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Frank M. Boyd

GĂĄlatas, FĂ­llpenses^ 1 e 2 Tessalonicenses e Hebreus


Todos os D ireitos Reservados. C opyright © 1996 para a língua portuguesa Casa Publicadora das A ssem bléias de Deus.

Tradução: Law rence Olson Capa: Jaym e de Paula Prado

225.7 - Com entário do N ovo Testam ento Boyd, Frank M. BO Y c Com entário Bíblico.../Frank M. Boyd 1 ed. - Rio de Janeiro: Casa Publicadora das A ssem bléias de Deus, 1996. p. 176. cm. 14x21 ISB N 85-263-0066-0 1. Com entário 2. Gálatas 3. Filipenses 4. 1 e 2 Tessalonicenses 5. Hebreus

CDD 225.7 227.4 227.6 227.81 227.87

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Com entário do N ovo Testam ento Gálatas Filipenses 1 e 2 T essalonicenses H ebreus

Casa P ublicadora das A ssem bléias de Deus C aixa Postal 331 20001-970, Rio de Janeiro, RJ, Brasil I a E d ição/1996


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índice A presentação............................................................................. 5 1 G álatas, entre a Lei e a G r a ç a ..........................................11 2 Filipenses, a A legria e a V o lu n ta rie d a d e .................... 51 3 T essalonicenses, o E xem plo na F é ................................79 - H ebreus, E ntendendo o A ntigo T e stam en to ............109


Apresentação As epístolas paulinas são, e crem os que nisso todos concordam , um tesouro de inestim ável valor tanto no que respeita à teologia e ao tratam ento enérgico que lhe dá o -póstolo, com o ao testem unho vibrante dum hom em cuja ida e m inistério foram e continuam sendo um exem plo a >er im itado (1 Co 4.16). N este com pêndio selecionam os ::nco delas, que por suas características tanto diversas :u an to com plem entares constituem um a am ostra de in e­ fáv el am plitude: G álatas, Filipenses, 1 e 2 T essalonicen'e s e H ebreus, sendo a autoria p aulina desta últim a ape­ gas presum ida. O presente com entário é creditado ao pastor e escritor am ericano Frank M. Boyd, traduzido pelo m issionário N. Law rence O lson. Q uanto à form a, poderíam os dizer que .iísum e um aspecto interpretativo, capítulo a capítulo, 'en d o originalm ente usado para fins de ensino teológico o IBP (Instituto B íblico Pentecostal), no Rio de Janeiro.


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Comentário Bíblico

N as epístolas aqui inclusas o leitor terá à disposição doutrinas bíblicas com o a ju stificação p ela fé, a superio­ ridade de C risto em relação aos profetas, aos anjos, a M oisés, e os sacrifícios (tipos e antítipos), além de im pli­ cações com o, por exem plo, as decorrentes do título atri­ buído ao S enhor Jesus de E terno e Sum o S acerdote da nossa confissão. Por sua ênfase didática, este com pêndio m ostra-se especialm ente apropriado aos sem inários teo ­ lógicos e institutos bíblicos em geral, além , é claro, de facultar a todo cristão sincero a substância teológicodoutrinária necessária a um a vida frutífera, equilibrada e eterna em sua perspectiva. I ntrodução

ao

E

stud o das

E p ís t o l a s

As epístolas são um a form a literária com característi­ cas m uito especiais, cuja reunião constitui um a divisão p articu lar e d istinta das E scrituras: 1. quanto à form a, seguem o estilo das cartas (do latim , epístola: “carta”); 2. propiciam um a visão restro sp ectiva da redenção consum ada na cruz; 3. não visam particularm ente nem aos judeus, nem aos gentios, m as a um novo agrupam ento hum ano co n sti­ tuído por cristãos de todas as nações. Esse novo agrupam ento perm an eceu m uito tem po com o um segredo divino, até que veio a ser revelado na Igreja. Segundo Scofield, a expressão “oculto em D eus” , em E fésios 3.9, representa não apenas um intervalo de tem po entre a crucificação e a ressurreição de C risto e seu retorno em glória (que segundo o citado autor se define com o a dispensação da Igreja), com o à própria eklesia, a Igreja, que foi conservada com o um m istério no coração de D eus até a hora de sua gloriosa m anifesta­ ção com o a esposa am ada do C ordeiro.


