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Dulixo,

o ‘descartável’ se transforma em arte

- Literatura feminina - Capão Cidadão - Cacau Amaral - Abayomi Ateliê - Festival Uninove

“Os saraus são uma avalanche cultural”, diz Renan Inquérito


DISTRIBUIÇÃO Jornal em quantidade disponível na

Livraria Suburbano Convicto Rua 13 de Maio, 70 - 2o andar Bela Vista - São Paulo - SP CEP: 01327-000

EDITORIAL Olá amigos que torcem pela publicação do jornal Boletim do Kaos, estamos de volta. Agradecemos, em primeiro lugar, vocês! Que se mobilizaram e pediram a volta. Agradecemos as mensagens de apoio enviadas ao nosso novo patrocinador, que possibilita a confecção, prensagem e distribuição gratuita de 20 mil exemplares por edição. A mudança do jornal que circulou por nove meses em 2009 se dá, também, na equipe de trabalho. A edição do jornal passa a ser feita por Alessandro Buzo e a diagramação e arte ficam por conta do jornalista Alexandre de Maio, que antes também respondia pela edição do periódico. Na produção temos a fotógrafa Marilda Borges e a jornalista Jéssica Balbino, que assina as reportagens. Outros repórteres freelancers também podem participar. Para viabilizar o sonho de distribuir 20 mil exemplares do Boletim do Kaos – 20% no centro de 80% nas quebradas – contamos e agradecemos o apoio da Faculdade Uninove. A Suburbano Convicto Produções e a Uninove tem uma parceria desde o início do ano de 2013. Promovemos nas quatro unidades (Vila Maria, Memorial, Vergueiro e Santo Amaro) o ‘Sarau Suburbano é 10!’ com Alessandro Buzo, Tubarão Dulixo, poetas convidados e alunos. Além de oficinas de hip-hop (MC, break, grafitti e DJ). É a cultura de periferia na faculdade. E a troca com os alunos tem sido incrível. No segundo semestre, além da continuidade do Sarau, teremos quatro edições do Boletim do Kaos: julho (que você lê agora) outubro, novembro e dezembro. Torcemos pela possibilidade de continuação em 2014. É uma vitória de todos nós. Quem você quer ver na capa do Kaos de outubro? Mande sua sugestão para o e-mail: suburbanoconvicto@hotmail.com Boa leitura e vida longa ao nosso Boletim do Kaos. Alessandro Buzo Editor

Pontos de distribuição no centro de São Paulo.

Pontos de distribuição na periferia de São Paulo.

Ação Educativa Rua General Jardim , 660 - Vila Buarque, São Paulo.

SARAU O QUE DIZEM OS UMBIGOS!? Escola de Samba Unidos de Santa Bárbara Rua José Cardoso Pimentel,01 Itaim Paulista, Zona Leste. (11) 9740-9626/ 4754-2493 c/ Samara. oquedizemosumbigos.blogspot.com

Matilha Cultural R. Rêgo Freitas, 542 - República, São Paulo, 01220-010 Núcleo Bartolomeu de Depoimentos Rua Dr. Augusto de Miranda, 786. Pompéia. (11) 3803-9396 http://www.zapslam.blogspot.com

SARAU SOBRENOME LIBERDADE Relicário Rock Bar Rua Manoel de Lima,178. Bairro Jordanópolis, Zona Sul. (11) 5939-3134. levantecult.blogspot.com.br Suzano-SP Ponto de Cultura Círculo das Letras Rua Guarani, 979 - Jd. Revista Suzano-SP.

REDAÇÃO Jornal Boletim do Kaos Editor: Alessandro Buzo - Foto: Marilda Borges - Colaborador fixo: Jéssica Balbino Colaborou nessa edição: Érica Peçanha - Diagramação e arte: Alexandre De Maio Rua 13 de Maio, 70 - 2o andar - Bela Vista - São Paulo - SP - Cep: 01327-000 Fale com o KAOS: boletimdokaos@gmail.com

É fundamental a existência de um veiculo de comunicação que dê voz a esta parcela do Brasil que cada dia mais conquista novos espaços, porém ainda é excluída. Quando o assunto é comunicação de massa, principalmente através da via impressa, em um momento tão importante como este, quando avançamos e conseguimos diversas frentes e tantas possibilidades de representação perante diversos mercados, se faz essencial um jornal que dê vazão com sinceridade e autenticidade a cultura brasileira contemporânea urbana e rural. Todo meu apoio a esta iniciativa e vida longa a todos. EMICIDA


Dulixo, um poeta que recolhe o ‘descartável’ e transforma a arte Artista garimpa periferias, produz objetos a partir do lixo e questiona o conceito de ‘sustentável’ Por Jéssica Balbino Um caiçara maloqueiro e sonhador. É assim que Jefferson dos Santos, de 39 anos, conhecido como Tubarão Dulixo se auto define. De Marapé, em Santos (SP), resolveu subir a serra só para ver o que tinha no ‘alto’ do Brasil e entre um ‘trampo’ como eletricista e guia turístico no Estado de Tocantins, no Norte do País, descobriu o litoral da Bahia a pé com uma Ong – a Global Garbage – e encontrou o próprio ofício: recolher lixo e transformá-lo em arte. Foi a partir daí que começou a garimpar periferias e tornou-se um artista plástico que sobrevive de arte-educação, literatura e transformação social. Por estar onde a maioria das pessoas prefere ignorar: em meio àquilo que causa repulsa e nojo, Tubarão Dulixo já recolheu o ‘lixo estrangeiro’ deixado no litoral baiano e acredita que pode reciclar não apenas o que é descartado, como também o ser humano. “Gosto de expor, na escrita, meus melhores e piores sentimentos. Gosto de estar na rua e perto do mar”, comenta. Longe de rótulos como ‘reciclagem’ ou a palavra bastante utilizada: ‘sustentável’, Dulixo prefere acreditar apenas que está fazendo algo por uma mudança. “Escuto muito se falar em sustentabilidade, mas pouco se pratica. Tudo vai na contramão de um mundo mais sustentável, mas ainda se fazem campanhas, marketing e lobby. No entanto, as cidades são desenvolvidas para carros, ainda preferem usinas hidrelétricas como fontes de energia e se produz lixo como nunca. Constroem-se resorts, prédios de mais de 30 andares sobre áreas de preservação, mas ainda se pinta o quadro de sustentável porque tem gente que separa sim o próprio lixo, mas abastece o carro com etanol”, criticou. E para mudar esse conceito, Dulixo é um dos apresentadores do Sarau Suburbano junto com Alessandro Buzo. Nos encontros semanais, faz da poesia uma forma de conscientização e prepara um livro. “Já estou há um tempo nessa cena de sarau em São Paulo e muita gente me cobra o lançamento de um livro, mas eu sou devagar para caramba. Meu ritmo é caiçara (risos). Mas estou preparando um livro de poesias inéditas. Sou muito exigente quando se trata de por algo na rua, de ser um trabalho meu a ser consumido. Quero que seja algo bom e isso demora. Quero também trazer alguns amigos de Santos nas ilustrações e ainda estou estudando o formato, mas, logo menos estará por aí o ‘Vivendo entre os porcos sem comer da lavagem’”, contou. Mas a literatura não para. Tubarão Dulixo pretende fazer um livro coletivo, com poesias dos jovens para quem já deu oficinas na Fundação Casa durante dois anos. Por meio da Ong Ação Educativa, desenvolvia aulas de arte a partir do lixo e de poesia para os adolescentes que cumpriam medidas socioeducativas. A ideia é reunir os escritos e publicá-los. “Tenho muita coisa guardada, mas não é um livro meu não fui eu que escrevi, só vou organizar e fazer a curadoria, mas quero distribuir esse trabalho nas bibliotecas e escolas públicas”, almeja.

“Escuto muito se falar em sustentabilidade, mas pouco se pratica. Tudo vai na contramão de um mundo mais sustentável, mas ainda se fazem campanhas, marketing e lobby.”


