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Frame de violento. por Pablo Bernardo

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[verso 1]

PRETO

[refrão - 2x]

Douglas Din

Lá vamos nós, fazer nosso serviço de preto! Graveto e força! Prata da casa de Gaza e gueto. Gaze, Soweto. Nazis, sou Eto’o. Soul, James. Bonde dos que vão de metrô. Retrô no tratar dos games de rua. No pique esconde a “bolsa de valores”. Em hipótese alguma a ciência implanta respeito por prótese. Em prol da tese da união. Um! E hão de convir que pela escravidão tamo dispensando a dó. Esse é meu acordo com outras castas, outros bastas! Não apelar pra cordas normais, se as vocais tão gastas. Gosto do gesto, amar ao próximo que não aproxima. A próxima da mente de quem se acha por cima é re-baixar o tom de voz, clarear meninas. Mary KKK, pros banhados à melanina talvez funcione. Meu desespero é que sempre acham lobos que queriam ta na pele de cordeiro.

PRETO, MORENINHO NÃO, PRETO. PRETO, MORENINHO NÃO, PRETO. NÃO ME OLHA COM ESSA CARA POR CRIMES QUE EU NÃO COMETO.

[verso 2]

Porque quem não tem chicote caça com chacota ou boicota os serviços. Põe cota para negros e tricota com mestiços. Põe “petisco do cão” num olhar para os atrevidos dispostos a justificar a subida dos vidros dos carros, caros. Fase ridícula de quem sonha acordar, fim da pegadinha e cai a película. Não, não! Pega o rumo do norte! Aqui, até gato preto vai deixar de ser símbolo de má sorte. Morte ou o filho do racista me abana e a mente dele vira “capitania hereditária africana”. Já tinha o sonho de King, tenho outro; esse é bem mais modesto, é só parar de me olhar de um jeito escroto. Guarde sua grana e grama que come em pratos finos! Na fauna me enfurno, venço pelo eco dos hinos, via afro. Sem pegar “mão inglesa”. E o que levarem de você, reclame com a Coroa Portuguesa. 4


[verso 3]

A coisa ficou preta, é Esparta e mutante igual o Spike. Li nos olhos da tempestade a coisa certa a fazer aqui. No “strike” dos pinos de coca vi que negatividade não vem de cor. Que só eu posso e me denegri no sol de meio-dia, que vai onde o branco é luto. Lógica colonial. Aqui é o mesmo estatuto. Estado bruto! To correndo, não corando. Nem moreno, nem mulato! Trato de ir me movendo. Não to morando nesse corpo, namorando essa cor, sou ela, “fellas”! O lado negro da força, pontinho preto das telas. Reis e rainhas, do sertão a tribo! Ativo nas relações horizontais que dependem se é morto ou vivo. Procurado, agora pra cura. Revisão do acordo! De acordo com a cor da situação, acordo todo mundo que odeia o Chris e os que até o esqueleto sabem que são fodas em um único tom de preto!

Douglas Nascimento da Silva, mais conhecido como Douglas Din, ou somente Din, é um dos grandes MCs brasileiros da atualidade. Seu caminho se confunde com a história do “Duelo de MCs”, projeto que ocupa o centro de Belo Horizonte desde 2007. Filho das batalhas que acontecem no palco do Viaduto Santa Tereza, Din já venceu dezenas de vezes o encontro de todas as sextas. Sua performance nos palcos ganhou cartaz Brasil afora e seu talento lhe garantiu, entre outros feitos, o vice campeonato da “Liga dos MCs”, em 2009, do “Duelo Sangue B”, da MTV, em 2011, e o título de campeão do “Duelo de MC’s Nacional”, em 2012 e 2013.

Foto: Divulgação

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Fotos: Arquivo familiar

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um corpo. sustentar um corpo. sentir. o verbo nunca foi minha melhor expressão, parado meu corpo nunca se sentiu bem, quando fico cansado fisicamente eu choro, quando não consigo falar eu vomito, eu tremo por dentro, sinto febre quando ansioso e a cada dia esse diálogo segue... um corpo é um universo. essa afirmação me movimenta! carrego comigo desde criança uma frase, daquelas que não se diz muito, mas ela tem atravessado todos os meus trabalhos: ‘o caminho pras estrelas é para dentro.’ e nessa imensidão de corpo, universo, caminho, estrelas... sinto que meu interlocutor começa a entender a viagem. violento. um trabalho, uma trajetória, um diálogo em curso. uma imensidão pouco explorada, mas em exercício constante de investigação. um desejo enorme pelo encontro. e que o contato entre esses vários universos possa fruir um novo caminho. preto amparo 7


APRUMAR BACURI DE OMENHA, PRA QUIANDE KAMANO KÁ. é preciso deixar o corpo forte, pra também se tornar doce.

