva, Aaron pediu respostas para o Mensageiro.

– Se sabe quem é, pode me dizer alguma coisa, qualquer coisa..., por favor!

Aaron podia sentir a força dos poderes celestiais enquanto os anjos se preparavam para o Céu. Queria nada mais do que dar a volta e jogar-se na luz, para evitar que o Arcanjo Gabriel voltasse ao Reino de Deus, até que lhe dissesse o que sabia.

Parecia a maior orquestra do mundo, afiando todos seus instrumentos ao mesmo tempo. Ele sabia que era apenas questão de segundos antes de Gabriel e os demais houvessem ido, formando essa planície de existência, lebando seus valiosos conhecimentos com eles.

Aaron caiu de joelhos sobre o solo da cova, tanto física quanto emocionalmente drenado.

– Você é o Mensageiro. — disse, tendo a esperança de que seria ouvido. – Dê-me uma mensagem..., dê-me algo. Houve um repentino lampejo de brilhos e a caverna se encheu de um silêncio surpreendente, enquanto os habitantes dos Céus voltavam aos seus lugares, mas não antes de ouvir a voz sussurrante do Arcanjo Gabriel em seu ouvido.

– Você tem os olhos de seu pai.


O povo de Blithe estava vomitando e Aaron imaginava que ele sabia exatamente o que eles estavam sentindo. Não ele não tinha nenhuma criatura como caranguejos vivendo dentro de seu peito, mas ele tinha acabado de saber as primeiras pequenas informações sobre seu pai biológico. Aquela profecia tinha alguma coisa haver com os pecados de seu pai e ele também tinha os olhos do pai. Ele pensou que também estava começando a passar mal. Aaron, Camael e Gabriel moveram-se junto através da passagem sinuosa que levava a saída do covil do Leviathan, um dos muitos túneis que haviam sido escavados na pedra pelo povo que vivia sob o mar do covil do monstro.

– Grosso – Gabriel disse e Aaron não podia concordar mais. O povo, que estava até o Leviathan desaparecer, se ocupando removendo toneladas de pedra e poeira para libertar a besta, haviam parado de trabalhar. Eles haviam derrubado suas ferramentas e haviam se contraído em torno de seus abdomens, obviamente sentido dor, os corpos deles estavam sendo torturados pelos vômitos e colocando para fora as horríveis coisas que haviam rastejado para aqueles corpos para controlar suas ações.

– Eles estão todos bem? – perguntou Aaron, franzindo seu nariz com nojo.

– Os corpos deles estão rejeitando o invasor do Leviathan – o anjo guerreiro disse, soando um pouco blasé, eu imagino que eles vão ficar bem, assim que as criaturas mortas e seus ninhos forem expelidos do corpo deles

O piso da câmera menor estava sujo com todo o tipo de imundície e já haviam restos em decomposição das coisas que pareciam aranhas que residiam naqueles corpos. Aaron não tinha muita certeza sobre como ele se sentia sobre o que havia aprendido, não era como se tivesse dado o número do telefone ou o endereço de casa. A identidade daquele homem, o anjo, continuava sendo um completo mistério, e ele realmente não poderia


se preocupar em pensar sobre isso agora. Ele decidiu que lidaria com isto depois, quando as coisas se acalmassem, quando as coisas voltassem ao normal. Ele riu de si mesmo, como se a sua vida pudesse um dia voltar a ser normal

– Eu me pergunto há quanto tempo estas coisas ficaram dentro deles? – Aaron perguntou para distrair ele mesmo enquanto eles prosseguiam para a caverna menor, o nível de repulsa dele estava subindo rapidamente.

– Praticamente desde que Verchiel, entusiasmado abandonou sua missão sagrada e se tornou obsessivo em impedir que a profecia não se tornasse realidade – Camael disse enquanto eles caminhavam por um túnel que ele esperava que os levassem até a superfície.

– Então isto é outra coisa que eu posso ser culpado? – Aaron perguntou, sentindo o caminho de terra batida que estava abaixo de seus pés começar a se inclinar para cima. Eles continuavam a passar pelo povo de Blithe, muito deles ainda passando mal por conta da expurgação dos invasores dos corpos deles.

– De um certo modo sim – o anjo disse – Ao ignorar suas tarefas, o Poderesos permitiu que as forças do caos se enraizassem no mundo, crescendo com uma força inabalável. Eu tremo só de pensar nos outros invasores malignos que estão escondidos nas sobras do mundo.

– Ótimo – Aaron respondeu com um pesado suspiro. – Eu não gostaria ser deixa para algo que está acontecendo. Eu me pergunto se eu tenho algo haver com o aquecimento global? – Ele perguntou, com suas palavras pingando sarcarmo. – Nós deveríamos dar uma olhada sobre isto.

