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SÉRJE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO BÍBUCA-TEOLÓGICA-PRÃTICA

Copyright © 2009 José Roberto de Oliveira Chagas CHAGAS, José Roberto de Oliveira Noções de História da Igreja Cristã - Análise Histórica, Bíblica e Teológica da Eklesia - Primitiva e Pré-Medieval (Série CRESCER: Programa de Capacitação Bíblica-Teológica-Prática - Vol. 9)/José Roberto de Oliveira Chagas. Campo _ Grande (MS): Gênesis, 2009 índices para catálogo sistemático: 1. Cristianismo 2. Igreja. 3. Teologia - CDD 262

Responsável pelo projeto editorial/gráfico/capa: Egnaldo Martins dos Santos egna 78@hotmail. com Revisão de Arquivos: Mota Júnior motajunior7@gmail. com Editor: Márcio Alves Figueiredo Ia impressão: Fevereiro de 2009 - Quantidade: 1.000 exemplares 21 impressão: Maio 2009 - Quantidade: 1.000 exemplares 3» impressão: Agosto 2009 - Quantidade: 1.000 exemplares

IDEALIZAÇÃO E REALIZAÇÃO DO PROJETO: EDITORAS MUNDIAL, KENOSIS E GÊNESIS Contato: Gênesis Editora -Rua: Albert Sabin, 721, Taveirópolis - Campo Grande/MS -FONE: 67 3331-8493/3027-2797 ivimv.genesiseditora. com.br

DEDICATÓRIA: A cada profissional/consultor de venda da Mundial Editora e Gênesis Editora, que faz seu trabalho com empenho, prazer e dedicação, que está ciente de que não apenas vende livro, mas, sim, espalha saber, fomenta a educação, ajuda o povo brasileiro a realizar sonhos:

"Oh! Bendito o que semeia Livros... livros a mão-cheia... E manda o povo pensar! O livro caindo nalma E gérmen - que faz a palma, Ê chuva que faz o mar" (Castro Alves) Contato com o IBAC: Fone: (67) 3028.1788/9982.3881: IBAC - Instituto Bíblico-Teológico Aliança Cristã (A.B.K. Associação Beneficente Kenosis) Rua: Praça Cuiabá, a- 111, Bairro: Amambaí -Campo Grande - Mato Grosso do Sul CEP: 79.008-281 E-mail: chagas.ibac@gmail.com

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SÉRJE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO BÍBUCA-TEOLÓGICA-PRÃTICA

PREFÁCIO A SÉRIE CRESCER

O IBAC-Instituto Bíblico-Teológico Aliança Cristã, órgão vinculado a Associação Beneficente Kenosis - A.B.K. - está de parabéns. A iniciativa de oferecer aos interessados em conhecer melhor a Teologia Cristã através da Serie CRESCER - Programa de Capacitação Bíblica e Teológica - é brilhante, fantástica, oportuna, louvável, exemplar! Esta proposta relevante e inovadora trará entre outros benefícios a quem tiver a oportunidade de conhecê-la: 1 . Direção - quem estuda a Bíblia com motivação correta jamais perderá o senso de direção e de propósito; a Bíblia é o mapa que mostra o caminho de Deus para conduzir o seu povo na rota certa. 2. Proteção - o embasamento bíblico-teológico capacita o cristão a identificar e a refutar com veemência as "doutrinas" pseudo-cristãs propagadas por hereges, embusteiros, religiosos profissionais que tentam ludibriar as pessoas para lograr lucros pessoais. 3. Provisão - a Bíblia proporciona a seus leitores e praticantes uma consciência iluminada e crítica, como também supre a sua fome espiritual, alimenta sua alma, cristaliza saudavelmente sua fé. Este programa foi elaborado com a finalidade de reciclar quem já teve a oportunidade de cursar Teologia como auxiliar quem procura desenvolver o espírito auto-investigativo, ampliar a capacidade de entender/expor/praticar a Bíblia, desenvolver o espírito de servir a Deus e ao próximo, conhecer mais a ciência teológica e, porém, não sabia como atingir tais objetivos - outras vezes, apesar de interesse em crescer no conhecimento, não dispunha de tempo e recursos.

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SÉRIE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO BÍBUCA-TEOLÓGICA-PRÃTICA

A Série CRESCER não pretende fazer apologia a uma Teologia meramente intelectual, academicista, técnica, inacessível, complexa. Sua proposta é, sobretudo, uma Teologia popular. Esta iniciativa, aliás, levou em consideração o fato de que a maioria das pessoas a ser contemplada pelo projeto seria, com todo respeito, provenientes de classes mais simples. Isso não significa, porém, que uma pessoa mais dotada de acuidade intelectual ou recursos econômicos está proibida de ter acesso à série. Pelo contrário. Todos são bem-vindos. Quanto a Teologia erudita, no sentido positivo do termo, ficou para outros compêndios teológicos e autores mais capacitados e está a disposição dos interessados em editoras especializadas no segmento ou nas ótimas instituições de capacitação teológica credenciadas pelo M.E.C. O autor procurou comentar cada disciplina deste programa com clareza, simplicidade, objetividade. Alguns termos teológicos não podem ser simplificados facilmente, mas, em tais caos, o professor empenhou-se em esclarecê-los em seguida. A ideia de simplificação considerou o fato: a Igreja Evangélica no Brasil carece de estudos bíblicos-teológicos contextuais, relevantes, coerentes, práticos, mas também diretos, concisos, objetivos. A Série CRESCER não foi projetada para fornecer muitas informações e detalhes. Logo, seus temas precisam de comentários, discussão, reflexão, ampliação enfim. Desde que o M.E.C, reconheceu Teologia como curso de nível superior as exigências se intensificaram; o mesmo, para ser aceito, deve preencher vários requisitos. Informe-se. O que o IBAC pode oferecer é um curso livre com ênfase em aperfeiçoamento; não há formativo, mas, sim, informativo. Esta observação deve evitar críticas injustas quanto à validade deste curso. 0 IBAC não aprova a nociva índole atual que preconiza a graça barata, o êxito sem preço, a vitória sem batalha. Não há expansão significativa em área alguma da vida que se adquira imediata, rápida, fácil e instantaneamente! As leis do crescimento são radicais, exigentes, árduas, íngremes, ásperas! Não há como mudá-las! Para CRESCER na graça e no SABER deve-se pagar o preço do zelo, da dedicação, da exaustão, da autodisciplina, afinal, não há vitória expressiva que valha a pena a preço de pechincha! Pr. José Roberto de Oliveira Chagas

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INFORMAÇÕES GERAIS: Diretrizes do IBAC - Instituto Bíblico-Teológico Aliança Cristã -, entidade vinculada a Associação Beneficente Kenosis, concernente a Série CRESCER - Programa de Capacitação Bíblica-Teológica-Prática: • Caráter (Objetivo e Reconhecimento do Curso). •Matriz Disciplinar (Durabilidade do Curso). • Metodologia (Ensino à Distância). •Avaliação (Critérios Teóricos e Avaliativos). •Conclusão e Certificação (Regras Gerais).

1 . Caráter (Objetivo e Reconhecimento do Curso). A Série CRESCER - Programa de Capacitação BíblicaTeológica-Prática -, oferecida em parceria com instituições sérias que interessam pela construção e socialização da Teologia, é de caráter informativo, não formativo. Desde que a Teologia tornou-se curso superior o M.E.C, formulou regras para reconhecê-lo. A entidade que oferece o curso Bacharel em Teologia deve ser credenciada pelo M.E.C., ter carga curricular e horária de acordo com a portaria definida, cumprir periodização e créditos, exigir escolaridade mínima dos interessados (ensino médio completo), corpo docente especializado, etc. Também não há mais Curso Básico ou Médio em Teologia. Nossa instituição, cristã e idônea, não tem a intenção de ludibriar o povo de Deus. Ratificamos, assim, que o nosso programa não oferece vantagem acadêmicas. Nosso alvo é auxiliar a Igreja Brasileira a se aperfeiçoar para servir a Deus e ao próximo. Tão-somente. 2. Matriz Disciplinar (Durabilidade do Curso). A matriz disciplinar da Série CRESCER, que visa aprimorar a comunidade de fé no âmbito bíblico-teológico-prático, é composta de 10 (dez) opúsculos, cada um com disciplina específica. 0/a aluno/a deverá estudar sistematicamente as disciplinas conforme a proposta pedagógica da Direção do IBAC - Instituto Bíblico-Teológico Aliança Cristã. O corpo discente terá até 12 (doze) meses após a aquisição do curso para finalizá-lo e, se quiser, solicitar seu certificado.

