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RELICรRIO DE UBARANAS memรณrias de um lugar quilombola


Ministro da Educação Rossieli Soares da Silva

Universidade Federal do Ceará Reitor Prof. Henri Campos Pró-Reitora de Extensão Prof.ª Márcia Maria Tavares Machado Diretora da Faculdade de Educação Prof.ª Maria Isabel Filgueiras Lima Ciasca Coordenadora do Laboratório de Estudos sobre a Consciência / LESC-Psi Coordenadora do Programa Aracati, Patrimônio do Ceará: por uma Cidade Educadora Prof.ª Cristina Façanha Soares Consultora do Projeto Relicário de Ubaranas Tâmara Bezerra Supervisora do Programa Aracati, Patrimônio do Ceará: por uma Cidade Educadora Camila Carneiro Rocha Equipe de pesquisa Comunidade de Remanescentes de Quilombos do Córrego de Ubaranas Geovane Valente da Silva José Átila da Silva Ferreia João Lucas da Silva Martins Leonardo Rodrigues da Silva Maria Clarice da Silva Maria Nicolly Silva Valente Melka Maria da Silva Pereira Maria Naliane de Oliveira Silva Raquel da Silva Nascimento Renata Valente de Sena Samira da Silva Nascimento

LESC-Psi Angeline Freire de Souza Bárbara de Alencar Davi Vasconcelos Rodrigues Eduardo Anjos Jane Érika Oliveira e Silva Jorge Lucas Siqueira Barbosa Ozaias da Silva Rodrigues Tiago Barreto de Lima Wanessa Nhayara Maria Pereira Brandão


RELICÁRIO DE UBARANAS memórias de um lugar quilombola Laboratório de Estudos sobre a Consciência – LESC-Psi Associação dos Agricultores e Agricultoras Remanescentes de Quilombos do Córrego de Ubaranas – ASURQUI (Orgs.)


Capa Joe (a partir da obra “Histórias de Vida, Cirandas de Tempo”) Ilustrações Joe Desenhos: Crianças de Ubaranas Fotos Alana Braga Alencar Alexandra Martins Costa Camila Carneiro Rocha Debora Linhares da Silva Fernanda Leal Jane Oliveira Marcelo Paes de Carvalho Ozaias da Silva Rodrigues Wanessa Nhayara Maria Pereira Brandão Revisão Patrícia Elainny Lima Barros

Ficha Catalográfica


À professora Vanessa Louise, mulher aguerrida, idealizadora e coordenadora do Programa “Aracati, Patrimônio do Ceará: por uma Cidade Educadora” (PROEXT MEC/Sesu – 2015), sem a qual não teríamos chegado a este Relicário. À Comunidade Quilombola do Córrego de Ubaranas, fonte das tradições afro-brasileiras e de luta pelo reconhecimento da identidade étnica da população negra; lugar de acolhimento, humanidade e afeto.


Agradecimentos

G

ostaríamos de começar agradecendo ao coletivo de pessoas que nos doou a matéria-prima para a construção deste livro: a Comunidade de Remanescentes Quilombolas do Córrego de Ubaranas! Somos gratos a todas e a todos, moradoras e moradores da Comunidade, pela generosidade da partilha, pelo carinho do acolhimento, sempre com um sorriso no rosto, um abraço, um copo d’água, uma xícara de café ou um doce de caju. Aos pesquisadores de Ubaranas – jovens, adoLESCentes e crianças, que nos acompanharam de perto, de casa em casa, para a recolha dessa matéria-prima. Sem o apoio de vocês esse trabalho não teria sido tão prazeroso e produtivo. À Associação dos Agricultores e Agricultoras Remanescentes de Quilombos do Córrego de Ubaranas, por nos oferecer suas instalações para os momentos de diálogos e construção coletiva deste trabalho junto à comunidade e também por nos ceder espaço em algumas reuniões para conversarmos com a comunidade com o intuito de propor visitas, oficinas e ouvir suas sugestões e opiniões acerca das nossas atividades. Ao Seu Pelé e sua filha Sandrinha, pelo sorriso tão característico de ambos, e por sempre cederem sua casa (à equipe do LESC-Psi) para que nos sentíssemos em casa. À Dona Ana e a Seu Dedé, pela receptividade expressa no sorriso e nos braços abertos. O apoio de vocês foi um sustentáculo para o grupo. Jamais esqueceremos nosso almoços e as noites em volta da fogueira que aquecia risadas, conversas, brincadeiras e histórias de assombração. À Dona Madalena, por manter vivas as memórias da Comunidade de Ubaranas registrando-as em seus cadernos e também através das histórias por ela contadas. Agradecemos a confiança em partilhar seus “tesouros” conosco. À Fabio Porto de Oliveira, por abrir as veredas do Aracati para e com o LESC-Psi e, através do “Duas Fendas”, trilharmos caminhos comunitários da Vila do Estevão ao sert(tão) quilombola de Ubaranas. Aos companheiros de luta José Magela da Silva e seu filho Samuel Germano que proporcionaram esse encontro potente entre a Comunidade e o Laboratório. Sem esse caminhar inicial, em que fomos apresentados, em que soubemos da existência um do outro, não


chegaríamos aqui. À Prof.ª Vanessa Louise Batista, cujo sonho de uma sociedade pautada no respeito, onde as pessoas, dos bebês aos idosos, possam ter seus direitos minimamente garantidos, traduziu-se, inicialmente, no “Projeto Cidade Educadora: por uma educação patrimonial libertadora” e expandiu-se ao “Programa Aracati, patrimônio do Ceará: por uma Cidade Educadora”. Ao querido Júnior Gonçalves, motorista da Divisão de Transportes da Universidade Federal do Ceará - UFC, por seu companheirismo, disponibilidade e alegria, tanto com a equipe do LESC-Psi como com os moradores da comunidade. Ao artista Bruno Joe, pela dedicação e cuidado na concepção das ilustrações dos contos e da capa desta obra, generosamente doadas à este trabalho. À fotógrafa Fernanda Leal e ao cineasta Marcelo Paes Carvalho, ambos da equipe do documentário Sete Histórias à Sombra do Cajueiro, por cederem as sensíveis imagens registradas na Comunidade durante o período de filmagens. À Tâmara Bezerra, por sua colaboração atenciosa e delicada no processo de recolha para este trabalho, contribuindo para a preservação da cultura de tradição oral. Ao Ministério da Educação - MEC, por intermédio da SESu/DIPES, pelo apoio ao “Programa Aracati, Patrimônio do Ceará: por uma Cidade Educadora” - PROEXT 2015, que possibilitou a realização deste livro. À Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Ceará – PREX/UFC, sob gestão da Prof.ª Márcia Maria Tavares Machado a quem agradecemos, bem como ao Prof. Rogério Teixeira Masih e toda equipe técnica da PREX/UFC, pelo apoio institucional e afetivo. À direção da Faculdade de Educação (FACED) na pessoa da Profª Isabel Figueiras Lima Ciasca, pelo apoio institucional. À Prof.ª Cristina Façanha Soares, pelo trabalho como coordenadora do LESC-Psi. Tal atribuição, que a ela se apresentou como um desafio diante de uma mudança inesperada, proporcionou muitos aprendizados à equipe do LESC-Psi e novas construções junto à Comunidade do Córrego de Ubaranas, ambos presentes nesta obra. À Patricia Barros, pela competência, pelo cuidado e pela dedicação à finalização desta obra. Aos nossos familiares, companheiros e amigos, que nos apoiaram e incentivaram, mesmo sendo privados da nossa companhia durante os vários dias necessários à essa construção coletiva.


“A arte de contar histórias é um ato de comunhão de almas, entre aquele que conta e transfere um fragmento de sua alma nas palavras-sons-gestos (palavras que saem da boca e do corpo) e aquele que lê com a visão, a audição e os demais sentidos, também se colocando em alma.”

“A arte de contar histórias é um ato de comunhão de almas, entre aquele que conta e transfere um fragmento de sua alma nas palavras-sons-gestos (palavras que saem da boca e do corpo) e aquele que lê com a visão, a audição e os demais sentidos, também se colocando em alma.” (Fábio H. N. Medeiros & Taíza M. R. Moraes)


Sobre a Capa

A

obra foi criada por Joe para ser a capa deste livro. O trabalho teve como ponto de partida criativa a solicitação de representantes da Comunidade do Córrego de Ubaranas de constarem na capa do presente livro imagens de seu patrimônio histórico material, manifestado, sobretudo, nas ruínas do engenho velho e na linda igreja católica do século XVIII. Além desse suporte material de memória evocada pela Comunidade, alguns pedidos também incluíram o caju, dos principais produtos na economia comercial e afetiva da Comunidade. Tentando contemplar esses pedidos, a obra “Histórias de Vida, Cirandas de Tempo” tenta orquestrar esses símbolos caros à Comunidade, também intuindo um sentido maior, uma dança de tempo que ali deixou testemunhos do sistema colonial escravagista, capítulo tão violento quanto fundamental na compreensão histórica do Brasil. Dessa maneira, há nessa imagem um movimento de dança do tempo: passado, presente e futuro espalhados nos símbolos abraçados por uma ciranda mutável, mas perene de seres-cores, aquarelas vivas de potência de um “sempre presente” de resistência e alegria. Decompondo os elementos da obra, comecemos pelo engenho. Os engenhos eram os centros produtivos das unidades coloniais e, junto das senzalas, são os principais patrimônios materiais do sistema colonial escravagista no Brasil. O engenho da imagem mescla a estrutura do velho prédio da Comunidade quando ainda em melhor estado de conservação com as reminiscências de outra ruína, muito mais famosa: o Parternon, antigo templo grego localizado na Acrópole da cidade Atenas. Essa sobreposição atesta uma conexão histórica no âmbito dos discursos e saberes ocidentais entre os engenhos do país e um dos prédios históricos mais simbólicos e celebrados do mundo. Tem-se assim um “engenho-templo” enquanto símbolo dos saberes que oprimiram e oprimem o povo africano e afrodescendente, os saberes das sociedades europeias brancas que, embora se apresentem historicamente de formas distintas, têm uma longa e triste história junto à dominação e exploração de populações negras, odisseia ainda em decurso nas favelas e quilombos e países inteiros. O revestimento externo


remete aos ladrilhos ibéricos, muito comuns nos salões paroquiais, nas igrejas e nos mosteiros do período colonial, remetendo a presença histórica do cristianismo barroco. O telhado é formado por uma trança de palha, arte ancestral muito presente nas mulheres do quilombo de Ubaranas, sobretudo as mais velhas, que tecem magníficas peças. Assim, as ruínas e a engrenagem simbolizam a maquinaria da escravização que, mesmo enferrujada e antiga, ainda é presente e operante. Toda essa estrutura simbólica é rompida por um gigantesco cajueiro, viçoso e saudável, carregado de frutos e que representa a força de Ubaranas, sendo, como mencionado, também um dos produtos principais da economia e cultura local. Então, nessa narrativa de tempo e resistência, o cajueiro rompe o engenho, supera as estruturas históricas e dos grilhões de ferro e de ideias simbolizados pelo “engenho-templo” e traz consigo a simbologia da resistência ao passado escravista, bem como a promessa de frutos. A ciranda em forma de coração, formada por um jogral de cores espirradas como se fossem espectros de cores vibrantes, é o presente constante, a resistência dançada que liga ancestrais aos mais novos, às crianças presentes nas vibrantes cores da ciranda que se opõem às cores do engenho, trazendo uma aquarela mais rica e diversa; ciranda que traz a representação da unidade, do abraço e o dar as mãos em torno do passado que não pode ser negado, pois é justamente o que os tornam remanescentes quilombolas e que também contempla o cajueiro dos frutos futuros. “Histórias de Vidas, Cirandas de Tempo”. Por Joe.


SUMÁRIO PREFÁCIO 15 PARA INÍCIO DE CONVERSA...

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CARTAS AO LEITOR Geovane Valente da Silva João Lucas da Silva Martins (Lukinhas) José Átila da Silva Ferreia Melka Maria da Silva Pereira

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OS CADERNOS DE DONA MADALENA Maria Madalena Valente da Silva Tâmara Bezerra

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QUI-LOM-BO-LAS, DE TERRA NOS PÉS E NAS MÃOS: HISTÓRIAS DE VIDA, FORMAS DE RESISTÊNCIA E NARRATIVAS DE ESCRAVIZAÇÃO Wanessa Nhayara Maria Pereira Brandão Debora Linhares da Silva Ozaias da Silva Rodrigues Camila Carneiro Rocha Tiago Barreto de Lima

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INFÂNCIAS: QUANDO EU ERA CRIANÇA LÁ EM UBARANAS... Cristina Façanha Soares

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PLANTAS E PALAVRAS QUE CURAM Eduardo Anjos Ozaias da Silva Rodrigues

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SETE HISTÓRIAS À SOMBRA DO CAJUEIRO Tâmara Bezerra

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OUTRAS HISTÓRIAS (OU: NÓS, QUE VIEMOS DE FORA...) Debora Linhares da Silva Wanessa Nhayara Maria Pereira Brandão Camila Carneiro Rocha

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FECHANDO O CICLO Camila Carneiro Rocha Renata Valente de Sena

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REFERÊNCIAS

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QUEM FEZ PARTE DESTA HISTÓRIA

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Prefácio

E

ste livro que ora se apresenta ao leitor é o produto final de uma pesquisa de campo que se deu por meio do Projeto de Extensão “Aracati, Patrimônio do Ceará: por uma Cidade Educadora” (PROEXT – MEC/Sesu – 2015) da Universidade Federal do Ceará com a mediação de professores, estudantes integrantes do LESC-Psi e de jovens da Comunidade Quilombola Córrego de Ubaranas. A obra é resultado de um garimpo de recolha e registro de partes da cultura oral, ainda presentes no cotidiano da Comunidade, localizada no Município de Aracati, no Ceará. O acervo imaterial de elementos identitários da Comunidade constantes neste livro é composto por uma coletânea de manifestações da cultura oral, forte marca da identidade, presentes na memória dos moradores mais antigos, mantendo vivas as suas raízes e a cultura dos seus ancestrais. As narrativas de tradição oral resguardam questões importantes, que ultrapassam as fronteiras da história e atigem questões de ordem social, como a luta pelo direito à terra, pela sua terra, onde se constroem pertencimento e identidade. O processo de escuta, registro e recolha que compôs este Relicário mostra apenas uma pequena parte de vidas que carregam em suas lembranças um baú de tesouros preciosos, enterrado na memória de um lugar feito de dores e alegrias; de trabalho e suor; de sensibilidade e amor. Dessa forma, além de servir à 15


apreciação estética, o livro convida-nos a um passeio visto pela janela da ancestralidade e das reminiscências dos moradores da Comunidade de Ubaranas, adentrado nos seus achadouros de memórias, em que o leitor encontrará recolhas de histórias, lendas e mitos; rezas e receitas caseiras para tratar doenças; brincadeiras e brinquedos da/na infancia; relatos de histórias de vida, retratando procedimentos de trabalho no campo, principalmente no cultivo do caju, formas de resistência e narrativas de escravização. Assim, esta obra se constitui num espaço de reflexão e de fortalecimento que pretende contribuir para a preservação dos tesouros guardados na memória e na vivência dos moradores de Ubaranas, fortalecendo a cultura de matriz africana e os elementos identitários que muito dizem sobre um povo. Que as relíquias trazidas nesta publicação semeiem em você, caro leitor, valores que possam ser preservados por toda a vida, assim como acontece no Relicário de Ubaranas, no qual estão guardadas as memorias de um lugar quilombola. Boa leitura! Fortaleza, 01 de maio de 2018. Cristina Façanha Soares Patrícia Elainny Lima Barros

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Para Início de Conversa

O

Relicário de Ubaranas, este livro que aqui se inicia, foi um projeto gestado por muitos ventres e fecundado no encontro do LESC-Psi (Laboratório de Estudos sobre a Consciência/UFC) com a Comunidade Quilombola do Córrego de Ubaranas, localizada no município de Aracati/CE. Como o nome diz, relicário é um lugar próprio para guardar relíquias, preciosidades, assim como estas que aqui se encontram. A equipe interdisciplinar de professores, estudantes e profissionais do LESC-Psi conheceu a Comunidade de Ubaranas em 2013. Poderíamos até dizer que foi a comunidade quem se fez conhecer, pois a força de seus moradores tanto nos afetou, que nos fez redirecionar parte das atividades já programadas naquele ano para esta relação, costurando entre o convívio, muitos conhecimentos e sentimentos. Vivenciamos modos cotidianos de resistência do povo em um território quilombola, que é um campo em disputa pelo poder e pela terra. E acompanhamos também as possibilidades de se criarem práticas libertadoras, que possibilitaram o fortalecimento da identidade, o crescimento pessoal, a organização comunitária e a transformação social. Seguindo esse caminhar, em 2015, o LESC-Psi desenvolveu o Programa de extensão “Aracati, Patrimônio do Ceará: por uma Cidade Educadora” (PROEXT – MEC/SESu – 2015) com o objetivo de incentivar a Educação Patrimonial como um processo de reconhecimento da comunidade e criação de territórios educadores. Esse programa previu, como parte de suas atividades, a construção colaborativa deste tão sonhado livro: o Relicário de Ubaranas! A Comunidade, por sua vez, abriu as portas de sua casa nos acolhendo e ensinando no dia a dia a importância e o valor da tradição, do cuidado e do amor. Neste percurso, conhecemos Dona Madalena, moradora antiga, vice-presidenta da Associação dos Agricultores e Agricultoras Remanescentes de Quilombos do Córrego de Ubaranas – ASURQUI, poetisa, historiadora referenciada pela Comunidade e lutadora da causa quilombola. Guardou, em

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seus cadernos, diversas anotações sobre a comunidade, seus moradores e suas histórias. Ela compartilhou com a equipe o desejo de ver as histórias da comunidade impressas em um livro, para que, além da consolidada cultura oral, praticada nas comunidades de matriz africana, essas histórias pudessem ganhar novas linguagens e alcançar novos tempos e pessoas. Em 2016, os integrantes do LESC, as crianças e os jovens da comunidade formaram a equipe “Pesquisadores de Ubaranas” com a proposta de realizar a recolha de histórias da Comunidade a partir da Tecnologia Social da Memória – método participativo de registro e produção de narrativas históricas para a perpetuação da memória social e a instrumentalização das comunidades para novas ações. As histórias e memórias recolhidas pela equipe de pesquisadores compõem este relicário. Em “Cartas ao leitor” temos as vozes de alguns dos jovens pesquisadores da Comunidade contando um pouco sobre como ele foi feito e dos sentimentos envolvidos. O capítulo que inicia esta obra é de autoria da própria Dona Madalena e da pesquisadora Tâmara Bezerra que realizou um garimpo nos escritos de Dona Madalena para apresentar ao leitor um pouco da grande riqueza contida ali, nesses livros, como ela mesma se refere. Os “Cadernos de Dona Madalena”, todos manuscritos por ela, convidam-nos a uma belíssima narrativa de suas memórias, levando-nos a conhecer os caminhos de suas vivências no quilombo e as histórias fantásticas da Comunidade, recontadas por uma geração de outras quilombolas que a antecederam, a exemplo de sua mãe, Dona Ester Paixão, a quem ela tem tanto amor. Os demais capítulos são frutos da pesquisa de recolha das histórias da Comunidade e apresentam as histórias de vida e seus aspectos de trabalho, saúde, crenças e vivências. Essa pluralidade cotidiana está em: “Qui-lom-bo-las, de terra nos pés e nas mãos: histórias de vida, formas de resistência e narrativas de escravização”; “Infâncias” e “Plantas e Palavras que curam”. Durante as recolhas nos deparamos com diversos “causos” na comunidade que geraram as “Sete Histórias à Sombra do Cajueiro”. Temos ainda um espaço em que contamos “Outras Histórias: ou nós que viemos de fora” apresentamos um pouco de como chegamos à Comunidade de Ubaranas.

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O resultado desse tempo de trabalho conjunto foi a diversidade de riquezas que guardamos neste Relicário para que sejam apreciadas com muito zelo e que possam contribuir para o fortalecimento da identidade cultural da Comunidade, seu sentido de pertencimento e o para o conhecimento e reconhecimento de seus patrimônios, vislumbrando um horizonte ético-político de libertação. Camila Carneiro Rocha Wanessa Nhayara Maria Pereira Brandão Ozaias da Silva Rodrigues Debora Linhares da Silva

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CARTAS AO LEITOR


Cartas ao Leitor Caro leitor, Convido você para conhecer a história de resistência e persistência da minha comunidade. A experiência de recolher histórias foi incrível, foi algo que incendiou meu coração, por que eram histórias que marcaram aquelas pessoas e são histórias que podem fazer você se emocionar. Espero que você goste muito desse livro, pois ao ler você vai conhecer um lugar de resistência, de luta e, principalmente, um lugar humilde. No momento em que os moradores contavam suas histórias eu ficava imaginando como ela tinha acontecido e conseguia sentir, como o morador naquele tempo, a dor e o sofrimento de cada história contada. Hoje eu conheci essas histórias, e espero contar para as futuras gerações o que foi e o que é a Comunidade Córrego de Ubaranas. Apesar de serem histórias sofridas, estes moradores resistiram e estão ali até hoje para contar sua luta. Por isso valeu muito fazer essa recolha, e sei que não serviu apenas para o projeto do relicário e sim para nós jovens, crianças e adultos, seja o que for, isso serve para nossas vidas! Cada passo de minha vida será uma página em um livro com capítulos extensos e a todo momento aprendo algo novo. Semanas antes, de escutar a história dos banqueiros conheci uma cavala-fêmea chamada Estrela e pense como ela me ensinou a cavalgar por aí. Em cada história, riso, queda, brincadeiras e lágrimas fomos buscando aquilo que nos torna quilombo. E com essa caminhada eu só defino essa comunidade com uma única palavra: Resistência! Porque é preciso resistir aos conflitos que a vida nos traz, por isso no livro você não vai apenas ler uma história, você vai se sentir nela, assim como eu. Por isso, leia, pare, pense e reflita sobre essa RESISTÊNCIA! Só tenho a agradecer, primeiramente a Deus por mais um trabalho concluído, e ao LESC-Psi por nos ajudar a contar as nossas histórias para outras pessoas. Meu agradecimento a vocês! Geovane Valente da Silva

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Olá, pessoal! Meu nome é Melka Mª da Silva Pereira. Moro na Comunidade Quilombola do Córrego de Ubaranas, no município de Aracati-CE. Durante alguns dias, eu e meus amigos passamos nas casas dos moradores da nossa comunidade recolhendo algumas de suas histórias. A sensação que eu tinha, ao ouvir as histórias, era a de estar revivendo aqueles momentos lembrados; era como se o tempo parasse, e o que importava era a história que estava sendo contada. O que me chamava mais atenção era o encontro de crianças, jovens e idosos, todos juntos. Foram manhãs e tardes que jamais esquecerei. As histórias agora não são só deles, são minhas também; de alguma forma me sinto parte delas. Hoje eu sei que um dia terei boas lembranças e muitas histórias para contar. Melka Maria da Silva Pereira Para você que vai ler este livro, quero que goste muito porque foi feito resgatando histórias e fazendo brincadeiras e gincanas, que eram muitos legais. Também fizemos entrevistas com os mais idosos, contação de histórias lá na casa de Seu José e teve um dia que a gente foi fazer isso lá no sítio e foi muito legal. Eu adorei fazer parte e por isso agradeço pelo LESC ter vindo pra cá, ainda mais com este livro. Lucas Martins (Lukinhas) Para mim, participar dos “Pesquisadores de Ubaranas” foi uma experiência única. Andei pelas casas da minha comunidade em busca de novas histórias, muitas de que eu nunca tinha ouvido falar. Conheci um pouco do passado da minha comunidade e vivenciei muitas aventuras com o LESC-Psi, E espero que você goste das histórias da minha comunidade, pois passamos meses de trabalho para fazer o melhor livro de histórias da Comunidade Quilombola Córrego de Ubaranas. Átila Ferreira

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OS CADERNOS DE DONA MADALENA


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Os Cadernos de Dona Madalena Maria Madalena Valente da Silva Tâmara Bezerra

“Sou Madalena, nascida aqui em Ubaranas no dia 16-11-47, me batizei na Capela de São José, estudei na escola Américo Vespúcio, tenho meu querido livro ‘Nosso Tesouro’, comprado com dinheiro de chapéu de trança.” O presente capítulo é de autoria de Maria Madalena Valente da Silva, antiga moradora da Comunidade Quilombola do Córrego de Ubaranas (Aracati-CE) que há tempos escreve sobre sua história de vida e a história de sua Comunidade em cadernos detalhadamente escritos, aos quais ela chama de livros e guarda secretamente em um baú. A proposta é apresentar ao leitor partes significativas dos “livros” de Dona Madalena, transcritas de seus cadernos e costuradas por comentários da educadora e contadora de histórias Tâmara Bezerra, que dialogam diretamente com trechos desses verdadeiros registros antropológicos, realizados por essa mulher de Ubaranas, uma das poucas de sua geração com acesso ao universo letrado. Um passeio sobre as páginas manuscritas conduz o leitor à história da Comunidade por intermédio dessa narradora, que conhece muito bem o território e seus moradores. A cada página, ela revela suas impressões diante do mundo, partindo do seu olhar de menina, de jovem e de adulta, sem mostrar-se presa a uma escrita cronológica ou intencionalmente documental, apresentando-nos “(...) narrativas tradicionais, que são obras de arte de tempos imemoriais, transmitidas ao longo dos séculos e das diferentes culturas, oralmente, de geração em geração (MACHADO, 2015, p. 32)”. Dona Madalena escreve sobre sua vida, as histórias que recorda ter vivido e que ouviu alguém contar, principalmente sua mãe: Ester Paixão, a tia: Maria Paixão, e uma amiga da família, chamada de Comadre Joana. Encontramos nitidamente em seus cadernos, essas narrativas de tempos imemoriais, mencionadas por Regina Machado no trecho citado e que en27


fatiza a importância de legado da cultura de tradição oral. Ao longo dos escritos, a tia revela-se como uma das primeiras narradoras de contos da vida de Dona Madalena e, provavelmente, forte influenciadora do seu interesse pelo universo das histórias, ocupando o importante lugar da figura oral presente na infância. Os cadernos são manuscritos com uma letra que certamente foi adjetivada muitas vezes como caprichada; neles Dona Madalena apresenta detalhadamente a relação da Comunidade com a natureza, descreve períodos de estiagem e de fartura, menciona o trabalho duro, as partilhas sociais e a organização comunitária. Não faltam também festejos, mitos e vários outros aspectos da poética de Ubaranas. Em muitos momentos dos seus apontamentos, ela cita os relatos que ouviu sobre o tempo da escravidão, revelando, de forma enfática, a consciência da importância de deixar registrado esse momento da história, apresentado a ela como um período de muito sofrimento e dor. Por vezes, em forma de diário pessoal, outras no papel de um narrador onisciente, Dona Madalena escreve tanto em prosa como em versos. O leitor dos preciosos cadernos poderá transitar em tempos e espaços semelhantes aos dos contos fabulosos, em que é perfeitamente possível transpor cronologias e geografias. É possível conhecer fatos históricos, todo um acervo de literatura oral, costumes dos moradores e suas famílias e, principalmente, sobre sua mãe, fonte da maioria dos relatos, tanto de tempos anteriores ao seu nascimento como de quando era bem pequena. Sendo Dona Madalena uma das poucas pessoas de sua geração com domínio da leitura e da escrita na Comunidade – foi, inclusive, professora de uma grande campanha nacional de alfabetização –, ela também escreve sobre esse lugar privilegiado e em alguns momentos destaca a alegria de ter ganhado um livro aos 13 anos de idade, fato que menciona por diversas vezes. Segundo afirma, de forma enfática, a publicação contém muitas informações importantes, de português, matemática, história do Brasil e ciências. Sua vida atual e suas principais lembranças, a relação com a família, os irmãos, os primos, filhos e os netos, a marca da personalidade de antigos moradores, os inúmeros conflitos surgidos ao longo dos anos, o testemunho de várias histórias de assombração, sua forte relação com a igreja – construída no século XVIII –, a participação nas manifestações religiosas e nos festejos, a organização política da Comunidade, entre outros, são alguns dos elementos

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mencionados e constantemente revisitados. Ao deparar-se com esse verdadeiro mosaico de registros, o leitor é capaz de juntar todas essas memórias e figurar sujeitos, tempos e espaços. O convite para a leitura deste capítulo, especificamente, é para que o leitor também possa conhecer esse lugar tão especial, por meio de trechos dos “livros” de Dona Madalena, que generosamente autorizou a transcrição de parte de seus cadernos, aqui representados por um garimpo de trechos realizado no mar de palavras dessa narradora da Comunidade Quilombola do Córrego de Ubaranas. O GARIMPO Na primeira página de um de seus cadernos, Dona Madalena abre os relatos com a seguinte apresentação: Histórias que eu ouvi contar… Momentos que vivi… Gosto de relatar… 29


Ao longo de toda a escrita, ela por vezes conta histórias da Comunidade e de seus moradores, por vezes narra a própria história de vida. O senhor me retirou do ventre materno de minha santa mãe, Dona Guilhermina ajudou a mamãe a vir me trazer no mundo e me deu nome da mulher que limpou os pés de Jesus.

