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Copyright© by Omar Khayam Tradução para o inglês Edward Fitzgerald Tradução do inglês para o português Milton Lins Capa e ilustrações Alexandra de Moraes Produção Gráfica Bagaço Design Ltda.* Lot Estrada de Tabatinga, 336 • Tabatinga Igarassu/PE • CEP 53605-810 Telefax: (81) 3205.0132 / 3205.0133 e-mail: bagaco@bagaco.com.br www.bagaco.com.br ______ * Endereço para correspondência: Rua Luiz Guimarães, 263. Poço da Panela, Recife-PE • CEP 52061-160

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Guerra, Leda Almeida, 1958Aquém sol, além-mar : (crônicas) / Leda Almeida Guerra. – Recife : Bagaço, 2014. 144p. Inclui referências. 1. CRÔNICAS BRASILEIRAS. 2. PSICANÁLISE – CRÔNICAS. I. Título. CDU 869.0(81)-94 CDD B869.8 PeR – BPE 14-111 ISBN: 978-85-8165-134-7 Impresso no Brasil – 2014


Rubaiyat de Omar Khayam Tradução de Milton Lins

Recife – 2014


Esclarecimentos Com trecho de notas biográficas traduzido de livro da Editora Dover. Omar Khayyam (1048-1122), poeta persa autor dos presentes versos, nasceu em Naishapur, no nordeste do país. Durante toda a vida foi reconhecido como matemático, astrônomo e filósofo. Posteriormente, um número crescente de rubais (quadras ou quartetos), de teor cético ou hedonista, ligado ao seu nome. O escritor inglês Edward Fitzgerald (1809-1883), de origem rural, fez traduções do espanhol e do grego antigo, e divulgou uma adaptação livre dessa modalidade de poesia persa. A publicação teve grande popularidade após seu conhecimento por Dante Gabriel Rossetti e mais alguns, que revisaram e difundiram edições surgidas em 1868, 1872 e 1883. O nome de Fitzgerald não foi revelado senão em 1875. A quinta edição, póstuma (1889), foi pautada em mudanças manuscritas do tradutor falecido, especialmente no que diz respeito à pontuação, numa cópia à de 1875. O presente volume inclui, por inteiro, os textos da primeira e da quinta versões. A quinta edição tomou-se uma das mais conhecidas e mais bem aceitas peças escritas em inglês, no século dezenove. Há alguns anos o escritor Luiz Carlos Diniz nos pediu para traduzir o Rubaiyat de Omar Khayam. Há cerca de dois meses, o amigo referido nos presenteou com uma publicação da Dover Publications, Inc., de New York, com o texto completo da Primeira e da Quinta edições dos versos que Edward Fitzgerald traduziu. Aceitamos o desafio.

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Planejamos, no início, traduzir a 1ª Edição apenas com metrificação, e a 5ª – rimada e metrificada. Depois achamos por bem metrificar as duas, sem rimar, unificando o método empregado. Dessa maneira chegamos à conclusão de que o texto de Fitzgerald sairia mais parecido com o que traduziu do grego e do espanhol. No primeiro, no segundo e no quarto versos de cada quarteto, utilizamos dodecassílabos alexandrinos, e, no terceiro verso, decassílabos somente. Esta disposição foi mantida nas 176 quadras, ou rubais. Os alexandrinos ‘verdadeiros’ são preferidos pelos franceses e os decassílabos por italianos (Dante), espanhóis, portugueses (Camões) e brasileiros, seja em sonetos seja em poemas de outras estruturas. Ambos os recursos métricos são empregados pelos poetas ditos “ocidentais” de todas as literaturas, em poemas épicos, líricos ou românticos. M.L.