Apresentação

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A proxim ando-se o térm ino de seu m inistério terreno, Jesus revelou este propósito (Mt 16.18). Contudo, Ele apenas lançou o fundam ento da Igreja; não explicou o modo, o :empo ou o propósito de instituir a Igreja. Tampouco escla­ receu qual seria o relacionam ento desse povo emergente, adotado e feito participante das promessas até então exclu­ siv as de Is ra e l. E m o u tra s p a la v ra s , q u al se ria o posicionam ento da assim cham ada Igreja frente às prom es­ sas contidas nos pactos até então vigentes? A essência de tudo quanto se esclarece nas epístolas ~cha-se nos ensinos do Senhor. Elas não os ignoram , :mtes os tornam aplicáveis a situações concretas do viver eclesiástico. O Senhor Jesus, tendo isso em vista, afir­ mou posteriorm ente o papel im prescindível do Consolador vindouro na condução e edificação da Igreja em toda a verdade (Jo 14.25,26; 16.12-15). E esse gracioso E spírito Santo, operando sobre e por m eio dos corações e m entes de pessoas divinam ente escolhidas, é que nos revela o significado da cruz, gerando de form a sobrenatural o arcabouço doutrinário que se vê de m odo m ajestoso e abundante nas epístolas. D esse m odo, o P rofessor divina­ m ente concedido, o C onsolador que havia de vir, pôde esclarecer a posição, as relações, os privilégios e os deveres da Igreja - esta a consubstanciação visível e glo ri­ osa tanto do poder com o da sabedoria de D eus. O E sp íri­ to supriu o que o Senhor não explicara (‘A in d a tenho m uito para vos d izer” - Jo 16.12), com unicando-o em tem po oportuno, pelos canais determ inados por D eus, inclusive porque naquela época os discípulos não estavam preparados para entender.

1. Os Autores V ários são “os hom ens santos de D eus” que escreve­ ram inspirados pelo E spírito Santo, sendo Paulo o p rin ci­ pal autor das epístolas que com põem o cânon sagrado.


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Comentário Bíblico

Sua erudição, tanto na cultura ju d a ic a com o na grega (estudou aos pés de G am aliel, um rabino em inente; cf. Fp 3.4-6 e A t 17.28), seu nascim ento fora da P alestina e seu flagrante zelo religioso tornaram -no um instrum ento capaz não apenas de m inistrar aos ju d eu s, reacendendolhes a esperança m essiânica, com o aos gentios, im plan­ tando-lhes o dom da graça da vida. A am bos os povos, acenou-lhes com a ressurreição de C risto - as prim ícias dos que dorm em . A cham ada de Paulo foi um a obra em tudo sobrenatu­ ral (A t 9.1-19), sendo pessoalm ente instruído pelo S e­ nhor (2 Co 12.1-4; G1 1 .1 5-2.6; E f 3.2-4). N ão recebeu, a princípio, o conhecim ento da verdade da boca dos d e­ m ais apóstolos, ouvindo-lhes a pregação - aliás, ele os ouvia e nem por isso cessou de p erseguir os cristãos. T am bém a tradição, segundo a T orá dos judeus, em nada fê-lo m udar de opinião e postura. Foi na solitária A rábia que recebeu por revelação as verdades que constituem seu repertório (1 Co 11.23; G1 1.11-17; 1 Ts 4.15). A que­ les dois anos de silêncio m arcados por sua prisão em C esaréia, entre sua captura no T em plo em Jerusalém e a deportação para Rom a, deram -lhe oportunidade de m an­ ter íntim a com unhão com Senhor e receber dEle a rev ela­ ção de m uitas verdades que se têm com provado im pres­ cindíveis à Igreja. T ia g o , cham ado “o irm ão do S enhor” , é trad icio n al­ m ente considerado o autor da epístola que leva o seu nom e. A ele Pedro enviou a m ensagem de sua libertação da prisão (A t 12.17), e é tam bém o apóstolo que presidiu o prim eiro concilio da Igreja, em Jerusalém (At 15.13), tendo sido m encionado por Paulo (G1 1.19) com o “colu­ na” da Igreja (G1 2.9), ao lado de Pedro e João. P e d ro , que ficou bem conhecido por sua im petuosida­ de e o episódio da negação, entre outros, é um testem u­ nho contundente da “m ultiform e graça de D eus” (1 Pe