Gabriel correu a frente deles e começou a latir de excitação. – Nós estamos quase na superfície – ele chorou, esperando até eles o alcançarem depois correu a frente. O cachorro estava tão cansado do subterrâneo quanto eles, Aaron pensou, não queria nada mais do que respirar algum bom ar frasco.

Eles emergiram do túnel no meio da escavação no coração da antiga fábrica de barcos. Aaron notou que a pesada escavadeira mecânica havia sido silenciada, e o único som que era possível ouvir pelo lugar todo era o das pessoas passando mal. Onde quer que ele olha havia alguém passando mal ou incapacitado por conta de estár passando mal.


– Isto é apenas uma parte – Aaron disse, tirando tudo de dentro. – Todas essas coisas devem ter vivido dentro de todo mundo ou cidade.

Uma angulosa estrada de terra havia sido construída no chão até as escavações para os caminhões ou algo parecido que pudesse se dirigir para dentro do buraco, Aaron e seus companheiros usaram este caminho de terra para saírem da borda da escavação para o andar acima.

À medida que os três se moviam em direção à porta que os levariam para fora da fabrica e andavam por volta das pessoas passando violentamente mal, tomando cuidado para pisar fora das fedidas poças que continha cadáveres em decomposição das crias do Leviathan , Aaron avistou Katie McGovern e foi até ela. – Katie – ele disse enquanto se aproximava. – Está tudo bem com você? – O palpite sobre o homem imundo na caverna da clínica veterinária estava certo, ele era o antigo namorado dela, Kevin, ele estava com ela, e ambos olharam boquiabertos para ele, os corpos deles torturados com o frio. Aaron não viu o reconhecimento nos olhos de Katie, e ele começou a ficar com medo.

– Qual é o problema com eles? – Ele perguntou a Camael, que agora estava ao seu lado estudando os dois como ele.

– Choque, eu imagino – o anjo disse. – A mente deles está tentando se ajustar aos horrores que eles experimentaram. A mente humana é uma invenção incrível de fato – ele disse enquanto se aproximava do antigo noivo de Katie. Camael estendeu a mão e segurou o homem pelo queixo, olhando dentro dos olhos dele. – Pela manhã eles terão apenas uma vaga ideia do que realmente aconteceu com todos eles. – Ele disse com se tentasse ter um vislumbre de como o ser humano funciona por dentro. – Para a maioria, isto se transformará em uma memória distante de um pesadelo horrível. – Ele soltou a cara de Kevin e continuou indo até a porta. – Este é o funcionamento do cérebro humano para superar as coisas.

Aaron e Gabriel seguiram o anjo para fora no alvorecer da manhã. Do lado de fora da porta o xerife Dexter estava apoiado contra seu carro de patrulha. Ele havia virando contra o para brisa, e quando passaram ele ainda não havia terminado. Aaron deu uma rápida olhada. – Então eles não vão se lembrar nada disto? – ele perguntou para o anjo que estava agora caminhando em direção ao estacionamento.

Gabriel farejava por volta dos pneus dos carros estacionados, completamente


desinteressado na conversa. Ele estava recuperando seu tempo para farejar perdido.

– Eles irão se lembrar, mas as mentes deles irão moldar para algum evento que eles serão capazes de aceitar, não importa o quão estranho ou improvável – Camael respondeu. – É assim que a mente deles trabalha, como ela foi projetada. E aqueles que se lembrarem do real evento, não se atreveram falar sobre isso, eles serão condenados ao ostracismo ou taxados como insanos.

– Legal – disse Aaron, um pouco surpreso com a fria interpretação da pisque humana que o anjo fez. Ele ficou em silêncio por um momento, digerindo as palavras do guerreiro angelical. – Se é assim que um pobre cérebro humano funciona, então como eu não esqueci essa porcaria de anjo e pensei em ter comido um atum estragado ou ter tido uma febre alta por causa de algum raro vírus africano?

O anjo parou e virou para me olhar. – Você é um Nephilim – Camael disse com se isto fosse mais do que o suficiente para responder.

– Yeah, mas eu continuo sendo humano, certo? – Aaron disse, encarando o anjo olhando diretamente nos olhos cinzentos como aço.

Nos arredores do estacionamento, ele esperou o anjo responder. Camael continuou em silencio, mas a falta de resposta era igual a responder em bom som.

– O que você está tentando dizer? – Aaron perguntou nervosamente.

Então o anjo falou. – Você foi feito por um anjo. Você não é humano mais do que eu sou.

Ele sentiu como se tivesse sido atingido. Mesmo que no fundo, Aaron já sabia disto, ouvir isto saindo da boca de Camael era como um soco no meio dos olhos. Eu não sou humano, ele pensou, deixando a ideia soar dentro de seu cérebro. Como a vida dele podia ser mais estranha?

