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Os desvios na vida nos levam a caminhos que nunca imaginamos que existissem, uns que nunca esperamos e que nunca pretendíamos trilhar. Mas são as pessoas que conhecemos ao longo do caminho que nos ajudam a atravessar os obstáculos, acendem a luz dentro de nossos corações, há muito tempo dormente, e nos guiam para fora da escuridão.

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Prólogo Irmã Hannah Eu joguei a cabeça para trás em frustração, apertando o backspace até que cada palavra desaparecesse da tela do computador. O que eu estou fazendo? Eu sou uma freira, pelo amor de Deus! Eu não posso escrever obscenidades! Mas, assim como na época que recebi o chamado para me juntar ao convento, algo estava me obrigando a colocar minhas habilidades de escrita criativa em uso no momento. Estava na lista de coisas para fazer. Claro, eu poderia simplificar e escrever poesia ou livros infantis. Seria uma coisa respeitável, para uma mulher da minha profissão, mas acredite ou não, eu tendia a caminhar pelo lado selvagem. Bem, tão selvagem quanto é permitido para uma freira. A verdade era que eu não sabia nada sobre s-e-x-o. Eu só tive uma experiência. Ok, talvez duas, mas desde que aconteceu quando eu tinha dezesseis anos e só durou um minuto, eu dificilmente qualificaria isso como material para um livro. Eu estava definitivamente enferrujada nesta área. Enquanto as outras irmãs acreditavam que eu estava lendo livros espirituais ao deitar na cama colada ao meu Kindle até as primeiras horas da manhã, na verdade, eu estava em alguma terra distante muito antiga, sendo saqueada pelos Vikings, ou nos tempos modernos sendo dominada por um bilionário sexy. Ler livros de romance era o meu prazer culpado, algo que nunca admitirei a ninguém, algo sobre o qual queria escrever. Mas como? Como eu poderia fazer isso sem experiência alguma? Como eu poderia fazer isso quando estava com medo que eu ardesse no inferno - ou pelo menos meu laptop queimasse - se eu escrevesse as palavras para descrever a anatomia masculina, que eram usadas em muitos desses livros que eu lia. Eu toquei o lado do rosto com o dedo indicador, pensado profundamente, sorrindo, pois a solução para o meu dilema, finalmente, surgiu.

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Capítulo 1 Bree O último gole de Chardonnay e a vista perfeita do Central Park não conseguiram reduzir a agitação crescente, ao me sentar no Oak Bar, localizado no Hotel Plaza. — Sério? — eu sussurrei ao olhar para o meu relógio. Vinte minutos de atraso. Não é legal. Eu joguei o dinheiro na mesa e estava prestes a sair quando meus olhos se fixaram em um homem de negócios perfeitamente trajado que acabava de entrar. Minha avaliação inicial do belo estranho me dizia que ele tinha os traços típicos de todos os meus clientes, início dos trinta anos, rico e muito poderoso. Mas havia algo sobre ele que se destacava de todos aqueles outros políticos entediados, advogados e médicos com os quais eu costumava trabalhar. Fiquei congelada, parada ao lado do bar, esperando para ver se eu era o motivo dele estar lá. Seus olhos verdes brilhantes se destacaram, mesmo a poucos metros de distância. Quando eles fixaram nos meus, eu precisei me lembrar que, se ele era meu cliente das três horas, ele era como qualquer outro homem - um cliente, e um cliente que estava vinte minutos atrasado. — Você é Bree? — ele finalmente falou com um sotaque britânico suave. — Sim. — eu respondi, colocando minha melhor cara de negócios, lembrando-me mais uma vez: Ele era apenas mais um cliente em potencial. Não era como se eu não estivesse acostumada a ficar perto de pessoas devastadoramente bonitas, mas esse homem parecia ter uma elegância clássica - o tipo que você só conseguia encontrar nas estrelas de cinema dos anos passados. Com cerca de 1,83m de altura, tinha cabelo ondulado castanho-claro, um queixo partido - e eu mencionei os olhos e esse sotaque? — Eu sou Simon Grace. — ele estendeu a mão para mim.

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— Bem, Sr. Grace, tinha a impressão de que nosso compromisso fosse às três horas. Ele esfregou a nuca e olhou para o chão. — Sim, desculpe, fiquei preso em algo. Você ainda tem algum tempo para a reunião? — ele fez um gesto para o bar. Eu respirei fundo. — Tudo bem, mas você já sabe, meu tempo é tão valioso quanto o seu, e se pretendemos trabalhar juntos, então não posso aceitar que você continue se atrasando. Ele me mostrou um sorriso cheio de covinhas, fazendo com que eu me inclinasse mais perto. — Porque Margo e eu, ambas somos obcecadas com horários, e você será cobrado... — Entendido. — ele assentiu. — Tudo bem. — bufei, sentando-me no mesmo lugar em que eu estive nos últimos vinte minutos. — O que você estava bebendo? — ele perguntou enquanto chamava o barman. — Não deveria ser eu a lhe comprar uma bebida, Sr. Grace? Afinal, é sou eu que tenho interesse em fechar o negócio. — levantei uma sobrancelha. — Chame-me de antiquado, mas acredito que é sempre o dever do homem comprar a bebida para uma senhora. Nobre, como eu suspeitava. — Bem, obrigada. Eu vou querer outro copo de Chardonnay. — uma vez que ele pediu as bebidas, eu prossegui com os negócios. — Então, eu suponho que Margo tenha lhe passado as políticas da empresa em detalhes. — Ela passou. — E você, está de acordo com tudo?

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— Estou. — ele tomou um gole do copo de uísque escocês que o barman acabou de colocar na sua frente. — Se eu não sou o que você tinha em mente, há muitas outras na agência que você pode escolher... — Não, você é perfeita. Meu estômago revirou um pouco com o som dessas palavras. — Está bem, então. Que tipo de arranjo você gostaria de fazer? — as perguntas usuais passavam em minha mente: O que ele fazia para ganhar a vida? Ele era casado? Ele tinha família? Ele era apenas alguém que tinha prazer em pagar às mulheres uma quantidade de dinheiro insano para fazer sexo com ele? Eu tinha muita experiência para perguntar quaisquer desses pensamentos. Não era problema meu. Meu trabalho era conseguir que o contrato fosse assinado, realizar os serviços solicitados e receber o pagamento. Mais frequentemente do que não, eu encontrava todas as respostas a essas perguntas e mais um pouco quando começávamos a trabalhar juntos. Ele

respirou

fundo

e

olhou

para

a

frente

com

incerteza. Definitivamente, ele era novato nisso. — Eu sou um homem muito ocupado. — ele hesitou. — Entre administrar minha empresa e... Levantei minha mão para detê-lo. — Sr. Grace. — Simon. — ele corrigiu. — Simon... está tudo bem. Por favor, não sinta necessidade de justificar seus motivos para fazer tal coisa. É um negócio. Claro e simples. Não há nenhum julgamento aqui. Então, pense nisso como assinar um contrato de fusão, de grandes negócios ou o que quer que seja que você faz para ganhar a vida. — Publicidade. — ele ofereceu.

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— Ai está. Pense nisso como o início de uma próxima grande campanha publicitária. — lancei um sorriso caloroso, tentando o meu melhor para deixá-lo à vontade. Ainda parecendo um pouco inseguro, ele começou a falar. — Uma vez por semana, e em certas ocasiões, eu precisarei que você me acompanhe a eventos. — Tudo bem. — peguei meu telefone e examinei o calendário. — Eu tenho as tardes de quinta-feira disponíveis. Fica bom para você? Ele me deu um rápido aceno de cabeça. — Perfeito. A Margo irá finalizar os detalhes e enviar-lhe o contrato por e-mail. Se alguma coisa mudar entre agora e quinta-feira, apenas ligue ou... — eu peguei um guardanapo do bar e vasculhei em minha bolsa por uma caneta, anotando meu número de telefone. — Sinta-se livre para me ligar. Ele levantou o copo aos lábios e tomou outro gole de seu escocês, lançando um olhar intenso sobre mim. Levantei-me e estendi a mão para ele. — Vejo você na próxima quinta-feira, Sr.... quero dizer, Simon. Gentilmente, ele pegou minha mão na dele e a sacudiu. — Foi muito bom conhecê-la, Bree. — Igualmente. — fiquei congelada no feitiço que sua íris verde esmeralda lançou sobre mim. O ding repentino do meu telefone foi um lembrete agudo de que meu próximo compromisso estava esperando. Eu me controlei, e voltei a entrar na realidade... e assim, o Sr. Simon Grace passou do Príncipe Encantador para meu cliente de quinta-feira à tarde.

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Capítulo 2 O ar frio de janeiro clareou minha cabeça enquanto eu caminhava pela Quinta Avenida. O que diabos aconteceu? Nos últimos quatro anos fazendo isso, sempre consegui me controlar e permanecer profissional. Eu fui uma tola mal-humorada lá, e esperava que não tivesse parecido assim para o Sr. Grace. Parei no meio da calçada, procurei o celular na bolsa para mandar uma mensagem de texto ao Dr. Carl Ventor, um cardiologista proeminente de Manhattan... também meu próximo cliente. Eu tinha que avisar que estava atrasada, me sentindo muito hipócrita depois do sermão sobre atraso que acabei de dar ao Sr. Grace. Quando, finalmente, localizei o telefone na bolsa, fiquei surpresa ao encontrar uma mensagem da Margo. Ela estava me informando que o Dr. Ventor havia cancelado e que havia agendado outra reunião com um potencial cliente. — Caramba, Margo!— eu gritei. Depois do Sr. Grace, eu estava no meu máximo de clientes, e ela sabia disso. Eu não era como as outras meninas na agência, que

gostava

de

assumir

a

maior

clientela

possível. Eu

vivia

confortavelmente com os poucos por semana que eu encontrava. Cliquei no nome da Margo na tela e esperei que ela atendesse, dando passos duplos para tentar me aquecer à medida que caminhava. — Olá, querida. — Margo respondeu com seu leve sotaque alemão que ainda permanecia na sua voz depois de morar neste país há mais de trinta anos. Margo era a melhor dos melhores no que ela fazia. Ela chegou à cidade de Nova Iorque aos vinte anos, procurando ser a próxima grande dançarina, mas encontrou uma carreira muito mais lucrativa. Nossas semelhanças eram estranhas. Eu me mudei para Manhattan, vindo da Califórnia, com apenas dezesseis anos, quando me ofereceram uma bolsa de estudos para a mundialmente famosa School of American Ballet. Eu estava bem no caminho para viver o meu sonho, e me tornei membro do

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New York City Ballet - até que uma lesão me tirou esse sonho. Margo era instrutora de dança e uma das primeiras pessoas que conheci quando mudei para Nova Iorque. Sendo uma jovem em uma cidade estranha e nova, imediatamente, a vinculei a uma figura materna. Ela era uma grande defensora da minha carreira de dança. Muitas vezes eu me perguntei se ela estava vivendo sua oportunidade perdida através de mim. Seja como for, ela se assegurou de cuidar bem de mim e sempre teve meu melhor interesse no coração. Quando fiquei lesionada e minha carreira de dança terminou, eu sabia que não conseguiria me dar ao luxo de viver na cidade, então eu me deparei com o meu maior medo, voltar para minha pequena cidade do norte da Califórnia, que não tinha nada além de recordações dolorosas. Minha mãe faleceu quando nasci devido a complicações no parto. Meu irmão mais velho era um advogado de sucesso, e meu pai esperava o mesmo sucesso da filha. Mas, em vez disso, eu me tornei uma dançarina liquidada, sem outra qualificação profissional, além da dança, até que Margo me colocou sob a asa e me mostrou outra maneira de ganhar a vida. Uma maneira que me proporcionou um estilo de vida muito mais extravagante e que a dança nunca poderia fornecer. No começo, a ideia de ter fazer do sexo uma profissão não me empolgou, exatamente. Na minha mente, estava reservada para as mulheres vestidas com poucas roupas, que ficavam nas esquinas das ruas, respondendo a cafetões que batiam nelas diariamente, mas

o

negócio

de

Margo

era

muito

diferente. Ela

examinava

cuidadosamente todos os nossos clientes. Todos eram profissionais, que ganhavam rios de dinheiro. E precisavam, a fim de pagar os serviços de nossa agência; não era barato. Todos os homens com quem trabalhei eram

perfeitos

cavalheiros,

e

realmente

fiz

amizades

com

a

maioria. Descobri que proporcionava a eles mais do que apenas sexo. Eu ouvia seus problemas, me divertia com seus sucessos, e eles, sinceramente,

valorizavam

minha

opinião

quando

eu

a

oferecia. Acompanhei-os a festas extravagantes e lugares distantes, que eu

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só sonhava em visitar, enquanto vestida com belas joias e roupas caras. Tentava esquecer que alguns deles eram casados e tinham famílias. Era simplesmente negócio - sem sentimentos envolvidos. Esse era o mantra que eu tinha repetido nos últimos quatro anos, e funcionava bem. — Margo, você esqueceu, com exceção deste último compromisso, que não estou mais aceitando clientes? — Não, querida. — Então, por que você me enviou mensagens sobre reunião com alguém novo? Ela soltou sua risada característica e profunda. — Não é o seu cliente típico, querida, confie em mim. — O que significa isso? — eu parei na calçada, recusando dar outro passo em direção ao meu destino pretendido até que ela se explicasse mais. — Ela é muito... — Ela? — com essa única palavra eu me aproximei da calçada para pegar um táxi, decidindo que eu voltaria para casa e não para a reunião da Margo. — Sim. — ela riu novamente, parecendo se divertir com meu estado confuso. — Desculpe, Margo, você sabe que não saio com mulheres. Tenho certeza de que Kylee ou Regina estariam mais do que dispostas a encontrá-la. Estou indo para casa. — Oh, Bree, você pode relaxar? Ela não está procurando sexo. — Então eu não entendi. — entrei no táxi que acabava de estacionar, ouvindo atentamente o que Margo tinha a dizer. — Ela está escrevendo um romance e precisa de dicas sobre sexo.

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— Espere, o quê? — Você me ouviu. — Então, esta mulher está disposta a pagar o preço de um cliente normal para aprender sobre o sexo? — eu joguei a cabeça para trás e ri. Nascia um otário a cada minuto. — Aparentemente, sim. — respondeu Margo. — Ok, eu tenho uma pergunta idiota. Por que ela simplesmente não faz sexo com alguém e escreve sobre isso? O silêncio apareceu antes que Margo falasse novamente. — Porque ela é uma freira.

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Capítulo 3 A neve estava apenas começando a cair quando cheguei ao café. Eu abri o casaco e limpei os flocos que se reuniram em meus ombros quando entrei, explorando a área para o meu próximo cliente. Minha avaliação inicial não revelou nenhum hábito, ou o que quer que as freiras usassem nas cabeças. Dei uma segunda olhada e concentrei-me na pequena ruiva de aparência simples vestida de preto, sentada no cano, agarrada na xícara de café. Uma vez que nenhum dos outros clientes parecia com uma freira, imaginei que eu devia tentar essa mulher. Meu estômago começou a embrulhar enquanto eu me aproximava cautelosamente. Eu não tinha certeza da razão, eu não era religiosa ou algo do tipo, mas essa mulher representava exatamente o meu oposto. Ela dava a vida a Deus e eu dava o meu corpo para quem pudesse pagar. Eu não pude deixar de me sentir um pouco como a prole do demônio em sua presença. — Bree? — a mulher falou em um tom suave e gentil que combinava com a sua aparência. Eu acenei com a cabeça, e ela me deu um sorriso caloroso. De repente, toda a minha apreensão foi embora. Eu soube logo que a conheci que ela não me julgava. Acho que era por isso que ela passava seus dias servindo ao Senhor. O que não consegui superar era a sua aparência definitivamente o exato oposto de qualquer freira que eu havia imaginado. — Me desculpe por chegar atrasada. Minha chefe avisou a pouco que eu deveria encontrá-la. — retirei a jaqueta e sentei na frente dela, pedindo uma xícara de descafeinado para a garçonete que estava pairando sobre mim. — Oh, não, nenhum problema. Estou feliz por você estar disposta a me ajudar com a pesquisa.

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— Bem, sobre isso. Na verdade, não sei de quanta ajuda eu serei. Eu odiaria vê-la desperdiçar dinheiro em algo que você pode aprender de outras maneiras gratuitamente. Ela elevou as sobrancelhas em confusão. — Como assim? — Umm... — eu respirei fundo. Eu ia mesmo sugerir isso para uma freira? — Sempre há filmes para adultos. — sim, eu realmente sugeri. Seu

rosto

ficou

avermelhado. —

Você

quer

dizer

filmes

pornográficos. — Um... sim. — Oh, não. Eu não poderia fazer isso. Ela não podia fazer isso, mas ela podia pagar uma quantia extravagante de dinheiro para falar comigo? — Ok, eu estava apenas tentando dar-lhe outras opções - porque você sabe que nossa agência é muito cara e eu odiaria vê-la gastar dinheiro desnecessariamente. — sem sequer pensar, meus pensamentos saíram da minha boca. — Como você pode pagar isso? As freiras têm salário? — Recebo um pequeno salário da igreja para ensinar na escola. Tudo o que precisamos é providenciado pela igreja. Nós prestamos um juramento de levar uma vida humilde. Mas, na verdade, tinha algum dinheiro guardado há muito tempo que estou usando para isso. — Oh. Me desculpe, realmente não é da minha conta. Ela balançou a cabeça. — Não. Tudo bem. Mas veja bem, eu só posso pagar por essa reunião, então eu preciso obter o máximo de informação possível. — Tudo bem, o que você precisa saber? — Você lê histórias românticas? — Não, creio que não. Nunca fui uma grande leitora, e não acredito em romance.

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Seu queixo caiu e ela soltou um suspiro alto. — Você não acredita em romance? Eu balancei a cabeça. — Por que não? Você nunca se apaixonou? Meu coração doeu com essa simples pergunta. — Uma vez. — eu sussurrei. Uma vez foi suficiente para eu nunca querer me apaixonar novamente. — Se você não se importa que eu pergunte, o que aconteceu? Dei de ombros. — Na verdade, nada, simplesmente não deu certo. — a verdade era que, se eu falasse daquela parte da minha vida, ficaríamos lá a semana toda. Era algo que eu tentava continuar suprimindo de qualquer maneira, e raramente compartilhava com qualquer um. Um olhar simpático apareceu em seu rosto, como se ela conhecesse toda a história sem que eu tivesse falado uma palavra. A estranheza do momento foi levada quando a garçonete trouxe meu café. — Então, Irmã... — Hannah. Por favor, me chame de Hannah. — Ok, Hannah, o que você gostaria de saber? Ela olhou para a mesa e pegou o guardanapo, dobrando-o em um pequeno quadrado. — Bem, só fico me perguntando. — seus olhos se desviaram para o teto e seu rosto se transformou em uma tonalidade de vermelho. — O sexo é sempre tão maravilhoso quanto nos livros? — Depende. Às vezes é, e às vezes não é. Significa coisas diferentes para pessoas diferentes. Para alguns é expressão de amor. Para os outros, é apenas uma tarefa a ser feita, meio como tirar o lixo. — eu ri, tentando aliviar o humor. — É possível que as mulheres tenham... — ela parou e sugou o lábio inferior. — Múltiplos...

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— Orgasmos? — eu terminei por ela. — Sim. — ela soltou um suspiro aliviado. — Sim. É possível. — Apenas com o olhar de um homem? Eu engasguei com o gole de café que tinha acabado de tomar, incapaz de conter o riso que me dominou. — Eu, eu... – tentei desesperadamente recuperar o fôlego e, ao mesmo tempo, formar uma frase coerente para passar informações corretas para essa pobre mulher mal informada. — Sinto muito. — consegui dizer, pegando um guardanapo da mesa e limpando as lágrimas de riso que estavam rolando pelo meu rosto. — Mas essa foi a coisa mais engraçada que ouvi em muito tempo. — Eu não pretendia ser engraçada. — ela corou. Eu me recompus, usando minha melhor expressão séria. — A resposta é não. Não é possível uma mulher ter orgasmo dessa maneira. — Oh, querida, acho que alguns desses livros não são precisos, então. Eu balancei a cabeça e sorri. — Espero que você não se importe com a pergunta, mas você já... Quero dizer, antes de se tornar uma freira? Ela limpou a garganta e soltou uma tosse nervosa. — Quando eu tinha dezesseis anos e só durou um minuto, ambas às vezes. — Não diga mais nada. — não é de admirar o porquê de ela ter se tornado freira, se essa foi toda a sua experiência no departamento de sexo. — É preciso muito mais para a mulher ter um orgasmo do que um homem olhando para ela. — Nossa, nunca vou conseguir escrever esse livro. — Por que você quer fazer isso de qualquer maneira? — perguntei.

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— Eu não tenho certeza. Adoro a escrita criativa e adoro livros de romance, então imaginei, por que não? — Eu acho isso ótimo. Você está abraçando sua paixão. Não há absolutamente nada de errado com isso. — Planejo doar todo o dinheiro que ganhar para o abrigo local de animais. Eu era uma grande amante de animais, quando jovem passei muito tempo como voluntária no abrigo de animais da minha cidade. Eu levava cães e gatos sem-teto para casa comigo até que pudessem ser adotados, para a infelicidade do meu pai, mas eu sempre conseguia. Meu pai, que raramente falava da minha mãe, dizia que eu era exatamente como ela nesse sentido. De uma maneira estranha, essa conexão me dava a sensação de conhecer a mulher que me deu origem. Ele me contava histórias de como ela adotava todos os animais que encontrava. Eu sabia que se meu estilo de vida ainda me permitisse, provavelmente ainda faria o mesmo. — Bem, é uma boa causa. — eu sussurrei. O sentimento profundo fez estômago subir ao coração, exatamente do mesmo jeito de quando pensava na mãe que nunca conheci. Em apenas quinze minutos com Hannah, ela conseguiu, sem saber, abrir duas velhas feridas que eu tentava tão desesperadamente deixar escondidas. Nunca fui uma crente no destino ou nos sinais, mas ouvindo as razões de Hannah e a forma como sua paixão pela escrita era paralela à minha paixão pela dança, não pude deixar de me perguntar se ela havia entrado na minha vida por algum motivo. Eu permaneci completamente focada durante o resto do tempo, respondendo a todas as perguntas e oferecendo mais informações, enquanto ela anotava tudo no caderno. Sem sequer perceber, passamos o tempo marcado juntas, quando a conversa mudou de tópico. Fiquei fascinada ao saber como Hannah recebeu o chamado para se tornar freira. Era difícil acreditar que ela tinha apenas trinta anos de

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idade. Apenas dois anos a mais do que eu e já tinha feito muito bem ao mundo. Ela viajou para países do terceiro mundo, ajudando os doentes, se voluntariou nas alas infantis em diferentes hospitais, alimentou os menos afortunados na cozinha com sopa e aconselhou mulheres maltratadas em um abrigo. Meu complexo de inferioridade que apareceu, inicialmente, quando entrei lentamente começou a levantar a cabeça feia mais uma vez. Se eu vivesse cem anos, nunca conseguiria um terço de suas conquistas, lembrando-me mais uma vez das nossas diferenças. — Oh, sinto muito. — Hannah disse ao olhar para o relógio. — Não, está tudo bem. Eu gostei de conversar com você. — Muito obrigada por todas as informações. É um bom começo. Espero que eu possa fazer algo especial com isso. Eu acenei com a cabeça e sorri enquanto ela se levantava e enrolava o cachecol ao redor do pescoço. — Hannah. — murmurei quando ela começou a vestir o casaco. — Por que você não se veste como uma freira? Você sabe, você não deveria usar um longo vestido preto e algo na cabeça? Ela cobriu a boca, tentando sufocar o riso. — Eu estou totalmente estereotipando? — perguntei. — Não, você não está. No sentido tradicional, sim, é o vestuário típico para nós freiras. Mas a minha ordem é muito menos conservadora e nos permite vestir como gostamos. — Entendi. — eu assenti. Se fosse possível uma freira ser legal, Hannah era. Eu gostei muito dela. — Que tal se nós nos encontrarmos todos os domingos à tarde. Está bom para você? Ela levantou as sobrancelhas confusas. — Oh, Bree, seria muito útil, mas como eu disse anteriormente, eu só posso pagar uma vez.

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— Não haveria cobrança. Considere esta minha maneira de ajudar uma boa causa. — como eu não era nenhuma das coisas que a Irmã Hannah era, então eu poderia contribuir de uma maneira diferente. Ela permaneceu sem palavras por um momento. — Eu não poderia impor-lhe algo assim. — Você não está impondo. Eu realmente quero ajudá-la com isso. — Você não tem ideia do quanto isso significa para mim. — seu sorriso caloroso demonstrou montanhas de gratidão. — Sem problemas. Apenas prometa que você se escreverá um bestseller. Ela corou. — Acho que posso sonhar. Foi muito bom conhecer você, Bree. Eu tirei um pedaço de papel da bolsa e anotei meu número de telefone. — Você também. Se alguma coisa mudar, me ligue. Se não, encontro você no domingo. Ela assentiu com a cabeça e abotoou o casaco, mostrando-me outro sorriso antes de sair pela porta. Se alguém me dissesse que um dia eu teria gosto por uma freira, eu teria dito que estava louco. Mas, conforme a história de Hannah tocava uma e outra vez na minha mente, percebi que, por mais que fôssemos opostas, duas tínhamos o mesmo tipo de coração. Ela apenas estava mais pronta para se dar mais aos outros, enquanto eu ficava no fundo, dando a minha parte em silêncio.

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Capítulo 4 Minha semana tinha sido tão abarrotada que quando a quinta-feira chegou, eu tinha esquecido o quão intrigante minha tarde de quintafeira seria. Ao atravessar a porta do quarto do hotel, minha memória voltou rapidamente quando meus olhos pousaram no britânico sexy olhando para mim. Era possível que ele estivesse ainda mais bonito do que da última vez que nos vimos? Ele estava vestido de forma muito mais casual do que no nosso encontro anterior, passou de empresário poderoso para o modelo da Ralph Lauren. Calças desportivas cáqui, um suéter de malha de tricô grosso e barba por fazer. Eu não tinha certeza de qual aspecto eu preferia mais. —

Ei,

oi.

cumprimentei. Sentindo

imediatamente

seu

desconforto, tirei o casaco e sentei-me ao lado dele na cama onde nos sentamos silenciosamente, olhando para Madison Avenue. — Está tudo bem? — finalmente falei, depois de alguns momentos de silêncio. Ele limpou a garganta e virou a cabeça. — Sim. — era óbvio que ele estava manifestando alguma culpa sobre o que estava prestes a acontecer. Isso não era estranho para mim, e eu era muito boa para aliviar algum fardo. — Você não precisa responder qualquer coisa que o deixe desconfortável, mas acho que essa é a sua primeira vez fazendo algo assim? Ele assentiu. — Podemos levar isso lentamente, como você quiser. — a mesma pergunta queima na minha mente - Por que um homem bem-sucedido, bonito como ele, estava pagando por sexo? – Na verdade, por que algum dos meus clientes pagava por sexo? Todos eram ricos, poderosos e, na maioria, bonitos. Mas havia algo diferente sobre esse cara. Eu não

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conseguia identificar, mas ele parecia mais sincero e muito mais doce do que os outros clientes. Algo me dizia que ele não era o tipo que trai, mas se eu estivesse errada e ele fosse casado, ele estava reconsiderando sua decisão de estar lá. Eu escutei inúmeras histórias de clientes casados sobre o motivo para buscarem meus serviços: eles tinham uma relação aberta; estavam casados apenas pelo bem dos filhos, mas levavam duas vidas separadas; a

esposa

era

lésbica. Basta

imaginar,

e eu já

escutei. Nunca pedia informação. Na verdade, ficava mais feliz sem saber qualquer coisa, mas, mais cedo ou mais tarde, eles sempre sentiam a necessidade de confessar. — Você tem algo em mente para hoje? Seus olhos se arregalaram de surpresa. — Simon, você pagou para fazer sexo comigo, se não for isso o que... — Não. Quero dizer, sim, estou ciente disso. Às vezes, era mais fácil se a conversa cessasse e o processo natural assumisse. Eu me aproximei e estiquei o pescoço, chegando aos seus lábios grossos e vermelhos. Ele pareceu relaxar ligeiramente quando nossas línguas se entrelaçaram. Normalmente, beijar não era um grande pedido com meus clientes; geralmente, íamos direto ao negócio. Mas alguma coisa me dizia que ele era um coração romântico, que precisava beijar como pré-requisito para o sexo. Minhas mãos se moveram para cima e para baixo pelas costas, e eu pude sentir sua tensão diminuindo. Eu me elogiei por saber exatamente como fazê-lo relaxar um pouco. Havia muito mais neste trabalho do que apenas fazer sexo; você tinha que aprender a ler as pessoas e resumir a personalidade nos primeiros minutos ao conhecê-las. Alguns clientes eram mais difíceis de fazer isso, mas não o de quinta-feira. Se eu tivesse que resumi-lo, eu diria que ele era um empresário justo que era duro quando precisava, mas também poderia ser o melhor aliado para aqueles que eram leais a ele. Ele não tinha o ego gigante, como a maioria dos meus clientes. Parecia usar o coração na manga, e no momento ele estava arruinado por ser infiel, ou

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estava tentando superar um relacionamento ruim. Se eu tivesse que adivinhar, eu escolheria o último. Ele não parecia o tipo que traía, mas eu não colocaria dinheiro nesta hipótese - coisas estranhas acontecem nesse negócio. Ele me empurrou para deitar na cama e seus lábios deslizaram pelo meu pescoço. Agora estávamos finalmente nos movendo a um ritmo normal. Tudo

o

que

eu

precisava

era

acender

a

faísca

e,

esperançosamente, dentro de mais alguns minutos, teríamos um inferno imparável. Mas quando ele ergueu a cabeça para olhar para mim, uma névoa de tortura brilhou nos olhos dele, e eu sabia que o fogo tinha apagado. — Bree, desculpe. Eu simplesmente... — ele se sentou e passou a mão pelos cabelos, soltando um suspiro exausto. Fui para o seu lado, e peguei sua mão na minha. — Regra número um, nunca se desculpe comigo. Você é o cliente, está pagando por um serviço. Meus sentimentos não vão se machucar se não quiser fazer algo. Essa é a coisa linda sobre pagar por sexo: você não precisa se explicar. Como qualquer bom negócio, queremos que nossos clientes se sintam felizes com nosso serviço, então, se você precisar de tempo para pensar sobre isso ou se quiser conhecer algumas outras garotas da agência... — Não. Não, não é isso que eu quero. — ele foi inflexível. — Ok, então, me fale o que posso fazer para ajudá-lo a se tornar um cliente satisfeito. Ele ficou profundamente imerso em pensamentos antes de deixar escapar. — Assista TV comigo. Eu já recebi alguns pedidos estranhos, e assistir TV nunca foi um deles. Mas ele era o cliente pagante, então, se era isso que ele queria fazer, eu ficava feliz em realizar. Sem dizer uma palavra, tirei os sapatos e me abaixei para remover os dele também. Depois de colocar alguns

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travesseiros extras na cabeceira, subi na cama e toquei no colchão para ele se juntar a mim. Ele sentou-se ao meu lado, mantendo uma distância confortável. — Eu prometo que não vou morder. — brinquei, na esperança de aliviar o humor. Ele se aproximou, mas eu ainda sentia alguma relutância. — Então, o que você gostaria de assistir? — eu perguntei ao ligar a televisão e passei pelos canais. O primeiro sorriso do dia brilhou em seu rosto quando eu parei no primeiro filme: Crepúsculo. — Acho que você é um fã de Crepúsculo? — eu perguntei e larguei o controle remoto. — Eu fui forçado a gostar. — seu sorriso largo se transformou em uma expressão ferida. Que diabos era o problema dele? Ficamos

em

silêncio

por

algum

tempo

antes

dele

falar

novamente. — Então, Bree é o seu nome verdadeiro? — De certa forma. Ele levantou as sobrancelhas confuso. — É parte do meu nome. — enquanto todas as outras meninas escolheram apelidos, eu não escolhi um. Em vez disso, usei uma versão abreviada do meu nome de verdade, Aubree. Eu tinha desistido tanto da minha identidade para esse trabalho; eu não estava preparada para abrir mão do meu nome também. Era o nome do meio da minha mãe, e de uma maneira estranha, a única coisa que eu sempre teria. Eu sabia que era seguro, desde que eu nunca desse meu sobrenome. — Brianne? — ele sorriu. — Não. — Brielle? Eu balancei a cabeça, e ele me olhou, pensativo.

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— Rumpelstiltskin. — ele falou com o sotaque britânico sexy, fazendo com que nós dois caíssemos em gargalhadas. Nas horas que passaram, ele se abriu ligeiramente. Descobri que tinha trinta e dois anos e começado a própria empresa de publicidade quando tinha vinte e seis. Ele era de uma pitoresca cidadezinha, perto de Londres, e frequentou a Universidade de Columbia. À medida que o escutava falar sobre si mesmo, me descobri querendo saber mais, o que era totalmente diferente para mim. Sempre que meus outros clientes falavam sobre si mesmos, eu mostrava o meu melhor sorriso e fingia estar interessada quando a verdade era: não me importava nem um pouco. Eu aprendi desde o início a desligar meus sentimentos. Eles eram negócios, e assim como em qualquer negócio normal - sempre seja cortês com o cliente. Eu nem me referia a eles pelo nome na minha cabeça. Em vez disso, eram conhecidos para mim pelo horário e dia da semana, mas algo sobre o de quinta-feira que me fazia sentir de forma diferente. Depois de encomendarmos o serviço de quarto e falarmos mais um pouco, nosso tempo estava quase acabando. Eu sabia que não devia, mas estava me sentindo um pouco culpada por saber que ele não fez qualquer coisa no tempo que passamos juntos, depois de gastar uma tonelada de dinheiro. Peguei a mão dele enquanto estávamos sentados lado a lado na cama, sorrindo por dentro quando ele entrelaçou seus dedos com os meus. Percebi que toda a apreensão de mais cedo tinha desaparecido quando encontramos o olhar um do outro. Ele avançou com a cabeça mais perto da minha e deslizou gentilmente pelos meus lábios antes de separálos com a língua. Deitamos lentamente na cama, e continuamos nosso beijo, aproximando os nossos corpos. Em questão de segundos o interruptor foi invertido. Hesitação virou desejo, reserva em ânsia, e lamento em contentamento. A chuva tinha terminado, e o fogo que eu estava tentando inflamar toda a tarde foi finalmente aceso. E quando ele começou a explorar cada centímetro do meu corpo, eu soube que nada o impediria naquele momento.

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Capítulo 5 — Ok, eu estou acabada. — Jess reclamou quando nós terminamos a nossa aula de aeróbica. — FRACA! Eu ia sugerir que fizéssemos mais dois ou três quilômetros na esteira. — eu provoquei. — Beije minha bunda!— Jess brincou de volta. Jess também trabalhava para Margo, e ao longo dos anos, ela e eu tínhamos nos tornado grandes amigas. Era bom ter alguém com que eu pudesse ser aberta com a minha profissão, em vez de inventar mentiras ou dizer a verdade e depois ser banida por causa disso. Eu poderia ser eu mesma em torno de Jess, o que significava muito para mim. Desde que se tornou a minha escolha de carreira, não havia muitas pessoas com quem eu pudesse interagir. Eu mantive a minha família no escuro por um tempo, até que um dia decidi que estava vivendo uma mentira e escolhi jogar limpo. Foi o dia em que descobri que honestidade nem sempre era a melhor política. Meu pai não aceitou a notícia muito bem. Eu estava me iludindo por pensar que talvez, por algum pequeno milagre, ele aceitasse. Não é o sonho de todo pai ver a filha se tornar uma garota de programa. Fazia três anos que não nos falávamos. Todos os anos em nossos aniversários ou no Natal, eu ainda tinha alguma esperança de que talvez ele aparecesse, mas até agora não tinha acontecido. Nosso relacionamento estava longe de ser perfeito, mesmo antes de eu soltar a bomba. Durante a minha vida inteira, eu senti que ele me culpava pela morte da minha mãe. Ele nunca chegou a admitir isso, mas chegou muito perto quando aconteceu a admissão da grande carreira. Quando a notícia chegou ao meu irmão, que era sócio de um grande escritório de advocacia em San Francisco, o nosso relacionamento tornou-se inexistente. Ao contrário do meu pai, ele ainda falava comigo, mas era distante e me tratava mais como uma conhecida do que como uma irmã. Eu sabia que ele tinha suas

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razões; se soubessem poderia manchar sua reputação como o grande advogado que ele era. Ainda assim, doía. Eu fui a sua maior defensora quando ele decidiu contar para a nossa família que era gay. Seu parceiro, Trey, era a minha única ligação com a minha família. Falávamos em uma base semanal, e ele me mantinha a par de tudo o que estava acontecendo. Ele era simplesmente como Jess, não me julgava. Era um verdadeiro amigo e a âncora que eu precisava em uma família que tinha basicamente me deserdado. Nós demos uma descansada na lanchonete de vitaminas da academia. — Então, o que há de novo com você? — perguntou Jess, movendo o canudo para dentro e para fora do buraco na tampa do copo. — Não muito. A mesma merda de sempre. — Então, como é o novo cliente? Eu vinco

minhas sobrancelhas em confusão,

perguntando

exatamente de qual novo cliente que ela estava falando. — O empresário britânico. — ela esclareceu, aparentemente sentindo a minha confusão. — Oh, ele é legal. — eu respondi, me perguntando como ela sabia sobre ele. — Deveria ser um dos meus, até Margo mudar de ideia e transferir para você. — Por que ela faria isso? Ela encolheu os ombros. — Provavelmente porque ela está com raiva de mim porque eu lhe disse que queria uma parte maior. Tomei um gole da minha vitamina, lutando contra o congelamento do cérebro. — Ok, você pediu um aumento, ela não pode criticá-la por isso.

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— Sim, bem, é realmente engraçado como logo depois disso, o Sr. britânico estava fora da minha agenda. — Você perguntou a ela por quê? —

Ela

me falou

algo sobre

ele

preferir

olhos

azuis

a

castanhos. Parece que ele estava procurando por uma certa aparência. Além da nossa cor dos olhos, Jess e eu tínhamos características muito semelhantes. Ambas tínhamos cerca de cinquenta e sete kg, longos cabelos louros, e até o mesmo tamanho do sutiã. Meus pensamentos imediatamente desviaram para a escolha da cor dos olhos. Não que isso importasse para mim antes. Muitos clientes tinham preferências, cor dos olhos, cor do cabelo, tamanho do copo, até tamanho de bunda. Então, por que eu estava tão intrigada com o fato de que o quinta-feira tivesse inclinação para olhos azuis? Tentei afastar quaisquer pensamentos. Pelo que eu sabia, era possível que Margo estivesse mentindo para Jess, porque ficou chateada com ela, mesmo não sendo o estilo de Margo. Normalmente, se ela estava com raiva de alguém, essa pessoa sabia. — Não importa de qualquer maneira. Estou pensando seriamente em trabalhar por conta própria. — Jess continuou. — Jess, sério? Eu entendo que você esteja um pouco chateada com Margo agora, mas ela faz um ótimo trabalho mantendo tudo organizado e pré-selecionado para se certificar de que não está nos envolvendo com lunáticos. Ela acenou com a mão como se o que eu tivesse falado fosse ridículo. — Por favor. Tenho certeza de que todos os meus clientes iriam comigo. O que significa que eu teria como manter todo o dinheiro, em vez de dar uma parte para a velha enrugada. — Só não se precipite. — antes desta conversa, eu vinha pensando em contar para ela sobre a minha cliente freira, imaginando que ela daria uma boa risada, mas agora eu pensei melhor. Eu não queria que ela se

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perguntasse por que Margo achou que eu seria melhor para dar dicas para Hannah. Ela já estava na defensiva; eu não queria adicionar nada. Sem falar que ela provavelmente pensaria que eu era louca por ajudá-la pro bono. — Eu não estou. Estou apenas resguardando meus interesses, e talvez você devesse também. Nós não precisamos de Margo. Margo precisa de nós. Ela sabe que você e eu somos as melhores. O que você acha de entrarmos como parceiras? Torci o invólucro do canudo até que rasgou ao meio. — Eu não podia fazer isso com Margo. Ela sempre esteve lá para mim. — Negócio é negócio. Não é o que Margo sempre diz? Era fácil para Jess pensar dessa forma: ela não tinha a história que Margo e eu tínhamos. Margo sabia tudo sobre mim. Ela me ajudou a atravessar um dos períodos mais negros da minha vida, e eu sempre senti uma lealdade em relação a ela por isso. Olhei para o relógio. Eu tinha tempo suficiente para parar em casa e tomar banho antes de encontrar a irmã Hannah. — Eu tenho que correr. — levantei-me e empurrei a cadeira. — Só me prometa que não vai tomar qualquer decisão precipitada. Ela não respondeu. — Jess? — Ok, ok, eu prometo. — ela não me pareceu muito convincente. — Falo com você mais tarde. — eu abaixei e beijei-a na bochecha antes de reunir minhas coisas e sair. O suor da academia rapidamente diminuiu quando saí para o ar frio do inverno. Peguei a jaqueta na bolsa da academia, olhei para o meu telefone para encontrar uma chamada não atendida e correio de voz de um número que eu não reconheci. Depois de cinco tentativas frustradas de sinalizar para um táxi, eu finalmente peguei

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um. Eu esperei até estar sentada no táxi e dar ao motorista o endereço do meu apartamento, antes de pegar o telefone para ouvir o correio de voz. Oi, Bree, é a Hannah. Sinto muito, mas eu esqueci que era a minha vez de dar aula na escola dominical esta semana. Eu não vou conseguir chegar ao nosso encontro em tempo. Então, eu queria saber se você pode me encontrar na igreja e podemos ir a um café nas proximidades.

Encontrá-la na igreja? Ela é louca? O telhado pode desabar se eu entrar lá. Se não puder, eu entendo perfeitamente e espero que possamos manter o nosso compromisso para o próximo domingo. Mas caso você possa, aqui está o endereço...

Eu coloquei o telefone de volta na bolsa e joguei a cabeça para trás no assento, decidindo se eu realmente iria atravessar a ponte para o Brooklyn, para ir a uma igreja, de todos os lugares. — Foda-se! — sussurrei para mim mesma. Eu não era religiosa de qualquer maneira. Qual era a pior coisa que poderia acontecer comigo? Na verdade, talvez me fizesse bem. Improvável, mas sempre havia um sonho.

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Capítulo 6 Eu parada na frente da igreja de St. Joseph, tentando arrumar coragem para entrar. Eu sabia que era tolice ficar nervosa para entrar, mas a minha profissão ia contra tudo que essas pessoas acreditavam. Eu era o diabo disfarçado, andando no local de culto, e eu estava com medo que isso estivesse escrito por todo o meu rosto. — Oh, olá, posso ajudá-la? — uma freira mais velha perguntou saindo da igreja. Obrigada, Jesus! Eu disse a

mim mesma

enquanto fazia

mentalmente o sinal da cruz. — Umm... sim, eu sou uma velha amiga de Hann.., eu quero dizer da Irmã Hannah. — eu menti. Eu ia para o inferno de qualquer maneira, então por que parar naquele momento. — Ela disse que daria aula na escola dominical, e que eu poderia encontrá-la aqui. Ela pigarreou e ajeitou os óculos, dando-me uma checada antes de responder. — Oh sim, se você for até o vestíbulo da igreja, você verá uma porta

à

direita

que

leva

ao

porão. É

que

fica

a

escola

dominical. Acredito que a sala de aula da Irmã Hannah é a primeira à esquerda. — Ótimo. Obrigada. — eu me movi em frente, me sentindo um pouco melhor sabendo que eu não precisaria passar pela porta de entrada da igreja, e eu ia para baixo, que era a direção adequada, dadas as circunstâncias. Minhas passagens nasais foram inundadas com o cheiro familiar de incenso quando entrei no interior. Eu respirei fundo, lembrando da menina de oito anos, que era arrastada para a missa das nove horas todos os domingos de manhã com a avó. Mesmo que eu odiasse naquela época, eu daria qualquer coisa para ter apenas uma daquelas manhãs de domingo de volta, para estar com a minha avó mais uma vez. Ela foi a

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única figura materna que tive enquanto crescia, e a razão pela qual eu me tornei uma dançarina tão bem-sucedida. Ela me levava para todas as minhas aulas de dança e acordava ao raiar do dia para me levar quilômetros de distância para as minhas competições. Ela era a única razão pela qual eu não queria sair de casa para perseguir o meu sonho, mas foi a pessoa que me empurrou mais para ir. Eu sabia que não podia decepcioná-la, então eu fui. Seu sonho era me ver fazer o meu primeiro grande show. Ela estava radiante quando ela foi pôde fazer disso uma realidade, atravessou o país para me animar, sem me contar que estava doente. Ela perdeu a batalha para o câncer duas semanas mais tarde, e eu fiquei cega com a dor. Depois que ela faleceu, a cola que segurava minha família secou. Ele era agora a única coisa que restava e que me prendia àquela cidade, e a única razão que eu tinha para voltar. Eu quebrava sempre que pensava nele, e a culpa que eu ainda nutria por causa disso. Cinco longos anos, e eu ainda não conseguia pronunciar seu nome. Nem mesmo nos meus pensamentos. Respirando fundo, eu me recompus e desci as escadas, retornando os sorrisos de alguns pais que estavam com os filhos em fila quando passei por eles na escada. Era engraçado como de repente me senti reinventada apenas por estar nos limites das paredes da igreja. Essas pessoas não tinham ideia de quem eu era, ou o que eu fazia. Para todos eles eu era apenas uma mãe normal indo à igreja, que ficava em casa o dia todo fazendo biscoitos caseiros, enquanto seus filhos estavam na escola. Era realmente divertido me imaginar como alguém que eu sabia que nunca seria, embora talvez uma pequena parte de mim quisesse ser essa pessoa. Cheguei ao pé da escada e tirei esse pensamento ridículo da cabeça, focando minha atenção para a primeira porta à esquerda. Olhei para encontrar o caos dentro da sala de aula de Hannah, enquanto os pais se reuniam os pertences das suas crianças, alguns fazendo uma corrida louca para a porta e os outros em pé ao redor fofocando.

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— Bree. — Hannah sorriu, parecendo surpresa ao me ver. — Eu sinto muito por incomodar você dessa maneira. — Não tem problema, é bom ver como a outra metade vive. — eu brinquei, mas tive certeza que ela nem percebeu. — Parece que todos os pais estão aqui. — ela olhou ao redor da sala, com foco no menino loiro ainda sentado à sua mesa. — Oh, exceto os de Jack. — Irmã Hannah. — um dos pais chamou. — Licença apenas um segundo, Bree. — Hannah disse e saiu apressada. Todas as crianças pareciam variar dos dois aos cinco anos de idade, e eram pequenos ímãs de germes, com coriza e tosse seca, lamentando-se com seus pais por uma coisa ou outra. O momento maternal que eu tive apenas alguns momentos antes tinha ido embora. Eu estava tão fora de lugar com essas crianças, quanto Hannah escrevendo uma cena de sexo. Meus olhos focaram sobre o menino que Hannah chamou de Jack, sentado calmamente em sua mesa, desenhando. Ele não era como o resto das crianças. Ele não tinha ranho escorrendo pelo rosto, não estava criando germes com uma tosse cheia de muco desagradável, e ele, certamente, não era um pirralho chorão como os outros. Este menino parecia o perfeito pequeno cavalheiro. Se eu tivesse que adivinhar, eu diria que ele tinha quatro ou cinco anos, com cabelo cor de areia loiros e ondulados, bochechas fofas e os óculos mais adoráveis de aros metálicos. Normalmente, eu evitava crianças, mas havia algo sobre aquele menino que me fez querer só abraçá-lo. Eu não conseguia tirar os olhos dele. Se eu tivesse um filho, eu queria que ele fosse simplesmente como Jack. O que diabos eu estava pensando? Ou eu era uma sequestradora com borderline, ou simplesmente estava louca.

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Eu andei em torno da sala de aula olhando para os desenhos no quadro de avisos, enquanto Hannah ajudava a levar seus alunos e seus pais para fora da sala de aula. — Jack, querido, pegue o seu casaco. Papai está a caminho e vai levá-lo para casa. Eu tenho que ir à festa do bebê da tia Kayla. Eu me virei imediatamente para ver a mãe sortuda que afirmava que o menino doce era seu filho. Como esperado, ela era bonita e muito bem alinhada. E por um momento louco, eu fiquei realmente com inveja dela. Vi quando ela fechou o zíper do casaco dele e colocou o chapéu sobre a sua cabeça, até que apenas as lentes de seus óculos estivessem aparecendo. Ele ficou em silêncio enquanto ela se atrapalhava com os papéis em sua mesa. Eu respirei fundo, olhando para o Jack uma última vez, antes de concentrar a minha atenção de novo nos desenhos, e fui rapidamente distraída, mais uma vez, quando ouvi o grito mulher. — Olha lá o papai! Incapaz de me controlar, eu me virei para ver o quão perfeito era o pai

de

Jack,

segurei

meu

suspiro

quando

meu

olhar

fixou

simultaneamente com o de Quinta-Feira. Um nó apertado formou profundamente na boca do meu estômago, e eu não tinha certeza de qual de nós ficou mais surpreso com o encontro. Eu desviei o olhar, virandome e desejando que o chão se abrisse e me engolisse. Às vezes meus clientes escolhiam compartilhar seus problemas de casamento, e enquanto ouvia eu sempre imaginava uma mulher sem rosto como cônjuge. Então, ficar cara a cara, não só com a esposa de um cliente, mas o filho, tornava tudo muito real. O que estava tão errado em seu casamento para ele precisar dos meus serviços? Ela era jovem, bonita, parecia doce o suficiente, e eles tinham uma criança juntos. Pela primeira vez, eu me senti um pouco culpada sobre os efeitos que a minha profissão tinha sobre uma família. Ele era o marido de alguém. O pai de alguém. Ele não era apenas um negócio, como eu sempre via meus clientes.

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— Te vejo mais tarde, Jack. — eu ouvi Hannah gritar. Esperei alguns minutos para me certificar de que era seguro mostrar meu rosto mais uma vez, e encontrei uma sala de aula quase vazia. Eu consegui me recompor pelo tempo que a última criança saiu. — Me desculpe por isso. Às vezes os pais querem um passo-a-passo do que o filho fez enquanto estavam na igreja durante quarenta e cinco minutos. — Sem problema. — eu sussurrei. — Então, você ensina toda semana para esses alunos? — Alguns deles sim. Alguns estão uma série ou duas acima, e outros frequentam a escola pública. Eu tenho as crianças da pré-escola durante a semana. — Oh. — mordi o lábio, imersa em pensamentos. Jack parecia estar da idade pré-escolar. Eu não pude deixar de me perguntar se ele era um dos alunos de Hannah, e se fosse, o quanto ela sabia sobre sua mãe e pai. — Pronta? — Hannah perguntou enquanto recolhia seus pertences. Eu balancei a cabeça, seguindo-a para fora da sala de aula, tentando tirar Quinta-Feira da mente e concentrar-me na tarde de domingo no lugar. *** — Então, sobre o que vai ser a sua história? — eu perguntei para a Hannah quando nos sentamos com os nossos lattes de hortelã-pimenta. Ela suspirou profundamente. — Eu não tenho certeza. Eu sou do tipo que vai com a maré. Eu não sabia nada sobre a escrita de um livro, mas eu estava bastante certa de que algum tipo de trama era necessário antes de começar. — Quais são os nomes de seus personagens principais? — Barbara e Larry.

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Engasguei com o gole que eu tinha acabado de tomar do meu latte, falhando miseravelmente na minha tentativa de esconder minha diversão. Eu não lia muitos romances, mas eu assistia novelas, que eram similares o suficiente, e eu sabia que seus personagens precisavam de nomes mais modernos do que Barbara e Larry. — Você não gosta desses nomes? — ela pareceu um pouco chateada. — Oh não, os nomes são muito bonitos, mas acho que para um romance você precisa de algo um pouco mais moderno. Quando ouço o nome de Larry, eu penso no pai de alguém ou um encanador. Sabe, apenas um cara de todos os dias. Você não quer que seu leitor pense em algum empresário quente, poderoso, com um corpo lindo, olhos verdes cristalinos, características faciais perfeitamente esculpidas, covinhas profundas, e uma fenda adorável no queixo? — eu tinha acabado descrever Quinta-Feira inconscientemente, exceto o sotaque britânico. Ela olhou para mim interrogativamente, esperando-me sair da minha pequena fantasia tola. — Achei que você não lia romances. — Eu não leio. — Bem, com certeza, fez um bom trabalho descrevendo herói. — Oh, isso foi por causa das novelas que eu assisto. Mas, sério, você pode fazê-lo parecer como quiser. Olhos castanhos, olhos azuis. Branco, preto, asiático. — eu tentei despistar. — Ele só tem que ser atraente para o leitor e não ser como, bem... chato. E o nome Larry grita chato. — Que nome você sugere? — Hmm... — eu olhava para frente, pensando em alguns dos meus personagens favoritos de novela. — Dante. Ela torceu o nariz. — Andre, Steele, Grayson... Simon. — eu realmente acabei de falar Simon?

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— Oh, eu meio que gosto de Simon. Merda! Claro que ela gostaria! Eu esperava que ela nunca juntasse as peças do quebra-cabeça e simplesmente descobrisse em quem seu herói se inspirava. — E a minha personagem feminina? — Mais uma vez, Barbara soa como se ela pudesse ser a avó de alguém ou... — fiz uma pausa. — Não se ofenda com isso... mas o nome Barbara parece o de uma freira. Ela levantou uma sobrancelha para mim. — Sinto muito, mas parece. Incapaz de conter o riso por mais tempo, ela confessou: — Eu tinha uma madre superiora que foi muito gentil comigo quando entrei. Seu nome era Barbara. — Lá vai você. — eu ri também. — Você precisa de um nome moderno, como Taylor, Madison, ou Peyton. — eu citei. Ela não pareceu se importar muito com qualquer um deles. — Você pode pensar nisso. Mas você vê onde estou indo, certo? — Sim. — E você vai escrever sob um pseudônimo? — Oh, eu nem sequer pensei nisso. — Bem, é melhor. Você não quer que todas as outras freiras descubram que você está vendendo obscenidade. — eu brinquei, tentando levá-la a abrir um sorriso. Ela estava claramente abalada com tudo o que eu estava jogando nela. — Talvez o seu pseudônimo possa ser Barbara. Ela assentiu com a cabeça vigorosamente de acordo. — E o sobrenome? — Latte. — eu respondi, olhando para a xícara de café.

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— Barbara Latte. — ela repetiu. — Eu gosto disso. — Ótimo! — Bree? Você tem um pseudônimo? — Como assim? — Você usa um nome diferente com os seus clientes? — Mais ou menos. — Então, Bree não é seu nome verdadeiro? — Mais ou menos. — eu repeti. — Eu estou confusa. — ela enrugou a testa. — Bree é um apelido do meu nome de verdade. E não, eu não vou te contar qual é. É um nome reservado apenas para a minha família e amigos — peguei os papéis sobre a mesa e comecei a ler a história dela: Ela

está

deitada

na

cama,

esperando

para

sentir

sua

masculinidade florescendo dentro dela. A ansiedade aumentando enquanto esperava para ser montada. — O que você acha? — perguntou ela em antecipação. Olhei para o pedaço de papel mais uma vez, tentando fingir que eu estava imersa em pensamentos e não à beira do riso. Eu a tinha ofendido o suficiente para um dia, criticando as escolhas de nomes. — Bem... — fiz uma pausa, tentando escolher minhas palavras com cuidado, mas também querendo ser completamente honesta com ela. Ela queria a opinião de uma especialista, e era o que eu ia oferecer. — Primeiro, a palavra 'masculinidade‘ parece que alguém dos anos oitenta usaria para descrever a anatomia masculina. — Oh. Então, o que você sugere? — ela olhou ao redor e sussurrou. — Pênis? — ela ficou com um tom claro de vermelho, logo que a palavra saiu de sua boca.

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— Bem... talvez, mas fica um pouco clínico. Se você realmente quer agarrar a atenção, eu diria para ir com pau ou pinto. E montado... parece que eles vão andar a cavalo. Posso sugerir que montou pode ser substituído por fo... Ela tapou os ouvidos e balançou a cabeça antes que eu pudesse falar a palavra toda. Seu rosto agora estava dez vezes mais brilhante. — Oh não, eu nunca poderia usar essas palavras! — Você não poderia, mas Barbara Latte pode. Ela soltou um suspiro profundo, ainda parecendo um pouco insegura sobre tudo. — Como você faz isso? — ela perguntou. — Faço o quê? — Fingir ser outra pessoa para seus clientes. Quero dizer, você não deseja, às vezes, só ser você mesma? Ela me pegou totalmente de surpresa com essa pergunta. Ninguém tinha me perguntado isso antes, porque a verdade é que poucas pessoas sabiam da farsa que eu me revestia quando ia trabalhar. — Você acaba por se acostumar com isso, e depois de um tempo você quase se torna essa pessoa, mesmo que bem no fundo, dentro de você, você a despreze. — eu olhei para a mesa, a ardência familiar de lágrimas nos meus olhos, sabendo que eu tinha divulgado um pouco demais, mas eu era incapaz de parar. — Então, por que você faz isso? Ergui a cabeça e olhei em seus olhos azuis bebê simpáticos. — Por quê? Se isso faz você não gostar de si mesma? Dei de ombros. — Acho que, pelas mesmas razões que as pessoas fazem qualquer coisa, é um meio para um fim. E confie em mim, minha profissão não é a única razão para a minha auto aversão. De certa forma, apenas a valida mais.

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— Você não devia se sentir assim sobre si mesma. Você é uma menina bonita, inteligente, não é tarde demais. Eu coloquei minha mão para impedi-la. — Por favor, não vamos lá. Está bem. Estou bem... agora vamos discutir este livro. Ela me olhou com dúvida por um momento. Eu tive a sensação de que ela estava vendo através da minha pessoa falsa. Eu nunca tinha admitido a ninguém antes com eu me sentia – nem para mim. Na hora que olhei para o relógio de novo, eram quase quatro horas, e tínhamos passado a tarde inteira trabalhando no livro de Hannah. Ela parecia um pouco mais maleável sobre sair da zona de conforto com a história do que quando começamos, e por incrível que pareça, eu descobri que gostava de sua companhia. Erámos polos opostos, mas ela e eu apenas parecíamos nós complementar. — Eu não posso agradecer o suficiente! Espero que, quando estivermos juntas novamente na próxima semana, eu já tenha alguns capítulos prontos. — Estou ansiosa para lê-los. — Sinto muito por ter te segurando durante toda a tarde. — disse ela enquanto recolhia seus pertences e colocávamos nossos casacos. — Foi realmente muito divertido. — Foi. — ela sorriu. — Agora eu tenho que ir e fazer uma visita no abrigo aos meus amigos peludos. — Oh, quantas vezes você vai? — Normalmente sou voluntária alguns dias por semana, mas eles estão realmente com falta de pessoal agora, então eu tento ir sempre que posso. Você gosta de animais? — Sim. — Se você tiver vontade, estamos sempre à procura de voluntários.

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— Umm... muito bom, mas eu estou muito ocupada. — Se você mudar de ideia. — ela enfiou a mão na bolsa e me entregou um cartão com as informações do abrigo. — Eu estou lá aos sábados, das nove às quatro e quintas-feiras das seis até fechar, e quaisquer outros dias que eles precisem de mim, como hoje. — Sim, tudo bem. — eu coloquei o cartão na bolsa. — Oh, está realmente chovendo! — Hannah reclamou quando saímos e as gotas geladas de água bateram em nós. — É um desperdício. — eu disse, olhando para o céu, permitindo que a água deslizasse pelo meu rosto. — O quê? — Hannah perguntou enquanto ajustava o capuz da jaqueta bem apertado e recuou sob o refúgio do toldo do café. — A chuva em janeiro. Não deveria haver alguma regra com a Mãe Natureza que se tivesse precipitação no inverno, então deveria ser sempre neve. Você não acha? Ela encolheu os ombros. — Na verdade, nunca pensei sobre isso. — É como uma espécie de troca. Nós vamos lidar com as temperaturas frias, mas nos dê neve. Deixa os dias frios e sombrios de inverno um pouco mais brilhantes. — eu me virei para olhar para ela. — Você sabe qual é a minha parte favorita de uma tempestade de neve? Ela balançou a cabeça. — Quando ela acabou de começar. A cidade parece tão tranquila, tão em paz quando os primeiros flocos começam a cair silenciosamente do céu, cobrindo as ruas com um manto de beleza intocada. Então ela se vai. Toda a magia, a emoção, e a pureza, que uma vez enfeitou a terra, fica permeada com pegadas cheias de sujeira, incapaz de voltar ao impecável esplendor ileso que era antes.

