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distribuição gratuita . maio.junho.julho . 2008 . #01 . ISSN: 2176-1108

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Revista de Arte e Cultura do Pontão Aldeia Digital jun–ago.2008 volume 1, número 1 ALDEIA – Agência de Desenvolvimento Cultural, Educomunicação, Infoinclusão e Audiovisual

DEXTÁ – Revista de Arte e Cultura do Pontão Aldeia Digital jun–ago. vol. 1, n. 1, 2008 ISSN: 2176-1108 Coordenação Editorial: Simone Lima Ricardo Sabóia Conselho Editorial: Alexandre Câmara Vale Carmem Luisa Chaves Glauber Filho Haroldo Mendonça Hélcio Brasileiro Leonardo de Sá Márcia Bitu Moreno Preciliana Barreto Ricardo Salmito Valdo Siqueira Publicação eletrônica com periodicidade trimestral, organizada pela Aldeia – Agência de Desenvolvimento Cultural, Educomunicação, Infoinclusão e Audiovisual. Dextá destina-se a discussão de temas em arte, cultura e a divulgação das ações desenvolvidas pelos Pontos de Cultura brasileiros. Redação: Beatriz Jucá Projeto Gráfico e Editoração: Samuel Tomé Fotografias: Anderson Gama, Beatriz Jucá, Elitiel Guedes Endereço: Rua Silva Jatahy 15 # 902 Meireles CEP 60165 – 070 www.aldeia.org.br aldeia@aldeia.org.br www.issuu.com/aldeia www.twitter.com/revistadexta Fortaleza, Ceará - Brasil

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conteĂşdo

................ponto a ponto..................................................06 ...................................................rio cariri................10 ...........................cidade lĂ­quida.....................................12 ........................................fantasmas e visagens...................16 ..........................................................eco.........................18 ...............festival jovem.......................................................22 ...................povo xucuru...............................................24 ..........................imagem-espelho.............................................27

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As formas de comunicação e sociabilidade que se desenvolvem no ciberespaço têm provocado controvérsias. De um lado aqueles que acreditam que o uso intenso de ferramentas imateriais, comunicação à distância e conexão facilitam a vida social e democratizam a produção e difusão cultural. De outro, aqueles que vêem o crescimento e desenvolvimento das novas tecnologias como ameaça à tradição e às culturas que se estabeleceram sob o signo do livro impresso e da escola. Esse debate, contudo, está superado, pois o que acompanhamos não é um abandono de formas tradicionais pelas tecnologias digitais. O que acontece é um reordenamento de técnicas e uma reconfiguração dos meios e de seus resultados. A cultura contemporânea cada vez mais incorpora novas técnicas e mecanismos de comunicação em seu cotidiano. É urgente, então, pensar, discutir e democratizar os meios de comunicação massivos e potencializar os ambientes midiáticos colaborativos. A ALDEIA desde 2004 norteia suas ações para o desenvolvimento do olhar crítico sobre a mídia, concebendo e executando diversos projetos que sensibilizam jovens e adultos para a importância das tecnologias comunicacionais e para a apropriação dos meios de produção cultural, estimulando-os a não serem receptores de informações, mas atores sociais ativos no processo de produção, circulação e consumo dos bens culturais. A ALDEIA acredita que o cenário contemporâneo exige cada vez mais sistemas interativos e não lineares que favoreçam ações vivas de compartilhamento em ambientes de cooperação para o resguardo de territórios da memória coletiva e difusão cultural. Os usos de suportes digitais, as potencialidades das redes colaborativas entre os Pontos de Cultura, nos instigaram a lançar a revista DEXTÁ, uma ferramenta significativa à vitalidade dos Pontos de Cultura, pois pretende, ao mesmo tempo, ser um suporte das ações realizadas entre o Pontão Aldeia Digital e os Pontos de Cultura do Estado do Ceará e um canal de integração e colaboração entre os Pontos, no sentido de construção de uma consciência grupal, vislumbrando a criação de espaços para uma percepção comunicativa, dialógica, interativa e solidária de nossas atividades culturais.

