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Capa


Kathryn Kuhlman Uma Biografia Autorizada por Jamie Buckingham

Danprewan Editora

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Publicado originalmente sob o título Daughter of destiny: the only authorized biography, por Bridge-Logos Publishers, Gainesville, FL 32614. Copyright © 1999. Tradução: Valéria Lamim Delgado Fernandes Revisão: Josemar de Souza Pinto e Segisfredo Wanderley Capa: Ronan Pereira Editoração Eletrônica e Projeto Gráfico: Futura Coordenação de Produção Editorial: Jorge Wanderley Os textos bíblicos citados são da NVI [Nova Versão Internacional] da Sociedade Bíblica Internacional, publicada pela Editora Vida. Primeira reimpressão: dezembro de 2005 CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ B936k Buckingham, Jamie Kathryn Kuhlman: uma biografia autorizada / Kathryn Kuhlman ; tradução de Valéria Lamim Delgado Fernandes. - Rio de Janeiro: Danprewan, 2005. 271p. :il. Tradução de: Daughter of destiny: the only authorized biography ISBN 85-85685-93-X 1. Kuhlman, Kathryn. 2. Evangelizadores - Biografia. - Estados Unidos - Biografia. I.TÍtulo. 05-0998. CDD 922.273 CDU 929:266 31.03.05 05.04.05 009668 Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos reservados pela: Danprewan Editora Ltda. E-mail: danprewaneditora@terra.com.br Site: www.danprewan.com.br Digitalizado por sssuca

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Primeira Aba No final de sua vida, Kathryn Kuhlman percebendo que sua obra estava chegando ao fim e querendo que toda a sua história fosse contada, ela, sem hesitação, escolheu Jamie Buckingham para escrever sua biografia. Suas recomendações para ele foram muito simples: "Conte tudo, Jamie; conte tudo!". Jamie cumpriu os desejos de Kathryn, e, ao "contar tudo", fez com que este livro revelasse a natureza humana de Kathryn, junto com sua profunda espiritualidade. Tive o privilégio de estar presente em vários cultos de milagres da senhorita Kuhlman. Toda vez que curas milagrosas aconteciam em suas reuniões, ela sempre tinha o cuidado de atribuir a glória a Deus. Ela percebia que seu chamado não estava baseado em suas próprias habilidades. Ela gostava de repetir: "Deus escolhe as coisas loucas deste mundo para confundir os sábios".

Segunda Aba O Reverendo Hummel, um evangelista batista, estava em Concórdia para um encontro de avivamento de duas semanas na pequena igreja metodista. Kathryn, que havia acabado de fazer 14 anos, participara de todos os cultos daquela semana. Às vezes ela se sentava ao lado da mãe, mas, quase sempre, se sentava com um grupo de garotas risonhas de sua idade. Na manhã de domingo, ao lado da mãe no encerramento do culto, quando o pastor fez o convite, Kathryn começou a chorar. Foi só anos mais tarde, quando pôde avaliar aquela experiência pela perspectiva do tempo e de outras experiências, que ela pôde entender que havia sido tocada pelo Espírito Santo. Os soluços eram tão fortes que ela começou a tremer. Emma observava sua filha alta e magra de 14 anos, mas não podia dar-lhe nenhum tipo de encorajamento. Como muitos na igreja, seu relacionamento com Deus era um relacionamento social. Estava limitado a bazares, reuniões sociais com missionários, tardes de chá (quando estava adequadamente vestida, é claro) e reuniões da igreja. Mas nunca tinha havido qualquer ensino de como responder a um dinâmico encontro com o Espírito Santo. Kathryn colocou seu hinário na prateleira na parte de trás do banco envernizado da frente e foi cambaleando para o corredor. Suas colegas, duas fileiras à frente, olhavam, de olhos arregalados, enquanto ela descia correndo o corredor e caía no primeiro banco. Com as mãos na cabeça, ela soluçava tão alto que podia ser ouvida por toda a igreja.

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SUMÁRIO Introdução .............................................................................................................. 6 Prefácio do editor americano ................................................................................. 8 1. Mistérios na Faixa Vermelha ............................................................................ 10 2. Não Posso Voltar para Casa ............................................................................. 14 3. Tendas e Galinheiros ........................................................................................28 4. Pregue e Nunca Pare ........................................................................................ 42 5. O Assassinato do Egípcio ................................................................................. 57 6. A Sarça Arde ..................................................................................................... 64 7. Pittsburgh ......................................................................................................... 79 8. Tendas e Templos............................................................................................ 88 9. Por Trás das Portas Fechadas ..........................................................................98 10. A Sabedoria na Espera.................................................................................. 110 11. Olá! Você Estava Esperando por Mim? ........................................................ 120 12. Histórias Não Contadas ................................................................................ 126 13. Adorando no Santuário ................................................................................ 135 14. O Culto de Milagres ...................................................................................... 146 15. Sempre Dando - Jamais Vazia ...................................................................... 166 16. Traída! ........................................................................................................... 179 17. O Trauma Final ............................................................................................. 190 18. Uma Última Unção ....................................................................................... 201 19. Epílogo: Além do que Vemos........................................................................ 210 Fotos ................................................................................................................... 212 Contracapa ......................................................................................................... 218

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Introdução A tarefa de escrever uma biografia é como fazer uma necropsia. O biógrafo pode, num frio exercício profissional, simplesmente reunir os fatos, conversar com pessoas, ler o que os outros disseram e tirar suas próprias conclusões impessoais. Entretanto, um processo desse tipo com Kathryn Kuhlman, a quem o próprio Deus ungiu, seria totalmente inadequado! A tarefa tinha de ser feita por alguém que não só conhecesse Kathryn, mas também o Deus dela; alguém que falasse a verdade, como fizeram os autores da Bíblia sobre o adultério de Davi, a insegurança de Elias e o mau humor de Paulo. Não obstante, precisava ser realizada por alguém que destacasse mais as partes saudáveis do que as doentias. Escrever a história de Kathryn Kuhlman é literalmente tocar na ungida de Deus. Portanto, a tarefa tinha de ser feita, verdadeiramente, com lágrimas nos olhos; porém, muito mais do que isso: com amor. Tendo trabalhado próximo a Kathryn Kuhlman e escrito oito de seus nove livros, eu já havia tirado muitas conclusões positivas sobre sua vida. Após sua morte, entretanto, quando conversei com seus críticos — que eram muitos —, minha própria atitude passou a ser áspera e crítica. Eu me ouvia discutindo sua vida e ministério, concentrando-me em alguma falha de caráter, alguma sombra de seu passado ou do mistério que cercava sua morte — e não no bem que ela fizera. Ao fazer eu mesmo a necropsia da história dela, estava me tornando como o patologista que se refere ao corpo de uma pessoa como um "ataque cardíaco" ou um "câncer de mama", enquanto o marido, angustiado, agüenta firme e diz: "Ela não era um 'câncer de mama'. Foi minha esposa por quarenta anos". O amor faz a diferença. Duas noites antes de me isolar para rascunhar o final deste livro, tive um sonho. No sonho, eu estava com Kathryn. Sentia amor por ela, e me sentia também amado. Não tinha conotação sexual; era um sincero relacionamento pessoal. Ela estava como eu me lembrava dela antes de sua morte — frágil e envelhecida, sem traços de beleza. Contudo, enquanto andávamos por um campo, caminhávamos de mãos dadas por uma travessa sombreada por árvores e permanecíamos em um profundo abraço, eu não só a amava, mas estava apaixonado por ela. Fazia quatro meses que ela havia falecido, e o sonho me assustou. Não era natural. Na noite seguinte, sonhei novamente. Dessa vez, eu usava roupas de um delegado. Kathryn estava comigo, sob certo tipo de prisão preventiva. Então, de algum lugar, outros delegados apareceram, todos uniformizados. Mas, em vez de me ajudarem, eles ridicularizavam Kathryn, imitando sua voz e maneirismos. Zombavam dela. Ela ficava sentada em silêncio o tempo todo em um pequeno banco ao lado da estrada de terra, de cabeça baixa, engolindo a vergonha, mas sem fazer nenhum 6


movimento em sua pr贸pria defesa. Nervoso e frustrado, eu me levantei para proteg锚-la. Compartilhei os dois sonhos com minha esposa e dois amigos pr贸ximos. Todos concordaram dizendo que Deus me havia dado os sonhos para que eu tivesse um componente completamente necess谩rio para escrever e interpretar a vida de Kathryn Kuhlman: amor.

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Prefácio do editor americano No final de sua vida, Kathryn Kuhlman, percebendo que sua obra estava chegando ao fim e querendo que toda a sua história fosse contada, escolheu, sem hesitação Jamie Buckingham para escrever sua biografia. Suas recomendações foram muito simples: "Conte tudo, Jamie; conte tudo!". Jamie cumpriu os desejos de Kathryn e, ao "contar tudo", fez com que este livro revelasse a natureza humana de Kathryn, junto com sua profunda espiritualidade. Tive o privilégio de estar presente em vários cultos de milagres da senhorita Kuhlman. Toda vez que curas milagrosas aconteciam em suas reuniões, ela sempre tinha o cuidado de atribuir a glória a Deus. Percebia que seu chamado não estava baseado em suas próprias habilidades. Ela gostava de repetir: "Deus escolhe as coisas loucas deste mundo para confundir os sábios". Antes de cada culto, ela orava: "Não retires o teu Santo Espírito de mim", e é esta abordagem que ajuda a explicar o fenômeno Kathryn Kuhlman e as maravilhas sobrenaturais que marcaram seu ministério. Ouvi-la falar, vê-la orar pelos enfermos e ministrar o amor de Deus a leigos e clérigos era perceber-se na presença de Deus. Na Convenção Internacional da ADHONEP (Associação dos Homens de Negócios do Evangelho Pleno), em Washington, D.C., no ano de 1969, por exemplo, vi quando Kathryn chamou à frente os pastores e sacerdotes que estavam presentes. Centenas de homens responderam ao seu chamado, representando muitas tradições religiosas: ministros protestantes, padres da Igreja Católica Romana, clérigos da Igreja Ortodoxa Grega e rabinos judeus. A senhorita Kuhlman foi até cada um deles, olhou bem dentro de seus olhos e disse: "Irmão, você tem fome de Deus". Enquanto Kathryn tocava na fronte desses homens e orava em seu favor, eles "caíam sob o poder", conscientes somente de Deus e de seu grande amor. A impressão que se tinha era que cada um deles voltaria para sua congregação com um zelo e um compromisso renovados. O primeiro editor desta obra escreveu: "Este livro é uma história fiel e amorosa sobre a vida de Kathryn como nós a conhecíamos. Fala de uma mulher que foi ridicularizada por alguns, venerada de fato por outros e que, certamente, tem um lugar no Hall da Fama de Deus". Embora proponha muitas perguntas, este relato biográfico também oferece respostas claras sobre a motivação e o poder que estavam por trás do ministério singularmente abençoado de Kathryn Kuhlman. Cremos que este livro ministrará à sua vida, ao mesmo tempo que lhe oferecerá novas percepções e informações objetivas sobre a vida e o ministério de Kathryn Kuhlman. Oramos para que a unção especial que 8


esteve sobre a vida de Kathryn continue a fluir das pรกginas deste livro, tocando e curando vidas com o poder e o amor de Deus. Lloyd B. Hildebrand

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Capítulo 1 Mistérios na Faixa Vermelha Na morte como na vida, Kathryn Kuhlman permaneceu envolvida em mistério. Aparecia nas telas de nossa televisão e em púlpitos distantes como uma figura imaginária — audaciosa em sua pregação, porém compassiva a ponto de chegar às lágrimas enquanto proclamava cura às multidões de enfermos. O mundo, desde o das modelos de moda da Quinta Avenida, em Nova York, passando pelo das estrelas de Hollywood, ao das mulheres de capacete que trabalhavam em fábricas em Pittsburgh, era inundado por seus cultos de milagres. Em um planeta assolado por enfermidades e trevas espirituais, ela representava aquele ingrediente único sem o qual a raça humana está condenada — a esperança. Muitos eram curados. Outros, ao vir nela a glória de Deus, entregavam a vida ao Cristo que ela proclamava. Em sua pregação e estilo de vida, parecia encarnar a saúde, o amor e a prosperidade do Deus a quem tão reverentemente servia. Para muitos, ela parecia quase imortal. Na realidade, Maggie Hartner, secretária pessoal e amiga íntima de Kathryn, certa vez me disse: "Kathryn Kuhlman jamais morrerá. Ela estará bem aqui até Jesus voltar". No entanto, ela morreu em 20 de fevereiro de 1976, em um estranho hospital, em uma estranha cidade, cercada de pessoas que ela mal conhecia, tendo um homem, a quem certa vez desprezou, à espreita, pronto para pregar em seu funeral. A mulher a quem uma revista chamou de "verdadeiro Santuário de Lourdes" morreu aos 68 anos de idade. Quando ela morreu, havia mais de cinqüenta convites sobre sua mesa em Pittsburgh que lhe imploravam para realizar cultos de milagres em comunidades por todo o mundo. Um oficial do Exército dos Estados Unidos na Tailândia lhe havia escrito para convidá-la a visitar o Extremo Oriente. Ali estavam um convite da Nova Zelândia, dois da Austrália, cinco da Europa e inúmeros convites representando as principais cidades dos Estados Unidos. O mais comovente era o da primeira-dama de Wyoming, a senhora Ed Herscher — uma vítima de esclerose múltipla —, pedindo-lhe que fosse a Cheyenne. A morte de Kathryn cancelou todos aqueles convites, mas aumentou o mistério e a intriga que cercaram sua vida. Nem tudo estava bem. Por cerca de quatro meses, Kathryn fora quase prisioneira de dois hospitais, um em Los Angeles e outro emTulsa. D. B. "Tink" Wilkerson,um revendedor de carros de Tulsa e membro do 10


conselho da Universidade Oral Roberts, havia entrado misteriosamente em sua vida havia oito meses. Quase desconhecidos antes disso, ele e a esposa, Sue, abandonaram os negócios, a casa e a família para viajar constantemente com Kathryn. Em sua debilitada condição, ela não confiava em mais ninguém. Os Wilkersons cuidavam de todas as suas necessidades pessoais, incluindo suas finanças. No dia seguinte à sua morte, Wilkerson, sua esposa e o guardacostas pessoal de Oral Roberts acompanharam seu corpo de Tulsa a Los Angeles. Às 10 horas, no domingo, os Wilkersons e o guarda-costas, sr. Johnson, chegaram ao cemitério de Forest Lawn com as roupas e o estojo de maquiagem de Kathryn. Deram ordens estritas para que "ninguém, absolutamente ninguém" visse o corpo. O Forest Lawn, cercando o funeral com uma "faixa vermelha", pôs o corpo de Kathryn no segundo andar, em uma sala com uma entrada e janelas que ficaram trancadas e interditadas. O sr. Johnson ficou sentado do lado de fora, no corredor, vigiando a entrada. Ninguém, nem mesmo Maggie Hartner ou outras amigas íntimas de Kathryn, pôde ver seu corpo. Somente os Wilkersons. Após o funeral, foi revelado que, dois meses antes de morrer, Kathryn havia feito outro testamento. Embora tivesse deixado US$267.500 para serem divididos entre vinte funcionários e três parentes, o restante de seus mais de 2 milhões de dólares em bens pessoais deveria ficar com os Wilkersons. Reportagens na primeira página dos jornais por todo o país diziam: "Kathryn Kuhlman, a evangelista que solicitava de seus seguidores milhões de dólares em contribuições, não deixou nenhum de seus bens para sua fundação ou para a igreja". Os seguidores de Kathryn ficaram magoados e irritados. Mas a mudança no testamento de Kathryn era só a ponta do iceberg. A cada dia que se passava depois de sua morte, fatos novos e inquietantes vinham à tona.Telefonei para Gene Martin, um ex-associado de Kathryn que havia expandido sua missão. Ele estava participando de uma convenção das Assembléias de Deus em San Diego, mas concordou em se encontrar comigo se eu viajasse de avião para a Califórnia. Nós nos encontraríamos no saguão do Hotel El Cortez, no dia 22 de abril, às 14h30. Quando cheguei, depois de um vôo que atravessou toda a Flórida e de haver alugado um carro para ir de Los Angeles a San Diego, o que encontrei foi só um recado na recepção do hotel. Martin havia mudado misteriosamente de idéia e agora se recusava a conversar. Voltei de avião para Tulsa, onde a trama se complicou. Oral Roberts, que havia falado de modo tão admirável de Kathryn em seu funeral (organizado por Tink Wilkerson), não quis me ver. Vazara a notícia do Hillcrest Hospital, em Tulsa, de que todas aquelas notas divulgadas por Tink Wilkerson antes da morte de Kathryn, dizendo que o estado dela estava melhorando, eram falsas. As enfermeiras atestaram a gravidade de seu estado pós-cirúrgico no final de dezembro, como também disseram que ela quase morrera em três ocasiões. Agora, 11


descobri, havia pressão de fontes "fora do hospital", e as enfermeiras foram proibidas de falar. A conspiração do silêncio aumentava o mistério. O enigma aumentou ainda mais quando inúmeras pessoas de Tulsa falaram-me de um sonho que haviam tido na noite anterior à morte de Kathryn, dizendo que haviam sonhado que não era a hora de Kathryn morrer. Deixei Tulsa curioso por saber a razão por que todos se recusavam a falar, bem como descobrir quem estava dizendo a eles que fechassem a boca. De volta a Pittsburgh, David Verzilli, pastor auxiliar de Kathryn durante vinte e dois anos em Youngstown, Ohio, um homem que fora (nas palavras de sua esposa em uma carta sarcástica a Maggie Hartner) "privado de toda confiança em si mesmo" por conta do domínio de mulheres em sua vida e em seu ministério, também se recusou a conversar comigo. Entrei em contato com Dino Kartsonakis, antigo pianista de Kathryn. Um ano antes, quando as denúncias públicas que fez contra ela apareceram na primeira página dos jornais do país, ele me dissera que estava disposto a "expor" Kathryn. Agora, no entanto, não abria a boca. De todos os envolvidos na trama, além da equipe leal de Kathryn, só Tink Wilkerson, um homem calmo e agradável, porém astuto, se propôs a falar. Passei mais de três horas com ele na outrora bela casa de Kathryn, no subúrbio de Fox Chapel, em Pittsburgh. A casa agora se achava cercada de seguranças armados. Tink estava acompanhado de dois seguranças. A transportadora estava limpando a casa, retirando todos os quadros e antigüidades inestimáveis, para colocá-los em um depósito. Tink disse que me estava dizendo a verdade, e eu realmente queria acreditar nele. Contudo, algumas das coisas que ele me disse eram difíceis de engolir. Entre elas, sua alegação de que, segundo o desejo de Kathryn, ele só ficaria com 40 mil dólares da herança dela. Afirmou que ficou "tão surpreso quanto qualquer outra pessoa ficaria" quando descobriu que Kathryn havia manifestado um novo desejo e o nomeara como o principal beneficiário do testamento dela — embora tenha sido o advogado dele, de Tulsa, seguindo suas instruções, que foi de avião para Los Angeles acolher e registrar em documento a mudança no testamento de Kathryn, que favorecia a Wilkerson, para ela assinar, enquanto jazia no leito, gravemente enferma. O que estava sendo ocultado? Que estranhos poderes essas pessoas — que haviam entrado na vida de Kathryn no seu último ano de vida — tinham sobre ela? Por que tantas pessoas estavam escondendo a verdade? Haveria algum tipo de sujeira, como muitos suspeitavam? Teria Deus, como alguns têm sugerido, levado Kathryn desta terra como fez com Moisés — porque seu ministério havia chegado ao fim?! Ou seria (e isso é o mais intrigante, porque era a coisa que Kathryn mais temia) o caso de o Espírito Santo ter se retirado dela, deixando-a sem poder para continuar até com a própria vida? Qual foi a verdade em sua morte? 12


As respostas para todas essas perguntas pareciam estar na própria Kathryn, e não naqueles que a cercavam. Para obter as respostas, eu sabia que teria de voltar ao início, às raízes de sua herança, e começar ali.

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Capítulo 2 Não Posso Voltar para Casa Nas terras do Missouri central, quando o inverno chicoteia as pradarias com tempestades de neve e granizo que uivam como lobos e fustigam como urtigas, dizem que a única coisa que separa Concórdia do Pólo Norte é uma cerca de arame farpado — e até isso chega a cair. Os verões são igualmente difíceis, pois não há lugar em toda a terra tão quente quanto o Missouri em agosto — exceto o Kansas em julho. Mas, entre o inverno e o verão, quando a terra floresce vistosa e verde na primavera, os pés de milho impactam; e depois ficam cercados de abóboras amarelas no outono. Missouri pode ser o lugar mais lindo de toda a terra. Kathryn nasceu ali, 8 quilômetros ao sul de Concórdia, em uma fazenda de 160 acres, em 9 de maio de 1907. Sua idade — até o dia de sua morte — foi um dos segredos mais bem guardados do mundo. Não interessa a ninguém, só a mim", Kathryn dizia ao dr. Carl Zabia no St. John Hospital, em Los Angeles, quando ele entrou em seu quarto para perguntar sua idade. — Coloque aí "mais de 50". — Sinto muito — disse, sorrindo, o médico judeu —, mas preciso saber sua idade certa para prescrever a dosagem precisa do remédio. — Ninguém — disse ela, num sussurro, examinando o médico de sua posição no leito —, ninguém sabe a minha idade. Mas, querido doutor, se o senhor me passar um pedacinho de papel, eu a escrevo. — E, dando uma risada, acrescentou: — Mas não ouse sussurrá-la a uma vivalma. Kathryn estava quase certa. Algumas pessoas sabiam sua idade. Maggie Hartner era uma delas. Mas, quando tentei arrancar a informação de Maggie, ela me lançou o mesmo olhar que Kathryn uma vez me lançara e disse: isso?

— Ora, eu também não revelaria minha idade. Que mulher faria

Incapaz de combater aquele tipo de vaidade feminina, decidi esperar até poder pôr as mãos no passaporte de Kathryn ou checar os registros em Concórdia. Kathryn gostava de deixar as pessoas adivinharem. Ela disse ao jornalista canadense Alien Spraggett, em 1966, que tinha 84 anos — e, então, ficou indignada ao ver que ele havia feito menção dela em seu livro 14


The unexplained [O inexplicado]. Quando ela morreu, a manchete de primeira página do Los Angeles Times no final da manhã foi: "Kathryn Kuhlman Morre aos 66". Eles diminuíram dois anos. Ela deve ter dado risada no céu. Adorava colocar coisas na imprensa. E ter apelado ao prestigioso Los Angeles Times foi um de seus maiores erros — principalmente quando foi descoberto que o jornal havia obtido suas informações com os funcionários do hospital. Ela havia, mesmo morrendo, mentido para o médico sobre sua idade. Sua vaidade prevaleceu, mesmo no fim, e, junto com ela, seu senso de humor e a satisfação de ter levado para o túmulo sua idade em segredo. Sem dúvida, os registros em Concórdia deram a data verdadeira e, ao mesmo tempo, esclareceram outro mistério: seu local de nascimento. Kathryn sempre sustentou a idéia de que havia nascido no casarão de dois andares na 1018 St. Louis Street, em Concórdia, uma pequena comunidade de 1.200 habitantes ao longo da estrada de ferro que ligava St. Louis à cidade de Kansas. Exatamente por que ela insistia que havia nascido na cidade, e não na fazenda, ninguém parece saber ao certo. Em uma entrevista comigo, gravada em fita, ela disse: "Quando papai se casou com mamãe, ele prometeu-lhe que, se ela se mudasse com ele para o campo até a fazenda ser paga, construiria para ela a maior casa de Concórdia. Depois de lavar a louça do jantar, mamãe fazia um desenho do casarão que papai sempre lhe prometia quando a fazenda estivesse paga. Bem, o dia chegou. A fazenda foi paga. Papai construiu para mamãe o tipo de casa que ela queria. Cheguei juntamente com a casa. Era uma casa grande. E sabe de uma coisa? Desde o momento em que nasci naquela casa até o dia de hoje, tudo tem de ser grande. Eu não tinha complexo de inferioridade, pois sabia que era amada. Sabia que era uma criança desejada. É muito tranqüilizador para uma criança ter essa certeza. Eu sempre soube disso. Não tinha dúvida de que era a meninados-olhos do papai". Ninguém questionava isso. Mas todos contestavam o fato de ela ter nascido no casarão em Concórdia. Joseph A. Kuhlman era um fazendeiro alto, de cabelos cacheados e descendência alemã — como eram quase todas as pessoas em Concórdia, uma pequena comunidade de fazendeiros luteranos, cerca de 100 quilômetros a leste da cidade de Kansas. Ele tinha 25 anos quando se casou com Emma Walkenhorst, com apenas 17 anos na época. Eles imediatamente se mudaram para a fazenda de Kuhlman, uma grande extensão de terra, cerca de 8 quilômetros ao sul de Concórdia, no Condado de Johnson. A irmã mais velha de Kathryn, Myrtle, nasceu ali, bem como seu irmão mais velho, Earl. Myrtle tinha 15 anos, e Earl, 10 anos, quando Emma Kuhlman deu à luz seu terceiro filho. Tia Gusty (Augusta Pauline Kuhlman Burrow), a irmã mais velha de Joe Kuhlman, chegou naquela mesma tarde. Era quinta-feira, por volta das 16 horas. Ela vinha puxada por uma égua amarrada ao balancim de 15


uma charrete. Assim que amarrou as rédeas em um poste de madeira ao lado da casa de dois andares, que ficava no meio dos 40 acres ao norte da fazenda, ela subiu ao quarto onde Emma amamentava a recém-nascida. Gusty, que tinha quatro filhos, era uma mulher de fala mansa que nunca havia interferido nos assuntos de seu irmão, Joe. Mas, dessa vez, se o que havia ouvido de Fanita, sua filha de 12 anos, era verdade, achava que estava na hora de deitar o verbo. — Emma, fiquei sabendo que você vai chamar a menina de Kathryn. — É isso mesmo. Pouco antes de sua mãe morrer, Joe e eu conversamos com ela. Dissemos-lhe que colocaríamos o nome dela em nosso bebê, caso fosse uma menina — apenas vamos mudar a grafia. (Katherine Marie Borgstedt nascera na província de Westphalia, Alemanha, em 1827. Casara-se com Johannes Heinrich Kuhlman em 1851, e o jovem casal emigrara para os Estados Unidos dois anos depois, estabelecendo-se na comunidade de língua alemã de Concórdia, Missouri. Ela morreu aos 80 anos, três meses antes de sua nora dar à luz sua xará.) — É um lindo nome alemão — Gusty disse em voz baixa —, mas você precisa se lembrar de que nenhuma das meninas de mamãe se chamou Katherine. — Então chegou a hora de uma das netas levar o nome. — Você não entende? — continuou Gusty. — O nome não soa bem em Missouri. Toda mula no Estado se chama Kate. A mula que deu coices em Jason, filho de nossa irmã Mary Magdalana, até ele morrer, se chamava Kate. Um nome assim será uma desgraça para toda a família Kuhlman. Emma ficou indignada. — Bem, o nome não será uma desgraça para a família Wallenhorst. Além disso, o nome dela não é Kate, mas Kathryn Johanna — Johanna conforme o nome de minha mãe. E ela também não será uma desgraça para os Kuhlmans. Isso eu prometo. Foi uma promessa que, nos anos vindouros, Emma Kuhlman muitas vezes temeu não poder cumprir. Mas nada iria demovê-la de sua teimosa idéia alemã. Virando-se para Myrtle, com 15 anos, que estava em pé do outro lado do quarto, Emma disse: — Kathryn Kuhlman. Acho que esse nome soa bem. Você não acha, Myrtle? Myrtle balançou a cabeça com vigor, e encerrou-se a discussão. Gusty não disse mais nada. Afagou a pequena criança que estava acomodada novamente no seio de Emma e, então, se retirou, descendo as escadas em direção à charrete.

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— Já vai ser terrível crescer de cabelo vermelho — disse para sua égua enquanto a desamarrava — e ainda ter de passar a vida com um nome como Kate é mais do que qualquer criança deveria suportar. Dois anos haviam passado quando Joe Kuhlman, com sua fazenda paga e dinheiro no bolso, aproximou-se de William H. Petering, o carteiro local, e fechou um negócio adquirindo um grande terreno na St. Louis Street, em Concórdia. A compra foi feita em 23 de fevereiro de 1909, e o valor de 650 dólares foi devidamente registrado no Fórum do Condado de Lafayette. A construção começou no ano seguinte, mas foi só em 1911 que os Kuhlmans — Joe e Emma — e seus três filhos, Myrtle, Earl (que era chamado Kooley) e Kathryn, de 4 anos, se mudaram. Por que Kathryn sempre sustentou que havia nascido no casarão branco de dois andares é mais um dos muitos mistérios que envolvem sua vida. Contudo, ela nunca abriu mão do mito. Em 1972, logo depois que Kathryn Kuhlman recebeu um título de doutorado honorário na Universidade Oral Roberts, em Tulsa, Oklahoma, Rudi Plaut, um fiel admirador dela em Concórdia, iniciou uma campanha local para que fosse erigido um marco histórico permanente em sua homenagem. O marco diria, em parte: "O local de nascimento de Kathryn Kuhlman; ela foi membro da Igreja Batista, uma ministra ordenada da Evangelical Church Alliance, conhecida por sua fé no Espírito Santo." A população não gostou da idéia. A cidade natal de Kathryn não partilhava do entusiasmo geral para com ela. Circulavam boatos de que Kathryn Kuhlman era muito rica. Parece que muitas das ligações telefônicas de Kathryn para a mãe, enquanto Emma ainda era viva, foram monitoradas pela telefonista local. Quando Kathryn alardeava para a mãe o volume de uma oferta específica ou o número de pessoas que compareciam à reunião, isso imediatamente se tornava público na pequena cidade. Uma vez que grande parte das pessoas em Concórdia pertencia a um grupo de renda média e baixa, havia uma opinião geral de que alguém que estivesse além disso, principalmente caso se tratasse de pessoa envolvida com religião, deveria ser desprezado. Alguns dos membros da igreja batista local achavam que Kathryn deveria tê-los ajudado em seu programa de construção, uma vez que ela nunca se tornou membro de outra igreja. Havia outros fatores que levavam a pequena comunidade conservadora a não considerar com tanta amabilidade sua mais famosa cidadã: sabia-se que se associava aos pentecostais. Ela praticava a cura divina e se recusou uma vez a dar uma audiência a um velho amigo de escola quando veio para a cidade de Kansas para um culto de milagres. Tudo isso serviu para levantar suspeita por parte de alguns cidadãos. Então, quando um pequeno grupo, liderado por Rudi Plaut, propôs o marco histórico, afirmando que Kathryn havia nascido em Concórdia (quando todos os moradores mais antigos sabiam que ela havia nascido na fazenda do Condado de Johnson), isso foi a gota d'água. 17


Em 31 de julho de 1972, Kathryn escreveu para Harry R.Voight, um historiador local e professor da Faculdade de St. Paul, em Concórdia: "Esta carta dá permissão ao senhor para colocar o sinal proposto na estrada, afirmando que Concórdia é o local de nascimento de Kathryn Kuhlman". Um grupo de cidadãos enraivecidos convocou uma reunião dos moradores da cidade marcada por muita discussão e gritaria. Infelizmente, o povo de Concórdia havia se esquecido de que o nome de sua pequena cidade significava harmonia. Gary Beizzenhen, editor do jornal local The Concordian, decidiu resolver a questão. Ele escreveu para Kathryn pedindo-lhe que informasse a data e o local específicos de seu nascimento. É claro que Kathryn ignorou o primeiro pedido, mas, quanto ao local de seu nascimento, escreveu: "Esteja certo de que me sinto muito honrada em receber a homenagem do povo de minha cidade natal ao erigir um marco histórico apontando Concórdia como meu local de nascimento! "Sempre tive orgulho do fato de ter nascido em Concórdia, onde as pessoas ainda são 'as melhores do mundo' e continuam a ser o sal da terra..." Quando a carta veio a público em Concórdia, o sal da terra perdeu seu sabor. As pessoas a quem Kathryn considerou "as melhores do mundo" se irritaram e se recusaram a deixar que o marco fosse colocado na estrada. Se tivesse de haver um sinal em algum lugar, seria fora da State Road 23, no Condado de Johnson. Havia algumas coisas das quais Concórdia poderia ter orgulho, mas esta "serva do Senhor" não era uma delas. Embora o povo de Concórdia quisesse renegar Kathryn depois que ela ficou famosa, ela nunca expressou outra coisa, senão bondade e gratidão, pela cidade onde havia sido criada. Joe Kuhlman montou uma empresa de frete, operando um estábulo de aluguel e dirigindo um negócio de entregas. Ele era conhecido como a pessoa mais abastada na comunidade. Por mais que fosse um batista rebelde que detestava todos os pregadores, se elegeu prefeito em uma cidade em que 90% das pessoas eram luteranas. Kathryn só tinha 6 anos quando sua irmã mais velha, Myrtle, casou-se com um jovem estudante e evangelista, Everett B. Parrott, e se mudou para Chicago. Isso aconteceu três anos antes de Emma dar à luz o último filho dos Kuhlmans, Geneva. Mas, nesse ínterim, Kathryn e seu irmão conseguiam fazer o que queriam com o pai. O pai lhes dava tudo o que queriam - e deixava a disciplina nas mãos da mãe. Era uma situação 18


desajustada que afetaria a personalidade de Kathryn pelo resto de sua vida. Quando, aos 16 anos, Kooley (a quem a família Kuhlman chamava de "Garoto") teve uma crise de apendicite enquanto a família estava reunida na casa do vovô Walkenhorst para a ceia de Natal, Joe quase perdeu a cabeça por causa da ansiedade. A mãe de Emma morrera muito nova por causa de uma apendicite, o que era considerado algo quase fatal no início do século 20. Joe transformou um dos cômodos do casarão na St. Louis Street em um quarto hospitalar, trouxe um médico e duas enfermeiras da cidade de Kansas e gastou uma pequena fortuna para restabelecer a saúde do Garoto. Em uma tarde, ele fez as duas enfermeiras levantarem o Garoto da cama e o ajudarem a ir até a janela para que pudesse ver o novo brinquedo que lhe havia comprado. Era um Dusenberg, um carro de corrida de alta velocidade novinho em folha — o mesmo tipo que estava sendo usado nas pistas de Indianápolis. Após a recuperação de Kooley, o pai também lhe comprou um avião, que ele aprendeu a pilotar, viajando por todo o Meio-Oeste fazendo acrobacias. Quando não estava voando, ele estava correndo com seu carro em feiras do condado. A mãe não aprovava a idéia, mas o coração do pai era mole e generoso. Kooley tinha tudo o que pedia. De acordo com aqueles que o conheciam, ele era "travesso". Um relato diz que ele pertencia à "Midnight Tire Company", um grupo de homens que perambulavam pelo campo à noite, roubando pneus para revenda. Mais tarde, ele se casou com Agnes Wharton, a quem o povo de Concórdia descreveu como uma "mulher maravilhosa", que contribuiu para dar um jeito em seu modo mimado. Ele foi trabalhar para Heinie Walkenhorst (que não tinha nenhum parentesco com sua mãe) como mecânico de automóveis. Kathryn idolatrava o pai. Ele ficava sentado em silêncio, enquanto ela penteava seus cabelos cacheados ou passava o pente em seu bigode espesso. Muitas vezes, mesmo após ter-se tornado uma adolescente com pernas compridas, ele a colocava no colo e a deixava reclinar sua cabeça em seu ombro."Papai viveu e morreu sem nunca ter me castigado uma única vez", ela me disse."Ele nunca pôs as mãos em mim. Nunca. Era mamãe quem me castigava. Eu descia para o porão a fim de que os vizinhos não me ouvissem gritar. Então, quando papai chegava em casa, eu corria para os braços dele, sentava-me no seu colo, e ele levava embora toda a dor. "Não me lembro, quando era criança, de mamãe ter demonstrado alguma afeição por mim. Nunca. Mamãe era uma disciplinadora perfeita. Ela nunca disse que sentia orgulho de mim nem que eu me saía bem. Jamais. Era papai que me dava amor e afeição." Depois que Kathryn ficou famosa, costumava pegar o telefone à noite, ligar para a mãe em Concórdia, conversando por horas a fio. De acordo com a telefonista, Kathryn estava sempre tentando provar para a mãe que havia alcançado o sucesso."Ela dava risadinhas sem parar", disse-me a ex-telefonista, "e, é claro que ficávamos ouvindo-as e rindo também. Depois, ela contava para 19


a mãe tudo o que havia conseguido. 'Mamãe, montei a maior árvore de natal da cidade. É muito alta e tem mais de 5 mil lâmpadas.' Falava sobre o volume de ofertas em seus cultos de milagres como se estivesse tentando convencer a mãe de que ela era um sucesso". Parece que há uma ampla evidência de que Kathryn merecia todas as surras que levava quando criança. Quando visitou o vovô Walkenhorst em sua fazenda, ele lhe mostrou seu pomar de melancias, explicando que, mesmo que estivessem verdes do lado de fora, as melancias eram sempre vermelhas por dentro. Kathryn, até o dia em que morreu, não gostava de acreditar no que os outros diziam. Sua natureza curiosa exigia que ela mesma conferisse tudo. Assim, depois que o vovô Walkenhorst voltou para casa, Kathryn, com 9 anos, pegou uma faca de açougueiro e cortou todas as melancias do pomar — mais de cem delas — só para ter certeza de que eram todas vermelhas por dentro. Quando Kathryn chegou em casa, a mãe já esperava por ela no primeiro degrau do porão. O aniversário de sua mãe era no dia 28 de agosto. Quando Kathryn tinha 9 anos, coincidentemente ele caiu em uma segunda-feira. Esse era o dia de Emma Kuhlman lavar roupa. Era, como Kathryn disse mais tarde, "parte de sua teologia". Ela lavava roupa na segunda e a passava na terça — assim como ia à igreja no domingo. Kathryn achou que a coisa mais simpática que poderia fazer para a mãe, que sempre a surrava, era preparar-lhe uma festa surpresa de aniversário. Sabia como a mãe gostava de receber visitas. Ela adorava usar seu vestido longo de gola alta, mangas compridas e laços nos punhos, arrumar os cabelos puxando-os bem para trás, usar seu chapéu com um veuzinho e servir chá para aos metodistas da classe da Escola Bíblica Dominical ou aos membros do "King's Herald" — uma organização missionária da igreja. Ninguém, ao que parece, havia visto jamais a senhora Kuhlman em trajes informais ou com bóbis no cabelo. Kathryn, mais tarde, disse: "Não me lembro de ter visto minha mãe sentada à mesa do café da manhã usando um roupão. Quando mamãe descia para tomar café, sempre estava totalmente vestida. Ela queria estar preparada, caso chegasse uma visita em casa". Mas o dia de lavar roupa era diferente. Nesse dia, mamãe trancava a porta e passava o dia trabalhando e suando sobre banheiras de água quente. Usando uma tábua de lavar roupa reforçada, ela pegava as roupas e esfregava, enxaguava em uma banheira galvanizada, passava pela centrífuga manual que ficava presa do lado de outra banheira e, por fim, as pendurava no varal atrás da casa. Como disse Kathryn, lavar roupas na segunda-feira fazia parte da teologia de sua mãe. Mesmo naqueles dias escaldantes de agosto, quando os girassóis ao longo da cerca desfaleciam ao sol, Emma Kuhlman se inclinava sobre as tinas cheias de vapor, esfregando roupas. A pequena Kathryn não levou isso em consideração ao se preparar, na semana anterior, para surpreender a mãe no seu aniversário de 60 anos. Ela saiu de casa em casa pela comunidade e convidou 30 das 20


cidadãs mais importantes da cidade para virem a uma festa surpresa de aniversário para sua mãe. Seria na segunda-feira, às 14 horas. Mantendo estrito sigilo, pediu a cada uma das mulheres que levasse um bolo. Após o almoço no dia 28 de agosto, Emma disse a Kathryn que estava exausta. "Vou subir por alguns minutos para descansar antes de terminar de lavar a roupa." Kathryn correu para a varanda a fim de esperar as convidadas. Às 14 horas em ponto, ouviu-se uma batida na porta da frente. Emma, que havia cochilado, saltou da cama. Esquecendo-se das roupas que estava usando, desceu correndo as escadas. Seu cabelo, pelo menos aquela parte que não estava enrolada naqueles bóbis estranhos, caía sobre seu rosto, todo desarrumado. Seu vestido longo estava amarrotado por causa do vapor e salpicado de água. Seu rosto, vermelho por ter ficado debruçada sobre a água escaldante. As mangas de seu vestido estavam enroladas até o cotovelo. Ela estava usando sapatos velhos, largos nos tornozelos, sem meias. A senhora Kuhlman ficou horrorizada quando viu duas convidadas à porta.Ao perceber como estava vestida, se virou e começou a subir correndo as escadas. Mas já era muito tarde. Assim, já a haviam visto pela porta de tela. Não teve outra escolha senão deixá-las entrar. — Feliz aniversário, Emma — disse a senhora Lohoefener. Emma Kuhlman ficou parada em pé na porta, pasma. Ali estavam a senhora Lohoefener e o senhor Heerwald, dois dos líderes sociais da cidade, vestidos como se tivessem acabado de sair de um livro. Ambos seguravam, cada um, um bolo branco de várias camadas, maravilhosamente decorado. Emma os fez entrar e, mal tendo fechado a porta de tela, ouviu mais passos na varanda de madeira. Ali estavam a senhora Tieman, a senhora Shryman e Hilda Schroeder — todas com bolos — e todas vestidas como na manhã do Domingo de PáscoaA essa altura, as senhoras estavam chegando tão rapidamente que Emma nem tinha tempo de fechar a porta. Simplesmente ficou em pé ali enquanto as visitas chegavam copiosamente. Mas, em meio às senhoras, Emma dava uma olhada para o rosto sardento de sorriso largo da travessa filha ruiva, à espreita pelas samambaias que enchiam uma grande jardineira de barro que ficava em um estrado branco próximo às escadas da varanda. Emma cerrava os dentes. "Espere só, mocinha", ela murmurou."Espere só". Emma Kuhlman tinha o resto da tarde para planejar o castigo da filha. No entanto, teve de pensar enquanto, agitada, dava um jeito de tirar os vasilhames do forno, preparar a água para o chá e servir aos socialites — que pareciam estar adorando a festa. Mas, naquela noite, assim que a última mulher foi embora, a mãe de Kathryn pegou a culpada pelo braço e a fez descer as escadas do porão. Kathryn, mais tarde, disse que, mesmo tendo bolo suficiente para duas semanas, ela teve de comer muito, tamanha a fúria de sua mãe. 21


Joe Kuhlman nunca entendeu o tratamento disciplinar de Emma. O Garoto, para escapar, já havia saído de casa. Myrtle estava casada. Quando Joe tentava interferir nas surras e críticas negativas que Emma fazia ao comportamento de Kathryn, ela partia para cima dele. Conseqüentemente, ele também começou a passar um tempo cada vez maior fora de casa. Arrumou um pequeno quarto nos fundos do estábulo, onde muitas vezes passava a noite. Quando estava em casa, Joe Kuhlman passava o tempo com Kathryn, procurando e recebendo o amor que não sentia na mulher. Em contrapartida, Kathryn desenvolveu uma grande afeição pelo pai, que beirava a idolatria. Era tão forte que, toda vez que ela falava nele — mesmo depois de ele ter morrido trinta e cinco anos atrás —, seus olhos se enchiam de lágrimas. Seu pai começou a levá-la com ele quando ia receber contas. Os comerciantes estavam acostumados a ver Kathryn. Eles a chamavam de "Pequeno Joe". Mais tarde, ela pegou gosto pela responsabilidade de ir a lugares como o Brockman's Poultry Produce, Rummer's Grocery Store, a farmácia, a loja de departamentos, o mercado de carne, e receber, sozinha, contas de frete para o pai. Joe era um homem de negócios competente e havia ensinado a Kathryn muita coisa sobre importantes princípios empresariais, lições nas quais ela se basearia nos anos seguintes. Na realidade, mesmo depois de a Fundação Kathryn Kuhlman estar bem estabelecida, Kathryn muitas vezes se referia a algum princípio empresarial que havia aprendido com o pai. Ela raramente errava. A despeito de todo o tempo que eles passavam juntos, Joe Kuhlman, no entanto, nunca entendeu de fato sua filha travessa de cabelos avermelhados. Era mais fácil dar dinheiro, ou roupas, a ela do que tentar orientá-la em seus problemas. Seu fracasso em entender a profundidade do espírito da filha ficou patente no modo em que ele respondeu à profunda experiência espiritual que ela teve na igreja metodista — a igreja onde Emma encontrava grande parte de sua satisfação pessoal. Joe Kuhlman não era religioso. Desprezava pregadores, dizendo que todos só estavam envolvidos nessa atividade "por causa do dinheiro". Ele ficou muito preocupado quando Myrtle deixou a cidade para casar-se com um evangelista itinerante, prevendo que o casamento não duraria. (Ele estava certo.) As poucas vezes em que comparecia aos cultos na igreja batista, à qual pertencia, eram no Natal ou quando Kathryn dava um recital ou fazia uma preleção. Fora isso, ele não tinha fama de quem orava, lia a Bíblia ou expressava sentimentos religiosos de alguma maneira. Não obstante, talvez tivesse mais entendimento do que as pessoas da igreja imaginavam. Às vezes, os não-religiosos podem ver coisas por uma perspectiva muito mais clara, porque sua mente não está atravancada com as picuinhas da religiosidade convencional. Kathryn parecia pensar assim. E, em toda a sua vida, teve uma forte inclinação por pessoas como seu pai, que estavam desencantadas com a religião organizada, mas com fome de Deus. 22


O reverendo Hummel, um evangelista batista, estava em Concórdia para um encontro de avivamento de duas semanas na pequena igreja metodista. Havia certo entusiasmo nas reuniões. Uma das mais animadas da cidade, a Vovó Kresse, que participava de todas as reuniões de reavivamento em todas as igrejas, fora extremamente ativa nesse encontro. Embora os luteranos e as pessoas da Igreja Unida de Cristo olhassem com desdém sua atividade entusiasta, os metodistas, que tinham uma tradição muito mais reavivalista no início do século 20, não achavam incomum uma pessoa subir e descer pelos corredores da igreja "à procura dos perdidos" durante os tradicionais apelos feitos do púlpito. Vovó Kresse tinha este dom. E, assim que o evangelista concluía sua pregação, ela, que sentava na primeira fila, subia o corredor, conversando com as crianças, encorajando-as a "ir à frente" e buscar o Senhor no altar. Kathryn, que havia acabado de completar 14 anos, participara de todos os cultos daquela semana. Às vezes, ela se sentava ao lado da mãe, mas, quase sempre, sentava-se com um grupo de garotas risonhas de sua idade. Ao longo da semana, ela havia observado Vovó Kresse subir e descer os corredores da igreja. A princípio, as adolescentes riam dela. Mas, à medida que a semana passava, e elas viam alguns de seus amigos responderem ao apelo feito do púlpito, começavam a ficar com medo. O que aconteceria se Vovó Kresse as pegasse?! Mas não foi Vovó Kresse que pegou Kathryn. Na manhã de domingo, ao lado da mãe no encerramento do culto, quando o pastor fez o apelo, Kathryn começou a chorar. Somente anos mais tarde, ao avaliar aquela experiência pela perspectiva do tempo e de outras experiências, ela iria entender que havia sido tocada pelo Espírito Santo. Seus soluços eram tão fortes que ela começou a tremer. Emma observava a filha alta e magra de 14 anos, mas não podia dar-lhe nenhum tipo de encorajamento. Como muitos na igreja, seu relacionamento com Deus era um relacionamento social. Estava limitado a bazares, reuniões sociais com missionários, tardes de chá (quando estava adequadamente vestida, é claro) e reuniões da igreja. Mas nunca havia recebido qualquer ensino de como responder a um dinâmico encontro com o Espírito Santo. Na verdade, não tinha lembranças de alguém que tivesse experimentado um encontro dinâmico — pelo menos, não com esses resultados. Emma voltou os olhos para o seu hinário, fixando-os nas palavras e notas, incapaz de compreender o impacto do que estava acontecendo do seu lado. Kathryn colocou seu hinário na prateleira da parte de trás do banco envernizado da frente e foi cambaleando para o corredor. Suas colegas, duas fileiras à frente, olhavam, de olhos arregalados, enquanto ela percorreu rapidamente o corredor e sentou-se no primeiro banco. Com as mãos na cabeça, soluçava tão alto que podia ser ouvida por toda a igreja. Martha Johannssen, uma senhora portadora de deficiência física que, como Vovó Kresse, era considerada "muito religiosa" por acreditar 23


em um inferno literal, curvou-se sobre o encosto do banco e entregou um lenço a Kathryn. lhe.

— Não chore, Kathryn. Você sempre foi uma boa menina — disse-

Até as pessoas "religiosas", ao que parecia, eram incapazes de entender o poder de persuasão do Espírito Santo quando Ele descia soberanamente sobre uma jovem. Contudo, a experiência de Kathryn não foi muito diferente daquelas descritas na Bíblia. Samuel, Isaías, Paulo, Maria, a mãe de Jesus, e muitas outras personalidades bíblicas tiveram encontros com Deus que foram extremamente emotivos, muitas vezes eventos inquietadores. E, como nos tempos bíblicos, em Concórdia, no ano de 1921, ninguém parecia entender. Pelo resto de sua vida, Kathryn gostava de contar o que acontecera naquela manhã após o culto. "Ao voltar para casa com mamãe, senti que o mundo todo havia mudado. Eu estava ciente das flores que cresciam ao longo da estrada. Nunca as percebera antes. E o céu era azul-celeste, com nuvens felpudas e brancas que pareciam cachos de cabelos de anjos. O senhor Kroenoke tinha pintado sua casa. Mas a casa não havia mudado! Era Kathryn Kuhlman que havia mudado. Era a mesma cor, a mesma rua, a mesma cidade. Mas eu não era a mesma. Eu estava diferente. Uma brisa suave soprava no meu rosto e passava por entre os meus cabelos. Acho que Kathryn Kuhlman flutuou o caminho todo de volta para casa naquele domingo." Seu pai estava em pé na cozinha quando Emma e Kathryn passaram pela porta da frente. Kathryn correu em sua direção, lançando seus braços em volta da cintura dele. — Papai, algo aconteceu comigo. Jesus entrou no meu coração. Joe Kuhlman olhou para baixo, fitando bem os olhos da filha. O rosto dele não expressava nenhuma emoção. — Estou feliz — ele disse. Foi tudo. Depois se virou e saiu. Kathryn, mais tarde, disse: "Se ele entendeu ou não, eu nunca soube". De uma coisa, porém, Kathryn tinha certeza: sua vida havia assumido uma nova dimensão. A mudança não foi instantânea, mas a compreensão de que podia ter acesso a Deus por meio de Jesus Cristo produziria uma transformação. Mas até essa mudança acontecer, as coisas continuaram como eram — até mesmo se tornaram piores. Na reunião de reavivamento da noite seguinte, o evangelista pediu que todos os jovens que haviam feito sua profissão de fé durante a reunião — e havia vários — fossem à frente. — Agora, digam às pessoas o que vocês pretendem fazer com suas vidas — ele disse. Sem mudar a expressão de seu rosto, Kathryn respondeu: 24


— Vou encontrar um pregador vistoso e me casar com ele. Então ela fez a casa vir abaixo ao virar-se para o reverendo Hummel, que era solteiro, e piscar os olhos para ele. Todos se lembraram de que sua irmã mais velha, Myrtle, havia se casado com um jovem evangelista que dirigiu uma reunião de reavivamento naquela mesma igreja oito anos atrás. Mas Emma Kuhlman não sorria. Ela sabia que Kathryn gostava de paquerar. Sabia também que, se Kathryn quisesse algum homem, qualquer homem, conseguiria conquistá-lo. Via a igreja como a única esperança de Kathryn. Assim, começou a incentivá-la a se tornar membro da igreja e envolver-se em suas organizações. Kathryn, no entanto, optou por tornar-se membro da igreja batista do pai, em vez de pertencer à igreja metodista da mãe. Tinha suas próprias opiniões. — Não sei o que fazer com Kathryn — disse Emma Kuhlman a uma amiga íntima quando Kathryn tinha 16 anos. — Foi reprovada em matemática no ano passado e teve de arcar com as conseqüências. Ela é como o Garoto. Parece que não consigo controlá-la. Uma vez que o pai achava que Kathryn não causava dano algum, Emma não tinha a quem recorrer, senão à irmã mais velha de Kathryn, Myrtle, que estava passando alguns dias em casa no começo do verão. Era o ano de 1923, e o liberalismo feminino estava varrendo a nação. Bebida alcoólica era ilegal, mas, ao que parecia, toda fazenda no Condado de Lafayette escondia um alambique. Os pontos de venda clandestinos no condado estavam a todo vapor. Os jovens dançavam o charleston1, subindo e descendo a lamacenta rua Principal em carros esporte, com assentos traseiros, gritando "vinte e três já era" e consumindo bebidas ilegais. Emma sabia que, a menos que algo acontecesse para mudar Kathryn, a filha não teria forças para resistir às tentações da época. O ensino médio em Concórdia terminava no segundo ano. Aos 16 anos, Kathryn tinha toda a formação acadêmica disponível, a menos que entrasse no colégio luterano. Myrtle pediu à mãe que deixasse Kathryn ir com ela e Everett para uma série de acampamentos no noroeste. Ela e o marido ficariam com Kathryn no verão e a deixariam voltar no outono. Era uma solução ideal, mas Emma hesitou. Myrtle havia se casado com Everett Parrott, que viera tempos atrás a Concórdia para pregar em um culto de reavivamento na igreja metodista. Ele estava concluindo seus estudos no Moody Bible Institute, em Chicago, e era jovem e de boa aparência. Uma semana após o encerramento do reavivamento, escrevera para Myrtle, perguntando se ela poderia ir à cidade vizinha de Sedalia,

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Charleston - Dança popular muito animada, em compasso quaternário, surgida na década de 1920 nos Estados Unidos. Um tipo de foxtrote (dança de salão) em que cada dançarino executa movimentos agitados de braços e pernas, e passos que aproximam e afastam os joelhos (N.T.).

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onde ele morava, para tocar piano em uma reunião no fim de semana. Ela poderia ficar com os pais dele. Nem Emma nem Joe eram a favor desta idéia. Emma não queria ver sua filha sair com um jovem estranho. Não desejava vê-la sair com um pregador. Por fim, consentiram, e os Parrotts enviaram uma carruagem para levar Myrtle a Sedalia, a 40 quilômetros de Concórdia. Ela nunca tocou o piano. Everett só queria que seus pais a conhecessem. Escreveu para ela todos os dias durante as três semanas seguintes, e, então, foram casados pelo superintendente do distrito da Igreja Metodista em Sedalia, em 6 de outubro de 1913 — Mais tarde, Myrtle confessou que nunca amara seu marido, mas, como a maioria das moças que vivem em uma pequena comunidade, imaginou que seria melhor aceitar a primeira oferta que aparecesse para sair da cidade. Afinal, talvez não tivesse outra chance. Foi um casamento tempestuoso, cheio de problemas desde o início. Após uma breve estada em Chicago, o jovem casal pôs-se a caminho do circuito evangelístico — passeando, como eles costumavam dizer, pela "estrada de serragem". Parrott tinha uma tenda. Eles viajavam de cidade em cidade, grande parte no Meio-Oeste, realizando reavivamentos em tendas. De vez em quando, era Myrtle quem pregava. Na maior parte, no entanto, ela atuava como gerente e coordenadora das atividades do marido. Quando chegou a notícia de que o dr. Charles Price, professor e evangelista com um maravilhoso ministério de cura, havia chegado do Canadá e estava realizando cultos em Albany Oregon, os Parrotts fizeram uma viagem especial ao extremo oeste para participar de sua ministração. Diferente do ministério de muitos evangelistas que realizavam acampamentos pelo Oeste, o ministério do dr. Price era relativamente reservado. Ele passou grande parte do tempo ministrando sobre o poder de Deus. Também falou sobre uma experiência que ia além da salvação, chamada "o batismo no Espírito Santo". Uma vez em Albany, ele chamou Everett Parrott de lado e passou várias horas ensinando-lhe os textos bíblicos sobre este assunto em particular. Parrott ouviu com atenção. No entanto, nem a ministração de Price gerou a mudança necessária. A despeito da adoção de uma garotinha, Virgínia, anos mais tarde, o casamento, finalmente, acabou em divórcio. No entanto, antes de acontecerem os últimos problemas que culminaram com seu divórcio, Myrtle voltou para Concórdia a fim de fazer uma rápida visita aos pais. — Mamãe, tenho de partir depois de amanhã. Deixe-me levar Kathryn para passar o verão comigo. Eu a mandarei de volta, caso você queira que ela vá à escola no outono. — Seu pai e eu já conversamos sobre isso — disse Emma, com o semblante sério. — Vamos examinar e decidir tão logo seja possível.

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Myrtle orou a noite toda. De algum modo, parecia necessário que Kathryn a acompanhasse. Na manhã seguinte, logo cedo, ela encurralou a mãe: — Já decidiram? adulta.

Emma virou o rosto, para não olhar diretamente para a filha — Ela é muito nova, Myrtle. Só tem 16 anos.

— Mamãe — a voz de Myrtle tinha um toque de desespero —, ela precisa ir. Eu sei que esta é a vontade de Deus. Você quer impedir a vontade de Deus? — Como pode ter tanta certeza? Como é que você sabe o que Deus tem reservado para Kathryn? sei.

— Eu simplesmente sei — disse Myrtle, desabando a chorar. — Eu

— Seu pai e eu conversaremos novamente sobre o assunto no almoço — disse Emma. — Você terá a resposta hoje mesmo. Eram exatamente 16 horas. Myrtle se lembraria porque ouviu o relógio soar na parede da sala de estar. Emma desceu as escadas, com o semblante sério. Myrtle estava em pé perto da banqueta na sala da frente, polindo a armação de seus óculos. — Decidimos — disse Emma devagar — deixá-la ir. Mas é com muita relutância de minha parte. De algum modo, Emma Kuhlman suspeitava que, se Kathryn partisse, nunca mais voltaria. E ela estava certa. Na tarde seguinte, Joe e Emma colocaram as duas filhas no trem para a cidade de Kansas. Kathryn estava compenetrada. Ela também suspeitava de que outras forças estavam agindo em sua vida. Forças opostas, que lutavam entre si. Uma força a encorajava a ficar, a "desfrutar" de sua liberdade. A outra força a puxava para cima e a incentivava a partir. Ela havia tentado — Deus sabia quanto havia tentado — fugir daquele chamado do "alto". Mas, toda vez, Ele a fazia voltar ao lugar do arrependimento. Cada vez que ela pecava — e não lhe faltara oportunidade durante as últimas duas semanas —, se via de volta ao lado de sua cama, de joelhos, pedindo a Deus que a perdoasse. Agora Deus estava fazendo mais uma coisa. E ela teve a sensação, enquanto o trem deixava a plataforma, que seria um erro pensar em olhar para trás por sobre os ombros. Ela acenou um adeus para seus pais através da janela empoeirada do trem. Em seguida, acomodou-se no assento — olhando para a frente. Como sua mãe, ela sabia que Concórdia nunca mais seria seu lar.

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Capítulo 3 Tendas e Galinheiros A convicção de que fora Deus quem a havia chamado a sair de Concórdia ficou mais forte depois que Kathryn chegou em Oregon. Ainda assim, se sentia culpada por ter se intrometido no casamento instável de sua irmã. Para compensar sua culpa, ela não aceitava nenhum tipo de favor. Insistia em dormir no chão da sala de estar do apartamento e passava, pelo menos, dois dias da semana lavando roupas — lavava roupas na segunda e as passava na terça. Foi sua primeira experiência com os trabalhos domésticos regulares. Essa experiência ajudou a convencê-la de que, embora a companhia de um homem pudesse ser emocionante, ter de cuidar de um marido que esperava que a mulher cozinhasse para ele e lavasse suas roupas sujas era suficiente para levá-la a reconsiderar o casamento como uma vocação. Os dois exemplos que ela melhor conhecia, o de sua mãe e o de Myrtle, não eram muito atraentes. Nessa época, as segundas-feiras transcorreram sobre uma tábua de esfregar roupa, com os braços mergulhados na água escaldante, enquanto eles se mudavam de apartamento para apartamento, seguindo a estrada de serragem. As terças-feiras eram dias reservados para passar roupas.As camisas brancas bem engomadas de Parrott eram suficientes para testar a lealdade de qualquer esposa — e certamente eram demais para uma cunhada ainda criança. Kathryn havia observado a mãe e já sabia como era o processo. Aquecer o ferro de metal pesado sobre as chamas do fogão a gás. Enquanto isso, borrifar com água a camisa engomada e enrolá-la frouxamente para que ficasse inteira e levemente umedecida. Pôr a tábua de passar roupa sobre a mesa da cozinha e estender bem a camisa. Segurar a alça de metal do ferro usando algo acolchoado para não queimar a mão. Molhar um dos dedos e tocá-lo rapidamente na base do ferro. Se fizesse um barulho de vapor, estava suficientemente quente para ser usado. Mas era preciso mantê-lo em movimento. Sem dinheiro para comprar camisas extras, uma marca de queimado significaria que Parrott não poderia tirar o paletó durante o sermão, por mais calor que fizesse sob a tenda de lona, para não exibir um buraco em sua camisa. Nem tudo se resumiu em lavar e passar roupas. O noroeste durante o verão de 1923 foi agradável. Myrtle e Kathryn olharam muito as vitrinas quando passaram pelas lojas nas pequenas cidades de Washington e Oregon, onde Parrott montou sua tenda. Myrtle precisava da presença alegre de Kathryn, que, por sua vez, necessitava da maturidade austera e da bondade fraterna que Myrtle lhe provinha. Era uma boa combinação. 28


À noite, elas participavam dos cultos de reavivamento nos quais Kathryn teve sua primeira experiência com pregações em tendas. Everett Parrott não tinha outra mensagem senão esta: "Arrependam-se e sejam salvos". Ele era um homem eloqüente no púlpito. Pregava sua única mensagem repetidas vezes, usando diversos textos. Quase no final do verão, Kathryn já havia ouvido todos os seus sermões várias vezes e estava começando a entender por que Myrtle relutava em comparecer aos cultos, embora seu marido insistisse, às vezes nervoso, dizendo que precisava dela ali para ajudar a recolher as ofertas e tocar piano. O espírito independente de Parrott incomodava Kathryn. Ela questionava Myrtle, querendo saber por que ele se recusava a cooperar com as igrejas locais. Parecia melhor, ela pensava, trabalhar com as igrejas e os pastores, em vez de chegar à cidade, montar sua tenda e começar a pregar. Cansada, Myrtle olhava para Kathryn. — Querida, já fazemos isso assim há anos. Tentamos, no começo, trabalhar com os pastores. Mas eles tinham medo de nós. Os batistas queriam saber se éramos batizados. Os metodistas faziam-nos perguntas sobre a santificação. E os nazarenos queriam saber se pregávamos a santidade. Parecia que todos estavam edificando seu próprio reino, e, de algum modo, não nos encaixamos. Por isso, Everett decidiu edificar seu próprio reino — centrado naquela tenda. E ele me tem arrastado de cidade em cidade até o ponto de eu me cansar e não conseguir suportar mais isso. — Mas não seria mais fácil — Kathryn insistiu em sua ingenuidade — chegar em uma cidade e estabelecer um centro de reavivamento. Vocês não precisariam ter um rol de membros que ameaçasse os pastores, mas apenas pregariam a salvação. Levariam as pessoas à salvação, e, se elas quisessem fazer parte das igrejas locais, que fizessem. Eu faria assim. Myrtle deu um sorriso triste e disse: — Você não entende, irmã. Para Everett, sua missão é evangelizar — acender a chama da salvação no coração dos perdidos. A missão das igrejas é manter essa chama acesa depois de nossa partida. Se nos estabelecermos em algum lugar, simplesmente nos tornaremos mais uma igreja. As igrejas criticam-nos o tempo todo agora porque recolhemos ofertas. Elas não se alegram com as pessoas que ganhamos para Jesus. Na verdade, muitas das pessoas que são salvas em nossa tenda tentam participar das igrejas locais depois que partimos, e não são aceitas. As únicas que realmente apreciam nosso ministério são as pequenas igrejas missionárias nas periferias. Kathryn estava descobrindo, rapidamente, as maquinações interiores do "reino". Ela também começou a entender por que seu pai sempre se sentia mais à vontade em casa no domingo. Contudo, lá no fundo, antes de dormir à noite em seu colchão de palha na sala de estar, ela ficava acordada e imaginava uma sociedade em que as pessoas de 29


todas as denominações se reuniriam, sem brigas, mas louvando a Deus em harmonia e unidade — lutando lado a lado contra as trevas do mundo."Eu sei que isso é possível", pensava."Eu sei que é assim que Deus quer que seja — como era no livro de Atos, quando todos estavam em comum acordo em um lugar. Aposto que, se isso acontecer, teremos outro Pentecostes na terra." Não havia como Kathryn saber, ainda tão jovem, que os sonhos e as visões que estava tendo eram parte do plano de Deus para derramar o Espírito Santo sobre uma serva que viria a ser uma Joana D'Arc espiritual, conduzindo o exército do Senhor a uma nova liberdade e a um novo poder, uma vez que o mundo se aproximava do final da era. De vez em quando, Kathryn e Myrtle cantavam ou às vezes faziam um dueto ao piano. Por duas vezes naquele verão, Parrott pediu à ruiva de 16 anos que subisse ao púlpito e desse um "testemunho" da sua conversão na pequena igreja metodista em Concórdia. Nas duas vezes, ela encerrou o testemunho recitando um longo poema, com gestos dramáticos. As pessoas reagiram animadamente. Elas adoraram seu drama e o modo como pronunciara as palavras. Parrott logo concluiu que, se não fosse reprimida, Kathryn poderia vir a ser para ele o que Davi foi para Saul. (Você se lembra de como as mulheres cantavam:"Saul abateu seus milhares, e Davi suas dezenas de milhares", levando Saul à inveja?) Contudo, ele também sabia que, se deixasse Kathryn ajudar na coleta logo depois de a cunhada falar, as pessoas ofertariam com mais generosidade. — Se você resolver ficar com os Reavivamentos em Tendas dos Parrotts — ele a provocou —, eu a deixarei assumir parte da pregação. Aquilo entusiasmou Kathryn. Ela já vinha nas suas horas "a sós", quando lia a Bíblia, preparando esboços de sermões — só para estar preparada. Mas a hora nunca parecia chegar. À medida que o fim do verão se aproximava, e os Parrotts começavam a fazer seus planos para o outono, Kathryn viu que não fazia parte desses planos. O pai de Kathryn enviou dinheiro para sua viagem de volta, e Everett foi à estação de trem em Portland, Oregon, verificar os horários disponíveis para a viagem de volta para Concórdia. Ele comprou a passagem para Kathryn. Na sexta-feira antes do Dia do Trabalho, Myrtle ajudou Kathryn a arrumar suas roupas. A velha mala surrada estava sobre o aquecedor no pequeno apartamento. Tudo estava primorosamente dobrado. Só faltava fechar a mala. Myrtle estava em pé no meio da sala, observando tudo com tristeza. Kathryn, enquanto arrumava sua última peça de roupa, de costas para a irmã, começou a chorar. — Eu não quero voltar — ela soluçava. — Você não precisa voltar!

