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FORÇAS DE

Defesa

@fordefesa /fordefesa

A Revista do Poder Naval, Poder Aéreo e Forças Terrestres Número 5 • abr/mai/jun • 2012 • www.fordefesa.com.br • Preço: R$18,00

Embarcamos no BPC Dixmude, o mais novo multitarefa da Marinha Francesa QQ

40 anos da construção das fragatas classe Niterói

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O Brasil precisa de um caça de 5ª geração? QQ

OS PRIMEIROS VBTP-MR GUARANI


EDITORIAL

O Grupo DCNS é um líder mundial em defesa naval, mas também um agente inovador no setor de energia.

FORÇAS DE

Defesa

O sucesso do Grupo é construído sobre uma base excepcional de conhecimento e recursos industriais únicos. A DCNS projeta, constrói e mantém navios de combate de superfície e submarinos, assim como sistemas integrados e infraestruturas vinculadas.

A revista do Poder Naval, Poder Aéreo e Forças Terrestres

www.fordefesa.com.br Ano 2 - Número 5 - 2012 Periodicidade trimestral Editor-Chefe e Jornalista Responsável Alexandre Galante alexgalante@fordefesa.com.br Equipe Editorial Guillherme Poggio poggio@fordefesa.com.br Fernando “Nunão” De Martini nunao@fordefesa.com.br Sergio Santana ssantana@fordefesa.com.br Administração e Publicidade Dinair Alves dinairalves@fordefesa.com.br publicidade@fordefesa.com.br Colaboradores Franco Ferreira (S. Paulo - SP) Ícaro Gomes (Natal - RN) Jean François Auran (França) Milton Lima (Salvador - BA) Nicholle Murmel (Curitiba - PR) Rafael Cruz (Recife - PE) Samuel Pysklyvicz (Goiânia - GO) Consultor Institucional Romulo Federici federici@rfederici.com.br Desenho Técnico José da Silva (Santos - SP) Impressão Smartprinter Unidade Comercial Tel.:(21)3172-7800 Distribuição Nacional FC Comercial e Distribuidora S/A Produção Gráfica

O grupo DCNS desenvolve também soluções inovadoras no setor da engenharia civil nuclear ou da energia marinha renovável.

Endereço para correspondência: Av. Princesa Isabel 334 Bl3 406 Copacabana - CEP 22011-010 Rio de Janeiro - RJ 55(21)3042-6365 E-mail para assinaturas e exemplares das edições anteriores: revista@fordefesa.com.br As opiniões dos articulistas não representam necessariamente a opinião da revista.

DCNS do Brasil Rua Lauro Müller, 116 - sala 3102 Botafogo - Rio de Janeiro - 22290-160

Nossa capa: O BPC Dixmude da Marinha Francesa fotografado por Alexandre Galante

www.dcnsgroup.com

O Livro Branco e a Sociedade

O

ministro da Defesa, Celso Amorim, entregou no dia 17 de julho ao presidente do Senado, José Sarney, documentos com os principais projetos das Forças Armadas a serem debatidos no Congresso Nacional. As versões preliminares do Livro Branco de Defesa Nacional (LBDN) e as atualizações da Política Nacional de Defesa (PND) e da Estratégia Nacional de Defesa (END), após análise pelo Senado Federal, seguirão para a Câmara dos Deputados. A entrega dos documentos está prevista em Lei Complementar 136/2010, que trata das normas gerais para a organização, o preparo e o emprego das Forças Armadas. O texto diz que cabe ao Poder Executivo encaminhar o LBDN, a PND e a END para apreciação no Congresso Nacional, na primeira metade da sessão legislativa ordinária e de quatro em quatro anos a partir de 2012. Esta é a primeira vez que as propostas são encaminhadas ao Congresso. O Livro Branco traz os principais projetos das Forças Armadas e um resumo dos objetivos da pasta. O documento garante transparência à informação sobre o setor, com acompanhamento do orçamento e do planejamento plurianual. A PDN estabelece diretrizes para o preparo e o emprego dos recursos nacionais, em caso de ameaças externas, com o envolvimento dos setores militar e civil. Um dos principais propósitos da PND é conscientizar a sociedade brasileira de que a defesa da nação é dever de todos os brasileiros e não apenas dos militares. A END estabelece formas de alcançar os objetivos

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Defesa

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os no Q Embarcam o mais BPC Dixmude, refa novo multita a da Marinh Francesa

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40 anos da construção das fragatas i classe Niteró VBTP-MR OS PRIMEIROS

Q O Brasil precisa de um caça de 5ª geração?

GUARANI

determinados na Política de Defesa. Ela define os setores cibernético, nuclear e espacial como estratégicos e essenciais para a Defesa Nacional. Os três documentos são importantes porque servirão de parâmetro para que nossos representantes políticos no Parlamento possam debater e tomar decisões sobre as questões da Defesa Nacional. Com a formação da Frente Parlamentar de Defesa e a iniciativa de fazer obrigatória a edição periódica do LBDN e sua apreciação pelo Legislativo, existe a esperança de que os planos de reequipamento das Forças Armadas não serão mais tão prejudicados por falta de verbas. É a primeira vez em sua História que o Brasil produz um documento como o LBDN. Ele vem em boa hora porque coloca o tema Defesa ao alcance de todos os cidadãos brasileiros. Com o debate constante em todas as esferas e a cobrança por parte do eleitor, a Defesa do País poderá, cada vez mais, fazer parte da agenda nacional.

Forças de Defesa

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ÍNDICE

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O Brasil precisa de um caça de quinta geração?

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Opinião: Programa F-X ‘Nunca’

Romulo Federici comenta sobre a novela dos caças para a Força Aérea Brasileira que poderá ter seu desfecho ainda este ano

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As ARP em ação

Segurança de voo: ‘Las Brujas’

A F40 aos quarenta

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Três dias no “professor” Dixmude

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Lançamento de míssil Exocet com motor nacional

No dia 18 de abril de 2012 a corveta Barroso da Marinha do Brasil disparou o primeiro míssil antinavio Exocet dotado de motor de fabricação brasileira

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Iveco Guarani 6X6: surgem os primeiros

Eurosatory 2012: uma perspectiva francesa

Nosso correspondente na França, Jean François Auran, faz um balanço da maior feira de veículos blindados na Europa, com muitas fotos

Com capacidade inigualável de operar em todo o Globo e nas mais exigentes condições litorâneas ou oceânicas, os helicópteros AgustaWestland ampliam e reforçam a Força Naval. Verdadeiras plataformas Multimissão, “fazem a diferença”, à vista da detecção, identificação e engajamento autônomos contra alvos de superfície e submarinos, bem como do SAR e apoio humanitário.

ERRATA III Simpósio das Marinhas da CPLP no Rio de Janeiro

O especialista Franco Ferreira comenta Delegações das Marinhas dos Países de os desdobramentos das investigações de Língua Portuguesa se reúnem no Rio e conhecem navios construídos no Brasil acidentes aeronáuticos

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552a Ala de Controle Aéreo da USAF

Sérgio Santana conta a história desta unidade da Força Aérea dos EUA, responsável por missões de Alerta Aéreo Antecipado & Comando e Controle 4

Forças de Defesa

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‘Da ideia do Coelho’ aos limites do ‘pulo do gato’

Entrevista exclusiva com o vice-almirante (Ref-EN) José Carlos Coelho de Sousa, que teve participação decisiva no programa da classe “Niterói”

Naval pedigree

No artigo “SAS-Special Air Service” (páginas 76 a 79 da edição 4, jan/fev/mar2012), a atual organização em regimentos do SAS, mostrada no final da primeira coluna da página 77, está errada. A organização correta é a que está na seção “organização e armamento” da terceira coluna da página 79. www.fordefesa.com.br

LEADING THE FUTURE agustawestland.com


PODER AÉREO

USAF

QQ Um F-35 do programa de testes é visto em provas de voo com cargas externas, possibilidade admitida em missões que não necessitem da máxima furtividade proporcionada pelas baias internas

Lockheed Martin

TECNOLOGIA

QQ O F-22 inaugurou a era dos caças de quinta geração, mas ainda enfrenta problemas técnicos que afetam sua operacionalidade. Reparar nos tanques externos usados em desdobramentos para bases distantes

O Brasil precisa de um caça de quinta geração? QQ Guilherme Poggio poggio@fordefesa.com.br

J

á se passaram mais de quinze anos desde que o Estado-Maior da Aeronáutica (EMAER) definiu os requisitos operacionais do futuro caça da FAB (Força Aérea Brasileira). De lá para cá, o programa de aquisição de caças passou por duas etapas (F-X e F-X2), avaliando, eliminando e selecionando diversas opções, sem que houvesse uma definição sobre o futuro vetor de combate da FAB. Em junho passado, ocorreu mais uma prorrogação (a quarta) da decisão. Foi solicitado aos três consórcios finalistas que concorrem ao programa F-X2 que estendessem, por mais seis meses, as suas ofertas. Muita coisa mudou ao longo desse largo período de tempo. Em função do demorado processo de escolha e da evolução das tecnologias aeronáuticas, cabe a seguinte questão: seria o caso de cancelar o atual F-X2 e partir para 10

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um novo processo de aquisição? Um processo que considerasse caças de quinta geração?