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DEXTÁ - vem de “destar” síncope da expressão “deixa estar”. No arrastado da fala cearense se escuta DEXTÁ (dêxtá). Deixa estar não é uma tradução nativa de "laissez faire, laissez aller, laissez passer" (deixai fazer, deixai ir, deixar passar) da filosofia econômica que defendia a existência do mercado livre. Destar significa espere, aguarde, no sentido que brevemente algo inesperado vai acontecer, em forma de revide, uma surpresa, uma desforra. Destar é também um basta numa conversa, no sentido de parar o assunto. Usamos a palavra DEXTÁ pela plástica da conjugação das letras, pela força da sonoridade da palavra.

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Ponto a Ponto Fundação Casa Grande

Uma casa de gente grande Arqueologia. Misticismo. Folclore. Esse é o tripé que sustenta as histórias e tradições do município de Nova Olinda, localizado na região do Cariri, no Ceará. A origem da cidade se entrelaça com a da Casa Grande, que hoje sedia a Fundação que trabalha a comunicação social entre jovens e adolescentes, possibilitando transformações sociais na cidade. Durante o ciclo do couro, vaqueiros descansavam nas margens do Rio Cariri, que banha a cidade, e não demorou que o local se transformasse em fazenda. De início, foram construídos ali uma casa grande, uma capela e um cemitério. A história do município de Nova Olinda é repleta de lendas e narrativas sobrenaturais. Conta-se que a origem de seu nome se encontra na missa rezada por um frade vindo de Olinda, que após ter hospedagem negada na casa grande, deu esse nome à cidade a fim de registrar sua passagem, não esquecendo de amaldiçoála ao dizer que o local deveria permanecer com o nome “Tapera” até o fim de sua quinta geração. Se no passado a Casa Grande se negava a receber pessoas, hoje ela encontra-se de portas abertas para estudantes, professores ou curiosos em conhecer as atividades desenvolvidas por lá, basta que o visitante chegue com algo a ensinar. Nos anos 70, Allemberg Quindins realizou pesquisas sobre as lendas locais e acabou desvendando todo um acervo arqueológico, a partir do qual foi criada a Fundação Casa Grande, em 1992, no casarão que estava em ruínas e foi tombado como patrimônio histórico do município. Funcionam, hoje, no local o Museu do Homem Kariri, a Cooperativa dos Pais e Amigos da Casa Grande (que gerencia os pais dos jovens da entidade na disponibilização de suas casas como pousadas) e uma espécie de Centro Cultural. Entre as atividades desenvolvidas, estão a rádio comunitária, a produção de vídeos e a banda de latas. Os jovens da Casa Grande são referências no Ceará e no Brasil, sempre divulgando “o mundo do sertão” e se apoderando da cultura popular no exercício da cidadania. <

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na minha cidade passa um rio

Rio Cariri O Rio Cariri é importante tanto para os moradores das áreas próximas quanto para as pessoas que passavam por ali em períodos coloniais. O ciclo do couro, por exemplo, percorreu o caminho das águas do rio Cariri, cujas margens serviam como local de descanso para os vaqueiros. Os atuais habitantes de Nova Olinda reconhecem o valor desse rio para a população, mas temem o futuro por conta da poluição do local. Dona Francisca da Silva sai de casa às 7h para lavar roupas no rio. Ela conta que o rio é muito importante e que quando falta água na cidade, o movimento lá só aumenta: “A gente junta meio mundo de gente e vem lavar roupa aqui”. O pescador Romeiro Gouveia Lima salienta que o Rio Cariri traz muitas coisas boas para ele e para a comunidade, mas lembra que se não estivesse tão poluído, os benefícios seriam maiores. “No rio, tem muito peixe, mas só que eles são impróprios para o consumo”, explica. Ele conta que todo o esgoto da Cidade de Nova Olinda desemboca no rio, e aí “nem tem água e nem peixe” para a população. Romeiro compara o rio hoje a um grande esgoto, mas admite que muitas pessoas ainda pescam lá. Ele salienta que o problema maior é quando a o rio seca, pois a única água que fica é a do esgoto. E aí “não tem nem como levar seus filhos mesmo pra pescar no rio”, lamenta. Ele sugere que os esgotos sejam desviados para locais mais apropriados, pois teme que “daqui a uns dias, não tem mais nem onde a gente pescar”. <