Ao abrir um dos seus cadernos em que narra o próprio nascimento, Maria Madalena Valente da Silva presenteia o leitor com detalhes minuciosos de sua história. Na escola de Dona Júlia aprendi a ler e escrever na carta de ABC.

Me batizei na capela de São José aqui em Ubarana, fiz minha Primeira Eucaristia também, com toda a simplicidade, não podia comprar vestido novo, mamãe levava o que tinha feito na mão, de chita. Meus vestidos eram de chita, com manga 3/4, um palmo abaixo do joelho, vestia para ir as missas. A roupa de casa era feita de saco branco ou tingido. Eu estudava todo dia, também trabalhava na trança de palha com mamãe, também ia comprar farinha, nós os irmãos e muitas vezes os vizinhos juntavam para apressar o trabalho.

Dona Madalena costuma descrever os lugares da Comunidade por onde transitava na infância, afirmando que continua percorrendo a pé os mesmos caminhos. Sempre fazendo reverência à natureza, seus escritos mencionam flores, a sombra das árvores, as veredas com pedras pequenas e outras singularidades. Em um trecho muito interessante, ela descreve, emocionada, a mata verde depois das chuvas. Muito religiosa, constantemente apresenta a paisagem de Ubaranas e agradece a Deus pela perfeição da natureza do lugar. Ando pelas veredas e gosto de admirar o mundo, penso nas plantas que alimentam e curam.

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Vários aspectos de histórias vividas pelos moradores também são apresentados de forma minuciosa. Quando a memória permite, Dona Madalena apresenta as datas dos acontecimentos ou indica sua proximidade, destacando a década em que ocorreram, fato que contribui significativamente para a contextualização do leitor. Ela deixa claro que começou a escrever sobre a Comunidade no ano de 1974. Porém, a grande maioria dos registros encontra-se desprendida da temporalidade histórica e está associada ao vivido, à sua memória afetiva. Nos anos de 1958 houve uma grande crise para nós, não houve feijão, nem milho, muitos foram embora procurando outra trilha. Muitos perseveraram em Ubarana mesmo passando dificuldade. Somente a graça de Deus nos dava força para viver.

O meu lugar As jangadas chegavam a tardinha trazendo peixe um montão, um servente numerário, espalhava pelo chão. Tinha medo no caminho, no cajueiro macho, alguém viu assombração, ali aumentava o cansaço, Mas mamãe não tinha medo era mulher de coragem, com a trouxa na cabeça a bolsa embaixo do braço, somente temia a Deus o restante ela enfrentava.

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Certamente essa atemporalidade da memória – que dimensiona o constante diálogo entre passado e presente, entre emoção pelo vivido e a precisão dos fatos – é também encontrada nos registros de Dona Madalena. Sua forma de escrever acaba por conduzir o leitor a essa relatividade do tempo, que também pode ser testemunhada quando ela se remete à infância para indicar sua semelhança com um dos netos, por exemplo. Eu era uma menina muito curiosa sempre procurava satisfação e saber “o que” das coisas, ou o que significava aquela conversa. … meu neto Fagner parece muito comigo quando era criança. Uma vez eu estava na casa dele, acho que só tinha dois anos, foi quando olhou pra mim e perguntou: vovozinha cadê a tua mãe? Eu respondi ela está no céu. Ele continuou perguntando: fazendo o que? Eu respondi ela está morando lá. Ele me olhou prestando muita atenção e perguntou: quando ela vier vai descer por uma escada?

Dona Madalena resolveu paginar um de seus cadernos. Na folha de número 31 de um deles, apresenta o título: Memórias e coisas boas. Ali ela volta a escrever sobre os aspectos de uma infância com poucos recursos materiais, porém com inúmeras possibilidades lúdicas. Ao descrever brincadeiras e brinquedos construídos para as crianças da Comunidade, ela apresenta as singularidades da infância desse lugar. Toda semana mamãe ia lavar roupa ali na Quixaba. Ela trabalhava e eu brincava de correr e subir nas dunas. Lá na Corrente do Urubu, nome dado pelas lavadeiras de lá. Eu pequena gostava de ver as jangadas encalhadas com fartura de peixe, brincava boa parte do dia na sombra dos pés de murici. As crianças brincavam de roda ciranda, pulavam corda e rodavam no joão galamar um brinquedo feito de pau que parece uma gangorra. Os passeios para as novenas no Sítio Gravatá as noites de São João. Era lindo, a novena era cantada. Quando terminava tinha comida típica pamonha, milho assado, mucunzá. Melhor ainda quando era noite de lua.

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Na igreja a gente brincava de escorregar, brincava dos passará cantando, 3, 3 passará o derradeiro ficará atrás se não for o dianteiro ficará para detrás. Uma criança parava e perguntava: quer ir para o céu ou para o inferno? Era muita alegria também pescar peixinhos, também gostava de brincar no terreiro em noite de lua, eu era pequena e mamãe comprava um vestidinho de chita para costureira fazer. Que alegria quando mamãe comprou meu livro nosso tesouro. Ainda tenho guardado é o que me resta da infância. Eu tinha 13 anos mas parecia que tinha 10 ou menos.

Muitos trechos dos cadernos recebem títulos que antecedem o que estará escrito. Em um deles, intitulado Tempo bom, Dona Madalena fala da fartura e da alegria com a chegada das chuvas. Os anos das grandes lavouras mamãe raspava mandioca e me levava pra ajudar, recebia muita farinha como pagamento. Apanhava feijão e recebia, assim ela costumava ganhar o nosso pão. Ela e meus três irmãos plantavam na roça, e era tudo para o que a gente ia consumir. Meu irmão Juminha ainda solteiro, certa vez plantou no campo e foi preciso colher o milho antes do tempo pois o inverno foi tão bom que até apareceu peixinho no meio do milho. Teve gente que não acreditou.

Também é possível conhecer costumes, utensílios e as formas de trabalho realizado na Comunidade, principalmente sobre as atividades femininas, já que se trata de uma “viagem” pelo passado, realizada por meio da memória de uma mulher e da forte presença de outras mulheres na maioria de seus relatos. Eu lembro que quando era bem pequena existia muita cabaça as coités, as grandes era para dar banho nas crianças, colocar farinha, feijão, até para lavar roupa. As cabaças serviam para armazenar água e a porção de maior quantidade, servia até para trazer água na cabeça. Depois começamos a usar os potes e alguns anos depois a gente carregava água em latas de gás, de querosene.

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As roupas eram feitas de saco costurado a mão, tinha que usar vestido de saco e combinação, da criança a vovozinha… …as mangas das roupas eram até o cotovelo e também a saia batia no pé, minha madrinha Geralda usava sete saia. No tempo usavam anáguas, a gente botava no grude de goma pra ficar bem feita, aí ficava uma forma de balão. As mulheres que tinha uma melhor condição financeira usava anágua com bicos, com rendas e bordados. Os vestidos eram franzidos e pregueados, eram muito largas agora usam de novo essas roupas e vestidos bem compridos, quando vejo essas jovens de hoje vestindo saia comprida, fico me lembrando do tempo de antigamente. Ainda lembro bem, eu bem pequena fazendo tiririca antes de aprender a fazer a trança do chapéu de palha. Eu brincava de boneca de pano, também brincava com osso de boi, sabugo de espiga de milho, eu enrolava com um pano e dizia quero meu neném. Mamãe arranjava panelinha de barro e potinho. Eu devia ter uns sete anos. Minha mãe conta que me batizei na capela de São José e eu estudei na escola, ainda hoje tenho meu querido livro comprado com dinheiro de chapéu de palha feito por minha mãe. Aprendi a costurar, fazia minhas bonequinhas de pano, minhas próprias roupas mesmo simples. Para mamãe e algumas pessoas eu fazia roupa nos dias de domingo. Naquela época de criança a gente começava a trabalhar muito cedo às vezes com cinco anos, trabalhava na esteira, na tiririca na embira, apanhava castanha de caju, feijão e fazia mandado. Já maior eu buscava o leite só eu e Deus lá na Lagoa dos Porcos, ia comprar farinha em Zé Curto, todo mundo trabalhava. Brincava pouca coisa. Na minha infância, o povo daqui só ia para cidade quando precisava comprar alguma coisa, como fazenda de tecido para fazer roupa, algum calçado, rede ou mesmo alguma vasilha. Os alimentos eram todos produzidos aqui, na própria terra, aqui a gente tinha cereal, verdura, fruta e também tinha criação para dar carne leite, na praia sempre tinha peixe todos esses alimentos muito saudáveis aqui não se faltava, era um lugar pobre mas que tinha comida. 34


Dona Madalena afirma que sempre gostou de ouvir histórias na infância, principalmente as histórias que os mais velhos contavam. Muitas vezes ela deixa claro que está contando um fato ocorrido e automaticamente entra nos elementos ou trechos de contos fantásticos; ambos os tipos de narrativas estão inseridos, de forma harmônica, no mesmo mosaico de relatos. A gente sentava junto da minha tia Maria Valentim da Silva, nascida em 1906. Ela era conhecida por Rezadeira Maria Paixão. Ela contava que uma senhora tinha doado uma légua de terra a São José de Ubaranas. Essa terra ficava uma porção vizinho ao Tanque do Salgado no Oitizeiro.

Ao longo de toda a extensão do referido caderno, ela reconta muitas histórias partilhadas pelos narradores orais de sua infância. São contos com assombrações que aparecem principalmente nas noites de quinta-feira: seres que esticam longamente o pescoço, lobisomem, gatos que falam, bolas de fogo que perseguem peregrinos solitários e muitos outros. “A literatura oral é uma maneira particular de tratar a herança cultural própria da tradição oral.” (CALVET, 2001, p. 146) O interesse de Dona Madalena pelo universo das narrativas fica em evidência, principalmente quando ela escreve sobre as histórias de medo. O cuidado em descrever, com riqueza de detalhes, determinadas “aparições” conduz o leitor diretamente aos contos de assombração e as suas particularidades. Certo dia de domingo, eu e minha prima Dedé, de nome Maria José, saímos cedo de casa, acho que era 3 ou 4 da manhã, andávamos muito. Fomos por uma vereda que saia no Gravatá. Lá por volta do meio dia, sentamos numa sombra de um cajueiro pequeno. Eu ouvi um grito e disse: olha Dedé é o vaqueiro do Seu Zé Pinheiro. O grito se aproximava cada vez mais, nós batemos os pés a correr, desesperadamente. Ouvimos um grito muito feio, horripilante. A capoeira tinha pouco mato. Eu

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era muito magrinha, muito maneira para correr. Dava para ouvir os berros dos animais o trupe das patas. A gente corria e rasgava as roupas no mato, só faltava cair. Não vimos o que era. No outro dia fomos pra ver o que essa coisa tinha deixado no chão, nenhum rastro para chamar atenção, aí o medo aumentou. Contamos em casa as mulheres, elas duas confirmaram: Só pode ser a Caipora. Nunca mais tivemos coragem de sair ao meio dia, tínhamos muito medo da Caipora.

Dona Madalena geralmente se refere aos adultos que narravam histórias, como as senhoras, fato que provavelmente revela o gênero da maioria dos contadores de história de sua infância. Ao recontar trechos ou até contos inteiros, geralmente revela tê-los ouvido na voz de uma narradora. Certa vez um caçador subiu numa árvore bem alta para esperar a caça. Depois de um tempo de espera foi que observou a presença de dois gatos falantes e um perguntou para o outro: o que fizeste? Fiz o poço não jorrar água, e a mulher que foi buscar água voltou com um pote vazio. O segundo gato perguntou por outro: o que fizeste? Fiz o fogo apagar-se e a comida não pode ser feita, quando o marido da mulher voltou da roça ficou com muita raiva e levado pela tentação. O primeiro gato falou para o outro: se ela soubesse jogava água benta e nada desses maus poderiam acontecer. Foi então que o Caçador descobriu as maldades do tentador.

Mais especificamente no trecho intitulado As visões espantosas, Dona Madalena apresenta parte do campo mitológico dessa literatura oral partilhada de geração em geração. Dona Madalena também menciona histórias com a Mula sem Cabeça, o Batatão, a Caipora, o Lobisomem e outros. Muitos desses personagens são lembrados e mencionados pela maioria dos moradores, principalmente o Batatão: uma bola de fogo que segue as pessoas que caminham sozinhas à noite. Trata-se de um personagem que está presente na memória das várias gerações de Ubaranas. Nessa perspectiva, na obra “História oral e memória: a cultura popular revisitada”, Montenegro (2003, p.20) afirma que:

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a memória tem como característica fundante o processo reativo que a realidade provoca no sujeito. Ela se forma e opera a partir da reação, dos efeitos, do impacto sobre o grupo ou o indivíduo, formando todo um imaginário que se constitui em uma referência permanente de futuro.

O argumento é perfeitamente confirmado pela forma enfática com que Dona Madalena e vários outros moradores descrevem essas “aparições”. Um tio meu chegou a ver bem de perto a Mula Sem Cabeça, foi no caminho do Tanque do Salgado. Um cavalo sem cabeça, ele viu. Ele teve que rezar o Pai Nosso ao contrário pra poder afugentar a assombração. A arte de contar histórias é um ato de comunhão de almas, entre aquele que conta e transfere um fragmento de sua alma nas palavras-sons-gestos (palavras que saem da boca e do corpo) e aquele que lê com a visão, a audição e os demais sentidos, também se colocando em alma. (MEDEIROS, 2015, p.26)

Em um dos cadernos, Dona Madalena revela mais uma das narradoras de sua infância: Comadre Joana. Num grande trecho, apresenta o título: “Como me contou a Comadre Joana”. Essa amiga da família é apresentada como nascida em Murici de Lagoa do Mato, uma senhora que acompanhava a mãe de Dona Madalena e costumava contar muitas histórias. Suas idas ao Córrego de Ubaranas tinham o objetivo de vender chapéu e comprar palha. Ao relatar, detalhadamente, a forma como a Comadre Joana narrava, é possível identificar, na descrição de Dona Madalela, essa comunhão de almas, referida pelo autor na citação acima. …ela me contou uma vez que no cajueiro macho se ouvia brocarem o mato perto das pessoas. Era conhecido como cajueiro da burra. Viram o animal com barulho de ferramentas e outras visões espantosas. Em noite de lua se via vultos estranhos, sombras, batidas de machado e foice. Muito vulto e assobio. Lá pros lados do caminho do Gravatá um rapaz viu de perto o Batatão, uma bola de fogo estranho que seguiu ele até perto de casa.

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Um personagem muito comum e que habita recorrentemente a memória de moradores do sertão ao litoral do Ceará é o cangaceiro Lampião. Como não podiam faltar, as histórias sobre o cangaço também estão presentes nos registros de Dona Madalena. Sua mãe lhe contava a ousadia de Lampião de mandar um espião avisar antes de chegar onde ele iria passar. Os registros descrevem o seu bando, as constantes idas a Juazeiro do Norte e o convívio estreito com o Santo Padim Padre Cícero. Minha mãe e minha a tia contavam que passava muita gente na comunidade por conta do engenho, ao saber da proximidade do bando de Lampião, os homens cavavam valas fundas pra se esconder. Muitas vezes ficavam nas casas só as mulheres os idosos e as crianças. Comadre Joana dizia que ele entrava no Ceará em Juazeiro do Norte na época do Padre Cícero Romão… …contava as mulheres que Lampião foi ao encontro com o Padre Santo e os cangaceiros levantaram as armas e as mesmas jorraram água.

Os trechos que falam do tempo do cangaço têm o título: Medo de Lampião o cangaceiro. Os cadernos de Dona Madalena realmente apresentam uma diversidade de textos encantadora. Ela também registrou as adivinhas que ouvia na infância: Adivinhas: 1 - Qual olho que chora sem haver Consolação? 2 - O que é o que é: uma cova bem cavada, 12 motos estendidos. Todos mortos falando, cinco vivos passeando, trabalhando com três sentidos. 3 - O que é o que é: qual é um Campo Grande, com gado miúdo, uma moça formosa e um homem carrancudo? Respostas: 1- olho d’água 2 - Os 05 sentidos 3 - O infinito Obs: No caderno as respostas estão de cabeça para baixo. 38


Dona Madalena, desde menina, já reunia a família e os vizinhos para ler textos em voz alta. Talvez esse aspecto da experiência narrativa, o contato estreito com o universo literário e a preparação para partilha oral dos textos em literatura de cordel tenham contribuído significativamente com sua iniciativa de contar as próprias histórias. Nos anos 50, aqui na comunidade as pessoas se juntavam para ouvir alguém contar histórias, tinha adivinhação ou até mesmo fábulas. Eu já sabia ler e escrever, e existia os romances e histórias de cordel. Eu passava boa parte da noite lendo 3 4 livrinhos para os vizinhos ouvirem, minha mãe meus tios meus irmãos e os vizinhos sentavam para ouvir eu lendo histórias.

O seu apreço pelos textos em rima provavelmente também vem da mesma experiência como narradora oral. Em alguns trechos dos cadernos, Dona Madalena chega a enumerar os versos, assim como fazem alguns cordelistas, revelando mais uma vez sua admiração por esse tipo de texto. Nos caminhos e veredas a correr vendo a infância 1 - Ia comprar farinha 2 - Na bodega do patrão 3- Um quilo, quilo e meio 4 - Dinheiro não havia não 5 - Era pra voltar ligeiro 6 - Mamãe cuspiu no chão 7 - Vestidinho de saco 8 - Descalça com pé no chão MINHA MÃE 1 - nunca levou para casa 2 - desaforo de patrão 3 - gostava da sinceridade 4 - tinha um bom coração 5 - fazia sacrifício junto com os filhos 6 - para alimentar um irmão

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Outro aspecto bem recorrente nos registros de Dona Madalena é a revelação do seu prazer por viver em Ubaranas. Por meio desses trechos, ela nos apresenta personagens e paisagens, promovendo certa intimidade entre o leitor e a ambiência, descrevendo detalhadamente a paisagem que compõe esse lugar. Ubarana de sol forte, ventos vindo do litoral Praiano, as noites de lua cheia, essas são as maravilhas de Deus. Ainda hoje as flores são uma das maravilhas que admiro na natureza, as formas, os tamanhos, as cores, o perfume. Penso que ontem é como uma pétala que se desprende e cai na terra o vento leva.

Ao explicar a topologia da Comunidade, muitas vezes ela nomina árvores, esclarecendo que elas recebiam o nome do dono, ou seja, do morador da casa mais próxima. Por exemplo: o cajueiro dos Bentos ou os Cajueiros de Zé Néo. Nos anos 50 teve uma grande estiagem. A gente cantava: a vida aqui só é ruim quando não chove no chão. Apelava para simpatia até roubar imagem de São José. Era muito difícil quando não chovia. Tinha as rezas as novenas e todo mundo repetia: dai-nos chuva senhor, já que sois tão amoroso. Minha mãe falava que no começo do século, lá pelos anos de 1900, minha vó contava que via passar carros de boi levando escravos. Alguns desses escravos conseguiram pegar num morrão, diziam que eram de Dona Caetaninha. Quando diziam valhei-me o morrão de D. Caetaninha, eles eram liberto. Aqui tinha cinco sítios que fabricava cachaça, tinha engenho movido a carro de boi onde se fazia mel de rapadura. O trabalho dos nossos avós eram escravos, eles não tinham direito a um minuto de descanso, começava no raiar do dia e ia até 12 uma hora da tarde, comia e voltava até escurecer. Ganhava dois quilos de alimento, peixe farinha, vestido de saco, se faltasse o trabalho por doença era dispensado.

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A minha geração está aqui já vai no sétimo proprietário. Mamãe e minha tia me contavam da seca que teve em 1915. As pessoas comiam lagartixa, calango, casca de pau. Muita gente morreu de fome. Lá para os anos 50 surgiu o Labirinto, todo mundo aprendeu rápido antes só se fazia trança de palha esteira bolsa chapéu. Depois muitas mulheres, principalmente começaram a fazer labirinto. Na década de 70 começamos a comprar as lâmpadas a gás butano. Nos engenhos se fabricava muita cachaça de cana de açúcar as custas do trabalho forçado, era como se fosse quase ainda escravo. Veio o desmatamento, projetos dos cajueiros. No primeiro ano os trabalhadores plantaram roça, feijão milho tudo plano para nos enganar. O último proprietário já pagava salário, mas tudo com sacrifício e descontos muitos descontos…

Os elementos de comparação entre o que já foi vivido e superado, as lutas e conquistas, os anseios pelo futuro e a vida de seus ancestrais escravizados acabam por revelar uma narradora também analítica. Dona Madalena faz comparações entre o passado e a atualidade ao escrever: as pessoas vem de comunidades distante para as festas da igreja de carro de carroça de bicicleta, mas antes todo mundo chegava em Ubaranas somente a pé, mesmo vindo de longas distâncias.

Muitas vezes os registros mencionam recorrentemente moradores antigos, como se esses sujeitos pertencessem a uma lembrança significativa. Um exemplo é a constante presença de um homem chamado de Zé Caboclo. …era o cabelereiro, conhecido na época como barbeiro, que tinha a função de cortar os cabelos.

Esse morador é apresentado como o barbeiro, porém é muitas vezes mencionado como o sujeito que organizava a maioria dos festejos; ele atuava como uma espécie de articulador cultural da Comunidade.

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Dona Madalena descreve com admiração que Zé Caboclo também construía casa de sobrado em cima dos cajueiros para seus filhos brincarem. Era Zé Caboclo que organizava o carnaval com o bloco dos marinheiros, realizava festinhas dançante, fazia farinhada, também animava as debulhas de feijão. Nas debulhas de feijão, se fazia serão com várias pessoas. Nesse tempo, contavam histórias, alguns faziam umas danças e com violão, sanfoneiro, fogueira e muita comida, milho, mucunzá, canjica. Zé Caboclo era o cabeleireiro, aqui na comunidade, vinha até pessoas dos lugares vizinhos para se barbear. Muitas pessoas vinham comprar a cachaça que era feita em Córrego de Ubarana, gente das regiões de Jaguaruana Itaiçaba Icapuí de várias praias como Peroba Canoa Quebrada Quixaba. Zé Caboclo cortava cabelo, fazia festinha com sanfona, recoreco, vinho, bonequeiro ou mamulengo, canto de violeiro fazia bloco de marinheiro.

Em boa parte dos registros mais recentes, ela traz a presença da Fundação Palmares em Ubaranas e seu desejo de regularização da titulação da terra. A Fundação Palmares em 2014, fez o mapa da comunidade. Nós contamos os pontos de referência, cinco engenhos, a igreja, o nome dos proprietários, as veredas, eles perguntaram sobre os lugares que a gente disse que era assombrado. Contamos do trabalho com palha, onde se comprava e vendia o que precisava, falamos das plantações. Contamos tudo. Veio um antropólogo nos visitar, falou com muita gente da comunidade. Contaram pra ele do escravo que levaram para o Pedal das Almas, tirararam o couro dele vivo. A forma do trabalho escravizado de nascer ao pôr do sol também foi contada pra ele.

Dona Madalena destaca a data da chegada dos representantes do INCRA: 9 de abril de 2012, e também registra as datas de fundação da Associação e da inclusão do termo Qui-

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lombola ao nome da Comunidade. No mesmo trecho, ela relembra que, antes da existência de uma sede para a Associação, as reuniões aconteciam no campo de futebol. A luta quilombola e as lembranças do período de escravidão aparecem em muitos versos. O meu Deus libertador Pelo sangue derramado De teu povo sofredor Muito suor misturado Com lágrima, angústia e dor

Os aspectos da luta da Comunidade por regularização da titulação da terra estão constantemente presentes nos matizes do texto, assim como um forte orgulho por sua ancestralidade, reafirmando o argumento de Lopez(2009) ao escrever que “a memória e a história estão ligadas à construção da identidade de um grupo, bem como à mudança e à preservação de valores e visões de mundo”, elementos claramente encontrados no depoimento emocionado de Dona Madalena a respeito de um convite que recebeu para falar sobre a Comunidade e sua luta em uma universidade da região. Fomos ao campo da faculdade no Pedregal, os alunos receberam muito bem eu e Ana. Fomos convidadas para falar sobre a comunidade e nossa luta. Ana deu graças a Deus pela oportunidade da nossa simples presença num campo da universidade. Falamos do orgulho da nossa raça e da cor negra. fiquei feliz com acolhida que nos deram as Professoras. Jamais vou esquecer o dia em que falei para as pessoas numa universidade, contei da nossa história, falamos da nossa comunidade e do orgulho que temos de pertencer a ela.

Os escritos mais recentes de Dona Madalena apontam a chegada do grupo de estudantes do LESC-Psi na Comunidade. Muitas vezes ela nomina integrantes, principalmente os que estiveram em sua casa com mais frequência. Os meninos dos LESC que fazem perguntas sobre coisas do passado e nós contamos nossa vida a eles. Contamos do nosso trabalho com palha, do labirinto, da convivência das pessoas.

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Eu contei que vestimos roupas de saco e que algumas vezes faltava recursos contamos nossa vida e nossas histórias. Eu contei que mamãe era parteira, raspadeira de mandioca, lavadeira e que também apanhava feijão falei da minha infância e de outras coisas que a gente viveu aqui na comunidade. Contei para os meninos que existe uma vereda mal assombrada, que um homem aqui da comunidade viu uma broca parecida com alguém cortando mato e ouviu as pancadas da queda, no outro dia ele foi conferir e nada se viu. Contei também o que aconteceu comigo e a minha prima, contei que o medo fazia com que a gente andasse a noite pegando na mão do outro e andando de banda para se proteger. O poder de registrar e definir o que faz parte da História tem ficado concentrado em poucas pessoas e instituições. Muitas vezes, estabelece-se uma narrativa oficial, a única preservada e repetida nos livros didáticos, no cinema, na literatura, na mídia (MONTENEGRO, 2003, p. 11).

O argumento acima dialoga diretamente com a valorização da iniciativa de Dona Madalena ao escrever sobre sua história de vida e a história de sua Comunidade, justamente para que a história seja narrada de forma democrática. Entre um relato e outro, uma memória ou descrição de experiência vivida, seus escritos tanto estão preservando a história do seu lugar como a de sua própria existência. Em meio a todas essas suas anotações, a narradora vai escrevendo versos, pensamentos e reflexões; ela quase que borda seus cadernos com mensagens de força e otimismo, assim como estampa panos com a arte do labirinto. Encerraremos esta partilha com um dos escritos bordados nos labirintos das memórias de Dona Madalena: Todo dia, a motivos para a gente se alegrar, toda vez que o sol surge e a vida germinar.

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Gravação de cena para o documentário: “Sete histórias à sombra do cajueiro”.