*Veja no final das diretrizes a matriz disciplinar. 3. Metodologia (Ensino à Distância). A metodologia didática empregada neste programa está fundamentada no modelo de ensino à distância, doravante, a Diretoria do IBAC - Instituto Bíblico-Teológico Aliança Cristã - recomenda ao corpo discente que estude cada disciplina regular e sistematicamente, com zelo e dedicação, tendo em vista que a sua capacitação bíblica-teológica-prática dependerá única e exclusivamente do seu próprio esforço. Cabe, então, a cada aluno/a comprometer-se rigorosamente com o próprio crescimento e esmerar-se nos estudos das disciplinas.

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4. Avaliação (Critérios Teóricos e Avaliativos). O/a aluno/a deverá estudar o livro, conforme o conteúdo programático, responder as questões teóricas e avaliativas impressas no final de cada opúsculo (ou, se preferir, tirar xerox ou fazer download no site da Gênesis Editora), guardá-las em local seguro e, no final, se desejar receber o certificado, enviá-las ao IBAC -Instituto Bíblico- Teológico Aliança Cristã -, para correção, atribuição de notas e, estando de acordo com as normas da entidade, autorizar sua confecção e postagem. A Gênesis Editora, parceira exclusiva neste projeto, fará contato com os/as alunos/ as para averiguar o interesse pelo certificado e as normas para recebê-lo. 5. Conclusão e Certificação (Regras Gerais). O/a aluno/a que concluir as 10 disciplinas do módulo e atingir pelo menos a nota média (6.0) poderá, se desejar, receber seu certificado de conclusão. O mesmo não é obrigatório. Mas, caso queira-o, é mister efetuar o pagamento de R$ 50,00 (taxa única); tal valor será aplicado para sanar gastos com assessoria de contato, corpo docente (acompanhamento e revisão de provas), confecção e postagem do certificado e despesas afins. O prazo para solicitá-lo é de até 12 (doze) meses após a compra do kit. A liberação em tempo menor ocorrerá se o/a aluno/a tiver quitado o produto junto à editora e enviado as provas ao IBAC. *Matriz Disciplinar do Programa de Capacitação Bíblica-Teológica-Prática 1. Noções de Prolegômenos - Análise Introdutória à Relevância, Natureza e Tarefa da Teologia. 2. Noções de Teologia - Análise Bíblica e Teológica da Pessoa e Obra do Deus Único e Verdadeiro. 3. Noções de Cristologia - Análise Bíblica e Teológica da Pessoa e Obra de Jesus Cristo. 4. Noções de Paracletologia - Análise Bíblica e Teológica da Pessoa e Obra do Espírito Santo. 5. Noções de Hermenêutica - Análise Crítica, Histórica e Teológica da Interpretação Bíblica. 6. Noções de Liderança Cristã - Análise Bíblica da Filosofia Ministerial de Liderança Cristã. 7. Noções de Homilética - Análise Crítica, Histórica e Teológica da Pregação Cristã. 8. Noções de Gestão Ministerial - Como Fazer Projeto Eficiente e Eficaz Para Gerar Receita. 9. Noções de História da Igreja Cristã - Análise Histórica, Bíblica e Teológica da Eklesia (Primitiva e Medieval). 10. Noções de Teologia Econômica: Mordomia Cristã - Análise Bíblica e Teológica dos Princípios da Contribuição Cristã (1). *A Diretoria do IBAC pode, se julgar necessário, alterar a grade curricular em kits futuros.

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PRIMEIRA PARTE: PREFÁCIO A HISTÓRIA DA IGREJA CRISTÃ

Pesquisar analítica e sistematicamente a trajetória da Igreja Cristã pode se constituir uma tarefa laboriosa e enfadonha, ou pode ser uma viagem prazerosa e enriquecedora. Mas, independente do trabalho árduo e da possível satisfação oriunda das descobertas durante a pesquisa, é imprescindível estudar, com esmero, a História da Igreja Cristã. Neste opúsculo, tendo em vista o limite de espaço, vou concentrar-me apenas na fase Igreja Cristã Primitiva e Pré-Medieval. Pretendo extrair de tais períodos informações como a provável origem da Igreja Primitiva, os principais fatores responsáveis pelo seu crescimento integral, como viviam os primeiros súditos de Jesus Cristo, quais eram as características primordiais da liderança apostólica, como os primeiros cristãos reagiram diante das perseguições, como o Evangelho foi levado ao mundo ainda nos primeiros séculos, etc. Após analisar sucintamente o período de glória da Igreja Cristã, mostrarei também como a mesma, apesar de ter conquistado tamanhas vitórias, vitórias tão significativas, entrou em decadência; a Igreja, ironicamente, enquanto esteve sob intensa perseguição revolucionou o mundo de sua época, todavia, quando aliou-se ao Estado e passou a receber dele auxílio para manter e expandir sua causa, caiu em desgraça; e a Igreja hodierna não caminha na mesma direção; a mesma história não se repetindo mais uma vez? Outrossim, é o estudo do passado fornece parâmetros para o entendimento do presente e conjecturas sobre o futuro1.

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DEFINIÇÃO E CONCEITUAÇÃO DE "HISTÓRIA" História é a narração metódica dos fatos políticos, sociais, econômicos e culturais notáveis na vida dos povos e da humanidade em geral.2 E a ciência que estuda a vida humana através do tempo,3 define Gilberto Cotrim. Para Silveira Bueno é a narração crítica dos fatos da humanidade.4 Já os historiadores Carlos G. Mota e Adriana Lopes sintetizam que a História é a disciplina que nos informa sobre a vasta aventura da experiência humana.5 Henri Marrou disse que a história é o conhecimento do passado humano; para Gabriel Monod significa o conjunto das manifestações da atividade e do pensamento humanos, considerando em sua sucessão, seu desenvolvimento e suas relações de conexão ou dependência.6 A História usualmente é dividida em períodos para facilitar o trabalho do historiador/estudante, atendendo, assim, a uma necessidade didática. A divisão clássica é: Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. 1. Idade Antiga: iniciando-se aproximadamente em 4000 a.C, com o advento da escrita, e estendendo-se até a queda de Roma em 476 d.C. 2. Idade Média: iniciando-se em 476 e estendo-se até 1453, quando termina a Guerra dos Cem Anos e a cidade de Constantinopla cai em mãos dos turcos otomanos. 3. Idade Moderna: iniciando-se em 1453 e estendendo-se até 1789, quando teve início a Revolução Francesa. 4. Idade Contemporânea: iniciando-se em 1789 e estendendo-se até nossos dias. Afirma-se que a História Geral é imprescindível à sociedade, pois para acelerar as mudanças essenciais em direção a um mundo melhor e mais justo é preciso conhecer o passado, as raízes do mundo atual, usando-o como farol esclarecedor do presente.7 Atinente a História da Igreja Cristã ressalto que não há dúvida quanto à sua relevância atualmente: ela pode ser estudada com outra divisão,8 não com menos interesse.

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DEFINIÇÃO DE TEOLOGIA HISTÓRICA Presume-se que é praticamente impossível entender corretamente as condições da cristandade hodierna a não ser à luz da História. E evidente que erros bíblicos/teológicos preconizados em algumas denominações evangélicas atualmente seriam dirimidos caso sua liderança conhecesse melhor a história da Igreja Cristã, seus êxitos e fracassos, procurasse seguir seus exemplos positivos e benéficos e se distanciasse das crenças e práticas que em determinados momentos afastaram-na da presença de Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Assim sendo, embora exista quem diga que pesquisar a história do Cristianismo é coisa de crente que não tem coisa mais importante para fazer, o certo é que cristãos maduros deveriam apreciar grandemente a História!9 O que é, então, Teologia Histórica? Em síntese, é uma divisão do estudo da Teologia que procura entender e delinear como a igreja interpretou as Escrituras e desenvolveu as suas doutrinas ao longo da história, desde o tempo dos apóstolos até o presente. Os teólogos Stanley J. Grenz, David Guretzki e Cherith Fee Nordiling, ressaltam que a função da Teologia Histórica é dupla: 1. Mostra a origem e desenvolvimento das crenças sustentadas com afinco, no presente. 2. Ajuda os pensadores de hoje a identificar os erros teológicos do passado e evitá-los atualmente.10 Claudionor Corrêa de Andrade, professor de Teologia e Filosofia, explica que a palavra história, de origem grega, vem de histor - aquele que sabe, que conhece, conhecedor da lei, juiz. Cientificamente pode ser definida como a narração metódica dos principais fatos ocorridos na vida dos povos, em particular, e na vida da humanidade, em geral. Ainda esclarece que com a História, aprendemos a olhar o mundo de forma retrospectiva e perspectiva, destarte, os olhos estarão no futuro, o espírito no pretérito e o coração no presente.11