O que é, afinal, a quinta geração?

Não há uma classificação universal sobre o que é um caça de quinta geração. Porém, a grande maioria dos especialistas considera a existência de formas externas com propriedades furtivas como característica essencial. A furtividade (em inglês, “stealth”) ou baixa observabilidade é uma característica do projeto que incorpora, na célula, soluções que reduzem as assinaturas radar, térmica, visual, acústica e eletromagnética. Atualmente, só nos Estados Unidos os caças de quinta geração são uma realidade. O F-22 é uma aeronave operacional e, em poucos anos, o F-35 completará sua fase de testes e se juntará a ele. Outros países da OTAN que se aliaram ao programa JSF (“Joint Strike Fighter”, atual F-35) também receberão seus caças de

quinta geração ainda nesta década. Além dos EUA, a Rússia já possui um caça de quinta geração em testes, o PAK-FA. Espera-se que ele esteja operacional em breve. Esse modelo também foi escolhido pela Índia, que participa do seu desenvolvimento visando uma versão local. A China continental já fez voar protótipos do J-20, caça com características furtivas, e países como Japão, Coreia do Sul e Turquia possuem planos e projetos de aviões de combate de quinta geração. Existe a possibilidade de que, em menos de dez anos, cerca de vinte países espalhados pelo mundo já tenham em operação seus caças de quinta geração, sendo que a maior parte deverá operar o F-35. Será que o Brasil também precisa seguir este caminho?

A sobrevivência dos mais capazes

Mas a furtividade é apenas uma das várias abordagens do que se coswww.aereo.jor.br

tumou chamar de “capacidade de sobrevivência em combate” (ou “Aircraft Combat Survivability” - ACS). Em um ambiente militar, entende-se como capacidade de sobrevivência em combate a habilidade de uma aeronave em permanecer na missão, frente aos desafios impostos pelo inimigo no campo de batalha. Para se determinar a ACS de uma aeronave, existem dois atributos básicos que devem ser considerados: um é a suscetibilidade e o outro a vulnerabilidade. Se uma determinada aeronave de combate não for capaz de evitar radares, mísseis, canhões antiaéreos, jatos interceptadores e quaisquer outros obstáculos impostos pela defesa antiaérea inimiga, diz-se que ela é muito suscetível. Por outro lado, a capacidade de absorver danos em combate provocados pela ação inimiga definirá a sua vulnerabilidade. A suscetibilidade e a vulnerabilidade de uma aeronave definirão a probabilidade de sua destruição (“killability” ou Pk). Quanto maior for a probabilidade de sua destruição, menor será a capacidade de sobrevivência em combate e vice-versa.

Histórico do desenvolvimento da capacidade de sobrevivência

A preocupação em melhorar a capacidade de sobrevivência de uma aeronave em combate não é exatamente uma novidade. Ela nasceu praticamenwww.aereo.jor.br

te junto com o emprego do avião em ações bélicas. Mas até o início da década de 1960, todas as medidas para aumentar a sobrevivência foram tomadas dentro de contextos de projetos individuais, visando solucionar problemas intrínsecos desta ou daquela aeronave. Não havia uma disciplina que tratasse da capacidade de sobrevivência em um aspecto mais amplo e generalizado. E havia pelo menos duas razões para isso: a abordagem de sistemas para projetos de aeronaves não tinha sido totalmente desenvolvida e, além disso, não existiam requerimentos específicos das Forças Armadas para medir “capacidade de sobrevivência”. A partir de 1962, os Estados Unidos começaram a se envolver diretamente, do ponto de vista militar, no Sudeste Asiático. Esse envolvimento levou a um emprego maior de aeronaves e, consequentemente, à sua exposição aos riscos do campo de batalha. Os números eram alarmantes: até 1973, foram perdidas cerca de 5.000 aeronaves. Bem antes de se alcançar essa quantidade, chegou-se à conclusão de que algo precisava ser feito. Em 1966, um grupo de jovens engenheiros do Laboratório de Dinâmica de Voo da Base Aérea de Wright-Patterson foi ao Sudeste Asiático, com o objetivo de estudar as causas das perdas. Três anos depois, eles publicaram um artigo cujo título era “Design of Fighter

Aircraft for Combat Survivability”. Este estudo, que demonstrou como a tecnologia poderia aumentar a capacidade de sobrevivência das aeronaves, tornou-se a base para o que viria a ser a disciplina de capacidade de sobrevivência para projetos de aviões de combate. Mas o estudo foi além das palavras e teorias. O grupo identificou as principais causas da grande maioria das perdas e propôs mudanças nos caças que surtiram efeito na sobrevivência em ambiente hostil. O F-105, por exemplo, recebeu um pacote de “retrofit” e as alterações no F-4 Phantom II foram incorporadas aos aviões que saíam da linha de montagem. Assim, tanto nos EUA como na Europa, os projetos de caças do final da década de 1960 e início da década seguinte começaram a considerar a capacidade de sobrevivência em combate como um atributo fundamental. Paralelamente, foram definidas formas de se medir a ACS e estabelecidos valores limites para a aceitação de “Pk” numa aeronave. Nos Estados Unidos, os primeiros projetos que se beneficiaram deste estudo foram os que deram origem ao caça F-15 Eagle e ao avião de ataque A-10 Thunderbolt II.

Os conceitos fundamentais de sobrevivência

De modo geral, a ACS de uma aeronave pode ser aumentada ou melhora-

Forças de Defesa

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PODER AÉREO

As ARP em ação Um panorama sobre o uso de aeronaves remotamente tripuladas, as novidades que estão aparecendo nos teatros de operações e algumas comparações necessárias QQ Fábio Morais Castro fabiocastrobr@yahoo.com.br www.sistemasdearmas.com.br

A

Analisando padrões e procurando inimigos no Iraque e no Afeganistão

Os conflitos no Afeganistão e Iraque são outros locais onde esse tipo de análise está sendo usado extensivamente. As principais plataformas destas operações são as ARP (Aeronaves Remotamente Pilotadas) ou RPA (Remotely Piloted Aircraft), também chamadas de VANT (Veículos Aéreos Não Tripulados). A duração desses conflitos fez o uso das ARP crescer exponencialmente, resultando em melhorias de técnicas, hardwares e softwares usados nas operações de análise de padrões de vida, visando insurgentes que se misturam à população civil. Esse crescimento do uso ficou patente quando, em março de 2011, a frota norte-americana de ARP atingiu um milhão de horas de voo. Essa marca levou 14 anos para ser alcançada, mas o próximo milhão deverá ser atingido em apenas dois anos e meio. As operações de vigilância torna-

