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XXV ENEGEP Porto Alegre, RS, Brasil, 29 de Outubro a 01 de Novembro de 2005

A utilização de mídia interativa como ferramenta para o desenvolvimento do “pensamento sustentável” na construção Civil José Rodrigues de Farias Filho (UFF) Fábio Almeida Có (UNIVIX/NEPA) Roosevelt da Silva Fernandes (UNIVIX/NEPA) Walter Brunow Nogueira (UNIVIX/NEPA)

Resumo Este artigo propõe a utilização de reportagens especializadas em meio ambiente a partir de mídia interativa (“rádio/internet”) como ferramenta para auxiliar os docentes envolvidos no desenvolvimento de um “pensamento sustentável” na indústria da Construção Civil. Apresenta-se, primeiramente, a realidade da Construção Civil no estado do Espírito Santo, que servirá de cenário para justificar uma pesquisa de percepção ambiental. Em seguida, apresenta-se uma pesquisa desenvolvida entre alunos formandos de todas as instituições de ensino ligadas à Construção Civil nesse estado, com o intuito de avaliar a compreensão dos novos profissionais em relação aos impactos ambientais gerados por essa indústria ao longo de todo seu ciclo de vida. Finalmente, após a análise dos resultados da pesquisa, propõe-se aqui a utilização de novas bases científicas e de reforço à sua contextualização, através das reportagens (rádio/internet) aplicadas em sala de aula, oferecendo-se assim, uma forte integração da gestão das construções com o meio ambiente, além de gerar situações de aprendizagem mais atualizadas e enormemente contextualizadas. Palavras chave: Análise de Ciclo de Vida, Construção Sustentável, Contextualizacão. 1. Introdução Como se sabe, a comunicação via rádio é extremamente flexível, permitindo que as inovações de vanguarada sejam rapidamente distribuidas aos ouvintes interessados. A flexibilidade dessa mídia entra em sinergia com a internet, capaz de capturar e disponibilizar essas informações a qualquer momento, fazendo da mídia rádio/internet uma forte base instrumental para o ensino, dando mais erudição e diversão às aulas, além de criar um banco de dados de informações atualizadas das quais os docentes poderão se servir, gerando situações de aprendizagem sempre muito bem contextualizadas. Segundo Delors (2005), as tecnologias de informação podem representar um desafio para os professores, impulsionando o ensino através da individualização da trajetória educacional, conferindo importância a novas matérias e a novas competências, como a aptidão para encontrar, tratar e fornecer informação rapidamente, assim como a aptidão de resolver problemas. Para Lowman (2004), “além de oferecer abordagens individuais para o domínio do conteúdo, o ensino auxiliado pelo computador pode ajudar os estudantes a pensar mais eficazmente.” Para Le Boterf (2003), “é aprendendo a reconhecer os problemas e a classificá-los em relação a contextos que o profissional se tornará capaz não somente de aprender, mas de aprender a aprender.” A utilização de reportagens especializadas em meio ambiente via rádio e capturadas pela internet, quando utilizadas em cursos ligados à Construção Civil, encontra a força da contextualização através da transição dos problemas ambientais e de suas diversas soluções do mundo real para a sala de aula.


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Segundo Morin (2002), “o conhecimento das informações ou dos dados isolados é insuficiente. É preciso situar as informações e os dados em seu contexto para que adquiram sentido. Esse artigo utilizará o programa “Mundo Sustentável” da rádio CBN, figura 1, conduzido pelo Sr. André Trigueiro, repórter ambiental, para situar a Construção Civil no contexto da sustentabilidade.

