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a loira do banheiro

E OUTR AS

HISTÓRIAS

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Copyright by Alexandre da Costa, 2010

Título original: A LOIRA DO BANHEIRO e outras histórias Blog Portrait (http://aledacosta.blogspot.com/) Capa Juliana Lozano

Costa, Alexandre da A loira do banheiro e outras histórias - São Paulo: 2010 1. Contos. II. Título.

Todos os direitos reservados. A reprodução não-autorizada desta publicação, por qualquer meio, seja ela total ou parcial, constitui violação da Lei n° 5.988. 3


Para leo, bia e alice...

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Alexandre da Costa trabalhou durante dez anos como jornalista. Nesse período, lançou dois livros com pesquisas sobre futebol. Em 2004, largou as redações burocráticas e chatas, se transformou em professor de História. Participou de três antologias de contos de novos autores brasileiros. É formado em Comunicação Social e História. Foi correspondente internacional em Tóquio entre 2000 e 2002. Produz o blog Portrait (http://aledacosta.blogspot.com) há seis anos, local em que publica seus ensaios fotográficos, pinturas e contos.

Contato: aledacosta@gmail.com

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"... nunca fomos amantes, e agora jamais seremos. Mas isso eu n達o lamento. Lamento as conversas que nunca tivemos, o tempo que n達o passamos juntos. Lamento jamais ter revelado que sua companhia me alegrava. Que o mundo era melhor porque ela existia. Agora lamento apenas isso: coisas que n達o foram ditas. E ela se foi e eu estou velho." Sandman de Neil Gaiman

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SUMÁRIO A loira do banheiro..... 07 Cidade..... 10 O acerto..... 12 Velórios..... 14 Cor de rosa na avenida..... 17 O carro funerário..... 19 Perfeição..... 21 O homem da chuva..... 23 A casa do final da rua..... 27 Carrasco de triste figura..... 29 Eu só tenho olhos pra você..... 31 O embate..... 34 Só Maria..... 36 O bendito do câncer..... 38 A menina da janela..... 41 Pouco mais de quatro minutos..... 44 Especial..... 46 Fim do mundo..... 49 Leleco..... 51 Passado a limpo..... 54 Vida que segue..... 56

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A LOIRA DO BANHEIRO (e a sua versão da história)

Quando aqueles garotos arrancaram minha calcinha, percebi de fato que não se tratava de um sonho. Fechei os olhos com toda a força do mundo e consegui sair de mim. Me lembrei do tempo em que papai batia na mamãe. Eu sempre fechava os olhos e voava longe. Com aqueles meninos, naquele banheiro fedido, não foi diferente. Eu tinha 13 anos. Quando papai esmurrava mamãe, tinha cinco. Mamãe morreu. Papai, não sei. Ao ficar órfã, minha vózinha chegou do interior para cuidar de mim. O cheiro dela é inesquecível, doce, acalentador. Quando estou de “bico”, procuro pensar na sensação que tinha quando ela chegava perto de mim. Era bom. Vovó sempre me arrumava para a escola. Dizia que eu precisava estar sempre linda. Ela penteava meus cabelos “dourados” de uma princesa. Ela dizia isso e me deixava feliz. Meu uniforme estava sempre bem cuidado, merenda gostosa dentro da lancheira. Fui feliz nesses anos. Me complicava em matemática, mas no resto ia bem. Vovó se orgulhava dos “10” que tirava em redação. Eu adorava escrever cartas melosas, cheias de romantismo barato, para ninguém. As escondia numa caixa de papelão rosa, em formato de coração. Tinha virado mocinha aos 11. Não foi um susto ver aquele sangue escorrendo pelas minhas pernas porque a vovó e a tia Ceci (minha fessora) já haviam me explicado que isso aconteceria. A partir daquele momento eu era uma mulher. E a vovó completou: “uma mulher dos cabelos dourados”. Foi um dia bacana. Eu seguia crescendo e me apaixonava pela primeira vez. Guto era bonito, forte, esperto, tinha 16. Já bebia e dizem que já tinha até feito sexo. Eu gostava dele. Contei para vovó e ela pediu para eu me cuidar. “Não sei se gosto desse rapaz!”, disse. Não era ciúme ou implicância dela. Era apenas uma sensação... Um dia criei coragem e fiz um poeminha para ele. Coisa boba, coisa de menina. Mas totalmente sincera. “Meu Deus, ele quer me encontrar!” Nunca me senti tão doida quanto naqueles segundos antes de ver o Guto, sozinha. Eu estava apavorada. Queria, porém, estar com ele. “Será que ele já tinha me notado antes?” Eu mal podia me segurar dentro do meu corpo. Queria voar longe de felicidade. Naquela época, estudávamos à tarde. Ele queria se encontrar comigo quinze minutos depois do último sinal. Daria tempo para a gente conversar bastantão antes da turma da noite chegar. “Não sei se gosto desse rapaz!” Lembrei da minha vózinha. Deixei meus 8


cabelos soltos. Uma amiga emprestou um batom bem clarinho e discreto. Estava cheirosa. Meu sapato novinho estava brilhando. Presente da vovó. “Ele ia gostar de mim?” E sentada ali fiquei entre os pavilhões dois e três. Estava frio. Eram quase seis horas e a noite já tinha chegado. Coloquei o casaquinho que minha avó tinha feito. Estava com o cheirinho dela. Senti saudades. Levei um susto. Deixei minhas coisas caírem no chão, mas não tive chance de pegá-las. Foi tudo muito rápido. Dois amigos do Guto me seguraram com força. “Cadê ele?” Eu tinha medo desses garotos. Eram grandes e encrenqueiros. Estavam sempre na diretoria. Um deles tinha mais de 18. Me apertaram com força e me jogaram para dentro do banheiro do pavilhão dois. Caí de joelhos e bati o queixo no chão. Não estava entendendo nada. Aí, uma voz doce e conhecida quase me acordou daquele pesadelo que se iniciava: “Quer dizer que a putinha loira quer me dar?” Era o Guto. Seus amigos riam alto. O eco daquelas risadas naquele banheiro fedido me fez ver papai matando mamãe de novo. Foi ali na minha frente. Tinha cinco anos. Estava novamente paralisada. Não conseguia gritar, chorar. Tremia, tremia, tremia. “Vovó, segure minha mão...” Quando aqueles garotos arrancaram minha calcinha, percebi de fato que não se tratava de um sonho. Fechei os olhos com toda a força do mundo e consegui sair de mim. Tinha 13 anos. Não estava mais em mim e isso aliviou toda a dor daqueles minutos que não acabavam. “Olha Guto, é cabacinha!” “Oba, é minha. Não tem mais isso no mundo”. “Eu primeiro, eu mando, esqueceram?” Tentei escapar mais uma vez. Um dos amigos do meu primeiro amor acertou um soco no nariz. Me afogava no meu sangue. Num instante, tão instante que quase não percebi, uma gota desse sangue caiu no meu sapato novo. “Deixa, vovó, eu limpo quando chegar em casa”. Tanta dor. O cheiro horrível daqueles animais em cima de mim. Solidão. Quando um deles quebrou meu pescoço não senti mais nada. “Desculpa, vovó, não vou conseguir limpar o sapatinho novo...” Ao acordar num mundo estranho, sentia frio. Estava presa naquele lugar. Meu cativeiro eterno. Nunca soube como fora meu enterro. Não vi mais vovó. Não sei há quanto tempo estou aqui. Não sei o que aconteceu com o Guto. Às vezes, me olho no espelho e choro com o que vejo. Meu rostinho todo machucado. Um rastro, um pequeno rastro de sangue que sai do nariz

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em direção ao queixo que nunca limpa, por mais que eu tente. Olhos fundos. Olhar perdido. Cabelos dourados não mais dourados. Enfim... ... confusa como toda menina de 13 anos. Tenho medo do escuro. Aprendi com o passar do tempo a deixar a luz desse banheiro acesa quando todas as outras do colégio são desligadas. Não durmo e para não ficar louca, ando em círculos, acompanhando o caminho que a luz faz ao bater no piso. Solidão. Uma vez, duas, três, tentei me comunicar com um menino. Nem todos são maus ou cruéis como o Guto. Nunca quis fazer nenhuma maldade com eles. No entanto, o susto que levavam era tão grande que os paralisava. Dois morreram de medo. Outro, enlouqueceu. Juro, não era minha intenção. Apenas queria contar a minha história... Poxa... Você quer ouvir a minha história?

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CIDADE

Não acredito em fantasmas. Quando algo morre, morre. Acabou. Ninguém percebeu quando o fim teve início. Nem eu mesmo havia notado que tudo começara a ruir. Hoje, agora, ainda não sei explicar. Lá fora, só um balanço que vai pra cima e pra baixo empurrado pelo vento que não cessa. Ele range, seu movimento não é suave. Além das cercas, nada. Um vazio numa cidade que está morrendo. Lugar esse esquecido por Deus que não se foi ainda porque aqui estou. O último. O sobrevivente. O remanescente. Sei lá, o último cara numa porra de cidade que acabou. O primeiro parágrafo dessa tragédia tem cores. Progresso. Dinheiro fácil. Novidade. Modernidade. O século não conhecia a luz elétrica quando a cidade recebeu seus primeiros habitantes. Não era uma cidade ainda, é verdade. A estrada de ferro. A mina. Tudo ali por perto. Grandes pedaços de terra a preços surreais. Impossível não acreditar que o sonho poderia se tornar real. Foi o que meu pai pensou. E outros pais também. Mães e avôs e avós. Nascia uma cidade. Uma praça. Uma igreja. No centro. O comércio, os bares, o banco, a escola. Ruas. Uma avenida. A vida. As fazendas, ranchos, chácaras se estabeleciam. Plantavam, colhiam. Vendiam. E o tempo passava como se passa uma vida. Meu pai conheceu minha mãe. Se casou naquela igreja, que era a única e que marcava o início de tudo. O ouro reluzia e prosperávamos como nunca. Trens passavam por nossa cidade (agora sim CIDADE) e passageiros, que nada tinham além da vontade, não embarcavam rumo à próxima estação. Cena repetida por décadas. Já nos contávamos em milhares. Não tão milhares, alguns. Não éramos grandes, no entanto, crescíamos. Cada vez mais. O século novo conhecera duas guerras gigantes. Uma bomba que traria o fim do mundo. Papai morria. Mamãe também. O vento mudava de direção e a chuva não caía mais como antes. Claro, não percebemos isso na hora. O ouro acabara há décadas. Mas, as pessoas trabalhavam e seguiam suas vidas. Me casei. Fiz uma família. Três filhos. Por enquanto, os problemas ficavam do lado de fora das casas. As partidas eram individuais. Um. Depois aquele. O outro. Mais um. Aquele. E não notávamos que a cidade não crescia como antes. A chuva insistia em não cair. Os trens não eram tantos e suas paradas eram rápidas. Ninguém mais ficava na estação. Meus filhos embarcaram em um que 11


levava para qualquer lugar quando as fazendas, ranchos e chácaras pouco tinham o que vender do que produziam. E assim dezenas partiam num ano, depois num mês, depois numa semana. Bancos, lojas, bares, escola. A igreja. Tudo abandonado, fechado, deixado para trás. O vento passeia sem resistência. Invade casas desamparadas. Solitárias. Na estrada construída atrás da minha terra, carros surgem separados por décadas. Penso na teoria do vírus e logo esqueço. Os mais velhos ficam. Eu fico. Não há outro lugar no mundo para mim. Minha mulher morre. Silvio morre. O padre morre. Agora é ela com seu manto negro quem apunhala a cidade. Fecho o portão do cemitério. Vagueio pela cidade quase morta. O peso de eras nas minhas costas. Ando devagar. A avenida central. Trinta minutos das minhas terras. Lembro da primeira vez que dirigi até ali. Meu pai ao meu lado. Agora ando. Sozinho. O vento não está. O mato cresceu naquele canto, aqui, acolá. Não sei que horas são. Há um banco da praça vazio. Que bom. Preciso descansar. Sento. Olho para o rastro que deixei ... vai lá longe. Ninguém percebeu quando o fim começou. Nenhuma alma ali. Nenhum som. O balanço no parque não balança. Inerte.