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memória

P

ássaro Vermelho. Esse é o significado da palavra tupi Guaramiranga, que nomeia uma cidade localizada na região serrana do Ceará. Guaramiranga, que possui 108Km² e 5800 habitantes, fica a menos de 100 km de Fortaleza. É a cidade da arte, da tranqüilidade, das belezas naturais. É uma cidade de cores: seja de flores e pássaros ou das roupas estendidas nas escadarias da igreja, que servem de varal. Um pedacinho de céu cuja história funde passado e presente, sendo contada e reconstruída todos os dias por meio de culturas tradicionais, inventadas e adquiridas. Em uma visita ao local, as imagens ampliam o sentido de seu nome, revelando um lugar de muitas cores. As flores, tradicionalmente cultivadas em Guaramiranga, ganham uma vibração especial no estado mais claro do Brasil e contribuem para a beleza natural de uma cidade que se destaca não só por sons, sabores e tons. Quando se fala em Guaramiranga, os aspectos mais lembrados são as baixas temperaturas, a música, o teatro e as cores da cidade. Além do Festival de Jazz e Blues, a cidade recebe, todos os anos, o Festival Nordestino de Teatro, um dos maiores eventos culturais do Ceará desde 1993. A cidade é emersa em belezas naturais, clima agradável e extensa tradição cultural.

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Guaramiranga atrai apreciadores da arte e da cultura nos festivais de teatro, de música, de flores, de gastronomia, de fondue e nos encontros de cordelistas. Com a última reserva de vegetação atlântica do Ceará, a cidade atrai ainda interessados em esportes radicais e ecologia que exploram trilhas, morros e cachoeiras. Os moradores da cidade das flores e dos pássaros vermelhos, no entanto, não se contentam apenas com o considerável fluxo de turistas e a produção de grandes festivais. A comunidade quer intercambiar sua cultura e identidade através das novas tecnologias da informação, visualizando nelas uma forma de interligar cidadania, economia solidária e tradição cultural local. Para isso, a Associação dos Amigos da Arte de Guaramiranga - AGUA - desenvolve oficinas de comunicação e audiovisual. TV Ecos, Jornalecos, Memorial Digital da Serra, Ecos Revista Fotográfica, Núcleo de Cultura Infantil e Agência Ecos/publicidade social. Até agora, foram cinco os produtos desenvolvidos como forma de integrar a comunidade e mostrar uma Guaramiranga social, repleta de jovens ávidos e mentes de idéias dedicados às artes e à cultura. <


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narrativas fantĂĄsticas

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Fantasmas e Visagens Dona Zilda Avardo lembra que a cidade de Guaramiranga já foi chamada de Conceição. Ela diz que tem até um livro sobre a história do município, mas nunca leu. O que ela recorda bem são histórias contadas, como a descrição das lojas de marinheiros e dos hotéis de antigamente. Dentre essas histórias, algumas mais insólitas se destacam: fantasma em forma de lobo, mulher-serpente, mangueira das almas, pessoas que desapareciam misteriosamente. Antônio Laureano conta que havia um rapaz em Guaramiranga que gostava de sair por volta da meia noite para encontrar a namorada no distrito de Pernambuquinho, vizinho à cidade. Um dia, o rapaz ouviu gritos chamando seu nome na estrada escura e desatinou a correr. Quanto mais ele corria, mais os gritos pareciam próximos. Quando ele olhou para trás, viu um fantasma em forma de lobo. Maria José Cruz diz que só lembra a lenda sobre dona Maria Arruda, uma senhora rica que não fazia caridade a ninguém. Ela morreu de uma dor de cabeça muito forte, e o marido passou a gastar sua riqueza construindo capelas em prol da salvação da esposa. Um dia, Maria Arruda apareceu ao marido na capela e disse que não adiantava gastar tanto dinheiro para salvá-la, pois seria em vão. Daí a uns tempos, as pessoas que iam à capela começaram a ver coisas estranhas e ouvir estrondos. Um dia, descobriram que a tal mulher havia virado uma serpente. Laureano lembra ainda de um fantasma que aparecia próximo a uma mangueira, conhecida hoje por “mangueira das almas” e da história de um idoso que desapareceu misteriosamente. Ele conta que a família procurou o homem em todos os lugares, pedindo a ajuda até da vidente. Mas um dia, um cara disse que seus cachorros chegaram fedendo e foi aí que encontraram os ossos do pobre senhor. Essa história, garante Laureano, “foi verdade mesmo”. <

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entrevista

ECO O coordenador da Escola de Comunicação da Serra (ECOS), Luciano Bezerra, revela o perfil de uma entidade capaz de impactar positivamente a cidade da arte, da tranqüilidade e das belezas naturais. Ele fala sobre o ensino, a diversidade temática e a juventude criativa de Guaramiranga.