VOZ FORTE DA NORTE

Entrevista Alessandro Buzo e Foto Marilda Borges Edi Rock dos Racionais Mc´s lança CD solo “Contra Nós Ninguém Será” Em uma terça-feira fria – 11 de junho de 2013 – recebemos na Livraria Suburbano Convicto, no Bixiga, um dos maiores nomes do rap nacional: Edi Rock, conhecido como Cocão entre os amigos. Ele chegou e nos presenteou com essa entrevista exclusiva em que fala sobre como começou a viver a música, o início do grupo Racionais MC´s, as primeiras gravações e o novo disco solo ‘Contra Nós Ninguém Será’. Alessandro Buzo: Cocão... Quem te chama de Cocão ? Edi Rock (ele começa a resposta rimando): Cocão pros amigos, E.D.I. pros mais loko... (Continua falando): É meu apelido desde pequeno, só que eles me chamavam de Coquinho porque eu era pivete, Cocão porque eu fiquei gordo (risos)... agora eu dei uma emagrecida, mas eu cheguei a pesar 100 kg, agora estou com 85 kg. Buzo: Quando você fala quebrada, ta falando do Ebron/Serra Pelada - bairros do extremo da zona norte de São Paulo? Edi Rock: É, de todas quebradas, desde a minha até as outras que eu visito por aí, tenho amigos. Buzo: Nos anos 1980 nascia na Estação São Bento algo que ninguém sabia ao certo, mas que viria a ser o hip-hop. Nesse tempo, você e o Kleber (Dj KL Jay) formavam uma dupla, né? Edi Rock: Sim, Edi Rock e KL Jay. Buzo: Já eram esses os nomes: Edi Rock e Kl Jay? Edi Rock: E o Brown era ‘Big Boys’, Brown e Blue se chamavam Big Boys, da Zona Sul. Buzo: Eram vocês da zona norte e os manos na zona sul. Teve o ‘start’ que foi a gravação de um disco pra vocês se juntarem? Edi Rock: Vou tentar resumir. A gente ia na (Estação) São Bento, mas quem frequenta-

va mais lá, que ia direto era o KL Jay e o Brown. Eu ia de vez em quando, mas nós somos da mesma época e nos conhecemos por ali. Eu conheci o Brown e o Blue quando estava cantando em um lugar chamado ‘Clube do Rap’ na (avenida) Brigadeiro Luiz Antônio. Cantamos umas duas, três músicas e os caras vieram se apresentar pra nós: - Da hora hein. Eles gostaram da apresentação e a gente se conheceu ali. É dali que vem todo processo da São Bento e tudo mais, aí fechou o bonde. E de lá pra cá a gente teve uma oportunidade com a Zimbabwe, a gravadora. Era uma equipe de baile e eles estavam fazendo uma peneira e a Sharylaine avisou a gente e disse: - Pô, vai ter uma peneira, cola lá. Nós fomos, passamos na peneira e fomos escolhidos, aí os caras falaram assim: a gente já tinha formado o grupo. Buzo: A dupla ? Edi Rock: Não, o grupo mesmo, mas era muito recente. Tinha acabado de formar o grupo, eu tinha uma música e o Brown tinha outra que era pra gravar mesmo. Mas os cara falaram: - vocês, como grupo, só podem gravar uma música, não podem gravar duas. Então a gente manteve o que era, ‘Edi Rock e Kl Jay’ e ‘Ice Blue e Mano Brown’. Gravamos separados e depois disso juntou de vez, as duas músicas fizeram sucesso. Foi a ‘Tempos Difíceis’ e a ‘Pânico na Zona Sul’. Depois recebemos o convite pra fazer o LP ‘Holocausto Urbano’ em 1990.

Buzo: Nessa época não era possível ainda imaginar o que iria se tornar os Racionais MC´s ? Edi Rock: Ainda não, a gente ainda estava tipo sonhando, comemorando ainda: ‘Puta, gravamos, que estúdio loko’. A gente ia... O ‘Consciência Black’ era o primeiro, mas a gente saía daqui, ia para Campinas (SP) gravar, porque aqui até tinha estúdio, mas a Zimbabwe tinha feito uma parceria com uma equipe que se chamava ‘Collors’, lá de Campinas. Não lembro agora o nome, mas o cara é pai do Gregory. O Gregory aí, do rap. Na época ele era pivetinho, devia ter uns nove ou 10 anos de idade. A gente saía daqui, pegava busão, passava umas fome da p... Duro, todo mundo se dinheiro, mas precisava ir lá. Era uma oportunidade, por isso a gente baia lata até Campinas e gravávamos no estúdio. Uma experiência boa também. Buzo: Quando que você percebeu que se tivesse uma cena vocês estavam entre os líderes dessa cena. Vocês perceberam que eram um grupo grande, de destaque, já no ‘Holocausto Urbano’? Edi Rock: No ‘Consciência Black’ a gente já notou que o pessoal tinha curtido, tocava no programa, as equipes de baile tinham uma programa no domingo, acho que na Band. Nesse programa tocava as músicas da gravadora e nos bailes também, que nem hoje o ‘Balanço Rap’, ‘Baú do Hood’. Naquela época tinha também com a Zimbabwe. Os bailes eram nas periferias e a gente divulgava dentro dos bailes nossos outros shows. A gente cantava na ‘Black Mad’, ‘Cascatas’, ‘Chic Show’, era de certa forma concorrente, mas os caras eram tudo amigo.


Buzo: Já dava pra viver de show ou ainda não? Edi Rock: Não, nós pagávamos pra cantar, porque você colocar dinheiro do seu bolso pra ir, você ta pagando pra cantar, a gente começou a receber ajuda de custo com o ‘Holocausto Urbano’, antes do Holocausto não tinha dinheiro, a gente ia se quisesse, a gente ia porque queria que acontecesse alguma coisa, que virasse alguma coisa. Tanto é que muitos dos grupos dessa época aí não conseguiram ir além, mas outros estão aí, o Rappin Hood é dessa época, o Ndee Naldinho já fazia sucesso, tinha o Pepeu. Buzo: Você se lembra quando foi o momento em que compôs e produziu os grandes clássicos com o Racionais MC´s, tipo ‘Fórmula Mágica da Paz’, que são hinos do nosso rap? Edi Rock: Sofrimento, sempre sofrendo, sempre dificuldades... Buzo: As letras mais lokas... Edi Rock: As letras mais ‘lokas’ são nas piores fases da nossa vida, tipo momento de transição. Um problema sentimental, familiar e, principalmente, problema econômico, tipo assim, passando por uma fase seca, vacas magras, problemas assim, familiares e econômicos. Dessa dificuldade a gente tira a experiência e vai pra música, tipo isso. Buzo: Eu, como escritor, tenho muito disso também. Há pouco tempo você me disse: ‘meu lance é a música, eu vivo a música’. Onde a música surgiu pra você? Edi Rock: Infância né. Eu venho de uma família nordestina né?! Uma família festeira, quase todo final de semana era festa, festa... A gente morava tudo num quintal só, então quase todo mês tinha aniversário, sabe como é pobre... trabalha a semana inteira e chega final de semana é cerveja, família reunida, comida pra caramba. Buzo: E anos depois estamos em 2013, no século XXI. Hoje você é consagrado nacional e internacionalmente. Quais são suas influências agora, depois de tudo que viveu, para produzir um álbum como o ‘Contra Nós Ninguém Será’? Edi Rock: Passado, presente e o futuro. Eu penso, eu relembro os bailes, as músicas antigas, os raps antigos. Eu acompanho o rap atual, a atualidade. Eu quero acompanhar, me mantenho atualizado, tanto é que chamo uns caras jovens pra cantar, uns caras novos pra produzir e no futuro a mensagem vai ficar, a mensagem não pode morrer, ela

vai ficar pra sempre, a música é isso, o hip-hop é isso, sempre tem uma mensagem, uma frase, uma palavra... Respeito. Relembrar os raps bons, o funk, o rap pesado. Buzo: James Brown? Edi Rock: Isso, isso, tudo, soul, funk. O presente com a evolução atual e o futuro que é a mensagem que não pode morrer. Penso nas três fases. Buzo: Racionais MC´s, o que representa para você? Deve ser parte de você, né? Tantos anos com o mesmo time, sempre fazendo shows com público cativo, milhares de pessoas, como é isso? Edi Rock: A gente não mantém... a gente dá uma sumida e os caras falam: ‘Putz, acabou’. Mas não acabou. A gente está refazendo, reciclando, recriando, escrevendo. O Racionais MC´s para mim é minha referência, uma família, então eu sempre vou olhar, sempre vou selar, vou enxergar, representar. Esses dias eu recebi um convite do programa da Regina Casé e falei no Twitter: ‘Não importa onde você vai e sim quem você é. Então, eu sei de onde eu vim, sei o que quero, mas nunca vou deixar os meus. Racionais MC´s para mim é meu pai, meu aprendizado e minha manutenção. É isso... Buzo: Você é mais várzea, mas qual seu time? Edi Rock: Santos Futebol Clube, meu amor. Buzo: Você é um grande artista, especialmente em dias de shows, sempre na linha de frente. Mas e no dia a dia, quando está de folga, o que gosta de fazer em São Paulo? Sem pressa. Edi Rock: Na verdade eu gosto de trabalhar, muito. Eu gosto de viver cada dia com se fosse o último e é isso o que eu tô fazendo agora com você, divulgando meu trabalho, cantar, cantar na quebrada de graça, pros boy cobrando. Cantar desde R$ 10 a bilheteria até R$ 300. Maior orgulho é saber que alguém está pagando 300 conto pra me ver. Você chegar nesse nível é demais....

