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NĂšMERO

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dezembro de 2017


editorial

Esta edição de Jornalsemnome é constituída por trabalhos de alunos do professor Miguel Teixeira, elaborados a partir de temas propostos pelo professor para reflexão. A primeira parte aborda a temática do destino n’Os Lusíadas, questionando alguns pontos de vista comummente aceites. Uma segunda parte, na linha do que tem vindo a ser publicado anualmente, tem como título “A morte do Rei”, desenvolvendo pontos de vista que evidenciam uma reflexão sobre o regicídio que pondera questões éticas e valoriza a simbologia que envolve a figura do Rei.

Colaboradores Ana Sofia B C V Lopes Armando Sobrinho Assembleia Bernardo Lucas Jesus Raimundo Bernardo Sousa Bowley Novaes Bruno Filipe Ferreira Ribeiro Catarina Antunes Mantas Daniel Filipe Gomes Rocha Daniela Isabel Graça Nunes Diogo Miguel Marques

Logotipos André e Joana

Equipa responsável

Mariana Bico

Alexandra Cabral Miguel Teixeira Paula Barros

Matilde Vargas Prazeres Miguel Alexandre C. Oliveira

Coordenação

Miguel Teixeira

Alexandra Cabral

Pedro Teixeira Simão Rodrigues

jornalsemnome@gmail.com Associação de Pais e Encarregados de Educação dos Alunos da Escola Secundária du Bocage http://apesbocage.blogspot.pt/ https://sites.google.com/site/apesbocage/ Novo email da associação 2


Os Lusíadas e o destino

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« oda a obra de Camões corrobora esta forma mentis. Toda, exceto Os Lusíadas.», escreve Maria Vitalina, defendendo a existência do ideal de livre-arbítrio em Os Lusíadas. Pareceme difícil, estranho no mínimo, que um dos mais cultos poetas e homens portugueses, tendo vivido no século XVI, tenha passado a maior parte da sua vida com uma conceção de destino, própria da sua época, e que tenha decidido, por fim, que afinal o homem não está subjugado a um Destino, apenas dependendo de si o seu sucesso ou insucesso, a sua glória ou fracasso. Acontece que ideias como esta são explicitamente contrariadas tanto em Os Lusíadas como pelos contemporâneos de Camões. Veremos então como esta suposta libertação camoniana da Fortuna nos é apresentada pela professora Maria Vitalina Leal de Matos nos seus Tópicos... Ora, um troço de Os Lusíadas, entre as estrofes 95 e 99 do Canto VI, é o que nos é indicado como ponto de partida para esta "tese". A professora, daí, deduz erradamente a autodeterminação do homem, que, vencendo os “appetitos”, se torna capaz de “buscar, co seu forçoso braço, / As honras que ele chame próprias suas” (est. 97). Explicarei a tempo o porquê de esta ser uma dedução errada. De seguida, Maria Vitalina faz uma tentativa de contextualização e identificação desta "libertação do Destino" com a “cultura do tempo”. Entre as referências dadas sobre a matéria destaca-se a de Pico della Mirandola e o seu Discurso sobre a Dignidade do Homem. Contudo, infelizmente para a tese da nossa amiga, acontece que a liberdade em Pico é bem diferente do que Vitalina faz entender. Numa passagem, Pico, imaginando o que terá Deus dito a Adão quando o criou (e repare-se aqui em quem profere estas palavras), escreveu: “Não te fizemos celeste nem terreno, nem mortal nem imortal, a fim de que tu, árbitro e soberano artífice de ti mesmo, te plasmasses e te informasses, na forma que tiveres seguramente escolhido. Poderás degenerar até aos seres que são bestas, poderás regenerar-te até às realidades superiores que são divinas, por decisão do teu ânimo” (p. 53). Bem, este é um dos erros do argumento que Vitalina tenta construir. Note-se primeiro que, no excerto, ao criar Adão, Deus refere a finalidade com que o criou. Por si só, isso significa que o homem tem um fim, determinado por Deus – o Destino. Mas então onde está a liberdade no meio disto? A liberdade está na escolha que Deus deixa ao homem de ascender ao Divino, cumprindo o seu destino, ou de descer nessa escada metafórica da sua humanidade e juntar-se aos animais, ao nível do bestial. Repare-se agora que mesmo esta liberdade tem muito que se lhe diga, pois, tendo o homem descido até à besta, poder-se-á ainda falar em homem? Poder-se-á ainda falar em liberdade? Podemos dizer que criaturas como o cão, o cavalo, a galinha ou o porco são livres? (E mesmo as próprias águias, falcões ou albatrozes, serão livres?) Assim, a única liberdade que Deus dá ao homem é a de cumprir o seu Destino. O homem está, então, fadado a escolher. E é isso que o distingue dos restantes seres. O segundo ponto contra a tese vitalinícia está em Os Lusíadas, na intervenção dos deuses – que são responsáveis pelo sucesso ou insucesso, pela glória ou fracasso da armada portuguesa – na ação da empresa de Vasco da Gama. Essa intervenção mostra como, apesar da ascensão desses portugueses na escada da sua humanidade, e por mais que eles se esforcem e por mais trabalhos por que passem ou por mais nobres que sejam os seus corações e as suas vontades, a última palavra pertence aos deuses, ou, no nosso caso, a Deus. Concluindo, as palavras de Camões em Os Lusíadas nem sempre são de fácil interpretação e merecem, como têm merecido, alargado estudo. No entanto, a conceção de Destino de Luís de Camões é bastante clara e o que a professora Maria Vitalina pretende defender é impossível no século XVI, não tendo nada a ver com o que é defendido por Pico della Mirandola, nem com o conceito camoniano de liberdade. Simão Rodrigues