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Prefácio O Rubaiyat, reunidos três séculos após a morte de Omar Khayyam, só em meados do século XIX teve sua tradução no Ocidente, pelo francês J.B. Nicolas. Dois anos mais tarde, em 1859, surgiu a versão de Edward Fitzgerald a qual teve reedições em 1868, 1878, 1883 e 1889. Posteriormente várias outras recriações apareceram, entre elas as de Sadik Ali (1878), Whinfield (1883), J.H. McCarthy (1889), Dole (1896), J. Payne (1898), E. Heron Allen (1898), Pellenc (1915) e Franz Toussaint, em 1923. As versões mais famosas são as de Fitzgerald e Toussaint, as quais se comparadas, apesar de algumas estrofes semelhantes, parecem dois textos diferentes escritos por poetas distintos. As traduções brasileiras são em sua grande maioria baseadas em Toussaint: Octávio Tarquínio de Sousa, Manuel Bandeira, Torrieri Guimarães, Eugênio Amado. Em Portugal, há uma tradução de Fernando Couto. Baseada em Fitzgerald, a primeira recriação brasileira é de autoria de Jamil Almansur Haddad, de 1944. Ainda no Brasil, existe uma terceira versão da obra de Khayyam, de autoria de Ragy Basile, diretamente do persa e com versão poética de Christovam de Camargo. Na Internet encontra-se uma tradução de S.S. dos Santos, baseada em Fitzgerald, e outra de Alfredo Braga, a partir de Toussaint1. 1

FITZGERALD. E. – The Rubáiáyt of Omar Khayyam. First and fifth editions. New York: Dover, 1990 52p.

KHAYYAM, O. – Rubáiyát. 16ª ed. Tradução de Octávio Tarquinio de Sousa. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1983 177p.

____________________. Tradução de Manuel Bandeira. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d. 141p.

____________________. Tradução de Torrieri Guimartes. São Paulo: Hemus, s/d. 103p.

____________________. Tradução de Eugênio Amado. Rio de Janeiro: Garnier, 1999 112p.

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Agora o leitor tem em mãos pela primeira vez no Brasil, a tradução das duas versões (1ª. e 5ª. ) de Edward Fitzgerald, elaborada pelo contista e tradutor Milton Lins. Todas as versões recriadas a partir da obra de Franz Toussaint, e mesmo a de Basile, são concordes quanto aos sentimentos do poeta persa: tratava-se de um homem amargurado, descrente quanto ao futuro, que buscava no vinho e no regaço da amada esquecer as vicissitudes da existência. Curiosamente, e em contraste, apesar de Edward Fitzgerald tratar Khayyam como um niilista ou mesmo um epicurista, a sua versão é usada por aqueles que julgam existir uma mensagem místico-esotérica no poema. Foi J.B. Nicolas quem primeiro enxergou tal simbolismo apregoando ser o seu autor um adepto do sufismo. Os que assim pensam, argumentam que os poetas sufistas não achavam melhor analogia do que a existente com a embriaguez e a sensualidade para representar o consórcio místico da criatura com a divindade. Destarte, o estado simbólico de ebriez propiciaria o aniquilamento da personalidade, o que facilitaria a união do crente com Deus. O termo sufismo tem origem no vocábulo suf, que significa lã em árabe. Ao que parece, os primeiros adeptos tinham por hábito vestir-se com tal tecido como símbolo da pureza e simplicidade.

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____________________. Tradução de Fernando Couto. Lisboa: Moraes. s/d. 65p. KHAYYAM, O . – Rubáiyát. TraduçAo de Jamil Almansur Haddad. sao Paulo: A Bolsa do Livro, 1944.

____________________. Versão poética de Christovam de Camargo baseada na interpretação literal do texto persa fita pelo professor Ragy Basile. Sao Paulo: Martin Claret, 2003 229p.

Os Rubaiyat de Omar Khayyam. Disponível na Internet ww.alfredo­bragaprobr/poesia/ rubaiyat.html. Captado em 29.01.2007.

O Rubaiyát. Disponível na internet http//orbita.starmedia com/sssantos11/rubaiyat. htm. Captado em 21.07.2007.