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O ACERTO “Segura na mão de Deus e vai...” As velhas cantam emocionadas. Cada nota é entoada com a alma. Uma delas é cega. Percebo isso num olhar. A outra nada ouve, mas mesmo assim eleva as mãos ao Senhor à espera de que aquele que velam seja salvo. A última, muda, canta palavras sem sons. Balbucia e você, se fizer uma força, perceberá que ela diz... “segura na mão de Deus...”. Acordado pelas velhas, não demorei para notar que o conselho era dado a mim. Gozado, me veio Brás Cubas na cabeça e busquei o lirismo aprendido com ele em meu caixão. Nada encontrei. Não sou Machado. Sou grosso, tosco, sem poesia e magia. E a mão de Deus na hora da minha morte? No fundo, sabia que era tempo perdido procurá-la. Como disse, não tenho competência artística para minhas memórias póstumas. Umas poucas palavras sobre esse momento, no entanto, são necessárias. As velhas, não conheço. Não sei o que fazem ali e nem por que cantam tão abençoadas. Me sento no caixão, que sinto ser nada especial. Deve ter sido o mais barato. Poucas flores. Quatro velas acesas, uma em cada canto da sala de velório. Não sei qual é o cemitério. Sentado, viro minha cabeça para trás e me vejo. De olhos fechados, cabelo na testa e barba feita. Alguém cuidou de mim depois do fim. Quem? Há um pequeno corte no canto da minha boca. Inexperiência do barbeiro de ocasião. Não sinto nada ao me ver. As velhas silenciam. Só duas, claro. A última nenhum som transpirava desde sempre. Fim da tarde. Sei por causa do céu alaranjado que vislumbro pelas janelas empoeiradas da sala. Três pessoas fazem companhia às velhas. Uma delas se aproxima de meu caixão e toca meu rosto frio. Bom, todo cadáver é frio. O meu não seria diferente. A mão dela passeia. Toca o corte, os lábios, a testa e morre num afagar suave e rápido nos cabelos. Não sei quem é. “Espero que você descanse...” ela diz e se encolhe no seu vazio. Sinto o vazio dela, mas não tenho pena da dor da moça. Levanto e encaro as outras duas pessoas. Um homem. Uma mulher. Mais velhos, mas não tão velhos quanto as velhas. Os dois estão distantes um do outro. Não olham para nada. A mulher chora, sentida de verdade. Tenho pena dela. Toco seu ombro. Digo baixinho para ninguém. “Calma, era o que você queria...” O homem nada faz, nada pensa, nada quer. O encaro, mas ele não me encara. Estou ali e sorrio meu sorriso mais arrogante. Sim, até depois do fim ainda tenho minhas qualidades mais duvidosas. Olho bem pra ele, bem sabe, abaixo a cabeça, quero que ele me veja, ele fecha os 13


olhos. Agora, não digo baixinho. Grito para todos os demônios do inferno, e ele, ouvirem: “Foda-seeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee”. Cuspo no chão que ele pisa. “Precisamos fechar o caixão”. Os urubus do cemitério têm que seguir suas vidas. Mais um corpo para os vermes. O meu corpo. O trio pega a tampa, os parafusos. Eles têm prática. Segura aqui. Aperta ali. Meu rosto na escuridão. A menina chora. Estou ao seu lado. “Agora, moça, estou protegido... de tudo... inclusive de você!” As velhas cantam novamente. “Segura na mão de Deus e vai...” Eu respondo da sala que se esvazia.... “Vão pra puta que pariu...”, mas a música é bonita. Confesso. A mulher sai atrás do caixão carregado pelo trio de urubus e o homem. A menina fica para trás um segundo. Pensa em seguir o cortejo. Traz rosas amarelas. Muda de ideia. Segue o caminho contrário. Eu fico ali. Sem entender direito como as coisas funcionam. Assim sempre foi. Na vida ... na morte. A velha muda, lá longe, puxa o verso final.... “ e vai...”

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VELÓRIOS

I Toda sexta-feira, há mais de 20 anos, sigo uma rotina específica e fundamental para a minha existência. Não sei bem como isso começou. Importa pouco também o por quê. Sei que sempre, na noite anterior, minha barriga dói de ansiedade. O que encontrarei? Me pergunto, congelo, olho para o teto, angústia total. De verdade, até durmo mal. Viro na cama minutos intermináveis. O relógio no tictac que irrita. Seis da manhã, ou pouco antes, e levanto esbaforido. Nem banho tomo. Tiro o pijama de flanela. Dobro-o e enfio debaixo do travesseiro. Alinho o lençol com correção. Cama arrumada. Casaco por causa do frio e chuva. Cabelo a gel. Coração acelerado. Rumo à banca de jornal. Cinco minutos depois, o jornal em minhas mãos. Sacola plástica para não molhá-lo. Aperto o passo. Outros cinco minutos, estou em casa. Afasto a cadeira e abro o caderno que me interessa em cima da mesa da cozinha. Uma gota cai suave da torneira da pia. Me prende a atenção por milésimos de segundo. Foco. Tá lá. Página C6. Olhos passeiam com rapidez. Falecimentos. Está lá. Como toda sexta-feira. Um terço de página. Mais mortes nas férias. Saboreio meu instante. Maria Joaquina Acosta, 100 anos. Deixa marido, filhos, netos, bisnetos. Não, essa não. Edmundo Fabrício, aos 82 anos, filho do ex- presidente da Câmara Municipal. Pomposo demais, também não. Professor Aluisio Sandonato, 39 anos, corpo foi transladado para o Crematório. Hum, não. Próximo. Carla Gália, aos 35 anos, solteira, pediatra, deixa pais e uma irmã, enterro será na tarde deste sábado no Memorial Parque. Isso. È esse! Me empolgo. Suor de excitação escorre pela testa. A chuva parou. Vibro com a manutenção da minha tradição. O dia está frio, mas não deixo o chuveiro esquentar. Assim sempre foi e continuará sendo. Sete minutos. Água cai, meus pecados escorrem pelo ralo. Shampoo, sabonete, barba feita no instinto. Nenhum corte. Perfeito. Nenhum vidro da janela embaçado. Do jeito que eu gosto. Me vejo no reflexo, sorrio o sorriso dos vencedores. Hoje é o meu dia. Enxugo meu corpo. A roupa do ritual separada com antecedência. A calça preta. O cinto. Par de sapatos e meias. Cueca. A camisa também preta e uma gravata chumbo. Cheiro discreto de amaciante. Não levo dez minutos para ficar pronto. Perfume suave. Escova no cabelo. Uma última olhada no obituário. MEMORIAL PARQUE. 15


II Esqueço o guarda-chuva, mas não demoro a encontrar um táxi. O cemitério não é longe. Vinte minutos, trinta talvez, se houver trânsito. O motorista puxa conversa. “Parente!” “Não, não é” “Não gosto dessas coisas de velório, enterro, morto, não!” “Eu gosto” e posso sentir a adrenalina no pico. Estou feliz. Não noto que o monólogo muda de tema. A excitação é incontrolável. Na placa, Memorial à esquerda. Ótimo. “Trinta reais”. Pago. Bato a porta. Garoa. Procuro a sala certa. Número cinco: Carla Gália. O corpo já está lá sendo velado. Meu coração acelera. Garganta seca. È sempre assim, há duas décadas. Caminho a passos largos. Quero chegar logo. Quero vê-la. Carla Gália, aos 35 anos, solteira, pediatra, deixa pais e uma irmã. Vejo seu corpo. Minha atenção, num primeiro momento, está toda voltada para ela. Loira, acho que não tem mais do que 1,60. Usa um vestido preto, discreto, de alças. Batom suave. Maquiagem que dá uma elegância maior ao cadáver. Como tantos outros mortos que já vi, esse também parece dormir. Não aparenta 35. Não sei a cor de seus olhos, mas imagino um verde puxado para o azul. Moça bonita, de fato. Meu peito dói e sinto uma emoção maior quase me derrubar. Não seguro as lágrimas ao tocar as mãos de Carla. “Pobrezinha”. Beijo sua testa. Enxugo minhas lágrimas. Deixo o caixão e sua menina. Volto meus olhos para as pessoas que acompanham a doce Carla. Uma garota, óculos escuros, loira também, encostada no ombro de uma senhora que parece seca depois de horas de choro. Mãe e irmã da defunta? “Oh, minha filha”, balbucia a velha. Nunca erro em minhas análises. Não identifico o pai. Onde estará? No jornal, dizia PAIS. Não o encontro. Amigos do hospital da menina mandaram uma coroa. Um grupo, cinco pessoas, conversa sobre qualquer coisa do lado de fora. Amigos de escola? Vizinhos? Familiares (primos, sei lá)? Estou na sala, novamente. Dois rapazes chamam minha atenção. Um deles está bem distante da moça. Olhar perdido. Barba de dois, três dias. Olhos castanhos. Inconsolável. Triste mesmo. O outro tem cara de menino. Deve ser um menino mesmo, se tiver dezoito é muito. Ele está ao lado de Carla. Parece rezar. Não entendo o que diz. Chora muito, mas sem escândalo. Toca as mãos da morta assim como eu fizera. Beija sua testa também. “Adeus”, isso eu ouço. A primeira pessoa viva que ele vê sou eu. Vem a mim, abre os braços, me abraça, se perde num lamento interminável, como nunca eu presenciara antes. “Tudo bem, tudo bem!”. Consolo o rapaz, mesmo sem saber quem é. 16


Epílogo São duas da manhã do sábado. Apenas a mãe, a irmã, os dois moços e eu ainda velamos Carla. Seu enterro será daqui a algumas horas. Não verei. Preciso ir. Pouco soube dessa moça. Tinha sido dos Médicos sem Fronteiras logo que se formou. Cozinhava muito bem. Era solitária, não necessariamente triste. Torcia pro Flamengo. Amava a caçula da família. “Olhos azuis como o céu de maio em São Paulo”, disseram. Estou realizado. De zero a dez, nove e meio para esse velório. Faltou apenas o choro dos filhos, que no caso de Carla, óbvio, não houve. Sensação de dever cumprido. Me aproximo de Carla e me despeço. “Obrigado” e saio sem olhar para trás, como sempre faço. Aguardo um pouco até surgir um táxi na esquina do cemitério. Motorista calado, agradeço a Deus por isso. “Quarenta reais!” Bandeira dois. Corro até o portão da minha casa, tento evitar a chuva que cai com consistência. Me molho um pouco. Tiro minha roupa, chuveirada rápida, pijama de flanela. Antes de rezar, pego meu diário. “Carla Gália, aos 35 anos, solteira, pediatra, deixa pais e uma irmã, enterro será na tarde deste sábado no Memorial Parque”. OK com a caneta vermelha no recorte de jornal de número 1037. Fecho o caderno. Me ajoelho e faço minha oração. São quatro da manhã. Dormirei pouco como sempre acontece entre sexta e sábado. Deito de barriga pra cima. Olho o teto. Respiro fundo.“Flores tão lindas e perfumadas. Perfeito!” e me deixo levar pelo mais justo dos sonos.

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COR DE ROSA NA AVENIDA

Zuuuuuuuum. Faço a curva brincando de Ayrton Senna. Até canto a musiquinha e imito o Galvão Bueno. Ainda o dia não chegou na Vila Maria e tenho as subidas e descidas do bairro todas para mim. Opa, desculpa a falta de educação, chefia. Não me apresentei. Minha mãe, a santa dona Amélia (que Deus a tenha) batizou-me (preciso manter a estampa) de Cleidnelsonn. Assim mesmo, com dois Ns no final. Os mano, todavia, chamam-me de Fittipaldi. Zuuuuuummmmmm. Eu ainda não sabia, mas esse seria meu último dia de vida. Dei azar, claro. Sou do bem, gente honesta, entrego leite todas as madrugadas nas casinhas dos portuga do bairro. Ganho uns trocadinhos com uns bicos também. E no final do mês, tiro o da sobrevivência. Você sabe, porém, que os dias atualmente são de estresse total. Qualquer coisa, mano tá puxando o cano ou tiozinho ta te apavorando. A desculpa de todo mundo é a tal da violência. Bom, me dei mal com ela. Senta aí, puxa a cadeira porque vou te contar o acontecido. A Cerejeiras estava acabando, desembocando na ladeira bacana da Araritaguaba. Ali me divirto. Desço a milhão e a cachorrada fica doida com o meu voo. Olha moço, sou doidão na bike, mas nunca desperdicei a mercadoria. Claro, têm uns clientes que acabam acordando, reclamam, xingam a santa dona Amélia (que Deus a tenha) e voltam a dormir. A maioria, no entanto, nem nota a minha chegada. Muito menos, a minha partida. Só a cachorrada que fica naquelas de Mozart. Olho no relógio. São três e meia e só faltam as casinhas ao lado do Colégio Sion. Estou um pouco atrasado hoje. Seu Joaquim vai reclamar. Ele reclama sempre. Aquele velhinho acorda com as galinhas. Dou um show nas pedaladas, zuuuuuuummmmm, e só falta a casa do Maneco antes de chegar no seu Joaquim. Detono o freio da bike, seguro o bicho no braço e quase me acabo no muro do Maneco. Veterano da guerra do Timor, o Maneco chegou na Vila Maria bem antes de eu nascer. Acho que ainda havia o Figueiredo na presidência. Sei não, nunca fui bem nessas coisas de história. Então, o português é boa gente, mas teve a vendinha roubada três vezes mês passado. Por isso, dorme com o trezoitão do lado da cama. Ficou mais traumatizado com São Paulo do que com a Guerra do outro lado do mundo. Que coisa louca né?