Buzo: O último CD dos Racionais foi quando? Edi Rock: 2002. Buzo: Por que tanto tempo, sabendo que tanta gente está esperando? Edi Rock: A gente é assim mesmo, é natural... um bagulho nosso. Eu mesmo, esse disco solo demorei seis anos. As primeiras músicas eram para o Racionais MCs , tipo ‘Ta na Chuva’, ‘Salve Nego’, e outras ali como ‘Selva de Pedra’. Mas aí, como os Racionais não iam entrar em estúdio, eu falei: ‘preciso gravar isso, já tô cantando no show, vai ficar velho’. Foi aí que surgiu a ideia do solo, mas é natural demorar. Buzo: - Sem trampo novo, menos show .... Edi Rock: Hoje é show, é show. Então o que acontece, diminui o show, mas é necessário. Nesse meio tempo tem um monte de coisa. Para um disco novo a gente tem que parar tudo e não chegou esse momento ainda. Eu puxei o bonde de fazer o meu solo, os outros foram e fizeram a mesma coisa. O Brown fez dois discos, um com o William Magalhães e agora outro com o Lino Krizz. Você vê, o meu poderia ser dois, tem 23 faixas. O Kl Jay ta fazendo o ‘Na Batida’, o Blue também ta fazendo o dele, então Racionais só em 2014. Vamos entrar em estúdio e vai ser a hora certa. Renovados, revigorados, refeitos das ideias, novos em folha, porque a gente vai em vários lugares novos com o solo. Com o solo a gente vai, já o Racionais MC´s é toda uma estrutura, são 100 mil pessoas. Sempre multidão, a gente solo já não, é mil ou duas mil pessoas, você tá mais próximo, outras ideias. Tem lugares chiques, que pagam, de repente os Racionais MCs não vai, já o cachê solo não se compara né. Buzo: Você se imaginou postando uma foto de um show via Instagram? Edi Rock: Nunca, nunca imaginava. Meu sonho de pivete era ter uma Polaroid. CONTINUA - >>>>>


Buzo: Como você começou nas redes sociais? Edi Rock: Sou curioso, gosto das novidades. Quando surgiu a internet eu tinha um computador já, só conectei. Só no gabinete do vereador Vicente Cândido tinha internet, eu ia lá. O EliEfi trabalhava lá, ele dizia pra mim: - ‘Negão, vem ver que barato loko, a internet. Isso aqui é o futuro’. Aí ele mostrava e eu: - ‘Que baguio loko’. Pensei: - ‘Vai ser nossa ferramenta’. É isso mesmo, Instagram, Twitter, é a interação das pessoas, do mesmo pensamento. Tal hora vou estar lá, olha o disco, olha o livro. Ou só um ‘Salve, nóis que tá’. Buzo: Porque você aceitou ir ao meu quadro no SPTV sendo que você nunca tinha ido num programa da Globo. Por que aceitou meu convite? Edi Rock: Primeiramente por você e pelo estilo do quadro, que mostra o que é, você não tá ali inventando nada, só mostrando o que é, não ta maquiando, não ta pintando, então eu acho que a gente tem que mostrar quem a gente é, da forma certa, com respeito. Porque somos referência, você é referência, eu sou referência. Então independente de onde for, mostrar como é, com o devido respeito, que nem você fez. Fui por conta disso e também porque achei que era a hora certa. A gente já tinha se trombado algumas vezes, mas não era a hora ainda. Eu sempre dava um perdido. Porque era a hora. Porque no Racionais MC´s tem um líder, um ponta de lança que é o Mano Brown. Mas cada um dos integrantes tem seu ponto de vista também, ta ligado? Individual... Então acho que passou muito tempo batido e agora, por que não nesse momento solo que tô vivendo? Buzo: Quando você está compondo sabe se é uma música sua ou do Racionais Mc´s? Edi Rock: Sei sim, porque escolho as bases, aquela música da Dela Riva não cabe no CD dos Racionais, talvez um reggae. No solo a gente arrisca mais, ousadia e alegria, é o que eu digo. Vou caminhar em outras áreas, a música é universal, posso viajar por onde eu quiser. Sonoridade, musicalidade, responsa, mensagem que você vai colocar na letra, no nosso caso de rap. Eu posso fazer um rock, eu

tenho vontade de fazer um rock pesadão. Com a batida de rap. Tubarão Dulixo: Sempre gostei de música e achava o rap meio igual, achando o que eu queria ouvir, o seu som foi do meu gosto, eu vim do punk, escola de samba, vi você falando de rock. O que você ouve de rock? Edi Rock: Não é muita coisa, mas ouço de tudo, tipo Led Zappelin, Black Sabbath, The Doors. Os clássicos e também Kiss, som pesadão, linha de guitarra, bateria, eu ouço, tipo James Joplin, Jimi Hendrix. Buzo: Como aconteceu o solo? Edi Rock: O pessoal fala: ‘Os Racionais acabou’ e não é nada disso. É um momento seu ali, fazer um rolê e depois voltar pra casa, só isso. Venho dessa ideia, da falta de um trampo novo. A cobrança é grande, dos meus fãs e dos fãs dos Racionais. Também teve uma pessoa importante pra eu tomar essa decisão. O presidente da ‘Baguá Records’, o Jairo Andrade. Ele falou assim: ‘- Quero te dar uma ideia, fazer o convite. Tenho uma estrutura ali, quero ser uma gravadora e quem vai puxar o bonde é você’. Hoje ele é parceiro... Na sequência vem DBS, Don Pixote, Calado, Ndee Naldinho. Vem tudo aí. Buzo: E tem o time dos amigos no CD? Edi Rock: É, DBS, Sandrão, Dexter... o Dexter a gente já está jurado há ‘mili ano’ atrás de fazer um som. Buzo: O disco ficou como você queria? Edi Rock: Nunca fica, mas no fim ficou até melhor do que eu imaginava, tem outras coisas como a capa: - Tirei foto de tudo que é jeito, várias roupas, bonés e no fim veio a capa que eu tô pelado (risos)...tirei de óculos, sem óculos, com corrente, anel... Buzo: Você e o Brown, como é esse time, vocês são estilos diferentes que se completam? Edi Rock: Eu sou meia esquerda, e ele meia direita, ou vice versa. É isso, um time. Os dois são bons, cada um tem a sua visão, sua opinião, seu jeito de escrever, de ser vestir, enfim... mas quando a gente junta é África do Sul e África do Norte junto, aí o time fica completo com Ice Blue, Kl Jay, é o time. Buzo: Como é ser o maior, ou um dos maiores grupos do Brasil? Isso te traz o que, orgulho, responsabilidade. Edi Rock: Um dos, precisa dividir essa responsabilidade, tem outros que representam também. A gente assume essa parcela de responsabilidade, representamos o povo brasileiro, dos pobres, das periferias, da cadeia, ta ligado. Buzo: Você está no momento divulgando o seu trabalho solo, onde você iria que os Racionais não iriam? Edi Rock: Em algum programa da Globo, os Racionais jamais iriam, mas eu individual, eu vou.

Buzo: Você aceitou o convite da produção da Casé? Edi Rock: - Tô pensando... tô pensando em ir. Salvo algumas ressalvas, tem que ser visto, é um cara dos Racionais que está indo ali, que nunca foi, isso precisa ser discutido, e estão vendo isso, respeitando, isso que é o mais legal, te respeitarem, e a mensagem vai ser passada, tem que ir e representar e mandar a mensagem, somos assim, não vamos mudar, somos os mesmos, a gente continua do mesmo jeito. Buzo: O que te deixa feliz ? Edi Rock: - O que me deixa feliz? As pessoas cantarem nossas músicas, entender, me deixa feliz ver a pessoa emocionada com um show dos Racionais por exemplo. Buzo: São Paulo é uma cidade muito loka, vive várias mutações, hoje parece que ta mais acelerado, tudo, o crime, a quebrada ? O que acha? Edi Rock: O Mundo ta acelerado demais, mas São Paulo está de cabeça pra baixo, acho que é política, não pode ser, está havendo um descaso, em tudo, desde a saúde, o transporte público, até a segurança. Hoje você vê seu pai sair 5h da manhã pra trabalhar e você fica preocupado se ele vai chegar, se vai voltar. Buzo: Antes a gente era da quebrada e meio que se sentia seguro, hoje... Edi Rock: Está havendo um descaso, de ambas as partes, a política da periferia ta esquecida, a gente também ta cuidando cada um do próprio rabo e a política também largou de mão. É preciso dizer: - E aí quebrada, tem alguma coisa errada, tão roubando o meu pai, o seu pai, o morador comum. Tão desrespeitando a quebrada, ta faltando um respeito. Hoje ta ao Deus dará, ta largado. Buzo: Copa do Mundo. Edi Rock: Ta aí né, importante é o estádio ficar pronto, sem licitação né. Aí você coloca qualquer um lá, superfatura. O Romário dizia: - Eles vão roubar muito e vão continuar roubando. Buzo: Você acha que pessoas mais próximas da gente, como a deputada Leci Brandão, é um caminho pra mudar? Edi Rock: Tem a tendência a ser melhor, mas não consegue muito porque o sistema é fechado. Buzo: Uma vez Racionais... Edi Rock: Sempre Racionais, a gente junto canta os trampo individual. Eu canto as minha, o Brown as dele, Ice Blue e Helião as deles, é tudo Racionais. Buzo: Obrigado pela entrevista Edi Rock: Até mais, eu que agradeço.