Domingo, 08.05.05

Pesquisa do Ibope revela que grande parte dos brasileiros acha que o país pode ser invadido por causa das riquezas naturais > Ouça o comentário de André Trigueiro

Figura 1 – Ambiente de pesquisa no programa “Mundo Sustentável”

A vantagen da contextualização trazida por essa experiência pedagógica pode ser melhor percebida analisando-se alguns títulos de reportagens que poderiam habitar os cursos de gestão da Construção Civil no cotidiano das instituições de ensino, por exemplo: − “Green Building, ou construção sustentável, garante melhor desempenho energético, luminosidade, circulação de ar, reuso de água e redução dos atuais níveis de desperdício na construção civil”. Sábado, 20/09/03 (“Mundo Sustentável – André Trigueiro”); − “Projeto de casa ecológica, vencedor do Prêmio Procel 2003 na categoria Edificações, estende o conceito de construção sustentável, ou ‘green building’, para o conforto do lar.” Domingo, 19/12/04 (“Mundo Sustentável – André Trigueiro”). 2. Cenário da pesquisa - Indústria da Construção Civil no estado do Espírito Santo Da obra de Campos Júnior (1998), pode-se inferir que a trajetória da Indústria da Construção Civil no Espírito Santo passa pela fase da prosperidade na década de 70, devido ao farto financiamento público, e atinge a fase de crise na década de 80, quando as correção das prestações muito acima dos reajustes salariais estanca seu crescimento. Campos Júnior (1998) cita que “as perdas acumuladas de quase uma década de inflação alta tornaram-se insuportáveis no inicio dos anos 80, culminando em 1982 com a correção das prestações por parte dos agentes financeiros”. Foi naquele momento, motivado pela crise, que o empresariado capixaba se voltou para soluções empreendedoras. Campos Júnior (1998) cita que o setor da Construção Civil se voltou "para o atendimento do mercado de alta renda, aquele em que o comprador não depende de financiamento”. Um ícone das edificações capixabas na década de 80 em busca do mercado de alta renda é o edifício da sede do Centro de Comércio do Café do Espírito Santo, o Palácio do Café, inaugurado em 1987. Também nessa época a construção capixaba começou a trabalhar por administração em “condomínios fechados”, assumindo algumas vezes o papel de financiadora, além de praticar o escambo, no qual a falta de capital faz com que os materiais de construção se tornem referências monetárias. Essa abordagem histórica é importante porque justamente na fase do empresário empreendedor é que se iniciou o combate ao desperdício. Como a Construção Civil era


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caracterizada por uma enorme geração de entuho, toda luta contra o desperdício, em geral, se resumia na tentativa de minimização do entulho. Essa cultura de “desperdício = entulho” persiste até hoje, e representa um entrave cultural na busca de processos mais sofisticados de eliminação do desperdício, como a filosofia Lean construction ou Construção Enxuta. Basta citar que apenas uma construtora no Espírito Santo, a Mazzine Gomes Construtora e Incorporadora Ltda, se declara Lean Construction. A retomada da Construção Civil no estado do Espírito Santo foi facilitada pela sua especialização em segmentos industriais de porte e com grande ligação com o comércio internacional, como a Aracruz Celulose, a CST, a CVRD e a Samarco, as quais, junto às indústrias do café, do mármore e do granito, geraram, segundo o CREA, US$ 5,7 bilhões de receita no comércio exterior no ano de 2004. Além desses dados favoráveis, o estado é hoje a nova fronteira nacional do petróleo. Conforme dados do BANDES (Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo S/A), o Espírito Santo deverá receber, por intermédio da indústria do petróleo, investimentos de US$ 9 bilhões nos próximos cinco anos, passando de uma produção de 45 mil barris/dia para um milhão de barris/dia dentro de 15 anos. Todos esses dados confirmam as últimas pesquisas do IBGE que apontam para o Espírito Santo um crescimento médio anual acima da média brasileira, além de possuir a capital com a maior renda per capta entre as capitais brasileiras. Um belo exemplo da entrada do petróleo, que fomentou ainda mais a Construção Civil capixaba, pode ser verificado pelo lançamento de vários edifícios comerciais voltados para a atividade do petróleo em todo o Estado, com destaque para o Petro Tower Business, lançado em Vitória em 2004, novo ícone da edificação capixaba, conforme figura 2.

