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Alexandre Camargo

revista do crefito-sp .outubro.2011

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Brincadeira Assunto de gen

orrer em volta do parque, malhar e até jogar uma inocente partidinha de futebol. Em maior ou menor escala, essas e outras atividades físicas são exercícios provocativos. O adjetivo assusta à primeira vista. Indica que algo provoca, excita, desafia. Com um significado um tanto quanto

pejorativo, esta palavra se refere às práticas esportivas que podem provocar algum tipo de lesão no praticante, ou seja, àquelas práticas que podem não ser tão salutares quanto se esperava que fossem. Dr. Nivaldo Vanderlei Baldo, presidente da Sociedade Brasileira de Fisioterapia Clínica e Esportiva

(Sobrafice), fisioterapeuta especialista em tratamento de atletas em geral e uma das maiores referências do mundo em exercícios provocativos, explica melhor. “O exercício provocativo pode ser provocativo para você e pode não ser para outra pessoa. A generalização é que tem atrapalhado. A intensidade e


de criança. te grande por Alexandre Camargo

o número de repetições são o que tornam uma atividade provocativa ou não. Por exemplo, se eu corro 10 km por dia e de repente passo a correr 40, então a corrida passa ser um exercício provocativo”, esclarece. Os alertas sobre os exercícios provocativos começaram na transição da década de 1970 para

a de 1980. Dr. Nivaldo concebeu uma lista com os exercícios provocativos que considera serem os mais comuns: agachamento, alongamento, caixa de areia, leg press, pilates e ioga. Vale ressaltar que em várias atividades, como no alongamento, pilates e ioga, os exercícios podem ser ótimos para

Jovens começam a praticar esporte cada vez mais cedo. Como orientá-los, educálos e protegê-los da melhor maneira possível dos reveses de uma equivocada iniciação esportiva?

revista do crefito-sp .outubro.2011

A professora de balé Flávia Gioia ensina o passo demi-plié para suas jovens alunas no Clube Alto dos Pinheiros, em São Paulo

algumas partes do corpo e péssimos para outras. Reiterando, o que não pode é generalizar. O ideal é que cada pessoa faça uma análise prévia de sua saúde e de suas condições físicas e tenha um acompanhamento diferenciado, seguindo suas necessidades e não [25] ultrapassando os seus limites.


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“MAMÃE, QUERO SER CAMPEÃO!”

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O assunto fica mais delicado quando pensamos nas crianças. Muitos pequeninos praticam esporte desde muito cedo para se divertir ou profissionalmente. Sirlene Cristina da Silva, mãe de Giovana, atleta profissional de ginástica olímpica do Sesi de Santo André, diz que sua filha “se preocupa muito. Se ela erra um exercício, fica tensa. Ela quer sempre se dar bem. Ela quer ser famosa e se cobra muito por causa disso”. Giovana tem nove anos. A fisioterapeuta Dra. Tatianna Baptistella Faro, especialista em Aparelho Locomotor no Esporte pela Unifesp e há dois anos no Centro de Reabilitação do Sesi de Santo André, diz que é essencial as crianças da ginástica serem acompanhadas por vários profissionais. “Além dos exercícios de fisioterapia três vezes por semana, as meninas são acompanhadas por uma médica e também por uma psicóloga”, completa. A pergunta a se fazer é: até que ponto essa precoce iniciação no esporte faz bem aos jovens? O tema já ganhou proporções maiores em várias partes do mundo, notadamente no país com melhor desempenho olímpico da história, os Estados Unidos da América, e vem ganhando a atenção no Brasil. Dr. Nivaldo engrossa a legião dos preocupados com o assunto e diz que os pais têm um papel crucial na educação esportiva das crianças e alerta para possíveis padrões de comportamento. “Os pais têm a ideia de que os filhos vão começar a treinar cedo e que serão grandes campeões. Não! Dizem ‘meu filho vai ser o melhor do mundo, vai jogar como o Messi, como o Franz Beckenbauer’... Não é assim”, exemplifica. O Clube Alto dos Pinheiros, em São Paulo, é um exemplo de local onde o lado prazeroso das atividades esportivas é bastante explorado. Maria Alice Leopoldo e

Ginastas do Sesi de Santo André durante sessão de treinamento

O professor de educação física Marcelo Volpiano supervisiona alongamento de alunas iniciantes na ginástica olímpica