Calunga ou Kalunga tem sua origem histórica predominante nas culturas Bantu, cujas línguas influenciaram decisivamente o idioma que se fala hoje no país. Ligada às crenças e ao mundo dos ancestrais, pois deles vinha força, era o vocabulário secreto utilizado pelas pessoas negras escravizadas.

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Foto: Luana Gonรงalves

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TEMPO

Luana G

Chegamos na cidade de Maré, interior do Maranhão. Eu e Malí. Viemos pagar uma promessa que fizemos a Nanã Boroquê. Há 20 anos atrás Malí engravidou de Saraí e os orixás nos avisaram que o parto seria difícil, mas que deveríamos entregar a vida da criança aos cuidados de Dona Nanã. Naquela época, não tínhamos dinheiro para nada, o pai de Saraí era marisqueiro e o conhecemos em uma viagem que fizemos a Maré, em 2017. Depois entendemos que aquela viagem era para cumprir o destino de trazer Saraí ao mundo. Malí engravidou dentro de um manguezal e virou mãe solteira. Naquele quando, ela estava desempregada e contava apenas comigo e com sua irmã mais velha que dividia o pouco dinheiro da família com o tratamento de saúde do pai que foi um preto tão ruim em vida, que até a morte o ignorou por muitos anos. Depois que ele morreu eu fui morar com elas e, juntas, criamos um lar para Saraí. Juntas que sobrevivemos aos desafios do início dos nossos 30 anos. Eu saí de casa aos 22 anos de idade, ganhei o mundo e fui morar na capital. Minha vó era zeladora do asè e cuidou da nossa ancestralidade fazendo com que toda a família aprendesse os ensinamentos dos orixás. Quando pequena eu fazia minhas obrigações no terreiro sem muito entusiasmo, mas tinha o máximo respeito pela minha vó e por sua intimidade com o sagrado. Minha vó era uma mulher misteriosa, muito amorosa e de grande sabedoria. Ela morreu aos 87 anos e dela herdei o saber da roça, a obediência ao sagrado e uma samambaia de estimação. Dias depois do enterro dela achei um bilhete nas folhas da samambaia, e o tom das palavras parecia mais um ‘até logo’ do que uma despedida: Filha, São tempos violentos. 12

Conecte-se com o sagrado feminino e nunca se esqueça que é filha da mãe vento. Se conheça e assim poderá decidir quando soprar, quando ventar, quando ser brisa ou ser furacão. Estamos todas na guerra pela paz, seja aqui ou em espirito. Pense em como quer envelhecer e faça suas escolhas. Estarei torcendo para que enxergue além do que vê e aprenda sobre o mistério da vida. Vibre alto e aprenda a se curar sozinha. Mantenha a sua luz acesa. Pratique a fé para conseguir ouvir as respostas e melhorar suas perguntas. Se preocupe em ser e não em ter. Não se esqueça que o mau existe. Trabalhe duro e pare de errar. Boa sorte. te amo pra sempre... Desde sempre minha vó conversava com os encantados e sabia exatamente o dia que ia morrer. Preparou sua passagem entregando a mim uma receita para cumprir a minha missão na terra e sempre que leio o bilhete penso que ‘boa sorte’ significa ‘fique atenta, tudo pode dar muito errado’. Foi nessa época que conheci Malí. Oxalá encantou minha vó e me deu Malí para me ajudar a cumprir minha missão. Malí parecia ter sido criada pela minha vó, mesmo sem nunca ter conhecido vó Dica. Ela sempre cuidou dos seus santos com zelo e devoção, sabe fazer biscoito de polvilho e sabão de gordura, sabe receitas caseiras para a pele não rachar no inverno, faz hidratação no cabelo com cenoura e pó de café, socou farinha no pilão quando pequena e não come sem arroz e feijão. A hidratação no cabelo com cenoura e café ela faz até hoje, no auge dos seus 50 anos de idade. Eu e Malí nos amámos como irmãs, brigamos como


DE

Gonçalves

amantes e seguimos juntas, há mais de vinte anos, como almas gêmeas. Para ela, nós nos amamos como amantes, brigamos como irmãs e cuidamos uma da outra como almas gêmeas.

- Não, Mali... não tô vendo. Mas eu confio em você... se você tá vendo é o que importa. Desce rápido e deixa o presente dela lá.

quer que ela esteja. Gratidão por ser ela minha vó da terra. Peço também pela mãe natureza, nossa mãe maior. Agradecemos a vida de Saraí e em nome dela peço agô por nossas crianças. São tempos de aprender com os velhos para ensinar as crianças. Logo seremos nós, as velhas. Acolha nossas avós do campo e das matas que sofrem com o homem branco. Por favor, nos ajude a envelhecer com lucidez e nos deixe batalhar por nosso povo até o último dia das nossas vidas. Receba esse presente com amor e fé.