Figura 2 – Do Palácio do café ao Petro Tower Business, a busca pelo mercado de alta renda

O cenário atual de crescimento justifica a necessidade da indústria da Construção Civil do Espírito Santo sofrer pesquisas de intervenção no campo do ensino, para que o Estado reaja de forma competente às novas situações de complexidade que se empõem. 3. Medindo a eficiência do pensamento sustentável dos futuros profissionais da Construção Civil do Espírito Santo Sabe-se que a Construção Civil é responsável pelo consumo de aproximadamente 30% de todos os recursos naturais extraídos do planeta; e ainda, Segundo Adam (2001), os edifícios são responsáveis pelo consumo de 50% de toda a energia produzida no planeta, representando, desse modo, a atividade humana que gera maior impacto sobre o meio ambiente.


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Esse forte impacto sobre o meio ambiente, aliado ao animador cenário de crescimento, motivou uma pesquisa realizada em todas as instituições de ensino do Espírito Santo que possuem vínculos com a Contrução Civil, a fim de avaliar a eficiência do pensamento sustentável dos futuros profissionais da área. Nessa pesquisa foram entrevistadas todas as turmas de formandos dos cursos de Engenharia de Produção Civil, Engenharia Civil, Arquitetura e Técnico em Construção Civil de todo o Estado do Espírito Santo, num total de 7 instituições. A pesquisa se resumiu à seguinte pergunta: No seu entendimento, a indústria da Construção Civil gera um forte impacto sobre o meio ambiente? Os futuros profissionais tinham então as opções SIM e NÃO para uma resposta mais direta, e um espaço com o título “Comente:” para que pudessem justificar suas respostas. A pesquisa foi realizada de forma espontânea, ou seja, em nenhum momento o aluno fora forçado a emitir sua opinião. Foram registrados 410 relatórios, dos quais 69 foram eliminados por falta de comentários ou por comentários evasivos, gerando uma amostra final de 341 relatórios significativos, ou seja, espontâneos, completos e com respostas inteligíveis. Esses comentários foram agrupados e quantificados em cinco categorias de impactos, conforme tabela 1, acompanhando o ciclo de vida da Construção Civil: impactos gerados pela extração de matérias primas; impactos gerados pela fabricação dos materiais de construção; impactos gerados pela construção propriamente dita; impactos gerados pela manutenção e uso do empreendimento; impactos gerados pela demolição da obra. O resultado ideal (100%) seria alcançado se todos os futuros profissionais contemplassem em suas respostas o conhecimento dos impactos em todo o ciclo de vida da Construção Civil, completando uma área de 341 relatórios x 5 etapas do ciclo de vida. Mesmo aceitando a dificuldade de um resultado ideal, ele será usado como referência para cálculo da eficiência do “pensamento sustentável”. Importante observar que, mesmo que os impactos possuam intensidades distintas, no cálculo da eficiência eles terão o mesmo peso, pois esse cálculo trata da eficiência do “pensamento sustentável” e não de uma Análise de Ciclo de Vida. O cálculo da eficiência é feito pela razão direta da percepção real pela percepção ideal. A percepção real será a soma dos impactos percebidos (40+8+276+1+1), subtraida da percepção da não geração de impacto (13), enquanto a percepção ideal, conforme já explicado, equivale à percepção dos impactos em todo o ciclo de vida. Impactos ao longo do Ciclo de vida Impactos gerados pela extração de matérias primas (EXTRAÇÃO) Impactos gerados pela fabricação dos materiais de construção (FABRICAÇÃO) Impactos gerados pela construção propriamente dita (CONSTRUÇÃO) Impactos gerados pelo uso do empreendimento (USO) Impactos gerados pela demolição da obra (DEMOLIÇÃO) Não gera impacto

percepção 40 8 276 1 1 13

Tabela 1 – Pesquisa de percepção sobre geração de impactos ao longo do ciclo de vida da Construção Civil

Pode-se agora proceder ao cálculo da eficiência da seguinte forma: (40+8+276+1+1-13) / (341 x 5) = 0,1835 ou 18,35% de eficiência no “pensamento sustentável” dos futuros profissionais da indústria da Construção Civil. Interessante observar que a cultura do “desperdício = entulho”, comentada no item 2, aparece vinte anos depois em nova versão: a versão do “impacto ambiental = entulho”. A comparação entre a percepção ideal e a percepção real pode ser melhor visualizada pela


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figura 3.