Ele novamente ouvia as palavras finais do Arcanjo Gabriel para ele, antes do anjo


pegar o ônibus expresso para o Paraíso. As palavras finas sobre o pai dele.

– O Arcanjo Gabriel disse algo sobre eu estar na profecia? Estava conectado de alguma forma ao pecado do meu pai – Aaron disse ao seu companheiro anjo enquanto eles atingiam o portão com cadeado.

– Sim – Camael disse enquanto a espada de fogo ganhava a vida nas mãos dele e ele rompia o cadeado com um singelo corte. – E ele também disse que você tinha os olhos dele. – Camael puxou o portão aberto e caminhou sobre a estrada.

Aaron ficou para trás, esperando o cachorro dele terminar de farejar os arredores com um punhado de ervas.

– Você sabe quem ele é, Camael? – Aaron perguntou enquanto seu cachorro trotava até se juntar a ele. – Meu pai, você sabe quem meu pai é?

O anjo tinha continuado a andar na estrada, mas parou e se virou lentamente. – Eu não sei, não – ele disse, balançando a cabeça dele. – Mas eu sei que ele deve ter sido um anjo formidável para poder ter desejado alguém como você. – Camael se virou rapidamente, continuando a jornada dele.

– Eu penso que ele apenas lhe deu um elogio a você, Aaron – Gabriel disse enquanto ele andava ao lado dele.

Aaron sorriu levemente. – eu acho que você deve estar certo sobre isso, Gabe

A Rua Berkely estava mortalmente quieta no inicio sutil da manhã, como o resto de Blithe. Aaron removeu um par de calças de moletom e uma camiseta do banco de trás do carro dele que arrumara antes para colocar em cima das roupas rasgas e sujas. – Eu penso que eu devo ter um casaco extra – Ele disse a Camael, olhando para terno sujo com o nariz franzido.

– Isto não será necessário – ele disse.


E Aaron assistia pasmo enquanto a terra acumulada e a imundície no terno do companheiro dele desaparecia na frente de seus olhos, deixando-o como se acabasse de ter sido lavado. O anjo então ajustou a gravata, casualmente olhando na direção dele.

– Deixe-me adivinhar – Aaron disse enquanto ele colocava o agasalho sobre a cabeça dela. – Eu poderia fazer isso também, Se eu apenas aplicasse em mim mesmo.

Camael estava a ponto de responder, mas Aaron colocou a mão para silenciá-lo, ele não tinha tempo ou energia para discutir isto agora. Ele terminou de colocar o restante das roupas e checou seu reflexo no espelho lateral do carro. Ele tinha coisas para fazer agora. Isso era tudo que precisava, a Sra. Provost o veria parecendo que havia tido a Terceira Guerra Mundial. Já seria difícil explicar o que aconteceu, e como ela foi parar trancada no porão.

Camael estudou a exótica casa com os olhos apertados. – Você disse que uma velha mulher atacou você?

– Yeah – Aaron disse enquanto ele penteou o cabelo rebelde com os dedos. – Eu a nocautei, e a tranquei no porão. Eu não poderia correr o risco de ter outras pessoas na cidade sabendo que eu não estava do lado deles.

– Eu estou bem faminto depois de estar no estômago de um monstro – Gabriel declarou, e rapidamente andou em direção a porta da frente – Eu me pergunto se ela terá um pedaço de carne sobrando.

– Não se ela ficou trancada no porão por toda a noite, amigo – ele disse se aproximando do cachorro e alcançando a maçaneta da porta.

Estava destrancada, e Aaron empurrou a porta para o lado e imediatamente um cheiro de alguma coisa sendo cozida o atingiu e fez com que barriga dele roncasse e começou a perceber que Gabriel não era o único que estava com muito fome.

– Sra. Provost? – ele chamou, olhando envolta do hall e a áreas ao redor. Curiosamente, não havia nenhum sinal de luta. Eles se moveram para cozinha, se movendo em direção ao maravilhoso cheiro de café da manhã sendo preparado, Camael estava o seguindo logo atrás.


– Sra. Provost? – ele disse de novo então foi até o redor da moldura da porta e viu a velha mulher no fogão. Ela estava vestindo um avental e fritando alguns bacons. A velha mulher se virou momentaneamente da comida e deu a ele um sorriso. – Bom dia – ela disse, afastando a mão, com bandagens brancas e arrumando o cabelo branco que havia voado. – Sabia que o cheiro de cozinha o traria aqui. – Ela voltou a trabalhar, tomando cuidado com a mão machucada.