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Como surgiu o Ponto de Cultura ECOS de Guaramiranga? Era um sonho antigo de nós que fazemos a AGUA. Tínhamos implementado um projeto para o desenvolvimento humano de jovens pela via da arte, e acalentávamos a idéia de termos também um projeto que trabalhasse a comunicação, utilizando-se das atuais tecnologias existentes, pois sabíamos que seria um grande atrativo e haveria uma boa resposta por parte dos jovens, e a AGUA poderia contribuir mais eficazmente para a inserção socio-cultural em Guaramiranga nesse moderno mundo das comunicações e da tecnologia. Qual o público-alvo envolvido diretamente no projeto? No primeiro momento do projeto, atendíamos jovens a partir dos 14 anos, mas hoje já desenvolvemos atividades também para as crianças a partir dos sete anos, envolvendo moradores de Guaramiranga e também habitantes de outras cidades do Maciço de Baturité. Qual o principal objetivo quando se implementou a entidade e quais as principais ações que vocês desenvolvem atualmente? Nosso objetivo principal é contribuir de uma forma consistente para o desenvolvimento humano de crianças e jovens. Atualmente a AGUA desenvolve simultaneamente quatro projetos. O Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga, que neste ano de 2009 estará na sua décima sexta edição e já é consolidado como um dos maiores eventos de artes cênicas da região Nordeste. O projeto Cidade da Arte que, em parceria com o Instituto Ayrton Senna, desenvolve a pedagogia para o desenvolvimento humano de crianças e jovens, pela via da arte. Notadamente, a música é a linguagem mais forte onde temos a expressão dos grupos: Tambores de Guaramiranga, Banda Som da Águas, Grupo de Violões e Orquestra Cidade da Arte. A ECOS – Escola de Comunicação da Serra, que é um conjunto de oficinas e

equipamentos de comunicação e cultura, onde os jovens atendidos participam de oportunidades educativas a partir do acesso e do estudo das linguagens: cinema, vídeo, fotografia, jornal, informática, internet; e cujas atividades descentralizadas atendem a comunidades de núcleos urbanos e rurais dos municípios serranos do Maciço de Baturité. O Centro Técnológico AGUANET, que também em parceria com o Instituto Ayrton Senna, integra com outras instituições uma rede do Programa Comunidade Conectada presente em somente mais quatro capitais brasileiras, além de Guaramiranga. Nesse último, através da informática, num centro com 10 computadores conectados à internet, crianças, jovens, idosos e comunidade em geral têm acesso ao mundo da internet e informática, com uma orientação pedagógica que se utiliza dessas ferramentas para o desenvolvimento humano. Quando a Aldeia compartilhou a Formação em Audiovisual e Software Livre em Guaramiranga, houve uma revitalização do Cineclube que já existia aí. Como acontecem as exibições hoje? Houve sim! A formação, abrangendo os aspectos conceituais, técnicos e práticos, ampliou bastante os horizontes da garotada no tocante aos conhecimentos essenciais à nossa escola de comunicação. De uma vez só dando uma base a compreensão, assim como abrindo novas perspectivas de estudo; Ainda a capacidade dos ministrantes, com notório conhecimento, experiência e o tempo de "estrada" dos profissionais que nos falaram, possibilitou com isso uma informação mais "peneirada" e concisa do que realmente é interessante absorver no campo da cultura livre. Trouxe uma renovação para o cineclube, e hoje funcionamos com regularidade constante com exibições semanais, assim como descentralizamos e estamos indo à comunidades, escolas, teatros e em nossa própria sede. Concentramos esforços no sentido de aumentarmos e qualificarmos nosso acervo videográfico.