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Os Lusíadas e o destino

Destino N’ Os Lusíadas Compreender o destino é, por si só, uma tarefa

constituir o Quinto Império (6). Este não é apenas uma ideia juvenil de otimismo dos homens, pelo contrário, é algo a que estamos destinados, uma missão que está presente na nação portuguesa muito antes do desaparecimento de D. Sebastião em Alcácer Quibir, sendo que Camões, através da sua epopeia, não só enaltece aquilo que deverá ser realizado em ordem à sua realização, como condena os feitos que devemos abandonar para que o Quinto Império se torne possível. A viagem será bem-sucedida uma vez que o promete o «Fado eterno, / Cuja alta lei não pode ser quebrada» (I, 28). Maria Vitalina afirma, relativamente a uma época imersa num clima português puramente Cristão, que o homem se mitifica porque é consciente das suas dificuldades e reconhece a incerteza quanto ao futuro, afirma as suas capacidades humanas e redescobre o seu lugar no Universo, superando o destino. O que é importante fixar está baseado no argumento «Deus sabe de tudo, mas o homem não sabe, por isso é livre». Toda a liberdade é uma ilusão, em todos Os Lusíadas, uma vez que o Homem não é livre, apenas não sabe disso. No entanto, a intervenção dos deuses no desenrolar da ação, tal como nos poemas homéricos, é bastante discreta, pelo que ficamos com a ideia de que a liberdade do herói é salvaguardada: este pode discutir a vantagem ou desvantagem do conselho do deus que o protege(7). Podemos viver uma vida convictos de que somos livres, mas a verdade é que as nossas ações, que julgamos que tudo governam, são apenas um caminho sinuoso e comprido, com voltas e obstáculos, ou curto e simples, que sempre nos levará àquilo que não temos capacidade de renegar – o destino.

árdua e de extrema ambiguidade, que Maria Vitalina Leal de Matos vem, por meio de toda a ingenuidade e ignorância que caracterizam as suas interpretações em relação à obra de Camões, Os Lusíadas, tornar ainda mais complexa. É notório que, a partir do momento em que o Homem adquiriu consciência de si mesmo, começou, também, a refletir sobre tudo aquilo que o rodeia, sobre aquilo que é a essência da Humanidade, questionando a maneira como age e como se regem as suas decisões. Um dos marcos mais importantes que contribuiu para a formulação da ideia de destino e, consequentemente, de liberdade, foi a distinção da racionalidade e da irracionalidade, através da diferenciação entre homens e animais. A ideia de liberdade é somente atribuída aos seres racionais, que têm oportunidade de pensar e ponderar, não sendo apenas controlados pelos seus instintos, e não agindo somente por impulsos. Excluídos todos os não humanos – animais – do cenário do binómio liberdade/destino, estas ideias foram amplamente abordadas a um nível espiritual, de alma, pois se o que nos distingue dos animais é isso mesmo, faz sentido debruçarmo-nos sobre essas características como sendo aquelas que nos atribuem, ou não, liberdade. Estas definições foram discutidas por inúmeros filósofos, como Platão (428 a 347 a.C.), discípulo de Sócrates, que afirmava que em vida cabia ao homem dominar o “homem dentro de si”, para ser livre. Entendia, assim, por liberdade a opção de cada indivíduo de viver virtuosamente. (1) Esta tese é em quase toda a sua plenitude semelhante à abordada na obra Discurso sobre a Dignidade do Homem, de Giovanni Pico della Mirandola, o qual afirmava que o Homem apenas pode decidir ascender, dentro de si mesmo, àquilo que de mais humano o constitui, a divindade (espírito), comum e até superior aos anjos, ou escolher ceder à sua parte “bicho” (2). Isto significava que teria uma existência de sofrimento. Aqui surge, porém, a ideia de livre-arbítrio, que Maria Vitalina não se encontra apta para distinguir da de liberdade (3) . Deste modo, ao interpretar Os Lusíadas, não percebe que a epopeia canta, através da expansão de um povo guerreiro, a própria significação do universo e de Deus. Acredita que o povo português é «a imagem de um homem inteiro que impõe a sua vontade à natureza, e que afirma a liberdade em face do destino» (4), sendo este o seu conceito de heroísmo, o qual é um modelo global de perfeição no plano moral, intelectual e no domínio da ação. Posteriormente, e contrariamente ao que refere antes, afirma que o ideal de herói corresponderá a um modelo de perfeição humana que não encontra concretização entre os portugueses, sendo que na epopeia o heroísmo será apenas um conceito abstrato, teórico. Maria Vitalina não tem em conta que toda a mitologia (5) é constituída por alegorias Teológicas, representativas da vontade de Deus, que estará presente com certeza no período de 1545 a 1570 (25 anos da escrita da epopeia), por não existirem ideias ateias neste período. Vitalina esqueceu-se também de ponderar o facto de que o povo português é o povo assinalado para

1. É importante realçar que, para este filósofo, a alma do Homem era constituída pela sua parte pura, ou seja o seu espírito, sendo o seu corpo ou carne a porção do mesmo que se encontrava vulnerável aos vícios terrenos. A morte teria assim, como consequência, a libertação da alma. Se em vida o Homem quisesse ser livre, teria de dominar o seu corpo e agir consoante a sua alma. 2. Como afirma Camões, o Homem é um «bicho da terra tão pequeno». 3. Na Idade Média, Santo Agostinho (354 a 430) perspetivava a liberdade como sendo uma opção do ser humano que permitia determinar o seu caminho, mas cujos parâmetros de escolha estariam limitados por uma ordem exterior. Influenciado fortemente pela tradição cristã, pretendia refutar a origem divina do mal. O mal seria a ausência de Deus, a qual decorreria dessa mesma opção do ser humano por um caminho, que o afastasse do bem. Aqui se instaura a conceção de livre-arbítrio, como sendo aquilo que confere ao Homem a vontade de decidir seguir o bem ou o mal. No entanto, existiriam somente essas duas realidades, pelo que existe a ideia de destino, associada à presença de Deus. 4. Tópicos para a Leitura de Os Lusíadas, Editorial Verbo, Lisboa, 2004 5. Característica da epopeia definida por Aristóteles na sua Poética, séc. III a. C., à qual Camões teria de obedecer. 6.O Quinto Império, ideia abordada por Camões, Padre António Vieira e Fernando Pessoa, embora com dimensões distintas, é o Império da cultura e da fraternidade universal, que deverá ser atingido em cada um de nós através da busca pela bondade e pelo melhor que existe no Homem, para que esta realidade não seja utópica. Neste mundo, deve ser encontrada a imortalidade e esta reside naquilo que não morre, o espírito e a cultura, pois na arte existe a perfeição, tal como já era defendido em teses do período Barroco. O período da expansão marítima terá assim fundamentos que se apoiam na esperança do Quinto Império, cujo Fado submete à argúcia e arbítrio dos Homens, uma vez que determinadas nações, de acordo com o seu posicionamento geográfico e em função do deslocamento do eixo polar terrestre, têm a missão de guiar outros povos pelas verdades do património da humanidade, como é o caso de Portugal (Gabinete de Estudos de Simbologia, Cavalaria Espiritual e Conquista do Mundo, Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1986) 7. Hernâni Cidade, Luís de Camões, O Épico, Editorial Presença, Lisboa, 1985