– O que aconteceu com a sua mão? – Ele perguntou a ela, sabendo exatamente como ela havia queimado em sua espada durante a confusão que ocorrera. Ela estava colocando algumas tiras de bacon em um papel de toalha que estava em cima do fogão e Gabriel foi até ela, abanando a cauda. Ela teve o cuidado de terminar o que estava fazendo antes de fazer carinho no animal com a mão boa.

– Eu não tenho muita certeza – Ela disse, esfregando as orelhas do cão. – eu acho que eu cai nos degraus do porão na noite passada – ela disse sonhadoramente, tentando se lembrar o que aconteceu com ela. – Eu devo ter batido em algum lugar e desmaiado e toquei em algum lugar quente na caldeira.

Ela colocou mais algumas tiras de bacon para o café da manha tiradas da embalagem e os colocando em uma panela gordurosa. – Eu encontrei um jeito de acabar trancada lá dentro – Ela disse com uma risada. – Ainda bem que eu encontrei um molho de chaves extras se não estaria trancada lá até agora – A senhora estava se certificando se o bacon estava alinhado na panela. – Eu provavelmente deveria ver um doutor no caso de algo como concussão ou alguma coisa. – Ela adicionou. Gabriel deitou-se aos pés dela, olhando para ela com adoração

Aaron virou e olhou para Camael que estava atrás dele. O anjo estava precisamente certo. O cérebro da Sra. Provost havia feito exatamente o que ele tinha descrito. Ela havia racionalizado essa bizarra situação, para clarear qualquer coisa que seria difícil de explicar ou compreender.

Sra. Provost colocou o garfo dela para baixo e andou até a geladeira, o tempo o todo olhando atentamente o Labrador de Aaron. – Meu pai sempre dizia que um grande café da manha poderia curar qualquer coisa em você – Ela disse, removendo uma cartela e ovos brancos frescos. – Eu pensei que hoje era um bom dia para seguir este conselho. – Camael não estava invisível o tempo todo e Aaron a pegou olhando para o largo, home mais velho atrás dele, ela era cabeça dura demais para perguntar a identidade dele. Ela esperaria até ele contar


que Camael era.

– Ele é meu amigo – ele disse em uma introdução – O que eu tinha alguns negócios em Portland? – Ela afirmou lentamente com a cabeça, lembrando vagarosamente da conversa que ele tiveram na primeira noite durante o jantar. – ele apenas está aqui por hoje de manhã – ele explicou.

Camael estava em silêncio, estudando a senhora do mesmo modo que ela estava estudando ele.

– Ele vai ficar para o café da manhã? – Ela perguntou colocando os ovos no fogão.

Aaron estava pronto para responder pelo anjo, quando Camael de repente falou por ele mesmo. – Eu gostaria de batatas fritas – ele disse, surpreendendo Aaron com a resposta dele.

Sra. Provost sem se abalar nem um pouco com o pedido do anjo, abaixo-se e abriu a porta do forno do fogão. Um novo delicioso arama sobrou saindo do forno quente. Tinha alguma comida deliciosa dentro de uma forma de metal.

– Não tenho nenhuma batata frita, mas e batata assada você quer? – ela perguntou. – Meu marido, que Deus o tenha, costumava a dizer que eu fazia a melhor batata assada da Nova Inglaterra. – Ela usou um protetor para não se queimar decorado com um padrão de bananas para retirar a forma quente bronzeada, retirando a batatas cortadas.

– Se você gosta de batatas fritas, você irá amar estas – Aaron disse para o anjo, a boca dele estava começando a salivar. – Eu quero então as batatas assadas – ele disse, olhando para o prato do café agora em cima do fogão.

Era tudo bem estranho e surpreendente, Aaron se satisfez e enquanto dava o resto do seu café para Gabriel, e assistia a gentil senhora quebrando o último dos ovos na frigideira, fazendo o café da manhã como qualquer outro dia normal na semana. Era difícil para o cérebro dele se adaptar a esse novo conceito. A menos de duas horas atrás, ele estava lutando por sua vida contra uma força que poderia muito bem ter ameaçado do mundo, mas estava aqui agora,


prestes a sentar-se para um café da manhã com bacon, ovos e batatas cozidas. A compreensão de que sua vida se alterou radicalmente foi novamente conduzida para ele com a força de uma explosão atômica, a cada novo dia, parecia mudar mais e mais. Aaron gostaria de saber se ele deveria se acostumar com isso, se fosse sempre tão simples como sentar para tomar café da manhã.

Ele colocou um pouco de sal nos ovos, ele assistia o anjo Camael pegando um pedaço de batatas assadas e experimentando-a. Um olhar que só poderia ser descrito como prazer, tomou a face barbuda, e ele começou a comer avidamente.

Será que a vida dele voltaria a ser mudana novamente? Ele se perguntou, assistindo um anjo do Céu consumindo um prato de batatas assadas do lado dele.