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Senti tristeza em seus olhos quando ela olhou para mim interrogativamente. — Uau, eu acho que eu nunca pensei nisso dessa forma. Eu sempre vi como um incômodo, mas agora que você caracterizou de forma tão eloquente, vejo a beleza da coisa. — Talvez se deva ao fato de crescer em um lugar onde sempre choveu, em vez de nevar, que me faz agora ver a magia. Eu sei, eu devo parecer louca. — eu disse, dando um passo para trás e movendo o meu corpo encharcado sob o toldo ao lado dela. — Eu não acho que você é louca de jeito nenhum, Bree. Na verdade, eu acho que é muito bonito o jeito que você personifica. — A maneira que eu o quê? — Você deu vida à neve. — Oh. — eu dei de ombros, sem ideia do que ela quis dizer. — Você já pensou em escrever, Bree? Você realmente tem um jeito com as palavras. Eu caí na gargalhada. — Hum... não. Vou ficar com a parte de pesquisa e você pode lidar com a escrita. — Pode ser muito terapêutico. Mesmo que você só escreva em um caderno todos os dias sobre os seus sentimentos. Eu a ignorei completamente e apontei para o táxi que tinha acabado de estacionar. — Oh não, vá em frente. Você está encharcada até os ossos. Vou pegar o próximo. — Obrigada. — eu dei um sorriso genuíno e não o forçado habitual que eu estava tão acostumada. — Bree? — Hannah chamou logo que saí para a chuva, me fazendo virar.

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— Toda vez que neva é uma nova oportunidade de experimentar a beleza mais uma vez. Só porque a neve fica pisada e suja não significa que nunca veremos a pureza dela mais uma vez. A vida é inteira sobre segundas chances. Nos são dadas o tempo todo. Eu balancei a cabeça e virei para frente, parando e virando mais uma vez quando cheguei à cabine. — Aubree. — eu gritei sobre a chuva. Vendo a confusão no rosto, gritei mais alto. — Meu nome é Aubree.

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Capítulo 7 Conforme os dias passavam, eu me encontrava ainda consumida pelas palavras de Hannah em nosso último encontro. Talvez nós realmente recebêssemos uma chance de redenção todos os dias. Nós criamos nosso próprio destino, e se nós estamos descontentes com o rumo, somos os únicos que podemos mudá-lo. Eu absorvi o seu conselho e comecei a escrever meus pensamentos diários em um caderno. Há muito tempo eu tive um diário, e era uma diversão fazê-lo novamente em um formato adulto. Isso me dava tempo para me reagrupar e voltar para mim novamente. Saio da cabine e me preparo para entrar no Battery Gardens, um restaurante do centro, com vista para o porto de Nova Iorque. Eu fiquei um pouco confusa sobre o porquê Darren Michaels, um advogado de Wall Street, também conhecido como meu usual Segunda-feira de manhã, me pediu para encontrá-lo para uma bebida na quinta-feira à tarde. Eu fiquei um pouco relutante, sabendo que eu tinha que me encontrar com o meu Quinta-feira à tarde em uma hora, mas Darren me assegurou que não demoraria muito. Eu concordei, imaginando que um copo de vinho me relaxaria, uma vez que eu estava estressada por causa de quintafeira durante toda a semana, depois do nosso pequeno encontro na igreja. — Bree. — Darren sorriu quando entrei no bar, ele se levantou e deu um beijo na minha bochecha. Darren era o epítome de um homem de meia-idade distinto: no começo dos cinquenta, alto, cabelo grisalho, olhos azuis penetrantes, sem um pingo de gordura no corpo. — Olá, Darren. Quanto tempo. — observei. Nós não nos víamos há mais de um mês. — Sim, eu sei. É por isso que eu queria falar com você. Sentei-me e pedi um copo de vinho. — Ok, eu sou toda ouvidos.

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— Eu conversei com Margo no outro dia e informei que já não precisaria dos serviços da agência. — Oh? — eu levantei uma sobrancelha, tomando um gole do chardonnay que o barman acabara de colocar na minha frente. Ele assentiu. — Eu falei para ela não dizer nada para você até que eu a visse. Minha esposa e eu decidimos colocar o divórcio em espera. — Isso é uma grande notícia. — ruim para os negócios, mas uma boa notícia para ele. — Sim, eu acho que sim. — senti tristeza em suas palavras. — Eu só queria que você soubesse por mim. Você é uma jovem maravilhosa que tem toda a vida pela frente. E lá estava: só porque ele já não estava exigindo meus serviços, estava agindo como se meu mundo fosse desmoronar. — Eu aprecio que você tenha separado um tempo na sua agenda lotada para me dizer pessoalmente, mas realmente não era necessário. Era um negócio e as pessoas cortam os laços de negócio o tempo todo. Não há necessidade de se sentir culpado. Eu realmente desejo a você e sua esposa tudo de melhor. Ele concordou com a cabeça. — Sim, você está certa, mas eu senti que merecia uma despedida apropriada, e se há algo que eu possa fazer para ajudá-la no futuro, é só me avisar. — Quer dizer, como uma referência de trabalho? — eu soltei uma gargalhada. — Você e eu sabemos que não iria funcionar muito bem. — eu tomei o último gole do vinho e levantei. — Foi um prazer fazer negócios com você, Darren. — eu estendi a mão para ele, deixando-o um pouco de surpresa com meu comportamento calmo, e sem sentido. — Com você também, Bree. Ótimo, outro cliente fora dos livros. Agora Margo ia ficar no meu pé para assumir alguém novo. Eu pulei para dentro do táxi e dei o endereço

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do hotel onde Quinta-feira e eu deveríamos nos encontrar. Esperemos que ele apareça, depois de revelar sua família para mim. Certamente, será ainda mais complicado do que a última vez, mas eu não podia me dar ao luxo de perdê-lo como cliente também. Olhei pela janela, para o tráfego congestionado, meu rosto queimava e minha pressão arterial aumentou apenas por pensar em Darren. O nervoso dele. O que ele via como cortesia, eu via como rude. Ter que me encontrar com ele para uma bebida, como se eu fosse uma garota estúpida, uma jovem apaixonada pelo advogado mais velho, poderoso. Eu não tinha sentimentos por ele. Nunca tive. Então, por que ele precisou me tratar como uma flor frágil? Ele era um negócio, só isso. Meu coração era tão frio quanto um dia de inverno para esses caras; todos eles eram um cheque de pagamento, e eu odiava que eles achassem que realmente tinham importância para mim. E, ainda por cima, tinha que me apadrinhar, dizendo que eu era uma jovem maravilhosa que tinha toda a vida pela frente. — Vá se foder! — eu percebi que disse isso em voz alta quando o motorista de táxi olhou pelo espelho retrovisor. — Eu não estava falando com você. — esclareci. Vá se foder, Darren. Daquela vez eu mantive meus pensamentos privados. Cedo ou tarde, todos eles voltavam ao sentido e percebiam que era mais barato manter as esposas e fazer sexo medíocre uma ou duas vezes por mês, do que me pagar uma quantidade insana de dinheiro por uma vez por semana. Sabe quanto tempo levaria para Quinta-feira descobrir isso? Por alguma razão, o pensamento me entristeceu um pouco. — Este é o lugar que você disse, certo? — o taxista gritou, me tirando dos meus pensamentos profundos. — Oh... humm, sim. — eu respondi, saindo do assento para entregar-lhe o pagamento e indo para a rua. Meus joelhos vacilaram e meu coração acelerou ligeiramente com o pensamento de ficar cara a cara com Quinta-feira depois de ter um vislumbre de sua vida real. Eu me controlei e entrei no hotel. Eu não ia permitir que isso acontecesse. Não

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era assim que eu agia. O problema do cliente não era da minha conta. Se ele estava traindo a esposa e, possivelmente, destruindo sua pequena família adorável, não era preocupação minha. Ele era o pagamento do aluguel, um novo par de sapatos, uma ida ao fim de semana para o spa...era isso. Se ele não mencionasse nada, então, certamente, eu não iria. Eu respirei fundo, afastando os últimos segundos de pensamentos em meu cérebro. Sem emoções envolvidas, sem envolver emoções, eu repetia uma e outra vez enquanto eu virava a maçaneta da porta do quarto. Eu estava totalmente preparada para lidar com ele de frente até que eu entrei em um quarto de hotel vazio. Parecia que Quinta-feira tinha voltado aos sentidos mais cedo. Tão rápido quanto entrou na minha vida, ele saiu. Nenhum telefonema, nenhuma mensagem. Isso me fez lembrar mais uma vez que eu era nada para estes homens, da mesma forma que eles não significavam nada para mim. A única diferença é que eles tinham famílias para quem voltar, que eles amavam e se preocupavam, e que os amava de volta. Eu, por outro lado, não tinha ninguém. Eu pressionei a cabeça na vidraça fria e olhei para a cidade. Este trabalho foi ótimo por um momento. Permitiu-me um apartamento lindo, roupas caras e viagens de luxo. Mas o que vai ser de mim quando a minha juventude tiver desaparecido e eu já não for atraente para esses homens? Eu me tornaria uma velha solitária, sem ninguém na vida, porque nunca permiti que qualquer pessoa entrasse? Limpei a lágrima que estava escorrendo pelo meu rosto rapidamente e voltei aos meus sentidos. Eu não tinha que pensar sobre os ses; eu ia viver o aqui e agora. Juntei meus pertences, e me assustei quando ouvi a porta do quarto abrir. Eu fiquei sem palavras por um breve momento quando olhei em seus olhos, nunca tinha permitido que ninguém me visse assim. Eu fiquei sem palavras por um breve momento. — Desculpe o atraso. — ele falou primeiro.

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—Está tudo bem. — apressadamente limpei a lágrima vagabunda que tinha brotado em meu olho e tinha começado a rolar pelo meu rosto no momento mais impróprio. — Você está bem? — ele perguntou. Eu balancei a cabeça e respirei fundo. — Eu estou bem. — minha abordagem suave e cautelosa como no nosso último encontro, joguei meus braços ao redor de seu pescoço e puxei-o para um beijo. Eu queria acabar com isso antes que eu tivesse tempo para pensar sobre o que eu estava fazendo. Antes que eu visse um flash do rosto de seu pequeno menino adorável, lembrando-me que ele era o pai de alguém... o marido de alguém. Sua ânsia combinava com a minha quando ele me agarrou pela cintura e me jogou na cama. Nossos lábios nunca se separaram quando ele desabotoou minha blusa e tirou meu sutiã. Outra camada de roupa foi arrancada nos segundos que se passaram até que nossos corpos nus estavam deitados juntos mais uma vez. Nesta hora, sem hesitação, ele assumiu a liderança, e quando o fez, eu esqueci tudo sobre quem ele era e a família que ele tinha. Fechei os olhos, absorvendo-o e único pensamento de minha mente que era o prazer que ele estava dando ao meu corpo. *** Nós dois estávamos sem fôlego. Foi a primeira vez que meu corpo reagiu dessa maneira a um cliente. Eu tinha me tornado uma mestra na arte de fingir, mas não havia nada falso sobre como eu estava me sentindo no momento. Eu comecei a me levantar e ele me segurou. — Eu queria falar com você por um momento. — seu sotaque suave pareceu ainda mais sexy. Apoiei meu cotovelo no colchão e descansei a cabeça na palma da mão, e olhei para o seu perfeito peito nu. — O que você viu na igreja no último domingo. — Por favor, não. Eu realmente não preciso saber.

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— Eu sei que você não precisa saber, mas eu preciso te dizer. — Ok. — eu me preparei para o que eu vinha evitando toda a semana. — Aquele menino é meu filho. Eu balancei a cabeça, esperando que ele fosse parar ali. — E aquela mulher... — Sério, Simon, por favor, não. — eu me sentei, passando a mão pelo cabelo. Ele se sentou ao meu lado, segurando minha mão. — Eu não preciso saber sobre sua esposa ou família. Se você opta por fazer isso, é com você. Eu não quero saber que eu estou destruindo seu casamento. Ele soltou uma risada leve. — Ela não é minha esposa. Alívio tomou conta de mim, e a tensão em todo o meu corpo se dissipou. — É a minha cunhada. — Oh... humm. — eu não sabia o que dizer. Pela primeira vez na história, foi importante para mim, a vida pessoal de um cliente realmente teve algum significado. — Minha esposa faleceu há alguns anos. Meu queixo caiu, meus olhos lacrimejaram com a visão das lágrimas nos dele. — Oh, Simon, eu sinto muito. Ele balançou a cabeça e tentou se controlar. Segurei sua mão com mais força. Curiosamente, eu não achava estranha a forma como ele estava se sentindo. — É difícil gerir tudo com Jack e trabalho, então ela me ajuda muito.

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— É muito bom que você tenha um sistema de apoio. — Sim. — ele suspirou. — Bem, eu devo dizer, seu garoto é absolutamente adorável. — Obrigado. — seu tom ficou um pouco mais alegre. — Posso te perguntar uma coisa? Se você não quiser responder, eu vou entender completamente. Ele balançou a cabeça quando eu pressionei. — Por que um homem bonito, bem-sucedido como você precisa pagar para fazer sexo? Ele soltou um suspiro de frustração. — Porque eu não quero sentir nada emocional. Eu não estou pronto para dar meu coração a ninguém ainda. Eu sei que pode parecer incrivelmente egoísta, mas... Eu coloquei meu dedo sobre os lábios dele para impedi-lo de falar. — Não, não é egoísta de jeito nenhum. Na verdade, eu acho que é muito nobre da sua parte. Um leve sorriso enfeitou seu rosto ferido. Fui para mais perto e dei um beijo suave em seus lábios. Sua língua deslizou em minha boca e nos baixamos gradualmente para a cama. Fui pega de surpresa quando ele me puxou para mais perto e me segurou em seus braços, passando os dedos para cima e para baixo nas minhas costas. Era algo que eu sempre tentava evitar, nunca ficar íntima com o cliente, mas ele era uma exceção, ainda de luto pela esposa. Eu entendia sua dor e sabia que ele precisava para ajudá-lo a se curar. Como eu queria que houvesse alguém lá para mim quando eu precisei. Eu me aninhei mais, descansando minha cabeça em seu peito, ficando mais e mais relaxada com cada batida do seu coração. Eu estava plenamente consciente de que eu estava quebrando todas as minhas regras, mas havia algo diferente sobre o Quinta-feira que me deixava impotente para me frear.

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Capítulo 8 Eu estava mentalmente esgotada no momento em que voltei ao meu apartamento. Depois de tomar banho e devorar um pouco da comida chinesa que sobrou do jantar, eu tive algum tempo indesejado para ficar sozinha com meus pensamentos. O luto nos olhos do Quinta-feira quando ele me contou sobre a sua esposa realmente me desestabilizou. Ele era muito jovem para ser viúvo, e toda vez que eu pensava no pequeno Jack sem uma mãe, meu coração doía um pouco mais. Liguei a televisão e zapeei os canais cerca de meia dúzia de vezes, desliguei-a quando nada parecia me interessar. Alcançando meu telefone na mesa, busquei meus contatos, parei quando cheguei à letra P e pressionei o nome antes que eu pudesse desistir. Após o terceiro toque nenhuma resposta. Eu estava bastante certa de que ele estava desviando as chamadas e não ia atender como de costume. Um sentimento de emoção me dominou quando ouvi um ―Olá‖ quando eu estava prestes a desligar e me salvar da decepção de ouvir a mensagem de voz familiar que sempre tocava quando eu ligava. — Ei, Paul? Como você está? — O que há, Aubree? — a empolgação dele não combinou com a minha, de qualquer forma. — Não muito. Eu não falo com você há um tempo e só queria saber como as coisas estão indo. — Ocupado com o trabalho. Eu estava no caminho para um depoimento. Olhei para o relógio, pensando que era meio tarde para ele ainda estar trabalhando, e então rapidamente me lembrei da diferença de horário. — Oh, eu não vou segurá-lo. Eu só liguei para ver como você estava e como... como... papai está. — Está tudo bem. — ele foi curto e direto ao ponto.

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— Trey me contou que vocês vão para Paris na primavera. Eu mal posso esperar para saber de tudo. Os ruídos de fundo tornaram-se mais altos. — Sim, bem ouça, eu realmente tenho que ir. — Oh, tudo bem, mande um beijo para Trey e eu falo com você em breve. — Eu mando. — Amo... Ele desligou antes que eu pudesse terminar de falar para ele que eu o amava. Eu joguei a cabeça para trás no sofá, lutando contra a ardência em meus olhos. Por mais que eu quisesse acreditar que ele estava mesmo muito ocupado, que não podia nem conceder cinco minutos do seu tempo para a irmã, eu sabia a verdade. Ele tinha vergonha de mim, assim como meu pai. Puxando minhas pernas para cima no sofá, passei os braços em torno delas e enterrei o rosto nos joelhos, deixando todas as minhas emoções virem à tona. Gostando ou não, eu estava sozinha. Minha escolha de carreira tinha me afastado de todos que me importavam na vida. Meu pai estava certo: eu era egoísta. E talvez eu já fosse egoísta antes de decidir vender minha alma ao diabo. Talvez o que eu sempre acreditei fosse verdade, e eu era a razão pela qual o primeiro e único menino que eu já amei estava morto. Eu queria pular da minha pele, precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa, para afastar meus pensamentos desse período negro da minha vida. Eu procurei uma caneta na bolsa, esperando que escrever um pouco fosse a cura, mas em vez disso puxei o cartão de visita do abrigo animal. Se eu me lembrava corretamente, Hannah tinha dito que ela era voluntária lá nas noites de quinta-feira, o que significava que ela deveria estar lá no momento. Eu joguei o cabelo para trás em um rabo de cavalo e agarrei meu casaco, esperando que algumas criaturas peludas de quatro patas me tirassem de meu modo de auto piedade.

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*** — Posso ajudá-la? — uma mulher corpulenta, sentada atrás da mesa principal no abrigo animal, perguntou em uma voz rouca. — Ai sim. Hann.. Quero dizer Irmã...? — Bree! — Hannah gritou, vindo da parte de trás. — Isso responde a sua pergunta. — a mulher atrás do balcão respondeu sem nunca olhar para cima. — Eu estou indo. — ela murmurou e começou a recolher suas coisas. — Ok, Shelia, eu vou me certificar de trancar. — Hannah comentou em seu tom doce de costume. — Sim. — ela murmurou. Meus olhos a seguiram quando ela saiu pela porta, surpresa com a sua grosseria. — Ela é agradável! — eu disse uma vez que ela estava fora do alcance da voz. — Ela se expressa bem. Eu acho que ela se relaciona melhor com os animais do que com as pessoas. — Hannah a defendeu, mas notei que até ela estava tendo dificuldade em acreditar em suas palavras. — Estou tão feliz por você ter decidido vir e ajudar. — Cansei de ficar sentada sentindo pena de mim mesma. — Oh? — Hannah levantou uma sobrancelha. — Está tudo bem? — Sim, está tudo bem. — eu desconversei, sem querer convidar outra pessoa para a minha festa da piedade. — Então, onde estão todos os animais? — forcei um sorriso. — Ei, siga-me. — ela acenou com a mão, me levando pelo conjunto de portas duplas de onde ela tinha acabado de chegar. Meus ouvidos zumbiam ao som de algumas dezenas de cães latindo em uníssono à medida que caminhava por um corredor estreito com canis de concreto de cada lado. Eu fui imediatamente levada de volta à minha

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juventude e todo o tempo que passei no abrigo, dominada pela mesma tristeza daquele tempo quando os via arranhando suas gaiolas, pulando para cima e para baixo e causando uma comoção. O que me entristecia ainda mais eram os encolhidos no canto, com medo de serem vistos. — Uau! Muitos! — gritei. — Sim, é realmente triste. — Hannah gritou de volta. Eu segui atrás de Hannah, examinando-os de perto enquanto nós passávamos por cada canil, parando com a visão de uma bela golden retriever pairando no canto de sua gaiola, com medo de fazer contato visual. Hannah se virou e caminhou de volta para onde eu estava. — Essa é Macy. Ela foi deixada aqui por um autointitulado criador que não tinha mais uso para ela. — Por que não? Ela é linda. — Ela não era capaz de produzir mais nenhum filhote, então ele simplesmente despejou-a aqui. Seus tristes olhos castanhos escuros penetraram os meus quando ela finalmente levantou a cabeça. — Por que ninguém a adotou ainda? Hannah deu de ombros. — Por que ninguém adotou qualquer um deles ainda? Simplesmente são muitos. Macy não deixa ninguém chegar perto dela. Ela morde e rosna toda vez que nós tentamos. — Provavelmente ela está com medo e só precisa de um pouco de trabalho. Tenho certeza de que ela é um grande cão que precisa de alguém para amá-la. — Você quer tentar com ela? — Claro. — Vá devagar, e se... — Eu vou ficar bem. — eu cortei Hannah em antecipação.

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Ela destrancou o canil e eu entrei cautelosamente, ignorando os rosnados fracos vindos de Macy. Hannah ficou de olho quando eu me abaixei, ficando no nível de Macy. — Você tem guloseimas? — eu olhei para Hannah e sussurrei. Ela enfiou a mão no bolso e tirou alguns biscoitos. — Oi, Macy. — meu tom era suave e gentil ao me aproximar um pouco mais e fui recebida por mais resmungos. — Você quer? Coloquei o biscoito a apenas alguns centímetros dela, e a observei dar alguns passos hesitantes, arrastando-se muito ligeiramente, até que pôde recolher o deleite na boca. — Você quer um pouco mais? Coloquei outro biscoito, dessa vez um pouco mais perto de mim. Seu comportamento cauteloso quebrou um pouco mais quando ela deu um passo mais perto, um pouco mais ansiosa. Uma vez que ela terminou, eu estava com o último biscoito na palma da mão, esperando que ela confiasse em mim o suficiente para pegá-lo. — Venha pegar este último, Macy. Estiquei meu braço e ela deu um passo mais perto, farejando. — Cuidado. — Hannah sussurrou enquanto Macy chegava mais perto. Macy cautelosamente tomou o biscoito da minha mão e engoliuo. Eu mantive o meu braço estendido, permitindo que ela sentisse o meu cheiro. Ela farejou e não reagiu quando a minha mão alcançou a sua cabeça e esfregou atrás das orelhas. Ela se aproximou e sentou-se, levantando a cabeça e fechando os olhos enquanto eu continuei a regá-la com carinho.

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— Uau! — o sorriso de Hannah estava escancarado quando eu olhei para ela. — Ela não deixou nem o Doutor Springer se aproximar dela, e ele sempre tem um jeito para fazê-los a derreter. Dei de ombros, voltando minha atenção para Macy que agora rolava de costas para eu coçar a sua barriga. Hannah e eu rimos em uníssono, e meu humor de mais cedo foi superado, graças a esse belo cão cuja vida espelhava a minha de uma maneira estranha. Eu esfreguei a barriga e sorri para ela, desejando que fosse tão fácil para mim como foi para ela confiar e amar novamente. *** Depois de terminar no abrigo, eu ainda não estava pronta para ir para casa e ficar sozinha, então, aceitei a sugestão de Hannah imediatamente de ir ao pequeno café ao lado para algum chocolate quente. — Você foi como uma encantadora de cães lá. Eu não posso acreditar o quanto Macy se aproximou. — Ela é uma garota muito doce. Eu soube dizer só de olhar em seus olhos. — Doutor Springer ficará feliz. Ele estava pensando que talvez ela fosse inadotável. — O que eles fazem com esses cães... Os que não são adotáveis? Ela suspirou profundamente, me dando a resposta a essa pergunta, mesmo sem dizer uma palavra. — Então, como está indo o livro? — perguntei, tentando aliviar o clima. — Bem. – eu consegui escrever mais mil palavras. — Isso é ótimo. — eu fui na onda, sem ideia sobre o que mil palavras significavam em um livro. — Então, eu estava pensando, uma de suas principais personagens precisa ter um passado tempestuoso.

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— Você acha? Tomei um gole do chocolate quente e assenti. — Torna uma história mais interessante. Não pode ser apenas sexo. Aquela sombra familiar de vermelho adornou seu rosto, da mesma maneira que sempre acontecia quando falávamos sobre qualquer coisa sexual. — Por exemplo, talvez a sua heroína está escapando de um marido abusivo e seu príncipe encantado acaba sendo um de seus conselheiros no abrigo, ou talvez o herói tenha algum tipo de problema. Sabe, como talvez sua esposa faleceu e ele está tentando superá-la. — Deus, eu preciso parar de direcionar tudo no livro dela para ele! — Oh... entendo o que você está dizendo. — ela puxou um caderninho da bolsa e anotou o que eu tinha dito, concentrando sua atenção de volta para mim quando ela terminou. — Assim como Macy ajudou a iluminar seu espírito? Eu ergui as sobrancelhas em confusão. — No começo você disse que estava sentindo pena de si mesma. — ela esclareceu. — Ah sim. Ela realmente iluminou. — Bom. — ela sorriu. — Só drama familiar, ou drama de falta de família. — eu ofereci. — A sua família sabe sobre a sua linha de trabalho? Eu assenti. Normalmente, minha família, meu trabalho, meus sentimentos, tudo isso era fora dos limites. Mas havia algo sobre Hannah que era confortável, permitia-me liberar os sentimentos que eu tinha engarrafado por tanto tempo e deixá-los fluir. — Eu decidi abrir o jogo com eles há alguns anos, e nosso relacionamento não foi o mesmo. Meu

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pai nem fala comigo, e meu irmão faz um trabalho realmente bom me ignorando. — eu suspirei, piscando as lágrimas. — Eu sinto muito, Bree. Eu sempre odiava quando as pessoas diziam que sentiam muito. Para mim, era uma forma hipócrita de dizer: ―eu não sei o que falar‖, mas quando Hannah disse, senti que ela falava sério. — E a sua mãe? — Eu não conheci a minha mãe. Ela morreu quando eu tinha apenas alguns dias de idade. Ela mordeu o lábio inferior e se aproximou da mesa para o meu lado. — Bem, nem todo mundo vai concordar com sua escolha, mas o amor de uma família deve ser incondicional, então eu posso entender perfeitamente a razão de você estar tão chateada com o comportamento deles. — Sim. Eu suponho, mas não é como se eu fosse a filha do ano. Meu pai tem todo o direito do mundo de me odiar. — A raiva e o ódio são duas coisas diferentes, Bree, e eu realmente não acredito que ele te odeia. Ele está com raiva de você porque ele te ama, e, geralmente, ficamos mais bravos com aqueles que amamos mais, quando eles fazem algo que não é do nosso agrado. Fiquei estupefata. Como ela sabia tudo isso? Ela nunca esteve em um relacionamento e ela separou-se de uma vida familiar normal para viver no convento, mas ela sabia exatamente o que dizer e exatamente como eu estava me sentindo. Ficamos sentadas tomando nosso chocolate quente em um silêncio confortável. Meus pensamentos tinham acalmado, ainda que levemente, buscando refúgio nas palavras de Hannah. Talvez meu pai ainda me amasse, mesmo que não fosse capaz de demonstrar, e esperava que um dia a gente fosse capaz de consertar nosso relacionamento. Minha mente

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estava em dúvida, o meu coração agarrando-se a um pequeno fio de esperança, que talvez um dia se tornasse realidade.

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Capítulo 9 Margo bateu sua caneta na têmpora, revirando os olhos para a pessoa com quem estava falando ao telefone. Seu cabelo loiro claro, puxado para trás em um rabo de cavalo, estava parecendo ainda mais leve com o sol do fim da manhã, que atravessava a janela de seu escritório. Ela era a epítome da sofisticação. À beira de sessenta anos, ela tinha mais estilo do que as mulheres com metade de sua idade. Depois de pegar pedaços da conversa, eu juntei as peças e percebi que ela estava falando com Jess. Pelo tom um pouco aquecido, eu ia ficar lá por um tempo, então peguei o meu telefone e verifiquei meu e-mail. — Bem, Jess, se você acha que pode fazer um trabalho melhor por conta própria, então longe de mim impedi-la. — o tom de Margo foi curto e direto ao ponto. Ela era uma mulher de negócios resistente como prego, que você não quer cruzar, e Jess era louca por fazer isso. — Muito bem. — ela desligou o telefone, parecendo um pouco agitada, mas tentando não deixar transparecer. — Está tudo bem com a Jess? — perguntei. — Ela é uma menina tola se acha que pode gerenciar seus clientes por conta própria. Ela vai falhar, e quando isso acontecer, ela não vai voltar. Eu estou cheia dela. — Talvez você devesse apenas dar um tempo para ela perceber isso. — Bree, querida, há quanto tempo você me conhece? — ela levantou uma sobrancelha e continuou, sem me dar uma chance de responder. — Eu não dou uma segunda chance. Suspirei pesadamente, sabendo que Jess tinha comprometido sua carreira. Margo tinha um caminho interno para a maioria dos clientes. Eles seriam, sem dúvida, mais leais a ela do que a Jess, assim

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Jess teria de começar tudo de novo e encontrar novos clientes por conta própria, o que não seria uma tarefa fácil. — Então, o que está acontecendo com você? — ela mudou de assunto. — Não muito. — Darren conversou com você na semana passada? — Sim. Eu não sei por que ele achou necessário contar para mim suavemente. Como falei para ele, sem ressentimentos. Negócio é negócio. Ela soltou seu riso turbulento característico. — Oh, querida, eu te ensinei bem. Eu não tinha certeza se isso era uma coisa boa ou ruim. Um sorriso rápido se espalhou pelo meu rosto quando eu olhei para o relógio, quase o meu horário favorito da semana. — Eu realmente preciso ir. Eu tenho que atender um cliente. — eu me levantei. — Oh sim, Sr. Graça. — Margo levantou uma sobrancelha. — Como vão as coisas com ele? — Bem. Nós só nos vimos duas vezes até agora, mas parece estar indo bem. Ela assentiu. — Bonito, não é? — Umm... sim, eu acho, mas também a maioria dos meus clientes são. — falei com displicência, mas eu notei que ela estava vendo através da minha persona falsa. Ela me conhecia muito bem. — Bom. Mantenha essa atitude. Eu não preciso que você se apaixone. Eu balancei a cabeça e ri. — Eu te vejo mais tarde, Margo. — vireime para fazer minha saída.

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— E, Bree. — Margo chamou quando cheguei à porta. — Eu vou precisar que você assuma mais alguns clientes, agora que Darren está fora e Jess não está mais conosco, mas vamos discutir isso mais tarde. Eu hesitei por um momento. Eu sabia que era um teste para ver até onde minha lealdade estava. — Sim, tudo bem. — eu murmurei, saindo de seu escritório e para a rua. Eu estava com tanta raiva de mim. Por que eu não bati o pé e disse não, que eu não queria mais clientes. Margo adorava fazer seus jogos, até comigo. Não importava que ela e eu tivéssemos uma relação que ia além de seu negócio. Ela não fazia exceções quando trabalhava. Eu a conhecia, mas ultimamente sua pequena luta pelo poder não estava me descendo bem. Eu não gostava de ser manipulada para fazer algo que eu não quisesse, mas se eu queria continuar a pagar meu aluguel e comer, eu não tinha outra escolha senão me curvar aos seus pedidos. Eu adiaria o máximo possível, mas, mais cedo, ou mais tarde, Margo sempre conseguia o que queria. Tentei ligar para Jess no caminho para o hotel e caiu no correio de voz. Optando por não deixar mensagem, eu decidi que tentaria novamente mais tarde e conversaria sobre sua decisão. Minha atenção estava ocupada no meu telefone, verificando meus e-mails quando eu saí do táxi, o que me fez, literalmente, dar de cara com o Quinta-feira. — Oh Deus, eu sinto muito. — meu estômago revirou ligeiramente quando olhei para aqueles olhos verdes expressivos. Ele riu, olhando para mim um pouco mais. — Então, você quer que eu entre primeiro? — eu perguntei me ajeitando. — Uh... não. — Oh, ok. Então, você quer ir... Ele balançou a cabeça, deixando-me totalmente confusa. — Vamos almoçar.

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— Oh, umm. — Isto é, supondo que você esteja com fome. — ele continuou. — Sim, claro. Tudo bem. Ele fez sinal para um táxi e abriu a porta, permitindo-me entrar primeiro. — Sixty-Seventh Street e Central Park West. — ele disse para o motorista ao entrar. — Tavern On The Green? — eu levantei uma sobrancelha. — Você está bem com isso? — perguntou. — Perfeitamente bem. Seu olhar me penetrou. Toda vez que ele olhava para mim, era como se ele estivesse procurando por alguém em meus olhos. Desviei o olhar e olhei pela janela. Curiosamente, o silêncio que pairava entre nós não era estranho; na verdade, era acolhedor. Eu sempre odiei a necessidade de conversa só para ter algo a dizer. O táxi parou no restaurante e ambos saímos e entramos no local. Eu sorri quando ele confirmou a sua reserva com o maître. — Você estava terrivelmente confiante que eu concordaria com o almoço, não estava? — eu provoquei quando fomos levados para a nossa mesa. — Eu arrisquei. — ele respondeu. Depois de algumas bebidas, nós dois estávamos mais relaxados. — Posso fazer uma pergunta? — ele perguntou. — Depende. — Qual garoto é o seu? Eu quase engasguei com o gole de vinho que eu tinha acabado de tomar. — Como? — eu soltei uma risada nervosa. — Na escola dominical.

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— Oh... aquilo! — eu sorri. — Nenhum deles. Agora era ele quem estava intrigado. — Eu estou ajudando Hann.. a Irmã Hannah com algo. — eu não tinha certeza se isso lhe proporcionou uma sensação de esclarecimento ou confundiu mais. Minha diversão cresceu com sua perplexidade. — É uma longa história, mas não precisa se preocupar, eu não estou convertendo a professora do seu filho a se tornar garota de programa. Suas covinhas adoráveis apareceram em pleno vigor. No pouco tempo que o conhecia, eu percebi que ele tinha dois sorrisos diferentes, um totalmente forçado e um pouco atormentado, e o outro genuíno e um tanto pueril. O que eu estava vendo era o último dos dois, e as poucas vezes que testemunhei, ele sempre me fez sorrir de volta. Ao longo de nosso almoço, eu soube um pouco mais sobre ele e sua família. Toda a sua família morava na Inglaterra, só era ele e Jack aqui. Seu pai era médico, e pelo que eu juntei apenas de ouvi-lo falar, sua família veio de gerações de riqueza. Ele não ofereceu mais qualquer informação sobre a sua mulher, e eu não quis sondar. — Você já pensou em voltar para a Inglaterra com seu filho? Deve ser solitário aqui sem qualquer família. — Eu pensei sobre isso, mas eu tenho o meu negócio aqui, e... — ele parou por um momento. — Recordações. — Faz sentido. — E você? — E quanto a mim? — Onde está sua família? Um nó se formava no meu estômago sempre que pensava deles. — Eles moram na Califórnia. Área de São Francisco.

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— Talvez eu devesse fazer a mesma pergunta então. Por que você não mora na Califórnia? — Bem, eu vim para a cidade quando eu tinha dezesseis anos, depois que eu fui aceita na Escola Americana de Ballet. Depois disso, eu fiz parte do New York City Ballet. Ele pareceu confuso com a minha mudança na carreira. — Eu tive uma lesão, que pôs fim à minha dança. — eu expliquei. — Eu queria ficar na cidade e, bem... — eu suspirei. — Eu acho que essa foi uma maneira fácil de conseguir. Ele assentiu. — Você gosta do seu emprego? Olhei para fora e depois de volta para ele. — Essa é uma pergunta difícil. — Por quê? — Porque de qualquer forma que eu responder, me fará parecer uma pessoa terrível. Se eu disser que gosto de fazer sexo por dinheiro, vai fazer de mim uma puta, e se eu disser que não, me deixa parecendo desesperada. — fiquei feliz quando o garçom veio, criando uma distração e permitindo-me evitar a pergunta. Depois do almoço, aproveitamos o raro dia de inverno ameno, fazendo um passeio pelo Central Park. — Então, eu queria saber se você está disponível para ir comigo para um coquetel na noite de domingo? — perguntou ele. — Até onde eu sei, mas tudo precisa ser programado através de Margo. Desculpe, são as regras. — Não precisa se desculpar, vou me certificar de agendar com ela. Sentamos em um banco e observamos as pessoas. Senti tristeza em seus olhos quando ele se concentrou na jovem mãe que andava de mãos dadas com o menino que parecia ter a idade de seu filho.

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— Quanto tempo você foi casado? — perguntei, tirando-o de seu transe. Ele olhou para frente e tentou se recompor. — Sete anos. Annie e eu nos conhecemos na faculdade. Eu soube no momento em que a vi pela primeira vez que eu ia casar com ela. — ele piscou para afastar as lágrimas. — Ela foi, ela era tudo para mim. Eu sabia que poderia ultrapassar meus limites com a minha próxima pergunta, mas não consegui evitar. — Como ela morreu? Ele suspirou pesadamente, virando a cabeça em minha direção e me fazendo arrepender imediatamente da minha decisão quando vi a dor nos seus olhos. — Me desculpe, eu nunca deveria ter perguntado, não é realmente da minha conta. — eu recuei. — Ela sofreu um acidente de esqui. — ele respondeu. Meus olhos se arregalaram, e eu mordi o meu lábio para impedi-lo de tremer. — Quando? — Dois anos atrás. — Você estava lá quando aconteceu? — Não. — ele sussurrou e seus olhos vidraram. — Ela nem deveria ter ido. Eu tinha uma viagem de negócios programada, por isso não havia ninguém para olhar Jack. Acabou sendo cancelada no último minuto, então ela foi. — ele entrelaçadas as mãos na nuca e olhou para o céu. — Na verdade, tivemos uma briga enorme antes de ela sair. — ele soltou uma respiração profunda e sacudiu a cabeça. — E tudo que eu conseguia pensar era que, se a viagem não tivesse sido cancelada ela ainda estaria viva. Eu fiquei sem palavras por uma fração de segundo. Eu conhecia sua dor muito bem, e eu queria, desesperadamente, compartilhar algumas coisas com ele para ajudá-lo a aliviar a própria culpa. — Eu sinto muito

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pela sua perda, mas você tem que liberar essa culpa que você está carregando, ou ela vai apodrecer dentro de você e transformá-lo em algo que você não quer. Ele inclinou a cabeça e apertou os olhos, lutando contra a luz solar intensa. — Eu nunca diria isso para você se não fosse verdade... mas eu sei exatamente como você está se sentindo. Ele me olhou atentamente. — Eu me apaixonei... uma vez. Minha história é um pouco semelhante à sua, mas eu fui incapaz de me desvencilhar da culpa, e agora, olha para o que eu me tornei. — Eu não entendo, Bree. O que você se tornou? — Uma desculpa, sem consciência, sem emoção para um ser humano. — Engraçado, porque não é isso que eu vejo quando olho para você. Vejo uma mulher carinhosa, inteligente e bonita. — Uau, você está tão errado. — eu dei um sorriso nervoso. — Eu? Porque até agora não me provaram o contrário. — Nós vamos ter que concordar em discordar sobre isso, mas obrigada por ser tão amável. Ele moveu a mão até cobrir a minha, puro contentamento tomou conta de mim, e pela primeira vez em muito tempo, a minha auto aversão diminuiu muito ligeiramente. Havia algo em suas palavras que era tão sincero. Ele não tinha nenhuma segunda intenção. Ele realmente via além da minha concha vazia exterior, abordando a menina que um dia eu fui... a garota que eu gostaria de ser novamente algum dia.

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Capítulo 10 Hannah estava feliz com o progresso que fez com o livro no momento em que terminou a nossa reunião da tarde de domingo. Olhei para o relógio, sabendo que eu precisava ir para casa em breve e me preparar para a minha noite de domingo com o Quinta-feira. — Eu odeio sair correndo, mas eu preciso chegar em casa e tomar banho. Eu tenho um coquetel para ir hoje à noite. — Oh, isso parece divertido! — Hannah fechou o laptop e empurrou-o para dentro da bolsa. — Sim, está relacionado ao trabalho, então... — Entendo. — ela olhou para a mesa. — Mas meu cliente é muito doce. Por isso deve ser divertido. — Isso é bom. — ela tentou encerrar o assunto. Hannah não gostava de discutir a minha linha de trabalho, a menos que pertencesse ao seu mundo ficcional. Ela parecia ficar desconfortável com isso, mas eu não ia ceder. Ela era a única pessoa com quem eu podia ser completamente aberta, e eu valorizava isso. — Sim, mas ele não é como os outros. Eu acho que ele precisa mais de companhia emocional do que física. Ele experimentou uma perda terrível em sua vida e está tentando superá-la. Nós falamos sobre um monte de coisas. Eu realmente gosto da companhia dele. — Ele é alguém com quem você consegue se ver namorando? Se... bem, você sabe. — Você quer dizer, se eu faria sexo com ele de graça? — eu ri por causa de seu comportamento nervoso. — Não é exatamente o que eu quis dizer. — ela abriu um sorriso nervoso.

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— Eu realmente não sei. Ele é um cara legal e muito bonito, mas eu desliguei meus sentimentos durante tanto tempo, é difícil me imaginar namorando alguém. Faz muito tempo que estive com alguém por quem eu tinha sentimentos. Além disso, ele é merecedor de alguém muito melhor do que eu. — Muito melhor do que você? Por que você é tão dura consigo mesma, Bree? — ela ficou realmente ofendida por minha degradação. — Eu só queria dizer que ele nunca iria me querer que... — eu suspirei pesadamente. — Deixa pra lá. — Nunca é tarde demais para se tornar outra pessoa. — ela ergueu uma sobrancelha e se levantou para colocar o casaco e eu fiz a mesma coisa. — Então isso significa que você quer se tornar uma garota de programa agora? — eu ri. Ela engasgou, corando e tentando segurar seu embaraço. Nós saímos e fechamos nossos casacos. — Oh, eu queria te contar, haverá um grande evento de adoção no abrigo na quarta-feira à noite, se você quiser ir. Esperamos que muitos deles encontrem novos lares. Talvez até Macy. — um enorme sorriso esticou em seu rosto. — Sim, isso é incrível. Eu só preciso verificar a minha agenda. — Ótimo! Espero te ver por lá. Nós nos despedimos, e depois de algumas tentativas frustradas, finalmente tive um pouco de sorte acenando para um táxi. Eu pulei dentro, dei ao motorista o meu endereço, e olhei pela janela, perguntando-me o que a noite traria. Visualizei mentalmente o meu guarda-roupa, reduzindo meu traje para a noite ao meu vestido de renda azul-marinho ou a versão do pretinho básico, que em vez disso era um pequeno vestido prateado. Curiosamente, eu estava me sentindo um pouco animada para a noite, algo que nunca aconteceu participando de

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um evento com um cliente. Um monte de coisas parecia estar mudando. Desde que Hannah entrou em minha vida, eu não me sinto uma reclusa. Ela era a primeira pessoa de fora com quem eu podia ser eu mesma, mesmo que ela fosse completamente meu oposto. Suspirei

pesadamente,

a

batalha

do

guarda-roupa

ainda

acontecendo na minha cabeça, me afastando desses pensamentos, quando meu telefone tocou com uma mensagem de texto. Quinta-feira: Vejo você às 7. Levei um tempo para perceber que eu tinha um sorriso ridículo, mas não pude evitar. E, de repente, me encontrei contando as horas até às sete horas, da mesma maneira que eu contava os dias para quinta-feira. *** — Você está atrasada. — Simon brincou quando saí do táxi, exatamente às 7:14. — Eu sei, me desculpe. O trânsito estava horrível. — eu percebi que era uma desculpa boa o suficiente. Eu não queria dizer a ele que o verdadeiro motivo foi a minha indecisão sobre o vestido. A decisão final não foi para nenhum dos dois principais candidatos; em vez disso, optei pelo vestido azul royal sem-um-ombro. — É aqui que a festa acontecerá? — perguntei quando paramos em frente à Galeria de Arte Capri. — Sim, é uma grande inauguração. Uma amiga minha é a dona. — Ok, qual é a minha história? — perguntei. Ele franziu as sobrancelhas em confusão. — Hmm... bem, eu acho que você não quer me apresentar a todos como... — Oh. — ele, finalmente, entendeu. — Por que eu tenho que falar alguma coisa?

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— Você não, mas... oh, apenas esqueça, eu vou pensar em algo. Nós caminhamos para o pequeno edifício cheio de pessoas, de parede a parede. Tirei o casaco e coloquei-o sobre o meu braço enquanto seus olhos me deram uma espiada. — Você está bonita. — Obrigada. Depois de entregarmos nossos casacos na porta, ele pegou minha mão e nós caminhamos pela multidão, parando de vez em quando para olhar para algumas das pinturas bizarras na parede. Simon pegou dois copos de vinho de uma bandeja de um garçom que passava. Peguei um de sua mão, dando um gole de boas-vindas. — Simon, olá. Estou tão feliz por você ter conseguido vir. Virei-me a tempo de ver uma morena muito voluptuosa beijando Simon na bochecha. Seus olhos se arregalaram ao olhar para mim, fazendo minha guarda subir imediatamente. — Simon, como você está, amigo? — o homem atrás dela estendeu a mão para Simon. — Bree, este é Lyle e Tiffany Rhoads. Tiffany é a dona desta galeria. — Parabéns. É muito bom conhecê-los. — eu estendi a mão para eles, encolhendo-me quando o homem a pegou na dele e levou-a aos lábios. Minha primeira impressão dele não foi boa, por causa do olhar intenso dele sobre mim, levando-me a olhar para mim mesma para me certificar de que não estava nua. — É um prazer. — a mulher mal esboçou um sorriso. — Como vão as coisas? Como está o Jack? — ela focou a atenção em Simon, mais uma vez, colocando o braço em volta dele e fazendo o possível para me afastar. — Ele está bem.

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— Eu estive em Roma no último mês, e, realmente, devo a vocês uma visita. Os três começaram a falar sobre a Itália, e eu me senti um peixe fora d'água. Então, em vez de ser uma intrusa na conversa, decidi fazer uma caminhada ao redor e ver se eu conseguia ver sentido em alguns dos quadros. Olhei para as paredes, e não vi beleza em nenhuma das obras de arte, do jeito que os outros viam. Todos pareciam que tinham apenas uma pincelada na tela, até eu poderia fazer isso. Eu encontrei conforto no meu copo de vinho, examinando a sala todas as pessoas metidas que não se cabiam em si. Mas eu realmente me encaixava com alguém? Simon ainda estava imerso na conversa com seus amigos. A mulher que ele apresentou como Tiffany jogou a cabeça para trás, rindo e agarrando-se ao braço de Simon, enquanto o marido ficou ali virando os drinks, gritando sobre a música para ser ouvido. Eu balancei a cabeça e olhei para o relógio. Logo isso acabaria. Por que ele me convidou para vir, de qualquer maneira? Havia muitas pessoas solteiras lá, então ele não seria o único. Eu fui atraída para uma pintura no canto distante, aproximei-me para estudá-la um pouco melhor. Era o esboço de uma mulher com manchas vermelhas de tinta escorrendo pelo rosto. Ela estava sangrando lágrimas. Pelo menos essa foi a minha interpretação. Por alguma razão, eu não consegui tirar os olhos desta peça, minhas lágrimas se formando sobre ela. — Bonito, não é? Eu pulei, virando-me para encontrar a amiga de Simon, Tiffany, de pé atrás de mim. — Sim, realmente é. — eu sussurrei. — Foi feita por um artista francês que também acontece de ser um amigo meu. Larmes d'un Pêcheur. — ela recitou.

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Eu franzi sobrancelhas em confusão. — O nome da pintura. — ela esclareceu. — Significa 'lágrimas do pecador.' Meus olhos se arregalaram sobre o quanto eu me relacionava com a imagem. Eu virei de novo para examiná-la mais uma vez. — Então, há quanto tempo você conhece Simon? Eu respirei fundo, sem saber como responder a essa pergunta. — Apenas cerca de um mês. — eu respondi, encarando-a mais uma vez. Ela assentiu. — Como vocês se conheceram? — ela continuou seu interrogatório. — Através de um conhecido. — E esse conhecido aconteceu de contar que ele é dono de uma empresa de milhões de dólares e é um pai solteiro ainda de luto pela morte da esposa? Precisei de muito esforço para não responder as suas insinuações de caça-níquel. — Simon e eu somos apenas amigos. Então, sua situação financeira não tem qualquer significado para mim. Ela soltou uma risada sarcástica e aproximou-se. — Você pode achar que vou realmente acreditar nisso, mas olha o que eu sei: a esposa dele, a única por quem ele ainda é loucamente apaixonado, foi uma das minhas melhores amigas. Por isso, é meu trabalho cuidar do homem que ela amava e do filhinho dele, certificar que ninguém se aproveite deles. Ela jogou o cabelo para um lado e levantou uma sobrancelha. Ah, como eu queria apagar aquele olhar complacente de seu rosto, mas em vez disso, respirei fundo e contei até dez internamente antes de responder. — É muito nobre de sua parte cuidar do marido da sua amiga assim. Mas posso garantir-lhe que não tenho nenhuma segunda intenção com relação a Simon.

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— Sim, vamos ver isso. Nós olhamos uma para a outra, nenhuma de nós querendo desviar o olhar primeiro. Finalmente, eu cedi e comecei a sair antes de voltar para encará-la ainda em pé no mesmo lugar, com a mesma careta no rosto. — Talvez você devesse parar de se preocupar com os maridos de outras pessoas e se preocupar com o seu. Ela ficou boquiaberta e olhou na direção do marido, rindo e em um estupor bêbado, imprensado entre duas loiras lindas com a mão sobre uma de suas bundas. — Sua galeria é linda. — o sarcasmo escorreu de cada palavra minha. Eu queria encontrar Simon e avisar que eu estava caindo fora de lá, mas estava muito lotado. Eu falaria com ele novamente na quinta-feira e devolveria qualquer dinheiro que eu lhe devesse por não gastar o meu tempo nessa festa. Eu agarrei o meu casaco na entrada e estendi a mão para a porta. — Ei, onde você está indo? — Simon perguntou, saindo do nada e me detendo no percurso. — Umm... Eu não estou me sentindo muito bem. — eu sabia que estava me saindo menos do que crível, e isso foi confirmado quando ele levantou uma sobrancelha para mim. — Ok, você quer que eu seja honesta? Ele balançou a cabeça e esperou que eu seguisse adiante. — Sua amiga Tiffany é uma cadela. Seu sorriso se aprofundou, e eu não pude deixar de sorrir de volta com o divertimento dele. — Espere um segundo e deixe-me pegar meu casaco. — Simon, fique. São os seus amigos. Você não precisa de mim aqui.

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Ele não prestou atenção em uma palavra que eu disse enquanto vestia o paletó e segurava a porta aberta para mim. — Droga, estava como cem graus ali. — Simon disse, ao sairmos para o ar frio bem-vindo e acolhedor e descemos a rua. — Eu não sei, estava muito frio onde eu estava. — Sim, eu sinto muito por isso. Eu sei que ela pode ser um pouco intensa, às vezes. — Só um pouco. — eu adicionei. — Você nem sequer disse adeus. — Nada demais. Eles vão superar isso. — Se você diz. Eles são seus amigos, então... — Na verdade, eu meio que os herdei. — O que você quer dizer? — eu peguei a bolsa e coloquei as luvas. — Tiffany e Annie eram amigas antes de nos conhecermos, e eu aprendi a gostar dela. — Gostar dela ou tolerar ela? — eu sorrio. — Ela não é tão ruim assim uma vez que você a conhece. Eu não seria capaz de lidar com a sua personalidade em uma base diária. Eu acho que é por isso que Lyle bebe tanto. Paramos no final do bloco. — Então, acho que o encontro na quinta-feira. — eu disse. Ele

balançou

a

cabeça

negando,

pegando-me

um

pouco

desprevenida. — Eu acredito que eu tenho você para a noite. — Bem, eu só pensei... — Você jantou? — Não, e na verdade estou morrendo de fome. — Bom. Então, você gostaria de jantar comigo? — Certo. Mas com uma condição.

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— Qual seria? — Eu escolho o lugar. — Onde você quiser. — disse ele quando paramos em um BMW preto. — É seu? — Sim, é. Onde? — ele perguntou ao pressionar o controle destrancar as portas. — Shake Shack. Eu estou morrendo por um shake e um hambúrguer. — Você é um encontro barato. — ele sorriu quando chegamos ao carro. — Na verdade não sou. — eu respondi, fazendo-nos curvar de tanto rir. Toda vez que eu estava com ele sentia-me em um encontro, em vez de trabalho... e eu meio que gostava.

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Capítulo 11 Durante o jantar eu soube muito mais sobre Jack. Enquanto ele falava sobre ele, eu simplesmente senti na voz de Simon o amor e admiração que ele tinha pelo filho. — Então, com quem ele está hoje? — perguntei. — Meus sogros. Eles moram ao norte do estado. Ele passa um fim de semana por mês com eles. Eles vão ficar com ele uns dias a mais esse mês. Ele volta para casa na noite de terça, apenas a tempo para o aniversário dele na quarta-feira. — Quantos anos ele vai fazer? — Cinco, e seu único pedido de presente de aniversário é um filhote de cachorro. Eu preciso pensar em algo rápido para fazê-lo mudar de ideia. — Por que, você não gosta de cães? — perguntei, tomando um gole do meu milk-shake. — Eu gosto, mas ter um cachorro é como ter um bebê, e não tenho tempo. — Por que tem que ser um filhote? Você sabe que há alguns cães mais velhos que já são treinados e que dão muito menos trabalho e que poderiam fazer bom uso de uma casa. Ele balançou a cabeça, ainda sem comprar meu discurso de vendedora. — Na verdade, eu conheço um cachorro muito doce, que pode ser o ajuste perfeito para Jack. Ele olhou para mim confuso. — Você por acaso conhece um cachorro? — ele sorriu.

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— Por acaso eu conheço. O nome dela é Macy. Ela tem cerca de três anos e é superfofa. Ele abriu a boca para protestar mais uma vez, mas eu o parei antes que ele pudesse dizer as palavras. — E quão estranho é isso? Eles vão fazer um evento de adoção no abrigo de animais onde ela está na noite de quarta, no mesmo dia do aniversário de Jack. Eu diria que é o destino. — eu levantei uma sobrancelha. — E eu diria que você está delirando. — ele brincou. — Eu estou dizendo, você realmente devia considerar isso. Um animal pode ser muito terapêutico para ele... e para você. — enfiei a mão na carteira e peguei o cartão de visita que Hannah tinha me dado. — Apenas no caso de você mudar de ideia e decidir realizar o desejo de aniversário do seu doce menino. O evento de adoção é quarta-feira à noite. Ele tomou o cartão da minha mão com relutância e sacudiu a cabeça. Eu sabia que as chances de ele ir eram quase nulas, mas achei que valia a pena tentar. Fiquei triste quando a noite chegou ao fim, com raiva de mim mesma por desejar que ele tivesse programado uma noite inteira. Era tão errado, mas não importava o quanto tentasse, eu não consegui evitar. Parte de mim queria ir ao escritório de Margo de manhã e dizer que não podia mais vê-lo, e a outra tinha uma sensação de mal-estar no estômago só de pensar sobre o dia em que ele não quisesse mais os meus serviços. Eu sabia qual era a coisa certa a fazer, mas eu não consegui entrar em acordo comigo. Havia algo sobre ele que ultrapassava o aspecto de negócios. Eu me identificava com ele. Ele agia como se a minha profissão não definisse a pessoa que eu era, e ele me aceitava, assim como a Hannah. Talvez eu estivesse me preparando para um desastre, mas por enquanto eu não estava pronta para deixá-lo sair da minha vida.

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*** Os próximos dias se passaram em um borrão. Eu fiquei robótica no meu trabalho, mantendo o mesmo comportamento metódico de sempre com os meus clientes (da mesma maneira que eu deveria ter sido com Simon). Até meus pensamentos me traírem. Ele já não era Quintafeira na minha cabeça. Ele era Simon. Eu era uma tola por acreditar que poderíamos ter algum tipo de relacionamento além do profissional. Mesmo em negócios normais, confraternizar fora do local de trabalho sempre terminava mal, e nossa situação era tudo menos normal. Eu percebi que tinha ultrapassado os limites ao me envolver em sua vida pessoal e até querendo saber algo sobre seu filho. Sabia que tinha que mudar tudo, e eu precisava tratá-lo da mesma maneira que trato todos os meus outros clientes pagantes. No momento em que quarta-feira chegou, eu tinha decidido que eu não participaria do evento de adoção. Até Hannah me ligar em pânico, me implorando para ir, porque eles estavam sem pessoas suficientes. Eu finalmente cedi, sabendo que eu estava livre para socializar fora do local de trabalho com Simon (Quinta-feira). Eu sabia que ele não tinha qualquer intenção de ir ao abrigo, apenas pelo olhar dele quando eu sugeri. Ver todos os cães quebrou meu coração, também por causa da minha depressão. Hannah não tinha exagerado quando disse que precisava de ajuda extra. Era um fluxo constante de pessoas. Fiquei feliz em ver alguns dos cães sendo adotados, mas não tantos como eu esperava. — Hannah, canil três precisa ser limpo. — Sheila falou de seu banquinho atrás da mesa, o mesmo banquinho que ela mal se levantou noite toda. — Oh, claro! — Hannah entrou em ação como um fantoche em uma corda.

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Eu olhei para Sheila, que encarava algo na tela do computador enquanto levava um pacote extragrande de M&M‘s a sua boca, jogando-os garganta abaixo. — Hannah! — eu chamei assim que ela começou a se afastar para fazer o seu dever. — Sim? — ela respondeu. — Por que você está limpando mer... — Bree! — Hannah repreendeu. — Sinto muito, mas por que você vai limpar cocô... de... cachorro... quando Broom-Hilda1 ali não fez uma coisa abençoada para ajudar a noite toda? — Está tudo bem, Bree. De verdade. — ela se virou e se dirigiu para o canil 3, enquanto Sheila começou um saco de batatas fritas. Eu balancei a cabeça em desgosto, preparando-me para colocá-la em seu lugar quando o sinal dele passando pela porta parou minhas ações. Meus joelhos ficaram fracos, e nem o som da mastigação da Sheila pôde impedir meu coração de bater a mil por hora. — Simon? — eu finalmente soltei, ainda incapaz de me mover. — Eu achava que você não viria. — O que posso dizer? Você é uma vendedora bastante convincente, e eu tenho um cliente muito ansioso. Além disso, Jack sabe que estamos aqui apenas para olhar os cachorros. Olhei para aquele mesmo menino adorável que eu me lembrava da aula de Hannah, que estava agarrado firmemente a mão de seu pai. — Bree, este é Jack. Jack, esta é Bree. — Simon nos apresentou quando eles chegaram mais perto. 1

Broom-Hilda é uma tira de quadrinhos do jornal americano. Broom-Hilda (um trocadilho em Brünnhilde) é uma bruxa com pele verde, uma verruga no nariz e longos cabelos fibrosos. Ela está sempre procurando por um novo marido, mas devido à sua natureza abrasiva, a missão até agora não teve êxito.