Apresentação

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- 1 0 ) , capaz de aproveitar ainda o m ais volúvel dos h o ­ mens, constituindo-o “coluna” firm e e inabalável. Ele é o jiutor das I a e 2a E pístolas de Pedro. Jo ã o , o autor das três epístolas de João, era um pesca­ dor, filho de Z ebedeu e irm ão de Tiago, que veio a tom ar-se discípulo do Senhor. Seu nom e aparece fre­ qüentem ente ao lado do irm ão. Ele e P edro tornaram -se am igos íntim os de nosso Senhor (cf. M t 17.1; M c 5.37; -.2). Este é o terceiro apóstolo de quem Paulo testifica :ue “eram reputados com o co lu n a” (cf. G1 2.9).

2. Os Temas Os grandes tem as das epístolas são: • A salvação por m eio de C risto, m ediante a fé (su­ pondo-se o arrependim ento de acordo com A t 2.38 e 20.21), baseada na expiação, sob o princípio da graça; • A Igreja com o o corpo vivo do C risto ressuscitado e g lo rif ic a d o , se n d o , p o r ta n to , d is tin ta (no s e n tid o dispensacional - quanto à posição e ao privilégio p resen ­ te) tanto dos salvos de séculos passados com o tam bém dos salvos de épocas e séculos futuros. Todos os redim idos desde o início da raça hum ana, que foram “justificados pela fé”, sentar-se-ão com A braão, Isaque e Jacó no R ei­ no dos Céus (cf. M t 8.11; H b 11.40). • O E spírito Santo e seus vários ofícios e m inistérios em relação ao Corpo de C risto, coletivam ente, e às várias igrejas locais. • O andar, o serviço e o destino eterno dos cristãos. • A harm onização da N ova A liança com as prom es­ sas à nação de Israel. • As palavras proféticas, abrangendo tanto o curso como o fim da época presente, a segunda vinda de Cristo etc. A propósito, esta parte das E scrituras contém m uita m atéria b iográfica que não deixa de ser interessante,


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Comentário Bíblico

instrutiva e tocante. D e fato, a verdade m uitas vezes é revelada através da experiência hum ana em vez de dogm as (cf. Scofield, na referên cia à “cap a” de Paulo - ele com certeza estava passando frio, 2 Tm 4.13).

3. A Ordem Cronológica das Epístolas Paulinas C rê-se que a ordem cronológica das epístolas de PauIo seja a seguinte: 1) 1 T essalonicenses 2) 2 T essalonicenses 3) 1 C oríntios 4) 2 C oríntios 5) G álatas* 6) R om anos 7) Filem om 8) C olossenses 9) E fésios 10) F ilipenses 11) 1 Tim óteo 12) Tito 13) 2 Tim óteo 14) H ebreus** * M uitos e ru d ito s a cre d ita m que a E p ísto la aos G á latas foi e sc rita n a v é sp e ra do C o n c ilio de Je ru sa lém . N e ste caso. e ssa e p ísto la seria a p rim e ira, em lu g ar de 1 T essa lo n ice n se s. **A E p ísto la aos H e b reu s. c u ja au to ria p a u lin a é apenas p re su m id a - aliás, p a ira m sérias d ú v id as qu an to a q uem te ria sido de fato seu au to r g e ralm e n te é p o sta em últim o lu g ar, na ord em cro n o ló g ica .


1 Gálatas, ente a Lei e a

Graça

I - Introdução

1. Dados históricos O entendim ento de todas as circunstâncias relativas à origem da epísto la e identificação precisa dos destin atá­ rios logo de início levanta dificuldades as m ais variadas nos aspectos histórico, nacional, lingüístico e cultural. D urante m uitos anos, eruditos com o o bispo J. B. Lightfoot e o Dr. John P eter L ange eram de opinião que as igrejas da G alácia, às quais se dirigiu Paulo, ficavam ao norte da província rom ana de m esm o nom e localizada na região N or-nordeste da Á sia M enor. O povo que h abitava essa região descendia dos bárba­ ros - gauleses e celtas —que invadiram a M acedônia e a G récia, nos anos 2 7 8 -2 7 7 a.C., e finalm ente cruzaram o estreito dos D ardanelos, ocupando a Á sia M enor. D epois do ano 232 a.C., as fronteiras da região ocupada por este povo se definiram , recebendo o nom e de G alácia. Este país setentrional passou, posteriorm ente, a fazer parte da extensa província rom ana da G alácia — incluindo um