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QUI-LOM-BO-LAS, DE TERRA NOS PÉS E NAS MÃOS: HISTÓRIAS DE VIDA, FORMAS DE RESISTÊNCIA E NARRATIVAS DE ESCRAVIZAÇÃO


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Qui-lom-bo-las, de terra nos pés e nas mãos: histórias de vida, formas de resistências e narrativas de escravização Wanessa Nhayara Maria Pereira Brandão Debora Linhares da Silva Ozaias da Silva Rodrigues Camila Carneiro Rocha Tiago Barreto de Lima

Nessa terra não haveria de ser de outra maneira: eles são filhos e frutos do trabalho, do trabalhar; de uma história que se espalhou por todo o Brasil, mas que, com o tempo, foram deixando de contar. De um povo que veio mesmo de outro lugar, não um país, mas um continente, cuja ancestralidade à Terra inteira pertence: Mama África! ...mas, a quem interessa desse povo falar? E digamos mais, neste lugar “Siará”, há ainda hoje quem venha perguntar: “E tem negro aqui?”. Pois a essa pergunta a resposta não é segredo, não há o que calar: “Sim seu moço! Sim dona menina! Tem e é muito!”. E, como estávamos dizendo, o pessoal daquela terra acolá são filhos-frutos do trabalho, do trabalhar, de um feito forçado, maltrapilho e maltratado, onde sofrimento e resistência eram quase aliados. A escravização deixou muitas heranças, um fardo ainda bem pesado que esse povo carrega. E esse povo também se redescobre, dia a dia, de maneiras inesperadas... como era mesmo que Dona Madalena contava aquela história?! [...]eu tinha um livro, do MOBRAL1 que ensinou aqui. Esses livros eram tipo um dicionário, e lá eu vi essa palavra, falava sobre quilombolas, mas eu não entendia bem o que era. [...] depois de um tempo eu vi no jornal outras comunidades, com esse nome, e aí quando vi na televisão é que comecei a despertar [...].

1 O Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL) foi um órgão do governo brasileiro, instituído pelo decreto nº 62.455, de 22 de março de 1968, conforme autorizado pela Lei n° 5.379, de 15 de dezembro de 1967.

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Filhos-frutos da escravidão, ou melhor dizendo, de pessoas escravizadas! Filhos-frutos da resistência, são netas e netos, bisnetas e bisnetos, descendentes também de senhores de engenho, dos “donos” da terra2. Filhos-frutos miscigenados, de cabelos loiros e olhos claros, de pele negra e sorriso farto. Ali, no lugar “qui-lom-bo-la”, desde cedo aprendem sobre o trabalho na terra: manuseio, dedicação, cuidado e luta. É assim que se faz do trabalho uma arte, artefato e artesania, símbolos da caminhada cotidiana no chão de antepassados ainda tão presentes. As mãos que ali cultivam são as mesmas que temem, misturam na terra tanto o trabalho que os alimenta quanto as vozes que lhes ameaçam. São 61 famílias cadastradas na Associação de Agricultores e Agricultoras do Córrego de Ubaranas e cerca de 320 pessoas, moradores do lugar, Ubaranas. “Na época do meu pai, na época da minha mãe” - histórias que alimentam Em Ubaranas as histórias são recheadas de sabores – literalmente e na oralidade dos narradores-moradores! Pois veja, Ubarana não era então o peixe que eles pescavam ali, no córrego, e que todo mundo comia?! E dentre tantas memórias afetivas que nos contam das histórias de vida de lá, vivem os frondosos cajueiros e o vento quente que ressoa: “[...] a gente foi criado comendo [...]” Farinha da castanha [...] aquilo é muito bom mesmo, a gente foi criado com aquilo de comer, foi castanha. Assa a castanha, quebra e aí bota no pilão pra pisar, mistura com farinha bota no pilão [...] com mel, aí quando tá bem pisadinha, bem pisadinha, bota o mel dentro aí mexe, mexe, mexe, mexe. [...] quando tá no ponto, aí que taca o pilão [...] depois, quando sai do pilão, já pode comer. (Seu Pelé)

Coisas de comida, coisas da terra, coisas de um povo e um lugar: lavoura! Esta palavra, de origem no latim labor, diz do preparo da terra para o cultivo, mas, por sua origem etimológica, diz bem mais: labor, laboria = trabalho, esforço e... sofrimento. Gabriel Perissé explica 2 Aqui levamos em consideração que dificilmente não há processos de miscigenação senhores/escravos, principalmente quando se configuram como em Ubaranas, onde as famílias conviviam diretamente com os moradores das casas grandes. Porém, em termos “oficiais”, há apenas um morador que se reconhece e é reconhecido pela comunidade como descendente de um dos latifundiários.

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que Laboriosus, no antigo latim, designava o sujeito que trabalhava muito. E, no antigo francês, laborer tinha, entre outros significados, os de “trabalhar” e “enfrentar dificuldades”. Pois veja, uma única palavra de tantos e tamanhos significados que tratam dos sentimentos vividos em um mesmo lugar. A terra, em Ubaranas, é trabalho e é também o motivo de enfrentamentos; é de onde vêm alimentos-vida e igualmente trabalho-sofrimento. Nas memórias do paladar, a laboria-lavoura vem se apresentar: A gente plantava mandioca, [...] mamãe rapava e nós ía relar no ralo, relar, relar, e tinha um irmão nosso, o meu irmão mais velho, no forneiro da farinha. Botava uma lata no fogo, com a tampa da lata fazia o fogo [...] e ele cavava a farinha. Mamãe [...] botava no sol para enxugar e ía pro forno, aí meu irmão mexia. Esse homem virou forneiro de farinha. Rapaz! Fazia farinha e aí nas casas de farinha ele era chamado, ficou profissional de fazer farinha [...]. (Seu Pelé)

A relação do povo de Ubaranas com o trabalho é vinculada à terra e, por isso, as histórias do povo com a sua terra se misturam. Seu Célio, em um de seus relatos, nos conta sobre essa relação e a luta empreendida para poder viver e trabalhar onde a natureza é também quem estabelece os tempos: Hoje a gente tá aprendendo muito, porque quando eu tava lá ainda [terreno onde plantava antes de secar], lá era vazante também, e lá era roçado. Eu passei dois anos plantando e era a mesma coisa: chovia, mas não nascia, porque a chuvinha fraca não era como antigamente, a gente perdia, a semente não nascia, aí perdia. Não tinha como nascer, a semente incha no solo e aí apodrece quando a chuva é fraca. Muitos tá deixando para plantar mais em janeiro e às vezes nós não segurava lá, aí pronto, nós passamos dois anos nessa peleja. Tá ruim, não tá mais chovendo pra gente criar a planta, e aí como a gente vai viver?

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E, talvez para aliviar as diferentes marcas e tempos da lavoura, há o alimento dado pela natureza sem precisar do cultivo da terra, sem precisar preparar o terreno, bater pilão, ralar ou assar. Seus lavradores são outros, ou melhor, outras: as abelhas. A bichinha é pequeninha e tem é muitos nomes3, mas lá em Ubaranas alguns chamam Arapuá. Ela realmente não ferroa, e sim, enrola nos pelos e cabelos, de um jeito grudento! Esse nome vem do Tupi eírapu’a – mel redondo, por causa da forma da colmeia. E é assim, a natureza tem essas sapiências, essas delicadezas, que presenteiam quem nela e dela vive: pra quê ferroar quem tantas dores já há de carregar? Arapuá, ali, é mesmo coisa para adoçar a vida, para nutrir, para curar e para trazer o riso de quem dela histórias tem pra contar. E as histórias são tantas em Ubaranas que podem chegar até voando sobre você! Assim foi durante o diálogo com Seu Pelé, homem de alegria contagiante. Em uma tarde de sábado muito agradável, um bichinho voava e pousou na caneta do entrevistador. Logo Seu Pelé deu o nome do tal bichinho e daí a história voou: Rapaz, o mel disso é tão do bom! Eles tiram, mas de noite, isso é valente macho! Ave Maria! [...] fica se segurando nos cabelo da gente, quem que aguenta uma friviância dentro do cabelo? Ela corta o cabelo da gente dentro da cabeça e faz aquela zuada medonha na cabeça da gente [...] ele só vai se bulir com ele, mas se bulir, se tocar, Ave Maria! [continuando sobre a retirada do mel] Só vai com fogo. Bota o fogo, queima dentro bem queimadinho, aí quando ele tá bem queimadinho, o cabra tira do fogo. Aí descasca bem descascadinho e vai aparecendo as caixotinha de mel... o cara vai só lambendo! [risos] Tem uns que mete a mão, tira o favo de mel com a mão, aí o cara pica bem picadinho, corta com a faca, um facão, pica bem picadinho, bota dentro de uma bacia dessa, numa peneira assim, e deixa lá escorrer e quando é no outro dia a bicha tá quase cheia de mel. E só pingando, pingando, pingando, bem devagarzinho... e o mel docinho, Ave Maria meu irmão!

3 Também é conhecida pelos nomes de abelha-irapuá, abelha-irapuã, arapuã, aripuá, irapuá, arapica, arapu, axupé, caapuã, cabapuã, cupira, urapuca, guaxupé, enrola-cabelo, torce-cabelo, mel-de-cachorro, abelha-decachorro e abelha-cachorro.

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Mas nem todo bicho que aparece por lá traz consigo alimento pra dar. Onde tem mata, tem vidas. E por lá tem cobra, raposa, carcará, tatu, gambá... uns viram caça-comida, outros caçam a comida! Às vezes os bichos de criação, que são também comida, atraem os bichos da mata. Mas têm os que querem mesmo é se fartar e procuram a comida que a terra dá. E as plantações nos quintais são uma feira sortida! Na dinâmica da comunidade, os habitantes daquela terra (há tempos) não são apenas humanos. Há o que se preserva e que também diz da história de Ubaranas. Foi assim que um seleto animal, que só aparece em grupo, nos foi apresentado: os “garxelo”4.

4 Guaxelo, também conhecido como: jaguá campeba, jaguaracambé, rato-lavador, mascarado, cachorro-domangue, iguanara, jaguacampeba e jaguacinim, jupará, jupará-verdadeiro.

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Ele é assim, como um cachorro. Ele é meio assim roxo, meio roxo com uma listra preta, e ele só anda de noite. [...] Planta a melancia, assim, no roçado, tanto no roçado como na vazante, era pra gente ter muita melancia, mas só que fica vingando e ele não deixa amadurecer, aí fica tudo verde, tudo verde! Quando ele vem é de muito, cinco ou seis de bando, aí não tem condições! [...] e a safra tá seca esse inverno, que ninguém teve inverno, vai completar seis anos que não tem inverno... tem uma safra boa de feijão, melancia, milho, e a melancia embaixo do roçado, quando ela tá boa parece que eles conhecem: a melancia tá boa ele vem, o garxelo com a turma dele. Vem, aí quando ele chega lá a melancia bonita, toda furada! Eles metem a mãozinha e come todinha! (Seu Célio)

E, na terra onde os cajueiros fazem trilhas, são sombra que traz alento e, por vezes, fez-se morada, o caju é comida-identidade e o cajueiro é referência, é ponto de encontro: “debaixo do pé de caju”. Lugar-planta, testemunha de tantas histórias, de um povo doce e forte, feito com amor e resistência. O caju simboliza a luta e vitória de quem trabalha e vive ali, inspirando a todos. Do doce mel de arapuá, de jandaíra, ao mel do caju, símbolo de Ubaranas. A arte da feitura do doce de caju quem nos relata é Seu Célio, que produz os doces e os vende para conseguir tirar o sustento de sua família:

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Do caju você faz o doce, pega, colhe ele, faz a seleção, escolhe eles todinho, os caju bem maduro, pra fazer o doce. Aqui eu costumo fazer a contagem, eu pego trezentos cajus, boto no tacho que eu já sei o tanto de açúcar que tem, boto pra ferver, lavo bem lavadinho, trato bem tratadinho, tem que tirar a parte do cabo, a parte da castanha, e fica só o miolo, fica só a polpa, e aí bota ele pra cozinhar, umas quatro hora de fogo, quando ele apurar na água, aí você apura pro outro dia, tira do fogo. Quando estiver no outro dia, você vai passar ele na peneira, amassar bem amassadinho, quebrar ele bem quebradinho, pra ele ficar bem migalhozinho, bem firme. E aí, depois ele vai pro fogo de novo, aquela massa todinha, fica só a massa [...] aí vai no fogareiro, quando ele tiver bem enxuto, bota dois quilo de açúcar, um doce de trezentos caju vai precisar de cinco quilos de açúcar, bota dois de uma vez. Vai secar, vai enxugando de novo, quando tiver duro, você bota mais dois quilos, até ele der o ponto, até ele apurar. Quando ele tá apurado ele fica bem duro. O doce mesmo, bom, legítimo mesmo, você tem que enxugar bem enxugado, o doce mal cozido você tem que consumir ele logo ligeiro, por que ele não é apurado, não é duro. O que eu faço aqui passa até um ano! Aí pronto, você bota mais o quê? Bota, leva mais três, quatro horas de fogo, com três hora dá o ponto, aí tá pronto pra comer.

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O caju é fruto generoso, dele tudo se aproveita. É mel, é doce, é polpa, é carne, é suco, é vinho, é castanha e é também farinha: A farinha da castanha é o seguinte, é outro processo. Você assa a castanha, você escolhe ela, assa, quebra ela, tira aquela casca do miolo, aquela casca por cima, tenho um tacho pra esquentar ela pra tirar a casquinha, pra ficar o miolozinho limpo. Aí você pisa ela no pilão, pisa ela junto com a farinha de mandioca, e aí fica bem pisada, bem gostosa, bem oleosa, aí faz a farinha. E da farinha você faz o pancão5, a farinha da castanha você faz o pancão, você mistura ela com o mel do caju, e deixa ela lá mole, pila, pila, pila, e com aquele óleo, o gosto, o sabor do pancão com o mel, quando você bate, é como se fosse cozido, sabe, é como se fosse para o fogo, tudo que você bate você vai esquentando, vai esquentando, aí ela fica bem temperadazinha, bem saboroso. Aí você faz a prensa, a prensa quadrada, aí embala e tá pronto pra comer. (Seu Célio) A gente vai aprendendo com os mais velhos né? [...] O pancão a gente aprendeu com um pessoal muito antigo, muito antigo, que a gente num sabe nem quem é. [...] porque, naquele tempo não se vendia a castanha, a castanha e o caju era pra fazer o mel e o pancão e a comida de castanha, até o angu da farinha. Mamãe disse que muitas naquela época, viviam muitos anos, 100 anos, cento e tanto anos era porque esse pessoal comia o mingal, o angu da farinha de castanha, que é uma coisa forte, uma coisa potente, então esse pessoal vivia mais, que era uma comida mais natural né? Comida era forte. Mamãe fazia também. E eu acredito que isso vem de muita geração, de muito tempo, ai nós aprendemos desde lá e meus filhos já sabe como faz. É as cultura do pessoal antigo, do pessoal mais velho, que trabalhava no roçado e as comida era essa, comida da castanha, era o angu da castanha e até pras as crianças (Seu Célio)

Que os caminhos de Ubaranas sejam como os doces de caju de lá: continuem nutrindo, fortes e resistentes. Esse 5 Comida típica do Ceará, costuma ser utilizada como quebrajejum matinal dos pescadores, feito de caju misturado com castanha assada e pilada.

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lugar que vive, respira, inspira e transpira histórias, essa terra que é adubada por todos os sentimentos desse povo, desde os mais antigos tempos, é uma terra rica, fértil; e cada sentimento – amor e luta, sofrimento e superação, sangue e suor, lágrimas e alegrias, descrença e fé, dores e sorrisos, dificuldades e esperanças – ajudou a nutrir este lugar. Os frutos que provêm dessa terra são frutos-vivos, frutos-vida: as emoções desse povo alimentam essa terra e, ao mesmo tempo, a fortificam com a mesma generosidade que ela os alimenta e fortifica. É assim que se sente Ubaranas, doce cajUbaranas, luta e vida! Isto é sobre_viver: “Seca do Quinze” A relação do agricultor com a natureza, a alegria com a chuva, a preocupação e o sofrimento em tempos de seca, fazem parte da vida de quase todo nordestino e compõem a vida do sertanejo. Aqui trazemos memórias de Seu Célio, que nos conta o que ouviu dos mais velhos, seus antepassados, sobre como foi para a comunidade conviver com uma das secas mais severas da história do Brasil. Ao ver atualmente a duração da seca e o aumento sensível da temperatura a cada ano, Seu Célio sabe que já houve mudanças também na época do plantio e da colheita, pois a pior derrota de um agricultor é não ver a sua colheita vingar. Apesar disso, a fé é sempre uma parceira: “E a safra tá seca esse inverno, que ninguém teve inverno. Vai completar seis anos que não tem inverno, aí tou esperando esse ano que tenha um inverno bom.”. Nos relatos de Seu Célio, há ainda a história contada sobre quem viveu em Ubaranas na época de 1915 e algumas estratégias encontradas para sobreviver:

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O pessoal antigo dizia que na época de quinze [...] teve uma seca. Deu uma chuva, passou uma chuva aqui no mês de janeiro, meio dia, uma chuva, uns pingo grosso, passou lá pra mês de janeiro. Depois seis anos seco. Pessoal escaparam com a maniçoba, que a maniçoba é uma batata que dá no mato, ela é braba, tem que lavar em nove água pra poder fazer a farinha dela, o grolado que chama o beiju, tem que lavar em nove água e tem que arrancar em dois, três metros de fundura. Na época de quinze pra cá, passou esse período, um período muito ruim. Aí já quando passar um ano pra o outro, às vezes dois anos seco, nunca passou essa distância de quase seis anos secos que nós passamo aqui. Por isso que eu digo, cada vez mais né, os tempo vão sendo mudado porque os clima são outros, mas na hora que Deus quiser mandar a chuva, ele manda, porque ele é o todo poderoso.

Naquele período, os moradores de Ubaranas fizeram uso de uma alternativa alimentar que ajudou a comunidade na severa seca.: [...] ela é venenosa, nessa época de quinze, esse senhor que falava, pra escapar era essa maniçoba. Era parecido com a mandioca, a batata dele não é cheia que nem a mandioca, é uma massa fina. No período do verão ela tá boa de colher, mas pra comer ela tem que passar por um processo, tem que ser lavada por nove água [...] pra tirar todo o veneno dela. Corta ela e traz o tronco, a batata dela é no tronco, porque ela é funda, as mandioca dela são grande, elas crescem muito. Aí trazia pra casa, rapava ela, tirava a casca dela, e relava. Naquela época era lata, pega uma lata, entortava ela, furava todinha de prego, aí ralava todinha, ralava, espremia ela toda. Ela tem manipueira6, você tem que imprensar, naquela época você espremia no pano, num saco de estopa, ou mesmo num pano de saco de açúcar, porque naquela época os saco de açúcar era de pano. Aí pegava aquela massa, botava nos pano e espremia ela e lavava aquela massa em nove água, botava no sol e fazia a farinha. [...] a solução era essa daí. (Seu Célio)

6 O líquido extraído da massa da mandioca (manipuera ou manipueira ou manipeira), é altamente poluente e tóxico, podendo matar, caso seja ingerido por pessoas ou animais. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/ Fabrica%C3%A7%C3%A3o_de_farinha_de_mandioca>

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Das tranças da memória às tranças do chapéu “15 de novembro de 1930”, 41 anos após a Proclamação da República ela nasceu. Cinco irmãos – sendo 4 mulheres e 1 homem, 30 netos de 8 filhos, contou. Sua avó viveu 100 anos, “100 anos ou mais!” – disse Dona Nazaré, flertando com sua memória. Chamava-se “Joana Paixão”, ela sim viu muita coisa. Seu marido morreu aos 73 anos, vividos com muito trabalho. [...] era tão difícil o trabalho, que ele trabalhava naquela pista, fazendo buraco naquela pista, trabalhou muito naquela pista.” (Dona Nazaré). A pista: BR – 304, que dividiu dois lugares , formando então os Córregos: Retiro e Ubaranas. Nos volteios de sua memória, ela lembra bem as datas: “Quando começou, em 58, aí ele ía trabalhar naquela pista, passar areia pra cima, pra fazer a estrada… trabalhava lá.” (Dona Nazaré). Em 1958 ainda não fazia muito tempo que ali haviam chegado, apenas três anos. Chegaram na data em que se comemora o Dia do Folclore. Mas apesar de Dona Nazaré recordar com tanta precisão as datas, nesse lugar – Ubaranas – o tempo parece passar de outro jeito e a idade não se mede apenas cronologicamente. As horas se alongam entre o raiar e o pôr do sol e em um único ano vivem-se muitos anos... No olhar e na pele as pessoas trazem em si os sinais do trabalho, os sinais de uma vida, desenhados pelo sol e pelo vento seco e árido da região. Mulher, Dona Nazaré de nome santo, consigo carregava sofrimentos e lembranças de uma infância sem pouso certo, uma vida quase nômade: A gente era muito, muito pobre, era muito sacrifício [...] eu era muito pequena, minha mãe foi casada, aí só sei que eu fui me criando, andando pra aqui, pra acolá, uma hora que esses homem, na hora que eles tinha uma raiva do trabalhador, eles botava pra fora! Aí, a gente era pequena, andava pra aqui, pra acolá, ía pro morador, ía prum município, voltava, ía pra outro… só sei que a minha vida pequena foi muito… [tosse]. Depois, com vinte e um anos, me casei. Aí muito sacrifício na vida, tanto eu como meu marido, vivendo por aqui, sofrendo, até que chegamos aqui e fiquemo. Eu cheguei aqui em 1955, dia 22 de agosto de 1955. Tive meus filho tudo aqui, criei, já tão tudo casado, um já morreu, aqui, nesse lugar. Aí só sei que eu […] da vida fui sacrificada, tinha meus filho, criava com maior sacrifício, o que o meu marido ganhava não dava nem pra comer, se não tivesse tempo pra ajudar, pra fazer alguma coisa ou outra pra ajudar… (Dona Nazaré)

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Dos escravizados ela não sabia, não conheceu. Sabia apenas o que sua vó contava, de um pessoal que apanhava, que por ali passava, e de uma estaca... mas isso era o que sua vó contava, de outra época. Porém, outras histórias (suas) ela tinha pra contar, como de um dos trabalhos que aprendera para sobreviver e que, junto a ele, veio também um prazer, e era tanto que o fazia todo dia. Aprendeu com a mãe, em casa, a trançar; trançar a palha e das tranças fazer as artes. A preferida era fazer chapéus! Trança de chapéu. Era trança pra fazer chapéu pra vender na bodega do finado Antônio de André, a gente se vestia, assim, quando fazia trança de chapéu, era esteira, eram os punho, as trança grande que a gente fazia, as trança grossa, fazia um surrão bem grande pra vender. Desde o começo da gente por aqui, o negócio era só chapéu, negócio de chapéu de trança, de palha. Todo dia, fazendo trança, às vezes escolhendo chapéu, era a vida da gente. Essa mocidade, da minha idade, era só isso. Agora as minhas filhas, quando começaram a nascer, foram ficando grande, fazendo labirinto. (Dona Nazaré)

Sua arte-ofício, então, não se perpetuou. Os tempos eram outros, não se encontrava mais a palha com facilidade, nem tinham mais a quem vender o que produziam... as tranças transformaram-se em labirintos... mas, essa, é outra história... Dessa (sua) história, contada com datas, nomes, lugares, fazeres, tudo rico em detalhes, há algo muito importante que ela não haveria de deixar passar. Pois diga Dona Nazaré, o que as tranças de sua memória vêm revelar? “Eu não sei ler não. É a coisa que eu mais lembro da minha vida.” Trabalho no campo: fascínio ou aproveitamento abusivo? Trabalho, uma palavra que foi sempre comum em Ubaranas: é porque desde criança, doze ou trezes anos, já trabalhavam muito, seja para ajudar os pais a completar a renda ou para dar dinheiro “pros patrão”. “Eu trabalhava pra ajudar papai, desde menino novo, nós trabalhava pra ajudar papai e mamãe” (Dona Lúcia).

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É muito comum que na vida rural os filhos também trabalhem na roça, o que, na maioria das vezes, se traduz no suor da labuta que traz sofrimento; mas nem sempre é somente isso: trabalhar na roça tem um sentido de cuidado, de coletividade, de acolhimento. Taí os campos de cajueiro que vocês estão vendo, foi tudo plantado pela gente e isso aqui é grande, vai bater lá na estrada, isso aqui é um campo só, aqui foi tudo construído por nós mesmos, nós moradores. Aqui a gente produzia, arrancava toco, brocava pra deixar o terreno limpo, pra plantar tudo direitinho. Quando os cajueiros era pequenininho assim, a gente plantava na corrente, que chama “na corrente”, era um arame aqui, um segura aqui, um amarrado no pau [...] (Seu Fifi).

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Uma terra que sempre foi de muita fartura, “[...] bem que eu digo que os sítio aqui era farto. Era muita fartura de feijão, de plantação de milho, entendeu?” (Seu Fifi). Com o tempo, algumas plantações vão se desfazendo e vem surgindo outras, mas desde sempre havia muita fartura. “Teve uma época que teve muito caju, muito caju mesmo, que a ruma assim, ninguém via quem tava do outro lado, no final da tarde saía um caminhão cheio de castanha, era um dia e outro não, era segunda, quarta e sexta.” (Seu Edamor). Uma fartura que não podia ser usufruída por quem a plantou e dela cuidou. Na verdade, se “os patrão” soubessem que tinham se alimentado de sequer uma cana, um caju, qualquer coisa, os quilombolas eram taxados de ladrões. “Agora me diz que roubo era esse que a gente fazia? E hoje eles tão tudo aí rico, milionário né? A gente pegava caju e cana, só pra matar a fome mesmo” (Seu Dedé). Ao final do dia de trabalho, eles voltavam para casa, quase sempre para ver os seus pratos vazios, enquanto outros tinham suas cozinhas completas e seus pratos abundantes. Mesmo que trabalhassem por muitas horas sob o sol quente e com intervalos curtos, o único direito que se tinha era de tirar dali os dois reais de “pagamento” ou, por vezes, apenas um saco de farinha ou uma cabeça de peixe...

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Papai ganhava uma mixaria, o pagamento que eles dava era um pouco de farinha no fim da tarde, um pedaço de peixe que eles ía pra praia, comia o maciço do peixe, cortava a cabeça e dava pro trabalhador, eles ganhavam a cabeça e mais nada, e ía sobrevivendo. (Seu Dedé).

Uma rotina bem extensa e que acarretava muitos calos nas mãos. Um trabalho que começava no primeiro raiar do sol e terminava quase na chegada da lua. “Trabalhemo muito, todos os dias tinha que trabalhar, começava desde segunda-feira até sábado ao meio dia, o pagamento nós ganha dois contos. Era de cinco da manhã até cinco e meia da tarde.” (Pai Véio – Seu Manoel). Não importava se era criança menina ou criança menino, não havia demarcação de gêneros para executar o serviço no campo: se fosse pra plantação, a colheita era sua obrigação! Mas havia espaços e funções que tinham essa delimitação: se na enxada cabiam meninas e meninos, na cozinha não. “O sistema escravista definia o povo negro como propriedade. Já que as mulheres eram vistas, não menos do que os homens, como unidades de trabalho lucrativas, para os proprietários de escravos elas poderiam ser desprovidas de gênero.” (DAVIS, 2016. p. 17). Dona Dôra nos relata suas lembranças de como era essa relação de trabalho com as mulheres negras de Ubaranas:

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A gente apanhava feijão, algodão e colhia o milho. Trabalhemo muito. Saía cinco hora, chegava onze hora, às vezes quatro hora da tarde pra rapar mandioca, onze carga de mandioca. Ah... seis mulher tudo numa roça! Botava quatro pau, amarrava os panos e aí a gente ía tirar a goma, e no outro dia tinha que lavar, botar no sol. (Dona Dôra).

E viviam sob ameaça de serem expulsos da terra em que moravam, de não ter pagamento, fosse em comida ou dinheiro; havia, na verdade, o medo de ficar desamparado de todo jeito. Muitos e muitas já moraram embaixo dos cajueiros, por três ou quatro meses, porque “os patrão” mandavam os trabalhadores saírem de suas casas e irem embora “da propriedade deles”: “Desocupe minha terra! Desocupe minha terra!!!” Algumas outras meninas e mulheres que não trabalhassem na roça deveriam, por obrigação, servir “os patrão” na cozinha da casa grande. Foi uma das maneiras que encontraram de não serem enxotadas de suas moradias, no entanto, muitas não ganhavam absolutamente nada por esse serviço na cozinha e não podiam comer da mesma comida dos “patrões”: “[...]