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E continuando nosso plá, não me acabei no muro do velho. No entanto, derrubei o vaso, entortei o portão, acordei o gato e enlouqueci o pitbull. Cara, era melhor ter batido no muro. Com todo o escarcéu, seu Maneco levantou assustadão da cama. Pegou o meu carrasco (que Deus tenha piedade da minha alma) e saiu dando tiro feito louco. Era balaço pra todo lado. Poxa, três garrafas se quebraram e o pior: duas balas me acertaram. Doeu. Ai como doeu. Caí duro no chão, já de cara com a saudosa santa dona Amélia. Deu tempo de ouvir o coitado do seu Maneco gritando “meu deus, matei o leiteiro. Matei um inocente”. E, antes de bater as botas de vez, antes do laranja do sol ganhar firmeza no céu, deu pra ver o vermelho do meu corpo se misturando com o branco das garrafas. Um cor de rosa bonito e alegre antes do fim. Zuuuummmmmmmmmmm.

IMPORTANTE: Esse texto é uma adaptação do poema MORTE DO LEITEIRO do gênio Carlos Drummond de Andrade. Só espero que ele não fique puto com a homenagem. Tenho a desculpa de que era um trabalho da faculdade....

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O CARRO FUNERÁRIO

Vejo meu reflexo no vidro traseiro de um carro funerário. Pude perceber todos os detalhes de um rosto velho, pisado, primitivo. Puder ver lá no fundo um olhar sem brilho algum, sem futuro, sem presente, com um passado sem perdão. Era um cruzamento qualquer de uma rua sem nome. Tinha um número apenas, não lembro qual. Fora de foco um caixão em silêncio. Sem vida como o corpo que dentro carregava. Não havia cabelos brancos na primeira vez. O carro do passageiro morto era todo preto, elegante, altivo. Causava arrepios a todos que o viam. A velhinha da outra esquina fazia o sinal da cruz. Com as mãos nos bolsos da calçola, chiclete amassado mil vezes, indo pra cá e pra lá dentro da boca, triturado por dentes de leite, nada podres, brancos, puros. De longe, vi o carro da morte, reluzente de um preto quase casto, brilhava de um jeito estranho quando refletia a luz do sol ao virar à esquerda na praça. O recebo com minha curiosidade imensa. Quero saber tudo. Há sim alguém que não é mais alguém na parte de trás. Um caixão branco, mas nesse tempo não sabia que artefatos como esse serviam para crianças como eu. Ninguém o seguia. O motorista barbudo mascava um charuto velho. Quando apontou sua máquina para a avenida central, que levava ao cemitério de nossa cidade, o impulso, o instinto, a piedade, me levaram a correr atrás do cortejo inexistente. Ele reduz a velocidade, percebe não carregar alguém não mais sozinho. Estou com o morto, corro atrás, aceno Adeus e choro porque chorar era a única coisa a se fazer numa hora dessas. Quando o ar de menino acaba, paro, o carro segue e tenho certeza que do banco traseiro, uma menina loirinha de olhos pretos imensos acenava o tchau mais triste que eu conhecera ou conheceria a partir de então. Acordo e ao abrir os olhos percebo rapidamente que tinha sido o fim. Cheiro gostoso de madeira nova. Estou até alinhado, tratando-se de um cadáver. Num segundo, sem entender como, sento-me ao lado do caixão, noto as rosas amarelas ao lado, um bilhete que não me interessa ler. Encosto a cabeça sem pensamentos, sem vida, sem nada (mas não fora assim antes?) na janela do carro funerário. Vejo as pessoas lá fora sem me notarem. A velhinha não se benze mais. O trânsito vagaroso não é obra minha, nem uma pretensa homenagem. Assim como na vida, na morte estou ali, invisível, imperceptível. Até sorrio meu sorriso mais sincero.

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Duas quadras antes do cemitério, olhei então para a calçada e vi aquele homem, parado, sem força para mais um passo. Pude perceber todos os detalhes de seu rosto velho, pisado, primitivo. Puder ver lá no fundo um olhar sem brilho algum, sem futuro, sem presente, com um passado sem perdão. Um aperto de dor doeu no lado esquerdo do peito. Lá longe um cachorro uivava, não sei se por fome, medo ou apenas saudade...

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PERFEIÇÃO

Descobri o tipo de homem que ele era numa manhã de segunda. Na saída da estação Komagome, tropecei e caí, esfolando meus dois joelhos. Estava de saia. Sangrou muito e doeu muito. Sentada na sarjeta, liguei pra ele. Três quarteirões nos separavam. Chorona, disse o primeiro alô quase sem dizer alô. Ele sabia que algo havia acontecido. Estou indo, disse. Ah, cadê você? ... Então ele chegou, esbaforido, dois minutos depois. Algumas pessoas já me ajudavam. Uma senhora até emprestara uma caixa de lenços de papel para estancar o sangue, que já nem era tanto. Mas ele chegou. Me pegou com jeito, beijou minha testa, me levou para o trabalho. Ele gostava de trabalhar de manhã cedo. Não havia ninguém no escritório. Só nós dois e os joelhos abertos. Doce, “senta aqui na mesa”. Assoprou meus joelhos – quase beijou como se fosse curá-los. Passou água, desinfetou, secou, passou mercúrio cromo com o cuidado de que não ardesse. Pegou dois band-aids e terminou a breve operação. Meu herói. Bobo, né? Claro, no início de tudo, muitos me avisaram que era roubada. Eu sabia disso. Ele me disse também. Sabe quando você não liga e se deixa levar? Eu fiz isso. Pela primeira vez na minha vida não medi consequências. O episódio da “operação” provava que escolhera certo. Me levava embora todos os dias. Ligava quando viajava. Dizia sentir saudades e sabia que não era mentira. Comprava chocolates quase sempre. Ajudava na escolha de minhas roupas sem fazer cara feia (de fato, ele curtia fazer compras comigo). Nunca me traiu, ele não saberia esconder isso. Sabia direitinho onde tocar para me fazer ir ao paraíso. Nossa, como gozava gostoso com ele. Fazíamos planos. Sim, fazíamos planos. Numa noite de bebedeira, escolhemos até os nomes dos rebentos. Foi uma noite bacana. Como sempre, quase hábito, depois do amor, ele me cobriu até o pescoço. Está nevando, nana bonitinho, disse, me fazendo parecer sua menina ou sei lá o quê. Amei esse homem como nunca nesse instante também. Ele gostava de andar de mãos dadas. Beijos no meio da rua, com chuva, neve. Cinema. Teatro. Passeio no parque. Natais. Uma aliança com uma pedrinha discreta de diamante – não faço ideia de como pagou isso. Ele se cuidava pra mim. Corria. Academia. Brincava de tênis. Meus pais – tão chatos quanto aos meus relacionamentos anteriores – o adoravam. Brigas pra valer nunca. Mas os roxos safados do fogo dele ficavam nos meus 22


braços, no pescoço, na nuca, nas costas. Era gostosa aquela mordida. O que posso dizer mais? Seus cabelos branqueavam a cada dia. Brincava comigo dizendo que ia tingi-los de preto. “Ridículo”, apostava e ria. Depois dos cabelos brancos, uma ansiedade o perseguia todas as madrugadas. Ele sempre dormiu muito mal, mas agora piorara de vez. Inquieto. Inquieto. Inqueito. Inquieto. Inquieto. Inquieto. Inquieto. Calado como nunca. Não distante, em outra estação, talvez. As olheiras profundas. No entanto, pra mim, sempre havia um sorriso, que sim era sincero. Apesar do evidente cansaço que já se acumulava em seus ombros. Era a madrugada do seu aniversário e acordei com frio. De pé, encapotado numa jaqueta velha, com a calça azul surrada de pijama, ele olhava pela janela. Distante, distante, tão distante, que pela primeira vez nessa história de amor senti um calafrio de fim. Ele percebeu que eu acordara, sorriu como sempre e lá ficou me encarando como se dissesse tudo. Nada disse. Fechei os olhos e sabia que quando os abrisse, meu homem não estaria mais ali. Abri meus olhos.

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O HOMEM DA CHUVA

A prosa que vou contar não fala da seca no sertão. Não fala da terra rachada sem água. Nem da barriga sem comida e cheia de fome. Nem dos açudes e poços vazios. Muito menos das famílias gigantescas que se apertam num caminhão rumo ao Sul. Eu me chamo Juliana. Meu pai me chama de Juju e a história que vou contar fala de um homem. Fala de um gigante de olhos azuis, que mudou a vida de nossa pequena cidade que nem no mapa está. Cidade perdida em algum lugar entre o fim do mundo e o quinto dos infernos. Como disse, sou Juliana para todos e Juju para meu pai. Sexta filha de um casamento que dura 20 anos. Tenho ainda mais cinco irmãos novinhos. Sou menina-moça, todo mês sangro, trabalho na roça com sol a pino e nunca conhecera o amor até aquele gigante de olhos azuis surgir na minha frente. Meu pai sempre disse que meus olhos são marrons do marrom mais marrom que mais parece preto que existe no mundo. Quando meus olhos mais marrons do marrom mais marrom que parece preto cruzaram com o olhar azul de mar daquele estranho percebi que nunca mais seria a mesma. È disso que não esqueço. Jamais esqueci daquele segundo (eterno?). Os mais velhos não cansam de exaltar Lampião. Outros não apetecem de tanto xingá-lo. Ninguém, porém, se lembra do gigante. O homem que mudou as nossas vidas. Aquele dia era igual a todos os outros que tinham passado como seria igual a todos os outros que viriam pela frente. Minhas mãos cheias de calos por causa da enxada e meu vestido velho, puído, eram o que a minha vida significava: um nada. Mas eu não via isso e trabalhava na roça seca quando o gigante surgiu ali, na minha frente. Eu deveria ter corrido de medo, mas fiquei. E o encarei com a dificuldade de encarar o sol na sua cara. Olhos azuis, pele tão branca, uma roupa que não combinava com o tempo do Sertão. Ele dizia algo muito baixo que eu não ouvia. “O que o moço quer? Fale mais alto” . Tenho que confessar que tremia, tremia muito. Mas nunca vira algo tão belo e meu coração nunca batera tão forte. Dentro de mim, nascia a certeza de que aquele gigante não me faria mal algum. “Juliana, você tem que escolher!”

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“O quê? Não te entendo! Quem é você? Fale mais alto” Uma ventania surge do nada e leva pra longe meu gigante... Sou acordada por meu paizinho. Ele me encontra deitada no meio da paisagem seca. Acha estranho, mas não diz nada. Na verdade, meu pai nunca fala mais do que o necessário. Porém, ele é a única pessoa que me conta histórias apenas com o olhar. Bom, pelo menos ele era o único até eu conhecer o gigante. Não consigo andar e sou carregada no colo. Tenho 15 anos, mas agora me sinto um bebê aconchegado ao meu paizinho. Outra vez o sol chega cedo no sertão e invade nosso único quarto. Eu o vi chegando. Não consegui dormir. Quanto mais aquela estrela ainda vermelha, laranja, se aproximava, mais minha alma gelava. O que estava acontecendo comigo? Minhas mãos, minha testa, meu corpo, todos suavam estranho. Eu estava com frio. Me disperso com meu trabalho mais uma vez. Não posso me dar ao luxo de não trabalhar. Minha família precisa dos meus braços. Não houve segundo, no entanto, em que aquela frase não me apoquentou. O que eu tinha que escolher? Por que tudo mudara em tão poucas horas? Meu paizinho vigia meus pensamentos. Não diz nada. “Vou no poço” “Tá” E lá vou eu com a cabeça no mundo da lua embaixo de um sol de 40 graus. Sei que agora não estou sozinha nesse caminho. O gigante me espiona, me vigia, me olha, me protege. Tenho medo de olhar para trás. Medo mesmo? Faço charme para ele. Ensaio um bailado arrastado e sinto que o gigante sorri. O coração está gelado, mas eu estampo um sorriso no rosto também. A ventania leva para o alto toda a realidade que conheço. Me transporta para perto daquele ser de olhos azuis. Ele não é tão grande agora. Posso vêlo com quase toda a clareza que existe no mundo. Sua pele é branca, a boca roxinha está machucada como se ele tivesse mordido sem querer. Os olhos ainda iluminam a galáxia, mas seu sorriso – percebo – é triste. Combina com o longo suspiro que dá antes de falar... “Juliana, você tem que escolher!...” “Por quê?”