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Qual a importância dos jovens dominarem o uso das tecnologias aplicadas às áreas de indústria cultural, turismo e educação em Guaramiranga? Porque esse é o caminho primordial de desenvolvimento de Guaramiranga, assim como toda a região do Maciço de Baturité. Investindo no aprimoramento técnico – uso das ferramentas tecnológicas, e na compreensão conceitual do tema – indústria cultural, turismo e educação, nas oficinas de formação que ministramos, temos mais chances de promover o potencial desses jovens dentro de um fluxo natural das vocações do lugar, revertendo esse crescimento cultural das pessoas, para o crescimento mais consciente da cidade e da região. Estamos alimentando incessantemente um banco de imagens e pensamentos - uma memória do lugar que será vital nesse processo de desenvolvimento cultural. Os jovens e seus estudos são aí instrumentos de um processo novo, ventilando e potencializando esses novos canais da comunicação e da tecnologia, de uma vez só ligando Guaramiranga ao mundo e o mundo à Guaramiranga. Como é, efetivamente, o projeto da ECOS? Criada em 17 de fevereiro de 2006, a ECOS é Ponto de Cultura do Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura e tem como objetivo

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norteador desenvolver competências humanas, promovendo o acesso as novas tecnologias como uma via privilegiava para que os jovens participem, crítica a ativamente, dos processos de democratização, preservação e multiplicação dos bens e das riquezas culturais - incluído o conhecimento e a comunicação de suas comunidades e de seu País. Caracteriza-se como um conjunto articulado de cursos de formação (vídeo, técnica de câmera, operação de ilha de edição, roteiro e produção, fotografia, jornalismo cultural e comunitário, informática, design gráfico e comunicação virtual) e grupos de produção de comunicação audiovisual (vídeos, filmes, documentários, dvd’s, fotografia, boletim informativo eletrônico, design gráfico, blogs, catálogos, acervos de memória, cobertura de festas e acontecimentos culturais, etc.), cujo eixo estruturante sustenta-se nos conceitos: novas tecnologias da informação e da comunicação; cidadania cultural e economia da cultura. Aprendendo a utilizar as novas tecnologias da informação e da comunicação como ferramentas de inserção na sociedade do conhecimento e no campo das atividades produtivas, os jovens de famílias da região do Maciço de Baturité, organizam-se em núcleos destinados à produção de comunicação cultural com finalidades educativas, culturais e de geração de renda.


Como tudo isso é organizado dentro da ECOS? NÚCLEO DE AUDIOVISUAL: Acervo, pesquisa e produção visual e sonora; Ilha de Edição de som e imagem; Estúdio de gravação sonora;TV Ecos. NÚCLEO DE FOTOGRAFIA: Revista fotográfica; Memorial digital. NÚCLEO DE JORNALISMO COMUNITÁRIO: Jornalecos. NÚCLEO DE INFORMÁTICA E INTERNET: Aguanet – Comunidade Conectada; PONTINHO DE CULTURA CINE ECOS: Ligado ao Programa Cine + Cultura do Ministério da Cultura. Como você avaliaria os resultados do trabalho da ECOS até agora? O que mudou para a cidade e para a comunidade? Os resultados são bastante impactantes na comunidade, pois os jovens lêem sua comunidade e, com bastante qualidade técnica, expõem essas “percepções” em sessões audiovisuais nos mais diversos pontos de nossa cidade. As pessoas se vêem, se encontram, dialogam e preenchem um espaço antes inexistente de intercâmbio. O que virá daí, não sei bem ao certo, mas com certeza algo novo e mais profundo. A comunidade quer acontecer e aparecer – um novo movimento está em franca expansão.

Quais aspectos você destacaria como importante nas ações de integração e colaboração realizadas com os Pontões de Cultura? A capacitação em novas tecnologias, as novas informações trazidas acerca das tendências mais modernas nas áreas da comunicação, o estímulo dado aos nossos jovens por estes contatos com outros jovens já mais atuantes e experientes e a possibilidade de novas parcerias em novas redes de produção. Quando encerra o projeto do Ponto de Cultura da ECOS e quais as perspectivas para dar continuidade ao trabalho desenvolvido? Não temos previsão de encerramento, é um projeto de continuidade que a partir de uma instrumentalização de nossa escola, de uma formação continuada, o jovem possa ser o ator principal desse enredo, dando vazão ao seu universo criativo e antes inexplorado. A força desses jovens e de sua expressão é a grande inspiração da AGUA na busca de novas parcerias para manter vivo e crescendo esse novo ciclo em nossa cidade. <

