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l entrevista

Alex D’Alva Teixeira

‘Ao querer conhecer Deus

CONHEÇO-ME MELHOR’ Nasceu em Luanda, mas só há quatro anos é que Alex D’Alva Teixeira começou a descobrir «o africano que existe» em si, influenciado pelos amigos angolanos, entre eles Micaela Reis. Em 2012 estreou-se nos discos com Não É um Projeto e a sua música tornou-se conhecida em Portugal. Educado segundo a fé cristã, sente-se privilegiado por conseguir fazer música em casa e divulgá-la pela internet para o mundo inteiro Entrevista de Alexandra Ho Fotografias actuais de Miguel Silva

Cresceu em Portugal, mas nasceu em Luanda, filho de pai são-tomense e mãe brasileira. Essa diversidade cultural influenciou-o? Cresci na Moita [vila a cerca de 40 quilómetros de Lisboa], num meio pequeno, onde só viviam portugueses. Na creche eu e a minha irmã éramos os únicos afrodescendentes. Talvez por isso, senti primeiro o efeito da cultura brasileira. As novelas da Globo eram momentos sagrados lá em casa e a correspondência com a família do Brasil sempre foi mais frequente. A ligação com África surge mais tarde, já com 18 anos, quando começo a ter amigos que cresceram em bairros de famílias africanas. Como saí de Angola muito novo tive de encontrar o africano que existe em

mim e perceber onde posso existir dentro dessa cultura. O que descobriu? Sinto que ainda estou a descobrir… A primeira diferença óbvia foi o meu cabelo. Como cresci rodeado de punks, a ouvir hardcore e rock, desfrisava o cabelo para ter aquelas franjas lisas e compridas. Mas agora adoro o meu cabelo natural e não faz sentido usá-lo de outra maneira. Também quero aprender kimbundu e pedi ao meu pai para me ensinar, mas ele já não se lembra bem. EntãoternascidoemAngolanãoomarcou particularmente? Tornou-me logo um bocadinho vaidoso porque essa preocupação pelo lado estético é natural nos angolanos, um povo u


PURO LUSÓFONO

O MÚSICO com a irmã Aline, cúmplice nas brincadeiras de criança. Segundo Alex, a paixão pela música revelou-se muito cedo, com ele a pegar em qualquer objecto e transformá-lo em microfone (em baixo)

Como cresci rodeado de punks, a ouvir bandas de hardcore e rock, desfrisava o cabelo para ter aquelas franjas lisas e compridas

muito vaidoso. Sou amigo da Micaela Reis, crescemos juntos na Moita, e é engraçado perceber como, nesse aspecto, ela mudou desde que vive em Luanda. O mundo da moda também potencia isso, mas agora ela está em modo profissional 24 horas por dia. O local onde vives influencia-te sempre e se eu morasse em Lisboa ou Luanda acho que também ia ser diferente. Crescer num subúrbio é uma vantagem? A mim deu-me a autoconfiança que precisava para o que estou a fazer agora. Sempre fui o miúdo estranho da escola – apesar de ser afrodescendente não era fã de rap ou hip hop e, em vez disso, ouvia rock e imitava os looks das bandas que admirava –, mas isso acabou por ser uma vantagem. Se tivesse crescido numa cidade grande e houvesse mais pessoas como eu, provavelmente ia ser só mais um e não me destacava. Se calhar tive sorte, mas nunca fui discriminado por ser diferente. Bem pelo contrário. Fazia amigos porque os outros miúdos tinham curio-

sidade em conhecer alguém que não se vestia ou pensava como eles. Como nasceu a paixão pela música? Sempre foi uma coisa muito óbvia. Quando era pequenino a minha brincadeira constante era pegar em qualquer objecto que se parecesse com um microfone e ir para o quintal cantar. Imitava os passos do Michael Jackson e cantava com a minha irmã as canções todas das Spice Girls. Inventava músicas, nem que fossem sobre os desenhos animados. E como a minha mãe tocava guitarra clássica, quis aprender por causa dela. Quando essa paixão se torna ambição profissional? Não houve um momento decisivo, mas sim etapas. Foi um processo. Primeiro quis aprender um instrumento, depois percebi que conseguia escrever canções. Entretanto começo a ir a concertos e percebo que eu e os meus amigos podemos formar uma banda. Uma vez vi um grupo de hardcore que adoro, os Adorno, e quando fui para casa deci-