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“É preciso...” “Juju, diacho, cadê você?” Estou sentada perdida em pensamentos que não são mais meus. O balde vazio e meu pai desesperado estão ao meu lado. Difícil evitar um choro verdadeiro e meu paizinho não pergunta “por quê?”. E eu choro tanto, tanto, tanto. Ele de novo me pega no colo como um bebê. Me põe na cama. Me beija como nunca fizera antes. E só diz: “Você cresceu, minha menina...” Poxa, eu não queria crescer se soubesse que ia doer tanto assim. Nunca amei tanto meu pai como naquele dia. Sem entender, já fizera minha escolha. Infelizmente, alguém sairia com o coração partido. Alguém além de mim porque eu jamais seria completa depois daquele dia, que chegava com o sol vermelho/laranja e seco. Nossa cidade não via uma gota de chuva há quatro anos. Não havia dinheiro do governo para nos ajudar. Estávamos entregues ao destino e à boa-vontade dos Deuses. Um deles me amou (teria sido um demônio? Não importa!) como nunca. Caminho pela roça com a certeza de que tomarei uma atitude importante. Me sinto madura agora, isso porém não tira de mim uma sensação de perda fora do comum. Você já se sentiu assim? Agora, o gigante não é mais gigante. Nos encaramos, olhos nos olhos. O azul do céu no marrom mais marrom que quase parece preto de terra sofrida. Ele está triste, poxa vida! Entre tantas, por que eu? O que ele viu em mim? O que ele quer de mim? Não há palavras por alguns minutos. Eu e o gigante que não é mais gigante nos amamos em silêncio antes do fim. Foi como eu sempre imaginei que seria. As peles frias dos dois combinavam como sempre tivessem se conhecido. Ele sabia o que me fazia tremer. E eu tremia de um prazer que não sei descrever. Não havia palavras ali... Beijo o seu lábio ainda machucado mais uma vez. Aperto sua mão com força. Não quero que aquilo acabe. Olho para cima e não sinto o calor do sol. Estamos em outro mundo, outra vida. Há uma briga terrível no céu. Me agarro a ele que me protege do ódio que sinto acima de nós. Por que eles odeiam o Gigante? Me perco naqueles olhos azuis. Ele se perde dentro de mim. Nos encontramos... Nos perdemos...

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“Juju, você tem que escolher...!” “Eu sei...” Um silêncio diferente agora nos consome. Ele não diz nada de novo. Se vira e vai embora. Estou parada. Não o sigo. Ele vai longe e para e olha para trás. O coração dele dói. Sinto sua dor. Eu escolhi ficar. Ele partiu. Antes, o Gigante - que agora é pequeno como um menino e tão perdido como uma alma penada – faz um sinal aos céus. O SOL some, nuvens se aproximam com força. A CHUVA CAI NO SERTÃO. Ela lava minha alma e leva meu homem para longe de mim. Novamente... Meu paizinho me observa com uma tristeza que só não é maior que a do gigante... “Me perdoe, minha filha, por fazê-la ficar...” “Você precisa de mim, paizinho... Não poderia deixá-lo” Nosso abraço é o ponto final de um dia único. Porque todos os dias foram iguais, cinzas, desde então. Não houve uma noite em meus 90 anos de vida que não pensasse naquele homem, naquele gigante, naquele menino. Nunca me perguntei como teria sido se tivesse o seguido. Meu pai morreu no dia seguinte à partida do Gigante. Gosto de pensar que a chuva que bate na minha janela é um recado do meu homem. Ou um beijo de boa noite. Ou algo como um eu te amo, bem baixinho. Não sei...

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A CASA DO FINAL DA RUA

Um tictictic suave, incansável, me desperta três horas antes do sol retomar sua rotina. A escuridão seria total não fosse a única lâmpada do poste da rua que ilumina as paredes do quarto. Quando acordo assim, num raio, rápido, sem aviso de preguiça, perco o ar, permaneço afogado por segundos eternos, demoro a perceber a realidade quando sou arrancado assim do outro mundo. Ouço a repetitiva sinfonia. Me sento no canto da cama. Tictictic parece estar mais alto. Algo está errado. Sei disso. Fôlego de volta, coração acelerado. A última casa da rua. A última a ser visitada. Tictictic aumenta, se movimenta, anda, não está mais acima de mim, separado por um telhado. Agora, está ali na cozinha, passa correndo pela sala, volta ao teto de meu quarto. Ele brinca, eles brincam. Aterrorizam os mais fracos. Não sou forte. Parecem saber que me acordaram. Intuem que estou me levantando da cama e que me encaminho até a sala. Ali, não há luz alguma de poste algum. Só escuridão. Afasto a cortina que dá ao corredor. Escuridão. E o tictictic se excita, toma nova forma, parece uma risada, uma gargalhada. Algo acontecerá, com certeza. Olho pela janela, não há iluminação. Tudo escuro, como aqui dentro de mim, como sempre foi. Mesmo assim, suas sombras caminham por esse breu. Céu sem estrelas, sem lua, sem nada, mas as sombras vagueiam. São imensas. São imensos. Tictictic. Meu coração volta ao ritmo. Não há de fato o que fazer. Telefone sem linha. Luz cortada, sem internet. Não há polícia, ninguém para ajudar. Gritar socorro para quem? Por isso, o medo de antes se esvai. O que ia acontecer de qualquer jeito, acontecerá em segundos, se der sorte, minutos, é isso. Fugir como? Cedo ou tarde, eles viriam. Não seria diferente comigo. Estão acima de mim. Mexem em algo, batem em algo, agora sim é uma risada. Duas. Três. Eles se divertem. Não entendo o que dizem. Pulam para o chão. Três estão no corredor. Um passa pela janela iluminada do quarto. Um ainda permanece no telhado. Ele faz força, arrebenta uma telha, faz um buraco, aumenta o buraco. Eles cercam a casa. Forçam a porta da cozinha. Riem. Riem. Estou no canto do banheiro, no chão, sentado. Espero, apenas espero. Eles estão por todo lugar. Me encolho no canto do banheiro. Nada os deterá. Tictictic hahahahahaha tictictic hahahahaha. Um estrondo. A porta da cozinha arrebentada.

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Eles est達o na casa. O buraco do teto do quarto. Eles est達o na casa. Eles entraram. Est達o na casa. Sentem meu cheiro. Passos acelerados rumo ao banheiro. Satisfeitos. Hora do jantar.

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CARRASCO DE TRISTE FIGURA

Percebo o azul do céu de outra forma. Mais azul, sabe. Vivo. Percebo ainda que o vento suave traz algo novo. Me surpreendo fechando os olhos. Sou levado... Monitores de todos os tipos em todos os cantos. Nenhuma imagem. Todos off, como me sinto agora. Ajoelhado. Nu. Mãos para trás. Indefeso. Meu reflexo nos televisores de todas as eras varia com o ano. Vejo meus músculos retesados. Estou forte, sinto isso. O pescoço cansa, não agüenta o peso de uma eternidade. A cabeça cai para frente. Indefeso. Como nunca. Exposto para tudo que vier de trás daquela porta que eu não havia notado. Estática. Zuzuzuzuzuzuzu. Um após o outro. Ligados. Zuzuzuzuzuzu. Volume. Eu ali tento não ouvir. Mãos amarradas que não podem tapar meus ouvidos. Zuzuzuzuzuzuzu. Todos os cantos. Percebo o azul do céu de outra forma. Mais azul, sabe. Vivo. Em ordem, num padrão lógico, perfeito, penso em Einstein, penso em Matemática. Fila. Uma após a outra. Imagens vão surgindo e vozes de outros tempos. Cenas variadas de tudo em todos os cantos. Todos on. Nada que eu havia sentido e nem sentirei. Ajoelhado. Olho. Observo. Vejo. Ouço. O som aumenta. As imagens slow in motion. Vagarosas. Lentas. Mas as vozes “vozeiam” sem parar. Aceleradas. Um pesadelo acordado. Todas se apagam. Uma tela apenas ligada. Uma música imperceptível acalenta o sono de uma menina. Ela está longe. Poderosa. Segura. Agora não dorme mais. Está ao lado dele. Tempos. Anos. Vidas se passaram. Eles conversam. Nada de importante. O menino surge de longe. Máquina a tiracolo. Igual ao pai. O menino é o pai. Não sei. Meus olhos não veem como os olhos dos outros. O menino encara a menina como conhecidos de sempre. Pause. O mundo para. E aquela porta se abre com a minha punição. Ajoelhado. Nu. Mãos para trás. Indefeso. Meu reflexo nos televisores de todas as eras varia com o ano. Vejo meus músculos retesados. Estou cansado, sinto isso. O carrasco é o estereótipo de todo carrasco. Porém, não há um capuz. Há uma cara sem cara. Olhos. Boca. Nariz. Queixo. Não há nada. Minha imagem se reflete no vazio do rosto do carrasco. Indefesos. Tenho pena dele. O fardo que carrega é tão grande para um homem só. Tanto peso nas cosas. Ele vem até mim. Traz todas as ferramentas de seu trabalho. Ele está cansado. Vejo isso em seu rosto sem rosto. Da imagem pausada, uma voz suave. Um anjo? Algo para dizer? Não! Tem certeza? Não, não tenho! Alguma mensagem final? Para quem? Como 30


posso saber? É sua vida que acabará em alguns minutos. Às vezes me esqueço do fim. Não, não tenho nada a dizer para ninguém. Ok. Tá. Que comecem os trabalhos. Tudo se apaga. O carrasco do fardo tão pesado que entristece a qualquer um que possua um coração, mesmo que metade dele, ou quase nada, levanta algo. Um chicote. Não sei. Com ele estalado em minhas costas percebo toda a dor. Uma. Duas. Dez vezes. O sangue inunda a escuridão. Sinto os cheiros. O carrasco chora. Do rosto sem rosto não cai uma só lágrima. Sei que ele chora, no entanto. Ajoelhado. A dor é tanta, mas ainda há muito trabalho. Ele puxa algo pontiagudo. Se fosse um samurai à minha frente teria sido uma espada. Ele é só um carrasco que sofre com todos os pecados do mundo. Não segura uma espada. Seu instrumento é rude, tosco. Antigo de tão antigo que o sangue pregado nele conta-se de milênios. A ferramenta entra em meu peito sem licenças pedidas. Entra. Fica. Perfura. Machuca. E sai. A cena é a mesma nos próximos quadros. Lugares diferentes, porém. Sou empalado. Sou estuprado. Sou arrebentado por aquele pedaço de morte tão bem manejado pelo carrasco triste com os caminhos do mundo. Uma pequena faca agora. Meu corpo é algo vermelho preto. Respiro porque ainda respiro. Não há luz. O homem, meu salvador, manipula seu brinquedo. São íntimos aqueles dois. O carrasco conversa com ela. Ela conversa com ele. Vai de uma mão para outra. Em direção ao meu sexo. Eu, de costas no chão. Nu. Indefeso. Quase morto. Não fui ainda totalmente punido. Há mais. O carrasco segura meu pau com medo de machucar. Parece uma mãe. Eu penso. O corte é suave. Rápido. Tenho sangue ainda. Tanto sangue. Ele se esvai por todos os poros. Estou limpo agora. Dor? Ah, não sei. Uma imagem. Uma voz. Uma só tela ligada. Um aparelho. Um monitor. A menina loira parada em frente ao resto de humanidade que me tornei. Vejoa com meus olhos manchados de sangue. Ela chora. Não chora, não, bonitinha. Não chora. Não há muito tempo. Olho a menina. Sorrio. Acho. Tento. Chora não. Eu sabia o que estava fazendo. Ela se levanta. Vem em minha direção. Luz perfeita. Só nela. E por que seria diferente? Vestido branco se suja com o vermelho que se esvai de mim. Shuuu. Eu cuido de você. No colo dela. Hummm. Dói? Fecho os olhos. Ela não chora mais. Percebo o amor de outra forma. Mais amor, sabe. Vivo. Ela não chora mais.

