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BESSARÁBIA

Havia o cenário imaginado, fomos à procura do cenário real


editoriaL

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CARO LEITOR O Acervo Documental e o da Fototeca, regularmente enriquecido por significativas doações, é continuamente procurado por estudantes, mestrandos, doutorandos, escritores, jornalistas e diferentes entidades que se interessam e se ocupam com a História do Povo Judeu e com a Imigração Judaica no Brasil. Este fato, sem dúvida, ilustra de um modo geral a importância de um arquivo histórico. Regozijamo-nos portanto ao dizer que o AHJB Arquivo Histórico Judaico Brasileiro é – e se torna cada vez mais – uma significativa referência para o estudo e análise da imigração judaica ao Brasil. A cada número, publicamos cerca de cinco a seis matérias escritas por excelentes colaboradores que abordam os mais diferentes temas. Para ilustrar isso, destaco duas nesta edição. O artigo escrito por Tatiana Serebrenic, psicanalista, que relata o roteiro que ela e o marido, Jayme Serebrenic, fizeram recentemente à antiga Bessarábia (de onde vieram muitos imigrantes para o Brasil) concentra em uma frase inicial, muito lírica, a importância do feito, ou seja: “Havia o Cenário Imaginado, fomos à Procura do Cenário Real”. Destaco ainda a abrangente e importante biografia do rabino Mosseh Rephael D’Aguilar, escrita pelo Rabino Y. David Weitman. Trata-se de uma matéria de real interesse, que relata episódios da vida do erudito rabino D’Aguilar e do Brasil no século XVII. Além disso, uma das metas desta publicação é dar notícias sobre nossas atividades, que se têm intensificado neste ano de 2010 e assim, desejo-lhes boa leitura!

ÍNDICE 02 EDITORIAL E ÍNDICE 03 PALAVRA DO PRESIDENTE 04 CARTAS 05 NOTÍCIAS 08 JUDEUS A SERVIÇO DE SUA MAJESTADE 10 DIÁSPORAS E DIVERSIDADE CULTURAL DOS IMIGRANTES JUDEUS NO BRASIL 13 RABINO MOSSEH REPHAEL D`AGUILAR 16 BESSARÁBIA 24 DAVID BANKIER (1947 - 2010) 27 DE VILA FLOR À JERUSALÉM, A JORNADA DO GENERAL DAVID SHALTIEL, PRIMEIRO EMBAIXADOR DE ISRAEL NO BRASIL 32 BERLIM DEPOIS DO HOLOCAUSTO 34 RESENHA 36 DOAÇÕES 37 PESQUISADORES 38 CONSULTA 39 FOTOTECA

Sema Petragnani, Editora

CAPA: Família Bitelman em Kichiniov - 1926 (coleção particular) Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do AHJB ERRAMOS: No Boletim no 42 a informação correta é que o Dr. José H. Mindlin morreu em 28 de fevereiro de 2010 e não como está no texto, 28/11/2010 (p.33)

O BOLETIM DO AHJB é enviado gratuitamente aos sócios, a instituições culturais do Brasil e do exterior, e é também distribuído aos visitantes e consulentes que o solicitam. Lembramos aos colaboradores que este boletim possui ISSN (International Standard Serial Number), número internacional normatizado para publicações seriadas. Os artigos inéditos podem ser enviados à Redação pelo e-mail ahjb@ahjb.org.br

DIRETORIA: PRESIDENTE Serebrenic VICE-presidente Lenci diretores de núcleos: biblioteca e documentação Cytrynowicz Presidente Maurício SerebrinicJayme 1o Vice Presidente Carlos R.Bettina de Mello Kertész 2o Vice Presidente Roney Cytrynovicz DiretorRoney FINANCEIRO Jayme Serebrenic Secretária Geral Myriam Chansky DIR. DE BIBLIOTECA E ACERVOS DOCUMENTAIS Roney Cytrynowicz DIR. DE Acervos Especiais Simão Frost DIR. DE COMUNICAÇÃO Sema Petragnani DIR. DE CULTURA IÍDICHE Abrahão Gitelman DIR. DE DIVULGAÇÃO Sonia Lea Shnaider DIR. DE Educação Anna Rosa Bigazzi DIR. DE EXPOSIÇÕES Miriam S. S. Landa DIR. DE GENEALOGIA Guilherme Faiguenboim DIR. HISTÓRIA ORAL Marília Freidenson DIR. DE Música E Discoteca Lea V. Freitag DIR. DE PATRIMÔNIO Maurício Serebrinic DIR. DE PESQUISA Samuel Belk DIR. RELAÇÕES INSTITUCIONAIS Paulina Faiguenboim dir. de seções e informática Carlos R. De Mello Kertész

ADMINISTRAÇÃO Eliane Klein BIBLIOTECA Theodora da C. F. Barbosa DOCUMENTAÇÃO, PESQUISA, PROJETO E EDUCAÇÃO Lúcia Chermont FOTOTECA Arnaldo Lev SERVIÇOS GERAIS José Messias Ribeiro Santos ESTAGIÁRIOS Gabriela Minin, Jean Chermont da Silva e Jéssica da Silva Carvalho REDAÇÃO - EDITORA Sema Petragnani CO-EDITOR Paulo Valadares REVISORA Suely Pfeferman DIAGRAMAÇÃO Alexandra Marchesini PROJETO GRÁFICO Ciro Girard/satelitesmg.com.br IMPRESSÃO Northgraph Gráfica CONTATOS ahjb@ahjb.org.br ou pelos telefones 11 3088-0879 / 2157.4124


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PALAVRA DO PRESIDENTE

PALAVRA DO PRESIDENTE Caros Amigos, Estamos em 5771 e, nesse Rosh Hashaná em que celebramos o Ano Novo, nós do AHJB comemoramos o primeiro ano de gestão dessa Diretoria. Agradecemos aos diretores e sócios do AHJB pela confiança e participação e desejamos a todos mais um ano com muita saúde e sorte junto a toda a família. Foi um ano muito produtivo! Iniciamos com a realização do V Encontro Nacional do AHJB, que contou com a participação de 50 palestrantes de vários Estados do Brasil e cerca de 500 ouvintes. Foi coordenado pelo nosso vice-presidente Carlos Kertész, com grande sucesso, e mostrou a força e o prestígio da nossa Entidade. Os anais desse evento estão sendo preparados e, em breve, estaremos divulgando-os. Este exemplar do Boletim AHJB já é o terceiro publicado no período, sob a coordenação de Sema Petragnani, nossa Diretora de Comunicação, e Paulo Valadares, co-editor. Mensalmente, é publicada e enviada aos sócios uma edição do nosso Informe AHJB, preparado e editado por Samuel Belk, Diretor de Pesquisa, com grande aceitação. Procurando tornar o AHJB auto-suficiente financeiramente, preparamos e apresentamos vários projetos para a FAPESP, Caixa Econômica Federal, Petrobrás e BNDES, buscando recursos para manter as diversas atividades de armazenamento, higienização e cuidados para os documentos, livros, discos e periódicos que estão sob nossos cuidados. Esses trabalhos, conduzidos pelo nosso vicepresidente Roney Cytrynowicz, contou com o trabalho de nossa historiadora Lucia Chermont e da consultora Solange de Souza. Estamos também preparando a documentação para nos habilitar a benefícios fiscais e qualificar para utilizar a Lei Rouanet, com a participação de Myriam Chanski, diretora da Secretaria Geral, e do associado e assessor da Diretoria, Henrique Stobiecki. Estamos também trabalhando para suprir nossa Entidade com equipamentos indispensáveis ao seu bom funcionamento. Tivemos visitas ilustres como as de Clara Ant, Assessora Especial da Presidência da República, Rabino Weitman e Rabino Alpern. Estamos trabalhando em parceria com o Centro de Cultura e o Museu Judaico e participamos da Exposição de Shoá realizada no Sesc Pompéia. Enfim, amigos, foi um bom primeiro ano e esperamos mais realizações em 5771. Shaná Tová a todos.

Mauricio Serebrinic Presidente AHJB


CARTAS

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Caro Mauricio Serebrenic, Quero parabenizá-lo pelo trabalho do AHJB, extensivo ao Jayme, pois acabo de visitar o site do Arquivo e me emocionei pela dedicação ao trabalho profissional que se está realizando. Confesso que não tinha idéia da situação atual, pois minha informação ainda estava na época do meu contato com Prof. Nachman Falbel, quando o mesmo ainda pesquisava Baron Hirsch Jewish Agricultural Colony da qual tenho meu passado de origem também. Pretendo em breve visitar e doar as imagens que tenho do meu passado judaico do Rio Grande do Sul e outros acervos fotográficos. Forte abraço

Léa, Quero cumprimentá-la pela retrospectiva do kibutz Bror Chail. De maneira sucinta e objetiva, você resumiu a história desse kibutz, desde a fundação até o presente, com a rápida mudança de pensamento e diretriz ocorrida nas últimas décadas. Não faltaram as recordações das visitas de Érico Veríssimo, Guilherme Figueiredo e a sua presença. Pareceu-me, na verdade, também um núcleo de cultura brasileira e, consequentemente, um núcleo de difusão de nossa música e literatura. Um tópico que me chamou a atenção nesse Boletim, à página 6, trata da existência da Fraternidade Cristão Judaica, que deve ser interessante na convivência de ideias.

Rubens Guelman

Sérgio Bittencourt Sampaio, médico, escritor, membro da Academia Brasileira de Música - Rio de Janeiro

“Confesso que gostei muito da revista do AHJB. Ela merecia ser melhor divulgada. Os artigos são realmente bons e não interessam somente para a comunidade judaica. Interessa pra quem gosta de história de uma maneira geral. Sua parte gráfica também é muito bem acabada. ”

O Rotary Club Bom Retiro agradece o recebimento da Revista do Arquivo Histórico. Gostaria de receber revistas antigas e fazer parte do seu mailing. Desde já, agradeço. Zilda B. Calencautcy

Gustavo Henrique Tuna, historiador - São Paulo (SP)

O ARQUIVO HISTÓRICO JUDAICO BRASILEIRO É UMA ENTIDADE DE UTILIDADE PÚBLICA DA COLETIVIDADE Colabore doando fotos, livros, jornais, documentos pessoais (passaportes, certidões) e objetos litúrgicos para a preservação da memória judaica no Brasil ENDEREÇO:

Rua Estela Sezefreda, 76 - Pinheiros Tel: 3088-0879 e 3082-3854 www.ahjb.com.br Estacionamento conveniado: Park Land, Rua Mateus Grou, 109 (a 50 metros do Arquivo)

E S E N R TO IO DO SÓC UIVO ARQ


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notícias

TRATAMENTO TÉCNICO DOS JORNAIS DA COLEÇÃO DE PERIÓDICOS DO ARQUIVO HISTÓRICO JUDAICO BRASILEIRO O Arquivo Histórico Judaico Brasileiro possui em seu acervo uma Coleção de Periódicos que reúne mais de 1200 títulos, entre jornais, revistas, boletins e informativos. Há raridades, como algumas publicações fora de circulação e jornais em iídiche. Sua principal característica é abordar, direta ou indiretamente, a questão judaica. Alguns periódicos nacionais, como a Crônica Israelita, são registros da vida das comunidades judaicas no Brasil. Outra parte da coleção é formada por periódicos sobre assuntos de interesse da comunidade, no país e fora dele, como A Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo, em que se pode acompanhar o início, o desenvolvimento e o fim da Segunda Guerra Mundial, assim como a situação dos judeus durante e após a mesma. São todos exemplares do século XX, sendo o mais antigo produzido em território nacional A Voz de Israel, de 1918, impresso no estado do Pará. Dando continuidade ao projeto de reestruturação dos procedimentos arquivísticos do acervo do AHJB, iniciado em 2008, está sendo realizado o tratamento dos jornais dessa coleção, com sua higienização, identificação, acondicionamento e catalogação no aplicativo Alexandria. Em maio desse ano, foram contratados três estagiários pelo convênio CIEE - o Jean, a Jéssica e a Gabriela, que estão desenvolvendo os trabalhos sob a coordenação diária de Lucia Chermont e a supervisão técnica de Solange de Souza, da empresa Largo da Memória. O trabalho tem como objetivo a conservação preventiva dos documentos, padronizando o sistema de acondicionamento adequado para os diversos tipos de periódicos que estão sendo preservados em pastas de poliondas brancas, e um melhor acesso aos pesquisadores, uma vez que os jornais estão sendo identificados e catalogados, atividade que possibilitará uma consulta mais eficaz e ágil. O processo de trabalho se inicia pela limpeza manual dos jornais, com instrumentos apropriados e técnicas adequadas, voltadas à preservação dos documentos. Nesse processo também são verificadas as condições físicas dos documentos, com a separação daqueles que não estão em bom estado de conservação, como, por exemplo, os que possuem fungos. Estes são separados para um processo de “secagem”, para serem resguardados posteriormente. Após a limpeza, os jornais são agrupados por título,

formando-se a coleção com sua ordenação cronológica, os exemplares são identificados por data e número de páginas, essas informações estão sendo registradas em planilhas com o intuito de facilitar a posterior catalogação no aplicativo Alexandria. O trabalho de acondicionamento é voltado para a melhor organização e conservação dos periódicos, facilitando, assim, o acesso ao documento pelo pesquisador. Para a realização dessa etapa, foram confeccionadas pastas em poliondas para a guarda dos documentos e etiquetas provisórias de identificação, contendo o nome da coleção e seu ano. A última etapa do trabalho é o arrolamento dos periódicos no aplicativo Alexandria, que é um software específico para a descrição e o inventário de todos os documentos que compõem o acervo do AHJB, conforme seus gêneros documentais. O registro dos jornais no Alexandria possibilita sua consulta on line no site do Arquivo, onde o pesquisador poderá sondar por título, data e exemplar.


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NOTÍCIAS

Abaixo, um demonstrativo dos periódicos já tratados: American Zionist, AUFBAU, Círculo Macabi, Crônica Israelita, Der Wecker, Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Folha Israelita Brasileira, Folk In Velr, Gazeta Israelita de São Paulo, Grêmio Sinai, Imprensa Israelita, Jerusalém Post, Jornal da FIERJ, Macabeus, Menorah, Nossa Voz, Nueva Sion, Press Alef, Resenha Judaica, Semana Judaica, Visão Judaica, Voz de Israel, Yiddish Forward, Yiddish Welt, Yiddisher Kemfer. Com o desenvolvimento desse trabalho, foi possível constatar que o tratamento técnico dado aos jornais facilitou o acesso do pesquisador ao acervo, além de evitar o contínuo desgaste da documentação e contribuir para a melhor conservação do acervo.

Visita dos alunos e da profª Elizabeth Doratioto da disciplina Gestão de Documentos, do curso de Contabilidade da ETEC Guaracy Silveira, uma tradicional escola técnica paulista e a única na região de Pinheiros, ao AHJB. Nesta visita, que ocorreu no dia 21/07 das 19 às 21h30, o grupo foi recebido pelo vice-presidente e diretor de acervos, Roney Cytrynowicz, e pela supervisora Lucia Chermont.

Biblioteca e Documentação

A exposição “Imigração Judaica – Cronologia e Origens” do AHJB, que ficou exposta no Memorial do Imigrante de 27/03 a 11/04 de 2010 com grande sucesso, foi solicitada pelo Colégio Bialik para enriquecer o evento do Projeto Shorashim – Raízes dos alunos do 7º ano. Este projeto tem como objetivo um estudo das famílias no qual os alunos pesquisaram, registraram e coletaram depoimentos familiares. Ao final do projeto, cada aluno preparou um Álbum de Família que foi entregue aos pais no dia 16/09/2010, numa grande comemoração no salão do colégio.


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NOTÍCIAS

Os judeus em São Paulo: um mosaico de nacionalidades O CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola) iniciou, no dia 19 de Agosto, a 7ª edição do curso de História de São Paulo, coordenado pela professora doutora Ana Maria de Almeida Camargo, docente do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e membro da Academia Paulista de História. O curso, que é oferecido gratuitamente, é voltado para estudantes, professores, pesquisadores e demais interessados na história de São Paulo. O tema central, este ano, é São Paulo de todos os povos, e tem o propósito de focalizar algumas das muitas nacionalidades que contribuíram para a formação de São Paulo e de seu caráter multicultural. A primeira aula, ministrada pela professora Maria Luiza Tucci Carneiro, da USP, abordou o tema da presença judaica em São Paulo. Com o auditório lotado, com capacidade para 419 pessoas, o início da aula deu-se a partir da contemplação da obra Os Eternos Caminhantes, de Lasar Segall, confiscado em 1933 pelos nazistas e exposto em Berlim como arte degenerada. O final da aula se deu em um clima de otimismo, pois a comunidade judaica superou os obstáculos impostos pelo governo brasileiro e hoje é uma das mais importantes comunidades de imigrantes do Brasil. A professora Maria Luiza Tucci Carneiro aproveitou para lembrar que alguns artistas mais importantes do cenário brasileiro, são imigrantes judeus, como Alice Brill, Hilde Weber, Ernesto de Fiori e Gerda Brentani. Gabriela Munin, aluna de História da PUC-SP, colaboradora e estagiária do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro observou com satisfação que a maioria dos documentos e fotos expostas durante a primeira aula do 7º curso de História de São Paulo são do acervo do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro. O 7º curso de História de São Paulo, iniciado em 19 de Agosto a 28 de Outubro, terá prosseguimento às quintas-feiras, das 9h30 às 12h, no Espaço Sociocultural – Teatro CIEE, no Itaim Bibi. Para mais informações: www.ciee.org.br

História Oral do AHJB Entrevistas de Imigrantes da Bessarábia À página 16 deste Boletim, o leitor encontrará uma interessante matéria intitulada BESSARÁBIA. Aproveitamos para informar que o Núcleo de História Oral do AHJB tem, em seu acervo, uma série de entrevistas de bessarabers, imigrantes da Bessarábia, cujos nomes elencamos a seguir: Moyses Barmak Berel Aizenstein Zeilich Nachim Olga Papadopol Max Perlman Ida Portnoi Cecília Maiberg Israel Schmulevich Salomão Schwartzman Leonel Tabacoff David Vaie Sara Abramovitch Joseph Kantor Rivka Acherboim

Moises Bitelman Moti Coifman Jacob Guinsburg Polly Kasinsky Bertha Kogan Isay Lovinger Malvina Teperman Isaac Pekelman Clara Rechulsky Tuba Schnaider Moises Schneiderman Miriam Seinfeld Ovsie Solon

SABER MAIS SOBRE SEU PASSADO SIGNIFICA TER CONDIÇÕES DE TRANSMITIR MAIS CONHECIMENTO E INFORMAÇÃO A SEUS FILHOS. O NOSSO ACERVO DE FOTOS, OS MILHARES DE DOCUMENTOS QUE ESTÃO SOB NOSSOS CUIDADOS, OS LIVROS DE REGISTRO DE NAVIOS DE IMIGRANTES, OS REGISTROS DE ESCOLAS, SINAGOGAS, CLUBES E ASSOCIAÇÕES DE SÃO PAULO E DE TODO O BRASIL PODEM CONTER INFORMAÇÕES QUE LHE INTERESSAM.

