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Em um sexy prelúdio, a nova série The Dark Elements da Jennifer L. Armentrout, atrai seus leitores a um extraordinário e irresistível mundo de Guardiões e Demônios. Dez não era somente a paixão de Jasmine. Sendo um Guardião gárgula como Jas, ele a ajudou a chegar a um acordo com seu destino esquivando dos demônios e mantendo o equilíbrio entre o bem e o mal. Ele era seu tudo... até o momento em que desapareceu sem deixar rastro. Também não ajudou que o pai de Jas tivesse acabado de anunciar que ela e Dez seriam emparelhados em alguns dias. É difícil não tomar isso como algo pessoal. E agora ele está de volta, três anos mais velho, dez vezes mais sexy, e pronto para retomar exatamente aonde tinham deixado. Mas Jas não tomará novamente esse risco. Dez tem sete dias para cumprir com todas as suas condições e ganhar de novo sua confiança. Sete dias cheios de perigos terríveis e doces tentações. Sete dias para ganhar seu coração e voltar a deixá-lo em pedaços...

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Capítulo 01 Nada no mundo se compara com o ato de voar, a sensação de ar fresco correndo através do meu cabelo solto ou deslizando pela minha pele quente e através da curva de minha coluna, entre minhas asas. Eu estava tão alto, tão acima das colinas das montanhas de Adinrondack que quando abri meus olhos, senti que podia estender uma mão e tocar as estrelas ou ir direto ao céu. Seria um problema se isso acontecesse. De algum modo duvido que os Alfas apreciariam que um Guardião atravessasse repentinamente através das portas celestiais. Ri com tal pensamento; o som se elevando e sendo levado pelo vento. Uma pessoa não poderia simplesmente voar pelo céu. Assim como no inferno, existiam portas por todo o mundo, permitindo a entrada daqueles que sabiam como encontrá-las e que tinham razões para cruzá-las.

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Durante os últimos três anos, para a grande decepção de meu pai, passei cada tarde no céu. Não se supõe que as mulheres voem sozinhas ou façam algo mais que ter bebês, criar e educar a juventude, mas nenhum dos homens era tão rápido quanto eu. Ao menos nenhum dos que estiveram por perto ou que me importasse ou... Cortei essa linha de pensamento, antes que pudesse me atrapalhar e arruinar a bela noite de início de verão. Lá em baixo, os picos dos Adirondacks não pareciam tão grandes e inabaláveis. Não. Pareciam suaves, como marshmallows. Entre os picos, lagos brilhavam como tanques cintilantes de ônix e o bosque era espesso e praticamente inabitável. Uma vez, eu sobrevoei todos os quarenta e seis picos das montanhas Adirondack, viajei ao Canadá e de volta ao condado de Washington. Uma rajada de vento prendeu a parte inferior de minhas asas, fazendo-as formigar enquanto a corrente me levantava como se estivesse presa numa bolha. Por um momento, a mudança de clima, a qualidade pura do ar, provocou a contração de meus pulmões e não pude puxar oxigênio suficiente. Passei por um momento de pânico ao não conseguir respirar, mas desapareceu num instante, nesse momento o instinto tomou conta e meu cérebro não tinha mais nenhum controle sobre meu corpo. Iniciei a descida em queda livre, com as asas dobradas estreitamente, com os olhos bem abertos e a mente alegremente vazia de pensamentos, como também estava o meu peito, vazio da dor inquietante que teima em inflamar como uma ferida sem tratamento. Esses momentos eram raros, quando não tinha nenhuma obrigação à minha raça ou alguma ameaça de morte ou de lembranças daqueles que tinha amado e perdido. Apreciava esses breves momentos maravilhosos. E como sempre, este se acabou muito rápido. A meio caminho da Terra, abri minhas asas, diminuindo a velocidade da minha descida para não bater de cara com uma montanha. Sobrevoando os picos por vários quilômetros, me submergi no vale por cima de Greenwich e deslizei até uma altura moderada sobre a modesta cidade. Seis anos depois e ainda era estranho não se preocupar por ser vista pelos humanos. Nada como espantar até a morte um humano ou dois descendo sobre eles inesperadamente como um pássaro gigante de rapina.

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Os Guardiões saíram das sombras, se fazendo conhecer para o mundo humano quando eu tinha doze anos, e como era de se esperar, houve um pequeno caos na raça humana em resposta ao ver as lendas e mitos se converterem em realidade. Por milhares de anos, minha espécie foi vista como nada mais que esculturas de pedras empoleiradas em cima de telhados de casas e igrejas. As chamadas gárgulas. E tecnicamente, éramos isso, mas a representação de uma gárgula era muito exagerada. Inclusive o mais feio de todos os Guardiões não tinha um nariz estranho ou presas salientes em sua boca. Era bastante insultante quando se pensava sobre isso. Deixe aos humanos interpretar mal as coisas. Assim como eles julgaram mal a verdadeira natureza da nossa espécie, os humanos não tinham nem ideia de que existiam demônios em todo lugar. Alguns pareciam como eles enquanto outros não tinham esperanças de se mesclar nunca. Mas tudo mudou seis anos atrás quando houve uma revolta no Inferno. Isso não tinha nada a ver com as pessoas que estavam em cima, exceto que centenas de milhares, senão milhões de demônio, foram expulsos do Inferno pelo grande Chefe, despejando um fluxo grande de demônios no mundo dos humanos a um ritmo nunca antes visto. Ninguém, nem os Alfas, sabiam qual era a causa dessa revolta, mas o nível de atividade demoníaca em todo o mundo tinha ido parar nas nuvens. Não era como se os demônios nunca tivessem se mesclado com os seres humanos antes e tínhamos conseguido nos manter nas sombras ou em nossas formas humanas, mas é que haviam muitos demônios agora, criando assim muitos problemas, além de se aparentarem muito aos humanos. Os Alfas – aqueles que ditavam as regras – decretaram que os Guardiões saíssem da escuridão. Que devido a crescente população de demônios, já não podíamos operar sem que as pessoas soubessem da gente. Então as gárgulas estavam fora das pedras, por assim dizer. Os Alfas eram como lendas urbanas. Nunca os vi com meus próprios olhos, mas senti quando vieram falar com meu pai. Eram os mais poderosos de todos os anjos e também os mais assustadores. Os Alfas não eram bons, calorosos ou acolhedores, na verdade eram geralmente amigáveis em um bom dia. Eles viam coisas apenas em termos branco e preto, mal versus bem e errado versus certo.

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E já que eles nos criaram, eles poderiam até desfazer nossa existência se quisessem. Afastei o pensamento. Pensamentos sobre ser exterminada era um bom água-festas. Depois que o pânico e o caos se acalmaram, foram produzidas milhões de perguntas que não respondemos e todos nós viramos especialistas em desviá-las. A maioria dos seres humanos pensavam que éramos como o Monstro do Lago Ness ou o Pé Grande. Uma lenda que se converteu em realidade. Se eles soubessem... Existiam regras que inclusive os demônios tinham que seguir, e a maior delas era que os humanos deviam permanecer ignorantes da presença do verdadeiro mal do mundo. Alguma classe de besteiras sobre o livre arbítrio e que os humanos tinham que ter Fé de que o Céu e o Inferno existiam sem provas. Parecia estúpido para mim. Se os Guardiões e os humanos pudessem trabalhar juntos, talvez muitas vidas poderiam ter sido salvas, inclusive a de minha mãe. Mas era como tinha que ser. Os humanos ou acreditam que os Guardiões eram super-heróis que lutam pelo crime, ou que éramos o demônio encarnado. Algumas vezes se ganha, outras se perde. Aterrissei no piso plano de nossa ancestral um segundo antes de registrar uma sombra no céu se aproximando muito rápido. Uma sacudida de surpresa me atravessou quando reconheci a silhueta majestosa de meu pai. Ele não deveria estar em casa! Desfiz-me de minha verdadeira pele rapidamente, voltando a minha forma humana em meia respiração, antes dele pousar no chão em uma pose agachada. Uma olhada para ele e soube que era muito tarde. Sim. Ele já sabia. Pega com a mão na massa. Meu

pai

se

levantou

em

toda

a

sua

estrutura,

de

pé,

media

aproximadamente dois metros e dez centímetros de altura. Suas asas, que se estendiam a vários metros a cada lado dele, ondeavam enquanto passava por cima da borda, fazendo com que o teto tremesse pelo seu repentino peso. Em sua pele verdadeira era uma vista intimidante. Sua pele era da cor do granito e seria muito difícil ultrapassá-la, tornando ele e os outros Guardiões quase indestrutíveis. Dois chifres escuros abriam caminho entre seus cabelos negros, cada chifre tinha

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curvas e terminavam em pontas terrivelmente afiadas. Seu nariz era plano, fossas nasais finas e seus olhos normalmente da cor do céu do amanhecer, estavam agora de um azul elétrico vibrante. Era meu pai, mas como era o chefe do clã de Nova York, era o mais poderoso dos Guardiões aqui. Até eu sabia como tratá-lo quando não estava de muito bom humor. E aparentemente, ele não estava de muito bom humor agora. A curva de sua mandíbula se sobressaia. — Jasmine. Endireitei minha coluna, como se o aço tivesse caído nas minhas costas ao som do meu nome. — Papai? — Estava fora novamente. — Não era uma pergunta. Ele o fez soar como se eu estivesse na Faixa de Gaza, ao invés de apenas voando sobre as montanhas. Eu decidi jogar o velho jogo de evasão. — Pensei que você estivesse em Nova York. — Eu estava. — Enquanto caminhava até mim, também tomou sua forma humana. A efervescência de seus olhos se desvaneceu quando suas asas retrocederam na sua pele e suas facções se tornaram mais comuns. Mas não era menos temível quando me olhou e tomou tudo o que eu tinha para enfrentá-lo, olhos nos olhos. Puxei meus cabelos escuros e minha altura do meu pai, mas o resto era de minha mãe, a pele branca e mais curvilínea que os caminhos de Greenwich. — Onde estão sua irmã e Claudia? — demandou. Próxima dos quarenta e dois anos, Claudia era a mais velha de todas as mulheres de nosso clã e símbolo matriarca. A maioria das mulheres não chegava a essa idade. Não quando a maioria morria durante o parto ou eram alegremente interceptadas pelos demônios. Era uma tendência preocupante. Sem as mulheres, os Guardiões eventualmente morreriam. — Danika está com Cláudia. — Fazíamos turno para distraí-la, assim podíamos escapar. — Acho que está tendo algumas aulas. — Ou Danika estava nesse momento batendo a cabeça na parede. Como eu era consciente de que estar trancada nessa casa, mesmo tão bonita como era, ainda se assemelhava a estar enjaulada.

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No céu, a lua cheia se deslizou atrás de uma nuvem, como estivesse tirando sarro de mim. Tomei uma respiração profunda. — Olha, me desculpe. Não fui muito longe. Só estava... — Não importa. — Ondeou uma mão e imediatamente os pelos do meu corpo se eriçaram. A inquietude me envolveu. Desde quando minhas escapadas não importavam? Colocou uma mão pesada no meu ombro e apertou suavemente. — As coisas vão mudar. Já não poderá fazer voos sempre que tiver vontade. Minhas sobrancelhas se levantaram. — Como assim? O que isso significa? Seus lábios se curvaram, e parte da tensão se liberou de meus músculos rígidos. Quando ele sorria, significava algo bom, e ele não sorriu muito desde que minha mãe foi assassinada. Diferente da maioria dos casamentos arranjados, o deles tinha se convertido em um caso de amor, indo mais além de seus deveres com nossa raça. Uma vez, quando eu ainda era ingênua, eu desejava que acontecesse o mesmo comigo. — Tenho boas notícias para você, Jasmine. — Moveu sua mão de minhas costas, me direcionando até a porta que conduzia a nossa casa. — Você vai ficar contente. — De verdade? — Agora a emoção me envolveu com um abraço caloroso. — Vai me levar para New York ou WASHINGTON? — Fora meus voos noturnos, eu nunca fui a nenhum lugar além dessa pequena parte do mundo e tinha muito o que eu queria ver. Estava quase pulando ante a perspectiva. — Ou vai me deixar ir ao centro comercial sem Leo e toda a frota de Guardiões? Porque realmente eles dificultam para uma garota fazer compras. E assustam as pessoas. É tão incomodo. Seus lábios se moveram para o canto, enquanto esperava a porta se abrir. Nossa casa era do tamanho de como se imaginava que seria uma escola de segundo grau, era fortemente cercada como uma base militar. — Não. É melhor que isso. — Melhor? — Jesus Cristo, eu ia morrer de infarto por antecipação. Uma vez dentro de casa, ele girou para mim. Calor irradiava de seu olhar. Fiquei tensa, a segundos de gritar. — Dez retornou. O sangue correu de minha cabeça tão rápido que pensei que desmaiaria. Sabia que não tinha ouvido bem. Não era possível. — O que? O sorriso de meu pai se ampliou. — Ele voltou, Jasmine. Tinha um zumbido nos meus ouvidos.

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— E te reclamou — continuou, completamente alheio ao fato de que eu estava a ponto de morrer no telhado, bem em frente a ele. — Você será emparelhada em sete dias.

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Capítulo 02 Eu não estava feliz. Estava profundamente submersa até o ponto de histeria. Dez voltou depois de três anos, sem sequer dizer um “Olha, estou indo embora e vou te deixar” ou um adeus ou algo assim? Simplesmente levantou e se foi depois de... Tentei engolir saliva, mas tinha algo enorme entalado em minha garganta. Não tive nenhuma notícia dele em três anos. Nem um único telefonema, email ou carta. Nada. Eu sequer sabia se estava vivo ou morto. Ninguém do nosso clã sabia de alguma coisa. Ele desapareceu, sua repentina partida tão horrorosamente abrupta como a morte de minha mãe. Num segundo estava ali e no minuto seguinte não mais. Meu lar já não era lar desde que ele se foi.

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— Está respirando? — perguntou minha irmã, sua voz flutuando vinda de algum lugar atrás de mim. — Jasmine? Concentrada em não vomitar em toda parte, eu não tinha certeza se respirava ou não. Olhei para meu reflexo no espelho. Olhos de um azul claro me devolveram o olhar, localizados em um rosto muito pálido contrastando com o tom escuro dos meus cabelos. Inclusive meus lábios pareciam estar desprovidos de sangue. Minhas bochechas muito afiladas, muito angulosas. A última hora passou como um borrão. De alguma maneira, o clã inteiro sabia que Dez voltou e eles se jogaram em mim no instante que entrei em casa. Fui empurrada para o banheiro, porque aparentemente precisava de um banho. Danika secou meu cabelo, deixando-o solto em largas ondas descendo pelas minhas costas, porque eu estava além da capacidade de fazê-lo por mim mesma. Logo Claudia, que ou não sabia que eu saí às escondidas ou optou por ignorar essa informação devido ao que estava acontecendo, trouxe um vestido azul que eu nunca vi antes. Era apertado ao redor do meu peito e eu vi que se eu me inclinasse muito, meus seios sairiam e diriam oi. Era tradição estar com seu melhor aspecto quando o macho te reclamava. Todo o ritual era bárbaro, absolutamente errado em tantos níveis. Parte de mim entendia a necessidade de ter que emparelhar e produzir alguns bebês. Nossa raça estava morrendo e o que os Guardiões faziam era necessário para manter o equilíbrio entre o bem e o mal e blá, blá, blá. A outra parte se perguntava porque eu me voluntariaria para algo que provavelmente resultaria na minha morte em algum momento. Eram dado sete dias depois que o macho fizesse sua reclamação para poder aceitar ou não, para ter certeza de que ambas as partes entendiam que emparelhar era um compromisso para vida inteira. Não tinha tal coisa como divórcio ou separação entre os de nossa raça. Não éramos obrigadas a dizer sim, e o macho, mesmo se estivesse envergonhado ante todo o clã, tinha que aceitar nossa negativa. Podíamos continuar negando até quando quiséssemos dizer sim e haviam Guardiãs fêmeas que diziam não, como Cláudia. Ela não encontrou um macho que quisesse ainda, mas... Mas meu pai tinha anunciado suas intenções de me emparelhar com Dez há três anos atrás. A noite anterior de seu desaparecimento.

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Inalei uma grande quantidade de ar, mas o vestido estava tão apertado que restringia minha cintura. — Ele voltou — sussurrei, sem ter certeza do porque tinha a necessidade de dizer isso. Talvez porque não parecesse real. O reflexo de Danika apareceu por cima do meu ombro. Compartilhávamos os mesmos traços, no entanto, ela era uma versão mais minha. — Sim, voltou. Fechei os olhos com força e contei até dez. — Você o viu? — Não. Porque eu perguntei isso? Não me importava. Danika colocou a mão no meu ombro. — Todos estão esperando lá embaixo. O clã inteiro. O Clã inteiro podia pular do Pico Algolquin. Abrindo meus olhos, não vi meu reflexo ou o de minha irmã. Imagens minhas e de Dez juntos piscavam em um passeio de lembranças que não queria, mas uma vez que o vi na minha mente, não pude detê-las. Dez, o diminutivo de um nome que eu sequer podia começar a pronunciar, foi um membro do Clã da Costa Oeste e nunca deveria ter cruzado seu caminho com o meu. Mas quando ele tinha dez anos, todo seu Clã foi aniquilado em um brutal ataque de demônios. Ele acabou em Nova York devido aos laços que sua mãe tinha com nosso Clã. A primeira noite em que ele foi trazido para nossa casa, ele estava com raiva e retraído, quase como um animal selvagem foi encurralado. Estava em sua pele verdadeira, chiando e arranhando a quem se aproximasse. Quando meu pai não o estava buscando, eu oferecia meu pudim para ele. No começo, Dez não quis ter nada a ver comigo. Agachado atrás da biblioteca, ele me acertava com um golpe de suas mãos com garras, a ponto de abrir a pele do meu braço. O medo tinha descido pela minha coluna, mas sentia muita simpatia e preocupação por ele para fugir. Em troca, sentei a uma distância segura e comecei a falar sobre coisas sem importância e tudo aquilo que podia pensar. Levei horas divagando sobre minhas bonecas, minhas tarefas e meus livros favoritos antes de que ele aceitasse meu pudim. Depois disso, ele pediu mais e eu consegui levá-lo a cozinha. Fiquei toda a noite com ele, enquanto comia tudo o que o cozinheiro colocava diante dele e eu o observava, estranhamente atraída pelo garoto desconhecido e silencioso.

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E desde aquela noite em diante, fomos inseparáveis, ao menos pelos oito anos seguintes. Em todo lugar que ele ia eu o seguia, e vice-versa. Ele esteve comigo na primeira vez que voei por cima das montanhas e eu estava com ele na primeira vez que ele finalmente chorou a perda de seu Clã e toda a sua família. Quando eu enganchei minha asa pela primeira vez e chorei como um bebê gordo e faminto, foi Dez quem me guiou de volta a segurança e cuidou de mim. O observei enquanto aprendia a dirigir aos dezesseis anos, e quando completei quinze, ele me disse que sempre estaríamos juntos, acontecesse o que acontecesse. Agora eu tinha dezoito, e ele completaria vinte e um, e quebrou essa promessa da maneira mais cruel. — Você não pode ficar aqui a noite inteira. — raciocinou Danika com calma. — Ele está te esperando. Dei a volta rapidamente, fazendo-a pular para trás. — Não me importa. — Sim, importa. — Não, não importo. — Mas você o ama. Uma pontada forte me golpeou no peito. — Amava — sussurrei de volta. Tudo isso era verdade. Eu o amei desde o momento em que ele pegou meu pudim. Quando meu pai anunciou no aniversário de dezoito anos de Dez que apoiava nossa união, foi o momento mais feliz da minha vida. Eu era jovem. E estúpida. Quando Dez desapareceu no dia seguinte, experimentei uma angustia que pensei que me engoliria inteira para sempre. Ele foi muito mais que uma paixonite para mim. Ele era meu melhor amigo, meu confidente, meu mundo. Danika colocou as largas mechas de seu cabelo atrás de suas orelhas ao mesmo tempo em que se apoiava na minha cama. — Dirá que não então, quando os sete dias terminarem? Fiquei de pé, surpresa de que minhas pernas me sustentassem e dei um passo para frente. O vestido sussurrou ao redor de minhas pernas de uma maneira que me fez ficar com saudade de minhas calças jeans. — Não posso perdoá-lo. Minhas mãos se fecharam em punhos. — E ele aparece do nada? Anuncia que me quer logo depois do que fez? Que vá a merda!

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Danika levantou uma sobrancelha. — Você não falou com ele ainda. Não sabe a razão pela qual ele foi embora. Olhei-a com os olhos estreitos. — Como se isso importasse. De que lado você está? — Do seu. Venha. Vamos acabar com isso. Afastando-se da cama, ela me conduziu para fora do quarto para um largo corredor. — Isso vai ser incômodo. Me alegro de não ser eu. — Obrigada — murmurei. Meu coração estava batendo como um grande tambor. — Você está linda — disse Danika, me dando um empurrão nada gentil até a escada. Será que eu tinha tempo para sair correndo e enterrar meu rosto no barro? A última coisa que eu queria era estar especial para Dez. Os nervos fizeram com que eu desse uma respiração trêmula enquanto me segurava no corrimão. Ou talvez fosse o vestido? De qualquer maneira, eu não conseguia respirar. Vozes provenientes do primeiro andar vieram flutuando até nós, e me esforcei para distinguir a quem pertenciam enquanto me dirigia até embaixo pelas escadas. O sangue rugia em meus ouvidos e minha boca secou quando alcancei o fim do segundo andar. Comecei a me inclinar para dar uma olhadinha quando Danika agarrou meu braço e me arrastou pelas escadas que faltavam. Eu sequer podia lembrar a última vez que o Clã inteiro se reuniu em um lugar, em especial a esta hora da noite, quando a maioria estaria se preparando para a caça noturna. A multidão me pareceu imensa nesse momento. Os machos altos e largos, vestidos com calças de couro escuras. Umas poucas fêmeas se encontravam entre eles, tentando lidar com as crianças. Um deles, um garotinho de não mais de três anos, correu até o pátio. A baixa cúpula do céu se transformou em sua forma humana na metade do caminho. Os chifres brotaram entre os cachos loiros. Asas cinzentas cresceram de suas costas, magras e desiguais. Uma se arqueou no ar e a outra se inclinou para um lado. Ele riu quando um grande macho saiu e o garotinho lançou-se em seus braços. Danika lhe deu uma cotovelada para que avançasse. Tropecei, e enviei-lhe um olhar sombrio.

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— Ai está você. — A voz de meu pai foi como um estrondo de um trovão, pesado com orgulho, e me senti como se estivesse presa a um salão de leilão. Um Guardião de idade avançada, de cabelos grisalhos e um rosto cheio de rugas se queixou: — Está na hora Garrick. Nenhum de nós está ficando mais jovem. Com as mãos fechadas em punhos, mantive os olhos fixos em meu pai enquanto forçava as minhas pernas a continuarem se movendo. A multidão se separou enquanto eu caminhava atordoada. Não pude olhar para ninguém; Meu estômago se retorceu e doeu. Papai disse algo e estava quieto e sorrindo, mas não pude prestar atenção na conversa. Cada músculo de meu corpo se encontrou travado quando ele deu um passo ao lado. Contra a minha vontade, meu olhar se voltou aonde ele se encontrava de pé. E ali estava ele. Meu coração deixou de bater por um instante e logo se acelerou. Dez estava parado diante de mim, mais alto e mais largo do que eu me lembrava. Era o mesmo de muitas maneiras, mas muita coisa tinha mudado. Seu cabelo era de um castanho profundo e quando mais jovem, era curto na lateral e no centro, estilo moicano. Já não mais. Agora seu cabelo caia em ondas suaves, apenas chegando aos ombros. Seus olhos eram os mesmos: azuis pálidos destacados por cílios grossos e pesados. A falta do moicano não foi a única mudança. E o resto dele? Nada do jovem que foi embora há três anos permaneceu naquele rosto que era estranho e familiar. O rosto oval juvenil tinha se modificado nos últimos três anos e substituídas por linhas duras. Sua mandíbula era reta com maças do rosto largas e definidas. Tinha um ligeiro desvio no seu nariz, como se este tivesse quebrado e não consertado corretamente. Suas sobrancelhas formavam graciosos arcos sobre seus olhos e seus lábios pareciam mais cheios do que antes. Um pensamento traidor se filtrou: Seus lábios eram tão firmes quanto pareciam? Esses lábios não estavam estendidos em um sorriso, e Dez sempre sorria para mim. Agora estavam separados e enquanto arrastava meu olhar até ele, me dei conta de que não era o garoto pelo qual me apaixonei.

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Dez me devolveu o olhar, suas pupilas ligeiramente dilatadas e começando a se esticar verticalmente. A surpresa se mostrou em seu rosto e não pude entender a razão pela qual estava tão surpreso. Eu não mudei muito nos últimos três anos em que ele esteve ausente. Bom, eu não era tão ingênua como fui antes e meus seios definitivamente estavam maiores. O mesmo que meu quadril. Seu olhar baixou uma fração de segundos e meus olhos se estreitaram. A irritação picou minha pele. Fala sério, ele estava ali de pé me avaliando? Mas meu olhar irritado lutou com um sentido maior de consciência com a qual estava familiarizada. Um calor inundou minhas veias quando seu olhar se encontrou com o meu. Eletricidade faiscou no ar entre nós, quando nossos olhares se travaram. Dez se moveu tão rapidamente que eu sequer tive a oportunidade de me preparar. Num segundo estava parado frente a mim, e no seguinte sua mão se posicionava na parte de trás da minha cabeça, seus dedos entrelaçados no meu cabelo. Meu coração saltou para minha garganta quando me dei conta do que ele ia fazer. Abri a boca para protestar, mas foi muito tarde. Dez me beijou.