- Olha lá... é ela, Nanã Boroquê! Vamos juntas?

E assim foi...

- Não... vai lá. Foi você quem fez Saraí nesse mangue então é você quem vai entregar o presente.

Pagamos a promessa e voltamos para contar essa história a Saraí, que nunca soube das dificuldades do parto e nos recebeu com um feijão fresquinho e muito animação para ouvir sobre a viagem. Minha vó sempre dizia que a gente não nasce sabendo rezar e que é preciso aprender, por isso eu e Malí contamos nossas histórias do asè para Saraí com muita imaginação para ela aprender e sempre comunicar com o mundo de lá...

- Acorda... Já Chegamos! - Chegamos? -Sim. Olha lá ela sentada no meio do mangue. Tá vendo?

- Vou deixar o presente ali, perto das flores. Vou voltar sem olhar pra trás. Vou firmada e você fica aqui, firmada, agradecendo por nós. - Não... espera. Coloca o presente aqui entre nós e vamos rezar juntas, depois você entrega. - Tá! Vou pegar a foto de Saraí e deixar perto do presente. Ela não veio mas sabe que estamos aqui.

Depois do jantar, Saraí nos colocou em seu colo e com o mesmo tom de seriedade e amor que encontrei no bilhete de morte da minha vó, nos revelou que estava grávida

- Segura minha mão.

- Fiquem animadas... vocês serão vovós!

Vó! São tempos violentos. Com seu colo de vó, acalme nossas aflições e nos mostre como seguir nossas vidas. Desejamos sua sabedoria, a força do seu barro e o perfume das suas flores roxas. Do seu barro sai vida ....! Abençoe todas as mães e avós desse universo. Faça chegar uma parte dessa força até minha vó Dica, onde

Luana Gonçalves é pássaro preto que canta o que ouve de Aruanda. Aprendiz na escola da capoeira e nos ensinamentos da umbanda, pesquisa saberes tradicionais em comunidades quilombolas. Filha de Oxossi que tem muita fé em Nossa Senhora do Rosário. Salve Maria! 13


Foto: Alexandre de Sena

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ELE

Michele Bernardino

(off ) -Para qual lado você vai olhar? - Qual desses signos mais te feriu? -Isso te machuca de alguma forma? - Você precisa sair dai, terminar de atravessar a rua antes que algum carro buzine pra você. Aquele menino precisava falar, dizer sobre seus afetos, desejos, sonhos e vontades. Aquele menino já nos diz com o olhar. E você escuta? Consegue enxergar? O menino deixa um recado colado na geladeira antes de sair de casa: “MÃE, fui dominar o mundo, logo estou de volta”. Prepara sua mala, e tudo cabe no bolso da bermuda verde musgo. Veste a camisa e sai para sua caminhada. A via está vazia. A estrada é reta. Ele caminha, e ao seu lado só se vê... Nada se vê. Olha para trás e a imagem da sua casa não se faz mais presente. O dia é nublado, naqueles tempos o sol parecia estar com medo e vivia se escondendo por detrás das nuvens. O asfalto contrasta com seu tom de pele: Preto. Como se o pretume do chão subisse por todo seu corpo. Sua negrura reluz em meio ao cinza ao seu redor. Com seus pés sujos, não perde o ritmo na busca daquilo que ele ainda não sabe nada a respeito: de seu cheiro, cor, som e tato. Só se escuta o chiado de seu peito e aquela respiração alta e pulsante. Sente que suas vozes internas precisam tomar espaços maiores e as pessoas precisam ouvilas. Compreende-las. Ele corre no impulso de que nos

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próximos sete passos encontrará uma comunidade, ou praça com pessoas dispostas a escuta-lo. Porém, é distraído da sua ação ao se deparar com uma única rosa na beira da estrada, a sua direita. A sua cor vermelha chama atenção e ressignifica aquele espaço da trajetória. Ela surge como um agrado e os dentes do menino resolveram criar vida. Ele sorri e se dá de presente tempo para respirar. Suas pernas trémulas da caminhada se dobram. Já sentado no chão ele coloca em sua frente a rosa, e tudo que havia colocado no bolso antes de sair de casa. Aquele momento é seu. O milho de pipoca, o amuleto e ervas o leva a um espaço, tempo e fé que ele sempre precisa retornar para renovar suas forças. A brisa o abraça como um amém. [tempo] Após tirar os espinhos da rosa, e o cansaço do corpo se levanta com o bolso cheio daquilo que diz sobre si. O menino caminha, enquanto não é preciso correr, até chegar à encruzilhada que o revelará novas possibilidades de destinos.