Ele duvidava seriamente sobre isso.

Sinto a sua falta, com amor Aaron.

Aaron sentou na cadeira atrás da escrivaninha encostando a costa na cadeira, contemplando as ùltimas palavras que ele escreveu no e–mail para Vilma. Isso é forte demais? Ele se perguntou, seus dedos esperavam acima do teclado enquanto ele decidia. Os sentimentos por está garota quando voltou para casa não nem chegado perto de mudar, e quanto mais pensava sobre ela, mais longe ela parecia estar, mais forte o pensamento se tornava. Uma familiar tristeza passou por ele enquanto se perguntava se algum dia veria a garota Brasileira novamente. Ele sabia que para o próprio bem dela, devia se manter longe, Vercheil não hesitaria em usá-la para chegar a ele, mas uma parte egoísta dele queria estar com ela, não importando as conseqüências. Aaron leu novamente o e–mail, deu um pequeno sorriso pensando sobre como tedioso isso tudo soava, se pudesse apenas escrever uma porção sobre o que ele tem passado.

Sinto a sua falta, com amor Aaron.


Ele se perguntava o que Vilma estava fazendo agora. Era uma manhã de Domingo, e supunha que neste momento ela provavelmente ainda nem tinha se levantado. Ele não teria, mas também eles teriam continuando sua busca por Stephen. Ele sempre amou dormir até tarde nos Domingos, ler o The Globe com um grande copo de leite e alguns donuts do Dunkin Donuts, que o seu pai sempre comprava. Mas agora era assim.

Aaron leu o e–mail uma ultima vez e soou perfeitamente bom. O que eu tenho a perder? Ele clicou no botam de enviar e viu a carta dele desaparecer dentro do éter eletrônico. Não tem volta agora, ele pensou, e mais de um sentido. Agora só havia uma estrada, e no final desta a estrada ele espera encontrar o seu irmão mais novo, e quem sabe também a chance de uma vida normal, se o comprimento da antiga profecia não o matasse antes.

Gabriel e Camael estavam carregando o carro. Aaron já estava prestes a desligar o computador quando a Sra. Provost apareceu na porta do pequeno escritório. – Não o desligue ainda – ela disse. – eu estou pensando em mandar um e–mail para meu filho.

Aaron levantou e acenou para ela pegar a cadeira. – Isto seria legal. Eu tenho certeza que ele iria gostar de ouvir algo sobre você. – Ele de repente se perguntou se era por causa do Leaviathan que ela continuava a viver em Blithe todos estes anos.

– Droga de coisa, provavelmente irá explodir na minha cara – ela disse carrancuda enquanto sentava na frente do monitor.

– Você conseguirá fazer isso bem – ele disse. Então relembrou que ainda não havia pagado a mulher pela sua estadia, e retirou o dinheiro de bolso dele. – Oh, antes que eu me esqueça – ele disse estendendo a ela um punhado de notas. Ela pegou da mão dele e começou a contar

– Você me deu demais – ela disse devolvendo metade do dinheiro. – Você disse que era isso...

– Você está me chamando de mentirosa, Corbet – ela o interrompeu com uma careta pior do que ela tinha feito para o computador.


Aaron sabia que ele estava na borda de um real problema aqui. – Não, eu apenas disse que você falou...

– Esqueça o que eu disse. Este é o excesso. – Ela disse dando o dinheiro, ela pegou e dobrou a sobre e colocou no bolso da frente da antiga calça Jean azul. – Eu gostei da sua companhia e a do seu cachorro, também, apesar dele ser um pouco porco, se você me perguntasse.

Aaron riu. – Nem me fale! Ele é assim desde que era um bebê. O estômago dele é um poço sem fundo.

Os dois riram.

– Bom, eu tenho que pegar a estrada – Aaron disse. –Se cuide, Sra. Provost. – Ele disse enquanto se despedia dela na porta do escritório.

– O mesmo para você, filho – ela disse. – Você e seu cachorro deviam parar alguma vez aqui de novo e traga seu bonito amigo também.

Aaron deixou a porta de frente, ouvindo a tentativa da senhora em escrever no teclado. Ela parecia estar indo bem, mas quando ele abriu a porta, ouviu-a amaldiçoando o computador de ser jogado no lixo. Rindo baixinho consigo mesmo, ele seguiu para fora da casa para se juntar aos seus amigos.

Aaron estava passando pelo arco de flores para ir para o carro dele quando viu Katie McGovern. Ela estava vestindo uma camiseta branca folgada e algo como um shorts de corrida. A veterinária estava acariciando Gabriel, checando seus dentes feridos. Aaron notou que a mão dela estava enfaixada também. –Hey – ele disse, se aproximando dela e do cachorro dele. – Hey – ela respondeu. – Eu estava saindo para correr e vi Gabriel no quintal. – Ele pediu para ela se tornar a veterinária dele. – Ele está se curando rápido, não está? – ela apontou, pelo comprimento do flanco do cachorro com a mão enfaixada dela.