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EU SÓ TENHO OLHOS PARA VOCÊ

Play... “My love must be a kind of blind love I can't see anyone but you Sha bop sha bop...” Não irei ao encontro da guilhotina de Robespierre. Não. A sensação, no entanto, não deve ser muito diferente. A gravata me aperta, quase separa a cabeça do resto do corpo. Será mesmo? Estou tão nervoso, ansioso, que de verdade, tudo incomoda poucos segundos antes da magia. Mãos suam. Coração acelera. Não sou mais um menino, mas lembro do gosto... medo, um medo bom, sabe. Gela a barriga. Barba feita direitinho. Cabelos penteados, finalmente. Ou quase. Nem tudo é perfeito. Rostos conhecidos. Felizes. Roupas alinhadas. Casais. Casais. Casais. Cadê ela? Procuro. Não quero encontrar. Ah, sei lá. E se estiver acompanhada? Putz. Vai ser foda. Procuro. Encontro. “Are the stars out tonight I don't know if it's cloudy or bright I only have eyes for you dear” Num instante, tudo se apagou e aquela luz perfeita de hollywood cai sobre ela. Uau. Uau de novo porque sim foi uauuuuuuu. Discreta, elegante, linda. Cabelos num penteado diferente deixavam o pescoço livre para os meus piores pensamentos. Ai... “The moon may be high” Ela está conversando com meninas e isso é bom. Urubus bem longe. Não sei se ela me viu. Poxa e agora? Cruzo o salão remoendo todos os clichês que já li outras vezes sobre o ato de se cruzar o salão rumo à uma garota. Cara, que foda. Então... a música... “My love must be a kind of blind love 32


I can't see anyone but you Sha bop sha bop...”

Então... ela levanta os olhos que caem diretos nos meus... é a senha... Não preciso dizer nada. Hum...tá, eu digo um oi totalmente idiota. Prontamente, respondido com um sorriso que me tira qualquer chance de ter um mínimo de sanidade. Mão gelada de um se encontra com a mão gelada do outro. O baile é só nosso... O cara na vitrola canta gostoso e nos deixamos cair... Parece que conheço esse corpo há séculos... Mãos em sua cintura. A puxo pra mim. Ela é só minha. Viva o egoísmo!! Minha. Ela envolve meu pescoço no seu perfume... Sentiu? Nossa, eu ainda sinto... Por milésimos, nos encaramos, bocas tão próximas, tão longe (ahhh, clichês, clichês, clichês – ok, não vou rimar amor com dor nesse texto). Quente e frio tudo junto. Rápido e devagar. Tudo se mistura. Eu e ela. Ela encosta a cabeça no meu peito... e... Um passo pra cá... Outro pra lá... Gira devagarzinho, gostoso, quase parado... Outro passo pra lá... Pra cá.... E nada existe mais... Dançando. De leve. Sem pressa. No ritmo. Hummm.. O cara diz “eu só tenho olhos pra você...” E sussurro no ouvido, como uma brisa, te amo... “You are here and so am I Maybe millions of people go by 33


But they all dissappear from view And I only have eyes for you� e sinto seu sorriso preencher todos os vazios da minha vida...

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O EMBATE

Havia quatro vacas no meio do caminho. Não é uma metáfora. Elas estavam ali, na minha frente, gordas, imensas, monstruosas. Uma mordiscava o rabo da outra formando daí um círculo quase perfeito. Impedia qualquer passagem de qualquer coisa. Eu escolhera o caminho de terra para seguir. Poderia ter ido de barco, mas o dia havia sido produtivo. Abusei do pouco de azul que havia no céu e me dava por satisfeito. A tarde já virava noite e andar, mesmo que tivesse andado o dia inteiro, mas agora era diferente, me faria bem. Arejava as ideias. Eu e meu cão imaginário num caminho de terra. A casa ficava no alto do menor morro daquela ilha. Uns dois quilômetros de distância do cemitério, acho. O vento trazido do mar era forte, não incomodava, porém. Eu seguia com a mochila nas costas e com a sensação de que fizera algo bom. Era o que sentia. Então, as vacas aparecem. Paro e as observo. Como eu vou passar por elas? Acho que nunca tinha visto uma vaca de tão perto. “Elas mordem?”, pergunta o cachorro. Finjo que não ouço afinal cachorros imaginários não falam. Oras, são imaginários. Como podem falar? Olho ao redor e não vejo ninguém. O sol está de partida. As vacas ali no seu círculo quase perfeito. Ohhhh, ohhhh, passa, passa... muuuu... Bom, eu tentei acabar com a harmonia do momento. Elas nem perceberam a minha presença. “Late cachorro!” O bichinho até tenta me ajudar, mas ele não existe, não pode fazer muita coisa, enquanto as vacas seguem seu balé. Dez minutos. Pego uma pedra. Atiro no chão para assustar as bichinhas. Nem aí pra mim. Porra, difícil. Penso em escalar o paredão ao lado das vacas. Na outra ponta, só havia um precipício. Poucas alternativas, então. Brinco de homem-aranha por segundos e levo um capote. Caio de bunda e as vacas parecem se divertir. Agora, uma do lado da outra me encaram com satisfação. “Mas que merda esse cara tá fazendo?”, uma das mimosas indaga. O cachorro lambe minha mão enquanto me levanto. Elas conversam entre si e tenho certeza que tiram onda com a minha cara. “Muuuuuu....”, falo na língua delas que respondem. “Otário!” Tá, ok. Tenho dificuldade de me comunicar. Além disso, nunca imaginara o ridículo de uma situação tão insólita. As vacas, uma ao lado da outra, parecem os espartanos, me encaram prontas para o combate. Percebo o ódio em seus olhares. Estou parado, ainda. Meu companheiro canino já se 35


foi. Coragem nunca foi uma qualidade do meu auau. Penso em correr o caminho que andara até ali. Não corro. Sou um homem ou um rato? Elas adiantam o passo. Eu recuo. Um pouco. Dois poucos. Elas avançam. Agora parecem touros enfurecidos. Roçam (roçam está certo?) a pata traseira na terra. Aiaiaiai. Vacas assassinas. Então... Uma vaca olha para a outra. Sim, uma pisca o olho de vaca como que dizendo “é uma besta mesmo!” E o quarteto segue seu caminho, deixando, enfim, a estrada livre para eu seguir o meu.

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SÓ MARiA Ahhh, Maria, pobre Maria. O que te espera nesse futuro que logo chega é tão triste. Tanto fardo para carregar sozinha. Todas as dores e tormentos de um só mundo. Doce Maria, dói se dor eu sentisse imaginar sua solidão, seu medo, suas perdas. E serão tantas perdas, tanta solidão, tanto medo. Acorda, Maria, acorda. O tempo é esse. Estás só... como foi ontem, como será amanhã! Maria abriu os olhos, a baba da noite impregnada no canto esquerdo da boca, os cabelos curtos quase arrumados apesar do sono agitado. Ela se sentou, mas ainda sentia que os restos dos sonhos ainda a perseguiam. A voz ressoava na sua cabeça. Até que o despertador tocou e tudo se foi. Maria tomou seu banho de 15 minutos, passou a mão pelas curtas madeixas (que prático, ela sempre pensava), escovou seus dentes. Camiseta básica, calça básica, como todo dia. Corre para a rua porque, pra variar, estava atrasada, sempre, para qualquer coisa. Quando ela saberá? Hoje, talvez! Nada para impedir isso agora? Não. Ele decidiu. Ele quer. Ele deseja. Assim será! Poxa, poxa, mas Maria? Justamente Maria? É o que tem que ser feito. Por que Ele tem tanta certeza que agora será diferente? Ele sabe. Valerá a pena? Eu não sei. Você sabe o que ela terá que enfrentar? Tudo? Claro, eu estava lá da primeira vez. Não é certo isso. Nunca foi. Não será. Ela viu essa cena em um filme. O rapaz encarava um espelho no banheiro. A câmera se aproximava de seus olhos, tanto, tanto, tanto e num instante o moço via seu futuro. Toda vez que se via num espelho, cara a cara, Maria lembrava disso. Hoje, porque hoje tudo mudará, a menina foi além. Arriscou. Tornou realidade a ficção. Mergulhou em seus olhos castanhos tão castanhos que parecem a noite sem lua de um poema triste. Maria foi... recuou... percebeu que era real e foi. Pulou. Braços abertos. Um leve sorriso de conquista, quem sabe. Em seus olhos redondos, gigantes, lindos, tão tristes de outras vidas, Maria viu e soube que tudo aconteceria novamente. E seria ela a escolhida, again. Aí seu peito doeu como nunca e faltou ar. Tentou chegar à superfície, não deu. Não tenha medo, Maria. Ele está contente com você. Mentiu a sombra. Na verdade, queria dizer o gigante que a moça precisava ter medo, estar precavida, sair correndo para qualquer lugar. Mas o menino mentiu como fizera da outra vez. Cumpriu seu dever. No entanto, agora, poucos minutos antes de trazer a boa nova à menina escolhida, o homem chorou. 37


Não precisa ser ela. Maria já passou por isso. Por que seria diferente dessa vez? Eles não aprenderam nada. Deixe Maria em paz. Por favor. Por favor. Por favor. Ninguém o ouvia. O moço sentou-se ao lado de Maria, que dormia um sono agitado. Tocou seus cabelos curtos. Sorriu pra ela. Sorriu triste porque assim se sentia, mesmo sem entender direito o que se passava dentro dele. Sussurrou algo nos ouvidos de Maria. Segundos. Lá fora, um raio espoca com força. Tudo treme. Maria treme. Não é de frio. Ela acorda. Percebe o silêncio de seu quarto e o vazio que tudo isso faz gritar de dentro dela. Maria agora sabe. Toca sua barriga. A protege com suas mãos pequenas. Sabe que ali dentro vai a sua vida, seu futuro, todas as perdas que virão do simples ato de dizer sim. Maria, na verdade, não lembrava de ter dito sim, nem se foi assim. Ela prefere acreditar que tenha decidido e não apenas, bem, Maria não quer pensar nas possibilidades. Se levanta da cama, ainda a escuridão lá fora. No reflexo da janela, vê seus olhos gigantes. Fecha-os. Não há mais nada. Está feito. Pobre Maria. É a última coisa que o filho diz antes do fim. Ele toca seu rosto, a consola como pode, num átimo de tempo, o filho quer dizer tanto, não diz, pensa, a dor é tão grande, forte, impede um sorriso mentiroso, dói, é o que ele pensa. Seus olhos fecharão em um momento, mas antes os olhões da mãe que fica é o que vê. O filho parte, Maria fica, segurando-o no colo como um bebê fosse. Um longo suspiro do menino. Maria nada pensa, nada faz. Protege o homem que se foi e partir sempre foi o destino desse homem. Maria sofre apenas isso porque somente sofrer coube a ela.

PS: Meu jeito de dizer obrigado a um contador de histórias que morreu e me faz uma falta danada...

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O BENDITO DO CÂNCER O cara brincava com meu mamilo esquerdo quando se deu conta de algo estranho. Um caroço, foi o que ele disse. Não lembro seu nome. Isso pouco importa também. O telefone tocou naquele instante, botei o mané para correr e nem me preocupei. O que os homens entendem de caroços no seio? No dia seguinte, dia aliás que não deveria ter deixado a cama, quando cheguei do trabalho, me sentia mais do que cansada. Não tinha força alguma. Estava sem fome, joguei a bolsa no sofá, nenhuma mensagem na secretária, fui para o chuveiro. Lembrei da noite anterior e do comentário do rapaz. Em frente ao espelho, toquei meu seio esquerdo. De fato, havia algo ali que não deveria existir e que eu nunca tinha dado conta. Seu tamanho me assustou. Isso foi há dez anos. Eu tinha 22, estava perdida, com raiva do mundo, extremamente sozinha. Sem perspectiva alguma. Na gavetinha da mesa ao lado da minha cama, deixava para o dia da grande coragem comprimidos para nunca mais acordar. Estava verdadeiramente cansada. Bebia muito, dava muito, vivia a 300 por hora. Nem sei direito o por quê daquilo. Era inquieta mesmo. Triste não, só estava cansada. Quando encontrei o caroço, não liguei para minha mãe. Não liguei para ninguém. Fui ao médico sem marcar consulta. Cheguei lá e esperei. Era evidente que eu tinha câncer. Não me foi surpresa quando o gatinho do doutor disse, escolhendo as boas palavras. “Quimio, operação, enfim, tratamentos que já deveríamos ter iniciado meses atrás”, falou o bonitinho. Meu coração não acelerou, não me emocionei, não tive medo. O que me surpreendeu é que naquele instante eu tive uma vontade louca de viver. Sabe, partir pra porrada contra essa doença maldita. Quis algo como há tempos não queria. Ia vencer o meu câncer, falei e sorri um sorriso honesto. Marcamos a operação. Antes, iniciei a quimioterapia. Meu entusiasmo nesse embate contra algo maior do que eu se foi logo depois da primeira sessão. Peguei um táxi para casa e lá mesmo vomitei minha alma e algo mais. E uma dor por dentro me arrancava do chão, nem sei descrever direito. Só sei que me sentia fatiada, engolida, os remédios me detonavam. Diarreia avassaladora. Se já não comia antes, agora então nada. Anemia feroz. E olha que tinha sido apenas a primeira. Me internei sozinha. Minha cirurgia seria das radicais. Não havia como salvar minha mama. O médico gatinho fez o que tinha que fazer. Acordei horas depois no quarto. A TV estava ligada no Chaves. Consegui até rir.