O objetivo da seita é a busca do Conhecimento Absoluto, o qual só pode ser alcançado com o olho do coração, isto é, mediante a iluminação e a contemplação. Os sufis tomam como base para dividir o caminho espiritual as três etapas ensinadas por Maomé: A shariat são minhas palavras, a Tariqat meus atos e a Haqiqat meu estado interior. O objetivo da primeira etapa da Tariqat, o período prévio à iniciação formal no sufismo, é a aquisição pelo discípulo de uma crença firme no mestre espiritual. A primeira e mais importante obrigação do aluno é aceitar, sem questionamentos, todas as instruções do orientador durante um período de aproximadamente 12 anos. Só quando o mestre observa que certas condições são cumpridas e quando sabe que o aluno é digno da Tariqat, é que lhe permite empregar o Zekr – a recordação permanente dos nomes divinos. Os sufistas crêem que se um discípulo medita constantemente em Deus, sua alma irá gradualmente impregnar-se das Qualidades Divinas e suas tendências passionais desaparecerão. Em realidade, se considera o Zekr como uma torrente que, além de eliminar as qualidades humanas indesejáveis, substituindo-as pelas Divinas, elimina em última instância o ego individual de tal maneira que nada restará do eu do iniciante. Este é o final da Tariqat e o início do oceano do aniquilamento ou fan a em Deus. No início do caminho espiritual o viajante místico – s alek – é assaltado por múltiplas pressões procedentes da sua falta de equilíbrio psíquico e da debilidade frente às paixões. Nesta fase o aprendiz ainda crê no livre arbítrio. Porém, deve-se assinalar que nas etapas realmente avançadas, quando o sufi é adornado com os Atributos Divinos, crê então no determinismo, no contexto da absoluta liberdade. Isso assim acontece porque então já não mais existe o ego individual, e tudo o que experimenta é por vontade divina.

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A Haqiqat é a escola da Realidade Absoluta. Consiste em duas fases, fan a (aniquilamento) e baq (subsistência), simbolizando o fana a entrada na jar ab at (taberna), a imagem poética para designar a aniquilação do ego, o esquecimento do eu, a última etapa da Senda, que é equivalente a alcançar a Realidade Absoluta. O crente alcança um estado no qual está submergido no oceano dos ates divinos, de tal modo que considera como vontade de Deus tudo o que acontece, desconhecendo pois completamente o livre arbítrio. Baq, consiste na subsistência em Deus e se realiza quando Ele concede ao religioso uma nova vontade, que procede diretamente Dele, para substituir aquela que foi exterminada. Esta subsistência ou permanência se obtém pela aniquilação interior, e consiste no desaparecimento dos atributos temporais, algo como um véu que o separa do Real. Neste estado tão avançado, já não mais existe nenhuma separação de classes e a dualidade é transformada em Unidade2. Os que defendem uma ideologia místico-esotérica no Rubaiyat utilizam como principal argumentação a constante 2

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FOLHA DE SÃO PAULO - Nova Enciclopédia Ilustrada Folha- v.2°. São Paulo: Folha de São Paulo, 1996. Verbete: sufismo. p 911. Grande Enciclopédia Larousse Cultural – v. 22. São Paulo: Nova Cultural, 1998. verbete: sufismo p 5521. LEMOS, M. (Org) – Encyclopedia Portugueza Ilustrada. Diccionario Universal. V.10°. Porto: Lemos & C A, successor, s/d. verbete: sufismo. p 347. SUFISMO. Disponível na internet: http://pt.wikipedia.org/wiki/sufismo. Captado em 21.12.2005. CADAVID, J. Poesia y mística sufí. Disponível na internet: http://www. editorialudea.com/ revista/263.html. Captado em 21.12.2005. al-JERRAHI, M.R. – O lslam e o sufismo. Disponível na intemet: www.Halvetijerrahi.Org.br./ jerrahi/artigos palestra/o islameosufismo.html. Captado em 19.12.2005. NURBAKHASH, J. – Qué es el sufismo? Sufismo y psicoanálisis. Parte I. Disponível na internet: www.redcientifica.com/doc/doc200205090001.html. Captado em 21.12.2005. ____________________. – Una comparacion entre el sufismo y el psicoanálisis. Parte II Disponível na internet: www.Redcientifica.com./doc/doc200211290302. Captado em 21.12.2005.