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Capítulo 03 A surpresa tomou conta de mim, apagando meus sentidos, uma parte de mim estava muito impressionada para fazer algo mais que ficar parada aqui. Meu punho ardia para conectar com sua mandíbula. Como ele se atrevia a me beijar depois de todo esse tempo? Sem sequer dizer oi, pelo amor de Deus. Mas o ligeiro roçar de seus lábios me surpreendeu. O barulho de muitas vozes juntas no pátio me ensurdecerem ante tudo, exceto o som de meu próprio coração. No fundo da minha cabeça, eu sabia que isso também era parte da tradição. Um beijo para selar o reclame ante todo o Clã, mas a última vez que eu comprovei, eu não tinha aceitado nada ainda, e isso me devolveu a realidade. Dez aumentou o aperto na parte superior da minha cabeça e passou um braço pela minha cintura enquanto começava a me afastar, a pressão sobre meus lábios aumentando quando ele me pressionou contra ele, seu braço um aperto de aço que inclusive não me permitia respirar. O calor se agrupou na parte baixa de

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meu estômago ante o profundo retumbar do seu peito. Meu pulso se acelerou enquanto o beijo se aprofundava, em algum momento minhas mãos terminaram em seus ombros e não era para afastá-lo. Meu primeiro beijo... e foi tudo o que eu imaginei que seria, com a exceção da audiência. Mas era difícil não reconhecê-los com seus gritos e exclamações. Chamas se ondularam em minha pele já quente. Os lábios de Dez se moviam contra os meus, trabalhando para abri-los. Dei um grito afogado e me perguntei em que lugar do mundo ele aprendeu a beijar assim, ciúmes se ascenderam como farol ante o pensamento, ok, não queria saber onde ele aprendeu. Alguém limpou a garganta sonoramente. — Mesmo que eu esteja encantado de ver o quão feliz você está de ver minha filha, acredito que você pode parar agora. Dez lentamente afastou sua boca, respirando pesadamente enquanto apoiava sua testa contra a minha. Um rápido olhar a seus olhos mostrou as pupilas dilatadas destacando sua íris de um azul profundo, antes de ele fechar os olhos, exalando pela falta de ar. — Jasmine. Ao som de sua profunda voz, tão diferente da que eu me lembrava, quebrei seu aperto e me afastei. Retrocedi colocando minhas mãos em minhas bochechas vermelhas e logo as baixei cruzando meus braços sobre meu peito, confusão seguindo a fila de emoções conflitantes. Felicidade, fúria, excitação. Muita luxuria e logo raiva pela sua reaparição tão repentina, eu não sabia o que pensar sobre tudo isso. Os olhos de Dez nunca deixaram meu rosto, nem por um segundo desde que nos separamos, seu olhar era tão intenso quanto a sensação de ser pressionada contra ele, ardente como seu beijo. As portas do jardim se destacavam atrás dele e tive a urgência de sair correndo por elas. Eu estava lenta para acompanhar a conversa ao meu redor, mas as palavras de meu pai me trouxeram a realidade. — Já que está tudo certo — ele disse, fazendo com que minha mandíbula caísse no chão. — A cerimônia será... — Espere! — me virei para meu pai. — Nada está acordado. — O que você disse? — perguntou Dez, dizendo mais de duas palavras pela primeira vez. Ignorei. — Nada está arranjado, eu não aceitei a reclamação.

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Silencio caiu sobre todo o Clã, e isso não poderia ficar muito mais incomodo. — Não parecia que ia dizer não, há alguns segundos. Dez tocou meu braço. — Jas... Um sentimento de mal-estar surgiu em meu estômago ante o uso do meu apelido. Afastando-me de seu lado, encontrei seu olhar. — Não, você não pode me chamar assim. — Mantive minha voz baixa, mas sabia que estávamos sendo ouvidos, o Clã na sua maioria homens, era pior que velhinhas quando se tratava de fofocas e dramas. — Você não pode voltar para a minha vida e... — Está bem. — disse meu pai diplomaticamente. — Acho que vocês precisam conversar. Eu puxei meu queixo para cima. — Eu não tenho certeza que há nada para falar. Dez manteve meu olhar por um momento e logo se afastou, um músculo marcando em sua mandíbula. — Jasmine, vocês dois precisam chegar a um acordo, tem sete dias para tomar uma decisão, não tem porque tomar uma decisão apressada. — Minha decisão não é... — Conversaremos. — interrompeu Dez agarrando meu braço firme, mas suavemente. — E não precisaremos de sete dias. Olhei em seus olhos, eu era alta, mas Dez era mais ainda. — Oh, é tão bom ver que sua arrogância não mudou. Os lábios de Dez se arquearam no canto. — Acho que você vai perceber que muitas coisas não mudaram. — Realmente não me importa — tentei me afastar, mas ele manteve seu aperto, seu sorriso se estendendo um pouco. — A sério. Seus olhos brilharam com o desafio e algo mais, algo que não pude compreender. — Veremos. **** Encontrar privacidade em uma casa cheia de gente que obviamente não tem nada melhor para fazer do que fofocar, demonstrou ser difícil. Poderíamos ter

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subido a meu quarto ou ao quarto que ele ocupava antes de ir embora, mas parecia ser muito íntimo e teria sido demais para mim nesse momento, eu já estava irritada o suficiente. Acabamos indo para fora, no jardim detrás da mansão. A lua se refletia nas paredes de pedra construídas ao redor da casa. Era uma noite qualquer, podíamos encontrar casais que tinham escapado para se encontrar entre rosais espinhosos e árvores. Não é que as pessoas tinham que escapar para se encontrarem. Os Guardiões estavam quase sempre fazendo bebês, mas talvez era atrativo fazer algo aparentemente perigoso. Sinceramente, eu não sei. — Você está linda. Fiquei olhando as rosas. Durante a noite, suas pétalas pareciam veludo negro. — De verdade, você acredita que isso vai levar a alguma coisa? — Não estou tentando chegar à parte alguma.

— Sua voz estava mais

próxima, e um arrepio desceu pela minha espinha. — É a verdade, você sempre foi bonita, mas maldita seja, você está maravilhosa, Jasmine. Meu coração deu um salto ante suas palavras, não importava o quanto eu não queria ficar afetada. Uma brisa fresca agitou meu cabelo e fez com que a barra de meu estúpido vestido flutuasse ao redor de minhas panturrilhas. — Olhe pra mim — ele me disse com um tom amável, ainda que um pouco brincalhão. Revirei os olhos. — Falei sério lá dentro, Dez. Não temos nada sobre o que falar. — Você tem certeza disso? — Seu calor esquentou minhas costas, me advertindo que estava mais próximo ainda. — Porque a forma como você me beijou disse algo totalmente diferente. — A forma como te beijei? — Virei e tive que dar um passo para trás. Ele estava muito perto. — Eu não te beijei, idiota. Você me beijou. — Mera questão técnica — murmurou, e em um instante ele estava tão próximo que estávamos respirando o mesmo ar novamente. — Você devolveu o beijo. Ainda que isso fosse verdade, eu seria louca de admitir — Estava muito comissionada para pensar com claridade. Confie em mim, não vai acontecer novamente.

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— Tem certeza? Respirei fundo e soltei o ar lentamente. — Sim. Ele baixou a cabeça, então estávamos com os olhos na mesma altura. — Vou ter que discordar Jas. Esse foi só nosso primeiro beijo, e sequer foi um beijo de verdade. Se isso não foi um beijo de verdade, que tipo de beijo ele considerava real, então? Girei sobre meus pés, começando a andar. Dez me seguiu em silêncio durante uns segundos. — Não era assim que eu esperava que você me receberia. Minha boca se abriu quando parei frente a um banco de pedra. Dei a volta lentamente. — Você está falando sério? Ele me olhou de uma maneira que me fez perguntar se ele tinha perdido seus neurônios durante sua ausência. Dez não era estúpido, muito pelo contrário, então como é possível que minha reação a ele fosse uma surpresa? Olhando-o fixamente, era difícil conciliar a lembrança do garoto que eu conhecia com o homem diante de mim. As lágrimas queimavam na parte de trás de meus olhos e quando falei, minha voz saiu rouca. — Eu nem tinha ideia do que aconteceu com você. Tenso, fechou os olhos. — Jasmine... — Durante três anos, não sabia se estava vivo ou morto! — Um nó se formou na minha garganta. — Não houve nenhuma ligação, sequer um email ou mensagem, nada, como pode? — Minha voz se quebrou e voltei à cabeça, respirando profundamente. — Não sabia o que pensar. Ele acariciou meu rosto, seu polegar deslizando por ele, acompanhando algo suspeitosamente molhado. — Por favor, não chore. — Não estou chorando — dando um passo ao lado, me apressei para limpar meu rosto. — É uma gota, acho que o clima está mudando, acho que vai chover. Ternura se filtrou no seu rosto, e eu não queria ver. — Você continua sendo uma mentirosa terrível. — Cala a boca — murmurei, limpando minha garganta. — Você não tem nada a dizer? Suas sobrancelhas se levantaram. — Desculpa. Fiquei de boca aberta. — Isso é tudo?

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— Você não entenderia, Jas. Cruzei os braços. — Oh, não sei, eu poderia ser capaz de entender sua explicação se você falasse devagar e utilizasse palavras pequenas. Os olhos de Dez se acenderam brilhantes por um instante e logo se escureceram. — Sei que você não é estúpida. — Não parece que você pensa assim. — Olha, não estou orgulhoso de ter ido e não é algo que eu queira discutir agora. — Ele passou as mãos pelo cabelo, fazendo com que as mechas se prendessem em seus dedos. — Podemos colocar isso de lado pelo menos por enquanto? Comecei a dizer que não, mas um olhar de vulnerabilidade se deslizou em seus olhos e tudo que eu queria era segurá-lo e fazer com que me dissesse tudo. Eu não o machucaria. Ele merecia, mas me lembro dele chorando no meu ombro, grudado em mim como se eu fosse sua única âncora no seu mundo. — Senti sua falta Jas. Você nem tem ideia — continuou, se aproximando novamente, mas sem chegar a me tocar. — Pensei em você todos os dias. Tudo o que eu queria era voltar para você e para o Clã. Principalmente para você. Sempre você. Sacudindo minha cabeça, apertei meus braços ainda mais forte ao meu redor, como se pudesse evitar que meu coração saísse do meu peito e fizesse algo estúpido. — Não acredito que você entenda. Não consigo esquecer que você se foi porque meu pai anunciou que queria um emparelhamento entre nós. O fato de que decidiu agora que me quer depois de fazer sabe Deus o que, e acreditar que vou te receber de braços abertos? Não estou tão desesperada. — Espera — soltou uma gargalhada. — Você acha que fui embora por isso? Está louca? Lancei um olhar zombeteiro. — Realmente não está ajudando. — Não é por isso que fui embora Jasmine. Acredite em mim. — Ele caminhou para minha frente, e me encontrei sem poder me mover. — Nunca menti para você. — Não — sussurrei. — Você só me abandonou.

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— Não teve nada a ver com o anuncio de seu pai. Prometo. — Só as pontas de seus dedos tocaram meu rosto, mas mesmo assim foi um choque para meu sistema nervoso. — Deixa eu te mostrar. Nossos olhares se encontraram e eu conseguia sentir as batidas do meu coração nas minhas veias e o calor de seu corpo apesar de que ele apenas me tocou. Dez baixou a cabeça e o ar parou na minha garganta. Ele ia me beijar outra vez? Não podia permitir, mas tampouco podia negar a onda agridoce de vontade, de querer algo que podia facilmente se voltar contra mim e atingir onde mais doía. Ele não me beijou. — Eu quero você e sei que você sente o mesmo. Nenhum dos dois poderia ter mudado tanto. Eu acredito nisso. E quero você. Muitas vezes nos últimos três anos, e inclusive antes disso, quando tive idade suficiente para reconhecer o que sentia em torno de Dez, eu sonhei com esse momento. Mas se o que ele dizia era verdade, então porque me deixou? Por que não tinha nada a dizer exceto que sentia muito? Aceitar suas desculpas era o caminho mais fácil e para dizer a verdade era o que meu coração queria, mas não era a única coisa que eu queria. Fechei os olhos. — Não sei. — Sete dias — seu nariz roçou minha bochecha e seu hálito quente soprou em meu ouvido me fazendo tremer. — Me dê sete dias, Jas. Por favor. Ele não disse por que se foi e não tinha professado amor eterno por mim, mas uma ideia veio a minha mente e uma vez que criou raiz, floresceu. A emoção se elevou como o desabrochar de uma flor. — Só com uma condição e ainda assim, não faço promessas. Dez riu de uma maneira exasperante e, no entanto, totalmente sexy. Abri meus olhos. Eu sonhei com isso antes? Ele apertou a palma de sua mão no meu rosto. — Qual é a condição? Tomei uma respiração profunda me concentrando em minhas palavras e não em como sua mão sentia. — Tem coisas que quero fazer. Interesse se ascendeu, aprofundando a tonalidade de seus olhos. — Que coisas? — Não é o que você está pensando — disse secamente, ainda que a ideia dessas coisas fosse interessante. — Nunca fui a nenhum lugar e quero ir a esses lugares. Quero ver as coisas.

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Seus olhos se estreitaram, mas meus músculos ficaram tensos quando sua mão se deslizou até meu pescoço, ameaçando causar estragos com o que estava tentando fazer. — Aonde você quer ir? — New York, Washington, talvez até Philly — disse apressada. — Quero andar pelo shopping sem um monte de seguranças me vigiando, quero aprender a dirigir um carro e não ter alguém gritando comigo quando errar a troca de marcha. — Dirigir não era necessário, obviamente, nós temos asas e podemos voar, mas dirigir... dirigir era tão divinamente humano. — Quero nadar pelada. — Isso parecia muito pessoal, por isso me apressei a continuar. — E quero... quero caçar um demônio. — Jasmine, isso é inaceitável. Demônios não são... — Essas são minhas condições — endireitando meus ombros, senti uma pequena parcela de culpa. Eu o estava usando para conseguir o que eu queria, e isso não era legal, mas quando eu teria essa oportunidade de novo? Como guardiã tinha tão pouco o que eu podia fazer. — É pegar ou largar. Ele manteve meu olhar durante tanto tempo que eu tinha certeza de que ia dizer não. Então eu provavelmente bateria nele, sabia como fazer isso porque ele mesmo me ensinou. — E tenho sete dias para te ajudar a fazer tudo isso? Isso não foi um não. Minha esperança cresceu. — Sim, você tem sete dias e então... bom, veremos. Dez suspirou profundamente, como se eu estivesse pedindo para levantar o Titanic, e então ele me beijou na testa. — Está bem, eu aceito.

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Capítulo 04 Com o rosto enfiado no meu travesseiro, eu gemi. Era cedo e mais além das quatro paredes do meu quarto, eu podia ouvir o suave canto dos pássaros. Não tinha certeza do que me provocou, o que me despertou. Algo suave roçava minha pele nua. Movi meu braço, tentando colocá-lo debaixo das mantas. A confusão do sono desanuviou um pouco quando uma sensação percorreu meu ombro, puxando a fina alça da minha camiseta. Me encolhi debaixo das mantas levando minha perna direita para cima. Bati num obstáculo bastante imóvel. O resto de meu aturdimento de sono clareou quando uma risada profunda retumbou por todo o quarto, soando muito, muito próxima. Que demônios!

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Virei de lado e me sentei empurrando meu cabelo, que tinha caído no meu rosto. Dois olhos azuis envoltos em escuras sobrancelhas loiras se encontraram com os meus. — Bom dia — disse arrastando as palavras, encostado de lado como se tivesse todo o direito de estar na minha cama. Me afastei para trás, sem fôlego. Eu teria caído da cama se sua mão não tivesse saído rapidamente para agarrar meu braço. Ele me enjaulou na cama, tão próximo que seu cheiro, uma mistura de ar livre e uma colônia que eu não conseguia definir, estava em todas as partes. — O que você está fazendo na minha cama? — Queria te ver. Eu ainda estava dormindo. — E você não poderia ter esperado até que eu me levantasse? — Não. Ele afastou uma mecha do meu cabelo por cima do meu ombro, seus dedos roçando minha pele. — Essa não é a primeira vez que te despertei dessa maneira. — Mas isso... isso era antes — murmurei. Fez o mesmo com outra mecha de meu cabelo. Os dedos de meus pés se curvaram ante o leve contato de nossa pele. — Você não deveria estar aqui. — Ninguém sabe. Inclinou-se com os olhos brilhando com diversão e fui levada há vários anos atrás. — Será nosso pequeno segredo. Eu culpava o fato de estar meio dormindo ainda, porque não podia pensar numa resposta. Estava perdida em relação a como lidar com Dez. Quando éramos jovens, estar próximo assim era seguro. Porque tínhamos sido crianças pequenas compartilhando a mesma cama, e mesmo depois que eu cresci, era muito tímida para fazer um avanço desse tipo com ele. O olhar de Dez percorreu meu rosto lentamente, e um rubor a seguiu. Fiquei tensa quando seu olhar desceu mais um pouco. A fina camiseta sem costura não deixava nada a imaginação. Nada sobre isso era certo. Por um momento, fiquei imóvel. A forma como me olhava... bem, quando qualquer outro Guardião me olhava dessa maneira, eu não sentia nada mais que

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raiva, mas eu queria que Dez me olhasse assim. Uma estranha plenitude se expandiu em meu peito e de repente fazia muito calor no quarto. Um canto de sua boca se levantou. — Eu poderia me acostumar a... isso toda manhã. Expirei uma grande quantidade de ar quando seus cílios se moveram rapidamente para cima. Agarrando a manta, o fulminei com olhar. — Vá sonhando, amigo. Riu entre os dentes enquanto se esticava e apoiava o rosto em seu punho. — Você tem aulas nesta manhã? — Não. Eu terminei. Para sempre. — Todos os Guardiões eram ensinados em casa e, como acontece com os seres humanos, a maioria de nós concluía nossos estudos aos dezoito anos de idade. Era feito com um monte de livros especiais, mas muitos de nós, especialmente as mulheres, não tinha noção real do mundo. Olhei para ele. — Por quê? — Bem. Podemos começar agora com as condições que você mencionou. — Agora? — Me esticando, olhei o relógio despertador. — Nem são sete horas ainda! Sorriu abertamente. — Você tem muitas condições e não vou poder perder nem um momento. Bem. De certo modo, eu mesma procurei isso. — Eu também tenho uma condição — agregou. — O que? Endireitei-me, estreitando os olhos. — Não pode fazer isso agora. Já acertamos... — Não firmamos nenhum contrato, Jas — ele disse secamente enquanto se levantava. Tão grande como era, ocupava toda a cama. — Qual sua condição? Meu interior se enrolou com força ante o sorriso lento que se apoderou do seu rosto. — Que quando completarmos cada condição, você me dará um beijo. O olhei boquiaberta. — Você está falando sério? — Sério — murmurou. — Você está tirando um benefício disso, eu também deveria. — Bem, isso é realmente agradável de escutar. Encolheu seus grandes ombros.

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— Minha companhia devia ser suficiente — respondi rapidamente. — Sua companhia é, mas é pegar ou largar, Jas. Você quer fazer essas coisas e eu quero você. Se quer jogar esse jogo, essas são as regras. A teimosia que ele tinha demonstrado desde criança quando queria algo não mudou. Normalmente era reservada para discussões sobre videogames ou quando queria caçar antes que tivesse idade suficiente, mas nunca era direcionada a mim. Meu coração bateu com força no meu peito enquanto o olhava fixamente. Eu tinha a ansiosa sensação de que de alguma maneira as condições que eu estabeleci na noite anterior me colocaram justo aonde eu queria... mas agora ele tinha a vantagem. *** Qualquer um pensaria que um Guardião, com sua capacidade para se transformar e converter sua pele em granito e se curar rapidamente, não ficaria petrificado por estar dentro de um carro. Mas Dez parecia como se estivesse a ponto de vomitar. Ambas as mãos estavam plantadas no painel enquanto olhava fixamente pelo para-brisa do carro. — Direita! Gira o volante para a direita! Virei para a direita e o carro se sacudiu para um lado, com os pneus desnivelados sobre o asfalto, nos sacudindo também. — Desculpa. — Talvez não devêssemos ter pego todo terreno — resmungou. Eu rio com gosto. Durante seis horas, ficamos saindo e entrando do carro e mudando de lugar enquanto Dez tentava me ensinar a dirigir. Tínhamos começado em frente à firma, dirigindo cuidadosamente todo terreno ao redor da rua sem saída e voltando pelo longo caminho da entrada. Isso atraiu muita atenção por parte dos machos, inclusive algumas gozações dirigidas a Dez. Ele aceitou tudo com calma e estava rindo até o momento em que me considerou pronta para dirigir o carro em algumas ruas não transitadas. Tínhamos almoçado rapidamente e logo partido para nossa lição, e foi então que toda a diversão começou. Dei-me conta que dirigir não era tão difícil.

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Endireitei o volante e sorri enquanto ele se recostava no banco, com as pernas estiradas, empurrando contra um freio imaginário. — Não é tão ruim. Ele me lançou um olhar de soslaio. — É possível que você queira soltar um pouco o acelerador. Meu olhar caiu no velocímetro. Passando de cem quilômetros por hora, me aferrei ao volante enquanto meu sorriso se expandia a proporções épicas. As árvores se desenhavam em ambos os lados da rua estreita enquanto pressionava o pedal alcançando os cento e treze quilômetros por hora. Dez apoiou uma mão na porta do carro. — Lembre, as mãos devem estar em posição nove e quinze em ponto. — Mas não eram as dez e dez em ponto? — Não. — Ele conteve o fôlego, — Curva. Curva se aproximando. Reduz a velocidade. Curva! Reajustei minhas mãos e diminui a pressão do acelerador, mas meu coração saltou no meu peito enquanto todo terreno voltava ao centro. Com a janela abaixada, o vento soprava através do meu cabelo e sobre minha pele. — É como voar. — Exceto que estamos em uma armadilha de várias toneladas – murmurou ele. Rindo, acelerei na reta e a vertigem se estendeu através de mim. Para muitos Guardiões, dirigir não era uma grande coisa, não depois de obter sua carteira e isso se convertia em um método para chegar do ponto A ao ponto B, mas tinha algo libertador em pisar fundo e dirigir em alta velocidade, em dirigir quase tão rápido quanto voar. Eu estava saindo de casa. Estava fugindo. — Você realmente está gostando disso, não é? Concordei. — É tão... bom, você provavelmente deve pensar que é estúpido. — Não acho. Diga. — É libertador e... é normal e estranho ao mesmo tempo. Lutei para encontrar as palavras adequadas à medida que alcançávamos o alto da colina. — Danika é a única garota próxima a minha idade e sempre está ocupada andando atrás dos rapazes, por isso nunca está interessada nesse tipo de coisas ou em qualquer coisa que me interesse, na realidade.

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— Ela ainda está tentando aprender a lutar? — a diversão coloria seu tom de voz. Minha irmã queria lutar contra os demônios. Isso nunca ia acontecer, mas ela conseguiu convencer os machos a treiná-la para sua autoproteção. — Sim, e enquanto isso é divertido para ela e ajuda a passar o tempo, eu quero... — Sair? Concordei novamente em silêncio enquanto lembrava dos últimos três anos, nos quais fiquei sozinha tantas vezes. Dez era meu amigo, meu companheiro em fazer coisas as quais não deveria fazer, e quando se foi, um monte de coisas se tornaram impossíveis. Dez se moveu no banco, seu grande corpo apertado no espaçoso terreno. Passaram uns segundos antes dele falar. — Porque não pediu para alguém te ensinar? — Pedi, mas nenhum deles tinha paciência ou pensava que fosse uma boa ideia. — A irritação constante de estar enjaulada se avivou como um incêndio. — Eles acham que nos meteremos em problemas. Que os demônios nos encontrarão e... — Os demônios te encontrariam sim, Jasmine. Eles nos percebem justamente como nós os percebemos. Não é seguro para você estar aqui fora sem algum de nós por perto. — Não sou fraca. — O cortei com um olhar penetrante. — Não estou dizendo isso. Você nunca foi fraca. Nem uma vez. — Sua sinceridade parecia verdadeira. — Mas se alguma vez se encontrasse com um demônio de Nível Superior, não escaparia. Mordi o lábio. Existem muitos tipos de demônios. Os mais comuns eram os Fiends. Eles pareciam humanos e gostavam de caos, quebrar coisas, iniciar incêndios, manipular as emoções de grandes multidões. Ouvi dizer que podiam ser ferozes quando encurralados. Também havia os Posers. Também pareciam humanos, mas só por um curto tempo, e tinham um inferno de apetite, inclusive uma rara tendência canibal. Quando mordiam um humano, as coisas iam costa abaixo rapidamente... tão rápido como se converter em um zumbi. Existiam dezenas mais, mas os mais perigosos de todos eram os de Nível Superior – os príncipes e duques do Inferno – o mesmo tipo que tinha matado a minha mãe e

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tinha acabado com o Clã de Dez. Eram casos escassos, mas sua ameaça era muito real. De repente, algo da diversão foi sugado desta experiência. — Desculpe. Sua desculpa me pegou de surpresa e eu não quis me sentir afetada por ela, mas meu peito se contraiu. — Quando fui embora, sabia que isso te afetaria, mas não me dei conta do impacto que causaria — continuou ele em voz baixa. — Não pensei que estaria sozinha, presa aqui. — Presa — era uma descrição correta. — Bem, acredito que na realidade você não me deva nada, não é? Não aceitou a oferta do meu pai e você... — Sim, te devo. — Seus olhos brilharam de um verde azulado. — Se não tivesse sido por você, bem, só Deus sabe o que teria sido de mim. Você me ajudou a seguir adiante, em maior parte. E você... — ele se calou, olhando fixamente para a janela do passageiro. — De todos os modos, eu me alegro que você esteja desfrutando disso. Aceitei a mudança de tema, querendo recuperar a sensação anterior. — Acredito que estou me saindo muito bem. Ele riu entre dentes. — Está. Acredito que você dominou o volante. Sempre foi uma ótima aprendiz. Sorri e logo uma onda de nervosismo me golpeou. Uma vez que a condição fosse concluída, então eu teria que cumprir com a dele. Beijá-lo. Fogo se estendeu através do meu rosto. O suor salpicou minhas palmas. Teria as palmas suadas enquanto o beijava? Eca. Eu disse a mim mesma que isso não importava, mas como Dez me lembrou, eu era uma mentirosa terrível. Sim, me importava. — Posso dirigir mais um pouco? — perguntei. — Pode dirigir o tempo que... pare o carro! — gritou de repente, se endireitando no banco. — Pare o carro Jasmine, agora! Os pelos de todo o meu corpo se eriçaram enquanto uma espessa sensação úmida invadia meu sangue. Algo estava mal, algo antinatural. Bati meu pé no freio. Os pneus chiaram e o cheiro de borracha queimada encheu o ar, mas outro aroma eclipsava... o cheiro de ovos podres. Enxofre.