ram-se o principal fator nas vitórias das tropas americanas no Afeganistão e no Iraque. Os meios usados para vigilância não são apenas as ARP, mas também aeronaves comuns (pilotadas), sistemas de inteligência de comunicação (COMINT), redes de comunicação para trocar dados, bancos de dados e softwares para ajudar a analisar as informações. As bases do US Army (Exército dos Estados Unidos) estão cobertas por balões cativos com câmeras vigiando os arredores. No Afeganistão, o Talibã é um inimigo disperso, elusivo e que se mistura com a população em áreas urbanas ou remotas, nas montanhas. Uma estratégia para lidar com este inimigo foi colocar as ARP voando acima de locais suspeitos, em busca de atividade inimiga. Com a análise de padrão de vida, os operadores percebem detalhes como, por exemplo, onde os civis lavam a roupa e jogam lixo, além do padrão de tráfego de veículos. Quando se percebe uma mudança no padrão, as tropas são informadas de que algo está para acontecer. Devido ao sucesso das operações, a demanda por vídeo em tempo real (RTV - Real Time Video) aumentou muito, principalmente após 2005. O uso do RTV, além da escuta de rádios

e celulares, consiste em cobrir uma área onde se acredita que inimigo está operando de forma constante. As unidades de reconhecimento, incluindo as ARP, procuram dados que indiquem ações inimigas. Os sensores mantêm um pedaço do terreno sob vigilância por um longo período, e boa parte das análises é feita por computadores. Se um alvo ou padrão diferente é localizado, a análise humana pode confirmá-lo, indicando eventualmente a necessidade de um ataque com armas guiadas ou tropas. Estas últimas são usadas quando se quer capturar tropas inimigas e coletar documentos, ou quando há um risco grande de danos colaterais com o uso de armas guiadas.

Novos softwares e sensores para novas necessidades de vigilância

Manter em alerta os operadores de sensores sempre foi difícil. Após 20 minutos olhando para uma tela de vídeo ou de radar, o operador perde a capacidade de concentração. A solução sempre foi muito café e supervisão. Visando solucionar de forma mais efetiva este problema, o Departamento de Defesa dos EUA criou softwares para análise de padrões em vídeo digital, que utilizam técnicas "pattern matching" (combinação de padrão) para evitar o trabalho tedioso de monitoramento. O software detecta movimentos que precisam de atenção humana e dá alertas e indicações. Dois desses softwares são o VIRAT e o PERSEAS. O VIRAT (Video and Image Retrieval and Analysis Tool) vigia pequenas áreas como um prédio ou janela, enquanto o

USAF

ntes do início da operação que matou Osama Bin Laden em maio de 2011, o comandante do Seal Team Six foi chamado para um “briefing” sobre uma nova operação. Logo percebeu que seria um alvo importante, ao ser informado de que havia um satélite vigiando o local continuamente. O satélite fazia operação de análise de padrão de vida (“pattern-of-life analysis”), acompanhando o padrão de atividade dos alvos, no caso os moradores de uma casa. Um dado que levou à ação foi a determinação da sombra de Osama Bin Ladden, que é a de um homem alto, o que é raro entre os árabes.

Várias plataformas podem fazer análise de padrão de vida. Aeronaves de vigilância norte-americanas baseadas no Golfo Pérsico, como os E-3 AWACS, E-8 JSTARS, RC-135 Rivet Joint e EP-3 Aries são usadas para determinar o "padrão de vida" das forças iranianas, como suas baterias de SAM (mísseis superfície-ar), bases aéreas, transmissões de comunicações e movimentação de embarcações. Mas a principal plataforma para buscar alvos ainda mais elusivos não é tripulada, como veremos.

TECNOLOGIA

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sistema PERSEAS (Persistent Stare Exploitation and Analysis System) coleta atividade em uma grande área para análise estatística, procurando por padrões. O US Army criou o programa AURORA para reconhecimento automático de alvos para uso na ARP RQ-7 Shadow. O software identifica itens de interesse e alerta os operadores para conferir o local, visualmente. Outra melhoria foi nos sensores. A USAF (Força Aérea dos Estados Unidos) desenvolveu o sistema Gorgon Stare. O sistema consiste em um par de casulos multicâmeras levados pela ARP Reaper. Cada um pesa 250 kg, e fontes indicam que contém nove câmeras, sendo cinco diurnas e quatro noturnas (há uma fonte, porém, que cita 12 câmeras). Os casulos permitem cobrir toda uma cidade ao invés de apenas um quarteirão, num raio de 4 km. Existem outras opções, como usar todas as câmeras para olhar a mesma área e produzir uma imagem tridimensional, ou duas câmeras cobrindo o mesmo local com resolução diferente, sendo uma para busca e outra para focar e identificar objetos. O objetivo é compensar a falta de ARP, evitando mandar várias dessas aeronaves para cobrir o mesmo local. O US Army usa um sistema similar chamado Constant Hawk, enquanto o USMC (Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos) usa o Angel Fire. O Gorgon Stare já foi testado no Afeganistão e 10 conjuntos foram comprados pela USAF. No sistema, dois operadores ficam em um veículo Humvee controlando as câmeras, separados dos operadores do Reaper que leva os casulos. Os dados de vídeo (e outros) podem ser enviados para as tropas em terra através de um console portátil ROVER. As ARP Reaper e Predator são sempre chamadas para acompanhar veículos ou sobrevoar uma casa, de modo a alertar sobre "fu-

gitivos" durante uma operação, mas os controladores dos sensores podem perder alvos que se movimentem muito rápido. Também há um limite de quantidade de alvos que podem ser cobertos. Um sensor com abertura maior, como o Gorgon Stare, evita este problema, mesmo que sejam vários "fugitivos" em locais diferentes. Por usar o mesmo canal de comunicação para todos os operadores, o vídeo é atualizado bem menos do que o normal (por cobrir uma grande área) o que dá um efeito de câmera lenta. Outro hardware de imagem de área é o Argus-IS (Autonomous Real-Time Ground Ubiquitous Surveillance - Imaging System) da BAE Systems. Consiste num arranjo de câmeras instaladas em casulo de 230 kg, com definição de imagem de 1,8 Giga pixels. A câmera pode cobrir uma área de 40km2 voando a 3 mil metros de altitude, ou cobrir com altíssima resolução uma área bem menor. Uma das funcionalidades é indicar alvos móveis no campo de visão, o que seria uma tarefa bem demorada para um ser humano realizar manualmente, olhando vários vídeos gravados. Como funciona melhor em plataformas “paradas”, será instalado na ARP de asas rotativas MQ-18A Hummingbird, produzida pela Boeing, cuja autonomia estimada é de até 20 horas. O US Army esperava operar três MQ-18A no Afeganistão em 2011, mas uma caiu em 2010. O SOCOM (Special Operations Command) comprou 20 MQ-18 em 2009. O US Army está desenvolvendo um sistema mais simples chamado Triclops. Consiste em adicionar dois casulos com sensores nas asas da ARP MQ-1C Gray Eagle. O casulo foi testado na operação MUSIC em setembro de 2011. Enquanto o sensor principal Raytheon AN/AAS-53 Common Sensor Payload (CSP) era operado pela estação de controle principal, os dois

QQ MQ-9 Reaper taxiando, armado com bombas guiadas a laser e mísseis Hellfire

Forças de Defesa

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General Atomics

QQ A USAF comprou uma versão melhorada do Predator chamada Avenger ou Predator C, com propulsão a jato. A aeronave está em testes no Afeganistão. O Avenger tem um compartimento interno de armas com capacidade de levar uma bomba GBU-34 de 900 kg. A autonomia é de 20 horas e a velocidade máxima de 740 km/h. A US Navy também se interessou em usar o Avenger para substituir os EA-6B Prowler (aeronaves tripuladas de guerra eletrônica) em missões mais perigosas

Global Security

casulos DAS-2 da Raytheon instalados nas asas eram operados por várias tropas em terra, equipadas com as estações portáteis OSRVT (One System Remote Video Terminal) ou com o mini-GCS da AeroVironment usado pelas mini-ARP Raven e Puma. Um líder de Pelotão pode controlar um casulo do Triclops, mas o operador da ARP pode controlar os três ao mesmo tempo. Operando uma tela “touchscreen”, as tropas podem detectar explosivos improvisados e ver indivíduos correndo do local, sem abandonar o acompanhamento, pois a ARP MQ-1C agora tem vários sensores. Também foi testado o seu controle pelo helicóptero AH-64 Block III, dando capacidade de visualizar os alvos também por cima.