citação do vocábulo vinho no corpus do poema. Também outras palavras afins são muito citadas: uva, vinha, vindima, videira, taberna, ânfora e taça, todas relacionadas à ingesta do vinho. A justificativa é a seguinte: a bebida apesar de não constituir uma característica básica do ritual, assumiria, quando levava à embriaguez, o aniquilamento do eu, o que facilitaria a integração do crente com a Divindade. No entanto, como vimos anteriormente, ninguém percorrerá a Senda do sufismo sem um mestre, ao qual o discípulo dedicará toda reverência e obediência. O que observamos No entanto, é que o autor do Rubaiyat em nenhum momento nos fala de mestres, ao contrário, os religiosos não lhe mereceram maiores encômios. Então Khayyam não teve mestres, mas já teria atingido a comunhão com Deus, algo praticamente impossível no sufismo. Mestre é aquele que conseguiu atingir o final da Tariqat ou a Haqiqat. Nesta fase, atinge-se a última Senda à qual o famoso sufi Djalâl od­Dîn Rûmî (1207-1273) representava como o morrer antes de morrer, ou seja, a morte mística antes da morte fisica3. É o estágio da completa aniquilação do eu e sua absorção pelo amado (a taberna). Alcançada a Unidade em Deus, o religioso penetra no Conhecimento, não havendo então mais sentido questionar-se sobre a existência e o porvir. É por esta razão que o místico, conhecedor dos desígnios do criador, crê no determinismo, pois não mais existe o ego individual e tudo o que acontece é determinado pela Deidade. Mas parece que leitura atenta e desapaixonada dos rubaiyat mostra apenas a descrença, o pessimismo e o total desconhecimento dos desígnios de Deus. Em nenhum 3

TEIXEIRA, F. – Rûmi: A paixão pela Unidade. Disponível na intemet: www.empaz.org. Captado em 28.12.2005.

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momento, nada no poema nos leva a afirmar a existência de comunhão com a Divindade. O fatalismo explicitado pelo vate não pode ser explicado à luz do sufismo, haja vista que só o mestre - aquele que viu a face de Deus, e por motivos já demonstrados, poderia possuí-lo. É evidente que tal pessoa iluminada jamais colocaria dúvidas acerca da bondade de Deus, ou afirmaria de maneira tão explicita ser impossível chegar ao Conhecimento do Absoluto. Parece então que podemos afirmar que Khayyam não foi um mestre sufista. Por outro lado, vimos anteriormente que, mercê da falta de equilíbrio psíquico e da fraqueza perante as paixões, o neófito ainda crê no livre arbítrio. No entanto, o fatalismo mostrado não condiz com a condição de aprendiz por parte do poeta. Desta forma, se Khayyam não era discípulo nem mestre, torna-se virtualmente impossível classificá-lo como sufista. Mais algumas breves considerações acerca do vinho e sua relação como esoterismo islâmico: só quem entra na metafórica taberna e se embriaga com o vinho místico, é aquele que morreu antes de morrer, o crente que se integrou totalmente com o Deus Amado, que percorreu todas as sendas do sufismo. Se alguma dúvida ainda persistir, poderá ser útil a transcrição de fragmentos do longo poema O Vinho Místico4 (Khamriya), de autoria do poeta sufi Omar lbn ai-Farid (1182-1235).

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Em memória do Bem-Amado Bebemos o Vinho que nos inebria Antes mesmo da criação da videira. A taça que o contém 4

al-FARID, O I. – O vinho místico (Khamriya) – Tradução de André Sena. Disponível na internet: www.lslamicchat.org./phpbb2/viewtopic.php?t=9%sid=99e13ad44bc8b040dd51Oa9c bce91e91. Captado em 20.12.2005.


É um disco lunar brilhante O Vinho, é sol. ...Sem o perfume que exala Eu jamais teria encontrado O caminho da verdade Que conduz às suas tavernas... ...Nossas almas são o Vinho, E nossa forma a videira. Antes dele, não há antes; Depois dele, não há depois... ...Alguns me disseram: Ao beber esse vinho, Cometeste iniqüidade! Isto não é verdade. Pois iniqüidade teria eu cometido Ao privar-me de bebê-lo!... ...Àquele que não morre Desta embriaguez Faltou-lhe coragem Neste mundo onde passou. Que ele chore então por si mesmo, O homem que abriu mão de seu direito, Durante a vida inteira, Direito de beber deste vinho, Vinho que rejeitou. As distintas mensagens, emanadas dos textos dos dois poetas, trazem diferenças explícitas. AI-Farid trata o vinho realmente como algo sagrado, enquanto que Khayyam, por assim dizer, seculariza a bebida. Tudo o discutido até aqui parece perder a razão de ser quando compulsamos a recriação do Rubaiyat feita por Omar Ali-Shah, publicada originalmente em inglês. Na