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As

rodas

traseiras

derraparam

e

nós

invadimos

a

outra

pista.

Desesperadamente, endireitei o volante e nós deslizamos a uma parada agitada ao longo da estrada. O movimento se desfocou desde um espesso cultivo de árvores juntas na estrada. O ar destelhou e se acumulou como se uma lente estivesse fora de foco e logo fosse corrigida. Como se um véu tivesse sido arrancado, formas rapidamente tomaram vida. Meus olhos se arregalaram e eu pressionei a mão sobre minha boca. Dois deles estavam parados um ao lado do outro, seus corpos delgados e musculosos cobertos de uma pele avermelhada. Com as mãos de quatro dedos com garras e pés com cascos, não se assemelhavam a nada remotamente terno e amável. Suas asas eram negras e de aspecto frágil. As bocas bem abertas, cada uma expondo um irregular conjunto de dentes que rivalizavam com os de um grande tubarão branco. Um grande chifre marrom curvado saia para fora de cada cabeça com a forma de camelo, afiados como uma adaga. Meu coração deu um salto em minha garganta enquanto processava o que eu estava vendo. Os humanos acreditavam que essas criaturas não eram nada mais que uma lenda, comicamente chamadas de Diabo de Jersey. Uma parte desse nome era correta, eu sabia o que eram essas coisas, os tinha visto em livros que retirei as escondidas da biblioteca de meu pai. Eram Terriers... demônios.

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Capítulo 05 Com o estômago dando voltas, estudei as horríveis criaturas. Os Terriers eram demônios menores, vistos poucas vezes por olhos humanos. Eram controlados pelos buscadores – demônios que eram responsáveis por encontrar algo para um demônio de Nível Superior ou para o Inferno mesmo. Se tinham Terriers, significava que estavam procurando por algo. Eu só tinha visto um demônio uma vez – um de Nível Superior que tinha conseguido passar através dos homens que nos protegiam, a Danika e a mim enquanto viajávamos de um povoado próximo a outro com nossa mãe. Eu tinha seis anos, e uma simples saída tinha se convertido em tragédia. — Fique no carro — ordenou Dez, abrindo a porta do carro. — Não importa o que acontecer. Em um segundo ele estava fora da SUV, fechando a porta com uma batida atrás dele. Um dos Terriers inclinou seu longo e fino pescoço para um lado

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enquanto levantava seu nariz, cheirando o ar. Quando abriu sua boca, saiu dela um som como um grasnido. Apareceram mais dois Terriers entre as árvores, respondendo ao seu chamado. Abaixei minha mão para retirar o cinto de segurança. Quatro deles? Um contra quatro? O medo gelado se cravou profundamente em minha alma. Era como ter seis anos outra vez, indefesa e somente capaz de ver como desenrolava o horror. Depois de uma batida do meu coração, Dez se transformou em sua verdadeira forma. A parte de trás de sua camiseta se rasgou e deslizou pelo seu corpo quando ele abriu suas asas, formando um arco a cada lado de seus largos ombros. A mudança só durou uns segundos, mas o resultado final foi magnífico. Sua pele se tornou de um tom cinza escuro, sua mandíbula se ampliou e seu nariz achatou. Dois chifres irromperam de seu cabelo castanho desarrumado se curvando para trás. Vê-lo em sua verdadeira forma pela primeira vez em anos me fez perceber que eu já não podia vê-lo mais como o lindo garoto pelo qual me apaixonei. Dez agora era um macho – um guerreiro consumado. Um Terrier gritou quando levantou voo, batendo suas asas enquanto se dirigia contra Dez. Inclinando-se para trás, ele plantou seu pé contra a cintura do Terrier, chutando a enorme criatura em forma de pássaro em cima da outra. Ambas as criaturas caíram no chão, um enrolado de garras e chifres. Outra correu para Dez, e ele se ajoelhou, os músculos de suas costas tensos. Lançando-se no ar, ele pegou o Terrier pelo pescoço. Dez se retorceu no ar, lançando-se ao Terrier como se fosse um bastão. O demônio voou pelo ar, chocando contra uma árvore. O impacto soou como um trovão. O tronco da árvore se estilhaçou e seu topo se partiu pela metade, caindo em cima de outra criatura. O Terrier cai no solo, imóvel. Um segundo depois, o corpo tremeu e logo colapsou sobre si mesmo, desaparecendo em um vômito de fumaça negra. Os Terriers restantes estavam levantados, dando voltas ao redor de Dez. Ele girou para o mais próximo, evitando por pouco a ponta afiada de seu chifre. Seus lábios se curvaram para cima quando se levantou no ar. A confiança retumbava de Dez, mas então um Terrier o atacou, sua garra capturando e

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rasgando através de suas calças. Sangue brotou de imediato e escureceu a calça dele. As garras deles podiam cortar através de nossa pele? Oh, Deus... Meu coração deu um salto em minha garganta quando o medo estalou em pânico. Dez riu enquanto se deixava cair de cócoras. — Isso é o melhor que você pode fazer? Um arranhão? O Terrier respondeu com um chiado, se arremessando. Os outros dois se elevaram no ar, descendo sobre Dez. Ele não parecia ter medo. Em todo o caso, o meio sorriso dizia que estava se divertindo bastante, mas sabia o quão rápido uma batalha podia mudar. Um pequeno deslize e isso seria tudo. E aqui estava eu, agachada no carro. Minha mãe não tinha mostrado nenhum medo. Tinha lutado contra o demônio, tão feroz como qualquer macho. Perdeu sua vida protegendo a minha irmã e a mim, e eu não ficaria sentada vendo acontecer o mesmo com Dez ou a alguém. Com os dedos frios e tremendo, eu abri a porta do motorista e sai. Respirando a essência de pinho e terra, forcei meu corpo a se transformar. O segundo em que minhas asas se abriram por debaixo da minha camiseta, dois dos Terriers se giraram, cheirando o ar. Chiaram estridentemente, um cruzamento entre um pássaro sendo estrangulado e um lince, e se dirigiram diretamente a mim. — Jasmine! — Rugiu Dez, chutando o chão. Tinha percorrido a metade do caminho no ar quando o Terrier restante o interceptou. Agarrando-o, eles se chocaram contra o chão, o impacto devorando vários metros de terra ao longo da estrada. Muito tarde para reconsiderar o ato de sair do carro, me agachei e me lancei no ar, colocando minhas asas para trás. Eu era rápida, mas estas coisas voavam muito mais rápido, suas mãos estendidas a centímetros de mim. Meu estômago e meu peito se encolheu quando atravessei o ar, alcançando o ponto mais alto da árvore mais próxima. Agarrei o galho mais grosso, arranquei e a bati ao redor. O toque do Terrier mais próximo acariciou minha pele quando bati o galho com toda a força que eu possuía.

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O galho cortou através da cabeça larga do Terrier. Brotou um liquido negro e os dois olhos ficaram brancos quando caiu a terra, com o crânio destroçado. Uma coluna de fumaça negra se elevou enquanto batia a vara contra o outro Terrier. Tendo visto como seu companheiro foi jogado, ele se lançou fora do meu alcance e logo se arqueou no céu. Movendo-se incrivelmente rápido, ele arrancou a ponta do galho e o arrancou de minhas mãos, jogando-o a um lado. — Merda — murmurei, voando para trás e logo me jogando para baixo. O cabelo se apartou do meu rosto e logo caiu para frente quando aterrissei no solo de cócoras. Levantei e me desequilibrei, dando um passo atrás. As garras do Terrier prenderam a parte da frente da minha camiseta, rasgando a tela através do meu estômago e roçando minha pele. Estalou outra fumaça negra, sinalizando o fim do Terrier que estava lutando com Dez. Girou, e seus olhos estavam da cor de piscinas azuis elétricas. Terra e rochas voaram pelo ar quando deu um salto e pegou o último Terrier por trás. Um rápido giro de seus braços quebrou o pescoço da criatura. Ele jogou a substancia negra viscosa de suas mãos enquanto me imobilizava com seu olhar escuro. Uh-oh. Antes que o último resquício de fumaça negra com fedor podre se evaporasse, Dez estava a minha frente, suas grandes mãos se deslizando debaixo da dobra da minha camiseta rasgada. — Você está bem? — demandou. Suas cálidas palmas tocaram meu abdômen, me surpreendendo. — Jasmine. Com o coração desbocado, eu agarrei seus braços. — Estou bem. Não me cortou, mas você... — Te disse para ficar no carro! — Ele retirou suas mãos, mas logo agarrou meus ombros. As pupilas de seus olhos se dilataram. — No que você estava pensando? — Você estava superado em números. — Me soltei de seu aperto e voltei para minha forma humana. O resíduo da adrenalina era um sabor amargo na parte de trás da minha garganta. — Eu não podia olhar e não fazer nada, mas sua perna... Minhas palavras terminaram em um gritinho quando ele me pegou nos braços, me sustentando contra seu peito quente e nu. Sua mão se fechou na massa

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do meu cabelo emaranhado enquanto suas asas se curvaram para cima, me aproximando dele. Fiquei rígida ao senti-lo tão quente e vivo. Quando ele me segurou a noite, seu abraço dispersou todos os meus sentidos, mas não foi nada comparado a isso. Dez tremeu. — Quando te vi sair do carro, meu maldito coração parou. Músculo a músculo, eu relaxei em seu abraço, permitindo que minha bochecha se repousasse contra seu peito. Eu podia sentir as batidas de seu coração. — Eu não podia simplesmente me sentar e olhar outra vez. — Outra vez? — e logo seus poderosos braços se apertaram ao meu redor. — Sua mãe? Isso foi diferente — disse, silenciosamente, afundando seu queixo. — Eu podia ter derrotado mais cinco Terriers, Jas. Fechando meus olhos, eu não respondi a isso. — Não tinha nada que pudesse ter feito para ajudar a sua mãe. Você sabe disso, não? — Sim — disse, minha voz apagada. Não se esperava que as fêmeas se defendessem a si mesmas, muito menos lutar, uma ideologia com a que Danika e eu estávamos totalmente em desacordo. Se nossa mãe tivesse sido treinada, talvez pudesse ter escapado do ataque com vida. Ele me segurou por um segundo mais e logo me deixou ir, dando um passo atrás. Quando abri os olhos, ele estava em sua pele humana. Eu já tinha visto muitos machos correndo sem camisa, mas por alguma razão, ver Dez nesse estado me fez sentir como se eu nunca tivesse visto o abdômen de um macho. Seu peito era duro e seu ventre firmemente definido. Era grande, mas seus músculos não eram volumosos. Suas calças caiam perigosamente muito baixas, revelando curvas curiosas ao lado de seus quadris. Ele tinha pequenos arranhões na pele de seu ventre e peito, velhas feridas que imaginei que deviam ter sido feitas para deixar uma cicatriz. De alguma forma, essas manchas não prejudicavam sua beleza masculina, mas a melhorava. Eu estava encarando. Forçando a levantar a vista, vi que estava sorrindo ligeiramente. Minhas bochechas se avermelharam. — Você não pode estar muito zangado por eu ter saído do carro. Ele arqueou uma sobrancelha. — Posso estar tão zangado quanto eu quiser.

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Neguei com a cabeça enquanto lutava para manter meus olhos em seu rosto. Agora eu sabia como se sentiam a maioria dos homens. Era muito trabalho. — Você me prometeu que caçaria um demônio comigo. Não posso ficar no carro enquanto fazemos isso. Os tendões se estiraram e os músculos sobressaíram quando ele cruzou os braços. Bom Deus... — Bem, tecnicamente isso conta como caçar um demônio, então... — Não, não conta. Não caçamos nada. Eles simplesmente apareceram do nada. — olhei por cima do ombro, para onde eles tinham aparecido. — Por que tantos? Seu olhar se voltou gelado quando o olhei. — Estão à procura da mansão. Sabem que existe um clã próximo e estão tentando encontrá-lo. Engasguei, horrorizada pela ideia dessas coisas descendendo a uma casa cheia de crianças. — Isso... isso é comum? Ele assentiu. — Mais comum do que se imagina. Eles simplesmente não costumam sair de dia. Estão ficando mais audazes. — Seu lábio se curvou em desgosto. — Temos que voltar. Tenho que reportar isso a Garrick imediatamente. Como é que eu nunca soube disso? Os demônios se aproximavam tanto de nossa casa com regularidade? Quanto eu não sabia? Atordoada, me dirigi de volta ao carro. Dez dirigia dessa vez e eu estava muito bem com isso.

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Capítulo 06 Dez tinha ido direto a meu pai quando chegamos em casa, e eu direto na direção oposta. Tanto como quisesse escutar o que meu pai tinha a dizer sobre os Terriers saindo à luz do dia, eu não queria estar presente se Dez decidisse contar que eu tinha saído do carro. Se Dez lhe dissesse isso, existia uma boa possibilidade de que meu pai pusesse um basta em minhas condições. Eu andei pelo quarto, incapaz de me sentar por mais de um minuto. Foi assim desde o jantar. Eu não vi meu pai nem Dez desde então. Deitada na minha cama, Danika estava... o que ela estava fazendo mesmo? De costas contra o colchão, seus braços planos a seu lado, juntava seus músculos pressionando-os e levantando as pernas retas no ar, permanecendo com o ventre a centímetros do colchão. Depois de uns segundos, mexia as pernas para cima por uns trinta centímetros. Logo depois repetia o processo.

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— Deus, precisamos de passatempos. — murmurei Ela riu. — Eu estou trabalhando meus músculos do estômago. — Como eu disse, precisamos de hobbies. Deixando cair às pernas, ela se sentou. Duas grossas tranças caíram em seus ombros. — Ao menos estou sendo produtiva. Você só fica caminhando de um lado para outro. Mostrei-lhe a língua, e comecei a andar novamente. Um sorriso brilhante apareceu no seu rosto. — Então, qual será a próxima condição? Eu tinha contado a Danika tudo o que aconteceu hoje e minhas condições, com a exceção de tomar banho nua, porque eu não tinha certeza se falei isso a sério. — Se Dez contar a papai que eu estava com ele, não haverá mais nenhuma condição. — Ele é suficientemente inteligente para ficar calado. — Ela enrolou a ponta de uma trança. — E papai vai te deixar sair com ele. Sempre quis que Dez e você se tornassem um casal. Estou com tanta inveja. Você vai viajar enquanto eu ficarei presa aqui querendo arrancar meus olhos. — Não sei — sussurrei. Refletindo, eu não conseguia imaginar meu pai estando bem comigo viajando por todo o trajeto até Washington sem um pequeno exército. Danika remexeu sua bolsa, suspirando. — Você vai ver Zane. Eu te odeio. — Você tem uma paixonite por ele. — Sim — admitiu sem pena. — Espero que ele nos visite de novo com o pai. Isso faria meu ano. Sorri. — Não é preciso muito para fazer seu ano. Bufou. — Verdade. Zayne tinha dezessete, a idade de Danika, e era extraordinariamente atrativo, mesmo para um Guardião. Danika não tinha feito nada para tentar esconder sua atração quando se tratava do Guardião loiro, sempre seguindo-o como eu fiz com Dez por muitos anos, e Zane sempre foi amável com Danika. Se ela o irritava, ele nunca demonstrou. Seu pai era o chefe do clã de Washington, e existiam rumores de que em sua casa existia um garoto que era tanto um Guardião

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quanto um demônio. Eu não acreditava. Nenhum clã manteria tal... atrocidade entre eles. — Então, você o beijou? — perguntou Danika interrompendo meus pensamentos. — O que? — minhas bochechas queimaram. — Não. Danika riu. — Então sua condição não terminou ainda. Abri a boca e logo a fechei. Dez não tinha cumprido sua parte da condição, mas lutar com os Terriers não contava. Não estávamos caçando demônios quando eles nos encontraram. — Parecia que você estava gostando quando ele te beijou a noite — apontou. — Brilhante ideia a sua de usar os sete dias como uma oportunidade para sair de casa, mas você não vai negá-lo no final. Meus olhos cruzaram com os dela. — Não estou dizendo que sim. — Você é quem sabe. — rodou os olhos. — Está com raiva. Entendo totalmente, e tem toda a razão para estar, mas você não viu nenhum garoto desde que ele foi embora e você definitivamente estava olhando Dez. — Quem não olharia Dez? Ela sorriu e seus olhos se moveram para minha porta ante o som de uma garganta ser limpada. Oh não. Torci meu nariz e Danika riu. Dez, articulei. Ela deslizou para fora da cama e essa era uma resposta suficiente. Enquanto ela saia do quarto, eu girei. Dez ficou na entrada, de braços cruzados sobre seu peito, parecendo muito satisfeito consigo mesmo. Danika lhe deu um oi rápido com a mão enquanto saia do quarto. Ele assentiu com a cabeça e logo entrou, fechando a porta atrás dele. Ele estava no meu quarto. Outra vez. Ele esteve aqui muitas vezes, mas isso foi antes, e tudo era diferente agora. — Então... — alargou a palavra, queixo para baixo enquanto parava próximo a escrivaninha que estava cheia de revistas e mapas. — Quem não me olharia? Meus lábios se apertaram. — Existe alguma razão você para estar aqui? — Sim. Esperei.

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E logo esperei mais. — Em qualquer momento. O olhar de Dez se moveu desde a minha cabeça até a ponta de meus pés de cor neon. — Gosto do que você está vestindo. Franzindo o cenho, olhei para baixo. Eu vestia uma camisola coberta por um casaco e uma calça horrorosa de dormir que Danika me deu de aniversário. Era estampada com vários ursinhos Teddy. Não era a melhor opção de moda. — Me dá vontade de me enroscar — murmurou. — E isso me tira totalmente do humor — respondi raivosamente. — Mentira — Ele deu um rápido sorriso enquanto se aproximava, agarrando a borda do meu casaco. — É fofo. Sentindo-me como se tivesse perdido a habilidade de me comunicar, dei um passo para trás. Ele ficou assim por um segundo e logo me deixou ir. Abracei-me, imaginando que ele não ia embora logo, e não sabia se era isso que eu queria. Sentei na cadeira da escrivaninha. — Vai caçar com o clã hoje? Assentiu. — Vou daqui uma hora. Abaixei o olhar. — Você vai à cidade? — Sim. Está preocupada por mim? — É uma pergunta estúpida. Claro que estou preocupada. — as cidades eram especificamente perigosas. Quanto mais povoadas eram, mais demônios as tinham como objetivo. — Então você não deveria estar descansando? Passou todo o dia comigo. — Quero passar este tempo contigo antes de ir, está bem? Levantei o olhar rapidamente. — Sim. — Eu disse rapidamente, talvez rapidamente demais, mas não podia voltar trás. Respirei profundamente. — Fique. — Obrigada. — Ele caminhou até onde eu estava sentada e passou seus dedos pelo contorno da minha cadeira. Um destelho malévolo apareceu em seus olhos. — Segure em mim. Sem ter ideia do que ele ia fazer, eu me agarrei a seus braços. Encontrando meus olhos, ele riu e começou a arrastar a cadeira pelo chão. Era tonto, mas um sorriso se estendeu pelos meus lábios. Dez se sentou na beirada da minha cama e logo me colocou entre suas pernas. Meus joelhos pressionaram a parte interior de suas coxas. — Ah, muito melhor.

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— Sabe, você podia apenas ter se sentado ao meu lado. — Isso não teria sido tão divertido. — Ele agarrou meus joelhos com as mãos. Meu olhar caiu onde seus dedos descansavam perto de minhas pernas nuas. — Como... como está sua perna? — Já sarou. Eu disse que não era nada para se preocupar. — parou. — Falei com seu pai. Me encolhi. — Você falou que eu estava com você? — Não. Devia ter falado, mas não falei. — Dez se inclinou lentamente. — Falei sobre suas condições. Meus olhos se abriram. — Inclusive a de tomar banho nua? Dez riu audivelmente. — Mantive esse pequeno detalhe para mim, mas disse que tinha algo que precisávamos fazer, que eu te devia. Me devia. O que eu podia dizer ante isso? Passei meu rabo de cavalo sobre meu ombro, enrolando as pontas. — O que ele disse? — Não ficou muito feliz e listou cada detalhe, todas as razões pelas quais viajar a Washington não era seguro, mas no final cedeu. — Sério? Um lado de seus lábios se curvou para cima. — Só depois de prometer me rasgar de ponta a ponta se algo ruim acontecer com você. Eu sorri extensamente. Ele franziu o cenho. — Espero que você esteja sorrindo porque seu pai concordou e não por causa da parte de me rasgar todo. — Definitivamente porque concordou. — Ri, soltando meu cabelo e batendo com ele no braço de Dez. — E talvez um pouco pela parte de te rasgar ao meio. Ele pegou minha mão. — Isso não é legal. Dei-lhe um sorriso descarado. — Desculpa? — E não acredito que essa seja uma desculpa verdadeira — inclinou a cabeça para um lado tontamente e manteve meu braço entre nós. — Seu pai é muito assustador. Eu coloquei meus braços, pernas e bolas em... — Oh por Deus — ri. — Informação desnecessária, Dez. — Olha, você só precisa saber o que está em risco. — Ele puxou meu braço, me aproximando. — Tenho o pressentimento de que vou precisar das minhas...

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Lancei minha outra mão, mas ele também a pegou. — Você definitivamente não vai precisar delas tão cedo. — Discordo totalmente. — um olhar brincalhão brilhou em seus olhos um segundo antes de ele me tirar da cadeira e me levantar para o seu colo. Ele me envolveu seus braços ao redor da minha cintura enquanto eu tentava me levantar. — Jas — disse com voz baixa. — Você deveria parar de se retorcer. — logo ele fez uma pausa. — Ou não. Estou bem com isso, honestamente. Congelei, as mãos plantadas em meus ombros. Calor cresceu em meu rosto. — Você é terrível. — Sou muitas coisas agora. — Ele abaixou sua cabeça e inalou profundamente. — Aposto que você pode dar conta de uma ou duas dessas coisas. Minha boca secou, e não me atrevi a mexer. Oh, coisas ruins era o que ele queria, e saber disso fez com que minha pele se esticasse muito. — Como você pode ter ido por tanto tempo e agir como se não tivesse ido? Como se tudo fosse igual ao que era antes entre a gente? — Como não poderia? — disse, e logo negou com a cabeça um pouco. — Essa resposta provavelmente não tem sentido para você. — Não tem. Ele sorriu ligeiramente enquanto passava a mão para cima e para baixo em meu braço. — Quando seu pai anunciou que queria que nos emparelhássemos, eu fiquei tão feliz, Jas. Tão feliz que rapidamente desapareceu por três anos? Mantive os lábios fechados, calada. Sua mão deslizou para cima, mas dessa vez moveu minha cabeça para seu ombro e falou: — Você era muito jovem na época, mas eu... bem, sabia que queria isso também. — Você tem uma forma estranha de demonstrar — murmurei, mas ao contrário de minhas palavras, relaxei em seu abraço. — Eu sei. Estraguei tudo quando fui embora. — sua outra mão se estabeleceu na minha. Lentamente, ele levantou minha mão e enrolou seus dedos nos meus, apertando amavelmente. — Eu tinha que ter te dito algo e não o fiz. Não posso mudar isso.