QQ Imagem do software Angel Fire usado pelo USMC. O software dá indicação de alvos móveis no vídeo e o operador pode focar a imagem para ver mais detalhes

Missões de Ataque

As missões das ARP não se restringem a vigilância. Os operadores ficam 15% do tempo apoiando tropas em contato com o inimigo e 20% do tempo apoiando tropas engajadas em operações e incursões, além de encontrar uma média de dois alvos por saída. Os operadores das ARP têm oportunidade de atacar alvos de 0,5% a 3% das saídas em média, dependendo da época e do local. As tropas em terra consideram as ARP o meio mais importante no sucesso das operações, e essas aeronaves mudaram a forma das tropas lutarem. A experiência do US Army com ARP mostrou que elas são muito úteis para manter a consciência da situação, diminuir a carga dos soldados e a exposição ao fogo direto com o inimigo. Com a “visão de pássaro” acima, os comandantes podem mover as tropas mais rápido, confiantes de que não sofrerão emboscadas, e sempre certos de onde o inimigo está ou não. O vídeo persisten16

Forças de Defesa

te deixou o inimigo em desvantagem, com os norte-americanos podendo ver o que ele faz, sem serem vistos. A visão noturna e as armas de precisão foram uma combinação que facilitou o sucesso nas ações. Nas operações militares, pode-se colocar meia dúzia de ARP no local, mais o apoio dos sensores de helicópteros de ataque e mini-ARP. Todo o campo de batalha fica coberto por sensores de vídeo, e esta tática também é usada para preparar o campo de batalha, com 2 ou 3 ARP para cobrir a área um dia antes da operação, como um vale ou vila. O inimigo não tem como se esconder e, se algo é detectado, pode-se

aumentar a cobertura de ARP no local. A rapidez das ações serviu para baixar o moral do inimigo no Afeganistão. Os ataques são simulados em computador, com o objetivo de que todos que participem das operações estejam bem treinados. A reação do Talibã foi usar mais ataques suicidas e explosivos improvisados. Ainda falando sobre vigilância, vale ressaltar que o aumento dos ataques com explosivos improvisados levou a uma reação: proteger o tempo todo os comboios que usam sempre o mesmo trajeto. O Constant Hawk é um programa do US Army para análise de imagens e padrões de busca. O www.aereo.jor.br

TECNOLOGIA conceito está baseado na comparação de imagens tiradas do mesmo local em momentos diferentes. Se o software nota alguma mudança, as imagens são estudadas mais de perto, levando à detecção de várias bombas e emboscadas. O programa diminuiu bastante os ataques aos comboios. A Força-Tarefa ODIN (Observe, Detect, Identify, and Neutralize) foi um projeto de coleta de informações que usava as ARP para encontrar explosivos improvisados e o pessoal que planta os explosivos. Faziam análise de padrão de vida com as APR em patrulhas nas estradas. A FT Odin entrou em operação em 2006 no Iraque e, já em 2007, foi responsável pela morte de cerca de 3 mil insurgentes. As ações da FT ODIN logo foram passadas para o Afeganistão. Entre as missões das ARP, a que mais chama a atenção é a de ataque. Os primeiros testes com armas guiadas no Predator foram em fevereiro de 2001. O primeiro uso em combate foi em 4 de fevereiro de 2002 contra um comboio afegão. A primeira missão de Apoio Aéreo Aproximado foi na Operação Anaconda, em 4 de março de 2002, contra uma posição de metralhadora da Al Qaeda que outras aeronaves não haviam destruído. Inicialmente, os ataques eram poucos. Isso porque também eram poucas as ARP armadas em operação, além de não atuarem no Paquistão: apenas um ataque em 2004 e 2005, três em 2006 e cinco em 2007. Já em 2008, foram 36 ataques com 317 mortes. Nos primeiros seis meses de 2009, os mísseis Hellfire foram disparados 31 vezes no Afeganistão e Paquistão, causando 365 mortes. A capacidade de encontrar e atacar líderes e pessoas-chave do Talibã e Al Qaeda tornou-se importante. Nas operações no Iraque de julho de 2005 a junho de 2006, os Predators da USAF participaram de 242 incursões. Também foram chamados para apoiar 132 tropas em contato com o inimigo, dispararam 59 mísseis Hellfire, observaram 18.490 alvos e escoltaram quatro comboios. Foram 2.073 saídas com 33.833 horas de voo. Em 2007, foram 117 ataques e, em 2008, foram 132. A ARP MQ-9 Reaper foi projetada para realizar missões de ataque e, por isso mesmo, foi liberada para disparar bombas guiadas GBU-12 Paveway II, GBU-38 JDAM e GBU-49 Enhanced Paveway II, além dos mísseis Hellfire. Para aumentar a autonomia, normalmente os Reapers levam apenas uma www.aereo.jor.br

bomba guiada. Os Reapers fazem X-CAS (Extended time Close Air Support - apoio aéreo aproximado de longa duração) e Controle Aéreo Avançado, mas sem poder autorizar o disparo de armas, atuando mais como controle de tráfego aéreo. A arma mais usada pelas ARP norte-americanas é o míssil AGM-114P Hellfire (P de Predator), adaptado para disparar para baixo. O Hellfire foi projetado para ataque supersônico de precisão a longa distância. É considerado caro e causa muitos danos colaterais em alguns alvos. Seu peso não é adequado para transporte em ARP menores. É por isso que outras armas estão sendo consideradas para uso em ARP, como a GBU-44/B Viper Strike de 20kg guiada a laser e já usada no MQ-5B Hunter, a Griffin de 20kg e o Spike de 2,4kg desenvolvido pelo Naval Air Warfare Center da US Navy (Marinha dos Estados Unidos). Os Israelenses oferecem o Spike-ER de 33kg para equipar os Hermes 450. Outra abordagem é ter a arma em terra e usar as ARP para detectar e designar os alvos. A empresa israelense Rafael testou sua mini-ARP SkyLite B com uma unidade de mísseis Spike-LR com alcance de 8 km. O SkyLite detectou os alvos e passou a posição para as tropas atacarem com seus mísseis. Em 2008, a Georgia usou 40 ARP israelenses contra a Rússia, incluindo 18 mini-ARP Skylark. Foram usadas para designar alvos para a artilharia com ótimos resultados, além de sistemas de coleta de informações eletrônica (SIGINT). Os russos não gostaram e tentaram comprar as mesmas ARP dos israelenses. Já o US Army estuda o desenUS Army

PODER AÉREO

volvimento de um míssil antirradiação para equipar os MQ-1C Gray Eagle, visando atacar as estações de controle de drones inimigos.

Patrulhas Aéreas de Combate

A USAF usa o conceito de CAP (Combat Air Patrol - patrulha aérea de combate) para operar suas ARP. Cada CAP precisa de três a quatro Predator ou Reaper para manter uma ARP operando de forma contínua no ar. Enquanto uma está em patrulha, as outras estão em trânsito ou em manutenção. As CAP têm cerca 200 tripulantes. A transmissão de dados por satélite tem atraso de dois segundos entre a entrada de dados pelo piloto e o retorno na tela. Na maioria das missões o atraso não atrapalha, mas para pouso e decolagem é necessário controle local com link direto, para respostas rápidas. Assim, as CAP têm duas estações de controle (Ground Control System GCS). Uma estação é usada pelo LRE - Launch and Recovery Element (elemento de lançamento e recuperação) e outra pelo MCE - Mission Control Element (elemento de controle de missão) que fica nos EUA. Os operadores da LRE às vezes atacam alvos ao redor da base quando a ARP está voltando com sobra de combustível e armas, mas eles não decolam as ARP para responder a ataques. Os dois elementos estão sempre em contato por chat ou telefone. É comum a entrada de especialistas na cabine para reparar falhas durante a missão. Muitos são civis contratados, mas a maioria é ex-militar. Em 2010, a USAF queria manter uma frota de 200 MQ-1B Predator e

QQ Os casulos DAS-2 do Triclops ficam instalados nos cabides da ARP MQ-1C Gray Eagle

Forças de Defesa

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PODER AÉREO

Escritório de Relações Públicas da 552ª Ala de Controle Aéreo, via William Richards