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especial

FESTIVAL JOVEM

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Q

uatro de novembro de 2008. Fortaleza começava a receber jovens de vários estados do Brasil, Argentina e Uruguai para um evento com os propósitos de estimular um intercâmbio de experiências e apresentar um panorama da produção audiovisual de jovens oriundos de projetos sociais. Trata-se do 4º Festival de Jovens Realizadores de Audiovisual do Mercosul, uma realização da Aldeia (CE). Os espaços disponíveis no Festival Jovem reuniam interessados por cinema, professores e alunos da rede pública de ensino. Além da Mostra Caleidoscópio (competitiva), o evento contou com o Seminário Educação e Audiovisual (que debateu a utilização de recursos, técnicas e obras audiovisuais no conjunto das atividades na Escola) e do Circuito Caleidoscópio (que disponibilizou oficinas de Fotografia, Making Of e de Introdução à Linguagem do Vídeo para alunos de escola pública). Ao todo, foram quatro dias de discussões, oficinas, mostras e troca de idéias. Os vídeos exibidos percorriam as mais diversas temáticas. Tradições culturais regionais. Contos digitais. Feiras. Vida de personalidades. Lendas locais. O maior destaque da mostra foi a história de um povo guerreiro, cujas lutas e conquistas se personificam na imagem do cacique Xicão Xucuru. O vídeo homônimo ganhou o primeiro lugar no festival e teve como representante uma das diretoras, Eliane dos Santos, que recebeu o troféu Caleidoscópio com um largo sorriso. A premiação de segundo e terceiro lugar foram, respectivamente, para Ya Pasó Todo, do uruguaio Santiago Ventura, e para Cortizônia, uma realização coletiva do Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias, de São Paulo. O melhor vídeo por voto popular ficou com Cola Aí!, também do Instituto Criar, e o troféu Unicef foi para os jovens da Associação Imagens Comunitária, de Minas Gerais, pelo vídeo Mulher Negra. Certamente, o momento mais emocionante do encerramento do festival não foi o da premiação. A alegria pelos encontros e trocas de experiências se misturava com as lágrimas de quem já sente uma saudade plantada ao longo do evento. A solenidade de encerramento acabou sendo um espaço destinado não só à premiação, mas também à despedida que promete estender os laços por meio das redes de relacionamento em ambientes virtuais e ao desejo do reencontro na próxima edição do Festival Jovem. <

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perfil

Povo Xucuru “Ao pensar na Nação Xukuru, uma sucessão de imagens e sons ressurge na cabeça”, diz Eliane dos Anjos. A força do ritual sagrado Toré, o verde das matas e as pessoas se unindo em torno de um objetivo maior: a luta pela terra. Ainda no período de colonização, as aldeias da serra de Ororubá (Pesqueira-PE) começavam a ser ocupadas por fazendeiros e arrendatários, marcando o início de uma série de perseguições que faria o povo Xukuru lutar até hoje. Aos poucos, a história desse povo misturava medo e coragem e associava-se a um personagem principal: o cacique Xicão.

Da memória, para o vídeo. A história do cacique foi reconstituída sob a direção da jovem índia Eliane, através de um projeto desenvolvido pela

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Cabra Quente Filmes com o objetivo de resgatar a cultura e a identidade dos Xukurus de Ororubá. “O audiovisual veio da necessidade de relatar da nossa maneira o que acontece com o nosso povo, de passar a nossa verdade com a nossa linguagem”, explicou Eliane.

Além do documentário Xicão Xukuru (16´), foram realizados outros três vídeos com o intuito de preservar a história e a cultura da tribo. Sua língua materna, por exemplo, se perdeu ao longo do período de colonização, quando foi proibida de ser falada pelos índios. Hoje, o idioma oficial é o português, mas algumas palavras da língua antiga ainda são pronunciadas e ensinadas pelos índios mais velhos, embora não se conheça


sequer seu tronco lingüístico. “As palavras soltas são estudadas nas escolas indígenas, e estamos pensando em um documentário com os nossos mais velhos para que as registremos e para não perdermos o que ainda temos”, explica Eliane.

“Aprender como manusear uma câmera foi uma das melhores emoções da minha vida, algo eterno e marcante.” Trinta jovens indígenas participaram de oficinas audiovisuais para o desenvolvimento desses filmes. A intenção era retratar a própria história, uma forma de reforçar a identidade Xukuru e dar créditos às suas conquistas, lutas e lideranças. “A cada passo da produção, vi o suor no rosto dos meus colegas. O gosto e o amor

