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C4 cotidiano

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TRAGÉDIA NA ESCOLA

ab

Sábado, 24 dE SEtEmbro dE 2011

Como foi a ação do garoto, segundo a versão apresentada pela polícia* Câmera

ONDE FOI O INCIDENTE

A PROFESSORA

s os me am Go ro eR au dg u eta .L chi Av r. R . An .D Rod Av

Cemitério das Lagrimas R. Capivari

13h

Levou um tiro na região posterior direita

Escola

São Paulo Grande SP

Sofreu uma fratura na patela direita

São Caetano do Sul

O garoto D., 10, e o irmão de 14 anos chegam à escola Profª Alcina Dantas Feijão. Eles haviam sido levados pelo pai, um guarda-civil municipal

Câmera

15h50

14h50 O pai volta à escola após perceber em casa que seu revólver, de calibre 38, havia sumido. Ele questiona os filhos, que dizem não saber da arma

16h50

O garoto pede para ir ao banheiro e sai da sala de aula. Ele volta com o revólver e atira na professora Rosileide Queiros de Oliveira

A criança sai da sala, senta em uma escada e atira na cabeça. Nenhuma câmera de vigilância do local estava direcionada para aquele ponto

Resgatado, o menino morre no hospital. A professora é internada. Ontem, ela passou por cirurgia no Hospital das Clínicas e não corre risco

*Horários aproximados

Para a polícia, criança planejou o crime

Um dia antes da tragédia, aluno teria dito a amigo que iria matar a professora e depois cometeria o suicídio eduardo Knapp/Folhapress

com a ajuda de psicólogos, colegas de classe de menino de dez anos serão ouvidos pelos investigadores andré caramante afonso benites de são paulo

As investigações da polícia sobre a tragédia em São Caetano apontam que o menino D. premeditou o crime, mas ainda não é possível apontar os motivos da violência. Ontem, a delegada Lucy Mastellini Fernandes ouviu uma das três professoras do garoto, Ana Paula Lima, de matemática. Ela contou que uma aluna afirmou que D., um dia antes da tragédia, disse que pretendia matar a professora Rosileide Queiros de Oliveira, de português. Ainda segundo essa aluna, ele disse que iria se matar logo depois para não ser repreendido pelo pai, o guarda-civil municipal Milton Evangelista Nogueira, 42. A polícia irá ouvir os depoimentos dos colegas de classe do menino na próxima semana e, para isso, terá a ajuda de psicólogos. Um dos alunos era o melhor amigo do menino que se matou. Outra evidência de que o garoto tinha traçado um plano sobre como agir foi um desenho encontrado em sua mochila. A imagem o mostra segurando duas armas ao lado de um professor. No desenho, o menino escreveu “Eu com 16 anos”. Psicólogos vão analisar a ilustração. A professora Priscila Razante também foi ouvida ontem. Ela dava aulas de geografia, história e ciências para a turma de D. Assim como as colegas, disse que ele tinha bom comportamento. HIPÓTESE

O delegado Francisco José Alves Cardoso, da delegacia central de São Caetano, afirmou ser cedo para apontar os motivos que levaram o menino a atirar, mas uma das hipóteses é a de que o garoto não gostava da professora. A polícia investiga se alguma pessoa incentivou o menino a atacar a professora. Até a noite de ontem, a polícia não havia encontrado indícios de participação de outra pessoa no caso. Ontem, além das duas professoras, a polícia ouviu três pessoas da direção da escola municipal de São Caetano. Todas disseram que o menino era “um aluno exemplar” e que desconheciam se ele tinha ou não raiva da professora de português ferida. Para a delegada Lucy, não há evidência de que o menino sofria bullying. Para a polícia, caso ele fosse alvo de perseguição de colegas, eles teriam sido o alvo dos tiros, e não a professora. Colaborou Alexandre Aragão

integrantes da Guarda civil municipal de são caetano do sul, na região do abc, carregam o caixão do menino d., 10, no enterro realizado ontem

Pai de garoto pode receber perdão judicial de são paulo

A delegada Lucy Mastellini Fernandes disse ontem que ainda não sabe o que fará em relação ao pai da criança. Ela afirma que o guarda-civil municipal Milton Evangelista Nogueira, 42, pode ser indiciado sob a suspeita de negligência ou omissão na guarda de arma de fogo, mas ainda não está certa disso. “Esse pai já está sofrendo muito. Preciso analisar o Estatuto do Desarmamento e estudar o que poderá ser feito contra ele. Se é que será feito alguma coisa”, afirmou. CONSEQUÊNCIAS

Futuramente, quando o inquérito policial chegar a um juiz, Nogueira poderá receber o perdão judicial, que é quando o Judiciário reconhece que aconteceu um crime, mas que as consequências dele foram tão severas que não é necessário aplicar uma pena. É o mesmo procedimento que costuma ocorrer nos casos em que um pai esquece um bebê dentro de um carro e ele morre. Ou seja, a perda de um filho é maior do que a privação de liberdade ou qualquer outra punição que a Justiça possa determinar ao acusado pela morte.