– Eu não disse nada a ela – Gabriel resmungou, olhando para ele culpado, com a língua para fora.


Aaron ignorou o cachorro. – eu não acho que foi tão ruim quanto parece, e mais ele teve o melhor veterinário da cidade cuidando dele. Ele poderia fazer qualquer coisa, mas uma cura milagrosa? – ele perguntou, rindo. Os dois estavam fazendo carinho no labrador agora, o animal estava em gloria.

– Então você está indo embora, huh. – Ela disse, olhando para o carro dele, ele olhou para onde ela está olhando e viu que Camael já havia tomado o lugar dele no banco da frente, esperando pacientemente.

– Yeah, tenho algumas coisas para cuidar – ele disse, acariciando o lado de Gabriel. – eu pensei em começar cedo.

– Este era o amigo que você estava esperando? – ela perguntou, apontando o queixo para o carro e para as costas da cabeça de Camael.

– É ele. Ele voltou de Portland ontem – ele mentiu

– Nada que eu possa dizer para eu manter você pelos arredores e a ajudar Kevin e eu no trabalho, há? – ela perguntou indiferente, já sabendo que ela saberia qual seria a resposta dele.

– Você e Kevin, é? – ele perguntou enquanto um pequeno sorriso atravessa sua face.

– Yeah – ela disse, agora acariciando as orelhas de Gabriel. – Desde que ele voltou, nós temos passado um tempo um com o outro e decidimos nos dar uma nova chance. – Katie deu os ombros. – Nós estamos levando um dia de cada vez para ver o que acontece. Então eu suponho que sua resposta é não?

Camael se virou no assento e deu um intenso olhar para ele. Até a paciência de anjos tem limite, ele pensou, movendo-se gradualmente em direção ao carro. – Desculpe – ele disse, abrindo a porta do Toyota para Gabriel. – Eu tenho alguma coisas para fazer, mesmo assim obrigado pela oferta. – Ele pensava no irmão mais novo ainda nas garras do anjo assassino e sentiu a pulsação acelerar. O cachorro pulou dentro do assento de trás, e ele bateu a porta para fechar.


– Você é bom, Aaron – ela disse com as mãos nos quadris. – Se você precisar de uma carta de recomendação para escola ou outra coisa, pode contar comigo, ok?

– Obrigado – ele disse, abrindo a porta do motorista. – Se cuide. Eu espero que tudo de certo entre você e Kevin

Aaron estava sentado atrás do volante e ele ia bater a porta do Toyota para fechá-la quando Katie abruptamente o parou.

– Na outra noite – ela disse, com os olhos arregalados. Ela lambou os lábios dela nervosamente – Você não sabe o que aconteceu, sabe? – Katie brincava nervosamente com a bandagem da mão dela.

Aaron olhou diretamente nos olhos dela e disse a ela que não fazia ideia do que ela estava falando, mas suspeitava que ela não acreditava nele.

– Há uma pequena voz dentro na minha cabeça dizendo que eu deveria agradecer a você por alguma coisa, pela minha vida, mas eu não sei por que.

Ele girou a chave na ignição e deu partida no carro. –Você não tem que me agradecer – ele disse, agitando a cabeça, sentindo um pouco triste pelo que ele estava deixando. A cidade de Blithe realmente começou a crescer para ele. Sua própria pequena-voz interna, de egoísmo novamente, estava dizendo que ele deveria desligar o carro neste momento, aceitar a oferta de Katie, manter uma residência permanente na cidade pacífica agora e virar as costas para o profecia. – Nunca ignore a pequena voz dentro de sua cabeça, Aaron – ela disse, inclinandose dentro da janela aberta e deu a ele um rápido beijo na bochecha. Mas ele sabia que não era assim, se tivesse escutado, não seria melhor do que a falsa paz que encontrou no ventre do Leviathan.

– Obrigada – ela disse enquanto ela se afastava do carro.

– Você é bem vinda – ele respondeu, enquanto ela desvia do carro em um movimento final e continuou com a corrida matinal dela.


Ele tinha responsabilidades agora, ele pensou enquanto assistia Katie descer a rua Berkely, seu trabalho estendia além da própria satisfação e felicidade pessoal. Era muita coisa para lidar, mas que escolha ele tinha, realmente? Ele havia tentado negar isto, manter isso trancado longe, mas isto tinha quase matado ele. Relutantemente ele começou a aceitar todas as partes do ele tinha que fazer o trabalho pelo qual ele foi escolhido para fazer.