QQ Placa à frente do Quartel-General da 552ª Ala de Controle Aéreo

Conheça a unidade cuja história se confunde, desde a metade do século XX, com o próprio desenvolvimento das missões de AEW&C na USAF ssantana@fordefesa.com.br

Q

uase ninguém discorda que, na maior parte dos conflitos envolvendo aeronaves, os vetores de caça e ataque costumam atrair quase todas as atenções. Porém, a realidade mostra que o sucesso ou fracasso de suas ações dependem, cada vez mais, de outra classe de plataformas aéreas. São as aeronaves especializadas em missões de alerta antecipa24

Forças de Defesa

COMANDO & CONTROLE

QQ O “0004”, então alocado ao 965º Esquadrão, sobrevoa o seu lar. Na direção do seu “nariz” estão os hangares, e um pouco acima está a rampa de voo, apelidada de “Bird Cage” (gaiola de pássaro). À esquerda, o prédio do Quartel-General, situado acima dos tanques de combustível. Acima do Sentry, está a cabeceira 17

552ª Ala de Controle Aéreo da Força Aérea dos Estados Unidos

QQ Sérgio Santana

USAF, via William Richards

do e controle aerotransportado, classificadas pela sigla AEW&C. O conceito é considerado uma ideia britânica, surgindo na Real Força Aérea (RAF) durante a década de 1940. A partir daí, alguns acontecimentos importantes do final da Segunda Guerra Mundial e dos anos do pós-guerra promoveram o desenvolvimento desse conceito nos Estados Unidos. Não surpreende, então, que a Força Aérea dos EUA (USAF) tenha atualmente a unidade com maior

quantidade de aeronaves AEW&C em serviço, com 26 aviões do tipo: a 552ª Ala de Controle Aéreo (abreviada 552nd ACW). A ativação da unidade que hoje traz essa designação ocorreu em oito de julho de 1955, na Base de McClellan, na Califórnia. Foi a expressão máxima da USAF no sentido de se antecipar às progressivas ameaças apresentadas pela Aviação de Longo Alcance soviética a partir de 1947. Essa ameaça concretizada em 1947 resultou, ironicamente, dos pousos e quedas de cinco bombardeiros Boeing B-29 em território soviético, entre novembro de 1944 e julho de 1945. Estudando essas aeronaves, os soviéticos desenvolveram o bombardeiro Tupolev Tu-4, mais tarde codificado “Bull” pela OTAN. O alarme soou para os estrategistas norte-americanos quando, em 1947, três desses “novos” bombardeiwww.aereo.jor.br

ros soviéticos sobrevoaram uma multidão reunida para o tradicional Dia da Aviação em Tushino, feito repetido em maio do ano seguinte na Praça Vermelha. Agora, a União Soviética (URSS) possuía uma aeronave com a capacidade dos bombardeiros “Superfortress”, que haviam lançado bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Isso apressou os EUA a criarem, entre 1948 e 1949, a rede emergencial de alerta “Lashup”, cuja porção aérea estava integrada pelos PB-1W, variante do bombardeiro B-17 equipada com radar AN/APS-20, operada pela Marinha dos Estados Unidos. Em 29 de agosto de 1949, os soviéticos explodiram sua primeira bomba atômica, a RDS-1. Porém, apesar do temor já despertado pelo potencial nuclear do Tu-4, foi somente em outubro de 1951 que uma aeronave do tipo lançou um dispositivo atômico, a bomba RDS-3. Lançada sobre Semipalatinsk, a arma liberou 42 quilotons, potência equivalente a 42 mil toneladas de TNT. Mas isso não significa que os soviéticos estavam perdendo tempo: já no ano seguinte, a RDS-3 entrou em produção seriada e, em outubro de 1953, foi testada a bomba RDS-4 de 28 quilotons, www.aereo.jor.br

William Richards

QQ Placa do 552º Grupo de Operações e seus esquadrões subordinados

lançada por um bombardeiro a jato Tu-16 “Badger”. Esses e outros fatos contribuíram para a criação pela USAF, naquele mesmo mês, do 4701º Esquadrão de Alerta Antecipado e Controle Aerotransportado (AEW&C), sediado em McClellan. Em março do ano seguinte, na mesma base, foi criado o 4712º Esquadrão. Ambos voavam o Lockheed RC-121D, versão do conheci-

do L-1049 “Constellation” equipada com radares AN/APS-20B e AN/APS-95. O trabalho dessas aeronaves no alerta antecipado era beneficiado por um fato básico: as aeronaves soviéticas somente podiam alcançar o território norte-americano a partir de bases temporárias no Ártico ou com reabastecimento aéreo, então ainda em desenvolvimento na URSS.

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HISTÓRIA

Há quarenta anos começava a construção da classe Niterói, um ponto de virada na história da Marinha do Brasil

Christophe Joncour / Marine Nationale

F40 aos quarenta

PODER NAVAL

QQ A fragata Niterói durante a “Passex” com o BPC Dixmude da Marinha Francesa, em junho de 2012. Observar a ausência do lançador de mísseis antiaéreos Aspide, instalado na popa no Programa MODFRAG, retirado para manutenção

QQ Fernando “Nunão” De Martini    e Alexandre Galante nunao@fordefesa.com.br alexgalante@fordefesa.com.br

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ceano Atlântico, treze de junho de 2012: naquela tarde, tínhamos duas missões em mente quando decolamos num helicóptero Puma do Exército Francês, rumo à Base Naval do Rio de Janeiro. Uma era fotografar do alto o navio de 36

Forças de Defesa

projeção e comando (BPC) Dixmude, da Marinha Francesa, cujo convoo tínhamos acabado de deixar após três dias embarcados (narrativa e imagens que você pode conferir aqui nesta edição da revista). Outra missão era fotografar os navios da Marinha do Brasil que participavam da operação “Passex” junto com o BPC francês e sua escolta, a fragata antissubmarino Georges Leygues. Uma missão que realizávamos dois dias depois da Data Magna da Mari-

nha, o aniversário da Batalha de Riachuelo, data também coincidente ou muito próxima de outros acontecimentos que vamos narrar aqui. Entre estes navios a fotografar, estava um que, apenas uma semana antes, havia completado quarenta anos do batimento de sua quilha: a fragata Niterói. Infelizmente, o tempo de voo disponível para fotos não permitiu que sobrevoássemos a Niterói, e só pudemos fotografá-la de longe. Imagens www.naval.com.br

mais próximas tiradas de outra aeronave francesa, naquele mesmo dia, “salvaram” essa nossa segunda missão, para que pudéssemos estampar aqui esta bela imagem da fragata. Mas, antes mesmo de recebermos essa foto, já pudemos reparar em algo curioso nas nossas próprias imagens captadas de longe: a fragata estava sem o seu lançador de mísseis antiaéreos Aspide, retirado para manutenção. Sem esse equipamento, que norwww.naval.com.br

malmente fica bem visível à popa, a Niterói estava mais parecida com sua configuração original, planejada mais de quarenta anos antes, na qual um discreto lançador de mísseis antissubmarino Ikara mal aparecia. Uma curiosa coincidência para quem pretendia ilustrar uma matéria histórica, que vínhamos planejando e executando há meses, pesquisando em arquivos e entrevistando pessoas. Um trabalho que você confere agora.