VISITE-NOS! AGUARDAMOS SUA VISITA. ESTAMOS NA RUA ESTELA SEZEFREDA, 76 EM PINHEIROS. NOSSOS TELEFONES SÃO: 3088-0879 e 3082-3854


MUSEUS

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Judeus a serviço de sua majestade Israel Blajberg (*)

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oucos imaginariam que, em 1949, dez mil veteranos britânicos judeus participaram das cerimônias recordatórias dos mortos nas guerras, que se realizam tradicionalmente no primeiro domingo de novembro no Cenotaph, monumento situado em pleno centro de Londres, onde ocorre o desfile dos excombatentes de todas as guerras travadas pela Inglaterra. Antes do desfile, uma personalidade de destaque costuma passar em revista os veteranos formados, pertencentes à AJEX – Association of Jewish Ex-Servicemen and Women. Entre os que receberam as honras do destacamento judaico, figuras como o General Sir Ian Hamilton, Duque de Edinburgo, Marechal de Campo Visconde Bernard Montgomery, Almirante Conde Mountbatten de Burma, General Sir Peter de la Billiere (Comandante das tropas inglesas na Guerra do Golfo), o Duque de Kent e a Princesa Alexandra. Tradicionalmente, antes da parada, dois veteranos judeus colocam uma coroa de flores no formato de uma Estrela de David aos pés do monumento, onde se lê: In Memory of the British Jews who fell in the Wars. Estes veteranos são escolhidos entre os possuidores da mais alta condecoração inglesa, a VC – Victory Cross. Diante da Union Jack hasteada no mastro, um breve serviço religioso, em que o Rabino Capelão Militar entoa um trecho do Aleinu e do Kadish, e os corneteiros da Royal Horse Guards tocam The Last Post e Reveille. Algumas vezes, a banda do Scots Guard acompanha o canto do Adon Olam, tudo transmitido pela BBC. Após 2 minutos de silêncio e o Hino Nacional, a parada se dispersa. A tradição militar judaico-britânica vem de longa data. Havia marinheiros judeus na HMS Victory, a naucapitânea do Almirante Nelson, que derrotou a esquadra franco-espanhola na Batalha Naval de Trafalgar, em 1805, em que ele perdeu a vida, não sem antes declarar “Graças a D_us, cumpri o meu dever...”. A notícia da vitória inglesa levou 3 semanas para chegar a Londres. Já na Batalha de Waterloo, havia 15 oficiais judeus. Na Guerra da Criméia, havia soldados judeus, assim

como na Guerra dos Boers, 1898-1902, em que 3 mil soldados judeus participaram, dos quais 150 morreram em combate. Já na 1a Guerra Mundial, houve três batalhões, o 38th, 39th e 40th Battalions of the Royal Fusiliers, que, em 1918, ajudaram a liberar a Palestina do dominio turco, sob o comando do General Sir Edmund Allenby, cujo nome ficou na principal via de Jerusalém. Eram conhecidos jocosamente como os Royal Jewsiliers... O Major Edmund L. de Rothschild foi um dos Presidentes da AJEX, que mantém um Museu Militar Judaico na Shield House, situada no bairro judaico de Golders Green, a 40 m do centro de Londres. A AJEX é filiada a JWV – Jewish War Veterans, uma conferência internacional de veteranos de guerra judeus de 6 países, fundada em Viena, cuja primeira reunião ocorreu em Paris, em 1935. A AJEX realiza tambem cerimônias em cemitérios militares, como o britânico de El Alamein no Egito, o americano de Cambridge, o canadense de Brettevillesur-Laize na França, onde repousam os restos mortais de muitos soldados judeus. Uma cerimônia particularmente tocante é realizada todos os anos em Ravenna, Itália, onde os veteranos de Israel homenageiam os 34 soldados da Brigada Judaica ali enterrados, e no Cemitério de


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Camerlogna, onde estão enterrados 200 partisãos que lutaram com a Brigada. Esta Brigada foi formada no Exército Britânico em setembro de 1944, com 3 batalhões judaicos do Palestine Regiment, comandada pelo canadense Brigadeiro Ernest Benjamin, CBE. Suas bandeiras e insígnias estão expostas no Imperial War Museum em Londres e no Jewish Military Museum da AJEX em Shield House. Eram cerca de 6 mil e, em janeiro de 1945, derrotaram os alemães no Rio Sevio. Eles integravam o 8° Corpo do Exército, tendo sido altamente elogiados pelo comandante General Mark Clark. Setecentos e cinquenta soldados judeus da Palestina tombaram em combate, e mais de 100 integrantes da Brigada foram condecorados. Trinta mil voluntários judeus foram recrutados na Palestina, entrando em ação na França, África do Norte, Itália e Creta. Um único judeu serviu com os famosos Gurkhas, no 153 Gurkha Parachute Battalion. Ele era australiano e foi ferido em Monte Cassino, em 1944. O Museu da AJEX presta uma homenagem especial ao Major Charles Orde Wingate, comandante dos Chindits em Burma, onde tombou em combate contra os japoneses em 1944. Em 1930, na Palestina, Wingate organizara na Haganá a Esquadra Noturna Especial, para defender os núcleos judaicos e o oleoduto do Iraque. Nestes pelotões, serviram os jovens Ygal Alon e Moshé Dayan. Um importante centro de educação física de Israel leva hoje seu nome, o Wingate Institute. Nos últimos 250 anos, 130 mil judeus serviram nas Forças Armadas Britânicas, sendo 3 mil agraciados com medalhas e elogios, e 6 mil mortos em combate. Cinquenta e cinco mil lutaram na Primeira Guerra Mundial, sendo 5 condecorados com a Victory Cross. Já na Segunda Guerra Mundial, serviram 60 mil dos 360 mil cidadãos judeus.

Dez mil judeus ingressam nas forças armadas do pós-guerra. Desde 1759, nas batalhas contra os franceses, até hoje no Afeganistão e Iraque, passando por Trafalgar e Waterloo, Chipre, Quênia, Malásia, Coreia, Falklands, Irlanda do Norte e Tropas de Paz da ONU na Bósnia. As tropas inglesas foram as libertadoras do Campo de Bergen-Belsen. Em 1915, graças aos esforços de Wladimir Zeev Jabotinski e do Dr Chaim Weizmann, foi formado, no Egito, o Zion Mule Corps, com 700 judeus expulsos do Império Otomano para a Palestina, com a missão de transportar suprimentos para as tropas inglesas. Muitos morreram sob fogo de metralhadoras turcas; outros, devido à malária e ao tifo. Em 1917, Jabotinski e Weizmann conseguiram a criação do primeiro batalhão judaico dos Royal Fusiliers, o 38o, recrutado no East End judaico de Londres, e conhecido como o Schneiders Batallion (batalhão dos alfaiates). Em seguida, Ben Gurion e Ben Zvi conseguiram formar o 39o, com pessoal recrutado nos Estados Unidos e, finalmente, o 40o foi formado na Palestina. Eram 7 mil soldados, oficialmente designados como The Judeans e comandados pelo Coronel Patterson, cristão e ardente sionista. O 38o entrou em ação no Vale do Jordão contra os turcos, e participou da parada da vitória em Jerusalém, aberta pelo General Allenby. Um importante general judeu da Primeira Guerra Mundial foi o australiano Marechal de Campo Sir John Monash, comandante das Forças Australianas, a quem se creditam os planos de batalha que conduziram ao final da Primeira Guerra Mundial. Hoje em dia, estima-se que, a qualquer tempo, haja cerca de 100 judeus, homens e mulheres, servindo nas tropas britânicas. O Autor agradece a Henry Morris, curador do Jewish Military Museum, e integrante da Força Aeronaval da Royal Navy em 1942-1946, pela visita guiada e demais informações. Londres, abril de 2010 (*) Israel Blajberg, sócio-titular do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB) e membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil - AHIMTB


HISTÓRIA

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Diásporas e diversidade cultural dos imigrantes judeus no Brasil

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RACHEL MIZRAHI *

mobilização dos seres humanos pelo espaço geográfico é uma constante e verificada desde a antiguidade. Dos povos antigos, os judeus, por várias circunstâncias, estiveram presentes na maioria dos movimentos migratórios internacionais. Dos deslocamentos espaciais, a primeira diáspora, ocorrida em 586 antes da era comum, decorrente da destruição do Primeiro Templo de Jerusalém, foi a mais importante. Foi na Babilônia - terra do primeiro exílio – que os sábios se conscientizaram da necessidade de organizar a fé mosaica. A elaboração do Talmud, a absorção da fé monoteísta e dos valores fundamentais na terra de origem foram essenciais para a história do povo judeu. Cristalizadas a crença e as tradições, o judaísmo Primeira cerimônia de benót--Mitzváh, realizada em São Paulo, pode conservar-se, identificando o povo no tempo e no Sinagoga da Abolição, 1939 - Acervo AHJB espaço. Em Israel, Jerusalém, Safed, Hebron e Tiberíades porque resultou da expulsão dos expressivos judeus da Perepresentam os mais antigos centros judaicos, povoados nínsula Ibérica, posicionando grande número de famílias por descendentes da comunidade original, o ishuv. sefaraditas (judeus e cristãos novos, tornadas ao JudaísNa antiguidade, a facilidade de migrar para amplos mo) em espaços ocidentais e orientais da Europa, África e territórios de mando único, levou judeus se instalarem em regiões da Europa Oriental, Oriente Médio, Nordeste nos domínios ocidentais e orientais do Império Romada África, terras sob o domínio do no, principalmente depois da desA Argentina e depois o Brasil extenso Império Otomano. truição do Segundo Templo de Jereceberam grande número de rusalém, no ano 70. Dispersos, os imigrantes judeus. Segundo dados A grande emigração para judeus acomodaram-se em várias demográficos, no período de 1840 o continente americano regiões dos velhos continentes. a 1938, os dois países acolheram Dois milênios de contatos interculAs Guerras Mundiais, a pobreza, 284.000 imigrantes judeus, turais levaram os judeus a absorveo desemprego, o antissemitismo, rem uma diversidade de valores e correspondendo a 6,4% da população os conflitos regionais, o serviço migeral argentina e 0,6% da brasileira, litar obrigatório e o Holocausto se padrões de comportamentos: substituíram o aramaico por outras línsegundo dados do demógrafo transformaram em fortes motivos guas, aderiram a costumes, novos Sérgio Della Pergola da Universidade para emigração de grande número hábitos de alimentação, vestimende judeus dos velhos continentes. Hebraica de Jerusalém em 1992. tas, além do gosto musical e danças A maioria optou pelos Estados Unide outros povos. Pesquisas históricas revelam a existência dos da América do Norte. A conscientização do significado de 16 grupos culturais judaicos. Ao lado da maioria ashdas etnias para a composição da população do país levou a quenazita, de origem européia e língua iídiche, os sefaque os responsáveis pela imigração a impore o sistema de raditas expressavam-se em ladino, os do Magreb (norte cotas. A adoção dessa política nos primeiros anos do século da África), os iraquianos, os alepinos (Síria), os iemenitas, XX fez redirecionar as correntes migratórias dos velhos conos persas, os de Bukhara, do Uzbequistão, os falashas da tinentes para outros continentes e à América Latina. Etiópia e outros poucos. Embora a mobilização entre toA Argentina e depois o Brasil receberam grande número dos fosse comum, a Diáspora sefaradita foi significante, de imigrantes judeus. Segundo dados demográficos, no


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período de 1840 a 1938, os dois países acolheram 284.000 imigrantes judeus, correspondendo a 6,4% da população geral argentina e 0,6% da brasileira, segundo dados do demógrafo Sérgio Della Pergola da Universidade Hebraica de Jerusalém em 1992. À semelhança dos Estados Unidos, o Brasil adotou, a partir de 1930, uma política imigratória restritiva, depois de período de livre e aleatória entrada de imigrantes de quaisquer origens. O antissemitismo de intelectuais e políticos brasileiros, comprovado por documentos do Arquivo Histórico do Itamaraty do Rio de Janeiro, mostra os responsáveis por essa política pronunciando-se contrários à entrada de semitas no Brasil, definindo, desde 1921, os judeus como uma etnia composta de elementos “parasytários e inassimiláveis”1. O antissemitismo dos diplomatas tornou-se patente em 1937, quando o Brasil, ligado às nações do Eixo, manteve, no Ministério das Relações Exteriores, as “circulares secretas” que definiam caminhos para uma política imigratória restritiva, até então sem definição2. Minoria no conjunto geral dos imigrantes, os judeus, quando aportaram no Brasil nos primeiros anos do século XX, constataram, na cidade do Rio de Janeiro, a presença de grupos da mesma origem religiosa, descendentes de ingleses e marroquinos que haviam emigrado em décadas anteriores. Antes, os judeus marroquinos haviam formado, nas cidades de Belém e Manaus, específicas comunidades de seringueiros e regatões. Construíram sinagogas e organizaram, em 1842, a “Sociedade Cemitério” e uma escola, a “Maguen David”. Ao lado das comunidades do norte brasileiro, a União Israelita Shel Guemilut Chassadim, oficializada em 1873 no Rio de Janeiro, atendia marroquinos e judeus alsacianos (ashquenazitas e sefaraditas) que chegaram ao Brasil, depois das guerras francoprussianas de 1870. No período, famílias judias procedentes da Rússia e Europa Oriental emigraram, compondo no Rio de Janeiro, São Paulo e em várias cidades do interior, núcleos judaicos de importância. A ICA (Jewish Colonization Association), que havia acomodado ashquenazitas nas colônias agrícolas de Philipson e dos Quatro Irmãos no Rio Grande do Sul, ao instalar um escritório no Rio de Janeiro em 1904, recepcionou novos imigrantes judeus que chegavam à cidade, então capital do país. No mesmo período, fugindo da obrigatoriedade 1 Doc. Ofício 293/3/4 do Arquivo Histórico do Itamaraty do Rio de Janeiro. 2 Maria Luiza Tucci Carneiro: O Antissemitismo da Era Vargas. Fantasmas de uma geração. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2001.