Comentário Bíblico

território m ais vasto que se estendia bem m ais ao sul. Havia nele várias cidades, entre elas Péssim o, T avia e A ncira (hoje A ncara, capital da Turquia). Segundo o livro de A tos, foi som ente em sua terceira viagem m issionária que o apóstolo Paulo finalm ente che­ gou àquelas regiões do N orte (At 16.6; 18.23). O livro de Atos (18.23), porém , não fala m uito sobre o m inistério de Paulo nessa província, dando conta apenas de que ele por ali passara, “confirm ando a todos os d iscípulos” . N ão obstante (e pelo próprio fato de Paulo “confir­ m ar” os discípulos), tudo indica que o E vangelho havia penetrado aquela região num a ocasião anterior. É digno de nota que quase todos os eruditos opinam que Paulo passou p ela p rovíncia da G alácia por ocasião de sua prim eira viagem , quando visitou as cidades de A ntioquia, Icô n io , L istra e D erb e (A t 13.14—14.23; cf. H enry T hiessen, Introdução ao N ovo Testam ento). As viagens e estudos de Sir W illiam M. R am say, reconhecida autori­ dade quanto ao livro de A tos, confirm a a declaração supracitada. Transcrevem os a seguir várias perguntas que o D outor T hiessen propõe, e cujas respostas apóiam cate­ goricam ente o ponto de v ista de que a E pístola aos G álatas fo i escrita às igrejas do Sul da Galácia. “N ão nos parece estranho que Lucas fale tanto da fundação de igrejas na região Sul da G alácia (A t 13.1414.23) e Paulo não diga nada sobre isso? N ão nos parece estranho tam bém Paulo ter escrito um a carta de tanta responsabilidade às igrejas do N orte da G alácia, cuja fundação é praticam ente om itida por Lucas? N ão nos parece estranho ainda terem os ju d aizan tes (discutirem os este term o m ais adiante, m as a princípio estam os nos referindo aos ju d eu s legalistas que se opunham ten az­ m ente à m ensagem da graça consubstanciada na teologia paulina), procedentes da P alestina, ultrapassado as m ais im portantes cidades do Sul da G alácia, com o Icônio e


Gálatas, entre a Lei e a Graça

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A ntioquia, onde havia tantos ju d eu s e sem dúvida alguns udeus cristãos, dirigindo-se àquela rem ota região para causar p ertu rb açõ es?” (Thiessen, Introdução ao N ovo Testamento').

2 . D estinatários, local

e data

A epístola não é dirigida a um a determ inada igreja local, nem às igrejas dum a certa cidade, m as às igrejas da província rom ana da G alácia (G1 1.2). Os eruditos no estudo das Sagradas E scrituras não são unânim es quanto ao lugar e data em que foi escrita, m as o Dr. T hiessen apresenta algum as razões lógicas que nos fazem supor ter sido escrita na M acedônia ou na G récia (provavel­ m ente em C orinto), cerca de 55 ou 56 d.C.

3. Circunstância A p ró p ria carta dá pistas sobre a circunstância em que foi escrita, levando-nos a um retrospecto sobre a época do concilio da Igreja m encionado no capítulo 15 de A tos dos A póstolos (leia cuidadosam ente A t 15.1-31). Tratava-se na ocasião de um a conferência de extraordinária im portância, durante a qual ficou estabelecido que os gentios não estavam sujeitos à o bservância da Lei: c ir­ cuncisão, guarda de certos dias, proibição de com idas e outros assuntos (G1 2.1-5) que nada tinham a ver com a salvação - esta é “p ela graça... p ela fé” . N o entanto, durante a ausência de Paulo no Sul da G alácia, certos m estres ju d eu s procedentes da P alestina (cf. A t 15.1-5) chegaram à região, opondo-se vio len ta­ m ente a Paulo e seus ensinos. “N ão sabem os quanto tem po transcorreu desde que Paulo visitara pela últim a vez a G alácia até a vinda dos ju d aizan tes, tam pouco o tem po que Paulo levou para tom ar conhecim ento da de­ serção ocorrida nas igrejas da G alácia” (Thiessen). N ão