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Eu queria perguntar o porquê de ele não ter me dito nada, mas Dez sempre foi evasivo, mesmo quando era mais jovem, então tomei um caminho diferente. — Aonde você foi? Dez se moveu, me sentando no seu colo de maneira que minhas pernas ficassem penduradas nas suas. — A muitos lugares. — Tipo? Seu peito roçou contra meu braço. — Fui ao sul, a Florida e ao Texas, mais acima ao meio oeste e finalmente a Califórnia. O significado da última localização não me passou por alto. — Você foi para casa? Ele hesitou e depois disse: — Sim. A dor aguda atingiu meu peito. — Você foi para casa? — Continua ali, mas foi... derrubada — ele disse e levantou o olhar. Seu olhar estava fixo na escuridão lá fora na janela do meu quarto. — O lugar é só uma casca queimada. Eu sequer pude ir ao segundo andar. Meu pai tinha me contado o que aconteceu ao clã de Dez. Demônios tinham incendiado sua casa depois do ataque, dando a Dez por morto. Foi um milagre ele sair com vida. Ele nunca devia ter voltado ali sozinho. — As cidades afora de West estavam cheias de demônios, então os cacei. Ele continuou, me contando sobre as cidades nas quais esteve, mas nunca, nem uma só vez me disse por que se foi. Eu não tinha certeza se alguma vez ele estaria disposto a compartilhar essa informação. E enquanto sabia que um dia poderia perdoá-lo por ter ido embora, também sabia que nunca esqueceria disso e não tinha certeza se tampouco era algo que de verdade poderíamos superar. Por essa razão, eu não podia aceitar essa reclamação. Se aceitasse, nossa relação se converteria em uma coisa triste e amarga. Mas eu não podia negar a razão de estar em seus braços. Eu não era suficientemente tonta para crer em almas gêmeas ou alguma dessas coisas infantis e sem sentido, mas sempre existiu algo tangível entre Dez e eu, e ainda depois de sua ausência, continuava lá, mais forte do que antes. — Eu poderia te segurar a vida inteira — disse tão baixo, tão rápido que eu não tive certeza de ter ouvido bem. — Mas tenho que ir. — suspirou, deslizando sua mão para baixo no meu braço. — Mas tem uma última coisa.

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Levantando minha cabeça, ele encontrou meu olhar. — O que? Seus cílios baixaram, ocultando a vibração repentina em seus olhos azuis. — Não completamos sua condição. Fiquei tensa. — Você está falando da sua condição. — Estou — sua mão se moveu do meu braço para meu rosto, e meu coração deu um salto, delatando o quão mal me preocupava por sua condição. — Só um beijo. Assentiu, sorrindo levemente. Um tremor me percorreu quando ele inclinou sua cabeça e seus lábios roçaram minha testa, logo seguindo a curva da minha bochecha. — Isso não é um beijo — sussurrei. — Sim, é sim. Ainda com minha limitada experiência, eu sabia melhor. — Não, não é. — É o princípio de um beijo — explicou estendendo sua mão para minha nuca. — O princípio? — fechei meus olhos, apertando-os enquanto minha antecipação subiu, apesar da resolução de negá-lo ao final dos sete dias. Seus lábios pressionaram baixo minha mandíbula, em uma pequena e quente marca. Ele moveu para um canto dos meus lábios e logo para o outro. O ar se cortou em minha garganta enquanto inclinava sua boca contra a minha, me beijando suavemente. Era um doce e terno beijo, um pouco mais que um roçar de seus lábios. Ainda assim. O contato enviou uma onda de fogo por minhas veias, e logo o beijo se aprofundou, como aconteceu quando ele retornou. A pressão de sua boca aumentou e vacilou sua língua ao redor dos meus lábios, me fazendo arfar. Ele foi rápido em tomar vantagem da abertura, me beijando de uma forma em que eu só tinha sonhado desde então. Sua língua se deslizou sobre a minha pacientemente, me provocando; uma lenta sedução que demandava resposta. Um leve som se elevou na minha garganta e o beijo o prendeu, mas de alguma maneira ele sentiu. A mão de Dez se moveu do meu pescoço para minha cintura, me prendendo até que eu estivesse completamente contra seu peito. Eu queria estar mais próxima, mas devido à posição, era impossível. O beijo durou até que ele retrocedeu, mordendo meu lábio inferior.

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Balancei quando ele se afastou – balancei como um maldito cervo em uma nevada – e provavelmente teria caído de seu colo se ele não tivesse apertado seus braços ao meu redor. O orgulho masculino em sua cara era tão evidente quando abri os olhos que eu quis pegar algo pesado e bater em sua cabeça. — Nem fale. — adverti, ruborizando. — O que? — um exasperante meio sorriso apareceu em seus lábios. — Eu não ia falar nada.

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Capítulo 07 A lembrança de seu beijo permaneceu em meus lábios muito tempo depois que ele se foi, permaneceu ali o dia seguinte inteiro também. Eu não tinha ideia de que um beijo pudesse ter esse tipo de poder, e talvez não fosse comum, mas com Dez, seu beijo ficou no fundo da minha mente, me distraindo completamente. Passei a maior parte da manhã pretendendo aprender a arte de curar com ervas fedidas antes de me render. Já que minha educação em casa terminou, Claudia agora estava tentando compartilhar o que ela acreditava ser mais importante para minha educação. As outras garotas da minha idade estavam indo para a universidade. Eu estava aprendendo a diferença entre hamamelis e tomilho de limão.

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Andando sem rumo, me encontrei fora do quarto no qual Dez estava ficando, o mesmo lugar no terceiro andar, o mesmo quarto que ele usava antes de ir embora. Ele ainda estava descansando e eu sabia que não deveria entrar, mas uma inquietude familiar me invadiu e quando isso acontecia, eu ficava propensa a fazer coisas inapropriadas e até estúpidas. Limpando minhas palmas contra meus jeans, tentei a porta. Estava destrancada. Respirei fundo e empurrei para abrir. Cortinas pesadas sobre as janelas enchiam seu quarto de escuridão, mas meus olhos se adaptaram rapidamente. Meu olhar caiu sobre a cama primeiro, vazia como eu já suspeitava. Podíamos descansar de duas maneiras – em nossas formas humanas ou sepultadas. A maioria dormia como todos os demais no mundo, em uma agradável e cômoda cama, mas aqueles que caçavam necessitavam do profundo sono reparador e costumavam tomar a forma daqueles que tinham inspirado centenas e milhares de estatuas. Girei e o vi no canto do quarto. Silenciosamente, me aproximei dele, envolto de uma maneira que fez minha pele arrepiar. Suas asas estavam coladas a seu lado, suas pontas quase roçando o chão. Os chifres em elegantes arcos e grossos, com as bordas mortalmente afiadas. Sua cabeça estava abaixada e seus braços dobrados para dentro, suas mãos fechadas sobre sua pélvis. Na escuridão, o cinza de sua pele era pálido, mas na luz, eu sabia que teria um suave brilho. Sua figura não se movia, nem sequer seu peito subia com respiração. Eu não gostava de dormir assim, e sem ter uma razão real para fazêlo, não era algo no qual eu me comprometia. O sonho... era muito próximo a estar morto. Honestamente, eu não sabia o que fazer depois. Mordendo meu lábio, me estiquei e toquei seu braço. A pele era suave e quente, completamente firme. Movi minha mão por seu braço, seguindo seus grossos músculos. Minha mão vagou com vontade própria parando em seu peito. Em baixo da minha palma, seu coração batia – bum, bum - bum, bum. Levantando minha mão, passei meus dedos pela curva de sua mandíbula, tocando-o de uma maneira que não eu me atreveria se ele estivesse acordado.

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Sentia-me como uma assediadora, mas estava muito fascinada ao senti-lo para parar. Meus dedos passaram por seu lábio inferior enquanto levantava meu olhar. Dois olhos cor safira polida me devolveram o olhar diretamente. Oh. Meu. Deus. Sua boca se abriu e mordeu a ponta do meu dedo e só a pressão foi suficiente para me fazer arfar. Afastei-me com um salto pela repentina inundação de calor em minhas veias, curvando minha mão em meu peito. — Eu estava... — realmente não tinha desculpa pelo que estava fazendo. A risada engasgada de Dez foi profunda e rouca, estremeci, me afastando outro passo. Ele se endireitou e levantou os braços, as asas se abrindo enquanto suas costas se dobravam. Pedra e ossos estalaram. A capa exterior brilhou vermelha e logo voltou a desvanecer em sua pele enquanto voltava a sua forma humana. Pele nua dourada se estendia lentamente enquanto abaixava seus braços. Meu olhar se moveu para baixo. Ele estava nu e estava... — Oh meu Deus! — Girei, apertando meus olhos fechados. Todo o meu rosto ardia, como eu não tinha notado isso antes? A risada de Dez fez meu corpo esquentar com força. — Oh, vamos, não é como se você nunca tivesse me visto nu antes. — Quando você tinha, tipo, dez anos, e foi um acidente! — apertei minhas mãos sobre minhas bochechas. — E não era tão... — Tão o que? — seu hálito quente acariciou minha nuca. — Nada! — aff, eu nunca seria capaz de tirar a imagem da minha cabeça. Não tinha certeza se queria, mas ainda sim... — Pode virar agora. — A risada dançava em sua voz. — Estou vestido. Poderia estar um pouco decepcionada enquanto o olhava de canto de olho. Ele vestiu calça para exercício, mas ainda assim estava frouxa e eu me perguntava quanto tempo permaneceria ao redor de seu quadril. Ele separou as cortinas do quarto e a luz entrou depressa, iluminando o quarto. — Desculpa — disse. — Não pretendia te acordar. — Aconteceu algo? — perguntou, caminhando de volta a mim. Bocejou quando sacudi a cabeça. — Então você só queria me ver?

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Eu não disse nada. Ele sorriu amplamente. — e me sentir. Me encolhi. — Você nunca vai me deixar superar isso, não? — Nunca. — Ele se esticou e puxou a ponta do meu cabelo com rabo de cavalo. — Não se preocupe. Eu adorei. — Bom saber — murmurei. — Me deixe tomar um banho e iremos ao shopping hoje, ok? Juntei minhas mãos para evitar aplaudir. — Tente não soar tão emocionado por isso. Ele riu. — É um centro comercial. Talvez se fossemos fazer aquilo de tomar banho nu hoje, eu estivesse emocionado. Correção, estaria muito mais emocionado. Eu queria me bater por insinuar essa condição. — Sabe, eu provavelmente poderia pensar em algo mais importante para fazer, como... — Oh não, sem voltar atrás. — Ele piscou um olho. — Não pode fazer mudanças agora. Já começamos, e eu conheço o lugar perfeito para tomar banho nu. E honestamente, estou contando cada segundo até lá. Minhas bochechas se avermelharam. — Odeio você. — Não, não odeia. — Vai tomar banho, vai. — Já vou. — Então vai. — Estou tentando, mas você continua falando e parecendo tão malditamente adorável. — Deixarei de falar ou parecer bonita — disse, lutando contra um sorriso — Vai. Ele sorriu amplamente. — Eu disse adorável. — Vai! — Indo. Prometo. Agora mesmo. Enquanto passava junto a mim, ele se lançou como uma maldita ave de rapina. Dez me beijou antes que eu me desse conta do que estava a ponto de fazer. Seus lábios estavam nos meus, quentes e firmes. O beijo foi rápido, nada como o

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da noite passada, e então ele estava indo, entrando no banheiro, e eu estava ali de pé, sentindo o toque de seus lábios durante minutos intermináveis. *** Minha mente estava a milhares de lugares enquanto arrumava minha mala para nossa viagem, em parte presa a minha condição de centro comercial, as quais tinham cumprido ontem. Dez e eu tínhamos... tínhamos passado o dia muito bem. Não tínhamos falado sobre o passado e nossas conversas não foram serias enquanto eu o forçava a ir de loja em loja. Ele demonstrou uma extraordinária paciência enquanto eu provava as roupas e classificava cem velas com aroma, escolhendo a perfeita para Danika. Foi difícil não olhar para ele sem ruborizar depois de tudo o que vi no seu quarto e também foi difícil não notar o quanto as garotas humanas o olhavam. Fazia girar as cabeças de jovens e mais velhas a cada loja que entravamos. E foi malditamente próximo ao impossível não querer bater nas garotas na praça de alimentação e não arrancar seus braços. Terminamos nosso passeio em uma pequena sorveteria da cidade, e enquanto caminhávamos para o carro, Dez tinha cumprido sua condição. Quando me beijou, tinha sabor de chocolate e homem, um sabor embriagador que nublava a mente. Ele também ficou comigo até ir caçar com o resto do Clã, não falamos sobre nada importante enquanto pretendíamos ver um filme. Ninguém nos perturbou ainda sobre eu estar no seu quarto. Acabei dormindo antes da hora de Dez ir e acordei antes de ele retornar, então voltei para o meu quarto antes de fazer algo estúpido, como esperá-lo em sua cama. Foi difícil ir. Seu cheiro estava em todas as partes. E agora eu estava me preparando para deixar minha casa pela primeira vez. Eu nunca estive em outro lugar, e já tinha arrumado e desarrumado a mala três vezes. Porque eu achava que precisaria de duas opções de vestuário por dia? Enquanto estávamos no shopping no dia anterior, Dez tinha anunciado que iríamos viajar na tarde seguinte. A emoção vibrava em minhas veias com a expectativa de tudo o que eu iria ver.

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Danika estava sentada na minha mala enquanto a fechava e logo pulou. — Quero presentes. Algo clichê. Tipo uma camiseta autentica de I Love New York City. — Ok. — sorri enquanto tirava a minha mala da cama. Soou no chão quando a baixei. — E WASHINGTON? — Uma foto de Zayne nu? — perguntou. Ri, sacudindo minha cabeça. — E como você espera que eu faça isso? Encolheu os ombros. — Ele tem que tomar banho em algum momento, não? — Tenho certeza de que toma, mas tenho um pequeno problema com Jasmine tirando uma fotografia de um homem nu. Ambas nos giramos com o som da voz de Dez. Ele estava de pé na entrada, seu cabelo molhado e um sorriso no rosto. Ruborizei, mas Danika o olhou impertinente. — Mas o fará por mim — fundamentou. — Não é como se ela estivesse olhando para os bens dele. Tudo no que eu podia pensar eram nos bens de Dez. As sobrancelhas de Dez se elevaram. — Nenhuma porcaria de outro homem vai estar exposta para que ela tire fotos. — E as suas porcarias? — Espera, o que? — voltei à conversa com atraso. — Podemos não falar das porcarias de outras pessoas? Ele sorriu enquanto seu olhar se encontrava com o meu, e eu soube que ele estava pensando o mesmo que eu. Girei antes de que minhas bochechas queimassem em meu rosto, e minha irmã me desse um pontapé. Ele me abraçou tão forte que eu soltei um grito. — Vou sentir saudades — gritou com a cabeça enterrada em meu ombro. — Mas divirta-se. E seja cuidadosa, promete? — Prometo. — pisquei afastando as lágrimas repentinas. Desde que Danika nasceu, nós não havíamos nos separado mais que algumas horas. Danika se afastou um passo, seu sorriso inseguro. Abaixou seu queixo enquanto Dez entrava no quarto e pegava minha mala. Juntas o seguimos para o térreo. Escutamos duas crianças pequenas da cozinha, Claudia levantou o olhar com um sorriso cansado enquanto passávamos. Uma das crianças estava em sua

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pele verdadeira, o outro só tinha transformado uma asa. Parei, observando enquanto o pequeno saltava, tomava ar com sua única asa e logo aterrissava um segundo depois, rindo a gargalhadas altas. — Crianças são aterrorizantes. — Não sei. — sorri. — São lindos. Nosso pai esperava dentro do vestíbulo. Enquanto Dez desaparecia para fora com minha mala. Ele sorriu, e notei quão profundamente sua pele se enrugava ao redor de seus olhos. Parecia cansado, mas feliz. Ele colocou suas mãos em meus ombros, soltando um longo suspiro. — Me diga que estou tomando a decisão certa ao te deixar viajar sozinha com ele. — Está sim. — Um nó se moveu em minha garganta. Eu tinha vontade de sair de casa, mas uma parte de mim não estava preparada para deixar minha família, ainda que por pouco tempo. — Ficarei bem. — Sei que ficará — suspirou novamente. — Confio em Dez. É um bom Guardião e sei que não deixará que nada ruim aconteça a você. Se preocupa com você profundamente, sempre foi assim. Olhei as portas de aço abertas, observando Dez fechar a porta de trás da SUV. — Me responda uma pergunta, meu anjo. Meu olhar se voltou para o de meu pai. — Sim? — Você ainda tem sentimentos por ele? — perguntou. Comecei a responder, mas parei. Tudo sobre Dez era complicado, e o que eu sentia por ele ainda mais. Havia uma feia e desordenada bola de dor que se instalou logo que ele se foi, mas só pensar nele fazia com que meu coração saltasse e meu estômago desse uma volta. — Tenho, mas... — Mas se acabaram? Não respondi, mas ele sabia. Papai esteve ali durante os piores momentos. Os dias e as semanas que seguiram a inesperada partida de Dez. Quantas vezes eu perguntei por que a papai? Nunca obtive resposta. Meu pai me atraiu a um abraço rápido que foi muito bom, como um fio terra. Eu sentiria saudades dele, da minha irmã e de meu Clã, mas enquanto eu me afastava, sabia que essa era uma oportunidade que aparecia uma vez na vida.

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Ele sorriu enquanto dava batidinhas na minha bochecha. — Seja boa com ele. Ao princípio, pensei que essa era uma coisa estranha para dizer, mas então suspeita se levantou. — Você sabe por que ele foi embora? Meu pai assentiu. — Sei, Jasmine, mas não é minha história para contar. Nunca foi.

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Capítulo 08 Às duas horas no carro pela interestadual 87 foram maravilhosamente sem complicações e também muito lindas. As colinas eram de um verde exuberante, as arvores grossas e antigas, mas o deserto quase primitivo deu lugar gradualmente aos grandes edifícios no lugar das árvores altas à medida que nos aproximávamos da cidade. Meu rosto estava praticamente colado na janela durante o tempo todo, absorvendo o que eu via. — Você nunca esteve tão ao sul? — perguntou Dez, e lhe dei uma olhadela. Ele estava com uma mão no volante e a outra na coxa. Neguei com a cabeça.

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Ele sorriu enquanto me dava um olhar de canto de olho. — Você costumava escapar quando eu estava por perto. Tenho certeza de que não deixou de fazer isso. — Escapei uma vez... ou duas depois. — Ante seu olhar irônico, eu sorri. — Mas nunca ao sul. Sempre fui ao norte. Não queria... — Que pegassem você? — ele riu da minha expressão de inocência. — Isso foi inteligente. Provavelmente teriam te visto, se você tivesse vindo ao sul. Dirigir para a cidade levava um pouco mais de três horas, mas levava menos de trinta minutos para um de nós voando. Se eu tivesse me atrevido a me aventurar ao sul por curiosidade, teriam me pegado, devido a todos os Guardiões que cobriam a cidade, e eu não ficaria surpresa se meu pai me encarcerasse. Não passou muito tempo antes da última colina desaparecer e a cidade de New York aparecer ao longe. Inclinei-me para frente, agarrando o painel. — Uau. — É lindo, não? Concordei enquanto meus olhos se arregalavam como pratos. A cidade criava seu próprio horizonte, uma elegante franja de edifícios contra a tela de céu azul ao fundo, alguns altos o suficiente que pareciam ter sua própria escada para o céu. Eu quase podia imaginar como seria a noite, toda iluminada, deslumbrante e surpreendente. Meu coração batia no meu peito ante a vertiginosa realização de poder ver com meus próprios olhos. O trânsito se reduziu à medida que cruzamos uma das longas pontes, e só então senti o olhar de Dez em mim. Olhei para ele. — O que? Ele não disse nada enquanto pegava minha mão e a levava a sua boca. Ele plantou um beijo contra a palma da minha mão, e meu coração deu um salto, e depois uma cambalhota. Comecei a perguntar por que ele fez isso, mas me dei conta de que a pergunta era dessas que arruinavam o momento e era um momento muito agradável. Em vez disso, eu sorri. Levou uma quantidade absurda de tempo para chegar à cidade, até o ponto onde os edifícios eram tão altos e tão cheios de gente que bloqueavam a maior parte do sol e era como se ruas estivessem nas sombras.

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Dez estacionou a caminhonete em uma garagem grande na parte de trás, meus olhos se precipitando sobre a linha interminável de carros situados em suas vagas de estacionamento. Muito rondava pela minha cabeça enquanto eu seguia atrás dele, no térreo de um dos altos edifícios pelos quais passamos. Não havia muito que eu soubesse sobre os planos de Dez para a viagem. Sem importar como eu estava zangada e exigia detalhes, ele não me dizia nada, mas considerando que ele estava levando nossa bagagem para o interior do prédio, significava que teríamos que nos hospedar ali. Eu apenas pude conter o grito, já que estava preocupada de que tivéssemos que dirigir pela cidade. Eu queria aproveitar isso. Uma mulher jovem atrás do balcão levantou o olhar quando eu e Dez nos aproximamos. Ela piscou duas vezes e logo passou uma mão no cabelo já penteado polidamente. Seu olhar se moveu a mim uma vez e logo se concentrou novamente em Dez, como se eu não existisse. Cruzei os braços. — Em que posso ajudar? — perguntou ela, sorrindo para Dez como se ele fosse o seu próprio sol particular. Dez se apoiou no balcão, um lado de sua boca se curvando para cima. Virei os olhos. — Temos uma reserva. Temos? Enquanto Dez se encarregava do check-in, notei que ele mencionou só um quarto, mas estava muito fascinada por tudo o que me rodeava para fazer disso um problema. Tão lamentavelmente como soava, eu nunca estive em um hotel antes, e muito menos um tão moderno quanto este. A iluminação era escura e misteriosa. A música de rock emanava de altofalantes invisíveis. Sofás negros e vermelhos se alinhavam às paredes, no chão e a altura das mesas. Um bar separava o salão do restaurante. Todo o pessoal. Homens e mulheres vestiam negro e pareciam como se tivessem acabado de sair de uma passarela. Olhei para minha camiseta e jeans e levantei as sobrancelhas. Eu realmente não me encaixava. — Pronta? — perguntou Dez.

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Concordando, virei e descobri que a recepcionista o observava com nostalgia. Quem podia culpá-la? Não foi até que paramos no elevador que me ocorreu perguntar. — Onde está nossa bagagem? — Já levaram ao nosso quarto. — Ele colocou uma mão na base das minhas costas, me guiando para dentro do elevador cheio de espelhos. Uma vez dentro, fez um gesto com o cartão no ar enquanto sorria. — Seus olhos estão tão grandes que estão a ponto de saltar para fora do seu rosto. Ruborizei. — Desculpa. Provavelmente pareço uma idiota, mas... — Você não parece uma idiota — levantou a mão colocando uma mecha de cabelo atrás da minha orelha. O elevador se moveu sem problemas, soando entre os andares. — Sei que pareço como se nunca tivesse ido a lugar nenhum. — É fofo. — Ele passou o braço pelos meus ombros, fazendo com que encostasse nele. — Deixe de se preocupar com isso. Isso é para você. Divirta-se. Assegurando-me que eu não parecia uma perdedora, eu estava a ponto de estourar no momento que o elevador parou no vigésimo andar e as portas se abriram. Passamos à direita e seguimos o corredor curvo até que Dez parou em frente à porta de nosso quarto. Um nó se formou em meu ventre. Nosso quarto. Eu duvidava que Dez tivesse pedido duas camas. Dez abriu a porta depois de que a maçaneta mostrou um pequeno ponto verde. Alta tecnologia. O ar frio nos recebeu quando entramos. Ele se moveu para um lado, me deixando investigar. No pequeno corredor, encontrei um armário e uma porta que conduziam ao banheiro. Uma ducha separada, ampla o suficiente para caber duas pessoas, estava de um lado, e do outro havia uma grande banheira circular. Juntando minhas mãos, me movi e vi que um pouco mais além de um bar e um escritório estava à parte principal do quarto. Uma grande televisão estava fixa na parede vermelha... e do outro lado dela tinha uma cama. Grande o suficiente para quatro pessoas. Meu rosto se esquentou enquanto eu afastava o olhar. Fora uma pequena cadeira debaixo da televisão, não tinha outro lugar para que alguém pudesse dormir. Compartilharíamos a cama essa noite. Eu não ia pensar nisso agora.

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Apressei-me para as cortinas, e as abri. Santa merda. Inclinando-me para frente, pressionei minha testa contra o vidro enquanto abaixava o olhar para as ruas lotadas. — Gostou do quarto? — perguntou Dez. — Sim — disse em voz baixa, e logo mais forte. — Sim, gostei. — Supõe-se que é um dos hotéis mais bonitos da cidade, foi o que me disseram. — Sua voz estava mais próxima. — Pensei que podíamos ficar duas noites e irmos na manhã de quinta-feira. Isso nos dará tempo para realmente ver Manhattan e também nos dará tempo suficiente para ir a Washington. Nós só teremos um dia lá antes que os sete dias terminem, mas acredito que podemos ficar mais tempo se você quiser. Enquanto eu olhava pela janela, minha garganta se esforçava em engolir a emoção repentina que a estava obstruindo. Eu sabia que a maioria dos homens não tinham se metido nessa quantidade de problemas. Claro, tinham tentado me cortejar, mas satisfazer todas as minhas exigências e não brigar comigo no meu desejo de desfrutar da mais simples liberdade? Improvável. Mas Dez estava fazendo todas essas coisas. Eu tinha que dizer algo sobre isso, mas não tinha certeza de que palavras fariam justiça aos sentimentos que me atravessavam. Tive a sensação de que se eu tentasse dizer algo, arruinaria o momento de alguma maneira. — Jas? — a incerteza rodeava seu tom. Deixando cair às cortinas, dei a volta e me lancei a ele. Dez me abraçou pela cintura, tropeçando um passo para trás enquanto envolvia meus braços ao redor dele, apertando-o com força. — Obrigada. — Pelo que? — riu. Meu rosto estava enterrado em seu peito, assim que levantei a cabeça e repeti. — Obrigada. Ele me olhou. — De nada. Eu não acreditava que ele entendesse a profundidade da minha gratidão. Esticando-me, plantei um beijo em seu rosto. Eu sabia que não era muito, mas era algo, não? Quando me separei, ele me olhou como se estivesse louca. Logo ele me levantou e girou. — Eu teria trazido você aqui logo que retornei se soubesse que te faria tão feliz.