Catarina Antunes Mantas

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Os Lusíadas e o destino

Chamemos-lhes afirmações de risco. Refiro-me

veis, isto é, a sua interseção não é nula, podem coexistir numa mesma realidade. Ainda assim, parece importante não tomar o conceito de «liberdade» renascentista como a capacidade de o homem «construir o seu destino», que é tão calmamente publicitada em Tópicos para a leitura de Os Lusíadas, já que o primeiro é bem mais limitado que o segundo. No que toca à Arte, e Filosofia, só as mais esclarecidas mentes produzem as mais completas e palpáveis obras, ou ideias (talvez também, na essência, as mais simples, muitas vezes). Pico… Camões… A «cultura do tempo» é, de certa forma, o limite. O génio vê um pouco mais à frente, e mesmo assim não se pode abstrair completamente do que o rodeia. Sem contexto nada tem sequer aspiração a ter sentido. Colocou-se o problema, justificaram-se as preocupações. Olhemos, por fim, para o texto. Fala Júpiter: «Prometido lhe está do Fado eterno,/ Cuja alta lei não pode ser quebrada» (Canto I, est. 28). Partindo mesmo do Canto VI, suposta base da teoria que aqui se procura refutar, não se encontra mais do que a ideia da dita «liberdade» limitada, do Conde della Mirandola: nas estâncias 95 e 96, a «virtude» é aquilo que permite ao homem «subir a escada», de modo a alcançar «[a]s honras imortais e graus maiores», «co seu forçoso braço». Não mais. Na sua forma de epopeia, Os Lusíadas é uma obra que não poderia existir sem a forte presença de um ideal de destino. Desde o consílio dos deuses, à história de Portugal, e às reflexões do poeta, tudo é pensado tendo em conta uma predeterminação. Venho por este meio expressar a minha «fé na capacidade de o homem se determinar» e notar a necessidade de estudar mais História, e Filosofia.

ao que se pode encontrar nos textos da professora Maria Vitalina Leal de Matos, acerca da suposta ausência de destino em Os Lusíadas. E por isso é quiçá também um risco utilizar tais recursos em manuais escolares. Seja «destino» uma «combinação de circunstâncias ou acontecimentos que influem de um modo inelutável» (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa): se Camões utiliza em Os Lusíadas uma «combinação de circunstâncias ou acontecimentos que influem de um modo inelutável», então podemos dizer que há «destino» em tal obra. Creio que, por traços largos, seria desta forma que um matemático colocaria o assunto. E o encerraria, talvez. Deus «tomou o homem como obra de natureza indefinida» (1). Isto segundo Giovanni Pico della Mirandola, autor citado como autoridade, quando a professora defende a sua tese: de acordo com a epopeia camoniana, «o homem pode triunfar da fortuna», «autodeterminando-se» (2). Se ficarmos por aqui, tudo bem. Confesso mesmo que, se não tivesse tido o devido contacto com o Discurso sobre a Dignidade do Homem, tudo isto me soaria bem ao ouvido. Como em tudo: mas. Mas estamos a falar de uma obra do Renascimento. Mas o livre-arbítrio em Pico della Mirandola não é mais do que a possibilidade de escolher o sentido, e não a direção. Estar na metafórica escada da existência, e ter oportunidade de subir, ou descer. O único controlo que o homem tem sobre o seu percurso é o de poder escolher maximizar, ou não, o potencial que Deus lhe deu. Para Adão, segundo Giovanni Pico, Deus terá dito: «Tu, pelo contrário, não constrangido por nenhuma limitação, determiná-la-ás [a tua natureza] para ti, segundo o teu arbítrio, a cujo poder te entreguei. [...] Poderás degenerar até aos seres que são as bestas, poderás regenerar-te até às realidades superiores que são divinas, por decisão do teu ânimo.» (3) Um matemático diria que esta «liberdade» e o «destino» de que há pouco falávamos são compatí-

1. Pico della Mirandola, Giovanni. Discurso Sobre a Dignidade do Homem, Edições 70, 2011, pg. 57. 2. Leal de Matos, Maria Vitalina. Tópicos para a leitura de Os Lusíadas, Edições Almedina, pg. 100. 3. Pico della Mirandola, Giovanni. Ibidem, Edições 70, 2011, pg. 57.

Pedro Teixeira

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ma das razões pela qual Os Lusíadas é uma obra ainda hoje tão valorizada e conhecida é a atualidade das considerações feitas pelo poeta. Ora, se outrora os portugueses eram considerados incultos e ignorantes, e incapazes de conciliar o saber empírico com o saber teorético, então ainda hoje o devem ser, caso contrário Maria Vitalina Matos nunca afirmaria com tanta convicção que o Homem “impõe a sua vontade à natureza, e que afirma a liberdade em face do destino.” Segundo Giovanni Pico della Mirandola, na obra Discurso sobre a Dignidade do Homem, toda a crença comum de que somos livres e de que nos sobrepomos às forças da natureza não passa de uma ilusão confortável. De facto, acreditamos que é possível escolher o caminho ascendente e consequentemente atingir a Humanidade, ou preferir o caminho descendente, que se dirige para as Bestas e para os nossos instintos animalescos. Acreditar que nos conseguimos sobrepor a tal lei, que temos em nós o poder de escolher, implica não acreditar em Deus. No entanto, em pleno século XVI, época em que a Epopeia foi escrita, seria impossível falar em ateísmo; e como seria isso possível, quando a vida humana era ainda tão frágil e curta…? Como seria possível negar a existência de uma vida melhor depois da morte…? Havia, assim, uma crença comum num Deus cristão transcendente, que também se encontra presente em Os Lusíadas, através das alegorias teológicas. Desta forma, é possível afirmar que o que Deus quer é o que nós queremos enquanto Homens. Se assim é, seria absolutamente impensável acreditar que Deus nos permite escolher o caminho descendente e desistir do nosso lado verdadeiramente humano. O próprio Giovanni conclui que pensamos que temos em nossas mãos o poder de escolher o nosso destino, quando, 5