com que todos se dedicavam. Não tem como esquecer. Foram grandes emoções, os laços ficaram mais fortes”, comenta Eliane. O povo Xukuru ainda hoje enfrenta problemas de disputa de terras. Eliane lamenta a criminalização dos parentes e ressalta o sofrimento que seu povo viveu durante tantos anos, mas comemora ter encontrado no audiovisual uma forma de eternizar as memórias de sua gente: “Aprender como manusear uma câmera foi uma das melhores conquistas da minha vida, algo eterno e marcante. Foi como estar sonhando, acordar e ver que é realidade. Mais contente fiquei em saber que de alguma forma iria contribuir com a história do meu povo”. O vídeo Xicão Xucuru foi premiado no 4º Festival de Jovens Realizadores de Audiovisual do Mercosul em primeiro lugar na Mostra Caleidoscópio (competitiva). Para Eliane, esta foi uma experiência incrível. Ela diz que o resultado foi inesperado devido à qualidade dos vídeos exibidos no festival, mas visualiza na premiação um reconhecimento pelo esforço de sua tribo. Segundo Eliane, todo o povo Xukuru de Ororubá ficou feliz pela vitória, parabenizando os índios realizadores diversas vezes. Ela, que considera Xicão um verdadeiro pai, garante que as palavras dele são o lema de seu povo: “Em cima do medo, coragem!”. E que venham novas conquistas.

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Eliane conta a história dos Xukurus de Ororubá “Uru é um pássaro que tem na mata e ubá é um pau, ai faz a junção e fica Xukuru do Ororubá, em correlação ao respeito do índio pela natureza. Desde o período da colonização, o nosso povo vem passando por um árduo processo de sofrimento e de perdas irreparáveis. As principais perdas foram a da língua materna, a do nosso território e a dos entes queridos que eram verdadeiros guerreiros. Mas isso fez com que nos tornássemos cada vez mais fortes. A cada gota de sangue derramado, nosso povo se fortalecia e se organizava. Em meados de 1987, o grande Xicão assumiu o cacicado, e a luta pelo reconhecimento do povo Xukuru como povo indígena e pela reconquista do nosso território. Passamos por um longo período de retomadas das nossas terras. A primeira retomada foi no nosso lugar mais sagrado: o lugar da pedra do rei do Ororubá. Nesse momento, começaram as ameaças aos nossos líderes por parte de fazendeiros. Em 1988, aconteceu uma tragédia: o assassinato do nosso líder, o cacique Xicão. Essa foi a maior das perdas e a pior covardia. A partir daí, o filho de Xicão, Marcos, assume o seu lugar, reiniciando mais uma etapa da luta. Hoje, pesa muito a criminalização em cima das nossas lideranças, do nosso cacique e de outras pessoas das nossas aldeias. Porém, isso vem aumentando cada vez mais. Não sabemos até onde vai, mas continuaremos firmes e fortes, unidos e com fé em pai Tupã (Deus) para vencermos mais etapas, conscientes de que não vai parar por aqui. Ainda virão mais coisas, pois enquanto existirmos, e a perseguição continuará.” <

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artigo

Valdo Siqueira

H

oje, passados pouco mais de cem anos desde seu surgimento, já há muito se tem admitido seus conceitos e percebe-se legítimo o deslocamento da chamada “Sétima Arte” da condição de mera arte do registro da curiosidade humana à pretensão de linguagem artística emancipada e em freqüente evolução. Ressalto que, ao findar do século 19, céticos, não havia nenhuma reflexão filosófica que sustentasse a idéia de que a expressão cinematográfica se tornaria madura, posto que o filme despertava no público, à época, o estranhamento igual ao daqueles que se deparavam pela primeira vez com uma tela impressionista. O público que afluía às salas de exibição reagia assustado com a novidade do invento, ante o aparecimento de uma projeção de luz que animava os movimento de fotografias. Mais de duas décadas se passaram até que o cinema fosse aceito legitimamente como uma nova linguagem, muito pelo esforço de desbravadores autores dessa nova arte, cineastas e pensadores. Poucos foram os intelectuais que reconheceram rapidamente tal apreciação, certamente. Entretanto,

alguns poucos se mantinham atentos a este, como a outros temas recém surgidos, por exemplo, a psicanálise. Nesse ponto, Walter Benjamin reconhece no espaço da grande tela uma forma inexaurível de expressão humana, capaz de ser assimilado nos meios mais populares. Seus alicerces são as técnicas de reprodução. Em alguma medida, Benjamin empenha-se em chamar a atenção para o sono em que se encontra mergulhado o mundo da arte, capitalista por excelência, além de atentar para a necessidade de compreender-se a consciência coletiva gerada pelos que se encontram despertos às mudanças. Utilizando-se dos parâmetros de uma reprodutibilidade cinematográfica, distinta das demais obras, lança a dialética sobre o que estava estabelecido e imóvel no espaço da tela, como também fora dela, buscando dimensionar, como fizera Marx de forma quase premonitória, as transformações que poderiam ser operadas no mundo prático a partir dos novos conceitos e produtos, reprodutíveis pelo cinema, o filme. mai.jun.jul 2008