Southampton, Inglaterra, oito de junho de 1972: no subúrbio de Woolston, na foz do rio Itchen, era batida a quilha de um navio de uma nova classe de fragatas, sob encomenda da Marinha do Brasil. Embora itens de maior tempo de construção (“long lead time items”) já estivessem sendo produzidos desde o ano anterior, o batimento de quilha marcava, oficialmente, a construção de um casco que nos dois anos seguintes cresceria abrigado

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PODER NAVAL

HISTÓRIA Foto: DPHDM

QQ Lançamento da União (F45) no AMRJ em 14 de março de 1975. A Independência (F44) aparece ao fundo

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Fernando De Martini

QQ O almirante Coelho de Sousa ao lado da foto da fragata Niterói. Sua participação foi decisiva no programa de aquisição desta classe de navios

Da ‘ideia do Coelho’ aos limites do ‘pulo do gato’ Conheça detalhes fundamentais do início da história da classe ‘Niterói’, numa entrevista com o oficial que conduziu o processo desde a concepção até a aquisição: o vice-almirante (Ref. EN) José Carlos Coelho de Sousa

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Forças de Defesa

E

m 17 de fevereiro de 2012, uma sexta-feira em que os blocos de carnaval já estavam arrebanhando foliões, o vice-almirante engenheiro naval (reformado) José Carlos Coelho de Sousa aceitou “voltar no tempo” e falar de sua experiência com o programa das fragatas classe “Niterói”. A carreira de Coelho de Sousa na Marinha começou em plena Segunda Guerra Mundial, quando serviu no velho encouraçado São Paulo, atracado em Recife. Depois da guerra, o oficial formou-se engenheiro naval na Universidade de Michigan, servindo então no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, onde chegou a chefiar a Divisão de Oficinas, além de servir na www.naval.com.br

Diretoria de Engenharia e no Escritório Técnico de Construção Naval em Philadelphia. Naquela tarde no Clube Naval, no centro do Rio de Janeiro, o almirante conversou sobre algumas dessas experiências e especialmente sobre o programa das fragatas. Processo em que esteve na “linha de frente” desde quando foi chefe de Planejamento da Comissão de Construção de Navios da Marinha do Brasil, à época da primeira seleção da “Bronstein”, depois como presidente dessa Comissão, quando da seleção definitiva da Mk.10 e, por fim, presidente da Comissão Naval Brasileira na Europa, já na época da construção das fragatas. As memórias de Coelho de Sousa sobre a concepção e aquisição da classe “Niterói” estão em seu livro “Uma História das Fragatas”, entre as mais importantes obras consultadas para esta matéria especial. Como outras boas fontes que pesquisamos, o livro tem o mérito de, além de trazer surpreendentes respostas, incentivar a elaboração de novas perguntas. E foi a essas perguntas que o almirante respondeu durante várias horas daquela sexta-feira carnavalesca, levando a mais perguntas, mais respostas, e ao difícil trabalho que tivemos, depois, de separar o que caberia no espaço disponível numa revista. Boa leitura! n Forças de Defesa - No início de seu livro “Uma História das Fragatas” o senhor faz uma crítica à utilidade de navios recebidos usados, como foi o caso dos “Fletcher”, que serviriam mais para que suas guarnições fizessem dias de mar do que para nossas necessidades reais. Poderia comentar mais sobre isso? Vice-almirante José Carlos Coelho de Sousa - Eu critico mesmo e sempre critiquei por várias razões, entre elas essa que eu exponho no livro: um navio de guerra sério existe para satisfazer necessidades operativas de um país. Então, a gente deduz que um navio aqui tem tais características porque precisa da atuação em tais situações. E as situações que caracterizam a vida de um país são diferentes das situações de outro país. Em outras palavras, o “Fletcher” era um destróier de combate. Era um excelente destróier para estar metido no meio de guerra de gente grande, e isso não tinha nada a ver com as necessidades da Marinha. E, além disso, eu implicava com navios do tipo, basicamente, porque eram a vapor e eu sempre impliwww.naval.com.br

ENTREVISTA

Um navio de guerra sério existe para satisfazer necessidades operativas de um país. E as situações que caracterizam a vida de um país são diferentes das situações de outro.

quei. Mas eles realmente eram excelentes navios, muito bons. Uma tremenda de uma instalação de propulsão de alta potência, absolutamente eficaz, ótimas acomodações, um projeto quase que perfeito.

n FD – Sobre isso que o senhor falou, da necessidade de se construir navios pensando em nossas necessidades, houve na década de 1960 um estudo que previa a necessidade de adquirir 30 novos navios-escolta, com uma ordem inicial de 10 navios. Desses dez primeiros, que na seleção inicial seriam baseados na classe “Bronstein” norte-americana, era previsto que seriam construídos no Brasil? Coelho de Sousa - Ah, sim. n FD – No Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro? Coelho de Sousa - Houve também um estaleiro americano que se interessou em entrar no cenário brasileiro, o Bath Iron Works. Eu acho que, na apresentação final da “Bronstein”, houve representantes do Bath Iron participando. Eu não tenho absoluta certeza sobre a construção no Arsenal ou fora. É até possível que estivesse sendo admitida a ideia de fazer uns lá, outros aqui. E havia aquela esperança vã de haver dinheiro de auxílio militar americano para a construção de navios aqui. Porque a gente sempre tem a esperança de poder utilizar os recursos técnicos do Arsenal de um jeito decente e de fazer justiça ao fato desses recursos técnicos existirem. n FD – O senhor é “cria” do Arsenal, certo? Coelho de Sousa – É, a minha carrei-

ra como engenheiro atuante foi no Arsenal, todo o tempo. E, como enviado do Arsenal, houve esse meu período de servir em Philadelphia. O escritório brasileiro em Philadelphia era ligado ao Arsenal de Marinha e não à Diretoria de Engenharia. n FD – Dessa época em Philadelphia, o senhor cita em seu livro conversas com um engenheiro norte-americano, Meyer Ziev, sobre a possibilidade da Marinha voltar a construir seus navios no Brasil. Isso acabou virando um programa que o então comandante Noronha, no Estado-Maior da Armada, chegou a dizer que era chamado de “ideia do Coelho”. O Meyer Ziev, que seria um “co-autor” dessa ideia, era veterano do escritório da Philadelphia, quando o senhor conversava com ele? Coelho de Sousa – Era. Tivemos uma boa relação. Ele era muito interessado em assegurar a continuidade dos laços entre a Marinha Americana, nesse lado técnico, e a Marinha Brasileira. A posição dele nasceu por causa do acompanhamento dos planos que foram desenvolvidos no Arsenal de Philadelphia para o “classe A”. Isso teve começo, teve meio, teve um fim. Depois de terminada essa faina e, portanto, podendo dizer “olha, muito obrigado, fecha isso aí”, não foi isso que aconteceu: continuou a haver aquele enclave da Marinha Brasileira no arsenal americano e então esse escritório participou de uma porção de atividades de colaboração dos americanos. Quando, por exemplo, a Marinha recebeu os contratorpedeiros classe “Fletcher” Paraná e Pernambuco, este último em Norfolk, o Meyer Ziev e outro engenheiro participaram consideravelmente na ligação entre o Pernambuco e o Arsenal de Norfolk. Para ser entregue à Marinha Brasileira, o Pernambuco tinha que passar por um reparo geral no Arsenal de Norfolk. Então isso acarretou um empenho, e o Meyer Ziev estava lá. Ele, que já morreu, foi muito, muito fiel à Marinha Brasileira. Inclusive com aquela ideia que eu menciono no livro: “Ah, os americanos não estão dando dinheiro para fazer coisas para os aliados? Por que não fazem isso para construir navios no Brasil?” n FD – Mas ele tinha meios de ajudar a fazer algumas coisas acontecerem? Coelho de Sousa – Ah, tinha. Ele era muito considerado. Ele era um americano empregado do Governo Brasileiro, mas trabalhando dentro de um ar-

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PODER NAVAL

REPORTAGEM

Três dias a bordo do ‘professor’ Dixmude Embarcamos no navio que está ensinando a Marinha Francesa e seus futuros oficiais a serem como ele:

Alexandre Galante

multitarefa

QQ Fernando “Nunão” De Martini nunao@fordefesa.com.br

J

á faz algum tempo que palavras como multitarefa, multipropósito, multiplicador de forças e “multirole” se tornaram verdadeiros mantras nos assuntos de defesa, no mundo corporativo e até no dia-a-dia das pessoas. Mas não é sempre que podemos ver palavras como 72

Forças de Defesa

essas saindo do lugar-comum, passando do discurso para o campo das ações e das formas concretas. No caso, as formas bojudas de um navio com 199 metros de comprimento, outros 32 de boca e mais de 20.000 toneladas de deslocamento. Trata-se do “professor” Dixmude, o mais novo navio de projeção e controle da Marinha Francesa que, neste primeiro semestre de 2012, assumiu temporariamente a função de

navio-escola. Uma escola repleta de ensinamentos multitarefa e que aportou no Brasil neste mês de junho. Os editores Alexandre Galante e Fernando “Nunão” De Martini embarcaram por três dias no Dixmude (L9015) e conheceram em detalhes a operação do navio e a multiplicidade de missões que ele pode realizar. Vale dizer que o treinamento no mar dos futuros oficiais da Marinha Francesa, www.naval.com.br

que a princípio não fazia parte de suas atribuições, é só uma delas. E quando o assunto é aprendizado, a operação dos navios dessa classe está fazendo até mesmo a alta oficialidade francesa descobrir possibilidades até então desconhecidas.