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C om entário Bíblico

ob stan te, p odem os d izer que a v in d a desses ju d eu s legalistas e fom entadores de contendas acabou se to rn an ­ do um problem a persistente e de d ifícil solução. Tanto a E pístola aos C oríntios com o a que foi dirigida aos rom a­ nos revelam a presença desse grupo em tudo prejudicial e nocivo. Esses m estres ju d aizan tes seguiam os passos de Paulo por toda parte, procurando m inar a pregação desim pedi­ da do E vangelho, que se baseava na graça de D eus. A fim de conseguir seus propósitos, em prim eiro lugar tentaram sabotar a autoridade apostólica de Paulo. E ntre outras coisas, trataram de introduzir a idéia de que a circuncisão e outras observâncias m osaicas eram requisitos essenci­ ais à salvação. É evidente que m uitos haviam caído no erro de suple­ m entar a fé com obras (G1 1.6-9; 3.3; 4.9-11; 5.3). U m a vez contestada a sua posição de apóstolo, Paulo escreve aos gálatas com o objetivo de defender-se e restaurá-los à fé. A epístola constitui um a hábil exposição da doutrina da ju stificação p ela fé, independente das obras da Lei.

4. Temas A epístola divide-se em três partes principais: A. P essoal - 1.6-2.21. Paulo defende sua autoridade apostólica. B. D outrinária - C apítulos 3 e 4. E xposição da dou­ trina da ju stificação p ela fé. C. P rática - 5.1-6.10. A plicação dessa doutrina na vida co tidiana do cristão.

5. Conteúdo geral Paulo recebeu as doutrinas distintivas da graça, que ele denom ina “m eu E v angelho” , por revelação divina direta e não p ela tradição dos apóstolos, com panheiros


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C risto durante sua hum ilhação. A m ensagem de Paulo "ão é apenas um eco, ainda que em tudo fiel aos ensinos do divino M estre enquanto esteve na Terra... O Evangeího que Paulo anuncia deriva sua autoridade do Cristo 'essurreto, e é por excelência o E vangelho do Senhor ■essuscitado. Portanto, a severidade da E pístola aos G álatas não é a do polem ista acalorado que se nutre da controvérsia. Paulo apenas realça o solene ju ízo de C risto contra aqueles que p ervertiam seu E vangelho - este o único m eio de salvação para os perdidos. A paciência de D eus tolera m uitos erros, mas o que ocorria na G alácia eqüivalia à destruição do E vangelho, coisa intolerável a seus olhos. Seja an átem a’ constitui a sentença necessária do am or -obre qualquer um — fosse Paulo, fosse um anjo - que 7regasse outro evangelho” (Scofield). II - A n á lis e d a E p ís to la

1. Saudação (1.1-5) “Os dois tem as da epístola (a defesa da autoridade própria do apóstolo e a conservação da doutrina da g ra­ ça) fundem -se, por assim dizer, na saudação de abertura. Ao destacar seu título de apóstolo, afirm ando que havia ?ido com issionado diretam ente por D eus (v. 1), Paulo enfrenta ataques pessoais dos seus oponentes. Ao referirse à obra da redenção relacionada com obra de C risto (v. 4), ele p rotesta contra os erros doutrinários dos seus rpositores” (L ightfoot). “Paulo, apóstolo (não da parte dos hom ens, nem p o r nom em algum ...)” (v. 1). A preposição de [dos] denota a fonte ou origem de sua autoridade apostólica. Ele queria dizer com isso que sua autoridade não procedia do ser humano. A preposição p o r