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Um olhar para aquelas pequenas covinhas adoráveis e aqueles cílios longos loiros batendo através dos óculos, e qualquer pensamento de estritamente profissional foi pela janela. Esse garoto tinha uma linha direta para o meu coração desde o primeiro dia que eu coloquei os olhos sobre ele. Por que ele tem que ser tão fofo, e por que o pai dele tem que ser tão extraordinariamente bonito? Os dois tornavam impossível seguir as regras. — Feliz aniversário, Jack. — eu sorri, inclinando-me em seu nível. Ele se virou para o lado e escondeu o rosto na perna de Simon, tentando esconder o sorriso. — Oh, cara, alguém é tímido. — eu provoquei, sorrindo para Simon antes de me levantar. — Confie em mim, ele não é nada tímido. — Simon levantou Jack, e ele não conseguia conter o riso. — Você não vai dizer olá para a Bree, Jack? Ele ainda estava rindo, enterrando a cabeça no ombro de Simon. — Bem, eu acho que se você não pode falar com ela, então ela não vai poder de mostrar os filhotes. Sua atenção foi despertada e Jack levantou a cabeça, finalmente, fazendo contato visual comigo, revelando um tom de azul que combinava com a mesma intensidade de verde do seu pai. — Você quer ver alguns cães, Jack? Ele respondeu com um aceno entusiasmado, pegando-me de surpresa quando ele se inclinou para mim para eu pegá-lo de Simon. — Jack! — Hannah exclamou, saindo das portas duplas, assim que Jack desembarcou em meus braços. Merda! Eu esqueci completamente sobre toda a conexão Hannah/Quinta-feira. O olhar confuso no rosto de Hannah disse tudo, e eu sabia que tinha alguma explicação séria a dar.

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— Irmã Hannah! — o rosto de Jack se iluminou. — Oh, Hannah, você conhece o Jack? — fingi ingenuidade, esperando que ela estivesse muito nervosa naquele dia em sua sala de aula para lembrar que ela o tinha apontado para mim. — Sim, ele é um dos meus alunos. — consegui me livrar! Graças a Deus a memória dela falhou. — Como você conhece o Jack? — ela perguntou. — Como eu conheço Jack? — eu repeti, tentando ganhar tempo para arrumar uma resposta adequada. — Bem, humm... O olhar de Hannah era intenso. Controle-se, Bree. Pense em algo! — O pai de Jack e meu irmão costumavam trabalhar juntos e são muito bons amigos. — desastrado e recuperado. Mas ainda havia alguma dúvida nos olhos de Hannah? — Eu mal posso esperar para contar ao Paul que me encontrei com você, e nem no tanto que o Jack está grande. — eu voltei minha atenção para Simon, tentando incluí-lo e esperando que ele percebesse. — Sim, com certeza cresceu muito. — Simon hesitou. Hannah encarou nós dois e o nó em meu estomago ficou mais apertado. — Oh, que mundo pequeno. — ela finalmente falou, aliviando levemente a minha tensão. — Você está pensando em adotar um cão, Sr. Grace? — Por favor, me chame de Simon. E com isso, a ficha caiu. Os olhos de Hannah se arregalaram. Ela levantou uma sobrancelha para mim e eu olhei para longe. — Oh, ok, Simon? — Hannah enunciou, olhando para mim mais uma vez. — Deixe-me levá-los lá trás para vê-los. Coloquei Jack no chão, e ele pegou a mão de Simon. Hannah levouos de volta para o canil enquanto eu optei por ficar para trás, tentando me

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recuperar do pequeno acidente. Após alguns breves momentos de muitos pensamentos, decidi que só negaria tudo o que Hannah tinha imaginado. Eu me recuperei, me armei com a minha melhor expressão autêntica, e me dirigi para os canis para me juntar a eles. Jack estendeu as mãos sobre os ouvidos para tentar bloquear o clamor dos cães latindo enquanto Hannah o levava ao redor, mostrandolhe todos os cães menores, passando direto pela gaiola de Macy. — Hannah! — eu gritei sobre o barulho, fazendo com que todos eles se virassem e olhassem para mim. — E a Macy? — Oh, eu não sei se Macy seria boa. — Por que não? — eu falei ofendida. — Bem... — Eu quero ver Macy, papai! — Jack exclamou, puxando a mão de Simon. Hannah se arrastou deles, balançando a cabeça com incerteza. — Macy demora um tempo para se acostumar com as pessoas. — Hannah advertiu ao destrancar a porta dela. — Então eu aconselho que Bree a apresente lentamente, uma vez que ela está realmente tomando um gosto por Bree. Não houve apresentações necessárias. Assim que o portão de Macy estava aberto, ela felizmente se aproximou de Jack com a cauda abanando. — Estenda a sua mão e deixe-a conhecê-lo, Jack. — aconselhei. Mas antes de eu dizer as palavras, ou antes que Simon pudesse impedi-lo, Jack já estava curvado e envolvendo os braços nela. Macy devolveu o carinho com beijos molhados por todo o rosto. Não pude conter meu sorriso. — Eu falei. — eu sussurrei para Hannah, cuja boca ficou escancarada pelo carinho de Macy por Jack.

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— Oi, cachorrinho! — Jack esfregou o rosto no pelo de Macy. — Eu nunca fico cansada de observar crianças com cães. — comentei, incapaz de tirar os olhos de Jack e Macy e o vínculo imediato entre eles. Hannah pediu licença quando Sheila acenou para ela, permitindome tempo para conversar com Simon. — Eu sei que é uma responsabilidade enorme, mas as pessoas fazem isso o tempo todo e conseguem adaptar com os horários. Escute isso de alguém que sabe: um cão pode fornecer uma vida inteira de memórias e um lote inteiro de cura. — Vou considerar o conselho. — ele sorriu. — Eu a amo tanto, papai. — disse Jack dando beijos sobre toda a cabeça de Macy. — Anos de felicidade valem um pouco de irritação. — eu continuei com o meu discurso de vendas. Abaixei-me ao lado de Jack e brinquei com ele e Macy, enquanto Simon pediu licença para atender uma chamada. Eu estava meio prestando atenção neles e metade prestando atenção na conversa de Simon. — Não tem possibilidade de eu me reunir com ele esta noite. É o aniversário do meu filho. Então, deixe-o ir... Isso não é da sua conta, Bree. Pare de ouvir a conversa dele. — Ahhh, o nariz dela está molhado. — Jack riu quando Macy pressionou o nariz na sua bochecha. Sua felicidade era contagiante; só de estar com ele e Macy eu esqueci que quaisquer dos meus problemas existiam. — Tudo bem? — eu perguntei ao Simon, que tinha acabado de terminar sua conversa quando me levantei.

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Ele balançou a cabeça, e pela primeira vez no pouco tempo que o conhecia, eu pude sentir que ele estava com raiva. — Só prestes a perder um negócio de milhões de dólares, porque o cliente não pode esperar até amanhã. — Caramba. — eu sussurrei. — Bem, qual é o problema? Por que você não pode ir hoje à noite? Ele apontou para Jack. — Eu não vou arrastá-lo junto por Deus sabe quanto tempo. Ele nem sequer jantou, e ele tem aula amanhã. Sua frustração era visível e, tolamente tentando aliviá-la, eu deixei escapar: — Posso ficar com Jack por algumas horas, se você quiser. — eu percebi o quão louco isso soou antes que as palavras saíssem da minha boca. É claro que ele não iria querer alguém como eu cuidando de seu bem mais precioso. Seus olhos brilharam, e eu percebi que ele estava surpreso com a minha proposta. — Sinto muito, até considerar isso foi muito fora dos limites. — Não, eu aprecio muito, mas eu não poderia me impor a você assim. — Realmente, não é grande coisa. Eu não tenho quaisquer outros planos para esta noite. Ele estava concentrado em seus pensamentos, finalmente, balançou a cabeça em concordância. — Tem certeza de que está tudo bem... — Eu não teria sugerido, se não estivesse bem com isso. Eu posso levá-lo para comer algo e quando tivermos acabado, esperançosamente você já terá resolvido isso. Seu sorriso era cheio de gratidão. — Eu não posso agradecer o suficiente.

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— Sem problemas. Simon abaixou-se ao lado de Jack, que ainda estava em êxtase com a Macy. — Jack, papai tem que voltar para o trabalho por um tempo. Bree vai levá-lo para comer alguma coisa, e então eu vou te pegar. — Ok. Macy pode ir também? — Oh, Jack, a hora de Macy dormir está perto, então ela tem que ficar aqui para descansar um pouco. — eu expliquei. — Ah. — ele franziu a testa. — Papai, eu posso voltar para visitá-la de novo? — Claro. — Simon sorriu. — Vou tentar fazer isso o mais rápido possível, e eu vou te enviar mensagem assim que eu acabar. — disse ele para mim assim que ficou de pé novamente. — Sem problemas. Você está pronto, Jack? Ele assentiu com entusiasmo, dando um último beijo na Macy. — Eu ligo assim que eu terminar. — Simon pegou a carteira e tirou algum dinheiro. — Para o jantar. — Por minha conta. — eu sorri. — Bree, apenas pegue... — Não. — eu não ia ceder. Ele balançou a cabeça em derrota. — Jack, seja um bom menino com Bree. — ele deu um beijo na bochecha de Jack e não perdeu tempo fazendo sua saída. Olhei para Jack, me perguntando no que eu tinha acabado de me meter. Eu não estava acostumada a ficar perto de crianças, seria uma experiência totalmente nova para mim, mas estranhamente, eu estava ansiosa.

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Capítulo 12 Eu consegui me esquivar da enxurrada de perguntas que eu tinha certeza que Hannah faria sobre a minha relação com Simon, mas eu estava apenas adiando o inevitável, ela provavelmente iria perguntar da próxima vez em que estivéssemos sozinhas. Jack escolheu pizza para o jantar, e ele se abriu muito em nosso pouco tempo juntos. Era difícil acreditar que o menino bobo, curioso, sentado à minha frente era o mesmo que tinha se escondido no ombro do pai apenas uma hora antes. Falamos sobre tudo, desde a escola, desenhos animados e brinquedos favoritos, à sua pessoa favorita... seu pai. Ele era um menino típico. Ele gostava de desenhar, jogar futebol, cavar na terra, e mesmo na sua pouca idade, era evidente o amor que ele tinha pelos animais. Foi tão bom ver que a morte da mãe não tinha tido um impacto negativo sobre ele, e eu estava certa de que tinha muito a ver com Simon. Depois do jantar, eu ainda não tinha ouvido falar de Simon, então nós paramos e tomamos um pouco de sorvete. Jack estava colocando chantilly no sundae quando meu telefone tocou. — Olá. — eu respondi. — Bree, eu sinto muito. Só terminou agora. — Não tem problema, Jack e eu estamos apenas começando a tomar sorvete. Dei-lhe o endereço da sorveteria e Jack e eu terminamos o sorvete, enquanto esperávamos por ele. — Ali está o papai! — Jack exclamou quando Simon entrou pela porta. Ele tomou o assento na minha frente e ao lado de Jack. — Deu tudo certo? — perguntei.

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— Sim, tudo foi perfeito. — ele respondeu aliviado. — Papai, eu comi isso aqui tudo. — Jack acariciou orgulhosamente a barriga. — Oh filho, em breve eu sentirei o efeito dessa quantidade de açúcar em você. — Simon brincou. — Papai, abre a boca e feche os olhos. — ele esperou por Simon fazer o que foi dito e pegou a cereja da sua tigela e colocou-a na boca de Simon. A diversão de Jack com toda a situação foi tão refrescante que não pude deixar de me deliciar com o seu prazer só de ouvir o seu riso. — O meu favorito. — disse Simon. Enquanto observava os dois, os pensamentos da minha infância correram pela minha mente. O quanto eu tinha desejado que meu pai e eu fôssemos próximos. Ele sempre estava muito ocupado trabalhando, deixando muito pouco tempo para mim. Eu sabia que ele estava apenas fazendo o que era necessário para manter um teto sobre nossas cabeças, mas às vezes eu desejava que ele reconhecesse que eu precisava mais dele. Quando eu fiquei um pouco mais velha, comecei a me perguntar se ele me evitava de propósito. Ele nunca me proporcionava o mesmo tempo ou dava a mesma atenção para mim e meu irmão, e a razão pela qual ele era assim era muito clara, era por que ele tinha perdido o amor de sua vida. Quando me mudei para Nova Iorque para frequentar a escola, eu realmente senti algum alívio da parte dele, e a dor que me causou inflamou profundamente e levei-a para a minha idade adulta. A situação de Simon e Jack era tão semelhante à minha e a do meu pai; a única diferença era que Simon não se ressentia do filho por causa disso. — Tudo bem? — Simon perguntou, interrompendo os meus pensamentos. — Oh, sim. Apenas sonhando acordada. — eu sorri, tentando disfarçar as lágrimas que acumularam nos meus olhos.

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Seus olhos lançaram dúvidas em minha direção, e eu desviei o olhar, voltando minha atenção para Jack. — Alguém parece sonolento. — eu comentei, tentando desviar a atenção para longe de mim. — Papai, eu quero assistir Scooby-Doo! — Jack deixou escapar. — O quê? — Simon ficou intrigado. — Oh, isso é minha culpa. — comecei a explicar. — Jack me disse que nunca assistiu Scooby-Doo. E é obrigatório para uma criança. Simon soltou uma risada alegre, revelando aquelas covinhas lindas. — Quem disse? Tenho trinta e dois anos e nunca assisti. Meus olhos se arregalaram, assim como o sorriso dele. — O que posso dizer? Scooby-Doo não era famoso na Inglaterra, eu acho. — Uau, como você sobreviveu todos estes anos? — eu brinquei. Era tudo tão bizarro para mim. Era como se estivéssemos em um primeiro encontro, e fôssemos apenas duas pessoas normais que queriam se conhecer, mas eu sabia muito bem não era o caso. Eu precisava ficar me lembrando de que esses feitiços de felicidade me dominavam quando ficava dele e do Jack naquela noite. Não era um encontro. Ele não era um namorado

em

potencial,

e

qualquer

tipo

de relacionamento era

estritamente profissional, e poderia acabar a qualquer momento, sem perguntas. Mesmo que eu não quisesse que a noite terminasse, eu sabia que tinha de voltar à realidade. — Nossa, está ficando tarde. — observei ao olhar para o relógio. — Sim, você tem que chegar em casa e se preparar para dormir. — Simon mexeu no cabelo de Jack brincando. — Mas é meu aniversário! — Jack reclamou. Eu me levantei e coloquei o casaco e Simon seguiu o exemplo.

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— Eu não quero ir embora. — Jack fez beicinho, jogando a cabeça para trás. —

Jack.

Simon

foi

severo,

fazendo

Jack

escorregar

relutantemente para fora da cabine num acesso de raiva. Simon ajudou-o a colocar o casaco, fechando-o até o queixo. — Ponha o chapéu. — Simon pediu. Jack fez o que ele disse e fomos lá fora. — Oh meu Deus. Parece que a temperatura caiu vinte graus. — estremeci e coloquei as luvas. — Eu me diverti muito essa noite, Jack. — eu não pude deixar de sorrir quando olhei para ele. Ele respondeu com um sorriso cativante. — Jack, o que você tem que dizer para Bree? — Simon perguntou. — Obrigado. — ele respondeu timidamente. — De nada e aproveite o resto do seu aniversário. — Ok. — ele cantarolou, pulando para cima e para baixo em um pé. — Muito obrigado, Bree. — a gratidão de Simon era aparente. — Não há de quê. Foi realmente muito divertido. — eu sorri e nossos olhos se encontraram um pouco mais do que deveriam. Ele fez sinal para um táxi para mim, abriu a porta e esperou que eu entrasse. — Até logo, Jack. — eu gritei. — Tchau, tchau! — exclamou Jack. — Vejo você amanhã? — perguntei a Simon quando saí da calçada para entrar no táxi. Ele sorriu e balançou a cabeça em concordância, e se eu tivesse que adivinhar ele estava tão ansioso tanto quanto eu. Isso estava errado. Tão errado.

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Uma vez que eu estava a apenas alguns quarteirþes de distância, eu finalmente fui capaz de mergulhar nos milhþes de pensamentos correndo pela minha mente. Estar com Jack e Simon naquela noite me fez revisitar um passado que eu sempre me arrependeria, e ao mesmo tempo vislumbrava um futuro que eu desejava secretamente.

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Capítulo 13 — Eu me sinto honrada por você estar me agraciando com sua presença. — eu provoquei Jess quando nos encontramos no café da manhã. — Eu sei, eu sou má. Tenho estado tão ocupada, desde que tudo isso começou, e a cadela da Margo não está tornando isso fácil, tentando me sabotar antes mesmo de eu me levantar. — Bem, você sabia que ela não ia facilitar. — Sim, mas eu nunca imaginei que ela seria tão implacável. — ela suspirou e tomou um gole de café. — Eu simplesmente não entendo por que ela está tão zangada comigo por ter saído. Ela, de todas as pessoas, devia compreender a necessidade de querer seguir em frente. Dei de ombros, arrancando um pedaço da minha torrada. — Sim, eu sei, ela é sua amiga, mas eu também sou. — Jess protestou sobre a minha posição neutra sobre a situação. — Sim, eu sei que é Jess. Mas parte de mim acha que você está fazendo a escolha errada. — Por quê? Porque eu estou cansada de ser fantoche da Margo, enquanto ela colhe os benefícios? Talvez você devesse fazer a mesma coisa, Bree. Olhei para a mesa, sem querer discutir com ela. — Sério, Bree, vamos ser parceiras. Nós duas juntas colocaríamos a Margo fora do mapa. — Eu... — eu parei quando a garçonete veio para pegar nossas xícaras de café. Eu sorri para ela e esperei-a se afastar. — Eu nem tenho certeza se quero continuar nesta linha de trabalho.

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Seus olhos se arregalaram. — Sério, Bree, e o que você gostaria de fazer? Medicina, talvez? — ela riu. Eu não achei muita graça no seu cinismo. — Não, eu não disse isso, mas não é tarde demais para voltar a estudar. Talvez eu queira ter uma vida normal, onde minha família não me afaste. Ela franziu as sobrancelhas em confusão. — O que deu em você? Agora, de repente, você quer fazer as pazes com sua família depois da maneira que eles te trataram? E o que você vai fazer, se casar e mudar para o subúrbio com uma cerca branca e dois filhos perfeitos? Era fácil para Jess nunca ter esse sonho. Ela tinha vindo de uma família totalmente quebrada. Ela nunca soube que os pais eram viciados em drogas. Eu, por outro lado, sentia falta da minha família; mesmo que meu pai fosse um pouco distante na minha infância, eu ainda o queria na minha vida. — Apenas esqueça, Jess. — eu olhei para o prato e mexi nos ovos. — Talvez eu devesse estar me perguntando quem deu em você, em vez de quê? Isso tem alguma coisa a ver com o cliente novo que você roubou de mim? — brincou ela, mas suas palavras ainda estavam revestidas com algum ressentimento. Ergui a cabeça, talvez um pouco rápido demais para ser convincente. — O quê? Não! — Ok, mas lembre-se do que você me disse há muito tempo: sem emoções. Estritamente negócios. Você pode sentir algum tipo de carinho por ele, mas certamente, esses caras não sentem nenhum tipo de carinho por nós. Eles nos veem como uma coisa e apenas isso. Depois que acabamos a parte de ser doces em seus eventos black-tie e satisfazemos os seus desejos sexuais, eles vão para casa com suas famílias e não nos pensam em nós duas vezes. — Eu sei, Jess. — ela estava mil por cento certa em sua avaliação com todos os outros clientes, mas não Simon. Ele já tinha me deixado

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entrar em seu mundo, e talvez eu estivesse errada por me permitir entrar, mas tudo sobre ele parecia tão certo. — Ok. — os olhos dela se suavizaram. — Eu só não quero ver você se machucar. — E eu não vou. Ela ainda parecia cética. — Eu não vou. — eu balancei a cabeça e forcei um sorriso, tentando o meu melhor para convencê-la, mesmo que eu ainda estivesse tentando convencer a mim mesma. *** Minha cabeça descansou no ombro de Simon, ambos sem fôlego por causa da última hora gasta da nossa quinta-feira à tarde juntos. — Quantos anos você tem? — ele deixou escapar do nada, sua voz baixa e rouca. — Não se preocupe, eu sou maior de idade. — eu ri. Ele moveu o ombro, obrigando-me a olhar para ele. — Estou falando sério. — Por que isso importa? — Exatamente nada. Então, diga-me. — Oh, então agora você está usando psicologia reversa em mim? — O quê? — ele riu. — Adivinhe. — E o que eu ganho se eu acertar? Meu cabelo caía em cascata sobre seu peito e eu olhava para ele. — O que você quer? O sorriso desapareceu e foi substituído por puro desejo.

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Sem dizer uma palavra, ele me virou e pairou sobre mim, arrastando seus lábios no meu pescoço e fazendo o caminho de volta até meu ouvido. — Você. — ele sussurrou. Minhas entranhas começaram a despertar pela segunda vez naquele dia com apenas o mero pensamento de transar com ele mais uma vez. Talvez eu estivesse errada e todos aqueles livros de romance que a Hannah leu estivessem certos. Talvez uma mulher pudesse ter um orgasmo só de olhar para um cara, porque eu estava muito perto apenas por ficar tão próxima dele, sentindo seus lábios no meu corpo e antecipando o que estava por vir. Quanto mais eu tentava negar, maior se tornava o desejo. Eu sabia que era uma batalha perdida e eu não tinha escolha a não ser me render. Enquanto sua mão segurava meu peito, um leve suspiro de prazer me escapou, levando-o a olhar para mim. Meu corpo estremeceu de desejo, e eu fui incapaz de desviar o olhar. Seus olhos excessivamente expressivos eram como um afrodisíaco natural, mais poderoso do que suas mãos, boca, ou qualquer outra parte de seu corpo no momento. Eu estava perdida neles, consumida de desejo, mas cheia de dúvidas sobre a forma como eu estava me sentindo. — Eu acho que estamos entrando em um território muito perigoso. — eu finalmente encontrei minha voz. — Talvez eu goste do perigo. — seu olhar se intensificou. Eu puxei meu lábio inferior, sem nunca desejar qualquer homem antes do Simon como eu o queria naquele momento. Coloquei a breve batalha que estava tocando na minha cabeça para descansar e admiti a derrota, eu o puxei para perto e colei seus lábios nos meus. Sua língua deslizou em minha boca e nossos corpos se prepararam para se unirem mais uma vez. Se esta era a zona de perigo e Simon era o inimigo, eu não ia lutar. Ele já havia capturado meu corpo cem por cento, e cada vez que eu ficava com ele, ele tomava um pequeno pedaço do meu coração.

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Capítulo 14 De longe o meu sábado provou não ser produtivo. Já eram 11 horas da manhã e eu ainda estava desabada no sofá, assistindo televisão com a minha terceira xícara de café. O sol brilhante que fluía pela janela deveria ter sido a motivação que eu precisava para me mover, mas não foi o suficiente para me tirar da depressão. De acordo com o meteorologista que vi na televisão mais cedo, seria um dia típico de primavera, uma raridade para o final de janeiro em Nova Iorque. Fechei os olhos, lutando contra as lágrimas. Hoje seria o vigésimo nono aniversário dele. O menino que tinha sido meu melhor amigo da vida inteira. O primeiro e único por quem eu já tinha me apaixonado, e se o destino não tivesse sido tão cruel, quem eu esperava um dia ser meu marido. Eu respirei fundo, lembrandome tudo sobre ele. Seu sorriso bonito. A maneira como seu rosto se iluminava quando eu entrava na sala. Ele me entendia melhor do que ninguém, e ele me amava incondicionalmente. Eu tinha passado aquela noite um milhão de vezes na minha cabeça, perguntando-me se eu tivesse saído um minuto mais cedo ou um minuto depois, será que ele ainda estaria aqui, agora? Estaríamos sentados neste sofá juntos, aconchegados debaixo de um cobertor, assistindo a uma maratona de filmes de terror? Será que nós começaríamos aquela família, sobre a qual ele sempre falava em ter comigo? Eu ainda teria a minha carreira de dançarina, e ele teria alcançado seu sonho de ser um médico bem-sucedido? Estas eram todas as perguntas que nunca seriam respondidas por causa de uma fração de segundo de minha vida. Finalmente, decidi que já tinha chafurdado o suficiente na minha auto piedade, então eu pulei no chuveiro, me vesti e saí pela porta. Eu não tinha um destino em mente, até que eu pisei fora do meu apartamento, imediatamente ostentando um sorriso largo quando uma senhora idosa

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com um cão minúsculo de raça misturada cruzou o meu caminho, sabendo imediatamente o que poderia me tirar do meu mau humor. *** — Canil um e dois necessitam ser lavados. — Sheila não perdeu tempo para dar ordens na hora que eu entrei pela porta para o abrigo. — Oh, eu só posso ficar um minuto. — Não interessa. — ela bufou, pegou o tablet mais uma vez e aumentou o volume para qualquer vídeo que ela estava assistindo. Fiquei ali sem fala. Eu teria feito isso num piscar de olhos se alguém tivesse pedido, mas de todos no abrigo, Sheila era uma das poucas que realmente recebia salário, mas ela era a mais preguiçosa. — Por que você não pode fazer isso? — eu rebati, finalmente, cheia do seu comportamento preguiçoso. Ela olhou para mim e estreitou os olhos. Claramente, ninguém nunca questionou sua autoridade antes. — Porque estou ocupada. — Ocupada assistindo vídeos do YouTube? — eu não ia recuar. Eu via o jeito como todo mundo inclinava-se para ela naquele lugar, e eu odiava. Ela colocou o tablet na mesa e sacudiu a cabeça em desgosto. — Como é? — Eu acho que você me ouviu. Não há nenhuma razão para você dar ordens constantemente para todos os outros quando o seu rabo não se move deste banco para fazer qualquer coisa, e você é uma empregada de verdade daqui. Pense sobre o que aconteceria com esses pobres animais se você não tivesse as pessoas que vêm voluntariamente, as mesmas pessoas que são mandadas e diminuídas por você em uma base diária. Eles morreriam de fome porque você estava muito ocupada empurrando batatas fritas e doces pela garganta? Ou eles se sentariam em

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gaiolas cheias de fezes porque o que quer que esteja no seu tablet é mais importante? Seus olhos se arregalaram e seu queixo caiu. Ela estava prestes a me rebater quando o Dr. Springer, o veterinário do abrigo, chamou meu nome. — Bree, o que te traz aqui em um sábado? — ele piscou, e eu soube imediatamente que ele tinha ouvido o sermão que eu tinha acabado de dar em Sheila. — Oh, eu só precisava de um pouco de consolo. — eu suspirei. — Bem, você veio ao lugar certo. Sua ajuda pode ser muito útil enquanto eu verifico alguns dos nossos mais novos residentes. — O prazer é meu. — eu sorri, certa de que estava apenas adicionando à fúria de Sheila, mas eu não me importei. — Obrigado por finalmente falar com ela. — Dr. Springer elogioume quando as portas para os canis se fecharam atrás de nós. — Ela não poderia se importar menos sobre estes cães. Tudo que ela quer é um pagamento. — Isso que me deixa tão brava. — Chega de falar nela. Vamos ao trabalho. Depois de conhecer os novos ―residentes‖ e ajudar o Dr. Springer, minha mente estava totalmente apagada. Era tão gratificante saber que eu estava ajudando os pobres bebês para encontrar, eu esperava, um lar permanente. Mas talvez a parte mais gratificante das minhas últimas horas tivesse sido assistir Sheila limpar os mesmos canis que ela pediu que eu fizesse. Eu estava tão ocupada que nem tive tempo para parar e visitar Macy. Eu coloquei algumas guloseimas extras no bolso e fui para o canil dela, ofeguei quando não a vi lá. — Mudaram a Macy para outro local? — perguntei ao Dr. Springer. O pânico na minha voz estava evidente. — Oh não, você não soube? Macy foi adotada ontem.

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— Foi? — eu não sabia se eu queria rir ou chorar naquele momento agridoce. Ele balançou a cabeça e sorriu. — Ela foi para uma boa casa? — Eu não sei exatamente quem a adotou, mas tenho certeza de quem quer que fosse, era uma família muito amorosa. O abrigo é muito cuidadoso sobre o rastreio de potenciais adotantes. — Oh. — eu sussurrei. — Eu achei que você ficaria feliz. — Oh, eu estou. Eu só desejava ter dito adeus para ela. — Às vezes, despedidas apenas dificultam. — Hannah só tinha me apresentado ao Dr. Springer na semana anterior, mas ele tinha aquele tipo de personalidade calorosa e acolhedora, que me deixou confortável imediatamente. Eu o admirei desde o momento em que o conheci. Ele era carinhoso, gentil e muito bom no que fazia. Depois da aposentadoria, ele continuou a cuidar desses animais por puro amor. Seus anos de sabedoria eram uma raridade, e ele sempre era sensato em seus pontos de vista práticos sobre a vida. Mas este era um que eu tinha que discordar dele. Nunca foi me dada a oportunidade de dizer adeus a qualquer pessoa importante na minha vida, e não facilitava; ao contrário, era mais difícil. Agora, Macy estava presa a esse mesmo destino. — Espero que ela seja feliz. — eu suspirei, olhando para a gaiola vazia que já foi o lar de Macy. — Tenho certeza que ela será. — ele fez o seu melhor para oferecer alguma garantia.

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Capítulo 15 Meu astral tinha levantado ligeiramente no momento em que terminei de ajudar no abrigo. Ainda estava um pouco para baixo por não ter me despedido de Macy apropriadamente, eu tentei o máximo permanecer positiva, pensando em sua nova vida, esperando que fosse tudo o que ela merecia e mais. O sol de fim de tarde estava quente e acolhedor quando saí pela porta. Pela primeira vez o meteorologista estava certo. Era um dia excepcionalmente de primavera, e com apenas mais algumas horas de luz do sol restando, eu planejava desfrutá-lo. O problema era que eu não sabia o que fazer. Não era como se eu tivesse quaisquer amigos que eu pudesse chamar para sair. Hannah era um não definitivo. Eu estava evitando-a porque eu sabia que ia ter uma tonelada de perguntas sobre Simon. Eu estava temendo o nosso encontro do livro no dia seguinte por causa disso. Esta era a vida que eu tinha escolhido: sem família, sem amigos, e nenhum namorado. Meu telefone vibrou dentro da bolsa, e eu fui incapaz de controlar o sorriso ridículo que esticou no meu rosto com a visão do nome dele. Simon: Dia bonito na ponte de Brooklyn Park. Eu joguei a cabeça para trás e ri com a indireta na mensagem. Eu: Bom saber. Eu acho que não sobreviveria sem essa atualização de notícias. Eu enviei e sinalizei para um táxi, entrei e dei o endereço do parque ao motorista. Sentei-me no banco de trás, olhando para o meu telefone, esperando-o responder. Os minutos pareceram horas, e eu comecei a ter dúvidas sobre a minha resposta sarcástica, esperando que ele não tivesse me levado a sério. Alívio tomou conta de mim quando o meu telefone vibrou na minha mão.

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Simon: De nada. Achei que você fosse gostar. Apenas pensei em avisar para o caso de você querer aproveitar este tempo lindo. Eu: Aprecio muito. Que parte do parque você recomendaria como a melhor área para aproveitar o tempo? Eu não conseguia tirar o sorriso do rosto. Simon: Pebble Beach no momento. Olhei pela janela para ver o quão longe do parque estávamos e calculei mentalmente o tempo que levaria para chegar lá. Eu: Você acha que ainda vai ser o melhor local daqui a quinze minutos? Simon: Definitivamente. Ah! Isto era tão louco! Eu estava flertando com um cliente. Um homem que pagava para transar comigo. Um homem com quem eu tive relações sexuais em mais de uma ocasião, e lá estava eu enviando mensagens de texto e esperando-o responder como uma adolescente de dezesseis anos de idade, na esperança de ser convidada para o baile pelo cara mais quente da escola. Eu fui levada de volta à realidade rapidamente quando meu telefone vibrou de novo e o nome de Margo atravessou a tela. Achei irônico que a mulher, que um dia idolatrei, havia se tornado alguém que eu fazia o possível para evitar. Por um segundo eu pensei em deixar ir para a caixa postal, mas sabia que eu estava apenas adiando o inevitável. — Sim, Margo? — Olá, querida. Eu preciso que você vista seu melhor vestido, enfeite-se e esteja no Ritz Carlton às oito em ponto. — Eu não posso.

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— O que quer dizer com você não pode? — Eu já tenho planos para hoje à noite. — Bem, cancele. Ela era inacreditável. — Margo, desculpe-me, mas eu não posso. — por que mesmo eu estou me desculpando com ela? — Bree, o senador Stevens precisa de uma acompanhante para um baile de gala de angariação de fundos esta noite. É um grande evento. — Ok, e eu acabei de falar, eu tenho planos que não posso cancelar. — fiquei inflexível. — Isso me coloca em uma situação muito difícil. Você sabe como ele é importante? — Por que outra pessoa não pode fazer isso? Ele é cliente habitual de Kylee, não é? — Sim, mas ela está doente, Regina e Lauren estão com outros clientes e todos nós sabemos que Jess não está mais por perto. — ela bufou. — Eu realmente não sei o que dizer, mas sei que não posso ir. — E desde quando você tem uma vida fora do trabalho? — ela retrucou. No passado, eu sempre me sentia obrigada a me explicar para Margo, mas, ultimamente, nem tanto. Esse cara não era um dos meus clientes; portanto,

eu

não

tinha

nenhuma

obrigação

de

ser

a

acompanhante dele, e a razão não era problema da Margo. — Margo, eu realmente preciso ir. — Bree, e se eu não ficasse com nenhuma parte? — a voz dela estava cheia com um tom raro de desespero. Deixei escapar um suspiro profundo. Pensamentos de Simon e Jack me esperando no parque correram pela minha mente. Eu sabia que

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Margo usaria isso contra mim para sempre se eu recusasse. Minha cabeça estava me dizendo para apenas aceitar e evitar qualquer atrito desnecessário com ela, mas meu coração pronunciou as palavras antes que eu pudesse detê-las. — Sinto muito, Margo, simplesmente não posso. — Ok, tudo bem. Vou me lembrar disso na próxima vez que você precisar de um favor. Tenho certeza que sim. — Aproveite os seus planos. — ela zombou antes de desligar o telefone. A culpa tomou conta de mim por uma fração de segundo antes de eu voltar aos meus sentidos. Eu precisava me impor. Eu deixei-a se aproveitar de mim por muito tempo, e agora com Jess saindo, ela precisava de mim mais do que eu precisava dela. No momento em que cheguei ao parque, todos os pensamentos das demandas de Margo estavam de lado. Eu fiz uma varredura pelas pessoas na área, nenhum sinal de Simon ou Jack. — Ótimo, eu acabei de chatear a Margo por nada. — eu sussurrei para mim mesma. Eu estava na praia urbana pacífica e olhei para o rio, para o horizonte pitoresco de Manhattan. O vento vinha da água, limpando a mente de todos os pensamentos velhos e abrindo caminho para novos. O sendo de solidão frio e agudo que me dominou mais uma vez, era mais duro do que qualquer um dos elementos provenientes da água. Eu não era uma estranha à solidão, mas eu não pude deixar de me perguntar se alguém iria notar se eu simplesmente desaparecesse. Animese, Bree, eu exigi de mim mesma. Estendi a mão para o telefone, sem acreditar no que eu estava prestes a fazer após a pequena conversa que tive comigo no táxi sobre me impor para Margo. Mas ceder ao pedido de Margo e fazer um pouco de dinheiro extra parecia melhor do que o sentimento de solidão. Pelo menos eu sabia que existiria para alguém hoje

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à noite. Puxei o nome de Margo em meus contatos e estava prestes a apertar o botão de chamada quando algo roçou a minha perna da calça. — Macy! — exclamei, olhando duas vezes para a bola dourada aos meus pés. — É realmente você, menina bonita! — abaixei-me, envolvendo meus braços em torno dela e acariciando seu pelo. — O que posso dizer? Jack é um vendedor mais agressivo do que você. — disse Simon enquanto eu olhava para ele, de pé diante de mim com as mãos nos bolsos. — Bree! — Jack gritou. — Temos Macy, e ela dorme na minha cama comigo. — o sorriso de Jack era contagiante. Macy correu para ele, imediatamente tomando um assento em seus pés. A ligação que estes dois tinham formado já era evidente. — Eu não posso acreditar que foi você quem a adotou. — levanteime, dando um passo mais perto de Simon. Ele suspirou profundamente. — Acho que eu tive um momento de fraqueza. — Eu sabia que você cederia. — eu sorri. — Prometo que você não vai se arrepender. — Vamos! — Jack agarrou a coleira de Macy e acenou com a mão para que nos movimentássemos. Simon e eu caminhamos juntos, enquanto Jack e Macy estavam alguns passos à nossa frente. — Eu achei que vocês já tivessem saído. — Não, Jack teve que usar o banheiro. Depois, você parecia tão perdida em pensamentos, que quase não quis perturbá-la. — Sim, às vezes isso é uma coisa muito perigosa. — eu murmurei. — O quê? — Ficar sozinha com meus pensamentos. Ele levantou a sobrancelha e assentiu.

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— Então, Macy está se adaptando bem? — Bem, só se passaram dois dias, mas, surpreendentemente, sim. Ela e Jack são inseparáveis. — Nada como um menino e seu cachorro. — eu sorri. — Exceto, talvez, uma menina e seu cachorro. — Você teve um cachorro quando era criança? — Sim. Na verdade, tive alguns, e dois gatos, vários hamsters, e um coelho. — Puxa, você tinha o seu próprio pequeno jardim zoológico. Eu joguei a cabeça para trás e soltei uma risada simples. — Eu amo animais. Eles sempre me divertiram mais do que qualquer ser humano. Além disso, eu acho que as pessoas que não gostam de cães têm problemas profundos e sérios. Ele soltou uma risada alegre com a minha observação. — De todos os meus cães, Toby era meu favorito. Ele era um pouco peculiar. Ele tinha um olho azul e um marrom, e uma orelha que ficava em linha reta e a outra caída. — Uau, coitado. Parece que era um pouco confuso na vida. Eu balancei a cabeça e ri. — Sim, mas ele era o melhor. Eu não tive muitos amigos enquanto cresci. Seus olhos se arregalaram em descrença. —

Realmente

não

tive. Eu cresci em uma

cidade muito

pequena. Todas as meninas formaram suas panelinhas ainda crianças, e eu não fazia parte de nenhuma. — Por que não? — perguntou ele. Dei de ombros. — Eu não tenho certeza. Eu acho que todos aqueles pequenos grupos se formavam de acordo com as amizades das mães, e desde que eu não tinha uma, eu tornei-me uma pária.

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Ele olhou para mim interrogativamente. — Ela faleceu quando eu nasci. — eu esclareci. Tristeza tomou conta de seu rosto antes que ele desviasse o olhar e olhasse para frente, imerso em pensamentos. — Você tem irmãos ou irmãs? — Um irmão. Ele é cinco anos mais velho do que eu. — Quantos anos tem ele? — Trinta e três. — engoli em seco, percebendo o que eu tinha acabado de fazer e bati no braço dele de brincadeira quando ele caiu na gargalhada. — Então você tem vinte e oito? — um sorriso triunfante estampou no seu rosto. — Ok, você me pegou. — eu admiti a derrota. — Mas eu ainda estou achando difícil acreditar que você não tem nenhum amigo. Você é tão fácil... — ele fez uma pausa. — Para falar e conviver. — ele terminou. — Eu tinha um amigo, na verdade, um melhor amigo, que não era da variedade de quatro patas. Ele soltou uma risada alegre. — Você ainda é amiga dela? — Ele. — eu corrigi, tentando engolir o caroço do tamanho de uma bola de beisebol se formando em minha garganta. — E, não, eu não sou. — meus olhos cerraram e ele me deu um olhar simpático. Eu esperava que ele não fizesse mais perguntas; eu não tinha certeza se o meu coração conseguiria lidar com isso. — Jack, já chega. — ele chamou, felizmente tirando-nos do tópico. Jack parou, permitindo-nos alcançá-lo. — Papai, eu estou com fome! Podemos ir comer alguma coisa? — Ok, mas Macy precisa ir para casa.

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— Por quê? — Porque ela não pode entrar em restaurante. — Por que não? — Jack protestou. — Porque não é permitido. — Simon suspirou profundamente, mostrando sua frustração. — Jack, por que você não come um cachorro quente? — perguntei, apontando para o carrinho. Seus olhos se iluminaram de emoção. — Papai, eu posso, por favor? — Humm... — Sinto muito, você é uma daquelas pessoas que detesta comer de um carrinho de cachorro quente? — eu ri. — Isso, e eu não morro de vontade que ele coma toda aquela coisa nojenta que vem dentro de um cachorro-quente. — Simon. Sério? Isso é como a proibição de Scooby-Doo. Ele soltou uma gargalhada. — Correção: Eu nunca disse que proibi Scooby-Doo, apenas nunca assistimos. — Papai, por favor, eu posso experimentar um cachorro quente? — Jack implorou. Eu mordi o lábio inferior, tentando esconder minha diversão sobre a turbulência que um pequeno cachorro quente estava causando em Simon. — Tudo bem. — Simon finalmente soltou. — Oba!— Jack exclamou, entregando a coleira e Macy para Simon, sem perder tempo para correr e pegar sua comida. — Sinto muito. — eu ri. — E em um esforço para não fazer parecer que você cedeu completamente, é por minha conta. — Bree... realmente não é...

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Ignorei seus protestos e caminhei até o carrinho de cachorro quente onde Jack estava esperando ansiosamente. — Me veja dois, por favor? — perguntei ao homem por trás do suporte. — Mas eu só quero um. — Jack falou. — Eu sei. O outro é para o seu pai. Ele sacudiu a cabeça freneticamente. — Ele não vai comer. Eu sorri. — Aposto que eu posso convencê-lo. Jack suspirou profundamente. — Você pode tentar, mas ele só come comida nojenta como vegetais. Coloquei um pouco de mostarda no cachorro-quente de Jack, do jeito que ele pediu e entreguei para ele. — Pronto? — perguntei. Ele deu uma mordida e sorriu antes de concordar. Simon estava com as mãos nos bolsos, Macy sentada ao seu lado. Ele balançou a cabeça e sorriu para Jack, que tinha mostarda por todo o rosto. Instintivamente, estendi a mão e acariciei sua bochecha com o guardanapo na minha mão. — Aqui está. — eu empurrei o cachorro quente debaixo do nariz de Simon. — Muito obrigado, mas eu não quero. — Simon? Mesmo? Eu comprei para você, e você está se recusando a comer agora? Meus sentimentos estão feridos. — eu brinquei. — Você come. — ele sugeriu. — Não, eu tenho uma aposta acontecendo com Jack que vou convencê-lo a comer. Seu sorriso se aprofundou. — Ok, mas com uma condição. Eu levantei uma sobrancelha. Mesmo que eu estivesse um pouco surpresa que ele tivesse se rendido tão rapidamente. — E qual seria essa condição?

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— Deixe-me fazer comida de verdade para o jantar, amanhã à noite? Fiquei sem palavras, sabendo como eu queria responder, e ao mesmo tempo bem ciente de como eu deveria responder. Mais uma vez, as palavras dentro do meu coração chegaram aos meus lábios antes de as que estavam dentro da minha cabeça. — Ok. Que horas você estava pensando?

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Capítulo 16 — Eu sinto muito, estou atrasada. — eu estava com medo até de olhar para Hannah quando me sentei na frente dela no café. —

Sem

problemas. Está

tudo

bem?

ela

perguntou,

aparentemente, achando esquisito o meu comportamento estranho. — Sim! Tudo bem, por que não estaria? — eu esperava que estivesse sendo convincente. Ela encolheu os ombros. — Você parece um pouco cheia de energia. — Não. Eu estou bem. Então, como está indo com o livro? — Eu estou no capítulo sete, e agora a heroína está concluindo que está apaixonada pelo herói. — Oh... parece que está começando a esquentar? Quando posso começar a lê-lo? — Bem, eu decidi que vou terminá-lo e deixar que você o leia todo, em vez de dar-lhe fragmentado. Então, talvez, você possa ajustar as cenas de amor. Eu ri da sua incapacidade de dizer a palavra sexo. — Ok, tudo bem, mas você pode me dizer do que se trata? Ela balançou a cabeça e sorriu. — É uma surpresa. Mas você poderia me fazer apenas um favor? — O que é? — perguntei. — Você pode escrever alguns parágrafos sobre como é estar apaixonada? Eu nunca estive, por isso é muito difícil para eu escrever. Olhei para a mesa e respirei fundo. — Oh, Hannah, eu acho que não seria de muita ajuda nesse departamento também. — Mas você disse que esteve apaixonada uma vez.

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— Isso foi há muito tempo. — minha voz falhou. — Bem, pense nisso. Se você puder pensar em algo, anote. Tenho certeza de que seja o que for, vai ser muito melhor do que o que posso fazer. — Ok, eu vou tentar. — eu respondi relutante. — Oh, e também... — ela fez uma pausa e levantou uma sobrancelha. — Vou mudar o nome do herói. Justo quando eu pensei que estava livre. — sério, Realmente, e por que isso? — Fingi ingenuidade. — Porque eu não posso escrever um romance em que o personagem principal é inspirado em um dos pais dos meus alunos. Eu balancei a cabeça e fingi confusão. — Oh, Bree, vamos lá! Eu posso ser uma freira. Posso não ter tanta experiência como você em certos departamentos, mas eu teria que ser uma completa idiota para não saber que o meu Simon é o seu Simon. — Meu Simon? — eu gritei. Ela vasculhou seu caderno, parando para ler uma página. — Empresário, corpo lindo, olhos verdes cristalinos, rosto perfeitamente esculpido, e uma covinha no queixo? E não é uma coincidência que o nome dele só acontece de ser Simon também? — Sim, agora que você disse, acho que é um pouco semelhante, mas o seu Simon não tem sotaque britânico. Ela balançou a cabeça e sorriu. — Bree, não há vergonha de ter uma queda pelo amigo do seu irmão. Um sorriso vitorioso enfeitou meu rosto. Ela realmente não tinha ideia da minha ligação com Simon; ela só pensava que eu estava tentando esconder alguma paixão secreta. Então, quem era eu para lhe dizer algo diferente? — Culpada. — dei de ombros, e entrei na jogada.

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— Você já falou para ele como você se sente? — O quê? Humm... não! Não há nenhuma razão para eu fazer uma coisa dessas. Nós não podemos ter um relacionamento de qualquer maneira. — Por que não? Meus olhos se arregalaram. Ela era realmente tão ingênua? — Ele deve ter a sua idade, é bonito, e posso acrescentar que faz um ótimo trabalho cuidando daquele garotinho sozinho. Eu assenti. — Eu estou ciente de tudo isso, mas você não esqueceu um fato importante? — Qual? — ela inclinou a cabeça confusa. — Eu sou paga para ter relações sexuais com os homens. — Shhh! — ela colocou o dedo indicador sobre os lábios, olhando freneticamente em volta para se certificar de que ninguém tinha me ouvido. — Relaxe, Hannah, essas pessoas estão muito absortas em seus próprios mundinhos para se preocuparem com o meu. Por mais que já triste ouvir isso, é a realidade. — Mas por que é que isso tem que ser uma realidade, Bree? Você é uma jovem inteligente, bonita. Você pode fazer muito com sua vida. Você não quer ter uma família algum dia? — Hannah, por favor. Eu não quero entrar nisso agora. — Mas... Eu levantei a mão para detê-la, não porque eu discordava dela, mas porque doía demais ouvi-la falar sobre a vida que eu estava ansiando mais e mais a cada dia que passava. — Olha, Hannah, eu poderia estar fazendo o mesmo que você. Por que você optou em se tornar uma freira, em vez de se apaixonar e ter

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filhos? Você, de todas as pessoas, devia entender que algumas coisas simplesmente não dão certo. — Mas, Bree, minha situação é diferente. — Como? Só porque você escolheu dedicar sua vida a Deus, e eu escolhi dedicar a minha a alguns dos homens mais ricos e poderosos da cidade. É a mesma diferença, ambas somos rotuladas como marginais, de qualquer ângulo que se analisar. Eu percebi que ela não concordava; ela via através da minha fachada durona. — Então, eu coloquei Sheila no lugar dela ontem. — eu tentei mudar de assunto desesperadamente. — Você foi ao abrigo ontem? — Sim. Eu precisava de alguma coisa para me animar. — Funcionou? Eu sorri ao lembrar do dia anterior, e ter ido ao abrigo era apenas parte da razão pela qual eu sorria. — Sim, funcionou de verdade. — meu sorriso desapareceu e meu estômago revirou quando voltei à realidade, lembrei sobre o convite louco que eu tinha aceitado para esta noite. — Qualquer coisa que você queira falar? Você sabe, qual a razão de você precisar se animar. Afastei os olhos dela, escolhi fitar o arredor, enquanto minha perna direita começou a saltar para cima e para baixo. — Era o aniversário do meu melhor amigo. Ela olhou para mim sem entender. — Ele faleceu, há cinco anos. — Oh, Bree, eu sinto muito. Eu balancei a cabeça, piscando as lágrimas, incapaz de falar qualquer outra coisa.

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— Sim, é um dia difícil todo ano. O aniversário dele... — fiz uma pausa. — E o aniversário de morte. — eu continuei. — É compreensível. Tomando uma respiração profunda, e refrescante, eu perguntei: — Então, você tem mais alguma... — eu me inclinei para a mesa para chegar mais perto dela e sussurrar — pergunta sobre S-E-X-O? Ela ainda ficou num tom claro de rosa. Soletrar a palavra não deteve muito o seu embaraço. — Humm... Acho que estou bem por hora. Ultimamente, cada vez que Hannah e eu nos encontrávamos, nós falávamos menos sobre o livro e mais sobre a vida. Eu nunca fui boa em expressar meus sentimentos, sempre os mantive engarrafados, mas desde que Hannah entrou em minha vida, eu estava trazendo lentamente esses sentimentos para a superfície. Era tudo tão estranho para mim. Fazia muito tempo que não me sentia confortável o suficiente para fazer isso com alguém. Éramos completamente opostas, mas, curiosamente, parecidas, em mais maneiras do que imaginávamos. Hannah não me julgava por meu jeito menina má, e eu não a julgava por ser boa menina, e talvez fosse assim uma amizade de verdade.

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Capítulo 17 Eu saí do táxi e fiquei boquiaberta com a muralha de pedra do Brooklyn que coincidia com o endereço que Simon tinha me dado. O táxi partiu no momento que eu estava pronta para ceder ao nervosismo e entrar nele novamente. O que eu estou fazendo? Isso é loucura! Respirando fundo, apertei a garrafa de vinho na mão e sussurrei: — É tudo ou nada. — meus joelhos tremiam conforme subia as escadas. O ar gelado queimava meus pulmões a cada respiração profunda que eu tomava na tentativa de acalmar os nervos. Uma vez que estava muito frio aqui fora, e eu não parava de questionar a decisão, estendi logo o dedo enluvado e toquei a campainha. Meu estômago entrou em erupção com borboletas enquanto esperava que a porta fosse aberta. Todas as minhas dúvidas se desvaneceram quando fui cumprimentada por aquele rosto bonito, pelo qual estava me afeiçoando tão rápido. Como era possível que ele tivesse esse efeito sobre mim? Sempre que eu estava com ele, esquecia quem eu era, ou quem deveria ser. Ele resgatou a garota que estava profundamente enterrado no meu subconsciente - a garota que eu sentia falta desesperadamente, embora eu nunca pudesse voltar a ser ela novamente. Eu não me odiava quando ela estava por perto, e ficava feliz, mesmo fugazmente, com o que poderia ter sido. — Timing perfeito. — ele abriu mais a porta, e eu entrei no foyer. Ele pegou o casaco e pendurou-o. Quando olhei em volta, ficou claro que nenhuma despesa foi poupada nesta casa, e eu só estava olhando para a sala de estar. — Vamos entrar. — ele fez um gesto e eu o segui, incapaz de resistir ao impulso de esfregar minha mão no belo corrimão de mogno. A cozinha era como eu esperava - o sonho do chef, parede com tijolinho à vista, bancada de mármore, e aparelhos de última geração.

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— Aqui está. — eu entreguei a garrafa de vinho e ele colocou sobre o balcão. — A comida está com um cheiro delicioso. — Obrigado. — ele me deu um sorriso carinhoso. Minha atenção foi rapidamente desviada de me perder na bela expressão do seu rosto com a chegada de Jack e Macy na cozinha. — Ei, Jack! — exclamei, me abaixando para acariciar a cabeça da Macy, enquanto sua cauda abanava incontrolavelmente. — Oi. — Jack sorriu timidamente, subindo em um banquinho e tomando um assento na ilha. — Sente-se, Bree. — Simon sugeriu, entregando-me o copo de vinho que ele tinha acabado de servir. — Obrigada. — peguei de sua mão e puxei um banquinho ao lado de Jack. — Então, como a Macy está indo? — perguntei ao Jack quando Simon virou-se, concentrado em algo no fogão. — Está bem. Ela comeu um dos sapatos do meu pai esta manhã. — Jack sorriu, tentando segurar o riso, mas não demorou muito para que nós dois ríssemos juntos. Simon se virou e balançou a cabeça com um pequeno sorriso. — Você não entra para o clube dos cachorros até que algo de valor for comido. — eu levantei uma sobrancelha e tomei um gole de vinho. — Eu quero levá-la para a escola para mostrar para os meus amigos amanhã, mas ele não deixa. — Jack lamentou. — Por que não? Hannah adora cães. Jack engasgou e cobriu a boca. — Irmã Hannah. — ele corrigiu. — Opa, desculpe. Irmã Hannah. — eu corrigi. — Você não está ajudando meu caso, sabe? — Simon reclamou. — Desculpe. — eu dei de ombros com um sorriso culpado.

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Depois de um jantar delicioso com frango a milanesa, alcachofras recheadas e massa primavera, nós fomos para a sala de estar, assistir televisão. As dúvidas que eu tive mais cedo tinham diminuído totalmente. Eu estava gostando de passar um tempo com Simon e Jack. Eu me sentia uma pessoa normal que não precisava deixar que a profissão a definisse. Simon levou Jack para o andar de cima e colocou-o na cama depois que ele adormeceu no sofá. Enquanto o esperava voltar, levantei-me do sofá e examinei as fotos que revestiam a parede. A maioria delas era de Jack em diferentes marcos da sua vida, mas o que me chamou a atenção foi o casal lindo, no dia do casamento – Simon, lindo como sempre, e sua esposa, que era simplesmente como esperado... absolutamente bela: olhos azuis impressionantes, cabelo louro e comprido, e um vestido de noiva que parecia ter sido modelado apenas para seu corpo. Era muito triste, pensar que Simon agora estava sem esposa e Jack nunca conheceria a mãe, por causa da tragédia. Virei-me e me controlei ao ouvir Simon descendo as escadas. — Dormiu rápido? — eu redirecionei meus pensamentos quando ele entrou na sala de estar. — Desmaiou. — Jack sempre foi fofo. — eu voltei minha atenção para as fotos. — Sim, sempre. — ele forçou um sorriso, e fiquei sem saber se eu deveria ter olhado a foto do casamento ou não. — Ela era linda, Simon. — eu decidi falar. Seu sorriso desapareceu. — Obrigado. — ele sussurrou. Um

silêncio

constrangedor

apareceu,

e

me

arrependi

imediatamente da minha decisão. — Obrigado por não ter medo de falar dela. — continuou ele, facilitando minha mente um pouco. — Todo mundo parece ter a sensação

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de que se não falamos a respeito, então nunca aconteceu. — ele deu alguns passos e aproximou-se da fotografia, pegou-a para examiná-la mais de perto. — Mas aconteceu. — sua voz falhou quando ele colocou-a de volta. — Sim, aconteceu, e isso é uma realidade que você tem que enfrentar todos os dias, gostando ou não, mas é também uma realidade que algumas pessoas não gostam de discutir, porque têm medo de causarlhe muita dor. Mas no fundo, você grita para liberar essa mesma agonia que eles estão tentando evitar. Ele estreitou os olhos e balançou a cabeça. A chama crepitante na lareira era o único som. — Como você sabe disso? Meu olhar caiu para o chão e eu sussurrei. — Apenas sei. — Quem era? Eu balancei a cabeça, ainda incapaz de olhar para ele. Ele se aproximou até que ficássemos apenas a centímetros de distância. — Quem era ele? — ele repetiu, inclinando meu queixo, forçando-me a olhar para ele. Havia algo tão reconfortante e cheio de alma em seus belos olhos, que me deu vontade de divulgar o mundo para ele. — Quem não era? — minha voz falhou. — Era meu melhor amigo, meu namorado, e a única pessoa que já me entendeu. — O que aconteceu com ele? Minha garganta inchou e meu estômago revirou. Eu não estava pronta para fazer isso. Cinco anos, e eu ainda não estava pronta. — Ele morreu. — E você está carregando a culpa por causa disso, da mesma forma que eu em relação à minha esposa. Por quê? — ele insistiu. — Eu-eu não quero...

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— Você sabia exatamente como eu estava me sentindo, então eu sei que você está se sentindo da mesma maneira. Eu sou a última pessoa que a julgaria. — Eu sei que não. Eu apenas não estou pronta para falar sobre isso. As pontas dos dedos dele acariciaram minha bochecha. — Talvez um dia. — ele sussurrou. Eu balancei a cabeça e fechei os olhos. Seus lábios quentes, macios encostaram-se à minha testa e eu o puxei, querendo senti-lo mais perto de mim. Precisando senti-lo mais perto. Nossos lábios se encontraram e nossas línguas se entrelaçaram. Minhas mãos tocaram febrilmente seu cabelo, e eu senti que não poderia obter o suficiente dele. Nós fomos para o chão, sem quebrar o nosso beijo. O calor proveniente da lareira não era páreo para a intensidade entre nós. Ele puxou minha blusa sobre a cabeça, e tirou meu sutiã, enquanto os lábios desciam pelo meu pescoço, encontrando o caminho para o meu seio. Fechei os olhos, perguntandome como algo que era tão errado, parecia tão certo. Ele desabotoou minha calça jeans, e eu soube que se tinha que parar, precisava ser agora. — Simon. — sussurrei. Minha resistência enfraqueceu quando ele levantou a cabeça e lançou um olhar forte sobre mim. — O que estamos fazendo? — Eu não sei. — ele sussurrou. Sentei-me, agarrei o sutiã e blusa do chão, e não perdi tempo em me vestir. A última coisa que queria era ter um lapso momentâneo da razão e voltar para os braços dele de novo. Ele se sentou ao meu lado e passou a mão pelo cabelo. — Sinto muito... eu acho. — Olha, Simon, eu me diverti muito hoje, mas eu nunca deveria ter concordado em vir aqui.

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— Por que não? — Porque você é meu cliente. — Ok, e eu socializo com meus clientes fora do trabalho o tempo todo. Eu não pude deixar de abrir um sorriso com o raciocínio dele. — Você e eu sabemos que os nossos clientes são muito diferentes. Ele olhava para frente e balançava a cabeça em frustração. — Bem, e se eu gostar de passar tempo com você fora do nosso relacionamento profissional? Eu não sabia como responder, porque a verdade é que eu gostava de passar tempo com ele também. — Simon, eu nunca fiz nada parecido antes, porque eu nunca... — Você nunca o quê, Bree? — Você esqueceu por que me contratou? Porque você não quer sentimento envolvido. — respondi para ele. — Não, Bree, porque eu achava que poderia ter esses sentimentos novamente, mas... — Não diga, Simon. Por favor, não. — Por quê? — ele balançou a cabeça. — Porque, então, seria tornar real, e, então você teria que enfrentar seus sentimentos por mim? Eu gosto muito de você, Bree, eu não vou mentir. — E eu também gosto de você, mas não é possível termos um relacionamento normal. Além disso, você merece alguém muito melhor do que eu. Ele balançou a cabeça. — Por que você é sempre tão dura consigo mesma? — Eu não sei, por que você acha? — eu levantei uma sobrancelha.

