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Porra nenhuma! Aquilo era tudo tipo. Tudo! Conhecia dezenas como aquele sujeitinho que agora falava enrolado em seu cachecol estiloso e óculos mamãe-quero-ser-gay. Tipo, nada mais. Como é que sua estagiária havia chamado um desses fulanos outro dia? Puta merda! Como? Não se lembrava. Ora, que se foda. O que sabia era que aquela figura super-cool que agora falava sobre as novas tendências e a renovação da merda toda da música que ele ouvia, lembrava-o outra pessoa, uma garota ruiva e sardenta que não acreditava que ele ainda ouvia o que ouvia. Dizia assim mesmo, “ainda”. Iria então ele cuspir no prato que comeu? Garota cretina. Mas dava um caldo. Riu. E rindo acabou, sem querer, chamando a atenção da rodinha que estava formada em torno do entendido nas novas tendências musicais contemporâneas. -Você concorda ou tem algo a acrescentar? – perguntaram-lhe com ra de desdém e ele negou com um tranquilo balançar de cabeça. Falar o que? Fake de merda. Fake! Era isso que a estagiária havia dito: - O fulano é muuuuuuito fake. Riu ainda um pouco mais, quase se esquecendo de que não estava em casa e sim naquela sala onde não lhe era permitido ficar à vontade, pois se assim fosse já teria aconselhado o Mr. Fake a ir dar meia hora de bunda lá fora enquanto ele tentava traçar a loirinha que sentava com as pernaças de fora ao seu lado. Recolheu então o sorriso e num comedido gesto desculpou-se da interrupção à conversa enquanto percebia que a garrafa de uísque não estava mais na mesa. Ali, na mesinha de vidro rodeada por sofás de couro, agora, só vinho e espumante. Um nojo. Mr. Fake seguia em sua dissertação sobre as composições que ele via e percebia como vanguarda de uma nova era na música, salpicando seu conhecimento descolado com observações sobre os concertos que havia visto em sua última viagem pela Europa e América do Norte.


Falava assim mesmo: América do Norte. -Afinal, América é todo o continente, né? Inclusive a gente. Nós também somos americanos. É preciso que não nos esqueçamos disso. Foi a gota d’água. Pra ficar ali, só com mais uma dose. Mentira. Nem uma garrafa do mais puro Single Malt das Highlands o seguraria naquele sofá de couro sintético. Levantou-se num esforço que não estava em sua programação quando decidiu sentar-se ali só por causa da loirinha e suas pernocas esplêndidas – e também da garrafa de uísque, sejamos sinceros. Mas a moça, ao extremo oposto dele, encantava-se com o blablablá de Mr. Fake, bebericando uma fina taça de espumante enquanto ele observava seu copo que só não estava vazio graças a dois cubos de gelo que insistiam em ali permanecer como comunistas a pregar cartazes nos postes da Avenida Paulista. Era hora de deixar aquela roda de descolados. As pernocas com os estonteantes pelinhos descoloridos que o desculpasse. O blablablá não lhe descia bem com o uisquinho que circulava nalgum outro lugar daquela sala. Calculou ele então a força que deveria fazer para que se levantasse sem grande estardalhaço, mirou as distâncias pernaças-mesa-porta-estante-balcão-outra roda ao lado do piano-abajurpilha de objetos estranhos e se arremessou pra fora daquela conversinha mole. E o fez tão naturalmente que mal perceberam sua saída. Não havia perdido o jeito. Na outra roda, com outra dose a fazer companhia aos rebeldes cubos de gelo, não teve melhor sucesso. A conversa o cansou rapidamente com o agravante de não haver ali ao lado do piano pernas desnudas pra ele admirar como havia em torno de Mr. Fake. Dias cinzentos vivemos, ele pensou enquanto dava mais um profundo gole. Seria bom ter a estagiária ao seu lado naquele momento, pensou com outro sorriso – este mais comedido. Não queria beijá-la, burilá-la, comê-la. Queria apenas alguém que não fosse fake. Queria alguém pra conversar sem máscaras ou poses. Mentira de novo. Puta duma mentira! Queria era comer a estagiária. Muito. Até que as pernas ficassem bambas. Não sei dizer a que horas saiu ele daquela casa, daquela festa. Se antes ou depois de seu fim. Nem mesmo ele saberia nos dar tal informação pois só foi se lembrar que havia passado por


cima de Mr. Fake no outro dia, quando tomava o café da manhã na cama, lendo o jornal que estampava a notícia do atropelamento num canto da página do caderno Cidades. E riu da lembrança vaga, sentindo-se muito a vontade ao lado das pernaças desnudas da loira que lhe dedilhava o corpo com um sorriso cheio de sacanagem, perguntando-lhe se o café servido estava gostoso.

Happy End  

A falta de autenticidade e a mesmice transvestida de novidade irrita um sujeito que se vê numa reuniãozinha chata. Mas com um final feliz. C...

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