Os Lusíadas e o destino

na verdade, não o temos. Não há decisão possível que não tenha como objetivo último subir para a Divindade e pura Glória. Para atingirmos a liberdade que Maria Vitalina Matos pensa que temos, precisamos primeiro de cumprir o nosso destino, destino esse que nos leva, como descendentes diretos de Cristo, a atingir a nossa Humanidade. Só depois de termos concretizado tal feito, é que podemos por fim impor-nos como Homens livres. Mesmo n’Os Lusíadas, quando os deuses do Olimpo, através de prolepses, determinam o futuro dos portugueses, Camões deixa bem claro que este caminho ascendente, tão apelativo, esconde por trás todas as dificuldades e sacrifícios que temos de fazer. Sendo os portugueses um povo tão fortemente corajoso, heróico por conseguir superar os seus medos, e o povo eleito por Deus, torna-se claro que estes, apesar de todas as suas lacunas e falta de conhecimento teorético, têm inscrito no seu sangue todas as possibilidades de se tornarem completamente Humanos. Assim, em poucas palavras é possível derrubar toda a teoria de que o destino não está presente em Os Lusíadas. Apesar de ser uma crença com que muitos de nós vivemos nos dias de hoje, não devemos defender a tese de que esta crença, quando Camões escreveu a Epopeia, já o era. Por outras palavras, que não se volte a repetir que não há ideia de destino em Os Lusíadas! Matilde Vargas Prazeres

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ção, mas nunca questionavam Deus. Podemos até encontrar inúmeras referências na sua obra a um Deus transcendente e à ideia de destino Quinto Imperialista que cabe aos portugueses, descendentes diretos de Cristo, cumprir. Esta conceção de que devemos construir um reino de paz, amor, fraternidade e cultura na terra, presente anteriormente na Bíblia, na interpretação do sonho do rei Nabucodonosor por Daniel, torna-se muito evidente no episódio espiritual da Ilha dos Amores, representação do cumprimento do Quinto Império. Assim sendo, como pode Maria Vitalina afirmar que Os Lusíadas é uma obra que afirma a capacidade humana de fazer a sua própria fortuna, sem qualquer intervenção de uma entidade superior? O ateísmo, a descrença em qualquer tipo de Deus, é um ponto de vista que surge no Iluminismo, no séc. XVIII. Antes dessa época, seria perfeitamente impossível encontrar referências a esse tipo de pensamento. Isso faz apenas sentido, pois até lá a vida era dura, difícil e frágil, com a morte a fazer parte do quotidiano do Homem. Vivia-se com os olhos postos no céu, acreditando-se piamente numa vida para além da morte. Neste contexto, surge a obra Discurso sobre a Dignidade do Homem, de Giovanni Pico della Mirandola, homem do Renascimento, que afirma que a crença de que temos poder sobre o nosso destino é apenas uma ilusão confortável: a única escolha disponível para o Homem é ir pelo caminho ascendente para os Céus, atingindo a categoria de Anjo e cumprindo a palavra de Deus, ou degenerar para o Inferno pelo caminho descendente, reduzindo-se a um animal inferior e irracional. Um escritor é fruto da época em que vive, e a sua obra tem de se contextualizar no tempo e no espaço em que é produzida para se compreender toda a sua dimensão. Ao basearmos a nossa leitura de um texto numa opinião de outrem, corremos o risco de essa pessoa não ter tido em conta estes fatores. Há que ler, questionar e ser interessado, e não cedermos à preguiça de nos ficarmos por meros pontos de vista. Já dizia Camões nas intervenções do poeta: “Porque quem não sabe arte, não na estima” (Canto V; verso 97). Ana Sofia B.C.V. Lopes

grandes obras da literatura estão sujeitas a uma panóplia de interpretações impregnadas de subjetividade, que nem sempre correspondem à verdadeira intenção do autor. Isso faz parte da história da literatura e da relação que se estabelece entre o leitor e a obra. No entanto, fruto da sociedade de consumo que se vive hoje em dia, em que o tempo é escasso e se perdeu a serenidade necessária à leitura de uma obra, surgem muitas teorias literárias que resumem a obra e o pensamento do autor por detrás dela. Estas teorias tornam-se verdades inquestionáveis que são discutidas até à exaustão por pessoas que nem a obra completa leram. Isto transporta-se até para certos conhecimentos que são ensinados como objetivos nas escolas, apresentados pelos autores dos manuais, quando são, na verdade, apenas convicções de alguns estudiosos. Este ano, deparei-me com um caso que se insere perfeitamente neste padrão. Maria Vitalina Matos, considerada uma das maiores peritas camonianas da atualidade, tem diversas obras publicadas sobre a sua interpretação pessoal d’Os Lusíadas, uma das obras máximas da língua portuguesa. Encontrei inclusivamente alguns excertos dos seus livros no meu manual escolar, nos quais li a seguinte afirmação: “Os Lusíadas (…) são uma obra empenhada em afirmar as capacidades humanas: (…) a afirmação de que o homem pode determinar-se, construir o seu destino (…)”. Desta forma, conclui que o poeta acredita no livre-arbítrio dos portugueses, controladores por completo das suas ações, libertando-se da sua fortuna. Vamos pôr Os Lusíadas em contexto: Luís de Camões é um poeta renascentista e humanista, muito consciente da realidade exterior e com uma capacidade crítica aguçada; enaltece a coragem e os feitos dos portugueses e, simultaneamente, faz críticas fortes à sua ignorância e hipocrisia, analisando profundamente a sociedade portuguesa. No entanto, é um poeta do séc. XVI, altura em que o Cristianismo é a principal religião do mundo ocidental. Em nenhuma parte da obra encontramos Camões a pôr em causa a sua fé ou o cristianismo. Os humanistas, entre os quais o poeta se insere, criticavam muitas vezes a Igreja enquanto organiza6


Os Lusíadas e o destino

Ideia de destino e reflexão sobre Tópicos para a leitura de Os Lusíadas, de Maria Vitalina Leal de Matos Tendo em