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Era um tempo assim, de escravidão mesmo, a gente tinha que ir pras cozinha dos proprietário.” (Dona Ana). Muitas choravam e entravam em estado de profunda tristeza... “[...] então já ía acostumando, né? Ía aprendendo a gostar, né? Tinha que ficar... Realmente foi um tempo muito doloroso [...]” (Dona Ana). Por viverem isso durante tantos anos, algumas foram criando a ilusão de que aquilo era bom, afinal, só havia duas opções de “trabalho” para as mulheres ali: ou a roça ou a cozinha. É importante dizer que esse trabalho de ir para as cozinhas em Ubaranas se assemelha a uma característica de escravização: de ter mulheres negras como escravas nas cozinhas da casa grande. Angela Davis (2016, p.98) nos diz que “A equiparação ocupacional das mulheres negras com o serviço doméstico não era, entretanto, um simples vestígio da escravidão destinado a desaparecer com o tempo. Por quase um século, um número significativo de ex-escravas foi incapaz de escapar às tarefas domésticas.”. No campo, algumas das atividades de manejo com a terra iam desde plantar sementes, fazer a colheita do feijão, do milho, da mandioca, farinhada nas casas de farinha, até cortar e moer a cana-de-açúcar pra fazer cachaça e rapadura no engenho. “Lá no engenho eles cortavam cana né? Moía nesse tempo era de boi, o boi rodando e o tangedor de tanger o boi. Mas depois eles compraram motor né? E aí o motor já foi no final do engenho.” (Dona Dôra). Havia ainda os trabalhos com o caju, que surgiram em meados do século XX7, com o estímulo do governo da época que incentivou a plantação das árvores , mas, na memória dos 7 A partir da 2ª Guerra Mundial, surgiu, em 1943, um grande interesse industrial pelo cajueiro devido ao líquido da casca da castanha-de-caju (LCC). Com o fim da guerra, o interesse econômico passou a ser a amêndoa da castanha-de-caju (ACC), iniciando, assim, um crescimento significativo da agroindústria de caju. Na década de 1950, devido à crescente demanda de ACC, deu-se início aos primeiros plantios organizados de cajueiro no Nordeste, mais precisamente no Ceará.”. SERRANO; PESSOA, 2016. s/n.

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“Ubaranences” aparecem com frequência os engenhos. Seus relatos nos mostram a existência de cinco engenhos na área da comunidade, que também abrigavam as casas de farinha, nos quais os moradores exerciam trabalhos de carregador de palhas, trabalhavam no plantio e na colheita da cana, lidavam com os animais que serviam para tracionar as carroças bem como para fazer alguns serviços no próprio engenho. Tinha três engenho no meu tempo. É o seguinte, quando eu comecei a trabalhar aí, tinha oito anos de idade, no meu tempo era só a cana, aí era a cana, aí a moagem, pegava um comboio de três animal e começava a puxar as cana pros engenho. Aqui era assim, antigamente era assim, puxava cana, puxado a burro, esses aqui foi desmanchado, todos os engenho, agora não tem mais nenhum. O último que tinha, desmancharam e levaram para o museu8. Aí a gente trabalhava, os engenho era puxado a boi, ainda existia o engenho a boi na minha época. Na minha juventude, trabalhava, puxava a cana. O engenho era assim, era redondo, tinha a moenda, era deitada três moenda e tinha uma peça que era uma roda deitada, assim, que trabalhava outra moenda assim e ía rodando. Antigamente era gente mesmo, os escravos. Quando chegou a energia aqui as coisas mudaram, mudaram pra motor, aí desmancharam o engenho a boi e fez uma a motor. (Seu Célio)

8 As peças de maquinaria do último engenho que restava conservado na comunidade foram retiradas para serem levadas para o museu na sede de Aracati. Estas passaram um tempo guardadas para o processo de catalogação e atualmente estão em exposição. Porém, nas peças não há identificação ou referências de sua origem, não fazendo o devido registro da história da comunidade quilombola.

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Histórias de escravização Vovô e vovó já me contaram Que nesse lugar os escravos moravam (Geovane Valente e Lukinhas)

Muitas histórias, de um tempo antigo e do tempo mais presente, aconteciam carregadas de muito suor, seu Célio nos conta o que há de pior! Quartinho da senzala e a senhora que apanhava E apanhava e ficava preso. A avó de cravo9 [que ainda está viva], a avó dele que trabalhava na casa de “uns patrão”. Na época dos coronel carrasco, aquele povo só trabalhava e morria e num tinha salário, somente comida, não tinha salário. Apanhava porque se quebrasse um copo da cozinha, apanhava e ela levava pêia, era ameaçado de pêia, apanhava mesmo e tinha castigo, aí tinha a senzala. O povo que vieram, o INCRA viram que tinha um quarto, por detrás dos outros quartos, dos portão de madeira assim por dentro, na casa dos “patrão”, aquela casa ali. Eles acreditam que aquilo ali era uma senzala, tanto as mulher que trabalhava na cozinha como os homens que trabalhavam no campo, e era assim, a gente vivia desse jeito. Aí papai contava, que o finado meu avô, aquela primeira coragem que surgiram no meio deles, porque um tal coronel ameaçou, levantou um chicote pro meu avô, aí o meu avô: “Você quer ver um homem bonito, quer ver você me bater com esse chicote que eu enfio esse canivete no seu bucho”, desse jeito, aí foi ele que encorajou os outros né? Aí foram criando aquela coragem, aí num foram mais suportando as ameaçadeira dos patrão...aí chegamo nesse ponto que nós tamo hoje, porque se não a gente tava até hoje na mesma condição, trabalhando de graça [...] enganando eles que dava um pedacim de terra pra eles plantar, e por isso mesmo eles trabalhavam pra eles, num recebia dinheiro, era só pra comer mesmo.

9 Nome fictício.

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O coronel da senzala, o chicote e as paviola Coronel era coronel mesmo, era coronel da senzala mesmo, e era escravidão mesmo, então eles mantendo essa escravidão. [...] Até o nosso voto aqui era tomado, desse pessoal ai. Eu me lembro quando era criança eles vinha ensinar o pessoal a votar no partido deles, e não fazia nada de benefício pra nós, o benefício era pra eles, pra educar os fi. Eu disse: rapaz oia, você, eu fosse você tinha era vergonha do que você ta fazendo com a gente, você só ameaçando a gente aqui, e vocês só são o que são por causa do suor de meu pai, de meu avô e dos descendentes atrás que trabalhavam pro pai de vocês. Tudo isso beneficiou a vocês, até nossos votos beneficiaram vocês e pra nós nada, só ameaça, ameaça, ameaça. Hoje vocês não podem mais fazer isso não. Aquele tempo foi passado. E é assim, as histórias aqui são real, esse pessoal como meu pai, meu avô era um povo muito sofrido, eu cansei foi de ver mesmo o povo carregando paviola. As paviola era assim vamo supor aqui uma tauba dessa aí com um metro de largura, um metro cadejado de largura, com dois pau assim pregado embaixo e fazia assim aquele arruma de areia, botava uma arruma areia em cima e eles carregava pra levantar as terras abaixo pra botar a cana, porque a função deles era a cana. [...] Meu avô, meu pai carregava, cansei de ver, e eu via tudim, parece que eu to vendo é hoje aí. Eu comecei a cavar aí com 12 anos de idade, cavava três libras com terra molhada, com toco de cana e tudo. De 4 em 4 anos eles cavava a terra, pra terra ficar renovada e colocar outra plantação, e era assim, as safras era pra eles, e nosso salário nada, num dava pra comer. Na minha época o salário que meu pai ganhava quando ele largava de meio dia, as vezes tinham um côco no chão, aí ele trazia e era ladrão, era considerado eles como ladrão, nem da plantação num era. O dinheiro que eles pagava num dava pra ninguém comer. No tempo do meu pai, minha mãe separa o dinheiro do gás, do sabão, o dinheiro do açúcar que não podia faltar, pra fazer um café, as vezes um chá, e a farinha pra fazer um angu. Porque as coisas era escassa, eles era cononel porque a gente trabalhava de escravo pra eles. Hoje eles são o que são, porque ainda tão desfrutando do nosso suor. [...] Os governos de hoje também são muito injusto né? Umas causa dessa, umas história dessa era pra ser resolvida logo, logo, pra superar o sofrimento da gente e dos que foi antes nossos descendentes, mas infelizmente a gente não tem. Por esses políticos corrupto, no dia do juízo vai ter o tribunal de Cristo. Deus é misericordioso com a gente porque ele vê o nosso sofrimento desde os nossos descente até hoje. Avalie um povo desse, uns coronel desse pudesse nos dar um fim, já tinha dado, isso é a

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mão de Deus nisso aí, muita gente ai já morreu, o pessoal do movimento sem terra, mas nós aqui eu vejo como Deus na frente, e dando proteção também pra aqueles que nos ajuda. De cima do barranco de terra Aqui teve escravidão, meu irmão, aqui teve escravidão, porque, eu me sentia muito, eu tinha pena daquela situação, as pessoa idosa, que já se foram, eles ficava ali trabalhando. Aqui era assim, tanto eles levava gente daqui pra trabalhar nos sítio dali de cima, como eles trazia os de lá pra trabalhar com a gente aqui. Na minha época, era uma faixa de 25 homem a 30 homem trabalhando numa terreno desse ai, e fazia muita coisa, quando era no final da tarde terminava um lado todim, e era um sofrimento, eu via, eu olhava, naquela época eu era camboeiro de cana e eu prestava atenção a tudo, e eu observava aquele povo carregando de paviola, cavando, você só via enxada aqui subindo e descendo, subindo e descendo, subindo e descendo e o patrão lá em cima do barranco na terra, ele lá em cima na sombra do cajueiro, sentado lá olhando como feitor, o dono mesmo. E ele botava pressão com ele ali presente, não tinha como você parar não, ali era continuamente, até as onze hora e de uma hora da tarde até cinco hora da tarde. Ia em casa comia um angu e comia se tivesse, porque o povo era amedrontado né? Com medo das ameaça deles, tinha que ir, quando não ia eles ia nas casas perguntar porque num foi, porque num foi, ia de barriga cheia ou não, tinha que ir. Era uma coisa muito terrível. Como na história dos três porquinhos: casa de palha, pau a pique e tijolos Apesar das mudanças de vida em Ubaranas, as relações de poder opressoras são recorrentes e, basicamente, dizem respeito ao usufruto e/ou pertencimento da terra. Durante muito tempo, uma ação simbólica do autoritarismo dos ditos “patrões” para demonstrarem poder foi a proibição de construções de casas de alvenaria pelos moradores. Essa era a maneira de deixar claro à comunidade que aquela terra não lhe pertencia e, portanto, somente os “patrões” poderiam fazer tais edificações. As casas dos demais só poderiam ser de palha de coqueiro ou de pau a pique, construções que demonstram um caráter efêmero, provisório, indicam fragilidade, que a qualquer

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momento poderiam ruir ou ser facilmente retiradas. Tal qual o conto dos três porquinhos, a qualquer momento os “patrões” poderiam “soprar, soprar, até derrubar”. Essa suposta não fixação naquela terra, a realidade de morar em uma construção frágil como em casas de palha, era difícil: Então foi por essas árvores, que chama de coqueiro, que foram plantando e, às vezes, tinha ano que eles não dava a palha, e aí era obrigado a passar. Com o quê cobria a casa de taipa, passava o quê? Passava até três anos, até três ano, dava para passar três inverno, e os inverno daquela época era uns inverno muito, muito pesado, as invernada que os correnteis ficava tudo cheio e o terreno ficava todo molhado e a gente só via verde. E a gente era obrigado a passar, os anos que nós não cobria, vamos supor, nós cobria um ano, passava o outro ano, já era os três ano com três inverno, a gente já tinha que cobrir de novo, não podia passar mais que dois inverno com a casa coberta de palha, aí quando não cobria, a palha ficava rala e ía soltando com o tempo, vai soltando a palha do talo. Quando o inverno vinha, onde tava mais melhor, começava a juntar a gente e ficava ali onde não molha, mas ainda pingava. (Seu Célio) Casa de tijolo aqui não tinha, as casa era tudo de taipa, coberta de palha de coqueiro. As portas aqui não tinha, as portas era de palha de coqueiro,[...] era o tempo que eu cheguei aqui, sabe, agora melhorou muito, que tá muito diferente! Mas só porque o dono desta propriedade ele não aceitava os moradores, [...] ele não aceitava fazerem a casa de tijolo. (Dona Izabel)

Mesmo nas dificuldades, a união é um dos traços-laços mais presente na comunidade, ainda que seja a união de muitos corpos encolhidos embaixo da parte da casa onde a palha do teto não se soltou e eles podiam se abrigar da chuva... Mas outros ventos sopraram e, com eles, não foi a chuva que chegou: chegaram alguns direitos, chegaram os primeiros passos de transformação.

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Quem nos conta dos tijolos é Seu Edamor: Pra fazer uma casa de tijolo aqui era uma luta, um sacrifício. Primeira casa feita foi aquela de mamãe [Dona Dora]. Até polícia veio na...naquele tempo. Ameaçaram de derrubar, de derrubar...mas não paramos não. Nós fizemos, fizemos. [...] Alegavam [policiais] que a gente não podia fazer uma casa, é por isso que houve tanta luta pra gente ter os direitos da gente. Não é nem por terra não, porque quando a gente morrer a gente não leva terra. Era só para ter o direito... [...]Agora não empatam mais não, devido a comunidade quilombola, eles não embaçam mais não. Já foi feita muita casa, mas a primeira casa que foi feita de tijolo foi a de mamãe ali. Aí, através dela, os outros fizeram. Mas eles [“os patrão”] não eram flor que se cheire não [...]dentro daqui, eu fui criado e nascido para eles...trabalhando. [...]A gente morava aí. [refere-se à casa de propriedade dos “patrões”]. Mas era de taipa...casa de taipa. [...] A casa tava fraquinha, tava vendo a hora dela cair. Aí, nós pedimos para fazer de tijolo e eles não deixaram, mas mesmo assim nós fizemos. E aí a polícia foi lá em casa, bem umas duas vezes, mas graças a Deus deu em nada não.

O vento da mudança soprou forte o suficiente para levar coragem ao restante da comunidade. Como disse Seu Edamor, depois da primeira casa de tijolos de pé, outras foram se levantando também. Agora podia “soprar, soprar”, não mais iria derrubar! Podia também chover, nas casas de tijolo e telha a união se fazia para fortalecer sonhos! Dentre tantas histórias... quem são os “donos” da terra? E nossos avós já falavam que tinham esses português, há muito tempo, do pessoal mais antigo, dos nosso bisavô pra lá. Aí esses português habitavam aqui, habitavam essa terra, e essa terra eram deles. Ficou dessa família duas pessoas, duas mulheres, aí nossos bisavôs já diziam que eles tinha doado esta terra para a comunidade e a São José, e aí o pessoal mais novo que foram surgindo, não acreditavam. (Seu Célio)

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Diante dessa situação que seu Célio nos conta os “patrões” se aproveitavam e se apresentavam como “donos da terra”. Acredita-se que houve uma apropriação indevida daquele território e os moradores de Ubaranas, para tentarem se firmar naquele lugar, chegaram a cogitar a compra da sua própria terra, lugar onde nasceram e cresceram: Nós fomos comprar no banco, aí os patrões não venderam pra nós, o terreno já tinha abandonado, já tava abandonado, o coronel do terreno adoeceu e os filhos estavam formados, não íam trabalhar com isso, e aí ficou abandonado. Doido pra plantar em uma terra boa pra plantar e não podia, aí pronto! Daí pra cá surgiu essa oportunidade boa, como eu tava contando, surgiu essa história de quilombola, aí como eles não venderam o terreno para nós, aí o pessoal do INCRA veio: “rapaz, só tem uma solução para vocês, se vocês tiverem aqui história muito antiga, pessoal antigo, muito antigo, se tiver um imóvel, uma capela que foi feita, um engenho”. Só o que tem aqui é engenho, e a capela a gente já sabia em que tempo ela foi concluída, foi levantada. Aí ele disse assim: “se alguém, se tiver esses imóvel aqui, se tiver história, não tem quem tome de vocês, não tem quem tome, o governo paga os terrenos quilombola”. Aí a gente com medo de fazer a pressão, do costume de a gente ter ameaça dos patrão, não queria botar, o nosso medo era esse, nós não ía combater com eles, o nosso trabalho era só unir a comunidade, para a comunidade aceitar esse direito e começamos a nos ajuntar, aí deu certo, o INCRA veio fazer a medição de campo, aí concluiu tudim. Veio essa equipe do Rio Grande do Sul, que vieram, passaram quinze dias. Aí, quando concluíram a história, tudo foi real, deram tudo em cartório, deram tudinho, a relação todinha, foi real, foi certo que esse terreno foi doado, e esse terreno eram de vocês, mas só que os bispos antigos tinha vendido as terras, só que o documento dizia que o terreno não podia ser vendido, nem podia ser trocado [...]. (Seu Célio)

A esperança e o regozijo aparecem nos relatos dos moradores de Ubaranas, mais crentes de que a luta só está começando. O afeto pela terra que sustenta esse povo é o que faz florescer ótimos frutos, e esses frutos são pessoas, culturas, patrimônios e histórias de vida, que nos despertam emoções diversas. Esse é o principal instrumento de luta, o sentimento de amor e pertencimento, que vincula essas pessoas àquela terra e as fortalece no enfrentamento às opressões.

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Nem sempre vivenciar a ruralidade é tão encantador: há muita luta!

A comunidade quilombola do Córrego de Ubaranas está em processo de Regularização Fundiária10 para Territórios Quilombolas, que é um pleito jurídico, social e ambiental para regularização de assentamentos (nesse caso, quilombos) em que dá aos quilombolas o título definitivo de propriedade coletiva daquela terra que eles ocupam. A Regularização é importante, pois garante o desenvolvimento social da comunidade contemplada, a proteção ao meio ambiente, já que geralmente terras quilombolas ocupam áreas de preservação ambiental, e o direito à moradia. O processo de luta de Ubaranas começou quando eles se auto organizaram (escondidos) em grupos para discutir sobre a indignação que tinham quanto à situação em que viviam. “Já se organizava, sem associação, somente as pessoas sentada conversando. Aí, em 2007, a gente se organizou e formou a associação.” (Seu Dedé). Os comentários de que eles estavam se encontrando foram pairando no restante da comunidade e nas povoações vizinhas, e logo, logo, chegaram nos ouvidos “dos patrão”... Um dos proprietário já soube, aí já bateu o pé, aí desde então não veio ameaça, mas só aquela querendo mostrar força. Fomos pra frente e formamos a associação e quando a gente formou, veio logo em seguida aquilo que a gente já imaginava, que era a luta, que a gente tinha que lutar era por nosso território, aí foi um Deus nos acuda, veio as ameaças, e de um patrão passou pro outro... (Seu Dedé) 10 Ver Lei Federal n° 11.977/2009 que diz sobre a Regularização Fundiária e ainda o Decreto n° 4.887/2003 que regulamenta o reconhecimento das terras quilombolas.

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Os moradores e as moradoras de Ubaranas resolveram oficializar esse movimento como Associação dos Agricultores e Agricultoras Remanescentes de Quilombos do Córrego de Ubaranas que, segundo ata, foi fundada dia 2 de março de 2007 e que contou no dia com a eleição e posse de sua diretoria. No começo, foram orientados a ingressar na luta pela terra por meio de Reforma Agrária, como assentamento rural, mas entraram em processo pela terra quilombola quando descobriram que seus pais, avós e bisavós eram empregados, explorados, escravizados. Com todo o processo de abafamento da escravização no país, muitos remanescentes de quilombos espalhados pelo país nem sabem que são quilombolas. “Nós num saímo ainda da opressão, nós tamo com a esperança que Deus ajude. Quero que Deus dê a graça para soltar o grito da libertação, o grito da vitória dessa luta por essa terra.” (Dona Madalena). “A questão de terras no Brasil não é nada romântica e, assim como em muitas outras comunidades tradicionais, Ubaranas passa por situações de violência advindas da pressão do mercado latifundiário. Muitas vezes o território quilombola de comunidades pelo país está ocupado por não quilombolas e por pessoas de muito poder político que conseguem colocar entraves no processo de Regularização Fundiária para Territórios Quilombolas, fazendo cooptação de pessoas que vivem dentro do território, como estratégia de enfraquecimento do movimento; outras vezes, espalham rumores de que não vão conseguir ter o título definitivo. As comunidades têm que lidar com essas situações e seguir firme.” “São pessoas que têm fama de violento, mas não é nem que seja violento, é porque ainda vem daquela época de coronel, que ele dá um grito e todo mundo abaixa a cabeça e tem que ser daquela forma, então, eles num vão aceitar isso, num vão, é muito difícil a situação.” (Seu Dedé). Ubaranas está há mais de dez anos na luta pelo reconhecimento do seu território, contando-se a partir da criação da Associação, mas há oito anos que receberam da Fundação Cultural Palmares – FCP – a Certidão de Reconhecimento Quilombola e deram entrada no processo de Regularização Fundiária para Territórios Quilombolas junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA – e hoje está em processo de espera do decreto presidencial e posteriormente o título definitivo de território coletivo.

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Histórias de ser... qui-lom-bo-la?! Daí pra cá surgiu estes direitos, a gente foi reconhecido [...]. Os quintais era nosso, é um direito nosso, que não podia proibir, a gente é que era besta que tinha medo né? Obedecia os mandato deles, eles diziam que não fizesse, ninguém fazia, mas a gente tinha direito. (Seu Célio)

O trabalho na terra como mantenedora da comunidade, partindo desta relação de opressão dos “patrões”, perdia o seu sentido real para a comunidade, pois servia apenas aos interesses dos “patrões”. Era um trabalho-abuso, e o pagamento-exploração se resumia basicamente (e mal) em uma pequena quantidade de comida ou uma pequena quantidade de dinheiro. A possibilidade de usar a terra como mantenedora das famílias, sem necessidade de vinculação aos “patrões”, é não apenas uma mudança nas relações de trabalho e no uso da terra; é uma revolução de sentidos para cada um, que pode passar a se perceber de outra maneira no mundo e, por isso, começar a se permitir ousar fazer o que outrora era “proibido”. Mas, o sentimento de que hoje a situação melhorou consideravelmente em comparação ao passado ainda não é razão para cessar a luta. Nos terreno a gente vivia quase que nem escravo, a gente trabalhava bem dizer somente pela comida e aí nós passamo por uma situação bastante terrível e aí, como eu tô dizendo, e até hoje tá melhor, aí chegou os direitos de reforma agrária, esses direitos de quilombola e nós aqui tem uma história muito boa. (Seu Célio)

Quando a relação entre ser humano e terra volta a fazer sentido real, há a luta pelo seu lugar. O poder do medo é dissipado. A luta não é fácil, mas o revigorante é notar que o sentimento de pertencimento à terra e a saída do papel de oprimido retirou a antiga paralisia da comunidade de Ubaranas. Esta opressão que se fazia – através da humilhação, da ameaça, da negação e do cerceamento de direitos – não passa mais despercebida; há um outro caminho: “sonho que se sonha junto...”

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A Associação entrelaçada às histórias de vida Eu gosto de ser quilombola, tenho orgulho de ser quilombola. (Melka Maria)

Dona Ana, seu Dedé e sua família vivem para ser linha de frente na conquista da terra de Ubaranas, muitas vezes abrindo mão de suas próprias vidas para dar conta desse percurso de ser uma liderança quilombola. O caminho não é fácil, requer muita dedicação e resistência, que eles têm de sobra! Não vamos dizer que tudo sempre foi muito bonito, mas os percalços e desânimos rapidamente se transformavam em força para seguir em frente, resistindo.

Imagine você esperar durante dez anos para ter direito a morar numa terra, lugar onde você nasceu e se criou, onde nasceram também seus filhos, assim como seus avós e bisavós? Já estamos na 5° ou 6° geração, porque eu sempre disse, não foi a gente que passou por esse pessoal, foi eles que passaram pela gente, a gente aqui, já tava aqui, que meu pai, bisavô nasceram aqui. Então a gente conversava com os mais velhos e eles contava os relato, de tudo que aconteceu aqui, a história da igreja, nem eu sabia direito, mas aí veio o relatório e a gente confirmou mesmo que essas terras foram doadas para a igreja, é onde revolta mais, que passou essa época todinha, meu pai e a gente trabalhando praticamente como escravo pra eles e na verdade essas terras era deles de verdade, era pra essa terra ser deles, não dos proprietário (Seu Dedé).

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Seu Dedé é um agricultor de 47 anos e que, durante esse percurso de luta, foi crescendo ainda mais e foi alvo de algumas ameaças à sua vida e à de sua família. Mesmo que diga que já esperava muita luta, ninguém espera (ou deveria...) ter sua vida ameaçada porque está em busca de um direito. Um dos casos de perigo e preocupação vividos por Seu Dedé e a família foi quando um carro desconhecido adentrou em Ubaranas e foi direto à sua casa. Ele conta: Esse carro que veio e isso com certeza foi. Porque aqui todo mundo conhece, o carro que entrar, todo mundo conhece, e ninguém conhecia esse carro. Num falou com ninguém e veio decretado só pra cá e a gente também não conhecia. E esse cidadão já vinha com meu nome completo e eu nunca vi ele... chegou aqui já perguntando, chegou aqui na minha casa e parou ali, o carro, e vinha quatro ocupante dentro, um ficou na porta do carro, aí foi Melka que viu, porque eu não tava em casa, só tava ela. Aí, parece que foi um domingo à tarde, 15 horas por aí assim, aí veio um e o outro ficou no canto da cerca em pé e veio dois pra cá e ficou até essa timbaúba aqui, perto da casa velha, um mais idoso e o outro ficou com uma distância assim e já perguntando pelo meu nome... (Seu Dedé).

Decerto foi inquietante, senão amedrontador, essa atitude de se posicionarem em vários lugares diferentes. Ao final, Melka conversou breve com eles, que diziam que Seu Dedé estaria vendendo terras, e estavam interessados em comprar e ela disse que isso era mentira, pois se a terra não é nem deles (família do Seu Dedé) como ele iria vender? Os homens foram embora e ficou aquele clima apreensivo. Através de narrativas como essa, conseguimos perceber como não ficamos a par de muitas situações que ocorrem com quilombolas e povos tradicionais. Depois desse caso do carro acima relatado, ocorreram situações de pessoas que chegaram à comunidade com supostos documentos dizendo que tinham comprado terras dentro do território quilombola e que já estavam na comunidade para cercar seus loteamentos. Fica a questão: quem vendeu esses “lotes”?! A resposta vem dos próprios “compradores”, que afirmam terem comprado dos “donos da terra” de Ubaranas: os latifundiários. Sabemos, porém, que o Processo de Regularização Fundiária para Territórios Quilombolas de Ubaranas está apenas aguardando decreto presidencial para, então, dar-lhes o título definitivo das terras. Portanto, essas práticas de venda são ilegais e a comunidade, sabendo de seus direitos, vem enfrentando essas situações não permitindo o loteamento de nenhuma área.

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É desses embates cotidianos que surgem sentimentos que causam desestímulo, tristeza, e fazem com que essas pessoas se sintam sozinhas, esquecidas. Mesmo assim, a cada dia surge uma nova esperança, um novo fio de coragem para lutar. Antes não podiam ter casas de alvenaria, mas por suas próprias mãos as construíram e reconstruíram quando foram derrubadas. Antes não sabiam nem da existência de outras comunidades que também passam pelo mesmo processo de demarcação da terra; hoje já sabem que há tantos outros remanescentes quilombolas espalhados por todo o Brasil. Mas essa e outras situações não foram motivos para Seu Dedé desistir. Não, eu não desisto! Porque é aquela coisa que eu disse lá no começo, quando a gente se reunia eu me questionava, eu mesmo: será que eu vou nascer, morrer, ver tudo que tá acontecendo e não vou fazer nada? Então eu tenho que fazer alguma coisa! Se eu chegar a morrer por causa disso, pode ter certeza que eu vou morrer feliz, agora eu não ía morrer feliz se eu tivesse morrido, tivesse visto a situação e não fazer nada (Seu Dedé).