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Myrtle levou um susto. Era Everett Parrott quem falava. Ele acabara de entrar na sala. Era bom demais para ser verdade. — E a passagem de trem? — Myrtle gaguejou. — Podemos recuperar o dinheiro — Parrott disse calmamente. — Certifiquei-me disso ontem quando comprei a passagem. Imaginei que ela iria querer ficar, mas deixei a decisão nas mãos dela. Ela pode ser de grande ajuda no ministério. Os dois continuaram a conversar, mas Kathryn não ouviu nada. Estava muito sufocada com as lágrimas de felicidade e alívio. Anos depois, ela disse que muitas vezes sonhou com aquela mala e o aquecedor. "Às vezes, enquanto durmo", ela me disse, "ainda a vejo. Vejo cada peça de roupa e aquele seu fecho torto. Isso me assusta, pois foi uma grande reviravolta em minha vida. Se tivesse voltado para Concórdia, teria ficado presa lá. Sem falar no que teria acontecido. Mas, ainda assim, o Espírito Santo estava operando em minha vida, dirigindo meus passos. A partir daquele momento, eu estava no ministério — e nunca me arrependi". Aqueles primeiros anos foram difíceis, viajando com Myrtle e seu marido, parando de comunidade em comunidade. Eles chegavam na cidade, encontravam um terreno vazio e montavam a tenda. Então, Kathryn e Myrtle percorriam a cidade, tocando um sino de mão, convidando as pessoas para o culto naquela noite. Nos cultos à noite, Kathryn ocupava um lugar na primeira fileira de bancos, enquanto Myrtle muitas vezes se juntava ao marido no púlpito. Myrtle sempre advertia Kathryn sobre coisas que desgraçariam "o ministério". — Kathryn, não cruze suas pernas assim. Suas pernas são tão compridas qtie todos notam. Cruze só os tornozelos — e lembre-se de manter os joelhos juntos. A influência de Myrtle era boa. Embora fosse austera e inflexível como a mãe, ainda era uma irmã, e não uma mãe. Os cinco anos seguintes, embora difíceis, foram os melhores anos da juventude de Kathryn. Durante esse tempo, Parrott recrutou os serviços da pianista do dr. Price, uma extraordinária tecladista chamada Helen Gulliford. Embora Helen fosse onze anos mais velha que Kathryn, logo se tornaram amigas. Muitas pessoas pensavam que eram irmãs, de tanto que se pareciam. Embora Helen, com 1,68m, fosse 5 centímetros mais baixa que sua jovem e esbelta amiga, as duas podiam usar as mesmas roupas. Gostavam de estar uma com a outra. Aos poucos, as afeições de Kathryn para com sua irmã passaram para esta mulher solteira que desempenharia um papel profundo em sua vida. Ela era a mulher que ficaria entre Kathryn e um desastroso desgosto, embora se achasse incapaz de impedir a teimosa e jovem evangelista de destruir, por fim, seu ministério. As coisas não iam bem com a equipe do Reavivamento em Tendas dos Parrotts. Myrtle e Everett brigavam a maior parte do tempo. Ela o 31


acusava de passar tempo com outras mulheres, tornando-se cada vez mais parecida com a mãe, difícil e inflexível. Assim que chegaram a Boise, Idaho, as coisas foram de mal a pior. Parrott nem apareceu na reunião, preferindo pegar sua tenda e viajar para Dakota do Sul. Em Boise, os cultos eram realizados no Clube de Mulheres, e era Myrtle quem pregava. As ofertas eram tão baixas que nem cobriam as despesas com o aluguel do prédio — muito menos pagavam o aluguel de seu pequeno apartamento. Por duas semanas, as refeições consistiram em pão e atum enlatado. Uma vez que Parrott controlava as finanças, a única esperança de Myrtle era juntar-se a ele em Dakota do Sul. Hellen recusou-se a ir. Para ela, era o fim da linha. Como uma concertista, nunca se sentiu à vontade tocando pianos de estanho em pequenas comunidades para quinze ou vinte pessoas. Kathryn, também, estava muito desiludida. Apesar de gostar de ajudar na pregação, não conseguia ver nenhuma esperança para o futuro se ficasse com os Parrotts. Após o último culto, na noite em que haviam programado partir — Myrtle voltar para seu marido, e Helen e Kathryn ficarem, ainda por decidir o que fazer —, um pastor nazareno aproximou-se delas do lado de fora do Clube de Mulheres. — Não partam — ele disse a Myrtle. — Eu sei que as coisas estão muito ruins, mas precisamos de vocês aqui. Myrtle balançou a cabeça. — Não podemos ficar. Não temos dinheiro. — Bem, então deixe as meninas ficarem — ele propôs. — Sou pastor de uma pequena igreja missionária perto daqui. Elas podem participar dos cultos e, pelo menos, tocar piano e cantar. Myrtle examinou Helen e Kathryn, que vinham acompanhando a conversa. Ambas balançaram a cabeça. — Tudo bem — Myrtle disse num tom de resignação. — Kathryn quer pregar de qualquer jeito. Por que não dar a ela uma chance e ver o que pode fazer? — Ótimo — disse o pastor, radiante. — Elas podem começar amanhã à noite. E foi assim que tudo começou. Foi o primeiro sermão de Kathryn sozinha, em uma pequena igreja missionária malcuidada, outrora um salão de bilhar, em uma área pobre de Boise. Algumas cadeiras velhas foram juntadas, e o piano, que pertencia a um menino vizinho, fora transportado sobre rodas pela porta dos fundos, ocupando um lugar próximo ao púlpito desconjuntado no canto da sala. Como último pedido, Kathryn solicitou a Myrtle que lhe emprestasse 10 dólares. — Quero comprar um vestido amarelo novo para meu primeiro sermão. 32


— Kathryn — disse Myrtle, balançando a cabeça e parecendo exatamente com a sua mãe —, você não pode comprar o tipo de vestido que deseja por apenas 10 dólares. Custará o dobro desse valor. Além disso, não tenho esse dinheiro. Nem sei se temos 10 dólares na conta bancária do Reavivamento em Tendas dos Parrotts na cidade de Sioux. — Você ainda tem um dos cheques assinados por Everett? — perguntou Kathryn. Myrtle balançou a cabeça. — Então passe-me um deles. Faça um cheque no valor de 10 dólares. Não o descontarei até ter certeza de que você terá dinheiro suficiente para cobri-lo. — Mas você ainda não conseguirá comprar o tipo de vestido que quer por 10 dólares. — Myrtle argumentou. — Você nunca se contenta com roupas baratas. Sempre quer o melhor. — Tenho tudo planejado — disse Kathryn. — Posso não comprá-lo a tempo para o primeiro culto, mas irei tê-lo antes de deixar a cidade. Comprarei o tecido por 10 dólares. Depois o levarei a uma costureira e lhe pedirei que faça o vestido para mim. Sei exatamente como quero o vestido. Então, depois de receber minha primeira oferta na missão, pagarei a costureira. O que acha? Myrtle balançou a cabeça. — Eu jamais faria isso. Nunca! Myrtle preencheu o cheque e o entregou a Kathryn. Antes de terminar a semana, Kathryn já estava com seu vestido — um vestido amarelo com mangas bufantes e uma bainha que chegava aos tornozelos. Não foi só isso. Ela havia convencido o comerciante da loja onde comprara o tecido a deixá-la pagar depois de receber sua primeira oferta. Ela convencera a costureira a fazer o vestido de graça — um "ministério para o Senhor". Kathryn guardou o cheque por três meses e, por fim, o descontou na cidade de Sioux, Iowa, quando fez uma rápida visita a Myrtle para vê-la e assegurar-lhe de que poderia "se virar" sozinha. E foi o que aconteceu. Em um dia frio, Kathryn e Helen chegaram a Pocatello, Idaho. O único salão disponível para seus cultos era um velho teatro. O local estava há tanto tempo sem uso que havia dúvidas de que ficaria de pé após uma limpeza. A sujeira parecia ser o alicerce do teatro. Mas era preciso mais do que uma sujeira para esfriar o duplo fervor de Kathryn e Helen, que se anunciavam como as "Garotas de Deus". "Mesmo assim", Kathryn me diria tempos depois,"eu sabia o que Deus poderia fazer se somente o evangelho — em sua simplicidade — fosse pregado". Antes de as duas jovens partirem da cidade, após seis semanas de cultos que muitas vezes passavam da meia-noite, o piso principal e as duas galerias estavam lotados.

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A recepção dada às duas em Twin Falls, Idaho, foi tão intensa quanto o clima frio no dia de sua chegada em janeiro. Na segunda noite, quando Kathryn saía do prédio, após o culto de pregação, ela escorregou no gelo e fraturou a perna. Helen levou-a a um médico que tinha um consultório próximo ao salão municipal onde os cultos eram realizados. Ele engessou a perna de Kathryn e disse-lhe que ficasse com o gesso por, pelo menos, duas semanas. O médico, no entanto, não fazia idéia da terrível determinação da jovem mulher que estava começando a perceber seu rumo na vida. Não era uma perna quebrada que a impediria de realizar o que Deus lhe havia chamado a fazer. Ela nunca perdeu um único culto, pregando pelo resto do mês — todas as noites — e apoiando-se em muletas com sua perna engessada. Uma enfermeira diplomada, veterana da Primeira Guerra Mundial, que freqüentava os cultos, escreveu uma carta ao editor do jornal de Twin Falls, dizendo: "Vi coragem e determinação nos campos de batalha da França. Vi essa mesma coragem e determinação na noite passada em uma jovem que se levantou no púlpito, pregando a salvação". Seus críticos, e ela estava começando a reuni-los logo no início da década de 1930, diziam que Kathryn estava vendendo uma mistura de "sexo e salvação". De certo modo, eles estavam certos. As duas mulheres solteiras eram muito atraentes, e parte de sua atração estava no seu modo singular de apresentar o evangelho. Elas demoravam após os cultos toda vez que alguém precisava de ajuda. Muitas vezes, aqueles necessitados eram homens solitários incapazes de distinguir entre o amor de um Pai celestial e a atração sexual de uma jovem mulher que era totalmente desinibida na atenção que dava, de igual modo, a homens e mulheres. Felizmente, Helen Gulliford era muito mais conservadora do que Kathryn, e muitas vezes advertia a amiga quando ela era extremamente amigável com algum dos admiradores que se aglomeravam no altar em busca de suas orações. Kathryn parecia estar mais cuidadosa do que nos primeiros dias de seu ministério e, graças às constantes advertências de Helen, esforçava-se para continuar discreta — mesmo quando percebia que ficaria até altas horas da madrugada ajudando algum favelado a "orar" até alcançar a salvação. Foi em uma dessas "reuniões após os cultos" que ela teve sua primeira experiência com o fenômeno de falar em línguas. Kathryn e Helen haviam vindo a Joliet, Illinois, para três meses de cultos no segundo andar de uma antiga loja. (Foi aqui, a propósito, que um grupo conhecido como Aliança da Igreja Evangélica convenceu a jovem evangelista de que precisava ser ordenada. Ela concordou. Foi a única autorização eclesiástica que teve.) A única mensagem de Kathryn era a de salvação, e ela naquela noite foi simples e objetiva. A multidão, que chegava às centenas, se fora, e Kathryn ficou com meia dúzia de pessoas que ainda estavam de joelhos no altar. Uma delas era Isabel Drake, uma professora que viajava de Joliet para Chicago diariamente. 34


Kathryn estava sentada com a mãe de Isabel em um dos bancos da frente enquanto a jovem professora encolhia-se no altar, às vezes soluçando, outras vezes orando. De repente, Isabel se colocou de joelhos, com o rosto voltado para o teto, e começou a cantar. Kathryn disse: "Eu nunca ouvira tal música. Era a música mais linda, com a mais bela voz que já ouvi. Ela estava cantando em uma língua que eu nunca tinha ouvido, mas era algo tão etéreo, tão belo, que senti os pêlos de minha pele começarem a arrepiar. "Sua mãe, que estava sentada ao meu lado, agarrou minha mão e quase quebrou meus dedos. Não é a minha filha que está cantando', disse com a voz ofegante. Isabel nem consegue ficar no tom. Minha filha não sabe sequer cantar uma nota'." Kathryn disse que a mãe estava quase histérica. Tudo o que podia fazer era impedir a mulher de sair pulando e correndo pela sala. Em vez disso, elas ficaram sentadas em silêncio, ouvindo a bela música e o fluir sobrenatural de palavras que saíam da boca da jovem professora. Às vezes, sua voz alcançava um dó alto e, então, oscilava em um acorde menor, e acabava em um sussurro antes de voltar novamente ao tema. Embora as palavras soassem como algum canto grego ou fenício antigo, Kathryn sabia que sua origem não era terrena. A música continuou por quase quinze minutos. A jovem professora, então, abaixou a cabeça e continuou em silêncio no altar antes de virar-se e abraçar a mãe. Embora tivesse recebido os ensinos de Charles Price e ouvido falar de grupos pentecostais (chamados de "roladores santos" naquele tempo) que falavam em línguas, Kathryn não havia ouvido isso antes. No entanto, algo em seu coração registrou que se tratava de um fenômeno divino. Isabel nunca ouvira falar do "dom de línguas", nem sonhara que sua oração iria levá-la a essa dimensão do Espírito. Tudo o que vinha fazendo era pedir a Deus que a enchesse mais dele — sem saber que sua oração seria respondida por meio de uma visitação do Espírito Santo. Muitos anos depois, Kathryn testemunhou uma experiência similar em Portland, Oregon. Foi durante um grande culto de milagres em 1973. Kathryn esteve ali para um culto no sábado e, então, voltou no domingo à tarde para a última reunião. O Auditório Municipal estava lotado. Milhares estavam do lado de fora. Durante o culto, uma freira católica, usando seu hábito, veio à frente assim que foi curada de um tumor na coxa. Ela ficou muito tímida quando Kathryn questionou sobre a natureza de sua cura. Por fim, com um simples sussurro, ela disse que estava sentada no piso principal com outras seis freiras e dois padres quando sentiu uma queimação em sua perna. Ela apertou a área onde estava o grande tumor, e ele já não estava mais ali. Os dois padres insistiram com ela para que fosse ao púlpito e desse seu testemunho de cura. — Oh, querida, isso é tão maravilhoso — disse Kathryn. — Estou tão feliz. Kathryn estava chorando. Ela muitas vezes chorava quando 35


alguém dessa índole — um sereno padre ou freira, um pastor mais velho ou talvez um missionário esguio que passara a vida na obra de Deus — vinha à frente para testemunhar curas. Tinha um lugar especial em seu coração para os velhos, os pobres, as criancinhas, os jovens casais e, sobretudo, os servos de Deus. — Dou graças a Deus por sua vida — disse Kathryn baixinho quando a freira sorriu timidamente e se virou para descer do púlpito. A pequena freira deu só dois ou três passos e então se virou na direção em que Kathryn estava em pé ao microfone. Falando com dificuldade e num tom um pouco mais alto que um sussurro, ela disse: — Senhorita Kuhlman, tenho tanto desejo de ser cheia do Espírito Santo. Então, antes de Kathryn poder estender a mão para tocá-la, antes de poder dizer a primeira palavra de uma oração, a freira simplesmente caiu no chão. Geralmente, havia homens em volta das pessoas que tinham essa experiência (à qual ela chamava de "cair sob o poder" ou ser "tomado pelo Espírito") para segurá-las. Dessa vez, no entanto, não havia ninguém perto o suficiente para amparar a freira. Ela simplesmente caiu no chão e, ao mesmo tempo, começou a falar em uma linda língua sobrenatural. "Um santo silêncio veio sobre aquela grande congregação", disse Kathryn, descrevendo o incidente. "Milhares encheram aquele Auditório Municipal. Ninguém falou. Fiquei em pé ali, completamente paralisada, intimidada pelo que estava acontecendo, enquanto essa preciosa mulher, que praticamente não sabia nada sobre o batismo do Espírito Santo, falava em línguas. Seus olhos estavam fechados, e de seus lábios saía uma língua tão perfeita quanto aquela que, anos antes, saíra dos lábios de Isabel Drake. Não eram palavras balbuciadas, pois o Espírito Santo não balbucia. Era uma língua perfeita, uma vez que o Espírito Santo que estava nela usava seus lábios para oferecer louvor e adoração ao Pai celestial lá do alto." Muitos teólogos e religiosos ficaram incomodados com o fato de a própria Kathryn Kuhlman não ter dado um claro testemunho de suas experiências pessoais a esse respeito. Embora sua conversão aos 14 anos tenha sido uma experiência definida, não foi uma experiência de abalar a vida e mudar o caráter que, segundo muitos, era necessária para que ela estivesse apta para pregar. Sua conversão, em vez disso, só pareceu começar nessa experiência — amadurecendo, com muitos altos e baixos, como um processo de salvação por toda a vida. Havia muitas falhas na vida de Kathryn que, uma vez que ela estava sempre exposta ao público, eram extremamente evidentes. Mesmo no último ano de sua vida, o mundo cristão descobriu alguns traços de caráter em Kathryn que estavam muito longe de ser perfeitos. Contudo, ela nunca se considerou nada mais que uma pessoa comum, sincera e simples. "Sou a pessoa mais comum do mundo", muitas vezes declarava. Poucos de seus admiradores levavam essa confissão a 36


sério. E a olhavam com respeito, como algum tipo de grande santa. Mesmo quando ela lhes dizia que não deveria ser adorada, eles adoravam o modo como dizia isso. Seus críticos, por outro lado, nunca tiveram dificuldade para descobrir suas falhas. Como os milagres que seguiam seu ministério, suas falhas sempre foram reveladas, expostas ao mundo. Kathryn tinha mais críticos dentro da igreja do que fora dela. As pessoas do mundo, com fome de realidade, se concentravam em seus cultos, ávidas por constatar com os próprios olhos aquilo que outros pregadores só sabiam falar. Essas "pessoas do mundo", como Kathryn as chamava, haviam procurado pela realidade e pelo poder sobrenatural em todos os lugares. Muitas mergulharam fundo no ocultismo, no espiritismo e na feitiçaria com a esperança de encontrar ali as respostas para sua sede interior. Na verdade, podiam provavelmente reconhecer um milagre muito mais rápido do que aqueles cegados pela tradição da religião falsa e morta, que pregavam que a era dos milagres ficara no passado — em uma tentativa de defender sua própria impotência. Kathryn nunca se deixou levar por esse tipo de racionalismo vazio. Repetidas vezes, ela disse em suas pregações: "Temos de apegar-nos à Palavra de Deus. Ficar com ela. Nada mais. Nenhuma outra coisa. No instante em que você vai além da Palavra de Deus, passa para o fanatismo, e perdemos o respeito dos nãoregenerados. Nesse momento, trazemos vergonha à pessoa mais linda do mundo, a terceira pessoa da Trindade — o Espírito Santo". Kathryn sabia que todo homem na face da terra trazia em si uma consciência de Deus. Uma fome de Deus. Ela reconhecia a natureza humana como algo que ansiava e desejava ter comunhão com Deus — uma comunhão que havia sido quebrada pelo pecado de Adão e que, mesmo agora, era impedida pelo pecado da raça humana. Ministrando na Convenção Internacional dos Homens de Negócios do Evangelho Pleno, em Dallas, Texas, no ano de 1973, Kathryn falou com franqueza: "Devemos ser respeitáveis, pois representamos Deus Pai, representamos Jesus Cristo, o Sumo Sacerdote, e, neste momento do maravilhoso movimento carismático, representamos a maravilhosa e desconhecida pessoa do Espírito Santo. Nós o representamos agora, no maior momento da igreja. Os olhos de milhões de pessoas estão nos observando. O olhar da igreja organizada está sobre nós, que vivenciamos este maravilhoso movimento carismático. Os olhos dos não-regenerados estão sobre nós. Entendam como quiserem, mas temos de merecer o respeito deles. Precisamos estar firmes na Palavra de Deus". Não obstante, seus críticos a atacavam. "Ela prega a necessidade de ser 'batizado no Espírito Santo'", diziam, "mas nunca nos diz quando teve essa experiência". Mas Kathryn não se baseava em experiências. Ela insistia em que a teologia de um homem deve ser baseada na pessoa de Jesus Cristo e incendiada pelo fogo do Espírito Santo, em vez de estar baseada em alguma experiência — seja uma experiência pessoal ou de outra pessoa. Portanto, quando de fato teve a experiência definida por ela 37


mesma como "o batismo no Espírito Santo", isso foi algo secundário. Ela creu nela. Ela a desejou intensamente para outras pessoas. Ela a viveu. Mas a experiência de Kathryn era de Kathryn, única, dela, e de mais ninguém. Nesta mesma convenção no Hilton Hotel em Dallas, em 1973, Kathryn afirmou: "Creio no falar em uma língua estranha. Eu mesma já testifiquei diante de todo o mundo. Tenho de testificá-lo, pois se trata de algo bíblico. Está na Palavra de Deus. Mas lembre-se de que o Espírito Santo não balbucia. O Espírito Santo é a perfeição. Saiba disso! Precisamos da velha Bíblia neste movimento carismático. Temos de recorrer novamente à Palavra de Deus. Se não fizermos isso, vamos perder o respeito de milhões que nos estão observando e dos milhares que se acham na incerteza, esperando, observando e com fome interior. "Este é o maior momento da igreja. Estamos vivendo os últimos instantes desta dispensação. Temos de esquecer os personalismos. Precisamos esquecer nosso próprio desejo de estar em destaque. Faz-se necessário deixar de tentar subir mais alto do que o outro, como se a nós tivesse sido dada uma revelação maior do que a outra pessoa e devêssemos ser mais impressionantes do que o outro, gritando mais alto do que o outro, sendo mais emocional do que o outro. Amados, temos de ter cuidado. Estamos em um momento de crise. Sim, creio nas línguas. Creio que sejam para a igreja hoje. Creio que cada igreja de nossa nação deveria ter as línguas e a interpretação — todos os dons do Espírito. Pois creio que Deus está restaurando à igreja, hoje, todos os dons e todos os frutos, assim como era no livro de Atos. E quando a restauração estiver completa, todos experimentaremos o maior 'arrebatamento' quando Jesus voltar...". Contudo, nenhum dos associados de Kathryn jamais a ouviu orar em línguas, nem mesmo Maggie Hartner, que era mais próxima dela do que qualquer outra pessoa. E, por isso, seus críticos, de círculos pentecostais e não-pentecostais, continuaram a irritar-se com ela. Os pentecostais se irritavam porque ela nunca falava de seu batismo no Espírito Santo e porque se negava a permitir a expressão de línguas em seus cultos de milagres. Os não-pentecostais, porque ela atestava que cria em todos os dons, inclusive no de línguas, e incentivava as pessoas a exercitá-los dentro de suas igrejas. Mas Kathryn, aparentemente cega a todas as críticas, continuou sua trajetória única. No que diz respeito ao assunto, não há evidência alguma de que Kathryn haja experimentado um milagre de cura — embora tenha ministrado cura a milhões de pessoas enfermas. Aqueles mais próximos dela sabiam que, por vários anos, antes de sua morte, ela sempre sofrera de uma dilatação do coração e, durante o último ano, nunca fora a lugar algum sem seus remédios. Quando teve de submeter-se a uma delicada cirurgia de coração em Tulsa, em novembro de 1975, foi ridicularizada pela imprensa secular e por algumas revistas fundamentalistas por pregar 38


cura mas não poder curar a si mesma. A única explicação que seu amigo Tink Wilkerson podia dar era: "Não aprouve a Deus conceder-lhe um milagre assim". Talvez Tink, do seu modo simples e não-teológico, estivesse entediado com a essência da teologia de Kathryn. A maioria de nós tem suas próprias interpretações do modo como Deus deveria dirigir o Universo — com base em nossas experiências pessoais limitadas. Kathryn, por outro lado, desafiava toda tradição. Desafiava as redomas em que os homens tentavam colocá-la. Quando lhe perguntavam por que muitos doentes saíam de seus cultos sem a cura, ela balançava a cabeça e dizia simplesmente: "Não sei. Não sei". Na verdade, ela disse tuna vez que a primeira pergunta que gostaria de fazer a Jesus ao chegar ao céu era: "Por que alguns não foram curados?". Os teólogos tinham as respostas. Centenas delas. Mas eles nunca viram milagres. Kathryn, que foi um dos maiores instrumentos do poder de milagres do Espírito Santo desde os dias dos apóstolos, não tinha respostas. "Não tenho a virtude da cura", ela sempre dizia."Não posso curar ninguém. Tudo o que faço é pregar a fé. É Deus quem opera a cura. Por que ele cura a uns e a outros prefere não curar, é algo que compete a ele. Não sou outra coisa senão sua serva." Assim, aqueles que criticavam sua posição, ou que a criticavam porque ela não era perfeita, ou que apontavam o dedo dizendo que ela não estava apta para o ministério porque era uma mulher ou porque não havia feito um seminário, estavam em um terreno perigoso. Houve um momento, lembra Myrtle, em que, segundo ela, Kathryn foi "chamada para pregar". Foi logo depois de Kathryn juntar-se aos Parrotts em Oregon, durante o verão de 1923— Eles haviam participado de um dos cultos do dr. Price e, ao saírem ao ar fresco da noite, Kathryn começou a chorar. Myrtle encontrou um banco próximo ao prédio da igreja, e Kathryn, incapaz de controlar seu choro convulsivo, repousou a cabeça no colo de Myrtle e chorou muito. — Todas aquelas pessoas — ela finalmente disse, engasgada. — Todas aquelas pessoas que não receberam Jesus como seu Salvador... — O que você está dizendo? — perguntou Myrtle com ternura. — Ele fez o apelo para que homens e mulheres aceitassem a Cristo, e ninguém foi à frente. Eles simplesmente permaneceram ali. Morrendo em seus pecados. Você não sente isso também? — Kathryn, sentiu o quê? — Sentir esse encargo pelos perdidos. Tenho de pregar, Myrtle. Nunca me darei por satisfeita, a menos que esteja fazendo a minha parte.

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Kathryn nunca se referiu àquela noite novamente. Ela não gostava de prender sua teologia ao passado. Adorava o Deus do agora, cujo Espírito Santo estava fazendo coisas muito mais emocionantes no presente do que fizera no passado. Uma vez, ela me disse que estava tão ocupada tentando acompanhar o que Deus estava fazendo hoje que não tinha tempo de lembrar-se de seus dias passados. Por isso, raramente respondia a seus críticos. Ela sabia onde estava, ainda que eles não soubessem. E tentar explicar era algo que tomaria muito tempo. Se não gostavam das experiências dela — ou da sua falta de experiências —, se eram contrários à sua maneira de vestir, agir, falar ou gastar dinheiro — bem, isso era problema deles. Ela sentia que estava sob um mandado divino. Como Neemias na construção do muro em volta de Jerusalém, estava extremamente ocupada para descer e discutir com o inimigo. Em um de seus raros momentos de nostalgia, Kathryn não falou sobre sua teologia."Quando chegou a notícia a Myrtle de que estávamos tendo cultos maravilhosos em Idaho, ela me enviou um telegrama de Spokane, Washington. Era um telegrama conciso, porém profundo: '"Tenha certeza de que sua teologia está correta'." "Eu nem mesmo sabia o que era teologia", disse Kathryn, rindo. "Alegro-me por ter sido tola, tola o bastante para crer que tudo o que tinha de fazer era pregar a Palavra e que Deus cuidaria de minha teologia". Mas havia outras coisas em questão além da "pregação da Palavra". Havia cartazes e folhetos a ser impressos, bem como reuniões a serem organizadas em cada nova comunidade. Parece que ela deu conta do recado, seguindo o rio Snake desde Payette até Pocatello e subindo às Cataratas de Idaho. Caldwell, Nampa, Mountain Home, Twin Falls, Burley, Blackfoot, Basalt e Bone. "Fale o nome de qualquer cidadezinha no estado de Idaho", disse Kathryn mais tarde aos repórteres, "e já trabalhei ali tentando evangelizá-la". Em Rexburg, próximo à divisa com Montana, Kathryn e Helen encontraram uma pequena igreja batista que estava fechada havia quase dois anos. Fazendo perguntas por ali, encontraram um diácono remanescente que ainda tinha as chaves do velho prédio. Ele coçou a cabeça e olhou, admirado, para as duas jovens que perguntavam se podiam realizar cultos na pequena igreja. — Bem, senhoritas — ele disse devagar —, ela está fechada agora. Portanto, não acho que vocês poderiam magoar-nos mais do que já estamos magoados. Kathryn e Helen abriram o prédio, limparam-no e então percorreram a pequena comunidade anunciando os cultos. Uma viúva, que aceitava hóspedes mas não tinha vagas disponíveis, fez o filho limpar o galinheiro. Kathryn e Helen passaram três noites ali antes de outra família oferecer-lhes um quarto e uma cama. 40


Os invernos em Idaho eram rigorosos, e às vezes não havia aquecedores no quarto de hóspedes. Para manter-se aquecida, Kathryn se encolhia sob uma grande pilha de colchas e ficava deitada sem se mexer, até aquecer uma parte da cama. Então, se colocava de bruços, pegava sua Bíblia e, durante horas, estudava a Palavra de Deus até que ela passasse a fazer parte de sua vida. "Fui instruída aos pés do maior mestre do mundo", ela disse mais tarde. "Não foi em nenhuma universidade ou seminário teológico importante. Foi na escola da oração, sob o ensino do Espírito Santo." "Às vezes", disse Kathryn rindo, "eu lia a Bíblia a noite toda porque tinha medo de apagar a luz e dormir. Por alguma razão, aquelas pessoas em Idaho gostavam de pendurar quadros grandes de seus antepassados nas paredes dos quartos de hóspedes. Lá estavam a avó com um grande laço no colarinho e o avô com sua longa barba. Eles tinham sempre uma aparência tão austera, olhando para mim lá do alto. E às vezes eu me sentia mais à vontade deixando a luz acesa a noite toda, lendo a Bíblia". Partindo para o sul de Idaho pelo deserto de Utah, Kathryn e Helen chegaram a Pueblo, Colorado, onde alugaram um prédio antigo na rua Principal. Ficaram ali por seis meses. "Eu tinha tanto medo", disse Kathryn, "de ser criticada por ter mais de um vestido, que fiz três vestidos da mesma peça de tecido amarelo. Em meu último culto em Pueblo, as cabeças se curvaram em uma oração silenciosa. De repente, o silêncio foi quebrado pela voz de um bêbado lá no fundo, que gritava: Meu Deus, será que não consigo fugir desse vestido amarelo? Eu o vejo quando vou dormir à noite, eu o vejo o dia todo. Ele me persegue." Foi uma boa hora para Kathryn sair, pois o culto mal subsistiu à imprevista interrupção. Denver, que ficava a mais de 100 quilômetros ao norte, estava chamando. Era ali que ela começaria a formar seu próprio reino e provar sua primeira aclamação nacional, descobrindo que a mão punitiva de Deus era mais poderosa que seus próprios caminhos rebeldes. Porque era ali que ela experimentaria a amargura da humilhação e do fracasso, que deixaria em sua boca o gosto das cinzas por ter bebido do inebriante cálice da paixão humana.

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Capítulo 4 Pregue e Nunca Pare Tudo o que Kathryn fazia era grande. Quando pregava, ainda que houvesse um grupo pequeno de pessoas no prédio, o fazia como se houvesse 10 mil pessoas. Ela nunca afrouxou. Na hora do apelo, entendia que todos na congregação precisavam arrepender-se e entregar a vida a Cristo — mesmo que todos fossem ministros e missionários. Muitos anos depois, ao encontrar-se com os pastores de uma cidade maior antes de um culto de milagres, fez um apelo, pedindo a eles que se arrependessem e "nascessem de novo". Muitos foram à frente, em lágrimas, pedindo-lhe que orasse por eles. Ela nunca admitiu algo como seguro. Muitas vezes, era criticada por ser efusiva sobre alguma estrela de cinema de Hollywood ou personalidade política famosa. Mas ela também era efusiva quando falava de algum padre desconhecido que havia feito um voto de pobreza, ou de um operário da construção de estradas que havia sido curado em uma de suas reuniões. Ela tratava taxistas e senadores de igual modo — ambos eram igualmente importantes aos olhos de Deus e, conseqüentemente, aos seus também. Lembro-me de dois exemplos. E acho perfeito compará-los. A primeira vez que me encontrei com Kathryn foi em sua suíte no sexto andar do Carlton House, no centro de Pittsburgh. Os cômodos são luxuosos, ocupando toda uma ala do hotel. Para passar pela porta que traz o nome da Fundação Kathryn Kuhlman incrustado em ouro, é preciso tocar uma campainha, que, por sua vez, desencadeia um carrilhão como o da igreja de Westminster no escritório. Portanto, ninguém simplesmente entra; é escoltado. Lá dentro, a atmosfera é confortável, calorosa e convidativa — ainda que cada mesa esteja cheia de abelhas operárias zunindo diligentemente. A decoração é feminina — um reflexo da própria Kathryn. As paredes são creme e bege, o tapete felpudo é azul-claro, e os arranjos de flores — verdadeiras e artificiais — parecem encher a sala. Um dos cantos da sala se destaca com um sofá de cor champanhe repleto de livros e revistas — presentes que chegam pelo correio. Na ponta da mesa próxima ao sofá, há uma grande pilha de pequenas caixas de presentes com canetas Cross de ouro que Kathryn está enviando para alguns amigos especiais no Natal. As salas estão cheias de lembranças. Há uma linda caixa de madeira entalhada à mão para jóias que foi dada a Kathryn pela madame Thieu, agradecida por seu trabalho no Vietnã. Há lustres antigos que a própria Kathryn escolheu em uma lojinha de presentes em Roma. Há um grande e sombrio quadro de Beethoven surdo, pendurado sobre a mesa de 42


Maggie Hartner, lembrando à secretária atarefada, talvez somente em um plano subliminar, que os obstáculos jamais devem levar uma pessoa a dar menos que o seu melhor — o que Kathryn exigia de todos os que trabalhavam para ela. Havia fotos por todos os lados: a escola em Hong Kong que foi construída com o dinheiro da Fundação Kathryn Kuhlman; Kathryn com os soldados vietnamitas em seus uniformes de guerra; o Papa e Kathryn, a alguns centímetros de distância, olhando atentamente um para o outro; Kathryn de braços dados com Teddy Kolek, prefeito de Jerusalém; e sua foto favorita, na qual ela aparece pregando em Estocolmo diante de 16 mil pessoas com seu intérprete, Joseph Mattson-Boze, em pé ao seu lado. E um garotinho sueco, completamente sozinho, em pé à sua frente, com os olhos fitos nela como que em transe. Em uma das mesas, sob o vidro, está um cheque cancelado de 10 dólares, do Banco Nacional de Segurança, na cidade de Sioux, Iowa. O cheque foi emitido a Kathryn Kuhlman, assinado por Everett B. Parrott, do Parrott Tent Revival, datado de 14 de julho de 1928. Kathryn nunca se esqueceu de onde ela veio. A entrada de Kathryn naquela tarde foi como uma mistura da rainha da Inglaterra e o vento impetuoso do Pentecostes. Ela literalmente entrou na sala com pose, parou por um instante em uma posição cômoda, bateu a mão em uma das coxas e, então, inclinando-se para a frente, segurou minhas mãos. — Puxa... e você veio lá da Flórida. — Em seguida, igualmente rápido, disse: — Vamos, há uma pessoa aqui que desejo que você conheça. Vamos, vamos, ela é muito, muito especial. Kathryn segurava meu braço agora; seus dedos finos agarravam delicadamente a carne, arrastando-me com ela, enquanto se apoiava em mim. Aos 60 anos, ela era a perfeita combinação de sexo, exibicionismo, espiritualidade e uma mãe dominadora. Ela me levou rapidamente ao seu pequeno escritório pessoal. Ali, sentada em uma enorme poltrona de couro que parecia extremamente desconfortável, estava uma senhora idosa, robusta, que usava um vestido de algodão estampado. Tinha um lenço nos cabelos, e seus dedos, trêmulos, seguravam uma velha bolsa. — Esta é a senhora Romanaski — Kathryn disse com veemência. — É uma das pessoas de quem mais gosto. Ela é polonesa, mora na zona norte da cidade, não fala muito bem o inglês, mas nunca falta aos cultos no Carnegie Hall. Ela não pôde ofertar nada no culto de milagres desta manhã porque seu marido está doente. Por isso, veio até aqui só para me dizer que me ama e que está orando por mim. Kathryn ficou em pé por um bom tempo, olhando para a mulher polonesa que estava sentada com a cabeça humildemente curvada, remexendo um fio solto de sua bolsa de algodão velha e manchada.

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— É esse tipo de pessoa que Deus me tem dado neste ministério — disse Kathryn, balançando a cabeça. Ela continuou a balançar a cabeça, como se estivesse prolongando sua aprovação além do comum. — É esse tipo de pessoa que Ele me tem dado. Kathryn agora chorava, enxugando as lágrimas com a parte de trás das mãos. A pequena senhora polonesa também estava chorando. E eu também não consegui me conter. Senti que havia aberto a porta e entrado no coração de uma mulher que nunca havia visto, mas que conhecia durante toda a minha vida — pois o seu coração batia, ao que parecia, com a batida do coração de Deus. A outra cena aconteceu quase sete anos depois. Eu estava com Kathryn em seu camarim no Shrine Auditorium, em Los Angeles. Ela havia encerrado um culto de milagres de quatro horas e meia, no qual ficou em pé o tempo todo. Tinha, então, 67 anos de idade (embora nenhum de nós soubesse ao certo sua idade) e estava exausta. Eu estava pronto para sair quando alguém bateu à porta. Naurine Bennett, esposa de um abastado corretor de imóveis de Palos Verdes Peninsula, que havia sido curada muitos anos atrás de escleroderma e agora trabalhava como voluntária na entrada do palco, pôs a cabeça no vestiário. — Senhorita Kathryn, há uma pessoa aqui que gostaria de vê-la. Olhei para Kathryn. Ela estava desfalecida em uma cadeira, sem, ao que parecia, nenhuma força em seu corpo macilento. Mas sabia que Naurine não viria à porta senão por uma necessidade. Ela nunca perguntava quem era. Sentada, fez um sinal para que deixasse a pessoa entrar. A porta se abriu, e entrou um senhor idoso — com seus 80 e poucos anos — com uma pose de militar. Uma pessoa que o acompanhava disse: — Senhorita Kathryn, gostaria de apresentar-lhe Omar Bradley, general do Exército. No mesmo instante, Kathryn voltou a ser a "rainha da Inglaterra" e o "Vento Impetuoso". Ela correu até a porta e fez o de sempre. Toda a exaustão se foi, e, em seu lugar, houve exuberância e vida. Segurando as duas mãos do homem, ela deu um passo para trás e olhou com admiração para o grande herói da Segunda Guerra Mundial, que havia lutado lado a lado com Dwight Eisenhower e Douglas MacArthur. — Puxa! Deus o ama! E o senhor estava aqui no culto de milagres! — Ele ficou sentado até o fim do culto — disse o acompanhante. — E insistiu em vir aqui para conhecê-la. Fiquei em pé em um canto, pensando na senhora Romanaski, sentada naquela grande poltrona de couro marrom, torcendo nervosamente sua bolsa de pano em seus dedos enrugados e nodosos. Kathryn tratava o distinto general de cinco estrelas da mesma forma que

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tratara aquela pobre mulher polonesa do norte de Pittsburgh. Ambos eram filhos de Deus. Almas pelas quais Cristo havia morrido. Eles conversaram sobre assuntos espirituais por alguns minutos. Então, o general mencionou uma necessidade específica em sua vida. — Querido Jesus — Kathryn disse, fechando os olhos e estendendo a mão para orar por ele. Era o que ela podia fazer. As pernas do general não agüentaram, e ele caiu para trás — "morto no Espírito". Don Rarnard, que viajava com a senhorita Kuhlman como seu guarda-costas, havia entrado na sala com o general. Ele o segurou assim que o homem caiu e o soltou no chão, onde ele ficou deitado por alguns instantes, como se estivesse dormindo. Quando o homem começou a se mexer um pouco, Don o ajudou a ficar em pé e gentilmente segurou seu braço. Ele ainda estava trôpego. — Nosso maravilhoso Senhor pode suprir todas as suas necessidades — disse Kathryn deliberadamente, com um brilho de fé no rosto. — Eu sei quanto ele o ama neste exato momento. Ela não fez nenhum movimento na direção do homem, mas os joelhos do general não agüentaram novamente, e ele caiu para trás nos braços fortes de Don. Depois que ele se foi, Kathryn se pôs a andar pela pequena sala, de um lado para o outro, indo até uma parede e depois se virando e voltando para a outra, com os braços levantados, em oração e louvor. — Bendito Jesus — ela disse várias vezes. — Eu louvo o Senhor, eu dou glória ao Senhor! Não havia "pessoas sem valor" em torno de Kathryn. Todos eram importantes. Todos tinham valor. Este era um dos segredos do sucesso de seu ministério. As pessoas sabiam que eram importantes em volta dela, e, persuadidas disso, começavam a entender que também eram importantes para Deus. Tudo o que Kathryn fazia era grande. "Pense grande. Aja com grandeza. Fale com grandeza", ela dizia a seus parceiros. "Pois temos um Deus grande". Foi esta mesma filosofia que a ajudou a estabelecer-se em Denver no ano de 1933. O empresário Earl F. Hewitt havia se juntado a ela, pouco antes de ela vir para Pueblo, como seu gerente empresarial. Isso se deu na época da Grande Depressão. Muitos dos bancos espalhados pelo país haviam fechado. Havia filas de mendigos para receber pão por todas as cidades. O desemprego havia atingido o maior índice na história do país. Centenas de milhares de empresas haviam quebrado; e a atividade que parecia sofrer mais era o serviço de Deus — a igreja. Só aquela minoria dedicada, aqueles que faziam parte do verdadeiro reino de Deus, ofertava ao Senhor naqueles dias de privação. Todo o resto, aquele vasto exército de "religiosos domingueiros", esperava pelos tempos de abundância para começarem a ofertar novamente. As igrejas estavam em guerra. E 45


Kathryn, que nem fazia parte da igreja institucional, mas estava nas periferias, ministrando àqueles que haviam sido rejeitados tanto pela sociedade quanto pela igreja, tinha de contentar-se com o refugo. Entretanto, nada parecia esmorecer seu espírito nem levá-la a crer em algo inferior a um Deus de abundância. — Você irá a Denver como quem recebeu 1 milhão de dólares — ela disse a Hewitt. — Vamos fazer um reboliço naquela cidade. Hewitt deu um sorriso amarelo para a jovem. — Mas não temos 1 milhão de dólares. Só temos 5 dólares. É tudo o que temos. Kathryn simplesmente sorriu. — Se servimos a um Deus que está limitado à nossa situação financeira, então estamos servindo ao Deus errado. Ele não se limita ao que temos ou a quem somos. Se ele pode usar alguém como eu para trazer almas para o reino, certamente usará nossos 5 dólares e irá multiplicá-los do mesmo modo que multiplicou os pães e os peixes para o povo na encosta da montanha. Agora, vá a Denver. Encontre o maior prédio que puder. Consiga o melhor piano para Helen. Encha o lugar de cadeiras. Coloque um grande anúncio no Denver Post e faça divulgações em todas as estações de rádio. Este é o serviço de Deus, e nós vamos fazer as coisas do modo de Deus. Grande. O prédio que Hewitt encontrou era quase uma réplica do que ela havia usado em Pueblo. Também era um depósito de uma grande empresa, a mesma empresa proprietária do prédio de Pueblo, e estava localizado no número 1793-37, da rua Champa, no centro de Denver. Usando uma combinação de fé, ousadia e crédito, Hewitt alugou 500 cadeiras e um piano de cauda, dizendo aos locadores que pagaria por tudo em duas semanas, no final da campanha de reavivamento. O reavivamento de duas semanas, no entanto, estendeu-se por cinco anos. Desde a primeira noite, Kathryn passou a ser uma pessoa conhecida em Denver. Helen chegou alguns dias antes para preparar as músicas da campanha. Ela contou com a ajuda das três filhas de A. C. Anderson — Mildred, Lucille e Biney —, que compunham o Trio Anderson. As meninas trabalharam com Helen e cantaram na abertura dos cultos no antigo prédio. Elas continuaram a cantar em quase todos os cultos durante os cinco anos seguintes. Helen também cuidava dos cultos de sábado à noite, que eram grandes concertos musicais. As pessoas de Denver tinham fome do tipo de alimento servido por Kathryn e Helen. As igrejas, como a economia, estavam doentes e morrendo. Muitas haviam fechado as portas. A maioria das igrejas que permaneceram abertas tinha poucos participantes, e os cultos eram mirrados e sem vida — um reflexo da época em que viviam. Em contrapartida, Kathryn não refletia a crise econômica. Ela refletia a grandeza de Deus. Em vez de falar de necessidade, enfocava a abun46


dância. Em vez de falar de barrigas e bolsos vazios, encorajava as pessoas a virem e celebrarem as bodas do Cordeiro. E os milagres aconteciam. As pessoas traziam seus pães e peixes, suas pequenas ofertas, e eles eram multiplicados mil vezes mais. Em vez de mandar as pessoas para as filas humilhantes a fim de receberem pratos de sopa gratuitos bancados pelos governos estadual e federal, ela encorajava aqueles que tinham comida a reparti-la com os que não tinham o que comer. — Somos santos, e não mendigos — ela dizia à sua pobre congregação. — Deus prometeu no salmo 37.25 que os justos não serão desamparados, nem seus filhos terão de mendigar o pão. As pessoas acreditavam nela. Havia somente 125 presentes naquela primeira noite da campanha, no dia 27 de agosto de 1933. Mas ela pregou como se houvesse 12 mil pessoas na congregação. O depósito improvisado estava quente como uma sauna, mas as faixas nas janelas da frente traziam em destaque o anúncio de que Kathryn Kuhlman, a jovem evangelista, estava iniciando uma série especial de cultos. Desde as primeiras notas musicais, enquanto Helen movia para cima e para baixo seus talentosos dedos pelo teclado, as pessoas perceberam que essa não era uma reunião comum. Criam que Deus havia enviado aquela mulher até eles para dar-lhes esperança em um momento de desespero, amor em um momento de ódio e confiança em um momento de descrença e dúvida. Ela viera para restaurar nessas pessoas sua dignidade humana dada por Deus, para lembrá-las de quem eram. Na noite seguinte, havia mais de 400 pessoas, e, desde então, o antigo depósito não pôde comportar as multidões. Elas vinham das sarjetas e dos guetos, das favelas e dos apartamentos infestados de ratos. Vinham dos guetos e das missões de resgate. Os cultos varavam a noite, com Kathryn, Helen, Hewitt e outras doze pessoas que haviam sido escolhidas a dedo orando com aqueles que ficavam para receber uma ministração. Nem todos os que vinham eram "privados de recursos e excluídos". Outros, dos subúrbios convencionais de Denver, que queriam ajudar na ministração mas não tinham oportunidade em suas igrejas, também vinham. Os cultos eram realizados todas as noites, com as multidões aglomeradas nas calçadas. Mas Kathryn estava ficando inquieta. Ela já estava ali fazia algum tempo. Permanecer por mais tempo significaria ter de se envolver na administração de uma igreja. Isso era algo que ela não queria.Após cinco meses de cultos seguidos, anunciou à congregação em uma sexta-feira à noite que havia cumprido sua tarefa e que iria partir. A notícia foi recebida com exacerbados protestos. As pessoas pulavam, gritando: "Não! Não!". Então, um homem a quem Kathryn conhecia de vista, pois ele vinha freqüentando os cultos havia algumas semanas, se pôs de pé. 47


Sobressaindo-se ao barulho, ele gritou: — Senhorita, é tempo de parar de correr. Precisamos de você aqui. Se concordar em ficar em Denver, financiarei a entrada do maior prédio que você encontrar. Nós o chamaremos de Tabernáculo do Reavivamento de Denver e colocaremos um grande letreiro em néon no alto, dizendo: "A Oração Transforma as Coisas". Os gritos, aplausos e promessas de outras garantias vindos da congregação convenceram Kathryn de que ela deveria permanecer. Iniciou-se a procura de um lugar para a construção do tabernáculo. Nesse tempo, a empresa proprietária do depósito solicitou sua desocupação, e a igreja se transferiu para o depósito de outra empresa na rua Curtis, número 1941. Ergueu-se uma placa que denominava o prédio de Tabernáculo Kuhlman do Reavivamento. O ministério estava em plena atividade. Helen Gulliford havia formado um coro com mais de cem vozes, compondo grande parte das músicas que ele cantava. Inúmeros palestrantes de fora eram convidados para cultos especiais. Kathryn conhecia suas limitações. Não era uma mestra. Só tinha uma mensagem: "Vocês precisam nascer de novo". Sabia que, para manter as pessoas, precisava alimentá-las. Isso era feito por meio do programa musical e dos pregadores convidados que, com satisfação, aceitavam seus convites para pregar na congregação que crescia mais rápido no Oeste. Os mestres favoritos eram o evangelista e a senhora Howard W. Rusthoi, que pastoreavam igrejas independentes na Califórnia, Oregon e Missouri. Revezando-se a cada noite durante dois meses seguidos de reuniões, um pregava enquanto o outro dirigia o louvor. Juntando-se a eles em várias de suas reuniões, estava o jovem evangelista Phil Kerr, um extraordinário compositor e pregador de rádio. Uma típica semana de campanha em janeiro de 1935 foi: Domingo, 11h, Kathryn Kuhlman: "Deveis Nascer de Novo". Domingo, 15h, Phil Kerr: "A Fé Remove Montanhas". Domingo, 19h30, sra. Rusthoi: "Obstáculos para o Inferno". Segunda-feira, 19h30, Howard Rusthoi: "Por que me Casei com Minha Mulher". Terça-feira, 19h30, Phil Kerr: "A Maior Reunião de Oração do Mundo". Quarta-feira, 19h30, sra. Rusthoi: "Edificando o Pai". Quinta-feira, 19h30, Howard Rusthoi: "Mussolini é o Anticristo?" Sexta-feira, 19h30, Phil Kerr: "O que a Bíblia Diz sobre Cura Divina". Sábado, 19h30, Culto Especial de Louvor.

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Foi quando o grupo se reunia no depósito de papel da rua Curtis que Kathryn descobriu o conceito da cura divina. Phil Kerr muitas vezes pregava sobre o tema, como fizeram outros evangelistas que apareceram ali. Os "cultos de cura" muitas vezes eram realizados no final das reuniões evangelísticas, e o pregador pedia que todos os doentes fossem à frente para receber uma oração especial. Em algumas ocasiões, eles eram ungidos com óleo. Em outras, eram solicitados a ir a uma sala nos fundos para receber uma oração especial. Em alguns casos, havia curas surpreendentes, e as pessoas voltavam na noite seguinte para dar testemunho. Isso estimulava Kathryn, pois, embora ela mesma raramente orasse pelos enfermos, sempre se surpreendia e se alegrava quando as pessoas eram curadas. Infelizmente, muitas pessoas começaram a identificar Kathryn com Aimee Semple McPherson, a glamourosa pregadora pentecostal de Los Angeles. A irmã Aimee, como seus seguidores a chamavam, construiu seu Templo Angelus com 5 mil assentos, em Los Angeles, no ano de 1923 — o ano em que Kathryn saiu de casa para juntar-se aos Parrotts na Costa Oeste. Se Kathryn era uma exibicionista, Aimee era muito mais. Seus sermões incrivelmente dramatizados — apresentados em um palco com mudanças de cenário, luzes coloridas, efeitos de som e elenco de centenas de pessoas — eram conhecidos como o "melhor show de Los Angeles". Mais tarde, ela fundou a Igreja Internacional do Evangelho Quadrangular. Em 1926, Aimee foi o assunto mais comentado nos Estados Unidos. Por cinco semanas — de 18 de maio a 23 de junho — ela ficou desaparecida. Foi vista pela última vez na praia e acreditava-se que tinha se afogado. Após uma frenética busca que envolveu diversas forças policiais, um exército de detetives particulares, e até o presidente do México, Aimee reapareceu e disse que havia sido seqüestrada. Todavia, a polícia suspeitou de sua história e a acusou de esconder-se em um ninho de amor no norte da Califórnia com um ex-operador de rádio do Templo Angelus. Ela foi levada ao tribunal para responder às acusações de corrupção dos princípios morais públicos e de evidências forjadas. Todas as acusações foram, por fim, suspensas. O ministério de Kathryn crescia em meio a esse escândalo. Helen sempre a advertia para que usasse de discrição."Há gente suficiente causando vergonha ao reino de Deus sem o seu envolvimento", ela advertia. Kathryn, embora mais tarde tivesse realizado um grande culto de milagres no Templo Angelus, no inverno de 1968, nunca se encontrou com a "mulher que curava pela fé", a irmã Aimee. O mais perto que ela esteve de Aimee foi quando visitou seu túmulo, cerca de vinte anos após sua morte. Em uma reportagem à revista Christianity Today, Kathryn disse: "Eu nunca conheci Aimee Semple McPherson. No entanto, há alguns anos, Maggie Hartner e eu visitamos seu túmulo. Ali encontramos um jovem e uma mulher, que provavelmente era sua mãe, observando o 49


monumento erigido em memória da senhorita McPherson. A mulher relatou como as pregações de Aimee haviam feito Jesus tão real. 'Conheci a Cristo graças à vida de Aimee', disse. Naquele momento, pensei comigo mesma, se, depois que eu partir, uma única pessoa se colocar ao lado de meu túmulo e disser: 'Encontrei a Cristo porque Kathryn pregou o evangelho', então não terei vivido em vão". Kathryn era assim. Se tinha alguma dúvida sobre o extravagante exibicionismo e a ostentosa vida da famosa evangelista, ela nunca fez menção em público. Embora desprezasse todos os que se passavam por pessoas que curavam pela fé, mas deixavam para trás destruição, Kathryn fazia o possível para referir-se a eles de modo amável e para manter a unidade no reino. Por isso, por mais que houvesse alguns em Denver que comparavam o ministério de Kathryn ao da irmã Aimee, não havia nenhuma outra semelhança, a não ser a de que ambas eram mulheres e estavam tentando servir a Deus do seu próprio modo. Uma das maiores frustrações de Kathryn foi que seu pai, a quem ela amou profundamente, nunca a ouviu pregar. Sempre afirmava que a antipatia que o pai tinha pelos pregadores surgira do fato de que eles raramente pregavam a pura Palavra de Deus. Kathryn tinha certeza de que o homem foi criado para ter comunhão com Ele e que, uma vez que ouvisse a Palavra de Deus, se entregaria ao Autor da Palavra. Por conseguinte, ela sabia que seu pai responderia positivamente ao seu ministério. Não só porque era sua "filhinha", mas porque estava pregando a verdade. Seu pai nunca tivera essa chance. O fato de ele ter morrido sem que Kathryn soubesse se havia aceitado ou não a Cristo como seu Salvador continuou a ser uma das grandes frustrações de sua vida. Na verdade, em 1973, quando fiz uma viagem a Pittsburgh para entrevistar Kathryn para a reportagem de capa da revista Guideposts, ela me disse: — Só há uma história sobre a qual não quero falar — a época em que papai morreu. Foi às 13h30 de um domingo após o Natal — no dia 30 de dezembro de 1934 — que a jovem Kathryn, então com 27 anos, recebeu um telefonema. Ela havia acabado de chegar do culto da manhã de domingo. "Kathryn, seu pai está ferido. Ele sofreu um acidente." A pessoa que telefonara, um velho amigo, vinha tentando falar com Kathryn havia dois dias, mas as linhas estavam interrompidas por causa de uma tempestade de neve. Joe Kuhlman ficou trabalhando até tarde naquela noite de sexta-feira, 28 de dezembro, acertando todas as faturas após o tumulto do Natal. A esposa telefonou para ele, pedindo-lhe que levasse uma dúzia de ovos para casa. Joe, que tinha 68 anos de idade, saiu à noite para passar no Aviário de Buffman e comprar os ovos. As ruas estavam congeladas, e sua visão, parcialmente comprometida por causa da forte nevasca. Ele estava a menos de um quarteirão de casa quando 50


caiu, quebrando todos os ovos da caixinha de papelão marrom. Ao levantar-se, pensou que seria menos perigoso enfrentar o gelo e voltar para comprar mais ovos do que tentar explicar sua falta de jeito à esposa. Cuidadosamente, voltou ao aviário. Gostaria de ter um par extra de meias, como muitas pessoas pelas quais passou, assim poderia usá-las sobre seus sapatos de couro para dar-lhes certa tração no gelo espesso. Ao entrar na loja, ele disse a Seckle Buffman: — Seckle, preciso de mais uma dúzia de ovos. Caí, e Emma ficaria muito desapontada se eu chegasse em casa sem eles. Carregando sua nova caixinha de ovos, ele começou novamente a descer a rua Principal. Havia chegado à Nona Avenida, perto de seu comércio de transporte de cargas, quando começou a atravessar a rua. Daquele momento em diante, ainda há confusão quanto ao que exatamente aconteceu. A história contada pelas testemunhas foi que, assim que Joe Kuhlman chegou no meio da rua, o senhor Katze, da Lanchonete de Topsy, estava descendo a rua em seu Buick. Katze havia pedido ao filho universitário que dirigirisse, porque achava que o menino se sentia mais seguro nas estradas congeladas. O cunhado de Katze estava sentado no banco de trás quando, de repente, o menino viu Joe Kuhlman em pé no meio da rua. Para não atropelá-lo, ele desviou bruscamente, derrapou e foi parar no quintal da frente do dr. Sholle. Saltando do carro, viram Joe Kuhlman estirado na rua. Sua cabeça estava fraturada, mas não havia outras marcas em seu corpo. Ninguém ouviu o impacto nem havia marca alguma no carro. Todavia, ninguém podia dizer com certeza se o carro havia pegado Joe ou se ele havia escorregado no gelo e batido com a cabeça. Joe ficou em coma por dois dias e morreu no dia 30 de dezembro. Kathryn, dirigindo um Ford V-8, começou a atravessar o Colorado sob uma forte tempestade de neve. Ela se lembraria: "Só Deus sabe como dirigi rápido por aquelas estradas congeladas, mas tudo o que eu podia pensar era em meu pai. Papai estava esperando por mim. Papai sabia que eu estava chegando". Depois de percorrer 160 quilômetros, ela parou em uma cabina telefônica para telefonar primeiro. Tia Belie, irmã de sua mãe, atendeu o telefone. — Aqui é Kathryn. Diga ao papai que estou quase chegando em casa. Houve uma pausa, e então sua tia respondeu: — Mas não lhe contaram nada? — Contaram o quê? — Kathryn perguntou, sentindo o pânico apertar-lhe a garganta. — Seu pai está morto. Ele faleceu esta manhã. Os próximos quilômetros foram como um pesadelo para ela. Não havia outros carros na estrada à medida que seus faróis transpassavam a brancura da neve e os pára-brisas do carro pelejavam em vão contra a gélida chuva, que caía como agulhas pontudas. 51


Ao chegar em casa nas primeiras horas da manhã, ela encontrou toda a família reunida na sala de estar, em volta do caixão aberto de seu amado pai. Eles mantinham o tradicional velório praticado por aqueles que viviam na região central dos Estados Unidos. Kathryn recusou-se a olhar para o rosto do homem a quem tanto amava. Havia estado em casa muitas vezes desde que saíra dez anos atrás. Nada havia mudado. Só que, depois disso, tudo seria diferente. Ao chegar em casa, nunca mais encontraria seu pai à sua espera. Sabia que sua mãe venderia o casarão, aquele lugar que havia sido seu refúgio nos seus primeiros anos. E o ódio brotou nela como um vulcão. O ódio para com aqueles que, a seu ver, haviam tirado a vida de seu pai. Ao contar-me a história, trinta e sete anos mais tarde, ela ainda chorou. Estávamos sentados em seu escritório pessoal no Carlton House, em Pittsburgh. Ela estava sentada no chão, encostada na parede, e eu estava perto dela, na poltrona de couro marrom. "Eu ainda posso lembrar", ela disse, enxugando as lágrimas de seus olhos, "de modo tão nítido como se fosse ontem. Estávamos todos sentados na primeira fileira da pequena igreja batista. Eu simplesmente não podia aceitar a morte de meu pai. Não podia ser. Após o sermão, as pessoas levantaram-se e passaram pelo caixão, olhando solenemente para o rosto de papai. Quando todos terminaram de passar pelo caixão, a pessoa que cuidava do funeral se aproximou e ficou ao lado da família, fazendo sinal para que nos levantássemos e passássemos pelo caixão. Tio Herman era o único dos irmãos de papai que restara. Tia Gusty havia morrido um ano antes. Minha mãe, Myrtle, Garoto e Geneva atravessaram lentamente o corredor e passaram pelo caixão aberto. Faltava apenas eu, e não queria me levantar. "Então, não sei como, de repente estava de pé na frente da igreja, olhando para baixo. Mas eu não conseguia olhar para o rosto dele. Em vez disso, fixei os olhos em seu ombro. Era o mesmo ombro em que muitas vezes recostei minha cabeça quando tinha uma dor de ouvido. Papai não tinha o poder de cura. Não tinha a virtude da cura. Eu nem sabia ao certo se ele era um cristão. Mas ele tinha amor. E esse amor fazia toda a dor desaparecer. "Eu me aproximei e, gentilmente, encostei meus dedos em seu ombro. Ao fazer isso, algo aconteceu. Era como se eu estivesse esfregando meus dedos em um saco de farinha. Aquele não era meu pai. Era simplesmente um casaco de lã preto que cobria algo que havia sido descartado, algo outrora amado, agora colocado de lado. Papai não estava ali." Kathryn voltou para Denver, tendo aprendido a lição que só se aprende graças ao ódio e à dor. A lição sobre o perdão. Sua família, passando por cima das objeções de sua mãe, insistiu em mover uma ação judicial contra as pessoas que, a seu ver, eram responsáveis pela morte de 52


Joe Kuhlman. Kathryn, no entanto, disse que não faria parte daquilo. Ela partiu antes de o caso ser resolvido — fora do tribunal. "A vingança", ela me disse mais tarde, "sempre deve ser deixada nas mãos de Deus. Se tivesse guardado rancor e me vingado daquele menino, teria machucado infinitamente mais a mim do que a ele. Essa é a razão por que nunca processei ninguém, independentemente do quanto me feriram ou se aproveitaram de mim. Sou uma pessoa de Deus. Pertenço a Ele. Confio em que Ele fará o melhor para mim — e para aqueles que me feriram. Era uma lição que seria rigorosamente colocada à prova muitas vezes — principalmente em uma ocasião em que alguns de seus parceiros de maior confiança virariam contra ela e fariam calúnias em público. Mas ela nunca abriu mão de seu modo de perdoar. Kathryn entregou o caso nas mãos de Deus. No início de 1935, o grupo de homens que estava à procura de um prédio em Denver relatou que haviam encontrado o lugar ideal para o templo. Era a antiga garagem de caminhões, que fora um estábulo, da loja de departamentos Daniel & Fisher. O prédio ficava na esquina da rua Nona Oeste com a rua Acoma, e a reforma começou em 5 de fevereiro daquele ano. Quatro meses depois, o grande prédio, com 2 mil assentos, estava completamente lotado no culto de consagração do dia 30 de maio. Um letreiro de néon de aproximadamente 20 metros, ocupando a largura do prédio, dizia: "Templo do Reavivamento de Denver". Sob ele, em letras menores, havia outra placa:"Evangelista Kathryn Kuhlman". No topo do prédio, em uma das extremidades, também em néon, havia uma placa com letras de quase 1 metro que dizia: "A Oração Transforma as Coisas". Os cultos, no entanto, eram os mesmos. O Trio Anderson cantava em grande parte das reuniões. Helen Gulliford tocava o piano. Durante os apelos feitos do púlpito, Kathryn subia e descia os corredores à procura de pessoas que levantavam as mãos para receber oração e as convidava a ir à frente. Kathryn pregava. No encerramento de cada culto — das 22h às 22h15 —, Kathryn continuava na rádio KVOD, com seu programa ao vivo ("Smiling Through"). Usando um vestido esvoaçante, Kathryn passava para os fundos do prédio e descia o corredor lateral, acenando para seu público e balançando as mãos. As pessoas tentavam tocá-la. Ela respondia, dizendo: "Puxa! Deus ama você, Deus ama você". Sorrindo, acenando e rindo, ela subia ao palco enquanto Helen tocava o piano ao fundo. Muitas vezes, abria as reuniões dizendo:"Não é maravilhoso ser cristão? Se vocês concordam, digam um forte e sincero Amém'!". O prédio estrondava com améns. Então, enquanto eles se acomodavam, Kathryn lhes contava uma bela historinha. "Sabem, hoje de manhã eu estava no meu quartinho no St. Francis Hotel, número 416. É um quarto muito pequeno. A senhora Holmquist, 53


Deus a ama, faz o que pode. Mas o papel de parede está soltando e o elevador quase sempre parado — também, por 4 dólares por semana, ali é como o céu para mim." Ela pausava aqui para rir enquanto as pessoas se identificavam com ela e com seu estilo de vida. "Eu estava deitada em minha cama, estudando a Palavra de Deus, quando ouvi uma leve batida na porta. Pedi licença a Deus, disse a Ele que logo estaria de volta e fui até a porta. Ali estava um homem baixinho... O senhor está aqui? Se estiver, acene com a mão. Oh, lá está ele. Lá atrás. Levante-se, senhor, para que todas as pessoas o vejam. Quero que elas saibam que esta é uma história verídica. Vocês sabem, os pastores adoram exagerar. Na verdade, algumas das histórias que ouvi de alguns pastores são melhores do que a realidade. É verdade." Mais risadas. O homenzinho lá no fundo acenou com as mãos e voltou a se sentar. Kathryn continuou. "Adivinhem", ela disse, inclinando-se para a frente no púlpito, como se estivesse conversando com uma única pessoa. "Este precioso irmãozinho disse-me que vinha bebendo três garrafas de vinho por noite durante os últimos treze anos. Mas, há três noites, ele veio ao altar no encerramento do culto, e o irmão Hewitt ajoelhou-se com ele, e ambos oraram. A oração foi até 1 hora da manhã, mas, quando eles se levantaram, ele estava liberto do álcool. Ele me procurou esta manhã para contar-me o ocorrido. E agora está aqui, nesta noite, para provar a todo mundo que Jesus Cristo liberta os homens da escravidão." Sua voz, que, no começo, não passava de um irritante sussurro, agora chegava aos gritos. As pessoas já estavam em pé, aplaudindo, enquanto Kathryn apontava novamente para o homem e dizia: "Vamos dar a ele um verdadeiro Deus o abençoe". Mesmo antes de as pessoas pararem de aplaudir, Helen voltou para o teclado, e o coro começou a cantar. Começava outro culto de reavivamento. Foi durante um desses cultos de reavivamento que Kathryn recebeu o que, mais tarde, descreveu como o maior estímulo de sua vida até aquele momento. Como seu pai, sua mãe também nunca havia ouvido uma pregação da filha. Agora que Kathryn estava instalada em um grande prédio com seu nome na lateral em letras garrafais, ela sentiu que deveria convidar sua mãe para um culto. Uma noite, Emma apareceu no culto. Kathryn pregava sobre o Espírito Santo. Ao terminar o sermão, fez um apelo: "Todos aqueles que querem nascer de novo e conhecer a terceira pessoa da Trindade, o Espírito Santo, podem ir à sala de oração que fica atrás do púlpito. Algumas outras pessoas e eu estaremos lá a fim de orar por vocês". Kathryn foi direto para o salão que ficava atrás do púlpito e o encontrou quase cheio. Ela passava de pessoa em pessoa, que estava 54


ajoelhada, e orava por elas. Cerca de quinze minutos depois, enquanto o período de oração ainda estava fervoroso, a porta lateral se abriu. Emma Kuhlman entrou. Kathryn reconheceu-a e fez sinal para que ela permanecesse do seu lado. — O que você acha de tudo isso, mãe? — Kathryn sussurrou. — Você alguma vez imaginou que sua filhinha chegaria a este ponto? Emma Kuhlman estendeu a mão e segurou a mão de Kathryn. — Querida, não estou aqui para gabar-me de você. Estou aqui porque você falou a verdade hoje à noite, e eu quero conhecer Jesus do modo como você o conhece. Kathryn começou a sorrir e então percebeu que sua mãe realmente falava sério. Antes de Kathryn poder dizer alguma coisa, sua mãe já estava de joelhos no chão com a cabeça apoiada no encosto de uma cadeira. Kathryn, agora sufocada pelas lágrimas, estendeu a mão e a pôs sobre a cabeça da mãe. No momento em que seus dedos a tocaram, sua mãe começou a tremer e depois a chorar. Foi o mesmo tipo de tremor e choro que Kathryn lembrou de ter sentido aos 14 anos quando estava ao lado de sua mãe naquela pequena igreja metodista em Concórdia. Mas, dessa vez, havia algo novo. Sua mãe levantou a cabeça e começou a falar, devagar a princípio, depois mais rápido. Mas ela não estava falando em inglês; as palavras eram os sons claros e peculiares de uma língua estranha. Kathryn caiu de joelhos ao seu lado, chorando e sorrindo ao mesmo tempo, juntando sua voz alta à de sua mãe, enquanto ambas, cada qual à sua maneira, louvavam a Deus juntas. Ao abrir os olhos, Emma estendeu a mão na direção de Kathryn e a abraçou forte. Foi a primeira vez que Kathryn lembrava de ser abraçada pela mãe. — Kathryn, pregue para que outros possam receber o que acabei de receber — disse a mãe em lágrimas. — Pregue e nunca pare. Kathryn disse: "Mamãe não dormiu por três dias e duas noites depois dessa experiência, tão grande foi a alegria do Senhor sobre ela. Ela era outra pessoa. O amor de Deus irradiava dela. A alegria e o amor de Deus encheram-na até transbordar. Ela voltou para Concórdia e, pelo resto de sua vida, teve uma comunhão maravilhosa e doce com o Espírito Santo". Ina Fooks, membro do grupo de Denver, escreveu o seguinte sobre o ministério de Kathryn: "A senhorita Kuhlman tinha a idéia fixa de que Deus pode — e irá — usar um grande centro evangelístico onde o evangelho será pregado em sua gloriosa plenitude e onde todos serão bemvindos. Embora ser membro de uma igreja seja uma parte importante da vida religiosa de muitos, há milhares de outros, a seu ver, que não têm nenhum vínculo com igrejas, nem querem ter. Os membros das várias igrejas têm oportunidade de visitar nosso templo quando não há cultos 55


em sua igreja local, pois temos cultos todas as noites da semana neste templo, menos às segundas-feiras. E a pessoa que não freqüenta uma igreja sente-se totalmente acolhida e gosta muito dos cultos, pois não se pede a ela outra coisa senão aceitar a Jesus. O único interesse da obra no templo é a salvação de almas e o aprofundamento das experiências espirituais daqueles que freqüentam os cultos". Entretanto, o ministério logo ultrapassou isso. A escola dominical cresceu. Três ônibus traziam as crianças de áreas afastadas. Surgiu uma igreja infantil aos domingos para crianças com idade inferior a 12 anos. Muitas pessoas associaram-se ao ministério externo, indo com os grupos às cadeias, instituições de correção e asilos. As mulheres formaram uma "Sociedade de Mulheres". E Kathryn era convidada para pregar em escolas e outras igrejas espalhadas por toda a cidade. Os batismos eram realizados, pela senhorita Kuhlman, no batistério emprestado por uma igreja batista local. E, embora nunca tenha se intitulado pastora, realizava funerais e casamentos de muitas pessoas da congregação. A obra no Templo do Reavivamento de Denver nunca foi realmente concluída. As paredes de tijolos, o projeto de calefação, a instalação elétrica e a parte hidráulica precisavam de constantes cuidados. Durante a semana, os homens que estavam desempregados apareciam no templo em mutirões. As mulheres, com Kathryn e Helen dando o exemplo, cuidavam da comida. O que sobrava a cada dia era levado para casa pelos homens que não tinham dinheiro para comprar comida. Pastores visitantes apareciam e muitas vezes ficavam durante meses seguidos. Wilbur Nelson veio da Califórnia para uma série de reuniões. Harry D. Clarke, que costumava dirigir o programa musical de Billy Sunday após a morte de Ira Sankey, apareceu várias vezes. O evangelista canadense Norman Greenway e o astro da ópera Harry Parkes Bond passaram um tempo ministrando no templo, pregando e cantando. Phil Kerr voltou em várias ocasiões, às vezes para levantar fundos para seu ministério de rádio em escala nacional. Kathryn era muito generosa com esses homens, incentivando as pessoas a ofertarem o máximo possível. Raymond T. Richey veio do Texas com uma campanha de cura e pregou usando o mesmo tema de Jeremias 59.3 todas as noites, durante três semanas. Kathryn convidou até Everett e Myrtle Parrott para uma série de reuniões. Mas ninguém emocionava mais as pessoas, e Kathryn, do que o formoso evangelista de Austin, no Texas, Burroughs A. Waltrip. Nem ninguém poderia imaginar, quando ele veio pregar pela primeira vez no Templo do Reavivamento de Denver no início de 1937, que, em menos de dezoito meses, se tornaria a pessoa por meio da qual a jovem evangelista mais promissora do mundo destruiria sua carreira.