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A quimioterapia continuou. O inferno continuou e acho que até piorou. Sei lá. Ficava mal por quatro, cinco dias. Me sentia mais detonada do que nunca. Sem peito e agora sem cabelos também. Eu sabia que isso ia acontecer, mas rolou um certo choque quando saí do banho e na toalha tufos e mais tufos. Chorei ali de verdade, sentida como nunca. Naquela noite, liguei pra casa. Falei oi pra minha mãe. Não contei sobre a doença, não falei sobre nada. Só a ouvia falar de suas coisas e como a vida estava difícil. Pois é, mãe, viver é perigoso. Tchau. Você vem para o aniversário do seu pai, né? Vou. Mentira. Como é do ser humano se adaptar, comigo não foi diferente. Dois anos de tratamento entre idas e vindas. Me acostumei a toda aquela desgraça. Usei perucas, usei nada. Sorria quando queria. Chorava quando dava. Ia vivendo, assim, como se podia. Até que os médicos (eram três nesse dia e nenhum bonito) me garantiram que eu estava curada. Lembro que me senti vazia. Coisa estranha. Aquela doença por tanto tempo esteve ali comigo, contando minhas horas, me amando, me odiando, sendo parte de mim, que quando disseram que ela tinha partido, só senti o vazio. Me levantei. Andei alguns metros, parei no boteco e bebi uma garrafa de vinho. Meu primeiro porre em meses. Minha mãe morreu três anos depois. Meu pai meses depois dela. Fui ao enterro dela. Dele não. Acho que ninguém me reconheceu. Parti como cheguei, sem dizer palavra alguma. Mudei de emprego três vezes. Consegui um trabalho numa revista bacana há dois anos. Voltei a fotografar. Até me disseram que aqueles olhos tristes do primeiro dia tinham sumido. De verdade, eu era mais mulher ali. Achava que a tempestade cruel havia passado. Reconstruí meu seio. Fiquei gostosa. Os homens voltaram a me desejar. Não fui pra cama com mais ninguém desde a doença, mas estava finalmente em paz. O vazio do câncer tinha sido preenchido por tantas coisinhas bobas, livros, cinema, minhas fotos, um bebê lindo da vizinha que eu sempre cuidava quando ela saía. Não pensava no amanhã, mas navegava em águas tranquilas, desconhecidas águas tranquilas. Viajei à África para um trabalho. Fiquei um mês por lá num campo de refugiados. Quando voltei havia uma mensagem na secretária. “Oi Sofia, sou eu. Então, você ta no outro lado do mundo, e me deixou aqui me sentindo tão sozinho. Preciso falar contigo. Quero falar muito falar com você. Liga assim que chegar. Saudade demais. Beijo”. Eu 40


parecia uma adolescente boba. Pulei, gritei, estava ali vivendo FELICIDADE. Tinha 32 anos. O pior ficou para trás. No dia seguinte, acordei tarde. Estava de folga, não ia para a revista. Quando me levantei da cama, uma tontura gigante me atirou ao chão. Tudo girava. Senti um gosto ruim na garganta e pelo meu nariz escorria sangue em alta velocidade. Me engasgava com ele. Deu tempo apenas de ligar pra emergência e pedir socorro. Apaguei. Mas mesmo apagada, sentia um cansaço imenso. Algo tão forte que desejei não seguir adiante. Apaguei. O gosto de sangue ainda estava ali quando acordei no hospital. Eu até sabia para onde me encaminhava novamente. Não chorei e esperei o inferno surgir na minha frente. Exames, exames, exames. Nenhum médico bonito. Flores do pessoal da revista. Flávio do lado da cama, beijando minha mão. “Estou com você”, ele disse e achei tão sincero. “Quero ver isso depois que vomitar em você três dias seguidos”, só pensei. Estava cansada demais, distante. O doutor careca, com cara de bobão, me visitou no dia 20 de janeiro. Trazia os resultados. Eu e ele apenas no quarto. Havia uma cópia barata de um quadro famoso de não sei quem na parede. Eram cores bonitas... “Sofia, ...” Olhei para o quadro colorido, para a cara de bobão do médico, para a janela. Olhei para dentro de mim. Sorri assim um sorriso sincero. Sorri, apenas...

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A MENINA DA JANELA Dia cheio no trabalho. Bolsa cuspindo papéis de tão cheia, mal fechava. Camisa amarrotada de quem não parou um segundo no escritório. Desci no ponto de ônibus de sempre. Segui o caminho de sempre. Ladeira abaixo. Não lembro quando aconteceu, talvez há cinco, sete anos. Por aí. Tenho bem guardada na cabeça, no entanto, a lembrança dos minutos que antecederam a tudo aquilo. Ao começo daquilo tudo. Desci do ônibus. Caminhei pela rua, ao lado da calçada, como sempre fazia. Dor no corpo. Na cabeça, mil coisas, mil pensamentos, mil situações, tudo voando ao mesmo. Eu parecia livre, a mil por hora. Uma clareza indescritível. Até que a aquela casa amarela de dois andares me chamou a atenção pela primeira vez. Há quanto tempo eu passava por aquela rua? Seis meses? Um ano? Nossa, tanto? Por que diacho nunca reparei naquela casa? Era bonita, impossível não tê-la notado antes. Sou lerdo, demoro para perceber as coisas, sacar intenções dos outros. Porra, mas aquela casa era a mais linda de todo bairro. Como eu nunca tinha notado ela? Questionamentos que me vieram bem depois, é verdade. Isso porque quando me aproximava da casa amarela, notei algo se mexendo na janela daquilo que eu imaginava ser uma sala. Havia três. A coisa, que logo percebi ser uma moça, estava na última no sentido daquele que vem do ponto de ônibus. A casa à minha frente e a moça na janela. Segui meu passo, não resisti e olhei de lado para a janela. A moça me olhava e sorria. Não sou um homem bonito, muito menos atraente. Se não me cuidar, a barriga não tarda a crescer. Os cabelos, mesmo na época eu tendo apenas 27, já ficavam brancos. Usava óculos, como agora, e enfim. Não seria a primeira, nem a segunda, nem a terceira, nem a quarta escolha de uma menina como aquela. Tenho espelho em casa. E não sou cego. Aquela moça não sorriu pra mim. Foi o que pensei. Tirei a loira da cabeça. Retomei minha rotina. Dia cheio no trabalho. Bolsa cuspindo papéis de tão cheia, mal fechava. Camisa amarrotada de quem não parou um segundo no escritório. Desci no ponto de ônibus de sempre. Segui o caminho de sempre. Ladeira abaixo. Dessa vez, no entanto, meu peito doía. Minhas mãos suavam. Na cabeça, nada, nadinha. À minha frente, apenas a casa e procuro a janela. Me aproximo. Vejo a menina melhor dessa vez. Diminuo o passo. Ela me olha novamente. Parece saber de tudo de mim. Não demonstra a mesma curiosidade que me consome. Vejo bem agora. Loira. Olhos grandes. Pretos? Marrons de tão marrons que 42


são pretos? São escuros. Há algo na boca, talvez um batom, mas suave. Tudo se encaixa naquele rostinho. Vejo bem. E fica perfeito quando, de frente pra mim, na terceira janela de quem desce a ladeira, nele se desenha um novo sorriso. Penso em acenar. Me envergonho. Só não saio correndo porque não era mais uma criança de 10 anos. Dou as costas à janela, à casa, à menina. Naquela noite fiquei muito, mas muito doente. Febre altíssima. Quase 40. Despenquei no chão do banheiro. Apaguei. Fui salvo pelo porteiro que estranhou o chuveiro ligado por tanto tempo. Acordei na minha cama. Exausto. Doente. Apaixonado. Morrendo? Médico nenhum soube dizer o que aconteceu comigo. Nem insisti muito também. Fiquei dez dias em casa, sem trabalhar, sem sair da cama, olhando pro teto descascado e mudando o canal da tv. Um só pensamento. Saro. Me curo. Melhoro. Sei lá. Rotina. Dia cheio no trabalho. Bolsa cuspindo papéis de tão cheia, mal fechava. Camisa amarrotada de quem não parou um segundo no escritório. Desci no ponto de ônibus de sempre. Segui o caminho de sempre. Ladeira abaixo. Passos lentos, mais do que da última vez. Agora eu sabia o que queria ver e encontrar. Coração aceleradíssimo. Excitação nas alturas. A casa amarela. Desta vez, a menina, mas agora vejo que é uma mulher, me espera na primeira janela de quem desce a ladeira, depois do ponto de ônibus. Ela de fato me espera. Apreensiva de longe. Quando me aproximo mais da janela, vejo que a ruga de preocupação da testa e o lábio inferior mordido dão espaço a um sorrisão que, ahhhh, não tenho palavras pra isso não. Então, eu acho que isso se chama magia, então, eu do lado de fora, ela dentro da casa – percebo que a moça mexe a perna direita como se estivesse nervosa, sabe – então, nós dois nos olhamos, nos perdemos, uau life is perfect. Parecia coisa que sempre tínhamos feito. Notei que os olhos eram castanhos bem escuros, que ela usava brincos de coração – bem discretos -, que as orelhas eram pra frente, mas combinavam com tudo dela. Notei que sorria como nunca e que nada existia no mundo além dela. Ela sorria, como se tivesse terminado a jornada, uma longa viagem. Confesso que senti isso. A longa caminhada havia acabado. O tempo mudou, a chuva caiu forte, ela se afastou da janela, eu me afastei da casa. Mas eu sabia direitinho onde estava naquele momento. Dentro do coração dela. Aiai. Sorriso gostoso que eu sentia dar. Outra noite de febre. Recaída talvez. Não caí no banheiro. Me escondi na cama, televisão desligada. Eu e meu travesseiro, mas eu não estava lá. 43


Outro lugar. Um aperto imenso no peito me desperta. São 4h58 da manhã. Ainda tenho febre. A chuva não cai mais. Não posso esperar outra vida. Banho rápido. Camiseta branca. Calça jeans. Cabelo desalinhado, puta que pariu, esqueci o cabelo. Corro para a casa amarela. Corro desesperado. Corro porque sei que tudo mudaria a partir do momento que eu apertasse aquela campainha. Não importa nada. Pais brigarão? Chamarão a polícia? Não importa nada. Preciso ver aquela menina, ouvir a voz, saber dela, deitar naquele colo e lá ficar pra sempre. Preciso disso tudo. Corro tanto, não percebo a febre, corro tanto, chego à casa amarela. A campainha. São 5h17. Corro tanto. A campainha. Respiro fundo. Aperto a campainha. Uma vez. Duas vezes. A luz se acende. Nenhuma cortina das três janelas da sala se abre. Ouço passos. È um homem. Olho mágico. A porta se abre. “olha, moço, me desculpe, mas preciso muito falar com uma menina que mora nessa casa, preciso muito, minha vida, tudo depende disso, por favor me chame ela” “moça?” “sim, sim, a loirinha, olha, é essa, do porta-retrato, ela mesma, por favor (eu lembro que chorava doído, perdia a noção, pedia pela moça, chorava tanto). È ela, moço, me chama ela?” (caí no chão, ardia de febre) “calma, rapaz, acho que está havendo um engano. Calma! Você não pode ter visto aquela moça da foto!” Sabe quando o vazio te enche todo o peito? “aquela moça da foto, a Sophia, minha filha, morreu há seis anos...” Sabe quando o vazio te enche todo o peito?