O sentimento de querer transformar, mudar a realidade de pobreza e dor, é latente não só em Seu Dedé e sua família, mas na diretoria da Associação e em suas famílias, assim como nos outros moradores da comunidade. Saber-se alguém no mundo e do mundo, ter seus direitos minimamente preservados, (re)construir suas identidades na diversidade é o início de um processo de emancipação. A comunidade representa uma chama que teima e não se apaga, é retorno profundo das coisas primeiras, estando para além das relações de posse da terra, percorrendo uma história de luta e afeto para fazer resistir a identidade cultural que originou e formou essa nação, não sendo meramente um retorno ao passado, mas é produção dinâmica e criativa que vai em direção à emancipação humana das amarras do preconceito e do racismo.

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E é como Seu Dedé nos diz: A luta tá só começando, eu não me arrependo de nada! E eu tenho isso na minha mente [...] que a gente já passou por tanta coisa, muito obstáculo ainda temos pela frente, eu não tenho medo de cair não, eu tenho medo é de cair e não levantar, e se eu cair e tiver condição de me levantar, não vai me abalar. E eu não desisto, enquanto eu estiver vivo, estiver por aqui, eu vou está com força.

É sentindo essa potência de vida, toda força criativa que faz essa comunidade se reinventar dia a dia, na certeza que seguimos resistindo, qui-lom-bo-las, de terra nos pés e nas mãos, de tantas histórias, de tantos laços e memórias, que se fazem antepassados vivos até nas mais novas gerações: cria, criativa idade, criatividade, criança! ...e como era mesmo que dizia D. Madalena?! “...eu quero ver algo assim, de Ubaranas para o mundo! [risos]”.

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SOU NEGRO** Ninguém pode pisar na tua liberdade! Mel, doce e castanha Nada pode pisar Sou negro sim, tenho orgulho Ninguém vai nos pisar Não vai não! Sou negro, sou negro sim! Tenho orgulho de mim Sou negro, sou negro sim Tenho orgulho de mim Mas ninguém vai nos pisar Diante de mim Vovô e vovó já me contaram Que nesse lugar os escravos moravam. Caju, manga e araquiton Nossas frutas são... bom demais (sou negro) Capoeira e quadrilha São nossas danças! Labirinto, braça de palha Nossos costumes (sou negro) Papangu e reisado Nossas alegrias! Festa junina, consciência negra Festas comemorativas Venha comigo dançar, pular e Até cantar! (sou negro) Sou Geovane e Lukinhas Negros de Ubaranas!

(** Música criada por Geovane Valente da Silva e João Lucas da Silva Martins, quando tinham 13 e 9 anos.)

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INFÂNCIAS: QUANDO EU ERA CRIANÇA LÁ EM UBARANAS...


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Infâncias: Quando eu era criança lá em Ubaranas... Cristina Façanha Soares “Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade. Mas o que eu queria dizer sobre o nosso quintal é outra coisa. Aquilo que a negra Pombada, remanescente de escravos do Recife, nos contava. Pombada contava aos meninos de Corumbá sobre achadouros. Que eram buracos que os holandeses, na fuga apressada do Brasil, faziam nos seus quintais para esconder suas moedas de ouro, dentro de grandes baús de couro. Os baús ficavam cheios de moedas dentro daqueles buracos. Mas eu estava a pensar em achadouros de infâncias. Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros de infância. Vou meio dementado e enxada às costas a cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos.” (Manoel de Barros)

Peço licença ao poeta Manoel de Barros e a todas as pessoas do Córrego de Ubaranas para adentrar nos achadouros da infância desse lugar tão especial. Na atualidade, estudiosos de diversas áreas do conhecimento têm se voltado para o estudo da infância e da criança. São muitas janelas que nos ajudam a olhar e entender a infância. Afinal, o que é Infância na voz desses cientistas? “abstração que se refere à determinada etapa da vida, diferentemente do grupo de pessoas sugerido pela palavra crianças” (HEYWOOD, 2004, p.22). “a infância é entendida como período da história de cada um, que se estende na nossa sociedade, do nascimento até aproximadamente dez anos de idade” (KRAMER, 2006 p.13). 87


a infância é entendida não como um estágio preparatório ou marginal, mas como um componente da estrutura da sociedade – uma instituição social – importante em seu próprio direito como um estágio do curso da vida, nem mais nem menos importante do que outros estágios (DAHLBERG, MOSS, PENSE, 2003, p.70).

São muitas as vozes que nos ajudaram a compreender a infância como um estágio de vida que tem especificidades, considerando-se as características, as necessidades, o desenvolvimento das crianças, entre outras. O historiador Ariès (1981) é uma dessas vozes que trouxeram contribuições valiosas para o estudo das imagens e concepções da infância ao longo da história. Os estudos de Ariès (1981) revelam que, na Idade Média, as crianças não recebiam tratamento diferenciado; a educação acontecia pela aprendizagem das tarefas realizadas juntamente com os adultos. A criança era tida como alguém incapaz de falar, sendo vista como um adulto em miniatura. O autor nos ensina que o sentimento de infância e o olhar para a educação moral e pedagógica da criança são concepções que surgiram na modernidade, adotando-se um discurso e uma mudança nos costumes em relação à infância. Assim, a noção de infância aparece na sociedade capitalista urbano-industrial; na sociedade burguesa passa a ser vista como alguém que precisa ser cuidada, escolarizada e preparada para a atuação futura. Na atualidade, a concepção de infância não é vista como uma construção linear, uma vez que ela existe em diversos contextos. Nesse sentido, podemos assinalar que há uma pluralidade de infâncias, variando de acordo com o tempo, o espaço, o contexto político, econômico, social, geográfico e com as particularidades de cada indivíduo. Portanto, não é mais possível pensar num conceito estático e único para infância, mas sim como uma construção social e histórica que destaca a importância do ambiente social e cultural que influencia na maneira de viver as infâncias. De acordo com a ideia de muitos estudiosos – com a qual comungamos –, no interior do mesmo espaço cultural, há uma variedade de concepções de infância, a qual é constituída por diversas categorias: o grupo de pertença étnica, o nível de instrução da população, a religião, entre outras. Assim, ao longo dos anos, a infância passou a ser vista como uma construção social e histórica, e, nessa perspectiva, o ambiente socioafetivo, histórico e cultural influencia na maneira de viver as infâncias.

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Leal (2004, p.22) nos convida a ver a infância com “[...] um olhar menos ensinante, mais receptivo à novidade que cada criança traz consigo”, trazendo a opinião do poeta Manoel de Barros, para o qual a infância é um tempo que pode estar sempre presente na vida adulta. Assim, devemos “[...] buscar a infância em nós mesmos a fim de que possamos aprender de novo” (p.25). Ambientados nesse contexto, adentramos na infância vivenciada pelos moradores do Córrego de Ubaranas, um universo de crianças e brincadeiras.

Quantas histórias de vida chegaram até nós!!! Na fala dos moradores, há um tom de saudosismo dessa etapa de vida, de sua beleza, seu encantamento, sua fantasia e imaginação, tão peculiares na infância, tudo isso permeado de brincadeiras e muitas histórias. Assim, moradores mais antigos da Comunidade revisitaram suas memórias e nos presentearam com alguns fragmentos e momentos da sua infância. Convidamos todos e todas a adentrarem nos achadouros de infância de Ubaranas.

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As brincadeiras e as crianças

As culturas infantis surgem à proporção que as crianças participam coletivamente de uma experiência social e adentram no mundo cultural por meio de suas famílias desde o nascimento (BORBA, 2005, apud CORSARO). Assim, a Cultura da infância se constitui de toda forma de expressão da criança, considerando-se as diferentes linguagens, e é por meio da brincadeira que imaginação, fantasia e realidade interagem na produção de novas maneiras de construir relações sociais com outros sujeitos. Sabemos que as brincadeiras estão presentes na história da humanidade ao longo dos tempos. Elas fazem parte da cultura de diversos povos. Para Vygotsky (1994), a brincadeira existe em todas as fases da vida da cultura humana e antes de nos constituirmos humanos, já brincávamos, o que é visto como construção social que faz parte do crescimento e desenvolvimento do sujeito (HUIGINZA,1990). A brincadeira faz parte da cultura da infância e teve sua origem nos costumes populares. Nos achadouros da infância de Ubaranas, tivemos acesso a muitas brincadeiras e brinquedos. Vamos brincar juntos com a Comunidade? A fala de Dona Duca mostra alguns tipos de brincadeiras vivenciadas em Ubaranas: A gente brincava de cadeirinha. Aí brincava da cadeirinha e do grilo. A brincadeira do grilo, um vai pra trás do outro. Cadê o grilo? O grilo tá atrás. Aí, o outro corria. Ia um atrás do outro. Pulava de corda. Pulava tanto de corda. Era de noite, brincadeira de noite [...]. Brincava de anel. Era pra ser escondido, o anel. Ninguém sabia quem botava aqui, ninguém sabia quem tinha botado nele, né? Aí, precisa adivinhar em quem tinha botado o anel. Esconde-esconde, pega-pega. (Dona Duca)

Seu Bosco se recorda de como era “cair no poço”, brincadeira conhecida também por Edamor: Eu me lembro que a gente brincava muito era aquele negócio de Caí no poço. Caí no poço, quem me salva? Fulano de tal, aí era por número. Eu tô no poço, quem me salva? Aí, o nome: fulano de tal. Aí, tira com quê? Com um cheiro. Aí a pessoa vinha... (Seu Bosco). Nós brincava de bola, nós brincava de esconde-esconde (risos), cai no poço. (Edamor) 90


Dona Raimunda abre o seu baú de lembranças e nos conta sobre a Brincadeira da raposa: É assim, a raposa tem muita coisa, né, que nem a gente tem: tem rim, tem coração, tem tudo. Aí, o que os outros dizia é assim: - A raposa passou por aqui e quer a cabeça da ... Aí um dizia assim: - A cabeça... da Rafaela. E daí por diante. Ia falando tudo que tinha da raposa (risos). Tão entendendo? A raposa passou por aqui, só não levava a cabeça. Aí, você diz: Você é a cabeça da raposa, é a cabeça da Rafaela. E daí, passava pra outro. E aí, ia mexendo com a raposa toda. Era cabelo, era cabeça, era tudo. ( Dona Raimunda)

Gracinha nos ensina como era o Galamar, uma brincadeira bastante comum em Ubaranas: Tinha o Galamar. Botava um pau, enfiava um pau, pegava assim uma tábua, uma ripa de coqueiro. A gente fazia um buraquinho no meio, botava em cima daquele pauzinho que tava enfiado, aí a gente ficava rodando assim, tipo um carrossel. Os pais da gente mesmo era quem fazia pra gente brincar. Quando era de noite se ajuntava aqueles meninos, aí vinha brincar junto com a gente. Assim, o passado que eu tenho mais... A gente ficava só assim no terreiro, ao redor da casa. Os pais ficava conversando e a gente ficava assim ao redor brincando. (Gracinha)

As brincadeiras inventadas com objetos do cotidiano também eram bastante comuns: Brincava de carrinho de lata de sardinha, de lata de leite, o pé de quenga, bola de saco, cavalo de talo... (Jefferson)

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Brincava de Licença Bete que é com uma bola de tênis. Aí fica duas pessoas de um lado e de outro. Uma lata de óleo vazia e um taco. Aí o taco serve pra bater a bola, pra defender a lata. É assim, fica um de cada lado. Se eu tiver no taco tu também vai tá no taco. Se tu tiver jogando a bola também tem que tá no outro lado jogando a bola. O objetivo é derrubar a lata de óleo. Quem tá em pé joga pra derrubar a lata e quem tá no taco tem que defender. Tem um lance também, por exemplo, se eu acertar na bola e ela for longe, aí a gente fica cruzando de uma lata pra outra. Aí, cada cruzada dessa vale cinco pontos. Se alguém rebater a bola, por exemplo, alguém rebate na bola e eu tô no outro time, eu consigo pegar a bola no ar, antes que ela caia, aí acaba o jogo também. É um beisebol. Aqui a gente conhece como Licença Bete, mas tem lugar que é Bete Pau na lata. (Jefferson) Nós brincava muito de boneca. Mamãe fazia umas boneca de pano, parecia umas moça. Fazia aquelas bonequinha tão bem feita. (Dona Gracinha) Era as bonequinha de pano que a mamãe fazia pra gente brincar. Fazia um saquinho de pano, enchia de algodão, aí vai modelando, as perninha, modelando os peizin. Só sei que dava certo. Só era eu de filha, bem dizer única, porque as outras meninas tinha morrido tudim. E ficou só eu de fêmea; macho era quatro. Aí nós brincava de boneca, aí mamãe fazia as boneca e botava pra gente brincar. Eu ia brincar mais quem? Nas casa dos outro que tivesse uma menina porque só tinha eu de menina, aí pronto. Mas era bom. (Dona Maria) Eu mesmo fazia as minha boneca. Não tinha dinheiro pra comprar aí fazia pra mim, fazia pros meus irmão. Uma bonequinha pra eles brincarem, de pano. (Dona Nazaré)

As reminiscências da infância são afloradas nas memórias dos moradores de Ubaranas, revelando o potencial da criança em transformar elementos da natureza em brinquedos, dando asas à imaginação. As brincadeiras aparecem com as suas regras, e os brinquedos como suporte ao momento do brincar. Quando nós brincava, brincava eu e a minha irmã, Neném. Eu pegava um pilão. Aí nós fazia as rede e armava. Nós pegava uns mato. Aí nós fazia as coroa e botava na cabeça, fazia uns andorzin e botava os santin em cima, mas não era santo, viu? Nós pegava um talin e botava nos andor. Eu, Neném e meus irmãos. Tinha 92


um mato, tinha uma folha, tipo uma folhazinha, tem mais não, que eu não vejo mais. Assim, nós dizia que era um peixe. Tinha uma folha que estralava. Assim, como folha de corama. Aí, nós pegava, botava no fogo e fazia os pirãozin, mas não comia não, que era areia. Aí, Neném ia deixar nas casa das vizinha, mas não tinha vizinha não, viu? Aí, nós brincava. Neném ia deixar os dela e eu ia deixar o meu... (Dona Aparecida)

Na brincadeira, a folha de pau era o dinheiro: A gente, cada qual tinha o seu cajueiro. Ali naquele cajueiro, cada qual vendia suas coisa né? Aí, fazia o dinheiro de folha de pau que era o dinheiro, néra? Não era nem carteira de cigarro não. Se o cara quisesse fazer moeda de ouro, pegava resina para fazer...aqueles cajueiros para fazer o cordão, que era amarelo, aí fazia tudo...anel, eu me lembro muito disso. (Seu Doca)

E a palha era a matéria prima da casinha: A gente fazia umas casinha de palha tipo uma casa dessa, só que era pequenininha só pra gente brincar mesmo. Aí, tinha uma prima minha passava o domingo todinho brincando. (Dona Gracinha)

Areia, sabugo de milho e sementes tornavam-se bonecas: Boneca de pano e boneca de talo da carnaúba. A gente mesmo que fazia. A gente pegava uma agulha, pegava qualquer pedacinho de pano. Costurava um saco, cortava com a faca, a gilete. A gente cortava no meio e costurava. A gente botava areia. Aí, pegava a cabecinha do sabugo e furava a cabecinha do sabugo e botava uma sementezinha que se chama piriquiti. Colocaram os olhinhos. Pegava o carvão e fazia a boquinha. E a roupinha a gente sempre inventava. A gente brincou também muito de casinha. Pegava o cajueiro... a gente limpava e de lá a gente ia pro cisqueiro... Não era nem pro terreiro que naquela época não existia essa palavra terreiro, chamava-se o cisqueiro. (Dona Ana)

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Essas vozes demarcam a brincadeira como uma forma de prazer, de recreação, o faz de conta seguindo o rumo da fantasia. Assim, as crianças de Ubaranas, por meio da imaginação, entretinham-se com os brinquedos que eram criados pelas mãos artesanais de pessoas simples e sensíveis. Nesse sentido, os elementos da natureza, como a folha da árvore, transformavam-se em dinheiro; a corama era o alimento que trepidava no fogareiro no momento de preparar a comida; sabugos de milho, sementes de piriquiti, restinho de tecido tornavam-se lindas bonecas, assim como o eterno menino Manoel, que construía os próprios brinquedos: [...] Isto porque a gente havia que fabricar os nossos brinquedos: eram boizinhos de osso, bolas de meia, automóveis de lata. Também a gente fazia de conta que sapo é boi de sela e viajava de sapo. Outra era ouvir nas conchas as origens do mundo... (Manoel de Barros)

É importante referenciar um tom de tristeza na voz dos moradores mais velhos, apontando para uma infância encurtada, devido à falta do tempo para brincar, uma vez que trabalharam, desde a mais tenra idade, no plantio do caju e seus derivados, na lavoura, no labirinto, na palha ou nas casas de família realizando os serviços domésticos. Esse aspecto é marcado pelo sentimento de uma infância invisível, delimitada pela dominação e pelo resquício de uma sociedade colonial, em que a criança escrava deveria trabalhar com o intuito de dar um retorno ao investimento do seu proprietário, havendo uma diminuição dessa etapa da vida. [...] Meu tempo de brincadeira de criança era muito pouco. [...] minha infância era o caju e labirinto. Do mesmo jeito. A gente tirava um dia. De sete da manhã até as onze era o labirinto. Já de doze horas até às quatro horas era no caju. De manhã labirinto e caju a tarde. (Dona Catarina)

Na cozinha dos proprietários, as brincadeiras se esvaíam em afazeres domésticos: [...] A gente mesmo que não queira, a gente tinha que ir pras cozinha deles, sabe? Então, a gente já ia acostumando, né? Ia aprendendo a gostar, né? Por que a gente... [...] Era um tempo assim, de escravidão mesmo. A gente tinha que ir pras cozinha dos proprietários. A gente quando vinha pra casa era uma tristeza. A gente não querer ir pra uma coisa e ter que ir? Porque que se num fosse, Ave Maria! Tinha 94


aquela cobrança dos pais e dos proprietários. A gente era obrigado. A maioria das pessoas daqui trabalhavam com eles. Eles mandavam buscar. Tinha que ir, sabe? [...] Eu tinha 11 anos de idade quando eu fui [...] era praticamente obrigada a ir por causa daquela história da terra. [...] Era uma forma que nossos pais achava de segurar. Assim, de ficar em cima dessa terra... De ter direito a alguma coisa que nunca tiveram, né? [...] Era uma forma que nossos pais achava de segurar... Assim ficar em cima dessa terra. [...] [...] Eu quebrava um prato, era descontado no meu salário. Naquele tempo não se falava em salário. Sabe, a gente não comia o que eles comia. Tudo separado sim. Realmente foi um tempo assim, muito doloroso, mas aquele tempo doloroso em que a gente se acostumava com a situação! É, se acomodava. Não era nem se acostumar; se acomodava. Aí os nossos pais achando que era dever da gente, ne? Era uma forma que nossos pais achava de agradar eles. (D. Ana) Eu lembro das mocinhas. Eu me lembro da minha época, as mocinhas chorava pra não ir, sabe? Chorava, mas aí tinha que ir. Os pais na hora, eles que obrigava. Eles chamava os pais, praticamente obrigava. Também com medo de pressão, nera? Eles... eles mandava buscar e mandava...procurava uma pessoa pra trabalhar pra eles. (Dona Ana)

O trabalho “das mocinhas na casa dos donos da terra” funcionava como uma moeda de troca, como garantia de se poder viver naquelas terras. Assim, só restava aos pais obrigarem as suas filhas a servirem os proprietários. As vozes dos moradores ecoam e denunciam o fato de terem enfrentado o trabalho duro precocemente para ajudarem no sustento da família, que recebia muito pouco pelos serviços prestados. O cansaço do trabalho impedia as crianças de Ubaranas de frequentarem a escola de forma efetiva, roubando-lhes o tempo precioso da infância, ou seja, o direito de estudar, de brincar, enfim, de ser criança. Era mesmo escravidão! Eu estudando, cara, desisti umas três vezes, porque imagina só, a gente ia estudar, quando a gente chegava, só dava tempo mesmo entrar dentro de casa, comer alguma coisa, se tivesse. Tinha que ir à tarde. Aí o cara não tinha tempo de fazer atividade de casa. Enfim, não

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tinha nada. Aí quando o cabra chegava na escola no outro dia sem fazer a atividade de casa, aí tome carão da professora. Aí aquilo, o cara não aguentava não, e tinha que ir. Era muito difícil. Aí a gente tinha que ir também por causa dos pais, ne? Porque tinha que ajudar também. O ganho que eles pagava era pouquíssimo. Era salário que eles mesmos estipulava o que eles queriam pagar. Aí tinha que complementar a renda, né? Aí os cabra com 11 anos, 10 anos já tinha que tá lá já trabalhando e ajudando os pais também. Assim que funcionava a coisa. (Seu Dedé)

As difíceis condições familiares não permitiam que os filhos de agricultores estudassem: A gente é agricultor aqui, por exemplo, porque naquela época os estudos não é como hoje. Os estudo era muito difícil naquela época. Para estudar precisava seu pai ter condições, porque nada era gratuito, tudo era pago, e realmente a gente morava ali no sítio [...] que era aquele sítio dos quilombolas que tão falando... Somos dos quilombolas. O povo lá, o homem incentivava os pais levar os filhos pra ir logo trabalhando de agricultor, de agricultor, tá entendendo? Vamos dizer que a época naquele tempo era tão difícil que os pais às vezes levava as crianças. Eles não tinham condições de botar pra ele estudar. Existia escola no interior, mas era aquela escola. Não era uma escola hoje, como hoje que tem, né? Que tem aquele apoio...(Bosco)

Podemos observar, por meio das vozes dos moradores, resquícios de período de escravidão, deixando marcas profundas na sociedade brasileira em que, mesmo na atualidade, a vulnerabilidade social atinge mais a população negra que a população branca. Os relatos também revelam uma adultatização das crianças, desrespeitando o direito de elas viverem a infância. É chegada a hora de partir. Entre encontros e desencontros da infância dos moradores do Córrego de Ubaranas, trazemos o nosso poeta, que no livro Memórias Inventadas buscou, em seus achadouros de infância, evidenciar como é ver, ser, estar, pensar e sentir o mundo na perspectiva infantil bem como as reminiscências da criança que foram preservadas na vida adulta, ou seja, o mesmo desejo e a vontade de brincar. “Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto” (Manoel de Barros). 96


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PLANTAS E PALAVRAS QUE CURAM


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Plantas e palavras que curam Eduardo Anjos Ozaias da Silva Rodrigues

Este capítulo se chama Plantas e palavras que curam porque em Ubaranas você vai encontrar os dois. As plantas representam a tradição de produção de remédios caseiros, algo bem difundido pela Comunidade. Alguns moradores têm uma relação muito próxima com esses remédios; outros, nem tanto, mas o importante é que isso é algo característico de lá e que tem remédio para tudo! As palavras representam a prática de bendição feita pela rezadeira da Comunidade: Dona Alaíde. As palavras que ela profere realmente têm efeito em seus objetivos. Para confirmar isso, é só buscar pela Comunidade os relatos de pessoas que receberam a bendição dela e foram saradas de algum mal físico que tiveram. De Dona Duca, famosa por seu lambedor – mel composto por diversas plantas medicinais que curam desde tosses a gripes crônicas –, à Dona Alaíde, conhecida pelos moradores da Comunidade e até pelos de fora, ambas têm algo em comum: a força que retiram da natureza é utilizada como instrumento para o bem-estar de todos. As palavras, que remetem a uma sabedoria ancestral, são cultivadas em suas bocas e mãos quando as plantas, acompanhadas de rezas, percorrem os corpos das pessoas. Algumas nem são da Comunidade, mas vêm até Dona Alaíde para pedir a sua bendição. Os remédios de farmácia aqui dividem o seu lugar com as feituras caseiras, e tem até médico nas proximidades que já receita para seus pacientes os remédios conhecidos em Ubaranas11. Seja em época de chuva ou estiagem, a cura pela natureza é uma realidade presente em Ubaranas. Da terra que dá o milho, o feijão, a mandioca e o caju também provém a cura. Todo mundo na Comunidade, do velho ao novo, conhece algum preparo natural para curar alguns males. A prática de bendição por meio das rezas foi passada para Dona Alaíde através de sua tia, Maria Valente, e hoje é repassada à sua descendência. Seja na cura de um simples 11 Informação dada por uma moradora.

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quebranto ou até mesmo no alívio dos sintomas de uma gastrite, Ubaranas abriga – em suas palavras, plantas e pessoas – esse saber ancestral que presentifica os seus antepassados através dessas práticas. PLANTAS QUE CURAM12 A prática de produção de remédios caseiros é algo popular e comum em Ubaranas. Partindo disso, precisamos dizer que em Ubaranas encontramos remédios caseiros para quase tudo. Quase tudo mesmo! Mais à frente, será apresentada uma variedade de doenças, males e incômodos físicos que têm receita certa em Ubaranas para serem combatidos, e serão os próprios moradores que nos mostrarão os remédios e suas receitas a partir de seus relatos. 1- Contra desarranjos intestinais - Dona Raimunda, sobre o chá de canela: “Por aqui tem muito, e quando a gente tá assim, doente, quando a comida faz mal, nós faz ela, chá da canela, fica bom. E outra também assim, pra dor, pra aquele… aquela malvinha santa, eu também boto a canela, boto a malva santa e boto a flor, meia folha do mamão e boto… boto aquele coisa… alfavaca, né? Aí, faz o chá, bota hortelã, hortelã roxo, aí faz o chá e pronto. Eu, pelo menos, eu faço pra mim e bebo quando tá assim, com diarreia, é só fazer”. Também contra esses desarranjos, Seu Dedé fala do chá da guabiraba: - Seu Dedé: “É simples: a gente coloca somente a água no fogo, mexe, tira a folha, aquela, mas aquela novinha de cima, que é o molho dela, dependendo da quantidade do chá, três ou quatro folha, porque se você colocar mais, ela amarga muito, fica forte, aí você escolhe se você toma com açúcar, ou se você toma ela pura. Ela pura é melhor do que com açúcar, mas a gente, às veze... porque é muito amargo. Se você botar muita folha, fica muito amargo, aí tem gente que quer colocar um pouco de açúcar pra ficar mais... Mas o melhor mesmo é ela natura, você toma natural e é perfeito”. 2- Contra inflamações, o chá da chanana - Dona Dôra: “A chanana você pode até quando você tiver com inflamação; é só tomar, fazer, botar ela no fogo, arranca ela, lava bem lavadinho, bota no papeiro, faz o chá e toma”. 12 Quando falamos em plantas que curam, estamos nos referindo a uma tradição de cunho popular de produzir remédios caseiros. Não se trata aqui de uma série de indicações que devem ser seguidas à risca pelos leitores. Cada caso é um caso, e o objetivo é mostrar uma das práticas dessa Comunidade.