Ainda tem pudores em se autoproclamar músico, porque nunca aprendeu a ler uma pauta. A preguiça falou mais alto quando teve aulas de guitarra e, aprendidos os primeiros acordes, desistiu da formação musical. Preferiu ser autodidacta e descobrir quase tudo oque sabe sobre músicaenquantocriavabandas de garagem com os amigos. Na irmã mais nova encontrou uma cúmplice e ensinou-a a tocar baixo para formarem um grupo de hardcore. A paixão por este género musical valeu-lhe o rótulo de o ‘miúdo estranho da escola’ porque, apesar de ser afrodescendente, nunca gostou particularmente de rap ou hip hop. Mas Alex D’Alva Teixeira garante que esta individualidade só o beneficiou, potenciando a sua auto-estima. No seu código genético corre sangue brasileiro e são-tomense, mas foi em Luanda que nasceu, há 22 anos. Desde que saiu de Angola, com apenas um ano de idade, ainda não lá voltou, mas sente o desejo cada vez maior de aprofundar a sua herança africana. Para já faz música pop rock influenciado pelas referências ocidentais com que cresceu, mas a hipótese de o vermos um dia amplamente contaminado pelo universo lusófono que cerca a sua identidade é uma probabilidade. Até kimbundu ele já começou a querer aprender...

di que ia ensinar a minha irmã a tocar baixo para fazermos uma banda com outro amigo. Depois, com 17, tive uma banda de garagem e comecei a organizar festivais na Moita, na Quinzena da Juventude. Conseguíamos ter bandas a tocar na nossa terra com o pretexto de serem concertos solidários, com as receitas a reverterem para associações locais. E, claro, a minha banda fazia sempre a primeira parte. Os melhores momentos da minha adolescência foram esses concertos. Foi assim que conheci o Ben Monteiro [músico e produtor português com quem Alex trabalha actualmente]. Ele achou piada à maneira como tocava e quis produzir um EP para a banda. Mas entretanto a banda acabou e, uns anos depois, ele voltou a insistir para gravar as minhas canções e assim nasceu o EP Não É um Projeto. Cresceu a ouvir hardcore e teve inclusive umabandanesseregisto,osCastaFire,mas Não É um Projeto é pop. Como se deu a mudança?

Sempre fui o miúdo estranho da escola, mas isso deu-me autoconfiança para fazer música 20 l SOL

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Sempre fui um bocadinho ecléctico, mas a grande mudança dá-se quando aparecem os Cansei de Ser Sexy. Eles gostam de tudo e assumem que isso é super divertido. Aquela atitude salvou-me a vida porque havia coisas que não ouvia por vergonha. ‘Porque me estou a privar de gostar de música?’, pensei. Numa conferência no South by Southwest, o Dave Grohl [fundador dos Foo Fighters] disse ‘porque existem guilty pleasures e não apenas pleasures?’. Isso para mim faz imenso sentido. Eu tanto gosto de Bloc Party – e não é coincidência a minha música soar, por vezes, a Bloc Party – como de Madonna. E depois há aquelas coisas que gosto ironicamente, tipo ‘La Macarena’, ‘So Lo Se Vive una Vez’ e ‘The Rhythm of the Night’. Não tem então um estilo? Não sinto essa preocupação em me definir. Já passei por várias fases e ainda me sinto um pouco all over the place. Na brincadeira até costumo dizer que ainda nem arranjaram um nome para definir o meu estilo [risos]. Mas a verdade é que não quero ser só mais um gajo do indie ou do pop

rock e o único pormenor é ser preto. Podia ser invisível e a música ia existir na mesma. A música tem sempre de falar por si e a que estou a fazer com o Ben não tem uma receita. Assumimos que queremos fazer música pop, mas o objectivo é desafiar a sua estrutura, respeitando o género. Ando a ouvir imenso AlunaGeorge e aquilo é pop no seu melhor, mas contaminada de electrónica. A nossa música tem essas influências.

Não sinto a preocupação em me definir. Passei por várias fases e até digo que não inventaram um nome para o meu estilo Há elementos no disco de hardcore que soam a R&B, há influências dos anos 80, com muitos sintetizadores… Explorar tudo o que gostamos é libertador. Escrever canções é fácil? No início era uma coisa muito intuitiva, quase como um vómito de palavras. Cantava os meus desabafos, coisas imediatas que,