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Capítulo 5 O Assassinato do Egípcio Em 1970, o jornalista Lester Kinsolving (um ministro episcopal ordenado) "expôs" que, trinta e dois anos antes, Kathryn Kuhlman havia se casado com Burroughs A. Waltrip e depois se divorciado dele. O colunista, porém, não sabia que, embora Kathryn tentasse manter esse capítulo infeliz de sua vida enterrado no passado, ela não tinha vergonha dele. "Uma vez que um erro foi confessado, então ele está coberto pelo sangue de Jesus", ela me disse depois que a notícia foi publicada. "Mas, infelizmente, o senhor Kinsolving não sabe nada sobre o perdão de Jesus." Isso foi o máximo que Kathryn alguma vez chegou a falar, mesmo em particular, contra alguém que a havia atacado. Kinsolving, além de expor sua ignorância bíblica ao chamar de "paranormal" o dom da palavra de conhecimento de Kathryn, ridicularizou o estilo retórico desta mulher, chamando-o de "incrivelmente banal". Kathryn logo escreveu uma carta de perdão, mesmo sem o clérigo apóstata ter mostrado intenção de pedir desculpas: "De duas coisas sempre me lembrarei — de sua gentileza em reservar um tempo para enviar uma nota pessoal e de sua risada alta (apenas uma) durante nossa entrevista no escritório. Lembrando-me destes dois incidentes, posso perdoá-lo por qualquer coisa. "O artigo não foi ofensivo — e a única coisa que lamento é minha incapacidade de usar o vocabulário humano como o senhor faz. Ainda sou e sempre continuarei a ser 'banal no púlpito'."

A franqueza e o amor de Kathryn tinham um modo de desarmar até aqueles que a atacavam. Embora a revista MS — um órgão de imprensa em prol do movimento de Libertação feminina — a tratasse com desdém, outros jornais, como o Time, iam mais fundo e reconheciam o toque de Deus. Em resposta aos seus críticos, Kathryn gostava de lembrar-se de uma das "histórias de papai". Ela disse que certa vez seu pai estava passando por uma porta giratória, quando um bêbado cambaleante o empurrou. Um homem, que estava perto, disse: "Você vai deixá-lo escapar 57


assim?". E Joe Kuhlman, que era o prefeito e o cidadão mais rico da cidade, calmamente respondeu: "Posso fazer isso sem problema algum". Esta foi a atitude de Kathryn. "Posso deixá-los fazer isso sem problema algum. Da mesma forma que Jesus nunca respondeu aos seus críticos, tenho plena confiança de que meu Pai celestial é grande o suficiente para cuidar de cada situação". Mas, por um tempo, em 1938, houve a impressão de que nem Deus era grande o suficiente para cuidar de sua teimosa serva ruiva. Pela primeira vez em sua vida, ela estava determinada a fazer as coisas à sua maneira, à revelia de Deus e da igreja. O casamento de Kathryn com Burroughs Waltrip, que abandonou a esposa e os filhos por ela, foi um terrível equívoco. Foi um pecado — uma rebelião contra Deus. Ao mesmo tempo, tornou-se a prova de fogo — assim como a morte do guarda egípcio levou Moisés ao exílio no deserto de Midiã — que a levaria ao lugar de total submissão ao plano perfeito de Deus para sua vida. É impossível escrever sobre Kathryn Kuhlman sem escrever sobre Deus. Sua vida não lhe pertencia. De modo muito real, ela era uma filha do destino. Uma escolhida. Ordenada para ser uma serva especial de Deus. Quando ela, devido a algum traço de caráter que a fez teimar, preferiu o seu plano em vez da vontade de Deus para sua vida, então Ele soltou as rédeas até ela ser forçada a obedecer à ordem divina. Na realidade, Deus tem um modo de usar nossa rebelião, nossos pecados, nossa flagrante desobediência, e transformá-los em nossa força. Por isso, embora tenha percebido, mais tarde, que havia pecado, Kathryn também percebeu que, uma vez que havia passado por seu vale sombrio, podia compreender melhor a cruz e o significado de sua própria redenção. Por tudo isso, mesmo quando ela estava "matando o egípcio" e vagando pelo terrível deserto criado por sua desobediência, a mão de Deus estava sobre ela. Todos na igreja em Denver tentaram conversar com Kathryn sobre o casamento com Burroughs Waltrip. Ninguém teve êxito. Waltrip viajou pela primeira vez para o Templo do Reavivamento de Denver em 1937. Ali esteve por recomendação de Phil Kerr, o evangelista de rádio, e permaneceu na cidade por quase dois meses. Aos 38 anos, ele era oito anos mais velho que Kathryn. Como Kathryn mais tarde o descreveu, era "o rapaz mais lindo que já existiu". A boa aparência e a boa pregação eram uma combinação perfeita. E Kathryn o convidou para voltar no outono daquele ano. Dessa vez, a esposa dele, Jessie, e seus dois filhos, de 6 e 8 anos, viajaram com ele. Houve certa especulação na época de que Jessie não se sentia à vontade vendo o marido alto e de cabelos escuros passar muito tempo com a ruiva de pernas longas. Ela queria estar por perto para ficar de olho nele — e neles. As pessoas de Denver acharam Jessie Waltrip uma mulher calma e despretensiosa, uma esposa ideal para o dinâmico pregador. 58


Algo, porém, aconteceu durante a segunda visita de Waltrip a Denver. Os fatos são vagos. A senhora Waltrip pegou os filhos e voltou para Austin. As crianças tinham de ir para a escola. Um mês depois,Waltrip escreveu para a esposa dizendo que não voltaria para casa. A informação que ele passou em Denver, no entanto, era de que Jessie o havia abandonado. Segundo seu relato, implorou para que ela se juntasse a ele, mas ela se negou a fazê-lo. Acusando a esposa de abandono, viajou para o Norte, para Mason City, Iowa, cidade próxima à divisa com Minnesota. As pessoas de Mason City ficaram impressionadas com sua pregação. Incentivaram-no a ficar ali e iniciar um trabalho semelhante àquele que Kathryn tinha em Denver. Não demorou muito para Waltrip conseguir um prédio grande, que ele reformou e chamou de Rádio Chapel — uma vez que ele também o usava para programas diários da rádio KGLO. No início de 1938, Waltrip fez um anúncio público dizendo que jejuaria até receber os 10 mil dólares necessários para concluir a obra no prédio. Para ajudá-lo a angariar fundos, trouxe um grupo de reavivamento para realizar cultos no edifício em fase de acabamento. Estes foram os ministros convidados: Harry D. Clarke, líder do louvor; Helen Gulliford, ao piano, e Kathryn Kuhlman, na pregação. Kathryn, anunciada como "A Maior Pregadora Jovem dos Estados Unidos", comovia as multidões. Contudo, foi sua mensagem de sexta-feira à noite, intitulada "Procura-se um Homem", que levou os repórteres do Globe-Gazette a irem para a rua. As manchetes da manhã seguinte saudavam os que madrugavam com a seguinte notícia: "Jovem Evangelista Loira Chega à Rádio Chapel". O subtítulo dizia: "Assume o Trabalho Enquanto Waltrip Continua o Jejum para Ganhar 10 Mil Dólares". Os repórteres do jornal acertaram o âmago da questão. "Uma jovem atraente, de quase 1,82m de altura, com cabelos loiros e artificialmente ondulados, e olhos radiantes chegou a Mason City para ajudar o evangelista Burroughs A. Waltrip em sua campanha na Rádio Chapel. "No entanto, não há nenhuma ligação permanente ou romântica", dizia o jornal no segundo parágrafo, "mas a senhorita Kuhlman disse que não quer partir enquanto ele precisar de sua ajuda ali." A história continuou: "Quando o repórter mostrou-se surpreso por saber que uma jovem tão atraente ainda era solteira aos 25 anos, ela sorriu e então refletiu por um instante antes de responder. "Talvez um homem resista à idéia de ser casado com alguém com minha agenda', ela disse sorrindo." Deve-se admitir, ao ler os recortes de jornais amarelados de janeiro de 1938 do Globe-Gazette, que Kathryn já havia começado a mentir acerca de sua idade. Na verdade, estava com quase 30 anos, mas, 59


por alguma razão, sentia-se mais segura se seus seguidores pensassem que fosse mais jovem. Era uma característica inexplicável que a acompanhou até o dia de sua morte. Mesmo depois de estar com seus 60 e poucos anos, ainda insistia que seu locutor de rádio fizesse a seguinte apresentação: "E agora Kathryn Kuhlman, a jovem que vocês estavam esperando". Quando os repórteres especulavam quanto à sua idade, ela sorria e dizia: "Coloque apenas 'mais de 50"'. Quando eles a apertavam para revelar uma idade exata, ela saía com evasivas. Aqueles que eram mais próximos a ela justificavam sua ação como a "prerrogativa de uma mulher". Kathryn voltou para Denver, mas não antes de fazer os planos de casamento com Burroughs — o divórcio dele agora era definitivo. Helen Gulliford já esperava isso há um bom tempo. "Ela estava começando a sentir que a vida estava passando", Helen disse a um amigo próximo. "Que perderia o entusiasmo de viver com um homem." Helen podia ver que Kathryn estava mudando. Sua pregação, antes tão dinâmica, estava ficando fraca. Helen lamentava. Era como se Deus a estivesse deixando à mercê de seus próprios recursos. Ela era forte o bastante — e tinha um carisma peculiar capaz de fazê-la conseguir esta façanha sozinha — para enganar algumas pessoas o tempo todo. Mas os membros mais perspicazes da congregação começaram a perceber que "sua Kathryn" não era a mesma. Obstinada, ela estava determinada a fazer as coisas à sua maneira — mesmo que isso significasse a destruição do seu ministério. Kathryn não conseguia enxergar as coisas dessa forma. Muitas vezes, conversava com A. C. Anderson, o sábio pai de Mildred, Lucille e Biney — o Trio Anderson. Na verdade, Kathryn passava a maior parte de suas férias, o Natal e o Dia de Ação de Graças na casa dos Andersons. Nutria um amor especial pela senhora Anderson e, em várias ocasiões, observou que o senhor Anderson desempenhava um importante papel no sentido de preencher o vazio deixado pela morte de seu pai. Entretanto, quando o assunto era Burroughs Waltrip, Kathryn não ouvia ninguém. Ela insistia em dizer que a esposa de Waltrip o havia abandonado e que isso significava que ele estava livre para casar-se novamente. Alguém havia dado a Burroughs um livro, que ele, mais tarde, passou para Kathryn, propondo uma visão de que um homem e uma mulher não eram casados aos olhos de Deus se não amassem um ao outro quando se casassem. Com base nessa estranha doutrina, Waltrip justificava seu divórcio, dizendo que, aos olhos de Deus, ele nunca havia se casado (ainda que tivesse dois filhos) e que estava livre para casar-se com Kathryn. Ele disse que, na verdade, uma vez que não amava sua esposa, vinha "vivendo em pecado" e somente agora estava se arrependendo e acertando a sua vida. Dessa forma, poderia seguir o que, segundo ele, era o plano de Deus

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para sua vida desde o começo — casar-se com uma jovem ruiva e esbelta de Denver. "Não vejo nada de bom nisso", A. C. Anderson advertiu Kathryn depois que Burroughs foi para Mason City. Os dois haviam jantado na casa de Anderson. Mas Kathryn não ouvia ninguém, nem Anderson, nem Helen, nem E. E Hewitt, que lhe implorou que não se envolvesse com Waltrip. Os Andersons fizeram uma viagem especial a Mason City a fim de tentar convencer Waltrip. Descobriram que ninguém da cidade de Mason City sabia que ele havia sido casado. Waltrip foi ao hotel onde o senhor e a senhora Anderson estavam hospedados e conversou com eles até as 2 horas da manhã. Às vezes, a discussão esquentava e ficava hostil. "Se eu conseguir convencer a família Anderson", finalmente esbravejou Waltrip, "poderei ganhar Denver". Mas nem os Andersons nem o povo de Denver aceitavam o fato de que o casamento dos dois fazia parte do plano de Deus. Tudo o que eles podiam fazer era esperar — e orar — para que, de algum modo, Kathryn voltasse a si antes de fazer algo que viesse a destruir o ministério que todos eles haviam trabalhado arduamente para construir. Kathryn evitava as pessoas. Não aceitava conselhos dos que estavam à sua volta. Submissão, principalmente a um homem ou a um grupo de homens, era um conceito estranho para ela. "Todo cristão deveria ouvir a voz de Deus", ela dizia."A religião escraviza você, mas o cristianismo o liberta. Submissão aos homens é escravidão. Quero ser livre e deixar que Deus fale diretamente comigo." Se Kathryn tinha alguma fraqueza em sua longa e produtiva carreira, essa fraqueza era não se submeter às pessoas de Deus que estavam à sua volta. Moisés submeteu-se aos anciãos. E o apóstolo Paulo ensinou os cristãos a "sujeitarem-se uns aos outros". Mas, por alguma estranha razão, essa idéia ameaçava Kathryn. Kathryn não reconhecia que ouvir alguém não lhe tiraria seus direitos diante de Deus nem a transformaria em algum tipo de marionete que só pularia quando alguém puxasse sua corda. Pela submissão, ela poderia ter encontrado as limitações necessárias às decisões em sua vida pessoal. Se tivesse sido submissa em 1938, não teria destruído seu ministério. No entanto, como era teimosa e independente, ela se precipitou, determinada a fazer as coisas à sua maneira. Tudo isso, no entanto, revela uma verdade incompreensível. Muitas vezes, o melhor plano de Deus pode ser frustrado pela desobediência do homem, e um segundo plano tem de ser arquitetado, o qual, nas mãos hábeis do Deus Todo-poderoso, passa a ser ainda melhor do que o plano original. A mó de Deus levara muitos anos para triturar os grãos da rebeldia de Kathryn e transformá-los em exatidão, mas, quando a obra foi concluída, quando o grande peixe fez com que ela voltasse para 61


a praia, quando a sarça ardeu e a voz de Deus voltou a ser ouvida mais uma vez, trazendo-a à comissão original, ela se viu pronta para seguir. Nesse meio tempo, entretanto, houve o deserto, as profundezas do mar, a escuridão da separação de Deus. Mas, não obstante, ela comia, deliberadamente, do fruto proibido. Diante da congregação em Denver, Kathryn anunciou, no culto da manhã de domingo do dia 15 de outubro, que Deus havia revelado um novo plano. Ela e Waltrip haviam decidido unir seus ministérios. A sede ficaria em Mason City, Iowa. Ela e Waltrip revezariam as viagens de ida e volta a Denver para a realização dos cultos — aproximadamente 1. 300 quilômetros. "Nós dois podemos realizar muito mais do que realizaríamos separados", declarou. Embora ela não tivesse mencionado o casamento, todos pareciam saber. Um terrível silêncio veio sobre a congregação. Todos os rumores que eles vinham ouvindo sobre Waltrip divorciando-se da esposa para casar-se com Kathryn eram verdade. As mulheres começaram a chorar. Vários membros do coro levantaram-se e saíram. Os homens fecharam a cara nos bancos, olhando para Kathryn como quem não acredita no que está ouvindo. Como poderia fazer isso?! Essa mulher, que havia pregado mensagens tão enérgicas sobre pureza e santidade. Essa mulher que havia sido um modelo de decência e compaixão divina. Será que tudo o que ela havia dito era um mito? Seria ela incapaz de seguir o Senhor a quem, de forma tão diligente, os havia incentivado a seguir durante os últimos cinco anos?! Onde estava a força interior? O poder? Os outros podiam pecar e afastar-se de Deus, mas não a sua líder. Muito lhe havia sido dado, muito lhe era exigido. Era uma vida difícil que ela havia escolhido. Ninguém duvidava disso. Todos sabiam o que ela havia sacrificado. Casamento. Filhos. Simplesmente para edificar uma obra em Denver. Mas, desistir de tudo? Pôr tudo a perder por causa de um homem divorciado que havia abandonado a esposa e os dois filhos? Não valia a pena. "Não, Kathryn, não diga isso. Não faça isso, por favor", disse Helen Gulliford, sentada no banco do piano, com o rosto pálido e os olhos cheios de lágrimas. Earl Hewitt, o gerente empresarial e pregador substituto de Kathryn, baixou a cabeça e se pôs de joelhos. Arrasado. O senhor Anderson sentou-se, em silêncio. Aquilo que ele temia havia acontecido. Kathryn balançava as mãos de modo dramático e tentava não dar muita importância a toda a situação. "Vocês não entendem", ela disse quase que alegre. "Não estou deixando vocês. Eu voltarei." Mas era Kathryn que não entendia. As pessoas viam à frente, o ministério, e sabiam que, se ela levasse adiante seu obstinado plano, tudo estaria perdido. Naquele momento, eles a viram, em pé diante deles, sem a unção de Deus e sem se dar conta disso. Ela era como Sansão, que tosou

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os cabelos e ousou desafiar os filisteus, mas "não sabia ainda que já o Senhor se tinha retirado dele". A reunião acabou em confusão. Kathryn saiu por uma porta lateral. Logo cedo, na manhã seguinte, pegou o trem para Des Moines, onde se encontrou com Waltrip, que a levou para Mason City. Eles deram entrada na papelada do casamento, e ela declarou que faria 26 anos em seu próximo aniversário — mesmo tendo 31 anos na época. No dia 18 de outubro de 1938, o reverendo L. E. Wordle, um ministro metodista da cidade vizinha de Swaledale, realizou seu casamento na Rádio Chapel de Waltrip. Só duas pessoas do Templo do Reavivamento de Denver compareceram ao casamento — Ina Fooks e Earl Hewitt. Antes da cerimônia, Hewitt encontrou-se com Kathryn e explicou a situação. Helen Gulliford havia se desligado do ministério Kuhlman. Ela ficaria em Denver para trabalhar com um dos grupos que já havia saído do templo. Hewitt disse que Kathryn nunca mais seria bem-vinda em Denver. Ele fez uma oferta de compra da parte dela no prédio. Ela aceitou e lhe passou as chaves de seu reino. Como uma pessoa possessa, não podia parar o que havia começado, ainda que o peso disso já fosse maior do que ela podia suportar. No meio da cerimônia, ela desmaiou. Waltrip ajudou a despertála. Agarrado ao seu braço, ele a ajudou a fazer os votos que restavam. O egípcio foi morto. E adiante havia apenas o árido deserto de Midiã — um deserto pelo qual ela vagaria pelos próximos oito anos.

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Capítulo 6 A Sarça Arde Como todos os servos de Deus que foram levados ao deserto por causa de seus pecados, Kathryn logo foi esquecida por aqueles que ela deixou para trás. A dor da lembrança era muito grande para aqueles que a amaram e a seguiram. Era mais fácil tirá-la da lembrança. Por essa razão, a maioria de seus antigos seguidores arquivou suas lembranças e logo preencheu o vazio com novas atividades. Hewitt pediu a William Watson, um dos evangelistas favoritos que havia realizado cultos no templo, que assumisse na semana seguinte. No domingo pela manhã, entretanto, descobriu-se que Watson havia deixado a cidade de avião no sábado à noite. Hewitt pregou, mas perdia as forças. O rebanho espalhou-se. Alguns ficaram com Hewitt. Outros trouxeram Watson de volta e iniciaram seu próprio trabalho na Barnes Business School. Outro grupo ainda, por fim, juntou-se a Charles Blair, um novo e jovem ministro pentecostal que havia acabado de se estabelecer em Denver. Mas muitos, além da conta, voltaram para o mundo — feridos, desiludidos, perdidos do reino. Kathryn voltou a Denver várias vezes depois disso. Sempre sozinha. Embora fosse bem recebida nos almoços e jantares na casa dos Andersons, ela nunca mencionou Burroughs Waltrip. Era como se nunca tivesse se casado com ele. Ina Fooks, que havia sido uma das mais fortes sustentadoras de Kathryn, visitou a Rádio Chapel, em Mason City, em várias ocasiões. "Tudo o que Kathryn faz é sentar-se no púlpito atrás de seu marido e chorar", ela relatou quando voltou para Denver. Quando as pessoas de Mason City descobriram que Waltrip havia mentido para elas sobre seu primeiro casamento, também foram embora. A Rádio Chapel fechou. Burroughs e Kathryn fizeram as malas e fugiram para a escuridão do deserto. Ouviu-se deles em Kansas, Oregon, Arizona e até em algumas visitas a Concórdia. Mas ela era tão desprezada pelo seu público quanto Moisés pelos egípcios, enquanto ele cumpria seu exílio no deserto de Sinai. Duas ocasiões durante este exílio são dignas de nota, pois tiveram uma relação direta com o que haveria de seguir. Kathryn começou a sentir que precisava provar da água, aceitando alguns convites para pregar sozinha. Isso aborrecia Waltrip, que queria que ela ficasse com ele. Contudo, ao perceber que ela era, em primeiro lugar, uma pregadora, e não uma dona de casa, ele a deixou assumir alguns compromissos sozinha. Um 64


deles foi em Pittsburgh, Pensilvânia. Jack Munyon, pastor de uma grande igreja interdenominacional, convidou-a para ir à cidade barra-pesada para uma série de reuniões que duraria seis semanas no início de 1945. Era a primeira visita de Kathryn a Pittsburgh, e ela foi bem recebida. Munyon achou que seria melhor, no entanto, se as pessoas não soubessem sobre o casamento dela. Assim, mesmo tendo Waltrip ao seu lado durante parte do tempo no William Penn Hotel, Kathryn concordou em mantê-lo em segredo. Mas o filho de 5 anos de Munyon quase deu com a língua nos dentes certa noite. Quando alguém perguntou ao pai onde a senhorita Kuhlman estava hospedada, o garotinho levantou a voz e disse: "Ah, ela está hospedada no hotel com um homem". Foi preciso Munyon dar uma explicação rápida para abafar o caso. Durante essa viagem a Pittsburgh, Kathryn logo fez amizade com uma supervisora alta e esbelta da companhia telefônica, Maggie Hartner, que, mais tarde, desempenharia um grande papel em sua vida. A senhorita Hartner, que vivia com a mãe, era membro da igreja de Munyon. Ela continuou a corresponder-se com Kathryn depois que esta voltou para a Costa Oeste e, mais tarde, tornou-se sua secretária e amiga mais íntima. O outro caso aconteceu em Portland, Oregon, logo depois que Kathryn deixou Pittsburgh. A culpa decorrente de seu casamento era muito pesada para ela. Em várias ocasiões, quando questionada por repórteres de jornais, ela categoricamente negava que era casada — dizendo que isso era um boato disseminado por antigos inimigos em Denver. Sua irmã, Myrtle, havia comentado com seu pastor em Portland sobre o ministério de Kathryn. Entretanto, ela também não mencionou que Kathryn era casada com um homem divorciado. O pastor ficou impressionado com Kathryn, e, depois de ela fazer uma visita a Portland e pregar na igreja dele, a convidou para uma série de conferências. Então, no sábado, antes de Kathryn abrir a série de reuniões no domingo pela manhã, o pastor recebeu uma ligação urgente de um dos líderes de sua igreja. "Sabia que a evangelista que você convidou para pregar é casada com um homem divorciado?" O pastor ficou chocado. "Não só isso", continuou o informante, "o homem abandonou a esposa e os dois filhos pequenos para casar-se com ela. Isso destruiu o ministério dela em Denver e tem causado problemas em todos os lugares por onde ela passou". Naquela tarde, o pastor fez uma ligação difícil. Ao entrar em contato com Kathryn, que já havia chegado em Portland, ele disse: "Se eu soubesse da verdade desde o início... agora não tenho outra escolha senão cancelar as reuniões. Isso destruiria meu ministério também". Doeu profundamente. Kathryn entrou em seu carro e percorreu os subúrbios da cidade de Oregon, chorando. Fez isso por quase seis horas, 65


dirigindo e chorando. Esta seria sua sina pelo resto da vida? Deus não a havia chamado para pregar? Como cumpriria a missão de Deus se os boatos continuassem a persegui-la por todo o país, levando-a a ser impedida de entrar nas igrejas? Por várias vezes, naquela noite escura, ela fez a si mesma a pergunta de John Milton: "Deus exige o trabalho do dia negando a luz?". Contudo, sabia, em seu coração, que a resposta de Milton não se encaixava em sua situação. Pois "ficar e esperar" não consertaria sua situação. Era preciso uma atitude mais radical. O peso da culpa estava indo além do que ela poderia suportar. Ninguém parece saber quando ocorreu a separação. Em uma entrevista em 1952 ao Denver Post, ela disse: "Ele me acusou — corretamente — de recusar-me a viver em sua companhia. E faz oito anos que não o vejo". Com isso, entende-se que a separação se deu em 1944 — o que provavelmente está correto. Isso significa que eles viveram juntos por seis anos. Ela me disse, em um daqueles raros momentos em que estava disposta a entregar-se à nostalgia: "Tive de fazer uma escolha. Ou eu servia ao homem a quem amava, ou ao Deus a quem amava. Eu sabia que não poderia servir a Deus e viver com Mister". (Ela o chamou de "Mister" desde a primeira vez que se encontraram. ) "Ninguém jamais conhecerá a dor de morrer como eu, pois amei aquele homem mais do que à minha própria vida. E, por um tempo, o amei mais do que amei a Deus. Por fim, disse-lhe que eu tinha de partir. Deus nunca me liberou daquele chamado original. Eu não vivi apenas com Mister. Tive de conviver com minha consciência. E a convicção do Espírito Santo era quase insuportável. Eu estava cansada de tentar me justificar. Cansada". "Numa tarde", ela prosseguiu, com os olhos cheios de lágrimas, "saí do apartamento — que ficava nos arredores de Los Angeles — e me vi andando em uma rua sombreada por árvores. O sol passava tremeluzindo pelos grandes galhos que se estendiam sobre a minha cabeça. No final do quarteirão, vi uma placa de rua. Ela dizia simplesmente: "Rua Sem Saída". Senti uma angústia tão grande que não poderia traduzir em palavras. Se você pensa que é fácil ir até a cruz é porque nunca esteve lá. Eu estive. Eu sei o que é isso. E tive de ir até lá sozinha. Não sabia nada sobre o que era ser maravilhosamente cheia do Espírito Santo. Eu nada sabia sobre o poder da poderosa terceira pessoa da Trindade, que está à disposição de todos. Só sabia que eram 16 horas de um sábado e que eu havia chegado a uma condição em minha vida na qual estava pronta para abrir mão de tudo — até de Mister — e morrer. "Eu disse em voz alta: Querido Jesus, renuncio a todas as coisas. Entrego tudo a ti. Toma o meu corpo. Toma o meu coração. Tudo o que sou é teu. Eu me coloco em tuas maravilhosas mãos'. " Kathryn sabia que, por quase seis anos, vinha se enganando — buscando a bênção de Deus sem estar disposta a viver de acordo com os preceitos dele. Durante todo aquele tempo, ela e Burroughs se colocaram 66


atrás de um púlpito, pregando arrependimento, sabendo, contudo, que, lá no fundo, estavam vivendo em desobediência e sem arrependimento. Eles eram os vasos por meio dos quais os outros bebiam da água da vida, mas sua própria boca estava fechada, e eles não podiam saciar sua sede com aquela mesma água que levavam aos outros. Muitos foram levados a um novo relacionamento com Jesus Cristo. Alguns até foram curados. Pois Deus havia feito a seguinte promessa: "A minha palavra não voltará para mim vazia, mas fará o que desejo e atingirá o propósito para o qual a enviei" (Is 55. 11). Mas, com grande tristeza, Kathryn percebeu que havia se tornado como aqueles grandes leões de pedra que ela havia visto em fotos da Europa — com a água jorrando de sua boca. Podiam dar água a todos os que estivessem com sede, mas eles mesmos não tinham como beber dela porque eram feitos de pedra. O coração de Kathryn ficara assim. Durante meses, ao que parece, toda vez que ela abria sua Bíblia, seus olhos eram atraídos para o livro de Provérbios. Era como se este livro fosse o primeiro. Quase todas as vezes que ela se recolhia em sua cama, aos prantos, e abria sua Bíblia, ali estava Provérbios. "Como a cidade com seus muros derrubados, assim é quem não sabe dominar-se" (Pv 25. 28). "Saborosa é a comida que se obtém com mentiras, mas depois dá areia na boca" (Pv 20. 17). "Quem esconde os seus pecados não prospera, mas quem os confessa e os abandona encontra misericórdia" (Pv 28. 13). Quanto a Burroughs: "O homem justo leva uma vida íntegra; como são felizes os seus filhos!" (Pv 20. 7). No entanto, os filhos dele, agora na adolescência, haviam sido forçados a viver sem o pai. Kathryn sabia, por meio do estudo da Palavra e de sua experiência com Deus, como um Pai amoroso, que Ele podia usar uma situação conjugal impossível, que nasceu em pecado e rebelião, e transformá-la em algo puro e santo — sem o rompimento do relacionamento. Ela viu isso acontecer muitas vezes entre seus amigos. Observou outros fazerem exatamente o que ela e Burroughs haviam feito. E, em casos assim, viu também Deus, em resposta às lágrimas, confissão e súplica por perdão, conceder um novo coração juntamente com a permissão para que continuassem juntos. Foi por causa desses exemplos que Kathryn e Burroughs forçaram a situação, esperando que Deus os tratasse de igual modo. Contudo, eles cometeram um erro universal. Olharam para o modo em que Deus havia tratado os outros, tomando para si esses exemplos, em vez de buscarem o plano perfeito de Deus para suas vidas. Kathryn havia se esquecido de que ela era uma pessoa singular. Pois a quem muito foi dado, muito será exigido.

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Kathryn soube, quando tinha 14 anos, que estava destinada a ser diferente. Destinada a estar envolvida com os assuntos do Pai. Era um sentimento que ela jamais pôde enfraquecer. Como, então, poderia continuar em um relacionamento que não só estava desagradando a Deus, mas impedindo-a, literalmente, de cumprir tudo aquilo que Ele havia planejado para ela. Pensou nos momentos em que ela e o esposo estavam juntos à mesa do café da manhã, a cama, no quarto ao lado, ainda quente e desfeita, pedindo a Deus que abençoasse o alimento — sabendo que Ele não poderia abençoá-los. Por seis anos, eles tinham jogado de acordo com as suas próprias regras. Mas ela não poderia mais fazer isso. Tinha de fazer uma escolha. Arrepender-se é mudar de atitude. Kathryn Kuhlman fez isso naquele sábado à tarde sob a copa de uma das muitas árvores de uma rua da Califórnia. Ela morreu naquela tarde. Tornou-se uma semente disposta a cair no chão e ser enterrada. Sem enxergar por causa das lágrimas, se virou e começou a subir a rua no seu caminho de volta. Três dias depois, em pé na estação de trem de Los Angeles, chorando muito, ela olhou para Mister pela última vez. Ele ficou em silêncio. Seus cabelos negros estavam começando a ficar grisalhos nas têmporas. Seu rosto, tão moreno e macio quando ela o conheceu, agora estava enrugado. Grande parte da vida de Kathryn ficava para trás, e ela não tinha nada para mostrar. Tudo o que sabia era que tinha um bilhete de ida para Franklin, na Pensilvânia, onde fora convidada a realizar um encontro de duas semanas. Ambos estavam na plataforma, embaraçosamente de mãos dadas, esperando ouvir o grito: "Todos a bordo". Kathryn fitava, distraidamente, as rodas pesadas do vagão de passageiros e lembrou-se daquele dia em Concórdia, quando ela e Myrtle entraram no trem rumo à cidade de Kansas. Só que agora ela não tinha uma irmã amorosa para sentar-se ao seu lado. Achava-se sozinha. — Depois de Franklin, onde... — disse Burroughs, nervoso, percebendo que estava interrompendo um devaneio do qual não fazia mais parte. — Não sei — respondeu Kathryn, sem levantar os olhos das rodas de aço sobre os trilhos. — Só sei que tenho de ir. Preciso seguir a Jesus. Burroughs apertou a mão de Kathryn. Gentilmente. Ele também sabia. Tinha consciência de que ambos vinham se enganando desde o começo. Sabia também que Kathryn não era dele. Nunca havia sido. Agora, ambos chegavam ao momento da verdade em que deixariam livres um ao outro. A decisão de Kathryn estava tomada. Havia sido tomada três dias antes, quando ela chegou em casa e disse-lhe que estava de partida. Mas e ele? Poderia voltar para Austin e recomeçar sua vida com a família? No íntimo, ele dizia que não. Talvez estivesse destinado a vagar pela terra como algum navio fantasma, sem chegar à praia, passando por nevoeiros espessos para não ser descoberto. E se essa fosse sua sorte, então ele fortaleceria sua alma e passaria por isso. Pois, a despeito de tudo, 68


Burroughs Waltrip era um homem de Deus — e reconheceu a mão de seu Senhor na mulher que até dias antes era sua esposa. Ele também sabia, desde o começo, que ela era diferente. Mas esperava que, de algum modo, pudesse estabelecer suas próprias regras e, ainda assim, vencer o jogo. Agora os dois, lado a lado, na plataforma de madeira suja da estação ferroviária de Los Angeles, sabiam que não pertenciam um ao outro. Ambos pertenciam a outra pessoa. Agora, Deus exigia de Kathryn aquilo que ela lhe havia prometido naquela ma cheia de árvores. Ouviu-se o apito do trem. Um casal jovem desceu a plataforma, beijaram-se e trocaram carícias, e o homem subiu os degraus cinza-esverdeados do vagão. — Todos a bordo — gritou o condutor, descendo à plataforma apressado na direção da porta. Os carregadores vestidos de branco recolhiam os pequenos bancos que ficavam sob os degraus do trem e entravam nos vagões. — Se você entrar naquele trem, nunca mais me verá — Burroughs disse baixinho. — Nunca mais interferirei em sua vida ou em seu ministério. O que Kathryn disse como resposta só Deus sabe, pois ninguém sabe, até hoje, o que aconteceu com o sr. Burroughs A. Waltrip. Quando ela segurou a mão do carregador e subiu no trem com destino ao Leste, Burroughs Waltrip desapareceu. Ele cumpriu sua promessa. Palavra por palavra. Pelo que sei, ela nunca mais ouviu falar dele. Exceto uma única vez. Eu estava em seu escritório na Carlton House, em 1970, na semana seguinte ao Dia dos Namorados. Ela fechou a porta e foi para sua mesa. Muito devagar, tirou um cartão da primeira gaveta, segurando-o como se fosse um pergaminho sagrado. Reclinando-se sobre a mesa, o entregou a mim. — Olhe isto — ela sussurrou com a voz rouca. Era um simples cartão que dizia "Seja Minha Namorada", com dois corações vermelhos unidos por uma flecha dourada. Dentro, havia duas palavras escritas à tinta: "Amor, Mister". Olhei para Kathryn. Seu rosto estava voltado para o teto, os olhos bem fechados, lágrimas comprimiam suas pálpebras e rolavam fazendo pequenos riscos em sua face envelhecida. — Ninguém — sussurrou ela — ninguém jamais saberá o que este ministério custou para mim. Apenas Jesus. Se eu tivesse permanecido naquele escritório, teria que tirar meus sapatos, tão grande era o poder de Deus. Saí rapidamente, pela ante-sala, em direção ao corredor, e desci de elevador até a sala de espera. Se era aquilo que significava a cruz para Kathryn Kuhlman, o que significaria 69


para mim? Eu não estava pronto, naquele momento, para enfrentar aquela pergunta em minha própria vida. Embora a decisão pela Califórnia tivesse sido tomada, o caminho não seria nada fácil. Viajando sozinha, Kathryn foi primeiro para Franklin e, depois, se empenhou em recomeçar sua vida. Ohio, Illinois, Indiana. Descendo pelo oeste da Virgínia. Em quase todos os lugares onde ia, encontrava a mesma resistência. As pessoas sabiam de Waltrip e do escândalo em Denver. Uma vez que a pessoa abate um albatroz, parece que tem de usar a carcaça dele em volta do pescoço, e o fedor permanece por muito tempo. Não há, escreveu Thoreau, nenhum odor tão malcheiroso quanto o que se exala da bondade estragada. Kathryn foi para o Sul. Virgínia. Carolina do Norte e do Sul. E, por fim, no final de 1945, chegou em Columbus, na Geórgia. Em todos os lugares, era a mesma coisa. Sua técnica não havia mudado. Mas agora, como uma mulher de meia-idade, era um pouco mais difícil. Ela alugou um salão, colocou anúncios nos jornais, comprou um horário na rádio e passou a anunciar suas reuniões. As pessoas em Columbus responderam. Na terceira noite, o auditório da cidade estava cheio. Então alguém sentiu o cheiro do albatroz. Houve um telefonema para Denver e outro para Mason City, Iowa. Alguém telefonou para o jornal, e um repórter apareceu para entrevistar a evangelista cansada da batalha. Kathryn recusou-se a falar, o que foi a pior coisa que ela poderia fazer com a imprensa. O jornal, pressentindo uma história no ar, pôs-se a trabalhar. Dois dias depois, após a história ter sido transmitida para toda a comunidade, lá estava Kathryn em um ônibus, a caminho do Norte. A hospitalidade no Sul não foi muito calorosa naquele outono. Contudo, seus dias no deserto estavam quase no fim. E, embora ainda houvesse batalhas a serem travadas, Kathryn estava a um passo de uma reviravolta que até ela, com todos os seus sonhos e visões, nunca imaginou ser possível. Como Moisés no exílio, cuidando de ovelhas e cabras, com o calor do deserto queimando todo o orgulho e egoísmo de sua vida, a sarça de Kathryn estava prestes a arder. Logo chegaria o tempo em que ela ouviria a voz de Deus lá no meio das chamas de um milagre, dando-lhe novas instruções para a próxima fase de sua vida. Voltou para Franklin, na Pensilvânia, uma cidade com cerca de 10 mil habitantes ao noroeste do estado, entre Pittsburgh e Erie. Foi em um dia de tempestade e frio de fevereiro, com uma nevasca castigando as ruas da cidade, que Kathryn desceu de um ônibus e foi até uma cabina telefônica a fim de telefonar para Matthew J. Maloney. Maloney, que era proprietário do Gospel Tabernacle, havia ficado impressionado com Kathryn em sua visita a Franklin antes para a reunião de duas semanas no famoso prédio onde o evangelista Billy Sunday conquistara sua notoriedade. Maloney liderava um colegiado no tabernáculo e a havia convidado a voltar a Franklin para outra série de reuniões num humilde prédio localizado na rua Otter, próximo ao centro da cidade. 70


A verdadeira razão por que Kathryn voltou para Franklin ainda é outro dos muitos mistérios que giram em torno de sua vida. Talvez por ter sido um dos poucos lugares onde ela havia pregado sem que alguém tivesse levantado a questão de seu casamento. Talvez porque a cidade era tão remota que quase não havia chance de descobrirem algo a respeito dela. Ou talvez porque Deus tivesse falado diretamente com ela. Ninguém sabe. Mas, no início de 1946, quase dois anos depois de Kathryn ter dado as costas para Waltrip, ela desceu de um ônibus em Franklin para começar o próximo capítulo de sua vida. As coisas iam bem. O velho templo contava com 1. 500 assentos e esteve cheio desde o começo. Encorajada por conta de sua boa acolhida, Kathryn começou a ampliar suas atividades. O rádio era o meio natural. Na primavera de 1946, usando um elegante vestido preto, luvas longas de pelica e um chapéu de Hattie Carnegie, Kathryn entrou no escritório da estação de rádio WKRZ, próxima a Oil City. Disse à recepcionista que queria ver Frank Shaffer, o diretor. Depois de ser levada ao pequeno escritório do homem, ela lhe disse, com firmeza mas educadamente, que estava ali para comprar um horário no ar. De acordo com Clarence Pelaghi do Oil City Derrick, Shaffer tinha um irritante hábito que testava a paciência das pessoas que falavam com ele. Devagar e meticulosamente, ele pegava seu cachimbo, colocava tabaco nele e, depois, o tragava lentamente tentando acendê-lo. Enquanto cumpria esse ritual, ficava totalmente em silêncio, ignorando a pessoa em seu escritório, e concentrando toda a atenção em seu cachimbo. Kathryn, do outro lado da mesa do indiferente radialista, resistiu ao teste por um instante e então disse: "Jovem, você tem interesse em vender parte do tempo ou não? Não tenho tempo a perder. E não me venha com este teste; não será nada bom para você". Shaffer foi pego de surpresa. Ele não estava acostumado com pessoas que lhe falassem dessa forma, principalmente mulheres, e, sobretudo, mulheres interessadas em comprar um horário para a transmissão de um programa religioso. A maioria delas se sentia tão intimidada que acabava por sair da sala ou concordar em pegar qualquer horário do dia. Shaffer colocou seu cachimbo no cinzeiro, puxou sua tabela de preços e pôs-se a trabalhar. A equipe da emissora observava esta mudança com certo prazer. Embora não pudessem ouvir a conversa na cabina de controle, eles puderam ver pelas janelas de vidro e souberam, no mesmo instante, que Shaffer havia encontrado alguém à sua altura. Kathryn fez algumas perguntas relevantes quanto ao poder da emissora, à área que ela cobria e ao número de ouvintes. Insistiu em determinado horário todas as manhãs e o conseguiu. Deixou o escritório sem falar em preço. Se Deus lhe tinha dito que levasse o programa ao ar e

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lhe havia dado o horário, ela deixaria que Ele se preocupasse com a questão dos custos. Era uma conduta que ela adotaria pelo resto da vida. Kathryn começou a fazer viagens diárias de Franklin para Oil City, cerca de 13 quilômetros de distância. A emissora de rádio ficava no terceiro andar do Edifício Veach. Antes de entrar no ar a cada dia, Kathryn conversava com Ruth Lytle, a secretária e contadora, e com outros membros da equipe. Entretanto, tomava cuidado para manter seu passado em segredo. Kathryn gostava, principalmente, de seu apresentador, Ted Finnecy, de Rouseville. Gostava da forma que ele a apresentava, dizendo: "Aquela jovem que todos vocês estavam esperando". Ela insistia para que a emissora de rádio tivesse à mão a gravação da introdução feita por Finnecy, para que, toda vez que ele não pudesse estar presente, a usassem, em vez de colocarem um apresentador substituto. Finnecy, que era católico, sempre fazia o sinal-da-cruz antes de proceder às apresentações. Contudo, sua seriedade terminava ali e, muitas vezes, durante a transmissão, ficava do outro lado do vidro imitando Kathryn Kuhlman, ridicularizando seus gestos e expressões faciais. Os outros membros da equipe às vezes explodiam de rir do lado de fora do estúdio à prova de som enquanto observavam Finnecy e Kathryn fazendo caretas um para o outro através do vidro. Entretanto, a dramatização de Kathryn causou alguns problemas na rádio. O único microfone disponível era um microfone de mesa. Às vezes, Kathryn ficava entusiasmada durante sua apresentação e se aproximava tanto do microfone que parecia estar mordendo o equipamento. Isso levou o técnico a tomar uma atitude nervosa na tentativa de nivelar o som. O problema foi solucionado quando colocaram o microfone na outra ponta da mesa e o parafusaram nela. Depois, a rádio arrumou um microfone com pedestal só para a dramática pregadora de Franklin. Em pleno verão, a fama de Kathryn havia se espalhado, e ela, se associado a uma estação de rádio em Pittsburgh — com as transmissões vindas de Oil City. Entretanto, mais fama causou problemas. Pessoas queriam aproximar-se dela e, por não conseguirem fazê-lo nas reuniões no tabernáculo, iam à estação de rádio. Elas se sentavam no saguão e observavam Kathryn pela grande janela de vidro. Logo o saguão ficou tão cheio que o pessoal da rádio não pôde fazer seu trabalho. Quando algumas das pessoas começaram a reagir de modo emotivo, e até histérico, clamando a Deus em momentos de confissão ou chorando enquanto caíam sob a convicção do poder de Deus, a emissora teve de barrar todos os visitantes do estúdio. Outro problema girava em torno da abundância de correspondência. As cartas chegavam à emissora aos montes. Finnecy gostava de brincar com "Katie" por causa de suas belas pernas. Ele dizia que ela deveria estar no palco, e não em um púlpito. Mas ele ajudava a selecionar a correspondência — muitas cartas continham dinheiro. Ao 72


encontrar um envelope com moedas que retiniam lá dentro, ele o jogava de lado, dizendo a Kathryn: "Você não quer esta miséria, quer?". Quando Kathryn anunciou no ar que havia acabado de rasgar seu último par de meias de náilon (o náilon era muito raro após a guerra), a rádio foi inundada de pacotes de meias de náilon que vinham de ouvintes gratos. O mesmo aconteceu quando ela uma vez deixou escapar que havia perdido sua sombrinha. A equipe da estação de rádio ficou feliz por poder voltar ao normal quando ela, finalmente, mudou-se para Pittsburgh. Mas todos eles sabiam que nunca mais teriam outro programa tão eficiente quanto o de Kathryn Kuhlman. No entanto, antes de ela se mudar mais para o sul, para uma cidade grande, ainda havia obstáculos a serem vencidos em Franklin e milagres a serem experimentados. Em diversas ocasiões, Kathryn pregou sobre "cura", e coisas aconteceram. Ela sempre encerrava seus cultos com apelos feitos do altar, convidando as pessoas a "nascerem de novo". Invariavelmente, o altar que ocupava toda a frente do prédio ficava cheio de pessoas de joelhos, que enchiam a plataforma e os corredores. A resposta era ainda maior quando tinha uma "fila de cura". Seguindo o exemplo dos conhecidos "curandeiros da fé" que percorriam o país, ela pedia que todos os doentes fossem à frente e, depois disso, impunha suas mãos sobre a cabeça deles e pedia a Deus que os curasse. Os resultados não eram espetaculares, mas havia resultados. Algumas pessoas eram curadas. E ninguém ficava mais surpreso, ou perplexo, do que a própria Kathryn. Ela estava determinada a descobrir mais coisas sobre a manifestação física de Deus. "Eu sabia, em meu coração, que havia cura", ela dizia. "Eu via a evidência naqueles que haviam sido curados. Era real, genuíno, mas qual era a chave?" Era a fé? Se fosse, que fé? Era algo que alguém poderia criar ou desenvolver em si mesmo? Era algo que poderia ser obtido por meio da própria bondade ou condição moral? Era algo que poderia ser alcançado por mérito ou barganha com o Senhor, ou por meio da benevolência? E onde estava a fé? Na pessoa doente? Ou naquele que dirigia o culto de cura? Na multidão de pessoas que o cercavam? Ou em uma combinação dos três? Certamente não dependia de capricho ou de acaso. Se Jesus de acordo com a Bíblia, curou todos os que foram levados a Ele, e se ordenou aos seus discípulos que fizessem obras ainda maiores que as dele, então por que não havia mais curas? Quando Kathryn viu um anúncio de que um famoso "evangelista que pregava a cura" iria realizar uma reunião numa tenda em Erie, ela decidiu ir. Embora tivesse fortes reservas com relação ao sensacionalismo que geralmente caracteriza tais reuniões, sabia que não ficaria satisfeita, a menos que participasse do culto. Talvez, quem sabe, ele tivesse encontrado o segredo para liberar o poder da cura divina aos doentes e aos que estavam à beira da morte. 73


Foi uma experiência difícil para Kathryn. Uma das mais difíceis de sua vida. Ela foi de carro, sozinha, a Erie, determinada a ficar no anonimato. A grande tenda estava localizada no extremo sul da cidade. As placas, quando ela entrou no estacionamento, diziam: "Reavivamento de milagres. Visão para os cegos! Audição para os surdos! Poder para ser próspero!" Sentada em um dos últimos bancos, ela esperou. Ao subir ao púlpito, o evangelista apareceu como se tivesse sido lançado de um canhão. Em um momento, ele se levantava e andava atrás do longo banco que ficava atrás do púlpito. Em outro, saltitava na plataforma feito um sapo. O público estava em um frenesi, uma gritaria, e gemidos que quase fugiam ao controle. Kathryn, mais tarde, descreveu o ocorrido como um "pesadelo". Durante o culto, ele leiloou pedaços de sua antiga tenda de reavivamento, prometendo que elas trariam saúde e prosperidade àqueles que os usassem em seu corpo ou dormisse com eles debaixo do travesseiro. Enquanto a reunião ficava mais intensa, o pregador começou a gritar, dizendo que sentia uma "magia", o que, segundo ele, era uma "unção do Espírito Santo" capacitando-o a impor as mãos sobre os doentes para que fossem curados. As pessoas na congregação amontoavam-se nos corredores, balançando de um lado para o outro. Quando a reunião estava no auge do frenesi, uma fila de cura foi formada. Essa fila camuflava a natureza aparentemente espontânea da reunião, pois cada pessoa que queria estar nela havia recebido na entrada um número. Assim, Kathryn percebeu, com desânimo, que as pessoas tinham de esperar, às vezes, por dias, para que seu número chegasse. Eram muitas as pessoas que estavam na fila. O evangelista passava por pessoa a pessoa na fila, verificando os cartões, batendo na cabeça delas e ordenando "Sejam curadas". Muitas caíam no chão. Outras gritavam e tremiam. Mas Kathryn não conseguia deixar de perceber que os enfermos em estado mais grave eram tirados da fila de cura e levados a uma "tenda de inválidos", longe dos olhos curiosos do público. Embora algumas pessoas parecessem ser de fato ajudadas — talvez até curadas —, a grande maioria dos que haviam quebrado suas muletas tinha de ser ajudada a sair da tenda por pessoas solidárias — ainda incapazes de andar. Para eles, o pregador declarou que a fé que expressavam ainda não era forte o suficiente; que eles deveriam voltar na noite seguinte para receber mais do que acontecera ali. Ao falar sobre aquela noite, Kathryn disse: "Comecei a chorar. Eu não conseguia parar. O olhar de desespero e frustração que vi no rosto das pessoas ao ouvirem que sua falta de fé as estava afastando de Deus assustou-me durante semanas. Este era o Deus de toda a misericórdia e grande compaixão? Saí da tenda e, com lágrimas quentes rolando pelo rosto, ergui os olhos e gritei: Eles levaram meu Senhor, e eu não sei onde o colocaram'".

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Anos mais tarde, Kathryn escreveu: "Não pude ver a mão de Deus na superfluidade do entusiasmo daquele homem, e vi o mal que estava sendo causado quando ele atribuía tudo à falta de fé por parte do indivíduo que não havia recebido a cura. Dentro de mim, eu estava arrasada. Meu coração dizia que Deus podia fazer alguma coisa. Minha mente dizia que por meio da ignorância e da falta de conhecimento espiritual havia gente trazendo vergonha ao que era sagrado, maravilhoso e acessível a todos. Nenhum pregador precisava me dizer que o poder de Deus era real... Eu tinha certeza desses fatos quando lia a Palavra de Deus. A Palavra estava ali, a promessa havia sido feita. A mente de Deus, sem dúvida, não mudara, e, obviamente, suas promessas não foram canceladas. Acho que ninguém queria a verdade de modo mais ávido do que eu — nem a buscava com tanto afinco". No entanto, Kathryn não encontrou a verdade que buscava na tenda da cura. Essa verdade tinha de ser encontrada em algum outro lugar. Felizmente, Kathryn aprendeu uma valiosa lição em seus primeiros dias. Ela havia aprendido que a única maneira de encontrar a verdade era colocar-se com sinceridade na presença do Senhor e permitir que Ele lhe desse as revelações da Palavra. Assim, mais uma vez, recorreu à Bíblia para obter suas respostas. "Quando Jesus morreu na cruz e exclamou: 'Está consumado', Ele não só morreu por nossos pecados, mas por nossas enfermidades também", ela me disse. "Precisei de vários meses para perceber isso, pois não havia sido ensinada de que havia cura para o corpo na redenção de Cristo. Mas então li em Isaías que 'ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniqüidades e pelas suas feridas fomos curados'. Não tive outra escolha senão aceitar que Jesus morreu não só para abrir o caminho que leva ao céu, mas para prover cura também. "Eu sabia que se vivesse e morresse, e nunca visse um único milagre de cura como os apóstolos experimentaram no livro de Atos, isso não mudaria a Palavra de Deus", disse Kathryn. "Foi Deus quem afirmou. Ele proveu-nos isso em nossa redenção no Calvário. Embora eu não tivesse visto com meus olhos terrenos, isso não muda o fato de que foi assim." Fortalecida por este novo tipo de fé — não pela fé em curas, mas por uma fé em Deus —, Kathryn começou a pregar com um novo entusiasmo, concentrando-se na doutrina do Espírito Santo. De algum modo, ela percebeu que era o Espírito Santo que estava cumprindo a obra de Jesus. No domingo, 27 de abril de 1947, Kathryn começou uma série de estudos sobre o Espírito Santo. Ela havia se deparado com uma verdade à qual recorreria pelo resto de sua vida. "Vejo em minha mente as três pessoas da Trindade sentadas numa grande mesa de reuniões antes da terra ser formada. Deus, o Santo Pai, 75


fala aos outros que, mesmo que criasse os homens para ter comunhão com Ele, esse homem pecaria — e quebraria essa comunhão. A única maneira pela qual a comunhão poderia ser restaurada seria por meio de alguém que pagasse o preço pelo pecado. Caso outra pessoa não o pagasse, então o próprio homem teria de continuar a pagar o preço na forma de infelicidade, doença, morte e, por fim, o inferno. "Depois que o Santo Pai terminou de compartilhar, Jesus disse: 'Eu irei. Assumirei a forma de um homem e descerei à terra para pagar esse preço. Estarei disposto a morrer em uma cruz para que o homem possa ser restaurado à perfeita comunhão conosco'. Então Jesus virou-se para o Espírito Santo e disse: 'Mas não posso ir, a menos que você vá comigo — pois você é o poder'. O Espírito Santo respondeu: 'Você vai adiante. E, quando for chegado o tempo, eu me juntarei a você na terra'. "Assim Jesus veio à terra, nasceu em uma manjedoura e chegou à idade adulta. Mas o Cristo em carne, mesmo sendo o Filho de Deus, não era todo-poderoso. Então, eis que chega aquele maravilhoso momento no rio Jordão em que Jesus, emergindo das águas batismais, ergueu os olhos e viu o Espírito Santo descendo sobre Ele na forma de uma pomba. Deve ter sido uma das maiores emoções que Jesus experimentou enquanto andava na carne neste mundo. E é quase como se eu ouvisse o Espírito Santo sussurrar em seu ouvido: 'Estou aqui agora. Estamos cumprindo bem a agenda. Agora as coisas realmente acontecerão'. "E aconteceram. Cheio do Espírito, Jesus, de súbito, recebeu poder para curar os doentes, fazer com que os cegos enxergassem e até ressuscitar os mortos. Era chegado o tempo dos milagres. Por três anos, eles continuaram, e, então, no final, a Bíblia diz que ele expirou', e o Espírito voltou para o Santo Pai. "Depois de Jesus ficar no túmulo por três dias, essa poderosa pessoa da Trindade, o Espírito Santo, voltou. Jesus saiu do sepulcro com um corpo glorificado. Ele não mais operou milagres durante o curto tempo em que esteve aqui, mas fez aos seus seguidores uma grande promessa — a maior de todas as promessas da Bíblia. Disse-lhes que o mesmo Espírito Santo que habitava nele voltaria para habitar em todos aqueles que abrissem sua vida para o seu poder. As mesmas coisas que Jesus havia feito, seus seguidores também fariam. Na verdade, coisas ainda maiores seriam feitas, pois agora o Espírito Santo não estaria limitado a um corpo — mas estaria em todos, de todas as partes do mundo, que o recebessem. " Kathryn fez uma pausa. Ela nunca havia pregado assim antes. Era uma nova revelação. Uma nova verdade. Não obstante, essa verdade vinha diretamente da Bíblia. Kathryn tremia enquanto prosseguia: "As últimas palavras que Jesus disse antes de partir foram: 'Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês'. Deus, o Pai, lhe havia 76


concedido o dom. Agora ele o estava passando para a igreja. Toda igreja deveria experimentar os milagres do Pentecostes. Toda igreja deveria ver as curas do livro de Atos. O dom é para todos nós". Espantada com o que havia dito, Kathryn saiu assim que o culto acabou, deixando a ministração no altar a cargo de um grupo de homens que veio à frente para ajudar. Ela ficou acordada aquela noite, em seu quartinho no terceiro andar do Clube Empresarial de Mulheres, onde morava; andando, orando e lendo sua Bíblia. Era como se estivesse ao lado de Simão Pedro quando Jesus disse a ele: "Porque isto não lhe foi revelado por carne ou sangue, mas por meu Pai que está nos céus". Na noite seguinte, ela voltou ao tabernáculo. O recinto estava cheio de rostos esperançosos. Todos os lugares nos longos bancos de madeira estavam ocupados. Quando ela entrou ressoava um alegre louvor. As pessoas vinham com a expectativa de um milagre. Assim que Kathryn se pôs em pé para pregar, houve uma inquietação no público. Uma mulher veio à frente. Ela estava com a mão levantada. — Kathryn, posso dizer uma coisa? Kathryn olhou para ela. Uma mulher de aproximadamente 50 anos, usando um terninho cinza e um chapéu de palha preto enfeitado com uma florzinha branca. Carregava a bolsa na mão direita, mas acenava com a mão esquerda. Kathryn disse: — Vamos, querida, é claro que pode dizer algo. A mulher foi à frente e ficou encarando Kathryn, separada apenas por um longo cano, no qual a cortina do altar estava pendurada por pequenas argolas de bronze. Ela falou baixinho: — Na noite passada, enquanto você estava pregando, fui curada. Por duas vezes, Kathryn tentou dizer alguma coisa, mas nada saiu. Finalmente balbuciou: — Onde você estava? — Sentada bem aqui na platéia — ela respondeu com um sorriso. — Como você sabe que foi curada? Se fosse de Deus, isso poderia resistir ao exame. — Eu tinha um tumor — a mulher disse timidamente. — Ele foi diagnosticado por meu médico. Enquanto você estava pregando, algo aconteceu no meu corpo. Eu tinha tanta certeza de que havia sido curada que voltei ao meu médico nesta manhã e tive a confirmação. Não há mais tumor.

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Não houve nenhuma fila de cura numerada. Nenhuma imposição de mãos. Nenhuma oração. O milagre simplesmente ocorreu enquanto Kathryn estava pregando sobre o poder do Espírito Santo. Kathryn levou uma semana inteira para entender o que havia acontecido. Então, no domingo seguinte, outro milagre aconteceu — um milagre ainda mais impressionante. Em 1925, George Orr, um veterano da Primeira Guerra Mundial — e um metodista por confissão denominacional — havia se ferido em um acidente na empresa em que trabalhava. Um respingo de metal fundido causou uma escoriação tão séria na córnea de seu olho direito que ele foi, oficialmente, dado como cego. Seu oftalmologista, o dr. C. E. Imbrie, de Butler, Pensilvânia, disse que o olho estava permanentemente comprometido e que a cicatriz resultante na córnea era tão profunda que uma cirurgia não resolveria o problema. Se fosse feita a cirurgia, eles teriam de remover o globo ocular. Em março de 1947, Orr e sua esposa participaram de um dos cultos no tabernáculo em Franklin. Nos dois meses seguintes, eles voltaram várias vezes para ouvir as pregações de Kathryn. No dia 4 de maio, saíram de Butler para participar do culto da manhã, viajando com um jovem casal que também estava interessado na ministração de Kathryn. Kathryn ainda estava pregando sobre o poder do Espírito Santo e, durante o culto, declarou, sem rodeios, com base na mulher que havia sido curada no começo da semana, que a cura física era algo tão possível hoje quanto a salvação espiritual. Algo aconteceu no íntimo de George Orr. Ele orou: "Deus, por favor, cura o meu olho". No momento seguinte, ele sentiu uma estranha sensação de formigamento no olho, como se algo estivesse passando por ele. Então, o olho começou a formar lágrimas. Na verdade, Orr ficou envergonhado por não poder controlar o lacrimejar. Seu olho transbordava de lágrimas, e elas respingavam em sua jaqueta. Após o culto, com medo de contar a alguém o que lhe havia acontecido, ele saiu confuso do tabernáculo e foi para o seu carro. No caminho de volta para casa, continuou a piscar o olho, uma vez que continuava a derramar lágrimas. Então, assim que passaram por uma colina, ele disse que o Sol pareceu irromper, de repente, em toda a sua glória. Cobrindo o olho que estava bom com a mão, ele gritou: "Posso ver! Posso ver tudo!". George Orr, que há muito vinha recebendo uma indenização por causa de sua cegueira, voltou ao culto em Franklin na terça-feira à noite para dar seu testemunho. A sarça de Kathryn havia começado a arder.

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Capítulo 7 Pittsburgh Era óbvio que Kathryn teria problemas com M. J. Maloney, que era proprietário do Gospel Tabernacle e responsável pelas finanças. Maloney não só estava dirigindo um ministério, mas administrando um negócio. Administrar o Gospel Tabernacle era um bom negócio, principalmente se o proprietário tinha uma parte de todas as ofertas. Ninguém na história do tabernáculo, nem mesmo Billy Sunday, havia atraído as multidões que Kathryn estava atraindo. Os milagres começaram a acontecer. Sem dúvida, as ofertas aumentavam, uma vez que a multidão aumentava. Além disso, a correspondência de Kathryn mais que triplicara — graças ao ministério no rádio e às malas-diretas. Susan Miller, uma jovem secretária, era voluntária para ajudar Kathryn com a correspondência, que consistia em "cartas de oração", fotos de Kathryn e um exemplar de um livrete que ela havia compilado, intitulado The Lord's healing touch [O Toque de cura do Senhor]. Maloney insistia que seu contrato exigia que ele recebesse determinada porcentagem de toda a renda — inclusive daquela que procedia do ministério de rádio e das correspondências. Kathryn hesitava. De algum modo, não parecia certo. Maloney ameaçava mover uma ação judicial. O palco estava armado para a hora da verdade. "Ele não é diferente do mágico Simão", Kathryn disse quando relatou que Maloney ameaçava processá-la para obter mais dinheiro. "Enquanto nossas ofertas eram normais, estava satisfeito. Agora que elas aumentaram, quer uma parcela maior. Deixe-o mover um processo. Veremos de que lado Deus está." Mas Maloney era extremamente inteligente para mover uma ação no começo. Ele simplesmente derrubou as placas que anunciavam os cultos de Kathryn Kuhlman e trancou as portas do tabernáculo. A despeito do fato de possuiu Kathryn um contrato que lhe permitia o uso exclusivo do prédio, ele ainda era o proprietário. Quando a notícia chegou a Kathryn de que suas placas estavam no chão e que alguns dos homens de Maloney montavam guarda nas portas para impedir a entrada de sua congregação, ela ficou furiosa. — Temos um contrato — ela disse com lábios cerrados para o pequeno grupo de homens que lhe havia dado a notícia. — Temos o direito legal de usar aquele prédio. Vamos ter um culto hoje à noite mesmo que tenhamos de arrombar as portas.