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3- Contra vermes intestinais, o chá da batata de purga - Seu Dedé: “Pra verme, pra lombriga, não existe. Pra quem tem verme, lombriga, melhor do que batata de purga não tem, que as vezes o pessoal toma remédio de farmácia, mas pra ser eficaz como a batata de purga não tem”. 4- Contra gastrite e úlcera, algumas ervas - Dona Dôra: “Eu boto muita raiz da chanana, boto a casca da embiratanha, boto a baja [vagem] do jucá, e muita corama, e boto no fogo, num panelão, cheio, aí quando apura, eu tiro dois, dois litro, três litro. Ali é bom pra estômago, pra úlcera, gastrite, pra tudo no mundo. Até apetite pra comer dá”. Dona Raimunda Lúcia também tem a sua contribuição a nos dar. A seguir, reproduzimos um trecho de uma entrevista, em sua casa: - Dona Raimunda Lúcia: “Já pra meu problema – que eu tenho problema de gastrite, sabe? –, me ensinaram que eu tomo... é pra mim tomar a casca da romã com ameixa. Aí, eu já tenho na geladeira na água. De manhã, de jejum, eu tomo; melhorei foi muito. Aí, passaram até pro médico, falaram pro médico; o médico disse que vai passar pros cliente dele esse remédio, sabe? Ia mandar fazer esse preparo. Eu vou lá no pé, lá no mato, eu tiro a casca da ameixa, coloco no sol pra ficar bem sequinha. Aí, eu coloco na água, coloco um copo d’água, na geladeira com água e a casca da romã. Aí eu tomo. Toda vida de manhã eu tomo, gelado. Eu me dô é muito. Eu tô muito melhor. Eu sentia umas azia muito forte e foi melhorando... Mas porque a ameixa ela fecha, ela suga, ela fecha, a ameixa. Se tiver ferida, ela... cê vê quando a gente tá com enfermidade e pensa em lavar com ela... ela levanta a casquinha. O pessoal faz o remédio caseiro. Eu sou mais remédio caseiro de que remédio de farmácia”. 5- Contra tumores, o gergelim e o gengibre - Dona Madalena: “Eu também sei de um remédio que era bom pra tumores, exatamente, tumor no seio, que é o gergelim. Você amassa ele e o gengibre, que a gente tem aqui; no mercado é fácil. Aí com vinagre caseiro, aquele vinagre que a gente usa, branco, a gente bota o líquido do vinagre no gengibre, faz a papinha (cataplasma), né? E coloca na parte afetada do tumor”. Contra febre, Dona Catarina aconselha o uso do chá de eucalipto e do anador, que, como ela diz, é um matinho. Para mal estar, causado por comida que não lhe fez bem, ela recomenda o chá de boldo, e para diarreia, o de chá de alfavaca. Já para quem tem pano branco, ela sugere que tome o chá de linhaça – inclusive recomendado por médicos, segundo ela – porque ele limpa o sangue.

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6- Contra tosse, gripe e dor de cabeça Contra gripe, Dona Dorinha recomenda o mel de jatobá e o chá de canela cheirosa; para a tosse, o angico e para dor de cabeça, o chá de hortelã. Em relação a bebês gripados, ela diz: - Dona Dorinha: “Tem a canela cheirosa, né? Que a gente dá banho, até pro bebezinho é bom. De noite, quando ele tá dormindo, você faz um chazinho e coloca debaixo da rede e aquele vapor é muito bom”. Dona Ana, também tem a sua contribuição para dar, em relação à gripe: - Dona Ana: “Aí eu pegava a beterraba e tirava a pelezinha dela, cortava as fatias, botava num pires, numa bacia funda e botava bem pouquinho açúcar por cima. Não botava no sereno como a minha mãe bota, aí já é outro tipo. Ela era cebola branca, essa é beterraba. Eu botava no cantinho, aí quando era negócio de uma hora pra duas horas, aí já tava lá o mel”. Já Dona Duca recomenda o mel de jatobá com vários componentes – hortelã, malva, corama, alho e outros – contra a gripe e o cansaço físico. Essa foi uma pequena demonstração de saberes e práticas tão presentes em Ubaranas. Outros remédios naturais para outros problemas físicos e outras doenças podem ser encontrados pela Comunidade e indicados pelos moradores. Se você quiser conhecer mais sobre isso, é só dar um pulo lá para ver bem de perto como essas plantas curam muitos males.

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Palavras que curam A história do Córrego de Ubaranas também é marcada pela fé, que na Comunidade se manifesta de diversas formas, uma delas é a crença no poder de cura das rezas de Dona Alaíde, uma das moradoras mais antigas e simpáticas de lá. De passos arrastados e voz baixinha, Dona Alaíde, ou Aía, para os mais chegados, tem a casa sempre aberta a quem se dispõe a receber sua benção. Apesar de ser ligada ao catolicismo, segundo suas palavras, não é preciso ser católico para acreditar nos efeitos de suas rezas, pois ninguém tem o poder da cura: ela acontece a partir da fé de cada indivíduo. Contra diversos males, Dona Alaíde se apoia no poder das palavras e da fé para o bem-estar dos habitantes, de Ubaranas e dos de fora dali! Aía aprendeu a rezar com sua tia. Hoje, Dona Alaíde se ocupa em passar os ensinamentos a algumas pessoas mais próximas da família, como sua filha Iza e uma de suas netas. Também ensinou algumas rezas à Dona Madalena, a notória escritora da Comunidade. Iza, filha de Dona Alaíde, conta um pouco dessa relação entre a fé e o ato de rezar: “Não precisa ser católica, basta ter fé. Tem evangélicos que vêm até aqui pra rezar. Não precisa ser católico pra aprender a rezar. Tem muita gente, católico ou não, que nem tem fé, aí a reza não dá certo” [...] “Trabalhei numa casa que a mulher tinha tanta fé, que um dia a cachorrinha dela tava doente, e pediu pra Aía rezar nela. Mas ela tinha tanta fé que era só minha Aía chegar na casa dela que a cachorrinha ficou boa”. *** REZA CONTRA QUEBRANTO EM CRIANÇAS DE ATÉ DOIS ANOS: FULANO SE TU TINHA QUEBRANTE PRA QUE TU NUM DIZIA COM DOIS TE BOTARAM COM TRÊS EU TE TIRO QUEBRANTE OLHAR DE VENTO CAÍDO QUEBRANTE OLHAR DE VENTO CAÍDO É LEI DO EXCOMUNGADO

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SE TU TEM QUEBRANTE OLHAR DE VENTO CAÍDO VAI-TE PRA BANDA DO MAR TALHADO DEUS TE CURE - TEU ANDAR DEUS TE CURE - TEU FALAR DEUS TE CURE - TEU COMER DEUS TE CURE - TEU BEBER DEUS TE CURE - TUA SAÚDE DEUS TE CURE - TEU INTESTINO DEUS TE CURE - TUAS CARNES DEUS TE CURE - TEUS OSSOS DEUS TE CURE - TUA PELE (...)

Quebranto é o efeito sofrido por quem, segundo Dona Alaíde, recebe mau olhado, geralmente vindo de pessoas que “não têm os olhos muito bons”. O indivíduo é acometido por fastio, enjoo e sonolência constantes. REZA CONTRA QUEBRANTO EM ADULTOS: FULANO QUE TU TINHA QUEBRANTE PRA QUE TU NUM DIZIA COM DOIS TE BOTARAM COM TRÊS EU TE TIRO QUEBRANTE OLHAR DE AZAR QUEBRANTE OLHAR DE AZAR É LEI DO EXCOMUNGADO SE TU TEM QUEBRANTE OLHAR DE AZAR VAI-TE PRA BANDA DO MAR TALHADO DEUS TE CURE - TEU ANDAR DEUS TE CURE - TEU FALAR DEUS TE CURE - TEU COMER DEUS TE CURE - TEU BEBER DEUS TE CURE - TUA SAÚDE

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DEUS TE CURE - TEU INTESTINO DEUS TE CURE - TUAS CARNES DEUS TE CURE - TEUS OSSOS DEUS TE CURE - TUA PELE DEUS TE CURE TEU - TRABALHO DEUS TE CURE TUA - BONITEZA (...)

Para praticar qualquer tipo de reza, Dona Alaíde recomenda o pinhão roxo, cujas folhas ela retira na hora, bem frescas, de seu quintal. Segundo ela, se as folhas murcharem ao final da bendição, fica atestado que o efeito causado pelo quebranto era forte. O alívio dos incômodos causados pelo mau olhado é imediato! Quem trabalha carregando ou erguendo objetos muito pesados pode apresentar espinhela caída, mal caracterizado por dor no tórax, braços cansados e dor nas costas causadas pelo esforço repetitivo. Para isso, Dona Alaíde tem reza certa: REZA CONTRA ESPINHELA CAÍDA: CRISTO NASCEU CRISTO MORREU CRISTO RESSUSCITOU MINHA ESPINHELA CRISTO ALEVANTOU

A notória rezadeira da Comunidade também conta que já presenciou alguns trabalhos de parto. Quando a placenta demorava a nascer, Dona Alaíde tinha na ponta da língua uma reza específica para ajudar a desocupar a mãe no parto: REZA PARA DESOCUPAR A MÃE NO PARTO: MINHA SANTA MARGARIDA NEM TÔ PRENHA NEM PARIDA CARNE MORTA FORA DA MINHA BARRIGA!

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As rezas de Dona Alaíde têm um forte vínculo com a oralidade local, apresentando expressões que muitas vezes não conhecemos ou temos pouca ideia de que tratam: REZA PARA CURAR FERIMENTOS: PEDRO E PAULO FOI A ROMA COM JESUS CRISTO ENCONTROU JESUS CRISTO PERGUNTOU “MAL DO MONTE SENHOR, É IZIPA13” ZIPA14, ZIPELE15, ZIPELÃO PELO PODER DA VIRGEM MARIA NUNCA MAIS TERÁ REZA PARA CURAR FERIDA NA BOCA: JESUS NASCEU, NASCIDO É JESUS, FILHO DE MARIA, JOSÉ CURAIS A FERIDA NA BOCA DE FULANO MEU BOM JESUS DE NAZARÉ. REZA PARA PÉ DESCONJUNTADO: QUÊ QUE EU COZO, SÃO FURTUOSO? CARNE CRIADA OSSO RENDIDO JUNTA DESCONJUNTADA E NERVO TORTO E ASSIM MESMO EU COZO, MEU SÃO FURTUOSO REZA PARA ESTANCAR SANGUE: SANGUE PÕE-SE EM TI COMO JESUS PÔS-SE EM SI 13 Quando D. Alaíde fala “agora essa reza é izipa”, está se referindo à característica do ferimento. Existem rezas específicas para os dois tipos de ferimento: zipa e zipele. 14 Zipa: nomenclatura que se utiliza para definir ferimentos leves, decorrentes de pancadas, feridas com vermelhidão, feridas fechadas, inflamações. 15 Zipele: nomenclatura que se utiliza para definir ferimentos abertos, feridas expostas.

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SANGUE TE PÕE NO CORPO COMO JESUS PÔS NA CORTE SANGUE TE PÕE NA CARNE COMO JESUS PÔS NA ARTE SANGUE TE PÕE NAS VEIAS COMO JESUS NA CEIA REZA PARA CURAR QUEIMADURAS: SANTA SOFIA TINHA TRÊS FILHAS UMA FIAVA OUTRA COZIA OUTRA CURAVA FOGO SELVAGEM EM CHAMA DE FOGO QUE ARDIA ENCONTROU NOSSA SENHORA PERGUNTOU O QUE FAZIA CUSPE EM JEJUM AVE MARIA!

Dona Alaíde, já muito experiente no ofício de rezar, faz seu trabalho de forma simples e amorosa. Para ela não tem segredo: basta acreditar e pedir sua bênção sempre à luz do dia. Quer saber o porquê? Venha ser acolhido no Córrego de Ubaranas e descubra!

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Ao chegar pela primeira vez em Ubaranas, com o desafio de orientar jovens pesquisadores no trabalho de escuta e recolha dos elementos da cultura oral que deram origem a este Relicário, deparei-me com a imagem poética de Dona Dora, sentada no chão, trançando palha. Assisti àquela cena calada, enquanto ela cuidadosamente foi dando vida a uma nova esteira. Percebi que o ato de narrar vem da mesma habilidade ancestral do trançar da palha. A palha e a palavra são matérias de encanto. Nas comunidades narrativas, as palavras existem, naturais e vivas como a palha. O narrador junta os fios em suas mãos, separa, entrelaça e, da trança, faz surgir a esteira para o corpo deitar e ver o céu. Quando me dedico a observar o movimento do narrador oral, encontro nitidamente três ramos: a busca, o preparo e a partilha. Três partes de um trançar etéreo que modela o momento estético e faz surgir um novo mundo ao redor do ouvinte. Há milênios, narradores enlaçam memórias a partir de três unidades: era uma vez, como os ramos da trança. Palha, palavra, esteira: histórias.

O texto acima compõe o roteiro para o documentário “Sete histórias à sombra do cajueiro”, produção idealizada a partir da elaboração desta publicação. O trabalho, fundamentado nos pressupostos da antropologia visual, voltou suas lentes especificamente para a recolha dos contos de literatura oral narrados pelos mais velhos. Sob a direção do cineasta Marcelo Paes de Carvalho, o registro etnográfico, composto de narrativas audiovisuais, é parte integrante do processo investigativo para obtenção do grau de mestre em Educação Intercultural pela Universidade de Lisboa. A pesquisa da mestranda Tâmara Bezerra foi desenvolvida em Ubaranas sob a orientação das professoras do Instituto de Educação: Ana Paula Caetano e Isabel Freire.


SETE HISTÓRIAS À SOMBRA DO CAJUEIRO


A história dos mistérios dos rastros Tâmara Bezerra Partilhada pelos Narradores Seu Doca, Seu Nelson e Seu Assis (Irmãos Banqueiros)

Certa vez, há um bom tempo, aconteceu de um mistério se apresentar pelas bandas da Ubaranas: um homem estranho e suspeito. Ele atentou o povo da comunidade por doze dias seguidos, contados um a um. Todo mundo ficou sabendo da presença desse sujeito misterioso, mas nenhum homem chegou a vê-lo. O elemento só se apresentava pra mulher! Se tivesse um só macho, ele não aparecia. Um dia, quando já se ouvia falar do tal homem que se escondia pra espiar as mulheres plantando e lavando roupa, deu pra se ouvir uns gritos bem alarmados: - É ele!!! Correu pé de Urubu? Ele correu! Ele correu! Quando o povo saiu na porta de casa, a visagem já ia longe. Foi, então, que os homens se reuniram e resolveram perseguir o cabra. Bons rastreadores que eram, foram seguindo o rastro do tal elemento misterioso. Uma pisada ali, um galho de planta quebrado acolá, uma marca numa pedra. Quem não entende de rastro pensa que é mentira. Às vezes, o rastreador tá vendo um sinal da pessoa ou do animal que passou bem naquele lugar, mas quem não sabe rastrear diz que não enxerga nada! Todos os homens da comunidade se reuniram pra achar o tal sujeito. Cada um tomou uma bicada de cana pra aumentar a coragem e entrar no matagal. Pelo rastro, dava pra saber que ele andava de chinela. Olhando rastro por rastro, eles encontraram um mistério: só tinha pisada marcando a entrada dele nos lugares; de saída ninguém encontrava. Como podia o homem entrar e não sair? O povo foi ficando com medo!

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Quem procura segredo, encontra sabedoria. Dava pra ver que o homem entrava, mas a saída ninguém via!

De certeza estava vivendo nas redondezas, escapando de beber cana e chupar caju. Como só apontava quando a mulherada tava, era difícil encontrar o elemento. Tendo homem em casa ele não aparecia. Era costume alguém ficar vigiando a noite inteira, com espingarda preparada pra pegar o safado. Muita gente desconfiava que ele dormia embaixo dos pés que ficam mais pra longe. De manhã dava pra ver que ele tinha feito uma cama de bagaço de cana e dormido em cima. Uma vez, quando a tarde já ia alta, uma menina viu e gritou: - Lá vai ele! Ela contou que avistou um vulto passar correndo, mal deu pra ver. A menina jurou que parecia um animal grande e peludo. Tudo quanto é homem botou a correr pra ver se pegava. Uns na frente gritavam: - Hoje vamos pegar o maldito! Procurou-se por todo lado, mas o infeliz tinha desaparecido. Por causa desse mistério, o medo tomou conta das mulheres e os homens viviam no destino de pegar o tal sujeito. O povo foi ficando assombrado, mas não desistia. Quem procura segredo, encontra sabedoria. Dava pra ver que o homem entrava, mas a saída ninguém via!

O certo é que mulher não lavava mais roupa no córrego e nem saia sozinha de noite. Era um ajuntado de gente pra ir de um lugar pra outro. Os homens viviam na espreita dos rastros e as mulheres, pra juntar os meninos. Tinha vez que se contava pra mais de 20 cristão com espingarda na mão, mas o sujeito não aparecia. 113


O povo dizia, que ele só descia das mangueiras pro mato quando os homens saíam de casa. Dava pra ver outras pistas fora os rastros: vaca mugindo no canavial, cachorro latindo na noite escura, assobio que ninguém via de onde vinha. Começaram a aparecer umas pedrinhas na frente de casa, mas não se sabia quem tinha jogado. Do nada se viam essas pedras. Quando reparava o rastro, só se via o que apresentava a chegada do infeliz perto da casa, mas nada de ver por onde foi embora. Quem procura segredo, encontra sabedoria. Dava pra ver que o homem entrava, mas a saída ninguém via!

Como podia esse homem entrar e não sair? O povo foi ficando com mais medo. Depois de doze dias, contados um a um, ele sumiu. No mistério que chegou, no mesmo mistério partiu! Depois de muito pensar, a sabedoria do povo acabou por encontrar: Esse homem misterioso, Que essa história traz, Quando entrava, caminhava pra frente, Quando saía, caminhava pra traz.

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A lenda do Batatão

Tâmara Bezerra Partilhada pelos narradores Dona Catarina e Seu Dedé

Quem vive na Ubaranas, sabe que por lá existe uma estrada esquisita e cheia de aparições. Fica perto do cajueiro velho, aquele que todo mundo chama de cajueiro macho. Esse é um lugar com muitos mistérios! Dizem que, na verdade, é mesmo mal assombrado. Contam que, nessa mesma localidade, principalmente na virada da noite de quinta pra sexta-feira, aparecem outros maus agouros que assombram o povo. Muita gente passou por essa localidade e já se deparou com visão de lobisomem, burrinha, uma máquina voadora que chamam de aparelho, gigante da melancia e até com o Batatão: a mais assombrada de todas! Todo mundo conhece, já viu ou ouviu falar. É uma bola de fogo, muito grande e incandescente, que aparece pra assombrar quem anda sozinho na escuridão da noite. Dizem que aparece do nada e persegue a pessoa soltando faísca pra todo lado. Quem já viu conta que o Batatão é uma bola enorme e luminosa, que voa atrás de quem passa pela estrada. Enquanto segue o sujeito bem ligeiro, sai queimando ponta de cerca, topo de árvores e o que passar pela frente. Queima até os coqueiros mais altos e tudo o que tiver no seu caminho. Todo mundo também sabe que basta pular uma cerca, passar numa arcada ou cruzar uma vereda pra afugentar a assombração. É só formar uma cruz de qualquer jeito. A questão é que, quando o cristão se depara com o Batatão, não pensa em mais nada, só em correr. É muito assombrado! Os mais velhos contam que, na verdade, é a alma de uma criança que morreu pagã. Ela quer que os passantes possam lhe abençoar pra poder descansar, mas como é muito grande e não fala nada, só persegue a pessoa queimando ao redor, quem é assombrado não tem coragem de virar e dizer: - Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ao invés de enfrentar a bola de fogo e quebrar a maldição, corre com medo dela, sem oferecer o batismo que pede a pobre alma penada. O que todo mundo conta é que, quem já foi perseguido, quando no dia seguinte, na intenção de mostrar o estrago, volta ao mesmo local onde encontrou-se com o Batatão, não avista uma folhinha queimada pra provar. E assim, até hoje, contam a lenda do Batatão, uma bola acesa que persegue o povo na escuridão! 116


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A mulher com cinco palmos de pescoço Tâmara Bezerra Partilhada pela narradora Dona Isabel

Era uma vez um homem chamado Golçalves. Ele era filho de mãe e pai muito pobres e a maior preocupação deles era porque o menino comia muito. Quando tinha uns dez anos, comia o quarto de um boi. Com o tempo, os pais não puderam mais criar Gonçalves. Foi daí que deram o menino para os padrinhos criarem. Era gente de muita posse; fazendeiros que juntaram muito gado durante a vida e com certeza podiam acabar com a fome do afilhado. Chegou na casa dos padrinhos comendo um quarto de um boi. Quando fez catorze anos, comia uma banda; aos dezoito anos devorava um boi inteiro. Até que o padrinho rico disse que não tinha mais condição de alimentar o rapaz. Deu um boi pro afilhado e mandou ele andar pelo mundo a procura de ganhar o próprio sustento. Gonçalves partiu da casa dos padrinhos com o boi e um tacho dado pela madrinha. Com algumas léguas de caminhada, avistou um rapaz com o ouvido encostado no chão: - Amigo, o que tá fazendo aí? O homem olhou bem pra Gonçalves e disse: - Eu tô escutando uma missa lá em Roma! Gonçalves se animou: - Oia aí! Um Bom Escutador. Rapaz, com essa escuta você dá pra andar comigo. Mais adiante, depois de caminhar um padeço, os dois encontraram um homem trocendo um pé de coqueiro. Trocendo, trocendo, trocendo. Gonçalves se aproximou: - Amigo, o que você tá fazendo aí? O homem olhou bem pra ele e disse: - Eu tô trocendo esse pé de coqueiro pra ver se tiro coco lá de riba e bebo a água. Gonçalves se animou:

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- Oia aí, um Bom Trocedor! Rapaz, com essa força você dá pra andar comigo. Chegaram mais adiante, os três encontraram outro homem no meio do caminho. Ele tava sapiando, sapiando, sapiando. Bem atento pra tudo o que acontecia. Gonçalves se aproximou: - Amigo, o que você tá fazendo aí? O homem olhou bem pra ele e contou: - Na semana passada, eu vi por aqui um viado passar na maior carreira; estou sapiando pra poder apear o bicho. Eu corro mais do que ele! Gonçalves se animou: - Oia aí, um Bom Apeador! Rapaz, com essa ligeireza você dá pra andar comigo. - Mais adiante os quatro encontraram um senhor com umas flechas bem pequenas e finas. Gonçalves se aproximou e perguntou: - Amigo, o que você tá fazendo aí? O homem olhou bem pra ele revelou: - Estou esperando pra atirar num jacú. Semana passada eu vi um bem aqui. Só saio quando acertar uma flecha bem no oi dele. Gonçalves se animou: - Oia aí, um Bom Atirador! Rapaz, você com essa pontaria dá pra andar comigo. Caminharam, caminharam, caminharam, foi quando Gonçalves, Bom Escutador, Bom Trocedor, Bom Apeador e Bom Atirador chegaram em um arvoredo. Mataram o boi que traziam puxado por uma corda, botaram no tacho e levaram pro fogo. Gonçalves deixou Bom Escutador vigiando enquanto foram procurar trabalho e mais comida pro dia seguinte. Quando deu 11 horas, o almoço ficou pronto. Nessa mesma hora, aproximou-se uma velha, muito velha e muito feia! Ela chegou se arrastando, era como um assombro! Esticou um palmo de pescoço, chegou perto do tacho, fez um bico e Chuuuuuuuuup. Com esse “chupe” comeu o cumê todinho. Bom Escutador ficou com tanto medo que não matou a velha. Quando os outros chegaram da lida, puxando outro boi pro dia seguinte,

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Gonçalves viu que não tinha comida no tacho e perguntou espantado: - Bom Escutador, cadê o almoço? O homem com os olhos bem arregalados respondeu: - Olha, eu não te conto. Chegou aqui uma velha horrorosa, nem ouvi quando ela chegou. Só vi quando esticou um palmo de pescoço e num “chupe” comeu o cumê todim. Foi quando Bom Trocedor gritou: - Pois, eu vou ficar amanhã! Podem ter certeza que quando chegarem o almoço vai tá pronto. Eu garanto! No dia seguinte, quando deu 11 horas, o almoço estava pronto. A velha foi se aproximando, esticou um palmo, esticou dois palmos de pescoço fez um bico e num chupe – Chuuuuuuuupe – comeu o comê todim. O homem ficou com tanto medo que não matou a velha. Quando chegaram puxando outro boi, Gonçalves viu que não tinha almoço e perguntou bem espantado: - Bom Trocedor, cadê o almoço? O homem com os olhos bem arregalados respondeu: - Olha, eu não te conto. Chegou a velha aqui, eu não cheguei nem perto. Ela tinha era dois palmos de pescoço. Num chupe comeu o cumê todim. Foi quando Bom Apeador afirmou: - Pois, eu vou ficar amanhã! Quando chegarem o almoço vai tá pronto. Eu garanto! No dia seguinte, quando deu 11 horas, o almoço estava pronto! A velha foi se aproximando, esticou um, dois, esticou três palmos de pescoço, fez um bico e num chupe – Chuuuuuup – comeu o comê todim. O homem ficou com tanto medo que não matou a velha. Quando o bando chegou da lida puxando outro boi, Gonçalves viu que não tinha almoço e perguntou bem espantado: - Bom Apeador, cadê o almoço?