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POUCO MAIS DE QUATRO MINUTOS

O painel apita e manda colocar os cintos. Do teto, caem máscaras de oxigênio. O pânico. “Começou...” “É” “Agora você entendeu todos aqueles sonhos? Tudo aquilo?” “Sim” “Você é um teimoso. Puta que pariu, não me ouve. Não era esse o seu destino. Você não tinha que estar aqui!” “Uai, estou indo para Portugal” “Esse avião ia para Madrid...” “Madrid não é em Portugal?” “Bobo. Como você consegue fazer piada numa hora dessas? É o fim, entendeu? Acabou” “Olha, devo confessar que antes de colocar os pés aqui tomei uma dose de qualquer coisa que ardeu minha garganta. Aí fiquei bem” “Não era para você estar aqui, menino” “Eu disse que ia te proteger até o fim. Bom, se for o fim agora, estou aqui para isso. Mas fala a verdade: você sempre soube que eu entraria nesse avião né? E não me engana, eu vi seu sorriso assim que deu de cara comigo. Tô mentindo?” “Adorei, amei ver você entrar por aquela porta, atrasado como sempre. Aliás, como você consegue se atrasar tanto assim? Bom, estar contigo agora era tudo que eu poderia desejar nesses pouco mais de quatro minutos que temos...” “Não temos chances mesmo? Sei lá. O avião não pode cair numa ilha e sobrevivermos como naquele seriado que a gente gosta? O silêncio dela “Você está com medo?” “ Estou um pouco puta com você aqui do meu lado, mas ao mesmo tempo feliz demais. Você me ama mesmo, né menino? Medo da morte eu não tenho. Penso na minha mãe apenas. Ela vai sofrer tanto, tanto. Isso eu não queria. E você ta com medo?” “Não. Na verdade, estou com fome, mas nem adianta chamar a comissária, né?” “Foi bom amar você, viu?”

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“Nossa história foi bacana e tem um final inusitado e até certo ponto chique não? Pena que vai com a gente, um monte de pessoas...tantas famílias ficarão tristes...” “É verdade... não havia pensado nisso....” “Bonitinha, falando da sua mãe...eu e ela armamos tudo isso. Ela me disse quando você embarcaria e até emprestou uma grana para a passagem... Ela sabe que você vai ficar bem” “Eu sei...” O tempo evapora. Tanto ainda para dizer. Ele desaperta o cinto de segurança. Se vira de lado na poltrona e encontra o perfil dela. Ela faz o mesmo e encontra os olhos castanhos dele. “Não demora para aparecer da próxima vez, tá? Conseguiu ouvir a música?... Somewhere over the rainbow... essa versão é bacana” Ela fecha os olhos. Ele decora os traços daquele rosto. A toca O coração dela acelera. O dele dispara. As mãos, frias. A beija nos lábios pela primeira vez... Pela última vez... Um estrondo. Uma explosão. O silêncio.

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ESPECIAL

Um fantasma me disse uma vez que o menino saberia sim do meu amor por ele. Pensei nessas palavras nos primeiros dias e também no último e um pouquinho mais depois do último. Meu filho nasceu com uma deficiência mental daquelas que têm nomes estranhos. Para todo mundo era um retardado, pra mim, meu moleque Leonardo. Simples assim. A mãe morreu no parto no mesmo instante que ouvi o chorinho do bebê. Uma estranha mistura de emoções, vida e morte, perfeita sincronia. Virei pai solteiro e toquei a vida. Eu e Léo, Léo e eu. Li tudo o que pude sobre seu dodói. Aprendi coisas, procurei médicos, vi programas de TV, participei de mesas redondas sobre o assunto. Não havia cura, claro, sabia disso desde o primeiro diagnóstico ainda no pré-natal. Não me importava de verdade com a doença. Queria saber cuidar dele. Larguei o jornalismo porque viajava demais, virei professor, poderia assim levá-lo comigo sempre. Éramos só nós dois e o mundo e acho que eu precisava dele ao meu lado, o tempo todo. Sempre que dava fugia para vêlo no berçário, pegava no colo, cheirinho de bebê, levava bronca da tia porque sempre o acordava. Éramos fortes ali. Léo crescia. Não conseguia falar, mas emitia uns sons diferentes para cada emoção que sentia. Pouco chorava. Era introspectivo desde sempre, mas o pai também era. Quando começou a andar, arrastava a perninha direita, isso, no entanto, não o impedia de correr e pular quando ouvia suas músicas preferidas. Tinha bom gosto o moleque. Reagia com entusiasmo ao som da voz de Kurt Cobain e do Renato Russo. Ficava feliz. Pulava, pulava, pulava, pulava, pulava. Caía sentado de bunda e sorria feliz com o olhar perdido para qualquer lugar. Aprendi com o tempo a me comunicar com ele. De certa forma, me adaptei às limitações dele. Ele crescia bonito, ficava doente com frequência, o médico já tinha avisado antes. E tocávamos a vida como dava. Dormia de boca aberta deitado de lado igual à mãe. Tinha pesadelos, acordava gritando, suado, chorando, eu o abraçava, pegava no colo, falava no ouvidinho que tudo ia ficar bem, sentia no meu peito o coração dele se acalmando, se acalmando, aí menino dormia, quietinho. Quando isso acontecia, eu deitava ao seu lado. E não dormia mais, pronto para espantar qualquer coisa ruim que chegasse perto dele. Ninguém ia fazer mal ao meu menino, nem um pesadelo perdido.

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Na escolinha, dificuldades motoras foram surgindo e o menino se limitava a rabiscar folhas em branco, amassar massinhas e fugir da tia. Era fácil encontrá-lo sentado no banco do pátio que dava de frente à sala em que eu dava aula. Ele ficava ali me vendo falar, trabalhar, ficava bonitinho, sentado como gente grande, com o cabelo loiro da mãe jogado na testa. Aí batia o sinal, eu o pegava no colo – como ta ficando pesado e eu ria sozinho – e levava pra tia, mais broncas. Era divertido. Uma vez, num shopping, ele ficou um tempão vendo dois pivetes colando figurinhas. Léo nem piscava. Eu poderia ir até a lua e o moleque estaria ali concentrado na brincadeira dos outros. Comprei o mesmo álbum e dez pacotinhos. Escondi dele. Quando chegamos em casa, dei banho, comida, vimos TV um pouco, coloquei na cama. Antes de apagar a luz, dei o álbum e as figurinhas. Não sei como tudo aquilo aconteceu, até hoje não entendo, mas o pirralho pulou na cama feliz como nunca, tentou abrir o pacotinho, rasgou um pouco, eu abri, ajudei com os adesivos, abrimos as páginas e ele colava do jeito que sabia e se orgulhava disso, sabe. Na carinha do meu filho naquela noite, eu vi apenas VIDA e isso pra mim bastava. Nunca mais teve pesadelos. O tempo seguia, e a areiazinha da ampulheta acabava. Leleco ficava cada vez mais fraquinho e nossas visitas aos médicos só aumentavam. Precisei tirá-lo da escola – choramos os dois tanto. Ele em seu quarto, eu no chuveiro. Era necessária uma internação. Estava fraquinho demais, sabe. Tirei uma licença da escola. Fomos nós dois de mala e cuia para o hospital. Seu aniversário de nove anos foi lá, cheio de enfermeiras, médicos. Foi até bacana. Léo se lambuzou de bolo e foi nessa noite que lembrei das palavras do fantasma, não sei por quê. A festinha improvisada acabou, ele ainda tinha pique para desenhar, foi um desenho rápido, e silenciou como sempre fazia. Beijei sua testa e apaguei a luz do quarto. Peguei o papel do desenho e o guardei no bolso sem dar muita atenção. Adormeci rápido no sofá. Sonhei um sonho assim: Sentado, as mãos cruzadas entre joelhos, a sua frente o mar e o menino chutando ondas. Cabelo do pai/menino escorrido na testa. Entorpecido com a vida e tudo o que ela é e não será. O menino tem medo do mar, mas só quando o pai não está por perto. O menino quer voar. Posso? Vai!

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E ele foi... perdido entre as ondas. Quando acordei, eu já sabia. Deitado de lado, boquinha aberta. Chamei a enfermeira. O peguei no colo. E não lembro muita coisa depois disso. No enterro, usava a mesma calça e senti o último desenho do menino ainda em meu bolso. Tinha um negócio amarelo lá em cima da folha. Mais embaixo, algo azul e bem no meio da página dois riscos verticais, tortinhos, um grande e outro pequeno. Entre eles uma linha que os unia. Eu e Léo, Léo e Eu. Assim, simples como sempre foi.

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O FIM DO MUNDO Fato consumado. Quando acordamos naquela manhã, sabíamos há tempos que seria a última manhã. Porque futuro não existiria depois desse dia. Essa realidade, cruel talvez, que pode causar dramas, lamentos, pesares, não surgira da noite para o dia. Avisados fomos, muitos correram feito barata para qualquer lugar, outros rezaram, rezaram, mas Deus – como sempre – não ouviu ninguém, alguns deram de ombros e poucos, quem sabe apenas eu, disseram “finalmente”. Não havia saídas, resoluções diplomáticas, milagres. O mundo tinha seus dias contados e não importa de verdade o por quê. Como o fim era certo, e assim sempre foi afinal o fim era a nossa única certeza desde o início, as pessoas, depois do choque inicial, levaram suas vidas como faziam todos os dias. Alguém de outro mundo que desembarcasse no planeta terra e não soubesse de seu canto dos cisnes, jamais imaginaria que o tempo corria e que não correria mais logo ali, daqui a pouco. Absorvermos a dor, aceitamos, fizemos o nosso melhor e por isso mesmo, acredito, nunca viver nesse espaço foi tão VIVER. O caos não houve. As classes sociais se dissolveram. Trabalhava-se pelo prazer. Fome não se passava. Frio idem. Solidão não se via. Um admirável mundo novo se fez diante do apocalipse iminente. E fomos felizes. Alguém (para celebrar? E por quê não?) vislumbrou nosso acabar com luzes, som, abraços, beijos, festa, cachaça, cannabis, pecados, mas não uma orgia de Calígula, desesperada e solitária... Ninguém deu nome para a despedida. Ninguém criou contratos, aceitou dinheiro ou colocou empecilhos. Não, na verdade, todos queriam estar presentes. Então, imensos telões foram montados nos maiores estádios do planeta. A celebração da vida começaria com o fim do dia no norte. Havia sol – mais vermelho do que de costume – no sul. Aqueles irlandeses do cantor de óculos escuro foram os primeiros. Onde tocavam ao vivo pouco importava. Todo mundo voltava seus olhos para eles. Aquela guitarra, ah, aquela guitarra, antes do fim do mundo. Nem todos, centenas quem sabe, foram às arenas. Para eles, templos, igrejas, mesquitas, mantinham suas portas abertas. Havia cinco crentes numa, outros 12 noutra, mais 3 naquela ali. Se Deus a todos abandonou, todos resolveram também abandonar Deus. Amém...

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Agora, o som triste de uma gaita de fole ecoava e sete bilhões de seres humanos suspiravam. Shouganai, dizia os japoneses. E mãos dadas se viam como nunca em nossa história. Uma moça bonita, de olhos castanhos, pequena, frágil até, pegou o microfone. Suavemente declamou os mais belos poemas e “no meio do caminho tinha uma pedra”. Com a madrugada que se aproximava do norte vinha o fim. Todos os corações dispararam, se fosse possível ouvi-los o barulho seria ensurdecedor, os dois que sobraram dos quatro de Liverpool subiram ao palco e o mundo bateu palmas uníssono, sufocando os corações tumtumtumtumtumtum. Paul disse Oi e cantou o que todos queríamos cantar. Mais sorrisos no mundo do que desespero. Não havia alma sozinha. Não havia boca fechada enquanto os dois dos quatro comemoravam, sim, comemoravam. E se os dias todos antes tivessem sido como o último? The last song, disse Paul. Meu filho apertou minha mão. Apertei sua mão. Todo mundo fez isso. Era a deixa, era a certeza de que amanhã não seria amanhã. Leo disse tudo bem, eu disse tudo bem. E the last song, uma suave ironia com um doce sorriso no canto, gracejou com simplicidade assim “and in the END, the love you take is equal to the love you make” No sul, o sol morria no mar para nunca mais...