– Eu gosto dela – Gabriel disse enquanto Aaron ligava o carro, e começava o processo de virar o carro para a rua vazia. – Mesmo ela sendo veterinária.

– Eu gosto dela também – Aaron disse completando a rotatória, a mente dele já estava pensando em outra coisa. Ele estava pensando no irmão dele, nos perigos que obviamente estavam para vir e também pensava sobre o pai dele.

Ele começou a dirigir para cima da Rua Berkely e no reflexo ligou o rádio. Paul McCartney e o resto dos The Beatles cantavam – Yesterday – Ela sempre foi uma das suas músicas antigas favoritas, e ouvindo as palavras agora, tinham um novo sentido para ele. Ele aumentou o volume um pouco e sentiu o olhar ardente de Camael sobre ele.

– Eu quero que você escute isso – ele disse, olhando de relance para o anjo enquanto ele deixava Berkely para trás e pegava de volta a direção para o centro da cidade. – Não pense nisso como uma música, pense nisso como uma poesia.

– Eu detesto poesia – o anjo resmungou, desviando o olhar dele, para olhar Blithe passando pela janela do passageiro.

– Aposto que você pensava que odiava batata fritas também – Aaron disse, rindo.

Será que sua vida nunca mais será preenchida com os domingos preguiçosos lendo o jornal, beber leite e comer donuts? Aaron não tinha idéia de que o futuro reservava, mas ele achava que certamente seria interessante, estava na descrição do trabalho.

O que mais poderia se esperar sendo um mensageiro de Deus?


Era um sonho, mas parecia realidade. A noite estava fria, apesar dela poder sentir o calor da areia, aquecido pelo sol implacável do dia, sob seus pés descalços quando ela atravessou o oceano de deserto. Parecia tão real, como se parte de uma vida vivida no passado. A muito, muito tempo. Seu coração batia rápido em seu peito, e ela se virou para olhar a cidade queimar á distância de alguma forma ela sabia que seu nome era Urkish. O céu acima do deserto primitivo da cidade tornou-se negro, como a fumaça da queima de construções de palha e barro subiam para esconder as estrelas. Ela podia ouvir um som, de alta-frequência, um som de lamento, e mesmo a esta distância, teve que cobrir os seus ouvidos contra ele. Era como se os gritos das aves, centenas de aves com raiva. E descobriu que estava começando a temer o som. Ela teria dado qualquer coisa para uma noite sem sonhos de descanso. Mas não era para ser. Alguém ligou para ela, e se lembrou que ela não estava sozinha. Oito pessoas fugiram de Urkish com ela, e outras oito escaparam. . . de quê? ela se perguntava. Uma menina não mais velha do que ela, enrolada em um manto vermelho e de capuz, acenou freneticamente para Herto seguir. Havia medo em seus olhos, medo nos olhos de todos. Do que eles estão com medo? O que nos tirou da cidade? Ela queria saber, ela precisava saber. – Rapidamente – disse a menina em uma língua que a sonhadora nunca tinha ouvido falar, mais ainda sim ela poderia compreender. – Acho que nos perdemos no deserto – a menina saiu de perto dela e virou para os outros, ela colocou a capa esfarrapada para protegê-la da brisa do deserto. – É nossa única chance. – Eles começaram a correr, fugindo através das dunas – o quê é o sonhador? ela questionou novamente. Ela voltou sua atenção para a cidade. Alguém iria responder lá? Os incêndios queimaram mais alto, e qualquer aparência de que uma civilização próspera, tinha sido


perdida, consumida pelo incêndio nascente. Os outros lhe chamavam, as suas vozes não muito altas, levadas pelo vento. Eles pediram para ela seguir, mas ela não se moveu, seus olhos fixos na cidade em chamas. A tristeza a envolvia, enquanto observava a cidade queimar, como se Urkish de alguma forma fosse importante para ela. Seria apenas mais um lugar que ela sonhou? Será que realmente tem algum tipo de significado especial para ela? Ela bateu com o pé na areia, a frustração explodindo dentro dela. – Eu quero acordar – ela gritava para o deserto. – quero acordar agora. – Ela fechou seus olhos, querendo chegar à superfície da consciência, chegar na cabana do mundo, poder acordar e sair desse pesadelo horrivel. Os gritos horríveis dessa vez ressoavam em seus ouvidos, e ela abriu os olhos. Ela os viu voando acima do fogo da cidade, suas asas abanando afumaça preta em quanto subiam. Havia centenas deles, e mesmo a esta distância, podia ver que eles estavam vestidos com uma armadura de ouro. Ela sabia o que eram. Desde que ela era uma criança, tinham a enchido de admiração e contentamento. Ela tinha gostado deles, seus guardiões, e acreditava que eles nunca deixariam que qualquer dano acontecesse com ela. Ofegante, ela os viu voar agora, mergulhando acima das ruínas, que havia sobrado da cidade. Ela sabia que tinha estado neste sonho antes, mas para o desespero dela, não conseguia se lembrar por que os seres celestiais tinham chegado a Urkish. – Eles vieram para te matar – o deserto disse em forma de sussurro, e ela sabia que a voz estava certa. Eles estavam voando para além da cidade agora, fora do deserto sobre os resíduos procurando. Procurando por ela. Ela começou a correr, mas a areia impediu o seu progresso. Seu coração batia com o esforço, e tentava conversar com os outros. Lembrava-se agora. Ela se lembrava de como as criaturas tinham caido do céu, o fogo em suas mãos e os assassinatos. Ela lembrou do assassinato. Seus pensamentos correram com imagens de violência, ela lutou para subir em uma duna, o caminho de areia impedia sua tentativa frenética.