às vezes, até me ocorriam quando acordava a meio da noite. Anotava logo e no dia seguinte ia para casa de um amigo gravar, sem grandes revisões. Mas agora há um cuidado maior. Uma coisa que tenho aprendido com o Ben é nunca ficar satisfeito com o primeiro resultado e procurar sempre uma coisa melhor, quer seja na letra ou na melodia. Tenho um caderno cheio de ideias e depois, com a ajuda dele, vamos buscar as melhores frases e trabalhar sobre elas. De onde vem a inspiração? Comecei a escrever a sério quando a Mafalda Veiga lançou o Na Alma e na Pele e passei dias da minha adolescência a ouvir esse disco e a tirar notas. Os outros povos lusófonos têm dificuldade em apanhar a forma como osportuguesescantam,mascom a Mafalda Veiga parece que o português escorrega. Não sei se é por ter uma mãe brasileira, mas sinto que também tenho essa característica. Quando escrevo uma canção não quero que ela seja só minha. Quero que as outras pessoas oiçam o tema e se relacionem com ele. Uma das melhores coisas que u 5/04/13 SOL

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já me aconteceu foi na altura em que se usava muito o MSN Messenger e percebi que uma miúda no Alentejo [no Sul de Portugal] usava uma frase de uma letra minha para se apresentar no chat. Isso é o meu objectivo, que as minhas canções passem a ser de outras pessoas. Grava tudo em casa. É o futuro? Um dos maiores triunfos da minha geração é a possibilidade de fazer tudo em casa. Posso gravar os meus CD, divulgar a minha música na internet, criar a minha editora, fazer a minha revista… As possibilidades são imensas. Mesmo assim sinto que não estou a usar a internet em toda a sua potencialidade, não só por ignorância mas também por preguiça, o meu maior defeito. Um músico hoje tem de estar a par destas tecnologias? Sempre usei a internet para expor tudo o que vou fazendo, quer seja uma maquete, uma música solta ou um disco completo. O Não é um Projetoestá online [http://florcaveira.bandcamp.com/album/n-o-um-projeto] e as pessoas podem ouvir, comprar, mandar-me um email com a sua opinião. Isso aproxima público e artista. Há pessoas, que

Sou um cristão muito preguiçoso. Não leio tanto a Bíblia quanto gostaria e devia passar mais tempo em oração só conheço por causa da música que estou a fazer, que me abordam na rua. Até digo a brincar ‘são os meus fãs’, mas a verdade é que são amigos que entretanto fiz por causa da internet. Respondo a todas as mensagens no Facebook e, muitas vezes, começamos a falar e nascem amizades. Não me quero tornar numa super-estrela e acho bestial esta proximidade. Quem me dera a mim poder falar com os meus ídolos. Por isso quero transportar isso para a minha carreira. Não há necessidade de me alienar. Cresceu no seio de uma igreja evangélica porqueosseuspaiserammissionários.Hoje ainda é praticante? Os meus pais educaram-me na Assembleia de Deus – em Angola é a Igreja do Maculusso –, mas na adolescência tive de perceber por mim próprio se me identificava realmente com aquela igreja ou se lá ia só por causa dos meus pais. Encontrei essas

respostas na Igreja Baptista de Lisboa e decidi continuar a minha caminhada na fé ali. O que retira da fé? Ao querer conhecer Deus consigo conhecer-me melhor a mim próprio e ter um melhor discernimento de todas as minhas virtudes e defeitos. Tem muito mais a ver com a forma como lido com essa aprendizagem do que propriamente com a pessoa que sou. O facto de Cristo ter morrido na cruz faz-me acreditar que Deus me chama tal como eu sou, com todas as minhas falhas. É um processo de crescimento e sinto que ainda estou mesmo no início. Há muita coisa para aprender e melhorar, principalmente porque sou um cristão muito preguiçoso. Não leio tanto a Bíblia quanto gostaria e admito que deveria passar mais tempo em oração. A sua música reflecte essa crença?

A fé é algo que faz parte de mim. A forma como acredito em Deus e na criação é algo tão interiorizado que sai naturalmente. Tenho aprendido a falar de coisas mais pessoais sem as tornar tão óbvias e gratuitas e no disco que estou a preparar há pelo menos uma canção em que falo sobre fé sem ser directo. Acima de tudo, quando escrevo uma canção, seja ela sobre fé, amor ou amizade, quero ser o mais honesto possível. Tem formação em Design mas só está a fazermúsica.Profissionalmenteéporaquique quer ir? Neste momento estou a ter algum reconhecimento e há pessoas a prestar atenção à minha música, mas se um dia isso desaparecer sei que vou continuar a gravar canções, nem que seja no meu quarto, para pôr na internet. l alexandra.ho@sol.pt

Entrevista Alex D' Alva Teixeira - Revista Caju  

Alex D' Alva Teixeira entrevistado por Alexandra Ho, para a edição nº 112 da revista angolana CAJU, editada com o jornal SOL do dia 5 de Abr...

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