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ANÁLISE CONCEITUAL ECLESIOLÓGICA- O QUE É IGREJA? Para alguns líderes cristãos hodiernos igrejas são apenas meras empresas, balcões de faturamento, locais de captação de dinheiro. Apenas isso. Mas a visão bíblica-teológica é outra. J. Scott Horrel explica que o termo igreja é proveniente do grego, ecclesia, literalmente, os chamados para fora. Tanto no uso clássico como na Septuaginta significa "reunião", "assembleia oficial", "congregação", ou "grupo de soldados, exilados, religiosos ou anjos". Das 115 ocorrências da palavra referida nas páginas do Novo Testamento pelo menos 111 referem-se à igreja cristã, sendo usada 23 vezes em Atos, 62 vezes nas cartas de Paulo, 20 vezes no Apocalipse, etc. Horrel ainda aponta pelo menos quatro usos de ecclesia relacionado à igreja cristã nos escritos neotestamentários: • Reunião. De vez em quando, descreve um culto ou conjunto de cristãos: (1 Co 11.18; 14.4, 19, 28, 34). A ênfase não recai sobre um lugar ou prédio, mas a um agrupamento de pessoas com o propósito de cultuar e ter comunhão, juntos; nesse sentido, quando a reunião termina a ecclesia não existe mais. • Igreja local. Contrasta com a idéia anterior; o foco está no povo e não na reunião; o uso mais numeroso desta palavra é para uma congregação ou comunidade local de cristãos (At 8.1; 11.22, 26; Rm 16.1), etc. • Cristãos de uma região. Diz Horrel que ecclesia ocasionalmente envolve a totalidade de cristãos numa área geográfica - ex. "a igreja da Ásia" (At 1 Co 16.19). Embora tal definição esteja próxima da seguinte, seu uso abrange todas as igrejas locais de uma região; nessa acepção o termo igreja não pensa em distinções doutrinárias ou organizacionais, mas em proximidade geográfica. • O Corpo de Cristo. Aqui está o significado mais profundo, a expressão mais marcante e extraordinária de ecclesia: a Igreja universal, o Corpo de Cristo, o organismo espiritual composto de todos os regenerados através da fé em Jesus Cristo.12

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Jaziel G. Martins justifica que a palavra Igreja vem de ekklesia, originária do verbo kalein, que significa chamar. Entre os gregos ela se referia a uma assembleia do povo convocada regularmente para algum lugar público, com o objetivo de deliberar sobre algum assunto, sem sentido religioso. Já no Antigo Testamento o termo usado no hebraico para as assembleias dos hebreus é kahal (Dt 23.1-3; Ne 13.1; Lm 1.10), e possui ênfase religiosa, pois Deus mesmo fazia a convocação. A Septuaginta, não raro, traduziu a palavra kahal por ekklesia, mostrando que o povo de Deus sempre se apresentava solenemente diante do Senhor. Martins também diferencia a Igreja universal da Igreja local; a primeira "é o conjunto de todo o povo de Deus em todos os séculos, o total dos eleitos, incluindo os do Antigo Testamento" ou "todo o povo de Deus no mundo em determinada época na história"; já a segunda "é uma comunidade de pessoas que pela fé e obediência estão unidas a Cristo, e, organizadas, promovem o Seu Reino".13 Algumas características interessantes de ekklesia: era a assembléia local, autônoma e soberana em relação às cidades, democrática, com marcas peculiares ao alvo da convocação, etc.14 O Dr. Michael L. Dusing, diz que ekklesia originalmente denotava "um grupo de cidadãos chamados e reunidos, visando um propósito específico"; era conhecida desde o século V a.C, haja vista que aparece algumas vezes nos escritos de Heródoto e Platão. Mas exorta que não importa se os termos usados são os hebraicos comuns qahal/'edah ou os gregos sunagõgê/ekklêsia, o significado essencial é o mesmo: a Igreja consiste naqueles que foram chamados para fora do mundo, do pecado e da vida alienada de Deus, os quais, mediante a obra de Cristo na sua redenção, foram reunidos como uma comunidade de fé que compartilha das bênçãos e responsabilidades de servir ao Senhor.15 Está claro que a Igreja não é uma organização mercantilista, nem mero balcão de faturamento; ela é um organismo vivo do qual Jesus Cristo é o cabeça! Qualquer análise bíblica-teológica séria caminhará nesta direção. Por mais que se estuda é impossível negar que a Igreja fundada por Jesus Cristo traz certas marcas indeléveis.

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A ORIGEM DA IGREJA CRISTÃ -QUANDO ELA REALMENTE NASCEU? A Igreja é um fenômeno sobrenatural; seu surgimento e sua sustentação através da história não se devem a fatores psicosociais, culturais, políticos ou econômicos.16 Todavia, a origem exata ou a organização da Igreja Cristã é tema que ainda hoje divide a opinião de pesquisadores; as mesmas, não raro, se divergem.17 Para alguns, a Igreja sempre existiu na mente e no coração de Deus, assim seu estado preexistente é irrefutável; quem assim pensa preconiza a seguinte ordem: a Igreja foi projetada no coração de Deus, depois formada através do ministério de Cristo e, finalmente, confirmada, no Pentecostes, com poder, pelo Espírito.18 Leonhard Goppelt, renomado teólogo alemão, com vistas à atividade histórica de Jesus, questiona se ele realmente queria uma igreja; parece que é a rejeição do chamado ao arrependimento por parte de Israel que leva ao surgimento da Igreja, escreve; já em Mt 16.17-19 o nascimento da Igreja é vaticinado por Jesus Cristo como um evento futuro, ou seja, ela não será reunida já durante o tempo terreno de Jesus, e de acordo com a comissão (Mt 28.19), a Igreja surge quando o Ressurreto e Glorificado envia seus discípulos para fazerem discípulos de todas as nações.19 Robert H. Nichols explica que em certo sentido, a Igreja nasceu especificamente quando Jesus Cristo chamou seus primeiros discípulos, embora se diga que a sua história iniciou no dia de Pentecostes, que seguiu-se à ressurreição, quando teve começo a vida ativa da Igreja.20 O Dr.Merril F. Unger concorda que o Pentecoste sinalizou o nascimento da Igreja.21 O Dr. Gerhard Hörster afirma que, entre outras coisas, a primeira parte do livro de Atos dos Apóstolos realça como nasceu a Igreja e como ela vivia.22 No sentido cristão, a Igreja apareceu pela primeira vez em Jerusalém, após a ascensão de Jesus,23 diz o Dr. J. D. Douglas. Apesar das opiniões opostas, a maioria dos estudiosos crê que as evidências bíblicas são favoráveis ao dia de Pentecostes, em At, para a inauguração da Igreja.24

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CARACTERÍSTICAS ESSÊNCIAS E EXEMPLARES DA COMUNIDADE DE FÉ PRIMITIVA O exato nascimento da Igreja é tema de altercação calorosa entre os estudiosos. Alguns creem no seu estado preexistente, ou seja, ela já estava concebida na mente e no coração de Deus (Ef 1.4; 1 Pe 1.20); para outros, existe desde o início da raça humana (Gn 3.15); outros defendem o início veterotestamentário, abrangendo os relacionamentos pactuais (período patriarcal e mosaico). Outros preconizam a origem neotestamentária, mas divergem em alguns pontos; alguns acreditam que a Igreja foi fundada quando Cristo começou publicamente seu ministério e chamou os 12 discípulos; para outros, no dia de Pentecostes, em Atos 2; outros não creem que ela tenha começado de fato antes das abrangentes viagens missionárias do célebre apóstolo Paulo. Fisher destaca três fases na vida da Igreja: pré-natal - neste, tem a presença corporal de Cristo; infância - está vivendo como que sob a tutela dEle, mas preparando-se para ter vida independente; maturidade - tem o seu corpo de doutrinas, possui oficiais e se mostra apta para dirigir-se. Strong afirma sua existência em germes antes do Pentecostes.25 Independente das discussões atinentes à origem exata da Igreja, não há dúvida de que há consenso quanto as suas principais características no período primitivo. Nas primeiras décadas após a ascensão de Cristo era ainda pequena, bem diferente do movimento mundial que se tornou posteriormente. Estava circunscrita à cidade de Jerusalém; era comumente um pequeno grupo de crentes vivendo numa grande comunidade pagã.26 Entre as suas principais marcas estavam a adoração fervorosa a Deus; a propagação ousada do Evangelho seguida de uma conduta retilínea, expressivo zelo e pureza moral; a edificação das vidas transformadas por Jesus mediante a operação do Espírito Santo; compromisso com a ação social: cuidado dos órfãos, das viúvas, dos doentes, dos desemparados, abolição de distinções: sociais, econômicas, culturais, etc.