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Nos anos 80, surge a imagem digital, que cria a idéia e materializa-a: a imagem-espelho. O digital é antes um código matemático que “capta” um dado e o transforma em bits. Uma vez figurado em lógica binária, a informação pode ser processada e reprocessada, manipulada quase indistintamente, sem que tenhamos destruído a anterior. Diferente da lógica linear, em que precisamos resolver todas as premissas anteriores, para almejar andar pra frente, o digital permite pensarmos sob a ótica de ramificações. Cada informação gerada em códigos pode ser reproduzida sem variações, o que gera uma informação-clone, idêntica e sem reparos. Para se ter uma idéia mais clara do que isso significa, utilizemos a onda sonora. O som pode ser visualizado na era digital. Sua freqüência torna-se uma onda, literalmente, cheia de curvas de altos e baixos, que pode ser contemplada numa plataforma linear, da esquerda para a direita. Se falarmos em imagem, mais fácil entender se imaginarmos em um espelho. O meio digital, ao adquirir a informação, a transforma em espelhos, a fim de que se possa manipular, sem trazer prejuízo às outras. Uma foto captada pela câmera é capturada no computador e manipulada à vontade do fotógrafo. Quantas vezes quiser, este pode manchá-la, trocar matizes, recortar objetos, contrastar ou fazer brilhar. Isso não quer dizer que tenha mexido com a foto capturada, mas sim com espelhos do que foi apreendido, de tal forma que, ao asseverar mudanças nas posteriores, não traz comprometimento às anteriores. É precisamente esse processo que o responsável pela não perda de qualidade entre as passagens de uma tecnologia à outra. Ao contrário, alguns processos conseguem “maquiar” erros e desacertos da imagem remida. Essa linguagem de desterritorialização pelo virtual é o próprio movimento, como diz Pierre Lévy. É o movimento, é o próprio devir do humano, a passagem de um estágio a outro, a transformação de um modo em outro. Apesar da imagem-espelho, o virtual que a cria, conforme reflete Lévy, “rigorosamente

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definido, tem somente uma pequena afinidade com o falso, o ilusório ou o imaginário”, talvez o que dissera Deleuze em “Différence e répétition”: o vitual possui plena realidade, enquanto virtual. A virtualização é um movimento geral que afeta tanto a informação e a comunicação, como os corpos também, mas não somente o corpo físico, mas entidades corporais que compõem o todo orgânico da sociedade do virtual. Na visão desse autor, a virtualização chega a ultrapassar a informatização. Como se vê, não assevera qualquer pessimismo, como acontece com Paul Virillo, por temer o desaparecimento da realidade. Ao contrário, lembra que, apesar das características relativamente desconhecidas do impacto virtual, este é ainda responsável direto pelo o que chama de hominização, que a virtualização seria a essência da mutação desse processo. Praticamente toda a tecnologia digital está baseada nos parâmetros humanos, o corpo e suas limitações. Isso quer dizer que uma grande parte das ondas sonoras e dos impulsos elétricos que fazem a geração digital

‘pensada para atingir o olho e a audição humanos. Naturalmente, lembramos imediatamente da reprodutibilidade imaginada por Benjamin. Na era do digital, qualquer informação pode ser reproduzida com fidelidade, o que, evidentemente, não era conseguido nos tempos da imagem analógica. Em contraponto, contudo, a imagem televisiva da era de transição analógica para a digital deixa de ser espelho da sociedade para tornar-se espelho dela mesma, o que encontra-se preconizado por Eugênio Trivinho em “Estética da cultura, comunicação e pós-modernidade”. Ele diz que independente do poder econômico ou da classificação social, qualquer pessoa faz da televisão um bem de primeira necessidade, uma fonte inesgotável de conhecimento e informação. Porém, completo, não a manipula, não contribui com conteúdos, não tem possibilidade de travar diálogo, algo que será conseguido com a chegada da televisão digital. <

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