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Segunda-Feira, 23 de Janeiro de 2012

Meu ortopedista pintou a parede do quarto de seu filho que está para nascer. profissional bem-sucedido, com uma bela clínica na Vila Nova Conceição, ele não é exatamente o tipo que se imagina munido de lixa e massa corrida. o valor da pintura, cerca de metade do cobrado por uma consulta médica, tampouco justificaria o sábado trancafiado em casa. No entanto lá estava ele, feliz no trabalho braçal. Como ele, meninas e meninos lotam cursos de marcenaria e costura, para espanto de suas tias e avós que acreditavam em um futuro bem cosido, uniforme e alinhado, sem farpas ou agulhadas. os mais velhos preenchem filas de espera em cursos de culinária, alegres a desossar peixes, picar cebolas e cultivar pequenas hortas de alecrim e hortelã em suas mesas de trabalho. polaroids e Lomos, físicas ou virtuais, fazem a festa dos fotógrafos, que se divertem com as câmaras elementares de seus iphones e ipads, entupindo de efeitos as imagens de baixa qualidade técnica, devidamente estragadas com riscos, manchas e vazamentos de luz artificiais. entre os tecnófilos, ferros de soldar e osciloscópios voltaram à moda. Conectando pequenas placas de hardware aberto a motores, Leds e

Com as próprias mãos LuLI RADfAhReR Alpino

displays, eles recriam o ambiente frenético das comunidades que, no final da era hippie, inventavam computadores ao imprimir placas de circuitos e conectá-los a rádios e tVs. seus aparelhos, no entanto, são bem menos pretensiosos. pouquíssimos chegam a ter projetos estruturados, dificilmente algum chegará a linhas de produção. pouco importa. parece nostalgia, mas é tecnologia. Hoje que a perfeição é feita em

Agora que a perfeição é produzida em série, os trabalhos manuais viraram manifestações de identidade série, por cadeias intermináveis de produção que eliminam do produto final qualquer indicação de sua origem, o usuário se sente desenraizado. e procura intervir nos belos objetos prontos para dar a eles uma

marca de personalidade. Quando o perfeito é comum a todos, a imperfeição destaca as diferenças. a gambiarra, que até há pouco tempo era a única forma de acesso ao que havia de belo, hoje é sinal de distinção. agora que há roupas e objetos em excesso, remendá-los é uma forma de identificá-los. e de se identificar neles, procurando imprimir em sua estrutura ou superfície algo único, que os torne especiais como

a assinatura de uma criança na sola do pé de um brinquedo. Hoje que o mundo se tornou simbólico e matemático, que as engrenagens das geringonças foram substituídas por circuitos indivisíveis e códigos indecifráveis, a vontade de interferir é cada vez maior. Hacking, que já foi sinônimo de criatividade e crime, hoje identifica as atitudes de quem se cansou de comprar bugigangas de todos os tipos e resolveu construí-las. Já ouvimos essa história na música. depois de quase serem extintos na busca pelo som cristalino, Lps voltaram como forma de identificação, marcando a personalidade única de seus maestros. o som perfeito, quem diria, não é tão rico. só empina a bicicleta quem está seguro o suficiente para pedalar sem as mãos. agora que todos parecem à vontade no ambiente icônico e metafórico das ferramentas virtuais que sobrepõem abstrações ao elevar as transações digitais à nuvem, é hora de interferir na paisagem e marcar as pegadas imperfeitas que nos fazem humanos por demais. folha@luli.com.br

ANDRÉ CONTI escreve neste espaço na próxima semana

Garotas gamers se unem contra o machismo

Vídeo de canadenses ataca o preconceito e levanta debate na web; jogadoras brasileiras farão palestra na Campus Party Marcelo Camargo/Folhapress

no Brasil e no exterior, problema é maior em jogos de tiro em primeira pessoa, diz psicóloga especializada AlexAndre ArAgão