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denota o m eio pelo qual sua autoridade apostólica lhe foi outorgada e que tam bém não se derivava do homem. Em prim eiro lugar, Paulo faz distinção entre ele próprio e os falsos apóstolos - que não foram com issionados por Deus e tam bém se coloca no m esm o nível dos doze que foram diretamente investidos de autoridade por Deus. Paulo evi­ dentem ente se refere aos acontecim entos relativos à sua conversão no cam inho de Dam asco, quando lhe foi conferi­ do o título apostólico, por assim dizer, pelo próprio Cristo ressurreto e glorificado. D esta maneira, trata-se dum após­ tolo no sentido pleno da p a la vra; um a testem unha habilita­ da da ressurreição e ao mesm o tem po um exem plo vivo do poder salvador de Jesus. A expressão “e todos os irm ãos que estão com igo” refere-se por certo a seus colaboradores, tais com o T im ó­ teo, E rasto e Tito, ou à com unidade de cristãos resid en ­ tes no m esm o local que ele. A ú ltim a referência poderia indicar “o desejo do apóstolo de que a sim ples m enção de todos os irm ãos se constituísse num a tácita ratificação dos seus en sin o s” (L ightfoot). Logo se segue a costum eira saudação (v. 3), declaran­ do-se a verdadeira base aceita por D eus (v. 4), da qual os gálatas haviam sido tão rapidam ente afastados. N ão foi senão conform e a vontade de D eus, a quem se atribui toda a g lória pelos séculos sem fim (v. 5), que C risto nos livrou da tirania do p resente m undo com todos seus m a­ les e m isérias. C om pare, a título de ilustração, a aspereza da sauda­ ção inicial aos gálatas, com o fervor e a satisfação que transparecem na saudação dirigida aos filipenses. N a sau­ dação aos gálatas, Paulo não os elogia por sua fé, porque o apóstolo parece estar desejoso de finalizar rapidam ente as palavras de introdução, com o objetivo de chegar ao âm ago de sua m ensagem - iniciada a rigor a partir do versículo 6.


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2. O tema (1.6-9) Incluím os aqui a paráfrase do Dr. J. B. L ightfoot ?obre os versículos 6-9, que diz: “M aravilho-m e de que em tão pouco tem po já estais prontos para vos apartardes de D eus, que vos cham ou; que atueis com tanta tem erida­ de ao abandonar a D ispensação da G raça por um evange­ lho diferen te” . {Nota: Por “dispensação” se pretende d i­ zer um período de tem po durante o qual se põe à prova o hom em quanto à obediência a certa revelação específica da vontade de D eus.) “U m evangelho diferente? Não! Xão há outro! N ão p o d e h aver dois evangelhos. A verda­ de é que tão som ente alguns hom ens têm tentado d eb ili­ tar vossa lealdade e perverter o E vangelho de Cristo. Trata-se dum intento vão, porque o evangelho pervertido já não é evangelho. A verdade é que m esm o se nós próprios ou um anjo do céu (se tal coisa fosse possível) lhes pregar outro evangelho além do que tem os pregado até agora, considere-o m aldito. Já o afirm ei e volto a repeti-lo: Se qualquer outra criatura lhes p re g a r outro evangelho além daquele que nós lhes ensinam os, seja anátem a”. A p alavra grega traduzida por “p assásseis” (v. 6), na A lm eida C orrigida, ou “estejais p assan do” , na versão atualizada, originalm ente se encontra no tem po presente, indicando que o afastam ento dos gálatas era um processo em curso, em relação ao qual Paulo está esperançoso de poder detê-lo. A ssim , nessa parte introdutória, o apóstolo ataca severam ente aqueles que, se aproveitando da oca­ sião, procuravam m inar a confiança dos gálatas no verda­ deiro Evangelho. O que pretendiam era fazê-los seguir um outro evangelho, em tudo distinto do anterior. O resultado é que os gálatas se deixaram afastar do reino da graça. Sem dúvida, ainda se cham avam cris­ tãos, assistiam aos cultos, não haviam caído em im orali­ dade, m as se esqueceram do evangelho da graça de Deus.


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Comentário Bíblico

Q uando ao Evangelho se acrescenta o m érito hum ano, em m enor ou m aior grau, a graça autom aticam ente é excluída e ele deixa de ser Evangelho.