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— Então por que você trabalha nesse ramo se você se diminui tanto por causa disso? — Porque é tudo que eu sei fazer. — Oh, não me venha com essa besteira! — sua voz levantou. — Eu te dou um emprego agora, você vai trabalhar na minha empresa. Você sabe que há outras opções. Sempre há. Minha frustração foi ao auge. Eu estava cansada de sentir necessidade de justificar constantemente a minha escolha para ele e Hannah, quando ambos tinham me abordado por causa dessa escolha. Eu não precisava dos sermões deles. — Talvez pelo mesmo motivo que você procurou meus serviços - para nunca sentir emoções de novo. — eu me levantei e peguei a bolsa. — Você me encontrou, Simon! Eu não fui à sua procura. Eu sou quem eu sou, e eu sinto muito se você, ou qualquer outra pessoa, não consegue aceitar. Agora, você pode, por favor, pegar meu casaco? — minha voz falhou com a emoção. Ele soltou um suspiro de frustração antes de se levantar e caminhar até o armário para pegar meu casaco. — Bree, eu não estou te diminuindo. Eu só queria que você pudesse ver o que eu vejo em você. Peguei o casaco com ele e o coloquei sem dizer uma palavra. — Não vá assim. Você pode pelo menos me deixar chamar um táxi? — Está tudo bem, Simon. Estou bem. Você não fez nada de errado. Eu fiz. — O que você fez de errado? — Vir aqui esta noite. Conhecer mais do que eu deveria. Me forçar na sua vida e na vida do seu filho. — Bree, você não entrou forçada na minha vida. Eu convidei você para ela.

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— Mas não é apenas isso. Eu deveria ter pensado melhor antes de aceitar esse convite. Eu quebrei as regras. Ele balançou a cabeça confuso. — Que regras? — Minhas regras, Simon. Obrigada pelo jantar, foi muito gentil da sua parte. Vejo você na quinta-feira. Se alguma coisa mudar entre agora e depois, ligue para Margo. — Bree, por que diabos você está agindo dessa maneira? — Eu não estou agindo de forma alguma, Simon. Esta sou eu. O meu verdadeiro eu. Estendi a mão para a porta, mas ele agarrou meu pulso antes de eu abri-la e me puxou para ele. — Não é você, é apenas alguém que você usa para se esconder, porque não acredita na pessoa que você é lá no fundo. A verdade em suas palavras foi mais poderosa do que um tapa na cara, tão potente que tive que desviar o olhar, evitar de mostrar as minhas lágrimas para ele. — Eu tenho que ir. — minha voz falhou. Eu puxei meu pulso da sua mão e saí pela porta. Eu queria falar que ele estava certo. Eu queria dizer também sentia algo por ele. Mas, acima de tudo, eu queria que ele soubesse que eu desejava ser a garota que ele via quando olhava para mim, mas eu não sabia como.

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Capítulo 18 Eu me virei durante a semana, tentando desesperadamente tirar Simon da cabeça, mas quanto mais eu tentava, mais difícil era. Eu estava ressentida com meus outros clientes e mal me esforçava durante o tempo com eles, porque eu estava consumida com pensamentos dele. A cada minuto que passava, eu me via desejando ir direto para quinta-feira à tarde. Eu odiava a maneira que tinha deixado as coisas na outra noite. Eu precisava falar com ele, e em exatamente 24 horas eu teria a chance. Eu ainda não tinha certeza do que diria para ele, mas qualquer coisa era melhor do que o que foi dito na outra noite. Eu fui uma vadia tão sangue frio com ele. Ele não merecia aquele tratamento, especialmente, não de mim. Margo estava no modo superputa, desde que me recusei a acompanhar o senador Stevens no evento. Agora ela tinha me convocado para uma reunião, e eu só podia imaginar o que estava por vir. — Entre. — sua voz severa quando eu bati na porta do seu escritório. Respirando fundo, eu me preparei para o que estava para vir. Ela estava imersa em seus pensamentos, olhando para algo na tela do computador, mais uma vez com a melhor aparência, blusa crepe de poá preto-e-branco que era, sem dúvida, da Saint Laurent e, provavelmente, tinha custado mais do que o salário semanal de uma pessoa média. Seu cabelo loiro, que normalmente era penteado para trás em um rabo de cavalo chique, caía pouco acima dos ombros lustroso com nenhum fio fora do lugar. Sentei-me à sua frente, esperando que a concentração dela desviasse do que era fascinante na tela do computador. Fazer-me esperar era a sua maneira de me avisar que ela ainda tinha todo o poder.

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Ela respirou fundo e empurrou os óculos de tartaruga da moda até a ponte de seu nariz. —Você vai precisar de alguns ajustes de agenda. — ela finalmente falou. — Ok. Que tipo? — Por um lado, eu vou precisar que você pegue alguns clientes extras. E aqui vamos nós de novo! — Margo, nós tivemos essa conversa antes, e eu disse a você... Ela levantou a mão para me impedir. — Bree, todas as outras meninas estão inclinadas a ajudar, então por que você deveria ser diferente? Para não mencionar, que você é a única cujos clientes estão caindo como moscas. — Um cliente, Margo! Darren! — eu bufei. — Não, querida. Dois clientes. — Dois? — eu arqueei as sobrancelhas em confusão. — A partir de hoje, o Sr. Grace não requer os serviços da nossa agência. Meus olhos se arregalaram. Eu fiz o máximo que pude para não demonstrar a minha decepção para Margo com a notícia, mas eu sabia que estava falhando miseravelmente. Um enorme sentimento de satisfação tomou conta do rosto dela. Ela estava claramente sentindo prazer com a minha angústia sobre toda a situação. Limpei a garganta, tentando me controlar e agir como se não me incomodasse. — Ok, ele disse por quê? Foi alguma coisa... — Não. — ela me cortou. — Só que ele não precisa mais dos nossos serviços. Talvez ele tenha encontrado uma namorada. — ela levantou uma sobrancelha, esperando pela minha reação.

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Eu desviei o olhar, tentando imaginar minhas tardes de quinta-feira sem ele. — Então, eu vou precisar que você pegue o senador Stevens de Kylee. Eu tenho um novo banqueiro de Wall Street, muito poderoso, muito rico, e com aparência não muito ruim. — ela piscou. — Ele está interessado em olhar o que temos para oferecer, e eu vou sugerir você. Via seus lábios se movendo, mas eu não estava compreendendo coisa alguma que ela estava dizendo. Só conseguia pensar em Simon. Eu não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Mesmo que fosse para melhor, era tão difícil imaginar não vê-lo mais. — Olá? Terra para Bree. — Margo acenou com a mão na frente do meu rosto. — Oh, desculpe-me o quê? — Eu vou entrevistar uma nova garota na próxima terça-feira. Atriz com dificuldades. Ela é jovem, corpo bonito, lindo. Acho que ela seria um ajuste perfeito para a nossa agência. Ela está um pouco nervosa e tem um monte de perguntas, de modo que você se importaria de participar da entrevista para deixá-la mais à vontade? Outra vítima. Que amor! — Sim claro. Que horas? — 10h da manhã. Eu balancei a cabeça, peguei o meu telefone e anotei no calendário. — Já terminamos? — perguntei. — Eu não sei. Terminamos? — ela cerrou os lábios e estreitou os olhos. — Bem, não tenho mais nada para discutir. — Então eu acho que terminamos. Levantei e me perguntei se Margo sempre foi tão má, ou se eu estava notando só agora. Eu estava começando a não gostar dela, mais e

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mais a cada dia, e não tinha certeza quanto tempo mais eu conseguiria esconder o que eu estava sentindo. — Oh, e, Bree. — ela chamou quando eu estava alcançando a porta. — O senador Stevens tem outra noite de gala de angariação de fundos na sexta-feira à noite, e você vai acompanhá-lo. — ela zombou. — Tenha um dia maravilhoso. Minha antipatia por ela estava se tornando ódio puro. Eu esperei até sair para raciocinar sobre o que acabara de acontecer lá dentro e todas as novas demandas que ela estava colocando sobre mim. Mas nada disso parecia importar. A única coisa que importava era Simon. Outro adeus não dito. Eu estava com raiva dele por não me dar uma chance de explicar e ainda mais irritada por me sentir necessidade disso. Por um breve segundo, pensei em ligar para ele e perguntar a razão, mas depois pensei melhor. Fui eu que explicitei as regras para ele na outra noite de como tinha que ser, então não tinha o direito de ligar para ele e enviar sinais mistos. Fechei os olhos e respirei fundo, mordendo meu lábio até que o gosto metálico de sangue cobriu meu paladar. Foi melhor assim. Estávamos ficando próximos demais. Eu não era boa para ele. Simon tinha feito a coisa certa ao cancelar o nosso negócio. Eu que deveria ter feito primeiro, em vez de cruzar a linha mais e mais a cada vez que estávamos juntos. Sim, era o melhor. Para provar a mim mesma que eu estava falando sério, selecionei o número dele nos meus contatos, olhei para o nome uma última vez antes de excluí-lo do telefone – lembrandome de quem eu realmente era, e não a pessoa que ele me fazia sentir quando estava com ele. *** Depois que Margo mandou uma mensagem no início do dia para me dizer que o senador Stevens preferia vermelho, fiz questão de usar meu curto vestido azul-marinho rendado. Minha raiva com a situação toda cresceu durante a corrida de táxi para o hotel em que a festa ia

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acontecer. Eu ainda não entendia por que Kylee não ia, em vez de mim. Era o cliente dela. A razão era tão evidente: era a forma de Margo me mostrar que ela estava no controle. Dei um passo para fora do táxi, e olhei para o amontoado de pessoas em pé na frente do hotel, na esperança de que o senador Stevens fosse um deles, porque eu não tinha a menor ideia da aparência dele. — Bree? — uma voz chamou a distância e um homem de cabelos escuros, que parecia um pouco mais velho do que eu, me abordou. Eu fiquei um pouco surpresa, esperava que ele fosse muito mais velho, conservador, e muito menos bonito. Eu balancei a cabeça quando ele se aproximou. — Eu sou Mark Stevens. — ele estendeu a mão para mim, olhandome e lançando um sorriso malicioso. — Olá, é bom conhecê-lo. — apertei sua mão de volta. — Vamos? — ele me permitiu andar na frente dele quando entramos no hotel. Ele me ajudou a tirar o casaco e avaliou cada centímetro do meu corpo, como se eu estivesse em uma exposição. — Eu sinto como se tivesse acertado na loteria. Você é linda. — Obrigado. — sussurrei, sentindo-me um pouco desconfortável. Ele colocou o braço em volta da minha cintura quando entramos no salão elaborado cheio de todos os políticos rígidos e suas esposas conservadoras. — O que você quer beber? — perguntou. — Eu vou tomar uma taça de Chardonnay, por favor. Ele balançou a cabeça, deixando-me em pé sozinha, enquanto algumas das mulheres indiscretamente olhavam para mim, trocando cochichos umas com as outras. Eu ri para mim mesma, imaginando o que elas estavam dizendo. Eu não era estranha aos olhares e sussurros nas

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minhas costas; vinha com o trabalho. A maioria dessas mulheres tinha o dobro da minha idade, e se vestiam muito mais modestamente do que eu, porque a idade e corpo não permitiam que elas se vestissem de forma diferente, então eu ficava feliz por dar algo para falar aos seus traseiros. Peguei a mulher ruiva com o cabelo bufante de surpresa ao acenar e dar um sorriso, fazendo com que seu rosto combinasse com o cabelo, e ela desviou o olhar imediatamente. — Aqui está. — o senador Stevens me entregou uma taça de vinho. — Obrigada, senador. — Por favor, me chame de Mark. Não há necessidade de ser formal, Bree, especialmente quando estamos pensando em começar a nos conhecer muito melhor mais tarde. — ele sorriu, expondo seus dentes perfeitamente retos, e eu senti uma necessidade súbita de tomar um gole da minha bebida. Respirei fundo, tentando tirar todos os pensamentos de, mais tarde, da minha mente. Sua mão livre desceu pela minha cintura, apenas a alguns centímetros da minha bunda. Ele me guiou através da multidão, parando ao alcançar um grupo de homens que conversavam entre si, enquanto suas esposas estavam de braços cruzados fofocando umas com as outras. Todos os olhos estavam em mim, mais uma vez, os homens, satisfeitos com o que viam, e as mulheres, ameaçadas. O senador Stevens me apresentou aos seus colegas e o jogo começou. Minha história era: eu era uma velha amiga da cidade natal do senador que ele tinha acabado de se reencontrar. Eu decidi que seria professora de escola primária, quando um dos homens perguntou sobre a minha profissão, não tinha certeza se fui convincente e, realmente, não me importei se eu não fosse. A noite passou, e eu estava me encaixando um pouco melhor, até puxando conversa com as mulheres. Eu as ouvi reclamar dos filhos, das faxineiras, maridos... nada estava fora da lista para elas. Olhei em volta, e tive um vislumbre do senador Stevens tomando outro copo de uísque,

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esperava que ele desmaiasse até a hora de voltar para o quarto do hotel. Eu me encolhi só de pensar nisso. A cada bebida que ele consumia, mais ele me tocava, levantando as sobrancelhas para alguns dos seus colegas. — Ele vai ficar bem? — uma das mulheres perguntou quando a noite chegou ao fim. — Oh, sim. Eu tenho certeza que ele só vai dormir. — eu respondi, esperando que minhas palavras fossem verdade. — Morram de inveja, senhores. Esta senhora bonita é toda minha hoje à noite. — o senador Stevens me puxou para mais perto, com o objetivo de beijar minha bochecha, mas acertou meu ouvido no lugar. Meu rosto aqueceu com desconforto. — Você vai ficar bem? — um dos outros homens para quem fui apresentada no início da noite perguntou. Eu assenti. — Sim, está tudo bem. — eu peguei o casaco e fomos até o quarto de hotel, eu rezando o tempo todo para que ele caísse no sono antes de qualquer coisa pudesse acontecer entre nós. Não era culpa minha se ele desmaiasse antes que os serviços pudessem ser prestados. Assim que a porta se fechou atrás de nós, meu coração começou a bater mais rápido. Ele se sentou na cama e tirou a gravata, fazendo sinal para eu chegar mais perto. Meu estômago revirou. Era a primeira vez que eu desconfiava de um cliente. Havia algo debaixo da superfície do seu exterior polido que não combinava. Adicionada a embriaguez total à mistura não ajudava. Eu me aproximei cautelosamente, até que fiquei bem na frente dele. Ele olhou para mim com os olhos vidrados, colocou as mãos na minha bunda e me puxou para ele até me deitar ao lado dele na cama. O nó no meu estômago apertou quando ele pressionou sua testa na minha, a respiração cheirando a uma quantidade infinita de álcool que ele consumiu toda a noite.

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— Fico feliz em ver que você não é como aquela outra pequena provocadora de pau com quem eu estava desperdiçando meu tempo. Eu franzi as sobrancelhas. — O quê - quem? — minha voz era quase inaudível. — Qual a porra do nome dela? Kylee? — ele falou arrastado. — Eu falei para a velha bruxa da Margo que ela precisa ser demitida. Eu já estava paralisada de medo. Havia uma razão para que Kylee não tivesse dado certo com ele e Margo sabia, mas em vez de dispensar o cliente ela me enviou direto para a armadilha. — Eu não sei sobre o que você está falando. — murmurei. — Relaxe. — ele sussurrou, empurrando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. — Eu gosto das coisas um pouco ásperas, e aquela pequena cadela não pôde lidar com isso. Ela foi chorando reclamar para a velha. Mas você, você é diferente. Senti no momento em que saiu do táxi. Você gostar de ficar louca. Não é, baby? — prendendo meus braços sobre minha cabeça, ele rolou em cima de mim, forçando sua língua na minha garganta enquanto eu lutava para respirar. Empurrei a cabeça para o lado e ele agarrou meu queixo, forçandome a olhar para ele, soltando um dos meus braços no processo. — Não lute comigo, cadela! — ele exigiu. Levantei o braço livre, golpeei-o no lado do rosto. Infelizmente, não foi forte suficiente para nada, além de deixá-lo ainda mais irritado. — Sua putinha de merda! Você acha que pode me provocar a noite toda e depois, na hora de ganhar o seu dinheiro, sair fora. Você pensou errado. Eu torci e me virei, lutando para me libertar, fiquei atordoada por um breve segundo, quando a parte de trás da sua mão bateu no meu rosto.

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— Fique longe de mim! — gritei, levantando meu joelho, acertando o alvo pretendido perfeitamente. Levantei da cama enquanto ele tombava em agonia, tentando recuperar o fôlego por causa do golpe que eu tinha acabado de dar. A porta estava apenas a poucos passos de distância, mas parecia quilômetros. No momento que a maçaneta estava ao alcance fui puxada de volta, meu couro cabeludo gritando de dor quando ele puxou meu cabelo, virando-me e apertando os meus pulsos. — Sua putinha imunda! — ele me bateu contra a parede, prendendo meus braços. O suor escorria da sua testa enquanto ele movia seu rosto para mais perto do meu. — Eu sabia que você ia gostar de violência. Então, o que acha disso? — ele fechou a mão em punho e deu um golpe forte no meu rosto. Eu caí no chão, tentando afastar a dor que permeava a minha bochecha direita até o olho. Meu ombro estalou, e eu gritei em agonia quando ele me soltou no chão como uma boneca de pano. — Você deveria simplesmente ter feito como eu falei, em vez de tentar fazer gracinha. Aquela outra putinha com quem você trabalha não avisou? A sala estava girando, e a visão do meu olho direito estava se tornando turva. Minhas pernas estavam fracas e eu fiquei parada lá, em transe. — Olhe para mim! — gritou ele, agarrando meu queixo e virando a minha cabeça. Eu me recusava a ceder aos seus desejos. Eu sabia o que aconteceria, mas eu não ia desistir sem lutar. — Olhe para mim! — ele gritou de novo, e desta vez bateu do outro lado do meu rosto.

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— Por quê? Para afagar seu ego e fazer você pensar que eu realmente quero fazer sexo com você? — forcei as palavras através da minha dor. — Vá em frente e faça o que tem que fazer. Vai ser uma boa matéria para o jornal quando eu o denunciar à polícia amanhã. — Sua vagabunda burra. Em quem você acha que eles vão acreditar? Em um senador distinto, ou uma prostituta como você? Você não passa de uma prostituta glorificada. — Uma prostituta glorificada que você teve que pagar para ter relações sexuais porque ninguém mais quer. — eu respondi. — Qual é o problema, senador, você está tentando compensar algo batendo nas mulheres? Seu pau é muito pequeno? É por isso que você tem que pagar para fazer sexo? — Você não sabe quando fechar a porra da boca, não é, puta? — ele me atirou na cama. Com ambos os olhos inchados e quase fechados, eu ainda consegui pegar um vislumbre da minha bolsa ao meu lado. Alcancei-a e senti o spray de pimenta, encolhendo-me ao som do cinto da fivela de metal caindo no chão junto com as calças. Eu posicionei a lata na mão, esperando estar apontando na direção certa quando pressionei o dedo no gatilho. Eu soube que tinha conseguido quando ele gritou de dor. — Puta fodida! — ele se afastou imediatamente, e eu sabia que era a minha única chance. Eu corri em pura adrenalina, sem me importar com o desconforto que eu estava sentindo. Minha única missão era sair do quarto, enquanto ele estava temporariamente cego. Peguei a bolsa, corri pela porta e ele continuava a gritar obscenidades. Incapaz de ver dois metros à minha frente, por causa dos olhos inchados, corri para o corredor o mais rápido que pude, tentando desesperadamente encontrar o elevador ou a escada. — Solte-me! Solte-me! — gritei quando fui atacada por uma figura grande que parecia ser um homem.

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— Senhorita, você está bem? Senhorita! O zumbido nos meus ouvidos tornou-se ensurdecedor e um suor frio cobriu o meu corpo. Meus joelhos enfraquecidos finalmente cederam, me levando abaixo, fazendo-me cair no chão, e bater a cabeça para a escuridão total.

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Capítulo 19 O distintivo brilhante cegou-me ao abrir os olhos, da melhor maneira que pude. Minha cabeça latejava em uníssono com o sinal sonoro fraco das máquinas ao fundo. Onde eu estava, e porque todo o meu corpo doía? Eu tentei me sentar e o distintivo brilhante aproximou-se. — Ei, vá com calma.

— uma voz de mulher advertiu

suavemente. Quem era ela, e por que ela estava usando um distintivo no cinto? — Onde estou? — minha voz rouca estava quase irreconhecível. — Você está no hospital. Sou a detetive Lyons. — Detetive? — Sim. Você se lembra de algo da noite passada? A bile que queimava no fundo da minha garganta começou a aumentar à medida que as memórias correram para o primeiro plano na minha mente. — Está tudo bem. Eu só preciso ir para casa. — Não agora. Você não está bem. Você não tinha qualquer identificação com você. Pode me falar seu nome? — Bree. — eu sussurrei. — Ok, Bree, você tem um sobrenome? Eu balancei a cabeça, concentrando minha atenção no médico entrando no quarto. — Fico feliz em ver que você está acordada, mocinha. — ele apontou a lanterna para os meus olhos. — Como está se sentindo? — perguntou. — Dolorida. — Você foi muito maltratada. A enfermeira estará aqui em breve para ajudá-la a usar o banheiro.

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— Eu não preciso usar o banheiro. Eu só quero ir para casa. Você pode, por favor, tirar todas essas coisas de mim para que eu possa ir? — eu levantei o braço, olhando para o soro. — Nós gostaríamos de observá-la por mais algumas horas para nos certificarmos de que não há lesão na cabeça. — Não, realmente, eu estou bem. — eu protestei. — Bem, nós vamos precisar fazer um exame de estupro. — Eu não fui estuprada! — gritei. — Bree, como você sabe com certeza? — a detetive Lyons entrou na conversa. Sua voz era calma e suave. — Porque eu não fui. Eu acho que eu saberia disso. Eu não permitiria que isso acontecesse. Por que você acha que estou com essa aparência? — Bree, quem fez isso com você? — perguntou a detetive Lyon. Eu balancei a cabeça, recusando-me a

divulgar qualquer

informação. Por mais que eu desprezasse o senador Stevens e quisesse que ele pagasse pelo que ele fez, eu sabia que a mídia teria um dia de campo, colocando meu rosto e profissão em todos os noticiários, o que só desagradaria mais a minha família. — Bree, porque você está protegendo essa pessoa? Ela podia ter te matado. — Eu não estou protegendo ninguém. Eu só quero esquecer que isso aconteceu. Por favor. Eu quero ir para casa. — Se eu permitir que você saia agora, alguém precisa buscá-la e ser responsável por você. Eu não vou liberá-la por conta própria. Você está sob o efeito de algumas medicações muito pesadas. — o médico avisou. Eu fechei os olhos. Cada centímetro do meu corpo doía, mas não doía tanto quanto o meu coração. Eu era realmente sozinha.

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— Tem alguém que posso chamar para você? — perguntou o médico, lembrando-me da verdade mais uma vez. Não, não há. Eu estou sozinha, porque eu escolhi um trabalho que me alienou de tudo de importante na minha vida e me aterrou onde estou agora. Eu balancei a cabeça, olhando para frente, tentando concentrar-me através das pequenas fendas dos meus olhos inchados. — Meu telefone está na minha bolsa. Você pode, por favor, encontrar Hannah em meus contatos? Chamá-la e pedir para vir me pegar. — eu odiava colocar esse fardo sobre ela, mas eu estava sem opções e precisava sair do hospital. — Muito bem, eu vou pedir para a enfermeira cuidar disso, mas eu preciso te passar algumas instruções da medicação antes de você sair. Você tem um ombro deslocado que vai levar um tempo para curar. Vai precisar de cuidados. Vou enviar-lhe para casa com uma tipoia para evitar mais prejuízos. Certifique-se de usá-la, e não levantar qualquer coisa. — Entendi. — eu tinha esperança de que se parecesse cooperar, minha liberação fosse muito mais suave. — Ok, eu vou providencias os documentos da alta, desde que você tenha alguém responsável por você. Eu balancei a cabeça, esperando que Hannah viesse. — Eu vou deixar isso com você, Bree. Se você mudar de ideia, por favor, não hesite em me chamar. — disse a detetive Lyons, colocando seu cartão de visita sobre a mesa ao lado. — Claro. — minha voz falhou, lutando contra a sonolência que estava me dominando. — Eu vou deixar você descansar um pouco. Por favor, certifique-se de se cuidar.

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Eu balancei a cabeça, fechando os olhos e cedendo à minha exaustão. *** — Bree, oh meu Deus, o que aconteceu com você? — a voz de Hannah falhou com emoção quando eu acordei com ela sentada ao meu lado. — Eu sinto muito por incomodá-la com isso, Hannah, mas eles não me liberariam, a menos que eu tivesse alguém para me levar para casa. — Não é incômodo nenhum, Bree. Quem fez isso com você? — ela perguntou de novo à beira das lágrimas. Eu balancei a cabeça. — Eu não quero falar sobre isso. Eu só quero ir para casa. Sua mão macia e quente cobriu a minha, apertando-a suavemente, oferecendo seu apoio silencioso e sem me pressionar ainda mais por uma resposta. — Então, eu vejo que a cavalaria chegou para levá-la para casa. — a enfermeira anunciou quando ao entrar no quarto e parar ao lado da minha cama. — Segure sua respiração e conte até três. Segui sua diretiva, e ofeguei quando ela arrancou a fita que estava cobrindo o soro no meu braço. Ela removeu cuidadosamente todos os meus fios e me ajudou a me vestir. Apenas esse movimento pequeno e causou uma dor excruciante. — Você tem um casaco? — perguntou ela, enquanto eu estava sentada lá com o vestido sem mangas que eu tinha usado na noite anterior. — Não, eu... — eu balancei a cabeça, certa de que havia deixado no quarto do hotel. — Ela pode usar o meu. — Hannah ofereceu.

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— Ok, aqui estão seus documentos de alta e as instruções para os medicamentos. — a enfermeira explicou. — Você vai ficar aérea durante as próximas vinte e quatro horas. Colocamos umas coisas muito fortes no seu soro. Só ter calma, dormir o máximo que puder, e não dirigir. — ela me instruiu. — E a minha conta? Eu não tenho seguro. — pânico entrou em erupção, apenas por imaginar quanto custaria essa visita ao hospital. — Tudo bem. Alguém do hospital entrará em contato com você para fazer os arranjos. Não é para você se preocupar agora. Você só precisa se concentrar em ficar melhor. — Ok. Obrigada. — Não me agradeça, é o meu trabalho. Só me prometa que nunca mais vai deixar alguém fazer isso com você novamente. Eu balancei a cabeça, lutando contra as lágrimas. Meus joelhos se dobraram e o quarto girou quando Hannah me tirou da cama para uma posição ereta. Eu agarrei o braço dela, respirando fundo, tentando encontrar equilíbrio e mantê-lo. — Ok, minha querida, suba a bordo. As regras do hospital dizem que eu tenho que levá-la para fora nisso. — a enfermeira instruiu, colocando uma cadeira de rodas ao meu lado. Eu não lutaria contra isso. Do jeito que eu estava me sentindo, eu não conseguiria sair de qualquer outro jeito. Hannah envolveu seu casaco ao redor dos meus ombros e saímos. Tudo era um borrão, e não porque meus olhos estavam fechados, basicamente, inchados, mas porque eu estava em uma névoa mental. Eu mantive minha cabeça baixa o tempo todo, bastante certa de que meu rosto estava muito machucado. Eu já estava envergonhada o suficiente; a última coisa que eu queria era chamar a atenção de um transeunte aleatório na saída.

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Um vento cruel e acolhedor nos atingiu quando saímos do hospital. Eu apertei mais o casaco de Hannah ao meu redor, sentindo instantaneamente o nevoeiro no cérebro esvanecer, conforme eu inalava profundamente o ar frio intenso. A enfermeira esperou ao meu lado até Hannah conseguir parar um táxi, e, em seguida, ambas me ajudaram a levantar, e me colocaram no banco de trás. Eu odiava me sentir tão impotente. Eu nunca quis depender de ninguém, e até então, eu nunca precisei. Hannah entrou no outro lado e sentou ao meu lado. — Qual é o seu endereço? — ela perguntou. Eu reconheci o quanto estava debilitada, quando precisei de um momento para encontrar essa informação básica. Eu recitei o nosso destino para o motorista e nós fomos. Cada solavanco enviava uma onda de dor pelo meu corpo. Fechei os olhos, tentando passar por isso e não parecer como a pequena vítima fraca que eu tinha me tornado subitamente. Eu dei a minha chave para a Hannah ao chegarmos ao meu apartamento. Os segundos que levaram para abrir a porta pareceram como horas. Eu só queria deitar na minha própria cama e dormir até que todo o pesadelo acabasse. Alívio tomou conta de mim quando a porta se abriu e eu, finalmente, entrei. Eu estava em casa. Eu não tinha certeza de quanto tempo esse lugar ainda seria a minha casa, jamais poderia pagá-la sem o meu trabalho atual, mas para o momento, eu não ia me preocupar com isso. A única coisa em minha mente era um banho quente e demorado, e minha cama macia. Hannah caminhou até a janela, abriu as cortinas, permitindo que o sol da manhã entrasse. Curiosamente, a luz acolhedora de um novo dia ajudou a levantar meu espírito ligeiramente. — Eu sinto muito tê-la incomodado com isso. — eu virei para ela, muito grata por sua amizade ou o que fosse que nós duas tínhamos construído.

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— Bree, não precisa me agradecer. Estou feliz por poder ajudá-la. É isso que os amigos fazem uns pelos outros. Eles estão lá para os melhores e piores momentos. Saboreando os momentos felizes e ajudando nos maus. Suas palavras ressoaram profundamente dentro de meu coração. Eu não tinha um amigo verdadeiro desde Nathan. Quando eu o perdi, eu me fechei para o resto do mundo, e não esperava ter esse vínculo com outra pessoa novamente, mas agora eu tinha. Hannah e eu éramos uma dupla improvável, mas éramos amigas. Era uma palavra que eu não falava por acaso, e que eu valorizava mais do que qualquer quantia de dinheiro no mundo. Hannah estava aqui para mim agora, quando não havia mais ninguém, e não com um senso de dever, mas porque ela realmente se importava. As lágrimas que eu estava segurando, desde o hospital e durante a volta para casa de táxi, derramaram dos meus olhos e pelo meu rosto. Mas não eram de auto piedade. Eram de gratidão. Grata por escapar da confusão da noite passada com apenas alguns inchaços e contusões. Mesmo que levassem um tempo para curar, eu sabia que, eventualmente, curariam. Mas acima de tudo, eu estava grata à mulher que pouco tempo atrás era uma estranha, e agora a amiga mais compassiva e genuína que eu poderia pedir - justamente quando eu mais precisava.

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Capítulo 20 Fazia pouco mais de vinte e quatro horas que tinha sido liberada do hospital, e eu ainda não estava me sentindo melhor. Na verdade, me sentia pior. O médico tinha me avisado que isso aconteceria, então fiz o melhor para passar por isso de alguma maneira. Toda vez que repassava os acontecimentos da noite na minha cabeça, ficava mais irritada irritada com o senador Stevens, comigo, e com a Margo. Ela armou para mim totalmente, sabia exatamente porque Kylee recusou-se a trabalhar com ele, enviou-me para a emboscada no lugar. Não havia nenhuma dúvida na minha mente agora que eu a desprezava completamente. Hannah foi uma dádiva de Deus para mim. Ela passou o dia inteiro comigo quando voltei para casa, garantindo que eu ficaria bem, e estava, atualmente, voltando para passar a tarde de domingo. Mesmo que ela tivesse insistido, eu me sentia um incômodo, e odiava isso. Olhei para o meu telefone, ignorando a ligação semanal do companheiro do meu irmão, Trey. Por mais que eu quisesse notícias da minha família, eu não estava com vontade de falar no momento, temia que ele sentisse o desânimo na minha voz. Não que isso fizesse alguma diferença, Trey seria a única pessoa que se importaria se alguém descobrisse o que aconteceu. Meu pai e irmão, provavelmente, concordariam que eu sabia que isso aconteceria. Fiquei feliz quando a chamada finalmente foi para o correio de voz, cessando qualquer tentação que pudesse ter de atender. Eu manquei até a porta para abrir para a Hannah. — Como está se sentindo? — ela cumprimenta, com um sorriso no rosto e um buquê de flores na mão. — Estou chegando lá. — abro mais a porta e a deixo entrar.

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— Espero que elas levantem seu espírito. — ela sugeriu, olhando para as flores. — Oh, Hannah, são absolutamente lindas. — os lírios doces perfumados se destacam do resto das flores. — Você não precisava fazer isso. Eu me arrastei para a cozinha e fui repreendida por Hannah quando estendi o braço na direção do armário para pegar um vaso. Ela me mandou para longe o pegou com facilidade, enchendo-o com água e organizando as flores para mim. — Onde você as quer? — perguntou ela depois que as ajeitou. Olhei em volta, tentando encontrar um local. — Que tal aqui? — eu apontei para a mesa de centro. — Perfeito. — ela sorriu, colocando-as na mesa. — Então, você trouxe o material do livro com você? — perguntei. — Oh não, eu não achei que você estivesse com humor para isso hoje. Dei de ombros, realmente desejando que ela tivesse trazido. Eu precisava escapar para um mundo fictício por um tempo para esquecer a minha realidade terrível. — Bem, então que tal um filme? — sugeri. — Ótimo, eu adoro filmes românticos. — Hannah sorriu. — Legal! — liguei no Netflix e nós procuramos pelos filmes, e finalmente decidimos por O casamento dos meus sonhos. — Pipoca? — perguntei. — Ah, claro. Apenas me diga onde está... — ela começou a se levantar, e eu a parei. — Eu posso fazer para nós. — Bree, o médico disse que você precisa ir com calma.

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— Hannah, se eu for com mais calma, vou morrer. Na verdade, me sinto melhor quando eu me levanto e me movo. Ela soltou um suspiro relutante, mas não discutiu, permitiu-me ir para a cozinha para preparar a pipoca. Quando o micro-ondas apitou, eu coloquei a pipoca para uma tigela, servi algumas bebidas, e coloquei tudo em uma bandeja. — Bree! — Hannah exclamou, saltando do sofá e tomando a bandeja das minhas mãos quando entrei na sala de estar. — O médico disse sem levantar peso! — Relaxe, eu acho que posso lidar com uma bandeja de 1Kg. — eu não pude deixar de rir com o tanto que uma bandeja a alarmou. Eu me joguei no sofá, tentando esconder que a minha tarefa um pouco rápida na cozinha havia me cansado. — Viu, eu disse! Você está fazendo demais! — Hannah me repreendeu, obviamente, percebendo a minha falta de ar. Começamos o filme, e pelos próximos noventa minutos, ou mais, fomos transportadas para o próprio mundinho feliz de um romance perfeito e um final feliz. Se a vida real fosse assim. — Eu costumava achar Matthew McConaughey tão sexy. — Hannah suspirou. Meus olhos inchados se arregalaram da melhor forma que podiam. Suas palavras tinham provocaram uma risada profunda, turbulenta dentro de mim, que fui incapaz de segurar. — O que é tão engraçado? — ela franziu as sobrancelhas. Eu balancei a cabeça, tentando diminuir o riso sem muito sucesso. — É tão estranho ouvir você dizer que alguém é sexy. — Só porque eu sou freira não significa que eu sou cega. — ela bateu os cílios e mordeu o lábio inferior, incapaz de conter o riso.

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Era tão estranho para mim. Lá estava eu, assistindo a comédias românticas e discutindo caras quentes. Eu tinha perdido aquela parte da vida quando era adolescente, e começava a experimentá-la com Hannah e era realmente divertido. Olhei para a mulher sentada ao meu lado, o meu oposto, ainda assim parecida. Foi então que me dei conta: ela tinha me ouvido chafurdar na auto piedade sobre a minha família, mas eu não sabia nada sobre a dela. — Você tem família por aqui? — perguntei. — Eu acho que tenho família quase em todos os lugares. — ela riu. — Eu venho de uma família irlandesa católica, mais fácil será dizer que eu tenho uma família bastante numerosa. Eu sou uma de sete. — Uau!— meus olhos se arregalaram. — Mas, deve ser bom... ter todos esses irmãos e irmãs. Ela encolheu os ombros, e seu sorriso desapareceu. — Eu não sou realmente próxima de qualquer um deles. — Mesmo? Ela balançou a cabeça. — Eu sou a número seis dos sete. No momento em que minha mãe me teve, ela estava cansada. Quando o meu irmão mais novo veio, um ano depois de mim, ela estava completamente acabada. Há uma grande diferença de idade entre mim e meu irmão mais velho e a segunda mais velha, então eu nunca fui próxima de qualquer um deles. Um moram em Nova Iorque e o outro na Flórida. Em seguida, vem a terceira, minha irmã Jana. Ela está no marido número quatro, e a última vez que nos falamos eu acho que ela estava pronta para despejá-lo e passar para o número cinco. Eu cobri a boca em choque. — Uau, ela é uma verdadeira Elizabeth Taylor. — Com certeza. — ela balançou a cabeça e sorriu. — Meu irmão Patrick é o próximo. Ele é normal, na maior parte. É um policial, casado,

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três filhos, e uma esposa que não gosta dele. — ela suspirou. — Depois minha irmã Bridgette, ela é pediatra. — Ah, então você tem uma médica na família? Que legal. — Hmm... eu acho. — ela não pareceu impressionada. — Você mencionou que tem um irmão mais novo. Qual é o problema dele? Seu rosto empalideceu. — Brendan. — ela sussurrou. — Ele é, ele está na cadeia. — ela virou a cabeça e encontrou meu olhar com dor atravessando seus olhos. — Oh. — eu tentei o possível para parecer inalterada. Eu era a última a julgar alguém por seus erros. — O que ele fez? Se você não se importa que eu pergunte. — Drogas, depois roubo para comprar mais drogas. — Sinto muito, Hannah. — Bem, ele está melhor lá do que nas ruas. Rezo todos os dias para ele se regenerar e sair antes que os melhores anos de sua vida passem por ele. — E os seus pais? Eles ainda estão vivos? — Sim. Eles moram em Connecticut. De onde eu sou. Minha mãe bebe um pouco de vinho demais, e meu pai, ele bebe um pouco demais de todo o resto. Sempre bebeu, e minha mãe só ignorou, permitia que ele desaparecesse por dias e ele sumia, fazendo Deus sabe o quê. Às vezes, quando ele chegava em casa bêbado, ele ficava com raiva de nós pelas coisas mais estúpidas e nos batia. Isso não parecia incomodar minha mãe de qualquer forma. Tudo o que importava era que levasse para casa um cheque de pagamento toda semana. — ela balançou a cabeça. — É difícil acreditar que eles farão quarenta anos de casados em junho.

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— Bem, certamente eles tiveram uma grande variedade de crianças. — eu levantei uma sobrancelha, nenhuma de nós capaz de segurar os nossos sorrisos. — Sim, eles tiveram. Acho que é por isso que eu admirava tanto as freiras na escola. Eram mais como mães para mim do que a minha. Eu procurava refúgio da bebida do meu pai e das brigas constantes dos meus pais, ajudando no convento, jantando com elas quase todas as noites, enquanto elas me ajudavam com o dever de casa, eu fazia qualquer coisa apenas para evitar ir para casa. A parte triste era que meus pais nem sequer percebiam que eu ficava fora metade do tempo. Sua infância foi muito diferente da minha, mas, ao mesmo tempo, similar. Eu não tinha todos esses irmãos e irmãs, meu pai não bebia excessivamente, ele nunca colocou a mão em mim, mas ele gostava de fingir que eu não existia, e às vezes isso é pior para uma criança do que ser abusada. Hannah estava à procura de uma saída de uma infância ruim e a achou ao se tornar freira. Eu encontrei a minha de uma forma muito menos desejável. — Sinto muito, Hannah. — eu murmurei. — Eu não sinto. — ela afirmou e sorriu. — Isso me fez quem eu sou hoje. Eu não poderia estar mais feliz com essa pessoa que eu vejo quando olho no espelho. Eu balancei a cabeça, chegando à conclusão de que, apesar do que a nossa infância nos causou, buscamos consolo de formas diferentes, Hannah estava em paz com escolha dela, enquanto eu estava finalmente percebendo que nunca encontraria satisfação com a minha.

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Capítulo 21 Meu telefone explodiu durante toda a manhã com mensagens de texto e mensagens de voz de Margo, que eu me recusei a responder. Eu tinha certeza que era para me chamar a atenção por não ter ido ao compromisso matinal com meu cliente. Terminei com ela e com seu negócio, mas eu estava muito irritada no momento para falar com ela e avisar. Depois de passar o dia anterior com Hannah e ver como ela tinha tirado o máximo proveito de seus limões, eu estava pronta para fazer o mesmo com os meus. Eu tinha um pouco de dinheiro para ajudar enquanto a passar pelo período em que descobriria o próximo capítulo da minha vida; simplesmente não tinha certeza de por onde começar. Esfreguei a lateral do meu pescoço e tomei um último gole do café. Eu ainda estava me sentindo mal, mas quanto mais eu ficasse sentindo pena de mim mesma, mais a minha raiva sobre toda a situação, aumentaria. Eu me levantei e corri para a cozinha, coloquei a xícara de café vazia na pia e tentei encontrar coragem para entrar no banheiro e finalmente me olhar no espelho. — Você tem que chupar o azedume dos limões da vida antes de sequer pensar em fazer limonada. — eu sussurrei, me oferecendo motivação. Canalizando minha força, entrei no banheiro. Eu estava evitando meu reflexo desde que cheguei em casa, mas eu sabia que eu tinha que enfrentar para encontrar o empoderamento para seguir em frente. Eu acendi a luz e respirei fundo, abri os olhos para a garota olhando para mim - uma garota que eu nem reconheci. Uma garota que não achava possível odiar mais, mas, ao ver os círculos negros e azuis ao redor dos olhos e as manchas roxas que adornavam minha bochecha, eu me desprezei ainda mais. Como eu permiti que isso acontecesse? Eu realmente me odiava tanto que realmente acreditava que merecia isso? Eu me encolhi ao tocar o lado do meu rosto, me perguntando o quão ruim eu

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estava alguns dias antes, se estava assim, quase dois dias depois. Meus olhos queimaram com lágrimas, mas recusei-me a deixá-las fluir. Eu não sentiria mais pena de mim. Estava cheia das desculpas. Fui eu que me coloquei na situação em que estava no momento, e era a única que podia me livrar disso. Hannah tinha me incomodado de falar com a detetive sobre o que aconteceu. Ela afirmou que seria parte do processo de cura, e talvez ela estivesse certa. Eu sabia que isso lançaria um foco indesejável sobre mim, mas

eu

realmente

queria

que

isso

acontecesse

com

mais

alguém? Pressionei a testa contra o vidro frio do espelho, ponderando se eu estava pronta para dar esse passo drástico, quando me surpreendi com uma batida na porta. Meu coração quase saiu do meu peito e um suor frio envolveu meu corpo instantaneamente. Eu pensei imediatamente no pior. Ninguém vinha me visitar. Então, quem poderia estar do outro lado daquela porta? Era Margo - ou pior ainda, senador Stevens, certificandose de que não tivesse a chance de decidir se falaria com a polícia? Meu estômago estava em nós enquanto saí do banheiro, tentando ser o mais silenciosa possível, paralisada pelo medo quando começaram a bater novamente. Controle-se. Talvez seja só o Manuel, o homem de manutenção. Eu reclamei da água quente na semana anterior; talvez ele tivesse finalmente vindo verificar. Usei essa teoria para me permitir dar os próximos passos até chegar à porta. Meu corpo inteiro tremia, mas finalmente consegui encontrar a coragem de colocar os olhos no olho mágico. As lágrimas que eu estava segurando no banheiro começaram a escorrer pelo meu rosto. Sem hesitar, eu abri a porta, feliz de me encontrar olhando para o Quinta-feira, por encarar os olhos de esmeralda numa segunda de manhã. — Bree? — sua voz era uma mistura, tanto preocupação quanto raiva.

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— Como você sabia onde... — eu murmurei e repousei a cabeça no batente da porta. — Quando eu deixei Jack na escola hoje, a irmã Hannah me contou o que aconteceu. Droga, Hannah! — Não fique com raiva dela, Bree. — obviamente meus pensamentos estavam escritos na minha expressão. — Ela acha que eu sou um bom amigo

de

seu irmão. Lembra?

ele levantou

uma

sobrancelha. — Ela achou que alguém para conversar pudesse ser bom. — Estou bem. Você não precisava vir aqui. — Eu sei que não precisava, mas talvez eu quisesse. — Por quê? Para me dizer: eu não falei? — Não. Não era essa a minha intenção. — ele balançou a cabeça e olhou para o chão. — Olha, posso entrar para conversar, em vez de fazer isso no corredor? Abri mais a porta e ele entrou. — Me desculpe a bagunça do apartamento, a minha bagunça. — ao fechar a porta atrás de nós, eu o levei ao sofá. — Você não está uma bagunça, Bree. — Mesmo? Porque eu acabei de me olhar no espelho, e foi uma visão muito horrível. Ele me estudou pensativo. Eu percebi que ele estava escolhendo as palavras com cuidado. — Ele... — Não. — eu balancei a cabeça vigorosamente antes que ele pudesse dizer aquela palavra feia. — Eu preferiria morrer antes de deixar isso acontecer. — eu olhei para o espaço, respirando fundo. — Olha, eu sei o que poderia ter acontecido, e eu sei o quanto tenho sorte de ter escapado

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em uma única peça. Não achava que seria possível eu pensar tão pouco de mim, até agora. Os olhos dele suavizaram. — Não foi culpa sua. — É claro que foi minha culpa, Simon. Eu ganhava a vida fazendo sexo com homens. Toda vez que eu fechava a porta do quarto do hotel, sabia que havia uma chance de ser estuprada ou morta. Eu não sou melhor do que as prostitutas nos becos das ruas. Eu fui ingênua em achar que os homens com quem eu lidava seriam cavalheiros apenas porque eles eram bem-sucedidos e ricos. Estou mais esperta agora. Simplesmente odeio sentir-me indefesa. Eu odeio olhar para mim mesma, e saber que eu permiti que aquele bastardo fizesse isso comigo. — eu engasguei um soluço. Ele se aproximou, tirando suavemente meu cabelo do meu rosto. — Então não deixe ele sair disso ileso, Bree. Eu assenti. — Sim, não tenho certeza se estou pronta para lidar com tudo isso ainda. Além disso, quem vai acreditar? A garota que ganha a vida se vendendo por sexo ou em um senador distinto? — Apenas um olhar para você e eu acho que fica bastante óbvio. — Sim, mas tenho certeza de que ele tem alguns advogados que vão se apressar para defendê-lo e me derrubar no processo. Simplesmente não sei se estou pronta para me expor assim. — Bree, o que ele fez com você foi errado. Ele não pode escapar assim, apenas porque ele é alguém de importância no mundo político. A próxima garota com quem ele ficar pode não ter tanta sorte quanto você. Eu assenti com a cabeça, sabendo que ele estava certo, mas sem coragem ou energia para fazer nada sobre isso no momento. — Eu só preciso de tempo para processar tudo. — É compreensível.

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Pisquei as lágrimas e concentrei-me em seu queixo forte e lábios vermelhos beijáveis. Por que ele tem que ser tão lindo? — Eu pensei que nunca mais te veria. — Sim, acho que me senti um pouco hipócrita por criticar o seu trabalho, enquanto continuava a apoiá-lo. — Bem, agora eu sei que você estava certo. Seus olhos se arregalaram. — Eu não quero mais fazer isso. Eu quero uma vida normal. Eu quero amigos. Eu quero minha família de volta. Eu me quero de volta. Eu simplesmente não sei como. — um soluço alto escapou da minha garganta, e chorei ainda mais quando ele se aproximou e envolveu seus braços ao meu redor. — Vai dar tudo certo, Bree. Você só não pode desistir de si mesma. — ele beijou minha testa e o puro contentamento me dominou. Descansei a cabeça em seu ombro, absorvendo a calma por mais alguns instantes. — Posso te perguntar uma coisa? — levantei a cabeça e olhei para ele. — Por que você veio aqui hoje? Quero dizer, por que você se preocupa com o que acontece comigo? Soltando um suspiro relutante, ele pareceu um pouco inseguro em responder. — Eu não sei. Talvez porque vejo a pessoa que você é, aí no fundo. A pessoa que você se recusa a ver em si mesma. — Bem, seja lá o que for, obrigada. — eu sussurrei. — Sempre a sua disposição. — ele sorriu e suas covinhas se aprofundaram, fazendo-me sorrir de volta. — Venha trabalhar para mim. — ele falou do nada. — O quê? — eu ergui as sobrancelhas confusa. — Você vai precisar de um emprego, e eu estou lhe oferecendo um.

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— Fico muito grata por essa oferta, mas eu realmente preciso fazer isso sozinha. Além disso, não sei se estou preparada para trabalhar no escritório o dia todo. — Eu não disse trabalhar na minha empresa. — Umm... então, que tipo de trabalho você está sugerindo? — ele estava falando sério? Ele soltou uma risada alegre, mas não eu não vi muito humor nisso. — Sério, Simon? Você tem a audácia de me oferecer um emprego como garota pessoal depois que eu acabei de falar que não vou mais fazer isso! — minha pressão sanguínea aumentou quando sua risada se transformou em uma gargalhada. — Apenas vá! — eu gritei. — Bree. — ele tentou falar no meio da risada. — Eu não estava propondo nada desse tipo. — Bem, então... o quê? — minha agitação estava aumentando. O resto de um sorriso ainda ficou no seu rosto enquanto ele tentava recuperar a compostura. — Eu preciso contratar alguém para cuidar de Jack, tipo, pegá-lo depois da escola e ficar com ele até eu chegar em casa do trabalho e, ocasionalmente, passar a noite durante uma viagem de negócios. — Espera... Você quer a mim? — pressionei palma da mão no peito. — Você quer que eu seja a babá de Jack? Ele assentiu. Então fui eu que não consegui parar de rir. — Por que é tão engraçado? — ele perguntou. — Simon, sinto-me honrada que você confie em mim com sua posse mais preciosa, mas com toda a honestidade, não acho que sou uma candidata realmente boa para o trabalho. — Bem, por que você não deixa Jack e eu sermos os juízes disso. — Você está falando sério, não é?

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— Eu estou. — ele assentiu. — A mulher que cuidava de Jack nos últimos anos saiu há cerca de um mês para ficar com os netos. Eu tenho alguns meses ocupados à frente com o trabalho, e, realmente, uma ajuda extra com Jack seria útil, e você simplesmente precisa de um emprego. Não é tão difícil de entender. Era um pensamento ridículo, mas eu precisava de um emprego, e não era muito qualificada. Mas cuidar de uma criança era uma responsabilidade grande. E se eu fizesse algo errado? Simon nunca me perdoaria. Mas, ao mesmo tempo, eu precisava começar a ter confiança em mim mesma se quisesse arrumar a minha vida. Jack era um fofo, e eu teria um chefe muito melhor, muito mais bonito do que Margo. — Se eu aceitar sua oferta, nós dois precisamos esquecer que temos uma história. Significa, nós nunca... — Faremos sexo? — ele terminou. — Sim. Quero começar de novo e colocar tudo da minha profissão passada para trás. Você é meu chefe, e eu sou sua empregada, nada mais. — Tudo bem, é justo. Eu mordi o lábio inferior, pensando profundamente. — Não posso acreditar que vou concordar com isso. Ele sorriu triunfante. — Como não temos um passado, nunca nos conhecemos. Permitaque eu me apresente, sou Aubree Davis, Sr. Grace. É um prazer conhecêlo. — eu estendi a mão para ele, e seu sorriso aprofundou. — Aubree? Então eu finalmente sei seu nome de verdade. — ele pegou minha mão e balançou. — Significa que temos um acordo, senhorita Davis? — Sim, eu acredito que sim, e você pode me chamar de Aubree ou simplesmente de Bree, o que você preferir.

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— Eu acho que gosto de Bree, me lembra uma garota muito especial que eu conheci. Meu rosto aqueceu, e tinha muita certeza que as minhas bochechas estavam uma variação de vermelho. Como é que tive tanta sorte de ter pessoas como ele e Hannah na minha vida? — Então, Sr. Grace... — Oh, você pode me chamar Simon, se desejar. Levantei uma sobrancelha. — Oh, Simon? Adoro esse nome. — Você? — ele tocou. — Sim. Ele me lembra um homem carinhoso, genuíno e bonito. Que tem um coração enorme, mas às vezes não tem o melhor julgamento para pessoas ou negócios. — Mesmo? Porque posso assegurar, faço excelentes negócios todos os dias, e quanto a julgar pessoas... — ele se aproximou e sussurrou no meu ouvido. — Eu não deixo muita gente entrar na minha vida, então, você pode apostar que os poucos que eu permito são muito especiais. Havia um nível de sinceridade em seus olhos que falava muito e, embora eu soubesse que estava longe de ser especial, nesse breve momento ele me fez acreditar no contrário. Meu rosto pode ter sido maltratado e ferido, mas não importava – o jeito que eu estava me sentindo no interior apagava toda a dor do lado de fora. O deserto estéril que uma vez ocupou meu coração estava desaparecendo, e pela primeira vez em muito tempo, estava cheio. Cheio de coragem, cheio de admiração, e cheio de uma nova esperança, não só em outras pessoas, mas também em mim.

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Capítulo 22 Quando a terça-feira chegou, eu estava começando a me sentir um pouco melhor. As contusões ainda eram evidentes, mas eu estava me curando emocionalmente. Eu até decidi que eu não ia decepcionar Margo e me encontraria com ela e sua entrevistada conforme planejado. Eu me vesti e preparei para o que estava por vir. Com a ajuda da maquiagem, consegui camuflar um pouco os machucados das bochechas e parecer um pouco mais humana. Dei uma última olhada no espelho, passei os dedos no cabelo e fui. O táxi estacionou no prédio do escritório de Margo, e eu respirei fundo ao sair. Você pode fazer isso. Você está mais forte do que nunca, eu repetia para mim mesma a cada passo que eu dava, cada vez mais perto da cova do leão. Coloquei os óculos de sol e escondi os olhos, eu bati levemente na porta do escritório de Margo antes de entrar. Sua mandíbula

caiu

quando

eu

entrei. A

bela

jovem

morena

-

sua próxima vítima – estava em uma cadeira na frente dela. Só pelo jeito que ela estava admirando a Margo, fiquei bastante certa de que ela já tinha sido alimentada com um monte de mentiras sobre o quão maravilhoso era o negócio. — Bree, eu não achei que você viesse. — a voz de Margo estremeceu, e pela primeira vez percebi que ela ficou realmente nervosa. Eu estava segurando todas as cartas, e eu adorei. — O que lhe deu essa impressão, Margo? — perguntei, sentando-me ao lado do novo cordeiro sacrificial. — Eu - eu não... — Margo gaguejou. Como eu gostei de vê-la se contorcer.

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— Eu sou Bree, por sinal. — eu estendi a mão para a jovem, que parecia legal. — Por favor, perdoe os óculos de sol, mas estou com uma enxaqueca terrível. — Olá, eu sou Kristen. — o som de sua voz combinava com a sua aparência doce. — Então, o que eu perdi? Margo falou o tanto que esse trabalho é glamoroso? Ela sorriu e assentiu. — E todos os homens maravilhosos que você encontrará e os lugares fabulosos que você vai conhecer com eles? — Sim, ela disse que alguns são até produtores de TV, então espero que isso ajude a alavancar a minha carreira de atriz. Olhei profundamente em seus olhos castanhos claros. Ela era como a neve fresca que caía depois de uma tempestade, intocada e inocente, e Margo faria as primeiras pegadas, danificando-a para sempre. Eu era a mesma garota há alguns anos - jovem, ingênua, acreditando em todas as mentiras de Margo. Mudando o foco para a mulher sentada do outro lado da mesa, finalmente percebi que ela era pura maldade. Ela nunca se importou comigo, como ela me levou a acreditar. Ela só me via como uma garota jovem e linda que encheria ainda mais os bolsos dela. Da mesma forma que ela via essa garota. — Então, Kristen, Margo me pediu para assistir essa entrevista para lhe dar uma pequena visão sobre o trabalho, então é isso que eu estou fazendo aqui. — eu levantei levemente os óculos de sol para a minha cabeça, revelando os círculos roxos delineando meus olhos. — Oh meu Deus!— Kristen ofegou. — Esta é a parte que Margo não te contou. — olhei para Margo, que estava sentada imóvel como uma estátua. — Que ela agenda cliente para você que ela sabe que não é bom, apenas para o benefício dela.

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— Bree. Chega. — pediu Margo através de dentes cerrados. Voltei a cabeça em sua direção e olhei diretamente em seus olhos azuis e frios. — Oh, eu sei que sim. Chega de acreditar nas suas mentiras e pensar que você tem o meu melhor interesse no coração. Chega de ter relações sexuais com estranhos para deixá-la mais rica, e chega de me odiar porque você arrancou cada grama de minha autoconfiança, tornando-me totalmente dependente de você e do seu chamado negócio. Ela balançou a cabeça e desviou o olhar. — Olhe para mim, Margo! — eu gritei. — Você é tão culpada de fazer isso comigo quanto ele. Você sabia que ele era violento. Foi por isso que Kylee não o quis mais como cliente. Mas, em vez de perder o negócio, você me mandou! Você não é melhor do que um gigolô barato em uma esquina com suas prostitutas. — Saia daqui, agora! — ela exigiu. — Com alegria!— eu me levantei, peguei a bolsa da cadeira e joguei sobre o ombro. — Kristen, se você sabe o que é bom para você, corra tão longe quanto possível dessa cadela do mal. Ela não respondeu, saltou nervosamente sua perna para cima e para baixo com o lábio inferior tremendo. Eu só podia esperar que ela aceitasse meu conselho antes que fosse tarde demais. Margo manteve a cabeça baixa durante todo o tempo em que fiz a minha saída, segurando toda a raiva que eu tinha certeza que crescia dentro dela. Não havia dúvida de que ela ainda tentaria salvar a entrevista e manter as aparências com Kristen. Eu saí, optando por andar alguns quarteirões em vez de chamar um táxi. Depois de todos esses anos, estava finalmente fora do poder de Margo. Eu estava excitada e aterrorizada, tudo ao mesmo tempo. Era tudo tão novo para mim. Eu fiquei sob seu controle por tanto tempo, como uma vítima de um culto maligno e agora estava livre para viver minha

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vida. Eu não tinha certeza se saberia lidar por conta própria, mas eu faria tudo o que estava ao meu alcance para conseguir. Eu começaria meu trabalho de babá na semana seguinte, e planejava oferecer muito mais tempo no abrigo, e sempre havia o romance de Hannah para me ajudar a escapar da realidade. Eram as coisas nas quais eu tinha que me concentrar como parte da minha nova vida. Eu peguei o telefone tocando na bolsa, certa de que era Margo querendo dar a última palavra, mas fiquei agradavelmente surpresa ao ver que era o parceiro meu irmão, Trey, em vez disso. — Ei! — respondi. — Bem, bem, bem. Ela finalmente atendeu minha ligação! — ele provocou. — Oh, sinto muito, Trey. Foram dias loucos. — para dizer o mínimo. — Eu estava ligando para avisar você que seu irmão está em Manhattan a negócios. Você sabe, apenas no caso de você querer encontrá-lo. Meu coração afundou. Meu irmão estava na mesma cidade que eu e nem pôde pegar o telefone para me avisar. — Ah, tenho certeza de que sou a última pessoa que ele quer ver. — Aubree, docinho, não pense assim. Ele a ama muito. — Ok, se isso é verdade, por que você está ligando para avisar que ele está na cidade em vez dele? Ele soltou um suspiro profundo. — Exatamente! Olha, Trey, eu realmente aprecio o que você está tentando fazer, mas Paul e eu nunca mais teremos o mesmo relacionamento. — Isso não é verdade. Ele sente sua falta tanto quanto você sente falta dele.

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Pisquei as lágrimas, e decidi mudar de assunto. — Eu tenho algumas novidades. — O quê? — ele perguntou. — Eu - eu escolhi uma carreira diferente. — O que vai fazer? — eu senti alívio em sua voz. — Bem... — eu soltei uma pequena risada. — Eu vou ser babá. — Babá? — Eu sei. Louco, certo? — Como isso aconteceu? — Eu conheci um cara realmente incrível. Ele é um pai solteiro e precisa de ajuda extra. A melhor parte de tudo é que ele sabe tudo sobre mim e mesmo assim confia em mim com seu filho. Não tenho certeza se isso faz dele uma pessoa boa ou simplesmente louca. — Obviamente, ele vê a Aubree que todos conhecemos e amamos. Não significa que ele é louco, só significa que ele está aceitando, o que, por sua vez, o torna uma pessoa muito boa. — ele parou por um breve momento. — Então, significa que você vai se aposentar da outra carreira? — Sim, isso mesmo. Mesmo que não dê certo, eu sei que não posso mais fazer aquilo, e não quero mais. — Eu amo você, Aubree, e estou cem por cento com você com essa escolha. — Eu também te amo. Eu só queria que meu irmão pudesse ser tão solidário quanto você. — Esta é uma ótima notícia que eu acho que você deveria aproveitar para dar a ele com uma visita surpresa.