HISTÓRIA

Família Mizrahi, São Paulo. Foto: AHJB

do serviço militar, sefaraditas e judeus que se expressavam em árabe, emigraram para as cidades brasileiras. Eram conhecidos como judeus orientais, procedentes das cidades de Sidon, Beirute, Safed e Jerusalém. Essa leva imigrante cresceu em número, em vista das Cartas de Chamada que trouxeram familiares e amigos das primeiras famílias judias do Oriente Médio. Convém lembrar que todos os imigrantes judeus que chegaram ao Brasil, vieram de forma aleatória e familiar, sem apoio governamental de seus países de origem, onde eram discriminados. Na década de 30 do século passado, a cidade de São Paulo, pelo dinamismo comercial e industrial, passou a atrair um número maior de imigrantes, inclusive os judeus. A pluralidade de origem, as diferentes línguas e costumes levaram os imigrantes judeus a se organizarem de forma particular, tomando como matriz suas comunidades de origem. O ashquenazita, em maior número em São Paulo, escolheu viver no Bom Retiro, bairro limítrofe ao Brás, onde estava a Hospedaria dos Imigrantes. Na


HISTÓRIA

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mesma cidade, na Rua dos Imigrantes (hoje, José Paulino), criaram várias sinagogas segundo suas origens e as primeiras instituições judaicas de São Paulo. Os sefaraditas, econômica, social e culturalmente melhor situados, pro- Os industriais Moisés Castro Nahum e Iso (Calderon) Sinagoga da Rua da Abolição - SP - Acervo AHJB Masijah, São Paulo - Acervo AHJB cedentes da ilha São Paulo. Embora separados por bairros, os judeus identifide Rhodes e das cosmopolitas cidades de Istambul e de cavam-se pela fé e observância do Shabat, do Rosh Hashaná, Esmirna na atual República da Turquia, acomodaram-se do Yom Kípur, do Brit-Milá e outras tradições. A maioria não assim que chegaram em bairros residenciais do Rio de Jacompreendia as diferenças culturais específicas. Aos poucos, neiro e de São Paulo. Expressando-se em idioma próximo especialmente movidos pela necessidade da observância da ao português, esses imigrantes rapidamente se acomodaKashrut, sefaraditas e orientais buscaram contatos mais próram no meio social das médias e altas classes das duas ximos com os ashquenazitas. cidades. Em São Paulo e em Santos, residindo em regiões O processo de integração judaica de São Paulo foi ininobres, ligaram-se aos negócios de importação e exportaciado através de instituições e organizações beneficentes ção de produtos como o café, cereais, frutas, tecidos finos, comunitárias. Enviar os filhos para estudarem em escolas tapetes orientais e minerais. Além do português, os sefajudaicas criadas pelos judeus europeus foi proposta da raditas comunicavam-se em francês, língua aprendida nos liderança dos judeus procedentes de Safed, Jerusalém e colégios confessionais e nas escolas da Alliance Israélite outras cidades do atual Estado de Israel. A necessária inUniverselle, existentes em suas cidades de origem. tegração social levou dirigentes dos grêmios recreativos Os primeiros imigrantes judeus de fala árabe residiam como o Grêmio Sinai (Mooca), o CIBAT ou Centro Israena Mooca, bairro étnico da zona leste de São Paulo. Polita Brasileiro Amadeu Toledano (sefaradita, da Sinagoga sicionaram-se junto aos imigrantes italianos, espanhóis e da Abolição) e o Círculo Israelita (ashquenazita, no Centro aos migrantes nacionais, entre os quais, os nordestinos. de São Paulo) a organizarem eventos sociais para integrar Identificavam-se, pelo idioma e costumes, aos árabemujovens das diferentes comunidades judaicas. çulmanos e cristãos maronitas, imigrantes mais antigos Em 1946, com a fundação da FISESP - Federação Israelita e procedentes das mesmas terras do Oriente Médio. De do Estado de São Paulo, especialmente para organizar a nacionalidade turcootomana, esses imigrantes preferiajuda e recepção aos sobreviventes e refugiados judeus do ram ser designados como “síriolibaneses”. IdentificaremHolocausto, e aos judeus expulsos dos novos países árase como “turcos” os reportaria ao “Genocídio Armênio” bes, logo depois da fundação do Estado de Israel, iniciade 1915, amplamente divulgado pela imprensa mundial ram-se contatos próximos entre as diferentes comunidado período e que, socialmente, os discriminaria. des judaicas de São Paulo. Hoje, a Associação Brasileira “A Instalados no comércio atacadista da Rua Oriente, no Hebraica”, fundada em São Paulo em 1953, e o Macabi, Brás, os síriolibaneses vendiam diversas mercadorias aos criado em 1927, associando-se ao antigo Círculo Israelita judeus provenientes das mesmas terras otomanas e coBrasileiro, buscam, através das programações esportivas, nhecidos como os “turcos da prestação”. Os ashquenarecreativas e culturais, integrar parte dos 70.000 judeus de zitas, que tinham a mesma forma de subsistência, eram São Paulo, maioria da população judaica brasileira, avaliaconhecidos como os “judeus da prestação”. da em torno de 100.000 pessoas3 . No início, os contatos entre os diferentes grupos de imigrantes judeus de São Paulo não eram fáceis. No geral, ig3 A população judaica mundial atinge hoje o número de 13.200.000. Destes, 4.9 milhões estão no Estado de Israel. Os demais, em países da Diáspora. noravam-se e, mutuamente, não se reconheciam como pertencentes ao mesmo grupo religioso. O iídiche, o ladino e o * Rachel Mizrahi, historiadora, Doutora em História (USP), autora árabe separavam esses imigrantes judeus que formaram as dentre outros de: Imigrantes judeus do Oriente Médio. São Paulo e Rio de Janeiro (2003). primeiras comunidades e instituições judaicas da cidade de


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RABINO MOSSEH REPHAEL D’AGUILAR BIOGRAFIA E ORIGEM RABINO Y. DAVID WEITMAN *

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amos comentar um pouco sobre uma figura importante que ficou muito tempo aqui no Brasil colonial em Recife. Refiro-me ao Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar. Ele não é tão conhecido como o Rabino Isaac Aboab da Fonseca, que era o Rabino-Chefe de Recife e que, mais tarde, em 1654, depois da capitulação, voltou para Amsterdã e se tornou o Rabino Mor na comunidade hispano-portuguesa da cidade. Foi o Rabino Aboab quem incentivou a construção da grande sinagoga portuguesa de Amsterdã. Como todos conhecem, foi muito famoso, escreveu vários livros; realmente uma figura especial, abordada intensamente em nosso livro “Bandeirantes Espirituais do Brasil”. Rabino Isaac Aboab da Fonseca foi um homem extraordinário que falava dez idiomas, era músico, poeta, exegeta, filósofo e cabalista, pois entendia perfeitamente a parte esotérica e profunda da Torá. Enfim, um homem extremamente erudito e um grande líder do povo de Israel. Em sua lápide tumular está escrito: “ele liderou por 70 anos sua comunidade”. Todavia, ele não foi o único rabino em Recife. Houve vários sábios na comunidade de Recife. Eles vieram em massa para o Brasil-Holanda no ano de 1642, provindos de Amsterdã. Já havia judeus oficialmente no Brasil desde 1630 (antes, havia cripto-judeus sob domínio português), mas é apenas a partir de 1642 que a comunidade se organiza. Junto com o Rabino Isaac da Fonseca, veio o Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar,

que também foi uma figura muito importante nesse cenário. Mesmo que alguns historiadores tendam a dizer que ele era apenas o chazan (cantor e condutor das rezas) em Recife e não se destacava tanto, essa conclusão errônea se deve ao fato de eles não verem seu nome nas atas da comunidade Tsur Israel de Recife, que se conservaram desde aquela época e que hoje já foram publicadas. Lá consta o salário de todos os funcionários comunitários, como o shochet (magarefe), o professor e o próprio Rabino Isaac Aboab; estranhamente, não aparece o nome de Rabino Mosseh d’Aguilar. Este argumento, no entanto, não tem fundamento, porque havia duas sinagogas em Recife. Alguns historiadores dizem que havia 5.000 judeus na comunidade – o que para mim é um pouco exagerado, mas, sem dúvida havia bastantes ao ponto de justificar a existência de duas sinagogas. Uma parte ficou em Recife e a outra, em Antônio Vaz, também chamada de S. Antônio ou Maurícia, hoje ligada através de uma ponte. Contudo, naquela época, não havia a possibilidade de ir de um lado ao outro no Shabat, pois um barco era necessário. Por isso, a comunidade de Tsur Israel deu a permissão para construir uma segunda sinagoga naquela cidade vizinha. A sinagoga se chamava Maguen Avraham, e o Rabino daquela sinagoga era justamente Mosseh Rephael d’Aguilar; por isto, não figura no quadro de funcionários da Tsur Israel. Analisando os livros dos historiadores, veremos que ele veio especial-

mente para o Brasil com esse propósito. David Franco Mendes escreve, em seu livro de memórias, que cada um que era recebido por suas comunidades, ia logo trabalhando com sua congregação. Apesar de ter vivido muito tempo na sombra de Rabino Isaac Aboab, Rabino Mosseh Rephael foi uma pessoa muito especial e muito erudita, tanto é que acabou entrando e fazendo parte do Tribunal Rabínico da comunidade Talmud Torá em Amsterdã. Não sabemos ao certo o local de seu nascimento, mas fica entre Portugal e Amsterdã. Com certeza, foi educado e adquiriu sua vasta cultura em Amsterdã, tanto em Judaísmo como em cultura geral. Ele sabia grego e latim perfeitamente, filosofia, escreveu tratados de retórica. Supõe-se que nasceu por volta de 1615 e, em 1639, já era rabino. Sabemos isso de sua lápide tumular, que se encontra no cemitério judaico de Amsterdã, onde está escrito “ele liderou a comunidade por 40 anos”. Se ele faleceu em 1679, significa que 40 anos antes já era rabino. Em 1637, o encontramos ainda como aluno da escola Ets Chayim, em Amsterdã. Em 1640, já encontramos suas obras de refutação das teorias do herege Uriel da Costa, que escreveu várias propostas contra a tradição judaica. Na ocasião, o jovem Mosseh Rephael refutou com muita maestria as suas teorias. Aparentemente, ele descende de uma família mais humilde do que a de Rabino Isaac Aboab. Tanto que consta que ele recebia um subsídio da


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comunidade (que era bastante organizada) para custear os seus estudos. Aquele que idealizou essa comunidade que abrigou os judeus de Portugal e Espanha foi o Rabino Shaul Levi Morteira. Havia um fundo chamado Haspaká, que servia justamente para custear os estudos de Torá de famílias mais carentes. Em 1642, ele embarca para o Brasil no mesmo navio de Rabino Isaac da Fonseca. No Brasil, Rabino Mosseh Rephael teve uma atuação muito significativa até a reconquista do Brasil pelos portugueses. Após a capitulação de 1654, poucos fugiram para o sertão, outros para as Guianas, mas a maior parte da comunidade judaica voltou com seus pertences para a Holanda em 23 navios. Dois desses navios foram capturados por piratas e levados para a Jamaica. Uma vez liberados, avançaram em direção ao norte, para Nova Amsterdã, fundando a primeira comunidade judaica de Nova Iorque. De volta a Amsterdã, em 1660, faleceu o Rabino Shaul Levi Morteira, e no ano seguinte, Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar é chamado para integrar o Tribunal Rabínico, presidido pelo Rabino Isaac Aboab da Fonseca. Além disso, tornou-se professor de Talmud na Yeshivá, recebendo salário de 400 florins por ano. Ele dominava um hebraico perfeito e falava com seus alunos somente nesse idioma. Ele foi um grande filólogo, compondo vários poemas em hebraico, bem como um livro de gramática hebraica. Os próprios Sábios de Amsterdã pediram para o Rabino Mosseh Rephael oferecer aulas de retórica para os jovens estudantes da Ieshivá e ensiná-los a falar em público sobre a porção semanal a cada Shabat. Ele também se destacou ao trazer de volta os judeus marranos perdidos e que ainda não haviam reingressado em seu Judaísmo. Por isso,

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mantinha correspondência intensa com eles, para aproximá-los de volta ao seu patrimônio espiritual. Existem manuscritos de d’Aguilar de mais de 1.000 páginas, e muitos ainda não foram publicados. Encontramos correspondência com esses cripto-judeus que viviam na França, em Bordeaux, e em Baiona, na Bélgica, na Antuérpia e em Hamburgo, para assim dirimir suas dúvidas. Sem dúvida nenhuma, Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar desempenhou uma função de extrema importância, e sua luz brilhou principalmente em Amsterdã. Uma das provas para saber se alguém foi um grande sábio é saber se ele aprovou uma obra judaica. O costume judaico é que, quando se escreve um livro judaico de autoria própria, pede-se aprovação de sábios maiores e ilustres, o que chamamos, em hebraico, haskamá. Essa aprovação mostra que o autor tem o conhecimento e a erudição necessários, possui temor a D’us e é digno de escrever uma obra de valor. Amsterdã foi, naquela época, um grande centro de impressão de livros judaicos, inclusive a primeira gráfica judaica da cidade pertencia ao Rabino Menashe ben Israel. Muitos grandes rabinos, inclusive da Europa Oriental, como Polônia, Tchecolosváquia e Alemanha, bem como grandes sábios sefaraditas, portugueses e espanhóis, vinham até Amsterdã para imprimir seus livros e receber aprovação dos rabinos. Entre os sábios que davam frequentemente sua aprovação para esses livros, estavam os Rabinos Isaac Aboab da Fonseca e Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar. Daí, vemos o grande gabarito intelectual pelo qual primam esses dois Rabinos. Inclusive grandes sábios da Polônia, como Rabino Isaac de Poznan, que fazia parte do Conselho dos Quatro

Países, escrevem palavras maravilhosas a respeito destes grandes vultos. Outra prova é que a biblioteca de d’Aguilar foi doada depois de ele ter falecido, talvez porque a família precisava de dinheiro. Na ocasião, fizeram um levantamento dos livros que ele possuía e de um catálogo, que abrangia todos os assuntos judaicos: Halachá, Agadá, Talmud, Filosofia, Cabalá, entre outros. Sua biblioteca leiga incluía livros gregos, romanos e em latim. Incrível! Houve um grande sábio tcheco que escreveu o livro Siftei Yeshenim (Rav Meshorer Bass), que é uma curta biografia e bibliografia sobre vários sábios judeus e suas obras. Ele conta, no prefácio de seu livro, que sentira dificuldades em encontrar livros raros judaicos para sua pesquisa, mas quando chegou a Amsterdã, à casa do Rabino Mosseh d’Aguilar, ele generosamente abriu-lhe as portas de sua biblioteca e permitiu que fizesse sua pesquisa. Finalmente, achou o que estava procurando. Apesar de não ser muito conhecido, porque cuidava daquela sinagoga menor em Recife, até seu último dia de vida, lecionou Talmud na Academia Talmúdica em Amsterdã. Outro fato interessante é que Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar era tio de uma personalidade importante para o Brasil; um jovem mancebo chamado Isaac de Castro. Rabino d’Aguilar tinha uma irmã chamada Isabela de Pas, que era casada com um homem da família de Castro, e teve dois filhos: Isaac e David. Eles também são conhecidos por Tartaz, uma cidade no sul da França, na Provença, de onde são oriundos muitos dos cripto-judeus que fugiram de Portugal e Espanha e se refugiaram certo tempo naquela região. David de Castro possuía uma gráfica muito importante em Amsterdã, e muitos livros foram impressos lá. Seu


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irmão Isaac veio no mesmo navio que seu tio para o Brasil, em 1642. Naquela época, Isaac contava com 18 ou 19 anos e já era bastante erudito, conhecia a Torá e o hebraico, além de outros idiomas, como francês, português e holandês, tal como os outros judeus daquela época. Ele não permaneceu em Recife e foi direto para Salvador, para ensinar Torá aos cristãos novos, os judeus marranos que ainda não tinham regressado para sua religião original. Existem relatos de que havia também judeus na Paraíba. Como sabemos, a Inquisição, já naquela época, atuava não apenas na Península Ibérica, mas também no Brasil. Por isso, os inquisidores o prenderam e o levaram para Lisboa. Ficou detido por cerca de dois anos na prisão, enquanto tentaram fazer com que ele reconhecesse e aceitasse a fé católica mas ele se manteve firme em suas convicções; jamais abandonaria a fé de seus pais. Seu processo está arquivado junto com outros 22.000 na Torre do Tombo, em Lisboa. O professor Elias Lipiner conseguiu os arquivos e os imprimiu sob o título “O mancebo que veio do Brasil”. O final da história de Isaac de Castro é extremamente impressionante, como consta em livros de historiadores não-judeus. A igreja o exterminou em 1647, tendo então apenas 22 ou 23 anos. Conforme a lei da Inquisição, todos aqueles que não aceitavam mudar de religião eram queimados vivos diante de muitos clérigos que compareciam a esses Autos da Fé. A fogueira foi acesa, e os historiadores contam que após duas ou três horas em meio às chamas ouviuse um berro tão forte exclamando “Shemá Israel” (a reza máxima judaica, afirmando a Unicidade do Criador), que todos se impressionaram. Assim, ele morreu e devolveu sua alma ao Criador. A igreja se assustou

tanto com esse episódio, que, durante meses, cancelou as execuções. Esse mártir era sobrinho de Mosseh Rephael d’Aguilar, filho de sua irmã. Várias obras e discursos fúnebres foram feitos em sua homenagem, em Amsterdã. Seu próprio irmão David menciona em várias obras o trágico falecimento de seu irmão e como ele santificou o nome de D’us. O que nos interessa nesse momento é saber de onde Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar é oriundo. Os historiadores não chegaram a uma conclus��o definitiva. Por exemplo, o famoso pesquisador Kaplan escreve que ele foi educado em Amsterdã, apesar de que ele poderia ter nascido em outro lugar, como Portugal, e chegado cedo em Amsterdã. Outro historiador que escreveu vários livros, chamado Salomon, diz: provavelmente, ele deve ter sido educado em Portugal já que escreve suas obras num português perfeito, na ortografia da época e, por isso, deve ter estudado na academia de Coimbra e Beira Douro. Dificilmente aprenderia a escrever tão corretamente em Amsterdã. O nome Aguilar nos remete às localidades portuguesas, como Trás-Os-Montes. Daquela região, saíram várias levas de marranos. Porém, isso ainda não é prova de onde ele é oriundo em particular, pois pode ser que seu ancestral ou bisavô era de lá, ou adotou para si esse nome. O sobrenome igual a uma região não é prova de que ele é oriundo geograficamente daquele local. Humildemente, parece-me que talvez tenhamos achado uma solução para esse enigma. Havia um costume interessante nas gráficas judaicas: em quase todo livro impresso, o tipógrafo colocava seu nome (e, eventualmente, o de seu pai) no fim do livro, para ficar com o mérito de ter imprimido o livro sagrado de

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um grande sábio. Em alguns livros impressos em Amsterdã, naquela época, encontramos, no final observações do tipógrafo: “[impresso] por mim, obrando nesta sagrada tarefa, Jacob, filho de Rabino Moshé Rafael de Córdoba de abençoada e justa memória, hachacham hashalem (o sábio perfeito) cabalista, da comunidade do Brasil”1. Encontrei essas palavras em vários livros2. Porém, após uma análise de todas as atas, todos os estatutos e assinaturas, não encontrei outro sábio com o título “sábio perfeito” que se chamasse Mosseh Rephael, a não ser um que é o próprio Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar. Assim, parece-me que encontramos uma solução para aquilo com que os historiadores e pesquisadores se depararam: o lugar de nascimento do Rabino d’Aguilar. Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar não é oriundo nem de Portugal e nem de Amsterdã, mas nasceu em Córdoba, na Espanha. 1. Isso também é intrigante, pois não encontramos na biografia de Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar nenhum filho cujo nome seja Jacob. O que sim encontramos é um irmão Jacob, mas é absolutamente possível que não possuamos os nomes de todos os filhos de Rabino Aguilar e que a biografia seja incompleta. Esse tipógrafo Jacob d’Aguilar (quando doente deve ter acrescentado o nome Chaim, conforme o costume) trabalhava na gráfica de David de Castro Tartas, seu primo, e na gráfica de Josef Attias. Talvez seja o mesmo que mais tarde tornouse proprietário de uma gráfica em Amsterdã e imprimiu o Paráphrasis de Rabino Aboab em 1681, além de outras obras “estampadas em casa de Yaacob de Córdova”, mas esta afirmação requer um estudo mais completo. 2. Vide, por exemplo, no final do livro do Êxodo, Pentateuco (impresso em Amsterdã, 1703).

