Issuu on Google+


Desde que ativara a função shuffle do seu tocador de MP3, aguardava por aquele momento: Paranoid. E ela chegou como tinha que ser: alta e nervosa, treta forte, com a turma toda do Black Sabbath tocando como ninguém jamais ousou tocar.E pra completar a bem aventurada trilha sonora, um bônus extra: outra cerveja gelada. Matou-a num tapa. Arrotou involuntariamente e involuntariamente repreendeu-se,não sem antes admitir que fora uma senhora arrotada. Na autobronca, lembrou-se que a janela da sala poderia estar aberta. Chovia paca e lá foi ele averiguar. Deu mais duas ou três arrotadinhas pelo caminho e tudo certo: janelas fechadas, sala enxuta, nenhum trabalho extra. Extra só mais gelada que pegou no caminho, quando passou pela cozinha. Voltou a se sentar e soltou outro arroto.Escrotaço. Chegou a cheirar mal.Respirou fundo deixando que o aroma lhe impregnasse as narinas e soltou um “Nossa Senhora” exclamativo e orgulhoso. E se divertindo com a própria porquice, trovejou uma sequência no ritmo do riffda guitarra de MestreTomyIommi. Do banheiro, um grito feminino interrompe a melodia com o poder de umaTPM em fase infernal: -Para com isso, seu porco! Ele riu. Houve uma época em que cantava Paranoide Iron Man arrotando. Inteirinhas. Quando a conheceu, num show da banda de um amigo que fazia cover do Black Sabbath,já era o maior arrotador da turma. Naquela noite, chegou a ser chamado no palco para delírio da plateia que já estava alucinada, é bom que se diga. Seu arroto era um sucesso absoluto de público e crítica. Todo mundo curtia, e isso muito antes do Facebook ser inventado.Não tinha um churrasco em que a rapaziada não se derretia de rir com suas performances de rasa educação. Ela também. Bons tempos.


Então, começaram a namorar e a graça foi dando espaço ao bom comportamento. Abriu outra cerveja e, em nome dos velhos tempos, botou Paranoid pra rolar de novo. Já no começo, nafulminante guitarra de Seu Tomy, ele entrou arrotando violentamente. Percebeu que estava em forma.Deu um profundo gole em sua gelada e, no gogó do arroto, iniciou um improvável dueto com Ozzy Osbourne:

Finished with my woman 'cause she couldn't help me with mymind.

Ao fundo, o ranger de uma porta se abrindo atravessa o som como uma cuíca irresponsável de um chinês na bateria da Mangueira. Não demorou para que o pesado cheiro de merda escorresse por todo o ambiente.


War Pigs