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introdução da obra, o erudito Roberto Graves5 afirma de maneira cabal que Fitzgerald não possuía domínio da língua persa para empreender uma tarefa de tal magnitude. Daí ter modificado, transformado e manipulado rubaiyat com desmedida liberdade. Teria ele utilizado fontes diversas e incorporado imagens absurdas do ponto de vista sufi. Tais adições indevidas, por serem falsas, deturparam o sentido do poema. Destarte, o poeta persa seria apresentado como blasfemador, o que sob a ótica de religiosos como Ali­ Shah, representa uma difamação e uma ofensa inominável à memória de Omar Khayyam. Entretanto, independentemente das críticas religiosas, parece que o nosso aedo deve ser compreendido “apenas” como um poeta despido de qualquer vestimenta místico -esotérica. Um homem amargurado, pessimista com o devir, que compôs uma obra prima da poesia universal cuja maior mensagem é a efemeridade da vida. O Rubaiyat é um poema lírico onde, como é de praxe, o Eu o Aqui e o Agora constituem os pilares básicos. A poesia lírica é entendida como aquela em que o poeta busca inspiração dentro de si mesmo, cantando os afetos do seu ânimo. Segundo Achcar, o canto lírico concentra-se no estreito limite do presente, na brevidade da canção e tem o tom do sujeito. Fraenkel, citado por Achcar6, afirma que em certo sentido, a lírica se põe a serviço do presente, do dia, e é efêmera.

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Assim, parece claro que não poderemos, baseados apenas no Rubaiyát segundo Edward Fitzgerald, classificar o seu autor como um sufista. Por outro lado, é preciso lembrar que desconhecemos, dos textos que possuímos, qual o que 5

GRAVES, R . – O culto Fitz-Omar. ln Khayyam, O Rubaiyatt. Tradução do original persa e comentários de Omar Ali-Shah. Rio de Janeiro: Dervixe, 2006 p 13-44.

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ACHCAR, F. – Lírica e lugar comum: Alguns temas de Horácio e sua presença em português. São Paulo:EDUSP, 1994 285p.


representa realmente o pensar de Khayyam; e, pior, não sabemos sequer quais versos são realmente da sua lavra. Tanto Toussaint, quanto Fizgerald, Basile e Ali­Shah, expõem seus argumentos sobre a fidelidade das suas recriações. Mesmo que consideremos quaisquer delas como a real, devemos lembrar da dificuldade de interpretar um poema de quase mil anos, sobretudo quando se trata de uma tradução, da tradução da tradução. De qualquer maneira, cremos ser Omar Khayyam um poeta humano demasiado humano, o que nos faz inferir que o vinho ao qual ele tanto se refere, é o mesmo que bebemos nos nossos dias. Não posso terminar sem deixar de enaltecer o ilustre Milton Lins, tanto por trazer pela primeira vez ao Brasil (quiçá em língua portuguesa) duas traduções integrais das versões de Edward Fitzgerald do Rubaiyat, quanto pela sua qualidade, onde a técnica e a arte justapõem-se perfeitamente. Luiz Carlos Diniz Olinda, setembro de 2009

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1 Awake! for Morning in the Bowl of Night Has flung the Stone that puts the Stars to Flight: And Lo! the Hunter of the East has caught The Sultán’s Turret in a Noose Light. Desperta! De manhã no Côncavo da Noite A Pedrada lançou que deu Brilho às Estrelas: O Caçador do Leste percebeu O Truque do Sultão na Armadilha de Luz.