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A COMUNIDADE DE FÉ PRIMITIVA E SUA CONTAGIANTE PRÁTICA CÚLTICA Estudiosos deduzem, a partir de análises das cartas de Paulo, especialmente as destinadas à igreja de Corinto, que no primeiro século, havia pelo menos duas formas de culto: um público e outro restrito. No primeiro, a comunidade cristã, segundo a direção do Espírito Santo, fazia orações, ministrava ensinos, cantava Salmos (mais tarde surgiram os hinos cristãos), lia e explicava as Escrituras do Antigo Testamento (e, posteriormente, incluíram as cartas dos apóstolos), citava atos e ensinos do Mestre, o entusiasmo tinha livre expressão (até resultava em certa desordem). Nessas reuniões era admitido pessoas estranhas, isto é, que ainda não haviam se tornado cristãs; elas, comumente, quanto tocadas pelo Espírito Santo, confessavam os pecados e entregavam a vida a Jesus Cristo. No segundo, acontecia uma refeição comum, repleta de júbilo e amor; era permitido a participação apenas dos súditos de Cristo. Cada um, segundo os recursos de que dispunha, trazia a sua parte da alimentação que era generosa e alegremente repartida entre todos igualmente; na mesma ocasião ainda celebrava-se a Ceia do Senhor. Outra prática comum nos cultos primitivos era o levantamento de ofertas para o sustento da obra missionária e beneficência (1 Co 16.2).27 Porém, tudo era feito com simplicidade, decência, ordem! Que diferença do ofertório pós-moderno! Nada parecia deter a Igreja. De um lado os apóstolos faziam milagres e maravilhas, impactando a população. Do outro, o grupo convertido a Cristo, logo era integrado à comunidade cristã, já repleta de multidões de fiéis; ela estava cheia de temor, coesa, unida; repartia suas posses, vendia propriedades e bens para dividir o dinheiro conforme a necessidade de cada um. Lucas diz que em certa época nenhum carente havia na Igreja, pois os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a quem tinha necessidade (At 4.34,35).

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O FANTÁSTICO CRESCIMENTO INTEGRAL DA IGREJA PRIMITIVA EM ATOS DOS APÓSTOLOS Não é possível falar da Igreja Primitiva e não mencionar seu crescimento. Não refiro-me a cifras e números apenas, conquanto os mesmos tenham, também, sido marcas notórias dos primeiros cristãos. Na verdade, o crescimento numérico foi somente consequência natural do desenvolvimento de outras áreas. O Dr. Jorge H. Barro afirma que Orlando Costas, pensador singular, identifica, de At 1.12 a 8.3, o crescimento da Igreja Primitiva em quatro dimensões imprescindíveis: • Orgânica (desenvolvimento interno da comunidade de fé: forma de governo, estrutura financeira, liderança, etc.) - At 1.25,26; 2.44, 46, 47; 6.1-7, etc. • Diaconal ou encarnacional (intensidade do serviço que a igreja presta ao mundo, como prova irrefutável do amor redentor de Deus: grau de participação na vida, conflitos, temores e esperanças da sociedade, ajudando a aliviar a dor humana e a transformar as condições sociais, etc.) At 2.45; 3.6; 4.32-35, etc. • Conceptual (está relacionado à fé e à identidade da Igreja: grau de consciência que a comunidade eclesial tem a respeito da sua existência e razão de ser, sua compreensão da fé cristã, etc); a espiritualidade é elemento imprescindível para fomentar tal crescimento - At 1.14; 2.42, 47; 3.1; 4.24, etc. • Numérica (relacionada com a incorporação de novos crentes à comunidade como resultado da pregação e da ação da Igreja: reprodução que o povo de Deus experimenta ao proclamar o Evangelho, chamando homens e mulheres ao arrependimento de seus pecados e à fé em Cristo como Senhor e Salvador de suas vidas e também incorporando numa comunidade local de crentes aqueles que respondem afirmativamente, inserindo-os na luta do reino de Deus contra o exército do mal) - At 2.41,47; 4.4; 5.14, etc.28 Estas marcas faziam da Igreja Primitiva e, de certa forma, influenciavam sua expansão. Todavia o progresso, quando não é bem administrado, traz consigo grandes riscos.

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ESTAGNAÇÃO, PERSEGUIÇÃO E EXPANSÃO DA IGREJA CRISTÃ PRIMITIVA Apesar do crescimento integral, a Igreja Primitiva, em certo momento, também cometeu alguns equívocos. Talvez tenha esbarrado exatamente na própria eficiência e eficácia, afinal, quando o sucesso não é bem administrado converte-se em sutil armadilha. Foi assim com vários líderes bíblicos. A visão de Deus os conduziu à grandeza, depois, por descuido, veio a derrota. John Maxwell escreveu sobre tal perigo. "Nunca se contente em ter atingido o seu alvo; não repouse em seus louros. A história está repleta de pessoas que embora tenham conquistado grandes coisas, perderam sua visão. Quando Alexandre o Grande tinha uma visão conquistou países, quando a perdeu, não pôde conquistar sequer uma garrafa de licor. Enquanto Davi tinha uma visão, conquistou Golias; quando perdeu sua visão, não pôde sobrepujar sua própria luxúria. Enquanto Sansão tinha uma visão, pôde vencer muitas batalhas; quando perdeu sua visão, não pôde vencer sua batalha com Dalila. Enquanto Salomão tinha uma visão, foi o homem mais sábio do mundo; quando perdeu o sonho que Deus lhe havia dado, não pôde controlar suas próprias paixões por mulheres estrangeiras. Enquanto Saul teve uma visão, pôde conquistar reis; quando perdeu sua visão, não pôde conquistar seu próprio ciúme. Enquanto Noé teve uma visão, ele pôde construir uma arca e ajudar a preservar a raça humana nos trilhos; quando perdeu sua visão ficou bêbado. Enquanto Elias teve uma visão, pôde orar para que fogo descesse do céu e cortou a cabeça dos falsos profetas; quando perdeu seu sonho, fugiu de Jezabel. É o sonho que nos mantêm jovens; é a visão que nos mantêm caminhando".29

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Com a Igreja também foi assim. Cresceu orgânica, diaconal, conceituai e numericamente em Jerusalém, mas parece que se esqueceu, momentaneamente, dos outros campos (Jo 4.35). A Igreja enviada a pregar ao mundo inteiro se contém sublimada, perplexa, atrapalhada, embebedada com a graça de Deus, perde o caminho, não sabe mais onde o mundo está; em Jerusalém ela germina e se arraiga, mas também se comunitariza, se fecha, se apequena e fica como que curtindo as maravilhas de ser abençoada e se esquece do mundo pagão perdido.30 Finalmente explode uma onda de perseguição, sem precedentes, forçando a Igreja que "estava em Jerusalém" (At 8.1) a tomar uma posição. Diante de tal sitação poderia se desencavernar, sair da sua zona de conforto e levar o Evangelho à Judéia, à Samaria e aos confins da terra, conforme ordenou Jesus (At 1.8), ou seria assolada por Saulo, o perseguidor, cuja animosidade e ostracismo ao Cristianismo eram evidentes: entrava de casa em casa, arrastava homens e mulheres e os jogava na cadeia. S. E. McNair cita as conseqüências da perseguição: • Espalhou os crentes e resultou em propagação do Evangelho. • Separou os genuínos dos meramente interessados. • Despertou os corações dos verdadeiros crentes. • Fortaleceu esses crentes no seu testemunho do Evangelho.31 Conta-se que o crescimento da Igreja foi de tamanho impacto nas décadas iniciais que numa carta que Plínio, governador da Bitínia, escreveu a Trajano, declarou que os templos dos deuses estavam praticamente abandonados, lançados às moscas, enquanto os cristãos em toda parte formavam enormes multidões. O Dr. John Drane diz que o pequeno grupo de Jesus levou sua mensagem, em apenas alguns anos, a todo o mundo conhecido na época, estabelecendo igrejas nos grandes centros da Grécia, Ásia Menor, Egito, e até na capital do Império Romano.32 Benjamin Scott assevera que o Cristianismo tinha-se estabelecido em Roma no reinado de Cláudio - 25 depois da morte de Jesus; Paulo ao lhe escrever, manda saudações a muitas pessoas e famílias, provando seu êxito ali e que não era obra recente.33