Michele Bernardino rabisca palavras e canta para ampliar sua percepção de si. Além dos sonhos, desejos e afetos que constituem o seu corpo de mulher negra, também é atriz formada pelo Palácio das Artes e mantém sua pesquisa na UFMG, a fim de compreender o teatro negro nos palcos e sala de aula.

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Foto: Del Lopes

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ARAURUM

KIM

Adão Dãxalebaradã

KIM

Eu sou doce como mel Pôncio Pilatos lavô a mão Eu sou muito antes De Tutankâmon Araurum quinquim Eu sou de Oxoguibô Araurum quinquim Ói Agô Mojubá Olodumaré Xangô rei de Oyó Segura a brasa com a mão Olha a Grécia não era Grécia Nem China nem Japão era Japão Namibia, Nigéria, Muçambique Ê, não tem Naná Em Nova Guiné Araurum quinquim Eu sou de Oxoguibô Araurum quinquim Ói Agô Mojubá Olodumaré

Adão dos Santos Tiago (1955/ 2004), o Adão Dãxalebaradã (“princípio, meio e fim” em iorubá) foi um cantor, compositor e ator carioca, autor de mais de 500 músicas, todas ligadas a temas espirituais de religiões afro-brasileiras. Poeta do Morro do Cantagalo, Rio de Janeiro, foi apresentador do programa “Zumbi Vive”, no perído de 1997 à 1999, numa rádio comunitária da favela. Preso a uma cadeira de rodas, vítima de dezenas de tiros recebidos durante a vida, é o guia do documentário “Adão ou Somos Todos Filhos da Terra”. Participou do filme “Cidade de Deus” mas não resistiu a frágil saúde e morreu antes de completar 50 anos, logo após o lançamento de seu único CD. Foto: Divulgação

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Frantz F

D E S A PA R E C E R P O U C O A P O U C O N A L DE SUA POTÊNCIA DE FOGO, O INIMIG DE ENTÃO NÓS É QUE O PERSEGUIMO MOMENTO MESMO EM QUE ELE CRÊ Q UM MEIO DE NOS COLOCARMOS EM S O INIMIGO IMAGINA PERSEGUIR-NO

O INIMIGO IMAGINA PERSEGUIR-NO UM MEIO DE NOS COLOCARMOS EM S MOMENTO MESMO EM QUE ELE CRÊ Q DE ENTÃO NÓS É QUE O PERSEGUIMO DE SUA POTÊNCIA DE FOGO, O INIMIG D E S A PA R E C E R P O U C O A P O U C O N A L

Frantz F

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Fanon

L A M A . N Ó S C A N TA M O S , C A N TA M O S . GO DÁ A IMPRESSÃO DE CHAFURDAR E S. APESAR DE TODA A SUA TÉCNICA E Q U E E S TA M O S L I Q U I D A D O S . A PA R T I R S U A R E TA G U A R D A , G O L P E A N D O - O N O OS MAS NÓS ENCONTRAMOS SEMPRE

OS MAS NÓS ENCONTRAMOS SEMPRE S U A R E TA G U A R D A , G O L P E A N D O - O N O Q U E E S TA M O S L I Q U I D A D O S . A PA R T I R S. APESAR DE TODA A SUA TÉCNICA E GO DÁ A IMPRESSÃO DE CHAFURDAR E L A M A . N Ó S C A N TA M O S , C A N TA M O S .

Fanon

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Frame do curta “O tigre e a Gazela”, de Aloysio Raulino (1976)

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HOMEM NEGRO Masculinidade negra, em

João Víctor Mar

Sim. Homem negro sente dor. Homem negro sente medo. Homem negro sente apreensão. Homem negro sente dúvida. Homem negro sente insegurança. Homem negro sente incerteza. Homem negro sente tristeza. Homem negro sente saudade. Homem negro sente desesperança. Homem negro sente falta de autoestima. Homem negro sente solidão. Homem negro sente vergonha. Homem negro sente dificuldade. Homem negro sente isso tudo porque homem negro é uma pessoa humana em primeiro lugar. Só que o mundo quis que você esquecesse disso. O mundo quis que o próprio homem negro esquecesse disso. O mundo quis que não se refletisse sobre isso. O mundo quis que a própria militância negra por vezes se esquecesse: o homem negro sente dor. Esse texto tem a intenção de tencionar nossas préconcepções para que a gente consiga repensar nosso cotidiano e, inclusive, nossa militância. Mas a intenção primeira é que essa discussão ajude a libertar os sentimentos que se prendem e nos aprisionam em nós mesmos. A ideia de pensar sobre isso tudo vem de muito tempo de militância, estudos e de muitos diálogos com pessoas negras e brancas e das minhas próprias sessões da terapia, que se revelaram como algo que fundamental para eu me entender e, pela primeira vez na vida, me aceitar como pessoa. Existem algumas discussões urgentes que a militância negra têm avançado brilhantemente em denunciar para a sociedade e expor em relação aos homens negros, sendo que duas se destacam, ao meu ver. Em primeiro lugar o genocídio da juventude negra e pobre e em segundo lugar a hiperssexualização do homem negro, revelada brilhantemente na obra Pele Negra 26