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LELECO

Eles falavam uma língua que eu não entendia. Honestamente, mesmo que falassem meu idioma não os estaria ouvindo. O hospital é um hospital como qualquer outro hospital. Seu necrotério não é diferente. É como todos os outros... Não fosse a placa na entrada dizendo NECROTÉRIO, no entanto, aquela sala pareceria como qualquer outro lugar daquele hospital que se parece com qualquer outro hospital. Respirei fundo antes de abrir aquela porta. Estava seco por dentro. Já chorara o que precisava horas antes quando aquele médico velhinho, com cara de vovô, colocou sua mão direita em meu ombro e se esforçou num inglês trôpego e cheio de dor: “ your son...dead... sorry” e foi embora... Eu e ele sabíamos que não teríamos tempo. Desde o primeiro instante que nossos olhares, almas, corações e sonhos se cruzaram, no fundo, sabíamos que o fim chegaria antes. Mesmo assim, as palavras daquele velho homem entraram fundo qual navalha no pulso no meio do desespero. E o sangue jorra. E você chora... apenas... Encaro a realidade daquela placa dizendo NECROTÉRIO e a necessidade de abrir a porta e a dor de cuidar do moleque que mudou a minha vida... Não era isso que eu pensava quando pensava em cuidar dele Segurava uma pequena sacola com suas roupinhas... Uma camisa bonita, uma calça que ele adorava usar, seu trenzinho favorito. Meias, cueca, sapato... Tudo ali para eu cuidar do meu pirralho..antes dele ir embora de vez... Cruzo a porta. Não há ninguém naquela sala que se não fosse a placa na entrada não seria diferente de todas as outras daquele frio hospital. A porta se fecha atrás de mim e lá naquela mesa metálica está ele. Sua gargalhada era música, sabia? Deliciosa gargalhada. Exagerado que só o pai dele conseguia ser. Um lençol branco cobre o corpo. Várias gavetas estão à esquerda daquela sala. Outros corpos nos fazem companhia escondidos sob a escuridão daquela imensa geladeira. Juro que achei que ele ia se levantar daquela mesa e fazer BUUUUUUUUU, envolto naquele lençol branco. Ia rir alto, tão alto que faria os anjos rirem por causa de sua felicidade. Mas não levantou e eu caí pela primeira vez. Estou ao seu lado e afasto o pano que o separa de mim. O rostinho é o mesmo. Parece dormir e até sorrir. “Não está gelado ainda....nem duro... se eu esperar a minha vida inteira, ele acordará um dia?”

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Tiro sua roupinha da sacola. O moço do necrotério me deixou a vontade. Disse – acho, não entendo italiano – que eu poderia ficar ali o tempo que fosse preciso. Pele branquinha e o cabelo todo na testa. Castanho, igual ao do pai. Lembro uma vez, logo no começo, que disseram a ele que parecia com o meu sobrinho. Ficou todo bobo e orgulhoso. Sentiu-se de vez perto e dentro da minha família. Ele sempre achou que meu sobrinho se parecia comigo. “Coloco a cuequinha nele?” “Precisa por as meias?” “Penteio seu cabelo?” são tantas dúvidas práticas naquele momento, que não percebo a dor na minha alma enquanto visto meu moleque pela última vez. A pele está mais branca do que de costume, mas ainda parece dormir. “Camisa pra dentro da calça?” “Flores no caixão?” “Algumas palavras de despedida?” Ninguém nos ensina na escola como se despedir da sua VIDA... Ninguém te ensina isso e aí... você cai...e se levanta porque teu filho precisa desse seu último ato de coragem. 43 minutos depois, meu menino está vestido. Com a mão, tiro o cabelo da testa que insiste em voltar para a testa. Ele está lindo, sabia? Guardo seu trenzinho no meu bolso... Um filme na cabeça passa tão rápido que me joga longe naquele quarto branco de morte. E me vejo sentado, largado, sem reação... com meu menino no colo. Sozinho. Acho que canto uma música que ele gostava... canto baixinho para não acordar os outros mortos. Ao niná-lo pela última vez, sinto que é a última vez. E aí, quando você percebe isso, não chora. Seu olhar se perde num ponto cego e a única coisa que você deseja ao segurar sua VIDA pela última vez no colo é que o tempo pare e volte para trás... “Se eu o segurar no colo por toda a minha vida, ele vai acordar? O cemitério é bonito. Há árvores. O céu, apesar do inverno agressivo, é de um azul mágico. Não é possível se sentir triste com um dia tão lindo assim se abrindo pra você. O coveiro chama minha atenção. Hora de ir. A sala está cheia, mas consigo chegar perto do pequeno caixão. Ele sorri pra mim. Eu sorrio pra ele. Não dá pra chorar com um sorriso tão maravilhoso assim. Lembro do trenzinho no meu bolso. Ao lado do terço – que era de sua mãe – arrumo um espacinho na sua mãozinha. Ele aperta o trenzinho. Aperta minha mão. È o seu TCHAU, PAIZÃO... Eu aperto sua mãozinha também. Beijo sua testa. Seu rosto. “Hora de descansar, né menino?” A tampa do caixão o esconde para sempre. Quando todos foram embora, fiquei algumas horas sentado num banco daquele cemitério. Não pensava nada, essa é a verdade. O dia ainda estava 53


lindo. E o silêncio era reconfortante. Minha alma se perdeu, se encontrou, se perdeu... mas isso não importa agora. Volto ao lugar em que ele foi enterrado antes de pegar o avião. Uma rosa amarela está ali como testemunha das grandes histórias de amor que já foram contadas... Um sorriso honesto, triste, se faz no meu rosto. Então... Sozinho. Um suspiro... um longo suspiro... e a certeza de que não há mais nada para se dizer...

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PASSADO A LIMPO Uma tosse longa. Respingos vermelhos no lençol branco. Estou ali, sozinha. Tento aliviar a dor dele, mas se nem a morfina resolve mais isso... como eu poderia? É questão de tempo. Estou cansada. Velei seu sono por tantas horas nos últimos tempos. Esqueci da minha vida antes disso tudo. Ele é culpado. Ele tem culpa. Não ouviu nada, ninguém. De verdade, não importa. Faz três dias que ele não fala nada. Quando abre os olhos, eles se perdem em algo que não sei o que é. Me encara, mas não encara, sabe? Olhos castanhos tão tristes e que sempre o denunciaram. Não podia nada daquilo e esses olhos o entregavam. O tempo todo. Eles me gelavam. Era boa a sensação. Não sei o que estou sentindo agora. A aliança no meu dedo não foi ele quem deu. Meu passado, meu filho, minha vida. Nada disso pertenceu a ele. Fico por aqui, sozinha, tentando entender tudo. Do mesmo jeito que ele fazia quando me amava. “Eu queria entender tudo isso! Por que você não me responde?” Ele me cobrava. Ele nunca entendeu nada. Cabelos ralos, branquinhos. Tão magro. Frágil. A tatuagem ainda está no braço. Meu nome. A cruz. Eternidade. Uma pontada forte no meu peito. Poxa. Poxa... Choro tanto agora porque é preciso chorar. Olho pela janela e o mundo funciona, gira, como se aquilo que vai acontecer em pouco tempo não importasse. Sinto raiva do mundo agora. Sinto raiva dele. Tônica da nossa história. Raiva. Quando volto à sua cama, ele está acordado, encolhido. Sorrio. Não quero sorrir. Os olhos fundos dele nada dizem mais, eu acho. Me sento na cama.O puxo pra mim, como nunca fizera antes. Sua cabeça no meu colo. Minha mão, sem a aliança mais, em seus cabelos. Movimento suave. A dor dele parece ser a minha porque mal consigo me segurar. Seu rosto, seus olhos, sua boca, estão voltados pra mim. Quero decorar cada traço dele para toda a eternidade. Minha mão passeia pela testa, o nariz – tão pequeno, tão de menino -, a boca. Passeio. Faço o que nunca fiz antes. Sei que ele sente o que estou querendo dizer. A respiração sem pressa. O coração bate num outro compasso. Antítese do meu. Esse acelera a cada segundo.

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“Desculpa”....ele diz... ele diz... é um sussuro... uma brisa leve daquelas que trazem o cheiro de mar que ele tanto gostava... “Desculpa”... “shuuuuuuuuuuu”.... “não diz nada”... “não precisa dizer nada” Em meu colo, como deveria ter sido sempre. Seus olhos se fecham. A respiração se vai. O coração... uma batida longa... longa...tão longa e naquele monitor só uma linha reta, sem vida, sem mais nada... .... “Léo...” “Mãe, você ta chorando?” “Mamãe ta indo pra casa, ok? “Mãe, seu amigo foi pro céu?” “Não sei, filho, não sei...”

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VIDA QUE SEGUE Oi, eu sou a Bia. Tudo bem? Faz tempo que eu não escrevo, né? Estava cuidando da minha mãezinha. Ela foi enterrada ontem. Tinha câncer, sofreu bastante, mas eu e o papai ficamos do lado dela até o fim. Mamãe foi muito forte, sabe. A última coisa que fez antes de partir, rumo à estrada que leva ao meu irmão, foi dar um sorriso lindo. Mesmo magrinha, dodói, aquele sorriso foi a coisinha mais linda que já tinha visto. Aí, ela fechou os olhos. Então, meu peito doeu, minha barriga virou toda. Achei que ia cair, mas precisava ser forte desde aquele segundo que ela fechou os olhos. Isso porque mamãe deixou papai sozinho. Claro, eu vou cuidar dele, mas os dois juntos sempre viveram um para o outro. Papai me ama muito. Papai ama meu irmãozinho, que ta no céu, muito. No entanto, em relação à mamãe, não tem como explicar o que aqueles dois sentem, sentiam. Mamãe era a realidade para ele. O chão. A vida. Tudo. Mamãe sorriu pela última vez. Papai sorriu pra ela. E aí, quando ela foi embora, meu paizinho chorou tão baixinho pra eu não ouvir, tão baixinho pra eu não ficar preocupada, que o mundo todo fez silêncio. Eu não disse nada, sabe. Papai beijou as mãos da mamãe, ainda quentes. Beijou seu rosto, sua testa, como fazia sempre. Aí ele encostou a cabeça em seu colo e ficou lá... perdido... Tenho dez anos, ainda não sou uma mocinha, fico sem saber o que fazer às vezes. Mas ali, naquela hora, fiz cafuné no papai, beijei seu rosto já barbudo e fui para o corredor do hospital. Papai precisava daquele tempo com mamãe, pela última vez... Foi um velório lindo. Estava cheio. Todo mundo do hospital que ela trabalhava estava lá. Todos da escola do papai também. Meus amigos da escola. Sim, estavam todos tristes, no entanto, mamãe era tão bacana e ajudou tanta gente que eu só ouvia coisas lindas das pessoas que visitavam ela. Papai estava bonito. Mamãe, antes de ser internada pela última vez, foi ao shopping comigo. Lá, além de comer no McDonalds, compramos uma camisa para o papai. Foi um segredo meu e dela. O último. Preta, linda. Mamãe sempre comprou as roupas do meu pai. Ela tinha bom gosto e ele, como é preguiçoso, não reclamava não. Comprava um livro, mas não trocava a calça velha de jeito nenhum. Mamãe brigava com ele (risos). Depois faziam as pazes. Ali, no velório, no cemitério, papai usava a camisa preta, último presente da nossa princesa. “Bia, não quero seu pai de barba. Nunnnnnnnnnnnnca!” 57


Isso foi difícil, no entanto, papai fez a barba. Rosto triste que me fez chorar, escondida no meu quarto. “Bia, você cuida dele. Nada de só jantar. Ele tem que se alimentar direito!” Papai era tão teimoso. O caixão baixou. Papai procurou minha mão. Segurou ela como se não tivesse mais nada na vida. Eu apertei a dele com força pra ele saber “paiiiiii, estamos juntos, você não ta sozinho!” Acho que ele entendeu porque sorriu para mim, com sinceridade. Todos foram embora. Ficamos eu e ele. Então, papai me pegou no colo. Eu abracei seu pescoço, me segurei com força porque a tempestade ainda não tinha passado. Não deu para segurar e eu chorei, chorei, chorei, chorei.... e o papai disse, com carinho, “calma, calma, passou, passou...” ele estava mentindo, claro...Nunca vai passar, mas aquilo me acalmou. Papai está na sala agora, mudando os canais da TV há umas duas horas. Ele acha que dormi, mas não consigo. Tenho medo do amanhã. Ele disse que não preciso pensar nesse tal de amanhã. “Viva agora, Bia...amanhã a gente vê o que faz!”... Agora, ele não estava mentindo. Hum, ele desligou a televisão. Uma música toca bem baixinho para não me acordar. A música deles... “Bia?” Ops, ele me descobriu acordada... “Não me enrola, menina, eu sei que você não está dormindo!” (risos) “Oi, pai...” “Vem aqui pra sala, vem dançar comigo!!!!!!!!” Obaaaaa, adoro dançar com o papai... .... Da cozinha, como sempre fazia, mamãe nos olha, nos acaricia, nos protege, segurando no colo meu irmãozinho. Estamos juntos, todos, mais uma vez... e meu coração não dói mais de saudade.

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A LOIRA DO BANHEIRO e outras histórias