“Os saraus são uma avalanche cultural”, diz Renan Inquérito Artista divide-se entre saraus, distribuição de poesias, criação de roteiros e shows por todo Brasil Poeta, geógrafo, MC, compositor, roteirista, professor e pesquisador. Estas são algumas das palavras que poderiam definir Renan Inquérito, de 29 anos. Mas encaixá-lo em uma única ocupação parece algo impossível, já que está sempre em movimento e em ação para novos projetos. Artista em tudo que a palavra significa, ele faz valer a própria colocação: ‘Os saraus são uma avalanche cultural”. Criador da ‘Parada Poética’, Renan defende que, sob o ponto de vista da arte, os saraus e a literatura fizeram nas periferias o que o poder público não conseguiu fazer. “Os saraus invadem locais pouco habituais e democratizam a poesia. A literatura chega a espaços onde ela não é habitual, como casas de detenção, Fundações Casa (antigas Febem), centros de reabilitação e recuperação entre outros. Os saraus são uma avalanche cultural e fizeram o que nenhuma campanha do Ministério da Cultura fez. É a arte como cura”, destacou. Multifacetado, atualmente, Renan dedica-se a criação de novas poesias para a confecção do seu segundo livro, além da realização de um sarau poético no interior de São Paulo. Acompanhado pelo fotógrafo Márcio Salata, eles realizam

mensalmente e de forma itinerante a ‘Parada Poética’. “O evento surgiu da vontade e da obrigação que eu sentia de reverberar a poesia pela minha cidade, pela minha região”, disse o poeta, que conta onde busca inspiração. “Eu me alimento muito da poesia feita no ‘Suburbano’, no ‘Mesquiteiros’, na ‘Cooperifa’, no ‘Binho’ e em muitos outros saraus da capital paulista e quis estender isso para cá. A experiência tem sido fantástica”, completou. Prova disso é a distribuição dos ‘pinos poéticos’, criação do escritor, que coloca pequenas poesias dentro de cápsulas utilizadas comumente para embalar cocaína. “Nós distribuímos ‘pó...esia’ durante os saraus. É uma forma de viabilizar o acesso à literatura, da pessoa poder transportar e levar para casa a poesia”, contou. E são nos pinos que o público já pode encontrar uma prévia do novo livro de Renan Inquérito, que será de poesias concretas e visuais. Contudo, estas mesmas poesias fundem-se com a música e com a própria trajetória do escritor que é também o criador do Inquérito. Entre as muitas atividades está a criação da trilha Sonora do filme

‘Triunfo’, que conta a história do hip-hop no Brasil e também de Nelson Triunfo. O segundo disco solo de Pop Black – integrante do Inquérito - também está em fase de finalização no estúdio. E enquanto estes produtos não ganham as ruas, o Inquérito segue em viagens por todo o Brasil e prepara singles do projeto ‘Arrumando o Quarto’ e que precedem o quarto álbum, que chega em 2014 quando o grupo completa 15 anos. Mas a ousadia e os talentos de Renan Inquérito não param por aí. Ele assina também o roteiro do espetáculo ‘Ópera Rap Global’, idealizado pela produtora cultural Fabiana Menini, de Porto Alegre (RS). “Trata-se de um espetáculo baseado no livro do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, que reúne arte urbana, hip-hop, dança, teatro e música clássica. Tenho trabalhado nisso há cerca de um

1º CONCURSO LITERÁRIO “PODE PÁ QUE É NÓIS QUE TÁ” Concurso cultural organizado pelas Edições Um Por Todos para estimular a criação literária entre estudantes de escolas públicas, como uma das ações integrantes do projeto contemplado pelo VAI - Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

- As inscrições são gratuitas e podem textos para integrarem a antologia literáser realizadas pelo correio de 27 de ria Pode pá que é nóis que tá – volume II. maio a 31 de julho de 2013. - Haverá premiação em dinheiro e kit cul- Destinado a estudantes entre 12 e tural para os/as autores/as dos 6 melhores 17 anos, matriculados em escolas pú- textos. blicas e moradores do município de - A cerimônia de premiação e lançamenSão Paulo. to da antologia resultante do concurso - Cada participante poderá inscrever será em 30 de novembro de 2013. um ou até dois textos literários de autoria própria e inéditos. O regulamento completo está disponível em www.mesquiteiros.blogspot.com e ht- Os textos serão avaliados por uma tps://www.facebook.com/EdicoesUmPorcomissão julgadora composta por Todos personalidades de reconhecido mérito cultural. Outras informações podem ser obtidas exclusivamente pelo e-mail concursopo- Serão selecionados 60 (sessenta) depa@yahoo.com.br

ano e tem sido bastante inovador. Tenho certeza que o público vai gostar do resultado”, pontuou.


Literatura feminina: cresce número de mulheres escritoras nos saraus e publicações Elas rejeitam rótulos, saem das antologias mistas e se afirmam em gênero Por Jéssica Balbino Elas são mulheres e ganham, a cada dia, mais destaque na cena literária e alternativa do país para além das antologias mistas e os últimos dois anos foram marcados por lançamentos individuais. Elas rejeitam rótulos, mas trazem uma poesia carregada de afirmação: “somos mulheres”, todas disseram. E o objetivo é poetizar em tudo que esta palavra significa. Com vocês: AS MULHERES !!! Embora a primeira escritora a publicar algo sobre periferia e favela e a ser considerada uma escritora ‘marginal’ tenha sido uma mulher – Carolina Maria de Jesus – a presença delas ainda não é maioria nos saraus, eventos e antologias, mas já deixou de ser sufocada pelos homens, conforme demonstra a pesquisa feita pela antropóloga Érica Peçanha. “Nestes anos de observação pude notar que a presença das mulheres continua sendo menor do que a dos homens, mas tem sido crescente a participação delas”, pontuou a antropóloga na tese de doutorado ‘É tudo nosso! Produção cultural na periferia paulistana’, defendida em 2011. De acordo com Érica é importante destacar que nos saraus que reúnem públicos de diferentes faixas etárias e classes sociais, a participação das mulheres é também menor que a dos homens, especialmente entre os idealizadores e lideranças. Na época em que a tese foi concluída, quatro mulheres foram destacadas como ‘nomes fortes’ dentro da literatura da periferia e são elas Cláudia Canto, Raquel Almeida, Dinha e Elizandra Souza. “São das poucas que ganham destaque especialmente porque é pequeno o número de mulheres que se assumem escritoras e menor ainda a parcela das que conseguem publicar trabalhos autorais”. Contudo, em 2012 surgiu a publicação coletiva e exclusiva de mulheres. Organizada pela Frente Nacional de Mulheres do Hip-Hop (FNMH²), a obra batizada como ‘Perifeminas’ reúne 62 mulheres que tem, de certo modo, uma participação com o hip-hop. Em textos sobre diferentes temas e vivências – que vão desde poesia, uma homenagem à cantora Dina Di e relatos breves – mulheres de todo o país se apresentam à literatura. “O livro vem ao encontro da minha luta, que começou em 1994 e o hip-hop se transformou em uma ferramenta para lutar pelos nossos direitos. Eu estava cansada de ouvir que não existem mulheres no hip-hop e na literatura e o livro mostra o contrário. Nós estamos em todas as partes, envolvidas em todos os elementos. A obra foi diagramada, revisada e feita 100% por mulheres, desde o início até o resultado final e esta experiência representa que a mulher está em todos os seguimentos. Precisamos acabar com alguns tabus e abrir as oportunidades para equidade de gênero”, pontua Lunna Rabetti, criadora do movimento e uma das organizadoras do livro.

O primeiro livro deu tanta repercussão que o segundo volume já está em fase de confecção. Cinquenta novas autoras serão escolhidas e segundo Lunna, há a participação de escritoras de 10 países. “Recebemos mais de 150 inscrições para participar e o interesse veio de diversos locais. Isso nos chama a atenção”, comentou. E o’ grito’ feminino é cada vez maior e audível. Começa com a participação nos saraus, a perda da vergonha para declamar na frente de todos e chega a publicação do primeiro livro. Resumidamente, esta é a história de Mel Duarte. Formada em Rádio e TV, ela frequenta a cena literária e dos saraus paulistanos há seis anos e já publicou em seis antologias, mas foi só em junho que lançou o primeiro livreto – ‘Fragmentos Dispersos’, que reúne poesias e ilustrações de vários artistas plásticos. “Quando eu comecei a declamar, morria de vergonha porque as mulheres sempre foram minorias em todos os lugares que eu frequentava, mas chegou uma hora que isso ficou tão comum que desencanei. Do começo do ano passado para cá senti um aumento considerável de mulheres na cena literária, especialmente as mais jovens com 18, 19, 20 anos”, observou. Sobre o feminismo, ela rejeita o rótulo, mas não a causa. “Eu não sou de levantar bandeiras para o que percebo ideias muito extremistas, mas sou muito independente. Não preciso ficar afirmando a minha força. Eu, Mel, sei do que sou capaz como mulher e mais, negra! Isso me basta. Mas hoje podemos fazer um sarau só de mulheres que vai lotar e vai ter umas boas horas para todo mundo falar. É demais ver as minhas se movimentando e aparecendo por todos os cantos literários”, destacou. E o trabalho teve também a participação de Diana Arruda, da Na Função Produções Artísticas, que atuou na produção e agora é lançado em vários saraus da capital paulista. Quem também lançou o primeiro trabalho neste ano foi a gerente de serviço, Luciana Aline Aparecida Ribeiro Silva, conhecida como Lu´z Ribeiro. O livro ‘Eterno Contínuo’ tem 45 poesias e foi editado pelo Selo do Burro, com ilustrações de Branca Freitas.


