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Homem e natureza na luta pela vida do Rio Grande o Pear 2.000 mostra respeito pelos recursos naturais O dia ainda nem bem começou e Josué Pereira da Silva, 30 anos, casado e pai de dois filhos, já está de pé a um bom tempo. No fogão a lenha, a panela de pressão cantarola uma cantiga intermitente. Enquanto isso do lado de fora nos ninhos dos canarinhos, filhotes ensaiam pequenos voos. Às vezes Josué para o que está fazendo e dá uma espiada na imensidão de água à sua frente. Não se vê pereiros, coras de frades e muito menos flor de caruá. No coração uma saudade apertada de Custódia, cidade do interior de Pernambuco onde deixou a família. “Lá é minha terra, penso um dia voltar para criar ovelhas. Quem tem ovelha lá, tem um bom rendimento” diz ele. Trabalhava na roça, era de lá que tirava o sustento de seu pai, sua mãe e seus irmãos, e muitas vezes passavam até fome. Hoje graças ao irmão tem profissão, casa, comida e carteira assinada. Josué é caseiro no Pear 2000. Como é de costume no Pear no quarto domingo do mês há sempre missa. Depois da celebração todos se reúnem para uma confraternização, tem bolo de fubá, biscoito e café. As mulheres colocam os assuntos em dia e entre os homens, as histórias de pescador trazem sempre um peixe maior do que o outro. O

Pear

2.000

é

um

conglomerado

com

aproximadamente 100 ranchos, às margens do Rio Grande na cidade de Água Comprida. Nem todos estão às margens do rio, quem não desfruta desse benefício, utiliza-se de uma área criada para todos.

Foto de banco de imagem


Os proprietários são moradores Foto de banco de imagem

das cidades vizinhas. A natureza é prioridade. Há árvores nativas em todo o

espaço

e

muitas

foram

plantadas pelos atuais moradores. Para assegurar que nada irá infringir o estatuto criado por eles, elegeram uma diretoria para fiscalizar, proteger e trazer benefícios a todos sem agredir o meio ambiente. Mais sete famílias moram ali como Josué. Todos recebem da prefeitura

de

Água

Comprida,

assistência para o transporte das crianças em idade escolar, serviço de ambulância,

policiamento

quando

necessário e coleta do lixo. Todos se conhecem e até chegar em “casa”, provavelmente já foram ditos uns dez “e aí? Bão demais? Ta sumido hein!” É assim que a prosa começa. A água utilizada vem de um poço artesiano que fica na entrada. Não é permitido cada rancho ter o seu, pois isso causaria um assoreamento do solo, prejudicando o lençol freático. Bimestralmente é feita uma análise da qualidade da água, que está sempre potável. A cada 1.000 litros gastos, o proprietário paga R$ 1,00. O valor arrecadado é destinado ao pagamento das despesas do Pear, como o salário de Josué e reparos no reservatório de água.


José Batista de Carvalho, 53 anos e Regina Lourenço de Carvalho, 45, são proprietários de um rancho. Moram em Uberaba, mas estão sempre no Pear. “Às vezes eu e o Zé, passamos duas semanas aqui, tem vezes que ficamos 03 dias, mas muito tempo longe a gente não fica”, diz Regina que é pescadora profissional. Sua carteirinha não sai do meio da tralha de pescar e já com o barco preparado, sai em busca do pescado. Não demora muito e traz algumas curvinas e bicudinhas, graças aos pequenos camarões criados pelos moradores para servirem de iscas. Em época de piracema, a pescaria é proibida então todos os moradores recorrem ao comércio em Água Comprida. José é o síndico. Militar aposentado não tem tempo nem pra almoçar. Comunica-se constantemente com Josué quando está fora do Pear. Anda com uma lista de telefones no bolso, já que a agenda virtual é pequena. O atual projeto em andamento é a reconstrução da casa da marina, que deverá ser demolida, já que está dentro dos 30 metros exigidos de preservação de toda a margem do rio, segundo a lei 18023 de janeiro de 2009. De cima dos tablados construídos nos ranchos, percebe-se o porquê do rio ter esse nome. Ao longe as plantações de cana invadem o cerrado. O doce da cana é para o rio uma amarga existência. Quando o inseticida é jogado, podem-se encontrar inúmeros peixes mortos à sua margem. O rio está cada vez mais acuado. Segundo a Agência Nacional de Águas, o Brasil possui 12% do fluxo superficial de água no mundo, destes 72% estão na Amazônia e apenas 6% no Sudeste. Dentro do Pear 2.000 o homem percebeu que a natureza deve vir em primeiro lugar e que o rio é fonte de vida para todo o ecossistema. Sua preservação, portanto deve ser prioridade para toda a população.

Reportagem Pear 2.000  

Reportagem feita ás margens do Rio Grande no Pear 2.000 - Água Comprida