Máscaras Brancas de Franz Fanon. Mas não é sobre isso que quero falar aqui. Quero expor a insuficiência de se tratar somente essa temáticas, porque a vida de homens negros tem MUITOS outros aspectos muito mais cotidianos que o racismo toca, machuca, fere, do que a violência policial direta e a hiperssexualização. Sendo assim, busco aqui ir além. Caminhar para um lugar que em tempos e tempos de militância, ainda não tive acesso. O lugar dos sentimentos, das emoções, das dores e angústias dos homens negros. Em suma, não quero falar sobre o genocídio da juventude negra por parte da polícia, mas do MEDO que o homem negro tem de andar na rua e sofrer uma abordagem policial. Não quero falar sobre a hiperssexualização dos CORPOS de homens negros. Não quero falar disso porque somos muito mais que corpos. Quero falar sobre a INSEGURANÇA, a VERGONHA, a APREENSÃO dos homens negros por serem hiperssexualizados e da consequência disso para seus relacionamentos amorosos. Precisamos libertar, mais do que nossos corpos, nossas mentes e corações para que consigamos viver mais seguros de nós. Há duas outras questões que são centrais para se entender o estar do homem negro no nosso contexto: 1) a história sempre repetida de que temos que ser “duas vezes melhores” e 2) a necessidade imprescindível de nunca podermos errar porque já esperam o pior de nós. Essas considerações carregadas por pessoas negras levam a duas grandes ciladas emocionais: a primeira é a prisão que nos colocamos de concorrermos constantemente com todas as pessoas ao redor e nunca estarmos satisfeitos com nós mesmos. A segunda, que corrobora com a primeira, é carregarmos sempre a imagem de quem nunca erra, de quem sempre


O SENTE DOR? moções e o cuidado de si.

rtins Saraiva está seguro de si e em todos os campos da sua vida, carregando uma estabilidade profissional, afetiva e emocional inviolável. Em outras palavras, o negro acaba por ser, mais uma vez, desumanizado, como se operasse como uma máquina, e não como uma pessoa humana com suas emoções e controvérsias inerentes à vida. Uma vida, por vezes, muito sofrida, de um cotidiano muito doido desde a infância, com muitas situações que nos afetam. Mas o que nos afeta? O que nos afeta, muitas vezes, são traumas advindos de cotidianos complicados desde a primeira infância e de como isso impacta nossas relações com nossas mães e pais. Nos afeta o fato de que desde criança a gente é visto como os mais feios no grupo de amigos. A nossa pele é vista como suja. Nosso cabelo não serve para os cortes de cabelo da moda. Nosso corpo não agrada a nenhuma das meninas, nenhum dos colegas, e, consequentemente, o que somos não agrada a nós mesmos. O que nos afeta é a tristeza, porque nós somos vistos pelos professores como bagunceiros por mais que não estejamos envolvidos em brincadeiras na sala durante a infância. O que nos afeta é a dor de termos que aceitar as “zoações” que falam sobre a gente e sobre o nosso corpo para sermos legais. Também nos dói muito quando nós entramos no ônibus e muitas vezes ninguém quer sentar do nosso lado mesmo com o ônibus cheio. A gente anda na rua e, por vezes, pessoas escondem a bolsa, se assustam conosco, nós temos insegurança sobre o que podemos fazer ou não nos lugares. e isso também nos machuca durante o dia todo.