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Uma risada ficou parada na minha garganta, enquanto um aspecto diferente se filtrava em seus olhos. Sua tonalidade se iluminou, logo suas pálpebras se tornaram pesadas enquanto seus lábios se separavam. Pouco a pouco, ele me deixou deslizar para baixo, para que eu ficasse de pé, mas mesmo assim me segurou com um braço. Deslizou a mão sobre meu rosto, passando o polegar sobre meu lábio inferior. Cada nervo do meu corpo se concentrou no seu toque. Seu queixo abaixou, e pensei que ele ia me beijar. Meus olhos se fecharam e a antecipação aumentou com doçura. Mas o beijo nunca chegou. Ele me soltou, dando um passo para trás. — Bem, é melhor irmos andando se você quiser ver o máximo que puder. Uma pontada de decepção me surpreendeu, mas eu assenti. Provavelmente foi melhor assim. Porque eu queria que ele me beijasse, e não tinha nada a ver com qualquer uma das nossas condições.

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Capítulo 09 A primeira coisa que eu aprendi sobre a cidade de New York foi que haviam pessoas por todo o lado - nos elevadores, nas calçadas, nas ruas e dentro de todas as lojas. Eu nunca fiquei por perto de tantos de uma só vez, e enquanto eles sabiam que existiam Guardiões, nenhum deles parecia notar que erámos diferentes - pelo menos aqueles que não olhavam muito de perto nos nossos olhos. A cor era muito pálida para ser um humano, e na minha cidade pequena, todo mundo percebia. Mas não aqui. Todo mundo estava muito ocupado tentando chegar onde estavam indo, ou estavam fascinados com a cidade, tanto quanto eu estava.

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Eu não conseguia parar de olhar e sabia que tudo sobre mim gritava turista, mas as alturas dos edifícios e o grande número deles era realmente surpreendente. E então havia todos os sinais intermitentes e luzes brilhantes. — Com fome? — Dez perguntou. — Sim. — Eu coloquei uma mão na minha barriga. Nós tínhamos andado tantos quarteirões que eu tinha perdido a conta. — Você? — Sempre. Que tal uma autêntica pizza de New York? Um sorriso dividiu meus lábios. Outro quarteirão para baixo, ele avistou uma pizzaria bem no meio da Times Square. Fotos de todos os patronos famosos forravam as paredes, de atletas para os políticos. Nós esperamos na fila e pedimos, em seguida, encontramos uma mesa vazia atrás. Dez me observou enquanto eu mordia um pedaço da pizza e gemia. O gosto não era nada como a pizza lá em casa; o queijo, temperos e crosta. Ele levantou suas sobrancelhas castanhas escuras. — Nunca pare de comer, se vai fazer sons assim. Eu quase engasguei com minha fatia, corando. — Está gostoso! Ele riu. — Percebi. Sorrindo, eu o observei sob meus cílios. Para alguém tão grande, ele tinha hábitos alimentares tão delicados. Ele cortou cada fatia em pedaços pequenos, enquanto eu enfiava metade da coisa na minha boca e provavelmente ficava toda suja de molho. Claro, eu terminei antes dele, já que praticamente engoli a pizza. Enquanto ele saboreava cada mordida, usei o tempo para olhar as pessoas. Com os humanos, eu tendia a me sentir como se não tivesse conhecimento mundano, especialmente em um lugar como este, onde havia muitas pessoas, todos parecendo muito diferentes. Eu nem mesmo tive um amigo humano; o mais próximo que cheguei foi a senhora que trabalhou na sorveteria. Eu queria um, muito provavelmente como seres humanos queriam um filhote de cachorro, mas meu pai era cauteloso sobre ficar perto demais deles. Depois que saímos para investigar a Times Square e a Broadway, eu me lembrei do por que meu pai era tão cauteloso. Na frente da loja de um bonito restaurante italiano havia uma placa que corajosamente lia “GUARDIÕES NÃO SÃO BEM-VINDOS”. Por baixo disso foi rabiscado NÓS SERVIMOS APENAS AOS FILHOS DE DEUS.

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Respirei estridentemente, inquieta. Estes eram o tipo de pessoas que pensavam que éramos o diabo encarnado; o tipo que acreditava que éramos monstros, não importando o quão bem fazíamos. Tão protegida como eu e as outras mulheres eram, nós só ouvimos falar de tal intolerância, mas nunca visto na vida real. — Ei, — Dez disse, descendo entre nós e apertando a minha mão na sua. — Você está bem? Eu não percebi que tinha parado até agora. — Eu só não entendo. Seu olhar seguiu o meu. — Honestamente? Em uma cidade como esta, estou surpreso, mas é apenas um lugar em milhares. E não adianta nem tentar descobrir. São eles os que não entendem. Eles não sabem o que há por lá. Ele puxou minha mão. — Vem, há muito para ver. Deixei-o me puxar. — É só... Parei novamente quando um formigamento frio e afiado explodiu entre minhas omoplatas. Virei antes que Dez falasse qualquer coisa, sentindo um demônio nas proximidades. Meu olhar procurou entre as multidões de seres humanos, procurando de um lado para o outro na calçada cheia. O demônio tinha saído do restaurante, o que supostamente servia apenas "Filhos de Deus". Uma risada borbulhou até minha garganta, mas ficou presa. Ele não parecia muito mais velho que eu, e aos olhos humanos, ele sem dúvida parecia bastante inofensivo quando parou ao lado de um hidrante vermelho e branco. Seu cabelo escuro estava cortado curto e seu perfil revelou características angulares. Um piercing em sua narina direita brilhava na luz solar. — Um Fiend, — disse Dez, sua mão apertando a minha. Apesar de Fiends serem a classe mais comum de demônios aqui, eu nunca tinha visto um. Curiosidade levantou-se rapidamente enquanto eu observava o demônio. — Ele é tão... ousado. — É claro. Ele sabe que não podemos fazer nada no meio dos seres humanos. Se eu fizer algo, parecerá que ataquei um dos humanos. E isso não seria bom. O demônio parecia estar prestes a pegar um táxi, exceto que ele olhou por cima do ombro e seus olhos escuros encontraram os meus. Uma estranha luz

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brilhou para fora deles. Tentei respirar, os músculos enrijecendo em preparação para um ataque total. Dez levantou sua mão livre, lançando o demônio para longe. Um tipo endiabrado de sorriso atravessou o rosto do demônio em resposta e ele chegou ao chão, passando os dedos ao longo do topo do hidrante. Com um piscar de olhos, ele virou as costas para nós e saiu da calçada, arremessando-se entre os táxis e vans. — Oh, não, — Dez murmurou, andando de volta enquanto me empurrava atrás dele. Meu coração pulou. — O quê? Antes que Dez pudesse responder, a parte superior do hidrante explodiu com um estrondo. Água saiu em erupção, subindo alta no ar. Outro estampido reprimiu mais longe da rua e depois outro e mais outro. Água jorrava no ar, tão rápido quanto eu podia ver. Eu guinchei quando o líquido frio choveu sobre nós, o som perdido nos gritos surpresos dos pedestres. Dentro de segundos, eu estava encharcada, como quase todos nas proximidades. Tráfego deu uma parada quando a água derramava nas ruas. Metal triturado. Um táxi bateu na traseira de outro, resultando em uma reação em cadeia de proporções épicas. Um taxista jogou o punho no ar. — Que diabos? Você bateu no meu carro! — Você parou! — Gritou o outro taxista. — Seu estúpido filho de uma... Suas palavras foram cortadas por buzinas. Um autêntico pandemônio eclodiu, e o tempo todo, o demônio estava do outro lado da rua, vadiando no meiofio, não afetado pela chuva torrencial. Ele estava rindo. Todo molhado, Dez puxou meu braço. — Vamos! Nós corremos, nos esquivando de pessoas que como nós, estavam encharcadas por água. Vários quarteirões depois, finalmente chegamos a uma área um pouco seca. Parando, olhei por cima do meu ombro. A Times Square estava inundada. — Meu Deus, — eu murmurei. Ninguém pareceu estar ferido. Se alguma coisa, o que o demônio fez foi simplesmente criar um enorme inconveniente, e por algum motivo realmente confuso, eu estava sorrindo enquanto me virei para Dez.

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Ele colocou suas mãos quentes no meu rosto, afastando o cabelo molhado do meu rosto. — Você está bem? — Ele perguntou, sua expressão tensa. Eu ri, ele virou a cabeça para o lado. — Eu estou bem. Eu não posso evitar, — disse, agarrando os pulsos dele. — Foi engraçado. — Só você consegue achar essa confusão engraçada. — Tanto faz. — Levantei, usando os braços dele para me apoiar. Adrenalina estava correndo em minhas veias. Talvez tenha sido por isso que eu fiz o que fiz em seguida. Ou talvez fosse porque eu esperei que ele me beijasse novamente desde a última vez que nossos lábios tocaram. Fechei meus olhos, e pressionei meus lábios contra os dele. Ao entrar em contato, ele respirou fundo. Seus lábios estavam molhados e firmes e absolutamente maravilhosos. Eu fiquei de pé, deslizando minhas mãos para onde ele enrolou meu cabelo. Ficamos ali quando uma multidão se juntou atrás de nós, assimilando o espetáculo do rio que havia assumido a Times Square. Pessoas passaram por nós, ou éramos invisíveis para eles ou eles eram indiferentes para nós naquele momento. E nada havia passado entre nós naquele segundo ou no futuro, só o presente. Os olhos de Dez brilhavam com desejo. — Acho que gosto muito daquele demônio. Eu rio, pensando que devia ser a primeira vez. Alcançamos um ao outro ao mesmo tempo, então não sei quem estava segurando a mão de quem, mas o sorriso permaneceu prostrado no meu rosto até que fosse tarde e terminássemos a noite. Toda a excitação me deixou exausta, mas um tipo diferente de cansaço saltou vivo quando nós entramos no quarto do hotel e meu olhar caiu na cama. O batimento do meu coração acelerou. Nós íamos dormir naquela cama. Juntos. Só eu e ele. Nós. Por que eu precisava percorrer as diferentes maneiras de dizer que estávamos dormindo juntos estava além de mim, mas ainda não parecia real. Dormir juntos em um quarto que não era em uma casa cheia de outros da nossa espécie fez tudo parecer tão diferente, muito mais adulto e íntimo. Como se nós estivéssemos brincando de ser adultos, mas não mais. Recolhi minhas roupas de dormir e me troquei rapidamente. Parte de mim queria ficar no banheiro, mas se eu ficasse, havia uma boa chance de eu dormir na banheira.

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Quando voltei para a sala principal, Dez já estava na cama. Um flash de calor passou através de mim quando parei ao pé da cama, torcendo os dedos juntos. O olhar de Dez deslizou para onde eu estava. Ele trocou de roupa enquanto eu estava no banheiro, vestindo uma camisa de algodão branca e um short para dormir. Seus cílios grossos protegiam os olhos dele. — O que você está fazendo? — Ele perguntou, um sorriso em sua voz. Dei de ombros. Ele sorriu. — Vai ficar aí parada, me olhando dormir? Meu nariz enrugou. O que ele pensava que eu era? Uma estranha? — Não. — Então vamos lá. — Ele deu um tapinha na cama ao lado dele. — Eu não mordo. A menos que você queira. O tipo de calor que apareceu em meu rosto poderia fritar ovos. Dez riu profundamente. — Estou brincando, Jas. Vem. Estou cansado e não conseguirei dormir sem que você fique na cama. Eu virei minha cabeça de lado. — Sério? — Sim. — Ele respondeu bocejando. — Ficaria muito preocupado com você estando desconfortável. E possivelmente me olhando enquanto eu durmo. — Não vou ficar olhando você dormir! — Tanto faz. Me arrastei para a frente, até que estava no meio da cama grande. Ele bocejou novamente, lançando sua atenção para a TV. Arrastando-me em uma respiração profunda, peguei a borda das cobertas e deslizei para dentro, ficando de costas. Meu peito estava subindo e descendo tão rápido, que eu jurei que podia ver o cobertor se mover. — Boa noite, Jas. Era só isso? Ele estava realmente indo dormir e não ia, não sei, testar essa cama? Eu deveria me sentir aliviada, mas... mas eu estava de certa maneira decepcionada. — Boa noite. Segundos pareceram minutos e em seguida, Dez rolou para o lado dele, olhando para mim. Eu segurei minha respiração. Mais um punhado de segundos e, em seguida, meu corpo moveu sem meu cérebro realmente detectar.

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Eu rolei para o meu lado, e nossos olhares se firmaram. Havia centímetros entre nós, mas o espaço parecia inexistente quando nos entreolhamos. Naquele momento, eu achei que nunca seria capaz de dormir, mas a beleza de seus olhos azuis e o sorriso leve nos lábios dele foram a última coisa que eu vi antes de dormir. *** Mesmo dedicando um dia inteiro para olhar New York no dia seguinte, não tinha como eu visitar cada museu, ver todas as ruas das quais eu só tinha lido sobre ou visitar todos os monumentos. Passamos uma quantidade enorme de tempo em uma loja de brinquedos que parecia ter tudo. Aquela noite, juntos, sobrevoando a cidade até a ilha Ellis e depois de volta para o Upper West Side, nós pousamos entre as estátuas majestosas da espécie deles e ficamos olhando para baixo, para as luzes cintilantes dos carros e das lâmpadas da rua abaixo de nós. Pensei naquela manhã e senti calor borbulhando em meu peito. Quando acordei, eu estava meio deitada nele, minha perna lançada sobre a dele e minha cabeça aninhada na dobra de seu ombro. A menos que ele tenha me arrastado sobre ele no meio da noite, o que poderia ser plausível, fui eu quem o procurou. Ele não pareceu se importar, no entanto. O braço dele estava seguro ao redor da minha cintura. Acordar daquele jeito foi... bem, foi mais do que agradável. — Não podemos ficar aqui muito tempo. — disse Dez, esticando para fora suas asas até elas escovarem por cima das minhas. Eu tremi com o contato íntimo. — O clã está caçando e, mesmo seu pai tendo aprovado esta viagem, eu duvido que ele ficaria feliz em saber que você está aqui à noite. Concordei quando me inclinei para frente, minhas mãos na borda. Meus sentidos estavam loucos. Havia um monte de demônios movendo-se lá em baixo, mais do que eu imaginei que haveria. — Quantos você acha que estão aqui? — Eu perguntei, olhando para Dez. — Demônios, quero dizer? Ele colocou sua cabeça para trás, olhando para as estrelas. — Centenas. Principalmente Fiends como o que vimos ontem. Alguns serão Posers e talvez um

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Infernal Ruler ou dois. Ele ficou parado, virando a cabeça de um lado para o outro, tentando aliviar uma torção no pescoço. — Eles encontraram um Demônio de Nível Superior em algum momento esta noite. Se eles conseguem capturar é a questão. Uma vez que um demônio era capturado, era prontamente enviado de volta para o inferno ou interrogado. Eu não deveria saber sobre essas coisas, já que fêmeas eram mantidas fora da política, mas muitas vezes no passado, enquanto sofria um processo interminável de tédio, eu tinha espiado conversas do meu pai. Eu sabia que havia locais na cidade onde demônios eram interrogados, usando táticas que tinham congelado o sangue em minhas veias. Tensão irradiava de Dez. Era palpável no ar. — Você quer estar lá fora, não é? Caçando? — É difícil não querer. — Ele olhou para baixo, para mim, os olhos de um azul profundo e lábios um cinza escuro. — Isso está impregnado em nós. Assim eles diziam. Eu virei minha atenção de volta para o chão abaixo. Realizar meu desejo de caçar um demônio aqui seria muito arriscado. Eu podia encontrar alguém do clã que iria pôr fim a esta viagem. Ainda assim, a ideia de que muitos demônios estavam fora quando não havia sequer um quarto de Guardiões para lidar com eles era perturbadora. Um vento frio sacudiu o meu cabelo e provocou as membranas finas em minhas asas, fazendo-as a tremer sem descanso. — Por que existem tantos? — Ninguém sabe o que se passou no inferno ou porque tantos demônios foram expulsos. — Dez virou-se e baixou-se, oferecendo a mão. — Mas os números estão crescendo. Eles estão planejando algo... algo grande. Eu coloquei minha mão na sua, deixando ele me puxar. — Mas vamos detêlos. Ele sorriu quando pulou para baixo do telhado e depois enfiou a mão no meu quadril. Eu não precisava de ajuda, mas ele insistiu e eu deixei. — Você quer voltar para o hotel ou ir para as ruas? Já era tarde e eu sabia que as horas se passaram, uma batalha de sortes terá lugar nas ruas e até nos céus. Tanto quanto eu queria estar aqui, eu não era estúpida. Uma Guardiã feminina acabaria sendo um ímã de demônio e deixando Dez em grandes apuros. Meu desejo de experimentar uma caça na cidade teria que esperar.

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— Vamos voltar. Indo para o outro lado do edifício, disparei na frente dele, lançando-lhe um sorriso por cima do meu ombro. — Vamos apostar que chego antes de você no hotel? Seu riso era profundo e barulhento durante a noite. — Sim. Pulando da borda, eu bati no ar e abri minhas asas, deixando a rajada de vento me levar. Não precisei olhar para trás para saber que ele estava bem ali. Voei entre dois arranha-céus, minha risada se perdendo no ar quando eu subi sobre o prédio. Nós voamos circundando uma antena longa e fina. Dez ganhou de mim, mas eu mergulhei, deslizando para baixo na queda e passei tantos andares que perdi a conta. Foi como nos velhos tempos, quando éramos crianças e corríamos através das montanhas, lá na mansão. Olhei por cima do meu ombro, espionando Dez através dos fios do meu cabelo. A perseguição era diferente agora de uma forma. Meus músculos estremeceram em antecipação e não por ganhar a corrida. Nós estávamos lado a lado quando despenquei por cima do nosso hotel. Como fazia acima das montanhas, eu deixei a gravidade fazer seu efeito. Guardei minhas asas e o mundo girou quando peguei velocidade. Luzes. Escuridão. Luzes. Escuridão. — Jasmine! — O grito de Dez tornou-se um mero sussurro. No último segundo, um piscar de olhos antes de ser tarde demais, abri as minhas asas e girei, pousando no beco em meus pés. Pedaços de asfalto voaram no ar com meu impacto, surpreendendo um homem passeando com um cachorro no final do beco, fazendo ambos correr pela rua e pela noite adentro. Dez pousou meio segundo mais tarde e foi até o meu rosto ainda mais rápido. — O que você estava pensando? — Ganhei! — Eu rodopiava, arqueando as minhas asas. — Isso é o que estou pensando. Ele pegou meu braço, me parando. Seus olhos brilhavam com fúria. — Você poderia ter se matado fazendo uma acrobacia assim. — Ah. — Eu dei um tapinha no seu peito. — Você ficou preocupado? Enrugou suas sobrancelhas. — O que você acha?

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Eu ri, sem vontade de largar a vertigem da vitória. — Eu ainda sou mais rápida do que você. — Não tem nada a ver com o quão rápido você estava. Você agiu como se fosse uma suicida com uma bomba. Eu balancei a cabeça, inalei e me transformei de volta para minha pele humana. Como sempre, meu jeans e camiseta se esticaram depois da mudança. — Calma, amigo, eu sei o que estou fazendo. Faço isso todas as noites durante três anos praticamente. Sua boca caiu aberta. — Está bem. Isso não soa bem. Mas eu estava no controle. — Eu suspirei. — Eu gosto do jeito que me sinto quando estou caindo. Ele me encarou mais um momento e então mudou. — Isso é absolutamente insano. — Talvez. — Dei de ombros. — Mas eu ainda ganhei de você. Dez mal disse uma palavra para mim quando fomos até o nosso quarto. Como na noite anterior, entrei no banheiro primeiro, tomei banho e coloquei algo para dormir enquanto ele fazia sabe-se lá o que na sala principal. O mesmo nervosismo que eu tinha experimentado na noite passada voltou com uma vingança. Estávamos ambos esgotados, mas hoje eu estava muito empolgada para descansar tão rapidamente. Passei por ele na saída. Agarrei o controle remoto, mergulhei na cama e puxei as cobertas em cima de mim. Concentrei-me em encontrar algo na TV, quando ouvi a água cair e depois parar. Meu estômago pesou quando a porta do banheiro abriu e ele caminhou para fora. Eu pensei que ele tinha esquecido sua camisa. Calções de ginástica de nylon estavam baixos em seus quadris, baixos o suficiente para que eu me perguntasse que magia ele estava usando para ficar com esses shorts azuis escuros sem cair. Ele jogou suas roupas no chão enquanto eu olhava seu peito. Quando ele olhou para mim, me pegou olhando e segurando o controle remoto como uma completa idiota. — Sinto muito. — Ele foi para o outro lado da cama e puxou as cobertas. — Está quente aqui. — Ligue o ar. — Eu o vi subir e deixar o lençol permanecer em seus quadris.

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Ele deitou, bíceps tencionando quando dobrou os braços atrás do pescoço. A escuridão dos lençóis macios criou um contraste forte contra sua pele dourada. — Já liguei. — Pausando, ele olhou para mim. — Isso deixa você desconfortável? Não. Sim. Isso me faz querer babar. Eu balancei minha cabeça. — Okay. — Suas sobrancelhas levantaram-se lentamente. — O que está assistindo? Dei uma olhadela na tela e meus olhos se arregalaram. Eu devo ter parado em um dos canais adultos de filmes. Era uma cena de sexo. Peitos – peitos grandes estavam por toda parte. E um monte de gemidos pesados. Tenho certeza que meu rosto tinha pegado fogo. Rapidamente mudei de canal, finalmente desisti e joguei o controle remoto. Como um velho, ele parou em uma estação de notícias locais. Ele deixou cair o controle remoto em seu peito. Eu relaxei do meu lado, fingindo ver as notícias enquanto eu realmente estava estudando o perfil dele. Um músculo marcava sua mandíbula. Eu contorci. — Você ainda está brava comigo. O olhar dele deslizou para o lado. — Eu não estou com raiva. — Sim, está. Ele não disse nada por um momento e então pegou o controle remoto, deixou a TV em mudo e o colocou na pequena mesa ao lado da cama. Ele rolou para o lado dele, olhando para mim. — Quando você caiu, me assustou. — Não deveria. Como eu disse, eu sabia o que estava fazendo. — Mas eu não sabia disso. — Ele se aproximou, pegando uma mecha do meu cabelo e entrelaçando em torno de seu dedo. — Eu não fazia a menor ideia do que você estava fazendo. Eu não disse nada enquanto o observava. — Foi uma tática bem legal, — ele admitiu, e eu sorri. — Só me avise da próxima vez. — Não se estivermos competindo. Então eu não teria a vantagem. Ele sorriu um pouco. — Espera. Você acha que tinha vantagem? — Claro que sim. — Vou discordar, — ele brincou, cílios baixos. — Você não tinha. — Tanto faz.

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Ele avançou mais perto, levantando um dos braços. — Você não acredita em mim? — Não. — Eu rio, revirando os olhos. — Você superestima... Movendo-se rápido, Dez se deslocou e de repente fiquei debaixo dele. Seus braços estavam em ambos os lados da minha cabeça, me prendendo. Nossos corpos não se tocavam, mas eu o sentia até as pontas dos meus dedos do pé, de qualquer forma. O sorriso provocante desapareceu quando arrastei uma respiração profunda e meu peito passou pelo dele. Tudo mudou num instante. A brincadeira desvaneceu-se, substituída por peso primal. Nossos olhares colidiram e ficaram parados. Nenhum de nós se mexeu. Sua proximidade enviou uma série de tremores deslizando pela minha pele e foi difícil ir com calma, até mesmo as respirações. Meu corpo ficou tenso quando seu olhar desceu para minha boca. Ele inclinou a cabeça para o lado. — Eu... eu honestamente não faço ideia do que estávamos falando. — Bom. Eu também não. Ele mudou o seu peso em um braço, se aproximando. — Gostou da sua viagem até agora? — Sim. — Senti como se não conseguisse suficiente ar em meus pulmões. — Bom. — Ele baixou a cabeça. O hálito dele era mentolado, enquanto se movia em toda a minha bochecha e, em seguida, nos meus lábios. — Estou feliz. Eu realmente não estava seguindo a conversa, e não tinha certeza de que ele estava plenamente consciente do que estava saindo de sua boca. Eu procurei em meu cérebro nebuloso algo para dizer e molhei meus lábios. — Eu... O som que saiu do peito de Dez vibrou através de mim. Um piscar de olhos e então seus lábios estavam nos meus. Não havia nada lento sobre o beijo. Ele queimou minha pele e fez meu corpo se apertar como uma corda de arco. O beijo se aprofundou, confundindo os meus sentidos. Estremeci quando sua mão foi do meu ombro até minha cintura, seus dedos longos espalhando-se sob a bainha da minha camiseta, indo para a pele nua do meu estômago. Eu ofeguei, chocada com as sensações cruas batendo através do meu sangue. Minha pele parecia como se estivesse pronta para se transformar. Talvez eu estivesse.