Escritora mesmo antes de se alfabetizar, Lu´z conheceu a cena literária paulistana tardiamente, mas confessa: “Eu já escrevia. Escrever transpassa o que decodificamos”. E para ela a participação das mulheres ainda é inferior a dos homens se for considerado o número de publicações. “No entanto, os saraus surgem e dão vez e voz para as mulheres e vemos mulheres-deusas falarem sobre temáticas diversas com qualidade e força geniosa, mostrando que possuem mais que capacidade, mas coragem de expor suas sensações. O mais bonito além dessa diversidade de gênero é ver a diversidade também de raça”, pontuou.

Para ela, a participação das mulheres na literatura sempre existiu, mas teve que dialogar com outros papeis sociais desempenhados pelas mulheres. “Atualmente a maioria das mulheres é chefe de família, tem que cuidar da realidade e da sobrevivência e com isso sua participação na literatura é pequena, mas isso não quer dizer que as mulheres não estejam escrevendo”, considerou.

Por outro lado, há quem já esteja na cena há bastante tempo, como a jornalista Elizandra Souza. Em 2012 ela lançou o primeiro livro de poesias ‘Águas da Cabeça’ e percorre várias partes do país em lançamentos, debates e reafirmações sobre o feminismo e a mulher negra.

“O meu trabalho tanto na escrita quanto na pintura é realmente feminino, porque sendo uma mulher, sinto como uma mulher, penso como uma mulher, me coloco diante das coisas como uma mulher, mas não feminista. Tudo acontece muito natural, nada forçado”, destaca.

“Mais do que ser militante das causas femininas, descobri que sou feminista. Não nos moldes burgueses, mas um feminismo negro, que pensa as mulheres negras inseridas no mundo. As minhas poesias, por exemplo,são resultado da minha inquietação como mulher e cidadã. Faço dos meus versos um bandeira de luta por igualdade e construção de uma sociedade melhor e mais igualitária”.

Quem também chama a atenção na literatura é Sinhá. Que em 2012 publicou o ‘Devolva Meu Lado de Dentro’ e agora se dedica a criação do segundo livro ‘na este dos peixes as palavras de ontem’, além de um disco poético. Artista plástica, ela traz o feminismo à flor da pele, embora rejeite o rótulo, mas ressalte-se como mulher.

Ela ressalta ainda a participação da mulher como marcante na literatura. “A mulher tem um jeito próprio de ver as coisas e isso reflete no pensamento, na escrita, na forma de colocar as palavras”, menciona. E há ainda, outros livros, antologias e mulheres tirando as poesias e romances da gaveta. Para 2013, muita novidade literária e feminina deve ganhar as ruas...

A Livraria Suburbano Convicto existe a 6 anos e fica no Bixiga (região central de São Paulo), é a única do país especializada em Literatura Marginal. Nela vocês encontram os livros dos escritores da periferia, os que sairam por editoras e os independentes. Toda terça-feira acontece na Livraria o SARAU SUBURBANO que existe a 3 anos. Venha conhecer, se armar de livros e conhecer nosso sarau.

“Atualmente a maioria das mulheres é chefe de família, tem que cuidar da realidade e da sobrevivência e com isso sua participação na literatura é pequena, mas isso não quer dizer que as mulheres não estejam escrevendo”,


César Tralli, jornalista em tempo integral Por Alessandro Buzo Ele foi o correspondente internacional mais jovem da Globo e hoje comanda a bancada do SPTV 1a edição, jornal do meio-dia da emissora. Super ativo, sempre atrás da notícia e da verdade, faz do seu telejornal uma prestação de serviços à população. César Tralli é uma pessoa que gosta da vida e de trabalhar. Quis saber como foi que se tornou correspondente internacional tão jovem, ele disse ao Kaos: - Eu já tinha ido morar em Londres por seis meses aos dezoito anos. Consegui uma bolsa de estudo em uma fundação suíça e fui aprimorar meu inglês e desenvolver um projeto sobre a força dos tabloides britânicos. Quando voltei a Londres de mala e cuia, aos 24 anos pela Globo, foi uma emoção que fez me chorar dentro do avião, na hora do pouso em Heathrow. Eu estava realizando muito jovem um desejo profissional: o e ser correspondente internacional. Pela Globo. E ainda por cima em Londres, a cidade dos meus sonhos. Não foi um período nada fácil. Eu chegava a passar 25 dias do mês viajando pela Europa, pelo Oriente Médio ou pela Ásia fazendo reportagens. Londres era apenas uma base de trabalho. Não havia essa febre de correspondentes espalhados pelo mundo. A internet ainda estava engatinhando. Então, eu era deslocado a todo instante para onde estava a notícia: ataque terrorista no sul do Líbano, terremoto na Turquia, acidente nuclear em Chernobyl, assassinato de primeiro-ministro em Israel e muitas outras fortes emoções. Fiquei na Europa de 95 a 2000. E na volta, de quebra, ainda passei por um vilarejo no interior da Itália para pegar a certidão de nascimento de meu bisavô, Giovanni Tralli. Com ela, tirei a cidadania italiana. E assim fiz uma homenagem justa às minhas raízes. Eu me considero um brasileiro da gema com DNA 100% italiano - por parte de pai e de mãe.

Quisemos saber como o jornalismo surgiu em sua vida e Tralli nos disse que fez outras coisas antes: - Eu cheguei a fazer teatro por quase 10 anos na Cultura Inglesa, logo que comecei a estudar inglês aos 7 anos. Fui vocalista de três bandas de rock. Toquei bateria. Ajudei ainda a escrever revistas e jornais na Cultura. E dei muita aula particular de inglês e português quando era adolescente. Nessa mesma época, comecei a escrever semanalmente para a coluna do leitor da Folha de S.Paulo e trabalhei na redação de A Gazeta Esportiva. Aí, quando me dei conta, o jornalismo já corria forte nas minhas veias com apenas 15 anos. E este ano completei 27 anos de carreira! Sendo dezoito de TV Globo. Brinco sempre que pareço estes táxis de aeroporto. A aparência é de conservação. Mas quando você olha o painel vê que o carro já rodou mais de 150 mil km. Nesses 27 anos de carreira, ele fez muitas reportagens investigativas que é de certa forma uma reportagem de risco, como foi isso Tralli: - A reportagem investigativa foi meu forte nos últimos 11 anos, desde que regressei da Europa. Fui entrando por essa seara e não larguei mais. Você vai se especializando a tal ponto que acaba se tornando refém dos assuntos que cobre, das fontes que estabelece e do noticiário da área. E convenhamos: o que infelizmente não falta no Brasil é escândalo de toda natureza para correr atrás e apurar. Crimes de corrupção, mau uso do dinheiro público, desvios de conduta, maracutaias de colarinho branco, roubalheira e muito propinoduto que sangra nossa sociedade. A tensão é sempre uma constante na cobertura dessa área. Mas eu procuro respirar fundo, rezar bastante e sempre mentalizar que estou cumprindo meu papel de jornalista com ética, independência e isenção. Isso me traz alento e a certeza de dormir bem quando boto a cabeça no travesseiro. Então nos fale quais foram algumas dessas reportagens que marcaram sua vida e carreira, Tralli disse: - Muitas reportagens marcaram minha carreira. Desde a primeira até as mais recentes. Não gosto de citar esta ou aquela porque hoje percebo mais do que nunca que toda história, todo caso tem seu peso, seu valor e sua importância. Não posso nem devo medir a importância de uma reportagem pela reper-

cussão que provoca. Portanto, prefiro fazer aqui um exercício muito sincero de honestidade e humildade. Toda reportagem é muito importante para mim. Perguntamos qual a diferença do apresentador para o repórter: - O trabalho do apresentador é também o de um repórter. Você não pode deixar de ser jornalista nunca. Eu gosto de botar a mão na massa. Ocorre que nem sempre as histórias dão certo, as pautas vingam, as produções avançam como você gostaria. O ritmo da notícia quase nunca é o ritmo que eu gostaria que tivesse. A frustração também é natural. Tento administrar as dificuldades e a minha autoexigência que é implacável comigo mesmo. César Tralli passa muitas horas do dia na TV, dá tempo de outras coisas? Segundo ele, dá sim: - Eu adoro ter vida fora da Globo. Sou um trabalhador compulsivo confesso. Vou até o fim nas missões e não tenho horário comercial. Cumpro tarefas independentemente do dia da semana e da hora. Mas quando não estou trabalhando gosto muito de fazer esporte, ir a um punhado de restaurantes que adoro, cinema, andar de bike, patinar. Como foi sua formação, como era sua família financeiramente falando: - Eu estudei quase a vida toda em escola pública. Minha mãe foi boia-fria nas lavouras de cana no interior de São Paulo. E vendeu amendoim em porta de estádio. Todos na minha casa começaram a trabalhar cedo e dividir cada centavo para o bem-estar coletivo. A gente se fez na base da união, do amor, do respeito e dando valor a tudo na vida. Nunca fui uma criança mimada, nunca tive mil brinquedos, nem roupa ou tênis de marca. Mas meus pais sempre me deram o mais importante: amor, carinho e educação rigorosa, com senso de justiça e honestidade. Esses valores me moldaram e sempre serão meu maior patrimônio, diz Tralli. Sobre a concorrência no meio jornalístico, falou que o mercado de trabalho no jornalismo não é diferente de nenhuma outra profissão. As exigências e a concorrência são