Ora, a ideia de destino é interpretada por Maria Vitalina Leal de Matos nos seus Tópicos para a leitura de Os Lusíadas, onde afirma que, em toda a obra de Camões, este corrobora a influência do ‘fado’ na vida do Homem, excepto n’Os Lusíadas. Diz, a propósito da epopeia: “De modo absolutamente contrário àquilo que é dito e gritado a cada passo na restante obra (...) este texto afirma a fé na capacidade de o homem se determinar e construir o seu próprio destino.” Conclui, ainda, com um elogio, em que se refere a este acontecimento como a uma faceta da excecionalidade camoniana. Portanto, e para já, verificamos que Maria Vitalina idealiza a rejeição da ideia de destino por parte de Camões (por acreditar que este se refere ao Homem como responsável por determinar e construir o próprio destino, libertando-se da fortuna), sabendo que o poeta viveu no século XVI, e que neste período o ateísmo não era apenas uma realidade distante: era algo verdadeiramente impensável, uma vez que a ideia de Deus dominava toda a cultura europeia e que era impossível, nesse tempo, falar-se em descrença (sendo que o significado deste conceito não existia do modo como o conhecemos atualmente). Para além disso, e para finalizar, Maria Vitalina, ao afirmar a sua interpretação, ainda elogia Camões e o seu génio, acreditando que esta contradição do poeta faz parte do cariz da sua escrita e da sua excelência. A autora revela, assim, inúmeras suscetibilidades que devem ser consideradas e que nos podem levar a descredibilizar algumas das suas interpretações da obra de um dos mais extraordinários e influentes poetas da Língua Portuguesa.

vista um maior rigor na análise de uma possível ideia de destino, procurei, eu mesmo, uma definição que me parecesse adequada. Primeiramente, devemos procurar distinguir este conceito da ideia de livre-arbítrio, que celebra a capacidade do Homem de agir e fazer conforme a sua preferência, sendo que a sua natureza não é predeterminada. Esta ideia é apoiada por Giovanni Pico della Mirandola, que afirma que o Homem é superior a todos os seres e que este é livre da escolha de se corromper, descendendo à irracionalidade dos animais (descendendo ao papel de besta), ou de se reger segundo uma imagem divina, ascendendo aos deuses e, por fim, à liberdade. Esta, segundo Santo Agostinho, só se atinge quando a nossa vontade é dirigida para fazer o bem, aquando da nossa ascendência aos deuses, sendo somente livre aquele que opta por cumprir a palavra de Deus. A ideia de destino, pelo contrário, refere-se à perspetiva de uma força superior, uma espécie de entidade que idealiza a nossa vida, estando nós sujeitos a essa condição. Na obra Os Lusíadas, é muitas vezes referida a ideia de um Deus transcendente e de um destino que vai de encontro aos portugueses, aqueles que são os descendentes diretos de Cristo e que habitam o Porto do Graal (local onde desce a luz do Espírito Santo). Aquela ideia culmina numa Ilha dos Amores repleta de prazeres divinos, que é uma representação do cumprimento de um destino Quinto Imperial – que deve ser concretizado pelos portugueses, resultando num mundo de fraternidade, como forma de regresso ao paraíso perdido pelos pecados do Homem.

Miguel Alexandre C. Oliveira

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A morte do Rei

A morte do rei

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A morte do Rei

Carta de “Um Portugal que finalmente vê” Para “El-Rei D. Carlos, aquele que sempre viu” 1 de fevereiro de 1908

Meu eterno Rei,

Carlos Fernando Luís Maria Vítor Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis José Simão de Bragança Sabóia Bourbon Saxe-Coburgo-Gotha, que de nome tão extenso e grandioso, não poderiam os desejos do teu coração e a complexidade do teu caráter ficar atrás. Hoje irás ao Paço. Os teus filhos matar-te-iam. Mas o Terreiro não se cobrirá do teu sangue, mas do sangue e lágrimas de todos eles. E como dirá Fialho de Almeida: “O povo português não gostava do seu rei, porque justa ou injustamente veria nele a imagem do seu orgulho pueril, do carácter incerto e das suas frouxas qualidades. E como os macacos que se careteiam a um espelho, num ímpeto de fúria partiu-o, julgando que assim deixava de ser mono...”. O teu crime foi seres Rei de um país que não estava preparado para ser reinado por ti. A ignorância do povo que te rodeava fazia crer que a monarquia teria de dar lugar à república. O teu povo sempre lutou, e sempre lutará, inconscientemente pela mudança: mas nunca por aquilo que a guia e orienta. E, naquele ato de cegueira, não se apercebeu de que a monarquia desse momento já tinha, nela, incutida a república – e de que tu não governavas só, mas sim acorrentado por interesses partidários, tal como as repúblicas atuais. O facto é que, pelo menos nos próximos cem anos, Portugal continuará estagnado, rendido a um estado de inércia absoluta. Então, o problema encontrar-se-á no Rei ou nos partidos? Na Monarquia ou na República? Não te pergunto isto a ti, mas sim ao teu povo: que responde que o problema está em tudo, quando, no final, o problema está somente nele. Cumpriste a tua função como Pai. Os teus filhos nasceram irremediavelmente cegos, mas tu ensinaste-os a ouvir. Os teus filhos nasceram fracos, mas tu armaste-os cavaleiros. E eles ainda assim te matarão. A ignorância nata ensinou-os apenas a ouvir os tiros, e as armas que lhes deste servem agora somente para matar. E se a Camões tiraram um olho, porque via demais, a ti tirar-te-iam a vida, para assassinarem todos os teus sentidos de uma golpada só. Matar-te-iam os teus filhos?! Já te tinham matado há muito tempo. Mas agora, com o Paço ensanguentado e coberto pelas tuas entranhas, gritam eles como Loucos e como se tivessem salvado a nação. Esquecem-se que lhes cabe agora a eles, e só a eles, levar o teu corpo, cobri-lo com uma mortalha e colocá-lo na cova. Mas pensas que lá estarás só? Na cova te colocou Portugal, mas na mesma cova se enfiou Ele próprio para toda a eternidade, porque agora já não há Pai que o ensine a cavar. E, assim, Portugal se enterra a 1 de fevereiro de 1908. Com esperança de te reencontrar me despeço, De um Portugal que finalmente vê Armando Sobrinho Assembleia

não só pelo sangue de D. Carlos e do seu filho primogénito D. Luís Filipe, mas dos oito séculos de monarquia que quiseram matar. Cabe-nos o papel de evitar que as novas gerações sejam influenciadas e ludibriadas, tal como o nosso povo foi em 1908 e continua a ser até aos dias de hoje. A dinâmica vilão/vítima sempre foi distorcida ao longo da História do nosso país, desde o tempo de D. Inês e D. Pedro, em que uma “amante” se tornou mais legítima que a própria mulher. Mais uma vez, nesse caso, o nosso pobre povo foi iludido e a História adulterada. Um Homem (sim, este merece ter a letra muda maiúscula, contrariamente aos autoproclamados libertadores do povo) «superior, inteligente, culto, bravo» foi hipocritamente responsabilizado por tudo quanto se passava no Reino, pela pobreza, pela instabilidade e pela corrupção, embora, após 100 anos de república, estes ainda sejam os maiores problemas do nosso país. Assim se vê que os demagogos que implantaram a república eram meros ingénuos, que não só falharam por tentar alterar algo que não tinha de se alterar, mas também pela forma infame e indigna como o tentaram e fizeram, terminando assim quase 800 anos de