* Rabino Y. David Weitman, Rabino da Sinagoga Beit Yaakov da Congregação e Beneficência Sefaradi Paulista. Autor, dentre outras obras, de “Bandeirantes espirituais do Brasil” (2004)


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BessarÁbia

Havia o cenário imaginado, fomos à procura do cenário real TATIANA SEREBRENIC *

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estruição, reconstrução, construções começadas e inacabadas, remendos, eis o cenário que se descortina a medida que vamos adentrando as cidades da República Moldova. O ódio destrói... A força de vida, a luta pela vida é grande e poderosa e vai impondo-se, aparecendo... As cidades simbolizam o que a história fez e faz. Esse panorama foi o que encontramos quando chegamos, meu marido Jayme Serebrenic e eu, na Moldávia, a nossa Bessarábia, em busca das nossas raízes, em busca do cenário das histórias que preencheram nossa infância e continuaram por toda nossa vida. Havia o cenário imaginado, fomos à procura do cenário real. Esse já não existe mais... Notei em mim, entretanto, um esforço para separar o que havia de mais recente e vislumbrar como seriam as cidades e as aldeias (shteitels) por onde nossos pais, tios, avós passeavam, brincavam, estudavam, trabalhavam, viviam em família e com os amigos. E de onde partiram em busca de um sonho, de uma vida melhor para si e para toda a família. A natureza imponente e bela resistiu com grandeza à invasão do ódio e da ganância por meio dos séculos. Os parques verdejantes com altas árvores, entre as quais se destacam salgueiros (chorões), acácias (soltando chumacinhos de lã por toda a parte no mês de maio) e pinheiros (os das árvores de Natal), entremeados por lagos e rios límpidos e sombreados, lá se impõem firmes e altivos, com toda a sua elegância. No entanto, são decorados por construções novas, simples, de gosto duvidoso, algumas prontas, muitas em andamento, por prédios feios da época comunista, todos eles remendados pelos respectivos moradores e por casas e prédios de tempos anteriores, destruídos e abandonados, muitos deles em ruas e bairros que foram inteiramente habitados por judeus nos séculos XIX e XX, assim como por prédios do Estado com relativo bom as-

pecto por fora, mas grande parte em estado deplorável por dentro. Caindo aos pedaços, vimos centros de saúde, centros culturais, correios, escolas; fui ao banheiro das meninas na escola de Beltz e era um buraco no chão, onde se iam acumulando todos os dejetos, com um cheiro insuportável e uma porta sem tranca. Já os bancos, lojas de celular e alguns negócios, sobretudo alguns supermercados, se destacam pela modernidade, asseio e bela arrumação. A natureza e as ruínas ajudaram na reconstrução imaginária do cenário. Visitamos Kichiniov, Beltz, Yedinitz, Britchon e passamos por Ungheni e Orghei. Fizemos todo o percurso de carro nas sofríveis e trepidantes estradas, pelas quais fomos sacolejando. Entramos no país por Ungheni, vindo da Romênia, e nos dirigimos à Kichiniov. Os nomes das cidades já evidenciam as invasões, as mudanças de domínio e conturbações pelas quais a hoje independente República Moldova, o país mais pobre da Europa, passou. Como já foi parte da Rússia, depois da Romênia, depois país da URSS, as línguas romena, russa e moldava (que é como a romena) se misturam. Alguns falam só romeno, outros só russo e outros as duas; no campo domina a língua moldavia. Os cartazes estão em geral nas duas línguas e as cidades hoje têm nomes romenos, mas muitos ainda chamam pelos nomes russos: Chisinau = Kichiniov, Balti = Beltz, Edinet = Yedinitz, Briceni = Britchon, entre outros. Chamo pelos nomes russos, que são os que sempre ouvi do meu pai e dos amigos. A situação econômica desfavorável do país tem levado grande parte da população menos favorecida a outros países em busca de trabalho. Retornam, trazendo as economias e investindo em suas casas, construindo-as ou reformando-as, para depois partirem novamente. Kichiniov, a capital, onde meu pai nasceu e viveu até os 18 anos, tem uma parte central muito imponente, com lindos parques e edifícios públicos suntuosos, com um comércio ativo, onde se encontram grandes lojas bem


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Família Bitelman em Kichiniov - 1926

arrumadas, em estilo primeiromundista, e várias marcas de luxo internacionais. Bem no centro, está a linda e ampla avenida Stefan Cel Mare (Estevão, o Grande) com seu Arco do Triunfo, muito movimentada. Por ela e pelas ruas adjacentes, encontramos teatros, salas de ópera e de concerto, museus, palácios, que hoje são repartições publicas ou prédios do governo; além de ótimos hotéis e restaurantes, e um sem fim de carros, muitos de luxo, circulando num trânsito intenso (muitos Mercedes Benz, que são o grande sonho de consumo). O trânsito de pessoas também é intenso; muitas estão elegantemente vestidas. Há feiras de artesanato, gente distribuindo folhetos das mais variadas ofertas, inúmeros outdoors com publicidade de produtos globais, muitas barraquinhas vendendo sucos e confeitos, bancas de revistas, além de vários cassinos (o jogo é livre na Moldávia). À medida em que nos afastamos do centro, contudo, as ruas que já eram irregulares ali, vão ficando totalmente esburacadas, a maioria sem asfalto, as lojas vão tornando-se mais e mais pobres e impera o estilo antiquado de comércio, com mercadoria mal disposta, amontoada. Os imóveis tornam-se muito deteriorados, os feios prédios do período soviético estão remendados e surgem muitas ruínas e casas abandonadas. Há um grande mercado ao ar livre com todo o tipo de mercadoria, de mantimentos, legumes, frutas a óculos escuros, calcinhas e sutiãs, lenços e brinquedos, adornos para casa e artigos de segunda mão. A população em peso vai abastecer-se aí e o movimento de gente carregada de sacolas é intenso. Os carregadores passam com seus carrinhos pesados sem querer saber se há gente no caminho, quase atropelando o que encontram pela frente. Esse cenário da periferia é o que predomina nas pequenas cidades, sendo que, nestas, a parte central é diminuta, chegando a ser também deteriorada em muitas delas.

Com relação ao povo, tive uma enorme surpresa; acho que, influenciada pela idéia que tinha do período comunista, esperava encontrar um povo sombrio, fechado, desconfiado, mas o que encontrei foram pessoas que lembram o povo de qualquer país europeu. Nos idosos, ainda vimos pessoas mais antiquadas na maneira de ser e de vestir: algumas mulheres, com seus lenços floridos amarrados na cabeça. Entre os jovens, contudo, sente-se que buscam viver a vida dentro de padrões globais. Mantidas as devidas proporções entre capital e interior, o que se vê são jovens que se inspiram em toda a informação internacional, uma vez que filmes, novelas, vídeo clipes do mundo todo penetram em toda a parte e divulgam a moda atual. Eles andam pelas ruas, vão a bares em grupos ou em pares, sempre bem trajados, as moças muito bonitas, todas com cabelos longos, bem cuidados, com reflexos e escova bem feita, jeans atuais, tops da moda e, freqüentemente, com saltos muito altos (que chamavam sempre a atenção de Jayme meu esposo; ele não se conformava como elas podiam andar, sobretudo nas ruas esburacadas, com aqueles saltões). Os rapazes sempre com corte de cabelo muito rente (máquina 2 ou 3), com suas feições fortes, ossos proeminentes, bebendo, comendo e conversando animadamente; os pais, com suas crianças sempre bem cuidadas e bem arrumadas. Fomos muito bem atendidos em lojas e restaurantes, as pessoas eram simpáticas, procurando nos atender bem, mas sem excesso de atenção. Em Kichiniov, instalamo-nos num hotel de ótimo nível e fizemos refeições em bons restaurantes; a comida é em


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ORGHEI - sinagoga abandonada

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KICHINIOV - rabino e Jayme Serebrenic

geral de boa qualidade e muito saborosa. Depois de termos feito um pequeno passeio turístico, fomos ávidos em busca do objetivo que permeou toda a nossa viagem pelo país: o que restou das grandes comunidades judaicas que ali viviam. No censo de 1897, havia 225.000 judeus na região que hoje é a Moldávia; em 1930, eram 120.000 e, no censo de 2004, 4.000 judeus. Fomos a uma sinagoga, Beit Chabad, na Str. Habad Liubavici, a única no país que tem um rabino. No domingo de manhã, havia um senhor religioso estudando, que logo acolheu o Jayme e lhe pôs o tefilin, e um shames, o zelador, que me pediu uma contribuição. Quando pusemos na caixa da sinagoga, ele se queixou e disse que havia pedido que déssemos para ele (o que fizemos prontamente). Em seguida, depois de esperarmos que terminasse uma entrevista, o Rabino Zalman Leib Abelsky nos recebeu; considerado um sábio – veio há 20 anos de Moscou. É de fato muito especial, transmite força religiosa e paz intensas. Eu esperava que ele valorizasse a nossa busca pelas raízes, mas percebi o que se foi confirmando em todos os contatos posteriores: a comunidade judaica está ali procurando viver a sua vida, reerguer-se e com os olhos dirigidos ao presente e ao futuro, não ao passado. O passado interessava só para nós. Kichiniov, que tinha 120.000 habitantes no inicio do século, sendo 41.000 judeus, hoje tem uma população de 590.000 pessoas, com uma comunidade judaica de 2.600 pessoas. Visitamos também o cemitério e fomos em busca de túmulos dos nossos antepassados. Encontrei o túmulo de um tio–avô falecido dois anos antes do nascimento do meu pai e de quem ele recebeu o nome: Michel Bitelman. No mesmo túmulo está enterrada a sua filha morta jovem. O cemitério é bastante bem cuidado e um zelador, que cobrou pelo serviço, nos ajudou na busca por um livro elaborado em 2004, que tem todas as referências até então.

KICHINIOV - cemitério

Nesse dia, antes de sairmos de Kichiniov, almoçamos num restaurante de comida típica, com um empresário moldavo que têm uma fábrica de sorvetes e há alguns anos instalou uma filial no Brasil, em Santa Catarina. Dirigimo-nos a Beltz, a segunda cidade do país, com um grande centro, mas num padrão interiorano, com negócios bem mais simples que na capital. Quando quisemos um restaurante, fizemos uma longa busca, sem muito sucesso; ou estavam fechados ou não tinham comida. Acabamos chegando num que era um enorme salão decorado num estilo art nouveau kitsh, no segundo andar de uma casa, repleto de mesas (talvez umas 100), elegantemente postas, mas totalmente vazio. Desconfiamos que não teria comida como nos outros que tentamos, mas, para nossa surpresa, havia quase tudo que estava no extenso menu e comemos muito bem. Aí, instalamos-nos num dos melhores hotéis da cidade, mas que era muito simples. O que nos divertiu muito foi que, assim que chegamos, já noite, deram-nos três cardápios de café da manhã para que escolhêssemos se queríamos o breakfast 1, 2 ou 3. Fizemos nossas escolhas e rimos muito. No dia seguinte, uma linda e tímida garçonete que só falava russo nos trouxe exatamente todos os itens escolhidos por nós. Encontramos o líder da comunidade judaica local, Sr. Lev Bondazi, que nos recebeu muito bem e nos acompanhou a todos os locais judaicos de Beltz, começando por uma pequena sinagoga, pobre, mas que tem serviços no Shabat e nas festas. Depois, levou-nos a um centro de convivência e ensino para crianças e idosos, mantido por uma família americana. Esse centro nos impressionou pelo bom nível do prédio, pelos carros que possui para transporte dos usuários e pela qualidade das atividades que pudemos apreciar pelas fotos expostas. A esposa do senhor Bondazi, que não é judia, mostrava-nos os netos nas fotos com muito orgulho. A comunidade judaica é muito pequena, com cerca de 50 pessoas (diante dos


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KICHINIOV - rua da sinagoga

3.600 que havia no início do século em uma população de 6.100 habitantes), mas parece que mesmo esse número não é real, pois no censo eles tendem a aumentar o número de membros da comunidade, incluindo como judeus, cônjuges, filhos e netos de casamentos mistos para que a ajuda externa possa ser maior, assim como a facilitação para emigração para Israel e outros países, financiada por órgãos da comunidade internacional. O cemitério é cuidado com atenção pela comunidade e, ali e na cidade, há alguns monumentos em homenagem a judeus mortos nas guerras e nos assassinatos em massa. Vimos monumentos desse tipo em todas as cidades que visitamos. Os judeus, líderes das comunidades que encontramos nas pequenas cidades, parecem bastante prósperos, sempre com Mercedes Benz. Percebe-se que, sendo um grupo muito reduzido, adaptaram-se ao ambiente, bastante inóspito, e ali construíram suas vidas, seus negócios. Parecem satisfeitos, apesar de a geração seguinte, na maioria dos casos, ter emigrado para Israel, países da Europa ou mesmo para Kichiniov. Em seguida, dirigimo-nos a Yedenitz, onde o pai do Jayme e meu avô materno nasceram. A cidade que tinha 25.000 habitantes no início do século, dos quais 20.000 eram judeus, hoje tem 20 judeus numa população de 17.000 pessoas. Os massacres antissemitas, que lá foram bárbaros, dizimaram totalmente a população judaica. Encontramos os líderes da comunidade judaica, os prósperos irmãos Ackerman, empresários da construção civil e donos de uma fábrica de móveis, que, como eles dizem, produz as mobílias para decorar os apartamentos que vendem. Ficaram muito satisfeitos por encontrar o Jayme, que além de ser também construtor, falou iídiche com eles, sobretudo com um deles que fala bem e sente falta de ter com quem conversar em iídiche. Convidaram-nos para almoçar numa pensão-restaurante, onde eles almoçam sempre, muito simples, e que nunca teríamos percebido

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Yedenitz - cemitério (parte nova); à direita, Sr. Ackerman

passando em frente, mas onde comemos muito bem e fartamente, incluindo arenque e sprotz. Eles não têm uma sinagoga e frequentam a de Beltz. Passamos por uma antiga sinagoga, hoje abandonada. Fomos ao cemitério, onde a parte antiga está muito abandonada, com lápides tortas e entremeadas de mato, mas com a parte nova bem cuidada, com vários túmulos grandes, em bom estado e com a imagem das pessoas falecidas gravada. O Jayme encontrou o túmulo de um tio (marido da irmã do pai) bem conservado. O que se sobressai é o túmulo dos pais dos Ackerman, bem grande e central. O pai deles era funcionário dos correios nos anos 30 e, pelos jornais que ali chegavam, ia inteirandose sobre notícias da guerra. Então, resolveu fugir com a família para o Uzbequistão, onde ficaram até depois da guerra, quando retornaram para Yedenitz, para sua casa. Agora que a mãe faleceu, a casa está lá vazia e, do escritório, eles a avistam e nos mostraram. A cidade é muito pequena, com ruas quebradas, sem asfalto, poças d’água por toda a parte, casa abandonadas e algum comércio bem simples, com exceção de uma loja de material de construção de bom nível. Os parques que a circundam são lindos, com lagos bucólicos, e os Ackerman disseram que procuram construir perto dos parques. Levaram o Jayme para ver uma obra sua que sempre têm cinco andares, “porque até cinco andares não precisa de elevador”. Fomos depois para Britchon, onde, em 1930, havia 5.400 judeus numa população de 8.700 habitantes e onde a língua dominante era o iídiche. O censo de 2004 apontava 52 judeus. O que me impressionou no nosso trajeto entre as cidades foi a área rural que pudemos observar das estradas que percorríamos: os campos muito plantados, com casinhas simples, mas bonitas, tendo as fachadas decoradas com enfeites rebuscados em gesso ou madeira. Todas têm um poço na frente e todos os poços têm coberturas


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Yedenitz - antiga sinagoga: Jayme Serebrenic e o líder da comunidade judaica

Yedenitz - Jayme e Tatiana Serebrenic

KICHINIOV - Centro

KICHINIOV

Beltz - monumento aos judeus, o senhor de camisa vermelha é o líder da comunidade judaica