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O noroeste da Pensilvânia é uma área rural onde predomina a exploração de carvão, petróleo e ferro. Os homens que viviam ali foram os primeiros colarinhos-azuis — poloneses e irlandeses. Brigar era tão natural quanto comer. Na verdade, uma briga de punho nunca foi considerada imoral — a menos que alguém desistisse. Quando os seguidores de Kathryn perceberam que alguém estava tentando aproveitar-se de sua "pregadora", o sangue deles começou a ferver. — Só nos dê uma ordem, senhorita Kuhlman — disse um rapaz troncudo e musculoso. — Nós abriremos aquele prédio para você. Kathryn era mestre em lidar com homens. Ela podia ler seu espírito. Sabia quando ser áspera, quando ser uma administradora rígida, quando ser gentil e feminina, e quando bancar a impotente. — Ouçam, irmãos — ela disse —, uma mulher tem certas limitações. Agora se eu fosse um homem... — Não diga mais nada, senhorita — disse um homem com seus 60 e poucos anos, com uma grande barriga e braços à altura. — Só apareça no horário de sempre. Este prédio estará aberto. Kathryn ficou em seu apartamento até a hora de sair para a reunião — rindo e orando. Ela só queria poder estar lá para ver o que aconteceria. O que ocorreu foi uma briga de punho sangrenta, com o grupo de Kuhlman saindo vencedor sobre o grupo de Maloney. Na verdade, o grupo de Maloney fugiu depois de ver alguns de seus integrantes caírem no chão durante a briga. O grupo de Kuhlman então pegou pés-de-cabra e, enquanto a grande multidão de pessoas que se aglomeraram para ver a briga (e participar da reunião) instigava e balançava lenços, quebrou os cadeados nas portas. Eles contaram com uma grande multidão naquela noite, com um bando de introdutores orgulhosos que patrulharam o prédio durante o culto — não só à espera de milagres, mas de olhos bem abertos a fim de assegurar que o inimigo não se infiltraria na área. Kathryn então fez com que seus homens comprassem novos cadeados, fechassem as portas e se revezassem enquanto patrulhavam o prédio para impedir a entrada dos homens de Maloney. Maloney revidou por meio dos tribunais. Em 4 de junho de 1948, ele fez um depósito no valor de 500 dólares, e o juiz Lee McCracken emitiu um mandado preliminar que impedia Kathryn e seu pessoal de usufruírem do Gospel Tabernacle, em Franklin. No sábado, 5 de junho, as manchetes do Franklin News-Herald diziam: "Ação Judicial Movida Contra a Senhorita Kuhlman. Concedida a Ordem para Barrar a Evangelista no Templo". Kathryn estava de volta às primeiras páginas. O mandado ordenava que os acusados, ou seja, Kathryn Kuhlman e outros (entre os co-acusados, estava George Orr, de Butler), 80


entregassem as chaves dos novos cadeados a M. J. Maloney e consignatários do tabernáculo. Eles também foram intimados a não mais realizar cultos no prédio até que o tribunal pudesse estudar o caso e a dispensar seus "agentes que haviam ocupado, mediante a força, intimidações e ameaças, o interior do templo mencionado". — Obedeceremos à lei — disse Kathryn. — Usamos o prédio enquanto tínhamos um direito legal. Agora, até que os tribunais digam o contrário, ficaremos de fora. Mas vamos defender nossos direitos. E foi o que ela fez. Kathryn contratou dois importantes advogados de Pittsburgh, J. R. Heyison e Jason Richardson. Embora ela tenha dito uma vez que não moveria uma ação judicial para reivindicar seus direitos, neste caso ela moveu. Seus advogados entraram com uma ação exigindo que Maloney apresentasse um relatório contábil de todas as doações, dízimos e ofertas feitos ao tabernáculo e aos acusados desde 5 de fevereiro de 1940 até a presente data. Eles tinham a intenção de provar que ele não havia movido uma ação contra a senhorita Kuhlman antes do crescimento das ofertas. Os jornais continuaram a publicar o episódio nas primeiras páginas. Enquanto isso, mais de 2 mil pessoas que estavam com Kathryn se reuniram próximo ao Sugar Creek Auditorium e se comprometeram com mais 10 mil dólares para a construção de um novo tabernáculo em Franklin. A quantia não incluía os 2.500 dólares que já haviam sido doados para a compra de um novo órgão eletrônico Hammond. Uma nova comissão de consignatários foi eleita. Maloney usou uma página inteira do News-Herald para contar sua versão da história. Ele afirmou que seus registros mostravam que o templo havia pago US$ 60.680,32 à senhorita Kuhlman em "salários" pelos dois anos de suas ministrações. O restante das ofertas, afirmava, pertencia a ele. No julgamento seguinte, que muitas vezes foi interrompido por manifestações barulhentas, o advogado Richardson perguntou ao senhor Maloney se era verdade que ele havia pedido à senhorita Kuhlman 25% de todas as ofertas e que, quando ela não aceitou a proposta, ele trancou as portas. Maloney praguejou em voz alta e disse: "Não". Os ouvintes adoraram. Maloney então comprou mais um espaço no jornal para afirmar que a verdadeira razão por que ele havia trancado as portas a Kathryn era que ela — tendo enriquecido graças aos pobres de Franklin — iria mudarse para Pittsburgh. Ele disse, com muita propriedade, que Kathryn tinha um contrato que a obrigava a realizar uma série de reuniões no Carnegie Auditorium, no norte de Pittsburgh. Kathryn reagiu enviando um comunicado à imprensa. Uma vez que seu programa de rádio na região de Pittsburgh tinha recebido uma grande aceitação, ela se sentiu na obrigação de realizar uma série de 81


reuniões naquela região do dia 4 de julho ao dia 1º de agosto. Isso não significava que ela estivesse deixando Franklin. Na verdade, afirmou, ela estava ultimando projetos para um novo templo. Ela continuaria a realizar os cultos em Franklin mesmo que seu ministério principal estivesse em Pittsburgh. Prosseguiu dizendo que, enquanto em Franklin, havia recebido, pelo menos, 150 convites para se estabelecer em outro lugar, mas que, em vez disso, havia comprado uma casa grande cujo proprietário anterior era o advogado John L. Nesbit, na rua Liberty. A batalha ficou cada vez mais acirrada ao longo do mês de junho. Maloney agendou uma reunião no antigo tabernáculo, mas só 75 pessoas compareceram. O pessoal de Kathryn, por outro lado, comprou a antiga área de patinação do Sugar Creek, que ficava a cerca de 5 quilômetros de Franklin. Era uma boa construção, com um piso de madeira resistente. O maior problema era o teto. As vigas estavam velhas e pareciam podres. Mas os homens decidiram que as vigas podiam esperar e puseram-se a trabalhar para transformar o velho edifício em um templo. Só que, como já havia um tabernáculo em Franklin, eles denominaram o novo local de reuniões de "Templo da Fé". O número de assentos era quase o dobro do antigo tabernáculo e, já no primeiro culto, o templo ficou quase lotado — sobrando alguns espaços. Uma semana depois, alguém bateu à porta do apartamento de Kathryn. O delegado de polícia, à paisana, esperava no corredor. Ele se apresentou e perguntou se poderia entrar. — Nesta manhã, minha delegacia recebeu documentos que competem a mim entregar à senhora. É um pedido de divórcio feito no Arizona pelo senhor Burroughs A. Waltrip. A senhora é citada como ré. Kathryn ficou em silêncio, com a cabeça abaixada. O fantasma de seu passado reapareceu bem no momento em que tudo estava concorrendo a seu favor. O delegado estendeu a mão e tocou no braço de Kathryn. — Minha delegacia normalmente comunica os nomes de todos os processos de divórcio pelo jornal local. No entanto, venho participando de seus cultos e estou convencido de que Deus a enviou para este município marcado por crimes para cumprir um propósito especial. Esta é a razão por que estou entregando estes documentos pessoalmente. A não ser vocês dois, não há necessidade de ninguém saber o que aconteceu. Deus a abençoe em seu ministério entre nós. Estou à sua disposição. O delegado se virou para ir embora, quando Kathryn estendeu a mão e segurou o seu braço. Por um instante, seus olhos se encontraram. Ele sorriu, e ela balançou a cabeça. — Eu lhe serei grata pelo resto da vida — ela disse baixinho. Quase sete anos depois, um jornal em Akron, Ohio, descobriu o divórcio de Kathryn e publicou a notícia na primeira página. Mas, dessa 82


vez, o ministério de Kathryn estava tão bem estabelecido que nenhuma calúnia do passado poderia prejudicá-lo. Ela sabia, no entanto, que só um milagre poderia salvá-la se, em 1948, a história chegasse aos jornais em Franklin. Até a morte do delegado, vinte e três anos depois, Kathryn mandou flores para ele em seu aniversário. Ela nunca se esqueceu dele e do seu generoso gesto. Quando Kathryn mudou-se para Franklin, foi morar no quartinho do terceiro andar do Clube Empresarial de Mulheres. Não fazia muito tempo que ela havia conhecido duas mulheres que teriam uma grande influência em sua vida. Uma delas era Jesse Vincent, e a outra, Eve Conley. Ambas eram viúvas. Jesse trabalhava no banco, em Franklin, e Eve, cujo marido farmacêutico falecera havia pouco tempo, morava com ela. Nenhuma das duas era cristã, embora estivessem fascinadas com o ministério e a personalidade de Kathryn, participando da maior parte possível dos cultos no templo. Eve era uma grande cozinheira, e as duas decidiram convidar Kathryn para ir a sua casa no Dia de Ação de Graças de 1946. Após o jantar, Kathryn disse: — Vocês pensam que me trouxeram aqui, mas não foram vocês. Vim por causa de um convite muito maior do que o de duas mulheres maravilhosas. Deus enviou-me aqui para ministrar a vocês, e não vou me dar por satisfeita, a menos que vocês duas fiquem de joelhos, confessando seus pecados e pedindo para nascer de novo. — Fale-nos sobre seu Jesus — disse Eve, séria. Nos vinte minutos seguintes, Kathryn estudou a Bíblia com elas, mostrando as passagens que provavam que Jesus Cristo era o Messias prometido, o Filho de Deus. — Não há outro caminho para Deus — Kathryn disse baixinho — senão por meio de Cristo. Vocês estão prontas para entregar agora suas vidas a ele? Ambas balançaram a cabeça e pularam da cadeira para o chão acarpetado. Kathryn juntou-se a elas, de joelhos, e testemunhou enquanto elas entravam no reino de Deus. Logo depois disso, Kathryn foi morar com elas. Quando Jesse Vincent morreu, ela deixou seus bens para Kathryn, grande parte em jóias. Era o começo de uma grande coleção de jóias preciosas e antigüidades que, anos mais tarde, se tornariam o fundamento para outra manchete nos jornais. Muitas pessoas faziam a Kathryn grandes doações, ou pessoalmente ou em testamento. Uma senhora agradecida resumiu os sentimentos de milhares. "Eu teria pago tudo em despesas com médicos e hospital. Assim, já que fui curada nas reuniões de Kathryn, por que não fazer a doação a ela?". Era uma questão válida, mas isso não aliviou as acusações feitas contra a senhorita Kathryn ao longo dos anos por ela ser "abastada". Eve Conley continuou com Kathryn, trabalhando como sua 83


secretária e confidente pessoal, assistida por Susan Miller, que ainda dedicava parte do seu dia para ajudar com a correspondência. Durante essa época, Kathryn vinha se correspondendo regularmente com outra mulher, Maggie Hartner, que havia conhecido em Pittsburgh anos antes. Uma vez que trabalhava na companhia telefônica em Pittsburgh, Maggie podia fazer ligações interurbanas a uma taxa reduzida. Ela ligava quase todas as noites, encorajando Kathryn a voltar a Pittsburgh a fim de realizar outra série de reuniões. — Todas as pessoas que conheço ouvem você na WPGH — disse Maggie. — Tudo o que você teria de fazer é anunciar que realizaria um culto, e o local ficaria lotado. Kathryn finalmente cedeu. Foi examinar o Carnegie Hall. O senhor Buffington, o zelador, mostrou-lhe o prédio. — Olhe — Kathryn disse —, eu gostaria de muitas cadeiras aqui na plataforma. Este lugar vai encher logo. — Ih, senhorita Kuhlman, nunca enchemos este auditório — disse o zelador. — Nem as estrelas da ópera conseguem enchê-lo. — Bem, quero a plataforma cheia de cadeiras — ela disse, virandose para sair pela porta. Ela deu meia-volta e olhou para o zelador. — Ah, Deus o ama! Você está preocupado comigo, não está? Bem, espere e verá. Vamos ter o maior e melhor culto que este prédio jamais viu. Kathryn estava certa. O primeiro culto foi na tarde de 4 de julho de 1948. O prédio estava tão cheio que ela teve de realizar outro culto naquela mesma noite, que também chegou à sua capacidade. Desde o começo, houve milagres. O jornal de Pittsburgh publicou uma página inteira com a reportagem, incluindo um esboço feito por um artista do que Kathryn agora chamava seus cultos de milagres. O repórter disse: A senhorita Kuhlman não vem de uma igreja reconhecida; alega ser uma mensageira da doutrina da fé em Deus. Contudo, noite após noite, ela enche o Carnegie Music Hall. Centenas de pessoas enchem os corredores externos para ouvir alguns fragmentos de suas palavras, enquanto outras centenas foram embora [... ]. Ela é a combinação de uma oradora e uma atriz; uma cantora e uma evangelista [... ]. Quando os hinos são cantados, sua voz se destaca e fica nítida entre a multidão... Desde sua associação com Helen Gulliford, a música desempenhou um importante papel no ministério de Kathryn. Logo depois de vir para Franklin, ela entrou em contato com Jimmy Miller, que tocava piano para Jack Munyon em Pittsburgh. Ansioso, Miller aceitou a proposta de Kathryn para ser seu pianista. Mais tarde, o organista de Munyon, Charles Beebee, também juntou-se a ela. Ambos estavam nos instrumentos quando ela veio a Pittsburgh pela primeira vez em 1948 — e ambos continuaram ao seu lado até sua morte. 84


Kathryn expandiu seu ministério de rádio depois de voltar para Franklin, transmitindo seus programas de meia hora para Ohio, Virgínia, Maryland e Washington, D. C. Os cultos no Templo da Fé continuaram diariamente, mas, por causa da expansão do ministério, Kathryn começou a realizar cultos em muitas das cidades vizinhas: New Castle, Butler, Beaver Falls e no Stambaugh Auditorium, em Youngstown, Ohio. Entretanto, cada vez mais, Kathryn era atraída para Pittsburgh, realizando regularmente cultos no Carnegie Hall. Os milagres continuaram a acontecer. Paul R. Gunn, um jovem policial de Pittsburgh, foi levado para um hospital local no dia 28 de setembro de 1949 com pneumonia viral. Uma dor no pulmão foi diagnosticada como câncer após uma broncoscopia e exames de saliva e raio X. Em outubro, ele começou a freqüentar os cultos no Carnegie Hall. No quarto culto, disse que sentiu como se um fósforo tivesse tocado fogo em um pedaço de papel dentro de seu peito. Em dezembro, o médico que o acompanhava liberou-o para trabalhar, e ele voltou ao trabalho em janeiro de 1950. James W. McCutcheon foi outro milagre. Três anos antes, ele estava em pé em uma viga quando esta foi atingida por uma escavadora em Lorain, Ohio. Ele foi lançado ao chão, e a junta de seu quadril foi esmagada. Fez cinco cirurgias sem sucesso. A última, um enxerto ósseo, foi igualmente frustrada. Os médicos recomendaram ainda outra cirurgia. McCutcheon estava de muletas quando entrou no Carnegie Hall em 5 de novembro de 1949. Sua filha, sentada ao seu lado com a mão no joelho do pai, mais tarde disse que sentiu passar pelo seu braço algo como uma corrente elétrica que saía da perna do pai durante a pregação da senhorita Kuhlman. Ele se levantou de onde estava sentado e saiu andando sem o apoio de suas muletas. A cura foi instantânea. Os jornais de Pittsburgh reportaram muitos desses milagres. E, embora tivessem muito a dizer sobre aqueles que não eram curados, eles, na maioria dos casos, reportavam os milagres também. "A cada noite, alguns iam além do mundo físico que conheciam", escreveu um repórter para o Pittsburgh Press. "Na sexta — a noite da cura —, havia uma jovem de Canton, Ohio, que fora ali para orar pedindo alívio para uma terrível separação. Ela foi até o púlpito e ajoelhou-se ao lado do órgão para orar em gratidão. "Um garotinho de 5 anos, que diziam ser aleijado de nascença, desceu cambaleando pelo corredor com as próprias pernas e ergueu os braços para que a senhorita Kuhlman visse. "Uma mulher que dizia estar em uma cadeira de rodas havia doze anos foi andando até o púlpito e chorou diante de todos ao microfone. Seu marido estava ao seu lado, com lágrimas descendo pelo rosto...

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"Para cada um que havia declarado uma cura, muitos outros saíam desfalecidos em direção à escuridão, tão infelizes e desconsolados como quando haviam chegado. Mas a maioria voltará." Um que continuou a voltar — por cinco meses antes de receber a cura — foi Charles C. Loesch. Ferido em um acidente havia quatorze anos, seu sacroilíaco havia calcificado, levando-o a andar em uma posição curvada, inclinado para a frente do quadril de um modo estranho. Uma de suas pernas era quase 8 centímetros mais curta do que a outra, por isso ele tinha de usar um sapato especial com uma sola embutida. Ele sofria uma constante dor desde o acidente. Os filhos do senhor Loesch incentivaram-no a freqüentar os cultos de milagres em Pittsburgh e em Franklin. Nada aconteceu ao seu corpo, mas, ao voltar para casa do primeiro culto, ele virou na pia toda bebida alcoólica e jogou fora seus cigarros — nunca mais voltou a beber ou a fumar. Entretanto, continuou a voltar aos cultos de milagres. Quanto mais ele ia, mais se esquecia de seus próprios problemas, concentrando suas orações naqueles que estavam piores do que ele. Então, em uma tarde, no Templo da Fé, sentado com um grande grupo de homens no púlpito enquanto a senhorita Kuhlman pregava, sua perna começou a tremer. O tremor fazia seu calcanhar bater no chão como um martelo automático. A senhorita Kuhlman parou de pregar no mesmo instante e se virou. — O que é isso? — ela perguntou em voz alta. Envergonhado, Loesch só pôde curvar-se para segurar sua perna que tremia desenfreadamente, tentando impedi-la de bater no chão. — O senhor está sendo curado — exclamou a senhorita Kuhlman. Então, voltando para a platéia, ela disse: — O poder de Deus está naquele homem. Era de fato o poder de Deus. Após o culto, Loesch descobriu que sua perna havia crescido, e que suas costas estavam soltas e flexíveis. Era o começo de uma lealdade de vinte oito anos à senhorita Kuhlman, na qual ele abriria mão de tudo para segui-la, tornando-se seu mantenedor, motorista e ajudante geral. Durante a semana, Kathryn e Eve Conley ficavam no Pick Roosevelt Hotel, em Pittsburgh. Elas voltavam a Franklin para os cultos de domingo. Maggie Hartner, que agora passava dois dias da semana trabalhando para Kathryn (ela tinha emprego na companhia telefônica), continuou a pressionar, implorando que Kathryn se mudasse para Pittsburgh. — Não posso, Maggie — Kathryn respondeu. — Simplesmente não posso. Você não entende. Estas pessoas compreenderam-me, amaram-me e aceitaram-me quando nenhuma outra pessoa no mundo me queria. 86


Devo a elas minha vida. O teto do Templo da Fé teria, literalmente, de desabar para que eu cresse que essa seria a vontade de Deus. Na última semana de novembro de 1950, o oeste da Pensilvânia sofreu a maior nevasca de sua história — mais de 1 metro de neve em três dias. Um grande culto de ação de graças estava planejado no Templo da Fé. O congestionamento chegava a centenas de quilômetros. Mas, mesmo que as estradas estivessem livres, não haveria culto algum. O peso acumulado da neve sobre o teto do antigo prédio foi excessivo para as vigas apodrecidas. No Dia de Ação de Graças de 1950, o teto do Templo da Fé desabou. Três semanas depois, Kathryn comprou uma casa em Fox Chapel, um subúrbio de Pittsburgh. Essa seria a sua casa até o dia de sua morte.

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Capítulo 8 Tendas e Templos A tendência de Kathryn de provocar controvérsias acompanhou-a até Pittsburgh. No início da primavera de 1951, suas reuniões no Carnegie Hall estavam sendo atacadas por pastores enfurecidos e líderes eclesiásticos que diziam que ela estava "roubando ovelhas'' das igrejas locais. Kathryn reagiu dizendo que não estava roubando ovelhas, mas alimentando cordeiros que estavam morrendo de fome. Isso deixou os ministros ainda mais determinados a lidar com sua "rival". Eles foram ao gabinete do prefeito para reclamar de que, como Kathryn vinha realizando reuniões no auditório municipal todas as noites havia mais de seis meses, tinha de fato transformado a propriedade mantida pelos impostos que eles pagavam em uma igreja. Mas o prefeito de Pittsburgh, David Lawrence (que, mais tarde, foi eleito governador do estado), veio a ser um dos amigos e mantenedores mais leais de Kathryn. Católico romano, deu instruções para que Kathryn permanecesse no Carnegie Auditorium até quando quisesse. Ela ficou ali por vinte anos. Mas, nesse ínterim, a controvérsia ficou mais acirrada. A revista feminina Redbook designou a repórter de Pittsburgh, Emily Gardner Neal (que depois ajudou a escrever o livro Eu creio em milagres, da senhorita Kuhlman), para averiguar a situação. A história decorrente pôs Kathryn no caminho da notoriedade por todo o país. Em um prefácio inédito do editor para a história de sete páginas, a Redbook disse: A maravilhosa história de Kathryn Kuhlman foi algo que os editores da Redbook abordaram com muitas dúvidas. Nenhuma dúvida relativa à "cura pela fé" de algum tipo, todavia, poderia ofuscar o fato de que coisas surpreendentes estavam acontecendo nos cultos evangelísticos da senhorita Kuhlman em Pittsburgh. Por quatro meses, escritores e pesquisadores investigaram os restabelecimentos e curas. Se os investigadores da Redbook erraram, foi pelo lado do ceticismo. Mas, à medida que eles questionaram e examinaram, a incredulidade original do editor cedeu a uma convicção de que era preciso publicar os fatos... Sem dúvida, foi difícil obter declarações de médicos. Embora um médico não faça objeção a descrever o progresso de um paciente sob tais circunstâncias, normalmente se recusa a atestar a cura pela fé por consideração à cautela da profissão médica... 88


A revista Redbook tem em seu poder os seguintes documentos confidenciais: vinte atestados de pessoas que declararam ter sido curadas; quatro declarações de eclesiásticos que apóiam o ministério de Kathryn Kuhlman; duas cartas de funcionários públicos; quatro cartas de indenização de operários; duas declarações de homens em campos ligados ao trabalho médico e seis exames médicos e radiográficos. C. M. Clark, especialista em audiofonia de Pittsburgh, afirmou em uma carta: "De fato, vimos a milagrosa cura operada por Deus em uma surda-muda que repetiu as palavras usando gestos labiais e sons guturais e nasais que ela nunca havia experimentado". Esta revista, por conseguinte, chama a atenção dos leitores para esta reportagem, cuja integridade foi checada de todas as formas possíveis, convencida de que as pessoas que têm fé, ou esperança, encontrarão aqui uma mensagem de profundo significado interior. A despeito da declaração da Redbook de que poderia provar que muitos dos que freqüentavam os cultos de milagres haviam sido curados, os críticos de Kathryn contestaram ainda mais. Pela primeira vez em sua carreira, a teologia de Kathryn, e não a sua pessoa, estava sendo atacada. Era uma guerra totalmente diferente. A investida mais maldosa aconteceu no verão de 1952. A convite de Rex e Maude Aimee Humbard, uma família de evangelistas itinerantes de Arkansas, Kathryn foi a Akron, Ohio, para uma série de reuniões no grande templo erigido pela família Humbard na Triplett Boulevard, próximo ao aeroporto de Akron. Os Humbards eram bem conhecidos em Ohio, embora seu ministério fosse itinerante. Com Rex e sua esposa, estavam o pai e a mãe Humbard, que vinham pregando há mais de quarenta anos, e o irmão de Rex, Clement. Kathryn, sem dúvida, já era famosa em toda a região por causa de seus abrangentes programas de rádio e dos grandes cultos que vinha realizando diariamente no Stambaugh Auditorium, na cidade vizinha de Youngstown. O que Kathryn não sabia é que ela havia invadido a toca do mais famoso pregador fundamentalista do Norte, Dallas Billington, do Templo Batista de 1 milhão de dólares de Akron. Billington havia sido ordenado ministro batista em uma pequena igreja em Murray, Kentucky, em 1924. Logo depois, o fervoroso pregador, em conluio com vários outros ministros batistas — incluindo John R. Rice e J. Frank Norris da Primeira Igreja Batista de Ft. Worth, Texas — começaram um destrutivo ataque à Convenção Batista do Sul, dizendo que ela se tornara liberal. Uma vez que o ataque ficou mais feroz, alguns pastores deixaram essa convenção e formaram uma livre aliança de igrejas batistas independentes cujo principal objetivo parecia consistir em atacar liberais, católicos, os que curavam pela fé e pastoras. Na verdade, um dos livros mais conhecidos que circulavam na época foi escrito por John R. Rice, intitulado Bobbed 89


hair, bossy wives and women preachers [Cabelos curtos, esposas mandonas e mulheres pregadoras]. A Billington, um ex-operário que nunca pôde ser acusado de fugir de uma briga, foi concedido um diploma teológico — Doutor em Bibliologia — pela Primeira Igreja Batista de Ft. Worth, Texas. Ele se mudou para Akron em 1925 a fim de estabelecer o Templo Batista de Akron. Durante vinte e sete anos, formou uma dinastia sobre a qual reinava como monarca absoluto na próspera cidade da borracha. A chegada do grande templo da família Humbard, que comportava mais de 15 mil assentos e, ao mesmo tempo, acolhia "aquela mulher que curava pela fé", Kathryn Kuhlman, era o mesmo que balançar uma bandeira vermelha diante de um touro furioso. Kathryn estava metida na briga de sua vida. Dessa vez, ela não estava enfrentando um medíocre M. J. Maloney, mas o mestre da tacada, Dallas Billington. Billington não perdeu tempo para sair de sua toca. Ele tinha a intenção de tirar Kathryn de cena. Esperava com um golpe só livrar-se dela e dos Humbards. Como Casey, ele, por fim, tomou seu rumo, mas não antes de desferir muitos golpes impactantes, que deixaram todos em Akron abatidos. No domingo, 10 de agosto de 1952, Kathryn fez sua primeira pregação, falando para mais de 15 mil pessoas, que lotaram o grande templo. Muitos chegaram antes das 5 horas naquela manhã a fim de conseguir lugar para o culto das 9 horas, que passou do meio-dia. No dia 15 de agosto, Billington revidou. Em uma matéria publicada e estampada na primeira página do Beacon Journal de Akron, o bombástico pregador oferecia 5 mil dólares a quem — homem ou mulher — provasse que havia curado alguém por meio da oração. "Fiz minha oferta para enfatizar minha convicção de que não há fraude maior nos Estados Unidos, seja no jóquei, na corrida de cachorros ou no jogo do bicho, do que os assim chamados curandeiros divinos de nossos dias. Tenho uma classe de surdos-mudos em minha congregação, e, se Kathryn Kuhlman aparecer no templo no domingo e os fizer ouvir e desprender a língua deles para que possam falar, a deixarei realizar um culto em meu templo todo mês, durante o ano todo, de graça. " Billington, que publicamente acusou Kathryn de ter sido treinada segundo os escritos de Aimee Semple McPherson, afirmou: "Não se acha em nenhum lugar o poder da cura divina concedido para ser ministrado por alguma mulher. As mulheres têm seu lugar por direito, mas colocar uma no púlpito é antibíblico". Billington estava seguindo a linha expressamente fundamentalista, uma linha que ele mesmo havia ajudado a popularizar, como um dos pregadores mais poderosos e bem-sucedidos de sua época. Nunca houve nenhuma indicação de que ele estivesse atacando a pessoa de Kathryn, embora, depois, tenha subido no púlpito e "exposto" Kathryn como uma mulher divorciada. Ele sentia que tinha um direito divino de 90


advertir as ovelhas de que havia um lobo à espreita nos arredores da cidade. Kathryn, lembrando-se de suas vitórias em Franklin, entusiasmada com o sucesso de seu ministério em Pittsburgh e em Youngstown, e, incentivada pelos milhares que se levantavam para sustentá-la, animou-se e "mandou fogo". "Estou por aqui há sete anos e acho que minha vida e ministério falam por si sós", disse ao jornal. "Em nenhum momento ou lugar, fiz uma declaração dizendo que já havia curado alguém. É o poder de Deus que faz isso. Siga em frente e publique o que o dr. Billington disser. Ele vai dividir sua igreja à vista de todos. " A resposta foi instantânea. O departamento de distribuição do jornal reportou que a demanda por jornais extras só ficou atrás dos pedidos anuais que chegaram de todas as partes do país na época do Soap Box Derby 2 — um evento anual pelo qual a cidade de Akron é famosa. Cartas de milhares de leitores chegavam à redação do jornal e ao escritório de Kathryn no Carlton House, em Pittsburgh. Rex Humbard, que jamais esperara aquele tipo de batalha de alguém a quem considerava um "irmão no Senhor", estava espantado com o acontecimento. Ele chamou Kathryn para liberá-la do compromisso de pregar no domingo seguinte, se assim o desejasse. — Ninguém gosta menos de expor nossa roupa suja em público do que eu — ela disse. — Vamos agüentar firme. Estarei lá no domingo de manhã quando o relógio soar. Não só Kathryn estava lá no domingo, como também mais de 20 mil pessoas para ouvi-la. Sem querer, Billington havia dado a Kathryn e aos Humbards mais publicidade do que o dinheiro que eles tinham para pagá-la. De volta a Pittsburgh, Kathryn começou a preparar sua defesa. Maggie Hartner, agora trabalhando em tempo integral, estava sendo auxiliada por duas irmãs, Maryon Marsh e Ruth Fisher. Como muitas outras, Ruth e Maryon eram cristãs sem muita convicção quando participaram de seu primeiro culto de milagres em 1950. Entretanto, depois de Ruth ser curada de uma grave enfermidade na coluna que a fazia entrar e sair de hospitais durante a metade de sua vida, as duas tornaram-se firmes — com Deus e com o ministério de Kuhlman. Ruth começou a ajudar Maggie a ministrar entre as pessoas durante os cultos de milagres, e Maryon foi trabalhar no escritório como datilografa (Ruth, mais tarde, juntou-se a ela como membro da equipe). Além dos cultos de domingo em Akron, Kathryn estava realizando cultos alternados de milagres em New Castle, Youngstown e Butler, além de um estudo bíblico regular nas terças-feiras à noite em Pittsburgh e seu 2

Soap Box Derby — Corrida de carros criada em 1946, na cidade de Mission (N. T. ).

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grande culto de milagres, toda terça-feira, no Carnegie Hall. Ruth e Maryon eram musicistas e perceberam a necessidade de ter um coro durante os cultos. Ambas organizaram um conjunto de mulheres solteiras no porão da casa de Ruth e se apresentaram em alguns cultos. Vendo a necessidade de um coro, Kathryn então entrou em contato com o dr. Arthur Metcalfe, o distinto dirigente do Coro Mendelssohn, em Pittsburgh. Ela o convenceu a acompanhá-la como dirigente de seu coro. Foi uma das melhores coisas que fez. O dr. Metcalfe dedicou mais de vinte e três anos ao ministério antes de morrer de um infarto um ano antes da morte de Kathryn. Outro membro da "equipe de Pittsburgh" de Kathryn era seu contador, Walter Adamack. Já quase na idade de se aposentar, Adamack era, em muitos sentidos, como o pai de Kathryn. Ele desconfiava de pregadores e instituições religiosas. Quando ouviu falar do ataque de Billington contra Kathryn, ele soube que havia se colocado do lado certo. Era um guerreiro e não usava meias-palavras quando alguém atacava aqueles a quem era leal. Ele representava grande parte daquilo a que Billington se opunha. Kathryn gostava dele. Ela gostava dele porque ele era sincero e ousado. Ele passou a ser o guardião das finanças de Kathryn. Mais tarde, a ajudou a criar sua fundação e várias empresas paralelas. Era um dos amigos e conselheiros mais confiáveis de Kathryn — e um precioso auxílio quando ela entrou na briga com Billington. Assim, fortalecida por uma boa equipe e milhares de amigos que escreviam cartas e telefonavam, Kathryn preparou-se para o próximo round da batalha entre a tenda e o templo. De volta a Akron para o culto de domingo, Kathryn levou consigo muitas pessoas, todas voluntárias, para dar testemunho de curas físicas. Duas delas, ela disse aos repórteres que se amontoavam em volta do púlpito antes do culto, conheciam muito bem os testes de cura do dr. Billington. Seus nomes eram Jacob Hess e sua esposa, Sarah, ambos com 66 anos de idade, surdos-mudos de nascença. A audição da senhora Hess havia sido parcialmente restaurada, e ela podia falar, embora não de forma articulada. O senhor Hess estava começando a articular ruídos. Por intermédio da filha de 13 anos, que agia como intérprete diante da multidão que, mais uma vez, ultrapassava a marca de 20 mil, o casal declarou que Deus os havia curado em um culto de milagres em Pittsburgh. A senhora Margaret Richardson, uma amiga de 70 anos do casal, disse que havia crescido com eles e que poderia testificar a antiga condição e a cura dos dois. O outro caso de Kathryn era Priscilla Boyco, uma mulher de 38 anos que trabalhava em um escritório, que disse que era aleijada de nascença. Afirmou que havia sido examinada pela equipe de um hospital de Pittsburgh e agora estava andando normalmente. Então, depois de pedir à grande congregação que desse as mãos enquanto os conduzia em uma oração especial por Billington, Kathryn 92


disse que estava pedindo ao pastor que "colocasse seu dinheiro onde estava sua boca". Sua proposta era que Billington depositasse os 5 mil dólares na conta especial de um terceiro e que um conselho imparcial de pastores e leigos fosse apontado para decidir o caso com base na evidência. Se vencesse, ela doaria o dinheiro ao Fundo Unido de Akron. Billington, por outro lado, fez algumas contrapropostas. Retirando algumas das declarações mais fortes que fizera no início, disse que queria que as pessoas de Akron soubessem que ele cria na cura divina. Era com os curandeiros divinos que ele não concordava. Conseqüentemente, insistiu dizendo que Kathryn tinha de fazer uma declaração sob juramento de que as curas aconteciam especificamente por causa de suas orações. Kathryn nunca havia declarado que suas orações curavam. Então, quando a discussão estava prestes a chegar no limite, apareceu uma história na primeira página do jornal de Akron revelando que uma equipe de repórteres havia pesquisado o passado de Kathryn e descoberto que ela havia se casado com um evangelista divorciado havia muitos anos. Kathryn explodiu. Aquilo não era jogar limpo. Por quase sete anos, ela havia se livrado daquele antigo escândalo, mas ali estava ele, levantando sua cabeça horrível novamente quando ela achava que havia tido uma vitória. Quando Robert Hoyt, do Beacon Journal de Akron, a entrevistou, ela negou ter sido casada. — Nunca fomos casados. Nunca fiz os votos do matrimônio — ela disse com os olhos piscando. — Você sabe o que aconteceu? Eu lhe direi. Eu desmaiei — perdi totalmente a consciência — pouco antes de fazer os votos. Balançando o dedo rente o rosto do jovem repórter, ela gritou: — Esta é a verdade, que Deus me ajude. — Temos uma cópia de seu requerimento de casamento — Hoyt insistiu. — Se assinei o requerimento de uma certidão de casamento é porque me pediram que o assinasse. Não me lembro de ter assinado nada. Além disso, não acredito que faria alguma diferença o fato de eu ter sido casada ou não. E isso é tudo o que tenho a dizer. Era muito triste o fato de Kathryn e Billington trazerem sua briga a público, para total alegria de todo o mundo não-cristão. Contudo, infinitamente pior era o fato de a batalha não ter limites éticos. Ela passara agora a ser um problema de ordem pessoal, contra a pessoa de Kathryn. Aquela velha sombra de seu passado, que ela queria tão

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desesperadamente deixar para trás, continuava a reaparecer para atormentá-la. Anos mais tarde, Kathryn contou-me uma pequena história que ajuda a explicar, de certo modo, por que havia negado, com tanta veemência, seu casamento com Waltrip. Muito tempo atrás, ela havia decidido, ao que parecia, que a melhor maneira de encarar uma situação desagradável era simplesmente fingir que ela não existia — e seguir em frente. "Eu estava pregando em uma pequena igreja em Nova Jersey", ela disse, "e me encontrava na casa de um dos membros da igreja. Lembrome muito bem disso porque era a semana da eleição em que Franklin Roosevelt concorria ao seu terceiro mandato como presidente [1940]. "A senhora Arma, minha anfitriã, tinha uma amiga íntima que era muitos anos mais velha que ela. Ela era uma mulher grande e distinta, totalmente contrária à reeleição do senhor Roosevelt para um terceiro mandato. Juntamente com uma amiga, estavam envolvidas em uma campanha para tentar detê-lo. Seu marido era um homem abastado, e ela havia investido milhares de dólares nessa campanha. "Na noite da eleição, ela estava completamente esgotada por causa da pressão psicológica e do esforço físico. Eram quase 19 horas quando seu marido disse: 'Vá para a cama. Quando os últimos resultados aparecerem, eu chamo você'. "Ela se recolheu, confiante de que Roosevelt seria derrotado e que acordaria para fazer uma grande comemoração. "Roosevelt venceu com uma vitória esmagadora. O telefone tocou na casa da senhora Anna; era o marido da mulher, que ainda estava dormindo. Ele disse: 'Anna. Venha aqui logo. Roosevelt venceu, e, quando eu disser isso a minha esposa, ela morrerá. Ela terá um infarto e morrerá. Venha logo e ajude-me a contar isso a ela'. "A senhora Anna disse: 'Kathryn, volto logo. Mas não sei quanto tempo isso levará'. "Minha anfritriã mais tarde me contou o que aconteceu. Eram 2 horas quando ela entrou na sala, andando na ponta dos pés, com sais aromáticos. Havia tomado todas as precauções para evitar que a senhora idosa tivesse um colapso. "Ela acordou e viu Anna ao seu lado. Anna? O que aconteceu? Nós vencemos?' "A senhora Anna, com os sais aromáticos na mão, aproximou-se da velha amiga e disse: 'Sinto muito, mas o senhor Roosevelt cumprirá seu terceiro mandato'.

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"A distinta senhora sentou-se na cama. Com a cabeça erguida e o nariz mais empinado do que nunca, ela disse: 'Anna! Anna! Vamos agir como se isso nunca tivesse acontecido'. "E, até o dia de sua morte, ela nunca mais discutiu o assunto com ninguém. Nunca reconheceu o fato de que Roosevelt estava no poder. Simplesmente agia como se isso nunca tivesse acontecido. Seu coração continuou a bater direitinho, e nem um nervo de seu corpo foi afetado. " Kathryn concluiu a história e então, inclinando-se em minha direção, expressou seu ponto de vista: — Esta é uma das maiores lições que já aprendi. Não se passa uma semana, acredite, que não me aconteça algo que me deixe extremamente preocupada. Posso ficar em frangalhos. Lidar com vidas humanas é o trabalho mais difícil do mundo. Acredite! Mas, muitas vezes, tenho feito o que aquela distinta senhora fez. Digo a mim mesma: "Kathryn, aja como se isso nunca tivesse acontecido". É a melhor maneira de aceitar a dor e a frustração. Com certa percepção, pude entender, de algum modo, por que Kathryn se sentia absolvida ao fingir que nunca havia sido casada — e simular ser mais jovem do que realmente era. (Ela também disse aos repórteres de Akron que tinha seus 30 e poucos anos quando, na verdade, já comemorava seus 40 ou 50 anos. ) De certo modo, para ela, consideravase como tendo seus 30 anos. E, de algum modo, usando a mesma lógica, ela nunca fora casada. Como a amiga da senhora Anna, simplesmente agia como se isso nunca tivesse acontecido. Ainda que Billington tivesse mencionado o divórcio de Kathryn do púlpito, ele não se estendeu nesta questão. Para seu crédito, não fazia um jogo sujo. Ele achava que estava certo e que poderia vencer a batalha sem usar de golpe baixo. No dia 28 de agosto, ele estipulou a última sexta-feira para sua oferta de 5 mil dólares para alguém que pudesse provar que eram as orações de Kathryn que curavam. "Depois do meio-dia, na sexta-feira, 29 de agosto, retiro a oferta e deixo o caso para que o público decida quem tem sido honesto e quem tem sido o impostor na questão da cura divina", disse ele, em uma entrevista à imprensa. Kathryn percebeu que as regras do jogo, de algum modo, haviam mudado. Ela nunca declarou que suas orações curavam. Tudo o que fez foi relatar o que o Espírito Santo estava fazendo em suas reuniões. Ela conversou sobre a questão com os Humbards e decidiu que não tinha outra escolha senão seguir em frente e lançar mão de seu melhor recurso. Na sexta-feira, 29 de agosto, às llh05, pôs uma fita, gravada pela senhora Hess, para rodar na emissora de rádio WCUE, em Akron. Bill Burns, da rádio KQV, em Pittsburgh, realizava a entrevista com a senhora Hess. A idosa senhora testificou que era muda até 1948, quando começou 95


a freqüentar os cultos realizados pela senhorita Kuhlman. Após o terceiro culto de milagres, ela percebeu que podia ouvir e falar. Ao mesmo tempo, Maggie Hartner estava ocupada em Pittsburgh. Ela foi ao escritório do dr. B. E. Nickles para buscar uma carta escrita à mão, endereçada a Robert Hoyt, do Beacon Journal, de Akron, na qual dizia que a senhorita Priscilla Boyko era aleijada de nascença, passara por uma série de cirurgias ao longo dos anos e andava com um sapato mais alto até ter recebido a cura em um dos cultos de milagres de Kathryn. O médico disse que ele examinava a senhorita Boyko de vez em quando, desde o dia 9 de setembro de 1950, mas que nunca havia tratado do problema "por causa da impossibilidade física de tratar a perna, com seus constantes espasmos musculares involuntários, que deixavam a paciente em um estado muito debilitado. Entretanto", ele disse, "vi sua perna, que não movia pé, tornozelo, joelho, começar a ter movimento. Sua circulação no pé e na perna aumentou consideravelmente". Por motivos profissionais, o dr. Nickles pediu que seu nome não fosse mencionado no jornal, mas concordou em ratificar suas declarações pessoalmente, se necessário. Maggie entregou em mãos a carta ao jornal de Akron antes do prazo final de meio-dia do dr. Billington. No dia seguinte, Billington declarou que Kathryn não havia se apresentado. Em um artigo na primeira página, ele disse: "A senhora Kuhlman (ele insistia em chamá-la de senhora Kuhlman) provou, conclusivamente, ao deixar de pegar os 5 mil dólares, que havia assumido o papel de uma curandeira divina. Estipulei um prazo final para minha oferta só para desafiá-la a vir a público". O pastor concluiu que ele havia cumprido seu objetivo e que agora estava retirando sua oferta. "Eu me dispus a provar para o público que os curandeiros divinos são mais mafiosos do que os bicheiros. " Ninguém venceu. Billington saiu de campo, e Kathryn ficou desgastada. Foi, como sempre acontece quando os cristãos tentam resolver questões espirituais diante de um público de incrédulos, um fiasco. "Eu não queria o dinheiro", Kathryn disse a Rex Humbard. Apenas queria convencer o dr. Billington de que o evangelho que ele declara pregar é verdadeiro e que o Deus que ele declara amar é um Deus de milagres e de maravilhas. " Na semana seguinte, percebendo a futilidade do que havia tentado fazer, Kathryn tentou reparar o erro cometido. No domingo à tarde, ela fez uma visita especial ao Templo Batista de Akron e à casa do dr. Billington, na tentativa de encontrá-lo e expressar seu amor e arrependimento pelo que havia acontecido. Ele não estava disponível para vê-la.

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"Pelo que sei, nunca houve ressentimento pessoal entre mim e o dr. Billington", ela disse. "Ele me desafiou, e tudo o que fiz foi defender meu ministério". Em uma entrevista à imprensa pelo telefone, ela disse a John Waters, do jornal de Akron, o seguinte: "Tudo isso nunca deveria ter acontecido. Agora é ridículo. Para um homem ou mulher alicerçados na fé, isso é uma boa lição. Mas, para aqueles que são fracos na fé, receio que isso possa levá-los a perdê-la e ser condenados eternamente. É anticristão o fato de duas pessoas que se declaram ministros do evangelho, que pregam a mesma Bíblia, que crêem em Jesus Cristo como o Filho do Deus vivo, comportarem-se do modo como esta questão foi conduzida". Quando Waters perguntou a Kathryn por que ela aceitara a oferta de Billington, ela hesitou e então disse: "Reluto em expor o assunto novamente, uma vez que já causamos tanto mal. Mas, em resposta à sua pergunta, tive de aceitar aquele desafio por não ser só Kathryn Kuhlman que estava sendo desafiada, mas milhares de cristãos e igrejas denominacionais que crêem e praticam a cura divina. Se eu não aceitasse o desafio, o dr. Billington teria dito que eu era uma charlatã e que não poderia apresentar nenhuma evidência de cura". Então ela deu seu golpe de misericórdia: "Sabe, os mesmos milagres que aconteceram em meus cultos aconteceriam nos do dr. Billington se ele incutisse fé no coração das pessoas". A despeito de todos os erros de Kathryn ao longo da desastrosa batalha, sua conclusão continua inquestionável. Naquele domingo, mais de 400 pessoas responderam ao apelo no templo da família Humbard, declarando que queriam entregar a vida a Cristo. Quatro vieram à frente no Templo Batista de Akron. Entretanto, nem tudo estava perdido. Uma das observações de Billington que tocaram em um ponto fraco foram suas críticas à família Humbard. "Tenho observado que todos os curandeiros divinos trabalham longe de casa e nunca estabelecem um trabalho permanente em lugar algum". Rex e Maude Aimee Humbard decidiram ficar em Akron, fundando o Templo do Calvário e, mais tarde, a Catedral do Amanhã. Reconhecendo o poder que o Espírito Santo tem de curar e salvar, sua igreja cresceu e se tornou uma das maiores e mais dinâmicas de todo o mundo.

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Capítulo 9 Por Trás das Portas Fechadas Poucas personalidades públicas conseguiram manter em segredo seus negócios tão bem quanto Kathryn Kuhlman, embora afirmando com tanta graça que sua vida era um livro aberto. "Respondo a todas as perguntas que me são feitas", ela dizia. "Não acredito que exista ninguém no campo religioso hoje que seja mais transparente ao responder perguntas do que eu. Eu abro a minha alma para vocês." Contudo, quando lhe perguntavam sobre sua idade, sua saúde, sua vida devocional particular ou sua riqueza pessoal, ela ria e respondia: "Todos me conhecem. Sabem tudo a meu respeito. Entro em um táxi, e o motorista me diz: 'A senhora não é Kathryn Kuhlman? Minha esposa e eu assistimos ao seu programa todas as semanas'. Na semana passada, o comandante do avião foi até onde eu estava sentada só para me dizer que sua esposa havia sido curada em uma de nossas reuniões no santuário. Não tenho segredos. Todos me conhecem". E, com isso, quem fazia a pergunta sorria, balançava a cabeça e seguia seu caminho. E só muito tempo depois, quando parava para examinar o que Kathryn havia dito, era que descobria que ela intencionalmente não havia dito nada — e ainda assim feito a pessoa se sentir um rei. No final, no entanto, ficou óbvio que, embora o mundo inteiro a conhecesse, poucos sabiam de algum fato sobre ela, e ninguém realmente a conhecia. Até sua companheira mais chegada e mais íntima ao longo dos últimos trinta anos de sua vida, Maggie Hartner, que de tanto conviver com Kathryn tornou-se parecida com ela, admitiu que, em muitas áreas, Kathryn era uma estranha. E, ao que parece, ela queria que fosse assim. A despeito de sua sugestiva ingenuidade — "Não tenho segredos" —, ela, evidentemente, tinha muitos. Era uma empresária esperta quando o assunto era revelar informações pessoais ou financeiras até para aqueles próximos a ela. Conhecia a natureza humana como poucos e percebeu que grande parte da curiosidade era fruto de motivos impuros. Assim, ela se resguardava em suas respostas. Descobriu, logo no início de seu ministério, que poucas pessoas reagem a uma desculpa agradável. Contudo, o modo como dirigiu as coisas no escritório da fundação frustrou para sempre seus defensores mais enérgicos. 98


Em minha primeira visita ao escritório de Kathryn no Carlton House, em Pittsburgh, no final de 1968, fiquei espantado com a aparente "ineficiência" na administração do escritório. Por exemplo, embora recebesse milhares de cartas por semana (o diretor de uma agência do correio de Pittsburgh disse que o volume de cartas que Kathryn recebia só ficava atrás do da U. S. Steel), ela se recusava a usar um abridor de cartas automático. Suas secretárias sentavam-se às mesas, rodeadas por enormes pilhas de cartas, abrindo envelopes com espátulas manuais. Levei mais de uma semana para descobrir que, por trás de uma enorme pilha de cartas sobre uma mesa hexagonal bem no canto da sala, estava uma bela secretária, chamada Connie Siergiej. Connie era a pessoa que geralmente atendia o telefone, e, um dia, no escritório, reconheci sua voz que vinha do canto da sala. Olhando por sobre a pilha de cartas, eu a encontrei empenhada, abrindo envelopes com uma espátula de aço inoxidável, selecionando o conteúdo das cartas e as colocando em pilhas bem-feitas no chão ao seu lado. Quando ingenuamente sugeri que a senhorita Kuhlman precisava de um abridor de cartas automático, Connie deu um sorriso largo e disse: "Todos aqui no escritório são máquinas automáticas. Nós não pensamos; apenas fazemos. A senhorita Kuhlman pressiona nosso botão, e nós funcionamos". Foi uma confissão que, mais tarde, percebi ser muito mais precisa do que a maioria queria admitir. Conversei com várias pessoas que haviam visitado o escritório da fundação e muitas disseram a mesma coisa: "Robôs! Todos são robôs lá. Eles falam como a senhorita Kuhlman. Eles riem como a senhorita Kuhlman. Eles não têm permissão para ter problemas pessoais nem ter uma vida pessoal. Estão tão programados que nem precisam dela por perto para dar ordens. Eles não pensam. Apenas seguem o padrão de comportamento para o qual ela os programou". Se os seus críticos não foram capazes de distinguir entre a servidão mecânica e a extrema lealdade, só quem sabe são aqueles que trabalharam para ela. Nunca houve dúvida alguma quanto à lealdade daqueles que gerenciavam seu escritório. O desejo de Kathryn era literalmente uma ordem para eles. Quando Maggie Hartner uma vez pensou em mudar seu corte de cabelo, bastou um único não de Kathryn para Maggie continuar com o coque que usava havia vinte anos. Essa lealdade ficou patente depois da morte da senhorita Kuhlman. "Não devemos mudar nada", disse Maggie, referindo-se ao trabalho da fundação. "Continuaremos como se ela ainda estivesse aqui". Uma de suas secretárias, em pranto, me disse que elas vinham seguindo os mesmos procedimentos havia tantos anos que se sentiam culpadas por fazer algo diferente do que a senhorita Kuhlman teria feito se estivesse ali. "Na verdade", aquela mulher disse, "todos esperamos que a senhorita Kuhlman entre por aquela porta a qualquer momento. E não gostaríamos de ser flagrados fazendo algo que ela não aprovaria". 99


Isso aconteceu seis meses depois da morte de Kathryn. Assim, após sua morte, o pessoal do escritório — Maggie, Maryon, Walter Adamack — deu seqüência ao trabalho da fundação. A fundação era como uma locomotiva sem o maquinista, passando às pressas pelos trilhos, atravessando pontes, cruzando passagens de nível, enquanto o tráfego de automóveis obedientemente esperava atrás das cancelas de segurança que retiniam, faróis acesos e rodas gastando os trilhos — mas sem idéia do lugar para onde estava indo, do que faria depois de chegar ao destino, ou de onde viria o combustível. Tudo porque o maquinista havia esquecido de deixar instruções antes de sair da cabina. David Verzilli, "pastor auxiliar" de Kathryn, que pregava em Youngstown quando ela não estava lá, percebeu que não havia nenhum pé no acelerador e desatou os últimos vagões de passageiros que levavam aqueles que se reuniam semanalmente no Stambaugh Auditorium. A separação final dos fiéis da "pastora" Kuhlman do restante da fundação foi uma dor necessária. Na verdade, foi uma das mudanças que Kathryn previu quando ainda viva. O único fato que parecia caracterizar o trabalho da fundação era a "rotineira imutabilidade". Poderia de fato ser comparada a um poderoso trem troando pelos trilhos com Kathryn pisando no acelerador. Seu destino estava planejado, e não havia tempo para virar-se para o lado a fim de cheirar as flores ou mesmo parar para conversar com as pessoas que estavam em pé ao longo dos trilhos, acenando com apreciação. Kathryn uma vez me disse que mantinha seu escritório como fazia com sua posição teológica. "Descobri algo que funciona e jamais vou mudar". No início de seu ministério, ela era conhecida como uma pessoa aberta a mudanças. Vários de seus primeiros colaboradores costumavam observar que a marca da grandeza de Kathryn era sua capacidade de flexibilizar sua teologia. "Ela sempre queria aprender coisas novas acerca de Deus", disse-me um homem. Mas, em seus últimos anos, sua teologia ficou mais conservadora. "Não mudei minha teologia em vinte anos", ela uma vez me afirmou. "Por que deveria mudá-la?" Era uma boa pergunta, mas eu me achava despreparado para responder porque eu não estava no controle como Kathryn. Quando observei que havia participado de um culto de pequenos milagres na sala de estar de Richard e Rose Owellen, em Baltimore, que havia sido igual a um culto de milagres de Kathryn Kuhlman, exceto em tamanho e intensidade, ela sorriu. "Tudo o que Dick e Rose sabem sobre o Espírito Santo, eles aprenderam comigo. E esta é a razão por que a teologia que eles usam é correta. É igual à minha". David Wilkerson comparou a senhorita Kuhlman com o general William Booth, fundador do Exército de Salvação, um homenzarrão que falava alto e não tinha paciência com aqueles que não acreditavam na 100


maneira em que fazia ou se dispunha a fazer a obra de Deus. Era com essa mesma inflexível veemência que Kathryn conduzia seu ministério e administrava seu escritório. "Não mudarei meus princípios teológicos nem meus métodos", dizia dogmaticamente. "Quero manter o toque pessoal", a senhorita Kuhlman me disse quando lhe perguntei sobre os abridores de cartas automáticos. "No início, eu mesma abria todas as minhas correspondências. Agora não tenho tempo para isso. Mas não quero que as pessoas pensem que, quando escrevem para Kathryn Kuhlman (ela muitas vezes referia-se a si mesma na terceira pessoa), suas cartas serão abertas por uma máquina". Contudo, havia uma estranha inconsistência nisso. Pois, embora as cartas fossem abertas à mão, a maioria delas era respondida por uma máquina. Havia uma sala nos fundos do escritório da fundação repleta de máquinas elétricas IBM. Kathryn havia ditado várias respostas-padrão, para as cartas que incluíam, em grande parte, perguntas feitas pelos remetentes. Essas respostas eram programadas no computador. Se uma carta precisava de algum tipo de resposta "especial", ela seguia para outra pilha, para ser respondida por Maryon Marsh, Maggie Hartner ou outra pessoa do escritório. Mas sempre havia cartas que eram respondidas pela própria senhorita Kuhlman. Embora muitos outros ministérios e organizações usassem os mesmos procedimentos, a senhorita Kuhlman esforçava-se para manter o toque pessoal selando os envelopes com as próprias mãos. E, por mais incrível que parecesse, ela assinava toda a correspondência a ser enviada. Foram muitas as vezes em que o malote de correspondência ficava tão pesado que a senhorita Kuhlman (ou Maggie, na ausência de Kathryn) recrutava — ou melhor, ordenava — os serviços de alguém que aparecia no escritório para ajudar a abrir cartas e colar selos. Ainda está viva em minha memória a cena do dr. Arthur Metcalfe, aquele musicista querido, bem-apessoado e distinto, sentado no tapete no canto do escritório, lambendo os selos e colando-os nos envelopes. "É um esforço de equipe", ele dizia com um sorriso. "Quando a carga fica pesada, todos ajudamos a levantá-la." Essa mesma autoridade mística sobre as pessoas era visível em muitas outras situações. A primeira vez que ela falou em Charlotte, Carolina do Norte, foi atendendo ao convite da FGBMFI para uma convenção regional. A reunião foi realizada no salão de bailes da antiga Estalagem da Casa Branca, com mais de 1. 500 pessoas presentes. Um dos pastores anfitriões, Alfred Garr, também era o solista de destaque do culto. Ao terminar de cantar, ele se sentou na primeira fileira, quase aos pés de Kathryn. Al Garr é o pastor da maior igreja pentecostal independente do estado da Carolina do Norte, uma igreja que leva o nome de seu pai, que foi o primeiro a trazer o pentecostalismo para a região de Piedmont, nos Estados Unidos. Ele é um homem de renome e altamente 101


respeitado em Charlotte. Mas Kathryn não era de respeitar pessoas. Ela começou seu sermão dizendo: "Que não haja um ruído neste salão. Nem um sussurro. Que o Espírito Santo fale". Todas as cabeças estavam curvadas, e Al Garr começou a orar baixinho, bem baixinho (na verdade, a oração era tão tímida que aqueles de nós que estávamos sentados próximos à pregadora no púlpito não ouvíamos). Mas Kathryn não hesitou em interromper o culto para corrigi-lo. Sem olhar para baixo, ela simplesmente baixou seu braço fino, apontou o dedo na direção do homem e disse: "Eu falei nem um sussurro!". E houve silêncio! Mesmo os responsáveis pelo evento não ocupavam a primeira posição quando Kathryn Kuhlman estava presente. E por mais que seus métodos fossem incomuns, ninguém duvidava de sua sinceridade nem questionava sua autoridade em questões espirituais. A despeito da reconhecida autoridade espiritual de Kathryn, ainda existe até hoje um mistério com relação à sua vida devocional pessoal. Ninguém, ao que parece, sabia alguma coisa sobre este aspecto de sua vida. Embora ela cresse que a Bíblia era a perfeita Palavra de Deus — e se denominasse uma fundamentalista (bem como uma pentecostal: "Sou tão pentecostal quanto a Bíblia") —, não obstante, durante seus últimos anos, havia pouca evidência de que ela passava algum tempo em particular estudando a Bíblia. Ela se encheu do conteúdo do Livro por mais de quarenta anos, e, dado o ritmo frenético no qual vivia depois de 1972, seu velho amigo Dan Malachuk provavelmente estivesse certo ao suspeitar que ela fazia a maior parte de seu estudo bíblico em público. "Kathryn não tinha tempo para estudar antes de pregar", Dan disse. "Ela lia no púlpito, preparando sua absorção espiritual no momento da ministração que viria a seguir." Em seus primeiros anos, ela fazia longas anotações para seus sermões, usando um esboço detalhado que, obviamente, era fruto de um profundo e intenso estudo da Bíblia. Esses esboços eram escritos à mão, e ela normalmente pregava fazendo uso deles. Mais tarde, Maryon Marsh passou a datilografar suas anotações em fichas de 7cm x 12cm ou de 10cm x 15cm, as quais Kathryn guardava em sua"caixa de idéias", uma pasta surrada qtie ela carregava consigo para todas as reuniões. Kathryn muitas vezes fazia declarações públicas de que não lia outros livros senão a Bíblia. Durante os últimos três anos de sua vida, isso provavelmente aconteceu. Entretanto, sua mesa estava cheia de cópias grifadas de livros de Andrew Murray e Jessie Penn Lewis sobre assuntos como oração, obediência espiritual e batalha espiritual. De interesse ainda maior eram os sermões impressos de Norman Vincent Peale que descobri na última gaveta de sua mesa. Peale e Kuhlman pareciam dois extremos, mas ela obviamente admirava o famoso pastor e, em um momento ou outro de sua vida, provavelmente extraiu lições da excelente capacidade que ele tinha de contar histórias. 102


Até Maryon Marsh, no entanto, admitiu que, durante os últimos anos de sua vida, Kathryn quase não preparou nenhum material — usando várias vezes os mesmos esboços, muitas vezes desconexos, tornando-se repetitiva e vagando por caminhos já bem trilhados. Isso era um grande contraste, comparado aos primeiros anos de seu ministério, quando suas pregações eram dinâmicas, muitas vezes inflamadas, e seus estudos bíblicos freqüentados até pelos mais cultos da comunidade. Seus longos discursos pareciam incomodar poucos. E se, como Dan sugeriu, ela precisasse usar a primeira hora do culto para preparar-se espiritualmente, ninguém se queixava. O preço era válido. Esta teoria, que Malachuk e outros projetaram, foi confirmada pelo fato de que, durante os últimos anos do ministério de Kathryn, seus "sermões" (na verdade, não eram sermões em um verdadeiro sentido homilético) ficavam cada vez mais longos — às vezes chegando a uma hora e meia. Um exemplo clássico foi o último sermão que ela pregou. Foi no grande Shrine Auditorium, em Los Angeles, três dias depois de seu regresso de Israel. Ela estava fisicamente exausta e não havia tido tempo para dormir, muito menos para orar. "Não vou pregar hoje", ela garantiu à multidão. "Só vou falar dez minutos e depois vamos passar para o culto de milagres. " Mas, depois de fazer os anúncios, Kathryn continuou a falar por mais de uma hora. Nenhum dos presentes sabia que ela estava, naquele tempo, muito doente. Na verdade, estava morrendo. Contudo, perceberam — muitos deles — que Kathryn não ousava começar o culto de milagres antes que houvesse uma unção de Deus. Sem essa unção, ela não tinha outra escolha senão continuar a falar, a pregar para si mesma, sobre o poder de Deus e orar para que o poder se manifestasse logo. Ela estava usando o tempo para preparar-se espiritualmente. Não só parecia haver falta de estudo bíblico nos últimos anos de Kathryn, mas também oração. Ela disse àqueles poucos que tiveram coragem de perguntar-lhe a respeito disso que ficava "em oração" o tempo todo. "Aprendi o segredo de Paulo de orar sem cessar", ela disse ao repórter de um jornal que teve a ousadia de perguntar por que nunca se retirava para orar. "Aprendi a conversar com o Senhor em qualquer momento, em qualquer lugar. Oro em secreto enquanto estou no avião, no carro ou andando na rua. Oro sempre. Minha vida é uma oração. Entendeu?" Alguns entendiam. Dentre eles, Ruth Fisher, uma das antigas parceiras de Kathryn. Uma mulher muito espiritual, que investia muito tempo em oração disciplinada e no estudo da Bíblia. Ruth era sensível ao fato de que Kathryn simplesmente não se encaixava no molde convencional de devoções pessoais. Ela compartilhou comigo uma

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história que Kathryn lhe contara uma vez, que me deu um grande discernimento sobre o raciocínio de Kathryn. "Sonhei uma vez", Kathryn disse, "com três pessoas ajoelhadas. Todas estavam esperando Jesus passar por elas. Assim que o Senhor chegou, Ele parou e abraçou a primeira pessoa. Quando foi ter com a segunda, gentilmente pôs a mão sobre o ombro dela. Mas, ao passar pela terceira pessoa de joelhos, apenas sorriu e continuou a andar. 'Alguém disse ao Mestre: O Senhor deve amar mais a mulher que abraçaste do que aos outros.' 'Não, vocês não entendem', ele disse com delicadeza. 'A pessoa que abracei precisa de mais encorajamento. Ela está fraca na fé. Aquela em quem dei um tapinha no ombro está mais forte. Mas a terceira, para quem simplesmente sorri, é forte. Não preciso me preocupar com ela, pois está sempre comigo.'" A despeito dos comentários de Kathryn de que vivia "em oração", houve momentos em que se retirava e agonizava em oração. Estou convencido de que ela literalmente orava na hora de dormir todas as noites — indo para a cama com o Espírito Santo. Qualquer pessoa que já havia estado com ela nos bastidores do Shrine Auditorium, ou a visto andar pelo corredor atrás do antigo Carnegie Hall em Pittsburgh, ou nos bastidores de centenas de auditórios antes de subir à plataforma, sabia que era uma mulher de muita oração. De acordo com Maggie Hartner e outros, ela muitas vezes voltava exausta para casa, depois de um culto de milagres, e caía no chão aos prantos. O primeiro culto de milagres do qual participei foi em 1968. Depois de pelejar para conseguir andar por entre mais de 2 mil pessoas que enchiam o Carnegie Hall, cheguei empurrado à entrada do palco e me vi em um pequeno corredor por trás dos bastidores que acompanhava a largura do prédio. Os parceiros de Kathryn estavam em cada canto do hall, cuidando para que ninguém a incomodasse. Ela estava andando, de um lado para o outro, ora com a cabeça para cima, ora com a cabeça para baixo, ora com os braços para o alto, ora com as mãos cruzadas nas costas. Seu rosto estava coberto de lágrimas, e, quando ela se aproximava, eu podia ouvi-la: "Terno Jesus, não retires de mim o teu Espírito Santo". Virei-me e corri, pois senti que havia me intrometido na mais íntima de todas as conversas entre duas pessoas que se amavam, e minha simples presença era uma abominação. Mais tarde, depois de ter estado com ela em muitas ocasiões, comecei a perceber que minha presença, ou a de qualquer pessoa, não a intimidava. Às vezes, ela interrompia sua oração, conversava alegremente com quem precisava vê-la ou dava algumas instruções sobre o coro ou a iluminação, e depois, mais que depressa, se virava e continuava sua conversa com o Senhor.

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Eu estava com ela em Tel-Aviv, em Israel, no grande estádio esportivo no final de 1975. Seria sua penúltima aparição pública. Encontrava-se doente e cansada, mas passou mais de uma hora e meia em um túnel escuro sob a plataforma andando e orando, de olhos abertos, de olhos fechados, com o rosto banhado em lágrimas. Acima dela, a música do Living Sound — instrumentos e vozes — por todos os lados era o barulho da multidão de estrangeiros, movendo-se, inquieta, pessoas de muitos grupos lingüísticos. Acima de tudo, estava a inquietação de Israel. Uma nação em tormento e em guerra, lutando para continuar viva em um ambiente hostil. Na noite anterior, uma mulher da Finlândia havia morrido no local, durante o culto de Kathryn, e isso a abalara profundamente. A polícia israelense fizera muitas perguntas. Perguntas demais. E assim ela andava e orava — tentando, desesperada, tocar a orla das vestes do Senhor. Suplicando para que não tivesse de subir àquele palco sem ele. Sabendo, lá no seu íntimo, que todas aquelas coisas que ela havia dito sobre si mesma eram verdadeiras. Ela não era nada. Absolutamente nada. Talvez a vida de oração de Kathryn tenha desafiado convenções, mas aqueles que eram próximos dela sabiam que ela vivia, respirava e dormia orando. O fato de que, para isso, ela não se retirava, como outros fazem, para esperar e ouvir, para cair prostrada ou esperar em agonia de joelhos dobrados, não significava que ela não era uma mulher de oração. Como todas as outras coisas, ela precisava fazê-lo à sua maneira. Os problemas de seu conceito de oração tornavam-se críticos só quando o assunto dizia respeito aos seus relacionamentos com seus parceiros — pois, de algum modo, ela parecia sentir que sua equipe e parceiros ministeriais deviam ter o mesmo compromisso com o qual ela andava. Como o general Booth, ela era extremamente impaciente com aqueles que não podiam acompanhar seu ritmo. Essas dificuldades ficaram mais visíveis no escritório da fundação em Pittsburgh do que em qualquer outra fase do ministério. Diferente de outros ministérios cristãos em que as equipes muitas vezes se reuniam para orar, os funcionários da fundação chegavam na hora marcada e iam direto para o trabalho. A senhorita Kuhlman raramente orava — se é que alguma vez orou — com os membros da equipe. À semelhança dela, esperava-se que já tivessem orado quando chegassem ao trabalho e continuassem assim ao longo do dia. Kathryn tampouco se deixava levar pelos problemas pessoais de seus funcionários. Se a secretária estava tendo problemas com o marido ou alguém passava por dificuldades financeiras (os salários na Fundação Kathryn Kuhlman eram notoriamente baixos), eram coisas que não se podia mencionar no escritório. "Eu simplesmente não tenho tempo para envolver-me com a vida pessoal da equipe", ela me disse. Já no fim de sua vida, naquelas últimas semanas antes de ser obrigada a ficar internada, no entanto, essa filosofia começou a dar frutos amargos. Ela quase morreu ao

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descobrir que um funcionário antigo, de confiança, estava sendo acusado de comportamento duvidoso. Kathryn, que sempre exigira altos padrões de moralidade de seus oficiais, musicistas e parceiros voluntários (muitas vezes, no passado, se recusou a deixar um homem cantar no coro por causa de sua reputação manchada), foi incapaz de lidar com essa situação interna. Seus parceiros do escritório, que estavam revoltados com o que estava acontecendo (embora impossibilitados de tomar uma atitude sem a aprovação de Kathryn), perceberam que, se ela não estivesse tão doente e preocupada com todos os outros problemas que pareciam cair sobre sua cabeça durante os últimos seis meses de 1975, interviria e poria fim àquele insulto descarado e flagrante a tudo aquilo em que ela cria. Mas, em seu estado debilitado, era incapaz de lidar com a questão. Simplesmente deu as costas para o problema e se negou a discuti-lo. ("Anna, vamos agir como se isso nunca tivesse acontecido") Ninguém parecia compreender quanto Kathryn estava doente durante os últimos meses de 1975. Ela fez muitas coisas que não teria feito se seu corpo estivesse funcionando corretamente. Ao que parece, nunca perdeu o velho "vigor" — as exigências de perfeição nos cultos de milagres — que havia sido sua marca. Aparentemente cega para a dor em seu peito e para a crescente fraqueza do seu corpo, ela mergulhou de cabeça, marcando mais reuniões, cumprindo seus horários na televisão e dando toda a impressão de que seu corpo moribundo estava mais saudável do que nunca. Contudo, no final, pouco antes de entrar no hospital pela última vez, ficou claro que ela estava partindo. A viagem para Israel em outubro esgotou-a fisicamente. E quando, em Jerusalém, descobriu que um empregado fugia do hotel à noite para um encontro amoroso clandestino, ela se abateu. Ela deu as costas e nunca mais mencionou o assunto. À medida que o ministério ficava mais intenso, exigindo cada vez mais de seu tempo, Kathryn passou a abrir mão de seu envolvimento pessoal na vida até de seus amigos mais próximos. No final, ela se tornou uma solitária no meio da multidão. E, no fim do dia, afastava-se de todas as pessoas, com exceção de uma ou duas que ela aceitava em sua presença. Por fim, rejeitou até os que eram mais próximos dela e colocouse nas mãos de pessoas que mal conhecia. Foi um triste fim. A área onde o não envolvimento era mais difícil de entender abrange os milhares de pedidos de oração que chegavam aos montes no escritório todas as semanas. E embora pareça incompreensível, não há evidência — pelo menos durante os últimos anos de Kathryn — de que ela tenha feito algum esforço para atender a esses pedidos e fazer uma oração específica pelas necessidades das pessoas. Não se sabe se Kathryn achava que a oração específica era desnecessária, se estava muito ocupada ou se orava por aqueles que escreviam para ela em massa enquanto viajava pela nação. 106


O fato intrigante é o de que muitas pessoas que enviaram pedidos de oração para Kathryn Kuhlman foram curadas — muitas vezes ao longo da semana. Alguns podem pensar que existia, de fato, uma aura especial que cercava todo o ministério de Kathryn Kuhlman, de modo que, mediante o simples toque na orla de suas vestes, a pessoa seria curada. Contudo, Kathryn era categórica ao rejeitar este conceito, dizendo várias vezes que não tinha em si a virtude de curar. Outros talvez considerem ser a fé do missivista suficiente para que alcance a cura. Há ainda outros que alimentam a idéia de que, embora a própria Kathryn não tenha orado especificamente por aqueles milhares de pedidos de oração, todas as pessoas ao seu redor oravam, e isso criava um fluir suficiente para trazer cura àqueles que escreviam. Alguns fazem a irritante pergunta quanto a se a oração é um fator necessário na cura. Ninguém parece saber. A única conclusão a que posso chegar é que um Deus misericordioso e compassivo, que via a necessidade e o sofrimento de seu povo, e conhecia as inconsistências do ministério que ele havia separado para ajudar a suprir essas necessidades, muitas vezes, de modo soberano, interveio e concedeu ao seu povo os desejos do coração das pessoas. E, de algum modo, além da esfera da compreensão humana, aquelas cartas e pedidos para Kathryn tornaram-se orações. Assim, Kathryn Kuhlman era simplesmente uma catalisadora que apresentava as orações das pessoas. E, com base nos clamores dessas pessoas, Deus, e não Kathryn, respondia. Quando pregava aquelas mensagens que sondavam o coração sobre um Deus zeloso que não "dividia a glória" com qualquer figura humana, Kathryn estava pregando para si mesma. Ela sabia quão desesperadamente precisava ouvir isso e aplicá-lo a sua própria vida. Assim, pregava tais mensagens várias vezes, pois nenhum ministro no século 20, nem talvez desde o tempo dos apóstolos, esteve sob maior pressão da tentação de apropriar-se de parte da glória. Conseqüentemente, quando algum admirador agradecido aproximava-se do púlpito em busca de uma cura e dizia a Kathryn: "Oh, obrigado! Obrigado!", ela logo recuava, balançava as mãos e dizia: "Não agradeça a mim. Nada tenho a ver com isso. Agradeça a Deus". A despeito de tudo o que ela dizia, no entanto, as pessoas lhe agradeciam. A fundação recebia milhões de dólares. O dinheiro vinha dos ricos que lhe ofereciam seus bens e dos pobres que colocavam moedinhas nas salvas. Tudo isso sem qualquer apelo direto para obter fundos. Ela só recolhia uma oferta em cada reunião, ou, de vez em quando, recolhia uma oferta especial para o ministério de televisão. Mas tudo era muito discreto. Não havia métodos espetaculares para levantar dinheiro, nem apelos feitos por mala-direta. Ela detestava o método muitas vezes usado por algumas organizações de colocar pessoas em pé e ficar pedindo muito dinheiro. "Isso só alimenta o ego", ela sussurrou para mim um dia, enquanto estava nos bastidores e observava um desses espetáculos em 107


uma reunião em que ela ministraria mais tarde. "Se eles entregarem o problema nas mãos de Deus, Ele fará melhor do que eles". Kathryn deixava a questão nas mãos de Deus e, conseqüentemente, tinha acesso a mais dinheiro do que a maioria das pessoas poderia imaginar. Muitos a criticavam — muitas vezes por ciúmes — por receber tanto dinheiro. Mas ela sabia, melhor do que seus críticos, que era uma administradora de Deus e que, se usasse mal seus recursos, Ele, um dia, pediria contas a ela. Mas não era só o dinheiro. As pessoas enviavam presentes. Bugigangas. Uma mulher, passando por uma loja de departamentos, olhava alguma bugiganga e pensava: "Parece algo de que Kathryn Kuhlman vai gostar". Ela recebia milhares desses itens pelo correio ou, pessoalmente, em várias reuniões. Esses presentes menores normalmente eram colocados em uma mesa no escritório e examinados por membros de sua equipe. Às vezes, Kathryn os distribuía entre seus amigos do ministério. Ora, seria impossível Kathryn Kuhlman conseguir usar cem porta-jóias, ou 75 broches, ou 30 pulseiras que imitavam diamantes. As pessoas enviavam Bíblias. Seus admiradores, vendo-a na televisão ou no púlpito carregando uma Bíblia gasta, batida e surrada, com as páginas caindo e a capa meio rasgada, corriam para comprar a melhor Bíblia à venda. Às vezes, gravavam seu nome na capa. Mas ela não se sentia à vontade com uma Bíblia diferente da que carregava havia anos, cheia de orelhas e manchada. Ela era colocada sobre o púlpito por seu guarda-costas de confiança, como o último ato de presteza antes de ela aparecer para erguê-la, proclamar suas verdades e pregar sua mensagem. Mas os presentes não se limitavam a bugigangas e Bíblias. Muitos eram bastante caros. Pinturas raras e antigüidades da Europa. Esculturas da Itália e da América do Sul. Tapetes persas e do Oriente. Diamantes e jóias preciosas de todos os lugares do mundo. Peles e até modelos feitos por alguns dos ateliês mais famosos do mundo fashion. Relíquias de Israel. Sua casa em Fox Chapel tornou-se um museu, cheia de objetos de arte que valiam centenas de milhares de dólares. Tanta coisa chegava que ela precisou de um lugar especial no porão da casa para guardar alguns de seus objetos de valor. Tudo isso gerou um grande problema. Kathryn adorava coisas boas e caras e, ao mesmo tempo, sempre procurava fazer um bom negócio. Era comum ela ir a uma loja de roupas exclusivas na Wilshire Boulevard e gastar 3 mil dólares de uma só vez. Seu estilo de vida exigia um amplo guarda-roupa. Na verdade, depois de sua morte, descobri uma enorme pilha de notas fiscais antigas da Profils du Monde, uma loja de importados na Wilshire Boulevard, em Beverly Hills, que descreviam mais de 12 vestidos de chiffon que iam do champanhe e laranja ao amarelo, azul e verde-palha. Contudo, ela nunca se esqueceu de sua origem humilde. A caça de antigüidades era um de seus poucos passatempos (gastava grandes quantias de dinheiro na compra de antigüidades para ela 108


e seu círculo de amigos próximos), mas sempre se sentia culpada por ter muito diante de muitos que tinham tão pouco. Ela não era apegada a coisas. Podia literalmente desfazer-se delas ou deixá-las, e se sentia tanto à vontade sentada no chão de seu escritório sem os sapatos quanto em um sofá caro. Até onde posso dizer, ela estava acima do poder controlador dos bens. Em vez de ser controlada por objetos materiais, ela os controlava. Via-os como ferramentas para serem usadas, em vez de itens a serem buscados para valor e ganho pessoal. Não obstante, era sábia o suficiente para perceber que a maioria das pessoas não se encontrava nesse patamar espiritual e, assim, estava sempre enfrentando o problema do que fazer com as coisas caras em sua vida. Alguns dos objetos de arte foram para o escritório de sua fundação em Pittsburgh; mas não muitos, pois ela sabia que a exibição era perigosa — ainda que fossem presentes. Por exemplo, quando recebeu dois vasos da dinastia Ming, primeiro os escondeu em um pequeno closet em seu escritório pessoal e, depois, levou-os para sua casa que só seus amigos de maior confiança visitavam. Outros itens eram usados para decorar seu luxuoso apartamento na bela praia de Newport, Califórnia. Contudo, em seus momentos particulares, ela muitas vezes se perguntava se estava, ao guardar esses itens, "recebendo seu prêmio agora". Uma resposta que somente ela sabe agora. O mesmo aplicava-se aos elogios e adulação. Como manter este equilíbrio entre dar a Deus toda a glória e, não obstante, não ser desagradável com as pessoas que não entendem? "Às vezes", ela confidenciou certa vez, "em minha fraqueza, simplesmente sigo em frente e aceito os elogios e agradecimentos. Outras vezes, sinto-me tão cansada que, se não aceitasse nenhum elogio, eu desabaria. E parece que Deus me permite isso, apenas para que eu continue a caminhada. Mas, no final do dia, quando estou completamente sozinha em meu quarto, levanto as mãos para o céu e digo: Querido Jesus, tu sabes o que eles disseram a meu respeito hoje. Mas agora entrego tudo em tuas mãos. Não sou nada, e ninguém sabe isso melhor do que eu. Não tenho o poder da cura. Não tenho a virtude de curar. Não há nada atraente em mim. Mas, querido Jesus, tu és tudo. E hoje as pessoas confundiram tudo. Não tive a força para corrigi-las, mas sei que tu entendes. E agora entrego tudo o que me deram a ti. Só te peço uma coisa: não retires o teu Espírito Santo de mim, pois, sem Ele, certamente morrerei'."