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— Jasmine, — ele sussurrou, a palavra caindo contra meus lábios, e então seu corpo estava pressionando o meu no colchão, pesado, doce e duro. Nada poderia ter me preparado para o peso dele ou como meu corpo respondia sem pensar. Minhas mãos foram para os ombros, deslizando pela pele tensa das suas costas. Seus músculos flexionaram sob minhas palmas quando sua boca seguiu um caminho ardente no meu queixo e, em seguida, na minha garganta. Ele fez uma pausa, levantando a cabeça. As pupilas de Dez esticaram e o calor ardente em seu olhar devia ter me feito sair correndo da cama, mas isso só me fez querer mais. E eu não queria com mais ninguém. Não quis um beijo além da curiosidade de experimentar um, mas com ele, eu queria tudo e isso era assustador. Sedutor. Emocionante. Me movi novamente, e ele estremeceu, fechando os olhos Aqueles olhos abriram novamente e encontraram os meus quando ele se afastou. Decepção formou-se rapidamente, mas depois ambas as mãos foram para a minha cintura, dedos emaranhados com as bordas da minha camiseta. Sem fôlego, ergui meu tronco e ele gentilmente puxou a camiseta sobre a minha cabeça. Eu deitei de volta, olhos largos e tonta. Ar fresco sobre minha pele nua e pequenos solavancos em toda a minha carne quando seu olhar, intenso e aquecido, me percorreu. — Você é linda. — Ele moveu os dedos com tanta delicadeza, fazendo minhas costas se erguerem e minha pele formigar. — Tão linda. Eu estava além das palavras. Ele baixou a cabeça, me beijando profundamente. Quando se afastou, ele mordeu o meu lábio, torcendo um som de mim que definitivamente iria me envergonhar na luz do dia. Dez seguiu um caminho ardente de beijinhos no meu pescoço, em toda a curva do meu ombro e depois para baixo, explorando de uma forma que confundiu os meus sentidos. Sensações correram através de mim e era como cair livremente através do céu. Chamas acendiam dentro de mim quando seu peito desceu no meu. A sensação de pele contra pele era uma experiência surpreendente. Seus lábios estavam contra os meus novamente, e me enrolei em torno dele, querendo e precisando estar mais perto.

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Eu não estava no controle de mim mesma e havia algo maravilhosamente libertador naquele momento. Minhas mãos achatadas ao longo de seus lados quando eu colocava minha perna em torno dele. Ele murmurou algo sob sua respiração quando levantou sua cabeça, com expressão tensa. Meu corpo enrolou em torno dele e a pressão desse movimento foi explosivo. E então ele rolou de cima de mim e de volta em suas costas, jogando um braço acima da cabeça, o outro sobre o peito. Ele olhou para o teto, enquanto a respiração abrandou. Meu coração ainda estava batendo erraticamente, intensificado pela confusão dentro de mim como fumaça espessa. Sentei e meu cabelo caiu em meu rosto. Eu não fiz nenhum movimento para empurrá-lo de volta. Temia que se eu mexesse, eu iria atacá-lo. — Por que parou? — Por que? — Dez riu, mas parecia estrangulado. Ele fechou os olhos novamente, amaldiçoando baixinho enquanto esfregava a palma da mão pela mandíbula. — Eu não sou estúpido, Jas. Essa não era a resposta que eu esperava. Quando olhei para ele, um pouco do calor que me queimava por dentro se desvaneceu. — Não entendo. Ele deixou cair a mão e abriu um olho. Um sorriso cruzou seus lábios, mas era errado... tudo errado. — Isto só pode ir até aqui, Jas. E estar aqui, nesta cama com você, é difícil não ir até o fim. E há um problema com isso. Sei que você não planeja dizer sim no final.

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Capítulo 10 Acabamos não saindo da cidade até à tarde seguinte e a viagem para o sul, em direção a capital nacional, foi quieta. Estava daquele jeito desde a noite passada. Dez não me tratou de jeito diferente. Ao contrário. Ele falou, e tentou me colocar em uma conversa enquanto nós deixávamos New York e cruzávamos New Jersey, mas eu estava muito absorvida em meus pensamentos. Eu me encostei no assento, cabeça inclinada na janela. Prédios e casas embaçadas em uma velocidade constante. Um gosto amargo ficou na minha boca, um coquetel de culpa, vergonha e confusão, e nenhuma quantidade de bebida ou comida tirava esse gosto. Eu continuava a dizer a mim mesma que não tinha que me sentir culpada. Eu não tinha abandonado Dez. Foi ele que me deixou e eu não tinha feito nenhuma promessa para ele, mas o reconforto parecia vazio.

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Até minha irmã não pode realmente entender porque eu fui tão resistente com a ideia de me emparelhar com Dez, especialmente considerando o quanto eu me importava com ele. Mas quando ele foi embora e quando eu finalmente aceitei, depois que muitos meses se tornaram um ano, que ele não tinha voltado para casa, eu fiquei de luto por ele. Sofri por ele como sofri pela minha mãe. Eu podia reconhecer a benção dele ter voltado, mas três anos de luto era um longo tempo para deixar para lá e eu nem entendia porque ele foi embora. Ele dizia que não tinha nada a ver com a oferta do meu pai e era óbvio que ele me queria, mas eu queria mais. Respostas para uma coisa, e eu queria o que meus pais tiveram em suas vidas juntos – amor e confiança. Parte de mim reconhecia que eu ainda estava apaixonada por Dez, que nunca parei de amá-lo, mas eu não acreditava que ele sentia o mesmo por mim. Não do jeito que eu precisava que ele me amasse e confiasse. O que eu podia dizer daqui a um ano, ele simplesmente iria se levantar e desaparecer novamente? Eu me mexi no meu assento, inquieta. Talvez mais do que o nosso passado estava me deixando alerta. Talvez tinha algo comigo. Afinal, toda a coisa do emparelhamento era séria. Eu estaria me devotando a alguém pela minha vida inteira. No exato momento que eu me emparelhasse, eu seria forçada para a idade adulta, enfrentando demandas muito adultas. Eu não seria a única de dezoito anos a fazer isso, mas era muita coisa para pensar. Talvez eu não estava pronta e minhas desculpas foram realmente só isso, desculpas. Uma muleta. Tínhamos atravessado a Pensilvânia há horas, e quando a SUV reduziu para uma pista de saída para uma cidade chamada West Chester, eu me endireitei no meu lugar e olhei de relance para Dez. — Onde estamos indo? — Você vai ver. E isso foi tudo o que ele disse enquanto atravessamos a cidade e então passamos para uma estrada estreita que estava cheia de árvores frondosas. Ele virou para uma estrada que eu não tinha notado. Cerca de cinco minutos depois, ele estacionou no encostamento. Poeira encheu o ar quando saímos. Eu olhei para Dez com expectativa. — Você vai me dizer o está planejando? Ele pegou minha mão e começou a andar para um usado e desgastado caminho de sujeira que formavam uma trilha. Os galhos quebravam sob nossos

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pés. — Depois que eu deixei o clã e antes que eu fosse para West Coast, fiz muitas viagens e me deparei com este lugar. Meu coração pulou no meu peito. Um lago! Ele havia mencionado antes que encontrou um lugar perfeito para a condição de nadar nu. Tinha que ser aqui. Ah, Deus, por que eu tinha sugerido isso? — O lugar é fora da trilha usada, muito tranquilo. — Ele segurou um ramo para fora do caminho, então eu poderia passar debaixo dele. — De qualquer forma, acho que você vai gostar do lago. Sim. Ele tinha confirmado que estávamos cumprindo outra condição. Minhas mãos pareciam suadas, e eu soltei minha mão livre, limpando as duas na minha calça jeans. Dez não disse nada, mas deslizou ao meu redor, afastando os galhos. — Você... vinha muito aqui? — Duas vezes. — Eu parei no caminho de volta para o clã. Eu precisava arejar a cabeça. Foi um bom lugar para fazê-lo. Olhei para as costas dele, observando seus músculos se mexerem sob a camiseta de algodão fino. Eu queria fazer alguma piada ou comentário inteligente, mas os nervos não me deixavam. A folhagem pesada e a vegetação rasteira dizimadas em um pequeno trecho de terra terminava em um afloramento de rochas grandes e lisas em torno de um lago. — Cuidado, — murmurou Dez. — Essas rochas são meio escorregadias. Sorri distraidamente. Sua preocupação era muito doce, mas eu não estava em perigo de cair e rachar meu crânio. Luz solar desvanecendo tocou suavemente a água ondulante. Eu vagava mais próximos à superfície cintilante e me ajoelhei, mergulhando os meus dedos na água fria. Com exceção do canto suave dos pássaros e o farfalhar das folhas, era tranquilo aqui. — É bonito, — eu disse, em pé. — Acho que sim. — Houve uma pausa. — Eu sei por que você acha que te trouxe aqui, mas eu realmente não esperava que você tomasse banho nua. Virando, eu sorri para ele. — Eu pensei que era pelo que você estava mais ansioso.

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— Oh, não me interprete mal. O simples pensamento de você nadar com nada além de água... — ele pausou, limpando a garganta, e eu fiquei vermelha até as raízes do meu cabelo. — Enfim, tudo isso é para você. Ele estendeu seus braços abertos, indicando o lago e além disso, toda a viagem. — Você deveria estar se divertindo, não se sentindo desconfortável. Ajeitei meu cabelo enquanto me sentava, colocando minha bunda em um dos seixos. Baixando minhas mãos para meus joelhos, desejei que eles parassem de tremer. — Jas? — Ele avançou mais perto, cabeça inclinada para o lado. — Por que? — Eu perguntei, levantando o meu olhar até o seu. — Por que você faz isto quando sabe que eu não pretendo dizer que sim? Ele parou por um momento e então mexeu os arbustos espinhosos para se sentar ao meu lado. Inclinando para frente, ele colocou seus braços sobre os joelhos e descansou seu queixo nas suas mãos. — Bem, é uma série de razões, mas principalmente porque eu queria. Dúvida penetrou como uma névoa espessa. — Você realmente queria brincar de guia turístico em vez de estar lá fora com o clã? — Sim. — Ele olhou acima, através de seus cílios. — Eu não estava mentindo quando disse que senti sua falta e pensei em você todos os dias. Eu quero passar tempo com você, e tem sido divertido te ver experimentar todas essas primeiras vezes. Estou feliz que eu pude fazer isso para você. E só porque você está resignada a dizer "não" não quer dizer que é o que você vai dizer no final. Eu levantei minhas sobrancelhas. — Oh, é mesmo? Ele deixou cair às mãos e se endireitou. — Talvez no final destes sete dias, você ainda vá dizer não. Não significa que acabou. Estou aqui pela longa viagem. Calor borbulhava em meu peito em resposta a suas palavras. — E se eu achar outra pessoa? Seus olhos se estreitaram. — Duvido que isso vá acontecer. — Nunca se sabe. — Oh, eu sei. Eu rolei meus olhos, mas o sorriso que eu estava reprimindo se espreitou. — Só estou dizendo.

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— E eu só estou dizendo que no fim destes sete dias ou talvez uma semana a partir de então, ou um mês, você vai dizer sim. — Ele pegou meu rosto e inclinouse, pressionando a testa na minha. — E eu estarei esperando. Não importa quanto tempo leve. Quando eu fechei meus olhos, minha respiração parou quando meu estômago afundava e torcia. Uma pergunta se formou na ponta da minha língua. — Diga por que você realmente foi embora, Dez. Por favor. Ele escovou meu nariz com o seu e depois puxou para trás, suspirando. — Jas, não é fácil... Arbustos sacudiram atrás de nós, o barulho de um farfalhar ao redor. Viramos ao mesmo tempo. Um arrepio de consciência serpenteava ao longo de meus ombros, quando as folhas minúsculas em um arbusto que estava a apenas alguns pés de altura estremeceram. Dez colocou uma mão no meu braço e acenou para eu ficar quieta enquanto esperávamos. Não fizemos nenhum som, mas as folhas pararam. Um ramo fino, não maior do que um lápis e com formato de uma lança, separou as folhas. A lança balançava à esquerda e depois à direita e depois parou, apontando para onde estávamos. — O que...? — Eu sussurrei. Os arbustos sacudiram quando uma criatura pequena apareceu entre as folhas. Eu não sabia o que era. Não mais alto que uns trinta centímetros, a pele era da cor de couro envelhecido, pernas e braços finos e enrugados. Algum tipo de tanga tinha sido feito a partir das folhas e sua barriguinha estava coberta de lama. A criatura meio que se assemelhava a uma daquelas bonecas troll hediondas que foram populares antes do meu tempo. Não tinha cabelo néon rosa ou roxo, mas seu cabelo castanho escuro levantava em grandes aglomerações, retorcidos nas pontas. A pequena criatura agachou, apontando a lança para nós e esperando fazermos um movimento ousado. — Puta merda, — disse Dez. Eu coloquei minhas mãos juntas, sob o queixo. — O que é? Seus grandes e redondos olhos estreitaram ao som da minha voz, mas ele não correu. Eu não imaginava o carinha correndo. Ele ia galopar.

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— É um pukwudgie. As orelhas muito grandes e caídas se contorceram ao som do seu nome. Eu olhei para Dez lentamente. — O quê? — Demônio da terra, — respondeu ele, sobrancelhas juntas. — Nunca vi um antes. Pensei que eles tinham sido erradicados há anos. Não se sabe muito sobre eles além de que causaram um pouco de confusão durante seu auge. Geralmente só eram vistos ao norte, perto de Massachusetts e lugares assim. — É meio que fofo. — Eu sorri quando seu olhar virou duvidoso. — O que? É tão feio que é fofo. Dez balançou a cabeça, quando o pukwudgie deixou cair sua pequena lança e foi para frente, aproximando-se das rochas. Desapareceu atrás delas por um momento e então as pontas de suas orelhas e cabelo apareceram novamente. Finalmente, aqueles olhos grandes e nariz bulboso apareceu quando ele espiou sobre uma pedra. Eu ri suavemente, e sua boca se abriu, revelando um pouco os dentes, o que eu achei que era um sorriso em troca. — Acho que ele gosta de mim, — eu disse. A mão de Dez arranhou minhas costas quando ele andou para se afastar das pedras. — Todos gostam de você, Jas. Com agilidade surpreendente, o carinha pulou para a rocha mais distante. Ele se agachou novamente, nos observando, e quando nenhum de nós se mexeu, ele avançou mais perto, pulando as pedras até que estivesse perto de onde nós estávamos sentados. Dei uma olhadela para Dez, que encolheu os ombros e então começou a andar em torno das rochas, como se ele planejasse sorrateiramente ir por trás. — O que você está fazendo? Ele enviou-me um olhar. — O que você acha? Minha boca caiu aberta. — Vamos lá. Ele não está fazendo nada. Dez parou, arqueando uma sobrancelha. — Ainda. Meu olhar voltou-se para o carinha. Ele estava olhando para mim com um sorriso. Ele levantou os joelhos, balançando para frente e para trás em um gingado estranho quando nossos olhos se encontraram.

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— Jasmine... — Dez suspirou, dobrando os braços. — É um demônio. Pode ser um demônio fofo-feio, mas ainda é o inimigo. — Eu sei, mas... Mas não está fazendo nada além de dançar e se enfeitar. Tão sacrilégio quanto parecesse, não pensei que era certo matá-lo. Dez atirou-me um olhar. — Não podemos só deixa-lo ir. O pukwudgie olhou para Dez e estendeu sua língua, fazendo um som muito humano. Eu rio. — Adoro esse carinha. Se não podemos deixá-lo ir, posso ficar com ele? — Ah, não. — Devo chamá-lo de Herbert, — eu anunciei, ignorando Dez. — Você gosta do nome, pequeno pukwedgie? — Pukwudgie, — Dez corrigiu, lábios curvando para cima com relutância. — Jas, precisamos cuidar disso. O demônio da terra girou ao redor, erguendo suas pernas de ambos os lados. — Vou aceitar isso como um sim. — Eu lentamente me sentei, com cuidado para não assustá-lo. — Herbert é um bom nome para ele. Dez se engasgou, rolando os olhos. — É mesmo? Esse é o melhor nome que você pode inventar? Abanei minha mão para ele. Os olhos dele estreitaram em mim. Herbert pulou na minha rocha, e eu estendi minha mão. Ele se dobrou farejando o ar em torno de meus dedos. — Eu não faria isso se fosse você, — Dez sugeriu sombriamente, pisando na minha direção. — Só Deus sabe as doenças terríveis que essa coisa tem. Herbert girou ao redor, fazendo outra dança e em seguida derrubou a mão na minha, como se ele estivesse batendo na minha mão. Então ele levantou a mão, formou um punho e sacudiu-a para Dez. — Huh, — eu disse, olhando para ele. — Eu realmente não acho que Herbert gosta de você.

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— Isso é trágico, — ele respondeu secamente. — Quero que você se afaste disso. Ignorando-o novamente, eu rio quando Herbert sobe para o meu lado da rocha e envolve a mão em volta do meu dedo indicador. Sua pele era fresca e suave. Ele pulou uma vez e, novamente, movimentando minha mão. — Eu acho que ele está sacudindo meu... ai! Herbert colocou sua boca no meu dedo, os dentes fechando nele! Dor aguda explodiu na minha mão, e eu me afastei. Ficando de pés, eu perdi o equilíbrio e pousei na minha bunda, segurando minha mão latejante no meu peito. — Herbert me mordeu! O bastardinho me mordeu! O pukwudgie fez um barulho tagarela que parecia uma risada, girou ao redor e disparou sobre os pedregulhos. Ele saltou para o chão e correu, parando apenas o tempo suficiente para pegar sua lança. Arbustos sacudiram quando ele desapareceu. Dez estava ao meu lado em um segundo, de joelhos. Ele abriu a boca. — Não fale eu avisei, — eu avisei, olhando para baixo em meu dedo. Sangue jorrava de três pequenos recortes. — Não acredito que ele me mordeu. Eu pensei que ele gostava de mim. — Eu não ia dizer nada. Deixe-me ver. — Ele pegou a minha mão. — Ele rasgou a pele, não foi? Cristo, — ele murmurou. — Você está sangrando. Vamos lá, vamos lavar e sair daqui antes que mais deles apareçam e decidam dar uma mordida em você. — Você acha que tem mais? — Deixei-o me puxar para os meus pés e me guiar até a beira do lago. — Se tem um, provavelmente existe uma centena. — E molhou minha mão sob a água fria, lavando o sangue. — Você deveria ter matado ele, — eu resmunguei zangada. Dez me lançou um olhar longo. — Eu tentei, mas alguém... sem nomes mencionados... achou que Herbert era tão feio que era fofo. Eu suspirei. Verdade. — Ele não merece o nome de Herbert. Ele cedeu bastante, e riu quando levantou minha mão da água. — Dói?

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— Na verdade... dói. — A mordida do pukwudgie irradiava sobre minha mão e meu braço. — Não muito, — eu terminei. Dez já pensava que eu era uma idiota. Não havia razão para adicionar isso. Estávamos na metade do caminho para a SUV quando um fio de suor estourou na minha testa. Calor passou pela minha pele como uma febre. Senti-me corada, pegajosa. Estômago revirando, eu olhei para baixo para o meu dedo e dei um suspiro trêmulo. A pele ao redor da picada estava vermelho sangue, e listras que pareciam com raiva se espalhavam da ferida que deveria ser pequena. Uh... oh. Eu parei de andar, mas as árvores continuaram a se mover. Estranho. — Dez...? Ele virou para mim, mas alguma coisa estava errada com seu rosto. Todos os traços de seu rosto estavam embaçados. — Jasmine? Sua voz soou longe, bem longe. — Eu não... me sinto bem. Eu dei um passo para trás ou pelo menos achei que dei, mas de repente o chão estava no céu e o céu não existia. Em algum lugar bem distante, eu achei que ouvi Dez chamando meu nome, e depois não tinha nada.

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Capítulo 11 Eu estava pegando fogo. Era a única explicação para a queimação abrasadora correndo pelas minhas veias, me cozinhando por dentro, fervendo meu sangue e formando bolhas na minha pele. Eu não conseguia me mexer, mas estava deslizando. Delicioso ar fresco passou pela minha pele aquecida, um alívio momentâneo, mas o fogo invadiu todas as células. Calor me cercou, me embalando em um duro abraço. Nos raros momentos quando meu cérebro não era mingau, eu sabia que eu tinha que me transformar. Eu tinha que chegar ao nível profundo de sono necessário para curar, mas não podia fazer com que meus músculos fizessem o que eu precisava. Nada me respondia. Eu estava presa em um círculo do inferno.

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Consciência escorregou dentro e para fora, e quando eu estava acordada, eu queria estar apagada — estar muito longe. Minha pele estava saindo dos meus ossos. Chamas se arrastavam até minha garganta. Incapaz de escapar da dor, eu me encolhi dentro de mim, e um milhão de milhas de distância, ouvi alguém me chamando. As palavras não faziam sentido, mas me agarrei à voz e tentei alcançála. Então o inferno cravou, me consumindo até que havia apenas a escuridão e o zumbido distante daquela voz. Parecia com um batimento cardíaco gaguejado mais tarde quando tomei consciência da mudança em meu redor. Havia mais vozes à distância, mas eu não conseguia identificar o que eles diziam e não podia forçar meus olhos a se abrirem. No entanto, algo estava diferente. O duro calor que tinha me cercado foi embora, e em seu lugar havia uma suavidade ondulante. Eu não entendia, mas afundei nela um pouco enquanto me arrastava de volta, quando algo foi pressionado em minha testa e um líquido amargo e picante começou a correr na minha garganta. Tentei virar a cabeça, choramingando quando uma delicada mão me impediu. — Você tem que beber isto. Vai ajudar você a se sentir melhor. Eu não reconheci a voz. Meu batimento foi à loucura. Onde estava Dez? Eu não tive a chance de parar o líquido. Continuou vindo até que eu estava me afogando nele, e quando parou, tomei respirações profundas que doeram. — Isso é bom, — disse o estranho. Ele estava indo para longe de mim. — Ela vai dormir agora. O silêncio que seguiu foi tão assustador quanto o fogo. Invocando cada ponta de energia em mim, eu levantei minha mão, procurando por alguma coisa – qualquer coisa – para me apoiar. Uma mão forte segurou a minha, e a suavidade mudou. Um pano úmido acariciou minha testa. Meus lábios formaram seu nome, mas não saiu nenhum som. — Estou aqui com você. — O frescor deslizou sobre minhas bochechas em chamas. — Eu não vou a lugar nenhum, Jas. Eu não vou te deixar de novo. ***

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O fogo tinha acabado na outra vez que meu cérebro acordou. Um latejar maçante permaneceu em todas as partes do meu corpo e meus olhos pareciam como se tivessem sido costurados. — Jas? Eu virei minha cabeça para o som profundo da voz de Dez. Uma mão curvou sobre minha bochecha, e eu suspirei com o contato. Não queimou. Oh, não, pareceu firme e maravilhoso. Finalmente, depois de uma eternidade, eu abri meus olhos. Eu espreitei pela pouca luz no quarto, surpresa pela sensibilidade dos meus olhos. Quando minha vista se acostumou, eu vi Dez sentado do meu lado. Eu nunca o vi parecer tão cansado. Sombras escuras apareciam embaixo de seus olhos pálidos. Suas características mostravam cansaço, mas a mão ao meu redor estava cheia de força. — Ei, — ele disse, se aproximando. — Você finalmente acordou. Eu abri minha boca, mas o que saiu não foi mais do que um rouco e um patético coaxar. Dez soltou minha mão quando se mexeu na cadeira para alcançar a jarra de água na mesinha de cabeceira. Quando Dez me ajudou a sentar o suficiente para beber, meu olhar vagueou ao redor. Paredes bege, poucos móveis e pesadas cortinas brancas. Não era um quarto na casa do meu clã. Eu senti como se tivesse subido cem escadas até poder descansar minha cabeça no travesseiro macio de novo. — Obrigada. Dez pegou minha mão novamente, colocando seus dedos por entre os meus. — Como você está se sentindo? — Cansada. — Eu virei para ele. Minha cabeça estava cheia de teias de aranha. — O que aconteceu? — Você não se lembra? Eu procurei por entre meus pensamentos nebulosos, vagamente pegando as coisas importantes. — Hebert me mordeu. Ele acenou. — A mordida de um pukwudgie é venenosa. Eu não disso. Se eu soubesse...

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— Não é sua culpa. — Eu limpei minha garganta, desejando que eu pudesse sentar. — Você não sabia. E se é a culpa de alguém, é minha. Deus, eu me sinto burra. Ele riu um pouco. — Por que? — Por que? — Eu repeti estupidamente. — Você me disse para não tocar aquela coisa estúpida e eu devia saber melhor. Ele tirou o cabelo úmido do meu rosto com sua mão livre. — Bem, confiar em algo chamado Hebert é uma má ideia. Eu rio alto. — Isso é verdade. Molhando meus lábios, eu deixei escapar uma longa respiração. — Onde nós estamos? — Nós estávamos muito longe de casa para levar você de volta. — Ele deslizou sua mão pela minha bochecha e então se sentou, ainda segurando minha mão com sua outra mão. — Eu trouxe você para DC. Estamos na casa dos Abbot. Arregalei meus olhos. — Nós estamos aqui? Como? Você dirigiu? — Dirigir teria levado muito tempo, e eu não sabia quão perigosa a mordida era. Era mais rápido voar. Estou grato por ter feito isso. Acontece que a mordida de pukwudgie não é algo com que se mexa. Abbot mandou um dos homens de seu Clã pegar nosso carro. Todas nossas coisas estão aqui. Eu o encarei. Ele voou até aqui? Me carregando? Sem dúvida ele parece que ia cair. — Dez, eu.... um obrigada não é suficiente. — Você acordar e estar bem é o suficiente. — Ele apertou minha mão. — Teve alguns minutos que eu não achei que você iria. E eu... — ele engoliu em seco enquanto fechava os olhos. Quando ele abriu de novo, eles brilhavam com a cor do céu antes do crepúsculo quando levou a minha mão até sua boca e plantou um beijo na minha palma. — Eu estava realmente preocupado. Uma dor furou meu peito com a agonia na voz dele. — Eu estou bem, certo? — Sim, mas... — Ele abaixou minha mão de volta para a cama. — Jas você esteve dormindo por um dia e meio. — O que? Eu respirei. Aquilo não podia ser verdade. Eu senti como se eu não tivesse dormido há dias. — Oh meu Deus, eu vou achar Herbert e estrangular ele. Dez riu. — Você precisa entrar na fila atrás de mim para isso. Seu sorriso passou por um estremecimento. — Eu tive que contar para seu pai.