cada dia maiores. Mas isso nunca deve ser impedimento para desistir ou se frustrar. Eu sempre dou o mesmo recado nas palestras que faço para estudantes e jovens repórteres. Acredite em você. Trabalhe com amor. Invista na sua própria educação. Leia bastante. E arregace as mangas. Ou seja: vá atrás dos seus sonhos. Com garra e determinação. César Tralli mora em Moema, segundo ele, um bairro estratégico: - Eu adoro Moema. Moro no bairro desde que voltei de Londres. Faz 13zzzzzzzz anos já. Morei um tempo no Campo Belo e em dois endereços de Moema. Meus pais também moram em Moema. Eu os trouxe para cá. Adoro as padocas, as mil e uma facilidades na área de serviços. Outra coisa que adoro: tenho várias rotas alternativas para chegar à Globo, no Brooklin. Não sofro no trânsito. O que é uma benção em se tratando de São Paulo, né não? E ainda tô pertinho do aeroporto de Congonhas. Outra benção para um sujeito que vira e mexe tá subindo em avião. César Tralli se diz cristão: - Sou cristão. De origem católica. Tenho na cabeceira da minha cama livros escritos pelo Dalai Lama. Leio mantras e gosto do equilíbrio entre mente e corpo propagado pelo budismo. Procuro mesclar os ensinamentos para confortar minha alma. Deus sempre me deu muito mais do que mereço e do que preciso. Sou eternamente grato por chegar aonde cheguei. Sonhos, tenho muitos. Mas nada material, eu diria. Quero sim ser um profissional melhor, com capacidade para fazer mais e melhor. Quero fazer mais pelos outros. Ajudar mais. Amar mais as pessoas à minha volta. Enfim, quero me aprimorar como ser humano. Fugir da mediocridade do mundo das superficialidades. Cultivar os amigos de verdade e cair fora desse universo de aparências e status. Voltando a falar de jornalismo ele diz: Eu me sinto jornalista em tempo integral. Respiro e transpiro a profissão. O combustível do meu entusiasmo: trabalhar pelo interesse público. Sou idealista, sim senhor. E sonhador também. Acredito na força do jornalismo sério e ético como agente transformador social. Quero ser a voz do indignado, do desfavorecido, do injustiçado, do cidadão comum. Tenho um profundo respeito e amor pela minha profissão. E me esforço todo santo dia para corresponder à expectativa do público sempre exigente do SPTV. Perguntado sobre a tensão de coberturas internacionais ele diz: - Tensas? Quase todas. É adrenalina pura fazer jornalismo na tv. Claro, já estive na linha de frente de grandes escândalos, cobri guerras, terremoto, furacão, chacinas, sequestros, tiroteios, tragédias de toda natureza. Já renasci algumas vezes também. Por isso, sou eternamente grato ao meu Anjo da Guarda, fiel escudeiro de toda hora! Felizmente, também coleciono histórias saborosas e divertidas. Como o dia em que visitei um vilarejo na Espanha chamado Villamiel. Lá, os homens estavam desesperados para arrumar mulher. E botaram anúncios nos classificados de jornais: “Procura-se mulher!”. Foi uma cobertura de grande repercussão no Fantástico, com recordes de audiência à época. Brasileiras do país inteiro se interessaram pelo

apelo dos solteiros de Villamiel. Quais suas paixões pessoais, fora o jornalismo? Tralli diz: - Eu amo viajar. Amo rodar o mundo. Conhecer lugares, gente, hotéis, praias, montanhas, paisagens, restaurantes, vinhos, cafés e azeites. Não sou de comprar por impulso, não sou consumista, não gasto dinheiro com carro da moda, roupa da moda, relógios (nem uso relógio!). Nada disso. Invisto minha grana em cultura. E cultura pra mim é bater perna por aí... Viajar. Mundo afora. Queremos saber se o Tralli tem algum ídolo no jornalismo: - Tem vários jornalistas de TV e de jornais por quem nutro profunda admiração. Prefiro não citar nomes para não cometer injustiças e deixar algum de fora. Mas tenho um grande ídolo que foi repórter de guerra: Winston Churchill. Leio tudo sobre ele. Há tempos. Estadista de primeira grandeza. Intelectual. Escritor. Combatente de guerra. Inimigo público do nazismo. Sou tão fã de Churchill que virei apreciador de charutos! E as chamadas “novas mídias”, redes sociais. Temos mais a ganhar ou a perder? Tralli: - A comunicação eletrônica é uma realidade avassaladora. Penso que as sociedades ditas modernas não sobrevivem mais sem o mundo virtual. Ele virou oxigênio dos tempos atuais. Há espaço pra tudo. Resta separar o joio do trigo. Porque há muito lixo na internet. Muita gente desqualificada e irresponsável brincando de fazer jornalismo e crítica. A meu ver sobra quantidade na internet. Mas falta muita qualidade em muita coisa. Agora, acredito que temos sim mais a ganhar do que a perder. Estamos na era da comunicação. Graças a Deus! Não fico sem emprego tão cedo na vida. Existe o César Tralli escritor? Ele diz: - Adoro escrever. Fui para a televisão pela força do destino. Mas sempre me imaginei escrevendo muito. Fiz um livro de crônicas que felizmente teve excelente aceitação. Olhar Crônico, lançado em 2001. Tenho vários projetos de novos livros. Tô esperando o momento certo para tirá-los da gaveta. Quando eu baixar o ritmo na Globo? Sabe quando? Daqui a uns 50 anos! Eu (Buzo) entrei na Globo pra mostrar a cena cultural da periferia, justamente quando César Tralli assumiu a bancada. Faz 2 anos em setembro, nesse meio tempo, além de trabalhar com ele, se tornou um amigo verdadeiro e aliado, já foi no Sarau Suburbano, fez até o prefácio do livro Poetas do Sarau Suburbano - Vol 2. Além de ter ido no Bixiga pra saborear uma massa na Cantina da Mamma. Pra encerrar essa matéria exclusiva pro Boletim do Kaos, parte do prefácio que fez pro nosso livro. E aí Tralli, o que você viu e sentiu quando foi ao Sarau Suburbano, ele diz: -

Minha visita à livraria do nobre “Buzão” (como eu carinhosamente o chamo no SPTV) foi marcada por um sarau de poetas anônimos, que reverberam seus versos nos becos escuros e esquecidos da nossa pauliceia desvairada. E também nas estações de metrô apinhadas, nas praças de mato crescido e bancos surrados. Conheci muito sangue bom ali. Tinha também jovens guerreiros da cena do hip hop, que lutam bravamente para serem ouvidos. Todos juntos como em uma corrente de fé. Lembrei-me das orações em volta da mesa, na noite de Natal. Estou falando das preces sinceras, óbvio. Onde prevalece a gratidão e não a ansiedade pela troca de presentes. Na sala apertada da livraria, de janelas escancaradas para a rua, estavam reunidos poetas e músicos unidos pela sintonia fina de quem produz arte com dedicação e amor, acima de tudo. Fiquei ali extasiado, sentado numa boa, desprovido de vaidades e cerimônias, observando e captando cada segundo daquela energia positiva. O Buzão no comando do sarau, como um regente de primeira grandeza em noite de espetáculo de casa lotada. As prateleiras cheias de livros e muitas histórias de vida. As paredes grafitadas. Aplausos a cada apresentação. E, no ar, a vibração de quem quer fazer a diferença na sua caminhada muitas vezes solitária. Saí da Suburbano mais leve. Convencido de que voltaria, como já voltei. Fui para casa naquela noite com um sorriso maroto no rosto. E de alma lavada.

Claro, já estive na linha de frente de grandes escândalos, cobri guerras, terremoto, furacão, chacinas, sequestros, tiroteios, tragédias de toda natureza. Já renasci algumas vezes também. Por isso, sou eternamente grato ao meu Anjo da Guarda, fiel escudeiro de toda hora!