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Capítulo 10 A Sabedoria na Espera Liderança consiste em saber guiar outros líderes e motivá-los a agir. Kathryn era mestra nisso. Aguardava Deus enviar as pessoas certas para sua vida e depois esperava até ter o senso perfeito do momento oportuno para se mexer. Ela se alegrava muito em encontrar a pessoa certa para cumprir sua visão e em dar a essa pessoa autonomia para trabalhar. Gene Martin, um ministro das Assembléias de Deus, era seu braço direito nas missões. Dick Ross, que havia produzido muitos dos filmes de Billy Graham antes de ir trabalhar em Hollywood, era seu braço direito no ministério de televisão. E eu tinha liberdade na questão dos livros. Kathryn se negava a colocar sua assinatura em alguma coisa — um livro, um programa de televisão, um programa de rádio ou algum tipo de missão — a menos que fosse de primeira qualidade. "Deus exige nosso melhor", ela dizia. "E Ele merece. Afinal, nos deu seu melhor ao enviar seu Filho à terra. Não devemos contentar-nos em dar-lhe menos do que o nosso melhor." Ela mesma examinava cada programa de televisão em um estúdio particular na CBS logo após a gravação. Se algo não estivesse perfeito, ela o deletava e regravava a cena. O mesmo acontecia com os livros. Passamos três dias examinando uma batelada de títulos antes de chegarmos, finalmente, a um que "combinou" com um livrinho que fiz para ela sobre uma enfermeira e seus três filhos, todos curados de doenças fatais na mesma reunião. Exasperado, lancei as mãos para o alto e disse: — Kathryn, Deus não é grande o suficiente para dar-nos um título para este livro? disse:

Ela bateu palmas, teve um daqueles acessos de riso quase rouco e — Quão grande é Deus? Era o título perfeito para o livro.

Este sentido de perfeccionismo impregnava cada movimento que ela fazia. Seu batom estava sempre impecável; suas unhas feitas, pela manicure; e suas roupas, ajustadas em cada detalhe. Nos cultos, o choro de uma única criança a levava a interromper a ministração e fazer um sinal para um dos oficiais. Uma cadeira fora de lugar, um corista com uma gravata torta, um membro da equipe com a cor de camisa ou blusa errada — ela notava cada detalhe e não se dava por satisfeita até que tudo fosse 110


corrigido. Esse perfeccionismo a impedia de mergulhar logo em um novo projeto, pois estava determinada a analisá-lo em cada detalhe antes de dar o sinal verde. Demorou anos para ela concordar em estender seu ministério à televisão, realizar seu primeiro culto no Shrine Auditorium, em Los Angeles, escrever seu segundo livro, ou aceitar convites para pregar em outras cidades. Era como se ela, na verdade, não quisesse crescer, mas preferisse continuar relativamente enclausurada em Pittsburgh. Mas a combinação do incentivo daqueles em quem ela confiava e a porta aberta da oportunidade que ela via como uma direção de Deus, por fim, convenceu-a a sair de sua rotina e investir no risco de mudar e crescer. Entretanto, no íntimo, ela sempre esteve convencida de que era melhor apegar-se ao que estava funcionando a correr o risco de fracassar em alguma nova aventura. E, por essa razão, muitas vezes fez duras declarações que, mais tarde, teve de renunciar. Por exemplo, ela disse muitas vezes que jamais escreveria uma autobiografia. "Espere que eu morra, Jamie", dizia séria, balançando a cabeça. "Então você poderá contar tudo. " Contudo, um ano antes de sua morte, ela começou a conversar comigo sobre uma autobiografia. Quando estivemos juntos em Las Vegas para o fabuloso culto de milagres no City Auditorium, em maio de 1975, ela me pressionou ainda mais. Sabendo de minha natural relutância em escrever um livro sobre alguém já falecido, principalmente no caso de um livro importante, ela superou todos os obstáculos para bajular-me e explicar a "necessidade de colocarmos a mão na massa naquele exato momento". Estávamos sentados na luxuosa sala de estar da suíte de Frank Sinatra no Caesar's Palace, em Las Vegas. O culto de milagres tinha acabado, e Kathryn havia voltado para o quarto, exausta. Eu passava meus dedos sobre o papel de parede espesso, macio e vermelho enquanto a ouvia falar sobre o culto. Então ela quis que andássemos pela suíte — minha esposa Jackie, Dan e Viola Malachuk, e eu — para mostrar-nos a banheira embutida em forma de coração (grande o suficiente para duas ou três pessoas) e a cama redonda com espelho no teto. "Não sou idiota", ela disse rindo, segurando firme meu braço e encostando-se em mim. "Eu sei exatamente por que esse espelho está no teto. " De volta à sala de estar, nós nos sentamos no sofá vermelho macio, naquele que devia ser um dos mais luxuosos quartos do hotel, e ouvimos todas as razões dela por que eu deveria escrever seu livro. "Você é o único que será honesto o suficiente para contar as coisas com franqueza. " Então, olhando para mim com os olhos meio fechados, ela disse: "Sabe, há muita trapaça acontecendo em nome do nosso Senhor. Você sabe o que quero dizer?". Eu não estava muito certo — pelo menos, não naquele momento —, mas sabia que, se ela soubesse, eu não me daria por satisfeito até descobrir sobre o que ela estava falando. "Mas temos de

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fazer este livro para a glória de Deus. Lembre-se disso. Sem fazer rodeios, para a glória de Deus. " Uma razão por que o livro precisava ser escrito logo, e que nem ela sabia na época, não viria à tona senão dois meses depois. Seu pianista e confidente, Dino Kartsonakis, e o cunhado dele, Paul Bartholomew, que também era administrador pessoal de Kathryn, haviam sido demitidos em fevereiro. Sem que Kathryn soubesse, ambos estavam preparando o manuscrito de um livro intitulado The late great Kate, e tinham a intenção de negociá-lo com o mercado editorial sensacionalista como uma revelação. Nada disso veio à tona antes de julho de 1975, quando Bartholomew moveu uma ação judicial contra ela no Tribunal Superior de Los Angeles. Kathryn resolveu a questão amigavelmente logo depois. Uma das cláusulas do acordo feito sob juramento era que nem Dino nem Bartholomew teriam permissão para publicar nada sobre Kathryn Kuhlman durante dez anos. No entanto, em maio daquele ano, ela não sabia nada sobre a intenção dessa revelação, e, com isso, só posso concluir que seu desejo de começar a trabalhar em sua autobiografia surgiu como aviso de Deus de que, se não contasse sua própria história, alguém iria fazê-lo — e difamar tanto o seu nome quanto o seu ministério. Assim, concordamos em executar o projeto de sua autobiografia. Mas nós dois tínhamos outras ocupações. E nenhum de nós sabia quanto o tempo era curto. Kathryn reuniu-se com sua irmã mais velha, Myrtle Parrott, e gravou em fita algumas conversas sobre sua infância. Mas a morte interrompeu o trabalho, e, no final, ela teve seu desejo mais antigo realizado — uma biografia, e não uma autobiografia. O assunto, entretanto, era típico da ponderação de Kathryn — e de sua sensibilidade para com o Espírito Santo, no sentido de esperar até que Ele a despertasse e então seguir com presteza na direção para a qual Ele estava apontando. Kathryn muitas vezes era acusada de ser uma pessoa impulsiva e impaciente. Quando o assunto era pressionar seus parceiros no ministério, ela realmente era. Mas quando o assunto era expandir-se para uma nova área do ministério, já havia aprendido muito bem a dolorosa lição de esperar até que a pessoa certa aparecesse — alguém em quem pudesse confiar — e então mover-se só quando Deus lhe dissesse para fazê-lo. Talvez nenhuma situação ilustre melhor esses princípios do que a expansão de Kathryn ao Canadá. Começou, como grande parte de seu ministério, com um milagre de cura. Kenneth May, um fazendeiro de 62 anos da pequena comunidade de Foresters Falls, em Ontário, ouviu de seu médico, na cidade vizinha de Cobden, que estava morrendo com a doença de Hodgkins — câncer nas glândulas linfáticas. Sua história pode ser encontrada em detalhes no capítulo que tem por título "Canadian Sunrise" ["O Nascer do Sol no Canadá"], em God can do it again [Deus pode fazer isso novamente]. Ele foi enviado para Ottawa a fim de fazer um tratamento à base de cobalto. Mas a terapia foi ineficaz, e as incitações 112


em seu corpo aos poucos voltaram. Ele voltou à clínica de oncologia no Hospital Geral para submeter-se a outras radiografias e descobriu que os inchaços estavam crescendo e se espalhando. Percebendo que os dias de Kenneth estavam contados, os médicos deixaram-no visitar sua filha em Pittsburgh antes de interná-lo no hospital para um tratamento intensivo. Entretanto, antes de ele e sua esposa partirem para Pittsburgh, um de seus vizinhos fazendeiros aproximou-se deles e disse: "Oh, espero que vocês tenham oportunidade de ir a um culto de Kathryn Kuhlman enquanto estiverem lá". Em resposta à pergunta sobre quem era a senhorita Kuhlman, o vizinho deu-lhes um exemplar do livro I believe in miracles [Eu creio em milagres]. Kenneth May leu o livro e começou a se perguntar, pela primeira vez, se era possível Deus curar alguém nos estágios terminais de um câncer. Em 1º de abril de 1968, o senhor e a senhora May participaram do estudo bíblico regular das segundas-feiras à noite na Primeira Igreja Presbiteriana. Ambos ficaram muito impressionados e, depois, demoraram no salão da igreja para conversar com alguns dos que freqüentavam aquela reunião toda semana. Essas pessoas, vendo que o senhor May estava muito doente, encorajaram o casal a ficar para o culto de milagres que aconteceria na manhã de sexta-feira no Carnegie Hall. "Deus pode curar o senhor", disse um homem. A senhora May teve de voltar para o Canadá, mas Kenneth ficou com a filha. Embora estivesse com muitas dores, ele continuou a agarrarse àquele pequeno sinal de esperança — "Deus pode curar o senhor". Na sexta-feira pela manhã, sua filha o acompanhou até o Carnegie Hall. Lá encontraram uma grande multidão à espera, na escadaria, horas antes do início do culto. Ele quase perdeu a esperança. No entanto, pessoas que havia conhecido na segunda-feira à noite o viram e vieram conversar com ele, incentivando-o a ficar. Uma mulher totalmente estranha aproximou-se dele e perguntou: "O senhor tem câncer, não tem?". May surpreendeu-se com a percepção da mulher. Mas, antes que pudesse responder à pergunta, ela segurou o seu braço, estendeu a mão e começou a orar. Embora constrangido, ele abaixou a cabeça e disse em voz alta: "Sou teu, Senhor. Faze comigo o que quiseres". No mesmo instante, ele teve uma estranha sensação que percorria o seu corpo — e a dor desapareceu. Ele estava curado. Passou a hora seguinte sem nenhuma dor. Após o início do culto, um dos obreiros aproximou-se dele, perguntando se havia sido curado. O senhor May respondeu: "Acho que alguma coisa aconteceu". Então, se corrigiu: "Tenho certeza de que alguma coisa aconteceu comigo". O senhor May foi levado ao púlpito, onde Kathryn orou por ele. Após o culto, em pé no salão, outra estranha manifestação ocorreu. Começou a sair água pelos poros da pele do senhor May — um fenômeno que continuou por três dias. Despedindo-se de sua filha, ele voltou para o 113


Canadá e à clínica oncológica no Hospital Geral, em Ottawa, onde recebeu o diagnóstico de sua cura. Até o médico considerou o caso um milagre. Kenneth May voltou para casa. Ele fez uma visita a uma mulher chamada Mary Pettigrew, que morava na cidade vizinha de Cobden. Ela estava nos últimos estágios de esclerose múltipla. Vencidos pelo incentivo de May, Mary e o marido, Clarence, foram a Pittsburgh. Ela também foi milagrosamente curada e voltou para a pequena cidade de Cobden com a boa notícia do poder milagroso do Espírito Santo. Depois disso, as pessoas não pararam mais. Iam a Pittsburgh em caravanas. Muitas foram curadas, e logo a notícia dos milagres se espalhou por toda aquela região do Canadá. Em janeiro de 1969, cerca de seis meses depois que Mary Pettigrew foi curada, uma mulher de Ottawa, que morria de câncer, telefonou para uma amiga em Brockville, Maudie Phillips, para perguntar se ela sabia alguma coisa sobre os cultos de Kathryn Kuhlman. Maudie não sabia nada. Ela nem ouvira falar no nome de Kathryn Kuhlman! Mas aconselhou a amiga a ir em frente e participar do culto. Afinal, ela estava morrendo, e o que poderia ser pior do que isso? A mulher participou dos cultos em Pittsburgh e voltou para o Canadá — curada. A mudança foi imediata e visível. Sua pele, antes cor de cobre, agora estava rosada, saudável. Todos os sintomas haviam desaparecido. Ademais, o homem que a levou a Pittsburgh tinha um grande tumor na coluna, e também foi curado. Maudie era uma pessoa muito conservadora e, mesmo conhecendo a mulher desde a infância, ainda tinha dificuldade para crer. Ela falou sobre o assunto com o marido, Harvey, e os dois decidiram ir a Pittsburgh para ver os milagres com os próprios olhos. Um dia, antes da viagem, Sharon, filha deles, Grant Mitchell, seu genro, e Troy, seu neto, pediram para acompanhá-los. Todos, parece, daquela região de Ontário, estavam falando sobre os milagres em Pittsburgh. O pequeno Troy nascera com um eczema e um problema crônico nos pulmões semelhante a asma. O Canadá, no inverno, tem o pior clima para as pessoas com eczema. Muitas roupas de inverno contêm fibras que racham a pele, levando a uma irritação extra. A pele de Troy estava coberta de feridas grandes e supurantes. Além disso, onde a pele encostava na própria pele — debaixo do queixo, axilas, virilhas, joelhos e entre os dedos das mãos e dos pés —, havia uma inflamação que coçava e queimava com lesões rachadas e cheias de crostas. Troy estava sob os cuidados de um dos melhores dermatologistas de Ottawa, o dr. Montgomery e do médico da família, o dr. Hal McLeod. O dr. Montgomery havia prescrito um tratamento que consistia em medicamentos e quatro banhos com farinha de aveia por dia. A farinha de aveia tinha um efeito refrescante sobre a pele, e os Mitchells a compravam em sacos de quase 50 quilos. Os banhos eram dados, cuidadosamente, por Sharon, que também era uma enfermeira diplomada. À noite, a criança 114


tinha de ser enrolada com gaze e faixas para que não coçasse as lesões até abri-las. A única esperança que os médicos davam era que, à medida que ficasse mais velho, o menino aprenderia a evitar todas as coisas que agravavam sua alergia e talvez descobrisse um modo de ajustar-se à sua condição. Depois de uma viagem de cerca de 800 quilômetros até Pittsburgh, eles passaram a noite no Pick Roosevelt Hotel. Na manhã seguinte, a família chegou às 6h30 na Primeira Igreja Presbiteriana — onde os cultos de milagres estavam sendo realizados, porque o Carnegie Hall estava sendo reformado. Muita gente já estava na igreja, embora o culto começasse às 11 horas. Grant, Sharon e Troy sentaram-se em um banco com Maudie e Harvey bem atrás deles, perto do corredor. Troy entretinha-se com um livro de colorir durante a longa espera. Mas algo acontecia. Às 9 horas, Maudie viu que Sharon estava chorando — ao que parecia, sem nenhuma razão. À medida que se aproximava a hora de iniciar o culto de milagres, ela passou a chorar ainda mais — e mais alto — e continuou a chorar mesmo depois de Kathryn chegar para dar início ao culto às 11 horas. Tudo isso confundia Maudie, uma mulher conservadora. Ela quis sair e, em duas ocasiões, virou-se para Harvey a fim de conduzi-la para fora. Mas não havia como sair discretamente. Assim, permaneceu ali, determinada a agüentar firme e nunca mais meter-se em uma situação tão desconfortável. Kuhlman, como fez muitas outras vezes, pulou a parte da pregação e passou direto para o culto de milagres, intercedendo por curas e incentivando as pessoas a virem ao púlpito para dar testemunho. No meio do culto, ela parou e disse: "Alguém está sendo curado de eczema". Não houve resposta. Os Phillips, nem seus filhos, não relacionaram o que Kathryn dissera com a condição de Troy. Kathryn continuou o culto, mas, dez minutos depois, fez algo incomum, uma coisa que seus parceiros se lembram de tê-la visto fazer somente duas vezes em todo o seu ministério. Ela disse: "Vou ter de interromper o culto. Alguém neste santuário está entristecendo o Espírito Santo". Veio um silêncio mortal sobre o grande auditório. As pessoas viravam-se e olhavam umas para as outras como os discípulos fizeram no cenáculo quando Jesus anunciou que um deles iria traí-lo. "Sou eu! Sou eu!" Maggie Hartner estava em pé no corredor ao lado dos Phillips. Ela parecia literalmente encher-se do Espírito Santo quando a unção de Deus se manifestava nos cultos de milagres. Sharon chorava tanto que nem se dava conta do que acontecia. Maggie falou com Grant e perguntou: — Pelo que você está orando? — Por meu filho — Grant respondeu simplesmente. 115


— O que há com ele? — Ele tem eczema. — Pelo amor de Deus — Maggie exclamou. — O senhor não ouviu a senhorita Kuhlman?! O culto todo parou. Eu estava subindo e descendo por esses corredores tentando achar a pessoa em quem Deus havia tocado. Por favor, veja a criança. De repente, Sharon despertou. Sem limpar as lágrimas, ela estendeu a mão e tirou a camisa de Troy. Cada ferida em seu corpo — cada lesão, cada rachadura que vazava líquido em sua pele — estava curada. As crostas viraram pó e, à medida que a camisa escorregava por suas costas, elas caíram como poeira ao chão. Maudie, que estava sentada bem atrás dele, arfou e quase entrou em choque. Grant estendeu a mão e tocou no lugar onde antes havia uma terrível ferida que vazava pelo braço esquerdo. A pele agora estava perfeita e saudável. Cada parte do corpo do menino estava limpa. Maggie insistiu em que os pais levassem a criança à frente. Mas nenhum deles, depois, lembrou-se de ter ido ao púlpito. Era como se todos estivessem em transe. Saindo do culto, eles voltaram para casa, ainda incapazes de crer no que haviam visto e experimentado. Perto de Erie, se viram diante de uma forte nevasca e tiveram de hospedar-se em um hotel à beira da estrada. Havia só um quarto disponível, por isso os cinco ficaram juntos. Troy foi direto para a cama, mas os adultos ficaram acordados a noite toda, conversando e curiosos por saber sobre o milagre. Era quase meianoite quando Harvey não agüentou mais, pegou a lamparina que estava sobre a mesa e a pôs sobre a cama, para que pudesse examinar Troy, que estava dormindo. Cada parte onde havia feridas estava agora branca como a neve, comparada à pele rosada normal nas outras partes de seu corpo. No meio de cada parte branca, havia uma pequena erupção, menor que a cabeça de um alfinete. De manhã, no entanto, a despeito de os adultos continuarem a examiná-lo de hora em hora, até essas pequenas erupções não foram mais encontradas. Três meses depois, os Mitchells levaram Troy em uma viagem de férias para o México. Quando voltaram, o corpo do menino estava bem bronzeado por conta do sol do México — todo o corpo, menos as partes onde houvera o eczema. Essas partes continuaram brancas. No ano seguinte, ficaram perfeitamente normais. Eles levaram Troy ao dr. Montgomery e ao dr. McLeod, que haviam diagnosticado as doenças — inclusive a dos pulmões. O dr. Montgomery chamou Maudie de "a avó milagrosa" — um nome que ela ainda aprecia como um lembrete do momento em que Deus invadiu, de modo tão extraordinário, sua vida. Maudie Phillips era a mulher mais animada de Ontário. Ela estava determinada que todos, em Ottawa, participassem dos cultos de milagres 116


em Pittsburgh e fossem abençoados como havia sido. Uma organizadora natural, ela começou a pensar que, se conseguisse reunir os ministros da cidade em uma reunião, eles seriam incendiados por Deus, e todas as igrejas, cheias do mesmo Espírito Santo que prevalecia nos cultos de milagres. No entanto, ela pensou mal. Mesmo quando se ofereceu para fretar um ônibus e pagar as despesas do seu próprio bolso (um custo de 1. 000 dólares), os ministros estavam extremamente ocupados para ter algum interesse na idéia. Nem um deles expressou o menor desejo de testemunhar — muito menos envolver-se — em um milagre. Sem desanimar, Maudie voltou a Pittsburgh muitas vezes, semana após semana, de carro, levando qualquer pessoa que quisesse acompanhá-la. Mas ela insistia na idéia de fretar um ônibus e levar um grupo, talvez diversos grupos, a Pittsburgh. No outono daquele ano, Harvey adoeceu. Os médicos descobriram uma doença no pulmão e disseram a Maudie que era grande a probabilidade de ele morrer na mesa de cirurgia. A oração ainda era uma prática muito formal para os Phillips. Quando Maudie descreveu o caso, eles fizeram uma oração no "estilo da Igreja Unida" — da forma como ouviam nas orações de domingo, ou davam graças à mesa e repetiam a Oração do Senhor à noite. No entanto, quando o estado de Harvey foi descrito pelos médicos como crítico, Maudie se viu — pela primeira vez — conversando realmente com Deus. "Senhor, se tu o salvares, levarei um ônibus a Pittsburgh. " Harvey começou a melhorar no mesmo instante. Um dia depois de Harvey chegar do hospital, Maudie já estava com o ônibus fretado cheio de pessoas e pronta para ir a Pittsburgh. Só havia um ministro no grupo. O restante, segundo a descrição que Maudie fez, eram servas e servos — aqueles sobre os quais Deus havia prometido, no livro de Joel, derramar seu Espírito. Daquela época até a morte de Kathryn, quase seis anos depois, Maudie Phillips só perdeu cinco cultos em Pittsburgh. Ela organizou caravanas de ônibus fretados que saíam do Canadá e viu milhares de pessoas curadas e ganhas para o Senhor Jesus Cristo. Enquanto o número de canadenses nos cultos de milagres aumentava, o mesmo acontecia com as contribuições feitas por eles. Como as doações para a Fundação Kathryn Kuhlman com sede nos Estados Unidos não podiam ser deduzidas das declarações de imposto de renda dos canadenses, ficou óbvio que Kathryn precisava abrir um escritório no Canadá. E quem, naturalmente, estava mais apto para dirigilo do que a pessoa que Deus havia colocado no colo de Kathryn? Maudie Phillips. Entretanto, antes de Kathryn telefonar para Maudie e pedir-lhe que aceitasse o trabalho, o Espírito Santo falou com Maudie primeiro. Embora Maudie trabalhasse havia mais de quinze anos em uma posição 117


de responsabilidade na Automatic Electric Company, ela, de repente, se sentiu compelida a pedir demissão — por nenhuma outra razão que não a de sentir que o Senhor tinha algo reservado para ela. Assim, quando veio o telefonema da senhorita Kuhlman, Maudie Phillips já estava preparada para começar a trabalhar naquele instante, organizando a filial canadense da Fundação Kathryn Kuhlman, com sede em Brockville, próximo a Ottawa. Maudie começou a trabalhar logo. Ela tentou convencer Kathryn de que seus seguidores eram tantos entre os canadenses que eles precisavam de um culto de milagres na região de Ottawa. Ela sugeriu os 16 mil assentos do Ottawa Civic Center. Kathryn, sem dúvida, não se convenceu facilmente. Sentia-se à vontade com seus cultos em Pittsburgh e Los Angeles e hesitou em mudar-se, principalmente para aquela região baldia onde tantos ministérios haviam morrido à míngua — na região central do Canadá. Kathryn muitas vezes falou de um repetitivo pesadelo em que ela deixava o palco de um auditório estranho e encontrava o prédio totalmente vazio. Esse tipo de medo a levava a ser extremamente cautelosa, relutante a entrar em algum novo empreendimento sem que tivesse certeza de que ele seria um sucesso. Pois, fora aparecer no palco sem o Espírito Santo, nada a assustava mais do que o medo de aparecer no palco sem seu público. Mas Maudie estava determinada a convencer Kathryn a estabelecer-se no Canadá. O número crescente de canadenses que vinham a Pittsburgh, por fim, fez o fiel da balança pender para o lado de Maudie, e, com isso, Kathryn aceitou a idéia. Ela não só fez planos para visitar Ottawa, mas para fazer apresentações em três noites em Peterboro. Agora o peso da responsabilidade de repente caiu sobre os ombros de Maudie. Naquela noite, depois de Kathryn concordar em vir ao Canadá, ela foi para a cama e não conseguiu dormir. Ficou deitada ali, pensando: "Veja o que você fez. Você levou alguns ônibus a Pittsburgh e pôs-se a fazer o trabalho da fundação no Canadá, mas o que sabe sobre organizar um culto de milagres? Se Kathryn fizer essa longa viagem ao Canadá e ninguém aparecer nas reuniões, então o pesadelo dela se tornará uma realidade para você". Eram 2 horas quando, depois de dar alguns cochilos, ela, de repente, se viu bem acordada. Cada detalhe sobre como planejar e organizar o culto ficava passando por sua mente. Tomando cuidado para não acordar o marido, ela pulou da cama e desceu as escadas. Procurou por toda parte até encontrar um velho mapa de estradas do Canadá, abriu-o sobre a mesa da cozinha e, mais uma vez, fechou os olhos. Lembrou-se da visão que teve em sua mente ao ser despertada momentos antes. Na visão, vira um mapa com tachas e instruções detalhadas sobre como organizar uma caravana de ônibus vindos de todas as cidades afastadas. Abrindo os olhos, ela começou a fincar tachas no mapa e 118


escrever seus planos para o frete dos ônibus. Quando Harvey desceu para tomar o café da manhã, já tinha pensado em todos os detalhes. Tratava-se de um conceito completamente novo. Ela sabia exatamente de quantos ônibus precisaria e podia dizer, ao olhar para seus mapas, quantos ficariam lotados, quantos ficariam parcialmente cheios, de quantos ônibus adicionais precisaria, quantas pessoas ocupariam os assentos reservados, o tamanho da área que deveria ser reservada para cadeiras de rodas e quantos recepcionistas seriam necessários. Kathryn ficou impressionada. E foi assim que Maudie Phillips, a Avó Milagrosa, começou a viajar pelos Estados Unidos e Canadá, lançando as bases para os grandes cultos de milagres que aconteceriam em Chicago, St. Louis, Oakland, Seattle, Dallas, Miami, Atlanta, Las Vegas e em muitas outras grandes cidades. Era o começo de um ministério completamente novo para Kathryn — era dela, porque ela tivera a sabedoria de esperar.

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Capítulo 11 Olá! Você Estava Esperando por Mim? Todos, conforme parecia, em algum momento, gostavam de imitar Kathryn Kuhlman com sua voz singular e áspera quando ela aparecia na rádio, dizendo: "Oooolá! Você estava esperaaaaaando por mim?". Na televisão, os gestos dramáticos com as mãos; o modo como ela andava na ponta dos pés e com passos curtos e rápidos para trás no púlpito enquanto balançava um dedo no ar e dizia: "O Espíííííírito Saaaaaanto está aqui"; ou "Eu te dou glóóóóória; eu te louvo"; seu penteado da década de 1940... tudo fazia dela um tipo ideal de personagem que se adora imitar. Um judeu produtor de filmes de Hollywood era um dos grandes fãs de Kathryn. Ele dizia que ela possuía todas as qualidades de uma estrela de cinema, uma vez que era a única mulher no mundo que podia transformar a palavra "Deus" em quatro sílabas. Ela se tornou uma boa isca para os comediantes da televisão. Humoristas como Flip Wilson e Carol Burnett podiam fazer a casa vir abaixo com uma imitação ridícula de Kathryn Kuhlman. Kathryn sempre parecia gostar mais deles do que de qualquer outra pessoa. Ela sabia que a televisão e os humoristas de casas noturnas só escolhiam aqueles que tinham projeção nacional. E acredito que estivesse disposta a tolerar a humilhação de ter Carol Burnett caçoando dela só para desfrutar da notoriedade que pertence apenas às celebridades. Depois de Ruth Buzzi ter feito uma imitação realmente "diferente" da senhorita Kuhlman em Laugh In (impondo as mãos em melões em um supermercado), Kathryn enviou-lhe uma carta pessoal de apenas uma linha: "Ninguém gostou mais da sátira do que eu". Ruth respondeu enviando a Kathryn duas dúzias de rosas com caules altos. (Ruth nunca mais imitou Kathryn Kuhlman na televisão. ) Até aqueles, como nós, que a conheciam e a amavam não podiam deixar, se o assunto à mesa do jantar fosse Kathryn Kuhlman, de apontar o dedo e dizer: "E é exatamente assim!". Ou deixar, se o clima na reunião de oração fosse descontraído e informal, de murmurar com uma voz rouca: "Eu creeeiOOO em miiiilagres". Havia muitas teorias sobre a razão por que Kathryn falava daquela maneira. Algumas palavras sempre eram ditas com excessiva ênfase. "Jesus" era sempre "JÉÉÉÉsussss". E ela não conseguia falar do Espírito Santo sem estender seu nome: "O Espírito Saaaaanto". O mesmo acontecia com aqueles gestos dramáticos, principalmente quando ia para trás, apontava o dedo, abaixava o queixo, olhava para o braço, além da ponta 120


do dedo, e dizia com a determinação de Boulder Dam: "É isso! E não se esqueçam disso!". Kathryn gostava de dizer às pessoas que, quando criança, ela era gaga (como Moisés). Sua mãe, preocupada com isso, passava horas ensinando-lhe a falar corretamente, dizendo: "Agora, querida, fale devagar. Proooo-nun-ci-e as palavras claaaramente". "Esta é a razão por que falo tão devagar agora", Kathryn explicou a um repórter da revista People. "Muitas pessoas pensam que meu modo de falar está comprometido, mas é só meu jeito de vencer meu problema. " Isso fazia as pessoas se sentirem melhor. Todos amamos um vencedor, mas desprezamos um exibicionista. Na verdade, aqueles que a conheceram na infância diziam que ela sempre falava devagar, dramatizando excessivamente com seus gestos e acentuando sobremaneira as palavras, somente para chamar a atenção de seus ouvintes. Uma antiga colega de escola contou-me que, ao ouvir Kathryn na televisão, pôde fechar os olhos e ainda reconhecer aquela voz como a de uma garota ruiva travessa, de 15 anos, em pé diante da classe, balançando os braços, piscando os longos cílios, empinando o quadril e recitando: "Oh, Capitão! Meu Capitão!". "Quando a professora saía da sala", disse a colega de classe, "todas as crianças começavam a gritar: 'Kathryn, conte uma história para nós'. Ela era uma verdadeira contadora de histórias, e, por mais que ríamos de seus gestos dramáticos e do modo como pronunciava as palavras, sabíamos que ninguém podia divertir-nos da mesma forma que ela". Muitos anos depois, durante um dos grandes cultos de milagres no Shrine Auditorium, lá estava a irmã mais velha de Kathryn, Myrtle Parrott, sentada na galeria. Algumas jovens estavam sentadas atrás dela, e Myrtle ouviu o que elas falavam. — Ela é muito dramática — uma delas disse. — Não agüento toda essa encenação. — E o modo como estende as palavras. Que farsa! Ela deve ter ficado em frente ao espelho durante anos, tentando aperfeiçoar sua pronúncia. Era mais do que Myrtle podia suportar. Retorcendo-se em seu lugar, soltando fogo pelos olhos, ela disse: — Eu a conheço há mais tempo que vocês. Eu a conheço há mais tempo do que qualquer pessoa neste auditório hoje e quero que vocês saibam que ela sempre falou assim. Sempre. Ela realmente era gaga quando criança? Ou será que começou a falar assim em uma tenra idade, desenvolvendo uma técnica para entreter — uma técnica que ela nunca mudou, pois funcionava?

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Este é outro mistério que provavelmente ficará sem solução para sempre. Kathryn começava todo programa de rádio do mesmo modo: "Olá! Você estava esperando por mim? É muito gentil de sua parte. Eu sabia que você estaria aí". Talvez parecesse um clichê banal, mas era este toque acolhedor que a tornou admirável por uma geração inteira de ouvintes de rádio, muito tempo antes de a televisão dominar as ondas do ar. Na verdade, muitos ouvintes escreviam dizendo que, quando a voz de Kathryn surgia no rádio, perguntando se estavam esperando por ela, eles respondiam, em voz alta: "Oh, sim, Kathryn. Estou bem aqui". Como muitas outras coisas na vida de Kathryn, uma vez que encontrou uma fórmula viável, ela nunca mudou. No entanto, sua famosa histrionice, seu deliberado espetáculo de articulação e gestos dramáticos para surtir efeito, deixou-a vulnerável a imitações hilárias. Minha imitadora favorita era Catherine Marshall. Talvez porque a famosa autora fosse, basicamente, uma pessoa séria, ou talvez porque sua personalidade fosse apropriada. Ela podia imitar tão bem a voz de Kathryn na televisão que se podia pensar que a evangelista realmente estivesse na sala. Uma de minhas lembranças mais ternas é a do encontro entre as duas — Kathryn Kuhlman e Catherine Marshall. Catherine, a autora, e seu marido, Leonard LeSourd, que, naquele tempo, era editor da revista Guideposts, perguntaram se eu poderia apresentá-los a Kathryn. Os LeSourds haviam chegado a uma nova dimensão de sua vida espiritual e estavam profundamente interessados no ministério da senhorita Kuhlman — principalmente em sua ênfase no Espírito Santo. Além disso, Catherine estava trabalhando em seu livro Something more [Algo mais], no qual ela tinha a intenção de incluir um capítulo sobre cura. Segundo ela, o encontro com a senhorita Kuhlman seria útil. Kathryn estava igualmente ansiosa pelo encontro. Embora não acredite que ela tenha lido algum dos livros de Catherine, ficava impressionada com aqueles que chegavam ao topo do sucesso. E conhecer a famosa escritora, e seu talentoso marido, era simplesmente o tipo de ocasião de que ela gostava. Por isso, quando liguei para ela em Pittsburgh e disse que tinha a intenção de levar Catherine e Len ao culto de milagres em Miami na semana seguinte, ela agiu como se eu estivesse levando o rei e a rainha da Inglaterra. — Vá aos bastidores assim que vocês chegarem lá — ela disse rindo. — Venho esperando por isso há muito tempo. Estava garoando na tarde em que Jackie e eu pegamos Catherine e Len em sua casa na Flórida. Enquanto seguíamos para o sul, rumo a Sunshine State Parkway, os dois ficaram a importunar-me com perguntas. 122


Escritores são sempre pessoas curiosas que passam mais tempo fazendo perguntas e ouvindo do que contando histórias. — Você acha que o fenômeno de "cair sob o poder" é real? — Você acha que ela tem algum poder hipnótico? cura?

— Por que alguns são curados e outros voltam para casa sem a — Você acha que a fé desempenha um papel importante nas curas? — De quem é a fé — dela ou da pessoa que está sendo curada?

— Por que Deus escolheria uma pessoa como Kathryn Kuhlman, com todas as suas falhas óbvias? A única conclusão à qual pude chegar enquanto saímos da estrada no sentido do Dade County Auditorium foi que a cura, como o nascimento e a morte, é um assunto que diz respeito a Deus. É o fruto de seu amor e misericórdia, e não obra do homem, e que Ele pode escolher a quem bem lhe aprouver para transmitir seu poder de cura. Assim que chegamos ao auditório, a chuva que caía estava forte. Faltavam alguns minutos para as 17 horas quando saímos da rua Flagler e nos vimos do lado do auditório; o limpador de pára-brisas batia ritmadamente nas laterais cromadas de meu Chevrolet de quatro anos. "Uau!", ouvi Len dizer no banco traseiro; seguido pela observação mais objetiva de Catherine: "Meu bom Deus, veja isso!". A calçada, o gramado e a rua em frente do auditório estavam cheios de pessoas. Alguns conseguiam apertar-se contra o muro sob as calhas suspensas, mas a maioria — talvez outras 2 mil pessoas — estava em pé debaixo daquela pancada de chuva, esperando as portas se abrirem. Guarda-chuvas de muitos tamanhos, formas e cores estavam abertos, e algumas pessoas conseguiam amontoar-se debaixo deles. Outras ficavam em pé com a cabeça curvada sob jornais encharcados. A maioria estava ficando ensopada. E a multidão aumentava de tamanho à medida que as pessoas, tendo estacionado seus carros, corriam do estacionamento para juntar-se nas extremidades, espalhando-se pela grama, pelos canteiros e pela rua principal. Catherine estava na ponta do banco traseiro, com as mãos agarradas ao encosto do banco atrás de minha cabeça enquanto olhava pelo pára-brisa. — Duas horas antes de o culto começar, e essas pessoas já estão aqui fora, em pé, debaixo de chuva — disse, ofegante. — Você consegue imaginar as pessoas tentando entrar em nossa igreja presbiteriana assim? Len riu, surpreso.

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— Bem, talvez se as mesmas coisas acontecessem nos cultos de nossa igreja como as pessoas dizem que acontecem nesses cultos de milagres, teríamos os mesmos resultados. Estacionamos o carro e entramos por uma porta lateral que ficava próxima da entrada do palco. O coro já estava posicionado, e o dr. Metcalfe estava passando seus últimos compassos. O auditório parecia quase cheio, ocupado por aqueles que haviam vindo de ônibus fretados ou por pessoas em cadeiras de rodas e macas. Fomos para o camarim de Kathryn. Maggie veio ao nosso encontro na porta e deixou bem claro que éramos bem-vindos. Kathryn estava andando, como sempre. Ela se voltou rapidamente quando entramos e estendeu os braços. — Puxaaa! Deus abençoe vocês — ela disse sorrindo. Tudo o que eu podia fazer era observar. Ela usava um vestido de organza todo preto que tinha rendas grandes em volta da bainha da saia e nos punhos das mangas três-quartos. Seu vestido destacava-se graças a um cinto vermelho escuro de, pelo menos, 15 centímetros de largura, dando a impressão de que alguém poderia abraçar sua cintura com as duas mãos sem tocar os dedos no vestido. O laço fofo nas mangas destacava seus braços longos. Ela estava usando um bracelete de prata largo no pulso direito e, no pescoço, um caro adorno, parecido com esmeraldas entalhadas em pura prata. Usava meias pretas para combinar com o vestido preto e sapatos vermelho-escuros. Mas não foram as roupas que tiraram meu fôlego; foram os óculos. Ela estava usando o maior par de óculos que já vi. A armação vermelho-escura combinava com o cinto e os sapatos, mas os óculos propriamente ditos cobriam a metade superior de seu rosto e chegavam a 5 centímetros nas laterais. Ela parou por um instante com uma das mãos na cintura, com aquela típica postura descontraída bastante parecida com a que Betty Grable adotava quando posava na década de 1940. Embora tivesse mais de 65 anos, ainda podia fazer isso. Ficou naquela pose por alguns segundos e então estendeu as duas mãos para segurar a mão de Catherine. Repetiu aquele primeiro "Puxaaaa! Deus abençoe você". Seu rosto exibia um sorriso largo e os óculos. Então, ainda segurando firme a mão de Catherine com as duas mãos, ela deu meio passo para trás, como que para observar e admirar a pessoa que viera conhecê-la. — Ainda estou surpresa — disse com a voz subindo e descendo como as águas profundas que deslizam sobre as pedras em um rio. — Por que alguém como você teria vontade de vir aqui para me ver? Mas — ela riu de um modo rouco — estou muuuuito contente por isso. Catherine ficou parada ali, pasma, olhando para aqueles óculos enormes. Kathryn deu mais uma de suas risadas. 124


— Oh — ela disse, rouquenha —, só estou tentando ser discreta. Catherine deu uma gargalhada, e de repente as duas eram como velhas irmãs. Não ficamos no camarim por muito tempo e logo tomamos assento no auditório, onde não só pudemos ver o púlpito, mas também ter uma boa visão do que estava se passando nos assentos depois que os milagres começaram. Na verdade, Len e Catherine pareciam muito mais interessados em ver a reação do público enquanto as curas eram pedidas do que em observar Kathryn enquanto se movia de um lado para o outro no púlpito. Em várias ocasiões, olhei de relance para os dois e vi lágrimas. Era um espetáculo, sem dúvida, mas havia mais coisas envolvidas do que um simples espetáculo. O Espírito Santo também estava ali. Aquela foi a única vez em que as duas Kathryns (ou Catherines) se encontraram. Naquela noite, no caminho de volta para a casa dos LeSourds, depois de deixarmos Len no aeroporto de Miami para que ele embarcasse em um avião para Nova York, Catherine ficou séria e quieta. E, embora eu tenha estado com ela várias vezes depois daquele encontro, que eu saiba, ela nunca mais voltou a imitar sua famosa homônima.

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Capítulo 12 Histórias Não Contadas Embora não haja uma definição satisfatória para um milagre, Kathryn insistia em certos critérios convencionais antes de uma história de milagre poder ser publicada. Se as curas não passassem nesses testes, elas não seriam incluídas em seu livro. A doença ou lesão deveria ser orgânica ou estrutural por natureza — e deveria ter sido diagnosticada por um médico. A cura deveria ter acontecido rápida ou instantaneamente. As mudanças teriam de ser anormais, e não do tipo que poderia ser resultante de uma sugestão. Todas as curas teriam de ser constatadas por um médico — de preferência, por mais de um médico. Pelo menos, um dos profissionais deveria ser o médico particular do paciente. A cura deveria ser permanente ou, pelo menos, de duração suficiente para que não fosse diagnosticada como uma "remissão". Uma vez que seguíamos à risca esse padrão, muitos milagres espetaculares nunca foram relatados em seus livros. Havia o caso de George Davis, por exemplo, ex-supervisor do Serviço de Educação Vocacional do sistema escolar de Filadélfia. Davis, que se formou pela Universidade de Nova York, pela Universidade de Temple, pela Universidade da Pensilvânia e pela Universidade de Villanova, foi o primeiro consultor negro da Escola do Distrito de Abington. Eu o entrevistei em sua confortável casa dos subúrbios, no norte de Filadélfia, e o achei um dos homens mais agradáveis que já conheci. Sua cura enquadrava-se na categoria de cura "clássica". Esforçando-se para ter sucesso — vencer em um mundo dominado por brancos —, Davis desenvolveu um sério problema cardíaco. Seu cardiologista do Abington Memorial Hospital o diagnosticou como um infarto do miocárdio. A válvula que permitia o sangue correr entre os dois ventrículos de seu coração não estava funcionando adequadamente. Era um problema muito parecido com aquele que contribuiu para a morte de Kathryn muitos anos depois. Davis conviveu com essa situação por quase um ano — embora tenha tido vários ataques cardíacos e quase morrido — até o cardiologista decidir regular o batimento cardíaco inserindo um marca-passo. O dispositivo eletrônico de aço inoxidável era quase do tamanho de um isqueiro Zippo. Por meio de uma cirurgia, esse dispositivo foi colocado do 126


lado esquerdo do seu peito, na cavidade abaixo da clavícula. Havia um tubo estendido por sobre o pulmão que ia até o coração. Uma pequena bateria no marco-passo fornecia uma carga elétrica que enviava constantes impulsos para o coração, mantendo o batimento regular. Oito meses após a cirurgia, Davis foi visitar o pai em Donora, Pensilvânia, um subúrbio de Pittsburgh. Seu pai, que era um dos introdutores nos cultos de milagres de Kathryn, o encorajou a participar também. Davis relutou; ele não era muito religioso. Entretanto, convencido de que seu pai havia passado por uma mudança genuína, finalmente concordou em ir ao culto. No encerramento do culto, a senhorita Kuhlman andou pelo corredor, orando pelas pessoas. Ao aproximar-se de Davis, ela impôs a mão sobre a cabeça do rapaz e continuou a andar. Davis caiu de sua cadeira e ficou no chão, sem poder se mexer. Enquanto estava "sob o poder", ele sentiu uma terrível queimação no peito, uma dor muito parecida com a que havia experimentado em seu primeiro ataque cardíaco — um ano e meio antes. Uma mulher que estava perto abaixou-se e disse: — Isso não é um ataque cardíaco. Você está sendo curado. Este é o poder de Deus passando em você. Tudo o que Davis pôde dizer foi: — Espero que seja. A dor finalmente diminuiu, e Davis pôde arrastar-se até a cadeira para esperar o encerramento do culto. Mas sua vida foi transformada, espiritualmente, a partir daquele momento. Naquela noite, na casa de seus pais em Donora, ele tomou um banho e se secou diante do espelho. De repente percebeu que algo estava diferente. A cicatriz em seu peito, onde o marca-passo tinha sido inserido, havia desaparecido. No entanto, ele estava cansado, e a luz estava fraca. Por isso, tratou de tirar a idéia da mente. Na manhã seguinte, no entanto, ele tornou a se examinar e viu que a cicatriz havia desaparecido. Não só isso, mas, ao pressionar os dedos sobre o tecido de seu peito, não pôde mais sentir o marca-passo. Davis hesitou em voltar ao seu médico. Mas, por fim, três semanas depois, decidiu que deveria fazer um exame médico completo. Durante esse período, ele ganhou peso e se sentiu mais forte do que se sentia há anos. Quando o cardiologista o examinou, o coração estava perfeito. Davis então explicou o que havia acontecido. Para sua surpresa, o médico reagiu com raiva. Ele logo solicitou um exame fluoroscópico. Quando o marcapasso não foi encontrado, o médico acusou Davis de tê-lo tirado. Confuso, Davis perguntou: — Se havia uma cicatriz quando ele foi implantado, não deveria haver uma cicatriz se alguém o tivesse tirado? — Em seguida, acrescentou: 127


— Vou dizer. Foi o bom Senhor que o tirou — e removeu a cicatriz também. O médico, agora enfurecido, disse que não gostava quando as pessoas adulteravam seus procedimentos. Davis tentou argumentar, dizendo que "Deus não é uma pessoa qualquer", mas o médico estava muito nervoso para ouvir. Ele ordenou que fossem feitos raios X completos no hospital, desde a planta dos pés de Davis até a sua cabeça. O marca-passo havia desaparecido. Na semana seguinte, Davis foi a uma consulta marcada no hospital, onde foi examinado por uma equipe de cardiologistas, incluindo um professor de medicina de Harvard. Todos foram unânimes em afirmar que aquele era o caso mais incomum que já haviam testemunhado. No entanto, quando Davis pediu ao seu cardiologista um atestado para confirmar que o marca-passo tinha sido implantado e que, depois, no exame, desaparecera, o médico perdeu a paciência. — Você quer fazer com que eu seja motivo de chacota entre todos os profissionais de medicina, não é? Não lhe darei um atestado e o proíbo de mencionar meu nome em alguma coisa que você tenha a dizer. Se tentar, o levarei ao tribunal. O dr. George Johnston, de Filadélfia, um médico consultado durante o primeiro ataque cardíaco de Davis, no entanto, estava disposto a atestá-lo. Ele disse: — Posso confirmar que Davis teve um ataque cardíaco, que um marca-passo foi implantado em seu corpo e que agora esse marca-passo e a cicatriz resultante de uma incisão de quase 13 centímetros desapareceram. Está tudo registrado. Kathryn pediu a Davis que aparecesse em seu programa de televisão, mas, visto que a história não atendia a um de nossos critérios — o médico encarregado do caso não queria confirmar a história —, optamos por não usá-la em seus livros. A história ainda não foi contada. Até agora. Poucos médicos reagiram como o médico de George Davis. Muitos, na verdade, ficaram ávidos por documentar os milagres, sem se sentirem ameaçados pela interferência de Deus em "seu" trabalho. Um deles foi uma médica do sul da Pensilvânia, que, na verdade, levou uma de suas pacientes a um culto de milagres para receber a cura. Entretanto, como a garota, embora curada, nunca pôde superar seus problemas morais, Kathryn decidiu omitir a história de seus livros. Uma jovem dona de casa tinha esclerose múltipla. Esta é uma terrível doença que ataca os músculos e nervos, muitas vezes levando o corpo a assumir formas estranhas e causando violentas convulsões. O paciente muitas vezes fica confinado a uma cadeira de rodas e, uma vez

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que não se conhece cura pela medicina, ele, por fim, morre por causa da doença. Isto é, a menos que haja a intervenção de Deus. Este caso era, sobretudo, patético. Não só a mulher tinha filhos pequenos, mas o marido se aproveitava de sua doença para manter um caso com outra mulher. Em diversas ocasiões, ele trazia sua amante para casa e a levava para o quarto dos fundos, sabendo que a esposa não poderia segui-los porque as portas eram muito estreitas para sua cadeira de rodas. Arrasada, física e espiritualmente, ela teria morrido, não fosse seu médico, um luterano cheio do Espírito, que interveio e teve um interesse pessoal. O médico, que havia ouvido falar dos cultos de milagres em Pittsburgh, convenceu a jovem senhora a acompanhá-lo até Pittsburgh. Esta era sua única esperança, disse o médico. Os dois partiram em um dos ônibus fretados. O médico ficou com ela o tempo todo, ajudando-a a subir os degraus da igreja, um a um, com as pernas da paciente presa em aparelhos de aço pesados. Durante o culto, a perna da mulher começou a tremer. Ela tirou o aparelho e percebeu que poderia usar aquela perna. O médico acompanhou-a até o púlpito. Enquanto estava conversando com a senhorita Kuhlman, a jovem mulher "caiu sob o poder" sobre a plataforma. Ao levantar-se, ela tirou o outro aparelho e pôde sair do púlpito andando normalmente. Desde que aquela mulher ficara paralítica da cintura para baixo, tinha perdido o controle sobre a bexiga. Usava um cateter urinário, preso a um saco plástico, amarrado na parte interna de sua coxa, havia mais de um ano. O médico sabia que o verdadeiro teste de sua cura viria quando ela removesse o cateter. Vencido pela insistência da mulher, imediatamente se dirigiram ao toalete da Primeira Igreja Presbiteriana, onde o médico, usando um par de fórceps que ela havia levado consigo "só para garantir", retirou o cateter. A mulher pôde urinar normalmente e voltou para sua cidade, curada. A esclerose múltipla é uma estranha doença e muitas vezes apresenta remissão, permitindo ao paciente funcionar normalmente por um curto espaço de tempo. No entanto, uma vez que a doença chega ao estágio da "cadeira de rodas", raramente há alguma remissão. Contudo, seis anos depois de ter ido ao culto de milagres, a mulher não mostrava sinais de esclerose múltipla. Não só seu médico, mas os médicos de Baltimore confirmaram a cura total. Entretanto, em vez de submeter sua vida a Deus, a jovem mulher, agora divorciada do marido, caiu na imoralidade. Fisicamente, ela havia sido curada, mas, psicologicamente, ainda era aleijada. Kathryn e o médico concordaram em não publicar a história. "Devemos ter muito cuidado para não envergonhar o Espírito Santo", advertiu Kathryn. Foi uma das poucas vezes que discordei dela. Para mim, o Espírito Santo era capaz de cuidar de si mesmo. Além disso, eu achava que a história ilustrava um ponto extremamente válido — que Deus não faz acep129


ção de pessoas. Sua misericórdia e graça — como a chuva do céu — caem sobre os justos e os injustos, sobre os pecadores e os santos. Kathryn concordava com minha opinião, mas não arredou pé. Assim, a história não foi contada. Até agora. Talvez as histórias mais emocionantes foram aquelas contadas pelos próprios médicos. A dra. Cecil Titus, do St. Luke Hospital, em Cleveland, disse que o pé torto de uma garota de 10 anos "endireitou diante dos seus olhos enquanto a senhorita Kuhlman orava". O dr. Kitman Au, de Burbank, Califórnia, um radiologista, contou ao repórter de um jornal: "Vi curas nos cultos de Kathryn Kuhlman que eu, como médico, só posso atribuir a algo além do poder humano". E o dr. Richard Owellen, o especialista em pesquisas de câncer da Universidade Johns Hopkins, falou de sua experiência de segurar o filho pequeno nos braços em um culto de milagres e ver o quadril deslocado da criança girar, sob o poder do Espírito Santo, até ficar são e no lugar. Uma das cartas mais carinhosas da senhorita Kuhlman veio do dr. E. B. Henry que exerceu a medicina em Pittsburgh até sua morte em 1963, aos 73 anos. Ele escreveu: "Esta carta é uma expressão de gratidão e um pedido de desculpas: gratidão a Deus e à senhora (que Ele sempre a abençoe) e um pedido de desculpas por eu não reconhecer uma cura quando ela estava acontecendo. Tentarei ser o mais breve possível nesta carta, por isso aqui segue o relato "nos mínimos detalhes" [... ] Sábado, 18 de novembro [1950], foi um dia difícil para mim. Trabalhei arduamente o dia todo até às 17h30. Cheguei em casa para jantar depois das 18 horas. Às pressas, preparei-me para ir a Franklin. Lá no hotel, dormi pouco por causa de uma dor no osso, devido a uma velha fratura da clavícula direita, que não estava curada, mas havia formado uma falsa junta com um calo em torno dela que tinha quase o tamanho de uma noz. Doía tanto que eu só conseguia vestir meu casaco com dificuldade, e minha mão tremia quando eu tentava levantar o braço direito. Eu lhe garanto que a dor do meu pescoço para baixo até o pulso era realmente forte. Segunda-feira de manhã: acordado novamente às 6 horas para tomar o café e chegar ao Templo da Fé antes das 9 horas. Quero que a senhora saiba que eu realmente não pensava em receber uma cura. Sempre pude suportar a dor, por isso minha maior preocupação era com minha esposa, cujo seio esquerdo havia sido removido em abril por conta de um carcinoma de células em anel de sinete (um tipo bastante maligno), e meu medo era de que ela tivesse uma metástase. Durante os momentos de cura, a senhora começou a declarar que havia uma "cavidade se abrindo. Alguém está recuperando a audição de um ouvido" (eu era surdo do ouvido direito havia, pelo menos, quinze 130


anos). A senhora continuou: "Vejo um tumor do tamanho de uma noz começando a se dissolver". Minha esposa cutucou-me e sussurrou: "Ela se refere a você", mas eu, pensando nela, não sentia nada senão uma queimação no meu ouvido direito que, a meu ver, era o resultado de uma sugestão mental. Então a senhora disse: "Este é homem. Não quero que você perca esta cura. Por favor, fale alto". Posso ver ainda como a senhora olhava seriamente em nossa direção, acenando a mão esquerda quase que diretamente para o nosso grupo e, ao mesmo tempo, batendo no púlpito com seu punho direito. Minha esposa continuou a me cutucar, mas, mesmo quando a senhora disse que o homem sentia uma queimação no ouvido, não pude acreditar que eu estava sendo curado. Afinal, não havia pedido nada para mim. Estava acostumado com a surdez de meu ouvido direito e nem pensava nisso. Fiz a viagem de quase 140 quilômetros de volta para casa debaixo de chuva, uma condição arriscada para a minha sinusite. No caminho, minha esposa continuou a falar comigo com o mesmo tom de sempre. Ela estava sentada ao meu lado, à minha direita. Então, chamou-me a atenção para minha capacidade de ouvi-la, e ambos percebemos que eu não lhe pedia que repetisse o que dizia. Assim que chegamos em casa, tive, de repente, de assoar o nariz. A cavidade do nariz estava aberta, e a dor havia desaparecido. O nariz continuou a escorrer livremente a noite toda. Dormi bem a noite inteira, e, pela manhã, o nariz já não escorria mais, e eu estava sem dor. Para aumentar meu espanto, descobri que podia mover normalmente meu braço direito, sem dor. Não posso dizer que a audição de meu ouvido direito está perfeita. Mas não preciso virar a cabeça para usar o ouvido esquerdo para ouvir minha esposa nem pedir a ela que repita o que disse. Talvez o restante de minha audição volte aos poucos. " O dr. Martin Biery, cirurgião especialista em medula espinhal, era visto com freqüência na plataforma do Shrine Auditorium. Ele fazia parte da equipe do Hospital de Veteranos, em Long Beach, Califórnia. "Com os meus olhos", disse o dr. Biery, "vi o que é, do ponto de vista médico, impossível acontecer várias vezes. Vi artríticos, cuja espinha estava paralisada, ficarem libertos no mesmo instante, mexerem-se e curvarem-se em todas as direções, sem dor. Uma perna que não se desenvolvera por causa de uma pólio alongou visivelmente diante dos meus olhos enquanto a senhorita Kuhlman orava. Um menino com osteocondrite no joelho — uma inflamação crônica causada por uma lesão durante o futebol — não conseguia dobrar o joelho havia anos. Quando o examinei, ele tinha uma perfeita flexão do joelho. Como médico, considero essas curas como milagres".

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A dra. Viola Frymann, de La Jolla, Califórnia, outra médica, era constantemente vista no palco do Shrine. Ela relatou inúmeros milagres que testemunhou, inclusive o de uma criança com um coágulo de sangue no nervo óptico que recebera a visão. Outra criança, cujos braços e pernas estavam paralisados por causa de uma paralisia cerebral, foi curada diante de seus olhos. "Minha esperança é a de que uma consciência da realidade de tal cura espiritual permeie a profissão médica", ela disse ao repórter canadense Allen Spraggett. Em 1969, sentei-me ao lado do dr. Robert Hoyt, no palco do Shrine Auditorium. O dr. Hoyt, um diplomado pelo Conselho NorteAmericano de Patologia, fazia parte da equipe da escola médica da Universidade de Stanford e freqüentemente viajava de San Francisco para participar dos cultos. Uma longa fila de pessoas havia se formado até o palco; elas esperavam sua vez para dar testemunho de curas. Bem à nossa frente, estava uma senhora, com seus 70 e tantos anos, usando um par de óculos com aros. Uma das lentes estava coberta. Ela disse à ajudante, que tentava manter as pessoas em fila reta, que havia sido curada de uma terrível bursite em um dos ombros, mas que sua vista direita ainda estava cega. Embora estivesse sussurrando para a assistente, a senhorita Kuhlman, que estava a cerca de 1 metro de distância, não podendo, de forma alguma, ter ouvido os sussurros em meio a todo aquele barulho, de repente se virou. Apontando para a nossa direção, ela disse: "Há alguém aí que está sendo curado. É uma cura em um dos olhos. Está acontecendo neste exato momento". Havia tantas curas que eu estava em um estado de semichoque. Mas ergui os olhos a tempo de ver aquela lente tampada, e sem que ninguém a tocasse, de repente, saltar da armação e cair no chão. O dr. Hoyt estava ofegante. "Você viu aquilo?!", ele sussurrou. Um tanto impressionado para responder, só pude balançar a cabeça. É claro que o dr. Hoyt não estava me observando. Ele estava observando a mulher, que, atordoada e perplexa, tentava achar seus óculos. Foi então que ela percebeu. Ela podia ver. Havia recuperado a visão. Alguém pegou a lente tampada e a entregou a ela. Ela deixou o palco titubeando e foi para o seu lugar, um tanto deslumbrada para tentar compreender o que havia acabado de acontecer. Kathryn, sem saber do milagre, não parou o tempo suficiente para perguntar se havia acontecido alguma coisa, mas voltou-se para a congregação e continuou a pedir outras curas. Ao recuperar a fala, quis dizer algo ao médico que estava sentado ao meu lado. Mas, quando me virei, vi que ele estava com as mãos no rosto, chorando. A história ainda não foi contada. Até agora. Um dos itens mais valiosos em meu estúdio é uma caixa escura, com moldura dourada, contendo um conjunto caro de fórceps cirúrgicos, antes usado por uma habilidosa oftalmologista em Dallas, Texas, em cirurgias delicadas no olho. Kathryn deu-me o conjunto um ano antes de 132


morrer, junto com uma carta da ex-proprietária, a dra. Elizabeth R. Vaughan. "Fique com elas", Kathryn disse com muito carinho. "São preciosas para mim. Quem sabe um dia você queira escrever uma história." A carta fora escrita no Natal de 1974, às 5h30. "Querida Kathryn: Estou escrevendo esta carta antes de meus filhos acordarem nesta manhã de Natal porque quero que você seja a primeira pessoa a receber um presente no aniversário de nosso Senhor. Há três semanas, perguntei ao Senhor o que você gostaria de ganhar no Natal que ninguém soubesse e que atenderia aos desejos do seu coração. Esses fórceps dentados de 0,12mm foram a resposta do Senhor. Deixe-me explicar o que isso significa. Durante os últimos quatro anos e meio, usei esse instrumento em cada cirurgia de catarata que o Senhor e eu realizamos. Ele é indispensável para mim. Tem três dentes na ponta com 0,12mm de comprimento. Você precisará de uma lente de aumento para ver esses dentes também. Eles são usados a fim de prender o tecido para que uma agulha possa ser passada por eles enquanto o instrumento é segurado com firmeza, mas com delicadeza. Os dentes devem estar perfeitamente alinhados para que o tecido fique preso adequadamente. Se estiverem mal alinhados, ainda que um milímetro, você pode jogá-los fora, pois não prenderão mais da maneira necessária. Esse instrumento e sua função são importantes porque é usado para fechar a lesão depois de a catarata ser removida. O olho fica bem aberto e não deixa margem para erro na cirurgia ou no instrumento. Se esse instrumento não estiver prendendo adequadamente, e o olho aberto sofrer alguma pressão, o que está lá dentro do olho poderá ser comprimido e a visão do paciente ficará comprometida, senão perdida totalmente. Essa cirurgia é inteiramente realizada por meio de um microscópio sob uma excelente lente de aumento. Esses fórceps devem prender uma espessura de 5mm do tecido e segurá-lo firme o suficiente para que uma agulha seja passada por eles, sem exercer nenhuma pressão sobre o olho aberto. Eu adoro esse instrumento de precisão. Ele foi muito útil e esteve presente em muitas cirurgias milagrosas que o Senhor realizou. Funcionou perfeitamente durante quatro anos e meio, e agora quero que você fique com ele nesta manhã de Natal. Tem por objetivo servir-lhe como um lembrete de nosso Pai celestial; esse instrumento esteve em minhas mãos assim como você está nas mãos do Pai.

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Você é para Deus como estes fórceps de 0,12mm, prendendo com dentes finos e perfeitamente alinhados aquilo que Ele deseja que você prenda no momento. Você começou como um pedaço de metal sem forma ou serventia, e, ao submeter-se à vontade de Deus e morrer para sua própria vontade, Ele pôde transformá-la em um instrumento de precisão perfeito em suas mãos. Você é exatamente o que Ele deseja que seja. Ele não quer que você seja uma tesoura ou um instrumento para extrair a catarata. Ele intentou, desde o começo, que você fosse um fórceps com dentes de 0,12mm — segurando o tecido para que o Grande Médico pudesse dar os pontos e operar a cura. Não são muitas as pessoas neste mundo tão submissas a ponto de Deus fazer delas exatamente o que Ele quer que sejam, mas você é. Nosso Pai deseja que você saiba, no aniversário de seu Filho, que Ele a ama além de palavras e que muito lhe apraz ter um instrumento de precisão como Kathryn Kuhlman à disposição dele para que possa usá-lo como quiser. Amém e amém! Beth Vaughan"

Esta história (muito melhor escrita do que qualquer biógrafo poderia escrever) sobre o propósito do Pai em usar a garota ruiva e sardenta de Concórdia, Missouri, ainda não tinha sido contada também. Até agora.