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Suspirei profundamente. Por mais que eu quisesse, tinha certeza que não daria muito certo. — Simplesmente acho que não é uma boa ideia. — Se você mudar de ideia, ele está no Roosevelt, quarto vinte e dois. Eu sei que ele está lá agora trabalhando em sua apresentação de amanhã. Você sabe, caso você decida fazer uma visita para ele. Não pude deixar de rir de sua persistência. — Obrigada, Trey, e obrigada por me ouvir. — A qualquer momento, querida. Vamos nos falar novamente na próxima semana, e eu quero saber tudo sobre o novo trabalho! — Tá bem. Te amo. — Amo você também. Nós desligamos, e eu parei na calçada, ignorando os pedestres apressados caminhando ao meu redor. Talvez Trey estivesse certo: talvez este fosse o quebra-gelo, eu precisava ganhar meu irmão de volta. O que de pior que poderia acontecer? Ele podia ficar ainda mais irritado comigo do que já estava. Se era para começar uma vida nova, significava reparar velhas cercas, e eu começaria imediatamente, aguardando o pior, mas esperando o melhor.

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Capítulo 23 Meu coração disparou depois de bater na porta do quarto 22. Era tão bobo; ele era meu irmão - o menino que eu enlouquecia quando criança e me provocava implacavelmente em troca. O garoto que brigava em um minuto, e abraçava no próximo. Eu não precisava ficar nervosa, mas

eu

estava. Tanta

coisa

mudou

desde

aqueles

anos

despreocupados. Passamos de duas crianças esquisitas que se amavam incondicionalmente para dois estranhos totais. — Aubree? — ele abriu a porta, surpreso com a minha visita. Eu não o via há mais de dois anos, mas ele estava tão bonito como sempre, uma versão mais exata do meu pai jovem. Cabelos pretos e olhos azuis cristalinos - eram a marca registrada da minha família. — Ei, desculpe me intrometer, mas estava falando com Trey e ele me contou que você estava na cidade. Ele assentiu, parecendo um pouco culpado. — Sim, desculpe, eu não liguei. Foi de Última hora... — Tudo bem. — eu o cortei, sem querer que ele tivesse necessidade de inventar desculpas. — Você quer entrar? — ele abriu mais a porta e eu dei um passo para dentro. — Então, por quanto tempo você vai ficar na cidade? — eu perguntei, olhando pela janela a vista do centro da cidade. — Oh, apenas até amanhã à noite. Eu virei para encará-lo. — O que acontece com os óculos de sol?

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— Ah, Eu-humm... — eu mentia e usava a desculpa da enxaqueca ou eu jogo limpo? Eu decidi ser honesta, tirei os óculos de sol e segurei a respiração, aguardando sua resposta. — Aubree, o que diabos aconteceu? — ele se aproximou, levantando meu queixo para olhar mais de perto. Eu balancei a cabeça. — Está tudo bem, Paul. Estou bem. — Não, não está bem! Olhe para você! Você acha que está certo deixar algum animal te tratar dessa maneira? — Não, eu não acho. — eu sussurrei. — Quem fez isso com você? — ele exigiu. — Não importa. Eu só quero esquecer que aconteceu. Ele sacudiu a cabeça em descrença. — Você é inacreditável, sabia? Você vai deixar o cara que fez isso se safar, e então, o quê? Você está planejando fodê-lo novamente? Meu queixo caiu ao ouvir seus sentimentos de verdade. — Não. Não estou planejando fazer isso. — eu engoli o nódulo de tamanho de uma bola de baseball na garganta, fazendo o possível para não chorar. — Eu queria que você nunca tivesse vindo aqui hoje. Não precisava te ver dessa maneira. Eu assenti com a cabeça, quebrando a barragem que estava segurando minhas lágrimas. — Desculpe, eu só queria falar com você. Eu sinto sua falta. — como eu queria que ele me dissesse que também sentia minha falta, mas procurei um pouco de conforto em seus olhos azuis penetrantes e não encontrei nenhum. — Como você pode ter perdido todo o seu respeito? As lágrimas caíram mais rápido do que eu conseguiria pegálas. Suas

palavras

eram

afiadas,

dolorosas

e,

sobretudo,

verdadeiras. Eu tinha perdido todo o respeito por mim, mas contava que

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com um pouco de sorte eu o encontraria de novo. — Eu – parei agora, Paul. Eu sei que eu mereço algo melhor. — Oh, agora você sabe que você merece algo melhor? Foi preciso te enfiarem a porrada para você perceber que merece algo melhor? Jesus Cristo, Aubree, como você pode ser tão estúpida? — Eu não sou estúpida, Paul! — eu me apressei em me defender, mesmo sabendo que ele estava certo. Eu fui idiota por seguir esse estilo de vida por tanto tempo, mas eu não estava pensando mais em ser estúpida. Ele desviou o olhar antes de encontrar meu olhar mais uma vez. — Eu tenho muito trabalho para preparar para amanhã, Aubree. — e assim, fui dispensada. Meu coração pareceu ter sido arrancado do peito enquanto ele permanecia ali, de pedra, nenhum pouco afetado. — Tudo bem. — eu acenei com a cabeça, mal conseguindo ver por causa de minhas lágrimas. Fiquei na ponta dos pés e dei um beijo na sua bochecha, dei uma última olhada no cara que eu amei e admirei minha vida inteira antes de sair pela porta. *** O sol estava começando a se afastar da janela do meu quarto quando levantei a cabeça do travesseiro. Fiquei exausta emocionalmente depois de deixar meu irmão, mas não esperava ir para casa e cair em um coma de três horas. Eu me levantei, escovei os dentes, joguei meu cabelo de novo em um rabo de cavalo e espirrei um pouco de água gelada no rosto. Meu ombro estava dolorido depois de desafiar a ordem do médico e abandonar a tipoia durante o dia. Esperava que a colocando agora as dores aliviariam. Eu estava sentada com uma tigela de cereais quando uma batida na porta me interrompeu. Algo me dizia que eu não teria tanta sorte quanto no dia anterior e Simon estava do outro lado daquela porta. Quando olhei através do olho mágico, fiquei dominada pela emoção com a visão do meu irmão. Abri a porta, mordendo o lábio inferior para afugentar as

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lágrimas. Quando ele jogou seus braços ao meu redor, eu não consegui segurá-las. — Sinto muito, Aubree. — ele me abraçou forte e descansou seus lábios no topo da minha cabeça. — Tudo bem. — foi tão bom abraçá-lo de volta. — Eu simplesmente não suporto saber que alguém fez isso com você. Eu acenei com a cabeça e enxuguei uma lágrima. — Entre. — eu pedi, fechando a porta atrás de nós. Nós nos sentamos na sala de estar e seus olhos se desviaram para a minha tipoia. — Ele fez isso também? Eu estava com medo de responder. Podia ver a raiva em seus olhos. — Sim. — eu sussurrei. — Maldito, maldito filho da puta. — ele murmurou. — Foi o meu despertar, Paul. Realmente foi. Eu não quero mais fazer isso. E adivinha? Vou começar um novo emprego na segunda-feira. — Onde? — perguntou cautelosamente. — Vou cuidar de um garotinho... você sabe, babá? Ele ergueu as sobrancelhas em confusão. — Aubree, sem ofensa, mas

você

está

preparada

para

esse

desafio? É

uma

grande

responsabilidade e você não tem experiência com crianças. — Eu sei. — eu assenti. — Mas ele é tão adorável e nós nos damos bem, e o pai dele tem fé que eu consigo fazer isso. — O pai dele? Tem uma mãe? — Não. Ele ergueu uma sobrancelha. — E, como você conheceu esse cara? Desviei o olhar e murmurei. — Ele era um dos meus clientes.

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— Ahh, Aubree! — Não, não é assim, Paul. Ele é um ótimo cara. De verdade. Nós temos conversas profundas, e eu me relaciono com ele em muitos níveis. Ele não me julga pelas escolhas que fiz na vida. Eu simplesmente não consigo nem começar a explicar como ele me faz sentir. — demorei a perceber que eu estava divagando sobre ele. — Então, o que você está dizendo? Você sente alguma coisa por esse cara? — perguntou Paul. — Não. Quero dizer... Ele é... — eu não sabia como responder, porque a verdade era que, embora eu tivesse dito para o Simon, que eu queria esquecer que tínhamos uma história, não era tão fácil assim. Sim, tivemos relações sexuais em várias ocasiões, mas era muito mais do que isso. Além de uma conexão física, tínhamos uma emotiva, e não era tão fácil de esquecer. — Ele é, ele... — gaguejei, observando o sorriso de Paul enquanto ele esperava que eu elaborasse. — Ei, você está com fome? — perguntei, evitando responder. — Estou faminto. — Chinesa? — Perfeito. Levantei para pegar o cardápio de entrega, evitando a pergunta que eu não conhecia a resposta - ou talvez eu conhecesse e estivesse com medo de admitir, mesmo para mim, o tanto que o Simon era especial. Depois do jantar, assistimos TV e conversamos. Era tão bom sentar e

ter

uma

conversa

normal

com

meu

irmão. Fazia

muito

tempo. Finalmente me esforcei para fazer a pergunta que eu estava querendo a noite toda. — Como está o papai? Os olhos dele suavizaram. — Ele está bem. Preparando-se para se aposentar.

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Ambos sacudimos a cabeça e rimos. — Não, ele não está. — dissemos em uníssono. Meu pai era o chefe da polícia de nossa pequena cidade desde sempre; era tudo o que ele conhecia, e uma grande parte de quem ele era. Ele falava do direito à aposentadoria nos últimos dez anos, mas ainda não tinha entregado os papéis. — Eu só queria que as coisas fossem diferentes. Sinto muita falta dele. Paul assentiu. — Aubree, talvez você precise voltar para casa e começar tudo de novo. Reate o relacionamento com o papai e comece a trabalhar em você. — Não há nada lá para mim, Paul. Não tenho emprego. Papai não pode sequer olhar para mim, e são apenas um monte de lembranças ruins. — Você sempre pode encontrar um emprego. As coisas nunca darão certo com você e papai, se você continuar evitando-o, e, quanto às memórias, você precisa enfrentá-las, em vez de fugir delas. Não foi culpa sua, Aubree. Você carregou essa culpa pelos últimos cinco anos por algo que você não tinha controle. Se você realmente está falando sério sobre recomeçar, é hora de encarar as coisas e parar de se martirizar por isso. Eu balancei a cabeça. — Eu o amava tanto, Paul, num minuto estávamos de mãos dadas, rindo e falando sobre a mudança dele para Nova Iorque, e no próximo minuto ele se foi. Eu revivo esse momento todos os dias da minha vida, e eu simplesmente não sei como... — deixei escapar um soluço, e Paul agarrou minha mão. — Eu simplesmente não sei como parar de me torturar e superar. — Eu sei o quanto ele significava para você, Aubree. Eu sei. Mas você acha que ele ficaria feliz de te ver dessa maneira, agonizando sobre ele todos os dias de sua vida? Ele morreu naquela noite.

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Fechei os olhos, desejando que proteger os ouvidos das suas palavras. — Você não morreu. E você sabe que ele gostaria que você fosse feliz e vivesse sua vida. Eu assenti. Minhas lágrimas caíam mais rápido do que eu conseguia pegá-las. Paul pegou um guardanapo da mesa de centro e limpou meus olhos. — Apenas pense nisso, Aubree. Você poderia ficar com Trey e eu até você se situar. — Eu vou. — respondi, sabendo que não tinha intenção de voltar àquele lugar por um longo período. Ele olhou para o relógio, e eu estava receando o que viria a seguir. Eu não estava pronta para ele sair depois que acabei de recuperálo. — Eu realmente tenho que ir. Preciso levantar à sete da manhã para a apresentação. — Ok. — eu sussurrei, lutando contra mais lágrimas. Ele começou a juntar os nossos pratos da mesa de centro e eu o impedi. — Eu faço isso. — Você tem certeza? Eu acenei com a cabeça, olhando para ele e jogando meus braços em volta dele. — Muito obrigada por esta noite. Você não tem ideia do quanto significou para mim. — Eu te amo, Aubree, e eu só quero te ver feliz. — E eu prometo, vou me esforçar muito para ser. Ele acariciou o lado do meu rosto delicadamente com as costas da mão. — Eu não quero nunca mais vê-la assim... — ele esfregou o polegar ao longo da contusão no meu olho — …nunca mais. Você entendeu?

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— Prometo. — forcei um sorriso. Eu andei até a porta, e ele beijou a minha cabeça. — Eu te cheiro mais tarde, pirralha! — Não se eu te cheirar primeiro, Pauly wally bear2. — Eu falo com você em breve. Por favor, se cuide, e pense seriamente sobre o que eu disse. — Eu vou. — Amo você, Aubree. — Amo você também. Ele abaixou-se, deu-me um último beijo na bochecha antes de seguir o seu caminho. Fechei a porta e tranquei-a, tomada pela emoção. Meu irmão estava de volta, e eu há muito tempo eu não me sentia tão feliz. Eu queria gritar pelos telhados, mas por enquanto eu me contentaria em escrever sobre ele no meu diário.

2

Wally Bear e o NO! Gang é um jogo didático de Nintendo Entertainment System que foi lançado em 1992 exclusivamente para um público norte-americano. O jogo ensina as crianças a dizer não a drogas potencialmente nocivas como tabaco, álcool e maconha. O personagem principal é o urso Wally (wally bear). Pauly é o diminutivo carinhoso de Paul.

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Capítulo 24 Quando o fim de semana chegou, eu estava começando a me sentir melhor fisicamente e emocionalmente, completamente à vontade com a minha escolha de começar tudo de novo. Eu ainda não tinha encontrado coragem para falar com a detetive, mas eu decidi enfrentar a outra tarefa temida que estava me incomodando: uma visita à clínica de saúde. Se eu ia seguir em frente com minha nova vida, eu queria um atestado de saúde. Mesmo que a minha regra número 1 com todos os meus clientes fosse o uso do preservativo, eu ainda queria ficar tranquila que os meus anos de sexo seguro não tivessem falhado. Fiquei feliz quando recebi a chamada para falar que eu estava bem. Eu tive que admitir que fiquei um pouco chateada quando Hannah cancelou nossa reunião sobre o livro no domingo. Foi uma semana tão ocupada que não tive chance de falar com ela. Eu tinha tanta coisa para contar, me impor para a Margo, a reconciliação com o meu irmão, e o meu novo trabalho. Eu mal podia esperar até que ela voltasse para que eu pudesse confiar todas essas coisas com ela. A decepção que eu estava sentindo com a falta do meu encontro na tarde de domingo com Hannah rapidamente desapareceu quando Simon ligou, convidando-me para almoçar para conversar sobre o cronograma de Jack da semana seguinte. — Ei. — eu sorri ao entrar no restaurante, encontrando-o já sentado e parecendo uma estrela de cinema, lindo como de costume. O sorriso que ele retornou o levou de estrela de cinema linda para uma nova área de deslumbramento. — Onde está o Jack? — perguntei, sentando-me na frente dele. — Ele está em uma festa de aniversário. — Ah. — eu balancei a cabeça e abri o cardápio. — Estou faminta!

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Ele riu, se divertindo com a minha fome, e me olhando com firmeza. — O quê? — eu perguntei, tirando os olhos do cardápio por um breve segundo. Ele balançou a cabeça com o mesmo sorriso complacente esticado em seu rosto. — Nada. Você parece muito melhor. — Obrigada. Eu me sinto muito melhor, e não apenas fisicamente. — eu olhei para a garçonete pairando sobre nós para pegar os pedidos de bebida. — Isso é bom. — ele comentou depois que fizemos os pedidos e a garçonete se afastou. Deixei escapar uma respiração profunda. — Eu conversei com meu irmão. Quero dizer, conversei de verdade. Foi a melhor sensação do mundo. — eu me abri para ele. — Vocês tiveram uma briga ou algo assim? — Não exatamente. Ele não aprovava as minhas escolhas, e meio que saiu do seu caminho para me evitar, mas está tão bom agora. — eu não pude conter o sorriso só de pensar nisso. Minha sensação atual de contentamento não era só por causa da minha reconciliação com Paul. Era também pela minha coragem de deixar o estilo de vida prejudicial que tive a maior parte do meu período adulto, a nova amizade com Hannah, e o homem sentado à minha frente. Eu não tinha certeza de como classificar meu relacionamento com Simon, e realmente não me importava. Tudo o que importava para mim era que ele era parte da minha vida de alguma forma. — Estou feliz por você, Bree. A maioria das pessoas não teria tido força para se levantar depois do que aconteceu com você, mas você está fazendo exatamente isso.

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Dei de ombros. — Talvez eu precisasse passar por algo terrível para perceber que eu merecia coisa melhor. — Você merece o melhor. Nossos olhos se encontraram, apenas desviando quando a garçonete veio e colocou as nossas bebidas na mesa. Após pedir a comida, eu peguei caderno e caneta na bolsa. Eu levei com o propósito de fazer uma lista para me preparar para minha nova aventura. Simon sacudiu a cabeça e riu. — O que é isso? — perguntou. — Vai ser meu manual de Jack. — Seu o quê? — ele riu ainda mais. — Tudo o que preciso saber sobre Jack para me ajudar enquanto eu estiver cuidando dele. — Bree, você não precisa ... Eu levantei a mão para detê-lo. — Simon, eu levo meu trabalho muito a sério, e isso é algo que eu realmente quero ter certeza que eu vou acertar. Então, me deixe, ok? — eu levantei uma sobrancelha e abri um sorriso. — Tudo bem. — ele cedeu. — Ok, vamos ver. Ele tem alguma alergia alimentar? — Não que eu saiba... — Sem alergia de amendoim? Lácteos? — Não e não. — ele balançou a cabeça. — E insetos? Ele é alérgico a abelhas? Aranhas? — Não e não. — ele parecia entediado com a minha inquisição. — Medicação? Ele se recostou na cadeira e entrelaçou as mãos na nuca, entretido sobre toda a situação.

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— Simon, vamos lá, eu estou falando sério! Ele soltou o riso que estava segurando. — Não, Bree. Ele não tem qualquer alergia a qualquer coisa, que eu saiba. — Que você saiba? E se houver algo que você não saiba, e acontecer de eu estar sozinha com ele, e não souber como agir? — eu podia sentir a minha ansiedade crescendo. — Bree, acalme-se. Tenho completa fé que você vai saber lidar com qualquer situação de emergência que possa surgir. Eu balancei a cabeça, desejando ter a mesma confiança em mim que ele tinha. — Eu não sei, Simon, é tudo muito novo para mim. Eu não estou acostumada a lidar com as crianças, e se alguma coisa acontecer com Jack, eu nunca me perdoarei. — meu coração bateu mais rápido, e eu lutei para respirar só de pensar nisso. — Você pode relaxar? Eu prometo que vai ficar tudo bem. Eu concordei relutante. — Eu espero que você esteja certo. — eu murmurei. — Eu estou. — ele me assegurou. Nós dois olhamos para a garçonete quando ela colocou a comida na mesa. — Então, eu odeio jogá-la para os lobos no seu primeiro dia. — Simon continuou depois que a garçonete se afastou. — Mas amanhã vai ser um dia muito ocupado para mim. — Não tem problema. — peguei a caneta, preparando-me para escrever tudo o que ele estava prestes a dizer no meu caderno. — O quê? — eu retruquei quando ele começou a rir. — Eu gosto de ser eficiente. — eu tentei o meu melhor para diminuir o meu sorriso, mas sua diversão com a situação não permitiu isso. — E se eu esquecer o que você me disser?

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Ele balançou a cabeça e tomou um gole da bebida. — Então, Jack precisa estar na escola às nove horas. Obviamente, você já sabe onde ele estuda. — Nove horas. Escola São José. — eu repeti, escrevendo no meu caderno. — Pronto! O que mais? — eu perguntei, olhando para o mesmo sorriso brincalhão espalhado pelo seu rosto. — Limpar minha casa de cima abaixo. — ele soltou uma risada alta, ruidosa quando comecei a escrever antes de entender. — Ha ha! — eu provoquei. — Sério, o que você precisa que eu faça, enquanto ele estiver na escola? Ele balançou a cabeça e encolheu os ombros. — Eu não sei, o que quiser. — Simon, você me contratou para ajudá-lo, então deixe-me fazer isso. Você precisa que eu faça algo? Eu não sou muito de cozinhar, mas posso tentar começar o jantar para vocês. Por favor, não tenha medo de pedir. Quanto mais ocupada eu ficar, melhor. — Ok, eu vou usar sua assessoria no futuro, mas para amanhã, apenas se acostume com a rotina de Jack. Posso assegurar-lhe que quando ele chegar da escola, haverá muita coisa para mantê-la ocupada. Provavelmente, vou chegar tarde. Tenho clientes que vêm de Tóquio, pode ser que eu precise que você fique um pouco mais tarde do que o habitual. — Ok, sem problema. — O que significa que Jack precisa jantar e se preparar para a escola no dia seguinte. — Ok, eu tenho tudo sob controle! Falo sério quando digo eu posso fazer mais, o melhor, então, por favor, não hesite em pedir. Ele passou as pontas dos dedos sobre a barba por fazer, ainda parecendo completamente divertido com meu entusiasmo. — Confie em

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mim, em um mês ou assim, logo que o tempo começar a mudar, haverá muita coisa para mantê-la ocupada entre encontros no parque e treinos. Você vai se arrepender de ter oferecido. Eu balancei a cabeça. — Não, não vou. Eu vivo para um bom desafio. — eu tomei uma colher de sopa e limpei a boca com o guardanapo. — Posso te fazer uma pergunta? — Vá em frente. — Como você consegue tudo isso sozinho? Ele soltou uma respiração profunda. — Eu não vou dizer que é fácil, porque não é, mas que outra escolha eu tenho? Eu sou tudo que Jack tem, e eu não vou deixá-lo. Eu não estou dizendo que não erro algumas vezes, mas eu tento ser o melhor que posso para ele. Basicamente, vou trabalhar, volto para casa e cuido dele. Ocasionalmente, peço a irmã da Annie para me ajudar e meus sogros o levam um fim de semana por mês. Nessa oportunidade tento encontrar-me com amigos e fazer o possível para ter algum tipo e vida social. Mas a verdade é que desisti há muito tempo. Minha primeira prioridade será sempre Jack. Mordi o lábio inferior, sem saber se eu queria chorar ou sorrir. Ele era um homem desinteressado em tudo que fazia. — Bem, eu acho que você é um pai muito legal, e um ser humano muito legal. — Obrigado. — ele sussurrou. — Para novos começos e espero tornar a sua vida muito mais fácil. — eu levantei o copo, esperando-o fazer o mesmo. — Eu tenho total confiança de que você vai. — ele disse quando nós brindamos. — Fico contente que alguém tenha. — eu murmurei, observando suas covinhas aprofundando diante dos meus olhos, e sentindo o contentamento crescente dentro do meu coração.

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Capítulo 25 — Ok, amigo, vamos indo. — Eu fechei o zíper do casaco de Jack e puxei o gorro sobre suas orelhas. — Bree, não se esqueça de amarrar meus sapatos. — Ele estendeu o pé. — Oops, eu quase esqueci. — abaixei-me e amarrei seus tênis. Fiz uma verificação rápida da área para me certificar de que não estava esquecendo alguma coisa, agarrei o almoço de Jack e fomos. Jack engasgou quando estávamos a meio caminho da porta. — Eu esqueci minha mochila! — Oh, droga! — eu quase tropecei, virando-me e agarrando-a do gancho na entrada. — Ok. Estamos bem agora? — meus nervos ficaram abalados a manhã toda. Eu não queria estragar tudo. Eu devia isso a Jack e Simon, para ter certeza que estava fazendo a coisa certa. A primeira coisa que vi de manhã foi Simon diabolicamente belo, em seu terno perfeitamente ajustado, o que só aumento meu desequilíbrio mental. Jack olhou para mim através de seus pequenos óculos redondos que se encaixavam em seu pequeno rosto, e assentiu. Peguei a mão dele e fomos. O pânico tomou conta de mim quando chegamos à escola e vi várias portas e crianças entrando em cada uma delas. Isso não estava no meu manual. Como eu pude ter sido tão estúpida e não ter perguntado ao Simon mais detalhes sobre a escola? Minha ansiedade injustificada desapareceu rapidamente quando Jack puxou minha mão em direção à porta do centro. Crise evitada. É claro que ele sabe qual em qual entrar. — Minha sala de aula é deste lado. — Jack dirigiu, levando-me pelo o corredor, ao entrarmos na escola. A porta da sala de aula estava toda

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decorada com corações vermelho e rosa do dia dos namorados com os nomes dos alunos escritos sobre cada um deles. Eu balancei a cabeça e sorri. Irmã Hannah era uma verdadeira romântica no coração. Vi Hannah com o canto do olho, atendendo uma das crianças. Ela finalmente olhou com espanto - primeiro para mim e depois para Jack. — Bom Dia, Jack. Vá pendurar o casaco e se preparar para a nossa oração da manhã. — ela o dispensou, e esperou até que ele estivesse fora do alcance da voz. — Bree, o que você está fazendo aqui? — ela levantou uma sobrancelha. — Eu ia contar ontem, mas uma vez que você me arrancou do seu convívio. — eu provoquei, rindo de seu estado perturbado. — Estou brincando. Eu sei que você não me dispensou. Mas um monte de coisas aconteceu na semana passada que eu preciso te contar, e esta é uma delas. — eu dirigi minha atenção para o Jack, que estava sentado em sua mesa com as mãos cruzadas, enquanto as outras crianças corriam ao redor. — E ' esta' seria? — ela levantou uma sobrancelha. — Eu vou olhar o Jack para Simon. O queixo dela caiu e ela balançou a cabeça, parecendo um pouco atordoada com a notícia. — Eu sei, eu pensei a mesma coisa, eu cuidar de uma criança... é uma loucura, mas Simon confia em mim, e eu não planejo decepcionar, nem ele, nem Jack. — Não, não, não. — Hannah sacudiu a cabeça. — Não é loucura de jeito nenhum. É a sua neve recém caída. — Minha o quê? — Lembra quando você falou sobre o início de uma tempestade de neve, do tanto que a neve é pura, até que alguém pise nela?

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Eu balancei a cabeça, incapaz de acreditar que ela realmente se lembrava. — Há uma cobertura fresca de neve em sua vida, e você e, só você, está no controle de quem fará as primeiras pegadas. Suas palavras me deixaram emudecida. Ela estava certa. Pela primeira vez em muito tempo, eu estava no controle completo de tudo na minha vida, incluindo o meu coração e quem eu permitia entrar nele. Ela colocou a mão no meu ombro e me lançou aquele sorriso caloroso, que eu estava ficando tão familiarizada. — Eu adoraria ouvir tudo. Talvez possamos nos encontrar para jantar uma noite esta semana. — Ótimo. — Apenas me ligue e diga a noite que é melhor para você. — Eu vou. — eu sorri. — Irmã Hannah. Irmã Hannah. — nós duas desviamos nossa atenção para a menina ruiva, olhando para Hannah com grandes e expressivos olhos azuis. — Eu tive um acidente. — ela gritou, apontando a marca molhada em suas calças. — Oh, Becky, isso não é grande coisa. Vamos pegar a sua muda de roupa e vamos cuidar disso. — Hannah lidou com a situação com seu típico jeito calmo e amoroso. — Eu vou deixar você voltar ao trabalho, e com certeza vou ligar depois. — Sim, não se esqueça. — Hannah gritou, já indo para o armário da parede para pegar as roupas da menina. Eu andei poucas quadras da escola e sentei em um banco, enquanto pegava algumas receitas no telefone. Desde que eu estava no comando do jantar naquela noite, eu queria ter certeza de fazer algo gostoso para o Jack. Minhas mãos tremeram e eu quase deixei o telefone cair quando eu

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vi o flash do nome da Margo por toda a tela, enquanto eu estava completamente absorta na receita caseira de macarrão com queijo. Eu pressionei apagar e um nó se formou instantaneamente no meu estômago. Ela ainda tinha o meu número e meus clientes também, e ela sabia onde eu morava. Um arrepio passou por mim só de pensar nisso, e não foi por causa da temperatura fria. Será que eu estava livre de verdade do seu reinado do mal? Liguei imediatamente para a operadora de telefonia celular, solicitei uma alteração de número, certificando-me de mandar uma mensagem do novo número para as poucas pessoas que eu queria o tivesse, Paul, Trey, Hannah, Simon e Jess. Mordi o lábio, ainda um pouco nervosa sobre a coisa toda. Por que ela me ligou depois de uma semana do que aconteceu em seu escritório? Eu sabia que a Margo nunca esperaria tanto tempo para dizer o que queria. Eu estava com medo de voltar para o meu apartamento e ela estivesse lá esperando por mim. — Bom dia, senhora. Você se importa se eu me sentar aqui? — um homem mais velho com um cabelo mais longo e despenteado e uma barba cheia me tirou dos meus pensamentos. — Oh, claro. — eu respondi. Ele me deu um sorriso e eu sorri de volta. Suas roupas eram esfarrapadas e desgastadas, e a ponta do seu dedo do pé estava saindo através do couro velho de seu sapato. — Se mais nada de bom me acontecer hoje, seu sorriso era tudo que eu poderia ter pedido. — Obrigada. — eu não pude deixar de sorrir mais uma vez. — Sou Aubree. — eu estendi a mão para ele, pegando-o um pouco desprevenido. — Eu sou... Keith. — ele apertou minha mão de volta relutantemente. Eu assenti. — Então, Keith, você mora por aqui?

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— Eu acho que você pode dizer isso. Eu moro onde consigo encontrar um lugar quente para deitar minha cabeça. — ele confirmou minhas suspeitas, era sem teto. — Não existe um abrigo onde você possa ir? — perguntei. Ele assentiu. — Quando não está muito cheio. Meu coração doeu pelo pobre homem. Apenas quando eu pensei que meus problemas estivessem fora de controle, ele veio para me mostrar que sempre poderia ser pior. — Eu estava indo à padaria comprar um lanche e um café. Quer ir comigo? — Oh não, minha senhora, está tudo bem. Olhei para seu corpo magro, perguntando-me quando ele tinha comido. — Bem, se você mudar de ideia, eu estarei lá dentro. — apontei para a padaria a poucos metros de distância. — É bom e quente lá... e será por minha conta. — eu esperava poderia seduzi-lo dessa forma, mas ainda assim ele resistiu. — Não, eu estou bem. — Ok. Foi muito bom conhecê-lo, Keith. — Você também, senhorita Aubree, obrigado por fazer um homem velho sorrir. Eu estava sentindo uma série de emoções misturadas ao entrar na padaria para pegar um bagel: triste, por causa do pobre homem do lado de fora da porta. Nervosa, lembrando-me do telefonema que havia recebido há pouco tempo. Esperançosa, quando eu pensava sobre o passado que eu estava deixando para trás e o futuro que eu estava construindo para mim. — O que posso pegar para você, querida? — a senhora atrás do balcão perguntou.

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— Oh... humm. — olhei para a placa com o cardápio, e depois para o banco onde Keith ainda estava sentado. — Eu vou querer um simples bagel com ovos mexidos e queijo, e dois cafés grandes para viagem. — Só um momento. Sentei-me e esperei o pedido, olhei para a televisão e vi um anúncio político com ninguém menos que o senador Mark Stevens. A bile atravessou meu estômago, direto até a minha garganta quando a voz no comercial soou: senador Stevens, colocando os direitos das mulheres em primeiro lugar. Eu respirei profundamente; precisei de muito esforço para não jogar algo na televisão. Todas as memórias daquela noite voltaram para a minha cabeça. Ele tinha escapado. Ele ficou livre depois de me espancar, e depois estava todo alegre espalhar propaganda mentirosa para alavancar sua carreira política. Enquanto todo mundo acreditava que ele colocava os direitos das mulheres em primeiro lugar, eu sabia melhor. Eu o odiava. Eu queria que ele pagasse pelo que ele tinha feito, agora mais do que nunca. Eu vasculhei a bolsa, puxando para fora o cartão da detetive, esfregando os dedos sobre as letras em seu nome. Eu poderia fazer isto. Eu precisava fazer isso. Eu não podia deixar que o filho da puta saísse ileso depois do que ele fez comigo. — Senhorita, o seu pedido está pronto. — a mulher atrás do balcão chamou, tirando-me do meu momento de coragem fugaz. Eu joguei o cartão de volta na bolsa. Paguei a comida, coloquei um açúcar extra na sacola e saí. A cabeça de Keith estava descansando na parte de trás do banco com o rosto voltado para o céu. Eu me perguntei por um breve momento se ele estava morto ou dormindo. Alívio tomou conta de mim quando seus olhos abriram quando cheguei mais perto. — Desculpe, você estava dormindo? — perguntei. — Não, não, apenas descansando meus olhos e desfrutando do sol. Eu assenti. — Sim, está uma manhã bonita, com certeza, mesmo que esteja um pouco frio.

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— Todo dia é um novo começo. É por isso que eu amo muito a manhã porque é uma prova de que estamos sempre recebendo uma segunda chance da vida. — Eu suponho que você está certo. — Oh, eu sei que eu estou. É sempre mais escuro antes do amanhecer. — ele balançou a cabeça. — Eu não consigo pensar em nada mais verdadeiro para dizer do que isso. — Então, você está tentando fazer acertar os erros? — Oh, querida, é muito tarde para eu fazer algo certo, mas, finalmente, estou em paz comigo mesmo, e talvez isso signifique um novo começo, sobre largar o errado no passado porque não há nada que você possa

fazer

para

mudá-lo,

e

apenas

estar

se

concentrar

no

presente. Porque o presente é tudo o que é garantido nessa vida. Meus olhos se arregalaram. Sob a barba suja e cabelo comprido tinha um bom coração, uma alma inteligente, gentil. Eu não acredito em anjos, mas Keith me fazia questionar isso. — Oh, eu sei que você disse que não queria nada. — eu falei para ele e coloquei o copo de café na sua mão. — Há mais açúcar na sacola. Seu sorriso era de gratidão e descrença. Era evidente que ele não recebia nada agradável há um longo tempo. — E, apenas no caso de você estar com fome, tem um sanduíche também. — Obrigado. — ele olhou para o chão, parecendo humilhado. — Não, eu que agradeço, Keith. — eu sorri. — Eu tenho que ir, mas foi realmente um prazer te conhecer. Ele balançou a cabeça e tomou um gole de café. — Senhorita Aubree! — ele gritou quando eu estava a poucos metros de distância. — Sim? — eu me virei para encará-lo. — Você é um anjo.

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— Engraçado, porque eu estava pensando o mesmo sobre você. Seu sorriso desapareceu em uma expressão confusa. — Aprecie a bela manhã! — eu dei-lhe um último sorriso antes de me virar e seguir o meu caminho. Keith tinha sentado naquele banco por um motivo, e por mais louco que parecesse, eu acreditava que a razão era me ajudar a ir em frente e parar de reviver o passado. Sim, eu odiava o senador Stevens e o que ele tinha feito comigo. Eu odiava Margo por permitir que isso acontecesse, e acima de tudo, eu odiava que a vida um dia levou. Mas Keith tinha razão: não havia nada que podia ser feito para mudar o passado, portanto, não havia razão para ficar agonizando sobre ele. Eu ia canalizar essa energia para cuidar do futuro de Jack, cuidar de mim, e fazer o meu melhor para tornar a vida de Simon mais fácil. Não havia

espaço

na

minha

vida

para

o

arrependimento; eu

não

permitiria. Em vez disso, eu usaria os meus erros do passado como uma lição amarga que precisava ser aprendida.

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Capítulo 26 Manter-me ocupada enquanto Jack estava na escola foi muito mais fácil do que eu pensei. Sentindo a necessidade de uma mudança, eu parei no salão por um capricho, cortei meu longo cabelo até um pouco abaixo dos ombros. Quando o cabeleireiro virou a cadeira para a grande revelação, eu não consegui segurar o meu sorriso. Além de ter amado o corte, eu realmente gostei da menina que eu vi olhando para mim no espelho. — Você não amou? — Carlos, o cabeleireiro, perguntou. — Eu-eu amei mesmo. — minha voz falhou com emoção. — Oh, querida, não chore. — São lágrimas de felicidade. — balancei a cabeça de um lado para o outro, observando meus cabelos loiros moverem junto comigo. — Está tão perfeito. — Eu espero que você tenha algo especial planejado esta noite, porque, querida, você está linda. — Carlos ficou atrás de mim, falando com meu reflexo enquanto corria os dedos pelo meu cabelo, admirando seu trabalho. — Você não tem ideia do quanto eu amei. Eu não posso agradecer o suficiente. Ele balançou a cabeça e sorriu. — Você é a minha obra-prima do mês! Agora saia e almoce com um cara especial... talvez? Olhei para o relógio, vendo que estava se aproximando das duas horas da tarde. — Na verdade, o cara especial acontece de ter cinco anos de idade e precisa ser pego na escola em cerca de vinte minutos. — Então, vamos tirá-la daqui. — Carlos removeu a capa e limpou qualquer excesso de cabelo das minhas costas.

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Levantei-me e estiquei as pernas, incapaz de resistir olhar no espelho uma última vez antes de ir até o balcão para pagar. Saí do salão de beleza e a luz do sol estava brilhante, me senti fresca e nova, depois de ter me reinventado emocionalmente e, agora, fisicamente. Esperei fora da escola, e finalmente Jack saiu, adorável como sempre ao se aproximar com um sorriso de metros de largura em seu rosto. — Como foi a escola hoje? — eu perguntei, pegando a mochila dele e jogando-a sobre o ombro. — Boa. — ele olhou para mim, ainda ostentando um sorriso bonitinho. Eu estava imaginando se ele perceberia meu cabelo. Se ele percebeu, não comentou, mas não esperava que uma criança de cinco anos de idade fosse astuta para esse tipo de coisa. — Então, nós só temos que correr até o supermercado para pegar algumas coisas para o jantar, e depois vamos para casa. — Ok. — ele pegou minha mão, e caminhamos em silêncio até chegar ao mercado da esquina à direita da rua da casa de Simon. — Você sabe cozinhar? — Jack perguntou quando entramos. — Claro. — menti. Eu sabia como fazer o básico, mas depois de encontrar uma receita on-line que ensinava disfarçar alguns vegetais de Jack dentro de um prato de massa, eu decidi tentar. Nós atravessamos os pequenos corredores até que encontrei o que procurava. Os olhos de Jack se iluminaram com a visão dos cookies de dinossauros gigantes na prateleira. Peguei um e joguei-o sobre o balcão com o resto dos produtos. — É para mim? — ele sorriu, e eu assenti. — Mas papai sempre falava para a Sra. Webb que só era permitido lanches saudáveis depois da escola. — Quem é a senhora Webb? — perguntei.

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— Ela cuidava de mim depois da escola, mas ela se mudou para algum lugar longe agora que não pode me ver mais. — Bem, seu pai nunca me disse nada sobre lanches saudáveis, então vai ficar tudo bem. — eu estava bastante certa que Simon supôs que eu ia orientar Jack a ficar longe de comida não saudável, mas não estava no meu manual, portanto, estava tudo bem deixá-lo desfrutar de um cookie apenas por hoje. Jack insistiu em carregar as sacolas no curto caminho de volta para a casa. Eu me ofereci para aliviar sua carga quando o vi lutando, mas ele recusou. Ele respirava pesadamente no momento em que chegamos ao interior. Eu sabia que algumas das ofegadas eram um pouco de exagero de sua parte, mas eu entrei no jogo. — Uau, você é muito forte para conseguir carregar todas essas sacolas sozinho. — virei-me e dei uma risadinha. Ele subiu no pequeno balcão, ainda fingindo falta de ar. — Você acha que esse cookie o ajudaria a recuperar alguma energia? Ele sorriu e acenou com a cabeça ansiosamente. Tirei a caixa de leite da geladeira e abri cada porta do armário, até encontrar a que continha copos. — Aqui está. — disse, colocando o copo de leite e os biscoitos na frente dele. Eu tive muito prazer em observá-lo comer. Depois de levar Macy para uma curta caminhada para fazer suas necessidades, Jack sentou-se na mesa de café da manhã pelo resto da tarde, assistindo desenhos animados, eu o verificava a cada momento enquanto tentava me familiarizar com o local onde as coisas estavam na cozinha ao preparar o jantar. Eu fiquei muito satisfeita com o resultado do jantar, e se tivesse que adivinhar, diria que Jack também ficou, depois de limpar o prato e,

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depois, voltar para o segundo, sem saber que havia brócolis e cenouras escondidas sob a superfície. — Estava gostoso! — ele bateu levemente em sua barriga e soltou um arroto alto, fazendo nós dois quase vomitarmos de tanto rir. Depois de limpar o jantar, eu segui os passos de Jack com seu ritual de dormir. Eu preparei-lhe um banho e lavei seu cabelo, o que lhe permitiu brincar com bolhas e seus homens do exército por um tempo. — Você está pronto para sair? — perguntei, olhando para os dedos enrugados. Ele concordou e levantou-se, envolvi-o em uma toalha fofa de grandes dimensões. Ele vestiu um pijama quente e descemos as escadas para assistir televisão. Estávamos apenas começando a ver um filme da Disney quando Macy começou a latir. — Ei. — Simon disse, de pé na porta da sala, parecendo completamente exausto. — Papai! — Jack pulou do sofá para os braços de Simon. Depois de algumas dezenas de beijos e abraços, Simon colocou-o para baixo e concentrou sua atenção em mim. — Seu cabelo. Você cortou. Eu balancei a cabeça, sem saber se o olhar perplexo no rosto dele significava que ele tinha gostado ou detestado. — Está... caramba! Você está bonita. — Obrigada. — sussurrei. Jack pulou no sofá e tocou meu cabelo, me pegando de surpresa ao jogar os braços em volta de mim e me abraçar. Eu o abracei de volta desajeitadamente, mas não demorei muito para encontrar conforto em seus braços. — Papai, eu repeti duas vezes o jantar. — Jack se vangloriou.

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— Repetiu? — Simon respondeu. — Sim, ele repetiu. — acrescentei. — E guardei um prato para você também. Ele deu um sorriso hesitante. — O quê? Estava muito bom. E não, não era cachorro quente! — eu brinquei. — Acho que não estou no clima para uma aventura. — Uau, eu estou ofendida. — provoquei. — Eu estou brincando, Bree. Eu adoraria provar sua culinária. — ele respondeu enquanto afrouxava a gravata. — Estava muito bom, papai! — Jack entrou na conversa. Fomos para a cozinha e Simon pegou o prato. — Sente-se, eu esquento. — peguei o prato da sua mão e coloquei para aquecer. — Então, como foi hoje? — Simon perguntou, passando a mão pelo cabelo e bocejando. — Foi incrível. — eu sorri. — E Bree me deixou comer um cookie gigante depois da escola. — Jack deixou escapar. — O quê? Dei de ombros quando Simon virou a cabeça para mim. — Não estava no manual proibido comer cookie depois da escola. Nós dois caímos na risada ao mesmo tempo. Virando-me, peguei o prato de Simon do micro-ondas quando apitou o sinal e coloquei-o na frente dele. — Oh, eu tenho que ir – Spacemaster está começando! — Jack pulou do banco e correu para a sala de estar.

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— Então, como está? — perguntei, tomando um assento ao lado de Simon. — Está muito bom realmente. — Ha! Eu disse! E têm brócolis e cenouras escondidas aí, Jack comeu sem nenhum problema. — Não é que você é criativa? — Eu sou. — eu sorri. — Desculpe, eu não tive chance de ligar durante o dia para ver como estavam as coisas. Simplesmente não parei. Além disso, imaginei que se você tivesse alguma dúvida sobre algo que não estava no manual, você ligaria. Revirei os olhos, tentando não sorrir com o sarcasmo. — Eu recebi a sua mensagem de texto com o novo número, no entanto. Por que isso? Olhei para baixo e comecei a dobrar o guardanapo nervosamente. — Eu recebi um telefonema da minha antiga chefe hoje. Ele tomou um gole de água e seus olhos se arregalaram. — Eu não sabia como atender. Mas então me dei conta de que ela ainda tem muita peça de informação sobre a minha vida: meu número de telefone, o meu endereço, ela sabe tudo sobre a minha família. Então eu acho que mudar o número de telefone foi uma maneira de dar mais um passo para fechar esse capítulo da minha vida para sempre. Ele concordou com a cabeça. — É daí que o novo cabelo veio? Começar um novo capítulo em sua vida? — Talvez. — eu soltei uma respiração profunda e contei sobre o meu encontro com Keith naquele dia, assim como a minha quase ligação para a detetive. — Eu sei que parece loucura, mas era como se ele tivesse sido

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enviado apenas para mim. Suas palavras foram tão verdadeiras sobre reviver o passado. — Bree, eu acho ótimo você querer colocar o passado para trás, e amei mesmo o seu cabelo. — ele sorriu. — Mas... — É claro que tem um mas. Ele levantou a mão para me impedir. — Apenas me ouça, por favor? — ele persuadiu. — Tudo bem. — eu bufei. — Eu não acho que relatar o que o saco de merda fez com você é enterrar o passado, é sobre como lidar com o seu presente, e certificar-se de que ele nunca faça nada assim novamente a qualquer uma no futuro. Você precisa parar de pensar que ele tinha o direito de fazer isso com você só porque... — Porque ele me pagou para ter sexo com ele? Você pode falar, Simon. — Você não merecia isso. Ninguém merece, e ele não pode ficar impune. Eu odiava ouvir a verdade, especialmente quando estava tão em paz com minha decisão de mais cedo. — Você quer mais um pouco de água? — perguntei, querendo mudar de assunto. Ele me olhou com simpatia e acenou com a cabeça, ser pressionar mais o assunto. Jack estava dormindo no sofá quando voltamos para a sala de estar. — Bem, eu espero que tenha feito tudo certo hoje. — disse, pegando meu casaco. — Eu acho que você já dominou este trabalho. — Simon riu quando fomos para a porta.

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— Simon? — Sim? — Obrigada por não ligar ou mandar mensagens durante todo o dia para me checar. — Bree, eu falei que sentia muito sobre isso. Eu só não tive um momento livre... — Não, não, não. Estou falando sério, obrigada. Provou que você realmente confia em mim, e significa muito. — Nesse caso, de nada. Um silêncio constrangedor se passou entre nós enquanto eu estendia a mão para a maçaneta. Ele limpou a garganta e falou. — Vejo você amanhã, às oito horas? — Com certeza. — eu sabia que era errado, mas eu queria que ele me beijasse. Eu sentia falta do toque dos seus lábios contra os meus. A coisa toda era tão estranha: saímos de ter relações sexuais para a amizade, o inverso da maioria dos relacionamentos. Mas fui eu que disse que queria esquecer a nossa história e começar de novo, e ele estava apenas atendendo os meus desejos. Era, definitivamente, melhor assim. Eu preferia ter uma relação permanente na minha vida com ele, como amigo, do que ter a chance de perdê-lo para sempre como amante. Ainda assim, eu não pude resistir a dar-lhe um beijo suave na bochecha. — Boa noite, chefe. — eu brinquei, tentando aliviar o momento e provar para ele e para mim que o meu beijo era mais do que inocente. — Bons sonhos. — ele respondeu. Concentrei-me nas covinhas duplas, sabendo que se eu mantivesse aquele sorriso lindo armazenado profundamente na minha mente, com certeza teria alguns sonhos bons.

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Capítulo 27 Depois de uma semana no trabalho, eu tinha tudo sob controle. Jack e eu nos dávamos muito bem, o que tornava mil vezes mais fácil para nós dois. Simon não estava mentindo quando disse que era ocupado. Ele saía na hora que eu chegava e não retornava para casa até bem depois que Jack estava na cama na maioria das noites. Eu sabia que ele estava sob muita pressão no trabalho, mas a falta de tempo que ele tinha para o Jack ainda me entristecia. Meus dotes culinários também foram postos à prova na semana passada, e tive que admitir que fiquei completamente impressionada comigo mesma ao preparar algumas receitas novas deliciosas. Naquela noite, que estava pensando em fazer um prato com frango na esperança que Simon chegasse em casa cedo o suficiente para comer, na verdade, para jantar com Jack. Eu tinha ido ao mercado mais cedo para comprar os ingredientes, bem como os itens necessários para Jack e eu trabalharmos em nosso projeto de cupcakes assados para a festa dos namorados de Jack. Eu ria sozinha toda vez que eu pensava sobre isso. Se alguém tivesse me dito há um mês que estaria assando cupcakes com uma criança de cinco anos de idade, eu teria dito que era louco. No entanto, lá estava eu, me preparando para fazer exatamente isso, e realmente muito animada com tudo. Eu estava um pouco adiantada nas tarefas do dia, então tinha tempo antes de pegar Jack na escola para tentar encontrar o lançamento de um novo boneco herói de ação que ele queria muito, mas parecia esgotado em todos os lugares. Desde que eu não tinha namorado para dar um presente, decidi que Jack seria o meu. Eu estava pronta para entrar no interior da loja, quando parei na entrada e comecei a vasculhar a bolsa pelo meu telefone que estava tocando.

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— Ei. — respondi de imediato quando finalmente o agarrei e vi que era Simon chamando. — Bree, eu preciso te pedir um favor muito grande. — Claro, o que você precisa? — Eu tenho uma reunião de emergência amanhã de manhã. — Tudo bem... — eu não tinha certeza de como isso me afetaria, então eu o esperei elaborar pacientemente. — A reunião é em Chicago. — Ah, então… — Eu vou viajar esta noite, então preciso que você passe a noite com Jack. Eu vou para casa logo após a reunião na parte da manhã, então eu devo estar de volta em algum momento no final da tarde ou início da noite de amanhã. — Humm, sim, claro, eu acho que vamos ficar bem. Mas Jack vai ficar bem com isso? — Ele vai ficar bem. — ele desconsiderou como se não fosse grande coisa. Jack e eu ficamos muito próximos ao longo da semana passada, mas eu ainda não tinha certeza de como ele se sentiria sem o pai durante a noite. — Sim, tudo bem, então. — Eu nem sei como agradecer. — ele deu um suspiro de alívio. — Eu preciso correr para casa e arrumar algumas coisas, e vou conversar com o Jack. — Ok, tá bom. — olhei para o relógio, calculando o tempo que me restava até que eu tivesse que pegar Jack. Se eu corresse, poderia ir para o meu apartamento pegar algumas coisas e ainda voltar a tempo de buscálo. Simon e eu nos despedimos e estava no meu caminho, desejando fazer

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o taxista ir mais rápido, ou de alguma forma fazer com que o tráfego ao nosso redor desaparecesse magicamente. Eu fiz o motorista esperar por mim fora do prédio, enquanto freneticamente corria para dentro, joguei as roupas e outros itens essenciais na minha mala fiel e surrada da Louis Vuitton. Respirando fundo, verifiquei meu quarto uma última vez, para ter certeza que tinha tudo que precisava antes correr porta afora. — Merda. — gritei quando percebi que tinha esquecido de desligar a luz. Voltei para o meu quarto, desliguei o interruptor e corri para fora do apartamento e desci os degraus. — Por favor, deuses de trânsito, fique comigo agora. — sussurrei, sabendo que tinha tempo suficiente para chegar até a escola, desde que não houvesse nenhum tráfego. Rezei na parte de trás do táxi, e dei o endereço da escola de Jack ao motorista. — Você pode, por favor, tentar chegar o mais rápido possível? — acrescentei, ignorando o olhar furioso que ele me atirou através do espelho retrovisor. Felizmente, minhas preces foram ouvidas, e nós estacionamos na escola de Jack, quando o primeiro grupo de crianças estava saindo. — Aqui, fiquei com o troco. — eu joguei no banco da frente do táxi, peguei a bolsa e saltei para fora. — Jack! — gritei quando o vi sair do prédio com o mesmo sorriso cativante de sempre. — Bree, amanhã é o dia do dia dos namorados! — exclamou. — Sim, eu sei, e você sabe o que vamos fazer quando chegarmos em casa? Ele balançou a cabeça em negativa. — Fazer cupcakes para você trazer amanhã.

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Seu sorriso se alargou. — Podemos provar alguns enquanto fazemos? — Humm... talvez. — abaixei-me para fechar seu casaco, debatendo sobre contar que seu pai ia passar a noite fora. Contive-me, pensando que seria melhor deixar Simon falar a novidade para ele. — Você me ajuda a fazer o meu cartão do dia dos namorados para distribuir para a minha classe? — Certo. Você consegue fazer ou precisamos comprar algo? Ele balançou a cabeça. — A irmã Hannah disse que precisamos fazê-los. Claro que ela sim! Senhorita romance em pessoa. — Eu tenho papel, marcadores mágicos, lápis de cor e cola em casa. Eu só preciso de ajuda no corte. — Eu acho que posso te ajudar com isso. — Papai está em casa! — Jack ficou radiante ao ter um vislumbre da BMW de Simon estacionada na rua. Fiquei triste, sabendo que sua felicidade seria fugaz, uma vez que Simon desse a notícia para ele. Ele subiu as escadas de dois em dois degraus, se jogando pela porta, chamando por seu pai. — Ei, amigo! — Simon cumprimentou enquanto descia as escadas, encontrando Jack no meio do caminho, ele o levantou, e deu um abraço gigante. — Papai, você pode nos ajudar a fazer cupcakes! — Jack apoiou a cabeça no ombro de Simon com o sorriso nunca deixando seu rosto. Limpei a garganta e coloquei a mochila no chão, sem querer ver a felicidade de Jack ser tirada dela. — Ei, Jack. — Simon sentou-se no degrau inferior e colocou Jack no colo. — Eu tenho que ir para Chicago esta noite.

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— Aonde? — Jack ergueu as mãos em confusão. — É um lugar muito longe. — Quão longe? — Tem que pegar um avião para chegar lá. Jack enterrou a cabeça no ombro de Simon e fungou. — Não, papai, eu não quero que você vá. Eu quero que você fique comigo e Bree para fazer cupcakes. Meu coração doeu quando ele começou a chorar ainda mais. — Oww, Jack, não chore. — Simon colocou seus lábios na parte superior da cabeça de Jack e balançou-o para trás e para frente. — Eu estarei em casa amanhã e depois temos o fim de semana todo para ficarmos juntos. Jack levantou a cabeça por um breve momento, seu lábio inferior trêmulo. — Mas eu quero você aqui agora. — ele soluçou. Simon estava sem palavras quando ele olhou para mim. Eu levantei a sobrancelha, procurando o seu consentimento para falar com Jack, e ele balançou a cabeça em aprovação. Abaixei-me ao lado de Jack. — Jack, eu vou passar a noite com você, e eu prometo que nós vamos ter muita diversão. Lágrimas de crocodilo derramavam de seus grandes olhos azuis, passando pelos óculos e para o ombro de Simon. — Nós vamos fazer cupcakes saborosos, os cartões de Dia dos Namorados, assistir televisão, e talvez você até possa ficar até um pouco depois da hora de dormir. Então você vai acordar e ir para a escola, e quando você voltar para casa, seu pai vai estar em casa logo depois. Ele levantou a cabeça e limpou o nariz com a manga da camisa. — Você brinca na neve comigo?

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Eu juntei as sobrancelhas em confusão, porque não tinha visto qualquer neve no chão. — A irmã Hannah disse que é para ter neve amanhã. — Claro! Eu amo neve! Olha, eu estou usando minhas botas. — eu apontei para as minhas UGGs3. Ele foi se acalmando um pouco, e finalmente recuperou o fôlego. — Então, o que você acha, Jack? Você está bem com Bree passar a noite aqui com você? — Simon perguntou. Ele assentiu, aconchegando-se no peito de Simon, sem ainda estar pronto para deixá-lo ir. Simon o abraçou com força, esfregando suas costas em um movimento circular. — Posso mostrar para a Bree onde ela vai dormir? — perguntou a Jack. — Ela pode dormir no meu quarto. — Jack levantou a cabeça, animando-se um pouco. Simon soltou uma risada. — Humm, isso é realmente bom para você, mas eu acho que ela gostaria de seu próprio quarto. Você não acha? Jack deu de ombros antes de descer do colo de Simon e olhou para mim. — Podemos fazer os cupcakes agora? — e assim, ele esqueceu sua tristeza. — Claro. — eu sorrio. — Jack, deixe-me mostrar o quarto para Bree muito rapidamente. — Simon solicitou. — Tudo bem! — Jack bufou, correndo até a sala e ligando a televisão. Simon fez sinal para eu seguir seus passos, levando-me para o corredor e subindo até o topo. Meus olhos se arregalaram quando ele 3

Famosa marca de bota com pele de carneiro.

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abriu a porta para um quarto que era duas vezes o tamanho do quarto do meu apartamento. Decorado em azul-marinho e vermelho, tinha uma sensação náutica, o mobiliário envernizado de branco adornava o ambiente. — Uau, é muito bonito. — eu estava prestes a perguntar se ele mesmo tinha decorado, mas me contive. Algo me dizia que o quarto tinha um toque de uma mulher, e eu não queria abrir velhas feridas se minha suposição estivesse correta, que tinha sido decorado pela sua esposa. Larguei a bolsa, derrubando tudo de uma vez. — Posso? — eu perguntei, apontando para a cama. — Por favor. Sentei-me na cama e deitei. — Ah, sim, é confortável o suficiente. Simon deu um sorriso de menino, balançando a cabeça enquanto eu me sentei de volta. — Tendo um momento A Princesa e a Ervilha4? Levantei-me e fui até onde ele estava. Ele olhou para mim através de seus cílios longos e escuros, e sem sequer pensar me aproximei e estendi a mão para endireitar a sua gravata. — Uau, você conhece contos de fadas. Estou impressionada. — eu levantei uma sobrancelha. Algo se passou entre nós enquanto estávamos lá, apenas centímetros de distância, observando um ao outro. Ele se aproximou e meu coração disparou com o brilho familiar dos seus olhos, o mesmo que eu havia me tornado tão familiarizada em nossas tardes de quinta-feira. Há não muito tempo atrás. Seus lábios estavam tão perto dos meus, eu podia quase prová-los. Estiquei o pescoço muito ligeiramente para ajudálo, sabendo que o beijo que estávamos prestes a sucumbir poderia mudar tudo. 4

A princesa e a ervilha é um dos primeiros contos do dinamarquês Hans Christian Andersen, e inicialmente publicado em 1835.

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— Papai, há alguém batendo na porta. — Jack gritou pelas escadas, interrompendo o erro que estávamos prestes a cometer e fazendo com que nós dois nos assustássemos. — Foda-se. — Simon xingou, olhando para o relógio. — Bree, você pode atender? É apenas a Morgan, ela trabalha para mim. Vou descer em um segundo, eu tenho que terminar de arrumar a mala. — Humm... sim, com certeza. Morgan? Quem diabos é ela, e por que diabos ela ia com ele? Eu desci as escadas, esperando que ela fosse hedionda. Talvez ela fosse velha, ou talvez ela fosse uma mulher simples que nunca sonharia em dormir com o chefe. Por que diabos eu sequer me importo, de qualquer maneira? Eu não tinha direito a ele só porque tinha dormido com ele em várias ocasiões e nós quase nos beijamos apenas alguns segundos atrás. Ele era livre para fazer o que quisesse, com quem ele quisesse, incluindo a bruxa horrível do outro lado da porta. Mas quando abri a porta, soube rapidamente que estava errada. Completamente errada. A bruxa horrível que eu esperava era uma morena alta, deslumbrante e com um corpo assassino. Olhei em seus grandes olhos de corça marrom enquanto o monstro de olhos verdes dentro de mim elevava sua cabeça feia. — Oi, eu sou Morgan. Estou procurando o Simon. — Ele já vai descer. — examinei seu vestido azul royal confortavelmente

ajustado,

que

marcava

todas

as

suas

curvas

perfeitamente. — Tory Burch5? — perguntei. — Sim, como você adivinhou? — ela sorriu, revelando os dentes perfeitamente retos.

5

Tory Burch é uma estilista, empresária e filantropa de moda americana, que ganhou vários prêmios de moda por seus projetos. Em 2015, ela foi listada como a 73ª mulher mais poderosa do mundo por Forbes.