A ‘Mission Jeanne d’Arc 2012’ e a ‘Passex’ com a Marinha do Brasil Mas o que trouxe o Dixmude, acom-

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panhado da fragata Georges Leygues, ao Brasil? A missão é de treinamento dos futuros oficiais da Marinha Francesa, realizada anualmente com os alunos que estão se formando na Academia Naval, assim como é feito na Marinha do Brasil (MB), que utiliza o navio-escola Brasil (U27) nessa tarefa. Em praticamente seis meses de missão no mar, participando de operações, vivenciando na prática toda a teoria

que aprenderam, guarnecendo postos, participando das mais diversas simulações a bordo e também assistindo às aulas, os alunos exercitam suas capacidades e são testados nos papéis de liderança que exercerão em breve. Ao longo de várias décadas, essa missão anual foi realizada pelo porta-helicópteros e navio-escola Jeanne d’Arc, incorporado em 1964 para substituir um cruzador da década de 1930,

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FORÇAS TERRESTRES

EXPOSIÇÃO

Eurosatory 2012 Uma perspectiva francesa

Fotos: Jean François Auran

QQ Jean François Auran jfauran@hotmail.com

A

exposição Eurosatory tem uma história que remonta a 1967, quando um primeiro salão foi organizado pela Direção Geral de Armamento (DGA) francesa no campo militar de Satory, próximo a Versailles. Desse primeiro evento participaram trinta expositores, e o salão continuou a ser organizado por vários anos sucessivos. A edição de 1992 marcou um ponto de virada, quando o salão se tornou europeu e ganhou o nome “Eurosatory - Exposição Europeia de Equipamento de Defesa”. O evento mudou-se para o Centro de Exposições de Bourget, mas manteve a referência ao seu nascimento em Satory. Em 1994, os Estados Unidos exibiram pela primeira vez e, em 1996, o evento tornou-se totalmente mundial, com a chegada das indústrias russas. Refletindo a ampliação do alcance, em 2000 o salão tornou-se “Exposição Internacional da Defesa Terrestre e de Defesa Aérea.” A edição de 2002 foi a primeira a ser realizada no Parque de Exposições Paris-Nord Villepinte. Desde então, as edições seguintes incorporaram novas dimensões, ganhando cada vez mais notoriedade. Esta edição de 2012, a 23ª a ser realizada, ocorreu entre 11 e 15 de junho, com a participação de 54 países e com nada menos do que 1.430 expositores, sendo 407 franceses. Mais de 50.000 pessoas visitaram a exposição deste ano. Como novidades de 2012, destacam-se temas como segurança do ciberespaço, com a organização do seu primeiro fórum, assim como a chegada de empresas expositoras de três novos países, Paquistão, Chipre e Líbia, mostrando armas, veículos e muito mais.

QQ Demonstração ao vivo

durante a exposição: UAV Infotron com soldados do 2 o°RIMA

QQ UAV HoverEye EX

QQ Ponte Modular de Assalto

QQ Ambulância tática Oshkosh Defense M-ATV

PTA MLC 80 - CNIM

Tendências

A exposição continua a crescer em expositores e visitantes, mas sofre com o difícil contexto da crise euro92

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FORÇAS TERRESTRES peia. Do ponto de vista técnico, acentua-se cada vez mais a presença de exposições de tecnologia de ponta, seja em qualidade ou em quantidade. Isso fica claro nas mostras de blindados, aeronaves remotamente pilotadas (drones) e sistemas C4I (Comando, Controle, Comunicações, Computadores e Inteligência). Há vários anos, os conflitos do Iraque e do Afeganistão vêm influenciando os tipos de materiais de defesa expostos. Entre os esforços de investigação e desenvolvimento, há um foco em sistemas defensivos, indicando prioridades como a detecção de dispositivos explosivos improvisados e a proteção de helicópteros contra armas leves. Como consequência direta do difícil ambiente econômico, muitas empresas oferecem a renovação de equipamentos já usados. Um exemplo é a Rheinmetall Defesa, que desenvolve evoluções do Leopard 2 e do IFV Marder. O grupo francês SOFEMA oferece a modernização de veículos Panhard antigos, além de carros de combate. Falando em carros de combate, tanto estes quanto os veículos de combate de infantaria (IFV) e os veículos blindados deverão continuar formando a espinha dorsal das forças terrestres modernas. Foi pensando nisso que a Agência Europeia de Defesa (EDA) contratou um consórcio de 17 empresas, com o objetivo de realizar um estudo sobre as principais capacidades industriais que se deseja manter na área de armamento terrestre. Esse estudo sobre sistemas futuros deverá desenvolver um “roteiro” (roadmap) e um “plano de implementação” das capacidades industriais. Também deverá identificar os sistemas de inovação existentes e as estratégias para manter e desenvolver essas capacidades.

QQ Leopard 2 A6M CAN

QQ KMW Dingo 2

Brasil VBTP-MR Guarani O general James Mayer Sinclair, do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército Brasileiro, apresentou o primeiro exemplar produzido, de um total de dezesseis da fase de pré-produção, da VBTP-MR Guarani (Viatura Blindada de Transporte de Pessoal - Média de Rodas). Também foi anunciada uma nova versão para as unidades de Cavalaria do Brasil.

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QQ Panhard Sphinx com torre

Lockheed Martin

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Fotos: Jean François Auran

EXPOSIÇÃO QQ MBT Oplot ucraniano

Novidades francesas

QQ Nas duas fotos, o Sherpa

special forces 4x4

Ministério da Defesa O Ministério da Defesa francês aproveitou o evento para revelar inovações. A primeira foi o exoesqueleto Hercules, da empresa RB3D. Com previsão de comercialização em 2014 e aplicações civis e militares, ele permite que uma pessoa suporte até 100 kg. A segunda inovação apresentada foi a câmera portátil Millicam 90, que usa ondas de rádio para visualizar através de paredes. Voltada à segurança de aeroportos, alfândegas e outros locais, a Millicam 90 é um projeto da sociedade Technologies MC2, como parte de um contrato de pesquisa e inovações exploratórias com a DGA. A terceira é da área médica: um plasma liofilizado que pode ser reconstituído em 3 minutos, gerando uma economia de tempo de 20 minutos em relação ao plasma congelado - um tempo precioso que pode salvar vidas. O plasma é universal e pode ser usado em caso de choque hemorrágico grave, ajudando a manter um ferido vivo até que possa ser levado a um hospital.

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TECNOLOGIA

IVECO GUARANI 6X6

Ares Aeroespacial e Defesa

SURGEM OS PRIMEIROS QQ Expedito Carlos Stephani Bastos defesa@ufjf.edu.br

O

s nossos primeiros veículos Guarani 6x6 surgem no ano em que se comemora o 91º aniversário do emprego de blindados no Brasil: foi em 1921 que o Exército Brasileiro incorporou doze carros de combate leves Renault FT-17 (adquiridos na França em 1919 e recebidos no Brasil em 1920), quando da criação da Companhia de Carros de Assalto. Os FT-17 eram frutos dos ensinamentos da Primeira Guerra Mundial (1914 - 1918), quando estes veículos provaram que poderiam fazer a diferença, principalmente na frente ocidental, acabando com o imobilismo e dando proteção ao avanço da infantaria. Daqueles doze blindados, seis eram armados com canhão Puteaux de 37mm e torre fundida Berliet, cinco com metralhadora Hothckiss 8mm e torre octogonal rebitada Renault, e um era TSF (Telegrafia Sem Fio), desprovido de torre. Nas décadas seguintes, empregamos blindados de origem italiana, norte-americana e alemã, além de muitos exemplares nacionais produzidos no ápice de nossa indústria, que se deu entre 1970 e 1990. Logo depois, com o colapso dessa indústria, voltamos a importar blindados usados da Europa e Estados Unidos - apesar de, em alguns casos, haver projetos na-