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Eu encolhi. — Oh, não. — Ele quase veio até aqui, eu acho que para me matar. Abbot pegou o telefone e o acalmou, disse para ele que você ia ficar bem. — Ele sorriu de novo, os seus lábios cansados. — Abbot disse que você vai se sentir melhor logo, mas ele ofereceu a sua casa para nós por quanto tempo precisarmos ficar. — Isso foi bem legal da parte dele, — eu murmurei. Meu cérebro estava preso em outro lugar, lentamente desligando de outras coisas. Dez soltou uma respiração profunda. — Eu posso...? — Ele balançou a cabeça, começando de novo. — Eu estou exausto e eu preciso me deitar, mas eu não quero deixar você. Eu posso me deitar aqui com você? Isso é tudo o que eu quero... apenas me deitar com você por um tempinho. Meu coração fez uma dancinha em meu peito com seu pedido. Sem poder falar porque as palavras que se formaram em minha garganta eram melhores não serem ditas agora, eu acenei. — Obrigado. — Dez abaixou a cabeça, e seus ombros largos relaxaram. Até aquele momento, eu não tinha reparado quão tenso ele estava sentado do meu lado. Sem falar, ele me fez terminar de beber a água antes de subir na cama e se esticar do meu lado. Eu deitei por um momento, olhando para ele, e forcei meu corpo a se mover. Custou-me toda força que eu tinha, mas eu rolei para o lado e me ajeitei mais perto, colocando minha cabeça em seu ombro. Dez ficou parado por um momento e então ele colocou seu braço pela minha cintura, me ajustando ao seu lado. Por alguma razão, mesmo que tenhamos compartilhado a mesma cama em New York, havia algo especial sobre isso, um peso que fez meu coração bater mais rápido. E quando eu relaxei no abraço de Dez, fechei meus olhos e só pude pensar em uma única coisa. Nossos sete dias acabaram.

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Capítulo 12 Até a noite seguinte, eu estava pronta para estar fora da cama. Eu estava tonta, me sentindo como eu novamente. Bem, eu não me sentia cem por cento, mas também não queria dormir por mais dez anos e após um banho rápido, liguei e falei com meu pai e Danika e desci as escadas. A casa em DC era muito parecida com a minha. Mais o tamanho de um hotel do que uma casa, mas a principal diferença era que não havia nenhum sinal de crianças ou mulheres aqui. A casa estava em um silêncio de túmulo. Eu tinha comido no quarto, devorando a comida que Dez trouxe para almoçar, mas aquilo foi há horas e eu não o vi ou qualquer outro desde então. Eu sabia que outros estavam aqui, a menos que eu estivesse delirando quando estava doente, o que era possível.

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Em pé no corredor de baixo, eu estava prestes a acreditar seriamente que Dez tinha deixado minha bunda numa casa abandonada, quando a porta se abriu atrás de mim. Eu girei ao redor. Um senhor mais velho entrou pela porta, fechando-a em silêncio por trás dele. Cinza salpicava seu cabelo preto e sua pele marrom clara estava fortemente vincada. Seus profundos olhos castanhos encontraram os meus, e quando ele passou por mim no corredor, um quente sorriso cruzou seu rosto. Ele desapareceu pela porta da frente, sem dizer uma palavra. — Ok, — eu murmurei. Virando, me dirigi através de um arco amplo e uma grande sala de estar. Andei por aí sem descansar até que, cansada novamente, sentei em um maciço sofá de couro. Minha mente foi imediatamente para o que ia acontecer a seguir. Nossos sete dias acabaram e eu não tinha dado uma resposta a Dez. Deixando cair minha cabeça, eu esfreguei atrás do meu pescoço. O desconforto em meu estômago era como veneno do pukwudgie, espalhando até um brilho de suor cobrir minhas palmas. Eu desejei poder me transformar para minha verdadeira pele e voar. As coisas sempre pareciam fazer mais sentido no ar, mas Dez, onde quer que ele estivesse, ia pirar. DC, bem como a cidade de New York, era abarrotava com vários demônios. E embora o crepúsculo ainda estivesse a horas de distância, seria arriscado... Desde quando eu tinha começado a me preocupar com o que Dez pensava? A resposta era óbvia. No mesmo momento em que ele voltou para minha vida. Minha cabeça estava pendurada molemente em meu pescoço. As palavras formaram em meus pensamentos antes que eu pudesse pará-las. Eu ainda estava muito apaixonada por ele. Durante os três anos em que ele tinha ido, aquele amor se transformou em um coração partido, mas nunca desapareceu. Um movimento no canto do meu olho pegou minha atenção. Levantando minha cabeça, eu aspirei surpresa. Parada na porta estava uma garota pequena, mal tendo um metro e meio. Ela não podia ter mais que treze anos. De novo, ela podia ser mais nova. Ela era tão pequena, e eu nunca tinha visto nada como ela antes.

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Cabelo que era tão loiro que era quase branco em camadas por cima dos ombros estreitos. Seus lábios eram muito cheios para o seu rosto redondo e seus olhos eram grandes e arregalados, como os das exóticas bonecas de porcelana que eu tinha visto em lojas antes, mas era a cor que era mais surpreendente. Eles eram de um cinza tão claro que eram quase sem cor. A vivida beleza não natural da garota a entregou. Ela tinha que ser o meio Guardião, meio demônio que Abbot tinha adotado, a garota que os rumores diziam que podia roubar as almas dos humanos e dos Guadiões simplesmente respirando. Ela era uma lenda urbana entre os Guardiões, sua existência não era algo que eu realmente acreditava; mas inferno, eu estava errada, porque aqui estava ela olhando para mim por entre uma porta. Meu batimento acelerou enquanto fiquei parada. Para humanos e Guardiões, morrer sem uma alma acabava do mesmo modo. Se converter em um fantasma, condenado pela eternidade, existindo entre o céu e o inferno, atormentado por uma interminável sede e fome que por último, se manifestava em um espírito vingativo e violento. A possibilidade de morrer sem sua alma não era algo para aceitar de ânimo leve, e eu queria sair desta sala. Estar perto de algo tão perigoso e mortal fez com que os minúsculos pelos por todo meu corpo se arrepiassem e fez minha pele humana se esticar. Ela avançou para a sala lentamente, como se estivesse esperando permissão. No silêncio, ela me olhou com curiosidade descarada. — Oi. Sua voz era suave e insegura. Eu não disse nada enquanto meu olhar caiu para a porta aberta. Eu poderia facilmente passar até ela. Ela não parecia como se pudesse levantar uma cadeira, mas com demônios, aparências podiam enganar. Olá, pukwudgie. — Você é Jasmine? — Ela perguntou, alcançando e pegando as pontas do seu cabelo pálido com seus dedos pequenos. Movendo ao redor do sofá, eu coloquei mais distância entre nós. Pareceu irreal estar me afastando de algo que parecia tão delicado, mas eu gostava da minha alma onde estava, em meu corpo. — Sou. Um sorriso largo eclodiu em seu rosto em uma exibição impressionante, e por um momento eu me perguntei se todos os rumores eram falsos, se talvez ela era metade anjo em vez de metade demônio. Mas não. — Eu sou...

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— Eu sei quem você é. A garota ficou pálida, combinando com a cor do cabelo na aspereza não intencional do meu tom. Ou talvez fosse intencional? Eu não podia entender por que Abbot permitiria que algo como ela andasse livremente pela casa. Olhos dela aumentaram ainda mais, assumindo um brilho antes que ela abaixasse seu queixo, soltando o cabelo e pegando o colar que usava, torcendo a corrente em volta de seus dedos. Uma pontada de vergonha me pegou, ardendo como um ferro quente. — Zayne e eu vamos comprar sorvete, — ela disse depois de alguns segundos olhando para o chão enquanto mudava seu peso ligeiramente de um pé para o outro. — Eu pensei que você gostaria de vir conosco. Minha boca abriu, mas não havia nenhuma palavra. Ela estava me convidando para ir tomar sorvete? Eu tinha escorregado em uma realidade alternativa. Antes que eu pudesse falar, um Guardião loiro entrou na sala, o seu sorriso fácil espalhando-se em um grande sorriso. Zayne, o objeto da paixão crescente de minha irmã. Eu não precisava perguntar por que Danika estava tão atraída por Zayne. Vestindo uma camisa cinza clara, ele era alto e construído como eram todos os Guardiões, mas ele era um espécime especialmente impressionante. Sua camisa agarrava-se aos músculos duros e uma cintura magra. Com a cabeça cheia de ondas loiras e salientes, seu rosto esculpido facilmente poderia ser confundido com o de um anjo. Zayne era divinamente lindo, mas meus olhos... bem, eles sempre estiveram focados em outra pessoa. — Eu procurei em todos os lugares por você, Layla. — Zayne caminhou até o meio-demónio, sem exibir medo algum e passou um braço ao redor de seus ombros, puxando ela para perto do lado dele. — Estou pronto se você estiver... — ele parou, seu olhar estreitando nela e depois virando na minha direção. Um olhar para mim e sua expressão mudou para compreensão. — Layla, por que você não vai me esperar na sala de espera? Ela levantou a cabeça e olhou para mim. Um pequeno sorriso apareceu em seus lábios e em seguida ela saiu em disparada da sala, deslizando tão rápido quanto uma sombra.

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Zayne virou para mim, pernas e ombros tensos, assim como Dez ficava quando ele estava zangado. — Layla não é nada parecido com o que você pensa ou já ouviu falar. Nem tive que perguntar como ele suspeitava que nosso pequeno encontro não foi agradável. O fato de que eu estava me escondendo atrás de um sofá como uma total idiota, parecendo como se eu quisesse voar fora da sala, provavelmente me denunciou. Ele me olhou com olhos pálidos e hostis. — Ela não vai te machucar. A ideia de machucar alguém ou alguma coisa nunca atravessaria seus pensamentos. Ficando vermelha como as raízes do meu cabelo, eu abri minha boca, mas ele me cortou. — Layla não é perigosa. — Seu olhar encontrou o meu, recusando-se a me permitir desviar o olhar. — Ela é mais Guardião do que demônio. Minha pele picou com um calor desconfortável. — Me desculpe. Eu só não esperava vê-la. Não pensei que ela era real. Ela não... ela não é uma ameaça? Zayne me encarou por um longo instante e então estourou uma respiração profunda. Quando ele finalmente olhou para longe, ele esticou a mão pelo cabelo dele. — A menos que você planeje beijá-la em algum momento, ela não é um perigo para você. — Beijá-la? — Isso é o quão perto você precisa estar para se preocupar em perder sua alma, — ele explicou. — Não é como se ela só precisasse respirar o mesmo ar que você. Ela precisa estar perto, bem perto. Bem, já que isso não estava nos meus planos futuros, concordei. Vergonha ainda queimava como uma chama dentro do meu peito. Deus, me senti uma cadela. Se ela tomava uma alma dessa forma... a pobre garota nunca poderia beijar. — Sinto muito mesmo. Ela parece ser... uma boa garota. Ela me convidou para tomar sorvete. Zayne não pareceu surpreso. — Os outros membros do Clã não querem ela na casa principal com as outras mulheres e crianças. É por isso que ela está aqui, na nossa sede, e não existem muitas mulheres que nos visitam aqui. Ela está animada para conhecê-la desde que soubemos que você viria com o Dez. Sim. Era oficial. Agora eu me sentia pior.

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— Eu disse a Dez que estávamos saindo. Ele disse que queria ir. Você é mais que bem-vinda para se juntar a nós, mas se disser alguma coisa ou agir em qualquer direção a Layla, mesmo que seja algo remotamente cruel... — Não vou falar nada, — eu disse rapidamente. — Adoraria me juntar a vocês todos. Ele assentiu com a cabeça um modo quase malcriado e virou. Me sentindo como um troll, suspirei e segui Zayne para o vestíbulo. Ele foi direto para onde Layla esperava no canto, tão incrivelmente pequena que se você não estivesse prestando atenção, não a teria visto pressionada contra a parede. Meu olhar seguiu o dela até onde Dez estava perto da porta. Alívio derramou no rosto de Dez quando ele olhou para mim. — Eu estava em uma reunião com Abbot. Eu teria vindo mais cedo se soubesse que você estava fora da cama e... — Está bem. — Sente-se bem para sair? — Estou me sentindo bem. Olhei para trás, para Layla. Curiosidade marcava o rosto dela. Havia também apreensão, como se ela esperasse uma resposta idêntica de Dez. Não poderia ser fácil sua vida entre os Guardiões. Eu sabia que a maioria tinha que se comportar como eu fiz. Simpatia levantou-se dentro de mim. Aquela garota não poderia ter tido uma vida fácil. Dez sorriu para a jovem e apesar de não atingir os olhos, ela sorriu de volta, esperançosa. Ele estava desconfiado, mas escondeu muito melhor do que eu. — Todo mundo pronto? — Enquanto Zayne falava, ele a alcançou, envolvendo sua mão muito maior ao redor da de Layla. — Sim. — Dez me olhou naquele jeito intenso dele, e por um momento esqueci minha reação embaraçosa. — Tem certeza? — Quando concordei, ele disse, — Estamos prontos. Um tipo diferente de calor inundou minhas bochechas quando dei uma olhadela de volta para Zayne e Layla. A garota estava olhando para o Guardião, sorrindo de uma forma que era dolorosamente familiar. Ela sorria do mesmo jeito que eu sorria quando via Dez – aquele sorriso de adoração e amor. Tinha algo incrivelmente triste sobre aquilo porque o óbvio amor

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que Layla tinha por Zayne, iria, não importava o quê, terminar em um doloroso coração partido.

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Capítulo 13 Nós todos encaramos Zayne em variados graus de fascinação mórbida, observando-o pegar alegremente um Twizzle de um saco que ele trouxe para a sorveteria estilo anos cinquenta e mergulhá-lo em seu sorvete de chocolate. — Isso é tão nojento. — Layla o observou, a colher dela pairando sobre a banana split dela. — Quero dizer, não existem palavras para isso. — O quê? — Zayne riu enquanto olhava para ela e segurava o chocolate coberto com o alcaçuz vermelho perto do rosto dela. — Apenas experimente. — Eca. — Ela se afastou, franzindo o nariz. — Afaste isso de mim. Do meu lado, Dez se inclinou para trás e riu. Já que ele já havia devorado seu cone, eu esperava que ele começasse a esfregar sua barriga. — Isso é nojento. Zayne zombou. — Tanto faz. É a melhor coisa do mundo.

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— Não é. — Layla disse, cavando ao redor das cerejas. — Você poderia experimentar batatinha chips ou batata frita como uma pessoa normal. — Qual é a graça em ser normal? — Zayne retrucou. Layla colocou sua colher para trás enquanto ele se inclinava e atirava uma cereja, jogando direto dentro da boca. Não havia dúvida em minha mente de que aqueles dois eram próximos, provavelmente tão inseparáveis quanto eu e Dez fomos. E assim como minha irmã mais nova e eu, Layla não tentava esconder o quanto o adorava. Quanto mais tempo eu passava na companhia dela, pior me sentia sobre como eu agi com ela mais cedo. Ela realmente era uma garota doce, e uma vez que ficou confortável ao redor de Dez e de mim, ela se abriu. A garota era corajosa. — Abbot me deixará frequentar a escola pública ano que vem, — ela nos disse. Animação faiscava em seus olhos estranhos e brilhava em seu largo sorriso. — Estou tão... — Eu acho que é uma ideia horrível, — Zayne cortou, lançando um olhar. — Você estará na escola durante o dia, quando a maioria de nós está descansando. Se algo acontecer, será malditamente difícil para qualquer um de nós responder... — Nada vai acontecer. — Layla rolou os olhos. — Além disso, você não pode continuar a brincar de ser meu professor. Há coisas melhores que você poderia estar fazendo. Dez franziu o cenho. — Zayne tem lhe ensinado? Ela assentiu enquanto apontava com a colher. — Sim, ele tem me ajudado com um terço do estudo em casa por computador e corrige meu trabalho, mas vamos lá. Sem ofensas, mas eu gostaria de uma educação de verdade. Zayne estava quieto, o olhar fixo nos velhos retratos dos antigos donos da sorveteria que adornavam as paredes. Era óbvio, pelo menos para mim, que ele não era um fã dessa conversa. Eu não sabia o que me deixava mais chocada: que Layla estava indo para uma escola pública ou que Zayne estava ensinando-a. Eu sabia que Zayne dissera que os outros Clãs não a queriam em suas casas com suas famílias, mas tinha que ter uma fêmea ministrando a educação dela. Alguém que olhasse além do que ela era. — Uma das fêmeas mais velhas não está lhe ensinando?

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Zayne coçou a bochecha, respondendo por ela. — A casa principal é fora da cidade, perto de Charles Town, onde as fêmeas e os mais novos estão. A maioria das fêmeas não viaja para cá, de qualquer forma, como eu disse. O que era normal. Era o mesmo para nós. Nosso clã tinha casas na cidade de New York, embora o local em que os guardas emparedados e as crianças viviam ficava várias horas ao norte. — Sem querer ser rude, mas por que Layla não está com elas? — Dez perguntou e eu estremeci. Layla riu. — Eu acho que eles se atirariam de cabeça pela janela antes de ficar sob o mesmo teto que eu. — Ela fez uma careta enquanto dava a última mordida em seu sorvete. — Obviamente, nenhum deles está disposto a me ensinar, mas Zayne não pode continuar a fazer isso, então Abbot cedeu e vai me deixar para uma escola pública. De todo modo, é uma coisa boa. Eu sorrio para ela. — Estou com um pouco de inveja. Eu amaria ir para uma escola pública. — É perigoso, no entanto. — Zayne se mexeu na cabine. — Você sabe como os demônios gostam de ir atrás de... — Não de mim, — Layla cortou. O sorriso sumiu de seu rosto enquanto ela olhava para a gente. — Abbot não acha que será perigoso para mim, mas honestamente, eu não sou um trunfo muito grande para o Clã ou algo assim. Eu sou meio que defeituosa. Minha boca caiu aberta, mas a reação de Zayne foi muito mais explosiva. Ele se virou para ela, olhos brilhando num azul esverdeado. Seus dedos seguraram o queixo dela, forçando que ela olhasse para ele, e se inclinou para frente, sua cabeça a algumas polegadas da dela. Sabendo o que Layla podia fazer, eu endureci, assim como Dez, que deve saber mais sobre sua habilidade do que eu quando a encontrei mais cedo. Zayne estava perto demais. E ele não parecia nem um pouco assustado. — Você não é defeituosa. Não há nada de errado com você. — Sua voz estava baixa, mas não havia erro no que ele disse. — Você me entendeu? Duas manchas vermelhas floresceram nas bochechas dela enquanto segurava seu olhas. — Sim, mas...

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— Não. É isso. — Ele afastou sua mão, mas não se afastou. — Juro por Deus, eu quero te estrangular toda vez que você diz algo assim. O rosa se espalhou pelo rosto dela enquanto seu olhar mudava para a gente de novo. — Eu não tenho baixa autoestima nem nada assim. — Ela disse baixo. — Eu realmente não tenho, mas eu não posso... — Ela respirou fundo. Eu não posso mudar. Desesperadamente, eu tentei manter meu rosto em branco e esperava que Dez estivesse fazendo mesmo. Se Layla não podia mudar, todos deviam suspeitar que qualquer prole dela poderia compartilhar o mesmo potencial... defeituoso. Nenhum macho iria querê-la. Não que eles pudessem realmente tê-la, mesmo que ela quisesse algum. Eu apertei minhas mãos até que senti minhas unhas apertando contra minha carne. Às vezes eu odiava nosso mundo, e se tornou difícil demais justificar as razões de por que as coisas eram como eram. Todos nós, por experiência própria, tínhamos nossos deveres para um bem maior, mas... Mas isso era uma droga total. — Então... — Zayne empurrou a palavra, limpando sua garganta. — Como está Danika? A mudança de assunto me pegou fora de guarda. — Ela está indo bem. Ela quer que eu te diga que ela disse oi. Dez bufou. Sem dúvida se lembrando do verdadeiro pedido de Danika, o qual envolvia uma foto e um Zayne pelado. Chutando-o por debaixo da mesa, lancei um olhar para Layla, que estava atentamente estudando sua tigela vazia, como se tivesse as respostas da vida. Essa poderia ser uma conversa melhor para Zayne, mas não era para ela. O rosa fora completamente drenado da compleição dela. Por mais que eu quisesse que minha irmã fosse feliz, e o bom Deus sabia que ela seria feliz com Zayne, meu coração doeu pela menina sentada na minha frente. Ela não poderia ficar com um Guardião. E ela não poderia ficar com um humano sem colocá-lo em perigo. Isso a deixava apenas com os demônios, o que estava completamente fora de cogitação. Layla tinha apenas um futuro de solidão em sua frente.

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— Ela ainda está treinando luta? — Zayne perguntou, completamente obvio como os caras eram. Eu queria chutá-lo agora porque com cada pergunta que fazia, Layla ficava mais e mais quieta. E na hora que Dez sugeriu que ele e eu checássemos a cidade, a jovem garota tinha seu rosto praticamente dentro da tigela. Nós dissemos tchau e andamos para a porta. Pisamos do lado de fora num ar de começo de noite e a brisa morna levantou o cabelo que emoldurava meu rosto. O vento carregava um cheiro estranho, um cheiro doce almiscarado que me lembrava de chocolate e de coisas pecaminosamente perversas que eram feitas pela noite, entre lençóis suaves. Uau. O pensamento veio de lugar nenhum. Minhas bochechas aqueceram enquanto Dez parava e olhava para baixo, para mim. Suas sobrancelhas erguidas. — Você está bem? Eu saio do tráfego da calçada e fico do lado de uma árvore de cereja florescendo. — Sim. — Tem certeza? — seus dedos afagaram minha bochecha. — Você parece corada. Podemos voltar se você precisa descansar... — Eu não preciso descansar. — Me aproximei dele, inclinando minha cabeça para trás. — Estou bem. Ele me encarou por um momento antes que eu abaixasse seu queixo, trazendo seu rosto para perto do meu. — Eu sei que nossos sete dias estão acabando, mas estou feliz por ajudar você com as condições, de qualquer forma. Podemos fazer o que você quiser, mas eu não posso suportar essa coisa toda de caçar demônios. Eu abri minha boca, mas ele se apressou. — Sinto muito. Eu sei que é o que você pediu, mas acreditando ou não, você não está totalmente bem. E depois de ver o quão machucada você estava de uma pequena mordida, eu não posso ficar parado e deixar você se colocar em perigo apenas para provar algo. — Eu sei. Eu não tenho nada a provar. — No momento que essas palavras saíram da minha boca, sabia que elas eram verdade. O que caçar demônios faria por mim? Eu lutei contra os Terriers e tive um encontro quase fatal com um

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pukwudgie. Eu diria que isso foi a gama das experiências com demônios. E honestamente, eu não me importava com as estupidas condições agora ou em até mesmo ver a cidade. — Acho que precisamos... Um doce e pesado cheiro atingiu meus sentidos novamente. — Que cheiro é esse? Eu me virei, meu olhar passando pelas pessoas e para a fachada de vidro da sorveteria. Eu podia ver Layla e Zayne lá dentro, ainda sentados um do lado do outro. O amplo sorriso estava de volta no rosto dela, enquanto ela ria de algo que Zayne disse. — Você não sente esse cheiro? — Não. — Dez colocou uma mão sobre meu ombro. — Tudo o que eu cheiro é escapamento e humanos. Eu franzi a testa. O estranho e agradável odor era mais forte que esses elementos. Como ele podia não sentir isso? Balançando minha cabeça eu comecei a me virar para Dez quando meu olhar pregou em algo. Eu não sabia o que tinha no garoto que capturou meu olhar, mas uma vez que o vi, não podia afastar o olhar. Ele estava encostado contra a parede de tijolos da sorveteria, apenas seu perfil visível. Ele era alto, mais alto que Dez e Zayne, mas não tão largo. Não havia dúvida de que seu corpo não era nada mais que músculo, poderoso e puro. A camiseta preta que vestia revelava a rígida força de seus braços, mas foi a tatuagem que prendeu minha atenção. A imagem era de uma cobra, mas... cada ondulação da pele havia sido sombreada para que realmente parecesse tridimensional, o baixo ventre cinza e as escalas definidas. Parecia real, como se uma grossa cobra tivesse rastejado pelo corpo do garoto e se enrolado em seu braço. O cabelo artisticamente bagunçado era tão escuro que refletia azul na luz do pôr do sol. A sobrancelha que eu podia ver estava arqueada, como se ele desfrutasse de uma piada particular. Embora não pudesse ver seu rosto totalmente, os altos ossos da bochecha e os lábios inclinados estavam em um rosto que eu sabia que seria bonito, bonito

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demais. Como as figuras dos anjos caídos nos livros que meu pai mantinha na sua biblioteca. De alguma forma, eu sabia que o odor vinha dele. E eu também sabia que ele estava observando Zayne e Layla — isto é, a observando. Arrepios atravessaram minha espinha enquanto o corpo do garoto se virava para nós, o irônico torcer de seus lábios se espalhando. Minhas entranhas se apertaram enquanto eu levantava meu olhar. Dois olhos da cor de âmbar polido trancados com os meus. Eu suguei uma respiração assustada e me movi para perto de Dez. Os olhos! Não havia dúvida do que o garoto era. Apenas uma coisa nesse mundo tinha olhos dourados assim. Meu estômago caiu e meu coração acelerou. Ele era um demônio de Nível Superior.