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Claro que ela não pensaria que eu conhecia estilistas, quando eu estava à sua frente vestindo jeans rasgado, uma camiseta velha, e minhas botas UGG. Mas mal ela sabia, eu tinha muitos vestidos Tory Burch no meu armário - entre muitos outros designers modernos. Ainda assim, eu não pude deixar de me sentir um pouco boneca de pano em pé ao lado da Barbie. Eu era aquela mesma garota, há pouco tempo, com o vestido de designer e lindos sapatos, isso estava em uma vida anterior. Agora, eu era apenas uma menina, que no dia a dia, preferia jeans e leggings a vestidos caros e saltos de dez centímetros. Uma menina que cozinhava o jantar toda noite, em vez de jantar em alguns dos restaurantes mais exclusivos da cidade, e que assava cupcakes para eventos na escola. Algo me dizia que Morgan não era o tipo que fazia cupcake. — E você é? — perguntou Morgan, tirando-me dos meus pensamentos. — Oh, eu sou Aubree. — ex-garota de programa de Simon. — Babá de Jack. — Oh, ok! — ela respondeu como se tivesse resolvido um caso de assassinato. — Por um momento eu pensei que você fosse a irmã de Simon, mas você não tem sotaque, então eu fiquei um pouco confusa. — ela riu. — Oh, que engraçado! — fingi rir de volta. Simon tinha uma irmã? De repente, Morgan sabia muito mais sobre ele do que eu. Seus olhos se iluminaram quando ela olhou por mim e para Simon, que estava descendo as escadas. — Ei, olá! — Sua voz subiu uma oitava, e meu estômago revirou. — O carro está esperando para nos levar ao aeroporto. — Ok, eu vou sair apenas em um segundo. — Simon não foi afetado por seu flerte. — Jack, eu estou me preparando para ir. — Simon gritou para a sala.

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Jack hesitantemente saiu para o hall de entrada com Macy bem atrás dele. — Ah não! Eu não gosto de cães! — Morgan reclamou se afastando de Macy quando ela tentou cumprimentá-la. — Bem, isso explica muita coisa. — eu murmurei sob a respiração, bastante certa de que ninguém ouvisse, mas quando Simon arregalou os olhos e me deu um sorriso diabólico eu soube que estava errada naquela suposição. — Morgan, por que você não vai e me espera no carro. Eu já estou saindo. — Simon agarrou a coleira de Macy, puxando-a para longe de Morgan, que se recusou até mesmo a dar-lhe uma palmadinha de carinho na cabeça. — Ok. Foi bom conhecê-la, sinto muito, como é mesmo o seu nome? — Aubree. — É isso aí! — ela apontou para mim, soltando uma risada falsa, com excesso de zelo. — Não sabia que meu nome era tão engraçado. — eu zombei quando ela saiu pela porta. — Bree? Seja legal. — Simon levantou uma sobrancelha. — O quê? Sou sempre legal. — fingi inocência, certa de que ele tinha notado o meu ciúme. — Deixei algum dinheiro no balcão da cozinha, bem como o cartão de seguro médico de Jack. — Meu Deus! Por que eu preciso... Ele levantou a mão para me impedir. — Só no caso de uma emergência. — ele tentou parar meu pânico logo ali, mas já era tarde demais. Minha mente já estava criando todos os piores cenários

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possíveis. — Bree, pare. — era incrível como ele podia ler meus pensamentos. — Ele vai ficar bem. Jack estava se escondendo atrás de mim, pressionando seu rosto na parte de trás da minha perna, recusando-se a olhar para Simon. — Jack, eu, pelo menos ganho, um abraço de adeus? — Simon perguntou. — Não! — Jack fez beicinho. — Eu não quero que você vá, e eu estou bravo com você por me deixar! — Jack, vamos lá. Eu realmente tenho que ir. — Simon persuadiu. Tentei sair do caminho, mas Jack ficou atrás de mim, continuando a se esconder de Simon. — Tudo bem, Jack, eu acho que eu vou te ver amanhã, então. — senti a agitação na voz de Simon. — Jack, dê um abraço no seu pai antes de ele sair. — eu me virei e ele permitiu-me pegá-lo. Para alguém que parecia tão pequeno, ele era muito pesado. Antes que ele pudesse escapar, eu o entreguei para Simon. Jack lutou para descer, mas não antes de Simon dar-lhe um abraço e um beijo. — Isso foi trapaça de vocês dois! — Jack saiu correndo, virando-se para dar a última palavra. — E não vamos guardar cupcakes para você! Eu levantei uma sobrancelha e encolhi os ombros. — Eu acho que você ouviu... sem cupcakes para você! — nós dois explodimos em uma gargalhada. — Eu vou ficar com o telefone o tempo todo, é só ligar ou enviar mensagem se você precisar de mim. — Ok! — Eu te vejo amanhã, Bree.

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Eu balancei a cabeça, olhando-o sair, com foco no sedan preto com Morgan na parte de trás. Simon desceu os degraus e entrou ao lado dela, e em questão de segundos eles se foram. Eu fiquei com a porta aberta durante algum tempo, olhando para a rua, perguntando-me se a relação deles ia além de um grupo de trabalho, e se eles dormiriam juntos naquela noite. Meu estômago deu um nó e meu coração doeu só de pensar nisso. — Vamos, Bree, vamos fazer os cupcakes? — sorte minha que Jack não me deu muito tempo para me torturar com esse pensamento. Um olhar para o rosto bonitinho e qualquer pensamento de Morgan e Simon foram colocados para descansar... pelo menos naquele momento, de qualquer maneira.

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Capítulo 28 Eu percebi rapidamente que eu peguei muita comida para o jantar quando fui ao mercado mais cedo. Mas, na hora, eu pensei que Simon comeria com a gente. Então, em vez de desperdiçar comida perfeitamente boa, eu decidi convidar Hannah para jantar. Foi uma ótima noite. A presença de Hannah curou os olhos azuis de Jack da falta de seu pai. Ele achou muito legal ter a professora no jantar, e eu fiquei feliz por vê-lo rindo a noite toda. Eu até me ofereci a para ajudá-la com os cartões de Dia dos Namorados que ela estava fazendo. Hannah e eu acabamos a primeira garrafa de vinho que ela tinha trazido durante o jantar. Depois que Jack foi dormir, nós abrimos a segunda garrafa, e eu estava começando a sentir subir para a minha cabeça, mas não permiti que aquilo me parasse. — Então, como está indo o livro? — perguntei à Hannah. Ela soltou um ruído não identificável que se assemelhou a uma risadinha. Meus olhos se arregalaram com o som que saiu dela, fazendome vomitar de tanto rir. Obviamente, Hannah estava sentindo os efeitos do vinho também. — Eu estou na... — ela se aproximou e sussurrou. — ... cena de s-e-x-o. — Por que você está sussurrando? — nós duas começamos a cacarejar mais uma vez. Peguei o controle remoto e liguei a televisão, e passei pelos canais. — O que você está fazendo? — Hannah questionou. — Tentando encontrar um filme sujo. — Oh não, não, não! — ela cobriu os olhos e sacudiu a cabeça. — Meu Deus! Você é demais! — eu balancei a cabeça, parando em uma reprise de Friends. — É seguro abrir os olhos. Ela descobriu-os lentamente, e eu não tinha certeza se seu rosto estava em um tom claro de vermelho, por causa do vinho ou do embaraço. 202


— Ok, eu vou te dar um guia para escrever a cena. Quem é o ator mais sexy que você conhece? Ela encolheu os ombros. — Eu não sei. — Claro que sabe... Matthew McConaughey? — Ele é agradável de olhar, mas, ultimamente, eu estou preferindo Ryan Gosling. — ela corou. — Ah!! — exclamei, levantando a minha mão para ela para me dar um high-five enquanto nós bebíamos mais um gole de vinho. — Ok, então faz assim. Assista a um filme com ele onde ele faz s-e-x-o. — eu sussurrei, zombando dela. Ela me deu um tapa no braço e riu. — Vamos ver, tem Diário de uma paixão, Amor a toda prova... O seu trabalho de casa é assistir a um destes filmes e escrever sobre ele. — eu falei. No momento em que a segunda garrafa de vinho foi esvaziada, Hannah e eu estávamos bêbadas. — Oh meu Deus. Eu preciso ir. — Hannah olhou para o relógio. — Você vai ter problemas com a freira mãe? — perguntei e nós duas nos curvamos, rimos até as lágrimas escorrerem pelos nossos rostos. — A freira mãe? — Hannah repetiu, quase incapaz de dizer as palavras antes de ter outro ataque de riso. Limpei os olhos para tentar ver o nome piscando em meu telefone tocando na mesa de centro. — Oops... shhh... É o chefe. Nós continuamos, mais uma vez como duas estudantes enquanto eu tentava atender a chamada de Simon. — Sim, eu posso te ajudar? Hannah escondeu o rosto entre as mãos, tentando diminuir o riso. — Bree?

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— Sim, é ela. Como posso ser útil para você, senhor? — Você está bem? — Eu estou perfeitamente bem. Na verdade, eu estou melhor do que bem, apenas discutindo s-e-x-o e caras quentes com a irmã Hannah. — Bree! — Hannah gritou. Seu rosto passou de vermelho para um tom claro de roxo. — A irmã Hannah? Quer dizer a professora de Jack? — Simon perguntou. — Exatamente quem eu quero dizer. — Humm... ok. Eu só liguei para ver se Jack dormiu. — Jack está perfeitamente bem também. Dormindo e feliz como um molusco. — Oh, ok. Bom. — E quanto a você, Sr. Grace? Você está se preparando para ir dormir? — Ah, não no momento, mas logo. — Ok, e apenas por curiosidade, você vai dormir sozinho ou a boneca Barbie que odeia cães vai se juntar a você? O queixo de Hannah caiu, e ela balançou a cabeça, enquanto Simon soltou uma risada alta do outro lado do telefone. — Eu acho que talvez alguém bebeu um pouco demais e vai se arrepender profundamente na parte da manhã. Vejo você amanhã, Bree. — Claro que sim, chefe! — Oh, Bree, uma última coisa antes de eu ir. — O quê? — Você falou para irmã Hannah que eu sou o cara mais gostoso que você conhece?

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Agora era eu, cujo rosto estava queimando de vergonha. — Nos seus sonhos! — eu menti, fazendo-o rir ainda mais quando desliguei o telefone. *** O som penetrante do meu alarme foi como unhas em um quadronegro. Minha cabeça latejava e meu estômago revirava. Fazia muito tempo que não bebia tanto, e esta manhã eu estava sentindo o peso disso. Depois de tatear ao redor pelo meu telefone na mesa de cabeceira, eu finalmente encontrei-o e consegui desligar o barulho terrível. — Bree, Bree, acorde, é Dia dos Namorados! — Jack saltou sobre a cama, e meu estômago apertou. Até a voz alegre e doce dele me atingia esta manhã. Sentei lentamente e esfreguei os olhos. Por que diabos eu bebi tanto na noite anterior? Eu sabia como vinho tinto me afetava. Eu coloquei um pé no chão, dando o primeiro passo corajoso para fora da cama. — Você está engraçada. — Jack riu quando eu tropecei. — Obrigada. — eu sussurrei. Eu estaria nova em um momento... depois que eu tomasse cerca de dez xícaras de café. Eu não perdi tempo para descer os degraus e entrar na cozinha. — Jack! Jack! — gritei, em pânico, quando percorri todos os armários. — Sim? Eu pulei quando o encontrei de pé bem atrás de mim, tão calmo como um pepino. — Você sabe onde fica o café? Ele apontou para a cafeteira. Olhei para a direita dela para encontrar o café que estava lá durante todo o tempo durante a minha busca frenética. — Onde você deixou ontem, lembra, você tomou uma xícara quando estávamos fazendo os cupcakes.

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— Sim, isso mesmo. — minha mente estava uma peneira completa esta manhã. — Você é meu herói, Jack! — eu o elogiei e derramei a água na cafeteira. Esperar o café ficar pronto demorou uma eternidade, mas quando acabou, a primeira xícara pareceu que eu tinha morrido e ido para o céu, enquanto ele descia pela minha garganta. De repente, eu estava começando a me sentir um pouco mais humana novamente. — Ok, Jack, precisamos vesti-lo e aprontar para o café da manhã. — eu indiquei logo que o café começou a fazer efeito. Eu podia fazer este trabalho facilmente, mesmo de ressaca. — Oh, eu posso me vestir. — Jack disse com orgulho. — Ok. Você tem certeza? Ele assentiu. Eu não ia interrogá-lo mais; qualquer coisa que ele fizesse para ajudar a manhã ser um pouco mais suave, eu estava grata. Ele subiu as escadas e entrou no quarto enquanto eu preparava o resto do café da manhã. Eu subi e coloquei a cabeça em seu quarto para encontrá-lo completamente vestido e pronto. — Bom trabalho, Jack! Por que você não assiste a alguns desenhos animados enquanto eu tomo um banho rápido, e desço para fazer o café da manhã. — Ok! — exclamou, pulando da cama e voando para baixo. Se eu tivesse um pouco da energia dele naquela manhã, eu estaria em boa forma. Entrei no quarto e me sentei na cama. Vasculhei a bolsa pelas minhas roupas, peguei o telefone e vi uma mensagem texto do Simon. Simon: Ressaca? O quê? Como diabos ele sabia? Eu rolei para cima para ver se eu tinha mandado uma mensagem bêbada na noite anterior, mas a última mensagem era de dois dias antes, falando sobre o Jack. Ele tinha câmeras, ou algo assim? Olhei em volta. A única outra coisa que eu conseguia

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pensar era... eu para as chamadas recentes e suspirei ao ver um telefonema de quatro minutos e três segundos de Simon na noite anterior, 22:02 da noite, no alto da minha embriaguez e de Hannah. O problema era que eu não me lembrava de nada. Eu enterrei o rosto nas mãos, perguntando-me o que eu tinha dito a ele. Obviamente, deve ter sido algo fora do normal para ele perceber que eu estava bêbada. Eu decidi fingir de boba na esperança de ele me dar algumas pistas. Eu: Não. Por quê? — Responde. Responde. Responde. — eu falei para o telefone. Meu coração disparou quando eu vi os pequenos pontos aparecerem, sinalizando que ele estava respondendo à mensagem. — Vamos! — minha paciência estava esgotando. Simon: Porque é evidente que você tinha que estar bêbada para dizer que eu não sou o cara mais gostoso que você conhece. Tem Tylenol no armário de remédios no banheiro do corredor. Espero que você se sinta bem logo! Te vejo mais tarde. — O quê? — eu olhei para o meu telefone, pulando quando chegou nova mensagem. Simon: Feliz Dia dos Namorados! Eu balancei a cabeça, completamente arrependida de ter bebido muito. Eu podia lidar com a ressaca, mas não saber o que eu tinha dito para o Simon ia me enlouquecer. Mas, por enquanto, eu não podia ficar divagando sobre isso; eu tinha muita coisa para fazer e pouco tempo. *** Eu entrei com Jack e seus cupcakes e permaneci na sala de aula, esperando Hannah terminar de conversar com um dos pais. Minha agitação crescia a cada minuto. Aquela mulher não sabia que minha crise era muito mais importante do que a alergia estúpida ao trigo de sua

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filha? — Uau, parece que você está se sentindo como eu. — eu disse para a Hannah quando ela se concentrou em mim. — Obrigada, e como exatamente você está se sentindo? Como se tivesse sido atropelada por um trem? — Sim, isso praticamente resume tudo. — Eu não sei como eu vou passar por hoje, por esta festa. — ela lamentou. — Não fique com raiva de mim, irmã, você que levou o vinho. Ela colocou o dedo indicador sobre os lábios e olhou ao redor antes de sussurrar. — Bree, fale baixo! — Você pode relaxar? Mas eu tenho uma pergunta sobre a noite passada. — Oh, Deus, minha cabeça dói só de pensar nisso. — ela moveu as mãos até as têmporas. — Você ouviu qualquer coisa da minha conversa com Simon quando ele ligou? Ela assentiu. — Ok, você pode me dizer o que eu disse para ele? — Algo sobre ele dormir com uma boneca Barbie que odeia cachorro. Meu rosto aqueceu e o chão começou a balançar debaixo de mim. — Por favor, me diga que eu não fiz isso. — Ok, você não fez. Mas na verdade fez. — Irmã Hannah, irmã Hannah! — um dos garotos chamou. — E assim começa! — ela suspirou. — Eu falo com você mais tarde, Bree.

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O que diabos eu estava pensando? Oh sim, está certo, eu não estava pensando. Eu estava bêbada demais para pensar. Então, já que eu não tinha qualquer lembrança de que isso aconteceu, não aconteceu. Essa seria a minha história e eu ia me prender a ela.

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Capítulo 29 Simon ligou no início do dia para me informar que seu voo tinha sido cancelado devido ao mau tempo em Chicago. Ele estava tentando pegar outro, mas eu estava bastante certa de que ele não teria muita sorte com isso, quando a nevasca prevista tinha começado a cair do céu muito forte. Que romântico, em uma nevasca com Morgan no Dia dos Namorados! Eu ficava irritada só de pensar nisso. Então, faria o possível para não pensar, concentraria a minha atenção no meu Namorado Jack. Nós tínhamos acabado de terminar de comer a nossa pizza em forma de coração, acabamos com alguns cupcakes que sobraram na sobremesa, e agora estávamos nos acomodando para assistir um pouco de televisão. — Bree, podemos assistir Scooby-Doo? — perguntou Jack. — Humm... — Eu pensei por um momento, entrei na Netflix e digitei as informações na busca. Eu passei pela seleção de desenhos animados, parando quando eu encontrei Scooby-Doo. — Oba! — Jack exclamou quando o tema de abertura começou a tocar. Enquanto Jack estava absorto no episódio, eu levei Macy uma última vez para fora. Puxei meu capuz quando os flocos molhados caíram do céu. Já havia uns bons seis centímetros no chão, e pela intensidade da neve, parecia que ia cair muito mais. Esperei a Macy e voltei para dentro, esfreguei as mãos, tentando aquecer quando entrei na sala de estar, tendo o prazer de encontrar Jack na mesma posição em que eu o deixei. — Jack, seu pai ligou. — eu disse enquanto eu olhava para o meu telefone que estava no sofá ao lado dele. Ele estava perdido na resolução do mais recente mistério do Scooby e não respondeu. Eu escutei o recado de voz que Simon havia deixado, e

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assim como eu suspeitava, ele não teve muita sorte em encontrar um voo. O máximo que ele conseguiria era sair de Chicago ao meio-dia do dia seguinte. Esperei até o Scooby acabar para dar a notícia para Jack, que lidou com isso muito bem. Depois eu permiti que ele ficasse até um pouco depois da hora de dormir, fomos lá para cima e eu o aprontei para a cama. — Bree, você pode ler uma história? — perguntou ele ao engatinhar para debaixo das cobertas. Como se eu pudesse dizer não a essa carinha doce. Sentei-me ao lado dele e abri o livro que ele escolheu. — Entre sob os cobertores. — ele pediu. Eu deslizei sobre eles e Macy pulou na parte inferior da cama. Apenas algumas páginas e os olhos de Jack estavam fechados. Eu continuei a ler, e foram apenas mais algumas páginas até que meus olhos fechassem também. *** — Bree, Bree. — Jack sussurrou enquanto abria os olhos para o sol brilhante da manhã que entrava pela janela do quarto de Jack. — Levantese! Olhe para toda a neve lá fora! Podemos ir lá fora e brincar? Esfreguei os olhos e bocejei, tomando conhecimento do tempo. — Jack, são apenas sete da manhã. Eu acho que precisamos esperar até que esquente um pouco. Ele soltou um suspiro derrotado e correu de volta para a janela. Eu estiquei o corpo e saí da cama, fui ao banheiro para jogar um pouco de água fria no rosto antes de ir lá embaixo para a minha primeira xícara de energia líquida. Liguei a cafeteira e o rádio na minha tentativa de despertar um pouco mais. — Bree, eu posso comer um cupcake no café da manhã? — Jack perguntou ao entrar na cozinha.

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Coloquei a mão no meu quadril, imersa em pensamentos. — Tudo bem, mas tem que ser o nosso segredo. Seu pai me mataria se ele soubesse que eu deixei você comer doces no café da manhã. — Prometo de dedinho! — Jack bateu os cílios para mim. Ele sentou-se, apoiou-se nos joelhos e os cotovelos sobre a mesa. — Oh! Eu amo essa música! — eu parei de repente e aumentei o rádio quando ‗One Fine Day‘ começou a tocar. Jack revirou os olhos, ainda esperando pacientemente pelo seu cupcake enquanto eu cantava junto com a música e dançava até a geladeira para pegar o leite. Coloquei o cupcake e um copo de leite na frente dele, ainda cantando a melodia, desta vez diretamente para ele, erguendo mais a voz quando ele começou a rir. — Vamos, Jack, dança comigo! Ele balançou a cabeça e me deu um sorriso tímido, dando uma mordida enorme no cupcake. — Eu deixo você comer dois cupcakes no café da manhã. Aquele pequeno suborno foi suficiente; ele estava fora de sua cadeira e ao meu lado em um flash. Peguei suas mãos e giramos na batida da música, rindo juntos com a nossa tolice. Jack tentou recuperar o fôlego quando a música chegou ao fim, nós dois assustamos quando olhamos para cima e encontramos Simon de pé na porta da cozinha, balançando a cabeça e rindo. Meu rosto esquentou em constrangimento quando limpei a garganta e consegui dizer: — Simon, quando você chegou em casa? — eu tentei ignorar o fato de que ele estava seriamente bonito, usando camisa de flanela e uma camisa térmica perfeitamente ajustada, seu cabelo ondulado um pouco desgrenhado. Seria possível que ele fosse ainda mais sexy com óculos? Eu nunca tinha o visto usá-los antes, mas o a aparência de estudioso sexy, certamente fez meu estômago dar cambalhotas.

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— Cerca de três horas da manhã. — Oh, bem, você não... — Eu estava na espera e consegui pegar o voo. Você e Jack estavam dormindo, então eu não quis te acordar. Eu balancei a cabeça, virando-me para ver por que Jack estava tão tranquilo. Minha mão cobriu minha boca para abafar o meu riso quando Jack empurrou um cupcake inteiro na boca. — Oi, papai. — as palavras de Jack foram quase inaudíveis. — Jack, o que você está comendo? — Simon perguntou. — Oh, humm... É meio que minha culpa. Eu disse que ele podia comer outro cupcake se ele dançasse comigo. — eu falei. — Outro cupcake? — Simon levantou uma sobrancelha para mim. Eu assenti. — Sim... Eu - eu sou uma boba para o musical Beauty, então sempre que ouço uma música de Carole King, eu meio que perco o controle. É muito bom, você já viu? — mudei de assunto, tentando fazê-lo esquecer os cupcakes. — Não, eu não vi. Meu

pequeno

estratagema

não

pareceu

funcionar

como

planejado. Ele olhou para Jack, que tinha feito uma bagunça com a crosta do doce. — Jack, vá lavar o rosto e as mãos. Jack pulou da cadeira e se dirigiu ao banheiro, deixando-me sozinha com Simon. — Desculpe, mas às vezes eu simplesmente não consigo resistir quando ele bate aqueles pequenos cílios para mim. — Bree, você tem que aprender a dizer não às vezes. Virei-me e tomei outro gole de meu café. — Bem, acho que já que você chegou em casa, eu vou embora.

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— Você não pode pelo menos ficar e tomar um café comigo? — Depende. — Do quê? — Eu vou ter problemas se eu comer um cupcake no café da manhã? Ele se aproximou, ficou a apenas alguns centímetros, tão, tão perto que eu podia sentir o calor vindo de seu corpo. Eu me apoiei no balcão, apenas com as palmas das mãos apoiadas nos armários superiores acima da minha cabeça. Ele se inclinou para baixo, movendo seus deliciosos lábios mais perto enquanto eu esperava em antecipação para senti-los nos meus. Minha respiração falhou e o coração disparou. Por que ele tinha esse efeito sobre mim cada vez que chegava perto? — Bree, quando é que vamos brincar na neve? — Jack interrompeu, chegando do nada. Eu saí debaixo de Simon e disfarcei. Simon recuperou bem, fingindo que estava pegando uma xícara de café no gabinete. — Oh... humm. — Por favor, Bree. Você prometeu! — Jack implorou. — Sim, Bree, você prometeu. — Simon brincou. — Ok, claro. — eu cedi, incapaz de resistir a qualquer um deles. — Oba! — Jack saltou para cima e para baixo. — Eu humm... só quero tomar um banho rápido. — eu olhei para Simon e desejei que não tivesse. O sorriso diabólico em seu rosto dizia que eu precisava de um banho frio dessa vez. *** — Hoje foi a primeira vez que brinquei na neve. — eu confessei ao Simon depois de um dia superdivertido construindo bonecos de neve e fazendo guerra de bolas de neve no parque. Assim como eu tinha sido

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coagida a brincar na neve, não pude resistir ao Simon e Jack me convidando para ficar para o jantar. Eu sabia que deveria ter saído assim que comemos, mas não saí. Depois, a voz pequena dentro de mim me disse para ir quando Jack e Macy desmaiaram e Simon levou Jack para a cama, mas lá estava eu, sentada ao lado de Simon com um copo de vinho na mão. — Uau, você não saía tanto quando criança, não é? — Simon brincou. Tomei outro gole de vinho e ri. — Só nunca teve neve, onde eu cresci. Seus olhos se arregalaram de surpresa. — Eu sei, louco, certo? Tipo, como crescer e nunca ter assistido Scooby-Doo, ou sem um cachorro. — eu sorri. — Oh. Acabei de me lembrar algo. Eu já volto. — Simon pulou do sofá e subiu as escadas, voltando de imediato com as mãos atrás das costas. Eu levantei as sobrancelhas quando ele se aproximou de mim, quase com medo de ver o que ele estava escondendo atrás dele. — O que você tem aí? — eu fui cautelosa ao perguntar, incapaz de esconder o sorriso quando ele revelou o cachorro de pelúcia que estava segurando na mão com uma orelha caída e uma orelha em pé para cima. — Oh meu Deus! — eu cobri a boca em choque. — É o Toby! — Sim, bem, não exatamente. Este cão tem olhos iguais. — Como foi que você se lembrou? — eu perguntei enquanto examinava a bola adorável de pelo, e Simon se sentava ao meu lado novamente no sofá. — Com certeza é o melhor presente que eu já ganhei. — sem nem pensar, eu inclinei-me e dei um beijo suave na bochecha dele. — Muito obrigada. — Você é realmente fácil de agradar, não é?

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Dei de ombros. — Eu não sei. Acontece que conheço as coisas que eu gosto e que tenho paixão. Ele assentiu e se aproximou. — Acontece de eu ser uma delas? — quando as pontas dos dedos acariciaram o lado do meu rosto, eu tive que desviar o olhar. Ele redirecionou a minha atenção, inclinando meu queixo e me forçando a olhar em seus olhos. — Eu sou? — ele perguntou mais uma vez. — Sim. — eu sussurrei, finalmente admitindo para ele e para mim. Aqueles lábios que eu estive para sentir por dias, finalmente, estavam pressionados nos meus. Meu corpo despertou quando se afundou no sofá e sua boca se moveu para o meu pescoço. — Simon. — eu encontrei a minha voz, agarrando os lados de seu rosto quando ele olhou para mim com aqueles belos olhos, tão cheios de paixão. — Bree. Por favor, não me diga que você vai dizer o que penso. — havia uma pitada de frustração em sua voz. Eu balancei a cabeça. — Eu sei que pode soar piegas, mas eu queria que você... — mordi o lábio. — Você quer o quê? — Lembra quando eu disse que queria esquecer que tivemos uma história sexual juntos? Ele concordou, e eu continuei. — Eu quero esquecer que tive um passado sexual com alguém. — Ah, então você quer que eu seja o seu primeiro? — um sorriso triunfante se espalhou pelo seu rosto. Eu sorri de volta. — Sim. — Eu acho que posso lidar com isso. Deixei escapar um suspiro de alívio diante de nossos lábios se encontrando mais uma vez. Havia uma ternura em seu beijo que eu nunca

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tinha sentido antes com ele. Ele me pegou de surpresa ao se levantar e estender a mão para o meu lado. — Eu acho que você não quer a sua primeira vez no chão da sala. — ele explicou, percebendo minha confusão. Eu sorri, amando que ele estivesse levando o meu pedido tão a sério. Levantei-me, peguei a mão dele, e segui-o até as escadas e para o seu quarto. Naquela noite, eu realmente tive a sensação de fazer amor pela primeira vez, e eu não podia imaginar dar esse passo com ninguém, além de Simon. Ele foi atencioso e gentil e ainda conseguiu manter aquele lado sexy para ele, fazendo-me sentir como se eu fosse seu único bem. Nós tínhamos percorrido este caminho antes, mas naquele momento, quando nos perdemos um no outro, nós exploramos um território desconhecido. Nossos corpos se moviam em perfeita sincronia, criando um prazer desconhecido, que nenhum de nós nunca tinha experimentado antes, enquanto as mãos e os lábios viajavam por cada polegada do meu corpo, despertando partes que estavam adormecidas há muito tempo. Fizemos amor até que ficamos ensopados de suor, deitados nos braços um do outro, embebidos em puro contentamento. Simon estava dormindo com os braços envoltos em torno de mim, e eu ainda estava acordada, deleitando-me com ainda com a sensação do meu corpo, questionando os meus sentimentos como sempre. Eu nunca senti por alguém o que sentia por Simon, nem mesmo por Nathan. Talvez fosse porque Simon tinha visto o lado danificado em mim e ainda assim me quis. Talvez porque o que Simon e eu tínhamos fosse maduro, e o que Nathan e eu tivemos tivesse sido um amor jovem. Independentemente do que fosse, eu sabia que estava errada ao comparar os dois, mas eles eram os dois únicos homens por quem eu já tinha nutrido tais sentimentos intensos. Parte de mim se perguntava se eu estava me preparando para o desastre com Simon. E se eu estava me apaixonando por alguém que não sentia o mesmo por mim, e se eu tivesse colocando em risco todo o relacionamento estranho que tínhamos ao dormir com ele? E se Simon

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ainda me visse como uma garota de programa, apenas uma que ele já não tinha de pagar por sexo? Minha mente não conseguia absorver todas as perguntas, tornando impossível me acalmar e dormir um pouco. Eu levantei o braço dele do meu corpo e saí da cama, vesti a minha camiseta e calcinha. Fui até a janela e olhei para a rua ao luar. Outra camada de flocos de neve estava caindo do céu, formando uma nova cobertura fresca da neve. Sem pegadas, sem sujeira, apenas pureza em todos os lugares que você olhasse. Eu descansei a testa na vidraça fria e respirei fundo. Eu tinha permitido que Simon fizesse as primeiras pegadas na minha neve recém caída mais cedo naquela noite, e eu não me arrependia. Não importava o que se seria de ‗‘nós‘‘, eu nunca me arrependeria por permitir que ele entrasse em meu coração. — O que você está fazendo? — Simon levantou a cabeça, com os olhos semiabertos. — Apenas olhando para a neve. — eu voltei minha atenção para fora da janela. — É tão linda. — eu sussurrei. Simon levantou-se e ficou atrás de mim, envolvendo-me com os braços. Coloquei a cabeça em seu peito, saboreando o calor de seu corpo pressionado contra o meu. — Não tão bonita como você. — ele sussurrou em meu ouvido. Simon tinha uma maneira de não só me fazer acreditar em suas palavras, mas, na verdade, me fazer senti-las. Eu era bonita quando eu estava com ele. Suas mãos quentes e suaves moveram-se sob a minha camiseta e meus seios nus. Fechei os olhos, muito à vontade no momento que seus lábios desceram pelo meu pescoço. Eu levantei os braços e ele puxou a camiseta sobre a minha cabeça, me virando para encará-lo. Com o meu peito nu pressionado contra o dele, eu peguei os lados de seu rosto, e nas pontas dos pés beijei-os. — Você é minha neve recém caída, Simon. Ele olhou para mim confuso.

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Meus polegares seguraram os lados de seu rosto, e o brilho da lua fornecia luz suficiente para distinguir seus traços perfeitos. — Cada neve recém caída é uma segunda chance para fazer a coisa certa. Obrigada por me dar a chance de provar não só para você, mas para mim, que eu sou mais do que um dia pensei que fosse. — Você é muito mais. — sua voz estava baixa e rouca. — Deus, eu não acho que é possível querer você mais do que já quero, mas você nunca deixa de me surpreender. — Quer voltar para a cama? — perguntei. — Depende. — Do quê? — Vamos voltar para a cama ou voltar a dormir? — Eu não sei. Por que você não me conta? Um sorriso diabólico surgiu em seu rosto. Ele me pegou e me levou para a cama, colocando-me para baixo e pairando sobre mim. Ele prendeu minhas mãos sobre a cabeça, e seus lábios desceram sobre os meus, a neve dentro do meu coração estava caindo mais uma vez.

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Capítulo 30 Por mais que eu quisesse passar o dia na cama com Simon, forceime a levantar e sair cedo. Não queria perguntas desnecessárias de Jack caso ele percebesse que eu tinha passado a noite novamente, especialmente, na cama do pai dele. Era uma tortura, deixar o calor dos braços de Simon e sair para o frio congelante e ir para casa, mas eu sabia que a alternativa era plantar as sementes na jovem e impressionável mente de Jack. Depois de um longo banho quente e uma xícara de café, eu fiquei feliz por ter enfrentado o frio tão cedo. Eu estava descansando no sofá bom e confortável, e não tinha planos de me movimentar pelo estante do dia. Hannah não poderia ir para a nossa reunião de tarde, e eu estava perfeitamente bem com isso. Eu só queria relaxar com meu cobertor e assistir a algum filme de mulherzinha na televisão. — Droga! — sussurrei para a batida na minha porta assim que eu estava concentrando em um filme. Com cautela me levantei, pensando quem poderia ser, escancarando a porta imediatamente quando olhei pelo olho mágico e vi Jess. — Eu sei… sou péssima! — pedi desculpas imediatamente por não retornar suas duas últimas ligações. — Obrigada, você me salvou o tempo de ter que dizer pessoalmente. — Jess entrou, e se acomodou no sofá. — Eu tenho estado superocupada. — Com o quê? Eu pensei que você estivesse com um monte de tempo livre agora que está desempregada. Eu franzi as sobrancelhas em confusão. Eu não falo com Jess há semanas, de modo que ela não tinha ideia do que tinha acontecido recentemente em minha vida, ou pelo menos achava que não. — Eu conversei com a Margo.

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— Você o quê? Por que você faria isso depois que ela tentou ferrar você? — de repente, eu fiquei na defensiva, e Jess foi rapidamente se tornando uma das pessoas do meu passado que eu logo esqueceria. Ela levantou uma sobrancelha. — Então, parece que meu valor triplicou depois que você deixou seu ídolo amado. Ela realmente me ligou para rastejar. — um sorriso satisfeito se estendeu pelo rosto de Jess. — E espero que você tenha dito a ela para onde ir. Ela deu de ombros. Eu balancei a cabeça em descrença. — Jess, não faça isso. Não ligue para o quanto ela está oferecendo, não volte para lá. — Oh meu Deus, Bree, quer relaxar? Não é como se eu tivesse mais de uma opção. Não tenho exatamente clientes batendo em minha porta. — Então encontre outro trabalho, mas não volte a trabalhar para ela. Por favor, Jess. — eu implorei. — Nossa, Bree. Qual é o grande problema? Só porque você decidiu se separar de Margo por diferenças mútuas, não tente me convencer. — Diferenças mútuas? Ela contou o que aconteceu, Jess? — Sim, ela disse que vocês tiveram uma diferença de opinião sobre um cliente. Eu balancei a cabeça, tentando conter minha raiva. — Não entendo, Bree. Por que todo esse ódio por Margo de repente? Ela era a sua mentora e você era a protegida dela. — Não. Ela não era. Ela não era nada além de uma cadela doentia, que fez uma lavagem cerebral em mim para seu próprio benefício. Os olhos de Jess se arregalaram surpresos. Foi a primeira vez que ela me ouviu falar mal da Margo. — Eu fui para o hospital com um ombro deslocado e marcas pretas e azuis cobrindo meu rosto, graças a ela.

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— O que aconteceu? — o tom prosaico de Jess mudou para preocupação. — Ela me forçou a um cliente, um cliente que ela sabia que tinha um histórico de violência. Ele ficou bêbado, me deu porrada, e depois tentou me estuprar. Ela pegou minha mão e apertou-a delicadamente. — Oh meu Deus, Bree, eu sinto muito, eu não tinha ideia. — Agora você tem. Então, por favor, Jess, faça o que quiser, mas não volte para aquela mulher horrível. Não me importo se você não puder mais pagar o seu lugar, venha morar comigo. — Oh, ok, então os nossos traseiros desempregados poderiam comer pão e água juntos. — ela provocou. — Na verdade, eu não estou desempregada. O queixo de Jess caiu. — Mesmo? Você está trabalhando com outra agência? — Não. Parei com essa linha de trabalho. — Então, o que diabos você está fazendo? Eu hesitei por um breve segundo. — Eu sou babá. Ela gargalhou e minha agitação começou a aumentar, sem encontrar muito humor nisso tudo. — Me desculpe, Bree, mas você não tem um osso maternal no corpo. Quem, em um estado de espírito normal, permitiria que você cuidasse de sua criança? — Quer saber, simplesmente esquece! — eu a dispensei, peguei o controle remoto e aumentei o volume da TV. — Bree, eu sinto muito. Realmente, eu quero saber de tudo. — ela finalmente conseguiu controlar a risada.

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— É apenas um amigo meu que precisava de ajuda para cuidar do filho. — Um amigo? — Sim. — Eu balancei a cabeça. — Engraçado, porque eu não me lembro de você mencionar um amigo do sexo masculino antes. Dei de ombros. — Bree! Quem é ele? — ela questionou. — O nome dele é Simon. — E… onde você o conheceu? — Eu-eu conheço há algum tempo. Os olhos de Jess se arregalaram. — Meu Deus! É aquele cara britânico, não é? Meu silêncio entregou. — Sua putinha. Não só você rouba meu cliente, mas acaba ficando num trabalho com ele. Como diabos você teve tanta sorte? — Eu não sei. Apenas tive. — Então, fazer sexo com ele é parte das obrigações? — Não, Jess, não é. Eu já te falei, estou farta disso. — Uau! Você está se tornando uma verdadeira certinha, não é? Eu suspirei alto. — Talvez eu realmente goste de ser certinha. Você deveria experimentar algum dia. — Não, isso nunca vai acontecer. E o que é isso? — ela tocou meu cabelo. — Sinto muito por só notar agora, mas amei o novo corte. — Ela limpou a garganta. — Simon teve algo a ver com o novo visual? — O quê? Não, Jess. Eu só queria uma mudança.

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— Ok, mas ele deve ter achado totalmente quente. — Oh meu Deus, eu cortei alguns centímetros do meu cabelo, grande coisa! Não teve nada a ver com ele, e eu não faço ideia de como ele se sente sobre isso. — eu menti. — Nossa, eu não sei se eu gosto deste seu novo lado sensível. — Tanto faz. — revirei os olhos. Ela pegou seu telefone tocando na sua bolsa e ficou nervosa. — Bree, eu realmente preciso atender. Vou te ligar essa semana. — ela se inclinou, deu um beijo na minha bochecha, e correu para fora com o telefone tocando na mão. Levantei-me e tranquei a porta, querendo saber quem era do outro lado da chamada. Bastante certa de que eu já sabia a resposta dessa pergunta, fiquei com raiva de mim mesma por me abrir tanto para a Jess. Por mais que eu gostasse dela, se ela estava em conluio com a Margo de novo, eu jamais poderia confiar nela, ou até mesmo ser amiga dela. Demorei um tempo para descobrir, mas eu estava aprendendo rapidamente em quem podia e não podia confiar na vida. Infelizmente, a lista de confiança estava ficando menor a cada dia.

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Capítulo 31 Os

últimos

dias

remanescentes

de

inverno

finalmente

desapareceram. Dias frios e sombrios foram trocados por manhãs frias que se transformavam em tardes quentes e brilhantes. As árvores, outrora estéreis, agora estavam revestidas com uma variedade de flores, antes de brotar a sombra familiar de verde. A primavera estava sobre nós, um tempo de novos começos. Simon e eu ficamos ainda mais próximos. Eu passava mais tempo na casa dele do que na minha, e nós até conseguimos manter o nosso pequeno ―segredo‖ de Jack. Eu não tinha certeza por quanto tempo ainda, mas ele estava convencido de que as noites eu ficava, eu dormia no quarto de hóspedes. Simon queria esclarecer as coisas com ele, mas eu não sabia se Jack já estava pronto para isso. A nossa relação ainda era muito nova, e a última coisa que eu queria era que Jack criasse esperanças sobre um possível futuro entre Simon e eu. Mesmo que eu esperasse que meu futuro incluísse Simon e Jack, eu não queria assumir nada. Eu sabia melhor do que ninguém que a vida pode mudar em um instante. Mas, no momento, eu tinha que admitir, as coisas estavam indo bem entre nós. Ríamos muito juntos e estávamos sempre lá para o outro quando um de nós precisava de alguém para conversar. Conseguíamos nos divertir, não importava onde estivéssemos ou o que estávamos fazendo, e o sexo ficou ainda melhor e melhor. Tudo parecia perfeito. Muito perfeito, e isso me assustava. Eu nunca tinha tido perfeito na vida, então tudo era muito novo para mim. Eu fiquei superanimada quando meu irmão teve que fazer uma viagem de negócios de última hora para Manhattan, trazendo Trey com ele em um longo fim de semana para os dois. Fiquei ainda mais animada para apresentá-los ao Simon. Jack estava passando o fim de semana com os avós, por isso éramos apenas Simon e eu encontrando meu irmão e

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Trey no restaurante da moda que tinha acabado de abrir. Eu não tinha certeza de como eles conseguiriam reservas; pelo que eu tinha ouvido falar era quase impossível, mas conhecendo Trey, ele tinha conexões em qualquer lugar. — Eu estou tão animada para você conhecê-los. — eu apertei a mão de Simon à medida que nos aproximávamos do restaurante, incapaz de controlar o meu sorriso quando ele se abaixou sorrateiramente para um beijo, um pouco antes de entramos. Vi Trey no bar imediatamente. — Aubree, meu amor! — gritou ele, atravessou a multidão e jogou os braços ao meu redor. — Você está linda como sempre! — ele me olhou e me beijou na bochecha. — E você também. — Bem, é claro que estou, querida. — ele brincou. — Ei, Aubree. — Paul foi muito menos teatral do que Trey com sua saudação, inclinou-se e beijou a minha na bochecha. Eu agarrei o braço de Simon, explodindo de entusiasmo para apresentá-lo. — Simon, este é meu irmão, Paul, e seu parceiro, Trey. — eu não me sentia tão feliz há muito tempo. Dois dos homens mais importantes da minha vida estavam se conhecendo alguém que estava indo rapidamente para a mesma categoria. — É muito bom finalmente conhecê-lo. — disse Paul com um aperto de mão firme. Eu tentei o melhor para abafar minha risada quando eu peguei Trey verificando Simon, me dando um aceno de aprovação, enquanto esperava para apertar sua mão. Meu rosto realmente doeu de sorrir durante toda a noite. Por mais difícil que eu tentasse parar, eu não conseguia. Foi uma noite perfeita. Paul e Trey se deram bem imediatamente com Simon, e eu soube

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que eles viram os mesmos traços cativantes que eu via nele. Simon pediu licença para atender uma chamada de Jack, e Trey levantou-se para usar o banheiro, dando alguns minutos a sós para mim e Paul. — Você está realmente radiante. — Paul sacudiu a cabeça e sorriu. — Eu estou feliz. — E isso me deixa feliz. Ele é realmente um grande cara, Aub. — Com certeza. Às vezes me pergunto o que eu fiz para merecê-lo na minha vida. — Você não fez nada. Você sempre foi merecedora de alguém como ele, só que nunca acreditou. — mesmo que eu não tivesse certeza se concordava com ele, ainda assim era muito bom ouvir essas palavras do meu irmão, depois de procurar a sua aprovação por tanto tempo. — Então, eu contei para o papai que íamos encontrá-la. Meu coração disparou com excitação só de ouvir a menção do papai. — Na verdade, ele ficou satisfeito. Eu contei sobre seu novo trabalho e o cara novo. Eu acho que você devia tentar ligar para ele, ou melhor ainda, visitá-lo. — ele não ia desistir da missão de consertar meu relacionamento com o meu pai. — Desculpe por isso. — Simon voltou, tomando um assento ao meu lado. — Está tudo bem com Jack? — perguntei. — Sim, está tudo bem. — Sua mão se moveu debaixo da mesa e para a minha coxa. Meu estômago dançou em antecipação, contando os minutos até que eu ficaria sozinha com ele. O resto da noite foi preenchida com a conversa entre a carreira do meu irmão e Simon, um assunto que eu normalmente achava chato, mas ouvir Simon explicar o seu trabalho e a criatividade envolvida era

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fascinante. Eu não tinha imaginado que poderia admirá-lo ainda mais, mas depois de ouvir todas as demandas de seu trabalho, junto com o fato de criar um filho sozinho, eu encontrei-me respeitando-o ainda mais. Trey e eu nos ficamos entretidos falando sobre sua próxima viagem para Paris. Eu não podia deixar de imaginar Paris com Simon e o quanto seria romântico. Mas imaginar era o máximo que aconteceria. As chances de acontecer eram quase nulas. Por enquanto, eu levava um dia de cada vez, grata por cada um que passava com ele. Eu coloquei o cotovelo na mesa e descansei a cabeça na palma da mão. Eu nunca me cansava de observá-lo. Seu sorriso, sua risada, tudo nele era a perfeição, pelo menos para mim, de qualquer maneira. Paul estava errado: eu não merecia, e ele merecia algo muito melhor do que eu. Parte de mim se sentia um pouco egoísta por esperar que ele nunca chegasse a essa conclusão. Estendi a mão da cadeira e esfreguei as costas dele, enquanto ele e Paul continuavam conversando. Quando Trey entrou na conversa, eu meio que me senti de lado, então pedi licença para usar o banheiro, perguntando se algum deles perceberia que eu tinha saído. Depois de esperar na fila pelo que pareceu uma eternidade, eu finalmente terminei e voltei para a mesa. — Bree. — uma voz masculina gritou por cima da multidão. Virei-me e os meus joelhos tremeram quando eu fiquei cara a cara com Darren Michaels, meu ex-manhã de segunda. Minha vida passada colidindo com a atual. — Oh, Darren, olá. — minha voz tremeu quando olhei para a mesa, para o meu irmão, Trey, e Simon, que estavam rindo sobre algo que Trey tinha dito. — Eu achei mesmo que era você. — Umm... sim. Sou eu. — eu empurrei o cabelo atrás da orelha, tentando desesperadamente afastar-me da situação. — Escute, eu estou aqui com a minha família.

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Ele levantou a mão. — Oh, sem problema. Entendi. Hmm... eu entrei em contato com a Margo, há algumas semanas, ela me disse que você não está mais trabalhando para ela. — Não. Eu não estou. — acho que a reconciliação com a esposa não deu certo, afinal. — Bem, eu não sei se você faz algum negócio por fora. — ele pegou a carteira e tirou o cartão de visita. Lá estava eu, apenas alguns metros de distância de um homem que já me pagou para transar, que estava me propondo mais uma vez. Tudo isso enquanto outro homem, que também foi um dos meus ex-clientes, e com quem eu estava atualmente em um relacionamento, apenas alguns metros de distância. Mesmo na minha própria mente, era uma merda total. Era um lembrete de que meu passado não podia ser esquecido tão facilmente como eu tinha pensado. Enquanto eu fiquei ali olhando para ele fixamente, eu me senti nada além de uma prostituta barata. — Eu-eu não estou fazendo mais isso. — Oh, Bree. Eu sinto muito. Eu achei que você estivesse trabalhando por conta própria. Eu balancei a cabeça vigorosamente, apenas querendo me distanciar dele e todas as memórias que ele estava trazendo de volta. — Aí está você. — Simon disse sorrateiramente atrás de mim e colocou o braço em volta da minha cintura. Os olhos de Darren se arregalaram e ele não perdeu tempo em estender a mão para Simon. Um nó formou-se profundamente dentro da boca do meu estômago enquanto eu olhava para o espaço em uma oração. — Sou Darren Michaels. — ele fez uma breve pausa. Meu rosto começou a esquentar e todo o meu corpo começou a coçar.

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— Bree e eu somos vizinhos. Moramos no mesmo prédio de apartamentos. Dei um suspiro de alívio, grata que por Darren pensar rapidamente. Simon sacudiu a mão dele também, agarrando-me com mais força e me puxando para ele. — Foi bom conhecê-lo. — Disse Darren para Simon. — E bom ver você, Bree. Eu balancei a cabeça, esperando que o mal-estar que eu estava sentindo não fosse tão evidente para Simon. — Você está pronta para ir? — Simon perguntou quando Darren se afastou e eu fiz o meu melhor para me controlar. — Sim. — Eu balancei a cabeça, sabendo que eu precisava sair dessa situação e fingir muito bem para Paul e Trey. Saímos do restaurante e nos despedimos de Paul e Trey. Foi um grande momento, até os últimos cinco minutos, mas eu não ia deixar que isso arruinasse para mim. Abracei Paul e Trey firmemente, sem saber quando eu os veria novamente, mas esperando que fosse em breve. Eles se despediram de Simon antes de saltar na parte de trás do táxi e irem. Era uma bela noite de primavera, por isso, Simon e eu aproveitamos o tempo andando as poucas quadras até o carro. Demos as mãos e caminhamos em silêncio até que a minha consciência levasse o melhor de mim. Eu não podia mentir para ele. Ele sabia tudo sobre meu passado, e eu odiava sentir que estava guardando segredos dele. — Aquele homem lá dentro. Ele não é meu vizinho. — eu finalmente falei conforme andávamos. — Ele é um cliente antigo. — eu deixei escapar antes que eu perdesse a cabeça. — Eu sei. — ele sussurrou.

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Parei de andar e tomei as duas mãos dele na minha. — Você sabia? — eu franzi as sobrancelhas, e ele concordou. — Por que você não disse, por que você não falou? — Era o seu passado. Não é mais quem você é. Lágrimas encheram meus olhos. Ele era realmente muito bom para ser verdade. Eu fiquei na ponta dos pés e estiquei o pescoço, dando um beijo suave na bochecha dele. — Eu sou a garota mais sortuda do mundo por ter encontrado alguém como você. Ele me deu um rápido sorriso tímido, e eu me aproximei de seu ouvido. — Agora, vamos voltar para a sua casa, e eu vou te mostrar o tanto que você é sortudo. — eu sussurrei. — Você não vai ter nenhuma discussão aqui. — ele respondeu, agora ostentando um sorriso completo. *** — Eu acho que posso precisar que você me lembre como eu sou sortudo todas as noites. — Simon brincou enquanto eu estava deitada em cima dele, nós dois ainda tentando recuperar o fôlego. Eu dei beijos em seu peito e olhei para ele. — Isso pode ser arranjado. — eu rolei e descansei a cabeça em seu peito. — Simon? — Sim? — Por que você é um cara tão impressionante? — O que você quer dizer? — ele riu. — Você já passou por tanta coisa na vida, e ainda permanece tão positivo. — Qual é o sentido de ficar duelando com a vida? Eu não posso desfazer o que foi feito, então o que posso fazer é avançar da melhor maneira possível.

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Eu me aninhei mais perto dele, descansando a cabeça no canto do ombro. Ele brincou com o meu cabelo, e meus olhos não conseguiram segurar por mais tempo. — Então, basta pensar, em um mês estaremos acordando juntos todas as manhãs. — Nathan colocou a mão na minha perna enquanto estávamos parados no sinal de trânsito, esperando que ele ficasse verde. — Eu mal posso esperar. — debrucei-me sobre o assento e lhe dei um beijo na bochecha. — Amo você, Aubree. — Eu amo mais. — eu sorri, no momento que a pessoa atrás de nós buzinou. Eu olhei para a luz verde, irritada com a impaciência do carro em meu espelho retrovisor, e fui atravessar o cruzamento. Eu não sabia o que estava acontecendo quando minha cabeça bateu no parabrisa e o carro virou. Segurei o volante, tentando o máximo controlar o carro, até que finalmente parei em uma área arborizada ao lado da estrada. Eu mal podia mover o pescoço e sangue escorria pelo meu rosto. Olhei para Nathan, espalhado no banco do passageiro, onde o impacto tinha ocorrido. Ele estava coberto de sangue e seu corpo estava sem vida. Eu agarrei o braço dele, tentando acordá-lo, gritei seu nome uma e outra vez, mas as palavras não saíam... — Nathan, não, não! Acorde! Acorde. — Bree. Meus olhos abriram de repente e encontrei Simon olhando para mim. Sentei-me, encharcada de suor. Eu tinha agonizado com aquela noite na minha cabeça um milhão de vezes antes, mas era a primeira vez que eu tinha sonhado com ela, e foi tudo muito real. Simon sentou-se ao meu lado, tentando colocar o meu tremor sob controle. — Você está bem? — ele sussurrou, movendo uma mecha do

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meu cabelo molhado para trás da minha orelha e enxugando as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Eu assenti. — Sim, foi apenas realmente um pesadelo. — Sobre o quê? Eu balancei a cabeça, não estava pronta para contar, ou talvez eu só estivesse com medo de encarar a culpa que me corroía há anos. Ele me deu um aceno de cabeça desapontado, mas não insistiu mais. Em vez disso, ele me puxou para mais perto. — Um dia houve um garoto que era meu melhor amigo e muito mais. — eu comecei a divagar. — Ele morou perto da minha casa a vida toda. Eu o conhecia desde sempre, e não havia um dia que eu não o visse sorrir. Ele era meu amigo quando ninguém mais queria ser, e conforme os anos passaram e nós crescemos um pouco mais, a amizade começou a se transformar em outra coisa. Quando me mudei para Nova Iorque para entrar na Escola de Ballet, eu tinha apenas 16 anos de idade, e certeza que conheceria alguém novo e seria o fim do nosso relacionamento. Mas ele não fez isso. Na verdade, ficamos mais próximos. Eu ia para casa, o máximo possível durante os feriados e o verão, e nós voltávamos exatamente de onde paramos. Depois que ele terminou a faculdade, ele foi aceito na faculdade de medicina aqui na cidade, e íamos morar juntos. — eu inalei profundamente, sabendo que a parte mais difícil estava por vir. — Nós estávamos em casa quando aconteceu. Alguns dos seus amigos fizeram uma festa de despedida para ele. Eu decidi não beber nada naquela noite e ser a condutora designada, por que eu sabia que a celebração era para ele. — lágrimas nublaram meus olhos enquanto eu tentava desesperadamente afastá-las. — Nós estávamos parados em um semáforo. Inclinei-me para beijá-lo e não vi que o sinal ficou verde. A pessoa atrás de nós buzinou para me avisar. — lágrimas nublaram meus olhos enquanto eu tentava desesperadamente limpá-las.

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Fechei os olhos, lutando para contar o resto da história sem quebrar. — Eu atravessei o sinal e a pessoa que era para estar parada no sinal vermelho da outra via também. Ela bateu no lado do passageiro do carro. Uma coisa irônica, eu fui tão cuidadosa naquela noite não bebendo, e a pessoa que nos atingiu estava bêbada. — eu balancei a cabeça e deixei as lágrimas fluírem. Simon apoiou os lábios no topo da minha cabeça, permitindo-me desabafar completamente. Ele apenas esfregou minhas costas, sem dizer uma palavra enquanto eu tentava recuperar o fôlego. — Eu passo aquela noite na minha cabeça todos os dias e fico pensando: e se eu estivesse prestando atenção e atravessado o cruzamento, assim que o sinal ficou verde? Nós nunca seríamos atingidos. Bastou uma fração segundo para mudar tudo de forma tão drástica. — Bree, você não pode pensar dessa forma. Não foi culpa sua. Você vai se enlouquecer pensando nos ―ses‖. — Eu sei, mas é da natureza humana. Gosto de pensar que tudo acontece por uma razão. Mas qual foi o raciocínio? Ele era um grande cara. Inteligente, engraçado, cuidadoso. — eu balancei a cabeça. — Ou qual foi a lógica de você perder alguém tão maravilhoso como a sua esposa e Jack ser deixado sem mãe? Ele abaixou e balançou a cabeça. — Eu só não entendo, Simon. Por que essas coisas horríveis têm que acontecer? Por que algumas pessoas são confrontadas com tanta dor na vida, enquanto outras passam sem nada? — Eu não sei. — sua voz falhou. — Eu vivia com o fardo de achar que eu tinha matado a minha mãe, e então, quando isso aconteceu, foi demais para suportar. — Sua mãe? — Simon questionou.

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— Ela morreu logo depois que nasci devido a complicações do parto. Eu acho que é por isso que eu me relaciono tão bem com Jack. Eu sei o que ele está passando, perder a mãe em uma idade tão jovem. — eu parei quando vi que o Simon estava agoniado com o tema da conversa. — Sinto muito, Simon. Eu não deveria ter tocado nesse assunto. Ele olhava para frente, em silêncio, e eu me senti ainda pior. Como eu podia ser tão insensível? — Eu-eu sinto tanto, realmente não... — Está tudo bem, Bree. — Não, não está. Não tenho o direito de falar sobre isso. Não é problema meu, e eu... — Bree, está tudo bem! — ele retrucou. Eu senti dor, raiva e irritação em seu tom. — Ok. — eu sussurrei, descansando a cabeça em seu ombro. Eu segurei a mão dele, desejando pegar de volta as minhas palavras. — Eu estou realmente cansado. — ele suspirou quando eu estiquei meu pescoço e o beijei na bochecha. — Ok, então vamos voltar a dormir. Nós deitamos, e ele virou de lado com as costas para mim. Como se eu já não tivesse me sentindo horrível o suficiente, a frieza dele me fazia me sentir cem vezes pior. Era óbvio que ele não queria falar, então o melhor que eu podia fazer era esfregar suas costas até que eu senti sua respiração se tornar mais pesada. Eu levantei a cabeça e encontrei-o dormindo. Pressionei os lábios em seu ombro, fechei os olhos e sussurrei. — Me desculpe. — afugentei as lágrimas e atordoei-me quando ouvi as próximas palavras que saíram da minha boca. — Eu te amo.

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Capítulo 32 Depois de acordar do meu sonho, eu não voltei a dormir. Debati e me virei, pensando em Nathan. Preocupei-me com Simon, imaginando por que ele tinha ficado tão distante com a menção da esposa. Não era como nunca tivéssemos falado sobre ela antes, então eu não tinha certeza da razão de ele ter agido daquela forma, de repente. Mas eu não tinha como questioná-lo. Eu sabia que o luto afetava as pessoas de formas diferentes, e como você se sentia em um dia sobre algo não, era necessariamente como você se sentiria no próximo. No momento em que o sol se levantou, eu não suportei mais ficar sozinha com meus pensamentos, então entrei no chuveiro e, em seguida, levei Macy para uma caminhada para limpar a cabeça. Simon ainda estava dormindo quando voltamos. Uma vez que eu ainda estava me sentindo muito mal por abrir minha boca grande, eu decidi fazer uma oferta de paz, bem no estômago. Eu tinha todos os ingredientes para fazer uma receita de crepe diferente que eu tinha visto online. Jack tinha sido inflexível, que não gostaria, então eu nunca tinha feito. Eu esperava que seu pai fosse um pouco mais receptivo para experimentar. Eu segui as instruções passo a passo, e eu tive que recuar para admirar a minha obra-prima quando estava pronta. Realmente parecia com algo que poderia ser servido em um restaurante gourmet em Paris. — Por que você está de pé tão cedo? — Simon perguntou ao entrar na cozinha. — Oh, na hora certa! — virei-me, amando a sua aparência de manhã, com cabelo bagunçado e seus olhos sonolentos. Tinha uma aparência juvenil nele que eu não conseguia explicar; talvez porque ele me lembrava muito o Jack quando usava os óculos. — Eu fiz para você. — eu sorri, esperando que o descontentamento comigo da noite anterior tivesse passado. Alívio tomou conta de mim quando ele sorriu de volta.