Eles estavam mais perto agora, muito perto. O ar foi preenchido com o som de asas batendo, e os gritos da aves com raiva. Não, todos os pássaros. Ela alcançou a crista da duna. Ela poderia fazer uma luta justa. Ela gritou para eles, mas o som de sua voz foi abafado pelo bater de asas. Ela se virou para olhar para eles, para ver como eles eram de perto. E eles estavam ali, descendo do céu, gritando por seu sangue. Anjos. Como ela tinha amado algum dia criaturas tão insensíveis e cruéis? Vilma acordou do pesadelo, com um grito nos lábios. Ela ainda podia sentir o vento no rosto enquanto olhava para o céu noturno, as espadas de fogo, pois elas perfurariam sua carne. Ela começou a soluçar, escondendo o rosto no travesseiro para que seu tio e tia não a ouvissem. Eles já tinham pego-a chorando duas vezes essa semana e estavam começando a ficar preocupados. Ela não podia culpa-los. Guardando suas emoções em um porão, Vilma levantou o rosto do travesseiro e viu alguma coisa com o canto do olho. Fora da janela de seu quarto, estava uma árvore, e por um breve momento não parecia uma árvore, algo perturbadoramente familiar, e que tinha estado olhando para ela. Foi então que Vilma se convenceu que sua tia e seu tio estavam certos: Ela devia ter algum tipo de problema mental, e provavelmente devia procurar ajuda. Por que outra razão ela estaria tendo sonhos tão horríveis e vendo anjos fora de sua janela.

Seu corpo estava coberto com uma armadura a cor do sangue, Malak, o caçador rastejou através covil da fera, buscando o cheiro de sua presa. Ele retirou a manopla33 vermelha de sua mão e se ajoelhou diante dos restos do monstro marinho. Malak mergulhou a mão nua nos restos do animal, e tirou rapidamente. O caçador cheirou os resíduos agarrados aos seus 33

A manopla , peça da armadura protetora das mãos, tornou–se conhecida por diversos nomes como Guante, além de possuir variações e evoluções como a Guante de Presa. As manoplas consistiam em luvas confeccionadas em metais ou peles


dedos, os seus sentidos olfativos buscando por um traço do seu mestre. Ele caçou em uma pedreira especial, que significava algo importante para ele há muito tempo, em outra vida, antes dele ser Malak. Houve uma sugestão da presa que estava em sua mão, mas não era o bastante. Ele sentiu que havia mágica no ar, feitiços para mascarar o seu inimigo idas e vindas, mas não o suficiente para escondê-lo de alguém tão talentoso como ele era. Seu mestre Verchiel tinha o abençoado com a capacidade de rastrear qualquer presa, e as habilidades miríade34 de vencer todos eles. Ele era um caçador, e nada iria mante-lo afastado de sua presa.

Malak se levantou e andou em volta da gruta. Ele inclinou a cabeça para trás, deixando o ar fétido da câmara encher suas narinas. Seu poderoso sentido olfativo classificava os diferentes aromas, até que ele encontrou o que procurava. O caçador atravessou a caverna, focalizando a origem do cheiro premiado. Ele o encontrou na parede da caverna, o mais ínfimo vestígio de sangue. Ele se inclinou para a parede, cheirando, mas o sangue tinha secado, e levado alguns dos aromas o ajudaria. Malak se inclinou, serpenteando a língua para fora, dentro da máscara carmesim, para lamber a mancha de saliva e se relançando ao cheiro do sangue, afiado e metálico. O cheiro inundou seus sentidos sobrenaturais, e o caçador sorriu. Ele agora tinha o cheiro. Era só uma questão de tempo.

Fim!! Continua em: Aerie e Reckoning

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Miríade é um numeral de origem grega significando dez mil.A cho que ele está falando sobre a força superior