Beltz - Casa no campo

Tatiana no grande parque YEDENITZ

KICHINIOV - fora do centro

KICHINIOV - sinagoga


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dos mais variados modelos, algumas delas muito bonitas; indo desde estruturas muito simples em metal ou madeira até as muito sofisticadas, de metal trabalhado (nas casas mais suntuosas). As mulheres sempre trabalhando na terra, com seus lenços floridos amarrados na cabeça e as vacas com as tetas cheias, presas por correntes em arvores à beira da estrada. No final da tarde, as mulheres vêm buscá-las para levá-las de volta às propriedades. Nesse panorama, vê-se praticamente só comércios de alimentação (Alimentara) e de materiais de construção, assim como um grande número de postos de combustível. A marca russa Lukoil é a que predomina. Esse foi um cenário que preencheu agradavelmente minha atenção durante as horas em que sacudíamos pelas trepidantes estradas moldavas. Voltamos para Kichiniov e, nas proximidades (em Yaloveni), visitamos a vinícola Milestii Mici, muito bem conceituada internacionalmente, que exporta para vários países, constando do Guiness Book por sua enorme extensão e imensa quantidade de garrafas armazenadas nos seus quilométricos túneis subterrâneos que percorremos de carro. Aí, fizemos uma degustação e nos deliciamos com o vinho. Em todas as cidades por onde passamos, comemos muito bem. Nesse país, às vezes tão estranho para nós, onde se veem monastérios ortodoxos em grande quantidade, pipocando por toda a parte, a comida foi para nós um aspecto extremamente familiar. O Jayme se deliciou, saboreando os pratos que mais gosta, cujos sabores vêm desde sua infância, feitos pelas mãos da sua mãe, que sempre combinava muito bem a culinária da Bessarábia com a baiana. Eu também senti na comida a familiaridade que nos liga a essa terra. É a comida que minha mãe sempre preparou com maestria, inspirada pelas preferências gastronômicas do seu querido marido e que a tornou famosa como excelente cozinheira. É a comida dos judeus ashkenazistas. Além dos sabores familiares, a língua russa também me ligava a essa terra. Os sons que ouvi durante quase toda a minha vida nas con-

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versas do meu pai com meus avós e meus tios soavam como uma música conhecida aos meus ouvidos e faziam aflorar na minha mente palavras muito ouvidas, mas esquecidas. Reconhecia algumas e lembrava de outras o tempo todo. Também as canções que meu pai entoava com muita alegria para nós (Cupiti Bublishki, Ya vam scaju adim secret, entre outras) e, muitas vezes, cantava em coro com seus irmãos e sua cunhada, me vinham à cabeça e aos lábios, o dia inteiro, com saudades... A fisionomia das pessoas também nos era muito familiar. As mulheres de meia idade lembravam minhas tias e as crianças, os nossos netos, que de fato têm sua origem nessas paragens e só nasceram no Brasil, devido à coragem e ao espírito aventureiro dos seus bisavós e tataravós. A nossa viagem por esse país, em busca das nossas origens se deve a um desejo antigo do Jayme de ir à terra de seu pai. E se tornou possível e muito agradável, graças ao Fernando Klabin, que é um jovem brasileiro, que também tem origens pelo lado paterno nessa parte do mundo e foi, há treze anos, para Bucareste, onde vive desde então, trabalhando na embaixada do Brasil, como assessor do embaixador para assuntos culturais. Como a vinda de brasileiros para a Moldávia era cercada de dificuldades para a obtenção do visto, não conseguíamos descobrir o caminho que nos levasse a obter a exigida carta-convite. A dificuldade era acrescida pela inexistência de embaixada da Moldávia no Brasil. Fernando nos abriu o caminho, conseguindo as cartasconvite, pelas quais pagamos, e guiando todos os nossos passos desde então. Ele nos esperou no aeroporto de Bucareste (para onde voamos de Paris) e, depois de passarmos por uma bela e larga avenida ladeada por parques lindíssimos e por mansões e edifícios exuberantes, deixou-nos no Hotel Hilton. No dia seguinte, ele nos levou à embaixada moldava, onde, depois de procurarmos exaustivamente por um lugar que tirasse fotos na hora, conseguimos o visto em uma hora, pagando a taxa de urgência num banco próximo. Nas instruções para a obtenção do visto afixadas na frente da embaixada, vi, pela primeira vez, que a cartaconvite pode ser substituída por reservas confirmadas em hotéis na Moldávia por todo o período a ser requerido, mas não sei se procede, pois todos com quem falamos disseram que a carta-convite é necessária. Almoçamos bem no restaurante Carul cu Bere, no qual comi a saborosa mamaligue com queijo ralado, ovos mexidos e smetana (creme de leite azedo). Em seguida, partimos para a região da Bucovina (Moldávia romena), no Fiat Doblo vermelho do Fernando, que se comportou


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Zona Rural - poços sofisticados e outros, mais simples

muito bem pelos 1.500 km que fizemos juntos. É uma linda região com aldeias típicas que se vão delineando à beira da estrada por todo o trajeto, com suas belas casinhas rebuscadamente enfeitadas na fachada e com os poços como os da Moldávia. O folclore ali é muito forte e interessante, com as vestimentas típicas, os utensílios, os mitos e as crenças. Os monastérios ortodoxos são maravilhosos nessa região, sendo dois deles, que visitamos, considerados patrimônio da humanidade pela Unesco: o de Voronet e o de Sucevita. Seguimos até Draguseni na região de Suceava, onde Fernando e sua esposa Elena construíram uma pequena e linda pousada nos padrões antigos típicos da região e decorada de acordo com o estilo local: a Fernando’s Hideway. Passamos aí duas noites agradáveis, bem tratados gastronomicamente pelo chef Sergio, amigo do Fernando, que foi por ele contratado especialmente para essa função, que teve, como tudo o que permeou nosso passeio com ele, um extremo requinte. Antes de sairmos da Romênia, passamos por Yasi, cidade que teve no passado um terço de sua população judaica e que chegou a ter 127 sinagogas; hoje, há só uma sinagoga ativa do século XVII e a população judaica é de mais ou menos 500 pessoas. Visitamos aí o enorme cemitério judaico, com túmulos suntuosos e vimos um monumento em forma de vagões em homenagem aos 5.000 judeus que foram postos por soldados romenos e alemães em vagões de trem que se movimentaram, sem comida ou bebida, num calor intenso, até morrerem. Seguimos então para a fronteira com a Moldávia, onde, depois de enfrentarmos fila e conferências burocráticas, entramos por Ungheni. Fernando, logo no início do nosso encontro, nos deu informações históricas e geográficas (que anexo no final) com todo o seu vasto conhecimento, as quais nos transmitiu de forma clara e agradável; respondendo incansavelmente

nossas infindáveis perguntas. Escolheu nossos hotéis, sendo em Kichiniov o excelente Leogrand e, em Beltz, o Lidolux. Acompanhou-nos aos restaurantes, sendo que o melhor ao qual fomos foi o Pedro I, na rua G. Brunelesco Bodoni em Kichiniov, em que comemos palmeni, vareniques, arenque e estrogonofe e tomamos um delicioso borsht. Terminamos nosso passeio com uma agradável surpresa: o vôo da Air Siberian que nos levou para Moscou era num ótimo Airbus, com lindas, educadas e bem uniformizadas aeromoças que nos serviram um lanche e bebidas quentes em belos bules de aço inoxidável. Os passageiros eram de bom nível, alguns parecendo ser altos executivos acompanhados por suas belas e elegantes esposas. Termino com as palavras que nosso genro Piero Caló, de origem italiana, nos enviou quando soube da nossa comovida chegada a Yedinitz: ÀS VEZES, ALGUNS LUGARES EXERCEM UMA MAGIA QUE NOS FAZ “REVIVER” HISTÓRIAS ANTIGAS QUE CONHECEMOS. NÃO AS VIVENCIAMOS, POIS NÃO TÍNHAMOS NEM NASCIDO, MAS DE CERTA MANEIRA FAZ PARTE DO NOSSO PASSADO E PORTANTO NOS PERTENCE. OS SONS, AS VOZES, OS AROMAS, AS CORES, DE ALGUMA MANEIRA NOS FAZEM SENTIR EM CASA, À QUAL CHEGAMOS OU MELHOR, À QUAL RETORNAMOS. NÓS SOMOS A ALIANÇA QUE UNE O PASSADO DE NOSSOS PAIS E O FUTURO DE NOSSOS FILHOS. ESTAS RARAS OPORTUNIDADES DE VISLUMBRARMOS ESTE PRECIOSO HORIZONTE TORNAM ESTE MOMENTO MUITO ESPECIAL E TOCANTE. (*) Tatiana Serebrenic, psicanalista tatisere@terra.com.br


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VIAGENS

Dados históricos e geográficos Idade Média: Principado da Moldávia Século XIV: Príncipe Roman I funda a cidade de Roman. Entre os habitantes, constam judeus (1a referência documental de judeus na Moldávia). Século XV: Estevão o Grande (Stefan Cel Mare) convida judeus para se instalarem nas cidades. Início das lutas contra os turcos – Moldávia faz jogo político entre Hungria, Polônia e Turquia. Século XVI: Acaba tornando-se súdita da Turquia com pagamentos de tributos anuais. Em 1600: Pela primeira vez desde que a Dácia foi tomada pelos romanos (ano 100), Mihai Viteazul une, por alguns meses, as 3 grandes regiões formadoras da Romênia: Transilvânia, Valáquia e Moldávia. Em 1776: A Moldávia (Turquia) perde a Bucovina para a Áustria. Século XVIII: A Rússia começa a se tornar mais forte e importante. Surgem conflitos com a Turquia sobre o território da Moldávia. Em 1812: A Turquia concede metade do Principado da Moldávia: o território entre os rios Prut e Nistru (Dniester), para a Rússia, como reparações de guerra. Delineia-se, pela primeira vez, a Bessarábia (torna-se Gubérnia: unidade territorial administrativa no Império Russo). Chisinau desenvolve-se como capital. A outra metade da Moldávia continua sendo o Principado vassalo da Turquia, com capital em Yasi (capital desde 1564). Em 1856: Os Principados da Moldávia (vassalo da Turquia) e da Valáquia se unem, criando a Romênia, com capital em Bucareste e Príncipe Moldavo – A.I.Cuza. Não funciona com Cuza; o parlamento convida um nobre

belga para ser o Senhor (Domnitor); ele recusa. Convida então Karl Von Sigmaringen-Hohenzollern, que aceita e se torna Domnitor Carol I. Em 1877: Guerra Russo-Turca. Romênia se torna independente da Turquia. Carol I é sagrado Rei da Romênia, com apoio de Napoleão III. 1914 – 1918: 1a Guerra Mundial: • Carol morre em torno de 1914. • Sobe ao trono seu sobrinho Ferdinand. • A Rússia apoia a Romênia contra os alemães. Em 1917 Revolução Bolchevique. As tropas russas recuam. Em 1918 Em Chisinau, o parlamento declara independência da Rússia revolucionária e, pouco depois, vota a união com a Romênia. Em Czernowitz, o parlamento da Bucovina vota a união com a Romênia, aproveitando-se da dissolução do Império Austro-Húngaro. A Transilvânia passa para a Romênia (votação da Alba Yulia). Forma-se a “România Mare” (Grande Romênia). Período de prosperidade. 1918 – 1941: Grande Romênia: Valáquia + Moldávia + Transilvânia (Hungria) + Bucovina (Áustria) + Bessarábia (Rússia) + Dobrogea (Turquia) + Quadrilátero (Bulgária). A Bessarábia, depois de 106 anos de dominação russa compõe o reino da Romênia. 1939 – 1945: 2a Guerra Mundial Fim da 2a Guerra: Romênia perde • o Quadrilátero para a Bulgária. • A Bucovina do norte para a R.S.S. Ucrânia • A Bessarábia perde territórios no sul e, no norte, ganha a Transnístria, tornando-se a R.S.S. Moldava em 1945 no âmbito da URSS. Em 1991: Independência da Moldávia.


MEMÓRIA

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DAVID BANKIER (1947-2010) pedra angular da pesquisa acadêmica sobre a Shoá

Não se deve julgar um país somente pelo que realiza, mas também por aquilo que é capaz de tolerar. Kurt Tucholsky, escritor judeu alemão, 1935, sobre as Leis Raciais de Nuremberg, pouco antes de seu suicídio

MIRIAM BETTINA P. OELSNER *

Faleceu prematuramente no último dia 25 de fevereiro o renomado e querido Professor Doutor David Bankier – Diretor Geral do Instituto de Pesquisas sobre o Holocausto do ‘Yad Vashem’ - principal memorial do Holocausto, ou Shoá, situado em Jerusalém. David Bankier nasceu em Zeckendorf na Baviera, Alemanha, em 19 de janeiro de 1947. Era um campo para as chamadas ‘displaced persons’, apelidado de kibutz Or haChaim, onde se encontravam 81 sobreviventes da Shoá, dentre eles os pais de David, nascidos em Kiev e Varsóvia. Seu único desejo era deixar a Europa o quanto antes, depois de terem perdido tudo e todos: “Precisamos ter nosso próprio país, nosso próprio exército. Queremos filhos, recomeçar a vida, superar o horror”. Emigraram, pois para Israel. Posteriormente emigraram para a Argentina. David Bankier voltou para Israel, onde ficou para sempre. Cursou a Universidade Hebraica de Jerusalém, onde se doutorou em História Judaica. Sua tese trata da sociedade alemã e do antissemitismo nazista entre 1933 e 1938, temática em que é considerado um dos mais profundos pesquisadores na opinião de muitos historiadores contemporâneos. Razão pela qual se tornou professor e chefe do Departamento de Estudos sobre Antissemitismo e Holocausto no Instituto de Judaísmo Contemporâneo da mesma Universidade. Durante muitos anos, David Bankier foi professor visitante nas universidades da Inglaterra, EUA, África do Sul, América do Sul, inclusive na Universidade de São Paulo

– USP em 1994. Sua estada no Cone Sul favoreceu a publicação de muitos estudos e livros em espanhol. YAD VASHEM O Yad Vashem, que também é um Centro de Documentação e Pesquisa, Pedagogia e Memória da Shoá, foi criado em 1953. Situado no alto do Monte da Recordação em Jerusalém, engloba, no mesmo espaço que é um parque encantador o mais amplo centro de documentação e arquivo, bem como a Escola Internacional para Ensino sobre a Shoá. Eu mesma já tive o privilégio de cursar dois seminários da Escola Internacional em 2008 e 2009. Nesse parque, encontram-se também o Instituto de Pesquisas sobre a Shoá, que era justamente dirigido por David Bankier desde 2000, bem como o famoso Museu da Shoá. É lá que se encontra a ‘Ala dos Nomes’, onde se pode pesquisar o destino de dois milhões dos seis milhões de vítimas da Shoá. PESQUISAS INOVADORAS O foco das pesquisas de Bankier se voltava primordialmente à análise psíquica das pessoas que se engajaram ativamente na ideologia nazista, tornando-se perpetradores da ‘solução final’ – a sobejamente conhecida ‘Endlösung’. No dizer do jornalista alemão e historiador contemporâneo Götz Aly, Bankier desenvolveu pesquisas em praticamente todas as áreas representativas da Shoá, partindo sempre das seguintes indagações: “Como


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foi possível? Por que os alemães? Por que sempre os judeus?” Seus trabalhos partiram dos estudos referentes à sociedade alemã entre os anos 1933-45: Postura dos fugitivos alemães no exílio, face às políticas raciais de Nuremberg. Participação de um elevado número de comandos europeus [não somente alemães] na morte dos judeus. Encarava os Mordkommandos [unidades de assassinos] como pessoas estranhas. Questionou o grau de escolaridade desses homens, e chegou mesmo a levantar dados sobre seu consumo de álcool. Historiador cético e pessimista, não se rendia às respostas fáceis e simplistas. Para Bankier, era crucial procurar compreender o funcionamento da sociedade alemã do fim do século XIX ao inícios do século XX. Não concordava com a opinião corrente que professa a existência de um pensamento autoritário no mundo alemão latente desde Martinho Lutero; opinião esta que partilhou com o historiador Saul Friedländer. RECONHECIMENTO INTERNACIONAL Bankier foi muito bem recebido nas várias universidades alemãs em que foi professor convidado. Götz Aly comenta também que, sendo Bankier amigo dos alemães, se sentia à vontade para fazer suas afirmações com clareza contundente. Bankier é citado em um número enorme de trabalhos acadêmicos não só na Alemanha, como também em outros países. Em ‘Im Herzen der Fingsternis - Victor Klemperer, Chronist seiner Zeit’ [Em meio às trevas - Victor Klemperer, cronista de seu tempo], livro escrito por onze acadêmicos da Universidade da Hamburgo, a respeito do testemunho do filólogo judeu alemão Victor Klemperer, todos fazem referência ao pensamento e erudição de Bankier. OBRA ESCLARECEDORA Em ‘Fragen zum Holocaust’ – ‘Questões sobre o Holocausto’, livro que organizou e foi lançado na Alemanha em 2006, Bankier nos brinda com a Introdução e o capítulo – “Por que os alemães? – Foi por acaso, ou haveria algum fio condutor já anterior ao nacional-socialismo?” Segundo Bankier, no século XIX, na Alemanha, e também depois, na República de Weimar, já circulava a ideia de que era desejável o desaparecimento dos judeus. Havia também a mesma ideia na Hungria, Áustria, Romênia e Rússia. Na França, apesar do forte antissemitismo reinante, parte da população queria preservar os ideais da Revolução Francesa. O livro nos mostra ainda como, no século XX, mesmo nos setores mais cultos, perdurava o mito do uso do sangue de crianças cristãs em rituais judaicos macabros na preparação das matzot de Pessach. Bankier, citando os pensadores Ernst Bloch e Walter Benjamin, cor-