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Capítulo 13 Adorando no Santuário Todo homem — e toda mulher — tem um momento em sua carreira no qual sabe que ou avança, ou fica para trás. No livro de Êxodo, há uma fascinante história sobre Deus conduzindo seu povo pelo deserto do Sinai com uma nuvem sobre o tabernáculo. Uma vez que a nuvem ficasse imóvel, o povo poderia ficar onde estava. Mas, quando a nuvem se movia, era hora de desfazer as tendas, juntar as ovelhas e cabras dos riachos e das encostas das montanhas, e seguir debaixo da nuvem. A nuvem de Kathryn começou a se mover novamente em 1965. Dez anos antes, o evangelista C. M. Ward, da igreja Assembléia de Deus, havia profetizado para Ralph Wilkerson, um jovem pastor da Califórnia, o seguinte: "Ralph, duas coisas vão acontecer no reino. Haverá uma grande e nova ênfase no ensino bíblico. E, segundo, haverá uma grande evangelista que virá para a Costa Oeste". Ralph apegou-se às profecias. Nunca lhe ocorreu que Deus talvez quisesse usá-lo como o instrumento para cumprir uma dessas profecias. A igreja de Ralph, Anaheim Christian Center, era uma congregação que crescia e prosperava. Seu ministério de cura (ele vinha realizando cultos de milagres havia dez anos) era bem conhecido na região. Os milagres aconteciam todas as semanas. Além disso, a igreja estava patrocinando grandes reuniões e cruzadas, usando o Anaheim Convention Center. David Wilkerson (sem nenhum parentesco com Ralph), fundador do ministério Desafio Jovem, foi o principal pregador em várias cruzadas. Ao mesmo tempo, David também estava trabalhando com Kathryn em Pittsburgh, Pensilvânia, e em Youngstown, Ohio. Kathryn estava impressionada com o jovem pregador e autor do famoso livro A cruz e o punhal e o ajudava a angariar fundos para seus projetos de reabilitação de drogados, deixando-o pregar no Stambaugh Auditorium e em reuniões de jovens na mesquita dos sírios em Cleveland, Ohio. David começou a incentivar Ralph — que não conhecia Kathryn — a convidá-la a ir a Los Angeles. Fazia vários anos que Ralph dirigia uma reunião de oração na mansão de um presbítero da Igreja de Cristo, na cidade vizinha de San Clemente. Em 1964, os homens do grupo de oração, que eram mais de 200, concordaram com Ralph em orar para que Deus enviasse Kathryn Kuhlman para o sul da Califórnia. Kathryn não sabia de nada, é claro. No final do verão, Ralph sentiu que era tempo de conhecer Kathryn pessoalmente e pediu a David Wilkerson que cuidasse dos 135


preparativos para a reunião. Ele e a esposa, Aliene, foram a Pittsburgh. Como Kathryn, Ralph era cauteloso e sentia necessidade de uma análise detalhada. Em vez de ir conhecer Kathryn assim que chegaram, ele e Aliene foram a Youngstown, para participar de uma das reuniões de domingo e tentar ter uma "impressão" do ministério de Kathryn. "Posso estar enganado sobre tudo isso", Ralph disse a Aliene enquanto os dois estacionavam o carro no pátio lotado próximo ao grande auditório. "Esta é a razão por que quero checar as coisas antes de dizer algo. Já temos 'malucos' de sobra na Califórnia para sermos responsáveis por convidar outro. " Os Wilkersons entraram no Stambaugh Auditorium, de 2. 500 lugares, uma hora antes do início do culto. O prédio já estava lotado. O coro masculino estava ensaiando sob a batuta de Arthur Metcalfe. Maggie Hartner estava ocupada com a escola dominical. O prédio tinha certo aspecto de circo. A barraca de cachorro-quente estava aberta, e as pessoas comiam lanches e tomavam café no andar térreo. Aquilo não parecia uma "igreja" — pelo menos, não no sentido com o qual os Wilkersons estavam acostumados. "Mas quando Kathryn apareceu e o culto começou", disse Ralph, "eu sabia que estávamos na presença de Deus. Cantamos os mesmos hinos e cânticos que cantávamos na Costa Oeste. As pessoas levantavam as mãos e se sentiam livres para adorar. A liturgia ali era a mesma com a qual eu estava acostumado, sem boletim impresso, mas deixando que o Espírito Santo conduzisse. Kathryn pregou o mesmo tipo de mensagem que eu pregava. E houve milagres. Deus estava naquele lugar". Ao lembrar-se daquela manhã, Ralph disse rindo: "Eu soube que estava no lugar certo quando, enquanto estávamos em pé cantando, uma senhora de quase 140 quilos, bem à minha frente, caiu no Espírito e tombou para trás. Ela quase me esmagou". No dia seguinte, Ralph andou pelas ruas do centro de Pittsburgh, de escritório em escritório, perguntando às pessoas o que achavam de Kathryn Kuhlman. Ele ouvia a mesma coisa em todos os lugares aos quais ia. "Bem, primeiro, é claro que ela ajudou muitos alcoólatras... Grande parte do coro masculino é formado de ex-alcoólatras... Minha esposa foi curada no culto de Kathryn... Fechamos a loja nas sextas-feiras de manhã para podermos participar do culto de milagres... " Impressionados, Ralph e Aliene finalmente chegaram ao escritório do Carlton House. Ele compartilhou seu sonho e fez seu convite. Tinha certeza de que Deus havia falado. Kathryn sorriu para ele. "Por que eu deveria ir? Tenho muita gente aqui em Pittsburgh. Além disso, lá está o cemitério, todo o glamour de Hollywood. Sou apenas uma garota do campo que veio de Missouri. Não estou interessada".

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Ralph estava determinado. "Acho que você ficará interessada quando orar a respeito. Vou voltar para pedir aos nossos homens que redobrem as suas orações. " No início de 1965, Oral Roberts telefonou para Aliene Wilkerson de Cleveland, Ohio, onde estava realizando uma cruzada. A mãe de seu organista havia falecido, ele disse, e precisava muito de alguém que tocasse o órgão em seus cultos. Ele percebeu que estava em cima da hora, mas será que Aliene deixaria tudo e viajaria até Cleveland para tocar? Ela conversou com Ralph. Ele concordou, mas insistiu que ela passasse em Pittsburgh e, mais uma vez, convidasse Kathryn para vir à Califórnia. "Não desista até que ela aceite o convite", ele disse. Aliene ficou com Kathryn em Fox Chapel. Todas as noites, ela telefonava para casa. "Ralph, ela ainda se recusa a ir. " Todas as manhãs, ela dizia a Kathryn: "Conversei com Ralph ontem à noite. Ele ainda insiste, dizendo que Deus quer que você vá à Califórnia". A resposta de Kathryn era sempre a mesma: "Tenho muita coisa para fazer aqui. Não quero expandir este ministério". Mas a nuvem estava se movendo, e Kathryn sabia disso. Ficar para trás simplesmente porque ela se sentia confortável significava correr o risco de perder o contato com o Espírito Santo. Ela não tinha outra escolha senão ir à Califórnia. No quarto dia, ela chamou Aliene e disse: "Tudo bem. Acho que isso é de Deus. Vou à Califórnia. Mas só para uma reunião. Nada mais. Só uma". Aquela reunião foi realizada no auditório municipal de Pasadena. Kathryn era quase desconhecida na Costa Oeste, por isso grande parte das 2. 500 pessoas que participaram do culto era do Anaheim Christian Center — inclusive os introdutores e o coro. Mas nem todos. Muitos vieram de outras igrejas, e alguns simplesmente porque ficaram curiosos. Como sempre, houve milagres. "Eu estava em pé ao lado de uma mulher que usava braçadeiras nas duas mãos", disse Ralph Wilkerson. "Seus braços e pulsos estavam tortos por causa da artrite. Durante o culto de milagres, ela gritou. Eu olhei e vi suas mãos estalarem e entrarem no lugar. mãos."

"Meu Deus', ela disse, ofegante e espantada. Veja as minhas

Ralph, mais tarde, descobriu que ela era uma influente líder da Primeira Igreja Batista de Fullerton. Ela foi para casa e, no dia seguinte, pintou toda a casa por dentro — foi a primeira vez que pôde usar as mãos depois de anos. Não demorou muito para que o sul da Califórnia fervesse de comentários sobre o culto de milagres — e sobre Kathryn Kuhlman. 137


A despeito de sua intenção de realizar "só um" culto na Califórnia, Kathryn agora reconhecia a intenção de Deus de ter um ministério permanente ali. E, no terceiro culto em Pasadena, o centro de convenções não pôde conter as multidões. Centenas iam embora. Muitos, no entanto, atraídos pelos relatos de milagres, ouviam o evangelho pela primeira vez — e nasciam de novo. Ralph estava preocupado porque Kathryn não tinha um ministério de acompanhamento aos decididos. Ela vinha para a cidade, realizava seu culto de milagres, fazia um apelo ao qual centenas de pessoas respondiam, orava por elas e então deixava a cidade. Conhecendo o ministério de Billy Graham, cujo trabalho de acompanhamento estava muito ligado às igrejas locais, Ralph começou a dar sugestões a Kathryn. "Precisamos fazer com que esses novos cristãos se envolvam em estudos bíblicos", ele disse. "Eles precisam estar nas igrejas, onde poderão ter comunhão e ouvir a Palavra de Deus. Os milagres são maravilhosos, Kathryn, mas você mesma sabe e diz que nascer de novo é mais importante do que ser curado. Não está certo gerar filhos e depois deixá-los nas ruas. Eles precisam de alimento, proteção e orientação, que são coisas que só acontecem por meio do corpo de Cristo". Kathryn estava diante de uma das maiores frustrações de sua vida. Ela queria ser conhecida como uma mestra na Bíblia, e não como uma operadora de milagres. Todos os seus seguidores em Youngstown a chamavam de "pastora". As pessoas que com ela conviviam ouviram-na dizer muitas vezes que achava que seu primeiro chamado fosse o de ensinar a Bíblia. E quando ela dispunha de tempo para estudar sua Bíblia, e preparar suas mensagens, era insuperável. Foi só nos últimos anos, quando a agenda dela ficou tão apertada por realizar cultos de milagres em uma cidade diferente a cada semana por todo o país, que sua pregação foi prejudicada. Antes disso, seus programas de rádio eram o tipo de alimento que saciava os famintos. Os ouvintes, às centenas de milhares, estavam sintonizados todos os dias, não porque haviam estado em seu culto de milagres — pois a maioria deles não havia estado —, mas porque ela os estava alimentando com a Palavra de Deus. Seus estudos bíblicos às segundas-feiras à noite na Primeira Igreja Presbiteriana de Pittsburgh eram freqüentados por alguns dos estudiosos da elite da cidade, que, com satisfação, se sentavam aos seus pés e aprendiam. Kathryn sabia da necessidade de alimentar os novos cristãos, mas ela estava frustrada no sentido de como fazê-lo estando tão distante de casa. De volta a Pittsburgh, o pessoal dela dava o dízimo da renda deles ao que ela chamava de "ministério". Eles participavam dos cultos de domingo em Youngstown, do culto de sexta-feira pela manhã no Carnegie Hall e do estudo bíblico de segunda-feira à noite na Primeira Igreja Presbiteriana. Ela os conhecia nominalmente. Havia batizado muitos deles no grande culto de batismo ao ar livre em um lago próximo. Havia casado os filhos dessas pessoas e realizado o funeral de seus entes queridos. Podia dizerlhes que precisava de mais 100 mil dólares para um projeto missionário 138


na Indonésia que eles levantariam essa quantia. Mas, na Califórnia, era uma estranha que vinha à cidade uma vez por mês a fim de realizar um culto de milagres. Ela estava frustrada. Kathryn deu ouvidos a Ralph. Muitos dos que estavam à sua volta tinham oferecido conselhos quando, na verdade, estavam tentando usá-la — para promoverem seus próprios programas. Kathryn estava disposta a ouvir, mas não a novatos. E havia poucas pessoas de sua classe. Entretanto, ao reconhecer Ralph como um pastor bem-sucedido, ela estava disposta a seguir suas sugestões. Pelo menos, concordou em tentar. Ralph apresentou-a ao dr. Charles Farah, um teólogo presbiteriano que havia trabalhado com os Navegadores, uma organização de treinamento em discipulado que se dedica a ensinar a Palavra de Deus aos novos convertidos. Seguindo a sugestão de Ralph, Kathryn contratou o dr. Farah para organizar seu trabalho de acompanhamento na Costa Oeste. Era uma boa idéia. Infelizmente, Kathryn foi incapaz de desenvolver com sucesso o projeto e acabou por sabotar todo o programa. Chuck Farah reuniu uma diretoria formada por alguns dos líderes evangélicos mais influentes da Costa Oeste. Todos estavam entusiasmados com o ministério de Kathryn, acreditando que ela era a escolhida de Deus para levar os cristãos da Costa Oeste a um profundo conhecimento do Espírito Santo. Todos dedicaram-se à tarefa de garantir que centenas de novos convertidos em cada culto de milagres estariam alicerçados na Palavra de Deus e teriam comunhão em uma igreja local. Muitos dos que se voluntariaram para ajudar eram pastores locais que viram, por meio do culto de milagres, uma oportunidade para fortalecer as igrejas do sul da Califórnia. Kathryn reuniu os homens em um grande café da manhã. Ela ouviu e aprovou seus planos. E comprometeu-se a cooperar com eles em todos os sentidos. Por sua vez, os homens prometeram orar por ela, promover o ministério, incentivar a participação das pessoas e estar presentes para ajudar durante os cultos. Parecia o projeto ideal. Chuck e os outros deixaram a reunião convencidos de que, em questão de alguns meses, todas as igrejas do sul da Califórnia estariam sentindo o efeito dos cultos de milagres. Mais de 400 conselheiros escolhidos a dedo foram recrutados para trabalhar durante os cultos e nas reuniões de acompanhamento. Sessões de treinamento foram realizadas em muitas igrejas, usando tanto o material dos Navegadores quanto o da Associação Evangelística Billy Graham. Aos conselheiros que trabalhariam nos cultos, foram dadas tarefas específicas. Eles viriam à frente durante os apelos feitos do púlpito e se juntariam às pessoas. O ideal era que cada pessoa que respondesse ao apelo tivesse um conselheiro. Após o culto, os novos convertidos seriam levados a uma sala nos fundos para receberem instruções, um Novo Testamento e preencherem uma ficha de informações. Mais tarde, durante a semana, 139


seriam contatados por alguns representantes de uma igreja local. Os grupos de estudo bíblico estavam sendo formados por toda a cidade, principalmente os grupos dos novos convertidos e dos interessados no ministério de Kathryn Kuhlman. Foi preciso só um culto para Kathryn mostrar sua reação. Talvez ela tenha se sentido ameaçada por homens que pareciam estar se mobilizando para assumir seu ministério. Talvez fosse a mudança — todos aqueles conselheiros à frente durante os apelos feitos do púlpito. O mais provável, e esta parece ser a teoria mais plausível, era que ela sentia que estava sendo usada. Desconfiou de que os pastores só estavam cooperando a fim de promoverem suas próprias congregações — em vez de apoiar seu ministério. Ela começou a desconfiar até de Ralph Wilkerson, pensando que ele a havia convidado para a Califórnia apenas para que se valesse da oportunidade de enriquecer o Anaheim Christian Center — às suas custas. Ela percebeu, equivocadamente, a velha síndrome de M. J. Maloney, levantando sua horrenda cabeça mais uma vez, como em Franklin. Não podia entender que, embora parecesse que estivesse sendo "usada" para aumentar a freqüência ou as ofertas em alguma igreja, isso tivesse tudo a ver com o grande ministério de Deus. A despeito de tudo o que ela dizia sobre unidade, e tudo o que fazia para unir os diversos segmentos do corpo de Cristo (e talvez ninguém, nos tempos modernos, tenha feito tanta coisa para unir as pessoas independentemente de linhas denominacionais), Kathryn não havia compreendido a visão completa da grandeza do plano de Deus para o corpo. Isso foi um grande mistério. Mesmo sendo a pessoa mais ecumênica que já conheci, ela era, ao mesmo tempo, estreita e limitada à sua visão pessoal. Por várias vezes, segurou meu braço com força e disse: "Jamie, devemos proteger o 'ministério'". Durante anos, pensei que ela estivesse se referindo ao corpo de Cristo, que incluía meu ministério, o ministério de Ralph Wilkerson, o ministério das igrejas denominacionais, toda a Igreja. Mas não estava. Ela não tinha este objetivo. Referia-se ao ministério de milagres, em geral, e ao seu ministério de milagres, em particular. Via-se como a única pessoa próxima ao Espírito Santo. E, ironicamente, ela talvez estivesse certa. Nunca, desde os tempos dos apóstolos, houve um ministério como o dela. Isso só pode ser explicado considerando-se que ela era única; que Deus a havia escolhido para receber uma unção extra de fé e poder. Como João Batista, que apresentou Cristo ao mundo, mas que, depois, pareceu não compreender a extensão do ministério de Jesus, Kathryn era a pessoa que mais promovia o Espírito Santo no mundo — contudo, ficou perplexa e confusa quando se viu diante do fato de que Ele era maior do que ela imaginava. São várias as vezes em que fico impressionado com as semelhanças entre o ministério de Kathryn e o de João Batista. Ele foi um pioneiro com modos estranhos, roupas diferentes e uma tendência à 140


controvérsia. Tinha seguidores fiéis que se apegaram a ele de um modo cultuai. Na verdade, anos depois de sua morte, ainda havia pessoas que só conheciam "o batismo de João". Ele havia tentado afastar esta idéia, dizendo: "É necessário que ele cresça e que eu diminua" (Jo 3.30), mas poucos o ouviam. Embora não tenha havido "profeta maior", ele era limitado pelo seu estreito provincianismo. Nunca pôde libertar-se de suas próprias tradições. Aqueles repórteres tolos da revista Sunday que chamavam Kathryn Kuhlman de um João Batista moderno talvez estivessem mais próximos da verdade do que imaginavam. Kathryn deliberadamente sabotou o programa de acompanhamento no segundo mês de sua implantação. Ao deixar o palco após o culto, ela foi direto para a sala de aconselhamento. Andando pela sala, começou a orar pelas pessoas. Era assim que sempre fazia. Ela não podia mudar. Após seis meses de frustração, o dr. Farah viu que o programa de acompanhamento era inviável e renunciou — como fizeram todos os conselheiros. Então, naquilo que pareceu ser um verdadeiro desafio público aos pastores, ela anunciou que seu próximo culto em Pasadena seria realizado em um domingo pela manhã. Os pastores que estavam tentando apoiar o ministério de Kathryn e fortalecer suas próprias igrejas ao mesmo tempo, viram isso como um desafio direto. Muitos deles foram forçados a retirar seu apoio. Quando baixou a poeira, restou apenas um pequeno grupo de pastores. Como uma última tacada, o dr. Farah escreveu para Kathryn quatro páginas de conselhos cáusticos. Ela explodiu. "Tenho de fazer as coisas do meu jeito", descarregou em Ralph Wilkerson. "Sou a única que sabe a direção do Espírito Santo naqueles cultos de milagres. Se esses homens querem ver milagres, terão de entrar na linha ou ir embora. É assim!" "Trabalhar com ela era como trabalhar com uma serra", disse o dr. Farah. "Quanto mais você se aproximava, maior a probabilidade de ficar em pedaços. Era completamente inflexível. Contudo, não havia como negar que o poder de Deus estava nela. Toda vez que subia naquele palco, o Espírito Santo vinha com ela. " Ralph Wilkerson, por outro lado, nunca foi ameaçado por Kathryn. Mas o caso de Ralph era diferente. Eles tinham cinco cultos nos domingos em sua igreja, e ele sabia que seu pessoal podia ir ao primeiro culto e voltar para o culto de milagres no domingo pela manhã. Além disso, já estava estabelecido, com um antigo ministério de milagres. E, mais importante ainda, ele nunca se viu abalado — apesar do comportamento excêntrico de Kathryn — em sua convicção de que Deus a havia enviado para a Costa Oeste. Mesmo que ela tivesse excentricidades, ainda a via como uma serva de Deus e, de bom grado, sujeitava-se à sua liderança nos cultos de milagres. Diferente de Oral Roberts, que construiu uma universidade e pôs nela seu nome, Kathryn não construiu 141


instituições. Ela era uma instituição. Não obstante, como todas as instituições, era impenetrável, imune a mudança e presa à tradição. Os pastores, dizendo que era impossível trabalhar com ela, retiraram seu apoio, agradeceram a Deus o ministério de Kathryn, ainda iam aos cultos de milagres, mas a maioria nunca mais se envolveu com ela. Quase no final do ano, ficou visível que o auditório de Pasadena estava extremamente pequeno para comportar as multidões que participavam dos cultos de milagres. Kathryn fez negociações com os administradores do grande Shrine Auditorium, perto da Harbor Freeway, ao sul do centro de Los Angeles. A reunião foi agendada para as 13h30. Estava lotado no primeiro culto, com 2 mil pessoas à porta. Foi assim durante os dez anos seguintes. Na verdade, para milhões de pessoas o termo "Shrine" [Santuário] e o nome Kathryn eram quase sinônimos — formando um trocadilho bom demais para ser ignorado. Independentemente, no entanto, de como os mortais a viam — alguns a adoravam, outros a ridicularizavam —, a bênção de Deus estava sobre ela. E sobre "o ministério". Kathryn, sem dúvida, estava constantemente se sentindo ameaçada. Quando Ralph Wilkerson comprou o enorme complexo Melodyland, ela se sentiu intimidada. Sentiu-se intimidada pelo Movimento de Jesus, quando milhares de jovens barbudos e descalços começaram a comparecer a seus cultos. Ela se sentiu ameaçada pelo imenso ministério jovem da Calvary Chapel, em Costa Mesa, onde mais de 20 mil pessoas se reuniam a cada semana para estudar a Bíblia. Contudo, a despeito de suas inseguranças, tentava se ajustar, como uma árvore velha e forte que vinha se mantendo firme mas que sabia que teria de se curvar quando viesse o furacão — do contrário, quebraria. E Kathryn se viu no meio de um furacão do Espírito Santo. As coisas estavam acontecendo tão rápido à sua volta que ela era incapaz de acompanhar. Kathryn tentou. Realizou uma série de cultos para jovens no Hollywood Palladium. Os jovens vinham às dezenas de milhares. Ela os amava; barbudos, com adereços e descalços. Mas este simplesmente não era seu estilo. David Wilkerson, do Desafio Jovem, e Chuck Smith, da Calvary Chapel, estavam muito mais preparados — eles podiam falar a linguagem desses jovens. Então, mesmo sentindo que o Movimento de Jesus era um mover de Deus, Kathryn logo suspendeu suas reuniões e tornou a concentrar seu ministério no Shrine. Aquilo que Kathryn vinha pregando estava começando a se cumprir — um novo mover do Espírito Santo. Havia mais de três décadas, ela vinha profetizando que Ele voltaria em uma grande explosão de poder. Ela o viu como o cumprimento da profecia dada em Joel: E, depois disso, derramarei do meu Espírito sobre todos os povos. Os seus filhos e as suas filhas profetizarão, os velhos terão sonhos, os jovens terão visões. Até sobre os servos e as servas derramarei do meu 142


Espírito naqueles dias [... ]. E todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo... (Jl 2.28, 29, 32). Não creio que havia alguém no mundo que cresse que isso se cumpriria literalmente mais do que Kathryn Kuhlman. Ela acreditava que chegaria o dia em que realizaria um culto de milagres e todos os presentes que invocassem o nome do Senhor seriam libertos de suas enfermidades e escravidão. Ela literalmente cria que Deus havia derramado seu Espírito sobre a serva Kathryn Kuhlman. Literalmente cria que estava vivendo nos últimos dias da história, que o próximo grande evento seria a volta do Senhor Jesus Cristo. Ela cria categoricamente que a razão por que o Espírito Santo estava sendo derramado sobre toda carne era uma preparação para esse evento. "Estou dando os últimos pontos em meu vestido de noiva", dizia. Como parte da noiva de Cristo, esperava ansiosamente pela volta do Senhor. Mas quando ficou claro que o Espírito Santo estava se movendo entre outros ministérios, da mesma forma que em seus cultos de milagres, ela ficou perplexa. E um pouco assustada. Como o profeta Jonas em Nínive, ela havia profetizado isso, mas, agora que a profecia estava se cumprindo, não sabia como lidar com a situação. — Você está perdendo alguma coisa, Kathryn — Ralph Wilkerson a repreendeu quando ela recusou um convite para pregar em uma reunião da Associação dos Homens de Negócios do Evangelho Pleno. — Deus realmente está se movendo entre esses homens. — Já basta o fanatismo que vi em toda a minha vida — ela afirmou. — Não quero mais me envolver com pentecostais. — As coisas são diferentes agora, Kathryn — Ralph disse. — Não é como você pensa. O Espírito Santo não está se movendo apenas em seus cultos de milagres. Ele está se movendo em milhares de lugares diferentes. Está se movendo na Igreja Católica Romana. Está se movendo entre os jovens de Movimento de Jesus. Está se movendo em muitas igrejas denominacionais que costumavam ser mortas e sedentas. E está se movendo entre os Homens de Negócios do Evangelho Pleno. — Sou de Missouri — ela disse sorrindo. — Mostre-me. Uma vez que eu vir isso, você saberá que poderá contar totalmente comigo. Três meses depois, Kathryn, hesitante, aceitou o convite de Al Malachuk para pregar na Convenção Regional da ADHONEP em Washington. Eles a amavam como uma irmã e se alegravam com os milagres. Um ano depois, ela ministrou na convenção internacional. Depois disso, passou a ser uma pregadora regular em muitas das maiores convenções. Ralph estava certo. O Espírito Santo estava se movendo nas reuniões da ADHONEP. E Kathryn tinha sabedoria suficiente para saber que, se seu velho amigo, o Espírito Santo, estava lá, ela também deveria estar — seguindo a multidão.

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Ralph queria gravar em vídeo um dos cultos de Kathryn quando ela viesse ao Melodyland para realizar uma obra carismática. Ela nunca permitiu câmeras em seus cultos. Ralph, no entanto, a convenceu a fazer uma única fita para que as futuras gerações (caso houvesse gerações futuras) pudessem ver alguma coisa de seu ministério. Ela concordou. E uma fita de vídeo foi gravada durante uma das convenções carismáticas no Melodyland. (Kathryn, mais tarde, permitiu outras três filmagens — duas delas em Israel, uma na Conferência Mundial sobre o Espírito Santo de 1974, outra na de 1975, e uma em seu culto de milagres em Las Vegas.) Ralph, mais tarde, mostrou a fita a um grupo de ministros em Tulsa, Oklahoma. "Houve mais pessoas curadas — percentualmente — quando a fita foi assistida do que quando a fita foi gravada", ele disse. Quando eu o questionei sobre isso, ele concluiu: "Não creio que o Espírito Santo unja só uma pessoa. Creio que ele unge um ministério. A fita de vídeo era uma parte do ministério de unção do Espírito Santo, portanto ela trazia consigo o mesmo poder que a própria Kathryn Kuhlman". Mais tarde, experimentei o mesmo fenômeno em nossa igreja na Flórida. Nossa igreja havia adquirido uma cópia da fita Jerusalém II, feita na Conferência Mundial sobre o Espírito Santo em 1974 e distribuída pela Logos International, que terminava com um longo segmento do culto de milagres de Kathryn em Jerusalém. Depois de assistirem à fita, as pessoas ficaram em silêncio para um período de oração. De repente, houve um som de cadeiras se arrastando e pessoas caindo. Abri os olhos. Quase um terço das pessoas da congregação, ao que parecia, estavam estiradas no chão ou nas cadeiras — "sob o poder". Foi uma das demonstrações mais poderosas do poder latente do Espírito Santo que já testemunhei. A gravação em vídeo — por meio da indústria televisiva — tornouse o fato predominante na vida de Kathryn durante seus últimos oito anos. E ela adorava isso. Adorava o glamour, a agitação e o desafio. "Dê-me algumas informações", ela disse a Steve Zelenko, seu engenheiro de rádio em Pittsburgh. "Preciso saber de uma coisa antes de assumir qualquer compromisso". Steve, depois de pesquisar, fez suas recomendações. "Você é a única que sempre diz: 'Seja grande, pense grande'", disse ele. "Eu a aconselho a contratar o melhor produtor disponível e associar-se a uma grande rede na Califórnia." O "melhor produtor" veio a ser Dick Boss, que havia concluído um trabalho de quatorze anos com a organização de Billy Graham. A "grande rede" seria a CBS. Ambos concordaram em assumi-la, e, ao longo de um período de quase dez anos, ela fez 500 programas de televisão — a série de meia hora de maior duração já produzida nos estúdios da CBS. Kathryn tornou-se uma personalidade universal, tão solicitada na Suécia e no Japão quanto em Cleveland ou St. Louis.

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No entanto, havia problemas. Um dos objetivos da Fundação Kathryn Kuhlman era apoiar as entidades missionárias em todas as partes do mundo. Kathryn estava determinada a pensar que, se ela continuasse na televisão, nada impediria a obra missionária que vinha sendo desenvolvida ao longo dos anos. A fundação havia construído 20 igrejas no exterior: cinco na África, nove na América Central e do Sul, e seis na Ásia e na Índia. Cada uma delas havia sido construída com recursos da fundação e, então, entregue às pessoas, isenta de qualquer dívida. Embora Walter Adamack tenha investido parte do dinheiro da fundação em ações e títulos como uma reserva, não obstante, as despesas anuais eram quase sempre iguais aos rendimentos anuais. O dinheiro para a televisão teria de ser extra, se Kathryn quisesse manter o equilíbrio entre missões e ministério. Não foi o que aconteceu. Por exemplo, o relatório financeiro de 1972 mostra que, enquanto a fundação doou cerca de 500 mil dólares a vários fundos missionários no país e no exterior, o ministério de televisão e de rádio consumiu mais de 1 milhão e 500 mil dólares. No final de 1974, esses números eram ainda mais desproporcionais. Logo ficou óbvio que, para manter o fluxo de dinheiro, Kathryn teria de viajar por todo o país ministrando cultos de milagres. Ao mesmo tempo, ela era cada vez mais solicitada, graças à incrível cobertura que a televisão lhe dava. Era um círculo vicioso que, por fim, lhe custaria um preço muito alto.

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Capítulo 14 O Culto de Milagres Em 1974, vinte e sete anos (e talvez 3 milhões de milagres) depois daquele primeiro milagre de cura em Franklin, Pensilvânia, William Nolen, um médico, escreveu um livro no qual dizia que "duvidava" de que algum bem que Kathryn estava fazendo "poderia pagar o sofrimento que ela estava causando". Ao criticá-la por ter "falta de sofisticação médica", ele concluiu: O problema é, e lamento que tenha de ser tão direto, uma questão de ignorância. A senhorita Kuhlman não sabe a diferença entre doenças psicogênicas e orgânicas; ela nada sabe sobre hipnotismo e o poder da sugestão; ela nada sabe sobre o sistema nervoso autônomo. (Healing. A doctor in search of a miracle [Cura: Um médico em busca de um milagre], por William A. Nolen, Doutor em Medicina, Fawcett Publications, Inc. , Greenwich, Conn, 1974, p. 94.) Infelizmente, a pesquisa do dr. Nolen estava, na melhor das hipóteses, incompleta. Ele foi a um culto de milagres e entrevistou apenas um punhado de pessoas que se diziam curadas. Embora sua atitude para com Kathryn fosse respeitosa, e até compreensiva, não podia ver nenhum benefício duradouro nos cultos de milagres. Eu também tinha algumas das mesmas reservas quando conheci Kathryn. Não obstante, depois de entrevistar, pelo menos, 200 casos de curas milagrosas documentados por médicos, sou forçado a usar o axioma em latim do dr. Nolen — que ele usou para sustentar seu argumento contra ela — para referir-me a ele: res ipsa loquitur — "a coisa fala por si mesma". As declarações de Nolen, a propósito, provocaram uma resposta dentro da própria comunidade médica. H. Richard Casdorph, do sul da Califórnia, com mestrado e doutorado em medicina, especialista em doenças internas e em cardiologia, que estava bem familiarizado com os resultados do ministério de Kathryn, encontrou o dr. Nolen no Mike Douglas Show, na Filadélfia, em 1975. Casdorph estava acompanhado por Lisa Larios e sua mãe. Lisa, uma adolescente, havia sido curada de câncer nos ossos (sarcoma celular do retículo) em um culto de milagres no Shrine Auditorium, e o dr. Casdorph tinha raios X e registros médicos para comprovar a doença. Ele, mais tarde, documentou outros nove casos de cura divina, a maioria deles relacionada ao ministério de Kathryn Kuhlman, e relatou suas descobertas em um livro intitulado The miracles [Os milagres], que foi publicado pela Logos em 1976. Nolen não se 146


convenceu, mas é importante saber que ele não deixou de ser desafiado por seus próprios colegas. O dr. Nolen chegou a uma conclusão válida ao dizer que Kathryn era ignorante quando o assunto dizia respeito a conhecimento médico. Ela se manteve assim de propósito. Era como se soubesse que, no momento em que se permitisse sair da esfera do espírito para a da razão, seria como seus críticos — impotentes. Embora ignorante, ela também era infinitamente sábia (a sabedoria como a capacidade de ver coisas com os olhos de Deus). Essa é a razão por que raramente respondia a seus críticos: podia vê-los pela perspectiva de Deus. Embora tenha havido momentos em que ela perdeu a perspectiva de Deus e, com os dois punhos em riste, fez ataques como qualquer outro mortal, sua resposta a Nolen foi simplesmente esta: "Só posso sentir pena de um escritor que é racional demais para crer". Muitas pessoas cometem o erro de comparar a falta de conhecimento secular à insensatez. Kathryn não era tola, embora, admitidamente, ignorasse muitas coisas. Ela era, por exemplo, teologicamente ignorante. Acho que não chegou a ler um único livro sobre teologia sistemática, tampouco um sobre milagres ou cura. Ela nem mesmo tinha uma definição aceitável para a palavra "milagre". Deixava esta questão para aqueles que não estavam envolvidos no sentido de fazer os milagres acontecerem. Kathryn tinha uma compreensão muito limitada do que estava acontecendo no mundo à sua volta. Embora recebesse estudiosos, ministros e chefes de Estado com respeito, uma vez passada a fase de cumprimentos, ela se perdia e logo dava alguma desculpa para mudar de assunto. Por outro lado, uma vez que entrasse em sua área — a área do Espírito Santo —, era insuperável e saía invicta. Lembro-me quando se viu em uma situação difícil em certa coletiva à imprensa em Jerusalém. A imprensa judaica era hostil à sua presença e à presença de inúmeros líderes cristãos que haviam ido a Jerusalém para a Primeira Conferência Mundial sobre o Espírito Santo. Quando um repórter ortodoxo barbudo fez-lhe uma pergunta importuna: "Por que vocês, cristãos, viajaram até aqui para esta conferência? Por que não ficaram nos Estados Unidos?", Kathryn ficou em pé, com os olhos lançando fogo. "Eu lhe direi por que estamos aqui, jovem. Estamos aqui porque esta é a terra escolhida de Deus e porque vocês, judeus — quer gostem ou não — são o povo escolhido de Deus. Estamos aqui porque os cristãos amam esta terra tanto quanto vocês. Estamos aqui porque este mesmo monte sobre o qual estamos, um dia, se dividirá quando o Rei da Glória, o Messias Jesus Cristo, voltar. Estamos aqui porque o Espírito Santo esteve aqui no Pentecostes e está aqui hoje. " Olhei para o repórter. Ele escrevia, furioso, em seu bloco de anotações, com o rosto sério. Um pastor árabe cristão, que estava sentado ao meu lado, riu baixinho, tocou em meu braço e disse: "Esses judeus se 147


surpreendem quando ouvem uma mulher falar forte. Eles amam Golda Meir, e amarão Kathryn Kuhlman. Espere para ver". Eles a amaram. Ficaram sentados, com os olhos arregalados, durante o culto de milagres, que durou quatro horas, no dia seguinte. Até o conservador Jerusalém Post fez excelentes críticas a ela. Kathryn estava em terra firme desde que falasse do Espírito. Kathryn era ignorante em assuntos médicos. Nunca lera um livro de medicina da família, muito menos estudara fisiologia, psicologia ou anatomia. Contudo, ela era sábia. Extremamente sábia. Ela sabia, quando estava no púlpito durante um culto de milagres e o Espírito de Deus estava sobre ela, que tinha toda a autoridade de Deus. Ninguém ousava questioná-la naqueles momentos. Até o dr. Nolen admitiu que, quando participou daquele culto de milagres em Minneapolis, quase se deixou convencer (como o rei Agripa diante do apóstolo Paulo) a crer. "Você não tem vontade de pensar", ele disse. "Você tem vontade de aceitar". Mas, infelizmente, ele deixou a razão prevalecer. O dom de Kathryn no culto de milagres não era o de cura; ao contrário, eram os outros dons que o apóstolo Paulo listou em sua carta à igreja dos coríntios — "fé" e "a palavra de conhecimento" (1 Co 12. 8). Não era Kathryn quem curava. Os "dons de cura" mencionados por Paulo, cria Kathryn, vinham só para os doentes. Eram os doentes que precisavam dos dons de cura. Tudo o que ela possuía era fé para crer e uma palavra de conhecimento com relação ao lugar onde este dom havia sido concedido. Por essa razão, ela sempre dizia: "Não sou eu quem cura. Não tenho o poder de curar. Não tenho a virtude de curar. Não confiem em mim. Confiem em Deus". Contudo, durante aqueles cultos de milagres, quando a onda de fé se formou e a presença de Deus de fato invadiu o templo — habitando em meio aos louvores de seu povo —, Kathryn pôde, de repente, começar a reconhecer as curas que estavam acontecendo no auditório. Era a marca do culto de milagres. Seus críticos, como Lester Kinsolving, chamavam-na de"paranormal". Allen Spraggett, do Toronto Star, disse que ela era "clarividente". Kathryn, no entanto, sabia que era simplesmente o poder do Espírito Santo à disposição de qualquer pessoa que pagasse o preço. Foi a convicção de que ela era uma pessoa "espiritual" — ela pensava como Deus — que me convenceu, em nosso primeiro encontro, de que não era uma charlatã. Saímos de seu escritório no Carlton House ao anoitecer. Dirigi seu Cadillac e, seguindo suas direções, atravessei o rio Monongahela e peguei a estrada para o norte, ao longo de uma ribanceira rumo a uma churrascaria pequena, porém elegante, que permitia uma vista panorâmica do Golden Triangle no centro de Pittsburgh. Após o jantar à luz de velas, passamos a conversar sobre os termos de nosso trabalho de elaboração do livro God can do it again [Deus pode fazer isso novamente]. Por fim, eu a interrompi. 148


— Posso lhe fazer uma pergunta franca? — Sem dúvida. Prossiga. Seu brilho e franqueza eram totalmente irresistíveis. Por um instante, comecei a voltar atrás, desejando nada dizer. Mas tive de continuar, para minha própria satisfação. — Por que algumas pessoas não são curadas em seus cultos de milagres? Como você explica o fato de muitos saírem dos cultos arrasados e desiludidos, enquanto outros são milagrosamente curados? Ela nunca hesitou. — A única resposta honesta que posso dar é: não sei. Só Deus sabe, e quem é que pode sondar a mente de Deus? Foi naquele instante que descobri que podia confiar nela. Uma pessoa não-espiritual teria me bombardeado com razões lógicas. Mas Kathryn não era uma pessoa racional. Ela era uma pessoa espiritual. Por mais que tivesse suas fraquezas, sabia que o melhor não era tentar definir o indefinível, explicar os mistérios de Deus. — Quando eu tinha 20 anos — ela sorriu —, poderia lhe dar todas as respostas. Minha teologia era direta, e eu tinha certeza de que, se você seguisse certas regras, trabalhasse com afinco, obedecesse a todos os mandamentos e se mantivesse em certo estado espiritual, Deus iria curálo. — Mas Deus nunca responde às exigências do homem para provar a si mesmo — ela prosseguiu. Há algumas coisas na vida que jamais terão resposta porque vemos através de um vidro no escuro. Deus, lá do céu, sabe o fim desde o começo, embora tudo o que possamos fazer é ver o presente de relance, e um relance distorcido. Ela continuou a me falar de várias pessoas que haviam ido aos cultos de milagres que não criam em Deus, muito menos em milagres, e que foram curadas. E de outras — pessoas indiscutivelmente santas — que saíram sem a cura. — Até ter uma maneira de definir isso, tudo o que posso dizer a você é que estas são curas concedidas por misericórdia. Aquelas pessoas foram curadas por causa da misericórdia de Deus. As outras... quem sabe... talvez Deus as amasse tanto a ponto de reservar uma bênção ainda maior para elas do que a cura física. Kathryn gostava de falar da vez em que realizou um culto de milagres na cidade de Kansas. O Kansas City Star enviou uma de suas principais repórteres para cobrir a reunião. Na última noite de cultos, a repórter foi ao camarim de Kathryn, e elas conversaram sobre aqueles que não foram curados. Três semanas depois, ela recebeu uma carta da repórter, falando de um amigo que ela levara ao último culto na cidade de Kansas — um advogado que estava morrendo de câncer e que havia sido 149


conduzido em uma maca. A repórter disse que o advogado morrera uma semana depois de participar do culto, mas que sua esposa havia relatado como ele percebeu que o culto foi a melhor coisa que já lhe tinha acontecido. Ele não foi curado, mas aceitou a Cristo para o perdão de seus pecados. Sua morte foi tranqüila. Gloriosa. A repórter, lembrando-se do modo como Kathryn chorava em seu camarim enquanto falava sobre aqueles que saíam das reuniões sem a cura, disse que ela estava escrevendo para pedir a Kathryn que se lembrasse deste incidente quando pensasse nas inúmeras pessoas que não eram curadas. "Não, eu não sei por que nem todos são curados fisicamente", ela comentou, "mas todos podem ser curados espiritualmente — e este é o maior milagre que qualquer ser humano pode conhecer". Poucos, muito poucos, daqueles que saíam dos cultos de milagres sem a cura ficavam ainda mais amargos. A maioria já sobrevivia em sua amargura. Eles se aproximavam de Kathryn como seu último recurso. Muitos deles voltavam, voltavam, voltavam. Em suas cadeiras de rodas. Trazendo seus filhos aleijados deitados em macas. Andando com muletas ou com seus aparelhos. Amaldiçoar Kathryn Kuhlman seria como amaldiçoar a Deus. Em vez disso, eles aumentavam suas ofertas e redobravam suas orações. Pois, fossem curados ou não, pelo menos, o culto de milagres dava a eles algo que os médicos e a ciência moderna não podiam dar — esperança. O único ingrediente essencial à vida. E alegria. Kathryn dava-lhes alegria. Aqui, em uma atmosfera onde eles eram aceitos e amados, as pessoas cantavam e louvavam a Deus com alegria. Que hospital ou sanatório oferece alegria? Muitas vezes — na maioria das vezes —, eles não encontravam alegria nem em suas igrejas. A alegria era substituída por uma felicidade superficial decorrente de uma tranqüilidade induzida pelos médicos. Mas, nos cultos de milagres, ela era real. Kathryn oferecia-lhes Deus. Não um Deus que os condenava por estarem doentes, mas um Deus cujo coração estava partido com a condição desses enfermos. Um Deus que desejava estender as mãos para tocá-los. Ela lhes oferecia Jesus Cristo como o único que, pela sua morte na cruz, havia perdoado seus pecados e estabelecido sua posição no céu. O que mais eles poderiam pedir? Cura? Sim. Mas, à luz de todas essas coisas que eram oferecidas no culto de milagres, a cura muitas vezes tornava-se uma questão secundária. Kathryn estava certa. A cura espiritual era o maior de todos os dons. Qual era o segredo do culto de milagres? Glenn Clark, ex-místico e fundador do Camps Farthest Out (CFO), certa vez escreveu sobre um porto russo no norte da Sibéria usado para navios de caça de baleias no verão. No inverno, com a temperatura variando entre 45°C e 67°C abaixo de zero, nunca se soube de nenhum navio ali. O porto estava ali. O cais estava ali. Todas as vias de acesso a navios estavam ali. Mas nenhum navio aparecia. Por quê? Porque o clima era ruim. 150


O culto de milagres oferecia o tipo certo de clima para a cura. Era como uma grande lente de aumento concentrando os raios de sol em um pedaço de papel para queimá-lo. A luz do sol sempre estava ali. Mas até a lente de aumento colocar os raios em foco, concentrando-os em um ponto específico, não havia poder para consumi-lo. Assim os cultos de milagres concentravam o poder de Deus em um lugar específico e em um momento específico. Embora a cura certamente não estivesse limitada aos cultos de milagres (Kathryn sempre dizia que tais curas deveriam estar acontecendo em todas as igrejas do país), não obstante, parecia que era nesse "clima" em particular que o poder de Deus estava mais concentrado, e, portanto, os milagres eram a regra, e não uma exceção. Uma das esperanças mais ternas de Kathryn, até sua morte, era a de que, um dia, experimentasse um culto de milagres como os que Jesus realizou — onde todos os doentes presentes eram curados. Isso nunca havia acontecido, mas ela cria na possibilidade de acontecer, e nunca subiu ao palco sem esperar e orar: "Talvez seja desta vez". Frank Laubach, o grande educador e escritor (e um colega de Glenn Clark), reconheceu o poder de cura que estava presente nos cultos de milagres. "Você é uma pessoa maravilhosa! Eu gostaria de vir às suas reuniões só para ficar ali, enquanto parte o pão da vida e traz esperança para tantas pessoas [... ]. Minha oração é que Deus me permita estar com você novamente e captar parte do poder radiante do Espírito Santo que emana de você de tal modo que não emana de ninguém que conheço. Você é uma jovem maravilhosa!" Kathryn disse que ela nada tinha a ver com as curas. Em certo sentido, isso era verdade. Ela era somente o catalisador que juntava o poder e as pessoas. Contudo, em outro sentido, tinha tudo a ver com os milagres, pois havia reunido um "pacote viável" pelo qual o Espírito Santo podia vender seu produto: os milagres. A música desempenhava um grande papel nos cultos. Ainda que tudo parecesse espontâneo, era de fato o resultado de um planejamento meticuloso baseado nos muitos anos de provações e erros. Kathryn só ficava satisfeita com o melhor. Ela nunca teve um solista fraco no palco. Contava apenas com os melhores musicistas nos instrumentos. Seu coro, dirigido pelo dr. Arthur Metcalfe, era treinado para chegar à perfeição, e cada número era ensaiado até que pudesse ser apresentado com uma impecável dicção e suprema harmonia. Jimmy Miller, seu pianista por 27 anos, era perfeito em seu trabalho. Seu solista Jimmy McDonald era um dos melhores do país. Até Dino, que, mais tarde, voltou-se contra ela, era tido pelos críticos de música como um dos melhores tecladistas. Uma figura também importante era Charles Beebee, seu quase careca e pequeno organista, que esticava as pernas curtas para alcançar os pedais, sentindo não só a disposição de Kathryn, mas fluindo uma harmonia aparentemente perfeita com o Espírito Santo enquanto seus dedos talentosos percorriam 151


as teclas do órgão, refletindo a presença de Deus no salão. Toda vez que alguém vinha à frente para testemunhar um milagre, o órgão já ficava preparado. Beebee, sentindo a intensidade do testemunho, aumentava o volume do órgão enquanto as pessoas aplaudiam — ou fazia um fundo musical baixinho para aqueles que, em pranto, sussurravam seus anseios mais profundos ao microfone. Quando Kathryn pedia silêncio: "Nem um som neste grande auditório. O Espírito Santo está aqui, soprando em cada coração... ", o órgão continuava a tocar, dando um apoio subliminar à presença do Espírito Santo. Era inimaginável um culto de milagres sem Charles Beebee. O clima musical ou, se você preferir, a "disposição", era inestimavelmente importante para criar uma atmosfera na qual o Espírito Santo pudesse se mover com liberdade e tranqüilidade. O funcionamento do culto, a preparação, era um dos segredos para se criar o clima apropriado. Kathryn muitas vezes ia para o local da reunião, principalmente quando não o conhecia, logo cedo pela manhã, para andar pelos corredores e orar. Depois, era a própria Kathryn que muitas vezes sempre dava aos introdutores as instruções, em detalhes. Nada ficava por conta da imaginação ou improvisação. Em alguns dos maiores auditórios, os introdutores até usavam rádios de comunicação, sussurrando instruções uns para os outros. A coleta das ofertas, que sempre parecia tão espontânea, era ensaiada até que pudesse ser feita sem falha alguma. Os homens, às vezes chegando a 300, eram treinados dias antes sobre como lidar com pessoas problemáticas, como localizar pessoas em necessidade, como responder às emergências, como discernir se uma cura era autêntica ou simplesmente emotiva. Cada homem tinha sua posição. E suas instruções. Fazia parte da "decência e ordem" que Kathryn exigia como sendo "dignas do Senhor". Kathryn insistia na presença de luminárias atrás dela no palco. Em Youngstown, havia aquele grande coro masculino formado por alcoólatras redimidos. Nos grandes cultos do Shrine Auditorium ou em várias cidades importantes pelo país, ministros, políticos e líderes da comunidade eram identificados, e o coro, às vezes, chegava a ter mil vozes. Kathryn tinha um amor especial pelos médicos e queria que eles ficassem no palco ou nas primeiras fileiras do auditório. O mesmo acontecia com padres e freiras — principalmente se estivessem "de hábito". Nada emocionava mais Kathryn do que ter 30 ou 40 sacerdotes católicos, principalmente se estivessem usando colarinho eclesiástico ou, melhor ainda, batinas, sentados atrás dela enquanto ministrava. De algum modo, isso parecia dar autenticidade ao que estava fazendo — e ajudava a criar o clima adequado de confiança e de compreensão que era tão necessário para um culto de milagres. Talvez o mais importante, porém menos reconhecido, fossem aquelas poucas mulheres escolhidas a dedo — lideradas por Maggie Hartner, Ruth Fisher e Pauline Williams, de sua equipe — que percorriam o grande auditório quando a verdadeira parte de milagres do culto começava. Elas eram responsáveis por discernir, observar, ouvir e 152


encorajar aqueles que haviam sido curados a irem à frente para testemunhar. O maior segredo era a própria Kathryn. Ela insistia em ser o foco. Nunca se sentava durante aquelas reuniões, que duravam quatro ou cinco horas, mesmo quando Dino estava tocando ou Jimmie McDonald cantando. Na verdade, ela estava sempre fazendo uma coisinha para prender a atenção do público nela. Para os olhos críticos, era como se estivesse "fazendo sombra" — levantando a mão quando Jimmie atingia uma nota aguda ou virando-se para o coro e fazendo algum gesto grandioso quando Dino parava de tocar. Era como o epítome do ego, sempre exigindo os refletores. Entretanto, os mais perspicazes viam isso como uma atitude sábia. Kathryn sabia da necessidade do foco espiritual. Ela jamais deixaria que alguém lhe tirasse o microfone. Sempre ficava na cola de alguém durante o testemunho; se a pessoa ficava enfadonha, Kathryn intervinha, orava por ela e a pessoa caía no chão "sob o poder". Se a pessoa tentasse dizer alguma coisa que quebrasse a harmonia da reunião, Kathryn usava de autoridade. Ela sabia que isso era muito melhor do que permitir que alguns pequenos cultos de cura acontecessem na congregação enquanto ela estava dirigindo a reunião lá do púlpito. Se esse tipo de comportamento já tivesse iniciado, e muitas vezes era o que acontecia, ela o interrompia, dizendo: "O que está acontecendo aí nos fundos? Alguém está sendo curado? Introdutores, cuidem disso". E eles, já instruídos, intervinham e "cuidavam de tudo", fazendo com que as pessoas voltassem sua atenção para o palco central. Kathryn sabia que não podia haver outro líder — a líder era ela. Nunca abriu mão da posição de autoridade. Era um dos segredos do culto de milagres. Pela mesma razão, ela era extremamente cuidadosa no sentido de permitir que os "dons do Espírito" fossem exercidos pelo público. Se alguém se levantasse para profetizar ou falar em línguas, ela o mandava ficar em silêncio. "O Espírito Santo não interrompe a si mesmo", dizia com autoridade. Eu estava lá, em 1968, quando ela voltou a Denver pela primeira vez desde que partira havia trinta anos. Sam Rudd, cidadão abastado de Denver e diretor internacional da Associação dos Homens de Negócios do Evangelho Pleno, a havia incentivado a realizar uma cruzada de três dias no antigo City Auditorium. Eu achava que Kathryn seria extremamente cuidadosa, mas não foi o que aconteceu. Ela chegou com autoridade. Na metade do primeiro culto, um senhor idoso que estava entre a platéia ficou em pé e começou a gritar: "Aleluia! Louvado seja Deus!". Kathryn nunca se acovardou. "Senhor, por favor, queira se sentar. O senhor está interrompendo a reunião." O homem, ignorando-a, continuou a gritar e balançar as mãos. Fiquei curioso por saber se ele era um velho amigo vindo do tabernáculo.

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"Se o senhor não se sentar, vou pedir que os introdutores o acompanhem até a porta." Ele continuou, como que em transe, a tagarelar. Kathryn acenou com a cabeça para um par de introdutores troncudos que rapidamente desceram o corredor na direção do homem. Um amigo do gritador, que estava sentado ao seu lado, viu quando eles estavam vindo. Embora estivesse com os olhos fixos em Kathryn, ele rapidamente puxou o homem para que se sentasse e o acalmou. "Isso é fanatismo", a senhorita Kuhlman disse deliberadamente. "É isso que envergonha o Espírito Santo. Todos que concordam, levantem a mão." A platéia estava com ela. Parecia que todas as mãos estavam para o alto. Não houve mais tumulto em nenhuma outra das reuniões naquela semana. "O Espírito Santo é um cavalheiro", Kathryn sempre dizia. "Ele faz coisas com decência e ordem. Quando está falando por meu intermédio, não interromperá a si mesmo falando por meio de outra pessoa". O foco era um dos segredos do culto de milagres. Havia outras coisas mecânicas, que muitos não entendiam nem apreciavam, mas que Kathryn considerava necessárias para um culto bem-sucedido. Uma delas era um prédio cheio. À medida que as pessoas aumentavam em Los Angeles, por exemplo, alguns de seus consultores mais confiáveis aconselharam-na a sair do Shrine Auditorium e encontrar um lugar maior para as reuniões. "Não é certo termos de dispensar milhares de pessoas toda vez que realizamos um culto", disseram. "O Shrine Auditorium só comporta 7 mil pessoas sentadas. Por que não alugamos o estádio da UCLA [Universidade da Califórnia, em Los Angeles]?" Kathryn recusou-se. Seus críticos diziam que ela gostava da "bela divulgação" que a imprensa lhe dava por dispensar milhares de pessoas a cada reunião. Mas era mais do que isso. Ela sabia que era muito melhor ter uma casa abarrotada de gente do que um auditório semivazio. Ela também sabia que, mesmo não passando de uma "pessoa comum", de algum modo era necessário que as pessoas a vissem no palco — algo que não poderia ser feito em um grande estádio ao ar livre. Billy Graham conseguia essa façanha porque ele dependia de sua voz para prender as multidões. Mas Kathryn dependia muito mais de ver os rostos na platéia do que eles contemplarem o dela. Seu ministério era um ministério de intimidade. Assim, em vez de alugar locais maiores ou com vários corredores abertos, ela preferia (embora às vezes os corredores fossem necessários) ficar nos prédios menores e manter o contato visual com seu público. Era um dos segredos do culto de milagres.

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Conseqüentemente, coisas aconteciam. Milagres. A revista Time, comentando sobre os cultos de milagres em um artigo de 1970, disse: "Mas, por debaixo daquele penteado de Shirley Temple, de 1945, está uma das cristãs carismáticas mais notáveis dos Estados Unidos. Ela é, de fato, um verdadeiro santuário de Lourdes". Então, após ouvir várias curas documentadas que aconteceram nesses cultos, a revista concluiu: "Kathryn não prega a teologia da cura. Ela não crê que a fé necessariamente mereça a cura, ou que a falta de fé necessariamente a impeça. Ela tem visto muitos não-cristãos serem curados, muitos cristãos irem embora ainda coxos ou doentes [... ]. Ela vê seu ministério como um retorno ao elemento sobrenatural da igreja antiga. Tudo o que aconteceu na igreja primitiva', ela insiste, 'temos o direito de esperar hoje [... ]'. Ela está tão convencida de que seu papel é só o de uma intermediária que chegou a ter várias vezes o mesmo pesadelo em que chegava no palco, um dia, e encontrava as cadeiras vazias; seu dom se fora". Mas esse pesadelo nada mais era do que um sonho ruim. As cadeiras nunca estavam vazias — e a unção permaneceu até o fim. Um dos modos pelos quais o dom se manifestava era por um fenômeno que se tornou uma das marcas dos cultos de milagres, a ocorrência de pessoas pelas quais ela orava caindo no chão em um estado quase catatônico. Ela chamava a experiência de "cair sob o poder" e, em seus últimos anos, referia-se a ela como o "poder mortificador do Espírito Santo". Ninguém sabe exatamente quando essa demonstração excepcional do poder espiritual apareceu pela primeira vez em seu ministério, mas parece que foi desde o começo. Kathryn prontamente admitiu que não tinha nenhuma explicação para isso, exceto que se tratava do poder do Espírito Santo. Em 1966, ela foi convidada a pregar em um almoço de mulheres na Convenção Nacional da Associação dos Homens de Negócios do Evangelho Pleno, em Miami Beach. Foi uma de suas primeiras aparições diante da ADHONEP e apenas algumas das pessoas presentes conheciam seu ministério. O almoço foi realizado no piso térreo do Deauville Hotel, próximo à piscina. Mais de mil mulheres enchiam o salão. Rose (a senhora Demos) Shakarian, esposa do fundador da ADHONEP apresentou Kathryn, e, assim que ela se levantou para falar, houve um murmúrio no fundo do salão, como um vento soprando pelas árvores. Kathryn estava na pequena plataforma, esforçando-se para ver o que estava acontecendo. De repente, houve um som de cadeiras se arrastando, e as mulheres que estavam no fundo do salão começaram a rir e gritar. "Venham aqui", Kathryn disse, acenando com a mão. "Venham, venham, venham. O Espírito Santo não vai me deixar falar. As curas já começaram." E, de fato, era o que acontecia. Mulheres começaram a correr para a frente do salão lotado, com lágrimas escorrendo pela face, enquanto testemunhavam das curas que aconteceram no mesmo instante em que 155


Kathryn se levantou para falar. Kathryn começou a orar pelas mulheres, e elas começaram a cair para trás, sob o poder. Rose Shakarian estava aturdida. Kathryn fez sinal para que ela viesse ajudar. Alguém precisava amparar aquelas mulheres enquanto caíam. Rose virou-se para Viola Malachuk, que estava sentada ao seu lado, e sussurrou, desesperada: "Viola, não posso. Meu coração não vai agüentar. Não posso ajudá-la". Viola deu um pulo e foi para o meio do grupo de pessoas, amparando, primeiro, uma mulher e depois outra, deitando-as no chão. Outras mulheres começaram a cantar no Espírito e depois, por todo o salão, as mulheres, a maioria em pé tentando ver o que estava acontecendo, começaram a "desabar" no chão ou cair das cadeiras. O poder do Espírito Santo parecia invadir todo o recinto. Hóspedes à beira da piscina olharam através das grandes portas de vidro que se abriam para o salão e viram as mulheres caindo no chão. O hotel vinha tendo problemas com o sistema de ar condicionado havia vários dias. Eles pensaram que elas estivessem desmaiando por causa do calor e correram para ajudá-las. Porém, alguns deles também foram vencidos pelo poder do Espírito e acabaram no chão. Com roupas de banho e tudo. A reunião durou quase três horas, e muitas pessoas, mais tarde, testificaram de que foram curadas de várias doenças e distúrbios durante aqueles momentos. Ninguém se machucou com a queda. Kathryn nem teve a chance de pregar. Sem dúvida, por mais que a ocorrência de pessoas sendo "mortificadas pelo Espírito" não seja comum na maior parte das principais igrejas hoje, parece ser uma experiência que aconteceu muitas vezes nos tempos bíblicos. Por exemplo, em Atos 9, Saulo teve um encontro pessoal com o Espírito de Cristo e caiu no chão na estrada de Damasco. Em Mateus 17, o autor conta a história dos três apóstolos no monte da Transfiguração que não conseguiram ficar em pé na presença de Deus. O apóstolo João falou de estar "no Espírito" e ser incapaz de se levantar do chão. Outras investigações mostram que esse mesmo fenômeno acompanhou muitos dentre os maiores evangelistas da história, como Charles G. Finney, Peter Cartwright e Dwight L. Moody. Na verdade, há exemplos registrados de pedestres em Chicago que, ao passarem pela porta do salão onde Dwight L. Moody estava pregando, caíram na calçada, "sob o poder". Quando o Espírito Santo desceu sobre os cultos evangelísticos realizados pelos irmãos Wesley, John e Charles, e as pessoas começaram a cair sob o poder, os dois ficaram com medo e disseram: "Chega disso". Logo depois, Charles Wesley foi abordado por um de seus contemporâneos que o censurou por extinguir o Espírito: "Charles, você não tem tido nenhum grande milagre, nem mesmo conversões, desde que desencorajou as pessoas de cair sob o poder". 156


Mais tarde, Charles Price, de quem Everett Parrott havia recebido parte de seu primeiro treinamento, realizou reuniões por todo o país, onde as pessoas "morriam no Espírito". O mesmo fenômeno acompanhou as pregações de Parrott — e, sem dúvida, as de Kathryn. Como ocorre com muitas coisas de Deus, muitas vezes abusava-se do fenômeno. Muitos evangelistas, pregadores e "curandeiros" começaram a empurrar as pessoas de encontro ao chão para dar a impressão de que tinham poder espiritual. Outros, já tendo caído uma vez sob o poder, misturavam carne com espírito e freqüentemente rolavam no chão, dando origem ao nome "Roladores Santos". Mas não havia como acusar Kathryn Kuhlman de ser uma roladora santa — nem de incentivar (e até permitir) tal comportamento em suas reuniões. Seus críticos muitas vezes acusavam-na de empurrar as pessoas para que caíssem. Outros diziam que ela as hipnotizava. Alguns até iam além e diziam que Kathryn havia estudado anatomia e sabia atingir um nervo secreto no pescoço de uma pessoa que a levava a cair. Mas, depois que toda a poeira baixou, ainda era visível que a experiência de cair sob o poder era basicamente espiritual, e não emocional. Para seu crédito, Kathryn nunca impediu o fenômeno — embora tenha sido uma daquelas coisas que serviram para tachá-la de fanática. Por outro lado, nunca permitiu demonstrações escandalosas como as que muitas vezes acompanharam as primeiras reuniões de Oral Roberts e Rex Humbard. "Grande parte do nosso barulho substitui o poder", ela dizia. "Eu tinha um velho Ford Modelo T quando comecei em Idaho. Se barulho fosse poder, aquele velho Ford teria sido a coisa mais poderosa na estrada. Não, algumas das maiores manifestações do Espírito Santo que já vi, alguns dos maiores milagres que já presenciei, alguns dos melhores batismos do Espírito Santo que já testemunhei, foram silenciosos e maravilhosos. " Em 1974, na Primeira Conferência Mundial sobre o Espírito Santo em Jerusalém, vi quando um monge trapista em sua batina caiu "sob o poder" por quatro vezes. Ele estava sentado atrás da senhorita Kuhlman no palco, e, durante o culto de milagres, Kathryn decidiu orar por aqueles à sua volta. Quando ela se aproximou desse monge trapista, com o capuz da bata marrom cobrindo seu rosto, o longo hábito tocando a parte de cima de suas sandálias, ela parou. Ele ficou aprumado diante dela, com a cabeça baixa. Os olhos fechados. Kathryn estava chorando. Ela parecia sentir algo especial nele. Notei que lágrimas começavam a escorrer pelo rosto dele também. E, então, lentamente, suas pernas se dobraram, e ele caiu para trás nos braços de um dos introdutores.

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Kathryn não se mexeu. Ela ficou ali, paralisada, com um dedo apontando para o céu e a outra mão estendida na direção do homem em silêncio no chão, com seu rosto levantado. Brilhando. Os introdutores ajudaram o homem a se levantar, e ele ficou em pé diante dela, agora sem o capuz sobre seu belo rosto. Todavia, Kathryn não se mexeu. Suas mãos ficaram na mesma posição. Lentamente, o homem caiu no chão, o que aconteceu por mais duas vezes. Kathryn não o tocou, não disse uma palavra. Ela simplesmente ficou ali, parada, com os dedos apontando para Deus, com o rosto levantado, banhado em uma luz sobrenatural. O único som era a música suave do órgão e os suspiros silenciosos da platéia toda vez que o monge católico romano caía sob o poder mortificador do Espírito Santo. Era como se, em volta dela, houvesse uma aura de poder. Todos que estavam dentro dessa aura mal podiam ficar em pé. Eu tinha a sensação de que, se Kathryn mexesse um músculo, ela também teria caído — tão grande era o poder de Deus. Essa mesma aura muitas vezes aparecia em volta dela durante sua ministração. De vez em quando, isso fazia com que seu rosto realmente brilhasse. Às vezes, quando era mais forte, ela simplesmente fazia sinal para a platéia, ou para o coro, e filas inteiras de pessoas caíam. Uma vez, no Carnegie Hall, em Pittsburgh, uma mulher levantou-se em uma das galerias laterais para declarar uma cura. Muitos outros à sua volta, que a conheciam e vinham orando por ela, se levantaram para se regozijarem quando ela tirou um aparelho da perna e o segurou no alto. Kathryn foi à frente da plataforma e disse: "O poder de Deus está por toda esta galeria". No mesmo instante, quase 30 pessoas caíram para trás nas cadeiras. Eu estava no térreo e prendi o fôlego, esperando para ver se alguém tombaria para a frente e cairia da galeria nas cadeiras lá embaixo. Mas não houve danos. Na realidade, por todo o ministério de Kathryn, não há registro de alguém que caíra sob o poder tivesse se machucado na queda. Ao contrário, muitos foram curados de males terríveis. Uma das ilustrações mais dramáticas disso ocorreu quando Clifton Harris, um médico, teve sua coxa curada em um culto de milagres em Monroe, Louisiana, em 1973. Vinte anos antes, o dr. Harris, que acabara de retornar da China, onde era missionário estrangeiro da Convenção Batista do Sul, ficou seriamente ferido em um acidente de carro. Sua coxa direita ficou estilhaçada, com o osso da perna totalmente exposto. Quando a coxa ficou boa, depois de muitos meses com uma atadura para imobilizá-la, ela se calcificou com uma artrite, deixando o médico permanentemente defeituoso. Impossibilitado de voltar ao campo missionário, ele passou a ter uma prática limitada na pequena cidade de Pineville, próximo de Alexandria. Ao longo dos anos, a dor passou a ficar cada vez mais forte, já que os esporões artríticos e depósitos de cálcio causaram complicações na coxa. Seu filho de 12 anos muitas vezes o

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empurrava pelos corredores do hospital em uma cadeira de rodas enquanto ele dava suas voltas. Eis que aparece a notícia do culto de milagres em Monroe, a cerca de 145 quilômetros de distância. Sua esposa foi quem dirigiu o carro enquanto ele estava deitado no banco traseiro, sofrendo. Os introdutores ajudaram-no com a cadeira de rodas, e ele, por fim, entrou no prédio. O dr. Harris vinha de uma longa linhagem de pregadores e missionários da Igreja Batista do Sul e, embora cresse na Bíblia, nunca havia crido de fato em milagres. Contudo, enquanto estava sentado no culto de milagres, sentiu um grande calor passando por sua coxa. De repente, estava sem a cadeira de rodas, correndo pelo corredor. Ele tirou o aparelho de sua perna e coxa e percebeu que podia subir as escadas da plataforma sem dor ou desconforto. Em pé diante da senhorita Kuhlman, ele de repente "caiu sob o poder". Não havia ninguém por perto para segurá-lo e, por isso, ele desabou na plataforma, caindo sobre sua coxa direita. Contudo, não se machucou. Ele se levantou e voltou a cair no chão — atingindo novamente a mesma coxa, sem nenhum dano a ela. Ao voltar para casa, ele pediu ao seu amigo e cirurgião ortopedista judeu, o dr. Dan Kingsley — que, dias atrás, havia considerado a possibilidade de um transplante na coxa — que o examinasse. O dr. Kingsley corrigira o dano causado pelo acidente e acompanhou o caso ao longo dos anos. Ele reagiu com ceticismo para com a história de Cliff Harris, mas foi forçado a admitir, depois de examinar as radiografias e vê-lo andando sem aparelho, muletas ou a cadeira de rodas, que "teria ficado emocionado com aquele bom resultado depois de um transplante total na coxa". O dr. Harris nunca mais usou sua cadeira de rodas. Nem todos que caíam eram curados, é claro. Uma mulher em Tulsa, Oklahoma, caiu "sob o poder". Depois de se pôr em pé, balançando a cabeça, ela disse: "Foi uma boa experiência, mas minhas costas ainda doem". Um mistério imponderável. Ninguém parece saber o que exatamente leva a isso. É como se o poder sobrenatural do Espírito Santo passando pelo corpo causasse um curto-circuito em todas as suas funções por um instante. Os músculos e nervos que normalmente são controlados por correntes elétricas enviadas pelo cérebro ficam simplesmente afetados, como se 1 milhão de volts de um relâmpago atingisse o sistema elétrico de uma casa cuja instalação é de 110 volts. Nesse caso, todos os sistemas entrariam em curto-circuito. A força queimaria todos os disjuntores e fusíveis, tornando inoperante cada aparelho plugado. Assim, o poder do Espírito Santo, fluindo pelo corpo humano, faz com que a pessoa espiritualmente "plugada" caia no chão. No Shrine Auditorium, em um domingo à tarde, Kathryn chamou todos os clérigos — católicos, protestantes e judeus — à plataforma. Quase 159


75 atenderam ao chamado e ficaram de pé em volta dela. Ela estendeu a mão duas vezes, uma para a sua direita e uma para a sua esquerda, e todos os homens caíram no chão, uns sobre os outros, como pedaços de lenha empilhados. Em Miami, Flórida, ela começou passando pelo coro para orar por aqueles em quem podia tocar, e quase 400 pessoas caíram sob o poder. Outra vez, em seu escritório em Pittsburgh, um ministro de uma igreja presbiteriana local levou um amigo que era professor de teologia para conhecer a senhorita Kuhlman. Antes de os dois saírem, conversando em pé à porta do escritório, Kathryn ofereceu-se para orar pelo professor. Ele sabia o que isso poderia significar e firmou seu corpo atlético para resistir a qualquer tentativa que se fizesse para derrubá-lo. Ela estendeu a mão e disse: "Querido Jesus!". No mesmo instante, o professor caiu no chão. Seu amigo ajudou-o a se levantar. Impressionado, o professor perguntou: "O que aconteceu?". Antes que seu amigo pudesse responder, ele caiu novamente. Kathryn deu um passo para trás, sorrindo, e pediu ao pastor que levasse seu amigo professor para casa antes que ele ficasse embriagado demais para andar. Os dois desceram o elevador com o professor, ainda cambaleante, que resmungava: "Não entendo. Não faz sentido". Mesmo com toda essa evidência à minha volta, eu tinha dificuldade para crer até que também caí sob o poder. Isso aconteceu no Shrine Auditorium, em Los Angeles. O culto de milagres estava quase terminando, e as pessoas estavam todas em pé, cantando. Eu estava no palco em uma fila de homens, em sua maioria ministros da região de Los Angeles, quando percebi Kathryn começar a andar em nossa direção, tocando as pessoas enquanto passava pela fila. Cada um dos homens caía para trás, enquanto recebia a oração de Kathryn, e era amparado pelos introdutores que corriam feito loucos para acompanhá-la, a fim de evitar que os homens caíssem nas cadeiras. Eu estava impressionado, mas não impressionado a ponto de querer ser tocado. Fui andando para trás, fora da fila. Kathryn continuou a passar apertada pela multidão, tocando as pessoas dos dois lados enquanto andava. Continuei a andar para trás, na direção dos bastidores, e, de repente, percebi que havia encostado na ponta do piano de cauda de mais de 2 metros de extensão. Não havia como contorná-lo. Eu a vi se aproximando e tomei uma rápida decisão. Não cairia só porque todos os homens haviam caído. Que eu saiba, ela nunca me tocou. Lembro-me de ter levantado os olhos, vendo a parte de baixo do piano de cauda e pensando no quanto parecia idiota, usando um terno cinza com sapatos pretos e uma gravata listrada, deitado sob o piano de cauda, diante de 7 mil pessoas. Então me dei conta da presença. Uma espécie de euforia tomou conta de mim e, com isso, tornei a deitar minha cabeça no piso de madeira lascado e alegrei-me na presença de Deus. Como eu estava debaixo do piano, ninguém me ajudou a ficar em pé. Fiquei deitado ali muito tempo depois de os outros homens já terem ocupado seus lugares, preparando-se para os momentos finais do culto.