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O homem com os olhos bem arregalados respondeu: - Olha, eu não te conto. Chegou a velha aqui, ela é mais ligeira do que eu, esticou três palmos de pescoço e, num chupe, comeu o comê todim. Foi quando Bom Atirador decidiu: - Pois, eu vou ficar amanhã! Quando chegarem o almoço vai tá pronto. Eu garanto! No dia seguinte, quando deu onze horas, o almoço estava realmente pronto! A velha foi se aproximando, esticou um, dois, três, quatro palmos de pescoço. Fez um bico e num chupe – Chuuuuuuup – comeu o comê todim. O homem ficou com tanto medo que não matou a velha. Quando chegaram puxando outro boi, Gonçalves viu que não tinha almoço e perguntou bem espantado: - Bom Atirador, cadê o almoço? O homem com os olhos bem arregalados respondeu: - Olha, eu não te conto. Chegou a velha aqui e não deu pra fazer pontaria. Ela esticou foi quatro palmos de pescoço e, num chupe, comeu o comê todim. Foi quando Gonçalves questionou: - Isso é Trama de Sitara? Todo dia tem comida no tacho e chega essa velha pra comer? Agora eu vou vigiar. Só saio daqui quando vir o fim dessa velha. Vou botar o tacho no fogo e não vai ter velha nenhuma que coma nosso cumê. - Ela tem arma? Não! O que ela trás? Nada! Então como vocês têm medo duma velha, macho? No dia seguinte, Gonçalves botou o boi no tacho, armou uma rede e se deitou. Quando deu dez e meia, a velha veio. Chegou mais cedo! Lá vinha ela. Esticou um palmo de pescoço, esticou dois, esticou três, esticou quatro... Foi quando Gonçalves deu um pulo da rede e gritou: - Oia sua véia, você não vai comer esse nosso comê! Se chegar mais perto, eu te mato. Quanto ela esticou o quinto palmo de pescoço Gonçalves apontou a arma e disse: - Se fizer um bico, eu atiro! Quando a velha fez o bico, ele atirou: POU

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Logo fez sangue. E Ela? Foi se arrastando até desaparecer no meio mato, deixando o rastro vermelho no chão. Quando os outros chegaram, uns mais na frente e outros mais atrás, já não aguentavam mais de tanta fome. Gonçalves foi logo gritando: - Eu não disse pra vocês que ela não comia nosso comê? Quando se acabaram de comer, depois de quatro dias de fome, ficaram curiosos e acompanharam o rastro de sangue da velha. Aqui e ali tinha um pingo vermelho no chão. Quando chegaram no fim do rastro, bem numa loca de pedra, abriram a boca admirados. A velha tinha se virado na princesa mais linda desse mundo. Gonçalves foi quem atirou Gonçalves quebrou o encanto Com a Princesa se casou E acabou com todo pranto


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A mulher que fez cafuné em um lobisomem Tâmara Bezerra Partilhada pelos narradores Seu Célio, Seu Dedé, Dona Catarina e Dona Dorinha

Como todo mundo sabe, Lobisomem existe e faz muito tempo! Uma assombração que não aparece toda hora. Ele existe por razão de um encantamento que faz gente virar bicho. Quem sofre desse mal tem muita vergonha de revelar. Ele sabe que foi encantado e quando começa a sentir que vai virar, procura a estrebaria de algum animal: um curral de boi, um estábulo de cavalo, um galinheiro, um chiqueiro de porco ou outra dormida de bicho qualquer. Quem já viu conta que ele fica com as feições do bicho que está próximo quando se enfeitiça. É nesse mesmo lugar que ele tem que voltar quando vai virar gente outra vez. Quando sente que vai acontecer a transformação, corre bem depressa, tira toda a roupa, desavessa e deixa num canto, cruza a chinela e reza três Pai Nossos ao contrário. Depois disso tudo, espera. Quando é pra virar nessa “coisa”, sempre é na noite de quinta, lá pra perto da meia noite. Passa a madrugada inteira virando. Dizem que mata tudo o que vê pela frente, até gen�te! Se pegar um porco no meio do caminho, já rasga o bicho e come vivo. Todo Lobisomem sabe que não pode passar em porteira, cerca ou encruzilhada, nada que forme uma cruz. A missão dele é percorrer sete lugares até antes do galo cantar no amanhecer do dia. Se não percorrer sete cantos diferentes até ouvir a cantiga do primeiro galo, ele nunca mais volta a ser gente. Fica Lobisomem pra sempre. O que se sabe é que se, por um acaso, alguém tiver coragem de se aproximar e furar um bicho desses com uma faca pequena, ele desencanta; tem que ser com uma faquinha bem pequenininha. A questão é que deverá ser escondido, jamais um Lobisomem poderá saber quem fez sangue nele. Dizem de certo homem muito valente que gostava de andar no escuro, trocando o dia pela noite, caminhando até madrugadinha. Era sempre alertado pelos amigos:

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- Rapaz, tu deixa de andar quinta de noite que tem um lobisomem por aqui. - Eu quero saber quem é esse Lobisomem. Eu vou descobrir quem é esse camarada! Dizia ele muito altivo. Certa vez, numa quinta-feira com lua cheia, bem na encruzilhada, o corajoso avistou o vulto de um Lobisomem: cabeludo, preto, grande e com todas as aparências de um bicho bruto! Mas como estava muito escuro, não dava para ver muito bem. Só que o sujeito tinha saído de casa prevenido: conduzia uma faquinha bem pequenininha. Quando deu por si, já foi dentro da luta: o homem pulava pra cá e o bicho pulava em cima dele; o homem pulava pro outro lado e o bicho pulava também. Ele já tava muito cansado e pra não aguentar mais, quando reuniu forças, pulou por cima do bicho e conseguiu fazer sangue nele. O encanto se quebrou! Estava realmente muito escuro, o corajoso não viu direito, mas acha que finalmente descobriu quem era o Lobisomem. Como o sujeito corajoso tinha muito apreço pela mulher desse que virava Lobisomem, em segredo contou que suspeitava de que seu marido era a assombração, mas ela não acreditou. Até que numa certa data, o casal saiu pra catar lenha no mato. Ela pegou o machado, uma corda, os panos pra fazer a rudia e foram pra lida. Enquanto o marido ficou cortando lenha em um canto, a mulher foi pra outro distante; mesmo assim, dava pra ouvir o machado dele trabalhando. Até que de repente o machado se calou, e ela sentiu o bafo de um bicho bem atrás do seu pescoço. Muito apavorada e sem coragem de olhar pra trás, saiu correndo e gritando pelo nome do marido. Ninguém respondeu! Correu o mais que podia, e enquanto corria, ouvia um grunido como se fosse de uma fera nos encalços dela. Nesse tempo, as mulheres andavam com saias rodadas, bem compridas e muito largas; as roupas tinham muito pano. Foi difícil correr segurando essa saia toda, mas, mesmo assim, com muito custo, ela conseguiu subir numa árvore que avistou no caminho. Lá em baixo, o bicho ficou tentando puxar a coitadinha. Como o pano da saia ficou dependurado, ele agarrou a barra com unhas e dentes. Ela só via o pano azul subindo e descendo com a fúria do animal. Quanto mais ele puxava, mais ela subia pra outra galha acima, até que ficou o mais alto que pôde. Apavorada, rezou até a assombração ir embora. Correu pra casa e não esperou

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por ninguém; deixou os feixes de lenha pra traz. Chegou toda esfarrapada! Com um bom tempo, o marido voltou e nem se admirou quando ela contou o ocorrido. No dia seguinte, o casal foi mais uma vez pro mato cortar lenha e foi nesse mesmo dia que se deu a descoberta. Depois do almoço, como eles costumavam descansar na sombra de um cajueiro, o marido deitou a cabeça no colo da mulher e disse: - Mulher, faz uns cafuné na minha cabeça. Ela foi fazendo cafuné no marido, ele cochilou e depois pegou no sono. Ficou com a boca arreganhada e os dentes pra fora, foi ela quando viu, entre os dentes dele, os fiapos da sua saia azul. Nesse dia, a mulher teve a certeza: era mesmo casada com um Lobisomem e fez cafuné nele!

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O homem que acertou a Burrinha Tâmara Bezerra Partilhada pelas narradoras Dona Catarina e Dona Terezinha

Pouca gente sabe da história de um homem que conseguiu acertar uma paulada na Burrinha que vivia pelas bandas da Ubaranas. Dizem que de certeza, sem querer, ele descobriu quem era a mulher que se transformava nesse malassombro que resulta do atrevimento de namorar com um padre. Tudo aconteceu numa temporada de chuva e relâmpago. O ocorrido se passou na noite em que esse homem sentiu a maior dor de barriga da sua vida. Mesmo debaixo de um pau d’água, ele decidiu sair de casa pra fazer as necessidades no mato. Quando a mulher viu o marido se preparar pra sair no meio daquela tempestade, perguntou espantada: - Pra onde é que tu vai debaixo desses relâmpagos, homi? - Eu tô com uma dor de barriga tão grande, mulher, que é capaz de nem dá tempo relampear! O coitado estava mesmo numa situação difícil. A mulher insistiu: - Ainda mais que hoje, noite de quinta-feira, homi? Todo mundo sabe que o dia das pessoas enfeitiçadas virar nas feras é justo de quinta pra sexta. A questão é que o coitado estava num aperto bem grande, ainda maior que o medo de assombração. Pegou uma bengalinha, uma toalha de plástico pra se proteger; assim enfrentou a chuva e a falta de coragem. Na pressa que qualquer um fica numa situação dessas, entrou no meio do mato e procurou um lugar bem ligeiro. Quando finalmente se agachou, todo coberto com a toalha, era justo onze e meia. Todo mundo sabe que a hora das pessoas se virarem nesses bichos é justo meia noite. Pois foi mesmo nesse horário que ele tava assim: de cócoras, no meio do mato e debaixo de uma chuva grossa como o dilúvio. Era tanta água que mal dava pra ver o clarão da lua. Foi quando avistou a sombra de um animal estranho; parecia um burro ou outro bicho dessa natureza.

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Ele já tinha ouvido falar na história de uma mulher casada que virava numa Burri� nha e assombrava as noites por ali. Quem conta diz que, quando uma mulher namora ou se amiga com padre, ela se transforma em burrinha se fizer noite de lua. Coitada daquela que se apaixona por um padre e entra nessa maldição! Dizem que quando sente que vai virar, ela tira a roupa toda, desavessa e diz umas palavras. Quando tá virada na Burrinha, ela desembesta e percorre sete estradas numa só noite. Tem que voltar antes que o galo cante. Se não desvirar antes do cantar do galo, nunca mais é gente. Quando o homem se deparou com essa coisa no meio do escuro, pensou: - Se for a Burrinha, eu agora descubro se a história tem cabimento. Ficou ali, parado, escondido embaixo da toalha e preparado com o pedaço de pau. Foi espiando por uma brechinha de nada. O animal passou braiando prum lado, arrodeou pelo outro, e ele só espreitando. Quando ouviu o tinir do chocalho bem alto, com medo gritou assim: - Ai meu Deus! Se for a Burrinha, é agora que ela me pega. Foi quando avistou aquele vulto correndo na direção dele em disparada: tuc-tuc-tuc-tuc. Corria e batia o chocalho: pin-lin-lin, pin-lin-lin, pin-lin-lin. Quando ela passou bem perto, ele nem piscou: Prá! Plantou a bengalada. Acertou bem na perna do bicho, lá nela. O animal saiu se arrastando com as duas pernas da frente e puxando as outras por trás, no maior tinindero: pin-lin-lin, pin-lin-lin, pin-lin-lin. Ele, escondido embaixo da toalha de plástico, pensou: - Se for quem o povo diz, eu só vou saber amanhã. Parece invenção de contador de história, mas não é! No outro dia de manhã, ele ouviu só o comentário:

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- Rapaz, a fulana, coitada, apareceu hoje de manhã, do nada, com perna toda engembrada. Daí teve a certeza: a Burrinha era mesmo quem o povo falava! Dizem, que se a pessoa que vira nessas coisas descobrir quem descobriu o segredo, enquanto não matar o curioso, não sossega. Por bem ou por mal, ele nunca revelou o nome da Burrinha a ninguém e ela nunca descobriu quem lhe acertou uma paulada na perna. Como dizem que no final dos tempos a Burrinha vai aparecer, deixa quem duvida esperar; assim vai ver, assim vai crer!

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O homem que chamava por aquele que não se deve pronunciar o nome Tâmara Bezerra Partilhada pela Narradora Dona Terezinha

Esta é a história de um homem muito difícil. Quem conviveu na sua intimidade dizia não ser do todo ruim, mas o rabujo que carregava era grande, deixando a pessoa dele muito complicada de se conviver. Tudo o que fazia era debaixo de um mau humor tão grande que ninguém se aproximava muito. Só a pobre da mulher era quem o aturava, e olhe lá! Tinha uma coisa nele que desagradava muita gente: chamava demais por aquele que não se deve pronunciar o nome. Se acertasse uma martelada no dedo, chamava por ele; se perdia um caminho, gritava o nome do maldito; perder no baralho? Era certeza ouvir bem alto ele chamar pelo coisa ruim. Muita gente avisava para não chamar todo tempo por quem vive nas profundezas, mas ele nem ligava; seguia chamado o dia todo e todo dia. Certa vez, ao sair de casa, a mulher perguntou pra onde ele iria. Como era comum, respondeu com o maior abuso: - Vou pro inferno! De repente, quando deu por si, ele se viu numa estrada muito comprida. Era um caminho sem fim, com pissarra de um lado e do outro. Por mais que esticasse a vista, não dava pra ver onde a estrada ia dá. Ele não entendeu como foi parar naquele lugar. Como não viu um pé de pessoa, de bicho, de planta ou de vento, uma só alma pra perguntar e nem vereda pra mudar o prumo, o jeito foi seguir no rumo da estrada, tentar encontrar alguém ou algum lugar. Caminhou, caminhou, caminhou muito. No meio do nada, só se via o comprissai dessa estrada que só tinha começo. Era um dia claro, com um sol que encandeava muito a vista. Era de endoidecer! Ele já tinha caminhado muitas léguas, quando, bem de longe, avistou o final da estrada. Terminava num portão bem grande. Apressou o passo e quando chegou no pé desse portão, ficou admirado: passou muito tempo com a boca aberta. Ele nunca tinha visto um portão gran-

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de como aquele em toda sua vida; era uma coisa imensa, feita de ferro preto, com umas pontas bem finas e douradas, que batiam nas nuvens. O portão era tão grande, mas tão grande, que o cadeado que segurava o ferrolho era do tamanho de um galão de gás de 18 litros. Depois de passar um bom tempo admirando o portão, ficou espiando entre as grades pra ver se via alguma coisa ou pessoa. Nada! Bateu palma, assobiou bem alto e gritou várias vezes: - Oh de casa! Ninguém apareceu. Do lado de dentro da grade, não dava pra ver nada; era um fumaceiro que impedia quem estava fora de enxergar qualquer coisa. O homem até pensou em tentar subir e pular, mas, além de ter medo de cachorro, a idade alcançada já não permitia essas estripulias. Pelo tamanho do portão, era bem difícil sobreviver de uma queda daquelas alturas. Bater com o cadeado para chamar atenção também era impossível. Quem é que podia alevantar um negócio daquele tamanho? O único jeito foi continuar gritando: - Oh de casa! Já estava pra desistir e voltar o caminho de volta quando, do lado de dentro, apareceu devagar um sujeito novo e muito mau encarado: - Diga seu nome e o que quer! Mal encarado, por mal encarado ele também era. E a conversa foi levada em uns 15 minutos de troca de abuso: - Só digo meu nome pro dono. Cadê ele? Quero saber que canto é esse! - Passa o tempo todo chamando pelo homi e quando chega no portão da casa dele, não sabe onde tá! - Disse o sujeito novo fazendo pouco do velho. Nesse momento, ele ficou quase com medo. - Será, meu Deus, que o povo tinha razão? Se tô onde tô pensando e o dono é quem eu tô achando, eu morri; esse é o portão do inferno e o rapaz é o capataz do Satanaz! Subiu um frio pela espinha, as pernas ficaram bambas e ele quase teve um passamento. Como era um sujeito tinhoso, segurou o nervoso e disse: 133


- Homi, chame o dono. Se vim até aqui, quero entrar! Tô doido pra ver quem mais tá aí pra dentro. Vocês não imaginam que do meio da fumaça veio um homem grande, forte, de chapéu, com um lampião na mão, e olhe que era luz do dia. O dono não era nada do que ele tinha em mente: não tinha chifre, muito menos rabo, também nem fedia a enxofre. Era até bem apessoado! O dono se aproximou devagar, tirou o cadeado, abriu o portão, olhou bem no olho do visitante e disse assim: - Seu nome num tá aqui não! Volte pelo mesmo caminho e se refaça. Pare de me chamar! Depois deu as costas e saiu seguido pelo abusado novo. Não se sabe se por acaso ou de caso pensado, mas deixou o portão com uma brecha aberta. Ele entrou! Passou pela fumaça e viu muito fogo, correntes penduradas, viu muita gente gritando e gemendo, mas ninguém que ele conhecia. Quis entrar mais pra dentro, mas como não tinha sido mesmo convidado, resolveu voltar. Pegou a mesma estrada e foi dar bem na frente de casa. Você pensa que ele deixou o abuso? Já entrou chutando a porta. Foi quando a mulher perguntou: - O que foi agora, Homi de Deus? - Mulher, vê como a coisa é: eu sou tão ruim que nem o cão me quer!

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O segredo da feiura de uma mulher Tâmara Bezerra Partilhada pelas narradoras Dona Catarina e Dona Dorinha

Dizem de uma mulher muito feia que vivia pelas redondezas da Ubaranas. Tinha uma feição estranha e um olho tão rasim que dava medo. Ela era tão feia, mas tão feia que quase não falava com ninguém; passava pela rua de cara dura. Além disso, era uma pessoa muito briguenta; não se dava com vizinho nenhum. Corre por aí uma história que, na verdade, ela escondia um grande segredo. A curiosidade começava, no caso em que se reparava, mesmo sendo feia desse jeito, ela tinha o homem que queria. Teve muitos; nunca viveu só com um. Corria também o boato que ela dava as aparências de um bicho bruto; dormia toda enrolada como se fosse uma rodilha. Certa vez, o marido saiu de noite pra tomar uma cana na bodega. Como deixou a mulher dormindo, trancou bem a porta com a chave. Já bem tarde da noite, quando ia che�gando em casa e espiou pela janela, avistou uma cobra bem grossa e preta saindo da porta do quarto, passando pra cozinha e indo em busca da saída. Era uma cobra enorme! O homem ficou olhando aquela bicha comprida saindo por um buraco que tinha na porta da frente. A cobra foi saindo, saindo, e nada de chegar o fim dela. Quando a cobra terminou de sair, ele correu pra ver como a mulher estava. Foi quando atentou que a porta continuava fechada com a chave. Chamou por ela, gritou seu nome várias vezes e nada, ninguém respondeu. - Será que mesmo com a porta trancada na chave ela saiu de casa? -Pensou o marido, achando aquilo muito estranho. O homem entrou e procurou por todos os cantos da casa e do terreiro em volta. Chamou, chamou e não teve resposta. Perguntou aos vizinhos e ninguém deu notícia da mulher! Quando olhou embaixo da cama, avistou uma roupa, a mesma que ela estava usando quando ele saiu pra

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beber. O marido resolveu se deitar na cama, fingir que tava dormindo e esperar a mulher chegar. Teve a esperteza de deixar a porta fechada, pra ver se ela ia bater ou forçar pra entrar. Quando deu fé, notou uma coisa se mexendo perto da porta de entrada: era a cobra voltando. O homem ficou muito assombrado e lembrou de uma história que lhe contavam quando era menino: os mais velhos diziam que, quando uma pessoa é enfeitiçada e se vira num animal, volta pro mesmo lugar pra voltar a virar gente. Tentou de todas as formas ver o que estava se passando, foi quando pensou: - Meu Deus! O boato do povo é verdade! Tanto é que, como se virou dentro de casa, teve que voltar pra desvirar no mesmo lugar. A certeza do homem veio quando lembrou que era quinta-feira e perto da meia noite, justo como o povo diz, que esse é o horário do encantamento. A cobra foi se arrastando pelo canto da parede em busca da cama. O homem, deitado e paralisado de medo, espiava no escuro pela a brecha do canto do olho. Não sabe quanto tempo se passou, mas de certeza a mulher apareceu, do nada e sem roupa nenhuma, nuinha. No breu da noite e com os olhos quase fechados, não deu pra ver se a mulher desvirou e se foi embaixo da cama. De certeza, o que viu foi ela se baixando nua pra pegar a roupa. Nesse momento, ele sentou na cama de uma vez e perguntou: - Mulher, tu tá virando cobra? Calada ela estava, calada ficou. Baixou a cabeça e não disse nem que sim, nem que não. Ele pensou que sua mulher podia estar com a maldição: virava-se numa cobra preta, porque lia o livro da capa preta, de São Cipriano. Lembrou que também lhe contaram que se tivesse uma pessoa corajosa e ligeira pra dar uma pancada ou uma furada de fazer sangue no encantado, podia quebrar o encanto e descobrir quem era. Mas, com medo da cobra ser mesmo sua mulher, só ficou na suspeita:

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- SerĂĄ que sou casado com uma mulher que vira cobra? Morreu sem saber. Dizem que essa mulher viveu anos e anos. NinguĂŠm nunca teve certeza. Ela virava mesmo cobra ou a feiura era da sua natureza?

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Ao virar cada uma das últimas páginas, o leitor percorreu parte do universo que integra o imaginário dessa Comunidade, testemunhando que elas estão repletas de elementos que compõem a beleza e a poética dos contos maravilhosos contados e ouvidos nesse lugar. Os desenhos do artista plástico Joe e as imagens de Dona Cataria e Dona Terezinha narrando contos, ambas da fotógrafa Fernanda Leal, ilustram as emoções provocadas durante o processo de escuta, registro e recolha que compôs este capítulo e acabou gerando o documentário: Sete histórias à sombra do cajueiro. Pousar no papel o que antes era narrado, de boca a ouvido, foi uma reverência ao seu encantador caráter oral, por meio desta obra, fazemos reverberar as vozes de Ubaranas, que permanecem naturais e vivas no seu cotidiano, assim como a palha. Tâmara Bezerra

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OUTRAS HISTÓRIAS (OU: NÓS, QUE VIEMOS DE FORA...)


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Outras Histórias (Ou: Nós, que viemos de fora...) Debora Linhares da Silva Wanessa Nhayara Maria Pereira Brandão Camila Carneiro Rocha

Eram muitas as comunidades a conhecer naquele ano de 2013, todas na cidade de Aracati/CE. Caminhos diversos entre rodovias, estradas, ramais, ruelas, ruas, vicinais; alguns identificados por placas, outros por um poço, uma igreja, uma escola, um cemitério, nas quebradas de uma duna ou dos cataventos de energia eólica. Algumas próximas à sede da cidade ou já quase fronteiriças ao estado do Rio Grande do Norte; praieiras ou semiáridas, de pescadores e/ou agricultores, fizeram conosco um caminhar de muitos encontros com moradores de 127 comunidades. Foram caminhos de uma mobilização comunitária para a produção participativa do Plano Plurianual (2014/2017) daquele município, desenvolvido durante os meses de maio, junho e julho de 2013 através dos “Encontros Comunitários da Cidade” e do “Encontro Municipal das Comunidades”, e que possibilitaram a formulação da Lei Municipal nº 069/2013 que regulamentou a integração entre as funções de planejamento e orçamento através da compatibilidade entre três instrumentos legais básicos: o Plano Plurianual (PPA), as Leis de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA).16 Esses caminhares, no entanto, começaram alguns anos antes, num trabalho de cooperação entre a Universidade e a Cidade. Iniciou-se com um modesto e audacioso projeto de extensão-cooperação universitária, em fevereiro de 2011, chamado “Duas Fendas”, que visava cultivar processos de ampliação e desenvolvimento da consciência pessoal e coletiva, contribuindo para a conscientização e mobilização em torno das gravíssimas questões decorrentes da crise socioambiental que ocorria em Canoa Quebrada. 16 Parte das informações desse primeiro tópico estão disponíveis em: UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ. Aracati, patrimônio do Ceará: Por uma Cidade Educadora. 2014. 90 f. Relatório parcial - Programas de extensão e pesquisa (2013 / 2014.1). Laboratório de Estudos Sobre a Consciência – LESC-Psi. Fortaleza, 2014.

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Foi nesse bairro de Aracati, mais especificamente com a comunidade de pescadores da Vila do Estevão, que se desenvolveu uma atuação comunitária via extensão-cooperação universitária. Um dos principais frutos dessa cooperação foi a criação do Movimento Cultura & Consciência Biocêntrica (mc²BIO), sediado na referida comunidade, e que atuou como um vórtice irradiador de desenvolvimento regional ecomunitário, biocêntrico e libertador. Com o passar dos anos, esse projeto se fortaleceu e, mantendo a parceria entre o Laboratório de Estudos sobre a Consciência – LESC Psi e o Laboratório de Pesquisas em Psicologia Ambiental – LOCUS, (ambos da Universidade Federal do Ceará – UFC), o Projeto “Duas Fendas: Patrimônio, Cultura e Consciência Biocêntrica” (MEC/SESu - PROEXT 2013) se ampliou e firmou parcerias também com a Prefeitura Municipal de Aracati, a partir de participação da equipe do projeto no Fórum Comunitário de Canoa Quebrada e Fórum Aracati Novos Caminhos. 144


E, assim, retornamos ao ano de 2013 e aos nossos encontros, caminhos e caminhares com as comunidades de Aracati. Nesse ano, antes de iniciarmos as atividades do “Duas Fendas”, realizamos um momento de integração entre os membros do laboratório, uma forma de aproximar aqueles que chegavam e reafirmar o comprometimento dos que já estavam conosco. Foi quando de um “por acaso”, um dos novos integrantes do laboratório era natural de Aracati e nos convidou a conhecer a cidade, ampliar nossos caminhos para além da Vila do Estevão. Então, em março de 2013, toda a equipe do LESC partiu para Aracati. Esse mesmo integrante aracatiense traçou um roteiro de visitas, que teve como ponto de partida o bairro onde ele vivia: o Pedregal. Ali fizemos uma caminhada comunitária e visita à Associação dos Moradores do Pedregal (AMOP), cujas lideranças eram seus pais. Depois, prosseguimos para conhecer o Horto Municipal e, em seguida, uma comunidade de muita força que ele acompanhava e estava no processo de regulamentação da terra. Fomos de pronto bem recebidos, as pessoas ali eram bem acolhedoras! Contaram-nos de suas lutas, nos levaram para conhecer o engenho que, na época, ainda estava bem preservado17. Pudemos fazer uma breve caminhada, pela primeira vez, em Ubaranas.

17 Pouco tempo depois, quando voltamos à comunidade, o engenho estava destruído. Soubemos que isto foi parte das estratégias utilizadas pelos “donos” da terra para tentar burlar a elaboração do Relatório Técnico de Identificação de Delimitação (RTID) que, à época - 2013, estava em andamento.

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De lá continuamos o roteiro e ainda fomos conhecer o Centro de Aracati com seus prédios históricos; uma professora muito antiga e conhecida na cidade; a sorveteria José de Sofia e um museu de relíquias que um morador da cidade mantem. Ao final, nossos sentimentos a respeito de Aracati já estavam em transformação, o “Duas Fendas” já não seria o mesmo. Nos meses seguintes, como já contamos aqui, iniciavam-se as atividades de parceria do projeto com a prefeitura e nossa atuação mais direta nas comunidades teve que esperar... Já no segundo semestre de 2013, finalizados os trabalhos dos “Encontros Comunitários da Cidade”, deu-se uma nova etapa de atuação da equipe do “Duas Fendas”, que se interligava ainda ao Plano Plurianual de Aracati e que também se expandia para os processos educadores e emancipadores das comunidades. Nos planos de ação, mantinha-se a comunidade da Vila do Estevão com o mc²BIO e agregava-se a comunidade do bairro do Pedregal, conhecido pelos altos índices de violência e mortalidade de/entre jovens. Neste bairro, o diálogo e as possibilidades de atuação se faziam juntamente com a AMOP, cujas lideranças também participaram do Fórum Comunitário de Canoa Quebrada e do Fórum Aracati Novos Caminhos. Paralela a essa frente de atuação, outra se configurou através de um processo formativo destinado aos educadores da rede pública de ensino do município, denominada “Formação Permanente em Educação Patrimonial por uma Cidade Educadora”. Essa formação visava estimular o desenvolvimento da identidade municipal em integração com a identidade pessoal desses professores para que, assim, eles também pudessem colaborar na elaboração de um planejamento estratégico da cidade. Essa dupla inserção (nas comunidades e escolas) se refere à natureza educativa de nossas ações, visando ao favorecimento e à realização de um programa em que Aracati se faria Cidade Educadora e Patrimônio do Ceará. Tal perspectiva apontava para um complexo de estratégias de promoção da aprendizagem e do desenvolvimento municipal adotando o lema Aracati, Patrimônio do Ceará: por uma Cidade Educadora e retratando o espírito da cidade, em sua totalidade, potência e identidade, nos cenários regional, estadual, nacional e internacional. Contudo, apesar de termos trilhado planos de ação específicos, organizado processos formativos nas escolas municipais, elaborado atividades com as secretarias municipais, cons-

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truído projetos comunitários em Canoa Quebrada e no Pedregal, um caminho surgiu tão somente do encontro, da força que se apresentou através de tantas histórias contadas em meio às demais comunidades. Encontro afetivo e potente que nos chamou à comunidade que tinha “...a igreja [católica] mais antiga do Aracati”18. Assim foi que nos encontramos com as vozes, olhares e sorrisos de Ubaranas.

18 Não estamos aqui nos referindo aos dados oficiais sobre qual seria a Igreja Católica mais antiga da cidade de Aracati/CE, mas sim às falas dos moradores de Ubaranas durante os Encontros Comunitários da Cidade ocorridos em 2013.

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Da terra árida onde floram os cajueiros

É num pedaço da BR - 304, com olhar atento entre mata rasteira, cercas e ramais que conseguimos encontrar as vicinais que levam àquela terra. Pequenas casas espalhadas, algumas de pau-a-pique, outras já de alvenaria, campos abertos, aves e animais de criação de pequeno porte soltos nos terreiros, poços antigos e cisternas, e muitos, muitos pés de caju por toda parte. Transeuntes no chão de terra fofa, alguns passam de bicicleta, outros de carroça e alguns tantos a pé. E, mais uma vez, seja em plantações, seja enfeitando a entrada das casas, pés de caju, com idade suficiente para terem copas infindáveis e espalharem-se pelo chão dando voltas, como se estivessem movimentando-se, a caminhar, tal qual aquele lugar, cuja temporalidade apresenta-se em outras dimensões subjetivas.