Essas situações são só exemplo de que: sentimos DOR. Sentimos MEDOS cotidianos. Sentimos inseguranças, por vezes, pavor. Carregamos muitas vezes uma baixa auto-estima e não acreditamos que possamos de fato sermos bons, por mais que tenhamos companhias afetivas que reiterem isso e por mais que recebamos elogios constantes, inclusive a beleza física ou intelectualidade. Nossa autoestima fica despedaçada com tantos danos cotidianos ao longo do tempo. Fica difícil, quase que impossível, de acreditarmos de fato em nós mesmos. Falar de homem negro é falar desses machucados que se fazem presentes em quase todas as relações sociais. É falar de inseguranças que nos cortam internamente POR MAIS QUE PAREÇAMOS MUITO SEGUROS DE NÓS MESMOS. Um dos piores fatores é o fato de que a consciência racial não nos liberta, muitas vezes, desses constrangimentos. Sim, nós tomamos consciência de que muito do que sofremos advém do racismo, encontramos um porquê que explica as coisas que passamos e começamos a questionar e enfrentar essa realidade. O enfrentamento, entretanto, não é necessariamente libertador. Vejo que nossas vidas se tornam gatilhos cotidianos. Temos medos, apreensões do que pode nos acontecer desde quando planejamos nossos dias ao sair de casa, desde quando escolhemos a roupa para sair. Andamos na rua com medo das pessoas se assustarem, preparados para o enfrentamentos e esse sentimento existe com as pessoas se assustando ou não. Isso se repete para quando entramos nos ônibus, entramos na sala de aula, no local de serviço, com nossas companhias afetivas, no próprio cotidiano familiar. É como se nós, tal como nossos antepassados, ainda andássemos com correntes, mas correntes mentais, que nos aprisionam, 27


dificultam nossa caminhada, pesam nosso corpo, nos estressam, nos deixam mal. Questionamos todos os lugares como se lugar nenhum fosse lugar para nós porque temos sempre medo de algo acontecer. Assim, ao meu ver, a maior parte dos homens negros militantes não se sentem livres, nem mesmo seguros de si. Em pergunta bem direta, quantos desses, de fato, já desconstruíram para si a ideia de ter um pau grande? Talvez o militante negro tenha descoberto formas de sobreviver e conseguir se firmar, mas dificilmente se encontra negros militantes que ainda não se prendem a expectativa construída de ser um homem negro, permanecendo fechado sentimentalmente ou carregando ainda uma autoestima muito aquém do que deveria ser. A construção social é para que homem não chore. A expectativa sobre homem negro é que não haja nem mesmo espaço para isso. Nos apresentamos como pessoas firmes, seguras do que são, invioláveis, inquebráveis, que aguentam o mundo sem mudar a feição. Quantos homens negros “cabulosos” no seu entorno que carregam uma cara fechada? Sempre uma cara fechada? É como se, por conta dos machucados cotidianos do racismo, nos houvesse sobrado apenas a raiva, a revolta, a violência. Os homens negros não refletem sobre suas dores, e esse é o fato. São fechados para si e para os outros. Se fecham para outros homens negros também, como se tudo fosse quase que uma concorrência. Buscamos ser melhor que os homens brancos e que os colegas negros também. Não quero impor regras, cada um faz o que quiser de sua vida, mas O PROBLEMA É QUE ISSO NOS MATA . Isso nos mata diariamente. Claro que muitas vezes conseguimos conquistar muito, mas a qual custo emocional? A qual custo psicológico?

Foto: Gabrieu Algusto

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Ninguém se pergunta porque os homens negros não choram. Aliás, acredito que na militância, nós, homens e mulheres negras, choramos cada vez menos. Afirmamos o tempo todo que estamos tomando tapas na cara diários da sociedade, mas não refletimos sobre


nosso emocional. Precisamos falar sobre o não-cuidado de si do homem negro. De um isolamente emocional. De uma auto-exclusão. A gente agiu assim na vida o tempo todo como modo de defesa e até de ataque, mas não é pra ser assim. Na verdade, CHEGA DE SER ASSIM. Não que seja impossível de um homem negro ser uma pessoa sorridente, isso acontece e em nosso entorno temos vários e vários exemplos dessas pessoas, inclusive artistas. A reflexão aqui é para que pensemos o que talvez esteja atrás de muitos desses sorrisos? O lugar do homem negro que sorri, que brinca o tempo todo também é um estereótipo socialmente construído. O sorriso não quer dizer uma felicidade completa. Quantos sorrisos amarelos as pessoas negras usualmente não dão em suas vidas por não saber como se portar em situações de racismo? Homens negros precisam chorar e aceitar o lugar do afeto dentro de si e para os outros. Quem não cuida de si emocionalmente não consegue cuidar do outro de verdade. Quem ainda não conseguiu dedicar amor a si mesmo acaba por ter naturais dificuldades em ter segurança para amar outra pessoa. Isso significa que os relacionamentos amorosos dos homens negros já costumam ser, consequentemente, distorcidos, seja com pessoas negras ou brancas. É necessário que o homem negro encontre completude e amor em si para que um relacionamento mais estável de fato aconteça. Muito se indaga sobre homens negros que permanecem em relações muito danosas à eles emocionalmente, mas pouco se responde de maneira empática sobre os processos que o tornam dependentes de algum tipo de amor. Precisamos falar sim sobre o amor para o homem negro. Refletir sobre o amor dele para ele mesmo e dele para com os outros e outras. A discussão sobre os relacionamentos intra ou interraciais de homens negros precisam carregar uma reflexão muito mais honesta pensando o homem negro como uma pessoa