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Ele sentou-se, e eu coloquei o prato na frente dele, virando-me para preparar o café do jeito que ele gostava. — Está bom? — eu perguntei quando ele deu a primeira mordida. — Está realmente bom. Eu sorri e entreguei o café. — Você não vai comer? — ele perguntou quando eu sentei na frente dele com apenas a minha xícara de café. Eu balancei a cabeça. — Não, não estou com fome. — eu olhei para ele, querendo saber se estava tudo ok depois da noite anterior, mas eu estava com medo de mencionar, de perturbá-lo mais uma vez. — Eu realmente preciso ir para casa em breve. Eu tenho tanta roupa suja empilhada, é ridículo. — eu tentei avaliar sua reação, mas não houve nenhuma. Ele simplesmente continuou comendo e não disse uma palavra, levando-me a acreditar que não estava tudo bem. Eu não aguentava mais o silêncio. Levantei-me e fui para a pia para lavar a louça que eu tinha sujado, olhando pela janela para o belo dia de primavera, desejando que eu estivesse tão bem no interior como o tempo estava do lado de fora. Fechei os olhos, tentando conter meu sorriso quando senti o corpo de Simon pressionando as minhas costas enquanto seus braços me envolviam. Coloquei a cabeça em seu peito, saboreando o toque de seus lábios quentes, suaves no meu pescoço. Desliguei a água, e me virei para encará-lo. Minha mão alcançou o lado de seu rosto, e tracei o polegar ao longo de sua barba por fazer. — Eu já falei como você fica sexy de óculos? — Não, você não falou. — ele me deu um breve sorriso genuíno. — Bem, você fica. — eu fiquei na ponta dos pés e dei um beijo suave em seus lábios. Seu beijo de volta foi muito mais intenso, e eu sabia exatamente o que ia levar. Eu me afastei, querendo limpar o ar antes de ir mais longe. Eu não queria usar o sexo como instrumento para contornar

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nossas diferenças. Eu queria conversar e realmente saber o que o incomodou. Eu sabia que estava matando o momento, mas eu não me importei. — Simon, eu quero falar sobre a noite passada, sobre o que eu disse. Eu sinto muito por perturbar você. Ele olhou para o chão, e me pegou de surpresa quando se aproximou de mim e cochichou no meu ouvido. — Você não me perturbou. Eu também te amo, Bree. Meu coração derreteu e meu estômago dançou enquanto eu olhava para ele, sem palavras. Eu não podia acreditar que ele tinha me ouvido. Eu tinha certeza que ele estava dormindo quando as palavras saíram da minha boca. Esse não era o tópico que eu tinha a intenção de resolver quando falei da noite anterior, mas eu não ia brigar por isso. Ele tinha afugentado qualquer dúvida que eu estava sentindo por mencionar sua esposa com apenas três pequenas palavras. Tudo parecia tão surreal. Era tão óbvio porque eu amava Simon. Mas como este homem lindo, genuíno, e perfeito amava alguém como eu? Eu pressionei a testa nele e sorri com os olhos cheios de lágrimas. Ele me beijou mais uma vez, começando suavemente e aumentando a intensidade. Nossos lábios relutantemente se separaram quando ele puxou minha camiseta e me colocou em cima do balcão. Eu joguei a cabeça para trás quando sua boca arrastou até meu peito, fechei os olhos e entrelacei os dedos no cabelo dele. As coisas podiam mudar definitivamente em um instante, e até então, eu só tinha experimentado do bom para o ruim. Era tão bom experimentar o oposto. Eu acordei cheia de dúvidas, temendo ter aberto uma fenda entre nós na noite anterior, mas em vez disso, só nos aproximamos mais, e a melhor parte de tudo... ele me amava também. *** Simon se juntou a mim na lavandaria pela manhã. Ele não ia muito à minha, por isso era tão bom tê-lo por lá. Depois de jogar a última carga

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na secadora, decidimos fazer uma curta caminhada até o mercado Chelsea para olhar ao redor. — Simon! — a voz de uma mulher chamou logo que estávamos prestes a sair. Eu me encolhi secretamente quando percebi que a voz pertencia à amiga de Simon, Tiffany. Ela entregou as sacolas para o marido, que ficou para trás, e jogou os braços em torno de Simon, dando-lhe um abraço extralongo e, em seguida, um beijo na bochecha. Eu teria dito que ela estava fazendo isso para me provocar, mas, na verdade, acho que ela nem reparou em mim. Ela estava muito consumida por Simon. — Como você está, querido? — ela olhou sobre ele, e seu sorriso desapareceu rapidamente ao me ver. — Eu estou bem. Obrigado. — Simon era muito distante com ela. — Me desculpe, nós nos conhecemos, certo? — Tiffany perguntou em uma voz excessivamente amigável. — Sim, nos conhecemos. — foi tudo que eu ofereci. Eu não gostava de brincar com as pessoas, e eu não ia começar naquele momento. — Eu sinto muito, esqueci completamente o seu nome. — Aubree. — eu fui curta e direta ao ponto, tentando ignorar o fato de que seu marido estava me olhando como um pedaço de carne. — Então, Simon, o que você anda fazendo, querido? Como está o Jack? Ele deve estar tão grande. — continuou ela. — Jack está indo bem. Eu olhei para o chão e sorri quando Simon passou o braço em volta de mim, fazendo-a olhar com incredulidade. — Como estão indo os negócios? — o marido dela finalmente entrou na conversa. — Ocupado, mas eu não estou reclamando.

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— Não seja um estranho. Precisamos encontrar para tomar uma bebida em algum momento. — seu marido deu um tapinha no ombro de Simon. — Sim, isso ou você e Jack precisam ir para o jantar. — acrescentou Tiffany. — Precisamos retomar os velhos tempos. Simon deu-lhes um breve aceno de cabeça. — Foi bom ver vocês. Os olhos de Tiffany arregalaram com a brusquidão de Simon, e ela desviou o olhar para mim mais uma vez. — Sim, você também, Simon. Dê um abraço no Jack por mim. — Vou dar. — ele murmurou, ainda segurando firmemente a minha cintura enquanto nos afastávamos. — Ela me odeia. — eu ri. O telefone de Simon tocou quando estávamos prestes a sair. — Oh merda, eu tenho que atender. É sobre a minha reunião de amanhã. — Ok, sem problema. Apenas me encontre aqui quando você estiver terminado. Ele assentiu e atendeu seu telefone e eu entrei na Anthropologie para verificar a última moda da primavera. Eu estava vasculhando um rack de camisas que chamou minha atenção. Finalmente localizei o meu tamanho, eu puxei e a segurei contra mim enquanto olhava para o espelho. — Eu optaria pelo azul, em vez de rosa. Vai realçar seus olhos. Olhei para o meu reflexo e encontrei Tiffany de pé atrás de mim. — Obrigada, mas eu prefiro rosa. — eu coloquei a camisa de volta, sem muito mais vontade de fazer compras. Ela encolheu os ombros. — Faça como quiser. Por acaso, saiba que Simon prefere azul. Eu respirei fundo, tentando ignorar.

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— Você sabia que você tem os mesmos olhos, a cor exata da Annie? — Não, eu não sabia. — eu tentei ir embora, mas ela continuou. — E a mesma cor de cabelo? Virei-me, franzi as sobrancelhas em confusão, tentando descobrir onde ela estava indo com isso. — Bem, não é como se cabelo louro e olhos azuis fossem incomuns, não é? — Não. — ela fingiu estar interessada nas roupas da prateleira à frente dela, focando a atenção em mover os cabides o tempo todo que falava comigo. — Mas as semelhanças físicas entre vocês duas são bastante notáveis. Mas eu acho que é onde qualquer semelhança termina, porque ele nunca vai cuidar de você do jeito que ele cuidava dela. Eu balancei a cabeça e soltei um aff irritado, precisando ficar o mais longe possível dessa cadela. — Não te incomoda? — ela gritou. Eu sabia que devia ter continuado andando e ignorá-la, mas eu não pude me conter. Eu virei e me aproximei. — Se me incomoda? Simon preferir loiras de olhos azuis? Não, não incomoda. Ela soltou uma risada sarcástica. — Você não passa de um estepe que nunca vai competir com o negócio de verdade. Então, eu suponho que vocês estão fodendo? — ela levantou a voz, fazendo com que alguns compradores nas proximidades olhassem na nossa direção. — Isso não é da sua conta! — eu rebati. — Você está certa, não é. Longe de mim a questionar o lixo com quem Simon decide dormir, mas lembre-se, se você estiver... ele está imaginando estar com ela o tempo todo. — Tiffany! — Simon gritou quando eu estava prestes a explodir com ela. — Oh, ei. — ela fingiu inocência quando se virou para Simon.

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— Como você ousa falar com ela desse jeito? — Está tudo bem, Simon. — eu tentei apaziguar a situação. — Não, não está, Bree. — ele concentrou sua atenção de volta para Tiffany. — O que eu faço, e com quem eu faço, não é da sua conta. Eu nunca fui seu amigo. Eu só tolerava você e seu marido idiota por causa da Annie. Seus olhos se arregalaram. — Portanto, não se atreva a envolver-se em minha vida ou falar com as pessoas que me interessam como se você me conhecesse muito bem. Porque a verdade é, você não sabe nada sobre mim, e não sabia nada sobre a sua tão amada melhor amiga ou... ou talvez você soubesse. — ele olhou para ela. Ela balançou a cabeça e desviou o olhar enquanto eu tentava descobrir a mensagem enigmática em suas palavras. — Eu poderia ter lidado com ela muito bem por conta própria, você sabe. — eu falei para o Simon ao sairmos e nos distanciarmos daquela cobra venenosa, escorregadia. — Eu sei que sim, mas eu não me sentiria bem em tirar você sob fiança da cadeia. — ele riu, pegando a minha mão quando começamos a andar pela rua. — Eu não entendo, por que ela é tão consumida com a sua vida pessoal? Ele balançou sua cabeça. — Ela já tentou ficar com você? — Não muito tempo depois que Annie morreu. Ela estava fazendo o papel de melhor amiga, e tentou... — Levar você para a cama. — eu terminei. Ele concordou, e eu tive que perguntar: — Ela conseguiu?

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— De jeito nenhum! Eu não me importava o tanto que eu tivesse perturbado, meu julgamento não ficou obscurecido. — Então, é por isso que ela é tão ciumenta. — eu murmurei. Mesmo que ela fosse uma grande puta e desprezada por Simon, suas palavras ressoaram um pouco em mim. Eu sempre ficaria em segundo lugar? Ele estava comigo porque eu o fazia lembrar-se da esposa? Como poderia alguém como eu, competir com ela, a namorada da faculdade, a mãe do seu filho? Ela não tinha nenhum esqueleto no armário ou um passado que precisava esquecer. Obviamente não havia competição. Ela seria sempre melhor do que eu. — O que está acontecendo, Bree? — Simon perguntou, lendo meus pensamentos perfeitamente, mais uma vez. Suspirei profundamente. — Eu não sei. Talvez ela esteja certa. Eu nunca serei tão boa quanto ela. — Tão boa quanto quem? — ele questionou. — Sua esposa. Nós paramos por um segundo e ele olhou para mim. — Não diga isso. — O quê? É verdade Simon, e você sabe disso. — Não é verdade! — sua voz se levantou do mesmo jeito do que na noite anterior. — Só vamos voltar para sua casa, ok? — seu comportamento suavizou um pouco. Eu balancei a cabeça e continuei a andar os poucos quarteirões em silêncio. Chegamos de volta à minha casa, e eu joguei as chaves no balcão. — Eu quero conversar com você. — Simon falou as primeiras palavras de ambos nos últimos dez minutos. Levei-o para o sofá e sentamos.

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— Sinto muito por ficar com raiva de você, mas me deixa louco você ter uma opinião tão baixa de si mesma. — Bem, Simon, não é como se eu tivesse um passado para me orgulhar. — É o seu passado, Bree. Não o que você é agora. — Eu sei, mas sempre estará no fundo da minha mente, não importa o quanto eu tente apagá-lo. Você teve alguém tão perfeito, e eu não espero me comparar... — Bree, pare com isso! — ele exigiu. — Simon, tudo bem, eu não quero tomar o lugar dela. — Porra, Bree, pare! — gritou ele, pegando-me desprevenida. — Ela não era perfeita, porra. Longe disso. Fiquei sem palavras, com medo de questionar qualquer outra coisa, mas esperando que ele falasse um pouco mais. — Ela estava com o namorado no dia em que ela morreu. O namorado, porra. O mesmo que ela estava pensando em ficar e deixar Jack e eu. Eu cobri a boca em choque. Meu coração foi sendo arrancado lentamente do meu peito, à medida que me concentrei em seus olhos cheios de lágrimas. — Foi tudo culpa minha. Cada maldita coisa foi culpa minha, de acordo com ela. Eu trabalhava demais. Eu nunca estava em casa. Ela estava sempre presa com Jack. Ela estava presa com Jack. — ele repetiu. — Você acredita nisso? — ele olhou para mim, a raiva crescente. — Que tipo de mãe diz isso sobre o filho? Eu balancei a cabeça e peguei sua mão. — Parecia que ela se arrependia dele. — De quem? — perguntei.

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— Jack. Ele não foi planejado, mas eu fiquei tão feliz quando descobri que ela estava grávida. Ela nunca pareceu animada. Mesmo depois que ele nasceu, nunca teve aquele vínculo com ele, que a maioria das mães tem com os filhos. Eu fazia tudo por ele. Eu me levantava no meio da noite, quando ele precisava ser alimentado ou trocado. Não que eu esteja reclamando. Eu amo aquela criança mais do que a própria vida. — Eu sei que sim. — eu sussurrei. Ele jogou a cabeça para trás no sofá e olhou para o teto. — Eu acho que comparo você com ela, porque quando eu vejo você com Jack, eu penso ‗por que não podia ser assim com ela‘? Por que Jack não era tão feliz com ela, como é agora com você? — ele levantou a cabeça do sofá e olhou para mim. — Então, sim, eu faço comparação entre vocês, mas não da maneira que você pensa, e eu me pergunto todos os dias por que eu não te conheci primeiro. Eu mordi o lábio inferior quando as emoções dentro de mim começaram a tomar conta de mim. Ele limpou a lágrima solitária escorrendo pelo rosto. — Desde quando a conheci, eu soube que você era genuína. Que você é dona de quem você é, e não era dissimulada. Annie sempre fingia ser outra pessoa. Tivemos que fingir ser o casal perfeito. Ela fingia ser aquela grande mãe. Ela me acusava de traição apenas para se sentir melhor com o que estava fazendo. — Como é que você descobriu? — eu estava cautelosa com as perguntas. — Não descobri até depois. Eu tinha minhas suspeitas sobre ele, mas ela sempre negava. Ela era designer de interiores, e ele era um de seus clientes. Eu não queria acreditar que era verdade, e talvez uma pequena parte de mim fosse ingênua em pensar que ela nunca faria algo assim. — ele balançou a cabeça. — Sim, eu era muito estúpido. Ela me disse que um monte de amigas ia esquiar no fim de semana. Ela ficou com

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tanta raiva quando falei que estaria fora da cidade, e eu não entendi por que elas simplesmente não podiam remarcar. Assim que minha viagem foi cancelada toda a sua atitude mudou, e foi aí que eu realmente comecei a suspeitar de algo. Trocamos algumas palavras muito desagradáveis antes de ela sair, mas isso não a impediu de ir. Então, eu finalmente conheci o Sr. Sensacional no hospital - o cara que pôde dar-lhe todas as coisas que eu não. Eu fiquei tão bravo com ela, e eu lutava com isso todos os dias, porque eu não achava normal sentir-me assim sobre uma pessoa morta. Levei meses para finalmente ler as mensagens de texto no telefone dela, e quando aconteceu, eu desejei que eu não tivesse, porque só me deixou mais irritado. Eu esfreguei a mão para cima e para baixo de seu braço, tentando acalmá-lo. Eu percebi que ele estava desgastado emocionalmente por reviver a história, e eu não podia culpá-lo; meu coração estava doendo só de ouvir. — Estava tudo lá, claro como o dia. Ele tinha acabado de comprar um apartamento na cidade, e ela ia morar com ele. Suas palavras exatas: ―Simon e Jack podem me odiar, mas a longo prazo Jack ficará muito melhor com Simon do que comigo‖. — Oh meu Deus! — as palavras escaparam. Eu não podia acreditar que ela simplesmente ia se afastar do filho. Eu não sabia muito sobre ser mãe, mas mesmo eu sabia que não era normal. — Sim, e então seus malditos pais tiveram a coragem de me dizer que vão atrás da custódia parcial de Jack, porque sou muito ocupado com meu trabalho para ser um pai atencioso. Eu os deixo ficar com ele uma vez por mês, eu não tento distanciá-los. Eu nunca falei para ninguém da família de Annie sobre o que ela fez, ou seu plano secreto. Eu tento manter a paz com todos eles por causa do Jack. — Eles-eles não podem fazer isso com você, podem? — minha voz levantou-se em pânico.

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— Não. Meu advogado disse que eles precisam de um motivo muito bom para isso acontecer. Eu não estou preocupado. Simon continuou a falar, mas minha mente estava presa no fato de que os sogros poderiam ser muito cruéis e realmente quererem arrancar Jack dele depois de tudo o que tinha passado. Ele, mais uma vez, provou a sua nobreza, mantinha segredo sobre o que esposa fez, em vez de manchar o nome dela. — Eu não posso nem imaginar a dor que você passou. Você perdeu a esposa em mais de um sentido naquele dia. Ele assentiu. — Sim, eu acho que sim. Talvez por isso tenha doído tanto, droga. Eu ainda a amava, afinal, mas eu fiquei tão irritado com ela. Quando nos conhecemos, eu achava que o sol nascia e se punha em seus olhos. Eu era como um cachorrinho doente de amor. Logo que casamos as coisas eram ótimas. — Então, o que você acha que mudou? — Jack. — sua voz falhou com emoção, e eu senti meu estômago revirar. Como ela podia se arrepender do próprio filho? — Quando ele chegou, ela teve que mudar o estilo de vida. Ela não podia sair com as amigas o tempo todo como costumava fazer. Ela disse que ganhou peso... saiu do 38 para o 40, foi uma grande tragédia para ela. — suas palavras saíram revestidas com cinismo. — Ela sempre foi tão vaidosa com a aparência. Ela teve que deixar os clientes, e ela odiava. Estas são as coisas que eu ouvia repetidamente. Toda vez que eu trabalhava até tarde, ou tinha que viajar por causa dos negócios, eu tinha que ouvir sobre os sacrifícios que ela fazia apenas por ser sua mãe. — ele soltou um suspiro profundo e olhou para frente. — Você é a primeira pessoa para quem falo essas coisas. — ele virou a cabeça lentamente na minha direção, e eu desejei que não tivesse. Seus olhos verdes brilhantes estavam aborrecidos, irradiando com a dor.

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Eu não aguentava vê-lo atormentar-se por mais tempo. Eu não queria saber mais nada, porque estava ficando mais irritada a cada momento, ouvindo sobre as coisas que ela fez com ele e Jack. Eu joguei os braços ao redor dele e ofereci-lhe conforto em um abraço. — Eu sinto muito, Simon. — eu sussurrei. — Jack tem tanta sorte de ter você. Você é o melhor cara que eu conheço e o melhor pai do mundo, e você e Jack merecem o melhor. — E agora, finalmente, temos o melhor. Meu estômago se agitou. — Você é uma boa pessoa, e o que aconteceu em seu passado nunca vai mudar esse fato. Você é carinhosa, amorosa, e é apenas você. Você não tenta impressionar as pessoas, porque você é simpática o suficiente sendo quem você é. Na noite passada, quando você me perguntou quais as razões das tragédias nas nossas vidas, acho que talvez houvesse um plano. Engoli em seco, lutando contra as lágrimas. — Porque, se nada disso tivesse acontecido, incluindo seu passado que você está tentando esquecer... Eu nunca a teria conhecido. Eu balancei a cabeça, incapaz de processar as palavras, enquanto as lágrimas derramavam dos meus olhos. — Então, veja, algo de bom mesmo veio disso. Pelo menos para mim, de qualquer maneira. — Para mim também, Simon. Eu olho pra você e acho que é apenas um sonho, que vou acordar a qualquer minuto. Eu não abro meu coração para muitas pessoas, mas preciso que você saiba que eu realmente quis dizer que o amava. Eu te amo, e eu amo tanto o Jack, e nunca faria algo para machucar vocês. Eu prefiro me machucar antes de eu deixar isso acontecer. — eu estiquei o pescoço e beijei-o na testa.

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Ele descansou a cabeça no meu ombro e nós ficamos em um silêncio confortável por algum tempo antes de ele levantar o braço e olhar para o relógio. — Eu preciso ir. Eles vão deixar Jack em breve. — disse ele, com relutância. — Ok. — eu sussurrei, sem querer que ele fosse, mas sabendo que precisava. Nós dois nos levantamos e eu andei até a porta. — Vejo você amanhã de manhã. — eu fiquei na ponta dos pés e dei um beijo suave em seus lábios. Ele balançou a cabeça e sorriu. — Desculpe por jogar isso tudo em cima de você. Eu balancei a cabeça. — Não se desculpe, eu estou honrada por você ter se sentido confortável o suficiente para compartilhar comigo. Ele forçou um sorriso e olhou para mim antes de jogar seus braços ao meu redor. — Obrigado por ser você. — ele roçou meu rosto com os lábios e sussurrou. — Amo você, Bree. — e depois saiu pela porta. Eu fiquei na porta por muito tempo depois que ele se foi, com um milhão de pensamentos correndo pela minha mente. O fim de semana tinha sido um turbilhão de emoções. Ambos nos abrimos sobre nossos sentimentos um pelo outro, e nós dois expusemos os nossos passados dolorosos. Estávamos

em

um

nível

totalmente

novo

em

nosso

relacionamento, e por mais que fosse empolgante, também me assustava, porque se algo acontecesse para romper esse vínculo, eu sabia que meu coração nunca se recuperaria.

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Capítulo 33 Eu acordei antes do meu alarme disparar. Depois de ir para a cama supercedo, eu estava renovada e cheia de energia. Eu estava vestida e com um copo de café na mão, muito à frente do cronograma, e usei o tempo extra para enviar um e-mail para Hannah. Ela tirou uma licença e foi a Connecticut cuidar da mãe, que estava doente. Eu sentia falta dos nossos encontros semanais e das nossas conversas de manhã quando eu deixava Jack na escola. Nunca falei da minha relação com Simon para ela, mas eu tinha certeza que descobriu por conta própria. Eu mal podia esperar para que ela voltasse; estava pronta para desabafar e contar tudo sobre ele. Esperava que ela tivesse algum tempo e tivesse trabalhado em seu livro. Surpreendentemente, eu estava ficando ansiosa para lê-lo. Desde que Simon entrou em minha vida, eu acreditava em romance um pouco mais a cada dia. Depois de enviar, fechei o laptop, peguei minhas coisas e estava no meu caminho. — Oh meu Deus! — eu engasguei ao abrir a porta e encontrar Manuel, o homem de manutenção, do outro lado. — Desculpe, eu não queria assustá-la. — ele riu. — Eu só queria que você soubesse que eu vou precisar entrar na sua casa hoje, estamos instalando novos aquecedores de água quente em todas as unidades. — Se isso significa que posso tomar banho por mais de cinco minutos sem ficar sem água quente, entre quantas vezes quiser. — eu deilhe um sorriso e me dirigi ao fundo do corredor, tentando descobrir de onde eu conhecia a mulher familiar andando em minha direção. — Desculpe-me, Bree? — a mulher cumprimentou. — Sim? — examinei-a de perto, tentando desesperadamente me lembrar onde eu a tinha visto antes.

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— Sou a detetive Lyon. Nós nos encontramos no hospital, mas você estava um pouco fora de si. Meu estômago revirou. Como ela sabia meu nome e onde eu morava? — Oh, eu realmente... eu vou chegar atrasada para o trabalho. — Eu só tenho algumas perguntas. Eu prometo que não vai demorar muito. Posso até perguntar enquanto saímos, para que você não se atrase. — Ok, eu acho. — eu ainda estava desconfortável sobre a coisa toda. — Bree, eu realmente gostaria que você nos dissesse o que aconteceu naquela noite que você acabou no hospital. — ela começou enquanto descíamos as escadas. — Está terminado. É uma parte do meu passado e eu quero esquecer. — Bree, infelizmente, não está terminado. Uma jovem foi estuprada e espancada até entrar em coma na noite passada. — Isso é horrível, mas o que tem a ver com o que aconteceu comigo? Esta é a cidade de Nova Iorque. Infelizmente, essas coisas acontecem o tempo todo. — Por que, assim como você, ela não tinha nenhuma identidade com ela, mas você estava na lista de contatos do telefone dela. Quando seu nome e sua foto apareceram eu soube que era você. Parei no meio da escada. Meu coração estava acelerado no meu peito. Quem poderia estar no hospital, agarrando-se à vida? — Como ela é? — engoli em seco, sem querer perguntar, mas precisando saber. — Um pouco como você. Cabelo loiro... — Oh meu Deus. — eu gritei, cobrindo a boca com a mão. — É a Jess.

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— Sabe o sobrenome dela? — perguntou a detetive. — Richman. — eu tentei limpar as lágrimas que rolavam pelo meu rosto. — Ela vai ficar bem? — perguntei. — Eles não sabem ainda. Ela tem alguns ferimentos na cabeça muito graves. Eu enterrei o rosto nas mãos, apenas tentando imaginar a pobre Jess, deitada ali indefesa. Ela realmente não tinha ninguém. Não tinha uma Hannah ou um Simon; ela estava sozinha no mundo. — Bree, como você a conhece? — Ela é só uma amiga. — eu continuei a descer os degraus. Todo o excesso de energia que eu tinha quando acordei foi sugado de mim depois de receber a notícia. Eu não falava com Jess há um tempo, e eu imaginei que ela tinha decidido ignorar meu aviso sobre voltar para Margo. — Bree, você é a única que pode ajudar a sua amiga agora. — a detetive falou ao chegarmos ao térreo e sairmos. — Eu prometo a você, seja ele quem for, ou quem quer que seja que você tenha medo, vai ficar tudo bem. — Eu não tenho medo de ninguém. — eu rebati. — Eu só quero seguir em frente com a minha vida. — minha garganta apertou e outra onda de lágrimas encheram meus olhos. — Eu avisei. Eu disse para ela sair. — eu não pude conter meu choro. — E-ela-ela não ouviu. — Avisou sobre o quê? — a detetive pressionou. Ergui a cabeça e olhei em seus olhos, querendo tanto contar. Se eu achasse que ela prenderia Margo e o senador Stevens e eles apodreceriam na cadeia para o resto de suas vidas, as palavras teriam saído sem nenhum problema. Mas eu sabia que não era o caso. Eles seriam presos, mas implicaria um longo julgamento, e eu e minha vida passada seríamos o centro disso. — Eu-eu realmente tenho que ir. — eu sussurrei quando um táxi parou.

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— Bree! — gritou a detetive quando comecei a entrar. — Por favor, pense nisso. A pessoa que fez isso não merece andar nas ruas livremente e ele vai fazer isso novamente com outra pessoa, e agora, você é a única que pode impedir que isso aconteça. Eu pulei na parte de trás do táxi, querendo me distanciar da detetive e de toda a situação o mais rápido possível. Se eu tivesse simplesmente relatado quando tinha acontecido em vez de fugir, Jess não estaria nesta situação. Eu tentei o máximo me estabilizar durante a corrida de táxi para a casa de Simon. Eu não queria envolvê-lo nisso e ouvi-lo me dizendo: eu avisei. Eu estava me sentindo muito mal com a situação; eu não precisava de quaisquer lembretes. Eu falhei miseravelmente na minha tentativa de permanecer controlada depois do meu encontro com a detetive. Isso Se confirmou quando eu polvilhei sal e pimenta na manteiga de amendoim e geleia do sanduíche de Jack. — Eca, eu não gosto de sal e pimenta na minha manteiga de amendoim. — felizmente Jack estava mais atento do que eu e notou o que eu estava fazendo. — Oh meu deus, Jack. Eu sinto muito! Eu vou fazer outro para você. — eu joguei o sanduíche no lixo e peguei outro pão, esperando acertar dessa vez. — Bom dia. — Simon cumprimentou ao entrar na cozinha, vestido casualmente em jeans e uma camisa de botão. Nem seu rosto bonito conseguiu levantar meu astral naquela manhã. — Ei. — forcei um sorriso. — Papai, Bree está com a cabeça boba! Ela colocou sal e pimenta no meu sanduíche de manteiga de amendoim e geleia. — Ela colocou? — Simon olhou para mim enquanto tomava um gole de café.

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— Sim, eu estou apenas um pouco fora de mim esta manhã. — minhas mãos estavam visivelmente trêmulas quando espalhei a manteiga de amendoim no pão. Simon a pegou imediatamente, retirou a faca da minha mão e assumiu por mim. — Jack, você já escovou os dentes? — perguntou ele. Jack balançou a cabeça e pulou da cadeira, desaparecendo para o banheiro. — Está tudo bem? — Simon perguntou quando Jack estava fora do alcance da voz. — Sim, está tudo bem. — eu segurei a respiração, tentando afastar as lágrimas desesperadamente. Eu estava fazendo um trabalho terrível de não só para me convencer, mas a ele também. Ele deu um passo para mais perto, tomou minhas mãos nas dele, inclinou-se para baixo, e deu um beijo na minha testa. De alguma forma, ele sempre sabia exatamente o que eu precisava sem eu nunca dizer uma palavra. Fechei os olhos, lembrando-me de como tinha sorte de tê-lo em minha vida. — Jack, pegue suas coisas. Vou levá-lo para a escola hoje. — disse Simon, quando Jack voltou para a cozinha. — O quê? Simon, está tudo bem. Eu posso levá-lo. —

Está

Bom. Eu

tenho

um

dia

surpreendentemente

desocupado. Minha reunião da manhã acabou de ser cancelada. — Simon, você vai me deixar... — Bree, está resolvido. Vou levá-lo. Eu estava tão aérea que ele não confiava em mim para levar Jack para a escola? Fiquei parada me sentindo inútil enquanto observava Simon e Jack saírem pela porta. Que diabos eu ia fazer até duas horas

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para me impedir de ficar sozinha com meus pensamentos? Olhei para a Macy, que estava circulando no meu pé. — Você quer sair para uma caminhada, menina? — perguntei, como se ela fosse responder. A julgar pela cauda abanando, assumi que a resposta era um sim. Eu esperava que dar algumas voltas no quarteirão com Macy me ajudasse a limpar a cabeça, mas eu ainda estava consumida com pensamentos de Jess, a cabeça ficou onde estava no momento que comecei a nossa caminhada. — Eu acho que é melhor pensar em outro plano para limpar a mente. — eu disse a Macy enquanto subíamos os degraus e entrávamos. Eu coloquei a chave na porta, surpresa ao encontrá-la destrancada, depois de me lembrar claramente de tê-la trancado. Minha imaginação tirou o melhor de mim e entrei cautelosamente, observando Macy por quaisquer sinais de algo errado. Meu estômago revirou e depois se recuperou quando entrei na cozinha e percebi que era o Simon e não um intruso. — Meu Deus! Você me assustou. — eu soltei um suspiro de alívio. — Desculpe, eu esqueci meu telefone. — Vim apenas deixar Macy, e então eu vou voltar para pegar o Jack. Ele estava lendo algo em seu telefone, metade prestando atenção em mim. — Espere um segundo. — ele pediu. Esperei-o responder o que quer que fosse do seu interesse no telefone. — Sério, qual é o problema? — ele perguntou, dando-me toda a sua atenção.

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— Eu só recebi más notícias esta manhã. — eu decidi jogar limpo. — Sobre? — Aquela garota, a Jess. Ela trabalha... ela faz o que eu costumava fazer. — eu hesitei. — Ela foi estuprada e espancada na noite passada e acham que foi a mesma pessoa... — eu respirei fundo antes de vomitar o resto das palavras. Era uma lembrança que eu queria esquecer, e era tão difícil falar sobre isso agora. — Eles acham que foi a mesma pessoa que fez aquilo comigo. — Como você soube? — A detetive que estava no hospital quando aconteceu comigo apareceu na minha casa esta manhã. Ela queria que eu contasse quem foi. — Você contou? — Não. — eu sussurrei. — Bree, por que você tem tanto medo de entregar esse cara? — Porque, Simon, eu amo minha vida do jeito que está agora. Eu não quero relembrar aquela época terrível. Ele é um senador. Você sabe o auge que essa notícia vai ter? E eu não quero estar no centro dela. Eu, finalmente, sinto que estou assumindo o controle da minha vida. Eu não quero voltar para onde eu estava. Ele soltou um suspiro profundo. Eu sabia que ele não veria do meu jeito. — Eu entendo o que você está dizendo, Bree, mas ele não pode ficar impune a isso. — Eu sei. — eu balancei a cabeça em frustração. — Se ela tivesse apenas me ouvido. Eu avisei para ela. Eu falei para ela para ficar o mais longe daquela mulher horrível. Ela armou para ela do jeito que fez comigo. — Bem, se sua amiga decidir testemunhar, você pode não ter escolha a não ser se envolver.

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Eu não queria pensar sobre isso. Eu estava disposta a me expor, mas eu não estava disposta a colocar Simon e Jack para enfrentar essa humilhação junto comigo. — Então, todo mundo saberia o meu segredo. — meus olhos se encheram de lágrimas. — E onde é que isso nos deixa? — Do que você está falando? — ele franziu a testa. — Você está disposto a deixar as pessoas saberem quem eu realmente sou? Porque eu não estou. Eu não estou disposta a colocar você e Jack nisso. Eu não posso, e eu não vou. — eu balancei a cabeça. — Bree, você está tirando conclusões precipitadas agora. — Estou? Você sabe que isso não vai ser algo que simplesmente vai ser

esquecido

facilmente. Haverá

um

julgamento

longo,

e

elaborado. Deus, Simon, você não entendeu? Você tem uma ex-garota de programa como babá do seu filho! Como os pais de sua esposa se sentiriam, e quão ruim ficará para você quando eles pedirem pela custódia? — Eu estou disposto a correr o risco. — Mesmo? Você vai jogar com a possibilidade de perder o seu filho por minha causa? — Não, Bree, eu não quis dizer isso! — sua frustração estava aumentando. Ele inclinou meu queixo, forçando-me a olhar para ele. — Só, por favor, acalme-se. Pare de se estressar sobre o que pode acontecer e se concentrar apenas sobre a coisa certa a fazer. — Eu não posso, não quando eu sei que o que pode acontecer é perder você e Jack. — minhas lágrimas se transformaram em soluços. — Pela primeira vez na vida, estou feliz, muito feliz, e agora, essa felicidade pode ser tirada, porque algum senador babaca se excita batendo em mulheres.

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Ele me puxou para ele e me abraçou com força. — Bree, eu prometo, você não vai me perder ou o Jack, apenas, por favor, pare de fazer isso para si mesma. — Simon era muito nobre para ir embora quando as coisas ficassem difíceis, e eu o amava por isso. Mas eu não o faria atravessar o inferno e sacrificar tudo, inclusive o filho, por causa dos meus sentimentos. Eu iria embora com ele me odiando para sempre e meu coração em pedaços antes de permitir que isso acontecesse.

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Capítulo 34 Macy dançava ao redor dos meus pés, enquanto ela e eu esperávamos Jack fora da escola. Simon tirou a manhã de folga e passou comigo, mas eu ainda estava um desastre emocional por causa do desconhecido que se aproximava. Eu não tinha certeza se queria rir ou chorar quando Jack atravessou as portas duplas, como ele fazia todos os dias, mas havia algo hoje que era uma lembrança nítida de como as coisas podem mudar rapidamente. Eu adorava cuidar de Jack, e ao longo dos últimos meses, ver aquele sorriso cativante no rosto dele todas as tardes, quando ele saía, era o destaque do meu dia. Eu não queria que aquele sorriso fosse tirado de mim. Eu não queria que Jack fosse tirado de mim. Eu tinha muito a perder, e isso me assustava até a morte. — Bree, olhe para as minhas flores da primavera! — Jack ergueu o desenho colorido orgulhosamente na mão. — Você que desenhou? — perguntei. Ele balançou a cabeça com o sorriso maior. — Está lindo! — eu falei. Ele abaixou-se e deu um beijo na cabeça da Macy antes de se aproximar da minha mão. — Senhorita Foley disse que vamos ter uma festa de Primavera esta semana para o Dia das Mães, e todas as mamães estão convidadas. De repente, fui levada à minha infância, e a alienação que eu sentia a cada ano, quando o Dia das Mães chegava. Enquanto todas as outras crianças tinham suas mães lá para comemorar, eu ficava sentada sozinha, desejando que ser uma delas. Eu odiava a escola por fazer isso todo ano, e eu os odiava por fazer com Jack agora. Como desejei que Hannah estivesse lá; então, pelo menos, eu poderia avisá-la e poupar Jack da dor. — Humm... é... 259


— Você vem? — Jack perguntou antes que eu pudesse terminar. Meu coração se encheu de novo. Eu estava cheia de emoções misturadas, não sabia se era felicidade ou tristeza, com apenas a perspectiva de perder aquele rapaz pequeno maravilhoso da minha vida. — Eu adoraria. — eu consegui dizer. A temperatura da tarde tinha aumentado acima do normal, por isso, Jack e eu paramos e pegamos um pouco de sorvete no caminho de casa. Nós ainda pegamos um cone de cachorrinho para Macy, que ela engoliu em pouco tempo. — Você ama o meu pai? — Jack falou quando sentamos no banco para tomar o sorvete. Ele me pegou um pouco desprevenida, mas acenei com a cabeça sem hesitação. — Uau! — ele respondeu em um sussurro alto, um sorriso enorme se espalhando sobre o rosto coberto de chocolate. Eu usei o guardanapo na mão, para limpá-lo. — Você vai se casar com ele? — Oh, Jack... Eu-eu... — Bem, você devia, porque então seria a minha mãe, e poderia me amar também. Fechei os olhos e respirei fundo. Eu me odiava por não só colocar o meu relacionamento com Simon em risco, mas também a minha relação com

Jack. Ele

era

muito

jovem

para

entender

o

que

estava

acontecendo. Ele já tinha experimentado tanta perda e dor em sua jovem vida, e eu não queria ser a causa de mais nada. — Jack, eu não tenho que me casar com seu pai para te amar. Eu já te amo. Seus olhos azuis brilhantes se arregalaram de surpresa quando o sol refletiu em seus óculos. — Você ama? — perguntou.

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— Sim, eu amo. Eu te amo muito, e não importa o que aconteça, eu sempre vou te amar. Ele deu uma mordida na casquinha de sorvete, que estava transbordando, e agora estava completamente coberta de chocolate. Alcancei a bolsa para pegar o gel antibacteriano e o usei para umedecer o guardanapo na mão, fazendo o melhor para limpá-lo. — Vire assim. — eu disse, limpando o lado de seu rosto. — Bom como novo. — bati na ponta de seu nariz com a ponta do dedo, e ele sorriu. Ele engoliu o resto do cone e se levantou para sair. Segurei a coleira de Macy com uma mão, enquanto Jack pegou minha outra mão, cerrando os olhos para mim por causa da luz do sol. — Bree? — Hmm? — Eu te amo muito também. Tirei os óculos de sol da cabeça e cobri meus olhos. De alguma forma eu acho que Jack não entenderia por que suas palavras tinham me levado às lágrimas. *** Eu estava emocionalmente gasta quando cheguei em casa. Em circunstâncias normais, eu diria que tinha sido um bom dia. Simon tinha sido claro que ele me apoiaria, não importava o quê. Jack tinha provado o quanto eu significava para ele ao me convidar para a festa de Dia das Mães. Minha vida deveria estar perfeita. Mas o problema era que, perfeito, nunca se encaixava no meu mundo. Havia sempre algo jogado na mistura que me impedia de experimentar a vida normal e feliz que tantos outros viviam. Eu me atrapalhei com a chave, finalmente consegui abrir a porta, e me assustei com a visão de Margo sentada no meu sofá.

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— Realmente, querida, para a quantidade de dinheiro que você paga todo mês por este lugar, a segurança fede. Tudo que eu tive que fazer foi dizer ao homem da manutenção que eu era sua mãe, para ele me deixar entrar. Sem perguntas. — Saia agora! — eu exigi. — Oh, relaxa! Eu só quero conversar. — Não tenho nada para falar com você, e se não sair agora, eu vou... — Você vai o quê? Chamar a polícia? — ela soltou uma risada alta, desagradável. — Vá em frente. Tenho certeza de que a detetive que veio bisbilhotar adoraria uma desculpa para voltar aqui e descobrir um pouco mais. Olhei para ela, sem dizer uma palavra. Ela se levantou do sofá e se aproximou. — Só para colocar sua mente para descansar, Jess vai ficar bem, e estou bastante certa de que ao contrário de você, ela não vai me responsabilizar pelo que aconteceu com ela. Ela é uma menina grande que está bem ciente do perigo que acompanha este trabalho. Pena que me levaram todos estes anos para perceber que ela era muito mais leal do que você. — ela balançou a cabeça. — Ele te paga bem? Meus olhos se arregalaram. Eu não queria me envolver em qualquer conversa com ela, mas Simon, definitivamente, era um tema que estava fora dos limites. — Oh, Bree, vamos lá, eu só fiz uma pergunta simples. Por que você está reclamando? Você deveria ser grata a mim. Afinal, fui eu quem o apresentou. Eu vou dizer, eu não achava que você tinha essa coisa de cuidar de criança, estou chocada. Meus olhos se arregalaram. Simon era um tema que estava fora dos limites e Jack ainda mais. — Lave a boca para falar deles.

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— Oh meu Deus, como as coisas mudaram. Você é parece um urso com seu filhote. — ela riu. — Eu já te falei que não sou uma grande fã de crianças? Corri na direção dela, fazendo-a dar um passo atrás. — Isso é uma ameaça? Porque eu juro por Deus, se você chegar a qualquer lugar perto dele, eu vou te matar. — Au contraire, eu ouso pensar que é você que está me ameaçando. Sabe o quê, por que você não vai contar para a sua amiguinha detetive que eu ameacei o filho de seu ex-cliente, que se tornou seu amor, e vemos o que acontece com você e com ele. — ela levantou uma sobrancelha. — Apenas lembre-se, minha querida Aubree, você quer me derrubar, você cai junto comigo, bem como os seus antigos clientes. Então, pense nisso antes de ir correndo abrir a boca. Foi lindo ver você, querida. — um sorriso diabólico espalhou pelo seu rosto quando ela saiu. Depois que ela se foi, eu corri para a porta com as pernas trêmulas. Inspirando e expirando, eu tentei o melhor para equilibrálas. Margo jogou com a minha fraqueza, sabia exatamente onde me bater. Como eu a desprezava e queria vê-la apodrecer na prisão para o resto de sua vida. Na verdade, eu a odiava mais do que o senador Stevens. Andei em volta do meu apartamento, sem saber o que fazer. Enquanto Jess não falasse com a polícia, tudo ficaria bem. Eles não teriam qualquer caso contra o senador Stevens, e não respingaria na Margo. Eu estava livre. Eu apenas manteria a boca fechada e tudo ficaria bem. Eu quase morri de susto ao baterem na minha porta. Espiei pelo olho mágico cautelosamente e encontrei a detetive Lyons do outro lado. Deus, essa mulher era implacável. Tomei uma respiração profunda, com a intenção de me manter no plano original e não dizer uma palavra. — Sinto muito incomodá-la, Bree, mas posso entrar por um minuto? — ela pediu que eu abrisse a porta.

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— Claro. — bufei, abri a porta e permiti que ela entrasse. Eu a levei para a sala e ofereci-lhe uma cadeira, sentei na frente dela no sofá. — Bree, nós puxamos o vídeo da vigilância do hotel onde sua amiga foi encontrada, e da noite que você desmaiou no mesmo hotel. Ambos vídeos mostram as senhoras entrando no quarto com o senador Mark Stevens. Fechei os olhos e olhei para longe. Meu plano simplesmente ficar em silêncio voou pela janela agora. — Bree, eu entendo que você não queira falar por causa da razão a levou a estar lá com ele. Você está preocupada com os problemas que isso lhe causará. — Não, eu não estou preocupada comigo! Eu não poderia me importar menos com o que acontecesse comigo! — eu rebati. Ela balançou a cabeça em confusão. — Então eu não entendo, por que o segredo? Olhei para baixo, mais uma vez, tentando afastar as lágrimas. — Bree, houve vários outros estupros no passado que se encaixam no mesmo modus operandi, todas as mulheres se recusaram a falar, e depois de ir ao hotel e olhar as câmeras de segurança, todos aconteceram na mesma noite que o senador Stevens estava hospedado lá por causa de algum evento político. Ele sabe exatamente até onde pode ir sem sujar as mãos, até agora. Achamos que ele estava subornando essas meninas para não falar. Então, agora queremos pegar este filho da puta e nos certificar que não aconteça novamente. — E como você planeja fazer isso, detetive? — Com o seu depoimento e o da sua amiga. Eu balancei a cabeça. — Não. Eu-eu não posso fazer isso.

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— Bree, estamos oferecendo-lhe a imunidade em troca do testemunho. Eu juntei as sobrancelhas em confusão. — Imunidade de quê? — Processo por prostituição. — O que! Eu não era— Chame do que quiser, mas a venda de sexo em troca de dinheiro é ilegal no estado de Nova Iorque. Não é ciência de foguetes, Bree. Tudo que você tem a fazer é dizer o que ele fez com você, e seu passado e qualquer um dos seus clientes associados serão esquecidos. — E se eu optar não fazer? — Então você vai ser acusada, presa e ter um registro. Nós vamos ter que envolver os seus antigos clientes para testemunhar também. Eu cobri o rosto com as mãos. Meu maior medo estava se tornando realidade. Eu estava ferrada de qualquer jeito. — E vai sair em todos os noticiários porque ele é senador. E o mundo inteiro vai saber o que eu fazia para viver. — Tentaríamos protegê-la da melhor que pudermos. — Eu não sou estúpida, detetive. A mídia vive para isso. — eu balancei a cabeça e respirei fundo. — Eu não entendo por que é uma decisão tão difícil. Você vai se safar. Nenhum registro. Nenhuma menção de qualquer um dos seus exclientes e o melhor de tudo, o senador Stevens vai ter o que merece. Quem você está tentando proteger, Bree? — O homem que eu amo. O homem que me mostrou que havia uma vida melhor do que a que eu estava vivendo. Eu não posso humilhá-lo deixando o mundo saber quem eu sou. — Bree, tenho certeza que se ele é tão maravilhoso como você diz, ele vai apoiá-la.

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Pisquei as lágrimas e assenti. — Exatamente. Ele vai, e eu não quero que ele faça isso. Ela franziu as sobrancelhas. — Ele tem muito a perder, e eu não vou permitir que ele perca por minha causa. — eu respirei fundo, sabendo que o que eu tinha que fazer era a coisa mais difícil que já fiz na vida. — Eu estou pensando em ir para a Califórnia por um tempo para ver minha família. Vou te dar meu número e você me avisa quando precisar do meu depoimento. Nós duas nos levantamos e ela colocou a mão no meu ombro. — Você está fazendo a coisa certa, Bree. — Sim, diga isso ao meu coração. — eu suspirei, anotei o meu número num pedaço de papel e entreguei para ela. — Detetive? — eu disse quando ela chegou à porta. — E quanto a Margo? Ela balançou a cabeça confusa. — Minha antiga chefe, que dirige a agência. — Oh, ela. — ela finalmente entendeu. — Eu não posso dizer muito sobre isso, mas eu posso assegurá-la, você não vai precisar se preocupar com ela por muito tempo. Falaremos em breve. — ela me deu um sorriso reconfortante e saiu pela porta, levando todo o meu futuro com ela, fazendo-me agarrar ao passado.

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Capítulo 35 Eu tentei passar o resto da semana o melhor que pude. Eu tinha reservado minha passagem para a Califórnia para o final da semana, sem data de retorno planejada. Eu lutei com as lágrimas e emoções, esperando Simon e Jack não entendessem o quanto meu coração estava quebrado. A celebração do Dia das Mães na escola de Jack foi um sucesso, e cada vez que eu via a felicidade dele por eu estar lá, minha garganta apertava, sabendo que logo eu deixaria sua vida do jeito que a mãe verdadeira dele tinha feito. Ele estava tão animado ao me dar a pintura que ele fez de mim e ele, e eu não conseguia parar de sorrir cada vez que eu olhava para o meu cabelo amarelo brilhante e os grandes óculos redondos dele na foto. Tivemos um almoço delicioso de sanduíches de manteiga de amendoim e geleia, cortados em formas de flores. As outras mães na classe falaram comigo e me trataram como se lá fosse o meu lugar. Foi um grande dia, que eu sempre me lembraria todas as vezes que pensasse em Jack. — Então, Jack, eu vou para a Califórnia. — eu disse enquanto caminhávamos para casa da escola. — É longe? — perguntou. — Sim é. — Por que você está indo lá? — Para visitar minha família. Meu irmão mora lá e o meu pai também. — Oh. — ele assentiu. — Quando você vai voltar? A faca no meu peito torceu com essa pergunta. Eu não sabia como responder. Eu precisava ser honesta com ele, mas, ao mesmo tempo, eu não queria quebrar seu coração. — Humm... eu não tenho certeza.

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Ele olhou para mim confuso quando chegamos à casa dele. — Sente-se. — eu pedi. Nós dois nos sentamos nos degraus. — Eu preciso ir embora e acertar as coisas para todos. — Como? — Bem, eu não falo com meu pai há algum tempo, e eu sinto muita falta dele. Então eu preciso ir vê-lo. — Mas e o meu pai? Você não vai sentir falta dele também? — sua voz falhou com emoção. Eu balancei a cabeça, tentando o possível para manter o controle por causa dele. — Vou sentir muita falta do seu pai. Na verdade, eu vou sentir sua falta e do seu pai mais do que qualquer coisa no mundo. — Então, por que você está nos deixando? — lágrimas derramaram de seus olhos e desceram pelo seu rosto. — Jack, eu gostaria de poder explicar a razão e fazer você entender, mas eu não posso. Eu só preciso que você saiba que você não fez nada de errado. Você é o melhor filho do mundo, e eu te amarei para sempre e sempre. — Eu nunca mais vou te ver? — seu lábio inferior tremeu e ele começou a soluçar. — Eu não sei, Jack. — eu sussurrei. Eu joguei meus braços ao redor dele e o abracei com força, fazendo o possível para acalmá-lo enquanto as lágrimas derramavam dos meus olhos. Eu me odiava por ser a razão do sofrimento dele, e eu faria qualquer coisa, se houvesse uma maneira, para aliviar a sua dor. — Eu não quero que você vá. Eu quero que você fique e se case com o meu pai. Engasguei um soluço, querendo a mesma coisa que ele, mas sabendo que nunca seria possível.

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— Ei, você se lembra daquele filme que vimos há algumas semanas, Um Conto Americano? — perguntei, tentando nos acalmar. Ele balançou a cabeça e tentou recuperar o fôlego. — Você se lembra do momento que ele se perdeu da família, e ele e sua irmã cantaram aquela canção um para o outro? — Sim. Aquela que nós cantamos? — Sim. Aquela. — eu consegui um sorriso. — E você se lembra do que eles disseram na música? Ele assentiu. — Então, à noite, quando você estiver se sentindo solitário ou estivermos sentindo muito a falta um do outro, basta lembrar que estamos dormindo debaixo do mesmo céu, e então vá para a janela e olhe para a lua, e saiba que estarei olhando para a mesma lua e pensando em você também. — Ok. — sua voz vacilou. — Eu prometo que vai ficar tudo bem, Jack. Eu prometo. — eu fechei os olhos e descansei meus lábios no topo da sua cabeça, tentando tranquilizar-me tanto quanto a ele. *** Jack estava dormindo quando Simon chegou em casa do trabalho. Meu estômago virou um nó quando no momento que ele passou pela porta. Meu coração já tinha sido nocauteado com Jack mais cedo e, agora, ele estava indo para o segundo round. — Ei. — ele cumprimentou ao entrar na cozinha. Mordi o lábio e olhei para ele, absorvendo-o por inteiro. — Ei. — eu respondi. — Jack está dormindo? — perguntou ele, aproximando-se e dando um beijo na minha bochecha.

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— Sim. — eu sussurrei. — Como foi a festa? — Foi muito boa. — minha voz falhou, e eu me virei rapidamente para aquecer o jantar no micro-ondas, esperando que ele não tivesse notado. — Então, eu estava pensando. Eu tenho que ir a uma conferência em Orlando no próximo mês, e quero que você e Jack venham, e vamos para a Disney. Eu fiquei sem palavras. Tudo o que eu pude fazer foi balançar a cabeça e olhar para o chão. — Qual é o problema, você não gosta do Mickey Mouse? — brincou. — Simon, eu vou embora. — eu forcei as palavras. Ele estreitou os olhos. — Para onde? — Para casa. — eu sussurrei. — Para a Califórnia? Eu assenti. — Visitar? Meu silêncio respondeu a pergunta. — Que porra é essa, Bree? Você apenas tomou essa decisão sem nem falar comigo! — Sua voz se levantou. — Porque eu sabia que se eu dissesse você me diria para não ir. — Bem, por que diabos eu iria querer que você fosse? — Simon, eu falei com aquela detetive de novo no outro dia. Eles têm um vídeo meu com aquele senador. Então, ela basicamente me disse que eu tenho duas escolhas, testemunhar e tudo ser esquecido, ou não depor e ser exposta a acusações. — Acusações de quê?

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— Minha antiga ocupação. — eu murmurei, incapaz de dizer essa palavra feia prostituição. — E simplesmente assim, você decidiu levantar e sair com base na ameaça dessa detetive? — Você não entendeu? De qualquer maneira eu estou ferrada. Se eu der testemunho, meu nome e rosto estarão em todos os noticiários. Se eu não der sou processada, e todos os meus clientes antigos serão acusados também. Ele passou a mão pelo cabelo. — Então, que bem ir para a Califórnia vai fazer por você? Tudo, magicamente, vai sumir, ou algo assim? — Não. Não vai. — Por que diabos, Bree? Você pode, por favor, me explicar por que está fazendo isso? Porque eu estou tendo dificuldade em compreender o seu raciocínio. — Porque eu não posso ficar com você. — eu tive que desviar o olhar, incapaz de suportar a dor que irradiava por todo o rosto dele. — Você é um homem muito honrado, mas não vou permitir que seja humilhado e comprometa tudo por minha causa. Eu não vou fazer você escolher entre mim e uma vida normal, decente que você e Jack merecem, e acima de tudo, eu não vou ser a razão de você correr o risco de perder o seu filho. Ele ficou sem fala, olhando para mim, incrédulo. Cada momento de silêncio pareceu horas, e meu coração estava sendo rasgado peça por peça a cada segundo que passava. Ele se levantou e sacudiu a cabeça. — Diga alguma coisa, Simon. — eu implorei. — O que você quer que eu diga, Bree? Que eu pensei que o que tínhamos era diferente? Que eu pensei que você fosse diferente? Eu achei que te amava, e eu pensei que você me amava também.

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— Eu te amo. Ele recuou quando eu me aproximei. — Você não entende? Eu estou fazendo isso porque eu te amo, e amo muito o Jack. Ele engoliu em seco e ergueu as sobrancelhas. — Não, eu não entendo. Porque quando você ama alguém, você fica com o bom e o ruim. Você não foge na primeira vez que algo dá errado. — É diferente, Simon. — Como? Como diabos é diferente? Porque você está com medo do que as pessoas possam pensar de mim se descobrirem sobre você? Eu não dou a mínima! Deixe que pensem o que quiserem. As opiniões delas não significam nada para mim! — gritou ele. Minha garganta apertou e a onda de lágrimas correu até os meus olhos. — Talvez eu pudesse ignorar tudo isso também, mas eu não arriscar que esse garoto seja tirado de um pai que o ama mais do que tudo neste mundo, por causa de algo que eu escolhi fazer no meu passado. Ele não merece se envolver nisso, e você não pode me convencer que sim. Ele soltou uma respiração profunda e fechou os olhos. Quando os abriu, mais uma vez, eu quase não reconheci aquelas belas pedras verdes nas quais caí sob o feitiço tantas vezes. Eles estavam vidrados com a dor, e algo me dizia que as minhas palavras estavam fazendo sentido para ele, mesmo que ele nunca admitisse. Cautelosamente, dei alguns passos mais perto, até que estivéssemos apenas a centímetros de distância. — Você sabe que eu estou certa, e não há problema em admitir. — eu sussurrei. Ele virou a cabeça quando estendi a mão para o seu rosto e o acariciei levemente com a mão. — Bree, apenas pare. Se é isso que você escolheu fazer, então faça. Vá. Não prolongue isso.

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Eu balancei a cabeça e respirei profundamente, querendo muito abraçá-lo E beijá-lo uma última vez, mas ele estava diante de mim desligado, como uma estátua, e eu soube que ele nunca permitiria isso. A dor no meu coração era imensurável, que poderia ter sido evitada se eu fizesse o que eu queria e ficasse com Simon. Mas mesmo que fosse o que eu mais queria no mundo, minha cabeça e minha consciência me orientavam de forma diferente. Eu não era estranha ao sofrimento, mas este era muito diferente de qualquer outro que eu já tinha experimentado. Eu estava me distanciando das duas melhores coisas que já aconteceram comigo. Eu sabia que estava fazendo o último sacrifício, e sempre me arrependeria, por outro lado, nunca me arrependeria de colocar o bemestar de Simon e Jack acima dos meus sentimentos. Eu queria tanto acreditar que eu era certa para ele, como ele era para mim. Eu só esperava que um dia ele entendesse o meu raciocínio ao me afastar, e percebesse que eu realmente o amava e Jack mais do que qualquer coisa neste mundo... e eu sempre amaria.