NOTAS

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'VIGNA, Mayre B. C. e MASUKO, Marcos Hideishi (coord, e org.). META - Manual de Ensino e Técnicas Avançadas. São Paulo: Didática Paulista, 2006, p. 22. 2 RODRIGUES, Izabel Cristina de Melo (coord.). Minidicionário Escolar da Língua Portuguesa. São Paulo: Rideel, 2001, p.181. 'COTRIM, Gilberto. História ScReüexão. São Paulo: Saraiva, 3" ed., 1996, p.10. 4 BUENO, Silveira. Dicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: Didática Paulista, 1999, p.481. 3 MOTA, Carlos Guilherme, e LOPEZ, Adriana. História Sc Civilização. São Paulo: Ática, 1995, p.2. 6 VIGNA e MASUKO, Op. Cit., p.22. 'VICENTINO, Cláudio. História Geral. São Paulo: Scipione, 2« ed., 1992, p.8. "CAIRNS, E. E. O Cristianismo Através dos Séculos. São Paulo: Vida Nova, 1984, ps.20,21. 'GREER JR, Clyde P. "Refletindo Honestamente Sobre a História". In MACARTHUR, John (ed. geral). Pense Biblicamente. São Paulo: Hagnos, 2005, p. 400. '"GRENZ, Stanley J., GURETZKI, David e NORDILING, Cherith Fee. Dicionário de Teologia. São Paulo: Vida, 2002, p.130. 'ANDRADE, Claudionor C Dicionário Teológico. Rio de Janeiro: CPAD, 11» ed., 2002, ps.175,176. 12 HORREL, J. Scott (org). "A Essência da Igreja". Ultrapassando Barreiras. São Paulo: Vida Nova, 1994, ps.11,12. ''MARTINS, Jaziel G. Manual do Pastor e da Igreja. Curitiba: A.D. Santos Editora, 2002, ps.5,6. "FALCÃO SOBRINHO, João. A Túnica Inconsútil. Rio de Janeiro: JUERP, 1998, p.15. 15 DUSING,MichaelL.'AIgrejanoNovoTestamento".InHORTON,StanleyM.(ed.). Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 3» ed., 1996, p.536, 537. "FALCÃO SOBRINHO, Op. Cit., p.22. "MARTINS, Op. Cit., p.15. '"FERRAZ, José. História da Igreja, p. 3. (www.adoracao.com). "GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 3a ed., 2002, ps.458, 459, 461. 20 NICHOLS, Robert H. História da Igreja Cristã. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 6* ed., 1985, ps.18,19. 2 'UNGER, Merril F. Manual Bíblico Unger. São Paulo: Vida Nova, 2006, p.458. "HÖRSTER, Gerhard. Introdução e Síntese do Novo Testamento. Curitiba: Ed. Evang. Esperança, p.66. »DOUGLAS, J. D. (ed.) & (SHEDD, Russel P.). O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2006, 3a ed. rev., p.608. 24DUSING, Op. Cit., p.538. "FERREIRA, Ebenézer Soares. Manual da Igreja e do Obreiro. Rio de Janeiro: JUERP, 8a ed., 1995, pp.31,32. "NICHOLS, Op. Cit., p. 20. 27FALCÃO SOBRINHO, Op. Cit., p. 63. 28 BARRO, Jorge H. De Cidade em Cidade. Londrina: Descoberta, 2002, ps. 105-110. "MAXWELL, J. C. Seja Tudo O Que Você Pode S e r / S i o Paulo: Sepal, 2002, ps. 76, 77. 3 »D'ÁRAÚJO FILHO, Caio Fábio. O Sopro do Espírito. Niterói: Vinde, p. 14. "MACNAIR, S. E. Bíblia Explicada. Rio de Janeiro: CPAD, 1994, p. 393. 32DRANE, John. A Bíblia: Fato ou Fantasiai'São Paulo: Bom Pastor, 1994, p. 123. <3SCOTT, Benjamin. As Catacumbas de Roma. Rio de Janeiro: CPAD, 9« ed., 1991, p. 67.

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SEGUNDA PARTE: SUCESSO E DECADÊNCIA DA IGREJA CRISTÃ

Igreja não é um clube ou um ajuntamento social; ela é uma realidade espiritual.1 A Igreja nasce de Deus e, por isso, não é obra de nenhum homem; ela não se organizou - nasceu.2 A Igreja também não era um balcão de faturamento, um nicho lucrativo, embora o recolhimento de ofertas liberais e voluntárias para suprir carências específicas fosse uma prática cúltica comum. Nas primeiras décadas, sacerdócio não era negócio, vocação não era profissão, igrejas não eram empresas, pastores não eram gestores, crentes não eram clientes! Por isso ela cresceu orgânica, diaconal, conceituai e numericamente, tanto em Israel como em outras nações. Essa realidade, todavia, foi mudando aos poucos. A Igreja caminhava em direção à institucionalização. A mesma, desde então, se tornou um negócio rentável. Descobriram, assim, o potencial da religião para gerar receita e transformaram a Noiva do Cordeiro em mero balcão de faturamento. Essa mentalidade doentia, séculos depois, ainda continuam infectando muitas comunidades. Mesmo na pós-modernidade há muitos ensinos e práticas que deixam claro a exploração econômica através da religião, isso em igrejas ditas evangélicas. Esse é um dos motivos de hostilidade à fé cristã atual. Vamos, então, analisar rapidamente como isto aconteceu. Finalizando esta introdução à História da Igreja Cristã enfocarei exatamente como a mesma, em determinado momento de sua trajetória, perdeu o sendo de destino e de propósito e se afastou da presença de Jesus Cristo.

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O PRELÚDIO DA TERRÍVEL DEGRADAÇÃO ESPIRITUAL DA IGREJA CRISTÃ A princípio as igrejas eram domésticas e lideradas por gente comum hoje algumas são particulares e governadas por gente gabaritada; era uma comunidade cristã carismática e não uma instituição religiosa com profissionais altamente qualificados; era a igreja do povo e não uma igreja para o povo; sua missão era adorar a Deus, evangelizar, edificar e atenuar as mazelas sociais. E hoje? Talvez seja simplesmente gerar receita para sedimentar negócios miliardários, ostentar o soberbo padrão de vida do ministério(?) sacerdotal hierárquico, isto é, dos religiosos profissionais que comercializam o sagrado, usando o VERBO para ganhar verba. Mas como e quando a Igreja saiu dos trilhos e comprometeu sua fidelidade a Jesus Cristo? A deterioração espiritual de qualquer igreja não acontece subitamente. É um processo, às vezes, moroso. A Igreja Cristã não foi exceção. Sua ruína foi progressiva, sua degradação paulatina. Os cristãos primitivos não concebiam a igreja como um lugar de culto como se faz hoje; antes se reuniam em casas (At 12.12; Rm 16.5, 23; Cl 4.15; Fm 1-4), no templo (At 5.12), auditórios públicos de escolas (At 19.9) e nas sinagogas até quando foram permitidos (At 14.1,3; 17.1; 18.4). O lugar, naquela época, não era tão importante como o propósito de encontro para comunhão uns com os outros e para culto a Deus.3 Sua preocupação inicial era com a adoração autêntica a Deus, evangelização dos perdidos, edificação dos salvos e ação social para dirimir a dor, atenuar ou erradicar o sofrimento que fustigava as pessoas. Não estava circunscrita ao templo judaico, tanto é que após a sua destruição, em 70 d.C, a marcha prosseguiu; não parou com a devastação da suntuosa edificação; realizava suas fervorosas reuniões em cada casa que gentilmente se abria para recebê-la; não importava se era grande ou pequena, rica ou pobre, esplêndida ou modesta; bastava alguém oferecer-lhe uma peça ou toda a casa e ali o nome de Jesus era glorificado. Foi assim que ela cresceu e se consolidou.