não gera impacto demolição uso

real

construção

ideal

fabricação extração -50

0

50

100

150

200

250

300

350

Figura 3 – Comparação entre a percepção ideal e a percepção real

4. Avaliação dos resultados da pesquisa A medida da eficiência do pensamento sustentável de 18,35% deve alertar os docentes envolvidos não apenas pelo valor muito baixo, mas principalmente pela concentração da percepção dos impactos sobre a fase de construção. Essa percepção pode levar os futuros profissionais a grandes equívocos. Para ilustrar, pode-se imaginar os efeitos de uma construtora usando eficientemente as técnicas de “Construção Enxuta” sobre um empreendimento não sustentável. Essa construtora poderia gerar o mínimo de entulho possível sem, contudo, ter compromissos ambientais, como por exemplo, compromissos com o reuso da água, com a utilização de materiais e energias renováveis, com a eficiência energética, com a captação das águas das chuvas etc. A alta concentração da percepção dos impactos sobre a fase de construção torna-se ainda mais perigosa se avaliada com base nas declarações feitas em 2004 pelo Engenheiro Olavo Kucker Arantes, diretor de meio ambiente do SINDUSCON de Florianópolis, segundo o qual os custos da obra em 50 anos representam apenas 8% de todos os custos do empreendimento. Essa medida de eficiência poderia ainda ser pior se a pesquisa levasse em consideração os impactos gerados pelos transportes entre as fases e pela comercialização dos materiais. 5. Sugestão de novas bases científicas para o ensino da Gestão da Construção Civil Pode-se inferir, pela pesquisa, que os novos profissionais da Construção Civil não estão se apropriando dos conceito de cadeia de suprimentos ou cadeia de valor. Sugere-se aqui, então, um reforço nesses conceitos e a incorporação do conceito de ACV (mais abrangente) ou Análise de Ciclo de Vida, que, segundo Chehebe (1997) é uma técnica para avaliação dos aspectos ambientais e dos impactos potenciais associados a um produto, desde a retirada das matérias primas da natureza (berço) até a disposição do produto final (túmulo). É obvio que não se espera que um aluno de graduação desenvolva uma ACV completa, mas que pelo menos ele tome conhecimento da técnica e que avalie algumas ACV’s na tentativa de incorporar os conceitos de cadeia de valor e dos impactos ambientais gerados ao longo da cadeia. Com isso, certamente, o profissional da Construção Civil perceberá a sua área de atuação numa visão holística conforme figura 4.