ColAborAção pArA A fOLhA

“Eu sou o Mario”, diz uma garota, se referindo ao encanador italiano do videogame. “Eu sou Gordon Freeman”, diz outra, sobre o protagonista da série “Half Life”. As frases acima, ditas por meninas canadenses cansadas de preconceito, estão em um vídeo postado no YouTube (bit.ly/manifestogamer). Até agora, cerca de 300 mil pessoas assistiram a ele —e os comentários se dividem entre favoráveis e contrários. “Jogadores imaturos e trapaceiros tiram a graça de jogar on-line”, diz Jessica Oliver-Proulx, 28, uma das canadenses do vídeo. De acordo com dados referentes a 2010 da ESA (Associação de Software de Entretenimento, em inglês), órgão do mercado de videogames no Canadá, 38% dos jogadores do país são mulheres. Jessica começou a jogar quando ganhou seu primeiro console da Nintendo, em 1988. De lá para cá, RPGs e games de tiro em primeira pessoa se tornaram seus preferidos —“Guild Wars 2” é o que mais joga atualmente. A brasiliense Bruna Torres, 25, tem uma história semelhante à de Jessica: começou nos consoles, mas, hoje, dá preferência a jogos no PC. “Antigamente existia muito preconceito”, conta. “Aconteceu uma vez de o cara falar: ‘Até parece que ela sabe jogar’. Foi jogar comigo

Bruna Torres, do blog especializado em games girls of War, formado por cinco amigas

e o matei várias vezes, ele ficou muito bravo.” Ao lado de quatro amigas —uma de Brasília, duas de São Paulo e uma do Rio—, Bruna escreve no blog Girls of War, cujo slogan é: “Quem disse que garotas não jogam?”. Elas se encontrarão pela primeira vez no próximo dia 10, em São Paulo, quando farão uma palestra sobre a experiência na Campus Party, a principal feira de inovação e tecnologia do país. Divulgação

Se você pergunta para uma mulher se ela joga, ela diz que não, mas tem a fazenda mais maravilhosa [no “FarmVille”]

IveLIse fORTIm psicóloga e professora do curso de tecnologia em jogos digitais da PUC-SP

Todos os tipos de game são tratados na página, menos um: “Não comentamos sobre futebol porque nenhuma de nós gosta”, diz Bruna. “Queremos mudar isso.” “FEITO MULHERZINHA”

Professora de psicologia e de tecnologia em jogos digitais da PUC-SP, Ivelise Fortim, 30, perdeu o hábito de sentar no computador e fazer login em um RPG. “Ou você tem vida, ou você joga RPG, então

parei de jogar porque é incompatível”, diz, rindo. Pesquisadora de jogos desde o mestrado, em 2002, Ivelise estudou o perfil das brasileiras fãs de games. “Se você pergunta a uma mulher se ela joga, ela diz que não, mas tem a fazenda mais maravilhosa [no “FarmVille”].” “O estereótipo de ser ‘gamer’ é jogar RPG e jogos de tiro em primeira pessoa”, diz a pesquisadora. Segundo ela, esse é o motivo por que mui-

tas mulheres que são viciadas em games —principalmente os disponíveis em redes sociais— não se identificam como “gamer”. Para Ivelise, os jogos de tiro em primeira pessoa são o principal foco de preconceito contra mulheres. “Um xingamento comum entre homens é dizer que o outro joga ‘feito mulherzinha’”, diz. “Mulheres são mais respeitadas em RPG do que em jogos de tiro em primeira pessoa.”

Novo ‘Fifa Street’ levará Messi a favela do Rio

Com craques e equipes do mundo todo, versão do game de futebol de rua sairá em março THÉo AZeVedo

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Messi, do Barcelona, joga em favela do rio, no ‘Fifa Street’

Imagine craques como Messi, Kaká e Cristiano Ronaldo batendo bola na rua. Esse é espírito de “Fifa Street”, game que usa a elaborada tecnologia gráfica do “Fifa 12” para criar peladas cheias de dribles e truques com a bola. Com lançamento agendado para 7 de março, é a pri-

meira vez que “Fifa Street” entra nas quadras do PlayStation 3 e do Xbox 360. O game vai se beneficiar da tecnologia atual para melhorar o controle da bola, fundamental para dar realismo às cerca de 50 fintas possíveis. Quem jogou a versão anterior de “Fifa Street”, lançada em 2005, sabe que desconcertar o adversário com dribles é tão divertido quanto ganhar as partidas —tanto no modo

“um contra um” quanto na opção com times de cinco atletas de cada lado. Livre das amarras e regras do futebol tradicional, “Fifa Street” faz experimentações, como uma modalidade na qual cada equipe perde um atleta a cada gol adversário. PELADA NA COBERTURA

Há mais de 35 quadras para jogar, criadas em estacionamentos, academias e até

no topo de um prédio. A maior parte é ambientada na Europa —o Brasil aparece em uma quadra erguida em uma favela carioca. Embora ainda não tenha entrado em detalhes, a EA Sports, criadora do jogo, promete disponibilizar clubes e seleções de todo o mundo. Tal qual “Fifa 12”, “Fifa Street” será interligado ao EA Sports Football Club, rede social para jogadores da série.


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