Na balança... Benefícios e riscos físicos associados à participação de crianças em esportes BENEFÍCIOS

RISCOS

Promoção de crescimento físico

Lesões musculares

Estímulo do desenvolvimento motor

Trauma

Benefício cardiovascular

Osteocondrose (apofisite de tração)

Efeito positivo no perfil lipídico

Fratura

Redução do risco de diabetes melito tipo 2

Disfunção menstrual

Incremento da massa óssea

Escoliose

Aumento de força e massa muscular

Tendinite

Fonte: Artigo “Impacto da atividade física e esportes sobre o crescimento e puberdade de crianças e adolescentes” (2008). Por Crésio Alves e Renata Villas Boas Lima


Silva, coordenadora do clube das áreas de Balé Clássico, Hip Hop, Ritmos Latinos e Dança de Salão e professora de balé há 27 anos explica que para as “crianças pequenas há muito trabalho através de aulas lúdicas que exploram o lado cognitivo”. Crianças a partir de quatro anos podem ser vistas durante as aulas de balé saltitando, divertindo-se e aprendendo. Dr. Nivaldo indaga e elucida. “O que fazer se você tem uma criança que faz uma atividade muito bem? Proteja-a”. Em competições profissionais todos estão passíveis de dores, de traumas, de contusões. Marcelo Volpiano, professor de educação física há 25 anos, especialista em ginástica olímpica e professor do Sesi de Santo André, diz que “as lesões acontecem quando o esporte chega no alto rendimento. Isso é um fato.” O que deve ser feito, segundo ele, é “um trabalho preventivo com preparação física específica pra evitar lesões”. Dra. Tatianna cita a importância do Programa Preventivo realizado com as ginastas do PAF do Sesi. “A presença do //Na internet:

Dr. Nivaldo Baldo em sua clínica, em Campinas

Mens sana in corpore sano Um estudo feito em 2001 pelo Dr. Daniel Gould, da Michigan State University, chamado The Development of Psychological Talent in U.S. Olympic Champions, traça o perfil psicológico do campeão olímpico norte-americano e mostra que as crianças podem se tornar grandes atletas se receberem incentivo, apoio, respeito e confiança recíproca de seus pais e/ou treinadores. Isso demonstra que o fator psicológico é determinante na empreitada de jovens ao sucesso profissional no esporte. Patrícia Braga, professora do Sesi, explica que o amadurecimento psicológico é gradual. As crianças passam a assimilar melhor o esporte depois que passam por dificuldades. “Nem sempre você ganha, tem que saber lidar com algumas frustrações também”, diz.

fisioterapeuta no trabalho com as crianças em iniciação esportiva é fundamental, pois os conhecimentos teóricos e práticos de anatomia e biomecânica ajudam a evitar lesões que porventura possam afastar as ginastas dos treinos”, diz. Corroboração seguida por Dr. Nivaldo. Segundo ele, “para melhorar a situação tem que ter fisioterapia ao alcance de todos. Sem exclusão. O Brasil só vai melhorar quando tiver em cada centro de saúde, em cada escola e em cada clube vários fisioterapeutas para orientar.” E continua: “Não adianta fazer basquete, por exemplo, se o menino tem uma escoliose. Com todo o respeito aos colegas profissionais, isso não é do médico e nem do professor de educação física. É do fisioterapeuta”. É por esse caminho, cercandose de todos os cuidados e orientados por profissionais capacitados, que as crianças têm que ser guiadas para praticarem esportes se divertindo e, quem sabe no futuro, serem fonte de inspiração para jovens de outras gerações.

PAF (Programa Atleta do Futuro) do Sesi: http://www.sesisp.org.br/sesiesporte/programa.asp Clube Alto dos Pinheiros: http://www.clubeap.com.br

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Patrícia Turina Braga, professora de educação física no Sesi de Santo André

Fotos Alexandre Camargo

“O Programa Atleta do Futuro (PAF) do Sesi tem cinco fases e trabalha com crianças de 6 a 17 anos. Aquelas que forem se destacando a partir de um certo nível técnico passam para o nível PAF Treinamento que é uma preparação desses alunos para um possível ingresso nas turmas de rendimento”

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Brincadeira de criança. Assunto de gente grande