Do rap ao cinema: diretor Cacau Amaral comenta os novos projetos Por: Alessandro Buzo

Conheço o Cacau Amaral há mais de uma década. Desde o início dos anos 2000, a cena era: eu correndo atrás de divulgar meus primeiros livros no Rio de Janeiro e ele era MC do grupo de Rap ‘Baixada Brothers’, louco pra cantar em São Paulo. Em 2004 quando eu promovi a primeira edição do evento ‘Favela Toma Conta’ no Itaim Paulista, na rua da minha casa (Avenida José Borges do Canto), recebi um telefonema do Cacau Amaral: - Buzo, quero cantar no ‘Favela Toma Conta’. Expliquei que não tinha como pagar nem a passagem pra eles. Ele me disse que isso não era problema, se eu os incluísse na programação, eles viriam. E vieram. Foi um dia lindo, um evento inesquecível – o Favela está indo pra 27ª edição no Dia das Crianças deste ano - e o MC Cacau Amaral tornou-se um cineasta de expressão, ganhou vários prêmios com o primeiro longa metragem ‘5x favela – Agora por nós mesmos’, em que assina como diretor ao lado de Cacá Diegues, com quem conviver deve ser uma escola de cinema. Buzo: Antes de ser cineasta você cantava rap, fale do grupo ‘Baixada Brothers’? ‘Baixada Brothers’ foi onde tudo começou. A parceria com Dj DMC, Wladimir Mad e Aliado 021 foi uma grande escola pra mim. Bons tempos. Você cantou no primeiro ‘Favela Toma Conta’ no Itaim Paulista em 2004, o que você lembra desse dia? A imagem que está estampada em minha cabeça até hoje, se refere às dezenas de crianças sentadas no quintal da sua casa, Buzo. Cada uma com um gibi na mão. Meus olhos enchem d’água ao lembrar dessa cena, tão cinematográfica. Lembro que passamos a tarde ouvindo Facção Central, trocando ideias com Nino Brown... Observava os vizinhos da sua rua trepados nos muros, assistindo aos shows. Uns mais interessados, outros sem saber bem o que estava acontecendo. Fico imaginando: será que alguém ali tinha noção de o que se transformaria o ‘Favela Toma Conta’? É doido isso, porque esse momento também causou uma grande transformação em minha vida, na maneira de enxergar a literatura, no jeito de eu escrever. Como se envolveu com o audiovisual? A culpa é do MV Bill. O ‘Baixada Brothers’ – como todo grupo de rap naquele momento - estava na correria pra gravar um clipe. O Bill estava gravando o documentário ‘Falcão, Meninos do Tráfico’ e tinha arrumado uma câmera bacana pra fazer esse filme. Não tínhamos um centavo pra investir na produção. Unimos o útil ao agradável. Pegamos a câmera do Bill emprestada e convidamos o Anderson Quack, que na época dirigia uma companhia de teatro, a ‘Lomboko’. Ninguém tinha a menor experiência com audiovisual. Primeiros filmes, fale deles? Meu primeiro filme foi ‘1 Ano e 1 Dia’. Um documentário que dirigi com alguns integrantes do Cineclube Mate com Angu e retrata a luta de pessoas que ocuparam terras improdutivas na Baixada Fluminense. Fizemos esse filme apenas para mostrar aos parentes.

Talvez até aos vizinhos. Mas, pra nossa surpresa, o filme recebeu três prêmios, no Rio de Janeiro, Ceará e Paraná. O segundo filme chama-se ‘Melhor Que um Poema’, documentário de hip-hop que aborda a vida de três jovens aprendendo a dançar break. Com ele recebemos uma Menção Honrosa em São Paulo. O terceiro também é hip-hop: ‘Guerreiras do Brasil’ com Rúbia RPW, Lica Tito, Tiely Queen, ReFem... Quarenta mulheres, ativistas, que gravaram um CD pra gritar pela eliminação da violência contra mulher. Como chegou ao projeto ‘5x Favela’ ou ele chegou até você? Acho que as duas coisas. Cacá Diegues foi um daqueles caras que citei, que me ajudaram a entender o audiovisual no início. Ele foi padrinho da primeira turma de cinema da Central Única das Favelas (Cufa). Ao mesmo tempo, envolvido com cinema no ‘Nós do Morro’, ‘Afroreggae’... Ele comentava que se incomodava com a presença de tantos cineastas nessas favelas e ao mesmo tempo nossa dispersão. Muitos de nós só nos encontrávamos em festivais de cinema, mas não nos conhecíamos muito bem. O ‘5x Favela’ acabou sendo um motivo para esse encontro. Como foi trabalhar com o consagrado Cacá Diegues? Uma escola. Aprendo muito com essa amizade. Não só por seus mais de 30 filmes, mas pelo exemplo de vida. De amor ao cinema e ao Brasil. ‘5x Favela’ foi meu primeiro longa, antes disso havia dirigido apenas curtas. É um grande impacto sair de uma produção de cinco, 10 pessoas, para uma de 80, 100 pessoas. Nessas horas você aprende a valorizar ainda mais o trabalho em equipe. O cinema é uma arte coletiva. O que achou do filme finalizado ? Cada vez que assistia um corte do filme na ilha de edição, conseguia perceber mais e mais a grandiosidade do projeto. Aquela confusão dos primeiros cortes, aos poucos, ia tomando forma. A correção de cores, o tratamento no áudio. Lembro que uma vez nos reunimos em um cinema aqui do Rio, pra assistir pela primeira vez os cinco episódios juntos. Foi uma grande emoção ver o conjunto de todos os diretores interagindo uns com os outros. Fiquei imaginando como tudo começou, com um simples pedaço de papel e caneta, assim como um rap. As histórias que foram tomando forma no papel, depois na lente da câmera, até a grande tela.

O que um filme com mídia, distribuição e participando de festivais mudou na sua vida além da visibilidade? Uma experiência a mais. Como disse, antes tinha dirigido apenas pequenas produções. Em ‘5x Favela’ entendi melhor como funciona o trabalho coletivo. A gente depende muito mais dos departamentos, da arte, da fotografia, etc. Aprender a gerenciar isso é muito instigante. Nos lançamentos com debate, quais você curtiu fazer e pode destacar? Mesmo após o lançamento fizemos uma série de debates nos EUA, no Columbia College Chicago, The School of the Art Institute of Chicago, Brazil in Chicago, University of Illinois, Northeastern University. Foram oito dias de correria, que me trouxeram uma boa bagagem acadêmica para meu trabalho de conclusão de curso na faculdade de jornalismo. O filme te levou para quais lugares? Estivemos na França, para o Festival de Cannes. Nos Estados Unidos fomos três vezes. Para o Festival de Chicago, a Mostra Brazilian Film Series e a Premiere no Museu de Arte Moderna de Nova York, onde também fizemos um debate no New York Times. Não posso esquecer do Festival de Havana, em Cuba. O que vem pós ‘5x Favela’? São vários projetos. No primeiro escrevi um roteiro de ficção contando histórias das mulheres que jogam futebol no Rio de Janeiro. Estamos buscando patrocínio para viabilizar mais este filme. Noutro estamos finalizando um documentário chamado ‘Donana’, onde mostramos a trajetória dos músicos da Cidade de Belford Roxo, que fundaram algumas das maiores bandas de reggae do Brasil, como ‘O Rappa’, ‘Cidade Negra’ e ‘KMD5’. Interrompi esse filme para fazer o ‘5x Favela’ e retomamos logo depois. O terceiro projeto ainda está em fase inicial. Um curta-metragem sobre três amigos que se reencontram pra discutir a crise dos 40. E o rap? Volta? Quando o ‘Baixada Brothers’ interrompeu suas atividade, principalmente de palco, continuamos fazendo rap, só que com outro foco. O som não para. Fiz rap e drum´n´ bass pra todos filmes que dirigi. No caso de ‘Melhor que Um Poema’, foi a trilha sonora, totalizando 11 raps.


Abayomi Ateliê: mudando o visual no extremo leste de São Paulo Por: Alessandro Buzo Elas não curtem dizer que fazem ‘moda’, porque na periferia isso pode ser confundido com ‘modinha’. E modinha passa. Mas Laís Fernanda, Marisa Souza e Pâmela Rosa vieram para ficar. Tudo começou com a máquina de costura de uma delas e se tornou um projeto que customiza roupas e promove desfiles na comunidade, localizada entre São Miguel Paulista e Ermelino Matarazzo. Mas nem sempre foi assim. As ações se tornaram mais presentes após a aprovação de

Como surgiu e quem faz parte do ‘Abayomi Ateliê’? O ‘Abayomi Ateliê’ surge a partir de um sonho, e um objetivo traçado: lutar para construir a própria história. Contribuímos para o desenvolvimento pessoal e coletivo, somado a necessidade de um espaço para produção das artes, antes desenvolvidas individualmente por cada uma das integrantes do grupo: Laís Fernanda, Marisa Souza, e Pâmela Rosa, artesãs, graffiteiras, poetizas e arte educadoras. Explique pra quem não conhece. Como é o trabalho de vocês? Desenvolvemos produções artesanais, com foco em customização e reciclagem. Customizar nada mais é que transformar peças de roupas em outras, ou até mesmo em acessórios, além da fabricação de novos vestuários. Prestamos também suporte em assessoria e espaço físico para promoção de eventos e organização atividades externas, que ligam nosso trabalho diretamente com a comunidade do entorno, tais como desfiles, intervenções fotográficas, exposições, e graffiti. Desenvolvemos um material que sensibiliza a curiosidade, e desperta as pessoas a conhecer diferentes conceitos artísticos e visuais.

um projeto no programa de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) de São Paulo, quando foi possível a compra de novas máquinas e a montagem de um ateliê. Antes disso as guerreiras customizavam as próprias roupas e de amigos. Hoje, em uma casa que fica na quebrada, elas dividem espaço com o Studio João de Barro e transformam o ateliê em um espaço de cultura e troca de informações e parcerias. Nessa entrevista exclusiva pro Boletim do Kaos, você vai conhecer um pouco mais do Abayomi Ateliê.