Vivemos numa época de hipocrisia, numa repú-

blica que, desde o seu começo, não cumpre o que prega. Na história do nosso mundo, sempre houve, além de momentos positivos, momentos paradoxais e negativos, que não poucas vezes resultaram em crises de valores. Em Portugal, um desses momentos originou o regicídio: momento em que um país inteiro, esquecendo os seus princípios, abraçou um crime como se fosse um ato de heroísmo. Os seus autores tornaram-se heróis e fizeram da vítima um vilão. Vendem-nos a ideia de que esta mudança foi um grito de revolta do povo, quando, na realidade, o povo foi simplesmente o instrumento da vontade de outros, que manipularam tanto as suas ideias como os seus ideais. Não se contentando em mudar a mentalidade da época, ainda recontaram a História à sua maneira, imortalizaram-se e crucificaram o Rei. É certo que o Rei não era perfeito, mas quem o é? Vitiis nemo sine nascitur1. Um erro não justifica o outro, os fins não justificam os meios, o homem que mata é assassino e tem de ser castigado. Custa a algumas pessoas admitir estes factos, cegas pelo manto vermelho da república, manchada 9


A morte do Rei

monarquia. Este acontecimento, além de imoral e ingrato, não foi inesperado ou imprevisível nem para o Rei, que ia vendo o descontentamento do seu povo e sentindo a tensão vivida durante o seu reinado, nem para Guerra Junqueiro, que escreveu «O Caçador Simão», texto que pode ser considerado uma premonição, por refletir o desejo republicano de mudar Portugal. Este poema, talvez incentivando a morte de um Rei, foi dedicado a Fialho de Almeida, que, após vinte anos,

comentou o regicídio e os seus precedentes. Apontando a hipocrisia e as falhas, procurando abrir os olhos ao povo, Fialho de Almeida pecou por revelar tardiamente que talvez D. Carlos governasse uma monarquia mais democrata que a república que depois se viveu… 1–

Ninguém nasce sem falhas.

Bernardo Lucas Jesus Raimundo

É

Apesar de a maioria da população julgar o contrário, o rei era um homem extremamente culto e inteligente, dotado de diversas habilidades diplomáticas. Com o passar do tempo, parece que se foi deixando contagiar pelo tédio e pela inércia que é/era Portugal: realmente, “os tempos mudaram! Já não são os reis que fazem o povo”. O povo é que contagia, molda e faz os seus reis. O povo culpava o rei pelo estado decadente do país, mas o rei só pode ser tanto quanto os seus súbditos. Com o regicídio, o povo, sem saber, queria “matar” os seus próprios vícios e defeitos, pois era no rei que se refletia toda uma sociedade apática, inculta e sem motivação. Infelizmente, a morte do rei foi em vão, pois não houve mudança na mentalidade do povo e, consequentemente, nenhum avanço na nossa sociedade. Concluindo, desde novos incutem-nos a ideia de que a monarquia está associada a algo mau e que, por oposição, a república é algo bom. Será mesmo assim? Depois de ler “A Morte do Rei”, de Fialho de Almeida, percebi que nos têm escondido uma parte da verdade sobre este regicídio e que nos são vendidas, como verdades certas, “verdades falsas”. Assim sendo, cabe a cada um de nós expandir o nosso conhecimento e não deixar que as nossas opiniões e formas de pensar se baseiem em dados mal fundamentados.

engraçado… Quando nascemos, quase que temos um conhecimento a priori sobre a monarquia. Crescemos a ouvir a história de como, no dia 1 de fevereiro de 1908, os “bravos” cavaleiros regicidas se sacrificaram em prol de um Portugal melhor, um Portugal evoluído, Livre, Justo e Culto, que passaria pela morte de D. Carlos. Mas como é que alguém é capaz de dizer que a chacina que foi a morte do rei D. Carlos é algo aceitável, seja qual for a razão (válida ou não)!? Nenhuma mãe merece assistir à morte do filho e do marido, e pior ainda, assistir ao comprazimento daqueles que observavam as suas mortes, como aconteceu com Dona Amélia de Orleães. Como é que se podem chamar de heróis nacionais pessoas que matam a sangue-frio? Só em Portugal, mesmo… As razões que levaram ao assassinato do rei não se podem saber ao certo: mas o povo queria mudança. O problema dos portugueses é que só se preocupam em fazer as coisas mudar drasticamente, mas não se preocupam em saber se essas mudanças vão ser benéficas ou não. Agora perguntamo-nos: será que as coisas mudaram assim tanto? O povo acabou com uma monarquia republicana, mas ficou com uma república ainda mais monárquica. O que é certo é que já passaram 109 anos desde a morte do rei e o nosso país continua a sarjeta que sempre tem sido. As pessoas continuam as mesmas, os vícios continuam os mesmos e os presidentes da república são “monarcas a dias”.

Daniela Isabel Graça Nunes

Caro leitor, através deste texto vou refletir um pouco sobre a morte de D. Carlos, rei de Portugal, tendo como base o texto “A Morte do Rei”, de Fialho de Almeida, e algumas das minhas ideias. Para começar, como é que é possível que se aplauda e defenda quem mata?! Principalmente, sendo a vítima um rei que é o representante e o “pai” de um país! E para reforçar esta ideia digo, caro leitor, que quer seja para o bem, quer seja para o mal, quer seja por esta ou aquela razão, ninguém, e volto a repetir, ninguém tem o direito de tirar a vida seja a quem for! Continuemos. Uma vez que o povo se encontrava descontente com a administração do reino e farto de toda a corrupção existente, será que o rei conseguia fazer algo mais para o satisfazer? Como Fialho de Almeida escreveu: “ como se [pode] governar um país de escassos recursos e mui trabalhosa urgência de medidas no campo da administração e das conquistas materiais”? Ou seja, não, não era possível. Sobretudo, com as pessoas que rodeavam o monarca. Isto porque o povo, ”a turba acéfala”, se guiava apenas pela emoção. Pois se uns seguiam quase só a razão, como Fernando Pessoa, outros só seguiam, como o ortónimo disse, “esse comboio de corda/que se chama coração”. Afinal, a burguesia era “um aglutinado social com escassas luzes de civismo, subalternizado à procura de pão, e sem mais virtudes que não sejam uma sórdida defesa de interesses pessoais”. Contudo, o nosso Excelentíssimo D. Carlos tinha “uma estatura de homem superior”, era “inteligente, bravo”. Era um rei em cujo espírito “vemos um homem com uma soma de ideias gerais”. Um rei que, por todas estas qualidades, olhou “para uma infinidade de questões” e introduziu alterações estruturais muito importantes no nosso país. Bastará relembrar o ensino primário obrigatório, as nacionalizações, as subsistências, o incentivo à proteção agrícola e a divisão da grande propriedade, entre muitas outras. Mas é certo que, como qualquer outra pessoa, não era perfeito. Tinha passatempos. Mas quem pode criticar os modos como o rei passava o tempo, se, afinal de contas, não há quem não tenha passatempos? Como última ideia, diga-me, caro leitor: o que é que mudou desde que se passou de uma monarquia para 10