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Capítulo 36 — Ok, agora você vai se certificar de caminhar com a Mimi duas vezes por dia? — Trey perguntou pelo que parecia ser a milionésima vez. Minha chegada à Califórnia coincidiu perfeitamente com a viagem de Paul e Trey para Paris. Eu não era apenas uma hóspede, mas também estava a cargo da sua amada ―filha‖, Mimi, que acontecia de ter quatro patas, uma chow chow misturada e peluda. — Sim, Trey! Eu prometo, Mimi estará em boas mãos comigo. Ele ainda parecia inseguro ao ceder. — Ok, bom! Eu me sinto muito mais confortável com você cuidando dela do que aquela menina da rua de cima. — Ela não é uma menina, Trey. — Paul gritou do outro quarto. — É uma estudante universitária responsável. — Bem, eu não sei sobre isso, eu tenho certeza que ela e o namorado fizeram algo indecente no quarto de hóspedes da última vez que ela cuidou da cachorra. Joguei a cabeça para trás e ri. — Não se preocupe aqui, Trey. Eu prometo que não haverá garotos na casa enquanto você estiver fora. — Oh merda! Esqueci de colocar a camisa na mala! — o déficit de atenção de Trey estava nas alturas e ele correu até as escadas para terminar a mala. Saí para a varanda, aproveitando a vista. A casa de Trey e Paul ficava a uma curta viagem de balsa, ou estrada, passando pela ponte para São Francisco. Deveria ser o antídoto perfeito para acalmar meu coração dolorido, ficar em uma colina pacífica com os sons suaves do riacho nas proximidades. O ar era tão fresco e limpo, mas eu ainda me via ansiando pelo ar denso e cheio de gases de escapamento de Nova Iorque. Fechei os olhos e respirei profundamente, joguei a cabeça para trás e permitindo 274


que o sol da tarde envolvesse meu rosto. Olhei para o relógio, e calculei rapidamente a hora na Costa Leste de cabeça: 18h07min. Se eu não tivesse partido, Jack e Simon estariam enfrentando minha última receita do jantar antes de levarmos Macy para sua caminhada à noite. Meu peito inchou só de pensar nisso, desejando estar lá com eles naquele momento. — Ei, tudo bem? — perguntou Paul, aparecendo atrás de mim. — Sim, eu esqueci o tanto que aqui é pacífico. — Sim, é muito diferente do que você está acostumada. — Com certeza é. — eu sussurrei. — Então, por que a viagem repentina depois de eu tentar fazê-la voltar por meses? Mordi o lábio inferior, incapaz de manter minhas lágrimas na baía. — Aconteceu alguma coisa com você e Simon? Eu assenti. — Eu quebrei o coração dele. Eu quebrei meu coração e depois fiz o que faço melhor - eu fugi. — eu derramei minhas entranhas e contei tudo para o Paul. Ele ouviu cuidadosamente, gentilmente oferecendo-me conselhos de vez em quando. — Eu certamente a admiro por colocar suas vontades de lado pelo que acha que é certo. — Obrigada, mas dói pra caramba. — Olha, minha especialidade é direito societário. Direito de família e direito penal não são a minha área de especialização, mas estou te entendendo. Você fez a coisa certa ao decidir depor. Provavelmente vai ser arrastada para o holofote por um curto tempo, mas ao acabar será esquecido, quando a próxima grande história surgir. A última coisa que você quer é ter um registro que a acompanhe para o resto da vida. Quanto a ele perder a custódia para os sogros, é uma decisão difícil. A maioria

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dos juízes não tira a criança do pai biológico, especialmente quando a mãe faleceu. Mas isso não quer dizer que se eles tiverem algum advogado afiado, capaz de influenciar a decisão do juiz, que não aconteceria. Seria uma aposta. — E era uma aposta que eu não queria que ele fizesse, especialmente, quando o preço é tão alto. Ele assentiu. — Eu entendo, Aubree. Eu só gostaria que houvesse algo que eu pudesse fazer, ou dizer, para você se sentir melhor sobre sua decisão. Eu sei o quanto você se importa com ele. Eu vi. Ele mudou muito você, e eu sou muito grato a ele por me devolver a minha irmã. Ele colocou o braço nas minhas costas, e eu descansei minha cabeça em seu ombro. — Você acha que algum dia ele encontrará um jeito de me perdoar? Ele ficou em silêncio por um breve momento. — Nunca se sabe. Esperemos que um dia ele perceba que você fez isso por ele. Às vezes amar é escolher ir embora para beneficiar a outra pessoa, mesmo que doa pra caramba, em vez de ficar, apenas para poupar os próprios sentimentos. Eu olhei para ele e sorri. — Eu gosto muito disso. Ele descansou os lábios no topo da minha cabeça. — Você fica melhor sabendo que estou muito orgulhoso do que você fez? — Sim, fico. — eu sussurrei. — Oh maldição! — Trey gritou de dentro. Paul balançou a cabeça e soltou um suspiro de frustração. — Deixeme ir ver que crise me aguarda. Deixando escapar uma risadinha quando ele entrou, eu peguei o telefone, abri meu e-mail, e comecei a escrever um. Cara Hannah,

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Como você está? Como está sua mãe? Como vai o livro? Há tantas coisas que eu preciso te contar, e mal posso esperar para encontrá-la novamente e falar sobre caras sexys e sexo... haha! Eu queria enviar uma coisinha para o seu livro. Uma vez você me pediu para escrever um parágrafo sobre se apaixonar. Eu fiquei um pouco relutante em fazer isso no início, porque eu não tinha certeza sobre o que dizer, mas agora eu tenho. Então, aqui vai...

No momento em que a última palavra foi digitada, eu mal podia enxergar através das lágrimas. Apertei o botão de envio e fechei o e-mail no meu telefone. Minhas palavras me levaram para aquelas tardes de quinta-feira com Simon de pouco tempo atrás, mas parecia uma vida agora. Nosso relacionamento tinha crescido muito desde então, apenas para desmoronar no final. Eu me perguntava se ele pensava em mim todos os dias e todos os minutos, da mesma maneira que eu pensava nele. Queria saber se Jack estava olhando para a lua, como eu fazia todas as noites desde que eu saí, e me perguntava se os dois perceberam que no curto tempo que passei com eles, eles se tornaram meu mundo inteiro. *** Cinco dias no meu trabalho de babá de cachorro, e Mimi estava finalmente saindo da depressão causada pela saudade do meu irmão e Trey. Eu estava grata por isso, porque eu odiava mentir para Trey todo dia que ele ligava para ver como ela estava. — Quem está aqui, Mimi? — eu perguntei enquanto ela dançava ao redor dos meus pés, latindo e me alertando para alguém na porta da frente. — Ok, ok! — eu disse e sua excitação aumentou. Meu corpo congelou quando eu abri a porta e encontrei o meu pai do outro lado. Eu tinha tentado encontrar a coragem para ligar ou visitálo tantas vezes depois que cheguei, mas eu sempre me acovardava no

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último minuto. Então, vê-lo ali, dando o primeiro passo, significou mais para mim do que qualquer coisa. Meu sorriso se transformou em lágrimas quando ele entrou e jogou os braços ao meu redor sem dizer uma palavra. — Você está linda. — ele pegou meu rosto nas mãos e me olhou. — Eu ia passar para vê-lo, mas eu não tinha certeza se você queria me ver. Lágrimas encheram seus olhos. — Sinto muito, Aubree. Eu fiquei tão irritado com você. — E você tinha toda a razão. Eu estou com raiva de mim mesma pelo que eu me tornei. Mas eu não sou mais a mesma pessoa. Estou recomeçando a minha vida. Estou com medo porque eu tenho vinte e oito anos de idade, sem diploma universitário e nenhuma experiência formal com qualquer coisa, além da dança. Mas eu não vou deixar isso me parar. — Vinte e oito anos de idade, você ainda tem toda a vida pela frente. Tenho cinquenta e sete e ainda não sei o que eu quero ser quando crescer. Eu ri. — Quer dizer, você não sabe o que quer ser depois de se aposentar. Isso, supondo que você algum dia se aposente. — eu provoquei. — Não, este é o ano. Estou falando sério. Eu fiz um chá gelado e sentamos no pátio, aproveitando o clima agradável. Meu pai me contou sobre os últimos três anos de sua vida, incluindo a nova mulher com quem estava namorando. Eu soube imediatamente que ela devia ser muito especial. Meu pai não as mantém por muito tempo, e esta já durava há mais de um ano. — Então, seu irmão me disse que você tem alguém especial em sua vida. O sorriso instantaneamente desapareceu do meu rosto. Estávamos pisando levemente sobre a nossa reconciliação, e eu não queria jogar um balde de água fria nela.

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— Sim, ele é um cara ótimo. — eu forcei de volta o sorriso no rosto. Eu ainda não tinha pensado nisso até então, mas todo o julgamento estava abriria velhas feridas com o meu pai também. Ele concordou, e eu não tive certeza se ele acreditou. — Ele tem um menino? — perguntou ele. Meu sorriso ficou mais largo e mais genuíno, só de pensar em Jack. — Sim, o nome dele é Jack. Ele tem cinco anos, e é adorável, e eu me relaciono tão bem com ele. Ele perdeu a mãe em uma idade jovem, como eu. Tristeza preencheu o rosto do meu pai. Nós nunca conversamos sobre a minha mãe, e eu sabia que era uma grande parte do nosso problema. — Posso te perguntar uma coisa, papai? — Claro. — ele assentiu. — Você ficou com raiva de mim por ter perdido ela? — O que? Não! Meu Deus. Porque você pensaria isso? — Porque, se eu não tivesse nascido, ela nunca teria morrido. — Aubree, não foi culpa sua. Sua mãe queria sua menininha mais do que qualquer coisa. O dia em que ela descobriu que estava grávida, ela me falou que sabia que era uma menina - sem sequer o primeiro ultrassom, ela sabia. Ela saiu e comprou tinta rosa e me fez pintar seu quarto naquela noite. Muitas vezes penso no orgulho que ela sentiria de você com a dança. — Sim, e muitas vezes eu penso o tanto que a minha vida teria sido diferente se eu não tivesse me ferido no acidente, ou se o acidente nunca tivesse acontecido. Eu ainda teria a minha carreira de bailarina, e eu ainda teria Nathan. — deixei escapar um suspiro profundo. — E eu nunca teria me tornado essa pessoa que eu quero tão desesperadamente esquecer.

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— Você só deve focar no futuro, Aubree. Você não pode ficar revivendo o passado. Você não teve nada a ver com a morte da sua mãe e nem com a morte de Nathan. — Não tive? — eu levantei uma sobrancelha, sabendo que, independentemente do que ele dissesse, eu tive um papel em ambas as mortes. — Então, quanto tempo você está pensando em ficar? — perguntou meu pai, mudando de assunto completamente. Dei de ombros. Eu não queria falar para ele que era até que a detetive me ligasse para depor. Depois disso, eu não tinha certeza dos meus planos. Eu ainda tinha três meses de sobra no meu contrato de aluguel, então eu tinha algum tempo para descobrir esta parte. — Não é que eu queira que você vá embora quando acabou de chegar aqui, mas seu novo cara não sentirá sua falta? Eu puxei o lábio inferior e balancei a cabeça. Ele pegou minha mão. — Seu irmão me contou tudo, Aubree. — Maldito. — eu bufei. — Não fique zangada com ele. Fico feliz que ele tenha. Se todos nós vamos começar de novo, não deve haver nenhum segredo. Eu quero que você saiba que eu estou aqui por você. Eu prometo que não vou virar as costas para você por isso. — seus olhos azuis penetrantes estavam cheios de emoção enquanto ele olhava para os meus. — Pai, o seu trabalho. Você é um policial. Ele assentiu. — E em poucos meses vou me aposentar. — Você realmente não tem ideia do quanto isso significa para mim. — eu joguei meus braços em torno dele. — Você é uma lutadora, Aubree, e sempre ficou foi no que achava que era certo. Você é protetora feroz daqueles que ama. A maneira como

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você ficou ao lado do Paul quando ele decidiu se assumir para todos. Admiro muito isso em você, e estou tão orgulhoso de você por deixar seus próprios sentimentos de lado para proteger essa pessoa especial em sua vida. Muitas pessoas não seriam capazes de ir embora tão facilmente. Apenas certifique-se que toda essa dor que você está sentindo não seja em vão e mande esse filho da puta para a cadeia pelo que ele fez. — Eu vou tentar. — eu suspirei. — E eu sei que você vai ter sucesso. Eu não tinha certeza disso, mas eu iria, certamente, fazer o meu melhor. Saber que eu tinha o apoio da minha família era tudo o que eu realmente precisava, e não importava o resultado, eu tinha uma parte da minha vida de volta que eu senti falta por muito tempo.

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Capítulo 37 Um mês se passou, e eu estava me sentindo muito parecida com um peixe fora d'água. Por mais que eu gostasse de ficar com a minha família, eu sentia falta de Nova Iorque, do Simon, do Jack. Eu estive em contato com a detetive, e ela me informou que começariam a preparação do julgamento no próximo mês. Eu estava sendo útil ajudando Trey na cafeteria dele, mas ainda ansiava por algo mais. Eu tinha enfrentado alguns velhos fantasmas, o que incluiu uma visita aos pais de Nathan, e, finalmente, consegui começar a eliminar um pouco da culpa que carregava há muito tempo. Meu pai falou sério mesmo sobre a aposentadoria e definiu uma data concreta para o grande dia. Meu irmão e eu estávamos pensando em maneiras diferentes de tornar o momento especial para ele, além de uma festa. Eu conheci sua namorada, Karen, e ela e eu nos demos bem imediatamente. Fiquei feliz que o meu pai tivesse encontrado alguém especial, mas era uma lembrança dolorosa do quanto eu estava solitária. — Ei, Trey, eu preciso atender esta chamada. — pedi licença quando vi um número de Nova Iorque brilhando na tela do meu telefone. — Olá? — eu respondi. — Bree, é a detetive Lyons. Meu estômago sempre conseguia revirar ao som de sua voz. — Ah, oi, detetive. — eu respondi. — Bree, eu não sei se você já soube, mas o senador Stevens cometeu suicídio na noite passada. Eu tive que me sentar enquanto registrava suas palavras. — Não, eu - eu não soube. — eu consegui soltar. — Portanto, não vamos precisar do seu testemunho e você não será submetida aos rigores de um julgamento.

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Eu fui dominada por um momento de felicidade, até pensar na outra alternativa que eu enfrentaria. — Oh, ok e sobre a outra coisa? — eu hesitei em perguntar. — Que outra coisa? — perguntou ela. — As acusações contra mim? — Você fez um acordo para cooperar conosco para depor contra o senador Stevens, em vez de enfrentar essas acusações, e vamos honrar esse acordo. Você está livre para deixar tudo para trás agora. — Oh meu Deus! — exclamei — Você acabou de fazer o meu dia! — Fico feliz em ouvir isso. — Detetive? — eu questionei na hora que estávamos prestes a desligar. — Sim? — Você pode me dizer o que vai acontecer com Margo? — Margo? — Sim. Minha antiga chefe. A mulher que dirigia a agência. Você tinha dito que eu não teria que me preocupar com ela. — Bem, Margo - ou Inga Schmidt, que é o verdadeiro nome dela está enfrentando alguns processos tributários por fraude bancária muito sérios, e é mais do que provável que depois de cumprir uma longa pena na prisão, ela vai ser deportada para a Alemanha. Eu balancei a cabeça e sorri. O carma veio em dose dupla naquele dia, e eu não conseguia pensar em duas pessoas que mais mereciam. Eu desliguei o telefone com muitas emoções misturadas. Eu estava finalmente livre da vida que estava tentando esquecer, mas eu também estava livre da vida que desejava muito desesperadamente. Eu tinha me precipitado e arruinei a minha chance de uma vida feliz com Simon. Parte de mim queria correr de volta para Nova Iorque e implorar-lhe para me

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aceitar de volta, enquanto a outra parte queria experimentar e seguir em frente, sem importar com o tanto que fosse difícil. — Hannah! — eu gritei e sorri para o nome dela piscando no meu telefone. Era a terceira coisa boa de hoje. Realmente, o meu dia de sorte. — Olá, estranha! — respondi. — Olá, é a Bree? — a voz do outro lado do telefone não era de Hannah, definitivamente. — Sim, é ela. — eu respondi. Ela limpou a garganta e começou a falar novamente. — Bree, aqui é a Jana, a irmã de Hannah. Ela pediu que eu ligasse para que você soubesse... — ela fez uma pausa. — O quê? — perguntei. O suspense estava me matando. — Bree, Hannah está muito doente. Ela tem uma doença cardíaca que piorou ao longo dos últimos meses. Ela está morrendo. Engoli em seco e as lágrimas brotaram em meus olhos. Minha sorte grande tinha acabado de chegar ao fim. *** Eu estava no próximo voo para Connecticut para ver Hannah. O tempo todo achei que Hannah tivesse voltado para casa para cuidar da mãe doente, mas ela era quem estava realmente doente. Eles tinham montado um leito hospitalar na casa dos pais dela, e fui recebida de braços abertos. Ela não estava brincando quando disse que tinha uma grande família; todos os irmãos e irmãs estavam lá, com exceção do irmão mais novo, Brendan. Eu sabia o quanto ele significava para ela, e só esperava que ela pudesse dizer seu adeus para ele. Tanto a mãe, quanto o pai, estavam compreensivelmente abalados, mas seus irmãos e irmãs agiam como se me conhecessem por toda a vida, me deixando ciente do quanto Hannah tinha falado sobre mim.

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— Minha irmã simplesmente adora você, Bree. — sua irmã Jana falou ao me levar até as escadas e para o quarto, onde Hannah estava hospedada. Entrei, nem reconheci minha querida amiga. Ela estava pálida, o corpo magro tinha murchado ainda mais, mas ela ainda assim tinha a aparência inchada. Doeu-me ver o tubo de oxigênio no nariz que a ajudava respirar. — Vou dar-lhes alguma privacidade. — sua irmã saiu e fechou a porta atrás dela. — Bree, estou tão feliz por você estar aqui. — a voz de Hannah estava fraca. — Eu estaria aqui antes, se eu soubesse. — eu não ia chorar. Por mais que fosse difícil, eu prometi que não deixaria isso acontecesse. Eu precisava ser forte por causa de Hannah. — Sinto muito, eu não queria que todos soubessem, mas eu não podia deixar esta terra sem me despedir de você. — ela lutou entre as respirações. Eu agarrei a mão dela e a olhei. — Bem, eu estou honrada. — Obrigada por ser uma boa amiga para mim, Bree. Eu nunca tive uma amiga com quem eu pudesse beber vinho e falar sobre todas aquelas coisas, e foi muito divertido. Eu sorri. — Foi, e eu tenho certeza que quando você chegar no lugar que está indo, haverá muitos caras quentes esperando por você, e você vai ser capaz de dizer a palavra s-e-x-o livremente, em vez de soletrar. Ela conseguiu dar sua melhor risada. — Você acha? — Eu sei que sim. Você merece, irmã!

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Ela respirou fundo e fiz todo o esforço para manter a promessa de não chorar. Eu odiava vê-la sofrer. — Hannah, eu quero que saiba que você foi a melhor amiga da vida. Você me aceitou do jeito que eu era, e não tentou me mudar. Em vez disso, você me fez ver a pessoa que eu realmente queria ser e me ajudou a ir atrás dela. Eu não estaria onde estou agora se não fosse por você. — Basta ser feliz, Bree. Você é uma boa pessoa, e você merece. — Eu vou tentar muito. — Eu quase me esqueci. — sua voz enfraqueceu, e ela prendeu a respiração. Ela apontou para a prateleira do outro lado da cama, deixando escapar outro suspiro. Fui até onde ela indicou. — Os livros. — ela lutou para falar. Peguei os dois livros de bolso na prateleira, no momento que a irmã de Hannah entrou de novo no quarto. — Jana, por favor, diga a ela. — a voz de Hannah era quase inaudível. — Este é o livro de Hannah. O que você ajudou. — explicou Jana. — Hannah nasceu com uma doença cardíaca, e ao longo do ano passado, a condição se deteriorou. Ela estava bem ciente do prognóstico, mas seguiu em frente o máximo que pôde. O desejo dela, antes de morrer, era escrever um romance. Obrigada por ajudá-la a tornar isso uma realidade. — Her Saving Grace. — eu li o título do romance que eu estava segurando. A capa era de um fundo suave e pastel com uma única rosa branca. — Eu tenho um amigo que trabalha para uma editora. — Jana continuou. — Eu contei para ele sobre o desejo da minha irmã publicar um romance. Ele puxou algumas cordas, e aqui está.

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— É lindo. — eu sorri e folheei através das páginas. Hannah murmurou algo incoerente para mim, mas Jana entendeu perfeitamente. — Ela quer que você leia a dedicatória. Eu viro a frente do livro e leio em voz alta. — Para Bree & Simon Que vocês sejam sempre a neve recém caída um do outro. — meus olhos se arregalaram, e a promessa de não chorar estava chegando mais perto de ser quebrada. Estudei a capa mais uma vez, com especial atenção para o título. Her Saving Grace. E finalmente percebi como o título estava ligado ao sobrenome de Simon. A história de Hannah era sobre nós. — Eu não posso acreditar que você escreveu sobre mim... sobre nós. — Eu não sei... — Hannah fez uma pausa para recuperar o fôlego. — Eu não sei como sua história vai acabar na vida real, mas eu sei como ela termina no meu livro... e espero que seja semelhante ao futuro reservado para os dois. Puxei o livro para mim, apertando-o com força. — Significa mais para mim do que você jamais saberá. — as lágrimas estavam agora escorrendo pelo meu rosto. — Obrigada por me dar uma grande personagem principal sobre quem escrever. — as palavras de Hannah estavam arrastadas. — Sim, Jonathan, meu amigo na editora disse que Ava é uma das melhores protagonistas que ele leu em um longo tempo. — acrescentou Jana. — Você me chamou de Ava e não de Barbara! — eu ri através das lágrimas. Hannah conseguiu dar um sorriso. Seus olhos estavam ficando pesados, e eu sabia que ela precisava descansar. Fui até sua cama, pensando no que falar. Como eu poderia dizer adeus, sabendo que eu nunca a veria novamente? — Eu vou deixar você

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descansar. Você vai precisar para lutar contra todos os caras quentes que vão te perseguir. — Oh, Bree, muito obrigada por ser você, e não agir como se isso fosse diferente de qualquer outro adeus. — Não é, Hannah, porque eu sei que um dia eu vou vê-la novamente. Pelo menos, eu espero ir para o mesmo lugar que você. — Você vai, Bree. Eu terei uma garrafa de vinho e um cara quente para você. — Parece um plano. Apenas certifique-se de que não seja vinho tinto, e eu levo os petiscos. As lágrimas rolavam pelo rosto de Jana. Fiquei espantada com o meu controle. — Adeus por enquanto, minha amiga. — Hannah sussurrou. — Vejo você. — abaixei-me e beijei-a na bochecha antes dela finalmente ceder às suas pálpebras e adormecer. Eu ainda consegui segurar a emoção, mesmo depois que Jana e eu saímos do quarto para o corredor. Fomos descendo as escadas e Jana ofegou. — Oh, Bree, eu esqueci completamente! Vamos fazer a leitura do livro no próximo mês. Vai ser em uma livraria em Manhattan, e todo o dinheiro vai para o abrigo de animais onde você e minha irmã eram voluntárias. Nós adoraríamos que você fosse e fizesse a leitura. Quando nós programamos, esperávamos que Hannah pudesse fazê-la, mas eu não acho que será possível. Seria uma honra para ela ter você lá para ler o livro em seu lugar. — Eu adoraria. — Isso é tão maravilhoso. Aqui estão todos os detalhes. — ela me entregou um pedaço de papel, e eu adicionei a informação no meu

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telefone imediatamente, e coloquei o pedaço de papel dentro de um dos livros. — Ah, aqui está. Peguei duas cópias da prateleira quando eu estava lá em cima. — eu fui para entregar um dos livros para a Jana. — Na verdade, você pode dar o outro para o Grayson? — perguntou Jana. — Grayson? — eu levantei uma sobrancelha e Jana riu. — Sinto muito, eu fiquei tão absorta nos personagens da Hannah, que eu os chamo por seus nomes fictícios. A inspiração para Grayson. — explicou. — Simon. — eu sussurrei. A dor surda no meu coração elevou a cabeça feia com apenas a menção de seu nome. — Hmm... sim. Claro. — eu não tinha coragem de falar para a Jana que o felizes para sempre do livro da Hannah não espelhava o meu na vida real. — Muito obrigada, Bree! E obrigada por ter vindo hoje. Realmente significou muito para a minha irmã. — E significou muito para mim também. — eu sorri. Eu me despedi de toda a sua família, e pulei no Uber que estava esperando em frente para me levar para a estação de ônibus. Eu esperei até que a antiga fazenda virasse um pontinho a distância, para me permitir quebrar completamente por causa da única mulher no mundo que me entendia. Ela era meu oposto, e ainda, a melhor amiga que eu poderia ter pedido. Eu olhei para os livros na minha mão e sorri. Hannah tinha criado uma história de amor nas páginas entre a capa e sem o conhecimento dela, ela também tinha trazido um tipo diferente de história de amor para a minha vida. Um amor que eu nunca pensei que fosse possível de novo, o amor-próprio.

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Capítulo 38 Meu apartamento estava exatamente como havia deixado, e por incrível que parecesse, eu ainda estava me sentindo da mesma forma de quando passei por aquela porta, um mês atrás, com o coração partido. Só que agora tinha outro motivo para estar me sentindo para baixo: além de perder o amor da minha vida, eu estava perdendo minha melhor amiga. Abri as cortinas e olhei pela janela. Sempre amei esta época do ano e os dias mais longos, quase 21:00hrs e o sol estava começando a afundar no horizonte de Manhattan. Um milhão de pensamentos passaram pela minha mente enquanto eu olhava para a cidade, tão perto de Simon e Jack e ainda tão longe. Eu me perguntava o que estavam fazendo. Se eles fizeram sua viagem para a Disney World como ele estava planejando? Como desejei poder ter ido com eles. Suspirei profundamente, sabendo que eu tinha que tomar uma decisão sobre o que queria fazer. Se planejava ficar em Nova Iorque, tinha necessidade de encontrar um emprego em breve. Eu tinha dinheiro suficiente em minha conta bancária para passar só os próximos meses. Meu irmão falou com um de seus associados que fazia negócios na cidade, e estava à procura de uma assistente administrativa. Ele me garantiu que eu conseguiria o trabalho, mas eu ainda estava um pouco desconfiada. Odiava saber que estavam me oferecendo uma posição apenas por causa do meu irmão, e não por meus próprios méritos. Para não mencionar, que não tinha qualquer experiência de escritório. Ainda assim, era uma opção que estava na minha mente se não surgissem outras oportunidades. Depois de pegar o voo na madrugada anterior, e estar mentalmente esgotada por causa da minha tarde com Hannah, eu estava exausta demais para pensar. Lidaria com todas as perguntas, todas as preocupações, e todo o sofrimento no dia seguinte. Por enquanto, buscaria refúgio da minha cama confortável e agradável da qual me ausentei por tanto tempo.

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*** Era bom para acordar em meu apartamento. Por mais que eu amasse despertar na tranquilidade da casa de Paul e Trey, eu senti falta dos sons familiares das buzinas, sirenes, e caminhões de lixo do lado de fora da janela do meu quarto. Terminei meu café e planejei o dia, olhando para os livros sobre o balcão, tentando reunir coragem para entregar uma cópia para Simon conforme solicitado. Eu me debatia com a possibilidade de entregar naquele dia e ter uma chance de encontrá-lo, já que era sábado, ou esperar até segunda-feira, quando eu sabia que ele estaria no trabalho. Respirei fundo e pensei profundamente. Eu estava cansada de fugir sempre. Entregaria naquele dia, e se ele estivesse lá, então que fosse, eu enfrentaria. Tomei banho apressada e me vesti antes de mudar de ideia. Eu me dei uma última olhada no espelho, peguei o livro e estava no meu caminho. Meu estômago se apertou quando o táxi parou na casa dele e eu vi o carro estacionado na rua. — Hmm... você disse que era este o endereço, não é? — o taxista perguntou enquanto estava sentada no banco de trás, mergulhada em meus pensamentos. — Ah, sim. — despertando dos meus sonhos, entreguei o valor da tarifa, e dei o primeiro passo corajoso para a rua. Meus joelhos ficavam mais fracos a cada passo que davam, e no momento que alcancei os degraus da frente, achei que eles fossem ruir sob mim. Eu inalei e exalei profundamente, permitindo que o calor do sol radiante penetrasse em mim, para me acalmar levemente. Minha mão tremeu quando toquei a campainha e esperei angustiada que ele aparecesse, sugando um último suspiro quando ouvi a porta abrir. Alívio e decepção tomaram conta de mim simultaneamente quando vi Rosa, a senhora da limpeza de Simon, de pé do outro lado. — Oh, oi, Rosa. — falei. — Olá, Bree. Como você está? — ela sorriu.

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— Estou bem. Simon está? — minha voz vacilou. — Não, ele levou Jack e a cachorra ao parque. Está uma manhã tão bonita. — ela colocou a cabeça para fora e olhou para o céu. — Ok, então. — foi bom as coisas acontecerem desse jeito. Simon provavelmente não ia querer me ver mesmo. — Você pode entregar isso para ele isso e falar que é da irmã Hannah? — Certo. — ela pegou o livro da minha mão e olhou para ele. — Obrigada. — Eu sussurrei. Ela me deu um último sorriso e fechou a porta. Eu fui embora, sentindo-me um pouco derrotada. Por mais nervosa que tivesse ficado para encarar Simon novamente, ainda assim, eu queria; havia tantas coisas não ditas entre nós dois, e eu odiava isso. Com quase nenhuma lembrança de caminhar até lá, eu me vi chegando ao parque familiar, onde assumi que encontraria Simon e Jack. Era o mesmo que andávamos com Macy toda noite após o jantar, quando o tempo começou a melhorar. O parque estava cheio de gente aproveitando a bela manhã de junho, antes do sol escaldante da tarde espalhar os seus raios, fazendo com que todos procurassem refúgio. Meu coração acelerou com entusiasmo, depois apertou com apreensão, quando tive um vislumbre de Jack e Macy brincando. Eu percorri a área procurando por Simon, e não demorou muito tempo para localizá-lo. Fiquei parada em silêncio, olhando cada pedacinho dele, e percebendo o quanto tinha sentido falara de cada pedacinho dele. Eu sabia que sempre me arrependeria se não me arriscasse e dissesse como estava me sentindo. Quão pior as coisas poderiam ficar? Ele me rejeitaria e eu me sentiria ainda pior do que agora, se isso fosse ao menos possível. Não importava o quanto machucaria, se fosse esse o caso; eu tinha que correr o risco. Dei os primeiros passos corajosos para frente... até que a vi, uma loira bonita, que parecia ter da minha idade, pegando Jack e girando-o, enquanto ele ria em delírio. O sorriso de Simon combinava com a

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felicidade de Jack e eu fiquei ali congelada, percebendo que meu desejo para eles tinha se tornado realidade: eles eram felizes sem mim. Mordi o lábio inferior. Como eu podia ainda ser tão apaixonada por ele quando ele me esqueceu tão rapidamente? Talvez não fosse tão real quanto eu pensava. Talvez seu amor por mim não se igualasse ao que eu sentia por ele. Seja qual fosse o caso, o meu coração não podia suportar por mais tempo. Aquele capítulo na minha vida tinha acabado de chegar ao fim, e infelizmente não foi como eu esperava.

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Capítulo 39 Um mês se passou desde aquele dia no parque, e eu ainda não consegui tirar a imagem de Simon e Jack da minha cabeça. Por mais que quisesse ficar feliz por eles, eu não podia. Em vez disso, eu desejava ser aquela mulher que estava com eles. Hannah faleceu no domingo à tarde. Quando a irmã dela ligou para me avisar, estranhamente, eu me senti em paz, refugiei-me no fato de que ela não estava sofrendo mais, e que tinha escolhido o nosso dia especial para deixar esta terra. Depois de pensar muito, decidi que não ia fugir mais. Eu ia ficar na cidade e reconstruir a minha vida. Eu não precisava de um homem para fazer isso. Eu era forte e conseguiria por conta própria. Meu pai e sua namorada, bem como Paul e Trey viriam para a cidade me visitar, e, depois, íamos alugar um lugar em Montauk para comemorar o fim de semana de quatro de julho. Fui tomada de alegria só de pensar que em mais alguns dias todos nós estaríamos juntos. Eu tinha sido entrevistada pelo sócio do meu irmão, e mesmo que não soubesse nada sobre o que o trabalho implicava, eu estava bastante certa de que tinha ido bem na entrevista. Ele me disse que daria uma resposta nos próximos dias. Se não desse certo, teria que pensar em um plano B. Por enquanto, eu estava focando apenas no presente, em vez de ficar no ―e se‖ do futuro. Eu tinha ido por esse caminho antes e vi onde ele tinha dado. No momento, meu presente consistia em ler um trecho do livro de Hannah e dar orgulho para ela. Eu passei uma nova camada de gloss no banheiro feminino da livraria, dando-me uma última olhada. Eu estava usando um vestido corde-rosa e as minhas sandálias prateadas favoritas. Meu dia no parque ontem deu um brilho saudável à minha pele. Corri meus dedos pelo cabelo uma última vez, satisfeita com o meu reflexo ao dar uma última olhada no espelho.

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— Oh meu Deus, você devia ver a multidão lá fora. — a irmã de Hannah, Jana, exclamou quando eu saí do banheiro feminino. — Bem, isso me deixa muito feliz pelo livro de Hannah, mas muito nervosa por mim. — Você vai se sair muito bem! — Jana me tranquilizou. Eu tinha praticado o meu trecho uma e outra vez sozinha, mas seria um jogo totalmente diferente na frente de um lugar cheio de pessoas. Prometi a mim mesma que eu não ficaria nervosa, e apenas fingiria que Hannah era a única sentada no público, ouvindo-me ler. Jana e eu tomamos um assento na primeira fila, e eu tentei ignorar o fato de que ela estava certa, a sala estava lotada. Um amigo de Jana que trabalhava para a editora se levantou e falou primeiro. Ele falou sobre o sonho de Hannah em escrever um romance e como ele surgiu. As borboletas no meu estômago levantaram vôo quando ele começou a me apresentar. Eu ficava repetindo que ia ler para Hannah no nosso lugar de sempre no café em uma tarde de domingo, e não para uma dúzia de estranhos em uma livraria lotada. — Isso me dá grande prazer em apresentar a heroína de nossa história, senhorita Aubree Davis. O

aplauso

retumbante

do

público

fez

minhas

pernas

enfraquecerem, enquanto fazia o caminho para o púlpito. Eu ajustei o microfone e respirei fundo, limpando a garganta antes de começar. Eu olhava para frente, com foco em ninguém, apenas tentando manter minha atenção sobre mim e Hannah sentada naquele café. — Estou muito honrada por estar aqui, e ainda mais honrada por Hannah ter feito de mim uma grande parte em algo que significou muito para ela. Quando conheci Hannah, eu achei ridícula a ideia de uma freira escrever um romance. O que ela sabe sobre se apaixonar? Mas depois de ler o livro, cerca de uma dúzia de vezes... até agora. — fiz uma pausa enquanto a multidão ria. — Eu percebi que não era tão ridículo, afinal. Ela

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me fez rir, chorar, e ela me fez ver as coisas de um modo muito diferente quando eu estava lendo esta história, do mesmo jeito que na vida real. — eu respirei fundo e afastei as emoções que estavam começando a assumir o controle. — Hannah tinha me perguntado como era se apaixonar, e quando ela perguntou, eu não podia realmente colocar em palavras, porque a verdade é que, mesmo que eu tivesse amado muito alguém durante um tempo, eu não tinha certeza que era apaixonada por ele. Então eu conheci uma pessoa que deu um sentido real a essa palavra. Ele era gentil, atencioso e sem julgamento. Era o cara perfeito, eu só não era a garota perfeita para ele, ele merecia alguém muito melhor. Eu o amava com todo meu coração... Eu ainda o amo, e sempre amarei. Então, eu vou ler um trecho de minha contribuição para o livro de Hannah: O amor é gentil... tão suave quanto caloroso, uma brisa em uma noite quente de verão. O amor é tempestuoso... tão temperamental quanto um tornado de primavera, parte tão rapidamente quanto chega. O amor é coragem... encontrar a força para ir embora, mesmo quando o coração está dizendo para não ir. O amor é esperança... sustenta a fé que um dia ele vai se lembrar de você com carinho, em vez de desprezo. O amor é conhecimento... é saber que onde quer que vá ou o que quer que faça, você vai levá-lo no coração para o resto de sua vida. O amor é contentamento... é nunca lamentar um momento de amor, mesmo sabendo o quanto seu coração se partiria por causa dele. O amor é um pijama velho, acolhedor... aquece seu corpo nos dias mais frios. Mesmo que esteja esfarrapado e rasgado, você vai amar do mesmo jeito, por causa do conforto que ele traz. O amor é uma cor bonita... um tom claro de verde que acalma a alma e aquece o coração.

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O amor é o dia favorito da semana... o dia que te enche de emoção, que você espera ansiosamente, e depois deseja que o tempo passe devagar uma vez que chega... e para mim, esse dia será sempre quintafeira. Olhei para o pódio, limpando discretamente a lágrima que escorria pelo meu rosto, enquanto o público me dava uma salva de palmas. Um peso tinha sido tirado dos meus ombros quando desci e fui em direção ao fundo da sala, para fora dos holofotes. Eu fui para o outro lado, uma parte ouvindo a irmã de Hannah falando, e outra, perdida em meu próprio mundinho. — Eu não sabia que você era escritora. — eu fechei os olhos e respirei fundo, porque reconheceria esse sotaque britânico familiar em qualquer lugar. — Simon. — eu sussurrei, virando-me e sorrindo através das lágrimas. — O que você está fazendo aqui? Ele ergueu o pedaço de papel contendo os detalhes da leitura do livro, o mesmo que eu tinha colocado em um dos livros que a irmã de Hannah me deu. Eu nunca percebi que tinha deixado lá. — Eu queria ter tirado antes de entregar o livro para você. Então, como você está? — perguntei. Ele balançou a cabeça e eu só pude supor que significava que ele estava bem. — Você tem algum tempo? Talvez possamos ir à lanchonete ao lado e tomar um café? — que diabos eu estava fazendo? Eu só ia me atormentar mais depois de passar um tempo com ele se ele dissesse sim. — Claro. — ele sussurrou. Olhei para o salão lotado, querendo dizer adeus a todos, mas quando vi a multidão esperando para falar com a irmã de Hannah, eu percebi que ninguém sentiria minha falta se eu saísse.

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Nós caminhamos para o café, o mesmo que Hannah e eu frequentamos em muitas tardes de domingo. — Quando você voltou? — ele perguntou enquanto se sentava com os nossos cafés na mão. — Mais ou menos um mês atrás. Eu nem sabia que Hannah estava doente. Eu pensei que ela estivesse cuidando da mãe esse tempo todo. Sua irmã ligou para me informar que ela estava muito mal. Então eu voei de volta para Connecticut para vê-la, e aqui estou eu. Ele assentiu. Seus olhos estavam sem brilho e ocos, um contraste nítido contraste entre os expressivos, profundos e queridos, nos quais me perdi tantas vezes antes. — Quando você vai voltar? — Eu não vou. — eu ignorei seu olhar vazio e continuei. — No mesmo dia que descobri sobre Hannah, eu também descobri que o senador Stevens se matou, então não vai haver julgamento. Eu acho que sou uma mulher livre, agora. — Uau. — ele sussurrou, levantando a sobrancelha e deixando escapar um suspiro profundo. — Como está o Jack? — minha voz falhou com emoção, e eu tive que morder o lábio para manter meus sentimentos sob controle. — Ele está bem. Ele é oficialmente um aluno do jardim de infância, bem, em setembro, ele será. Ele está no campo da arte no momento. Ele ama. Eu sorri, lembrando o quanto ele gostava de desenhar, e os muitos belos desenhos que ele fez para mim. — Bem, eu tenho um original do trabalho dele pendurado na minha geladeira agora. Quando ele se tornar rico e famoso um dia, eu posso dizer que tenho uma de suas primeiras obras. Simon conseguiu dar um sorriso, mas eu percebi que estava difícil para ele. Olhei para a mesa e respirei fundo. Eu odiava o constrangimento

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entre nós. Eu nunca tinha me sentido distante dele. Mesmo quando nos conhecemos, eu tinha a sensação que poderíamos conversar sobre qualquer coisa. — Naquele dia que eu deixei na sua casa — eu finalmente foquei a minha atenção de volta para ele —, Rosa me disse que vocês estavam no parque, então eu passei por lá. Eu fiquei muito feliz de ver Jack e Macy, e depois, você. Seus olhos suavizaram um pouco. — Eu queria muito mesmo ir falar com vocês, mas depois eu a vi, e... — eu balancei a cabeça e respirei fundo — E eu percebi que vocês tinham encontrado a felicidade que eu sempre desejei, não apenas comigo. E fiquei feliz, porque é tudo o que sempre importou para mim. — olhei para fora e fechei os olhos para afastar as lágrimas. — Ou talvez eu não tivesse ficado feliz. — eu permiti que as lágrimas fluíssem, expondo meus verdadeiros sentimentos para ele. — Talvez, secretamente, eu desejasse que você estivesse sentido minha falta, do mesmo jeito que senti a sua. Talvez, realmente, esperava que você estivesse tão miserável como eu, e talvez eu quisesse ser ela, a garota que te fez sorrir. Aquela garota que não tem um passado, que teve a necessidade de fugir por vergonha. — eu olhei para cima e encontrei o olhar forte dele sobre mim, desejei que ele dissesse algo... qualquer coisa para me deixar saber como ele estava se sentindo. — Eu sinto muito, Simon. Eu sei que fiz uma escolha no dia que fui embora, e não tenho o direito de sentar-me aqui agora e falar como estou me sentindo. De verdade, quero que você seja feliz, e eu não mudaria uma única coisa sobre a nossa história, mesmo que eu soubesse que acabaria me sentindo assim. Ele limpou a garganta e inalou profundamente. — Estou contente por você não ser ela, Bree.

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Meus olhos se arregalaram. Eu sabia que ele ainda podia estar com raiva de mim por ter me afastado, mas eu não esperava que ele dissesse algo tão doloroso. — Porque então, você seria minha irmã. — Sua irmã? — Sim. — ele assentiu. — Ela passou algumas semanas de férias por aqui. Alívio tomou conta de mim em saber que ele não tinha entrado em um relacionamento como eu tinha pensado. Eu me senti tão tola por tirar conclusões precipitadas. — Eu tive um monte de tempo para pensar. — ele continuou. — No começo eu fiquei muito irritado com você, por sair tão facilmente, mas então eu realmente percebi a razão, o que me fez admirá-la ainda mais. Houve algumas vezes que eu quis ligar para você, e cheguei muito perto disso, mas então eu me parei. Que bem faria para qualquer um de nós? Nós ainda estaríamos na mesma situação, e ainda mais miseráveis. — seus olhos estavam vidrados pela emoção. — Você realmente foi sincera com o que acabou de ler lá dentro? — Cada palavra. — eu sussurrei. Meu estômago dançou quando ele se aproximou da mesa e pegou minha mão. — Sabe que dia é hoje? — perguntou. — Eu sei. — eu sorri. — Quinta. Quinta-feira à tarde, para ser mais exata. — eu esclareci quando olhei para o meu relógio. — Então, eu acho que talvez devêssemos continuar nossa tradição. — um belo sorriso se espalhou pelo seu rosto. — Simon, você está propondo... — debrucei-me sobre a mesa e sussurrei. — Sexo? — Eu estava, mas por que você está sussurrando?

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— É uma piada particular. — eu sorri, esperando que onde quer que Hannah estivesse, ela estivesse rindo. — Meu apartamento é mais perto. Ele se levantou abruptamente e pegou minha mão. — Perto é definitivamente melhor. Levantei-me, incapaz de conter o sorriso enquanto ele me levava pelo café e porta afora. *** Eu descansei minha cabeça no peito nu de Simon após o melhor sexo da minha vida. — Eu tenho que pegar Jack em breve. — ele disse quando olhou para o relógio. Estiquei o pescoço e beijei-o na bochecha. — Você quer vir comigo? — perguntou. — Claro! — eu não pude conter minha emoção sobre o pensamento de ver Jack novamente. Tirei a cabeça do peito de Simon, permitindo-lhe sentar-se. Eu fui incapaz de resistir e passei os braços ao redor dele por trás e dei beijos suaves em suas costas antes dele se levantar e se dirigir ao banheiro. Saí da cama e peguei o telefone da cômoda, ouvi a mensagem de correio de voz, enquanto Simon terminava de se arrumar. — Oi, Aubree, aqui é Gene Coakley. Estou ligando para oferecer a vaga para a qual você foi entrevistada no outro dia. Ligue-me de volta para me falar se ainda está interessada, e poderemos combinar os detalhes. — Está tudo bem? — Simon perguntou, saindo do banheiro enquanto eu estava perdida no pensamento, agarrando meu telefone. — Sim, só acabara de me oferecer um trabalho para o qual fiz entrevista dias atrás.

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— Oh sim? Fazendo o quê? — ele sentou-se na cama e colocou os sapatos. — Trabalhar em um escritório de advocacia como assistente administrativa. — Pensei que você não quisesse trabalhar em um escritório. — Simon disse, levantando-se e aproximando-se de mim. — Na verdade não quero, mas é um trabalho. — Bem, isso é uma vergonha, porque eu sei de um cara que está à procura de uma babá em tempo integral para seu filho superincrível. Eu sorri. — Oh, conte-me mais. Ele agarrou a minha cintura e pressionou a testa na minha. — Mas eu não acho que você se interessaria. — Por quê? — eu entrei no jogo. — Porque é uma vaga para morar no trabalho. Tentei fazer uma cara séria. — Sério? E por que esse cara quer que ela more lá? Para ele poder transar com a babá nas horas vagas? Um sorriso diabólico se espalhou pelo seu rosto. — Não, é para ele fazer amor com sua namorada. Assim, ele pode ficar com ela toda noite e saber que ela não vai embora de novo. — Eu prometo a você, ela não vai a lugar nenhum, nunca mais. — minha mão acariciou o lado do rosto dele. — E se a vaga ainda estiver aberta, eu adoraria preenchê-la. — Você está contratada. — o beijo dele fez meus joelhos ficarem fracos. — Eu acho melhor você deixar eu terminar de me vestir ou nós nunca vamos sair daqui para pegar Jack. — eu dei-lhe um último beijo nos lábios e consegui me afastar e me vestir.

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— Então, Ava e Grayson viveram felizes para sempre? — ele perguntou enquanto saíamos. — Não sei, você tem que terminar de ler o livro. — eu sorri. — Sim, bem, eu realmente não me importo como a história deles termina. Eu realmente só me importo com a nossa. — Nós vamos ter que ver isso, mas se eu fosse uma mulher de apostar, eu diria que as chances estão a nosso favor. — Eu gosto do som disso. — Ah, eu quase esqueci: o que você e Jack farão no fim de semana do Quatro de Julho? — Nem ideia, provavelmente só ver os fogos de artifício no parque. — Eu adoraria que vocês fossem para Montauk. Minha família e eu alugamos uma casa de praia muito agradável, e o melhor de tudo é que é livre para animais, então Macy pode ir também. Meu irmão e Trey finalmente conhecerão Jack, e eu ficaria particularmente feliz de você conhecer meu pai. Ele pareceu perdido em pensamentos. Eu esperava que não estivesse acelerando as coisas, pedindo-lhe para conhecer meu pai. Mas ele tinha acabado de me chamar para morar com ele, e eu aceitei, portanto, eu estava confiante de que passamos o ponto de muito rápido em nosso relacionamento. — Sim, seria ótimo. — ele sorriu, e eu sorri de volta. De repente, nossas chances de sermos felizes para sempre aumentaram ainda mais.

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Capítulo 40 Se eu pudesse para o tempo para sempre, teria feito nos últimos três dias. Foram os melhores da minha vida. Ficar junto com a minha família e o melhor de tudo, com Simon e Jack - era uma memória que eu valorizaria para sempre. Meu pai simpatizou com Simon imediatamente, e todo mundo se apaixonou por Jack. Eu encontrei-me sorrindo, só de pensar o quão longe eu tinha ido em tão curto espaço de tempo. No ano passado, na mesma época, meu pai não estava nem falando comigo e meu irmão fazia o possível para fingir que eu não existia, enquanto eu continuava a vender minha alma ao diabo. Agora, estávamos todos juntos, rindo e nos divertindo como uma família real. E eu tinha me apaixonado, algo que eu nunca sonhei ser possível. Toda vez que eu olhava para Simon e Jack, o meu coração explodia de emoção. Era a melhor sensação do mundo, e na maioria dos dias ainda parecia um sonho, que eu nunca queria acordar. Depois de um dia inteiro construindo castelos de areia, recolhendo conchas, e brincando na água com Jack, eu finalmente tive algum tempo para descanso. Simon e eu nos sentamos na praia, olhando para o céu, enquanto as explosões magníficas de cores brilhavam acima do oceano, iluminando a noite antes de sumir na água. Jack estava fora com Paul e Trey, depois de Trey ter insistido que os fogos de artifício eram melhores na outra extremidade da praia. Eu não sabia como era possível, quando estávamos todos olhando para o mesmo céu. Uma vez que todos pareceram acreditar na afirmação ridícula de Trey, meu pai e Karen caminharam até lá também. Não que eu estivesse reclamando. Eu amava ter algum tempo a sós com Simon. Ele tinha passado o dia inteiro pescando com meu pai e Paul, e no dia anterior jogando golfe com eles. Eu aforava que eles estivessem conhecendo-o melhor, mas o meu lado egoísta sentia falta dele. Eu descansei a cabeça em seu ombro, e inspirei o

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ar salgado abafado. As ondas que batiam na costa e os fogos de artifício lutavam em um jogo para serem ouvidos. — Eu senti sua falta. — eu apertei a mão de Simon. — Você estava com saudades de mim? — Sim, todos estão monopolizando-o desde que chegamos aqui. Por isso é bom ter algum tempo com você agora. Ele se inclinou e tocou meus lábios com os dele, deslizando sua língua em minha boca. — Está melhor? — ele perguntou quando o nosso beijo terminou. — Hmm... eu não sei se ficou melhor ou pior. — Então, eu estava pensando... — ele começou e parou. — O quê? — o suspense estava me matando. — Ava e Grayson terminam casados? Deixei escapar uma gargalhada. — Você acabou de ler o livro? — Vamos. Você não pode simplesmente me contar o final? — Bem. Sim, eles casam. Isso é um spoiler. Ele balançou a cabeça e olhou de volta para os fogos de artifício. — Ok, só mais uma pergunta. — Você disse que era só essa! — bati no seu braço de brincadeira. Meus olhos se arregalaram quando ele se afastou e se apoiou em um joelho. — A proposta dele foi melhor do que a minha? — Oh meu Deus! — exclamei, examinando a caixa do anel em sua mão, enquanto os fogos de artifício lançavam um brilho temporário sobre o diamante lindo dentro dela. — Eu sei que pode parecer repentino, mas sei o que eu quero, e eu quero você. Eu não quero perder você de novo.

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— E-eu não posso acreditar que isso está acontecendo! — empurrei uma mecha de cabelo para trás da orelha. — Simon, você nunca mais vai me perder, prometo. Eu não quero que você sinta a necessidade de colocar um anel no meu dedo para impedir que isso aconteça. Eu te amo, e eu amo Jack, e eu sou de vocês para sempre. — Eu sei. Mas isso ainda não muda o fato de que eu quero você como minha esposa. A esposa dele. Meu estômago se agitou. Ele me queria para esposa. — Não. — eu respondi, tentando segurar o meu sorriso. Eu não consegui suportar a agitação no rosto dele por muito tempo. — Você perguntou se a proposta de Grayson foi melhor do que a sua. Não, não foi. Assumindo que esta seja a sua. Ele balançou a cabeça e soltou um suspiro aliviado. — Você me pegou. Então, deixe-me fazer outra pergunta. — Que não tenha a ver com o livro! — eu ri. — Bree, quer se casar comigo? — Bem, por que você não fez logo a pergunta primeiro? Sim, Simon. Eu adoraria me casar com você. Ele colocou o anel no meu dedo. — É lindo. Você poderia ter colocado um anel de papel no meu dedo, e eu adoraria. — limpei a lágrima escorrendo pelo meu rosto. — Droga, pena que não pensei nisso antes! — brincou ele. Agarrei os lados de seu rosto nas mãos e o beijei. Ele me beijou de volta tão ansiosamente até que ambos caímos sobre o cobertor com os nossos lábios sem desgrudar. — Oh meu Deus, arrumem um quarto, vocês dois! — Trey gritou, cobrindo os olhos de Jack com as mãos. — Então, suponho que ela disse sim? — Paul perguntou.

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— Espera. Vocês sabiam? — meu queixo caiu enquanto olhava para eles. — Aubree, por favor, me diga que não foi ingênua o suficiente para acreditar em todo a minha encenação sobre os fogos de artifício serem melhores mais longe. — Trey sacudiu a cabeça. — Bem, não. Mas nunca imaginei isso. — eu estendi a mão e olhei para o meu dedo. — E aí, é seguro voltarmos? — meu pai perguntou enquanto ele e Karen estavam para trás. — Oh meu Deus, todos sabiam? Jack? Seu sorriso estava um quilômetro de largura. — Você sabia também? Ele balançou a cabeça e riu. — E você não me contou? Vem cá, você! — puxei-o para o cobertor e fiz cócegas. Seu riso era inebriante. — Eu quero que você saiba que eu vou levar isso muito a sério. Eu vou ser a melhor que puder para você e seu pai porque eu te amo tanto assim. Ele se sentou e jogou os braços em volta de mim. — Eu também te amo, Bree. — ele aconchegou mais perto e sussurrou em meu ouvido. — Bree? — Sim? — Você poderia ver esses mesmos fogos se você estivesse na Califórnia agora, olhando para o céu? Eu sorri e beijei-o no topo da sua cabeça. — Sim, eu tenho certeza que sim. Mas você sabe o quê? — O quê? — Eles são muito mais bonitos daqui.

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— Por quê? — Porque eu estou com as duas pessoas mais importantes da minha vida. Jack se arrastou para o colo de Simon e ficamos em silêncio assistindo um belo final da noite mais perfeita. Simon pegou minha mão, e eu descansei minha cabeça em seu ombro. Eu não poderia pensar em um final melhor para a nossa história. Mesmo que alguns dos capítulos tenham sido dolorosos de ler, eu não mudaria qualquer coisa neles. Eles me fizeram ser quem eu era, e me levaram a amar de um jeito que nunca pensei ser possível. Simon e eu tínhamos seguido a nossa história, e eu estava animada para ver as palavras que encheriam as páginas. Não importava o que o futuro nos reservasse, o homem sentado ao meu lado e o menino no colo dele completavam a minha vida. Os dois papéis na minha vida que nunca planejei preencher, e agora, aguardava ansiosamente para assumir - esposa e mãe - e eu pretendia ser a melhor de ambas, porque Simon e Jack mereciam nada menos do que isso.

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Epílogo Os meses de planejamento, a pequena desorganização, e as pequenas divergências que acompanham um casamento, valeram a pena quando o dia finalmente chegou. O erro com as flores foi resolvido, a mudança de última hora do DJ foi um sucesso, e a Mãe Natureza não poderia ter sido mais gentil. A chuva prevista durante toda a semana pareceu simplesmente desaparecer no ar, abrindo caminho para um belo dia de outono com vento e adiantado. Meus nervos finalmente se acalmaram agora que a parte da igreja tinha acabado e fomos, finalmente, para a recepção. Eu estava muito certa que o copo de vinho na minha mão tinha ajudado na minha calma recém-descoberta que me dominou. Olhei para a multidão e sorri. Todo mundo que mais importava para mim estava em um cômodo. Tomei meu assento à mesa, esperando ansiosamente, enquanto o DJ pedia que todos virassem a sua atenção para o noivo, que queria fazer um discurso. Peguei o guardanapo no colo, apenas no caso de precisar dele para enxugar os olhos. Concentrei-me em um dos caras mais bonitos que eu conhecia, eu me perguntei exatamente como seria seu discurso. O silêncio encheu a sala e ele começou a falar. — Eu quero agradecer a todos por estarem aqui hoje e fazerem parte do nosso dia especial. Significa muito para nós dois. Eu sei que todo mundo se casa achando que seu relacionamento é único, e que será capaz de superar qualquer coisa. Porque, convenhamos, se você não pensasse assim, ninguém se casaria. — ele fez uma pausa enquanto todos riam. — E mesmo que você saiba que os momentos difíceis serão inevitáveis, ainda está disposto a enfrentá-los com essa pessoa e com fé, não importa o que a vida jogar em vocês, vão passar por isso juntos. Eu levantei o guardanapo para o rosto e enxuguei meus olhos.

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— Eu acho que sou mais um otimista quando se trata disso, porque eu tive dois dos maiores modelos para me mostrar que o verdadeiro amor realmente existe. Eu cobri a boca com a mão, e Simon pegou a outra debaixo da mesa. — Meu pai e minha mãe. — Jack olhou em nossa direção e sorriu. — Meu pai, ele é o melhor pai que alguém poderia pedir. Eu só espero ser metade do pai que ele é quando chegar a hora de eu assumir esse dever. Fomos apenas eu e ele por um tempo, até que ela entrou em nossa vida. Lembro-me vividamente a primeira vez que nos encontramos, mesmo sendo muito jovem. Tudo o que eu sabia era que eu a queria como mãe. Ela foi tão gentil, tão carinhosa e me acolheu com tanto amor. Ela fez o meu pai feliz, e ela me fez muito feliz. Quando eles se casaram, ela fez um compromisso não só com o meu pai, mas comigo também, e ela nunca quebrou aquela promessa. Mesmo quando eu passei pelos anos desajeitados da adolescência, e era um verdadeiro idiota. Eu sorri, lembrando-me daqueles momentos, e percebendo que eles não foram tão ruins, afinal. — Mesmo quando eu levava namoradas para casa e ela não aprovava. — ele virou-se para sua linda esposa. — Não se preocupe, Christina, ela sempre gostou de você. Os dois riram, assim como todos os outros. — Ela estava lá por mim, em todos os meus sucessos e todas as minhas mágoas, me aplaudindo para eu me tornar a pessoa que sou hoje. Não há um dia que eu não seja grato a ela por ter cumprido o papel de minha mãe quando ela não precisava, mas ela fez, porque ela ama meu pai e a mim muito mesmo. As lágrimas que rolavam pelo meu rosto passaram de um fluxo suave para um rio com correnteza. Eu sabia que estava uma bagunça, mas

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eu não me importava. Meu coração estava feliz e isso era tudo que importava. Os olhos de Jack se deslocaram para a bela loira de olhos verdes em um vestido de festa. Ela revirou os olhos e balançou a cabeça, sabendo que era a próxima. — E a melhor parte de tudo... o amor que a minha mãe e meu pai compartilharam me deu algo mais: essa menina malcriada que cresceu e se tornou uma jovem bastante notável. Eu admito, eu queria trocá-la por um irmão, mas depois de um tempo eu percebi que ela não era tão ruim. Amo você, Hannah. — ele sorriu. Amo você também. Ela disse as palavras apenas movimentando a boca. Eu sabia que se morresse naquele segundo, minha vida estava preenchida, com tudo o que sempre tinha desejado e mais. Simon pegou a minha mão e me levou para a pista de dança quando a música começou a tocar. — Você tem vergonha de ser visto comigo? Eu tenho certeza que eu estou coberta de rímel agora mesmo. — Não, de maneira nenhuma. Você está bonita, um tipo de bonito com o olhar de guaxinim. Eu balancei a cabeça e sorri. — Eu acho que a história de Jack vai acabar com um, felizes para sempre também. — comentei enquanto eu olhava para ele e Christina na pista de dança, ambos com sorrisos enormes espalhados nos rostos. Simon olhou em sua direção e concordou com a cabeça antes de voltar sua atenção para Hannah e o namorado. — Hannah, por outro lado... — ele começou. — Simon, você quer parar. Andrew é um ótimo garoto.

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Ele revirou os olhos. — Realmente é. Eu sei que você pensa que ninguém vai ser bom o suficiente para sua filha, mas acho que ele pode ser o escolhido. — Bem, ela ainda é jovem. Tenho certeza que isso vai passar. A forma como ele estava em total negação da paixão de Hannah me surpreendeu. No entanto, no passado, sempre que eu virava o nariz para uma das muitas ex-namoradas de Jack, ele me dizia que eu estava sendo muito crítica. — Simon, eles estão juntos há mais de um ano. Eu acho que não vai passar. Lembra-se do que você me dizia sempre que Jack levava alguém em casa que eu não ficava muito interessada? — Sim, mas era diferente. — Ah, e por quê? — eu ri. — Por que não era a sua menina? Bem, eu me sentia da mesma forma sobre Jack. Ninguém era boa o suficiente para ele, mas agora eu estou contente que Christina será, e se ela provar que estou errada... — eu balancei a cabeça, sem querer nem pensar nessa hipótese. — O que você faria? Bateria nela? — Simon riu. — Talvez. Mas eu esperaria até depois que eu ajudasse Jack juntar os pedaços. Simon olhou por cima do ombro na direção de Hannah, mais uma vez, e desviou o olhar de desgosto rapidamente. — Ugh! Ela realmente precisa fazer um espetáculo de si mesma? Virei-me para ver qual era o problema, apenas para descobrir Hannah e Andrew dando uma exposição muito pública de afeto no meio da pista de dança com um beijo de língua. — Meu Deus! Você quer sossegar? — concentrei a atenção de volta para Simon e não pude deixar de rir. Peguei o seu rosto e puxei-o mais

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perto, e sussurrei em seu ouvido: — Eu acho que podemos fazer melhor que isso. Ele levantou a sobrancelha e sorriu. — Você acha? Aproximei-me mais a ele. — Se não pode vencê-los, junte-se a eles. Seus lábios encontraram os meus e fizemos exatamente isso. Eu estava certa de que Hannah teria seu próprio momento de repulsa, enquanto observava os pais para lá na pista de dança, mas eu não me importei. Ela e Andrew podiam ser mais jovens, mas Simon e eu, certamente, estávamos mostrando como fazia.

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Thursday afternoon beth rinyu traduzido(1)  
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