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Estamos, então, no Córrego de Ubaranas, a 18 km da sede da cidade de Aracati e que está, ainda hoje, em processo de regularização da terra como sendo pertencente à comunidade de Remanescentes Quilombolas. Junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), conseguiu a conclusão do Relatório Técnico de Identificação de Delimitação (RTID) em março de 2015. A elaboração do documento, que reúne estudos sobre a história da comunidade e a área do território, é a primeira etapa realizada pelo INCRA para regularização de um território quilombola. Os estudos reunidos no relatório revelaram que há ali a presença de 61 famílias remanescentes de quilombos, com território identificado e delimitado em 1.626.8176 hectares de área. Essas famílias estão cadastradas na Associação dos Agricultores e Agricultoras Remanescentes de Quilombo do Córrego de Ubaranas. Sua base econômica é a agricultura familiar, porém, com os conflitos territoriais, grande parte dos moradores presta serviços às empresas vizinhas, trabalhando também na colheita de castanhas de caju. Nesse território, compreende-se a relação dos moradores com o processo de pertencimento à terra, legalmente e espiritualmente falando, e as relações afetivas com o chão de antepassados escravizados e escravagistas. Seguimos, então, com alguns resquícios de nossa caminhada em Ubaranas, sendo este trabalho fruto de nossas vivências de construção das cartografias socioculturais, histórico-geográficas, patrimoniais e (especialmente) afetivas na comunidade. Um breve-longo percurso afetivo: LESC e “Ubas” Dos Encontros Comunitários da Cidade aos encontros afetivos com Ubaranas, muitos laços se firmaram. Logo no início dessa aproximação, em 2013, nossa inserção foi aos poucos: poucas pessoas indo por pouco tempo em intervalos grandes. Era o que conseguíamos, diante de tantas outras ações sendo realizadas em Aracati. No primeiro semestre, fomos à comunidade pouquíssimas vezes: na primeira fomos, literalmente, mostrar nossas caras. Depois, a convite dos moradores, acompanhamos ações lá realizadas por uma faculdade particular de Aracati e pela Igreja Católica.

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Aí veio a história da Capoeira, através de um encontro nosso com o professor Dotinha. Ele já conhecia a comunidade e tinha o desejo de ali desenvolver algo. Dos diálogos, veio a aproximação e a possibilidade de concretizar isso. Realizou, inicialmente, uma atividade para os jovens e as crianças de Ubaranas. Rapidamente a Capoeira ganhou espaço e despertou interesse até mesmo dos adultos. Foi assim que acompanhamos a Capoeira ali desde o comecinho e pudemos também ver seu florescer.

Ainda sem planejamento e seguindo muito mais uma vinculação afetiva (e talvez por uma persistência intuitiva!), as visitas seguiram no segundo semestre, sendo realizadas apenas por uma parte da equipe do LESC, enquanto a outra parte seguia envolvida nas ações e atividades do Duas Fendas com as/os professoras/es e com as secretarias municipais de Aracati. Não éramos uma equipe numerosa, mas tínhamos profissionais e estudantes envolvidos nos trabalhos.

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As idas à comunidade no segundo semestre começaram a trazer muitas ideias e propostas de construções coletivas junto a esta. Aliando-se a isso, foi crescendo também a necessidade de maior emponderamento quanto aos temas relacionados às políticas que envolvem as comunidades de remanescentes quilombolas. Em uma dessas idas a Ubaranas, por exemplo, conhecemos um representante da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas (CONAQ), o que fortaleceu mais ainda essa necessidade de saber, de buscar mais conhecimentos e práticas, de encontrar mais parceiros para construções e articulações. Foi ainda nesse período que passamos a construir junto com a comunidade, e a convite dela, o Dia da Consciência Negra, realizada no mês de novembro e que infelizmente, no de 2013, não ocorreu, pois houve o falecimento de um morador. Com essa aproximação, que era uma mescla de identificação, sonhos, conscientização-conscienciação e muita, muita potência afetiva, o ano de 2014 se apresentou de outra forma: precisávamos nos organizar. Fizemos um planejamento e cronogramas e, apesar das inúmeras dificuldades (especialmente pela falta de verba!), mantivemos nossas idas a Ubaranas. Íamos à comunidade de quinze em quinze dias, sempre aos finais de semana. No começo, dormíamos na casa dos moradores19 , junto deles, sendo sempre acolhidos com muito cuidado e respeito. Mas, com o passar do tempo, a equipe foi ficando maior e, já em 2015, Seu Pelé nos cedeu uma casa para que fosse “nossa”, independente do tempo que fôssemos passar ali: dias, meses, quem sabe anos? 19 Usualmente na casa de Dona Ana e Seu Dedé, onde fomos acolhidos desde as primeiras visitas.

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Frutos desses projetos, desenvolveram-se, junto à comunidade, várias atividades, as quais muitas vezes partiam dos planejamentos do laboratório (LESC-Psi), mas que abriam caminhos de interferências e proposições das/dos moradoras e moradores de Ubaranas. Nós sempre andamos devagarinho, como quem cuida e não tem pressa, para conseguir fazer um trabalho de fato com e não somente para. “Que tal a gente fazer isso?”; “eu acho que o pessoal num vai pra atividade não”; “os meninos já tão tudo arrumado esperando vocês chegarem”; “uma hora dessas não dá certo não, mas às 16 horas, debaixo da mangueira dá certo”. Um círculo de cultura para reviver memórias nem sempre tão valorizadas, através de fotografias. Rodas de conversa para discutirmos coletivamente sobre assuntos como direitos quilombolas, meio ambiente, cidadania. Contação de histórias sob a luz da fogueira, ou até mesmo sob a luz do sol, é que as crianças não tinham hora certa para tamanha atenção que nos davam nas escutas! Oficinas de painel, com colagens e costura em pano. Oficinas de desenho com crianças, que geraram exposições na Festa da Consciência Negra. Essa festa é preparada durante o decorrer do ano inteiro, mas, na semana do dia 20 de novembro eles intensificam a organização da festa, e nós estivemos lá contribuindo. Nela tem comida, apresentação cultural, exposição de desenho e fotos, danças, músicas, desfile, quadrilha e uma das maiores riquezas de Ubaranas: alegria! Durante algumas noites, tinha o Cine Ubas, com projeção de filmes na parede das casas. Na maioria das vezes, era um momento de distração ao final de semana, que juntava gente de toda idade. E era isso que a gente queria mesmo, sentar na areia e assistir um filme, sob a luz da lua e das estrelas, com pipoca e muita risada. Já teve até oficina de reciclagem e reuso com as mulheres quilombolas, que acabou virando um encontro de mulheres para conversar e ensinar umas às outras a costurar, bordar ou simplesmente estar juntas. Teve o processo de reforma do salão da associação com técnicas permaculturais20 que fizemos numa parceria entre a comunidade, o LESC-Psi e o Coletivo Arruma Ações Permaculturais21. 20 “A Permacultura é uma ferramenta que permite olhar a paisagem e descobrir os recursos que a natureza oferece para poder planejar e organizar seu uso coletivo.”. HOLMGREN, David. Permacultura: princípios e caminhos além da sustentabilidade. Tradução: Luiza Araújo. Porto Alegre: Via Sapiens, 2013. 21 Coletivo de ações e práticas permaculturais dirigido por mulheres permacultoras.

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Mas, paralelo a tudo isso, havia o acompanhamento político junto das atividades da associação de moradores. É a associação que cuida do que se refere ao processo de Regularização Fundiária para Territórios Quilombolas. Nem sempre vivenciar a ruralidade é tão encantador quanto parece. Há muita luta. Fizemos muitas visitas domiciliares, conhecendo as pessoas e os lugares, para escutar as velhas e os velhos, os jovens, os adultos e as crianças, que nos contaram algumas das histórias que estão aqui neste relicário. Nessas visitas, íamos sempre junto de alguém da comunidade e, de preferência, crianças, pois era a atividade de tutoria e formação de crianças pesquisadoras. Cada momento desse era uma imensidão do encontro pesquisador-morador, pesquisador e morador, morador-pesquisador; com olhos esbugalhados, ouvidos atentos, gravadores e câmeras fotográficas, e, principalmente, partilha. Entre uma visita e outra, havia um doce de caju pra comer, umas castanhas pra assar, um cafezinho pra tomar, um vôlei pra jogar, um futebol quebra canela de doer, uma música pra cantar, uma dança pra embalar, “a cidade dorme” pra brincar. Fomos sempre juntos, com o amor e o pertencer: gratidão Ubaranas!

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Fechando o ciclo Camila Carneiro Rocha Renata Valente de Sena

Essas histórias de que você ouviu falar, riu, que você leu, sentiu e, talvez, até comeu foram trançadas por mãos de gente trabalhadora, presentes na e da terra. São histórias antigas, conhecimentos que atravessam Ubaranas e chegam a partir da memória dos mais velhos. Os jovens se interessaram em ouvir, então se juntaram, bateram à porta e sentaram no surrão para escutar e registrar cada uma. Estes jovens pesquisadores de Ubaranas: Átila, Clarice, Geovane, Leo, Lukinhas, Melka, Michelle, Naliane, Nicolly, Raquel, Renata, Samira; e outros que nos ajudaram direta ou indiretamente: Bruna, Duda, Érica, Gustavo, Jefferson e Taís. entre outros, perceberam que o Relicário é formado por todos e cada um, pois “independente da idade, todos nós temos algo a contar. E o que somos é parte do que vivemos.”22 Podemos perceber na fala de cada um, tanto de quem participou desde o início como de quem participou em algumas atividades pontuais, o encantamento pela descoberta de uma fonte abundante de conhecimento: as histórias. “Tanto ontem, como hoje, como amanhã eu sei que vou descobrir mais coisas. Aí eu vou descobrindo, vou aprendendo até descobrir mais. Até onde minha mente for eu quero descobrir.”23 “Eu cheguei por último, mas achei legal o momento aqui... Achei incríveis as histórias que a galera contou. Por que eu achei incrível? Porque essas histórias realmente aconteceram!24

Essas falas, recortes da síntese feita pelas crianças e pelos jovens na conclusão do projeto de recolha, transbordam o (re)conhecimento da história da Comunidade como sendo sua própria história. Esse movimento criador do Relicário, que proporcionou encontros entre 22 Melka Pereira 23 Geovane Valente 24 Ana Taís Ferreira

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gerações da Comunidade, contribuiu para a ampliação da percepção desses jovens sobre seu território e pode inspirar novas posturas e práticas de intervenção na própria realidade. Esses pesquisadores também são artesãos de novas histórias, pois Ubaranas é feita por quem nela viveu, vive e viverá. É como árvore; plantada, foi cultivada e enraizou. Tornou-se estrutura e força para quem nela viveu. Assim, cuidada e amada continua crescendo e, a cada floração, novas histórias de um povo brotarão, filhos da terra que se reconhecem como um todo, como parte da história de agricultores, agricultoras, artesãos e artesãs de memórias. Existe uma indagação vinda de um Griô africano sobre a ambiguidade das histórias que justifica todo este trabalho de maneira simples e enfática. Ele perguntava assim: “Por quê nas histórias de leão e caçador, o caçador sempre leva a melhor? Você já pensou sobre isso? A resposta é simples e se aplica a todas as outras histórias: Porque é sempre o caçador que conta a história.” Por isso, assumindo este lugar de contadora da própria história, Renata encerra este livro em nome da Comunidade Quilombola do Córrego de Ubaranas com muito afeto e gratidão. “Bom, é com muita gratidão que eu, Renata Valente, escrevo esta carta, pois nela irei lembrar de momentos que vivi ao lado de pessoas maravilhosas, sendo elas os moradores de Ubaranas e o pessoal do LESC. Com eles vivenciei momentos de lágrimas, angústias, medos e também de felicidades, pois cada história contada pelos moradores da minha Comunidade para mim foi um conto, além de ter sido bom para o meu aprendizado. Aprendi bastante com eles coisas dos seus antepassados. As pesquisas para mim foram bastante proveitosas. Cada momento, cada sorriso, cada lágrima, cada história ficará guardada para sempre em meu coração. Dentre todas as histórias que escutei nas casas das pessoas, uma das mais lembradas por mim foi a do sofrimento e da dificuldade que as pessoas tinham de fazer as coisas ou conseguir algo, até mesmo o que comer, pois ouvi uma das moradoras com lágrimas nos olhos dizendo que viu seu filho morrer de fome porque não tinha o que comer, pois na época era tudo difícil. Isso para mim foi muito forte, pois mesmo não sendo mãe ainda senti a dor daquela moradora. Amei todas as pesquisas e agradeço a todas as pessoas que nos acolheram em suas casas para ouvirmos suas histórias e agradeço também ao pessoal do LESC por ter feito essas pesquisas. Sem eles não teríamos conseguido. Obrigada! Aqui deixo toda a minha gratidão.”

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REFERÊNCIAS ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Trad. Dora Flaksman. 2ª edição. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981. BARROS, M. de. Memórias Inventadas - a infância. São Paulo: Editora Planeta, 2003. BORBA, Angela Meyer. Culturas da infância nos espaços-tempos do brincar: um estudo com crianças de 4-6 anos em instituição pública de educação infantil / Angela Meyer Borba. – 2005. 298 f. Orientador: Cecilia Maria Aldigueri Goulart. Tese (Doutorado) – Universidade Federal Fluminense, Faculdade de Educação, 2005. Bibliografia: f. 278-293 BRANDÃO, Wanessa N. M. P. “UM GRITO MAIS ALTO!”: A luta social da Comunidade Remanescente de Quilombo do Córrego de Ubaranas em Aracati - Ceará. 2016. 107f. Monografia de Conclusão de Curso (Graduação em Serviço Social) – Curso de Serviço Social, Faculdade Metropolitana da Grande Fortaleza, 2016. BRASIL, Presidência da República. Casa Civil. Decreto n° 4.887 de 20 de novembro de 2003. Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos de que trata o art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ decreto/2003/d4887.htm> BRASIL, Presidência da República. Casa Civil. Lei Federal n° 11.977 de 07 de julho de 2009. Dispõe sobre o Programa Minha Casa, Minha Vida – PMCMV e a regularização fundiária de assentamentos localizados em áreas urbanas; altera o Decreto-Lei no 3.365, de 21 de junho de 1941, as Leis nos 4.380, de 21 de agosto de 1964, 6.015, de 31 de dezembro de 1973, 8.036, de 11 de maio de 1990, e 10.257, de 10 de julho de 2001, e a Medida Provisória no 2.197-43, de 24 de agosto de 2001; e dá outras providências.. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/ lei/l11977.htm> BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Promulgada em 5 de outubro de 1988, atualizada até a Emenda Constitucional nº 95, de 15 de dezembro de 2016. DF: Senado Federal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ConstituicaoCompilado.htm>.

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QUEM FEZ PARTE DESTA HISTÓRIA Pesquisadores do LESC-Psi Angeline Freire de Souza – Graduanda em Pedagogia Bárbara de Alencar – Graduanda em Psicologia Camila Carneiro Rocha – Psicóloga Cristina Façanha Soares – Professora da Faculdade de Educação Davi Vasconcelos Rodrigues –Administrador Público Eduardo Anjos – Graduando em Pedagogia Jane Érika Oliveira e Silva – Bacharela em Serviço Social e Fotógrafa Jorge Lucas Siqueira Barbosa – Licenciado em História Ozaias da Silva Rodrigues – Licenciado em História Tiago Barreto de Lima – Graduando em Pedagogia Wanessa Nhayara Maria Pereira Brandão – Mestranda em Serviço Social Tâmara Bezerra – Mestranda em Educação Intercultural Colaboradoras do LESC-Psi Debora Linhares da Silva Patrícia Elainny Lima Barros Comunidade Quilombola do Córrego de Ubaranas Ana Taís da Silva Ferreira, 16 anos Bruna da Silva do Nascimento, 18 anos Érika da Silva Rebouças, 12 anos Geovane Valente da Silva, 15 anos José Gustavo Santos Valente, 14 anos Jeferson Aécio da Silva, 30 anos José Átila da Silva Ferreia, 12 anos João Lucas da Silva Martins (Lukinhas), 11 anos Leonardo Rodrigues da Silva, 13 anos Maria Clarice da Silva, 11 anos Maria Eduarda dos Santos Valente, 9 anos Maria Nicolly Silva Valente, 13 anos Melka Maria da Silva Pereira, 24 anos Maria Naliane de Oliveira Silva, 12 anos Raquel da Silva Nascimento, 15 anos Renata Valente de Sena, 21 anos Samira da Silva Nascimento, 14 anos Lara Michelle Soares Pereira, 16 anos 161


Vozes da Comunidade Ana Taís Edamor Dona Alaíde Dona Ana Dona Aparecida Dona Catarina Dona Dôra Dona Dorinha Dona Duca Dona Gracinha Dona Izabel Dona Lúcia Dona Madalena Dona Maria Dona Nazaré Dona Raimunda Dona Raimunda Lúcia Dona Terezinha Geovane Jefferson Lucas Melka Seu Assis Seu Bosco Seu Célio Seu Doca Seu Dedé Seu Fifi Seu Manoel (pai véio) Seu Nelson (in memmorian) Seu Pelé

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AUTORES Camila Carneiro Rocha Mulher dançante, Psicóloga Comunitária (UFC), Especialista em Psicodrama Socioeducacional e Terapêutico (IPM-UNI7), Educadora Biocêntrica (Universidade Biocêntrica), facilitadora de Biodança (Escola de Biodança do Ceará), colaboradora do Laboratório de Estudos sobre a Consciência (LESC-Psi/UFC). Cristina Façanha Soares Professora da Universidade Federal do Ceará, graduada em Pedagogia pela Universidade Federal do Ceará, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Doutora em Educação Brasileira no eixo de Linguagem, Desenvolvimento e Educação de Criança, pela UFC. Desenvolve atividades de ensino, pesquisa e extensão na área da Educação Infantil e Literatura Infantil. Estudiosa da primeiríssima infância com ênfase na Abordagem Pikler. Coordenadora da Brinquedoteca FACED/UFC. Amante da música de qualidade. Estuda canto e participa de coral. Debora Linhares da Silva Mãe do Gui, Mulher Negra, dançarina de Carimbó, poetisa. Bacharela e Licenciada em História (UFPA), Bacharela em Psicologia e Psicóloga (UFPA), Mestra em Psicologia (UFC), Psicóloga Clínica e Social Comunitária, colaboradora do Laboratório de Estudos sobre a Consciência (LESC-Psi/UFC). Eduardo Anjos Homem Negro, graduando em Licenciatura em Pedagogia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Integrante do Laboratório de Estudos sobre a Consciência (LESC-Psi/UFC). Aspirante a contador de histórias. Geovane Valente da Silva Estudante da EEEP Elsa Maria Porto Costa Lima, no curso de Administração. Comunidade Quilombola do Córrego de Ubaranas. João Lucas da Silva Martins (Lukinhas) Ator. Estudante do 6.° ano da EEF Apolinário Joaquim Monteiro – Aracati/CE. Comunidade Quilombola do Córrego de Ubaranas. José Átila da Silva Ferreira Ator e Cantor. Estudante do 7.° ano da EEF Apolinário Joaquim Monteiro – Aracati/CE. Quilombola do Córrego de Ubaranas.

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Maria Madalena Valente da Silva Agricultora Nativa, Artesã e contadora de histórias. Comunidade Quilombola Córrego de Ubaranas. Melka Maria da Silva Pereira Guia de Turismo pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE). Comunidade Quilombola do Córrego de Ubaranas. Ozaias da Silva Rodrigues Ozaias da Silva Rodrigues: Licenciado em História pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Professor de História no Ensino Fundamental II. Integrante do Laboratório de Estudos sobre a Consciência (LESC-Psi/UFC). Pesquisador e colaborador do projeto de extensão Afrotons: promoção da cultura e da arte afro-brasileira na universidade e na cidade, coordenado pelo professor Marcelo Tavares Natividade.. Renata Valente de Sena Guia de Turismo pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE). Comunidade Quilombola do Córrego de Ubaranas. Tâmara Bezerra Mestranda em Educação Intercultural, Especialista em Psicopedagogia e Arte-Educação, Graduada em Serviço Social, nascida no sertão do Orós, mãe do Júlio e da Cecília, autora de livros infantis, pesquisadora, contadora e escutadora de histórias. Tiago Barreto de Lima Estagiário de Pedagogia em Creche do Poder Judiciário, Graduando em Pedagogia na Universidade Federal do Ceará, Tecnólogo em Marketing na Faculdade Padre Dourado, integrante do Laboratório de Estudos sobre a Consciência (LESC-Psi/UFC), Bolsista do Programa de Iniciação à Docência (PID/ UFC) em Propostas e Práticas Pedagógicas em Educação Infantil, estagiário em Educação Infantil. Atual membro do Centro Acadêmico Paulo Freire (Pedagogia-UFC), Gestão Pedagogia sem Amarras. Wanessa Nhayara Maria Pereira Brandão Mulher Negra, mestranda em Serviço Social, Trabalho e Questão Social (MASS/UECE). Bacharela em Serviço Social (FAMETRO). Pesquisadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Afrobrasilidade, Gênero e Família (NUAFRO/UECE), no qual integra o Grupo de Pesquisa Relações Étnico-raciais: cultura e sociedade deste Laboratório. Integrante do Laboratório de Estudos sobre a Consciência (LESC-Psi/UFC). ILUSTRADOR Joe Artista Plástico e Baterista. 164


ÍNDICE REMISSIVO - Desenhos de abertura dos capítulos – Crianças de Ubaranas. - Agradecimentos – Foto de abertura – “Desenhos dos pesquisadores de Ubaranas” – Ozaias Rodrigues, 2016 (p. 6). - Sobre a Capa – Foto de abertura – “Engenho” – Alana Alencar, 2013 (p. 10). - Prefácio – Foto no final do prefácio – “Devolutiva” – Fernanda Leal, 2017 (p. 16). - Cartas ao Leitor – Foto de abertura – “Jovens Pesquisadores” – Jane Oliveira, 2017 (p. 20). - Cartas ao Leitor – Foto 01 – “Recolha com os Banqueiros” – Arquivos LESC-Psi, 2017 (p. 23). - Cadernos de Dona Madalena – Foto de abertura - Jane Oliveira, 2017 (p. 24). - Cadernos de Dona Madalena - Foto 01 “Igreja de São José de Ubaranas” - Fernanda Leal, 2017(p. 29) - Cadernos de Dona Madalena – Foto 02 – “As cores da partilha” – Fernanda Leal, 2017 (p. 34). - Cadernos de Dona Madalena - Foto 03 “Marcelo e suas lentes - Dona Madalena e seus cadernos” Fernanda Leal, 2017(p. 29) - Qui-lom-bo-las – Foto de abertura – Jane Oliveira, 2017 (p. 46). - Qui-lom-bo-las – Foto 01 – “Plantações” – Jane Oliveira, 2017 (p. 51). - Qui-lom-bo-las – Foto 02 – “Seu Pelé” – Jane Oliveira, 2017 (p. 53). - Qui-lom-bo-las – Foto 03 – “Cajueiro” – Jane Oliveira, 2017 (p. 54). - Qui-lom-bo-las – Foto 04 – “Mel de caju feito por Dona Maria” – Jane Oliveira, 2017 (p. 55). - Qui-lom-bo-las – Foto 05 – “Melka, segurando cajus” – Jane Oliveira, 2017 (p. 56). - Qui-lom-bo-las – Foto 06 – “Seu Célio” – Jane Oliveira, 2017 (p. 57). - Qui-lom-bo-las – Foto 07 – “Carcaça de boi” - Jane Oliveira, 2017 (p. 58). - Qui-lom-bo-las – Foto 08 – “Dona Aparecida e Bia” – Jane Oliveira, 2017 (p. 62). - Qui-lom-bo-las – Foto 08 – “Dona Lúcia” – Jane Oliveira, 2017. - Qui-lom-bo-las – Foto 09 – “Seu Fifi” – Jane Oliveira, 2017 (p. 63). - Qui-lom-bo-las – Foto 10 – “Dona Dôra e o peixe” – Jane Oliveira, 2017 (p. 64).

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- Qui-lom-bo-las – Foto 11 – “Pai Véio – Seu Manoel” – Jane Oliveira, 2017 (p. 65). - Qui-lom-bo-las – Foto 12 – “Dona Dôra” – Jane Oliveira, 2017 (p. 66). - Qui-lom-bo-las – Foto 13 – “Dona Ana” – Fernanda Leal, 2017 (p. 67). - Qui-lom-bo-las – Foto 14 – “Lembranças do que existia ali” – Jane Oliveira, 2017 (p. 68). - Qui-lom-bo-las – Foto 15 – “Dona Izabel” – Jane Oliveira, 2017 (p. 72). - Qui-lom-bo-las - Foto 16 - “Casa de pau a pique” – Jane Oliveira, 2017 (p. 73). - Qui-lom-bo-las – Foto 17 – “Seu Dedé” – Jane Oliveira, 2017 (p. 75). - Qui-lom-bo-las – Foto 18 – “Seu Dedé e Dona Ana” – Jane Oliveira, 2017 (p. 78). - Qui-lom-bo-las – Foto 19 – “A alegria do viver das anciãs - Dona Maria e Dona Dôra” – Jane Oliveira, 2017 (p. 81). - Qui-lom-bo-las – Foto 20 – “Sou negro sim!” – crianças e jovens de Ubaranas” – Jane Oliveira, 2017 (p. 82). - Infâncias – Foto de abertura – Fernanda Leal, 2017 (p. 84). - Infâncias – Foto 01 – Wanessa Brandão, 2015 (p. 89). - Infâncias – Foto 02 – “Galamar” – Ozaias Rodrigues, 2016 (p. 91). - Infâncias - Foto 03 – “Samila” – Alexandra Martins Costa, 2015 (p. 97). - Infâncias - Foto 04 – “Vivi” – Jane Oliveira, 2017 (p. 97). - Infâncias - Foto 05 – “O encanto das histórias” – Arquivos LESC-Psi, 2016 (p. 97). - Infâncias - foto 06 – “Pra cima” – Wanessa Brandão, 2015 (p. 97). - Plantas e palavras que curam – Foto de abertura – “Cajado de São José (jasmim-manga)” – Ozaias Rodrigues, 2016 (p. 98). - Plantas e Palavras - Foto 01 – “Dona Ana segurando algumas bajas de jucá” – Ozaias Rodrigues, 2016 (p. 104). - Plantas e palavras - Foto 02 – “Dona Alaíde” – Jane Oliveira, 2017 (p. 109). - Sete Histórias – Foto de abertura – “O que podem as mãos de uma mulher” – Marcelo Paes de Carvalho, 2017 (p. 110).

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- Sete Histórias – Ilustrações: “Passos de Enigma” (p. 115); “Uma bola de fogo na noite quente” (p. 117); “Visagem que vem, almoço que vai” (p. 123); “Um afago no perigo” (p. 127); “O relincho d’água” (p. 131); “Entre desvarios, desatinos e desacatos” (p. 135); “Metamorfose rastejante” (p. 138139) – Joe, 2017. - Sete Histórias – Fotos 1 e 2 – “Dona Catarina” e “Dona Terezinha e Dona Aparecida” – Fernanda Leal, 2017 (p. 123). - Outras Histórias – Foto de abertura – “Chegadas e partidas” – Jorge Lucas Siqueira Barbosa,, 2016 (p. 140). - Outras Histórias – Foto 01 – “Encontros Comunitários da Cidade” – Aracati, 2013 – Camila Rocha, 2013 (p. 144). - Outras Histórias – Foto 02 – “O Engenho, Comunidade do Córrego de Ubaranas” – Aracati, 2013 - Alana Alencar, 2013 (p. 145). - Outras Histórias – Foto 03 – “Encontros Comunitários da Cidade – Aracati, 2013” – Camila Rocha, 2013 (p. 147). - Outras Histórias – Foto 04 – “Placa de identificação da Igreja de Ubaranas” – Debora Linhares, 2013 (p.148). - Outras Histórias – Foto 05 – “Capoeira na festividade do Dia da Consciência Negra do Córrego de Ubaranas, 2014” – Alexandra Martins Costa, 2014 (p. 150). - Outras Histórias – Foto 06 – “Mapeamento inicial da comunidade” – Debora Linhares, 2013 (p. 151). - Outras Histórias – Foto 07 – “Encontro com a comunidade, 2014” Arquivos LESC-Psi, 2014 (p. 153). - Fechando o ciclo – Foto de abertura – “Caminhos e cortejos” – Arquivos LESC-Psi, 2017 (p. 154). - Fechando o ciclo – Foto 01 – “Até breve”, Bárbara dando tchau aos pesquisadores de Ubaranas – Ozaias Rodrigues, 2016 (p. 157).

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Diagramação, impressão e acabamento:

Relicario de ubaranas teste8  
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