A morte do Rei

uma república? Mudou realmente alguma coisa? Os nomes mudaram, os cargos mudaram, mas, afinal, continua a haver privilégios só para alguns e a corrupção não desapareceu. O que se pode dizer é isto: não é possível mudar os hábitos de um país de um dia para o outro. Ou seja, não se consegue acabar de um dia para o outro com os “nunca vencidos apetitos”. Para concluir, caro leitor, condeno vivamente o assassinato do rei D. Carlos, homem cultíssimo. Se o país quisesse mesmo mudar, porque é que não o fez como os ingleses? Construía-se uma espécie de junção entre a república e a monarquia, não sendo assim necessária a morte do rei. Haveria, desta forma, espaço para o rei ajudar o país a progredir mais do que antes.

Diogo Miguel Marques

Caro leitor, irei aqui refletir sobre um acontecimento da nossa história, a morte do Rei D. Carlos, penúltimo rei de Portugal, tendo por base o texto “A Morte do Rei”, de Fialho de Almeida. Primeiramente, quão absurda é a ideia de festejar a morte de um homem inocente? É insólita a reação do povo português ao regicídio, aplaudindo-o e gritando “O rei morreu!” pelas ruas, como se o pobre homem lhes tivesse feito algo desprezível. Abateram assim, em público, como quem mata um animal selvagem, o símbolo do nosso país, o nosso pai: como se, matando um único homem, todos os problemas do país se resolvessem por magia. Tínhamos, portanto, um rei culto e empenhado em tentar resolver os problemas da nação – coisa que, na altura, parecia impossível, segundo Fialho de Almeida: afinal, “como se [pode] governar um país de escassos recursos e mui trabalhosa urgência de medidas no campo da administração e das conquistas materiais”? Assim, nem com rei nem sem rei, nem com monarquia ou república ou algo mais que inventassem, o país poderia miraculosamente resolver todos os seus problemas. O povo, essa “turba acéfala” que se deixa ir com a emoção e com o espírito de falsa esperança que nos caracteriza enquanto portugueses, pensava que, pela morte de um homem, tudo iria ser

um mar de rosas daí em diante. Faltou-lhe espírito crítico para parar e pensar nas consequências dos seus atos. Aliás, se analisarmos os feitos do nosso rei, podemos até constatar que este introduziu em Portugal muitos direitos e ideias que hoje tomamos por garantidos, como o ensino primário obrigatório, nacionalizações e proteção da agricultura e dos agricultores. Por último, constatemos as mudanças que houve na vida do país, o que a república tentou mudar. Alguma coisa? Não? Pois bem, não podemos constatar nada, porque nada mudou de facto. Continua a haver privilégios só para os “nobres” deste país (que agora têm outros nomes mais “republicanos”) e corrupção sem falta. E, no seu âmago, temos as mesmas pessoas com as mesmas ideias, pois não se podem mudar 771 anos de monarquia e de ideias monárquicas do dia para a noite. Portugal poderia ter seguido o caminho do Reino Unido, Espanha, Países Baixos, Bélgica, Dinamarca, Suécia e outros, que são, hoje em dia, padrões e exemplos a seguir no que toca ao desenvolvimento humano e níveis de corrupção. Portugal poderia, realmente, ter adotado um regime democrático sem abdicar da sua história, da sua cultura monárquica tão antiga.

Bruno Filipe Ferreira Ribeiro

A monarquia é muitas vezes menosprezada e vista como um mau regime, comparativamente com o regime republicano: mas será que é mesmo assim? D. Carlos foi das figuras da nossa história que mais sofreu, devido ao confronto entre estas duas formas de governo. Após a leitura do texto de Fialho de Almeida, refleti e fui-me apercebendo de quão injusto o povo era para com D. Carlos. Um homem culto, com uma paixão imensa pela biologia marinha e consciente das dificuldades que as suas gentes estavam a passar. Tinha tudo para ser um dos reis mais adorados da nossa história. Contudo, no dia 1 de fevereiro de 1908, em pleno Terreiro do Paço, o nosso Rei, que gostava muito de caçar, tornou-se a ‘presa’, sendo assassinado em frente de toda a multidão que o recebia: concretizava-se, assim, a previsão do poeta Guerra Junqueiro, em “O Caçador Simão”. De acordo com a visão do povo, a decadência de Portugal estava relacionada com a falta de eficácia do regime de monarquia constitucional. Desta forma, seduzido pelos ideais inovadores dos primeiros republicanos, o povo via o Rei como o principal culpado da vida miserável que se tinha. No entanto, será que a culpa de todas estas dificuldades seria exclusivamente de D. Carlos? A meu ver, a monarquia não é a “má da fita”, como os apoiantes da república fizeram crer e ainda fazem, para enfatizar a falibilidade monárquica e a eficácia do seu próprio regime. D. Carlos já não governava num regime absolutista, mas num regime constitucional, isto é: as decisões tomadas não eram da sua inteira responsabilidade. Além disso, tendo nascido e vivendo num tempo de democracia, posso afirmar que todas as soluções apresentadas pelos republicanos para combater as dificuldades vividas no tempo de D. Carlos não passavam de medidas para seduzir o povo, assim como nos dias de hoje. Antes das eleições, somos bombardeados com diversas soluções de muitos partidos que, na maioria das vezes, quando estão para ser incrementadas, caem por terra. Mesmo com o fim da monarquia, continuamos a viver tempos de crise, miséria, revolta e falta de confiança nos nossos governantes...Passados tantos anos, parece que os problemas que seriam culpa da monarquia ainda permanecem. Não lhe parece, caro leitor? Assim, posso inferir que a monarquia não tem só aspetos negativos. Os republicanos fazem-nos crer que os monarcas foram uns tiranos que, para atingir o poder, foram capazes de tudo. No entanto, para mim não foram os monarcas os maiores tiranos, mas os republicanos, pois para acabar com a monarquia e implementar o seu regime, tiveram a ousadia de tirar a vida ao pobre Rei. Mariana Bico 11