machucada, carente de um lugar do afeto, que tem sim suas construções, controvérsias e angústias. Pensar o amor tendo como dado essa realidade nos ajuda a entender vários outros fenômenos e problemáticas sociais que temos estudado há mais tempo  —  sem dispensa-los, é claro, da responsabilidade sobre suas atitudes. É urgente que haja lugares para que os homens negros se abram, falem, entreguem as emoções que engoliram e não expuseram por toda a vida, aprendendo assim com as feministas negras da importância disso. Que a militância possibilite esses lugares de compartilhamento de vivências até mesmo para sabermos que são vivências comuns. Mas, o fundamental, é que encontremos esses lugares em nós mesmos, nas pessoas ao nosso lado, nas nossas famílias. É importante que os homens negros consigam compartilhar principalmente com outros homens negros, sobre suas vivências e sentimentos. Uma coisa é fato: o medo não pode se prender em nós. As emoções têm de encontrar para onde ir. Falar sobre as emoções dos homens negros e buscar melhores caminhos para isso é conseguirmos abrir um espaço muito mais firme para se pensar sobre temáticas como: violência, paternidade, relacionamentos amorosos sem contar sobre a própria hiperssexualização e genocídio. Acredito que assim a gente consiga caminhar de modo muito mais leve, sem carregar as dores de tantos anos de solidão nas nossas costas. Precisamos saber admirar a grandeza do que somos. Por mais que o mundo diga o contrário, somos humanos em primeiro lugar, e o sentir faz parte do que a gente é.

João Víctor Martins Saraiva é Mestrando em Relações Internacionais — PUC Minas e graduando em Ciências Sociais UFMG. 29


Foto: Pablo Bernardo

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Foto: Alexandre de Sena

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Baco Exu do Blues

SENTEM MEDO DE MIM M E TA D E H O M E M M E TA D E D E U S E O S D O I S MEDO DE MIM SINTO QUE O MUNDO TEM MEDO DE MIM SENTEM MEDO DE MIM M E TA D E H O M E M , M E TA D E D E U S E O S D O I S MEDO DE MIM SINTO QUE OS DEUSES TÊM MEDO DE MIM

SINTO QUE OS DEUSES TÊM MEDO DE MIM MEDO DE MIM M E TA D E H O M E M , M E TA D E D E U S E O S D O I S SENTEM MEDO DE MIM SINTO QUE O MUNDO TEM MEDO DE MIM MEDO DE MIM M E TA D E H O M E M M E TA D E D E U S E O S D O I S SENTEM MEDO DE MIM Baco Exu do Blues 33


Violento. Lá fora. Um cara puxa a linha rubra que liga a sua vida ao carrinho plástico de polícia que o segue o olhar bem frito. O berimbau é o som da mente dele. Pensando tudo. Carro em foco, balde em foco rosas, pipoca, oração em foco Parece dizer Pó, da Terra. Semeio o cheiro na sua mente. Deixo o palco da cor. Pode ver, se violento sou A encruza dos fatores ta formada. deFUMA. Queima minha visão e bota fumaça em minha altura de olhar. Pra ver Prostrado encima dele, o cogumelo cresce, vem me dizer tudo que já vi e não sei aceitar. Talvez não saiba ver E ao não poder deixar de ver Encaro. Falo. Calo Agressivamente tranquilo, o corpo preto prevê cada ação com técnica e retidão Titubeio não E a luz te acompanha.

Elisa Nunes é arte-educadora, atriz e dançarina, pesquisa manifestações culturais brasileiras, vinculando o estado festivo ao aprendizado da brincadeira e da tradição. Cursa Licenciatura em Dança na Universidade Federal de Minas Gerais e compõe o elenco da Cia Espaço Preto de Teatro Negro.

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VIOLENTO : CORPO EM PERFORMANCE, CORPO EM C O M B AT E E E M E S TA D O L AT E N T E D E T R A N S F O R M A Ç Ã O E SUBVERSÃO Marcos Antônio Alexandre Faculdade de Letras – UFMG/CNPq

Violento. Um corpo crivado de memórias... Um corpo atravessado pelo tempo... Um corpo negro. Violento? Um corpo eivado de dor... Um corpo pronto para o combate... Um corpo negro. Violento... Um corpo negro... Um corpo negro em cena... Uma flor vermelha. Violento? Um corpo... Um sujeito... Um homem negro... Um corpo... Violento...