À polícia familiares e amigos do guarda-civil Nogueira disseram que ele é uma pessoa conciliadora e que dialoga muito com seus filhos — além do menino de dez anos, o casal tem outro filho, de 14 anos de idade. ARMA ESCONDIDA

Sabendo do perigo em possuir uma arma em casa, ele sempre dizia aos garotos que, se tivessem curiosidade em

c calibre 38

arma usada é fácil de ser acionada O revólver calibre 38 usado anteontem por D. é uma armafacilmenteacionadapor qualquer pessoa, de acordo com Diogenes Viegas Dalle Lucca, especialista em segurança pública. “É muito fácil uma criança com dez anos apertar o gatilho de uma arma como essa. É importante que os donos saibam que existem mecanismos para evitar o acionamento, como um dispositivo que trava o gatilho.”

ver o revólver, deveria procurá-lo que ele mostraria. A arma particular ficava guardada em uma caixa de papelão na parte alta de um armário no quarto do casal. Na Guarda Municipal, Nogueira não teve nenhuma advertência oficial. O secretário municipal de Segurança, Moacir Rodrigues, disse que ele tem uma carreira exemplar. Nas horas de folga, o guarda fazia bico como vigilante em uma lanchonete de São Caetano. Era lá que ele usava esse revólver particular. MOCHILA

Informalmente, Nogueira disse à polícia que, ao perceber que sua arma não estava em casa, procurou os filhos na escola e perguntou para eles se um dos dois havia pegado o revólver. Os dois negaram, e ele acreditou. Segundo a polícia, o guarda lamentou não ter olhado a mochila dos filhos antes de voltar para casa e pedir para a mulher procurar direito a arma, antes que ele registrasse um boletim de ocorrência. Na próxima semana, Nogueira e a mulher dele, Elenice Mota, deverão ser ouvidos oficialmente pela polícia. Ontem, eles não quiseram falar com a Folha. (AB E AC)

Agressão escolar virou rotina, afirma sindicato de são paulo

Casos de agressões físicas e verbais de alunos contra professores viraram rotina, dizem profissionais da categoria ouvidos pela Folha. O sindicato dos professores da rede municipal de São Paulo afirma que há escolas em que funcionários chegam a recolher armas brancas levadas pelos alunos. Tais armas são devolvidas no final da aula, por causa do medo de retaliações. Com a condição de não ser identificado, um professor relatou à Folha que já foi ameaçado por um aluno armado com faca em uma escola municipal da zona sul. “[Este tipo de situação] é comum. Conheço colegas ameaçados com armas de fogo”, afirma ele. A Secretaria Municipal de Educação diz que não recebeu comunicados sobre apreensão de armas de qualquer natureza nas dependências de suas escolas. Em Guaimbê (449 km de São Paulo), a professora de matemática Sandra Inês

Bontempo ainda sofre com crises de pânico depois que um aluno atirou uma carteira escolar nela. O fato ocorreu há cerca de seis meses. Afastada do trabalho, ela diz que evita até passar em frente à escola estadual onde dava aulas. Na semana passada, uma docente da rede estadual foi agredida por um aluno de seis anos em Diadema, na Grande São Paulo, segundo o Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de SP). Ainda segundo a Apeoesp, 80% dos professores sindicalizados relataram que já presenciaram ou souberam de colegas agredidos física ou verbalmente. Atualmente, tanto prefeitura de São Paulo quanto o governo do Estado não possuem levantamento de professores agredidos ou ameaçados por alunos nas escolas de suas redes. A tensão causada por casos como o desta semana em São Caetano atinge também professores da rede privada. “Meu filho me falou: ‘mãe, não brigue com aluno, quero que você viva’”, disse Maria Izilda, da rede particular de São Caetano. (RICARDO SChwARz, FELIPE LUChETE, FERNANDO SILVA E LEONARDO RODRIgUES)


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