A morte do Rei

sabe se não teria sido melhor para Portugal se tivéssemos seguido o mesmo caminho. Como descrito no texto “A Morte do Rei”, de Fialho de Almeida, o rei D. Carlos teria sido um grande diplomata, com grandes iniciativas para a pátria, e que até conseguiu trazer representantes de vários países a visitar Portugal – país com pouca influência e baixo desenvolvimento. Não lhe foi possível concretizar grande parte das suas ideias para o país, graças a alguns políticos e gente de altos cargos, que, com o seu egoísmo, se preocupavam somente consigo mesmos e não com o bem da nação. É verdade que D. Carlos não era um rei intocável, pois ele também cometeu erros. Mas atirar todas as culpas para cima do rei, ser preciso uma solução tão drástica, isso é um exagero! Nas condições em que estávamos, com o país em bancarrota e descontente com o rei, tendo em conta toda a situação e a falta de apoio, o seu trabalho não foi tão mau quanto o que se dá a pensar. Agora coloco esta questão: este ato, entendido na altura como uma ação para um futuro melhor, para onde é que nos trouxe? Será que a situação melhorou? Os ricos continuam no poder, com todos os seus esquemas, e o país continua a empobrecer. Que rica melhoria esta foi!

Dia 1 de fevereiro de 1908, data da morte de D.

Carlos, o penúltimo rei de Portugal, que foi assassinado pelo seu próprio povo: algo que até aos dias de hoje é visto por muitos como um ato patriótico contra um rei incompetente. O regicídio foi consequência do clima de tensão em que se vivia, dada a instabilidade no panorama político português. Foi também um passo na tentativa de se implantar a república, ou seja, um regime em que, através de votos, o chefe de estado é escolhido pelo povo. Mas questiono-me: que mais-valias é que o Povo pensou que o fim da monarquia iria trazer, o que é que pensou que isso iria solucionar, e que planos teria para quando cumprisse o seu objetivo? Os que procuravam trazer o fim da dinastia não pareceram ter ideias mais precisas sobre a república do que aqueles que apoiavam a monarquia. Por isso, pergunto: não haveria uma maneira melhor de se lidar com a situação, um modo mais pacífico – como por meios políticos ou diplomáticos – em vez de se matar a sangue-frio o rei e o seu filho em frente da sua família? Não teria sido melhor procurar uma solução menos sangrenta, que não incluísse a morte de inocentes? Um bom exemplo, neste caso, seria a Inglaterra, que conseguiu implantar a democracia, mantendo a monarquia. E quem

Bernardo Sousa Bowley Novaes

Com este texto, pretendo relembrar uma figura

Agora pergunto: que vantagens trouxe o fim da monarquia para o nosso país? Os que, outrora, fizeram cair o Rei não parecem ter ideias mais claras e precisas para a sociedade do que os que apoiavam a monarquia. A solução passará por, em vez de criticarmos sem agir, intervirmos na política, na imprensa e, em geral, na sociedade. Passará por optarmos por pensar em maneiras de alcançar um maior desenvolvimento ao nível do ensino. Fazendo isto, talvez haja a possibilidade de evoluirmos um pouco, aproximando -nos mais do povo civilizado que deveríamos ser. D. Carlos, apesar de ser um homem astuto, corajoso, culto, severo e generoso, era bastante criticado pelo seu povo. Mas não podemos lançar sobre a cabeça do rei todas as culpas, porque nenhum homem pode ser responsável por todos os erros de um país. Já não são os reis que fazem os povos: mas sim os povos quem faz os reis. O povo português não apoiava o seu Rei, pois, nessa época, a maioria da população não era suficientemente esclarecida para conseguir compreender a validade dos seus projetos. Para concluir: El-Rei D. Carlos não foi bem tratado pela memória histórica. Não permaneceu, nela, de modo grandioso, por ter ao seu redor pessoas incapazes, que, no fundo, desejavam a sua morte mais do que tudo. Assim, assassinámos um rei em nome de uns supostos dias melhores: mas o que temos hoje? Uma sociedade quase acéfala, sem projetos. Desde aí, pouco evoluímos. Melhor teríamos ficado se não matássemos o Rei: mas agora é tarde.

injustiçada da história de Portugal: El-Rei D. Carlos. Este monarca foi assassinado impiedosamente por homens sem escrúpulos, que vieram a ser considerados, de modo injusto, heróis. Mas será que, tendo em conta o ato cruel que cometeram, podemos realmente elevá-los a esse título? Torna-se até difícil imaginar o ambiente vivido no momento do regicídio: crianças e mulheres gritavam, olhavam em seu redor sem entender o que ali se passava, ficando – apenas e para sempre, na sua memória – o assassinato a sangue-frio do seu Rei e respetivo filho. No meio desta enorme multidão atordoada, certamente estariam alguns conspiradores que se compraziam com aquele ato. Certo é que, na Europa, se instalou, então, um sentimento de revolta, não só por o rei ser muito estimado pelos outros chefes de estado europeus, mas também porque se tratou de um assassinato metódica e rigorosamente planeado. Aliás, vinte anos antes do regicídio, já Guerra Junqueiro, num texto escrito em 1891 (“O Caçador Simão”), anunciava quase profeticamente a morte do Rei. O regicídio foi consequência do clima de tensão em que se vivia – da grande instabilidade no panorama político português. Como é referido no texto de Fialho de Almeida, o Rei D. Carlos foi um monarca que teve boas ideias para a pátria. Contudo, não lhe foi possível pô-las em prática, pois não tinha com ele homens de mérito que o ajudassem a concretizar os seus projetos. O regicídio foi, também e sobretudo, o passo final para se implantar a república, ou seja, uma forma de governo na qual o chefe de Estado é eleito pelo Povo através de votos secretos e livres.

Daniel Filipe Gomes Rocha

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Jsnome41dez2017  

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