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Qual é a cor do corpo em cena? Qual é a cor do sujeito em cena? Quem é o sujeito em cena? Quais as identidades que estão por detrás deste corpo negro em cena? Quais são as suas representações? Estes e vários outros questionamentos estão por detrás da performance Violento, de Pedro (Preto) Amparo, sob a direção de Alexandre de Sena e que tem na equipe de construção e produção espetacular um coletivo de artistas negros. Pensar e refletir sobre as corporeidades negras tem sido uma necessidade para legitimar os lugares de falas da arte negra e dos sujeitos nela envolvidos. Um jovem negro (uma criança negra?) caminha com puxando o seu carrinho de polícia, cujo ruído da sirene vai ganhando todo espaço. Uma cena “bucólica” e “inocente”... Quantas crianças negras não brincaram e sonharam (ou sonham) em ser um policial por “n” motivos... “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro.” A inocência é colocada em cheque a partir do momento em que o jovem negro com um martelo destrói o seu carrinho em dezenas de pedaços com gestos irascíveis. Ação performativa que responde há séculos e séculos de opressão e cerceamento do corpo negro, da palavra negra, das identidades negras. Performance é ação, é transformação, é um chamado para a descolonização social, do corpo e da mente. O rap se configura como um ato performativo para ressignificar todo processo de violência e racismo que os negros enfrentam em todo território brasileiro. “O Brasil que respeita as diferenças.” Onde? “A nação democrática de todos e para todos.” Quando? As distintas formas de segregação que ainda cerceiam a cultura, a religiosidade e as potencialidades negras. Este corpo negro, este corpo de homem negro, evoca Ogum e se lava diante do olhar de seu público, um ato de purificação que assume infinitas leituras semânticas. Um chamado à ancestralidade, à vivência e à ressignificação do rito religioso. Violento? O corpo que fica branco com

a espuma de um sabão branco. Violento? O corpo nu de um homem negro que expõe o membro, que também é lavado, diante dos olhos do expectador. Violento? O negro fetiche que é erotizado no imaginário de muitos. O corpo negro exportação para o mercado do sexo. Violento? O corpo negro utilizado para o trabalho braçal. Violento. E o corpo do negro intelectual, fonte de saberes e de propagação de sua cultura e tradição? Violento. O que é e o que não é violento? Como a violência tem sido lida e manifestada nas corporeidades negras? “A carne mais barata do mercado é a carne negra.” Será? Em Violento, definitivamente, não! Este não é lugar ao qual Preto Amparo se deixa encaixar com seu manifesto artístico corporal. Rosas vermelhas que são distribuídas para os espectadores são o que ficam e são potencializadas em minhas reminiscências mnemônicas e emotivas... Ato de violência?... Eu guardo as minhas rosas vermelhas que vieram até mim pelas mãos de Pedro (Preto) Amparo, como ato de carinho e, simbolicamente, carregadas das energias do ato performativo vivenciado e corporificado, um ato vivo de transformação e subversão.

Marcos Alexandre é graduado em Letras pela FALE-UFMG, onde concluiu o Mestrado e o Doutorado. Realizou a pesquisa de pós-doutorado “Brasil e Cuba em diálogo: a cultura afrodescendente em cena”, no ISA – Havana/Cuba, e no PPGAC, da UFBA. Integra o Mayombe Grupo de Teatro. É bolsista do CNPq. Professor Associado da FALE-UFMG, onde atua na graduação e na pós-graduação e também ministra disciplinas para o curso de Teatro; coordena o NEIA – Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade, em parceria com o prof. Eduardo Assis, e o PLTA – Programa Letras e Textos em Ação, em parceria com a profa Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa. 37


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FICHA TÉCNICA

atuação direção

P R E TO A M PA R O ALEXANDRE DE SENA

assessoria dramaturgica preparação corporal

LEANDRO BELILO/CIA FUSION DE DANÇAS

assessoria trilha sonora ilustrações

ALINE VILA REAL

B A R U L H I S TA

C ATA P R E TA S O U Z A

registro em foto e vídeo

PA B LO B E R N A R D O

assessoria de imprensa

ALESSANDRA BRITO

produção

GRAZI MEDRADO

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V I O L E N TO E S P E TA C U LO @ G M A I L . C O M VIOLENTOPONTO V I O L E N TO E S P E TA C U LO VIOLENTO.

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Revista violento.  

Primeira publicação do espetáculo "violento." Edição 2018

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Primeira publicação do espetáculo "violento." Edição 2018

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