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PAZ RELATIVA ENTRE A IGREJA E O ESTADO O conflito entre Igreja e Estado é tema presente na história do Cristianismo. Embora houvesse desacordo com alguns grupos religiosos, a princípio a relação entre cristãos e a população não era necessariamente hostil. Seu estilo de vida, aliás, produziu uma nova aparência para os de fora - eles contavam, assim, com a simpatia do povo (At 2.47).4 A influência e respeito nos quais os discípulos são vistos lhes dão a oportunidade de testemunhar,5 afinal uma igreja cristã saudável atrai as pessoas para Cristo.6 Havia também certa harmonia entre cristãos e as autoridades legalmente constituídas. A fé cristã, em seus primódios, não foi adversa à autoridade.7 Os cristãos não eram anarquistas. Jamais se rebelavam contra os governantes por interesses pessoais, como faziam certos grupos revolucionários. Essa postura favorecia a relação amistosa entre Igreja e Estado. Por outro lado, é evidente que a paz relativa que a Igreja Cristã tinha desfrutado naqueles primeiros anos era resultado (também) da percepção das autoridades romanas de que os cristãos eram uma seita do judaísmo, uma religião reconhecida por lei romana.8 Existia, porém, um fator que ameaça a suposta tranquilidade: o culto ao imperador. A referida "liturgia", oriunda da Babilônia, Pérsia e Egito, chegou às raias da loucura. Até então os cristãos não eram obrigados a tal prática cúltica porque viviam à sombra dos judeus; não havia, aos olhos do povo e das autoridades, diferença entre Cristianismo e Judaísmo. Quando a diferença entre os dois segmentos religiosos tornou-se evidente, a era da hostilidade aflorou. A Igreja, então, precisou escolher entre ser leal a Cristo ou a César. Não houve dúvida. A comunidade de fé, ainda se mantendo no primeiro amor a Jesus, exteriorizou sua fé. E a resposta imperial veio a seguir: severas perseguições. Ela, porém, não recuou. O sangue dos fiéis mártires a fertilizou, a irrigou, a fez germinar, a fez crescer ainda mais, para surpresa de todos! Rostoutzeff enfatizou que os cristãos sofreram imensuráveis perdas, mas o Estado perdeu a batalha, afinal a Igreja, até nas perseguições, mostrava-se mais forte do que o adversário.9

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CONSTANTINO, O GRANDE A Igreja, mesmo perseguida, logrou significativas vitórias. O problema é que ela não aprendeu a se sair bem em tempos de prosperidade.10 Os cristãos diante das acentuadas perseguições imperiais, quando acusados de serem anti-sociais, desleais, marginais, ateus, anárquicos, antropófagos e incendiários, eram fiéis a seu Senhor, morriam por suas crenças. Nas épocas de bonança, contudo, se corrompiam com enorme facilidade! Que ironia! Veja, portanto, como a Igreja Cristã se comportou quando a intensidade do conflito com o império dirimiu. Flávio Valério Cláudio Constantino nasceu em 27 de fevereiro, provavelmente após o ano 280 d.C. Alguns estudiosos dizem que ele era filho de Constantino Cloro (membro da tetrarquia criada pelo imperador Diocleciano) com uma princesa britânica (outros alegam que foi com a concubina Elena). Fox afirma que Constantino era bom e virtuoso filho de um pai igualmente cheio de virtudes, e nasceu na Inglaterra, sendo sua mãe Elena, filha do rei Coilo. O príncipe generoso e gentil, desejoso de cultivar a educação e as belas artes, sempre lia, escrevia ou estudava.11 Knight e Anglin certificam que ele nasceu na Grã-Bretanha, e dize-se que a sua mãe era uma princesa britânica e seu pai muito estimado pela sua justiça e moderação.12 Em 25 de julho de 306 d.C, com a morte do pai, as suas legiões aclamaram-no imperador, embora precisou lutar vários anos para ser reconhecido como Augusto. Sua trajetória marcou uma nova era na história da Igreja, tendo em vista que na sua gestão preparou-se o caminho para que a fé cristã se tornasse a religião oficial. Isto ocorreu em 380 d. G, com o batismo do imperador Teodósio I.13 Sua conversão do paganismo à religião cristã ainda é tema de altercação. Pretendia ser o único governante do vasto império e sabia que jamais alcançaria tal propósito sem a Igreja. Assim, suspeita-se que sua opção pelo Cristianismo, a princípio, foi indiscutivelmente de caráter político.

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Os escritores sagrados nem sempre defendem a mesma ideia sobre tal assunto. Todavia se ele se converteu pode-se afirmar que não foi antes de marchar contra Maxêncio, quando, segundo comenta-se, impressionado pela força de uma profecia (Mt 24.30), viu ou pensou te visto um fenômeno extraordinário no céu.14 Para acentuar ainda mais o medo de Constantino, seu rival, além de sagaz, parece que usava feitiçaria e encantamentos. Diante de tais fatos ele ficou consternado. Não sabia que ajuda teria contra a feitiçaria de seu astuto êmulo. Já nas contiguidades da cidade, ao olhar para o céu viu nas bandas do sul, quando o sol se punha, um grande resplendor no firmamento, que parecia uma cruz, com esta inscrição: In hoc vince, isto é: vence por meio disto. A suposta visão o atordoou. Sob juramento repetiu várias vezes que era coisa certa e verdadeira o que vira. A seguir reuniu seus homens para discutir o significado do fenômeno. Naquela mesma noite Cristo lhe apareceu em sonhos, com o sinal da mesma cruz que dantes vira, e convidou-o a tomá-lo como signo, e a levá-la em suas guerras; assim, seria vitorioso sempre. Quanto ao seu inimigo, morreu afogado no rio Tibre quando uma ponte provisória ruiu. Não é demais presumir que alguém deva ter visto no incidente uma intervenção divina. "No decorrer de duas guerras contra os rivais para se firmar no trono e dominar todo o Ocidente, pouco ao norte de Roma, entre seus inimigos e a cidade estava a ponte Múlvia, sobre o rio Tibre. Nesse lugar, durante um sonho, na noite anterior à batalha, pareceu-lhe ver uma cruz, com a inscrição: 'Por este sinal vencerás'. Ao amanhecer o dia, mandou pintar este sinal, às pressas, sobre o seu elmo e nos escudos dos seus soldados. Em certo sentido combateu na qualidade de cristão e ganhou a batalha. Com esta vitória, no dia28 de outubro de 312 d.C, Constantino passou a crer que o Deus dos cristãos lhe havia dado a vitória .

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AÇÕES DE CONSTANTINO VISIVELMENTE BENÉFICAS À "IGREJA" CRISTÃ O Dr. T. B. Maston justifica que a atitude inicial da Igreja Primitiva foi de renunciar ao mundo e não de reformá-lo, logo sua mensagem era mais de juízo do que de redenção. Essa atitude mudou. Ela perdeu parte da sua esperança escatológica, fortaleceu-se a tendência do movimento cristão para chegar às altas camadas, e a influência das novas gerações de cristãos ganhou terreno, alterando o posicionamento inamistoso da Igreja com relação ao mundo. Mudanças mais significativas ocorreram especialmente com a ascensão de Constantino ao trono. Através dele, a pacificação se tornou relativamente completa e o poder do Estado foi usado para protegê-la e realizar o seu programa. As intermitentes perseguições cessaram quase que em caráter definitivo; as relações harmônicas entre a Igreja e o mundo se estabeleceram. O Cristianismo, ao fazer a paz com o mundo, foi reconhecido pelo Estado, primeiro como uma religião oficial e depois, a religião oficial.16 Os feitos benéficos durante a gestão de Constantino foram vários. A perseguição, por exemplo, que durante quase 300 anos testou a unidade da Igreja e a fé dos seus membros,17 foram por ele suplantadas. Acredita-se que uma das mais intensas perseguições de toda a história do povo de Jesus Cristo foi desencadeada pelo imperador Diocleciano, um homem tirano, soberbo e selvagem. Galério, filho adotivo/genro do referido monarca, odiava os cristãos; não suportava vê-los crescer em quantidade e em riquezas; logo, apoiado por sua mãe, uma fanática e seus comparsas - sacerdotes pagãos e mestres de filosofia - incentivou o ímpio imperador a persegui-los furiosamente. Nos editos publicados constavam a destruição de todas as igrejas e dos escritos sagrados (possivelmente instigado pelos filósofos), detenção de todos os que pertencessem às ordens clericais, reivindicação de que todos os cristãos em qualquer condição em toda parte do império oferecessem sacrifício e voltassem a adorar os deuses, sob pena de morte em caso de recusa, etc.