Vocês promovem desfile na quebrada? Em quais locais e como é essa experiência? Já foram realizados quatro desfiles dos vestuários produzidos pelo Abayomi. Um em são Caetano do Sul (SP), dois na comunidade Nossa Senhora Aparecida, em Ermelino Matarazzo e um em parceria com o espaço CDC Tide Setúbal, em São Miguel Paulista, ambos na Zona Leste de São Paulo (SP). A experiência de mostrar, na passarela, as peças trabalhadas, ver o sorriso no rosto das pessoas, a conclusão final referente a essa sensação é a satisfação em ver o retorno do nosso empenho. É inexplicável somente com palavras. Queremos demonstrar que todos podemos ser o que quisermos, que não é necessário nos prendermos a padrões e conceitos pré-estabelecidos por terceiros. A intenção é realmente a contradição do convencional e assim ousar mais, aprender e ensinar mais. Os modelos também são pessoas da região leste? Todos os modelos são moradores da região Leste, não profissionais, mas amigos e incríveis parceiros. Sem contratos, ou cachês. Algu-

mas vezes, inclusive, sem ensaio. Essas corajosas pessoas andam sob o tapete vermelho por acreditarem no nosso trabalho, contribuindo com o desenvolvimento artístico pessoal da quebrada e do próprio ‘Abayomi Ateliê’. Quais são os projetos futuros? O ‘Abayomi’ conta com a parceria dentro do mesmo espaço - do Stúdio João de Barro, local para produção e promoção de música a artistas anônimos, com talento, porém sem acesso físico ou financeiro, além da execução de trabalhos profissionais, como gravação, mixagem e masterização. Juntos, prevemos a transformação do local em um ativo ponto de cultura, com atividades e atrações específicas, destinadas ao público envolvido, a rua, o simples, a arte! Em breve, muitas novidades estão por vir. Serviço – Para saber mais sobre o projeto, acesse a página no facebook Abayomi Ateliê


Professora Gabriela Pavanato e Marilda Borges

Festival Uninove de Hip-Hop encerra atividades do primeiro semestre Por Alessandro Buzo Será que ‘Jogos Jurídicos’, com professores e turmas de direito de quatro unidades estudantis e hip-hop combinam? A Uninove prova que sim por meio do evento realizado no dia 15 de junho de 2013 e que reuniu duas atividades em apenas uma. A atividade não apenas combinou como foi um sucesso. Na abertura, professores de direito cantaram rap. Em seguida performance do Dj Erick Jay. Ele ‘quebrou tudo’. Foi um esquenta e tanto. Eu na apresentação, chamei então a primeira rodada dos jogos jurídicos – gincana entre os alunos – de direito das 4 Unidades Uninove, disputando entre elas (Vila Maria, Memorial, Vergueiro e Santo Amaro). Uma batalha de conhecimento eu diria. Chegou então a hora de apresentar as 4 oficinas de Hip Hop. Cada educador fez uma oficina em uma das unidades (primeiro semestre 2013).

DJ com Erick Jay, Tri Campeão do campeonato de Djs, residente do Programa Manos e Minas da TV Cultura. Break a cargo de B.Boy Suco. Ele é organizador do Reallity Show B.Boys em Mauá-SP. Graffiti ficou nos traços e cores do Dingos de Osasco-SP.E por fim, MC com a voz e métrica de Nego Trutty. Os alunos que participaram, concorreram a prêmios, tínhamos tablete, celular e certificado. Depois da Premiação do FESTIVAL DE HIP HOP a grande final dos jogos jurídicos. Pra manter o astral lá em cima, pocket show com Kamau. Este foi um dia em que o hip-hop fez “direito” e as turmas de direito fizeram “hip-hop”. Assim que é... hip-hop em toda parte.

Sobre o projeto O Festival Uninove de Hip-Hop faz parte das atividades feitas em parceria com a Suburbano Convicto Produções e que aconteceram durante todo o primeiro semestre de 2013. Aconteceram oficinas de hip-hop. E edições mensais do ‘Sarau Suburbano é 10!’ nas quatro unidades, com apresentação de Alessandro Buzo eTubar��o Dulixo, mais poetas convidados e alunos Uninove. Para o segundo semestre de 2013 segue o ‘Sarau Suburbano é 10’. A Uninove também apoia o ‘Boletim do Kaos’, este que você lê agora. Além de outras três edições que chegam às ruas em outubro, novembro e dezembro.

Primeiro lugar break e o B.Boy Suco e Kamau

Erick Jay e ganhador-, rapper Trutty e primeiro lugar Oficina Grafitti com o Dingos


Criada em 2004 no Jardim Valkíria, extremo Sul de São Paulo (SP), a Ong ‘Capão Cidadão’ faz a diferença, diretamente, na vida de 150 crianças e de muitas outras, mesmo de forma indireta com atividades que vão desde o balé clássico ao reforço escolar.

Capão Cidadão: uma fábrica de sonhos Por: Alessandro Buzo A batalha é protagonizada por Paulo Magrão e Ione, que se desdobram para garantir que tudo funcione, mesmo sem qualquer apoio do poder público. Vale lembrar também que a sede do projeto fica na mesma comunidade em que foram gravadas cenas do filme ‘Bróder’, do cineasta Jefferson Dé e em entrevista exclusiva ao Boletim do Kaos você fica sabendo um pouco mais. Tem balé clássico na favela? Tem, sim senhor! Desde quando existe a Ong Capão Cidadão? Em 2000, iniciou-se um movimento chamado ‘Não à violência, eu quero lazer’. Em 2004, fundamos a Ong Capão Cidadão com intuito de amenizar a violência com atividades voltadas ao esporte, cultura e educação. Quantas pessoas são atendidas atualmente? Quais os serviços prestados? Atendemos, diretamente, 150 crianças com atividades recreativas, reforço escolar, capoeira, caratê e balé clássico. Indiretamente, atendemos 1,5 mil famílias com bazar comunitário, campanhas sociais, eventos, etc. Conte-nos um pouco sobre a comunidade em que vocês atuam? Estamos inseridos em uma comunidade onde as dificuldades de sobrevivência são prioridades. Sendo assim, para amenizar essa situação desenvolvemos atividades que fazem a diferença no dia a dia, procurando levantar a autoestima e abrindo um novo universo para os atendidos. Em São Paulo, a região que menos acessa os equipamentos culturais é a região Sul, sendo o Capão Redondo o lugar onde menos se lê jornal no Estado de São Paulo.Nestes anos de atuação, podemos detectar que a violência foi diminuindo no decorrer dos trabalhos de várias organizações em que nos colocamos como pioneiros.

O que motiva o Paulo Magrão e a Ione? Para Paulo são os princípios cristãos e a vontade de transformar a dificuldade em motivação. Minha motivação é proporcionar para essas crianças o que eu não tinha como o acesso ao balé, ao teatro, a passeios. E vejo nessas crianças parte da minha infância. Como começou o balé clássico na Ong? O balé clássico teve início a partir do sonho de realizar dentro de uma favela atividades relacionadas ao desenvolvimento pessoal. A Ione Dias via a realização do balé um espelho de suas vontades. No início tivemos o primeiro incentivo através do norte-americano Michael Franti, um pacifista que veio ao Brasil fazer um show e doou o cachê para a construção da sala de dança. Assim, conseguimos realizar essa proeza. O sonho da Ione virou a realidade de muitas outras meninas? Posso dizer também que compartilhei com as meninas meu sonho de infância e através dela pude realizá-lo. Hoje é de extrema importância a consolidação desse grupo, pois trabalhamos o balé como um resgate da infância, da autoestima e o desenvolvimento pessoal. Hoje, me orgulha muito a ver dedicação das meninas e uma das maiores emoções para nós foi vê-las na Virada Cultural, um dos maiores eventos culturais da cidade. Como as pessoas da região podem participar das aulas? Hoje, devido ao sucesso dos projetos temos até fila de espera, tanto para o Balé, quanto para o reforço. Quando as crianças vão começar a frequentar as aulas, recebemos as mães e explicamos nossos objetivos e formas de trabalho e preenchemos uma ficha com as informações da criança, com número de contato, alem de informações sobre dificuldades, alergias, e etc. Outra coisa fundamental é o comprovante de frequên-

cia escolar, que pedimos periodicamente para assegurar que as crianças estão frequentando a escola. Pra fazer balé as meninas precisam passar por aulas de reforço? Todas as atividades da Ong, inclusive o balé, são entrelaçadas com o reforço. No período da manhã atendemos crianças das 9h às 12h. Sendo 1h30 de reforço e 1h30 de balé, capoeira ou caratê. No período da tarde, seguimos a mesma estrutura, das 14h às 17h. Quais as maiores dificuldades pra manter o projeto em atividade? Como todos os projetos sem apoio governamental, a maior dificuldade é remunerar o educador e também montar o figurino. Temos dificuldade em trazer parceiros, pois muitos querem visibilidade e nós estamos no meio de uma favela. Isso, porém, nos dá força para todos os dias procurar nossos objetivos com mais garra, pois estamos vendo a transformação bem próxima. Quem são os parceiros do rap? O movimento e a Ong sempre tiveram uma ligação muito forte com o hip-hop. Enxergamos que o hip-hop, sobretudo o rap, já são uma tradição no local e tem um enorme poder de transformação social. Sendo assim, todos os grupos que já estiveram conosco nessa trajetória fazem parte de nossa história e são nossos parceiros. Capão Cidadão é? Um lugar onde se desenvolve, como prioridade, os vínculos de afeto, passando pela cultura, pincelando o esporte e vivendo a cultura de paz.



Boletim do Kaos #10