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2 Dreaming when Dawn’s Left Hand was in the Sky I heard a Voice within the Tavern cry. “Awake, my Little ones, and fill the Cup “Before Life’s Liquor in its Cup be dry.” Sonhando ouvi a voz gritando na Taverna, Vinda do Céu a Mão Esquerda da Alba diz: “Despertem, Filhos, para encher as Taças “Bem antes que o Licor da Vida as esvazie.”

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3 And, as the Cock crew, those who stood before The Tavern shouted – “Open then the Door! “You know how little while we have to stay, “And, once departed, may retum no more.” Como a tripulação do Galo, os que, de pé, Diante da Taverna aos gritos – “Abra a Porta! “Sabem que pouco têm – para ficar, “E não podem voltar, uma vez começados.”

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4 Now the New Year reviving old Desires, The thoughtful Soul to Solitude retires, Where the White Hand of Moses on the Bougl Puts out, and Jesus from the Ground suspires, Agora o Ano Novo aviva seus Desejos, A Alma pensante vem, e vai a Solidão, Onde Moisés, Mão Branca no Cajado, Afasta-se, e Jesus suspira pelo Solo,

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5 Irám indeed is gone with all its Rose, And Jamshyd’s Sev’n-ring’d Cup where no one knows But still the Vine her ancient Ruby yields, And still a Garden by the Water blows. Contudo, o Irã se foi, com toda sua Rosa, Jamshid a Taça encheu sete vezes seguidas, A Vinha é campo antigo de Ruby, E rega seu Jardim usando apenas Água.

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6 And David’s Lips are lock’t; but in divine High piping Péhlevi, with “Wine! Wine! Wine! “Red Wine!” – the Nightingale cries to the Rose That yellow Cheek of hers to incarnadine. E os Lábios de Davi -selados; no divino Tocar de Pehlevi7, com “Vinho! Vinho! Vinho! O Rouxinol à Rosa – “Vinho Tinto!” As suas Faces de ouro agora estão vermelhas.

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Forma de linguagem Medo-Persa


7 Come, fill the Cup, and in the Pire of Spring The Winter Garment of Repentance fling: The Bird of Time has but a little way To fly - and Lo! the Bird is on the Wing. Venha, complete a Taça, Ardor da Primavera, Nas Vestes deste Inverno há lances de remorso: A Ave do Tempo herdou curto caminho Para voar – e eis – uma Ave sobre a Asa.

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8 And look – a thousand Blossoms with the Day Woke – anda thousand scatter’d into Clay: And this first Summer Month that brings the Rose Shall take Jamshyd and Kaikobád away. Repare - com o Dia, os milhares de Brotos Despertam - e um milhar se espalha pelo Barro: Primo Mês do Verão acorda a Rosa. Jamshyd e Kaikobá8 para longe se vão.

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Jamsby e Kaikobá-Reis lendários persas.


9 But come with old Khayyám, and leave the Lot OfKaikobád and Kaikhosrú forgot! Let Rustum lay about him as he will, Or Hátim Tai cry Supper – heed them not. Mas venha com Khayyam, e deixe a Dupla entrar Esqueça Kaikobá e esqueça Kaikhosru9! Deixe Rustum10 dormir como ele quer, Ou Hatim Tai11 chorar – não ligue para os dois.

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Kaikbosru - Rei lendário.

10 Rustum -Chefe e berói no épico Sbabnamab. 11 Hatim Tai-Visitante árabe lendário.


10 With me along some Strip of Herbage strown That just divides the desert from the sown, Where name of Slave and Sultán scarce is known, And pity Sultán Máhmúd on his Throne. Dispersa, vai comigo a Faixa Verdejante Que afasta, justamente, o campo - do deserto, Onde Escravo e Sultão não ficam juntos, Onde o pio Sultão Mahmud12 está no Trono.

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12 Mahmud -Grande conquistador e patrocinador do épico Sbahnamah.


11 Here with a Loaf of Bread beneath the Bough, Flask ofWine, a Book ofVerse – and Thou Beside me singing in the Wilderness – And Wilderness is Paradise enow. Com Fatia de Pão sob o arvoredo unidos, Tu e Um Frasco de Vinho, e um Volume de Versos – Cantarolando com Sofreguidão – Uma Sofreguidão agora – um Paraíso.

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Rubaiyat de Omar Khayyam  
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