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Por fim, saí rastejando do meu lugar e me sentei, porém nunca mais duvidei do poder mortificador do Espírito Santo. Certamente um dos segredos da grandeza de Kathryn no púlpito era sua capacidade de concentração — sua capacidade de continuar a agir, a despeito de distrações óbvias. Algumas dessas distrações ela conseguia controlar. Com um simples sinal com a cabeça para um introdutor, ela cuidava de uma pessoa entusiasmada que estava causando certo tumulto na galeria ou uma criança chorosa lá no meio da igreja. Embora algumas das pessoas que participavam dos cultos de milagres a julgassem como uma pessoa dura, quase cruel, pelo modo como lidava com tais tumultos, ela sabia que sua capacidade de concentrar-se na voz do Espírito Santo exigia que todas as distrações fossem banidas. Era comum interromper um momento reverente de adoração bem no meio, fazer um gesto na direção de uma criança chorosa, dizendo: "Maggie, cuide disso!", e, então, prosseguir como se nada tivesse acontecido. Algumas situações, no entanto, simplesmente não podiam ser tratadas com um gesto ou uma palavra rápida. Eram nesses casos que sua tendência de ignorar problemas às vezes se manifestava de um modo incrível. No outono de 1968, Pat Robertson, presidente da Christian Broadcasting Network [Rede de Transmissão Cristã] e moderador do conhecido programa de televisão The 700 Club [Clube 700] convidou Kathryn para ir a Portsmouth, Virgínia. Depois de participar de um Telethon durante o qual inúmeras pessoas foram curadas, ela terminou sua ministração na região litorânea com um culto de milagres no Norfolk Civic Auditorium. Jim Bakker, parceiro de Robertson na época, era o dirigente do culto até Pat chegar. Robertson, entretanto, estava atrasado. Kathryn mostrava-se agitada. Ela não tinha muita paciência com pessoas que não chegavam na hora marcada. O auditório estava lotado, com inúmeras pessoas no teatro que ficava atrás do prédio. A platéia estava impaciente, e, depois de esperar alguns minutos, Kathryn virou-se para Bakker, que estava em pé ao seu lado perto do palco, e disse: — Quando o Espírito Santo diz que devo iniciar o culto, não posso esperar. Vou começar. Antes mesmo de Bakker dizer: "Mas senhorita Kuhlman... ", ela passou por ele e subiu ao palco, balançando os braços e fazendo sinal para que o coro e a congregação se juntassem a ela no hino "Quão Grande És Tu". Mais de 3 mil pessoas enchiam o grande auditório, sentadas em cadeiras no centro e nas arquibancadas ao redor. Mas a tragédia estava para acontecer. Quando as pessoas se levantaram para cantar, ouviu-se um som como um forte suspiro, seguido por um grande estrondo e gritos estridentes. Uma parte inteira das arquibancadas, sob a tensão provocada 161


por grandes pulos, fechou-se contra a parede. Mais de cem pessoas vieram ao chão ou foram comprimidas entre as tábuas. Foi uma cena macabra. Quando os assentos, que obviamente não haviam sido fixados em seus lugares adequadamente, foram de encontro à parede, aqueles que não caíram para a frente no piso duro de madeira lá embaixo, foram pegos pelas pernas e suspensos, de cabeça para baixo, das arquibancadas — gritando, apavorados. Muitos no chão sangravam muito. Alguns haviam quebrado ossos, e outros estavam inconscientes. Felizmente, não houve nenhuma vítima fatal, mas a reunião tornou-se um tumulto, uma vez que os introdutores saíram correndo de todos os lados do auditório para tentar ajudar os feridos. Jim Bakker, lutando contra o pânico, correu para chamar o esquadrão de emergência e o corpo de bombeiros. Os introdutores rapidamente liberaram as pessoas que gritavam das arquibancadas e as estenderam no chão junto com os outros. Ambulâncias chegavam, sirenes tocavam, e os feridos eram levados em macas. Os oficiais de segurança, em seguida, esvaziaram o restante das arquibancadas, fazendo sinal para que todos saíssem de seus lugares e fossem para a plataforma principal. Atendentes interditavam as arquibancadas que haviam desmoronado, enquanto os obreiros corriam para trazer milhares de cadeiras para que houvesse mais lugares para se sentar. Todo o caótico processo durou mais de uma hora. Em meio a tudo isso, no entanto, Kathryn mantinha sua filosofia de agir como se isso nunca tivesse acontecido. A despeito do tumulto, da confusão e da desordem, ela continuou com o culto. Conduziu os louvores, ainda que poucos cantassem. Apresentou o coro, que tentou cantar sem ver as pessoas correndo de um lado para o outro diante dele. Então, ela voltou ao microfone, apresentando alguns dignitários que estavam na platéia, contando algumas histórias e recolhendo as ofertas. Assim que a multidão finalmente se acomodou, ela já estava no meio do sermão. Alguns que participaram do culto consideraram a atitude dela como uma demonstração magistral de autocontrole e concentração em um momento em que todas as outras pessoas estavam a ponto de entrar em pânico. Outros ficaram estarrecidos, e alguns, perturbados, pois ela não parou para orar pelos feridos — nem sequer fez referência à tragédia durante o culto. Contudo, muitos foram curados durante o culto de milagres, e, assim que a reunião terminou, a congregação — pelo menos, aqueles que não estavam no hospital — quase se esqueceu do alvoroço. Nada, ao que parecia, podia distrair Kathryn do curso que ela havia traçado. Olhando para trás, ao ler alguns dos transcritos literais desses cultos, deve-se concluir que era o Espírito Santo que operava a cura — e não Kathryn. Sua abordagem era, como disse Kinsolving, "incrivelmente banal". Não obstante, funcionava. Ficando perto do público, invadindo o

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que os psicólogos chamam de "espaço" pessoal, ela quase ofuscava as pessoas com sua presença. — Vamos nos divertir hoje. (Aplausos e alguns "améns" sinceros. ) Então ela contava algumas piadinhas — gracejos batidos que usava de vez em quando diante da mesma platéia. — Se algum de vocês não pode me ouvir, diga amém. (Ouvia-se um coro fraco de améns lá da galeria. ) amém?

— Se você não podia me ouvir, como soube que tinha de dizer (Risos baixinhos. ) — Talvez alguns de vocês já tenham sido curados da surdez. (Risos mais altos.)

A animação continuava por alguns minutos, e, então, depois de apresentar Dino e Jimmie McDonald, e talvez alguns dignitários, ela começava sua pregação. — Só vou falar 10 minutos hoje. Não mais que isso. (Então falava mais de uma hora.) Mas quando o Espírito começava a se mover, era possível ouvir uma agulha cair. "Há um problema de coração desaparecendo. Maravilhoso Jesus, eu te dou louvor e glória. Há um caso de diabetes... o açúcar está saindo do corpo... um ouvido foi totalmente aberto. Alguém está me ouvindo perfeitamente. Na galeria. Alguém verifique. Lá em cima na galeria, no lado esquerdo, está um homem que usa aparelho no ouvido. Veja esse ouvido, senhor. Segure bem firme o seu ouvido bom; o senhor me ouve perfeitamente... A artrite nos pés aqui embaixo, à minha esquerda. Vá rápido, Maggie. Ela está na quinta ou sexta fileira. Louvado seja, Jesus maravilhoso!" Nesse momento, uma fila daqueles que haviam sido curados se formava ao lado do palco. Virando-se para o dr. Richard Owellen, especialista na pesquisa de câncer da Universidade John Hopkins, que muitas vezes viajava com ela e agora estava conversando com uma bela jovem que era a primeira da fila, Kathryn logo disse: — O que temos aí, doutor? — Bursite. Esta garota é judia e estava sentada lá no fundo quando sentiu o ombro se soltar. — E você não podia fazer isso antes? — perguntou Kathryn, surpresa, segurando pelo braço a garota de cabelos pretos e levando-a ao microfone. 163


ombro.

A garota estava chorando e fazendo pequenos círculos com o

— Continue, querida. Balance bem esse braço. Ele não vai se desprender. A multidão bradou, aprovando a cura. A garota fazia grandes círculos com o braço ao mesmo tempo que derramava lágrimas por toda a plataforma. — E ela é judia? — Kathryn disse rindo. — Logo o rabino vai telefonar para mim e pedir que eu faça um culto de milagres na sinagoga. O órgão, que vinha tocando baixinho, aumentou seu volume. Kathryn gritou para a multidão: — Vamos dar um grande "Deus abençoe" para ela. A platéia respondeu com uma grande salva de palmas enquanto Kathryn estendeu a mão e tocou na cabeça da moça. "Querido Jesus, precioso Messias, eu te dou glória...". E não fez mais nada. A garota caiu nos braços de um dos homens que estavam no palco. Kathryn observava, espantada. Então, voltando-se para a platéia, ela disse: — É isso aí. Jesus ama os judeus também! Dessa vez os brados da platéia eram ensurdecedores. Virando-se para o outro lado do palco, ela fez sinal para um assistente que estava em pé ao lado de um senhor idoso que segurava um aparelho de ouvido na mão. — Aqui está o milagre da audição lá da galeria, senhorita Kuhlman. O procedimento era o mesmo de reunião em reunião. Nunca mudava. Pedindo ao homem que colocasse sua mão sobre o ouvido bom, ela ficou atrás dele. — O senhor pode me ouvir agora? — Sim. Ela deu um passo para trás. — O senhor pode me ouvir agora? — Sim. — O senhor ainda pode me ouvir? Ela estava agora a vários passos de distância, sussurrando. O fato de o sistema de amplificação pegar seu sussurro e o transformar em um estrondo, não fazia diferença para a multidão. Eles entendiam. Outro homem estava pronto quando foi ao microfone segurando um saco de papel marrom. Ele sussurrou algo para Kathryn e então ficou em silêncio. Ela bateu em sua coxa com a mão aberta e se curvou duas vezes, dando um sorriso. 164


— Pessoal, preciso falar uma coisa, uma coisa muito engraçada. Deus certamente tem senso de humor. — Voltando-se para o homem, ela disse: — Segure. Mostre a eles suas batatas. Ele diz que havia ouvido falar que batata era bom para artrite e que nunca ia a lugar algum sem elas. Enquanto estava sentado bem ali, ele foi curado da artrite no quadril. Agora ele não sabe quem o curou — se foram as batatas ou se foi Deus. Rindo, ela deu um empurrãozinho no homem e disse: — Vá, senhor. Corra pela plataforma. E, olhando para a multidão, complementou: — Observem-no, e ele deixou suas batatas para eu assar em casa". Nenhuma outra pessoa no mundo podia fazer isso e sair, a menos que tivesse o Espírito Santo. Às vezes, as pessoas se perguntavam se o Espírito Santo estava operando, apesar de Kathryn. Era uma boa pergunta. Mas ela era única. Muitos tentaram imitar seus maneirismos no púlpito, mas não conseguiram. Usavam a mesma técnica, a mesma metodologia. Mas não havia poder. Kathryn pode ter sido apenas uma pessoa comum, mas não há como descrever os cultos de milagres como cultos comuns. Um jovem repórter canadense, que compareceu a um culto de milagres como um cético, mas voltou como um cristão, escreveu em 1972: Não há muito que contar, exceto que ouvir 3 mil vozes cantando a canção-tema de Kathryn: "Ele me tocou e me fez completo", enquanto 6 mil mãos estavam levantadas — mãos retorcidas, mãos trêmulas, mãos finas, mãos jovens, mãos com unhas roídas, mãos marcadas de trabalhadores — é uma experiência que ninguém pode entender, a menos que esteja lá [... ]. Um culto de milagres é, usando o vernáculo comum, "tudo".

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Capítulo 15 Sempre Dando - Jamais Vazia A maioria das personalidades religiosas ajusta seu estilo de vida de modo a combinar com sua fama ascendente. Mas, ainda que a fama de Kathryn crescesse como uma nuvem atômica à medida que ela se aproximava dos 60 anos, sempre foi uma "obreira sem muita importância". Quando a Fundação Kathryn Kuhlman foi criada em 1957, sua receita bruta anual era de mais de 1 milhão de dólares. Contudo, Kathryn, determinadamente, se recusava a fazer o que a maioria dos "obreiros religiosos" mais importantes fazia. Ela nunca publicou uma revista. Raramente solicitava ofertas por meio de correspondência, ainda que ninguém tivesse uma lista de mala-direta melhor que a de Kathryn Kuhlman. Ela raramente falava em dinheiro em suas reuniões. Jamais teve um orador que usasse métodos eficientes no palco. Não usava recursos publicitários para chamar a atenção. Nunca se encaixou na categoria de angariadora de fundos. Continuou a ser, até a hora de sua morte, a broa de fubá do Missouri. O único recurso extra de maior alcance que Kathryn tinha no início era o rádio. Um dia, em 1958, enquanto estava pelejando com um programa de rádio no estúdio da WPIT, um amigo a apresentou a um jovem engenheiro de som, Steve Zelenko, que estava trabalhando para o Canal 11 em Pittsburgh. Zelenko, um católico romano nominal, ficou do lado de fora do estúdio por alguns minutos, ouvindo-a encerrar seu programa. Quando ela saiu, ele olhou, carrancudo: "Meu Deus, senhora. A senhora não sabe fazer melhor do que isso?". Kathryn contratou-o no mesmo instante. Steve pelejou com o velho equipamento de rádio de Kathryn por quase seis meses e, por fim, foi falar com ela. "Ouça, senhorita Kuhlman, isto aqui é um monte de lixo. Você não pode começar a fazer algo um pouco mais profissional? Se vai fazer algo para Deus, tem de ser bemfeito." Aquela foi a única crítica à qual Kathryn respondeu. Ela deu a Steve liberdade para montar todo o estúdio de som em seu escritório em expansão no Carlton House. O dinheiro para os programas de rádio era curto, mas ele conseguiu fazer os dólares renderem na compra de equipamentos e, com a nova programação de qualidade, pôde expandir o número de programas das quatro primeiras estações de Kathryn para 20, 30 e, por fim, quase 60. Enquanto a maioria das pessoas que trabalhavam para ela aceitava ordens, Steve sabia dá-las. E, por mais que se encolhesse diante da escolha de palavras de Steve, ela adorava sua dura honestidade. 166


Às vezes, ele a interrompia no meio de uma gravação, gritando de sua cabina, e dizia: "Senhorita Kuhlman, você pode fazer melhor do que isso. Você é a melhor. Pessoas de todas as partes do país estão sintonizadas no programa para ouvir o que está dizendo. Pare com essa coisa pouco original e pregue a Palavra". Ele gritava novamente lá em sua cabine, voltava a fita e dava a ela o sinal para continuar — ela raramente deixava de responder às censuras de Steve, exceto quando seu desempenho era fora de série na vez seguinte. Kathryn, por outro lado, não era nenhuma desajeitada quando o assunto dizia respeito às técnicas de radiodifusão. Gostava do modo como o apresentador Bill Martin da WPIT a apresentava, e havia guardado a fita dele, usando a voz do apresentador durante anos depois de ele ter morrido. Era especialista em edição e podia dizer a Steve, quase que no mesmo instante, onde voltar para ela recomeçar. Por causa da pressão do tempo, principalmente nos últimos anos de seu ministério, ela muitas vezes reproduzia fragmentos dos cultos de milagres ou valia-se de convidados especiais. Era mestra na improvisação e podia olhar para o relógio e cronometrar o final de suas mensagens no mesmo instante. A despeito do fato de algumas pessoas se queixarem do modo como entrava no ar — "Olá! Você estava me esperando?" — e do tom estranho e teatral de sua voz, Kathryn era uma verdadeira "profissional", e sabia disso. Mesmo assim, Kathryn ainda não era "importante". Os cultos de milagres às sextas-feiras no Carnegie Hall costumeiramente seguiam o mesmo formato — e sempre rendiam muitos milagres de cura todas as semanas. Os cultos aos domingos no Stambaugh Auditorium, onde as pessoas a chamavam de "pastora", estavam atingindo toda a região oriental de Ohio e ocidental da Pensilvânia. Literalmente, centenas de alcoólatras e prostitutas foram salvos por meio de seu ministério. O dr. Metcalfe, sem dúvida, regia o coro masculino com mais de 3 mil vozes e cuidava do coro de 200 jovens. Não obstante, Kathryn jamais mudou. Ela nunca modificou seu corte de cabelo nem seus métodos de conduzir os cultos. Ela cuidava de tudo. Era ela quem dirigia os estudos bíblicos nas segundas-feiras à noite na Primeira Igreja Presbiteriana. Realizava cerimônias de casamento, funerais, instruía os introdutores, dirigia os louvores, dava os avisos e dirigia os períodos de oração na maior parte do tempo. Em Cleveland, ela atraiu 17 mil. Em Wheeling, Virgínia, atraiu 18 mil em uma semana. E fotos dos que haviam sido curados em suas reuniões apareciam diariamente na primeira página do News-Register de Wheeling. Uma senhora de 56 anos, surda-muda desde os 4 anos de idade, participava dos cultos com a filha, que traduzia as mensagens de Kathryn usando a linguagem de sinais. Um dia, sentada em frente ao rádio em casa, a filha ouviu a mãe falar, devagar e com muita dificuldade: "Ou-viii a senhoriiii-ta Kuuuhl-mannn sorrir no rádii-o". A partir daquele momento, ela começou a ouvir e falar perfeitamente. 167


Até a única coisa que Kathryn ouvira dizer que era impossível aconteceu. Teólogos famosos começaram a abençoar — com entusiasmo — seu ministério. Entre eles, estava Wade Jumper, um batista canadense e especialista na síntese da religião e psicologia. Ao escrever para o Toronto Star em 6 de junho de 1964, Jumper defendeu o ministério de Kathryn.

O ministério Kuhlman é singular em termos teológicos. Com isso, eu me refiro ao tipo de Deus retratado nos cultos. Ele é um Criador e Recriador generoso e compassivo que opera curas milagrosas gratuitamente. Este conceito contrasta nitidamente com o Deus do favoritismo muitas vezes retratado que, parcimoniosamente, aquinhoa suas obras milagrosas em troca da justiça do homem. Alguns cultos de cura pareceram-me lembrar leilões exaltados. Deus é o leiloeiro invisível, e as pessoas que buscam cura são os licitantes; a moeda corrente é a fé do homem. Somente os arrematadores (aqueles que têm maior fé) podem assegurar o número limitado de curas. Nesse tipo de reunião de cura, a cura parece depender, sobretudo, de um toque e de uma oração da figura central, o evangelista. Nesse culto, as filas para receber cura e cada ficha preferencial parecem necessárias. Há curas; mas há tantas vítimas. Alguns que seguram os cartões preferenciais nunca recebem a atenção pessoal desejada de quem cura. Outros, que têm seu momento de ouro, mas não conseguem responder à ordem de quem cura para que fiquem sãos, acabam por sentir-se censurados, pois foi-lhes dito que sua fé não é grande o suficiente. Aceitando o diagnóstico do curandeiro sobre sua condição espiritual e julgando a fraqueza de sua fé responsável pela doença não curada, eles vão para casa, mais deprimidos do que quando chegaram para o culto. Parece muito mais difícil carregar suas novas feridas emocionais e espirituais do que sua aflição física. Algumas pessoas, vendo esses excluídos com o corpo e o coração partidos, voltam sua rebeldia contra Deus. Se Deus é assim — fazendo essas pessoas sofrerem desta forma porque lhes falta fé —, não quero nada de Deus, nem de nenhum culto de cura. Deus não é assim, declara a senhorita Kuhlman. O problema não é com Deus; está na equivocada interpretação de Deus pelo homem. Acho que os milhares de conversões pessoais e curas no ministério de Kathryn provam que ela teve êxito em descobrir e transmitir aos outros a natureza de Deus — um Deus cujo poder é dirigido pelo seu amor por seu povo. devido

O foco adequado no amor incondicional de Deus põe a cura no lugar no quadro de referência. Toda cura verdadeira, 168


independente da técnica que ajuda a propagá-la, é um dom de Deus. E depende essencialmente do amor de Deus, e não da força da fé daquele que a busca. Espera-se que outros, abençoados com o dom de cura semelhante ao de Kathryn Kuhlman, sigam o exemplo da senhorita Kuhlman. Até então, ainda tenho de sustentar que o ministério dela é coerente em si mesmo. Pois penso que, ao dizer isso, estou, devidamente, dando crédito a Deus — e não ao homem (ou mulher). Com tal aprovação tanto de Deus quanto do homem, parecia que Kathryn poderia, finalmente, passar para esse círculo de segurança que esperava havia tanto tempo. Contudo, como muitas celebridades, Kathryn era sempre perseguida por um medo interior de que seria incapaz de preservar sua imagem diante do público. Aquele pesadelo de que ninguém apareceria voltava sempre. E o medo profundo de que o Espírito Santo, um dia, lhe fosse tirado, deixando-a velha e feia, impotente para irradiar fé e esperança. Assim, ela montou seu próprio armário de compensações, do qual, ao longo dos anos, passou a tirar várias capas para disfarçar seus medos e inseguranças. Quando morreu, tinha mais de 75 vestidos para usar no púlpito pendurados em seu sótão, além de muitos outros para usar nos programas de televisão, que custavam, cada um, algumas centenas de dólares. Ela justificava seus gastos dizendo que os vestidos, em sua maior parte, eram modelitos que pedia aos vendedores que separassem quando o preço baixasse. Depois de usá-los algumas vezes, freqüentemente os presenteava à sua equipe — Maggie, Maryon e Ruth, em particular, que usavam o mesmo tamanho. Algumas das lembranças mais felizes das mulheres eram as vezes em que Kathryn as levava a sua bela casa em Fox Chapel para que olhassem as prateleiras e fizessem suas escolhas — peças de chiffon, malhas de tricô e até os vestidos esvoaçantes usados no púlpito. Ninguém nunca duvidou de que Kathryn Kuhlman adorava o que havia de melhor em costura. Kathryn, em seus últimos anos, visitava com freqüência as modernas boutiques pela Wilshire Boulevard e Beverly Hills. Uma repórter da Califórnia, escrevendo para a revista Los Angeles, disse que conhecia uma senhora que jurava ter visto, em uma memorável tarde, Kathryn se virando em frente a um espelho na I. Magnin's — uma das lojas mais exclusivas da Costa Oeste. "Moça", disse Kathryn, segundo a reportagem, à vendedora, "eu jamais poderia conversar com Deus usando este vestido". Ela gostava de suas jóias caras e de suas antigüidades, tudo que a ajudava a compensar a frustração de ser uma mulher em um mundo de homens — o mundo ministerial. Ao mesmo tempo, sua atenção exagerada às roupas dava a impressão de que se considerava uma realeza, como o duque de Windsor, que, segundo se dizia, fora educado diferentemente dos mortais comuns. 169


(Muitos anos depois de o duque abdicar do trono da Inglaterra, ele admitiu: "Nunca, em minha vida, peguei nada do chão. Quando tiro as roupas, simplesmente as jogo no chão. Sei que sempre há alguém atrás de mim para pegá-las".) Embora tenha nascido, e ainda fosse, uma pessoa comum, Kathryn sempre quis ser uma duquesa — assim como os pobres sonham em ser príncipes. Contudo, sabia, principalmente quando voltava para casa de sua família adotiva em Pittsburgh e Youngstown, que exibir muita realeza destruiria seu relacionamento com aqueles que ela amava — os poloneses, os irlandeses, os homens que trabalhavam com carvão e ferro, as prostitutas, os alcoólatras, aquelas pessoas corajosas que viam nela o reflexo de Deus. Talvez a repórter tenha interpretado mal a afirmação de Kathryn na I. Magnin's. Não era que Kathryn não poderia falar com Deus com "um vestido como aquele", mas ela sempre temia que Deus não falasse por meio dela com as pessoas comuns. Mas ela adorava roupas caras, jóias preciosas, hotéis luxuosos e viagens em primeira classe, embora, por outro lado, tivesse de compensar isso, sempre contando todas aquelas histórias sobre dormir em galinheiro em Idaho e usar os banheiros públicos por um níquel quando ela era muito pobre para poder pagar um quarto com chuveiro. Isso lhe dava, ela esperava, a identificação necessária com os pobres, ao mesmo tempo que lhe permitia o luxo de viver como uma rainha. Contudo, o que se perguntava era se Kathryn estava contando aquelas histórias para impressionar as pessoas ou para lembrar-se a si mesma: como o velho rei que encarrega um de seus soldados a se posicionar atrás dele, em sua carruagem, e sussurrar em seu ouvido: "Lembra-te, ó rei, de que és um mortal". Kathryn estava obcecada com o tamanho da multidão. Embora fosse bom ter os corredores de suas reuniões cheios, havia algo nela que desejava a satisfação de saber que "milhares haviam ido embora, impossibilitados de entrar". Era uma insegurança que tinha suas raízes profundas no solo de Concórdia. "Veja, mamãe. Eu falei que poderia vencer sozinha. " Como a maioria das pessoas inseguras, ela gostava de impressionar citando nomes de pessoas famosas como se fossem suas amigas, ainda que grande parte desses nomes fosse de pessoas que não podiam se comparar com ela na escala do reino. Ela gostava de falar sobre atores e atrizes de cinema que participavam dos cultos de milagres na Califórnia — fosse os de má ou de boa reputação — que apareciam escondidos por trás de óculos escuros, à procura, como todos os outros no Shrine Auditorium, da realidade espiritual. Um dos rituais antes de cada culto era o dos introdutores localizarem as personalidades famosas e dar a notícia a Kathryn em seu camarim. Ela sempre honrava a vontade dos astros de ficarem no anonimato, mas precisava saber que eles estavam ali, sentados e à espera, como reis e príncipes batendo à sua porta.

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Quando Betty Hutton apareceu em uma tarde chuvosa de domingo no Shrine Auditorium, Kathryn literalmente deu a seguinte ordem: "Façam com que ela se sente bem lá na frente. SE for preciso, troquem pessoas de lugar, pois eu a quero lá na frente". Sua ordem foi cumprida por ajudantes que perceberam que isso era mais importante para Kathryn do que para a senhorita Hutton. Após sua audiência privada com o Papa Paulo VI no Vaticano, ela enviou nota a vários jornais importantes do país — junto com uma foto do Papa segurando sua mão —, dizendo: "Sua Santidade, o Papa, elogiou a senhorita Kuhlman pelo 'admirável trabalho' que ela está realizando e a advertiu: 'FAZE-O BEM!'. Por mais que os fiéis protestantes entre seus seguidores não pudessem entender, para milhões de pessoas o Papa era o vigário de Cristo na terra... e, para uma garota ignorante de Concórdia, Missouri, ter um encontro como esse compensava muitas coisas que haviam acontecido no passado. O lado patético era, sem dúvida, que Kathryn não precisava provar nada. O mundo inteiro sabia que ela era uma serva de Deus. Escolhida. Uma filha do destino. Contudo, parecia que ela era incapaz de se livrar da garotinha ruiva que usava o creme da Spillman para tentar cobrir suas sardas a fim de tornar-se mais aceitável àqueles que estavam à sua volta. — Você viu este artigo na revista Movie Life? — ela disse, sem poder esconder a satisfação, quando entrei no escritório um dia. Admiti que a revista Movie Life não era uns dos periódicos que eu deixava em meu banheiro. Kathryn riu. — Maggie, pegue-a. Está por aí em algum lugar. Oh, é sensacional. Você não irá acreditar. É isso aí. Traga-a aqui para mim. Rapaz! Isso realmente irá levá-lo a Corcórdia. Ela folheou a revista, entregou-a a mim e, então, afastou-se, esperando minha reação. Eu não conseguia acreditar no que estava vendo. A primeira página inteira trazia um anúncio sobre como aumentar seus seios 6,50cm em quatorze dias. Em seguida, lá estava a esquisita manchete: "BOMBA: LIZ DESCOBRE QUE BURTON TEM OUTRA MULHER". E então aparecia uma reportagem de duas páginas de Kathryn e Robert Young, o dr. Marcus Welby da televisão. No topo das páginas sensacionalistas estava a manchete que chamava a atenção: "ROBERT YOUNG CURADO PELA CURANDEIRA DA FÉ KATHRYN KUHLMAN!". Olhei para Kathryn. Eu sabia quanto ela detestava ser chamada de curandeira da fé. Por um rápido instante, pensei em dizer-lhe o que realmente pensava. Então olhei para seu rosto. Ela estava com um sorriso frio e as mãos tremendo, nervosa, esperando minha reação — minha aprovação. Eu me rendi, coloquei minha máscara e disse: — Uau! É realmente sério! Ela voltou à vida. 171


— O que eu lhe disse? — ela sorriu. — Todos estão falando de mim. Voltando-se para Maggie e Maryon, que não haviam parado de escrever à máquina um instante, embora estivéssemos a alguns centímetros da mesa delas, Kathryn disse: — Vocês acham que eles vão tirar de mim o título honorífico da Universidade Oral Roberts quando virem isso? Ela deu um tapa na coxa, jogou a cabeça para trás, e riu novamente. — Sabe, nem Oral conseguiu isso nas páginas da Movie Life. Não pensei que ela havia recebido tantas críticas da UOR. De algum modo, eu não conseguia imaginar a Movie Life enfeitando a seção de revistas da livraria da universidade. Em dezembro de 1974, a revista People publicou quatro páginas que incluíam a foto de Kathryn esticada em sua cama na bela casa de Fox Chapel, lendo sua Bíblia sob a luz de um lustre antigo. "Querido Jesus", dizia a legenda, "não quero uma mansão no céu. Veja como é boa a minha cama". Kathryn achou isso divertido. Ela ficou igualmente impressionada quando a revista teológica Christianity Today colocou sua foto na capa e dedicou sete páginas a uma entrevista com ela. Sua reação foi a mesma quando a revista U. S. Catholic dedicou-lhe cinco páginas e concluiu com a seguinte afirmação: "Muitos católicos romanos na década de 1970 estão muito mais abertos a aceitar a idéia, que já foi ridicularizada, de que o Espírito Santo opera por meio de uma pregadora chamada Kathryn Kuhlman e cura as pessoas em nossos dias". Ela lia cada resenha, cada artigo sobre ela que aparecia em todas aquelas revistas que acompanhavam os jornais de domingo em todo o país. Era como se de fato conseguisse apoio nelas, até nas ruins. Pelo menos, estava sendo reconhecida, e este seu lado humano parecia precisar disso para continuar a caminhada. Em 1973, fui convidado a falar na Grande Conferência Carismática de Pittsburgh, realizada no Seminário Teológico de Pittsburgh. Cheguei ao aeroporto de Pittsburgh na mesma hora em que Kathryn estava chegando de Louisville, Kentucky. Ao ver-me no terminal, ela perguntou, sorrindo: — O que você está fazendo aqui? — Sou um dos palestrantes da Grande Conferência... — Não estou sabendo nada a respeito — ela interrompeu — mas deixe-me mostrar algo a você. Onde estão eles, Maggie? Estão naquela bolsa ali. Pegue-os para mim. Você não vai acreditar no que os jornais de Louisville disseram esta manhã. Nem pode imaginar! Ontem à noite, enchemos a grande Igreja Batista da Walnut Street. E o dr. Wayne Dehoney, ex-presidente da Convenção Batista do Sul... convidando uma pregadora... acredita?... e milagres... aos montes. Onde estão esses 172


jornais, Maggie?! Não deu para ler tudo no avião. Oh, lá está Loesch com o carro. Não dormimos há três dias. Vamos, Maggie... E elas se foram. Nunca cheguei a ver os jornais. Duvido que Kathryn tenha olhado para eles novamente. Mas, naquele momento, lêlos foi algo que a alimentou mais do que um café da manhã completo. Essa mesma insegurança a atormentava quando era colocada entre outros que tinham ministérios de cura — principalmente aqueles que estavam na categoria de "curandeiros da fé". Durante anos, mesmo nunca mais tendo se encontrado com Oral Roberts, ela menosprezava seu ministério — muitas vezes retalhando-o na imprensa ou durante um de seus sermões improvisados. Oral nunca rebateu, o que, sem dúvida, fez com que a questão da cura ficasse em constante ebulição. Quando o ministério de Oral deixou de ser o da cura e passou para o da educação, e ele abriu a sua universidade de milhões e milhões de dólares em Tulsa, Kathryn disse: "Ele sempre foi bom em levantar dinheiro". A rixa de uma das partes continuou. Em 1970, Kathryn aceitou um convite para realizar um culto de milagres em um sábado à tarde em Washington, D. C., na convenção regional da Associação dos Homens de Negócios do Evangelho Pleno. O culto aconteceria no salão do Washington Hilton. No sábado à noite, pouco depois que ela terminasse, o World Action Singers, da Universidade Oral Roberts, faria uma apresentação — seguida por uma mensagem do próprio Oral. Naquela noite, ela encerrou a ministração, trocou de roupa e voltou ao auditório escuro para ouvir Oral. Ela havia feito isso em várias ocasiões no passado, passando por desconhecida em reuniões de Oral. Mas agora ele havia mudado, e Kathryn queria ver como estava. Viola Malachuk, esposa de Dan, havia guardado um lugar para ela quase nos fundos do auditório. Ao acomodar-se no assento, Kathryn colocou a mão no braço de Viola e riu baixinho: "Tinha muita gente hoje à tarde, não tinha?". Na primavera de 1971, no entanto, algo aconteceu que mudou a atitude de Kathryn. Oral vinha ouvindo os programas de rádio e de televisão de Kathryn. Ele estava sendo pressionado por amigos que diziam que deveria participar de um culto de milagres. Por isso, foi a Los Angeles de avião com este objetivo. Sem ser reconhecido, como Kathryn em suas reuniões no passado, dirigiu-se à galeria e se perdeu no meio da multidão. Foi uma experiência que transformou a vida do homem que foi o primeiro a apresentar os milagres ao público em geral. Ao descrever aquele momento, Oral disse: "Olhei ao redor. Era uma platéia diferente da que vinha às minhas reuniões. Podia-se dizer que era uma platéia composta pelas chamadas pessoas importantes e pelas pessoas comuns como eu próprio. Então, de repente, uma mudança aconteceu na pessoa de Kathryn. Pude ver o que aconteceu da galeria. Ela

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disse: 'Há alguém lá em cima à esquerda que está sentindo a presença de Deus e sendo curado. Levante-se e venha à frente'. "Eu me virei e vi uma mulher em pé com uma criança pequena. A criança usava aparelhos nos braços e muletas. Aquela coisinha levantouse, e as pessoas a ajudaram a colocar um pé na frente do outro. Mas quando chegaram no meio do corredor, elas pararam. Tiraram os aparelhos e as muletas, e o garotinho deu um passo — e deu outro. Quando ele chegou à grande escadaria que levava ao púlpito, as pessoas começaram a ajudá-lo a subir. 'Não toquem nele', disse Kathryn. 'Vamos ver o que o Espírito Santo fez.' "Fiquei completamente desconcertado", continuou Oral. "Quando as pessoas soltaram o menino, ele não andou; correu. Naquele instante, eu soube que Kathryn Kuhlman era um vaso ungido de Deus. Eu me emocionei porque, enquanto estava sentado ali, vi coisas que Deus não havia feito por meu intermédio. Presenciei coisas que Deus não havia realizado por meio de ninguém que eu conhecesse. Eu me alegrei porque Deus foi tão maravilhoso. Ele era maior do que eu poderia imaginar. Era maior do que ela poderia imaginar. Olhei para o púlpito e vi todos aqueles padres católicos, ministros protestantes e um rabino judeu juntos. Nunca havia visto aquele grupo assim antes. Eu soube que o Deus Todo-Poderoso teria de fazer algo muito especial para ver todas aquelas pessoas ali em cima — e para ver-me na galeria. "Reconheci que Deus estava naquela mulher e que ela era única aos meus olhos porque Deus a estava usando de um modo diferente. Ele sempre havia usado não só minha voz, mas minhas mãos. Mas ele não usava as mãos dela para curar as pessoas. Ela não precisava tocar nas pessoas do modo como Deus queria que eu as tocasse. Se eu não as tocasse, raramente havia algum milagre. Mas, com Kathryn, acontecia o contrário. Comecei a ver que Deus não usa apenas um método. Ele tem muitos métodos." Após o culto, Oral desceu da galeria e juntou-se a um amigo, Tink Wilkerson, um abastado revendedor de carros de Tulsa que fazia parte da diretoria da Universidade Oral Roberts. Tink, que já conhecia Kathryn, disse que ela ficara sabendo que Oral estava na reunião e que gostaria de conhecê-lo. — Oh, não — disse Oral, segurando as mãos do amigo. — Eu sei como são as coisas depois de um culto assim. A pessoa fica tão cansada que mal consegue ficar em pé. Quero dizer, quando a unção sai, a pessoa fica tão fraca que precisa se deitar; do contrário, ela cai. — Não a senhorita Kuhlman — disse Tink. — Ela fica mais forte no final do culto do que no início — ainda que tenha ficado em pé por cinco horas.

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— Mas eu já estou cansado só de vê-la — gaguejou Oral. — Como aquela mulher frágil e fraca consegue ficar mais forte no final do culto do que no início? Isso eu preciso constatar. Descendo o longo corredor ao lado do auditório, Tink e Oral finalmente chegaram ao camarim de Kathryn. Era a primeira vez que os dois ministros se encontravam pessoalmente. Tink ficou para trás, com um pouco de receio do que poderia acontecer. Oral tomou a iniciativa. Antes de Kathryn poder dizer alguma coisa, ele disse: — Deus levantou você como sua serva. Seu trabalho foi além do meu, e não posso agradecer a Deus o suficiente por isso. Kathryn balançava a cabeça. Algo, antes amargo nela, desaparecera. Ela olhou bem dentro dos olhos do homem que antes considerava um rival e disse: — Oral, eu sei. Sei quem sou e quem é você. Sei o que sou e sei o que você é. Sei o que sou no reino e o que você é. Sei qual é o meu lugar. Os dois ficaram se olhando por um instante, e, então, Oral, sensível, disse: — Você deve estar exausta. — Nem um pouco — Kathryn disse, rindo. — Vou a um jantar tranqüilo com alguns amigos; me sinto ótima. Oral balançou a cabeça. — Bem, Kathryn, você tem algo que não tenho e que nunca tive. Daquele momento em diante, as coisas passaram a ser diferentes entre eles. No outono do ano seguinte, Kathryn foi a Tulsa para realizar um culto de milagres. Oral participou do culto e deu a sua bênção no púlpito. O culto causou um grande impacto na cidade. Mais de 9 mil pessoas encheram o Civic Center, e, pela primeira vez, ministros de todas as denominações, católicos e protestantes, se reuniram. A primeira pessoa a "cair sob o poder" foi uma freira católica. Mais tarde, durante o culto, o pastor da Primeira Igreja Metodista, o dr. Bill Thomas, também caiu no Espírito. A comunidade cristã de Tulsa ficou excitada durante dias após a partida de Kathryn. Na primavera de 1973, a Universidade Oral Roberts, agora plenamente credenciada, concedeu seu primeiro título honorífico — Doutora em Letras Humanas — a Kathryn. "Conseguimos", disse Oral, "pois ela representou o que há de melhor no ministério de cura de Jesus. Eu gostaria que o mundo se lembrasse por que a UOR foi organizada, pois ela é mais do que uma instituição acadêmica. A única pessoa no mundo que encarnou tudo o que cremos foi Kathryn Kuhlman". Kathryn, usando o capelo e a beca que nunca teve o privilégio de usar no colégio, recebeu seu canudo de doutora e então se virou para a 175


platéia. As lágrimas escorreram, é claro. Ela levantou seu diploma e disse: "Ninguém aqui pode imaginar o que isso custou para mim. Só Deus". Em seguida, virou-se para Oral e disse, sorrindo: "Oral, você sabe que somos um. Somos um". Após a cerimônia, Kathryn puxou Oral de lado. — Richard e Patty gostariam de levar-me ao aeroporto. Richard e Patty eram o filho e a nora de Oral, os astros de seu programa de televisão. Ambos eram cantores profissionais e cantavam fazia anos com o World Action Singers. No entanto, talvez por causa de toda a fama, ou em virtude da responsabilidade de ter um pai famoso, o relacionamento do casal estava ficando tenso. Oral segurou a mão de Kathryn. — Nunca houve um divórcio em minha família. Minha vida representa alguma coisa. Mas Evelyn e eu não podemos fazer nada sobre esta questão. Tem sido duro para Patty... unir-se a uma família como a nossa... mas há problemas...". A voz de Oral sumiu, e os dois seguiram para o estacionamento em silêncio. Ninguém sabe exatamente o que aconteceu no carro naquele dia. Mas, quando Richard e Patty voltaram do aeroporto para casa, o casamento dos dois estava diferente. Salvo. Kathryn voltou à UOR no outono de 1975. Foi um de seus últimos sermões antes de morrer. Reunindo-se na nova capela que comportava 4 mil pessoas sentadas, ela falou ao corpo discente sobre si mesma — e sobre o Espírito Santo. "O mundo chamou-me de louca porque entreguei toda a minha vida àquele a quem nunca vi", ela disse, em lágrimas. "Sei exatamente o que vou dizer quando estiver em sua presença. Quando eu olhar para a maravilhosa face de Jesus, só terei uma coisa a dizer: eu tentei. Entreguei-me da melhor maneira que pude. Minha redenção será perfeita quando eu estiver em pé diante daquele que tornou tudo possível. " Quando ela fez o apelo do altar, todo o corpo discente respondeu. Chorando. Caindo de joelhos em volta do púlpito e pelos corredores. Um dos astros do basquete, um rapaz a quem ninguém havia conseguido alcançar, caiu de joelhos no altar e "recebeu oração". Em menos de três minutos, ele estava louvando a Deus em uma nova língua. Oral, mais tarde, disse: "Descobri naquele dia o que ela queria dizer quando afirmava: 'Não é Kathryn Kuhlman; é o Espírito Santo'. O Espírito Santo é o Cristo vivo na forma invisível e ilimitada. O Espírito Santo era muito real para ela, mais real do que qualquer pessoa à sua volta. Os dois — ela e o Espírito Santo — estavam tão envolvidos um com o outro que eles conversavam entre si, e ninguém sabia dizer quando era que o Espírito Santo começava e Kathryn era deixada fora. Eles eram um". 176


Foi uma estranha aliança que existiu entre esses dois ministérios, cada um deles maravilhoso em áreas distintas, mas que se complementavam — e até se abençoavam. Ambos aprenderam um com o outro, e a afeição mútua perdurou pelo resto da vida de Kathryn. A despeito do fato de os críticos de Kathryn tentarem basear grande parte de sua motivação em suas inseguranças, não era isso que acontecia. Muito — a maior parte, na verdade — do que ela fez foi fruto de uma direção positiva, e não de atitudes para compensar frustrações negativas. Eu, pessoalmente, nunca conheci uma pessoa tão motivada — levando-se a si mesma à total exaustão por amor ao Senhor. "Sabe", ela uma vez me disse, "se algumas das pessoas que estão fazendo um trabalho tão malfeito para o Senhor fizessem o mesmo serviço malfeito para o patrão, seriam demitidas antes do fim da tarde. " Embora Kathryn tivesse um amor especial pelos ministros, ela era, sobretudo, severa para com aqueles que se contentavam em realizar a obra de um modo inferior. Exigia perfeição de si mesma e de sua equipe, e esperava ver isso em todos os outros que representavam o Senhor. Ela muitas vezes julgava pela aparência. "Não quero aquele homem como introdutor", dizia a quem quer que fosse responsável pelos introdutores. "Se ele não tem autodisciplina suficiente para lustrar os sapatos, então não quero vê-lo no ministério de Deus." Quando Kathryn mudou-se pela primeira vez para Pittsburgh, tinha um trabalho de impressão que precisava ser feito. Ela enviou o trabalho a um tipógrafo local, mas, quando o material foi entregue ao seu escritório, ficou furiosa. "As imperfeições eram imperdoáveis", disse. Ela telefonou para o tipógrafo e exigiu que ele fosse ao seu escritório e pegasse o trabalho de volta. Não podia aceitá-lo. Quando o homem finalmente apareceu, Kathryn foi ter com ele na porta e o repreendeu. Ele ficou parado, envergonhado, enquanto a ouvia apontar todos os erros. Ele, por fim, se desculpou. — Bem, senhorita Kuhlman, pensei que, como vocês faziam parte de uma organização religiosa, não perceberiam alguns erros. Kathryn irritou-se. — O senhor não faria um trabalho porco para o sr. Harris da Ice Capades. O senhor sabe que ele exigiria perfeição, portanto entregaria um trabalho perfeito a ele. Represento algo que é muito maior do que a Ice Capades. Talvez o senhor não tenha percebido isso, mas este trabalho que lhe foi enviado por este escritório representa a maior empresa do mundo, e, entre os membros da diretoria, estão o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Foi-me confiada a incumbência de apresentar este trabalho pronto, e eu quero perfeição nele.

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É claro que Kathryn tinha inseguranças. Todos temos. Tinha tantas que até o observador mais negligente podia ver os buracos abertos em sua armadura. Mas ela não era motivada por essas inseguranças, pois, lá no íntimo, era a pessoa mais segura que já conheci. Isso era evidenciado por sua inquestionável autoridade em questões espirituais. Não era uma fachada. Uma máscara. Era genuíno. E quando ela sofria um corte profundo, feito por amigos e inimigos, mesmo que sangrasse um pouco, lá no ponto mais profundo da incisão ainda era possível encontrar Jesus. A força motriz em sua vida era o amor. Como o apóstolo Paulo que disse "o amor de Cristo me constrange", ela era motivada pelo amor — seu amor por Cristo e pelas pessoas. Viva em minha memória está a lembrança do momento em que me sentei com ela em um camarim sujo em Orlando, Flórida. O culto de milagres havia terminado. As pessoas se retiraram. Mas ela estava chorando. Soluçando incontrolavelmente. Eu queria abraçá-la, como um pai que consola a filha de coração partido. Mas não tinha coragem de tocá-la. A unção de Deus ainda estava sobre ela, e eu sabia que precisava ficar sozinha em sua tristeza. Só havia um ombro sobre o qual ela podia deitar sua cabeça e um coração do qual podia receber consolo — os do seu. Seu Pai celestial. Eu sabia, por conversas que havia tido com Maggie e outros que eram mais próximos dela, que ela sempre saía dos cultos de milagres e ficava no escuro, chorando. Havia tantos com tanta dor — e tantas almas perdidas na escuridão de sua própria culpa e condenação — e ela era só uma mulher. Uma mulher frágil e comum — com um coração tão grande quanto o coração de Deus. Não é de admirar que, no final, tenha morrido com o coração dilatado, batendo e expandindo até tentar reclamar o mundo todo para Cristo. Eu a vi, por várias ocasiões, pegar uma criança que era coxa, talvez paralítica de nascença, e abraçá-la contra seu peito com o amor de uma mãe. Estou convencido de que ela teria, em algum momento que lhe fosse pedido, entregado sua vida em troca da cura daquela criança. Ela abraçava alcoólatras que já estavam com a vista embaçada e misturava suas lágrimas às deles. E as prostitutas que vinham às suas reuniões, com lágrimas borrando a maquiagem, sabiam que, se pudessem tocá-la, teriam tocado no amor de Deus. E aquelas velhinhas, que mancavam com o apoio de bengalas e muletas, dentre as quais algumas nem sabiam falar o inglês, eram atraídas pela linguagem universal do amor. Nenhum homem poderia ter amado assim. Foi esse amor que levou uma mulher, privada do amor de um homem, com o útero estéril, a amar como amou. Do seu vazio, ela dava, para ser cheia novamente pelo único amor que lhe era permitido ter — o Espírito Santo.

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Capítulo 16 Traída! Parecia que Kathryn finalmente havia "chegado lá". Sua mesa estava cheia de cartas de personalidades importantes da televisão, pedindo-lhe que aparecesse em seus programas — Mike Douglas, Dinah Shore, Merv Griffin. Alguns, como Johnny Carson no Tonight Show, tentaram atormentá-la. "A maioria dos médicos diz que 85% de todas as doenças são psicossomáticas", Carson provocou. "Como você pode declarar que essas pessoas foram curadas quando não estavam de fato doentes?" Kathryn não poderia ter melhor resposta — afinal, com perguntas como essa, ele estava entrando na área dela. "Se os médicos não conseguem ajudar paralíticos psicossomáticos, e esses paralíticos vêm a esses maravilhosos cultos de milagres, Deus os toca, e eles saem sem suas muletas e ficam curados — que diferença faz se a doença é psicossomática ou não?" Carson deu um sorriso sem graça, raspou a garganta e chamou o comercial. Mas, junto com a popularidade ascendente de Kathryn, vieram as armadilhas e o perigo. Ela estava encantada com o clima místico de Hollywood. Ralph Wilkerson apresentou-a a Dino Kartsonakis. Foi um encontro natural. O jovem e belo pianista, que parecia um "deus grego", viera para o Melodyland de Wilkerson como diretor musical. Ralph percebeu que, a despeito da notável habilidade musical do jovem grego, ele não dirigia corais. Era tecladista. Exatamente o que Kathryn precisava. Kathryn contratou-o no mesmo instante. Ela vinha usando vários pianistas em seu programa de televisão, mas Dino era mais do que ela havia sonhado. Com olhos negros e brilhantes, ele alisava o piano de cauda como se fosse uma harpa. Mesmo estando com seus 20 e poucos anos quando ela o contratou, ele já era aclamado como um dos melhores tecladistas do país. Ela o colocou logo no palco. "E agora, DIIII-noo." Os refletores concentravam-se nele enquanto ele vinha dos bastidores, usando um smoking de veludo azul-escuro, com uma camisa de babado e abotoaduras e anéis brilhantes. Ela segurava seu braço após a apresentação e contava as mesmas histórias tolas sobre a garotinha que queria Dino em sua árvore de Natal. Ele ficava ali, humilde e absorvido. Afinal, ela escolhia as roupas dele, que eram mais elegantes do que as que ele poderia comprar, e o ensinava a usá-las com estilo. Ela o enviava à Itália para fazer seus ternos sob medida, hospedava-o nos melhores hotéis e financiava seus discos e produção de partituras. 179


Ela, por sua vez, achava agradável estar na companhia de um belo jovem que poderia acompanhá-la em um jantar, sentar-se ao seu lado durante as longas viagens de avião, dar gorjeta aos porteiros e chamar os táxis. Seus funcionários no escritório de Pittsburgh chamavam-no de gigolô — o acompanhante pago de Kathryn. Steve Zelenko, o rapaz chato que trabalhava no escritório de Pittsburgh, viu o perigo e tentou adverti-la. — Veja, senhorita Kuhlman, isso não é bom. Tudo bem, o rapaz é divertido. Ele é alegre. Ele é gracioso. É alguém em quem a senhorita se apega à medida que está envelhecendo. Mas, cuidado. Kathryn estava segura de si mesma. — Sei o que estou fazendo. Pode parecer que ele esteja me usando, pendurado no rabo de minha saia. Mas eu sei o que estou fazendo. Não se preocupe. Mas Steve ficou preocupado. E o mesmo aconteceu com muitos amigos de Kathryn. As coisas pioraram quando Dino convenceu Kathryn a contratar seu cunhado, Paul Bartholomew, para distribuir os programas de televisão e trabalhar como seu administrador pessoal. Ele se tornou o colaborador mais bem pago. No auge de seu trabalho, Bartholomew estava ganhando mais de 130 mil dólares por ano em comissões, mais 15 mil dólares por ser o administrador pessoal de Kathryn. Além disso, Kathryn pagava todos os aluguéis e serviços públicos do escritório dele em Newport Beach. — Veja aquele rapaz — advertiu Steve Zelenko. — Você não precisa dele. Você já conseguiu muita coisa para se deixar envolver. Você tem bens com os quais esse rapaz nunca sonhou. Desista antes que fique machucada. Kathryn gritou lá do estúdio de gravação e disse a Maryon Marsh no escritório da frente: — Não sei por que converso com esse homem. Ele está paranóico em relação a este assunto. Mas Steve estava certo, e se Kathryn o tivesse ouvido — ou ouvido alguém dos que estavam à sua volta —, isso a teria poupado de muita angústia e dor — e quem sabe até salvado sua vida. Kathryn descobriu que Dino estava namorando Debby Keener, que, segundo boatos, era uma ex-garòta de programa. Kathryn ficou furiosa. Ela sabia que Dino tinha sido solícito com June Hunt, filha do bilionário H. L. Hunt, do Texas, em Dallas. Ela aprovou isso. Mas namorar uma ex-garota de programa era uma coisa bem diferente. Ela enfrentou Dino. Ele negou que Debby era uma ex-garota de programa, mas confessou que as duas eram suas amigas. Kathryn continuou indignada. O relacionamento entre os dois piorou — salvo alguns interlúdios felizes — depois disso. 180


Em dezembro de 1973, Kathryn, Maggie e Dino viajaram de Pittsburgh para Los Angeles. No avião, Maggie folheava alguns tablóides, como o National Enquirer, National Tattler e outros jornais de fofocas. — Veja isto! — ela exclamou. Ela passou o jornal a Kathryn. O jornal trazia uma história que envolvia Debby Keener. Estranhamente, Dino permaneceu em silêncio enquanto Kathryn rasgou o artigo e o guardou em sua bolsa. Ela o confrontou novamente. — Veja, você vai ter de tomar uma decisão. Se quiser ficar com essa garota, estará fora do ministério. É isso. Dino tentou explicar que eles eram só amigos. — Deixe-a! — Kathryn disse. — Se você não a deixar, termina aqui a nossa relação. Dino concordou em não ver aquela moça novamente. E, por um tempo, pareceu que o relacionamento entre Kathryn e Dino estivesse acertado. Kathryn trouxe-o consigo quando ela e Maggie viajaram para o Brasil. Eles passaram um feriado no Rio de Janeiro, em janeiro de 1975. Dino disse que queria comprar algumas coisas para sua casa, e Kathryn patrocinou suas compras. Mais tarde, ela descobriu que ele estava de fato comprando aquelas coisas para Debby e ficou profundamente magoada. Ela era suficientemente esperta para perceber que ele estava pronto para se casar. Contudo, esperava, como muitas vezes disse a Maggie, que, ao se casar, ele não envergonhasse "o ministério". Em 22 de fevereiro de 1974, ela havia assinado um acordo com a firma de Rullman e Munger, em Hollywood, para um negócio de publicidade de muitos milhões de dólares para a Fundação Kuhlman. Naquele instante, Paul Bartholomew insistiu para que ele também fizesse parte do contrato. Ele a pressionou a fazer outro contrato, dizendo que era o único representante da Fundação Kuhlman para lidar com todas as contas de rádio e de televisão. Rullman e Munger moveram uma ação judicial, e Kathryn, por fim, fez um acordo amigável. Dino vira aqueles fatos e, em fevereiro de 1975, fez com que seu cunhado, Bartholomew, preparasse um contrato escrito para Kathryn assinar, exigindo que ela lhe pagasse 20 mil dólares de salário básico, mais 500 dólares por vez que ele se apresentasse em público a serviço dela (incluindo programas de televisão), mais o pagamento de todas as despesas. Dino agora estava pensando seriamente em casar-se com Debby e queria proteger seus interesses. Kathryn estava em Los Angeles para realizar um culto de milagres no Shrine no domingo e, em seguida, gravar oito programas de televisão na quarta e na quinta. Na terça-feira à noite, Bartholomew procurou Kathryn no Century Plaza Hotel. Interfonou do saguão para seu quarto no décimo oitavo andar e perguntou se ele poderia subir. Kathryn suspeitou. 181


— Sabe, Paul, tenho um programa de televisão amanhã. Vamos começar cedo. — Tenho uma carta para você. Precisa lê-la antes do programa de televisão da manhã. Kathryn mordeu os lábios. — Entregue-a ao mensageiro do hotel e peça a ele que a traga aqui em cima — ela disse. — Cuidarei disso. Minutos depois, após ler as exigências de Dino, Kathryn correu ao telefone para tentar falar com Maggie em Pittsburgh. O escritório já estava fechado, mas ela a encontrou em casa. — Estamos com problemas — ela disse. — O que há de errado? — Maggie perguntou. — Dino fez algumas exigências ultrajantes e quer que eu assine um contrato amanhã de manhã. Preciso de um pianista — rápido. — O que acha de Paul Ferrin? — Maggie sugeriu. Paul Ferrin havia se casado com a filha de Biney Anderson, uma das garotas do Trio Anderson. Ele era um musicista perfeito, responsável pela música da Bethel Church, em San Jose, na Califórnia. — Veja se você consegue falar com ele, Maggie — Kathryn disse com a voz cansada. — Depois volte a contatar-me. Maggie explicou a situação a Paul. Ele concordou em viajar logo cedo, na quarta-feira, para estar no estúdio da CBS, caso fosse necessário. O palco estava armado — literalmente — para o confronto na manhã seguinte. Dino chegou cedo, mas ficou perturbado ao ver Paul Ferrin no estúdio, conversando com Dick Ross. Ao voltar para o camarim de Kathryn, ele não perdeu tempo. — E aí? — perguntou em pé na porta. — E aí o quê? — Kathryn perguntou sem sair de sua cadeira. — Você assinou o contrato? — Não, e nem pretendo assiná-lo. Você sabe que não pode me pressionar assim. Você teve coisas boas. Muito boas. — O que aquele rapaz está fazendo aqui? — Dino perguntou. Kathryn sorriu. — Você não achou que eu ficaria despreparada, achou? Já estou neste ramo há muito mais tempo do que você. Agora você está acabado. Dispensado. Saia e nunca mais volte. Kathryn estava em pé agora, com o rosto vermelho de raiva. Dino bateu a porta. As mãos de Kathryn tremiam quando ela as pôs sobre o 182


rosto e desabou a chorar. Mas ela era, como um repórter do jornal a chamou, uma "cobra criada". Ela conhecia o axioma de Hollywood. O show tem de continuar. Ela refez suas forças e foi para a sala de maquiagem. Havia trabalho por fazer. Foi uma semana inacreditavelmente difícil. No domingo, 2 de fevereiro, ela esteve no Shrine Auditorium para realizar um culto de milagres. Na segunda, gravou o programa de Dinah Shore na CBS. Na terça, voltou à CBS para gravar o Larry Solway Show para a Companhia de Transmissão Canadense. Naquela noite, ela recebeu o bilhete e o contrato de Paul Bartholomew. Na manhã seguinte, teve seu confronto com Dino e gravou quatro programas de televisão na CBS. No dia seguinte, voltou para gravar outros quatro programas de televisão. No sábado, viajou de avião para Pittsburgh a fim de participar dos cultos em Youngstown no domingo. Na semana seguinte, realizou seu culto de milagres na Primeira Igreja Presbiteriana, em Pittsburgh e, depois, em 16 de fevereiro, voltou ao Shrine para realizar outro culto de milagres em Los Angeles. Na terça, viajou para Oakland para um culto de milagres no Oakland Coliseum. Naquele mesmo dia, fez o programa de televisão AM. in San Francisco. Na quinta, voltou para Pittsburgh a fim de realizar o culto de milagres das sextas pela manhã na Primeira Igreja Presbiteriana. Naquela mesma tarde, tinha de gravar o programa David Susskind Show e depois ir para Youngstown novamente no domingo. Não parecia possível que pudesse acontecer algo para apertar mais ainda as coisas. Mas aconteceu. Havia meses, o dr. Arthur Metcalfe, o dirigente do coro de Kathryn, vinha tendo dores no peito. Seus médicos em Pittsburgh o haviam examinado e lhe dado sinal verde. Os médicos disseram que fariam exames para checar úlceras quando ele voltasse da Califórnia. Ele esteve com Kathryn no Shrine e em Oakland e voltou para casa de avião em 19 de fevereiro. Na manhã de 20 de fevereiro de 1975, quando dirigia de casa para o escritório, as dores no peito voltaram, e ele teve de fazer um retorno de emergência para casa. No meio da manhã, a senhora Metcalfe telefonou para o escritório e comunicou sem rodeios: "Art acaba de falecer". Maryon ficou sem fala. Não só por causa da dor que sentiria sua querida amiga, mas porque ela sabia que a senhorita Kuhlman estava voltando para Pittsburgh, tendo acabado de passar pelos momentos mais difíceis de sua vida. Será que ela agüentaria o choque? Maryon deu um jeito para que Loesch localizasse o vôo e contasse a Maggie sobre a morte do dr. Metcalfe. Maggie poderia, então, dar a notícia a Kathryn. Ninguém sabe quanta pressão o problema com Dino causou ao coração do dr. Metcalfe. Ninguém sabe quanta pressão os dois eventos causaram a Kathryn. Mas, aparentemente, ela se recuperou quase que de imediato — e seguiu em frente. O problema com Dino estava longe de ser solucionado. Em 15 de fevereiro, Kathryn demitira Paul Bartholomew como seu administrador 183


pessoal, apesar de não poder demiti-lo como seu agente de televisão. Ela havia assinado, imprudentemente, um contrato que estabelecia que não poderia dispensá-lo sem um aviso prévio de 90 dias — aviso que não poderia ser dado antes de 31 de dezembro. Isso significava que ela não podia livrar-se das obrigações daquele contrato antes de 31 de março de 1976, quase um ano depois. Em 1974, quando Kathryn estava em Tulsa para um culto de milagres, foi D. B. "Tink" Wilkerson quem forneceu o espaço do escritório para Maudie Phillis cuidar dos detalhes que antecediam a reunião. Naquele momento, Tink ofereceu-se para ajudar a senhorita Kuhlman, bancando as despesas. "Eu realmente acho que posso ser útil", ele disse. "Você já está dirigindo um negócio de sucesso, mas precisa de um homem que atue como seu gerente comercial, alguém que negocie seus contratos empresariais. " Era do conhecimento de todos que Kathryn havia sido enganada várias vezes. Kathryn, no entanto, não estava interessada na proposta de Tink. Ela agradeceu e considerou a atitude como um gesto amigável. Entretanto, Tink e sua esposa continuaram a participar dos cultos de milagres. Kathryn desenvolveu uma afeição por Sue e, freqüentemente, telefonava para ela aos sábados de manhã, de onde estivesse, só para conversar. Sue começou a perceber que Kathryn era, basicamente, uma pessoa solitária e que ela poderia ministrar à vida de Kathryn só em ouvir o que tinha para falar. Havia uma relação calorosa entre as duas, embora não fosse íntima. Em abril de 1975, Tink e Sue foram de avião para St. Louis a fim de participarem do culto de milagres no Keil Auditorium e fazer uma visita a Kathryn. Tink passou em seu hotel depois do culto, e eles conversaram rapidamente. Ele sabia que Dino havia partido, que havia problemas crônicos com Paul Bartholomew, e ficou preocupado. Kathryn contou-lhe que ela estava presa a seu contrato com Bartholomew e que receava que ele estivesse tentando aproveitar-se dela. Ela lhe contou que pretendia pagar uma indenização pela rescisão do contrato com Bartholomew e contratar um novo agente. Isso lhe custaria mais de 120 mil dólares, mas achava que o preço compensava para vêlo longe. — Kathryn, até onde sei, isso provavelmente é a pior coisa que você pode fazer —Tink disse. Embora não tivesse evidência na época, Tink suspeitava que Bartholomew aceitaria o dinheiro e depois voltaria para se aproveitar ainda mais dela. Kathryn balançou a cabeça.