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robora o pensamento de ambos: o alemão comum aceitava a crendice popular da importância do retorno à raça pura superior ancestral ariana. Bankier pesquisou a elaboração da máquina da ‘solução final’, que era pretensamente mantida como estrito segredo de Estado, designação ilustrada pelo eufemismo Endlösung. As falhas do severo sigilo, falhas essas acessíveis ao olhar do cidadão comum, eram absorvidas com os recursos do terror ativo e passivo vigentes. Desta forma, Bankier também pesquisou a reação das populações onde as piores atrocidades foram cometidas. Houve casos de total desconhecimento, e outros em que a população aderiu. Outros ainda, em que se mantiveram indiferentes, ou simplesmente apavorados, reconhecendo sua impotência face ao regime nazista. PAPEL DO EDUCADOR Em seu discurso de abertura na ‘Sexta Conferência Internacional para Educação e Holocausto’, em julho de 2008, em Jerusalém, para 750 educadores de todo o mundo, a maior parte não judeus, Bankier ofereceu uma aula magnífica sobre “A dialética da negação e o caráter único de um fato sem precedentes”. Em outras palavras, ‘A argúcia da cúpula nazista em fazer prevalecer sua ideologia diabólica’ e o trato com seus aliados políticos, bem como sua indiferença e desprezo pela imprensa internacional, que denunciava os horrores praticados pelo sistema nazista. Sobre a suposta passividade ignóbil atribuída às vítimas dos campos de extermínio e dos guetos, apresento excertos do capítulo de Renato Mezan ‘Os que não foram heróis: sobre a submissão dos judeus ao terror nazista’ em O Dever da Memória de Abrão Slavutzky, em homenagem aos sessenta anos do Levante do Gueto de Varsóvia em 2003: “Por que os judeus aceitaram morrer assim? Por que não se revoltaram nos trens, ou antes, ou depois, ao desembarcar no destino final? Em primeiro lugar, porque não sabiam o que lhes ia acontecer. Não havia informação precisa sobre nada na época da guerra, pois os meios de comunicação eram censurados, e quem fosse apanhado ouvindo a BBC podia ter certeza de morte como traidor. A Europa se havia convertido numa imensa ratoeira, e todos eram parte de uma monstruosa engrenagem, cujo alcance lhes escapava por completo. Dos quinhentos mil judeus que passaram pelo gueto de Varsóvia, menos de cem saíram vivos”. A partir da publicação de Eichmann em Jerusalém” de Hannah Arendt, Bankier pôde denunciar a pecha da até então suposta passividade ignóbil, atribuída às vítimas


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dos campos de extermínio e dos guetos. Como escreveu no jornal espanhol ‘El País’, José Eduardo C. de Ciria, seu ex-aluno: “David Bankier nos mostrava que a responsabilidade está presente em qualquer ato. Não concordava com o pensamento de que, em situação de totalitarismo, carrascos e vítimas se igualam diante da dominação do aparato estatal. Ao contrário: a razão nos dota de moral, independentemente da existência de Deus. HOMENAGEM PÓSTUMA Professor Bankier foi um acadêmico estimado com uma abordagem diferenciada na pesquisa sobre a Shoá. A maior parte de seus estudos tratou dos perpetradores e do povo em geral. Antes dele, este campo de pesquisa era estudado somente por alemães, ou pessoas de outras nacionalidades. Bankier deu início aos estudos sob o ponto de vista da História Judaica, procurando entender a dimensão judaica da Shoá, e seu amplo alcance. Dentre as áreas de interesse, aprofundou-se na questão de como ‘o antissemitismo se tornou a arma central e mais poderosa usada pelo regime nazista, para manter acesa a chama de sua ideologia, em seu empenho em mobilizar as massas’. Dentre seu enorme número de publicações, livros, capí-

tulos de livros, artigos, conferências, destacam-se seu livro mais recente, “Hitler, o holocausto e a sociedade alemã: cooperação e percepção”, e “Os alemães e a solução final: opinião pública sob o nazismo”, ambos em inglês. Avner Shalev, presidente do Yad Vashem, em seu obituário a David Bankier disse: “Um dos mais importantes e mais citados acadêmicos na pesquisa sobre a Alemanha nazista. Suas publicações neste campo de estudo representam a pedra angular da pesquisa acadêmica moderna. Professor Bankier foi um palestrante talentoso e dedicado, um ser humano de integridade absoluta, brilhante, aguçado, focado na sua abordagem de pesquisa. Foi um grande amigo, extremamente modesto, um MENSCH, combatendo o câncer que o aniquilou, recusando-se a interromper suas atividades, trabalhando até o derradeiro dia. É certo que a falta deste grande mestre já está sendo sentida profundamente. * Miriam Bettina Paulina Oelsner, economista. Tradutora de ‘‘LTI’ – A linguagem do Terceiro Reich’ de Victor Klemperer. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2009. Mestre em Literatura Alemã com a Dissertação: “A linguagem como instrumento de dominação - Victor Klemperer e sua ‘LTI’. Pesquisadora do ‘LEI. Laboratório dos Estudos da Intolerância – módulo Holocausto’, USP.

Luzer Haim Goldbaum (1913 - 2010) Luzer Haim Goldbaum nasceu em 27 de outubro de 1913 em Lublin, Polônia, filho de Moshik e Hendla Goldbaum. Imigrou para o Bom Retiro, em São Paulo, em 1935, através de carta de chamada de Mindla Lajner, com quem se casou. Mindla havia emigrado em 1933 para o Brasil, onde três de seus irmãos e um primo já moravam. Tiveram dois filhos, Henrique (nascido em 1937) e Moisés (1943). Viveram sempre no Bom Retiro, inicialmente na Rua da Graça, depois Rua Mamoré, em seguida numa travessa da Rua Tenente Pena e, finalmente, em um edifício na Rua Prates. Exerceu várias profissões, entre elas auxiliar de alfaiate, proprietário de fábrica de camisas, representante comercial e jornalista. Como jornalista, trabalhou no Unzer Shtimme (Nossa Voz), na Imprensa Israelita do Rio de Janeiro e na Folha Israelita Brasileira, que fundou no final dos anos 80 e que manteve até próximo de sua morte. Alguns artigos seus foram publicados no Forverts de Nova Iorque. Ativista social, ainda em Lublin, foi membro do Poalei Zion. No Brasil, participou do Centro Cultura e Progresso e do Centro de Auxílio às Vítimas da Guerra, da Polisher Farband (Associação dos Judeus Poloneses do Brasil) e do Iídicher Cultur Farband (Icuf). Ajudou a fundar e participou da diretoria da Casa do Povo (Instituto Cultural Israelita Brasileiro – ICIB) e da Associação Janusz Korszack do Brasil. Faleceu em 2010, oito anos após Mindla. Sergio Golbaum

ACERVO AHJB


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GENEALOGIA

De Vila Flor a Jerusalém, a jornada do general David Shaltiel, primeiro embaixador de Israel no Brasil PAULO VALADARES *

C

ENA UM: Quase um século e meio depois da expulsão dos judeus da Espanha e da conversão forçada em Portugal, um cristão-novo de Vila Flor, António de Montezinos, deixou a sua aldeia e começou a perambular pelo mundo. Esteve na Holanda onde aderiu ao Judaísmo e adotou o nome de Aron Levi. Como era pobre, seguiu para a América Latina em busca de melhores dias. O que o imortalizou, todavia, não foi o fruto do trabalho, mas sim o relato de um encontro com índios no Novo Reino de Granada (atual Colômbia), onde percebeu sobrevivências culturais judaicas e acreditou estar diante de remanescentes da tribo de Rubens. O seu relato foi aproveitado por um rabino luso-holandês como argumentação da chegada da Redenção. CENA DOIS: O estabelecimento do Estado de Israel em 1948 criou a necessidade de um corpo diplomático para representá-lo. O recrutamento destes diplomatas deu-se entre os que se destacaram na luta de sua fundação. Para o Brasil, foi escolhido um personagem descrito como “bon vivant, séduisant et timide, aristocratique et modeste, conservateur et réformateuer” (HALÉVY: 22), um dos principais quadros do Estado que nascia, o militar sefaradita David Shaltiel. Ele sabia-se “português”, pois a família frequentava uma sinagoga de Hamburgo fundada por cristãos-novos portugueses em 1603 e, no final da vida, eram sepultados no Portugiesenfriedhof (Cemitério Português). Quanto aos ancestrais ele não conhecia ninguém além dos avós e nada que o ligasse ao passado da estirpe. Tirando as famílias portadoras de um sobrenome claramente lusitano, poucos em Hamburgo e Amsterdã chegavam aos maiores em Portugal. Alguns liam a produção literária religiosa portuguesa, porém como se ela fosse uma espécie de língua morta. O último rabino holandês a predicar em português foi David de Jahacob Lopes Cardoso (1808-1890). Então, qual é a relação entre o cristão-novo de Vila Flor, António de Montezinos e o diplomata israelense, David Shaltiel? pergunta-se o leitor. Desenvolverei esta ligação nas próximas linhas, mostrando que, através de

sua biografia, se pode contar a história dos judeus portugueses em todos seus momentos principais, desde a conversão forçada em 1497, passando pela condição de cristãos-novos e, depois, como judeus, vítimas da General David Shaltiel Shoá (Holocausto) e a Acervo AHJB construção do que parecia utópico o Estado de Israel. Uma história que se desenvolveu em cenários diferentes como Vila Flor, Mogadouro, Porto, Recife, Amsterdã, Hamburgo, Milão, Paris, deserto do Sahara, Jerusalém e Rio de Janeiro. Aqui meu trabalho principal foi articular duas produções historiográficas distintas: a história dos cristãosnovos portugueses, escrita por autores portugueses e brasileiros, com o ápice a partir dos anos setenta e a de autores estrangeiros, já um pouco mais tarde, que estudaram algumas comunidades judaicas umbilicalmente ligadas a Portugal, como Livorno e Hamburgo. Inicialmente, esta conciliação se mostra difícil e quase impossível, pois o mesmo personagem atende por nomes diferentes nos diferentes lugares em que viveu. Só como um exemplo desta dificuldade investigativa, lembro que o luso-brasileiro Manuel da Fonseca Gomes, personagem deste ensaio, é também o holandês Joshua Velozinos ... e assim são centenas ou milhares de casos. Às vezes com um pouco de sorte num documento inquisitorial ou comercial surge a resolução do problema que se manifestou ao pesquisador. DE VILA FLOR A JERUSALEM Vila Flor é uma pequena localidade no distrito de Bragança, Trás-os-Montes, na região portuguesa que, na década de vinte, o historiador inglês Lucien Wolf (1857-1930) chamou de marrano country, uma janela cartográfica que se abre entre Bragança e desce até Castelo Branco, onde vivem centenas de famílias de judeus convertidos à força ao Catolicismo no séc. XV. Nesta data, alguns descenden-


GENEALOGIA HISTÓRIA

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tes de cristãos-novos – etnonomeados chavascos, atenderam ao chamado da “Obra do Resgate”, um movimento de reinserção no judaísmo rabínico liderado pelo capitão amarantino Artur Carlos de Barros Basto (1887-1961) e reuniam-se na sinagoga de Bragança presidida pelo bancário José António Furtado Montanha (1882-1976). A presença cristã-nova é antiga; entre as primeiras famílias cristãs-novas de Vila Flor, estão os Montezinos – o nome sugere ascendência espanhola, porém há registros desta família já na judiaria de Barcelos, no século XV, e que se espalharam pela região. Provavelmente eles estão ali há cinco ou seis gerações; os processos inquisitoriais registram isto, como o de Francisco Marques Montezinos, de Torre do Moncorvo, ao lado de Vila Flor, e que foi preso em Lima, no Peru, e saiu no auto-de-fé em 1639. António de Montezinos nasceu em Vila Flor (1601 ou 1602?). Não há uma precisão na data, pois, além de uma vida modesta, ele viveu em trânsito, fugindo da perseguição inquisitorial e depois lutando contra a pobreza. Ele chegou a ser preso e processado pelo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição de Cartagena de las Indias entre 3 de setembro de 1639 a 19 de fevereiro de 1641, mas escapou “entregandosele los pocos bienes que se le avian sequestrados” (BÖHM: 12). Antonio de Montezinos tornou-se conhecido por um episódio que teria vivido numa região da Colômbia ou Equador e que depois espalhou a história em Amsterdã, a do encontro de uma tribo de índios que praticavam a circuncisão. Eles sabiam algumas palavras de hebraico e seriam descendentes das Dez Tribos Perdidas. O rabino madeirense Menasseh Ben Israel (Manuel Dias Soeiro, 1604-1657) deu crédito à história e a registrou no livro “Esperança de Israel”, publicado em 1650. Neste episódio com os índios, António de Montezinos encontrou uma cultura que não se enquadrava na que lhe circundava, a Romanitas (mundo católico) e buscou interpretá-la através de sua gramática pessoal. Preencheu os espaços vazios no que não compreendia e assim nasceu a história. Hoje, isto pode ser visto como a farsa de um mitômano, mas, naquele momento de excitação messiânica, foi interpretado como um sinal da Redenção que se aproximava. Lembrando que o século XVI em Portugal tinha muitos elementos que já vinha de séculos anteriores e estimulavam a crença na vinda do Messias e a consequente Redenção. A leitura por judeus e a divulgação através da oralidade como poesia por judaizantes do profeta Daniel criara um quadro propício de exacerbação do Messianismo deste grupo etnosocial. Já um exegeta bíblico, respeitado pelos judeus até os nossos dias, baseado no mesmo livro, o lisboeta Isaac Abravanel (1437-

1508), calculara para 1503 a sua chegada. O paroxismo desta crença culminou com o próprio capelão do rei D. João V (1689-1750), Bartolomeu de Gusmão (1685-1724), circuncidando-se secretamente na Holanda e posteriormente abandonando tudo e fugindo para o exterior, pois estava convicto que era o Mashiach (Messias). Para aplacar a angústia de António de Montezinos, não bastou ele ir à Holanda e relatar a história aparentemente inverossímil ao Rabino Menasseh Ben Israel. Apesar de sua pobreza, ele recusou a ajuda financeira oferecida pelos dirigentes da comunidade de Amsterdã e retornou à América para tentar encontrar, entre os índios Tabajaras em Pernambuco, confirmação de sua história. Ele morreu em Recife e foi sepultado no cemitério dos Coelhos, em 1646 (RIBEMBOIM: 33). Se há poucos registros sobre a sua vida, é possível seguir a sua descendência até os nossos dias, graças à preservação da documentação holandesa e também pelo sobrenome incomum. O seu neto ou bisneto, Isaac de Joseph Levi Montezinos, nasceu em Amsterdã (1732-1796). Lá, ele se casou com uma portuguesa, Déborah de Isaac Lopes Crespo, cujo pai, Isaac, era nascido no Suriname, mas de uma família de cristãos-novos de Mogadouro, Portugal, e a mãe Rachel Lopes Velozinos, dos Velozinos de Recife, cujo patriarca foi o chazan (cantor litúrgico) Joshua Velozinos (Manuel da Fonseca Gomes, MELLO: 278) da Congregação Tzur Israel de Recife. Eles são os pais de (foram identificados apenas): Benjamin, Rachel, Isaac e Gracia. Gracia de Isaac Levi Montezinos, filha de Isaac de Joseph Levi Montezinos, nasceu, viveu e morreu em Amsterdã (17671842). Ela se casou com David Sealtiel, também de Amsterdã (1774-1837?), filho de Elias Sealtiel, que se casara em Amsterdã com Esther Mendes Monteiro Preto, de uma família originária da cidade do Porto. Este Elias Sealtiel era filho de um inglês, cuja família viera anteriormente de Creta e que antes da Expulsão de Espanha vivera em Barcelona, onde se diziam descendentes de certo Shealtiel ben Sheshet (circa 1100), descendente do rei David o Salmista. O casal Gracia e David são pais de: Eliau, Isaac, Débora, Ester, Luna Cohen Pereira, Rachel Cassuto, Joseph David e Benjamin. Benjamin de David Sealtiel (1803-1882), filho de Gracia, foi para Hamburgo em 1826, pois já tinha um parente próximo, Joseph de Eliau Sealtiel com a esposa Débora Querido (descendente de família originária do Porto e da Bahia) vivendo na cidade desde 1808, que fora para Hamburgo-Altona num programa de auxílio da comunidade de Amsterdã aos muitos pobres. A direção da comunidade dava um valor em dinheiro para a passagem e a sua instalação em troca do compromisso que o


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General Shaltiel e a esposa Yehudit. Foto: AHJB

assistido não retornasse a Amsterdã nos próximos quinze anos. No final do século XVIII, viviam em Amsterdã 2.800 sefaraditas e, desses, a metade vivia nos limites da pobreza absoluta, sendo sustentados pelas organizações comunitárias. Pois Benjamin foi para Hamburgo e, como era praxe, teve que se registrar na sinagoga portuguesa. Porém, foi recusado; tentou mais duas vezes e, só quando o seu pai em Amsterdã prometeu responsabilizar-se pelas suas despesas, é que pode filiar-se à congregação. Um ano depois do aceito, em 1829, ele casou-se com Yehudit Goldschmidt (1800-1877) e tiveram cinco filhos: Gracia, Miriam, Sipora, Sara e David. Ele ganhava a sua subsistência como lotteriekollekteur (vendedor de loterias). O único filho, David, recebeu posteriormente também o prenome Chaim (vida) para afastar o anjo da morte, que ceifara precocemente a filha mais velha. Chaim David Sealtiel (1842-1894), filho de Benjamin, viveu em extrema pobreza, mas era profundamente religioso, tanto que abria a janela da casa todas as manhãs para

GENEALOGIA HISTÓRIA

verificar se o Mashiach havia chegado. Foi vendedor ambulante e chazan na Esnoga der Portugiesisch-Jüdischen Gemeinde Bet Jisrael de Hamburgo. Para os atos mais solenes na sinagoga, ele se vestia exatamente como os ancestrais ibéricos. Possuía livros luso-judaicos muito antigos, escritos nos séculos XVII e XVIII, como o Livro dos Minhaguim, por que se guiava. Era bastante respeitado, apesar de ser ironizado por sua fé inabalável na chegada do Messias. Ele casou-se com Pauline Juliane Nussbaum (1845-1917), uma ashquenazita já “aportuguesada” e tiveram os filhos: Benjamin, Jacob, Joseph e Gracia (Gretchen) Bachrach, assassinada no campo de Auschwitz. Benjamin Sealtiel (1874-1934), filho de Chaim David, nome que recebeu em honra do avô paterno, um costume sefaradita, foi um pequeno comerciante de couro de cabra (marroquim) para fazer bolsas, encadernações e sapatos. Coincidentemente até a metade do século XX, nos Trás-os-Montes de seus ancestrais, esta profissão ali chamada de “peliqueiro”, foi privativa dos descendentes de cristãos-novos e servia até como sinônimo de judeu1. Benjamin Shaltiel casou-se com Helena Wormser (1871-1938), de Karlsruhe, de quem dizia: “Minha esposa, a coroa de minha cabeça, esta santa mulher só tem um defeito. SIE IST ASHKENAZISCH, ES IST NICHT IHRE SCHULD (Ela é ashquenazita, mas não é sua culpa)” (STUDEMUNT-HALÉVY: 907). Tiveram cinco filhos: o primogênito Raphael Kaufman que morreu aos nove anos; a seguir, David, nascido em 1903, em Berlim, que se tornou um rapaz turbulento e agitado; depois, Joseph (Berlim, 1905 – campo de extermínio de Dachau, 1945), que foi o último presidente da Esnoga der Portugiesisch-Jüdischen Gemeinde Bet Jisrael no nº 37 da Innocentiastrasse em Hamburgo; e uma filha, Juliane Pauline Izaak (1900 -1941), também assassinada na Shoá. 1 Nas primeiras décadas do século XX, em Carção, Trás-os-Montes, os descendentes de cristãos-novos dedicavam-se à indústria do curtume e eram ridicularizados pelos católicos, que os chamavam de “Caniqueiros”, pois eles usavam os excrementos de cães para curtir as peles. Os seus filhos eram apupados com a trovinha: “Caga, perro, caga, cão / P´ra curtir o cordobão; / Caga, cão, caga, perro / P´ra curtir o bezerro” (VASCONCELLOS: 198).