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Capítulo 14 No instante que o pensamento atravessou minha mente, Dez havia se movido de forma que eu fiquei atrás dele e ele estava entre o demônio e eu. Meu coração acelerou contra meu peito dolorosamente. Por quanto tempo ele esteve ali, nos observando? Isso era um dos vários problemas com os demônios de Nível Superior. Eles podiam encobrir a presença para que não possamos senti-los, dandolhes a vantagem. O fato de eu ter percebido o odor havia sido algo raro, e muito provavelmente ele me permitiu senti-lo. Eu não sabia o porquê. — Saia daqui, Jasmine. — A voz de Dez estava baixa e forte. — Vá agora. De jeito nenhum eu ia a qualquer lugar sem ele. Eu enrolei minhas mãos na parte de trás de sua camiseta.

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— Eu não vou te deixar aqui. Dez praguejou. — Vá. Por favor, Deus, vá. — Por favor, Deus? — o demônio se moveu em nossa direção, inclinando sua cabeça para o lado. Eu estava certa sobre sua beleza. Era irreal. Assombrosa em sua pura perfeição. — Você está esperando uma resposta? Porque estou disposto a perder um membro e dizer que ele provavelmente não está ouvindo. Os músculos abaixo de minhas mãos ficaram tensos enquanto Dez respirava fundo, mas antes que ele pudesse falar, o demônio riu sombriamente enquanto vagava em nossa direção, sem se preocupar com quem estivesse passando no caminho. E ele nem precisava. Humanos pareciam sentir que qualquer contato seria, provavelmente, o último. Ele dividiu a multidão da calçada como uma versão distorcida de Moisés, parando diretamente em nossa frente. Ele não parecia mais velho que eu, mas havia uma sofisticação na forma como ele se mantinha, no estranho brilho de seus olhos. — Eu acho que sua amiguinha não vai a lugar algum, — ele falou, os olhos ambares brilhando levemente enquanto se inclinava para o lado. Ele acenou para mim. — Oi, você. Dez se moveu, me bloqueando. — Olhe para ela mais uma vez e eu vou arrancar a sua cabeça do seu pescoço. — Tsk, tsk, não é assim que se fala com um estranho. — Um lado de seus lábios se ergueram. — Tão rude. As pessoas estavam começando a nos observar. De jeito nenhum essa situação ia acabar bem. Eu já podia sentir o cheiro de sangue no ar. — Eu não estou brincando com você. — As mãos de Dez se fecharam em punhos. — Isso é bom, porque você é a última coisa com que eu quero brincar. Dez se moveu para frente, ficando cara a cara com o demônio. Um tremor atravessou por suas costas. Ele estava a segundos de se transformar. — Oh, eu não tentaria isso, você, rejeitado pela divindade. — O sorriso confidente permaneceu fixo no lugar. — Você fica todo Guardião comigo e então eu vou ficar todo demônio mau com você, e então oops. — Seus olhos se arregalaram. — Todos os pequenos humanos no mundo saberão que não estão sozinhos. E eu

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não me refiro a E.T.’s. A menos que aquelas criaturas verdes fossem realmente demônios. Por um segundo, pensei que Dez estava prestes a jogar tudo para o alto e perder totalmente a cabeça bem ali e o sorriso do demônio aumentou para níveis épicos. Ele abriu seus braços e curvou seus dedos para trás num sinal universal de ‘Pode vir.’ Cruzando o lado do bíceps do demônio, a tatuagem subitamente se moveu, as escamas deslizando sobre sua pele enquanto a cauda desaparecia sob a manga de sua camiseta preta. Ao redor do pescoço do demônio, tinta preta se espalhou e a cabeça da cobra apareceu. Um olho vermelho brilhando como um rubi se focou bem em nós. O que no maldito inferno? Dez grunhiu baixo em sua garganta. — Você não tem ideia do quanto eu quero acabar com você. — O que está lhe impedindo? — o demônio falou de volta. Ele estava propositalmente antagonizando Dez. Ele queria ser exposto? Eu não sabia o que aconteceria se isso ocorresse, mas eu tinha muita certeza de que provavelmente envolveria a aniquilação de ambas as raças. Mas esse momento me envolvia mais em um nível pessoal. Um demônio de Nível Superior havia matado minha mãe e, por mais forte e ardiloso que Dez fosse, ele poderia perder nessa. Eu não podia ficar ali, acovardada, e não fazer nada. Eu não era mais uma garotinha. Eu reuni minha coragem e segurei apertado o braço de Dez. — O que você quer? — Ela fala? — o demônio riu. — E aqui estava eu pensando que todas as Guardiãs femininas eram incapazes até mesmo de formar um pensamento sem o auxílio do homem. — Como é? — A descrença deu lugar à raiva. Dez levantou seu braço, me impedindo de rodeá-lo. — Eu lhe darei cinco segundos para dar o fora daqui. O demônio ficou lá, parado, enquanto várias batidas de coração passavam. — Cinco minutos se foram. Próxima ameaça? — Não é que você é um espertinho? — Dez cuspiu.

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— Entre muitas e muitas coisas. — O olhar do demônio parecia encontrar a única e pequena parte de mim visível atrás de Dez. Ele suspirou enquanto seu olhar suavizava. — Eu não tenho problema com vocês dois, então... tanto faz. Tanto faz? Eu ouvi direito? O demônio de Nível Superior piscou um olho de cor âmbar e se virou. Lançando um último e rápido olhar para dentro da sorveteria, ele andou para longe, murmurando sob sua respiração. A melodia remexeu em minha memória. — Paradise City? — Eu disse estupidamente, me movendo para o lado de Dez. — Ele está murmurando uma música de Guns N’ Roses? Dez não respondeu, e eu nem mesmo sabia por que estava interessada na música. Talvez fosse o choque de estar perto assim de um demônio de Nível Superior e o ouvir dizer que ele não tinha “problema algum” conosco. Ele tinha se afastado. Ele havia ido embora enquanto o demônio que matou minha mãe não tinha feito isso. Eu não fazia ideia do que tinha acabado de acontecer. Engolindo em seco, olhei para Dez. Seu corpo estava tremendo pela quantidade de controle que precisava para ficar onde estava. A pequena multidão que havia começado a se reunir se dissipou quando perderam o interesse, mas alguns humanos, alguns que eram claramente observadores, estavam começando a nos observar mais atentamente. — Dez? — Eu coloquei minha mão ao redor de seu antebraço, sentindo a tensão em seus músculos. — Você irá atrás dele? — Eu deveria, eu preciso ir. O “mas” não falado era o qual todos os Guardiões, não importava o quão irritadiços eles estavam ou o quão grande eram seus egos, sabiam que era melhor não tentar nada sozinho com um demônio de Nível Superior, mesmo um que havia virado as costas. Dez soltou um palavrão antes de finalmente olhar para mim. — Eu preciso avisar a Zayne. — Certo. — Eu comecei a me afastar e então apertei mais seu braço. — Espera. — O quê?

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Respirei fundo. — Eu não sei, mas pareceu que ele estava observando-os, observando Layla. Dez olhou através da janela para onde os dois estavam sentados. — Se assim for, isso não é bom. Isso não é nada bom. Dez afastou Zayne enquanto eu esperava com Layla, e contou sobre o que havia acontecido do lado de fora da sorveteria. No momento que Dez falou da minha suspeita sobre o que o demônio de Nível Superior estava fazendo, Zayne quis levar Layla para casa. Nada foi dito para ela sobre por que estávamos todos voltando para o complexo e ela não parecia suspeitar de nada quando Dez desapareceu com Zayne para falarem com Abbot. Eu segui Layla pela escada até seu quarto. O quarto era uma bagunça. Livros cobriam o chão. Meias sem par espiavam de seu guarda-roupa e por embaixo de sua mesa, mas o quarto estava repleto de tudo o que uma garota ia querer, um laptop, uma escrivaninha, um som, uma televisão imensa e um armário transbordando de roupas. No canto, uma grande casa de bonecas feita à mão estava perto das portas da varanda e, na cabeceira da cama, aninhado entre um enorme amontoado de travesseiros, estava um ursinho Teddy que parecia já ter visto dias melhores. Layla se jogou na cama e saltou uma vez antes de cruzar suas pernas. Pairando perto da porta, eu não podia fazer mais do que imaginar por que o demônio estivera tão interessado nela e no Zayne. — Está tudo bem, — ela disse, descansando seu queixo em suas mãos. — Você não tem que ficar comigo. Eu pisquei. — Sinto muito pela forma como agi na primeira vez que te vi. Ela deu de ombros. — Não é grande coisa. Mordendo o lábio, eu me uni a ela na cama. — Você passa muito por isso? Layla riu suavemente. — Toda hora. Eu não posso culpar aqueles que reagem dessa forma. Eu sou metade demônio. — Mas você é tão... — Qual era a palavra? — Legal? — ela respondeu e então riu. Eu sorri enquanto ela jogava seu cabelo sobre seus ombros e começava a enrolar uma mecha. Danika fazia a mesma coisa. — Posso lhe perguntar uma coisa? Eu trouxe os joelhos até meu peito. — Claro.

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— Você e Dez serão emparelhados? — Ela pausou. — Desculpa. Isso provavelmente não é da minha conta. Eu só ouvi tanto de alguns caras falando que fiquei curiosa. Abbot está sempre falando sobre emparelhar e eu odeio a palavra. É tão... eu não sei. Ele não pode simplesmente dizer casar? Ele quer que Zayne emparelhe com Danika. Ele fala sobre tudo isso... — Ela parou e um tom rosado cruzou suas bochechas. — De qualquer forma, é isso o que vocês dois irão fazer? — Eu... — Eu com certeza não estava esperando essa pergunta. Minhas bochechas se aqueceram enquanto eu focava numa estante cheia de livros. — É complicado. — Complicado? — Seu rosto se torceu pensativamente. — Você quer emparelhar com ele? Pois se você não quiser, você pode dizer não, certo? É assim que funciona. — Sim, mas eu... eu não sei. Ela soltou o cabelo e os cachos se desfizeram lentamente. — Você o ama? Uma aflição atingiu meu peito e a resposta estava bem ali, na ponta da língua. Em vez disso, algo totalmente diferente saiu. — Eu sou apaixonada por ele desde criança, mas ele... ele me deixou e só voltou agora. — Eu não podia acreditar que estava falando isso para uma garota de treze anos de idade, mas minha boca não parava. — E durante três anos, eu aceitei que nunca o veria novamente, e emparelhar se tornou algo que eu nem pensava mais. Eu não estava preparada para ele aparecer do nada, de volta em minha vida. Eu não sei se estou pronta para tudo o que vem junto com isso. — Deve ser chocante, ele voltar desse jeito. — Layla deslizou para mais perto e baixou sua voz. — Ele se importa com você, ele te ama. Eu olhei para ela bruscamente e descobri que não conseguia dizer nada. — É a forma como ele olha para você. Ele observou você por todo o tempo em que estivemos fora e no caminho de volta. Mesmo quando ele saiu com Zayne, ele estava cuidando de você. Isso é... romântico. Eu me afastei, surpresa. — Ele nunca disse a palavra. — Você disse? — Não.

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Layla riu. — Então por que ele deveria ser o primeiro? Quero dizer, vamos ignorar toda a merda de emparelhamento. Ele é alguém que você quer? Você ainda o ama? — Ela perguntou, seu tom urgente. — Você ama? — Sim. — Eu sussurrei a palavra, com medo de que seria alto demais, mas droga, já foi. Uma vez que algo era falado, era verdade. Sem volta. — Então ai está sua resposta, porque isso parece ser a coisa mais importante. Quero dizer, se ele te ama e você o ama, ele irá esperar e tudo dará certo. Eu olhei para ela, exalando lentamente. Eu ainda não podia acreditar que estava falando com ela sobre isso, mas a garota, não importava o quão nova era, estava dizendo coisas realmente espertas. — Você realmente acha isso? — Sim. — Os lábios de Layla se curvaram e, mais uma vez, eu estava paralisada por seu sorriso. — Nada nesse mundo é mais forte do que o amor. Isso deveria ser sempre o suficiente, não importa o quê.

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Capítulo 15 Pressão desceu pelo meu peito e uma bola se formou em minha garganta. Havia tantos nós em meu estômago, ameaçando me sufocar. Eu tenho atravessado a extensão do meu quarto desde que voltei do quarto de Layla. Meus pensamentos estavam em todo lugar, o que fez impossível ficar sentada quieta. Eu não podia parar de pensar em Layla e no fato de que ela nunca poderia conhecer o amor, não inteiramente, não como eu iria um dia, independente do que eu decidisse. Ela nunca poderia verdadeiramente ficar íntima de outra pessoa. Ela nunca poderia beijar. O amor foi proibido para ela e isso era tão injusto. E eu não podia parar de pensar no que ela disse. Amor seria sempre o suficiente, não importa o quê. E eu amo Dez. Eu estava apaixonada por ele. Eu não sei o que exatamente tinha feito minha cabeça. Havia um monte de coisas para as quais eu não estava pronta, mas havia uma coisa que eu estava.

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Passos no corredor capturaram minha atenção. Coração martelando no peito, eu congelei e então me apressei para frente, correndo para a porta. Colocando minha cabeça no corredor, eu vi Dez. Ele parou, surpreso. — Ei. — Eu estava...estava esperando por você. — Deus, eu soei como uma idiota. Comecei a recuar enquanto ele entrava no meu quarto. — O que Abbot disse sobre o demônio? — Ele está preocupado. É anormal um demônio de Nivel Superior não fazer nada além de jogar conversa fora e então ir embora. Eles vão sair para caçá-lo hoje à noite. — Ele fechou a porta e se inclinou contra ela, cruzando os braços. — Obviamente, o idiota está armando alguma coisa. Eles querem descobrir o quê. — Você vai sair com eles? — Eu deveria, mas eu pensei que antes que ficássemos ocupados, você gostaria de conversar. E agora, isso é mais importante. Enquanto suas palavras se estabeleciam, eu percebi que ele estava me colocando antes do dever. Ele tem feito isso por sete dias. Cuidando de mim. Brincando de babá. Seguindo-me enquanto eu fazia um monte de nada, e ele não havia reclamado nenhuma vez. Até mesmo se divertiu porque ele... ele estava comigo. Erguendo o meu olhar, eu mal podia falar com meu coração acelerado. — Eu queria dizer que esses...esses sete dias foram maravilhosos. — Incluindo Herbert? Eu ri. — Incluindo Herbert. Dúvida atravessou suas características marcantes. — Mesmo que você não tenha visto DC ou caçado um demônio? — Eu estava lhe dizendo a verdade. Essas coisas não importam realmente. — Eu parei, respirando fundo. — Espera. — Ele levantou a mão, esticando o tecido de algodão da camiseta. — Antes de você me dizer o que está prestes a me dizer, eu preciso te falar uma coisa. — Mas como você sabe o que eu vou te falar? Ele riu secamente. — Eu sei, Jas.

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Havia tão grande resignação em sua voz que eu endireitei meus ombros. — O que você quer me falar? — O que eu devia ter falado na primeira noite que voltei. — Ele inclinou a cabeça para trás, contra a porta. Vários segundos se passaram. — Eu deveria ter me despedido, mas não o fiz. Isso foi um engano enorme, um que eu não posso consertar. E eu sei que cometi outro erro por não ser honesto com você quando voltei. Eu apenas não queria que você soubesse a verdade. Aquelas palavras eram proibidas. — A verdade sobre por que você partiu? Ele assentiu. Um arrepio atravessou meus ombros. — Bem, se você não queria que eu soubesse, eu tenho certeza que posso imaginar. Quero dizer, você tinha dezoito anos, então eu assumo que estava fazendo suas coisas. Dez abaixou seu queixo e se afastou da porta. — Minhas coisas? Havia uma nota de alerta em sua voz. Às vezes eu precisava apenas calar a boca. Esse era um desses momentos. É claro que minha boca continuou se movendo. — Bem, você sabe. Se envolvendo com pessoas. Vivendo intensamente. Transando. Tanto faz. — Você está falando sério? Eu estremeci. — Não houve nenhuma mulher em que eu tenha pensado, muito menos que quis me envolver. — Ele disse. — O que eu fiz quando parti não envolveu nada disso, Jasmine. Eu pensei sobre a noite no hotel e meu corpo aqueceu. Ele tinha que ter experiência, muita experiência. — Eu não estive com ninguém durante aquele tempo. — Ele adicionou. Eu bufei — É, eu não sou estúpida, Dez. Raiva atravessou seu rosto enquanto ele andava em minha direção. — Há um monte de coisas que você pode falar sobre mim, mas eu nunca menti para você. Eu não estou mentindo agora. Eu permaneci fiel a você! Todo esse tempo! Não houve ninguém mais! Eu abri minha boca para responder, mas suas palavras afundaram através da raiva e da confusão. Meu coração estava como um balão lutando para flutuar para longe.

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— O-o quê? Dez me encarou, seus olhos agora faiscando um brilhante azul. Dois círculos rosados apareceram em suas bochechas e então ele afastou o olhar, passando uma mão pelo seu cabelo. — Eu não estive com ninguém, Jasmine. Não desse jeito. — Por quê? — Eu soltei a pergunta antes que pudesse me impedir, e então o olhar que ele me deu dizia que ele se perguntava qual era o meu problema. Mas eu não podia entender que ele não esteve com ninguém, nenhuma outra mulher da nossa espécie e nem humana. Não era como se ele não chamasse atenção. Mulheres iriam cortar suas pernas esquerdas para estar com ele. Ele expirou um longo suspiro enquanto abaixava sua mão. — Eu não podia. — Você não podia? — Eu me aproximei dele. — Não. Isso não teria sido certo. Eu parei, segurando minhas mãos apertadas contra meu peito, como se eu pudesse impedir meu coração de pular para fora. — Só por que emparelhar comigo é um dever, ou... — Não coloque palavras em minha boca. — Ele se aproximou mais, parando bem na minha frente. O ar parou em meus pulmões enquanto ele abaixava a cabeça, sua boca a centímetros da minha. — O que há entre nós não tem nada a ver com dever ou com uma obrigação de acasalar e procriar. É apenas sobre nós dois. Meus olhos se arregalaram. — É? Ele colocou uma grande mão sobre minha bochecha. — Eu não estava com ninguém por não poder. Eu não estava porque não queria estar, porque eu sabia que voltaria para você. Nunca houve dúvidas em minha mente. — Nunca? — eu sussurrei. — Nunca. — Ele encostou sua testa na minha e respirou instavelmente. Seus lábios roçaram minha bochecha, gerando um arrepio através de minha pele. — Eu te amei na noite que você me levou pudim e ficou comigo até eu cair no sono. Isso foi há onze anos e meu amor por você nunca diminuiu, Jas. Nem por um segundo. Oh, Deus, meu coração escapou, flutuando para o teto, lá em cima para as estrelas, mas eu não entendia.

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— Então por que você me deixou sem dizer nada? Nem mesmo uma despedida? Ele fechou seus olhos, espalhando suas mãos em ambos os lados do meu pescoço. — Eu precisava encontrar o demônio responsável pelo ataque do meu clã, por matar meus pais. Atordoada, eu me libertei, a parte de trás das minhas coxas batendo no lado da cama. — Você foi atrás do demônio? Ele abaixou suas mãos. — Eu segui passos, rastreei o bastardo pelo país todo. Ele deixou a Califórnia por um tempo, mas foi onde eu finalmente o encontrei. Apertando minhas mãos contra meu peito mais uma vez, eu respirei fundo. — E você o confrontou? — Eu o matei. Meu cérebro havia parado de funcionar. Ele passou três anos rastreando o demônio responsável pelo massacre de seu clã? As palavras do meu pai faziam sentido agora. Papai sabia o que Dez estava fazendo. — Por que você não me contou? — Eu perguntei. Um leve sorriso apareceu. — Você tentaria me impedir. — Malditamente certo que eu iria. — Por alguma razão estúpida, eu queira chorar. — Você podia ter morrido! — Eu poderia morrer qualquer noite, Jas. — Mas isso foi diferente — Você estava fora por conta própria. Ninguém estava com você. — Lágrimas queimaram a parte de trás dos meus olhos, o que era estúpido, pois ele obviamente não estava morto. Ele estava parado bem na minha frente. — Por que você precisava fazer isso? O sorriso sumiu, como se nunca tivesse estado lá. — Você sabe como eu era. Tal repleto de ódio e raiva. Eu precisava limpar isso. — Ele rodeou minhas bochechas. — Eu sabia que se eu te dissesse que estava partindo e se você me dissesse para não ir, eu não conseguiria. Eu queria empurrá-lo para longe e queria agarrá-lo e puxá-lo para mais perto. Para sempre. — Meu pai sabia? — Sim. — Ele pressionou seus lábios em minha testa. — É por isso que eu nunca te liguei ou te falei quando eu voltei. Não é uma desculpa boa o suficiente,

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é uma desculpa de merda, mas eu sabia que você ia querer que eu parasse...e que uma vez que você soubesse o que eu estava fazendo, você pensaria de forma diferente em mim. Eu pisquei minhas lágrimas estúpidas. — Foi uma desculpa de merda, você poderia ter me ligado. Você não fazer isso me fez pensar diferente em você. Não porque você queria vingança pelo assassinato de seu clã. Você é um idiota. — Eu ri por não saber mais o que fazer. — Por três anos eu pensei que você fugiu para escapar de mim. — Deus, eu odeio que você tenha pensado isso, — ele disse. — Você apenas era tão forte. Você perdeu sua mãe. Você a viu morrer, mas você se fortaleceu por isso. Você não deixou o ódio te engolir. Eu teria deixado. Eu não estou orgulhoso de admitir isso, mas... Minhas mãos tremiam enquanto eu as envolvia em seus pulsos. — Mas o quê? — Mas quando o seu pai anunciou suas intenções sobre nós, eu sabia que tinha que me purificar da raiva, porque amar você... amar você era agridoce, — ele sussurrou com os meus lábios. — Porque eu sabia que se não fizesse isso, se eu não me livrasse de todo o ódio, eu nunca seria o parceiro que você merece. — Dez. — Minha respiração prendeu. — Eu... — Eu sei que é provavelmente muito pouco, e muito tarde. — Ele me beijou suavemente, apenas um roçar de lábios, e então se afastou, seus dedos trilhando meu rosto. — Mas o que eu lhe disse é verdade. E como eu disse antes, vou esperar. Não importa quanto tempo leve para provar que eu te amo, eu vou provar. Tanta coisa passava pela minha cabeça que demorou um momento para processar tudo. — Tarde demais? Dez, não é tarde demais. Deus, nós dois fizemos uma bagunça. Ele abriu sua boca, a fechou, e então abriu novamente. — O que você está dizendo? Havia tanta coisa que eu estava tentando dizer para ele, mas palavras, ou falta delas, havia sido nosso problema esse tempo todo. Ou não estávamos dizendo um ao outro o que estava realmente acontecendo ou estavam falando tudo errado. Palavras eram uma merda às vezes.

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Então eu fiz algo que ambos iriamos entender. Eu atravessei a pequena distância entre nós e coloquei minhas mãos sobre seu peito. Ele me olhou atentamente enquanto eu me esticava para cima. Deslizando minhas mãos para cima por seu peito, eu circulei meus braços ao redor de seu pescoço. Ele estremeceu por um instante antes de pressionar meus lábios contra os seus. Eu derramei tudo o que eu queria falar, e deveria ter dito, naquele beijo. Eu o puxei para mais perto, respirando-o quando ele respondeu, quando ele levou o beijo para um nível mais profundo, roçando a sua língua na minha, bebendo de mim. — Eu te amo, — eu arfei. Suas mãos pararam em meu quadril. — Diga isso de novo. — Eu te amo. — Mais uma vez. Meus lábios se inclinaram para cima. — Eu te amo, Dez. E isso foi tudo o que eu disse. Dez me beijou, e aquele beijo, aquele beijo me arrasou. Era tudo o que eu sentia sendo devolvido para mim. Suas mãos deslizaram pelas minhas costas e seus lábios se apertaram apenas o suficiente para ele dizer meu nome e eu sabia que aquele som iria ficar comigo pelo resto dos meus dias. Nós acabamos na cama, nossos membros entrelaçados, nossos corações acelerados em nosso peito. Eu não lhe disse sim. Ele não perguntou. Não precisava ser dito. Pois eu tinha sido dele e ele tinha sido meu desde sempre, e um dia nós iriamos fazer a promessa de toda vida um para o outro. Quando ambos estivéssemos prontos. E enquanto isso era uma tradição antiga, nenhum de nós se importava. Por que no momento, enquanto seus lábios se moviam contra os meus e ele me pressionava mais perto de seu corpo, eu me senti do jeito que sentia quando eu voava sobre as montanhas da minha casa. Durante os preciosos segundos em que eu estava em queda livre e não havia nada além da sensação de pressa, de não ser capaz de formar um único pensamento ou respirar. Nos braços de Dez, eu havia encontrado o que procurava por todas as noites que eu ia para os céus. Eu estava livre.

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Eu estava em casa.

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Jennifer l armentrout dark elements #0 5 bitter sweet love [revisado]  
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