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Transporte

Extração das matérias primas

Comercialização

Fabricação dos materiais de construção

Uso e manutenção

Canteiro de obras

Demolição

Figura 4 – Ciclo de vida da indústria da Construção Civil

6. Contextualizando a "Extração das Matérias Primas” Na reportagem de 22/11/2003, no programa “Mundo Sustentável” da CBN, André Trigueiro apresenta dados sobre os impactos ambientais da extração da areia lavada que movimenta R$ 2 bilhões por ano, sendo geralmente retiradas clandestinamente de rios e lagoas, gerando expressivo desastre ambiental. Na mesma reportagem é apresentada uma pesquisa de substituição da areia lavada na Construção Civil pelo pó de pedra (rejeito das pedreiras, chamado de areia artificial), com redução no impacto ambiental e redução nos custos. 7. Contextualizando a "Fabricação e o Transporte” Nesse caso em particular é preciso que se faça algumas inferências, ou seja, as reportagens não tratam especificamente de fábricas de materiais de construção ou de transportes associados à Construção Civil, porém, como se sabe, os deperdícios não estão ligadas aos produtos, e sim aos processos. Nesse caso pode-se usar em sala de aula uma gama de reportagens que tratam de energias limpas, contextualizadas para qualquer tipo de manufatura e transporte. Como por exemplo, na reportagem de 18/10/2003, no programa “Mundo Sustentável” da CBN, André Trigueiro apresenta dados sobre a produção do biodiesel a partir de certos vegetais. Esse combustível pode acionar a manufatura ou os transportes, a partir do funcionamento dos motores à diesel reajustados para esse fim, com redução considerável de gases de efeito estufa, de materiais particulados e, principalmente, do enxofre resultante da queima do óleo diesel. Já a entrevista de 16/11/2003 mostra as políticas públicas que colocam a Alemanha como líder mundial de energia eólica e um dos principais produtores mundiais de energia solar, possuindo a maior usina fotovoltaica do mundo. 8. Contextualizando a "Comercialização" Nesse item, a melhor vantagem que se pode tirar sobre a comercialização não é sobre o comercio direto e sim, sobre o comércio que pode incorporar o canal reverso da indústria da Construção Civil, auxiliando na minimização dos impactos ambientais. Pode-se definir logística reversa como a logística de trás para a frente, ou seja, um fluxo logístico do ponto de consumo para o ponto de origem. A indústria da construção precisa gerenciar não só os fluxos e conversões mas também a logística reversa, que dará “inteligência” a todos os insumos rejeitados por algum motivo. Para Rogers et al (1999), a logística reversa parte da coleta, passando pela embalagem e expedição, e, dependendo das condições da nova matéria-prima, ela pode retornar ao fornecedor, ser revendida, recondicionada, reciclada ou, em última instância, descartada. Na reportagem de 11/01/2004, por exemplo, André Trigueiro apresenta a bolsa de resíduos que funciona como classificados de jornal vendendo madeira, vidros, plástico, borracha, isopor etc. Ele informa que esse tipo de comércio não tem muita divulgação e que está sendo desenvolvido pelas Federações das Indústrias dos principais Estados. 9. Contextualizando a "Gestão dos Canteiro de obras”


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A quantidade de reportagens do programa “Mundo Sustentável” que trata especialmente dos canteiros de obras é bastante expressiva. Como sugestão, este artigo apresenta a reportagem do dia 20/09/2003, em que é divulgada uma pesquisa realizada pelo Departamento de Engenharia de Construções da USP. A pesquisa revela as perdas reais de material de construção em cem canteiros de obra, avaliando os materiais comprados em excesso ou de forma equivocada, que acabam em estoques ou mesmo estragados por deterioração ou mau uso. Os números divulgados são: 56% do cimento, 44% da areia lavada, 30% do gesso, 27% dos condutores, 15% dos tubos de PVC e eletrodutos. O grande mérito dessa reportagem é dividir a importância dos entulhos gerados pelas falhas internas com as perdas geradas por excessos de estoques, colocando os alunos e professores no centro da discussão sobre a Construção Enxuta que tenta puxar somente a produção necessária, utilizando para isso o Kanban como ferramenta. Pode-se dizer que o Kanban é a ferramenta que operacionaliza o Just-in-Time, puxando a produção no momento ideal, ou, como diz Slack et al (1996) “... no momento em que são necessários - não antes para que não se transformem em estoque, e não depois para que seus clientes não tenham que esperar”. 10. Contextualizando o "Uso e a Manutenção” do empreendimento Também nessa área as reportagens se encontram em grande quantidade e com muita diversidade, permitindo que o professor encaminhe seu alunado para áreas diversas da Construção Sustentável. Este artigo não indica nenhuma reportagem em especial, mas sugere a navegação pelo programa “Mundo Sustentável” para colocar o alunado no contexto dos seguintes temas: projeto casa ecológica (prêmio Procel); construção sustentável; hotéis sustentáveis; projetos de reuso de águas; uso das águas de chuva; experiências bem sucedidas na área de esgoto; uso de coletores solares; coletores solares feitos de material reciclado; os problemas do lixo urbano; reciclagem de lixo orgânico; mudanças nas regras dos condomínios; conforto ambiental; biodigestores etc. 11. Contextualizando a “Demolição” do empreendimento Mais um excelente exemplo de Logística Reversa aplicada à Construção Civil, no melhor estilo Just-in-Time, pode ser extraído do programa “Mundo Sustentável” da rádio CBN, apresentado por André Trigueiro em 01/05/2004. O exemplo dessa reportagem pode ser utilizado tanto para a fase de Construção como para a fase de Manutenção e Uso, mas é especialmente importante para a fase de demolição. A reportagem trata do modelo de gestão dos resíduos sólidos implantado pela Prefeitura de Belo Horizonte através de suas usinas de reciclagem de entulho, que funcionam desde 1985. O surpreendente nesse caso é verificar como a prefeitura levou às últimas conseqüências a dimensão social do desenvolvimento sustentável, respeitando a tradição local de coleta de entulho. Foi realizado o cadastramento de 10.000 carroceiros, que fazem a coleta a partir das “portas das obras” até os locais de triagem, incorporando totalmente esses profissionais à cultura da sustentabilidade. A prefeitura ainda emplacou todas as carroças cadastradas, além de oferecer serviços de veterinários aos animais. Após o descarregamento nas centrais de triagem, enchem-se as caçambas dos caminhões que levam o entulho às usinas de reciclagem e, em seguida, executa-se o seguinte sistema tradicional: − O entulho é espalhado para a retirada de impurezas; − São criados dois monturos distintos: um amarronzado, com restos de materiais cerâmicos, e outro acinzentado, com restos de concreto e argamassas diversas.