GENEALOGIA

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UM POUCO DA VIDA DE DAVID SHALTIEL O menino inconformado David Sealtiel (em Israel ele hebraicizou o nome para Shaltiel) fez a sua estréia nos serviços religiosos, frente à comunidade portuguesa de Hamburgo, com a leitura de uma haftará (trecho dos Profetas) que fala da Redenção, a entranhada crença familiar desde os ancestrais cristãos-novos: “E o Anjo que fallava comigo, me disse, clama, dizendo, assim diz o D´us* dos Exércitos: com grande zelo zelando estou por Jerusalém e por Sião” (Zacharias, 2:14). A sua militância em prol da restauração de Israel não seguiu a forma religiosa de seus ancestrais, mas trocou por uma solução política, o Sionismo formulado pelo jornalista Theodor Herzl (1860-1904), de origem parcialmente sefaradita. David Sealtiel participou do movimento juvenil Blau-Weiss, o primeiro grupo da história sionista, que fora organizado em Berlim no ano de 1912, com a finalidade de preparação dos jovens para a construção de um Estado judeu. A militância deu resultado, pois, em 1923, ele subiu para a terra de Israel, onde foi agricultor numa plantação de fumo por algum tempo. Retornou, porém, à Europa e alistou-se na Legião Estrangeira francesa, combatendo rebeldes árabes no Saara e Sidi-bel-Abbés, deu baixa como sargento e foi condecorado com a Médaille du Mérite. Nos anos trinta, retornou a Israel, onde entrou para a Haganá (organização paramilitar que deu origem ao IDF, exército israelense), como elemento de ligação entre grupos rivais. Enviado à Alemanha para comprar armas, foi preso e torturado pela Gestapo. Esteve nos campos de Dachau e Buchenwald, mas através de influência externa foi solto. Após a soltura, voltou a Israel e, em 1948, substituiu o coronel Yisrael Amir (1903-2002) como Comandante-chefe da Defesa de Jerusalém durante a Milchemet Hashichrur (Guerra da Independência). Um episódio da luta mostra como a idéia da redenção messiânica era forte na sua família e em si: durante os combates pelo controle de Jerusalém, guardou um carneiro para ser sacrificado por ele na Torre de David assim que ela fosse tomada. O carneiro sobreviveu a expectativa do oficial messiânico. SIONISMO, BRASIL & SHALTIEL A idéia de recriar uma pátria territorial para os judeus é antiga no Brasil e mesmo em Portugal. Já no século XVIII, o padre Bartolomeu de Gusmão, mencionado anteriormente neste trabalho, acreditava que, graças à invenção de seu balão, ele recriaria um Estado para os judeus em Israel. Em 1899, o engenheiro negro André Rebouças (1838-1898) levou o plano de criação de um Estado judeu encravado no Paraná, fronteira com a Argentina, para D.

Pedro II (1825-1891), destinado aos ashquenazitas que, naquele momento, eram vítimas da política antissemita do governo russo. Muitos desses judeus russos, nomeadamente da região da Bessarábia, vieram para o Brasil na época e trouxeram o Sionismo. A partir dos anos vinte, foram criadas várias sociedades sionistas de todas as vertentes políticas para a construção deste objetivo. Líderes como o comerciante Jacob Schneider (1887-1975) ou o advogado Samuel Malamud (1908-2000), dentre tantos outros, trabalharam incansavelmente na arrecadação de fundos para a criação de uma infra-estrutura naquele território desolado e principalmente no convencimento de não-judeus da justeza do propósito, trazendo para estas fileiras personalidades importantes socialmente como o professor Inácio Manuel Azevedo do Amaral (1883-1950), reitor da Universidade do Brasil no RJ e o líder católico, senador Hamilton Nogueira (1897-1981), que se transformaram em denodados militantes sionistas. Graças ao trabalho de esclarecimento, não foi surpresa a condução favorável da Assembléia Geral da ONU pelo Ministro Oswaldo Aranha (1894-1960), que só colocou em votação a proposta de criação do Estado quando ficou seguro do resultado da eleição. Mesmo assim, o Brasil demorou em reconhecê-lo, pois, somente em 10 de agosto de 1949, o Presidente brasileiro Marechal Eurico Gaspar Dutra (1883-1974) reconheceu o novo Estado. É para este país que o coronel (e depois general) David Shaltiel foi enviado duas vezes, primeiro numa rápida visita como Inspetor Geral do IDF (Exército israelense), para contatos na área militar, e depois como primeiro Embaixador de Israel no país. Em 31 de março de 1952, ele, a esposa, a psicóloga Drª Yehudit (Judith Irmgard Schoenstadt, 1913-2010) e a filha adotada Tamar (nome dado em lembrança a uma das ancestrais do rei David. Era uma forma de mostrar pertencimento à grei davídica) chegaram ao Rio de Janeiro, onde uma multidão formada por judeus de todo o país foram esperá-los no aeroporto do Galeão (RJ), algo que se repetiria em todas as suas aparições, oficiais e comunitárias, em que tomou parte. Ele tinha como objetivo fortalecer os laços de Israel com a comunidade judaica e criar simpatia dentro do governo brasileiro em relação ao Estado de Israel, que era reticente a um Estado visto como socialista, o que repugnava o establishment nacional. David Shaltiel apresentou as credenciais ao presidente Getúlio Vargas (1882-1954) em 8 de abril de 1952, e ficou até 1956, quando então foi para o México e depois para a Holanda, encerrando a carreira pública em 1966. David Shaltiel faleceu em Jerusalém, a 23 de fevereiro


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de 1969. EPÍLOGO Apresentar a genealogia do general David Shaltiel foi uma oportunidade para recolocar em circulação vários momentos da história sefaradita: o trauma da conversão forçada, a pobreza e humilhações nas gerações atingidas pela Inquisição, o expatriamento forçado, as mortes na Shoá e, finalmente, a redenção na construção de um novo Estado judeu, depois de dois mil anos de sua queda. Não há como não se lembrar nesta trajetória do poema do escritor argentino Jorge Luís Borges (1899-1986), trineto de um cristão-novo (Manuel António Cardoso Borges) de Torre do Moncorvo, localidade vizinha à Vila Flor, escrito para comemorar a vitória de Israel na Guerra dos Seis Dias, que fala do cotidiano de humilhações até a vitória, quando então é comparado com o leão totêmico do ancestral de Shaltiel, o rei David: “(...) un hombre condenado a ser el escarnio / la abominación, el judio / un hombre lapidado, incendiado y ahogado em cámaras letales, / un hombre que se obstina em ser inmortal / y que ahora há vuelto a su batalla, / a la violenta luz de la victoria, / hermoso como um león al mediodia (...).” BIBLIOGRAFIA BÖHM, Günter. “História de los judíos en Chile. Período Colonial. Judíos e judeoconversos en Chile Colonial durante los siglos XVI e XVII”. Em: La Palabra Israelita, 01 de outubro de 2004. FALBEL, Nachman. Manasche: sua vida e seu tempo. S. Paulo: Perspectiva, 1996. GAZETTE SHALTIEL, vol. IV, nº III, maio de 2000, Amsterdã, Holanda (Circulação famíliar). HALÉVY, Michael. “Sioniste au parfum romanesque. La vie tourmentée de David Shaltiel (1903-1964)”. Em: Los Muestros nºs 37-45, 1999, p.22. MALAMUD, Samuel. Do arquivo e da memória. Fatos, personagens e reflexões sobre o sionismo brasileiro e mundial. Rio de Janeiro: Bloch, 1983. MELLO, José Antonio Gonsalves de. Gente da Nação: cristãosnovos e judeus em Pernambuco, 1524-1654. Recife: FUNDAJMassangana, 1990. RIBEMBOIM, José Alexandre; MENEZES, José Luiz Mota. O primeiro cemitério judeu das Américas. Período da dominação holandesa em Pernambuco (1630-1654). Recife: Edições Bagaço, 2005. ROMEIRO, Adriana. Um visionário na corte de D. João V: revolta e milenarismo nas Minas Gerais. Belo Horizonte: UFMG, 2001. SEALTIEL (Documentos genealógicos): (http://gw1.geneanet.org/index.php3?b=esthervanrems&lan g=fr;iz=7713;p=benjamin;n=sealtiel;oc=1) STUDEMUNT-HALÉVY, Michael. Die Sefarden in Hamburg: zur Geschichte einer Minderleit. Hamburgo: Helmut Buske Verlag GmbH, 1997. VALADARES, Paulo. A presença oculta. Genealogia, identida-

GENEALOGIA

de e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX. Fortaleza, Fundação Ana Lima, 2007. VASCONCELLOS, J. Leite de. Etnografia Portuguesa, IV. Lisboa: Imprensa Nacional, 1958.

Meio século depois de sua estada no Brasil, o casal Shaltiel ainda é lembrado no país, não só pela importância histórica, como também pela simpatia e sua eficiência. Alguns judeus ainda guardam a memorabilia referente a esta presença. A peça mais encontrada entre os colecionadores são os convites para cerimônias onde esteve o casal de diplomatas. A estrutura da visita era semelhante, primeiro ele era recebido fervorosamente pela comunidade judaica, depois visitava o prefeito e o governador, e seguia-se um jantar de congraçamento. A ativista niteroiense Myriam Lerner Rozansky (1912-2006), em suas memórias: “Lembranças. Crônicas bem-humoradas de uma bisavó” (1998), nas páginas 69 e 71, rememorou como foi a sensação de recebê-los: “(...) De repente deu-se o milagre. Nós tínhamos a nossa Mediná, o nosso presidente e o nosso embaixador! Há sentimentos difíceis de descrever, mas sei que todos ainda têm na memória aqueles dias de delírio. A nossa geração fora eleita para viver este momento de importância histórica inigualável. Tivera o privilégio de assistir à vinda do Messias, isso jamais será esquecido (...) Quando o embaixador e senhora entram no salão foram recebidos sob uma chuva de pétalas de rosas e ao som do Hatikva, entoado como uma oração de graças. Ali estava, ao alcance das nossas mãos, o símbolo vivo de uma pátria para acolher aos judeus que a procurassem, a prova concreta de que não sonhávamos (...)”.

* Paulo Valadares, Mestre em História Social (USP), historiador. Autor entre outros (com G. Faiguenboim, Anna Rosa Campagnano e Nils Andreas): Primeiros judeus de São Paulo.


VIAGENS

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BERLIM DEPOIS DO HOLOCAUSTO

S

em necessidade de justificativas, levamos muitos anos para chegar à Alemanha. Mesmo quando uma oportunidade profissional se apresentou, por subterfúgio, evitamos a viagem. No entanto, passados 65 anos do término da guerra e do Holocausto, e instados por amigos que nos convenceram que uma visita à Berlim seria uma experiência interessante, devido aos monumentos e museus em homenagem aos judeus alemães e europeus, resolvemos encarar este desafio. Havia também uma segunda razão para a viagem, pois os pais de Bernette, minha esposa, eram originários de Berlim e o avô paterno está enterrado num dos cemitérios da cidade. As visitas a museus, palácios e monumentos revelou-se interessante. Entre outros, visitamos o Palácio de Charlottenbourg, vários locais históricos em Potsdam, além, é claro, do Museu Judaico de Berlim, do monumento aos mortos europeus no Holocausto e seu Museu Subterrâneo, um mini Yad Vashem, e, de quebra, o Museu Bauhaus pois gostamos muito de design. No entanto, este relato se vai prender mais às visitas ao Cemitério de Weisensee, fundado em 1880, o maior cemitério judaico de Berlim, e a duas sinagogas. Antes, porém, é necessário registrar que contamos com a ajuda inestimável de um amigo residente em Berlim que, com um trabalho de “formiguinha”, facilitou imensamente nossa tarefa. Nosso ponto de partida foi uma fotografia do tú-

MARIO NUSBAUM * mulo de David Blatt (Kranz), avô de Bernette, tirada por seu pai antes de sua partida de Berlim, pouco antes da guerra. Após escanearmos a foto para nosso amigo, aguardamos com certa ansiedade os resultados da sua pesquisa. Ao chegarmos a Berlim, fomos brindados com uma quantidade de detalhes que superou, em muito, nossas expectativas. Ele havia não só identificado o túmulo, mas dispunha também de um mapa de sua localização e, pelos registros municipais, determinou o local de residência do avô antes da guerra e obteve pormenores desde sua chegada a Berlim, suas diferentes moradias e atividades profissionais. Em nossa primeira manhã berlinense, tomamos o bonde, a cerca de uma quadra do nosso hotel e, após um percurso de 20 minutos, estávamos a 600m do cemitério. Tudo muito bem sinalizado. O cemitério, no topo de um morro, encontra-se junto a uma área residencial muito tranquila e com baixo movimento de veículos. Ao chegarmos, a 100m, já nos deparamos com a entrada ocupando toda a largura da rua. Na parte central, dois grandes portões que dão entrada aos veículos, ladeados por dois portões menores para pedestres. Bem à nossa frente, um edifício totalmente restaurado, em tijolo à vista, se impunha numa pequena praça. À nossa direita, uma pequena loja com flores e plantas e, um pouco mais ao fundo, ainda à direita, o escritório da administração. Dois funcionários trabalhavam atrás do balcão de atendimento. Um de-

les, o Sr. Thomas Pohl, confirmou os pormenores do mapa e nos orientou como chegar ao túmulo. Tomamos a avenida indicada, à esquerda da entrada, e ficamos abismados com a quantidade de árvores e vegetação no local. A avenida e as ruas são limpas e desimpedidas mas a vegetação rasteira avança pelos túmulos nos dois lados. Caminhamos vagarosamente pela avenida, observando os túmulos e nomes gravados. Muitos túmulos em bom estado de conservação, outros já restaurados, mas alguns com lápides quebradas ou rachadas. O cemitério voltou a ser ativo pois identificamos inúmeras lápides recentes, principalmente de russos. Interessante observar que muitos dos sobrenomes nos soavam conhecidos, de amigos de São Paulo. À esquerda, muitos túmulos familiares encostados no muro, com uma conotação diferente de nossa tradição de enterrar junto ao muro apenas os suicidas. À direita, o cemitério se estendia a perder de vista no meio de árvores frondosas. Após 500m, encontramos uma abertura à esquerda, assinalada no nosso mapa, e que parecia ser uma adição ao cemitério principal; entramos. Mais uma centena de passos à nossa frente e outros tantos à nossa esquerda, chegamos à linha onde deveríamos encontrar o túmulo de David Blatt. Contamos as 9 linhas e lá encontramos o procurado túmulo. Foi um momento de emoção. Apesar da lápide gasta pelo tempo, era possível ler com clareza o nome do avô de Bernette. Nossos amigos, Mario e Miriam Dolnikoff,


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que estavam conosco, também se emocionaram. Mario rezou um el malê rachamim, enquanto nós, após mais de 70 anos, rezamos um kadish. Nossa volta ao portão foi lenta mas com um sentimento de realização de uma vontade, com a alma leve apesar de nossa missão ter sido resgatar a memória de um antepassado. Este ato realizou não apenas o nosso desejo de identificar a lápide de David Blatt, mas também cumprir uma mitzvá, em nome dos pais de Bernette que, por ocasião de sua visita a Berlim, ainda dividida, em 1982, não conseguiram chegar ao local no setor comunista. Na sexta-feira, fomos à Neue Sinagogue, toda restaurada, mas com evidências dos estragos feitos pelos nazistas e pelos bombardeios dos aliados. Assistimos ao Kabalat Shabat oficiado pela Rabina Guesa. Havia cerca de 80 pessoas no serviço incluindo um grupo de jovens americanos em visita à cidade. Após o serviço, participamos do kidush e, apesar de termos sido convidados a participar do jantar com os americanos, agradecemos e saímos. Esta foi a sinagoga que os avós maternos e a mãe de Bernette frequentavam antes de sua partida para a Holanda. No sábado pela manhã, fomos à sinagoga da Rykestrasse, frequentada pelo avô David Blatt e família. É a sinagoga restaurada e toda branca por dentro, cuja foto percorreu a internet há cerca de três anos. Lindíssima! Uma comunidade mais conservadora, com cerca de 25 pessoas presentes, sendo 13 homens. Os homens sentam-se de um lado e as

mulheres do outro, no térreo. O sidur é, basicamente, o mesmo usado ainda hoje na CIP. Apesar de nossa resistência inicial de visitarmos a Alemanha, o passeio foi memorável pois, além do resgate de um passado recente, nos mostrou uma Berlim vibrante, com culpas e remorsos, e ainda pagando pelos excessos cometidos por um bando de fanáticos que conseguiram aliciar milhões de pessoas. Estas, conduzidas pelos caminhos da barbárie, deixaram em seu rastro uma quantidade imensurável de mortos, de todas

VIAGENS

as partes do mundo, inclusive centenas de milhares de alemães. Apesar das perguntas que não se calam, não há respostas que justifiquem como um povo culto e “civilizado” se encaminhou por um desvio inhumano. E minha outra indagação, no ar, é o porquê de cerca de 200.000 judeus terem retornado nos dias atuais à Alemanha, formando uma comunidade maior do que a do Brasil.