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QQ VBTP-MR Guarani com a

torreta REMAX

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Arquivo UFJF/Defesa

TECNOLOGIA DCT/Arquivo UFJF/Defesa

Coleção do autor

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QQ Diagrama da

apresentação da Nova Família de Blindados sobre Rodas, mostrando a versão 8x8 inspirada no Centauro Italiano, antes do mesmo ser testado no país. O documento ainda apresentava a família 4x4

QQ Montagem da carcaça de um dos quatro veículos do lote piloto em novembro de

QQ Folder distribuído numa Exposição de equipamentos militares realizada na

2011. Esta imagem é representativa do que foi a montagem da carcaça do primeiro protótipo, nos primeiros meses de 2010 DCT/Arquivo UFJF/Defesa

ECEME, no Rio de Janeiro, em 2000. Um dos primeiros informes oficiais sobre o que era pretendido para a Nova Família de Blindados sobre Rodas, mencionando versões 4x4, 6x6 ou 8x8

Foto do autor

QQ Apresentação do mock-up na escala 1:1 do futuro Guarani 6x6, no stand da Iveco

QQ A carcaça totalmente montada, em agosto de 2010, podendo-se perceber a forma

Defence Brasil da LAAD 2009, no Rio de Janeiro

do veículo

cionais superiores aos que vinham sendo adquiridos. Mais uma vez estamos perseguindo o desenvolvimento de um blindado nacional, sobre rodas, que possa proporcionar independência tecnológica igual, ou superior, à que foi conseguida com nossos dois melhores produtos do gênero desenvolvidos e produzidos em escala industrial: o EE-9 Cascavel e o EE-11 Urutu, que ainda se encontram em operação no Exército Brasileiro, bem como em diversos países. O ano de 2011 foi o grande marco 102

Forças de Defesa

dessa iniciativa, com a apresentação oficial do primeiro protótipo do EB/Iveco VBTP-MR 6x6 Guarani (Viatura Blinda-

da de Transporte de Pessoal - Média de Rodas). A apresentação foi realizada pela

Iveco Defence Brasil de Sete Lagoas, MG, na maior feira de defesa do continente sul-americano, a LAAD 2011. Ainda em 2011, foram iniciados os primeiros testes de homologação desse novo blindado, no CAEx (Centro de Avaliações do Exército), no Rio de Janeiro. O Guarani também desfilou na parada cívica de sete de setembro de 2011, em comemoração ao dia da Independência,

em Brasília. Mas vale a pena voltar um pouco mais no tempo para compreender, em detalhes, todo o desenvolvimento que levou àquela apresentação oficial de abril de 2011, para depois avançarmos à situação neste início do segundo semestre de 2012.

A concepção de uma nova família de blindados sobre rodas

Os estudos de concepção do Guarani remontam ao final da década de 1990, ainda com o nome de NFBR (Nova Família de Blindados sobre Rodas), posteriormente apelidado de URUTU III. www.forte.jor.br

Em diversos documentos emitidos pelo Exército, eram discutidas as versões que integrariam uma família, em configurações 6x6 e 8x8, assim como a utilização de canhões de 90 e 105 mm e, também, uma versão 4x4 leve. Testes realizados em 2001 com o blindado italiano Centauro B-1, armado com canhão de 105 mm, despertaram em alguns setores do Exército a vontade de aprimorar o poder de fogo nos projetos futuros de veículos blindados sobre rodas. Havia também a lembrança de muitos que acompanharam o desenvolvimento do EE-18 Suwww.forte.jor.br

curi II, realizado pela Engesa na segunda metade da década de 1980. Embora apenas um protótipo do Sucuri II tenha sido construído, sem nunca passar por testes pelo Exército, o veículo havia chamado a atenção devido às novidades apresentadas, como suspensão hidropneumática, canhão de 105mm, peso na ordem de 18,5 toneladas e baixa pressão sobre o solo. Os estudos para definição das necessidades foram seguidos de algumas licitações. A empresa vencedora do contrato de desenvolvimento foi a Fiat, com sua subsidiária Iveco, que

se tornou a Iveco Defence Brasil.

O primeiro protótipo e o veículo de testes de certificação de blindagem

A construção do primeiro protótipo foi iniciada em dezembro de 2009, oito meses após a apresentação do mock-up em tamanho real, construído na Itália e montado no Brasil, na LAAD-2009 (em abril). A princípio, pensava-se em construir um protótipo e dezesseis pré-séries, que seriam devidamente testados. Se aprovados, a produção em série atenderia à demanda do Exército, que

Forças de Defesa

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FORÇAS TERRESTRES

NASCIDO PARA VOAR Livros ‘Blindados no Brasil’ 1 e 2

‘Renault FT-17’

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O

m 2011, o pesquisador mineiro Expedito Carlos Stephani Bastos (coordenador do portal UFJF/Defesa), em parceria com a Taller Comunicação, lançou o primeiro livro resgatando a história dos blindados utilizados pelas Forças Armadas e de Segurança Pública brasileiras desde 1921 até 1979, com 248 páginas e mais de 300 imagens. Agora, após meses de trabalho, chega às livrarias o segundo título. Co-

brindo o período entre 1980 e 2011, a nova publicação reúne fontes civis e oficiais para recordar o apogeu e queda da indústria nacional de defesa. O livro tem 280 páginas e mais de 400 imagens, a maioria em cores. Em conjunto, os dois volumes formam a maior fonte de pesquisa editada até hoje sobre o tema. O preço é de R$68,50 para o volume 1 e R$88,50 para o volume 2.

‘Blindados no Haiti’

A

nova obra “Blindados no Haiti MINUSTAH – Uma experiência real” marca o lançamento do primeiro livro com o selo do UFJF/Defesa. Seu preço é de R$ 38,50. A nova publicação, em formato

15x21cm, conta com capa colorida e dezenas de fotos e ilustrações, em cores e originais em preto e branco, em impressão de ótima qualidade. Com 108 páginas, e mais de 150 imagens em cores, o livro resgata os principais modelos de veículos empregados no Haiti por diversos países que formam a MINUSTAH, sob o comando do Brasil. Nele são analisados todos os veículos blindados 4×4, 6×6, 8×8 e sobre lagartas que lá foram empregados no período de 2004 a 2011. O autor esteve no Haiti em 2008, a convite do Ministério da Defesa, e participou junto com o Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil de diversas patrulhas pelas ruas de Porto Príncipe. Visitou também diversas unidades de outros países que compõem a MINUSTAH, verificando o aprendizado e experiência no emprego de blindados em área urbana, um verdadeiro laboratório para a Marinha e o Exército Brasileiro.

livro “Renault FT-17 – O Primeiro Carro de Combate do Exército Brasileiro” marca o lançamento da nova coleção Blindados no Brasil e já está disponível no UFJF/Defesa. Com 56 páginas, o livro resgata os principais acontecimentos que envolveram a operação do primeiro carro de combate do Exército Brasileiro, desde 1921 até a sua desativação em1942. A pesquisa impressiona pela riqueza de detalhes, com o resgate de muitos documentos da época e dezenas de imagens históricas. Engloba desde aspectos técnicos do projeto e construção do blindado na França até particularidades sobre a sua aquisição e operação no Brasil. Também foram mapeados todos os exemplares atualmente preservados no país. Com o lançamento do primeiro número da coleção Blindados no Brasil, o pesquisador pretende oferecer ao público interessado pela história da tecnologia militar nacional uma série de estudos, mais aprofundados, sobre as nove décadas de emprego e desenvolvimento de veículos militares em nosso país. Em cada número, Expedito Carlos Stephani Bastos realizará uma análise detalhada de um modelo de blindado que marcou época nas forças armadas brasileiras. Esta é a terceira publicação com o selo da Taller Comunicação e a segunda produzida em parceria com o UFJF/ Defesa. Seu preço é de R$ 33,00.

Os preços indicados são para compras diretas pelo portal UFJF/Defesa – www.ecsbdefesa.com.br. Para adquirir as obras, basta enviar um e-mail para defesa@ufjf.edu.br. 114

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