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Durante essa perseguição implacável exemplares da Bíblia foram queimados; templos construídos em todo o império durante meio século, destruídos; pessoas pertencentes às ordens clericais eram presas e sem chance de liberdade se não negassem o Cristianismo; outras sentenciadas à morte por não adorar aos deuses pagãos; cristãos exilados dentro dos templos e depois ateavam fogo. O imperador, inclusive, erigiu um monumento com esta inscrição: "Em honra ao extermínio da superstição cristã".18 Finalmente aqueles dias sombrios cessaram. Os imperadores Constantino e Licínio divulgaram o Edito de Milão, documento que conferia liberdade de culto.19 Também, talvez num surto de liberalidade, decidiu favorecer de todos os modos os cristãos; deu-lhes os principais cargos, isentou ministros cristãos de impostos e do serviço militar; ajudou na construção de igrejas; encomendou Bíblias para as igrejas de Constantinopla, sob a direção de Eusébio; proibiu que os senhores matassem os escravos, o adultério e o concubinato, baniu o suplício da cruz, etc. A época de bonança finalmente chegou! A religião de Cristo saindo como do deserto e das prisões, finalmente tomou posse do mundo. Era possível ver a cruz nas estradas principais, nos íngremes cumes dos montes, nos fundos barrancos e nos vales distantes, nos tetos das casas e nos mosaicos dos sobrados. O lábaro com o monograma de Cristo "levantando-se acima do dragão vencido" aparecia nas moedas de Constantino; o culto e o nome de Jesus se exaltaram acima dos deuses vencidos do paganismo; a administração do estado e dos negócios civis foi reunida com o governo da igreja; o imperador romano presidia os concílios eclesiásticos e ainda tomava parte nos debates; logo, se tornou também o principal da igreja. 20

NASCE A OPULENTA IGREJA IMPERIAL Especialistas em história da Igreja dizem que do edito de Constantino, em 313 d.C, até à queda de Roma em 476 d.C. é a fase da Igreja Imperial. Apesar da bonança, das numerosas conquistas materiais, foi aquele um período trágico.

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A Igreja Cristã, naquela época, alterou o culto, a adoração e o testemunho; já era, então, bem diferente da comunidade cristã primitiva.21 A Igreja outrora perseguida conquistou o império.22 Constantino, apesar dos atos bárbaros que praticou já sendo reconhecido como cristão, era festejado em toda parte como o salvador. Até os teólogos da corte o veneravam. Como recebiam privilégios do imperador, tais como isenção de impostos, julgamentos especiais e, é claro, sustento financeiro, viam-no apenas como "um anjo do Senhor vindo do céu"; era amado porque, também, além de sancionar o episcopado monárquico, deu-lhes regalias.23 Iniciou-se ainda as perseguições aos pagãos, ocorrendo assim muitas conversões falsas. O Cristianismo, por outro lado, se tornou a religião do status quo.24 Todos queriam ser membros da Igreja e quase todos eram aceitos. Gente mundana e ambiciosa desejava postos na Igreja para, assim, obter influência social e política. Com a demanda frenética para aderir a fé estatal, o clero logo percebeu que tinha nas mãos um grande nicho. Os próprios mártires do passado foram transformados em meio de geração de receita; suas relíquias eram vendidas como se tivessem poder de realizar milagres; vestes, gotas de sangue e até restos de esqueletos se tornaram artigos rentáveis.

A CONSTRUÇÃO DE TEMPLOS MEGALOMANÍACOS A partir de Constantino multiplicaram-se em pouco tempo também os lugares dedicados especialmente ao culto. O Pr. Mathias Quintela de Souza explica que a generosidade do imperador e de sua família favoreceu a construção de outros edifícios: em Jerusalém, o magnífico conjunto do Santo Sepulcro; em Constantinopla, além dos templos pagãos restaurados, ou templos novos, destaca-se a Igreja dos Doze Apóstolos, no interior do qual ele mandou preparar o seu túmulo. O favor imperial favoreceu a conversão em massa, logo, as reuniões que antes aconteciam nas casas, passaram a se concentrar nos templos e aos poucos foi se consolidando a mentalidade de um lugar santo, sagrado, morada de Deus como acontecia no Antigo Testamento.

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Mathias ainda acrescenta que ao mesmo tempo a realização da eucaristia nos lares foi proibida na reunião de sínodo acontecida em Laodicéia entre 360 e 370 d.C; bispos e anciãos foram proibidos de oferecer os sacrifícios nos lares; desde então o templo passou a ser sinônimo de igreja, prevalecendo a tendência inicial de substituir as igrejas domésticas, sob a liderança de cristãos comuns, por igrejas particulares, estas governadas pelo bispo autoritário.25 John S. Horrel reitera que a partir de 312 d.C, com o sucesso e a suposta conversão de Constantino, a religião oficial do Império Romano tornou-se cristã. Assim, financiados pelos impostos do império, foram construídos catedrais e centros cristãos de porte nunca imaginados.26 Pelo menos dois fatores impossibilitaram a Igreja de edificar templos no primeiro século: a pobreza e a perseguição; logo, suas reuniões cúlticas eram realizadas em casas particulares.27 "Quando Constantino se tornou cristão, houve uma grande mudança da adoração subterrânea nas catacumbas e das igrejas nas casas para as catedrais. A igreja nas casas, que tinha sido o símbolo de comunidade e espiritualidade, desapareceu da corrente principal da vida e estrutura da igreja; (...) parte do movimento monástico e alguns grupos sectários continuaram com a igreja nas casas como uma tradição paralela".28 O Dr. Jorge H. Barro e o Dr. Wander ratificam que a Igreja primitiva não tinha posses nem mesmo templo para celebrar seus cultos, porém foi capaz de abalar as estruturas do Império Romano com sua mensagem e testemunho de vida. Porém, com a conversão de Constantino, o Cristianismo passou a receber auxílio financeiro do Estado para a construção de suntuosos templos, e o próprio clero passou a ser remunerados pelos cofres públicos. A Igreja, aliou-se, então, ao Império, contra o qual deixou também de exercer a função profética de denúncia e de reivindicação, pois o Estado começou, a partir daí a beneficiá-la".29

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A ORGANIZAÇÃO LOCAL DA IGREJA CRISTÃ Cristo fez mais do que dar organização à Igreja; ele a criou e lhe deu vida. Mas não modelou qualquer plano de governo, não indicou oficiais para exercerem a autoridade sobre os adeptos, nem lhes prescreveu credo algum, não impôs algum código de regras. Apenas recomendou a ela ritos religiosos simples: o batismo e a Ceia do Senhor (uma comemoração/lembrança da Sua morte para a redenção dos homens), e enfatizou a necessidade dela propagar ao mundo o Evangelho e ministrar os Seus ensinos.30 Isso não significa que a Igreja não deveria ter liderança. O Dr. Jorge H. Barro esclarece que um organismo precisa de organização e que a Igreja em Jerusalém descobriu isso logo em seu estágio inicial; ainda citando o crescimento orgânico (que envolve seus líderes, formas de governo, etc), ratifica que é evidente a liderança de Pedro nesta fase da igreja (At 1.15), a escolha de Matias para preencher a vaga no ministério e apostolado, do qual Judas se transviou (At 1.26), a criteriosa escolha dos sete (At 6.1-7), etc.31 A cooperação entre as igrejas no período apostólico não era institucionalizada: não havia associações formais, convenções, juntas, ordens de pastores, estatutos, regimes internos, normas de procedimento, auditoria e tudo o mais que hoje conhecemos; mas havia amor, confiança, responsabilidade mútua pelo cumprimento da missão dada por Jesus; depois a cooperação foi sendo institucionalizada em vários formatos.32

O SURGIMENTO DO CLERO A Igreja Primitiva não tinha um governo episcopal-sacerdotal monárquico. Era liderada por gente simples, chamada e capacitada pelo próprio Espírito Santo. Não havia uma elite de profissionais especializados para prestar assistência à comunidade de fé. Mas, décadas depois, vendo a base ameaçada a estabilidade doutrinária da fé cristã, tornou-se necessário que o bispo defendesse e arraigasse suas igrejas com mais vigor. Assim iniciou a construção de uma forma de governo que desembocaria no episcopado monárquico.