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— Vou fazer isso. Está decidido. Já constituí uma nova empresa, chamada Kuhlman Media International (KMI), que cuidará de meus negócios com a televisão e outros meios de comunicação. Tink balançou a cabeça. — Você está cometendo um terrível erro. Não vou discutir com você a respeito, mas estou dizendo que é um erro. Sue e eu vamos ao Havaí, mas passaremos em Los Angeles e a veremos quando voltarmos para Tulsa. No final da tarde de sábado, 3 de maio, Tink e Sue chegaram em Los Angeles, de volta do Havaí. Telefonaram para o hotel. Kathryn havia acabado de chegar do culto de milagres em Las Vegas. — Estou cansada agora — ela disse —, mas gostaria de vê-los amanhã. Talvez eu deva ouvir vocês. No dia seguinte, Tink e Kathryn encontraram-se para discutir o crescente problema com Bartholomew. Tink incentivou-a a contratar um advogado. Kathryn hesitava em usar o advogado de Pittsburgh, com medo de que a notícia chegasse à casa das pessoas. Ironicamente, podia contar com um advogado dos quadros da Fundação Kathryn Kuhlman, mas recusou-se a deixá-lo cuidar do caso. Wilkerson recomendou o advogado de Oral Roberts, Sol Yeager. Kathryn parecia mentalmente cansada e disse a ele que prosseguisse e fizesse o que achasse melhor. Wilkerson telefonou para Oral Roberts e discutiu o problema com ele. Yeager concordou em ajudar, mas ele estava se aposentando e não poderia cuidar do caso em tempo integral. Wilkerson então telefonou para seu próprio advogado, Irvine E. Ungerman, para pedir que ele cuidasse do caso. Ungerman examinou as cláusulas do contrato e então sugeriu que Kathryn demitisse Bartholomew. Paul Bartholomew foi comunicado do fato. Na segunda semana de maio, ele telefonou "urgente" para Myra White, uma das secretárias de Kathryn na Costa Oeste, pedindo a ela que se encontrasse com ele no saguão do Century Plaza Hotel. Em uma afirmação feita à senhorita Kuhlman por escrito, Myra White relatou o que se passou: "Durante essa reunião, o senhor Bartholomew solicitou minha assistência no novo escritório do senhor Kartsonakis em Hollywood. Ele discutiu sua demissão da Fundação Kathryn Kuhlman e informou-me que havia escrito um livro sobre a senhorita Kuhlman e que o carregava em uma pasta em seu poder. Disse-me que ele a levava para todos os lugares aos quais ia e não a perdia de vista. Expressei espanto com isso e questionei seus motivos e as conseqüências para todos os envolvidos [... ]. Senti, pela conversa, que ele queria que eu fosse a 'intermediária' para um 'acerto' que asseguraria a Kathryn que ele não publicaria o livro. Ele me assegurou de que não publicaria o livro se a senhorita Kuhlman conversasse com ele. Afirmou que havia uma pessoa importante com

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quem ele poderia colaborar — mais importante do que ele poderia antecipar". A senhorita White disse que aquele diálogo a fez lembrar de uma conversa anterior que havia ouvido, por acaso, no escritório do senhor Bartholomew em Newport Beach, em setembro. Ele estava conversando com alguém pelo telefone e disse: "Quando eu não estiver mais trabalhando com — e para — a senhorita Kuhlman, posso colaborar em um artigo". Várias coisas estavam ficando evidentes. Dino e Paul vinham fazendo planos há algum tempo para assumirem uma parcela maior do negócio e estavam coletando informações para escrever algo que expusesse a vida de Kathryn. Também parecia claro que Bartholomew pretendia pressionar Kathryn, pedindo dinheiro para não publicar o livro. Era algo sórdido. Em 1º de julho de 1975, Paul Bartholomew moveu uma ação no Tribunal Superior de Los Angeles, dizendo que Kathryn ou seus associados haviam pegado, ilegalmente, documentos pessoais em seu escritório em Newport Beach, interferido em seus negócios e violado o contrato que tinham assinado. O processo exigia 430 mil e 500 dólares por danos. O escritório de Bartholomew em Newport Beach era alugado pela Fundação Kathryn Kuhlman, portanto ela não viu problema algum em ir até lá, pegar os documentos e esvaziar a mobília. Mas Kathryn agora era uma celebridade por todo o mundo. Todos os jornais do país falavam da batalha. A revista People enviou um repórter para entrevistar Dino e Paul. Russell Chandler, editor da coluna sobre religião do Los Angeles Times, colocou a reportagem na primeira página do jornal. Dino e Paul não restringiram suas observações sobre os problemas que giravam em torno do processo. Chandler reportou que Dino disse que abandonara o ministério por causa de supostas inconsistências que havia observado entre a imagem profissional de Kathryn e sua vida pessoal. "O padrão de vida duplo de Kathryn causou um grande prejuízo em minha consciência", ele disse. Pergunta-se: por que ele quis assinar um contrato para continuar a trabalhar sob tais condições? Kathryn tentou se defender. Ela disse que a demissão de Bartholomew lhe ocorrera como a melhor coisa que poderia fazer, pois seu coração não o apoiava. Por várias vezes, ela se arrependeu de não ter seguido a direção de seu coração e rescindido o contrato. Ela sabia que poderia, de algum modo, impedi-lo de publicar o livro. Mas agora tudo estava nas primeiras páginas dos jornais. Uma das maiores tragédias da vida de Kathryn foi ter reunido à sua volta algumas pessoas que nunca conheceram ou entenderam a obra do Espírito Santo. Elas não pareciam entendê-lo como o caráter de Jesus 186


Cristo, a santidade de Deus, o motivo principal do Universo. Ele era simplesmente certo poder intangível que parecia habitar em Kathryn e em torno dela. Por essa razão, a maior parte dos membros de sua equipe nunca sentiu qualquer necessidade de se tornar espiritual. Bastava que a senhorita Kuhlman fosse espiritual. No final de setembro, o processo, finalmente, foi resolvido amigavelmente. Mas não antes de muitas outras acusações de ambas as partes terem sido feitas. Kathryn concordou em pagar 75 mil dólares a Bartholomew, mais US$l6. 230,70 dólares reclamados como uma comissão que lhe era devida. Fora o dinheiro para Bartholomew, o acordo estabelecia: "As partes envolvidas concordam em nunca mais fazer qualquer comentário calunioso, escandaloso ou acusatório sobre seus relacionamentos passados com a Fundação Kathryn Kuhlman, com a senhora Kathryn Kuhlman ou com a KMI Inc., incluindo sem limitar a generalidade do precedente, e por um período de dez anos, a partir desta data, não levar a ser feita a preparação ou disseminação, particular ou em união com outros, de qualquer manuscrito ou informação relacionados ou contendo material biográfico ou histórico... " O acordo foi assinado por Paul e Christine Bartholomew e por Dino e Debby Kartsonakis. A batalha estava encerrada, mas, como foi em Franklin e Akron, ninguém venceu, e o reino sofreu um opróbrio. Só que, dessa vez, Kathryn sofreu mais do que qualquer pessoa. Seu corpo debilitado simplesmente não pôde agüentar o castigo. No meio do processo, ela foi internada em um hospital de Tulsa com um grave problema de coração. Os médicos advertiram-na dizendo que o problema poderia ser fatal. Ela se recusou a ouvir. Precisava viajar para a Califórnia. Havia programas de televisão a fazer, cartas a serem respondidas e batalhas a serem travadas. Depois disso, ainda tinha de ir a um lugar. E como Anna e sua amiga, ela viveria como se isso nunca tivesse acontecido. Naquele mesmo mês de setembro, Kathryn fez uma rápida visita a Concórdia, Missouri. Queria ir ao cemitério. Sua mãe havia morrido na primavera de 1958, aos 86 anos de idade. Kathryn havia sido boa para com ela. Em uma ocasião, enviou um marceneiro de Pittsburgh somente para consertar parte da varanda da frente e algumas vidraças das janelas da pequena casa na Orange Street para onde sua mãe havia se mudado. O clima estava quente e nublado quando ela chegou. As folhas nos olmos, cornisos e azedeiras estavam paradas, sem nenhum vento, em meio à neblina da tarde enquanto ela passava de carro na St. Louis Street pelos casarões brancos de dois andares, onde havia vivido tantos momentos felizes na infância. No final da rua ficava o cemitério — dividido em três seções: uma para a Igreja Unida de Cristo, uma para os batistas e uma para os metodistas. O Cemitério Luterano ficava do outro lado da cidade, próximo à rodovia. 187


Kathryn pediu ao motorista que virasse na terceira entrada que dividia as seções e esperasse no carro. Ela saiu e avançou lentamente na frente do carro, seguindo para o lugar onde as lápides identificavam os túmulos. Emma, 1872-1958. Como sua mãe lhe fazia falta! Próximo à de sua mãe, estava a lápide de seu pai. Joseph Adolph, 1865-1934. Ela se lembrou da última vez que o viu com vida. Ele estava em pé no quintal dos fundos do casarão, com uma mão estendida e a outra segurando o varal. "Kathryn, você se lembra que, quando garotinha, ficava atrás de mim enquanto eu lia o jornal? Você dizia: 'Papai, me dá um níquel?'. Eu provocava você, sentado ali, fingindo que não havia ouvido. Você continuava a pedir, e, por fim, eu colocava a mão no bolso e lhe dava um níquel. Você se lembra?" Kathryn, que havia começado recentemente seu ministério em Denver, sorria e balançava a cabeça. "Sim, papai, eu me lembro. " "Tem uma coisa que você não sabia, querida. Eu a amava tanto que teria dado o que você me pedisse. Você se limitava, e tudo o que queria era só um níquel. " Kathryn ficou em pé ali, olhando para a lápide gasta, com os olhos cheios de lágrimas. "Papai, como eu gostaria que você estivesse aqui agora. Preciso recostar minha cabeça no seu ombro. Preciso que me faça sentir bem. " Ela se afastou dos túmulos e olhou para o céu. As palavras do cardiologista ecoaram em sua mente: "Você pode ter outro ataque dentro de 30 dias e pode tê-lo daqui a 90 dias. Mas posso dizer-lhe, sem errar, que terá outro ataque. Sua válvula mitral está péssima". "Querido Jesus", ela soluçou. "Faça com que eu melhore. Não quero morrer. Não quero morrer." O cemitério estava silencioso. Ela percebeu o gorjear e o canto dos pássaros. Voltou-se para os túmulos. Havia um pequeno vaso de flores artificiais desbotadas perto do túmulo de sua mãe. Ele estava virado e parou para colocá-lo em pé. Pôde ver que as toupeiras haviam cavucado em volta da base da lápide, formando uma crosta de terra marrom pela grama verde. O sol estava se pondo atrás das colinas. Bem a oeste, havia uma fazenda de gado leiteiro; o som de vacas mugindo era trazido pela brisa enquanto iam para a ordenha. Uma pequena tâmia com listras marrons e brancas passou correndo pela grama e desapareceu atrás de outra lápide. Todos os nomes eram alemães. Velhos nomes de família. Heyenbrock, Koch, Deterk, Lohoefener, Westerhouse, Heerwald, Bargfrede, Franke, Schroeder... Lá ao norte, estendendo-se além dos olmos e salgueiros, estava a torre da igreja luterana. No centro do cemitério, havia um grande e velho pinheiro. Todo sulcado. Ele tinha mais de 30 metros de altura. Um dos 188


galhos inferiores, um galho grande, estava quebrado — deixando um buraco aberto no pé da árvore. Parecia mais uma pequena gruta em que se podia encontrar, se fosse uma igreja católica, uma imagem e uma vela. O galho provavelmente havia sido quebrado pelo vento. Talvez estivesse muito longo e fosse incapaz de sustentar o peso do gelo e da neve. Não restava outra coisa à vista senão o buraco aberto. Enxugando as lágrimas, Kathryn foi andando devagar até o pé da grande árvore e ficou olhando a ferida feia. As palavras de Jesus, aquelas palavras que ela havia pregado tantas vezes, vieram à sua mente: "Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, ele corta; e todo que dá fruto ele poda, para que dê mais fruto ainda [...] nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim"(Jo 15.2, 4). Ela fechou os olhos e ficou em silêncio. Só se ouvia o som suave do vento passando pelos abetos próximos à rua e o gorjear dos pássaros. Como o grande ramo, ela estava além dos limites. Talvez fosse tempo de se libertar para que outros galhos pudessem suportar o peso. Ela teve medo de deixar uma ferida aberta e feia para trás. Não havia ninguém para ocupar seu lugar. Contudo, talvez Deus não quisesse que seu ministério continuasse. Seria isso continuado por um outro, por muitos e muitos outros — assim como os galhos mais altos do velho pinheiro, ele suportaria o peso do gelo e da neve. Era difícil para ela entender isso. Ela voltou para o carro, extremamente cansada e fraca até para orar.

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Capítulo 17 O Trauma Final "Se algum dia eu pisar na plataforma e a unção do Espírito Santo não estiver ali, descerei e nunca mais realizarei um culto de milagres. Sem Ele, não sou nada. " Kathryn fez essa afirmação milhares de vezes durante os últimos anos de sua vida. No começo de seu ministério, ela acreditava nisso. Mas, no fim, estou convencido, tinha de continuar a fazer essa afirmação, mas ela não podia mais parar. O ministério de televisão propriamente dito exigia mais de 30 mil dólares por semana. O fato era que, então, Kathryn tinha a série de maior duração já produzida nos caros estúdios da CBS. Parar, e até reduzir, significaria que ela estaria começando a fracassar. O mesmo se aplicava aos cultos de milagres. Portanto, quando a dor em seu peito estava quase insuportável, em vez de realizar menos cultos, ela fez o contrário. Precisava continuar. Em maio de 1975, ela foi a Las Vegas para realizar um culto de milagres. O Espírito Santo fez-se presente com grande poder. Na realidade, foi uma das vezes em que pensei que havia chegado o dia em que todos da platéia seriam curados. Mas a condição física de Kathryn era delicada. Após a reunião, quando estávamos em sua suíte no Caesar's Palace, insisti com ela que reduzisse sua agenda. "Não posso", ela disse, andando nervosa de um lado para o outro. "Não é possível. O 'ministério' tem de continuar. " Ela era uma veterana. O show tinha de continuar, a despeito de como se sentia. Abaixar as cortinas seria uma morte ainda mais rápida e mais dolorosa do que se queimar no palco. No entanto, no fundo do coração, Kathryn sabia que não era infalível nem tinha o monopólio de Deus. Essa foi uma das razões por que demonstrou certo ciúme quando ouviu falar que outros, como Ralph Wilkerson, estavam realizando cultos nos quais os milagres aconteciam quase com a mesma freqüência que nos dela. E Kathryn cria, de todo o coração, que Deus queria que todos os cultos das igrejas fossem cultos por meio dos quais o Espírito Santo agisse para trazer milagres ao povo. Kathryn também acreditava que o dia dos "seus" maravilhosos cultos de milagres estava chegando ao fim. Sabia que não poderia viver para sempre. Sabia que estava morrendo — e queria sair de cena como uma tocha ardente, e não como uma vela tremeluzente. Mas também sabia que, quando morresse, "o ministério" acabaria. E, como o fato de sua iminente morte ficava cada vez mais visível para ela (embora ninguém 190


mais parecesse perceber quanto ela estava perto de morrer), a mim parecia que ela precisava ter certeza de que os outros, principalmente aqueles que eram mais próximos dela, não tentariam manter vivo aquilo que Deus estava permitindo morrer. Contudo, Kathryn tinha pouco tempo para pensar no futuro. Ela estava muito envolvida com o presente. Pensar no futuro, mesmo que fosse só seis meses adiante, era algo além de sua capacidade. Ao mesmo tempo, ela sofria o terrível dilema de crer, por um lado, que o Espírito Santo e os cultos de milagres estavam tão ligados um ao outro que era impossível realizar um culto sem a presença dele, e, por outro, aquele pesadelo recorrente de que poderia fazer algo que entristecesse o Espírito Santo e, com isso, ser por Ele abandonada. Repetidas vezes, ela orou, no palco, e na quietude de seu quarto, como se estivesse gritando nos portões do céu: "Não retires o Espírito Santo de mim". Ela pregava os mesmos sermões. "Deus não dividirá a sua glória com ninguém. Ele é um Deus zeloso que exige toda a glória para si mesmo." Ela estava pregando para si mesma, pois sabia quanto estava perto de "dividir a glória". No outono de 1972, os amigos de Kathryn organizaram uma festa de gala no Hilton Hotel em Pittsburgh para comemorar seus 25 anos de ministério de milagres em Pittsburgh. Um dos momentos mais importantes da noite foi a apresentação de Ev Angelico Frudakis, renomado escultor, que havia cunhado uma medalha de ouro para as festividades do aniversário. Kathryn posou por várias horas para o artista e estava aparentemente satisfeita com os resultados de sua imagem em relevo na medalha de ouro. Na manhã seguinte, passei pelo escritório no Carlton House antes de voltar para a Flórida. Graciosamente, ela me deu uma das medalhas, quase do tamanho de uma moeda de prata de 1 dólar, e então me entregou uma cópia da matéria que havia sido publicada nos jornais de todo o país. Ao descrever a medalha, o jornal dizia: "Senhorita Kuhlman é retratada em relevo na face da medalha de ouro, com as mãos de cura estendidas. Na parte de trás, aparece um retrato de Jesus curando os doentes". Li a matéria impressa e então olhei novamente para Kathryn. Ela estava em pé, como eu a havia visto tantas vezes, fitando seriamente para meu rosto, à procura de alguma reação — seu sorriso aparentemente paralisado. Eu sabia, dessa vez, que teria de dar a ela algo mais do que a aprovação que estava esperando. Perguntei baixinho: "Você não acha que seria melhor Jesus na face da medalha e Kathryn na parte de trás?". Mas era muito tarde. A notícia já havia se espalhado por todo o país. E ainda que Kathryn encolhesse os ombros em sinal de indiferença, eu sabia que ela estava perturbada, pois isso mostrava que algo estava

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acontecendo com ela — algo de que ela não gostava, mas que não sabia combater. Dois anos depois, quando ela foi a Montreat, Carolina do Norte, ministrar em uma convenção de livreiros cristãos, quase 3 mil pessoas encheram o Anderson Hall, o grande pavilhão da Presbyterian Conference Grounds, e a maioria esperava ver alguns milagres. Quando ela chegou, passei pelos bastidores para que ela soubesse que todos estávamos a postos. Ela agarrou meu braço daquele seu jeito exacerbado e falou em voz alta: — Jamie, o que estamos fazendo aqui? Dei um sorriso largo. — Estou aqui para apoiá-la — respondi. Ela balançou a cabeça. Seu rosto parecia indeciso e abatido. — Não haverá um culto de milagres — ela disse, séria. — Só vou pregar. Só isso. Só vou pregar. Minutos depois, lá estava ela no púlpito, fazendo todos os seus movimentos. Ela movimentava os braços e falava que o Espírito Santo estava ali. À medida que falava desconexamente, as pessoas começaram a ficar impacientes. Kathryn falou pouco mais de uma hora — estava acostumada a falar por quatro ou cinco horas em um culto de milagres. E, quase no final do culto, ela tentou desesperadamente salvar a reunião. Mas era muito tarde. Uma ex-cantora de clubes, que havia sido salva e curada no ministério de Kuhlman, estava na plataforma. Quando o culto estava terminando, ela foi até um dos microfones e começou a cantar "Aleluia". Kathryn estava descontente. Ela foi até a mulher e tocou nela, orando em seu favor. A mulher "caiu sob o poder". Então Kathryn virou-se, agarrou meu braço e puxou-me para o microfone. Se era para o louvor ser conduzido, que partisse de alguém com quem ela estava familiarizada, e não de um estranho. As pessoas estavam cantando sem interesse, enquanto Kathryn se movia para um lado e para o outro da plataforma dizendo todas as suas frases favoritas. As pessoas pareciam vazias. A cantora estava em pé, e Kathryn tocou nela novamente. Nada aconteceu dessa vez. Em um movimento de desespero, eu a ouvi dizer: "O Espírito está sobre você, Jamie". Ela correu em minha direção, colocando as mãos em meu queixo enquanto eu cantava. Houve momentos no passado em que o simples fato de ela se aproximar de mim fazia com que eu caísse "sob o poder". Mas, naquele dia, foi só Kathryn — com as mãos em meu queixo. Eu a amava muito para desapontá-la. Com um sinal de resignação, caí para trás nos braços do homem que estava na retaguarda. Enquanto o homem me ajudava a ficar em pé, Kathryn veio novamente: "Eu te dou glória. Eu te dou louvor". Mas, dessa vez, simplesmente não consegui. Simplesmente 192


dei um passo para trás quando ela me tocou. Ela se virou e foi para o outro lado do púlpito. Minutos depois, desapareceu pela entrada do palco. A caminho do aeroporto, ela declarou a Dan e Viola Malachuk, que a levavam ao aeroporto: "Eu gostaria de realizar outro culto de milagres, mas tenho de embarcar nesse avião de volta para Pittsburgh". O poder estava demorando mais para vir do que nos anos anteriores. Havia outros exemplos. Ruth Fisher falou sobre uma ocasião em que estava com ela em Tampa quando a mesma coisa aconteceu. Ali ela pareceu combinar todos os sermões que vinha acumulando durante anos e ministrou-os de uma só vez. Foi confuso e ineficaz. As pessoas estavam impacientes, correndo de um lado para o outro, esperando o início do culto de milagres. Deus cumpriu sua palavra, e houve milagres, mas foi quase como se eles acontecessem a despeito de Kathryn. Algo estranho parecia estar ocorrendo em seu ministério. Aparentemente, ela estava no auge da fama. As multidões eram as maiores em toda a sua carreira. A televisão havia feito dela um nome familiar nos lares. Seus livros estavam sendo lidos em todas as partes do mundo. Contudo, do lado de dentro, as coisas estavam desmoronando e se despedaçando. Dino e Bartholomew haviam partido, soltando calúnias por onde passavam. Vários de seus funcionários mais antigos caíram na imoralidade, e ela parecia estar realmente confusa quanto ao que fazer. O clima estava tenso entre ela e Maggie. Tink e Sue agora estavam com ela em todos os momentos. Além disso, seu corpo estava esgotado. Vinte anos antes, ela saiu de Pittsburgh para Washington, D. C, a fim de consultar um médico. Foi feito um exame físico completo. Ele a advertira dizendo-lhe que tinha um problema de dilatação no coração. Ela precisaria diminuir o ritmo. No entanto, continuou como se nada estivesse acontecendo. À medida que foi envelhecendo e as pressões se tornaram maiores, o estado de seu coração piorou. Steve Zelenko contou-me que, um dia, depois de uma discussão com uma de suas secretárias, Kathryn voltou para o estúdio da rádio em seu escritório no Carlton House, pálida. "Venha aqui", ela disse a Steve. Segurando a mão direita dele, ela a pôs sobre o lado esquerdo de seu tórax. "Pude sentir seu coração batendo, tentando passar entre as costelas", Steve disse. "Quando tirei minha mão, pude de fato ver seu coração pulsando entre as costelas — debaixo do vestido. Era como se ele fosse explodir. " Em certas ocasiões, Kathryn parava de ditar cartas e, sem avisar, saía de sua cadeira e deitava no chão. "Fez isso no estúdio da rádio uma vez", disse Steve, "e quase me matou de susto. Ela estava se preparando para gravar uma fita. Eu estava na cabina de controle e levantei os olhos. Kathryn havia sumido da mesa. Entrei no estúdio, e lá estava ela, esticada, no piso de madeira". 193


"'Siga em frente', ela disse. 'Só estou descansando um pouquinho.'" "Voltei à cabina de controle", disse Steve, "mas fiquei com medo de que ela estivesse morrendo. Por fim, voltei ao estúdio, e ela estava com um olhar estranhíssimo no rosto. 'Vou ficar aqui por um instante. Vou ficar bem', ela disse. Percebi, quando voltei à minha cabina, que ela não conseguia se levantar. Teve de ficar ali. "Então, dez minutos depois, ela reassumiu o seu lugar à mesa, pronta para continuar. Era como se nada tivesse acontecido. Mas tinha." Houve outros ataques, alguns mais sérios. No verão de 1974, Maggie recebeu uma ligação da Califórnia. "A senhorita Kuhlman está muito doente. Nós a estamos colocando em um avião. Ela precisa de cuidados médicos imediatamente." Isso aconteceu em uma tarde de sábado, e Maggie a encontrou no aeroporto de Pittsburgh. A TWA sempre tivera um cuidado especial com Kathryn. A representante de passageiros em Pittsburgh havia sido tocada em uma das reuniões de Kathryn, e a maioria do pessoal que trabalhava na companhia aérea a conhecia. Ela saiu do avião tão branca que parecia estar morta, mas estava sorrindo, balançando a cabeça e falando com as pessoas no aeroporto. Maggie pegou a bagagem dela, e a levou para o carro. Então, Kathryn disse: — Leve-me a um médico. Vou morrer. — Pois não. Você quer ir para o hospital? — Não! Nada de hospitais — Kathryn disse, ofegante, com a mão no peito. Maggie a levou direto ao consultório de um médico que havia concordado em ficar alerta, caso Kathryn se recusasse a ir para um hospital. Ele fez exames de raio X e disse que seus pulmões estavam limpos, mas que seu coração achava-se muito dilatado. Receitou-lhe digitalina. Mas, depois de um único dia de repouso, lá estava ela de volta à sua rotina. Embora seu corpo estivesse se acabando rapidamente, a impressão era de que ela estava acelerando suas atividades. Além de seus cultos regulares, planejou uma série de reuniões para outubro: Mobile, Tampa e West Palm Beach. Ela havia assumido o compromisso de pregar no Melodyland, na Califórnia, e depois ir a Israel para participar da Segunda Conferência Mundial sobre o Espírito Santo em novembro. Era quase um suicídio. Então, em um movimento que surpreendeu até aqueles que lhe eram mais próximos, Kathryn, sem avisar, decidiu entrar na maior controvérsia que agitava o movimento carismático desde seu surgimento no início da década de 1950. Por mais de um ano, os líderes cristãos por todo o país vinham discutindo os prós e os contras do "movimento de discipulado". Promovido, primeiramente, por professores do Christian Growth Ministries [Ministério de Crescimento Cristão], em Ft. Lauderdale, na Flórida (mas, de forma alguma, limitado a eles), 194


enfatizava que todos os cristãos — até aqueles em posição de liderança — deveriam submeter sua vida e ministério a outros líderes cristãos. O chamado era para que todos os cristãos se unissem a "grupos compromissados" (igrejas) e se deixassem apascentar por "pastores". Ninguém exigia mais lealdade ou submissão da parte de seus seguidores do que Kathryn. No entanto, o ensino dos ministros de Ft. Lauderdale ia além disso. Insistia que até os líderes no reino precisavam ser submissos uns aos outros. Isso, para ela, era impensável. Em 5 de setembro de 1975, ela recebeu um pacote de um dos oficiais da Associação dos Homens de Negócios do Evangelho Pleno. Parece que a ADHONEP estava combatendo o movimento de submissão e discipulado pelas mesmas razões que Kathryn. Muitas pessoas, antes fiéis à ADHONEP, estavam agora se juntando a grupos de células sob a autoridade de pastores leigos. Algumas dessas pessoas não estavam mais dando suas contribuições à ADHONEP, mas entregando seus dízimos a seus pastores. O palco estava armado para a batalha. O pacote continha todas as informações de que Kathryn precisava. Incluía inúmeras cartas confidenciais que haviam sido distribuídas por vários ministros independentes e leigos que atacavam o ensino de Ft. Lauderdale e, em especial, o de Bob Mumford, que era o líder do Christian Growth Ministries. Embora Kathryn fosse a pioneira do movimento que propunha uma nova ênfase no Espírito Santo, nunca pareceu perceber que o Espírito também estava se movendo em muitas outras áreas do reino. Na verdade, durante os últimos quinze anos de sua vida, Kathryn havia participado de algumas poucas reuniões dirigidas por outros ministros. Ela não se sentava para ouvir o ensino de outros. Também estava muito ocupada com seu próprio ministério. Eis o que me disse: "O Espírito Santo é o único mestre de que preciso". Era uma brecha vulnerável em sua armadura, e nessa brecha havia sido lançada uma lança, movendo-a à ação. Em meados de setembro, agora fortalecida por saber que outros estavam do seu lado, Kathryn entrou na batalha contra aqueles que ensinavam a submissão e o discipulado. Mumford seria um dos mestres na Segunda Conferência Mundial sobre o Espírito Santo em Israel, no final de outubro. A conferência era patrocinada pela Logos, e, com isso, Kathryn viu como exerceria sua influência. Ela telefonou para seu velho amigo Dan Malachuk, presidente da Logos, e disse: "Se Bob Mumford for a Israel, eu não irei". O aviso pegou Dan de surpresa. "O homem é um herege", disse Kathryn. "Não vou aparecer no mesmo programa com ele. Faça sua escolha: Mumford ou eu".

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Mais de 5 mil pessoas de todas as partes do mundo estavam inscritas para participar da conferência. Muitas delas estavam indo para ouvir os mestres (dentre eles, Mumford), mas também para participar do culto de milagres que Kathryn realizaria em Tel-Aviv. O ultimato de Kathryn deixou Malachuk em uma posição muito desconfortável. Por mais que tivesse sérias reservas a muitos dos conceitos e ensinos sobre discipulado, ele acreditava que Mumford era um homem de Deus. Além disso, a Logos estava fazendo todo o possível para promover a unidade no corpo de Cristo, e ele achava que a presença de Mumford ajudaria a curar as feridas. Como um homem enérgico, a primeira reação de Malachuk foi resistir ao uso que Kathryn fazia de ameaças e intimidações. Ele já a conhecia, havia muitos anos, como uma amiga íntima, mas nunca a viu reagir com tanta violência. "Alguma coisa está errada", ele disse à sua diretoria em uma reunião. "Isso não é típico de Kathryn. Sei que ela está muito doente. Temo por sua vida." A diretoria da Logos International Fellowship, da qual participavam alguns dos nomes mais importantes da renovação carismática — David du Plessis, o reverendo Dennis Bennett, o general Ralph Haines, além de outros — ponderou seriamente a questão. Dan já telefonara para Bob Mumford a fim de dizer-lhe o que havia acontecido e ouvir sua opinião a respeito. Bob, no mesmo instante, disse que se retiraria se esse fosse o desejo da diretoria. Era uma situação difícil — que levou aqueles homens a orar com fervor. Tantas coisas sustentavam as alternativas que dispunham, mas nenhum dos argumentos apontava, conclusivamente, a vontade de Deus. No entanto, eles tinham de escolher. No final, optaram por aceitar a oferta de Bob e submeter-se às exigências de Kathryn. No domingo seguinte, Kathryn fez uma de suas agora raras aparições no Stambaugh Auditorium, em Youngstown, para dar o que, em sua opinião, seria o golpe mortal no movimento de discipulado. "Almas tímidas, vocês podem sair agora", ela começou. Ela pregou por mais de uma hora, batendo no púlpito, enquanto defendia "o ministério" da influência dos falsos mestres. "Há uma nova doutrina chamada 'o movimento de submissão e discipulado'", ela disse. "Talvez vocês nunca tenham ouvido falar disso antes. Mas é algo tão sutil, e está causando tanto dano, que, se alguém não fizer alguma coisa para repreender Satanás e deter esse movimento, ele vai destruir por completo o grande movimento carismático." Kathryn também atacou o conceito de pequenos grupos, dizendo que eram malignos. "Eles não só pedem que vocês dêem seu dinheiro ao pastor, mas que se envolvam em grupos de células e revelem seus

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pensamentos mais profundos. Vou dizer uma coisa: não vou contar a ninguém meus pensamentos íntimos." A multidão riu e aplaudiu. A audiência aplaudiu também quando ela disse que havia exigido que Mumford fosse retirado da relação dos oradores da Conferência Mundial sobre o Espírito Santo. Era uma atitude totalmente atípica de Kathryn. Nenhuma outra pessoa na história fora tão usada para reunir membros divergentes do corpo de Cristo quanto Kathryn. Sua fé normalmente era firme, mas, dessa vez, parecia estar deliberadamente perdendo o equilíbrio. Era como se estivesse sendo levada a proteger "seu ministério". Quando Dino e Bartholomew levantaram seus sabres contra Kathryn em público, ela encontrou consolo na segurança de que Deus cuidaria dela — e deles. Sabia quais eram as estritas admoestações das Escrituras sobre "o levantar a mão contra o ungido do Senhor". Mesmo quando teve suas contínuas brigas com Dallas Billington, em Akron, Ohio, jamais deixou que isso se tornasse uma batalha pessoal e nunca o chamou de herege, e, no final, fez o possível para fazer as pazes. Mas agora, com raiva e frustração, ameaçada por sua própria insegurança e encorajada por homens que só lhe haviam dado informações parciais, ela se pôs a atacar outras pessoas que, para muitos, também eram ungidas do Senhor — tanto quanto ela. Em outubro, Kathryn mudou-se para o Sul. Tink e Sue Wilkerson acompanharam-na. Tink parecia honrado e lisonjeado com a constante atenção de Kathryn. Ele convenceu Kathryn dizendo que ela precisava de um jatinho particular. Afinal, Oral Roberts tinha um. Kathryn, por fim, concordou com o plano de Tink. Ele compraria o avião, um Lear Jet, por 750 mil dólares, que seria propriedade de sua agência de aluguel de carros, em Tulsa. Kathryn, então, iria alugá-lo dele por 12 mil dólares ao mês. Tink convenceu Kathryn de que o avião economizaria dinheiro. Mas, na verdade, os números mostravam que a Fundação Kathryn Kuhlman gastava menos da metade daquela quantia em passagens em vôos comerciais para toda a equipe — e o Lear Jet só comportava seis pessoas — duas delas seriam os Wilkersons. Walter Adamack opôs-se vigorosamente à compra. Kathryn insistiu, dizendo que ela e a fundação eram "uma coisa só" e que, se Tink achava que ela precisava do avião, faria o negócio. Kathryn usou-o só duas vezes — nas duas vezes, estava tão doente que nem percebeu o que estava acontecendo. No final, Wilkerson ficou não só com o avião, mas com os dois pilotos que contratou para operá-lo. Tink comprou também um carro para Kathryn e o despachou de navio de Tulsa para Los Angeles. Era um Mercedes-Benz amarelo, de duas portas, que custou 18 mil dólares. Para o estilo de vida de Kathryn, acostumada com Cadillacs e Continentais, era como pedir a ela que trocasse 197


seu vestido de púlpito por um biquíni. Ela andou nesse carro uma única vez e, ainda assim, com relutância. A despeito da aparente incapacidade dos Wilkersons de entender o estilo de vida de Kathryn e seu companheirismo com o Espírito Santo, ela ainda era atraída por eles, a ponto de se afastar de sua equipe em Pittsburgh. Embora houvesse dias em que aparecia no escritório, as coisas não eram iguais. Maggie visitava cada vez menos a casa em Fox Chapel, onde, durante anos, ela e Kathryn iam para relaxar e conversar. Agora Kathryn estava limitando suas conversas aos Wilkersons. Infelizmente, eles não conheciam Kathryn o suficiente para perceber as mudanças sutis que estavam acontecendo em sua vida e personalidade. Eles realmente se preocupavam com sua saúde, querendo protegê-la da imprensa que era hostil, bem como daqueles que queriam usá-la. De 6 de maio de 1975 a 20 de fevereiro de 1976, quando Kathryn morreu, Tink passou só 31 dias em sua casa em Tulsa. Todo o tempo mais ele passou viajando com Kathryn. Não se sabe exatamente quais eram seus motivos. Se ele estava gostando da dependência que Kathryn tinha dele ou se estava fazendo um verdadeiro serviço para o Senhor, só Deus e Tink Wilkerson sabem. Contudo, é certo que, mesmo quando muito doente, Kathryn tentou permanecer no controle, dizendo que era ela quem dava as ordens. E, com um senso estranho de limites, fez planos até sua morte. Parecia estar num estado de compulsão — tentando, desesperadamente, cuidar de todos os detalhes e, ao mesmo tempo, acompanhando a nuvem, que, por alguma razão, só Deus sabia, tinha começado, mais uma vez, a se mover — deixando-a para trás. No dia 1º de novembro, ela estava em Tel-Aviv para a Conferência Mundial sobre o Espírito Santo. As pressões eram incrivelmente fortes. Kathryn queria pregar sobre profecia, mas os líderes cristãos locais, em Jerusalém e Tel-Aviv, procuraram Dan Malachuk e Ralph Wilkerson, insistindo em que eles convencessem Kathryn a abordar outro tema. A situação política em Israel estava muito exacerbada para uma famosa líder cristã aparecer e apoiar a causa dos judeus. Kathryn, relutantemente, aceitou o conselho daqueles que estavam à sua volta. Na noite que antecedia a ministração de Kathryn, ela se encontrou com uma grande delegação da Finlândia em um hotel de Tel-Aviv. Durante o culto, uma mulher, que havia vindo de Helsinque com um câncer em estágio terminal, morreu. Com grande angústia, Kathryn voltou para seu quarto de hotel. Era, pelo que ela sabia, a primeira vez que algo assim acontecera. As implicações foram surpreendentes. O Sports Stadium, em Tel-Aviv, estava uma verdadeira confusão no dia seguinte. Técnicos estavam preparando-se para a tradução simultânea do culto para milhares de pessoas que estariam presentes e não falavam inglês. Eles tinham fones suficientes para atender aos oito 198


principais grupos de língua estrangeira, mas não para os israelitas da região que falava hebraico. Estes chegariam a quase 2 mil naquela noite. Era um número maior do que o esperado, graças à excepcional cobertura dada pela imprensa israelita. Os líderes da conferência estavam felizes por ver que o evangelho seria apresentado a tantas pessoas da região — sendo a maioria, provavelmente, de não-cristãos. Mas isso também colocava Dan Malachuk em uma situação delicada, pois ele teria de procurar Kathryn, já cansada e perturbada, para dizer que ela teria de ministrar com um intérprete de fala hebraica ao seu lado. Ele sabia que ela detestava a distração que tal coisa provocava, e que isso seria difícil para ela, mesmo na melhor das circunstâncias. Mas essas não eram as melhores circunstâncias. Muitos que foram ao estádio naquela noite sentiram uma estranha opressão no local. Nos bastidores, enquanto o grupo de jovens The Living Sound cantava no púlpito, Kathryn estava andando para cima e para baixo no túnel escuro que passava debaixo do púlpito. Orando. Chorando. Suplicando. "Querido Deus, por favor, deixa-me viver! Deixa-me viver! Eu te suplico. Eu quero viver. " Era a mesma oração que ela havia feito muitas vezes durante os dois últimos anos. O túnel escuro fazia eco ao seu choro e à sua oração. Dan Malachuk, desculpando-se por ter de interromper a comunhão de Kathryn com Deus, explicou a situação: ela teria de usar um intérprete, se quisesse ser compreendida pelos judeus. Kathryn recusouse. Dan insistiu. Eles tinham uma obrigação para com os israelitas. Afinal, era a nação deles, e eles vinham ali para ouvi-la. — Você tem um bom intérprete? — perguntou Kathryn. Dan fez sinal para um homem se juntar a ele no púlpito. Era o dr. Robert Lindsey, um missionário batista do Sul, cheio do Espírito, que havia vivido entre os judeus durante quase trinta anos. Ele talvez fosse um dos melhores estudiosos do hebraico no mundo e havia conquistado o respeito da comunidade judaica. Kathryn balançou a cabeça. O dr. Lindsey estava calçando botas usadas no deserto. Ela não podia mudar. Não havia como ministrar ao lado de um homem usando essas botas — ainda que metade dos israelitas na platéia estivesse usando o mesmo tipo de botas. — Vou dizer a você o que faremos — ela disse. — Você faz o dr. Lindsey subir ao púlpito antes de mim. Ele pode dar as saudações aos israelitas em hebraico e dizer-lhes que falarei só por dez minutos. Então, seguiremos para o culto de milagres. Mas, em vez de pregar dez minutos, Kathryn pregou uma hora e quinze minutos. Mais de mil judeus passavam por ela, gritando para os 199


introdutores e batendo as portas quando saíam. Kathryn continuou como se nada estivesse acontecendo. Teria de ser assim. Não poderia começar um culto de milagres antes que o poder do Espírito Santo se fizesse presente. Depois de uma hora e quinze minutos, ela começou. Clamou por cura. Muitos daqueles que haviam ido à frente foram curados, e muitos cristãos foram encorajados pelos milagres. Mas não foi como se esperava. Ela chorou antes de dormir naquela noite em Israel. Estava muito cansada para continuar a lutar. Muito cansada para viver. Na manhã seguinte, foi sozinha com Dan a um hospital próximo a fim de orar por uma garotinha na cama. Era um modo tranqüilo de ministrar compaixão, para o qual fazia anos que ela não tinha tempo. Da angústia da noite anterior, ela emergiu, purificada e subjugada — comovida e preparada para uma última unção.

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Capítulo 18 Uma Última Unção O final, em vez de ser tranqüilo e digno como Kathryn gostava das coisas, foi confuso e violento. Três dias depois de voltar de Israel, ela realizou seu último culto no Shrine Auditorium. Foi como sempre havia sido. Mas Kathryn estava tão fraca nessa época que mal conseguia vir de seu camarim para o palco. Mas, quando o coro, sob a batuta de Paul Ferrin, começou a cantar o esplêndido "Aleluia", o rosto de Kathryn, de repente, irradiou. Uma força sobrenatural fluía em seu corpo, e, mais uma vez, ela se tornou a mulher do antigo vigor. Lançou-se no palco, acenando as mãos enquanto assumia a direção do louvor. Naquele momento, era um vaso perene do Espírito Santo. Um canal do poder de Deus. Após o culto, Kathryn perguntou a Tink, que viera de avião para Los Angeles sozinho, depois de deixar Sue em Tulsa, se ele poderia chamar a esposa. "Talvez ela possa vir aqui e fazer alguma coisa para o meu estômago. Está doendo muito. " Mesmo tendo acabado de chegar de Israel algumas horas atrás, Sue deixou tudo e pegou o avião para Los Angeles, chegando por volta das 19h30. Kathryn já havia ido para a cama. Logo cedo, na manhã seguinte, Tink levantou-se e viajou para Denver a fim de checar o Lear Jet, que estava quase pronto. Enquanto estava lá, recebeu uma ligação de Sue: "Kathryn não está bem. Você precisa voltar para cá o mais rápido possível." Tink chegou no meio da tarde. Kathryn havia pedido a Sue que mandasse Maggie de volta para Pittsburgh. Ela ainda estava na cama, queixando-se de dores no abdome superior. Tink tentou fazê-la cancelar um compromisso que tinha com seu produtor de televisão, Dick Ross, na terça-feira pela manhã. Kathryn se negou a fazer isso. Na terça-feira de manhã, ela levantou cedo, mas disse a Sue, instalada no quarto ao lado, que não sabia ao certo como estava se sentindo. "Vou me encontrar com Dick lá embaixo no Garden Room, mas fique sentada por perto, caso eu precise de você." Sue e Tink desceram com ela para a reunião e depois se sentaram em uma mesa próxima. No meio da conversa com Ross, Kathryn se levantou abruptamente da mesa e seguiu titubeando na direção do toalete. Sue correu para ajudá-la. As duas chegaram ao toalete, onde Kathryn vomitou. Tink e Sue levaram-na de volta para o quarto, e, enquanto Sue arrumava a cama para Kathryn, Tink desceu para conversar com Ross. 201


"Dick, seja o que for que você precise fazer, vá em frente e faça. Ela não está em condições de continuar hoje. Se Deus quiser, estará melhor para gravar os programas amanhã." Tink pensou que Kathryn estivesse com um resinado e que logo se recuperaria. Naquela noite, ele telefonou para o cardiologista que havia tratado dela em Tulsa, em julho, e relatou-lhe os sintomas de Kathryn. "Ela consegue ficar deitada na cama?", o médico perguntou. "Sim", Tink disse, "e parece não ter dificuldade para respirar". "Penso que ela esteja resfriada", o médico disse, prescrevendo um remédio para aliviar a náusea. Tink e Sue estavam em um quarto bem próximo ao quarto de Kathryn. Eles tinham a chave do quarto dela, mas insistiram com ela para que deixasse a porta destrancada à noite a fim de que pudessem entrar e sair para vê-la. Na manhã seguinte, ela não estava se sentindo melhor. No entanto, como oito pessoas vieram de avião de todas as partes do país para a gravação do programa de televisão, insistiu em se vestir e ir à CBS para gravar os programas. Foi uma manhã difícil. Ao atravessar o corredor que levava ao estúdio, Kathryn teve de parar várias vezes, apoiando-se firmemente no braço de Tink. Ela fez os programas da manhã, mas quase desmaiou por duas vezes. Um dia daqueles, pela manhã, Dick Ross recebeu uma ligação na cabina central. Era de Oral Roberts, em Tulsa. "Kathryn telefonou para mim", ele disse. "Tink telefonou antes e pediu que Evelyn e eu orássemos. Eu gostaria de falar com ela." Tink ligou de volta ao meio-dia e colocou Kathryn na linha. "Kathryn, o Senhor mostrou-me algo neste momento, assim que peguei o telefone: Você está cercada de trevas." "Sim", Kathryn disse, balançando a cabeça. "Eu sinto." "Vejo um raio de luz, e essa luz está afastando as trevas e envolvendo você." "Eu sei", ela disse. "Eu sei, eu sei, eu sei." "Você vai conseguir fazer este programa, não vai?" Kathryn balançava a cabeça vigorosamente. Sua força parecia estar voltando. Oral intercedeu por ela do outro lado da linha, ordenando aos poderes das trevas que saíssem — pedindo a Deus que renovasse as forças de Kathryn. Ela terminou o programa da tarde sem nenhum problema. No entanto, assim que o programa acabou, ela desfaleceu na cadeira do camarim. 202


"Você pode fazer a edição", ela disse a Dick Ross. "Estou muito fraca para voltar à sala da televisão." Foi a primeira vez, em quase 500 programas, que ela não revisou seu programa antes de ser reproduzido e enviado a várias emissoras pelo país. Naquela noite, Tink e Sue jantaram com Diane McGregor e Jim West no Gourmet Room do Century Plaza. Diane, convidada do programa, era uma ex-dançarina de LasVegas que havia sido curada em um culto de milagres no Shrine. West, um milionário da Califórnia, era namorado de Diane. Durante o jantar, West disse: "Tink, se você precisar de alguma assistência médica para a senhorita Kuhlman, ligue para mim. Conheço todo o pessoal da equipe do St. John e do Centro Médico da Universidade da Califórnia". Tink agradeceu e disse que esperava que Kathryn melhorasse e não precisasse de médico. Kathryn lutou para conseguir fazer a gravação na CBS no dia seguinte e voltou para o Century Plaza completamente exausta. No sábado pela manhã, às 5h30, Sue entrou no quarto para ver Kathryn. Ela estava com metade do corpo para fora da cama, com o rosto para baixo, fraca demais para levantar a cabeça. Sue ajudou-a a voltar para a cama e disse: "Vamos ter de fazer uma coisa. Precisamos chamar um médico". Impossibilitada de falar, Kathryn só balançou a cabeça. Seu estômago estava cheio de líquido, o que, obviamente, pressionava seu coração já dilatado. Ela sentia muita dor. Tink tentou falar ao telefone com Jim West, mas ele não estava em casa. Então telefonou para Diane McGregor. "Onde está Jim?" "Ele está no rancho dele em Elko, Nevada. " "Precisamos de um médico para Kathryn. Como faço para entrar em contato com ele?" "Não será necessário", disse Diane. "Conheço o médico que cuidou dele quando teve um ataque cardíaco. É o dr. Carl Zabia." Diane passou o número para Tink. Faltava pouco para as 9 horas quando Tink, finalmente, conseguiu falar com o dr. Zabia. "Meu nome é Wilkerson. Conheço Jim West. Estou com Kathryn Kuhlman no Century Plaza, e ela está com muita dor por causa de um problema de coração." hotel.

O médico disse que estava a caminho do hospital, mas passaria no

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O estranho era que Tink tinha consigo todos os registros médicos de Kathryn feitos em Tulsa. O dr. Zabia chegou, examinou Kathryn e então chamou Tink no corredor. — Ela precisa ser internada imediatamente. Chamarei uma ambulância. Passe-me os registros médicos que vou dar uma olhada neles enquanto vocês a transferem para o St. John Hospital. Do quarto de Tink, o médico chamou a ambulância e depois seguiu para o hospital. Tink voltou ao quarto de Kathryn. — Precisamos nos preparar. Uma ambulância estará aqui em alguns minutos. — Uma o quê? — Kathryn disse com os olhos flamejantes. — Esta foi a primeira vez que ela falou, salvo as poucas respostas murmuradas ao médico. Ela se sentou na cama, empurrando os cobertores. — Não vou em nenhuma ambulância, e você não fale mais nisso. Todos neste hotel vão ficar sabendo, e isso significa que o mundo inteiro saberá. Prefiro ir a pé a ir de ambulância. Enquanto Sue ajudava Kathryn a se vestir, Tink desceu, foi até a ambulância, pediu informações sobre como chegar ao St. John Hospital e pagou 40 dólares pela viagem da ambulância. Ele voltou ao quarto de Kathryn. E começaram a longa caminhada pelo corredor que levava ao elevador e, depois, seguiram para o carro. Kathryn quase morreu no carro. Na verdade, Tink pensou que tivesse morrido. Quando chegaram ao hospital, estava meio inconsciente. Houve mais confusão no hospital, uma vez que o dr. Zabia esperava que ela chegasse de ambulância. Ele levou quase quinze minutos para descobrir onde ela estava. Depois, deitou-a em uma maca numa sala de emergência. Naquele momento, a pressão sanguínea de Kathryn estava muito baixa, e ela foi levada às pressas para a unidade cardíaca, onde os médicos se esforçaram por quase cinco horas para reanimá-la e estabilizar seus sinais vitais. Tink e Sue permanentemente ficaram ao lado dela. Tink telefonava para Maggie todos os dias, dando-lhe notícias sobre o progresso de Kathryn. "Ela quer ir passar o Natal em casa", Tink disse. "Quer que você vá na frente e prepare a grande festa de Natal como você sempre fez." O dr. Richard Owellen, do Johns Hopkins, tomou um avião e veio ficar com ela quase uma semana, entrando e saindo do quarto de Kathryn — mais como amigo do que como médico. Maggie também veio. Mas foi uma triste experiência. Elas mal se falaram. Maggie ficou em silêncio ao pé da cama de Kathryn. De coração partido, foi para um pequeno saguão no final do corredor e disse: "Vou ficar aqui. Pelo menos, a Pastora saberá que estou aqui e que a amo". Era, contudo, como se forças estivessem tentando romper um relacionamento de mais de trinta anos. 204


Maggie voltou para Pittsburgh no Dia de Ação de Graças. O dr. Owellen voltou de avião para Baltimore naquele fim de semana. Kathryn parecia estar melhorando um pouco. Em janeiro de 1974, Kathryn revisou seu testamento. Nele, deixava para Jerome e Helen Stern de Portland, Oregon, uma valiosa pintura, "em gratidão pela bondade evidenciada pelo senhor e senhora Stern para com minha irmã, Myrtle Parrott, em um momento em que ela, desesperadamente, precisava dessa generosidade". O restante de seus bens tangíveis foi deixado para Marguerite (Maggie) Hartner "para ser guardado por ela ou distribuído como julgasse melhor, uma vez que ela sabia de meus desejos com relação a eles". (Kathryn havia dado a Maggie informações detalhadas sobre os itens de sua casa e coleção de jóias que as pessoas na organização receberiam. ) De um modo característico, ela incluiu: "Durante toda a minha vida, supri amplamente e ajudei minha irmã Geneva Dickson e seus filhos, Gary e Robert, e minha sobrinha Virgínia Crane e seus filhos, Paul, Collene e Theresa, e, por essa razão, não estou fazendo cláusulas para eles aqui". O restante de seus bens seria dividido entre cinco pessoas — sua irmã, Myrtle Parrott, Marguerite Hartner, Charles Loesch, Maryon Marsh e Walter Adamack. Elas receberiam 5% do "valor líquido de mercado dos bens deixados" com base anual. Se restasse algo depois da morte dos cinco, seria legado à Fundação Kathryn Kuhlman. William Houston e o Banco Nacional de Pittsburgh foram nomeados como fiduciários, para distribuir os fundos às cinco pessoas citadas. Os médicos na Califórnia continuaram a pressionar Kathryn para que ela aceitasse fazer o cateterismo. Ela se recusava, dizendo que havia "coisas pessoais" que precisava fazer antes. Uma dessas "coisas pessoais" era redigir um novo testamento. Há confusão em torno dos verdadeiros fatos do novo testamento. Tink Wilkerson disse-me que Kathryn pediu a ele que telefonasse para o advogado dele, Irvine Ungerman. Porém, embora ela tivesse chamado Irvine Ungerman, de Tulsa a Los Angeles, para uma conferência, Tink nunca perguntou a ela a razão disso. — Achei que eles talvez estivessem conversando sobre coisas desse tipo — ele disse — mas eu não sabia o que estava acontecendo. Na verdade, descobri que havia um novo testamento quando conversei com Maggie no domingo após a morte de Kathryn, ocorrida na sexta-feira. — Foi a primeira vez que você ficou sabendo do novo testamento? — perguntei a ele. — Foi a primeira vez — ele respondeu. (Maggie, no entanto, contou-me, em lágrimas, que ela não fazia a menor idéia de que Kathryn estava pensando em fazer um novo 205


testamento. Ela não sabia nada sobre isso até chegar na Califórnia para o funeral. A descoberta, naquela época, caiu como uma bomba em seu espírito já despedaçado. Acreditei nela quando disse que não conversou com Tink no domingo, ou em qualquer outro dia, sobre o testamento. ) Ungerman foi de avião para Los Angeles e conversou com Kathryn em seu quarto no hospital. "Fiquei do lado de fora do quarto", disse Tink. Ungerman redigiu uma minuta e depois voltou para Tulsa. Na quarta-feira, 17 de dezembro, ele retornou. Kathryn havia recebido alta do hospital e estava em seu quarto no Century Plaza, assistida o tempo todo por enfermeiras. O novo testamento foi assinado por Kathryn diante de Ungerman, o dr. Carl Zabia e Jim West como testemunhas. De acordo com Tink, Kathryn havia lhe pedido que telefonasse para West a fim de que ele viesse ao hospital como testemunha, mas Tink ainda sustentava que ele não sabia que ela estivesse fazendo um novo testamento. "Admito que havia percebido", ele admitiu, "mas, como eu disse, fiz questão de não fazer parte dele. Eu achava que era um assunto de Kathryn". O novo testamento foi totalmente diferente do primeiro que Kathryn fizera cerca de dois anos antes. Nele, ela deixava quantias específicas e consideráveis para quatorze pessoas, parentes ou funcionários do escritório em Pittsburgh. Entre elas, estavam Myrtle Parrott, Geneva Dickson, Agnes Kuhlman, Marguerite Hartner, Maryon Marsh e Steve Zelenko. Quantias menores foram designadas a dez outros funcionários. O dinheiro total a ser distribuído chegava a US$267.500. Depois disso, o testamento dizia: "Todo o restante de minha propriedade, real e pessoal, de todo tipo e onde quer que esteja, se garantida legalmente ou contingente no momento de minha morte, deixo para Sue Wilkerson e D. B. Wilkerson Jr, em comum, totalmente livre de qualquer condição ou restrição". Irvine E. Ungerman, de Tulsa, Oklahoma, foi nomeado como o único testamenteiro. Se Kathryn queria ou não que "o ministério" continuasse, talvez tenha sido mencionado em seu testamento. Ela preparou mensagens gravadas para serem usadas depois de sua morte, mas sabia que Kathryn Kuhlman era o ministério. Será que Tink a pressionou? Ele era um oportunista? Ele estava trabalhando para outra pessoa? Ele realmente engendrou o testamento e aproveitou-se da fraqueza de Kathryn? É difícil dizer. Seria intenção de Kathryn deixar "o ministério" acabar aos poucos? Alguns já supuseram que, se estivesse pensando com clareza, ela poderia ter feito de um modo diferente. Mas quem sabe? Quatro dias depois de Tink fazer seus pilotos trazerem o novo Lear Jet para Los Angeles, eles levaram Kathryn de volta para Pittsburgh. Maggie e Steve Zelenko ajudaram a arrumar sua casa. Duas enfermeiras 206


estavam viajando com ela. Tink levou o avião de volta para Tulsa, pegou Sue, e os dois viajaram para Vail, Colorado, a fim de passar o Natal em um chalé numa estação de esqui. No Dia de Natal, ele telefonou para Kathryn. Percebeu, pela voz de Kathryn, que ela estava definhando. As enfermeiras estavam lá, junto com Maggie e alguns outros. No dia seguinte, Tink voltou para Tulsa, pegou um cardiologista e foi para Pittsburgh. Era óbvio que ela passaria por uma cirurgia de coração. Tink telefonou para Maggie no escritório da casa de Kathryn em Fox Chapel. "Maggie, é melhor você se apressar. Vou levar a senhorita Kuhlman para Tulsa." Maggie ficou chocada. Ela entrou no carro e dirigiu o mais rápido possível. Eles estavam saindo quando ela chegou. — A senhorita Kuhlman quer que você fique e cuide do escritório — disse Tink. — Sue e eu cuidaremos de tudo. O cirurgião de Tulsa estava junto quando eles carregaram Kathryn para o carro e depois para o aeroporto. Maggie estava chorando. — Confie em mim — disse Tink. — Eles vão operá-la na quartafeira. Enviarei o jatinho para buscar você a fim de que possa estar lá quando ela entrar para a cirurgia. No dia seguinte, sábado, 27 de dezembro, Maggie recebeu uma ligação de Tink. "Estão levando a senhorita Kuhlman para a sala de cirurgia neste momento." "Você não está falando sério", Maggie disse, nervosa e, depois, chocada. "Você disse que daria tempo para eu chegar aí. "Os médicos disseram que não havia alternativa. Ela deve ser operada neste momento; do contrário, não viverá." A enfermeira particular de Kathryn no Hillcrest Medicai Center havia telefonado para a casa de Tink em Tulsa às 6 horas naquela manhã de sábado. "É melhor o senhor vir aqui. A respiração da senhorita Kuhlman está diminuindo. Estou preocupada com ela." Tink desligou o telefone. Queria telefonar para Oral Roberts, mas sabia que ele dormia tarde da noite e, por isso, acordava tarde. Ele hesitou e, então, pegou o telefone e discou o número de Oral. Evelyn Roberts atendeu o telefone. "Sinto ter de incomodar você", ele disse. E depois contou a ela a situação. "Oral estará acordado e pronto em quinze minutos", ela respondeu. "Você pode vir buscá-lo." 207


Os dois homens entraram no quarto de Kathryn e ficaram ali olhando para ela. Ela estava morrendo. Oral pôs a mão na testa de Kathryn, fez uma rápida oração, e depois os dois saíram da sala. "Seja o que for que o senhor fará por Kathryn, que ele o faça depressa. Nunca senti a morte tão perto de uma pessoa em toda a minha vida." Evelyn Roberts e Sue Wilkerson juntaram-se aos seus maridos, no hospital, enquanto a equipe de cirurgiões terminava os preparativos. Cinco médicos compunham a equipe, inclusive um cardiologista do Canadá, cheio do Espírito, que recentemente viera integrar o corpo docente da nova escola médica da UOR. Às 10 horas, os médicos entraram na unidade de tratamento cardiológico, onde se juntaram aos Wilkersons e Roberts. Kathryn estava deitada num leito próximo, já preparada para a cirurgia. O cirurgião judeu olhou para Oral e disse: — Por que não nos damos todos as mãos e você ora por nós? Momentos depois, uma assistente levou Kathryn para a sala de cirurgia, onde a equipe trabalhou por quase cinco horas, fazendo a operação com o coração aberto e corrigindo a válvula mitral. No final da cirurgia, toda a equipe médica foi para a sala de espera. — Não fui eu que realizei a cirurgia — disse o cirurgião-chefe. — Alguém estava no comando, guiando minhas mãos. O cardiologista da UOR disse que havia passado a maior parte de seu tempo com as mãos sobre Kathryn, orando no Espírito, enquanto os outros realizavam a cirurgia. Todos ficaram satisfeitos com os resultados. Mas, na sexta-feira seguinte, ela desenvolveu uma obstrução abdominal, que requereu uma cirurgia urgente. Durante as duas semanas seguintes, eles tiveram de realizar três broncostomias porque o tamanho do coração de Kathryn impedia a drenagem de seu pulmão esquerdo. Houve muita confusão daquele momento em diante. Tink telefonava para Pittsburgh todos os dias, dizendo a Maggie que seguisse em frente e fizesse planos para os cultos mensais no Shrine e o culto de milagres em Oakland, em abril. Ele dava outras notícias, dizendo que Kathryn estava melhorando e que logo receberia alta do hospital. No entanto, as notícias que vinham das enfermeiras (antes de serem proibidas de falar) eram justamente o contrário. Havia informações de fontes seguras de que o coração de Kathryn, pelo menos em duas ocasiões, parara de funcionar, e ela precisou ser "ressuscitada" por meio de aparelhos mecânicos. Oral voltou para interceder a Deus por ela duas vezes. Myrtle Parrott chegou da Califórnia. Após uma de suas visitas, ela chamou Tink de lado. — Tink, Kathryn diz que quer ir para casa. A vontade de Kathryn de ficar e lutar desapareceu. Ela estava pronta para submeter-se a um chamado maior. No final, ficou sozinha, 208


como o velho Moisés, quando Deus colocou seu braço em volta de seus ombros e o levou do monte Nebo para um lugar mais alto. Então Kathryn, com seu sonho frustrado de ver o dia em que todas as igrejas veriam milagres, entrou na neblina e viu que o reino marchava sem ela. Sua missão estava cumprida. Ela havia apresentado o Espírito Santo às pessoas. Havia mostrado que milagres são possíveis. A despeito de todas as suas falhas e seus defeitos, provara que Deus poderia pegar até a mais imperfeita das criaturas e usá-la como um instrumento da sua glória. Na morte como na vida, ela glorificou a Deus. Em 20 de fevereiro de 1976, sua face, mais uma vez, começou a brilhar quando o Espírito Santo fez cair sobre ela a última unção. A enfermeira no quarto virou-se e viu quando o brilho envolveu o leito. Uma paz indescritível pareceu encher o quarto. E ela se foi. Feliz vivi e, com alegria, morri. E me impus com um legado.*

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Robert Louis Stevenson, Requiem.

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Capítulo 19 Epílogo: Além do que Vemos Na cerimônia de enterro no Wee Kirk o' the Heather, no Forest Lawn Memorial Park, em Glendale, Califórnia, Oral Roberts contou o que lhe ocorreu quando chegou a notícia de que Kathryn Kuhlman tinha morrido. "Minha única preocupação era com o ministério de cura. Então me lembrei das palavras de Kathryn: 'Não é Kathryn Kuhlman. Ela não pode curar ninguém. É a obra do Espírito Santo'. Essas palavras me atingiram como o estrondo de um trovão. "Então vi sete luzes e doze pessoas. Perguntei a Deus o que significavam as luzes. Ele me revelou que a luz vinha das pessoas... não eram elas que escolhiam; elas estavam sendo escolhidas. Pessoas especiais vão levantar-se. Essas sete luzes brilharão por este país, e, na morte de Kathryn, o ministério dela será maior do que em sua vida. " Dois meses depois, visitei o túmulo de Kathryn. E, ao passar pela cidade, acabei indo ao culto regular de milagres às quintas-feiras pela manhã no Melodyland, em Anaheim. Era Ralph Wilkerson quem estava dirigindo o culto. Havia quase 2 mil pessoas presentes — às 10 horas da manhã de quinta-feira. O culto não era como as reuniões no Shrine ou em Pittsburgh. Não havia coro. Os introdutores não estavam uniformizados. Ralph era despretensioso, informal, enquanto percorria o grande auditório circular falando com as pessoas, orando por elas, impondo as mãos. Algumas caíam para trás no Espírito. Umas eram curadas. Outras, não. Tudo parecia dar a entender que era um negócio de Deus, e não de Ralph. Ele iniciou um cântico: "Certamente a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias, todos os dias de minha vida". O tom estava tão alto que todos tinham de gritar para conseguir cantá-lo. Ele sorria e prosseguia. Não estava tentando impressionar ninguém; só queria agradar a Deus. Olhei ao redor. Havia mais de duas dúzias de pessoas, de empresários a donas de casa, subindo e descendo o corredor, orando pelos doentes, chamando os que haviam sido curados. Kathryn nunca permitiu isso. Contudo, quando fechei os olhos e ouvi, percebi que era o mesmo Espírito Santo que estava presente naquela manhã que eu o senti no culto de milagres de Kathryn. Ele estava honrando "o ministério", o ministério de milagres. 210


Mas não era só no Melodyland que isso estava acontecendo. Em St. Louis, em Tulsa, em Detroit, em St. Petersburg, em Ft. Lauderdale, em Denver... em milhares de igrejas e grupos de oração espalhados por todo o mundo, o Espírito Santo estava se movendo. Pois o mesmo Espírito Santo que ressuscitou Cristo dentre os mortos habita agora em nós, vivificando o nosso corpo mortal. Pensei na visão de Oral. Como a Bíblia veio com um propósito, o número 7 foi usado para representar todas as igrejas, pois havia sete grandes igrejas às quais o Cristo ressurreto falou. O número 12, sem dúvida, representa a perfeição — e o infinito. Não que doze pessoas sucederão Kathryn; ao contrário, todas as igrejas, em todos os lugares, que estão abertas para o mover do Espírito Santo, estão destinadas a ver milagres. O sonho de Kathryn se cumprirá. O axioma de Jesus continua verdadeiro, ainda que parafraseado para esta geração: Eles farão coisas maiores que ela. Kathryn não pôde entrar nesta Terra Prometida. Era de outra geração. Ela foi a pioneira, mostrando-nos o caminho, levando-nos à margem do Jordão. Foi o João Batista do ministério do Espírito Santo. Agora, cabe a nós vê-lo se cumprir — em todas as igrejas da terra. Kathryn se foi. Mas o Espírito Santo está vivo. "E, depois disso, derramarei do meu Espírito sobre todos os povos [...]. Até sobre os servos e as servas derramarei do meu Espírito naqueles dias. Mostrarei maravilhas no céu e na terra [...]. E todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo..." Joel 2.28-30, 32

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Fotos*

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Estas primeiras 19 fotos, que no livro impresso apareciam no início de cada capítulo, foram aqui compiladas numa única página, para facilitar a formatação. As fotos das páginas seguintes foram diminuídas, para ocupar menos espaço. (Nota da digitalizadora.)

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Fotos que aparecem no início dos capítulos: Capítulo 1: Kathryn Kuhlman quando criança. Capítulo 2: Kathryn quando criança. Capítulo 3: Kathryn Kuhlman e sua pianista, Helen Gulliford. Capítulo 4: Kathryn Kuhlman em pé do lado de fora do prédio do tabernáculo. Capítulo 5: Retrato de Kathryn durante o início de seu ministério. Capítulo 6: Kathryn no terreno do Templo da Fé. Capítulo 7: Vinte e cinco anos em Pittsburgh - Kathryn e Maggie Hartner. Capítulo 8: Kathryn com seu coro em Pittsburgh. Capítulo 9: Primeira reportagem em escala nacional na revista Redbook, 1950. Capítulo 10: Diante das câmeras de um dos quase quinhentos programas de meia hora na CBS Television City, em Hollywood. Capítulo 11: Kathryn preparando-se para um de seus programas de rádio. Capítulo 12: Kathryn com uma garota chinesa que freqüentava a escola em Hong Kong, fundada pela Fundação Kathryn Kuhlman. Capítulo 13: Kathryn ministrando durante os apelos feitos do altar em Providence, Rhode Island. Capítulo 14: O prefeito de Jerusalém recebendo Kathryn Kuhlman em Jerusalém. Capítulo 15: Audiência privada com o Papa Paulo VI, 11 de outubro de 1972. Capítulo 16: Kathryn com seu chapéu na Páscoa. Capítulo 17: Kathryn ministrando na Suécia durante um apelo feito do altar. Capítulo 18: Centro de Convocações, Campus de Notre Dame, por Doug Grandstaff. Capítulo 19: Kathryn no culto de milagres no Kiel Auditorium, St. Louis - abril de 1975, segurando sua Bíblia.

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Kathryn Kuhlman - com três meses e três semanas de idade.

Kathryn com sua boneca.

A jovem evangelista nos primeiros dias.

A jovem evangelista nos primeiros dias.

A Igreja Metodista em Concórdia, Missouri, onde Kathryn Kuhlman nasceu de novo em uma manhã de domingo, faltando cinco minutos para o meio-dia, aos 14 anos.

Kathryn Kuhlman "recém-chegada".

O cheque que Myrtle deu a Kathryn para comprar um vestido amarelo quando a irmã começou sozinha seu ministério com Helen Gulliford.

Um momento de descontração da jovem "pregadora".

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Earl "Garoto" Kuhlman com seu avião.

Kathryn e M. J. Maloney nos primeiros dias em Franklin.

Último retrato da família. Da esquerda para a direita, mãe, Geneva, Myrtle, pai, Kathryn.

Kathryn com Helen Gulliford (com data de 8 de julho de 1938, em Denver).

Burroughs e Kathryn com Fred e Marge Cook em Alhambra, Califórnia. O senhor e a senhora Burroughs Waltrip, Columbus, Geórgia, em 8 de julho de 1939.

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Comemorações de aniversário em Pittsburgh, Pensilvânia, em 1953.

Dino Kartsonakis ao piano durante o vigésimo quinto culto de aniversário em Pittsburgh, 1972.

Comida para os necessitados, uma das obras sociais que Kathryn Kuhlman patrocinava.

Nicky Cruz no Centro de Desafio Jovem em Rehrersburg, PA, na consagração de um templo oferecido pela Fundação Kathryn Kuhlman.

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Uma senhora da congregação "caindo sob o poder".

Kathryn Kuhlman em um culto de milagres no Kiel Auditorium, em St. Louis - abril de 1975.

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Contracapa Kathryn Kuhlman Uma biografia autorizada Ela falou de Deus e de milagres Nos cinqüenta anos de seu ministério, ela compartilhou o amor e o poder do Senhor para um público estimado de cem milhões de pessoas! E a todo lugar que ela ia, as pessoas, que antes achavam que milagres eram impossíveis, aprendiam a crer. Antes de morrer, ela pediu que somente Jamie Buckingham tivesse permissão para escrever sua biografia oficial, sem ocultar nada. Aqui, então, está uma história muito humana, não de uma santa de gesso, que fala de casamento e divórcio, de traição dentro de sua própria equipe, dos eventos sombrios que cercaram sua morte. É a história de Kathryn Kuhlman que poucos conhecem, como ela gostaria que fosse contada a história toda. A história da ruiva de Missouri que se tornou a maior evangelista do século 20.

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Kathryn kuhlman uma biografia autorizada jamie buckingham  
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