*Mario Neusbaum, engenheiro.


RESENHA

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Kadish por uma Cultura extinta SAUL KIRSCHBAUM *

WALDMAN, Berta – O teatro ídiche em São Paulo. Introdução de Jacó Guinsburg. São Paulo: Casa Guilherme de Almeida; Annablume, 2010. (Coleção Estudos e Fontes – Casa Guilherme de Almeida, Vol. I: Estudos: Cultura / História) 86 p

Ao se analisarem fenômenos culturais, é frequente dar ênfase apenas aos próprios eventos enfocados, negligenciando a presença, por trás dos eventos, dos agentes, dos seres humanos, sem os quais não aconteceriam. Certamente, não é o que acontece com O teatro ídiche em São Paulo memória, da professora e pesquisadora de literatura Berta Waldman (Universidade de São Paulo e Unicamp), recentemente lançado pela Casa Guilherme de Almeida em associação com a Annablume, em bela edição de capa dura que inaugura a Coleção Estudos e Fontes daquela instituição. O que vemos passar pelas páginas deste livro, para deleite do leitor, são depoimentos autênticos e impactantes de grandes figuras do teatro ídiche de São Paulo, como Boris Cipes, Póla Rajnstajn, Amélia Kaplanski, Rafael Golombeck, Sara Frydman, para citar apenas alguns (como as entrevistas aconteceram na década de 80, infelizmente nem todos continuam vivos). Para viabilizar suas atividades culturais, criaram entidades, como o Iuguent Club, o Centro de Cultura e Progresso, o Instituto Cultural Israelita Brasileiro (ICIB), o Teatro de Arte Israelita Brasileiro (TAIB). Encenaram Scholem Aleichem, Goldfaden, e tantos outros (“Esperando Godot” em ídiche!). Acompanha o livro CD com as gravações das entrevistas. Ainda faz parte do livro uma generosa “iconografia”, com programas, fotos de encenações, cartazes de divulgação, anúncios publicitários, entre outros.

Tampouco daria conta da tarefa o analista que reduzisse os agentes apenas a seus vínculos com os eventos culturais sob análise, deixando de lado suas circunstâncias, histórias pessoais, dificuldades de sobrevivência, assim como seria insuficiente não contrastar a reflexão sobre os agentes com as condições sócio-históricas que os condicionaram. Berta Waldman mostra que nenhum dos entrevistados se sustentava com os rendimentos da atividade teatral, o que não os impedia de fazer teatro profissional; todos tinham atividades econômicas regulares durante o dia (muitos, como tantos outros judeus imigrantes, eram mascates; outros eram lojistas), dedicando ao teatro horas noturnas roubadas a um merecido descanso. Em bem fundamentada reflexão, a autora mostra que os responsáveis pelo teatro ídiche em São Paulo imigraram da Europa Oriental no início do século XX (mormente no período entre-guerras), acompanhando a fuga caudalosa dos judeus que enfrentavam condições insuportáveis na Polônia, na Rússia, na Ucrânia, na Bessarábia – pogroms, exclusão de atividades econômicas, limitação do acesso a escolas e universidades. Diferenciaram-se da grande massa, contudo, por já estarem envolvidos, no território de origem, com teatro ídiche e com outras atividades culturais; praticamente todos tinham visão socialista do mundo e eram militantes de esquerda, dedicando-se a atividades revolucionárias. Waldman assinala que a direção do Bund acompanhou os emigrantes, dando continuidade ao trabalho de educação das massas judaicas que, nos Estados Unidos, viabilizou o surgimento dos movimentos sindicais. Chegando ao Brasil, muitos imediatamente retomaram sua

inserção na vida política. O fato de que já eram agentes culturais ativos antes da passagem para a América tem significado particular no contexto, pois os constitui como ponte de ligação entre os importantes movimentos culturais da Europa Oriental e os dos territórios de destino. Interagiram com a intelectualidade autóctone, não somente a judaica, criaram teatros ídiche não só em São Paulo, mas na Argentina, no Uruguai; e mantiveram conexões fortes, pois grupos argentinos se apresentaram no Brasil, grupos brasileiros se apresentaram no Uruguai, entre outros. O teatro ídiche que funcionou em São Paulo até o começo da segunda metade do século XX foi, provavelmente, a atividade cultural mais autêntica e intensa dos imigrantes judeus que vieram estabelecer-se no Brasil em qualquer época, não tendo sido superado em importância. Sua memória merece ser preservada, assim como carecem de cuidadosas reflexões as circunstâncias de sua extinção, praticamente inevitável a partir do momento em que o ídiche deixou de ser linguagem de comunicação corrente. A obra de Berta Waldman se mostra plenamente à altura desses dois objetivos. Um presente para o leitor interessado em cultura judaica. * Saul Kirschbaum, Doutor em Letras (USP), professor, ensaísta e organizador de Dez ensaios sobre Samuel Rawet (2007).


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RESENHA

LIVROS INDICADOS De Avraham Milgram, “Portugal, Salazar e os Judeus”, Lisboa: Gradiva 2010 “É um trabalho pioneiro de investigação histórica sobre os judeus perseguidos pelo nazismo, em Portugal, durante a segunda Guerra Mundial (...). A perseguição e a condenação dos judeus por motivos raciais ocorreram numa Europa antiliberal, desiludida com a democracia, carecida de “ordem” e líderes fortes. Naqueles anos, a segregação racial constituía um ideal social; a violência, um direito legítimo: a guerra e o uso desenfreado da força, provas de superioridade humana; e a eliminação do outro, no caso dos judeus, uma cruzada pseudodivina. O Portugal de Salazar – que assistiu a tudo na posição privilegiada de país neutro, longe das grandes batalhas que selaram o destino da Europa e do mundo – não ficou imune ao confronto moral e ético suscitado pela questão judaica. A relação de Portugal com os judeus perseguidos foi ambivalente, composta de atitudes positivas e negativas. Esta obra analisa com rigor os principais protagonistas deste drama (...)”. Autor: Avraham Milgram, Doutor em História pela Universidade Hebraica de Jerusalém, historiador do Museu do Holocausto Yad Vashem de Jerusalém.

Colaborações e artigos inéditos são muito bem vindos. Podem ser enviados à Redação por e-mail ou CD, em arquivos de extensão “doc”ou “txt”. As referências bibliográficas obedecem as disposições normativas da ABNT-NBR 6023. Fotos e ilustrações devem ser escaneadas em 300 dpi. Apreciamos sugestões e aceitamos também críticas construtivas. O envio é para ahjb@ahjb.com.br O endereço do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro é Rua Estela Sezefreda, 76 - CEP 05415-070, São Paulo - SP


DOAÇÕES

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DOAÇÕES RECEBIDAS DE MARÇO A SETEMBRO DE 2010 Ana Rosa Bigazzi Revista Vértice e livros

Meiri Levin 03 livros de autoria de Acacia Berger

Anita Pinkuss 35 fotos de sinagogas, museu e memoriais do Holocausto na Europa

Nessim Hamaoui Fotos da Revista Shalom

Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco 05 exemplares do livro A Cultura Alimentar Judaica em Pernambuco Berta Waldman Livro O Teatro Ídiche em São Paulo de Berta Waldman Biblioteca do Clube “A Hebraica” de SP Livros Dow Friedman Texto Transnistria: um Holocausto desconhecido: O Domínio do ódio de Dow Friedman Eduardo Tabacof Foto da Escola Israelita Brasileira da Bahia, 1950 Fany Barocas Revistas Herança Judaica e livros de temática judaica Flor Schivartche Livros IPHAN/SP CD do trabalho de pesquisa do Inventário de Referências Culturais do Bom Retiro: Multiculturalismo em Situação Urbana e o vídeo Bom Retiro de Muitos Povos Jayme Kuperman Livro O Sabor da Goiabada de Jayme Kuperman Jayme Serebrenic Livro The Routledge Atlas of Jewish History de Martin Gilbert Jorge Bastos Furman Artigos de jornais e revistas, pôsteres, prospecto de palestras e exposições, copia do Decreto Municipal nº 30.936 da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, entre outros sobre a comunidade judaica brasileira Judith Patarra Revistas, entre elas Corrente e livros Luise Weiss Documentos e fotos da família Weiss, livros e DVDs Maria Luixa Tucci Carneiro Livro O Holocausto de Martin Gilbert Maurício Boguchwal (ZL) e Sonia W. Boguchwal Apostilas, livros, anotações de seminários, palestras sobre Sionismo, Questão Palestina, política no Oriente Médio, Literatura Judaica

Núcleo de História Oral Gaby Becker do AHJB Doação de equipamento eletroeletrônico Paulina Faiguenboim Fotografias da comunidade judaica 1970 Paulo Ludmer Livro Fonte de Paulo Ludmer Renato Sacerdote 353 DVDs, cerca de 300 rolos de filme de 16 mm do Programa Mosaico e 04 cópias do documentário (DVD) Senhor Mosaico Ricardo Eliezer Chut Livros de temática judaica Ronaldo F. T. Meyer Livro Uma Folha de Gina Meyer e cópia digital do Livro My Family History de Klaus Oliver. Rubens Diamante Cartões postais de 1915 e 1926 Ruth U. Weinberg Passaportes familiares Samuel Belk Doação de equipamento eletroeletrônico Sergio Goldbaum Jornal Folha Israelita Brasileira e um clichê em iídiche Sociedade Israelita Brasileira Beth Jacob de Campinas (SIBBJC) Livros de ata e caixa da SIBBJC Silvio Fisch Livros em russo e hebraico, 1879 e outros Sylvia Bartsch Livros em alemão e documentos da Universidade (Graz/Salmk) Syma D. Zimberg Imagens digitais de família Zimberg Tobias Gedanken Livros e DVDs Verena Kael DVD Aquelas Mulheres de Verena Kael e Matilde Tales Walter Simoni Texto escrito por Walter Simoni, sobrevivente de campo de concentração, em 1946


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PESQUISADORES

pesquisadores de MARÇO A SETEMBRO DE 2010 Ania Cavalcante Professora de História / LEI-USP Anita Pinkuss Exposição “Shoá – Reflexões para um Mundo Mais Tolerante” Aurélie Le Lievre Doutoranda / Paris 3 Sorbonne Bernardo Lerer Revista Hebraica Bruno Antonio Martins de Guimarães Pesquisa particular Bruno Roschel Carrer Pesquisa escolar Carlos Alberto Beserra Pesquisa particular Carlos Cesar Hennig Pesquisa particular Criseila Arrabal Rabelo Gregorio UNIBES Daniel Douek Mestrando / FFLCH-USP Daniel Kagan Pesquisa particular Danieli Carolini Kuze Graduanda em História / Universidade de Caxias do Sul Eliane Herrera Bordalo Centro Cultural Jerusalém Elisa M. Medina-Rivera Assistente de investigação do Islam in Latin America / Latin America and Caribbean Center/ Florida International University (Miami, FL, USA) Fátima Charpier Bellini Scarpelli Pesquisa particular Félix Szrajia Schreier Pesquisa Particular Flávia Mendes de Sá Graduanda / UNIFESP Giuliana Giauoca Pesquisa particular Gleice Cristiane Tagima ETEC Guaracy Silveira Guilherme Hojda Pesquisa particular Hélio Daniel Cordeiro Editor Henrique Czamarka Pesquisa particular Henrique Mendes Gonçalves Graduando em jornalismo / Faculdade Cásper Líbero

Henrique Kogan Pesquisa particular João Victor Gonçalves Costa Diagramador / Pit Cult Joice de Souza Santos Revista de História da Biblioteca Nacional Juliana dos Santos Ribeiro Graduanda / FFLCH-USP Karim Akadiri Soumaila Cineasta e roteirista Larissa H. Bordalo Centro Cultural Jerusalém Laura Joseph-Henri Doutoranda / Sorbonne LIGIA MARIA MARTINS Pesquisa particular Lizandra Felix Graduando/ Fundação Escola de Biblioteconomia e Ciência da Informação Lucy Gabrielli Bonifácio da Silva Mestranda em História / PUC-SP Marcelo Copeliovitch Pesquisa particular Marcelo Marcondes Jornalista / Jornal O Diário do Comércio Maria de Fatima Fernandes da Silva Pesquisa particular Marcia Weingold Konder Pesquisa particular Márcio Mendes da Luz Mestrando em História / Unicamp Marcio Pitliuk Publicitário e escritor Mariana Guardani Mestranda/ FAU-USP Mathilda Ranieri Laso Pesquisa pessoal Melina Mester Jornalista Ten Yad / Keren Nehor Menachem Méri Frotscher Pós-doutoranda / Universidade Estadual do Oeste do Pará Moisés Malavazi Pesquisa particular Nanci Fernandes Editora Perspectiva S.A. Natasha K. Leite da Silva Graduanda / Escola de Teatro e Dança – UFPA


CONSULTA

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Newton de Castro Pesquisa particular Paulo Sérgio do Carmo Professor / Centro Universitário Sto. André Paulo Valadares Mestre em História / FFLCH-USP Priscila Belitzki Graduanda em História / Universidade de Caxias do Sul Rafaela Barkay Artista plástica Renata Duarte Lemos Graduanda / Centro Universitário Assunção Ricardo Besen CONIB Roberta Perez de Camargo Graduanda/ UNIP Tatuapé Rogério Rodrigues Graduando / Fundação Escola de Biblioteconomia e Ciência da Informação Roney Cytrynowicz Historiador doutor e editor da Editora Narrativa UM Samuel Silva de Oliveira Filho Pesquisa particular Sérgio Tomchinsky Câmara Brasil-Israel de Comércio e Indústria Sylvia Griffiths Pesquisa particular Sônia Reiszfeld Grimberg Zejger Sinagoga Knesset Israel Vera Lucia Cerqueira Pesquisa particular Verena Kael Produtora e editora Walter F. dos Santos Pesquisa pessoal

FOTOS VENDIDAS OU CEDIDAS Alysson Ribeiro Imagens para livro didático da Edições SM Ltda Paulo Valadares Imagens para artigo na revista Latitudes de Paris Anita Pinkuss Imagens para Exposição “Shoá – Reflexões para um mundo mais tolerante” Bruno Roschel Carrer Imagens para pesquisa escolar Bernardo Lerer Imagens de mascates judeus em São Paulo, para artigo na revista Hebraica Karim Akadiri Soumaila Imagens para documentário sobre o pintor Walter Lewy Lucy Gabrielli Bonifácio da Silva Imagens para dissertação de Mestrado, PUC-SP Criseila Arrabal Rabelo Gregório Imagens para a revista interna da Unibes “Transformar” Samuel Belk Imagens para palestra sobre Holocausto na XV Jornada Interdisciplinar sobre o Ensino do Holocausto Nataraj Trinta Cardozo Imagens para a revista de História da Biblioteca Nacional Daniel Winik Imagens da comunidade de Passo Fundo para o site da Soc. União Israelita de Passo Fundo – Sinagoga “Abrahão Melnick” Márcio Piliuk Imagens para artigo na revista Morashá e para publicação de livro sobre os 100 anos da imigração judaica


FOTOTECA ACERVO AHJB

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15 de outubro é o Dia do Professor no Brasil

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D. Pedro I (1798-1834) escolheu a data em 1827, para lançar a lei da criação do ensino elementar em “todas as cidades, vilas e lugarejos”, em homenagem a Santa Teresa de Ávila, consagrada como uma “Doutora da Igreja [Católica]”. Teresa de Ávila (Teresa Sánchez de Cepeda Dávila y Ahumada, 1515-1582) foi uma mística católica e neta de um comerciante judeu convertido. A data para enaltecer o trabalho do professor foi sugerida pelo professor Salomão Becker (1922-2006), em 1947, e depois oficializada pelo Decreto Federal nº 52.682 (14/10/1963). Para os judeus, a Educação (Chinuch) é fundamental. O AHJB possui farta documentação sobre escolas judaicas. Escolhemos na FOTOTECA algumas imagens para homenagear estes profissionais. Na primeira delas, as fotografias, em dois momentos, do lendário professor Moisés Vainer, Moshe b. Tzvi (1876-1963), que desenvolveu um extraordinário trabalho no Colégio Renascença por muitas décadas. Nas três imagens seguintes, vemos flagrantes da educação judaica em diferentes continentes, primeiro na Europa Oriental, depois no Iêmen e, finalmente, na Escola Luís Fleitlich, em S. Paulo.


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