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Para Emil Brunner foram, de fato, o declínio espiritual e o sacramentalismo os verdadeiros motivos para essa mudança.33 As altercações pelo poder logo ganharam terreno. Clemente, bispo de 91-100 d.C, envolveu-se num problema particular da igreja em Corinto; Aniceto, 154-168 d.C, tentou, sem êxito, fazer com que Policarpo, bispo de Esmirna, mudasse a data da celebração da Páscoa; Vítor (190-202 d.C.) foi mais além: achou-se no direito de ameaçar de excomunhão às igrejas orientais devido o mesmo problema(?), mas foi censurado por Irineu, bispo de Lião, e Polícrates, bispo de Éfeso, que também ratificou a independência de sua autoridade. Tertuliano, de Cartago, ficou horrorizado quando Calixto, bispo romano (218-223 d.C), baseado em Mt 16.18, falou como se fosse o Bispo dos bispos; por tal insanidade foi nomenclaturado de usurpador. A idéia, na época, lhe pareceu absurda. Cipriano, bispo de Cartago, também respondeu à altura as objeções que Estevão I, bispo de Roma (253-257 d.C.) fez acerca de algumas práticas batismais da Igreja situada ao norte da Africa; além de negar-lhe submissão, asseverou que cada bispo era supremo em sua própria diocese. E assim repetiu-se a história. No século III, quando Constantino declarou que o Cristianismo seria, virtualmente, a religião oficial do Império Romano, a Igreja se tornou uma instituição de prestígio irrefutável e o ofício do bispo foi engrandecido ainda mais. Os bispos receberam poder judicial civil e exclusivas autoridades eclesiásticas, enquanto o povo, isto é, o leigo, era apenas um cidadão, ofertante, aprendiz e submisso à igreja, uma classe diferente e inferior de membro.34 O bispo, para o povo, tinha a autoridade divina que o capacitava a ensinar a verdade cristã sem cometer erros, poder divino para declarar os pecados perdoados, depois o único cabeça da igreja local, por isso seus ensinos e práticas jamais eram questionadas. A Igreja ficou cada vez mais institucionalizada e menos dependente do poder e orientação do Espírito. Nascia, assim, a Igreja Católica Romana.35 Quanto ao crescente prestígio e poder do bispo de Roma, Roma ainda era a egrégia sede do governo do Império, logo, dava ao bispo, certo grau de importância; quando deixou de ser o centro do poder político,36 se tornou uma potência religiosa singular!

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SÉRIE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO BÍBUCA-TEOLÓGICA-PRÁTICA

NOTAS 'CALDAS, Carlos. Fundamentos da Teologia da Igreja - Coleção: Teologia Brasileira. São Paulo: Mundo Cristão, 2007, p.15. 2 MIRANDA, Gessé. Igreja Cristã em Ação. Campinas (SP): ICI, p. 57. 3 CAIRNS, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos. São Paulo: Vida Nova, 1984, p.67. "BARRO, Jorge H. De Cidade em Cidade. Londrina: Descoberta, 2002, p.108. s ARRINGTON, FrenchL. "Atos dos Apóstolos". In ARRINGTON, FrenchL., e STRONSTAD, Roger (orgs.). Comentário Bíblico Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p.641. 'BÍBLIA DE ESTUDO DE APLICAÇÃO PESSOAL. Rio de Janeiro: CPAD, 2004, p.1482. 'DREHER, Martin N.. Coleção História da Igreja - A Igreja no Império Romano (Vol. 1). São Leopoldo/RS - Sinodal, 1993, 4" ed., p.51. "JOHNSON, Van. "Romanos". In ARRINGTON e STRONSTAD, Op. Cit, p.899. 'VIGNA, Mayre B. C. e MASUKO, Marcos Hideishi (coord, e org.). META - Manual de Ensino e Técnicas Avançados. São Paulo: Didática Paulista, 2006, ps.41,42. '"SITTEMA, John. Coração de Pastor. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. "FOX, John. O Livro dos Mártires. Rio de Janeiro: CPAD, 4« ed., 2002, p. 36. "KNIGHT, A. e ANGLIN, W. História do Cristianismo. Rio de Janeiro: CPAD, 9' ed., 1998, p. 53. "REVISTA SUPERINTERESSANTE/A VENTURAS NA HISTÓRIA. São Paulo: Abril, ed. 16, dezembro, 2004. VASCONCELOS, Yuri. Artigo: "A Vitória do Cristianismo - O Triunfo da Cruz", pp.35,34. "DOMINONI, Antônio. Surpreendente Cruz. Londrina: Descoberta, 1999,p.75. "APOSTILA DE HISTÓRIA DA IGREJA; Sem. Teol. Paulo L. Macalão, Brasília (DF), p.ll. "MASTON, T. B. A Igreja e o Mundo. Rio de Janeiro: JUERP, 3« ed., 1997, pp. 11-19. "MIRANDA, Op. Cit., p.79. 18 FERRAZ, José. História da Igreja, p. 9. (www.adoracao.com). "BETTENSON, H. Documentos da Igreja Cristã São Paulo: Aste/Simpósio, 1998, ps.49,50. 20 KNIGHT e ANGLIN, Op. Cit., p. 54. "MIRANDA, idem, p.81. ^LYRA, Sérgio Paulo Ribeiro. "O Ministério Leigo: Uma Perspectiva Histórico-Missiológica". In KOHL, Manfred W, e BARRO, Antônio Carlos. Ministério Pastoral Transformador. Londrina (PR): Descoberta, 2006, p.164. 23 DREHER, Op. Cit., ps.61,62,66. M LYRA, Op. Cit., p.165. 25 SOUZA, Mathias Quintela de. Cortina Rasgada. Londrina: Ministério Multiplicação da Palavra, 2005, ps. 103-105. 26 HORREL, J. Scott (org). "A Essência da Igreja". In Ultrapassando Barreiras. São Paulo: Vida Nova, 1994, p.16. 27 NICHOLS, Robert H. História da Igreja Cristã São Paulo: Casa Ed. Presbiteriana, 6» ed., 1985, p. 22. ■ 2S MANUAL DO AUXILIAR DE CÉLULA. Curitiba: Ministério Igreja em Células, 3« ed., 1999, p. 19. 25 BARRO, Jorge H. e PROENÇA, Wander de Lara. "Uma Igreja Com o Propósito de Ser Perseverante". In BARRO, Jorge H. (org.). Uma Igreja Sem Propósitos. São Paulo: Mundo Cristão, 2004, p. 157. "NICHOLS, Op. Cit., p. 18. 31 BARRO, De Cidade em Cidade, p. 105. 32 FALCÃO SOBRINHO, João. A Túnica Inconsútil. Rio de Janeiro: JUERP, 1998, p.117. 33 BRUNNER, Emil. O Equívoco Sobre a Igreja. São Paulo: Novo Século, 2000, ps.94-99. «LYRA, idem. 35 DUSING, Michael L. "A Igreja no Novo Testamento". In HORTON, Stanley M. (ed.). Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 3« ed., 1996, p. 540. 3ÍMASTON, Op. Cit., pp.17-19.

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SÉRIE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO BÍBUCA-TEOLÓGICA-PRÁTICA

QUESTIONÁRIO AVALIAÇÃO DE HISTÓRIA DA IGREJA *Nome: _______________________________________ Sexo:( )DataNasc. / / Natural: *End.: __________________________ nfl ___________, Bairro: _____________________________ Cidade: ______________________________________ UF. CEP: _____________________ Fone: ( ___ ) ____________ Nome completo, sem rasuras, conforme constará no certificado. Endereço correto para o qual será enviado o certificado.

I. QUESTÕES TEÓRICAS: 1. O que é Teologia Histórica? Resp. ______________________

2. Quais são, na opinião de Horrel, os 04 usos de elesia relacionados à Igreja Cristã nos escritos neotestamentários? Resp. _____________________________ ; ______________________

3. Quais são as 4 dimensões do crescimento da Igreja de acordo com Orlando Costas, citado pelo Dr. Jorge Barro? Resp. _____________________________________________________

4. Cite algumas das consequências da perseguição à Igreja em At 8 segundo S. E. McNair. Resp. _____________________________________________________

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II. QUESTÕES AVALIATIVAS: 1. Fale a respeito de sua comunidade de fé: nome, há quanto tempo congrega nela, quais são virtudes e fracassos, atividade que exerce... Resp. _____________________________________________________

2. Qual sua opinião sobre o conteúdo desta disciplina? Resp. ___________________________________________

3. Como você avalia o seu aproveitamento deste módulo - tempo dedicado ao estudo da disciplina, comentários importantes suscitados, possíveis descobertas? Resp. _________________________________________________ __

4. De que maneira você pretende aplicar em sua vida e ministério o que aprendeu nesta disciplina? Resp. _____________________________________________________

5. Como você avalia a forma como as informações foram transmitidas pelo professor-escritor: você conseguiu compreender o que ele quis lhe passar ou teve dificuldades? O que poderia ser melhorado? Resp. _____________________________________________________

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NOÇÕES DE HISTÓRIA DA IGREJA - José Roberto de Oliveira