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Os monturos são triturados; os resíduos amarronzados são destinados principalmente para a confecção de base e sub-base de asfalto; os resíduos acinzentados são peneirados e usados como matéria-prima para a fabricação de alvenarias (geralmente utilizadas em escolas públicas e unidades habitacionais). Com esse projeto, a Prefeitura de Belo Horizonte economiza por ano R$ 870.000,00 com compra de matéria-prima, além de retirar de terrenos irregulares 116.000 toneladas de entulho. 12. Conclusão Este artigo mostra principalmente a importância da avaliação do ensino-aprendizagem em uma dimensão ampla, para que as “cegueiras paradigmáticas” sejam curadas, colocando as instituições de ensino no centro das transformações culturais, políticas e sociais. Neste artigo fez-se uma avaliação em todas as instituições de ensino ligadas à indústria da Construção Civil no Estado do Espírito Santo, onde foram ouvidos seus futuros representantes do mundo do trabalho, constatando-se que o “pensamento sustentável” em vigor é o mesmo do senso comum, ou seja, está fortemente correlacionado com a geração de entulho que ocorre nos limites dos tapumes das obras, geralmente por falhas internas. Discutiu-se também o motivo que pode ter gerado essa percepção equivocada a partir da década de 80, bem como suas mazelas, mas, principalmente, discutiu-se uma solução possível e simples de ser aplicada em sala de aula. Conclui-se portanto, neste artigo, que a apropriação dos conceitos fundamentais da Análise do Ciclo de Vida dos produtos, aliada à forte contextualização obtida das reportagens mais recentes e abrangentes possível (rádio/internet), oferece aos futuros profissionais o novo paradigma das Construções Sustentáveis. Referências ADAM, R. S. Princípios do Ecoedifício: Interação entre Ecologia, Consciência e Edifício. São Paulo: Aquariana, 2001. CAMPOS, Jr. - Crescimento urbano e expansão do mercado imobiliário na grande Vitória. Vitória: Inocoop-ES, 1998. CHEHEBE, J.R.B. - Análise do Ciclo de vida dos Produtos: ferramenta gerencial da ISO 14000. Rio de Janeiro: Qualitymark Ed.,CNI, 1997. DELORS, J. (2005) – Educação para o século XXI: questões e perspectivas. Porto Alegre: Artmed,2005. LE BOTERF, G. - Desenvolvendo a competência dos profissionais. Porto Alegre: Artmed, 2003. LOWMAN, J. - Dominando as técnicas de ensino. São Paulo: Atlas, 2004. MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Brasília: UNESCO, 2002. ROGERS, Dale S.; TIBBEN-LEMBKE, Ronald S. Going Backwards. Reverse Logistics Practice. Reverse Logistics Executive Council, 1999. SLACK, Nigel; CHAMBERS, Stuart; HARLAND, Christine; HARRISON, Alan; Johnston, Robert. Administração da Produção. São Paulo: Atlas, 1996. TRIGUEIRO, A. - Programa: Mundo Sustentável. Disponível em www.cbn.com.br . ARANTES, O. K. - Integração Empresa-Escola na era do conhecimento. Florianópolis, ENEGEP, 2004.

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