3. A vindicação da autoridade de Paulo e do evangelho que pregava (1.10-2.14) O tipo de ju d aísm o que infeccionava as igrejas da G alácia era de natureza virulenta, eqüivalendo à com ple­ ta subm issão a toda a lei cerim onial (cf. G1 4.10; 5.2,11; 6 .1 2 ,1 3 ). E s s a p o s iç ã o a d o ta d a p e lo s in o v a d o re s ju d aizan tes só poderia ser m antida se conseguissem im ­ pugnar a integridade e a posição apostólica de Paulo. Sobre este assunto, diz Lightfoot: “F aziam de Paulo um falso apóstolo. Segundo seus opositores, visto que ele não fora um dos discípulos do Senhor, o conhecim ento que obtivera do E vangelho era de segunda mão. Cabia, portanto, à igreja-m ãe em Jerusalém , solucionar todas as questões, caindo essa incum bência p rincipalm ente nos om bros dos apóstolos da circuncisão, tam bém cham ados de colunas da igreja: Tiago (o principal líder em Jerusa­ lém , por ser irm ão do Senhor), Pedro (que recebera um a com issão especial do M estre) e João (o m ais íntim o am igo pessoal de Jesu s)” . Paulo prossegue destruindo a base de toda insinuação e ataque à sua pessoa: 3.1. A firm a não se tratar de um a busca p o r p o p u la ri­ dade, pois se assim fora não estaria servindo a Cristo. Sua posição significava um sacrifício por m otivo de cons­ ciência (1.10). 3.2. O evangelho da graça que pregava lhe fora com u­ nicado por revelação direta (vv. 11,12). O evangelho de P aulo não é, no seu sentido m ais am plo, de origem hum a­ na —não lhe fora com unicado pelo hom em e deste tam ­ bém não procedera sua instrução quanto à m ensagem ou aos princípios. Ele recebera tudo por revelação direta do S enhor Jesus Cristo.


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3.3. O ju d aísm o não era desconhecido de Paulo (vv. 13.14; Fp 3.4-6). Sua pregação do E vangelho, entretani :. era bem diferente da pregação religiosa a que se uedicara antes, com o jo v em fariseu, instruído pelo m aior rib in o de seu tem po, G am aliel (A t 22.3). Paulo era, p : rtanto, um m em bro do Sinédrio de m uita influência no conc ilio suprem o dos ju d eu s, chegando ao ponto de co­ m andar ações hostis e p erseg u ir com violência a insur­ gente “nova seita” definida com o cristianism o. O que se descobre, assim , é que Paulo era um conhe­ cedor esm erado do jud aísm o , deixando-o apenas porque d esco b rira algo m elh o r. E sta v a c o n v icto de que o m ualism o dos fariseus não podia, de m odo algum , ser .om patível com a graça de D eus. 3.4. Seu m inistério não dependia em nada da autori­ dade hum ana (1.15; 2.14). • Sua conversão, por volta do ano 37, constituía um a prova insuspeitável da graça de D eus pela qual fora antecipada e soberanam ente predestinado (v. 15). D e­ pois que C risto se revelou a ele de form a visível no cam inho de D am asco, Paulo tornou-se um exem plo vivo do poder transform ador de D eus para os gentios aos -uais pregava, (v. 16). U m a vez cham ado, não consultou hom em algum , nem tam pouco foi logo a Jerusalém visitar os apóstolos (atitude que seria a m ais previsível). 3elo contrário, retiro u -se para um lugar solitário da Arábia, de onde retornou m ais tarde à cidade de D am as­ co (vv. 16,17). • N ada se sabe em definitivo a respeito dessa m isteri­ osa viagem do apóstolo à A rábia. O nom e A rábia tem um significado m uito abrangente, podendo representar uma série de lugares. O bispo L ightfoot propõe algum as conjecturas interessantes, que esclarecem o m inistério da graça, à qual se dedicava o apóstolo, e tam bém a m aneira com o ele refu tav a por com pleto as obras da Lei.


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Com entário Bíblico

O pina o bispo que Paulo foi ao deserto do Sinai, onde a Lei, o m inistério da m orte, fora dada (4.25), e nesses arredores, na presença dos ism aelitas descendentes de A gar, a escrava, observou o verdadeiro significado da Lei —opinião tam bém defendida pelo Dr. Lange: “N essa desolada e in óspita região, na qual foi prom ulgada a Lei, Paulo encontrou um tipo ou figura m uito acertada da com pleta desolação que a Lei criou e que só podia criar na alm a do hom em ” . A h istó ria de Elias é um exem plo (1 Rs 19.8-18). • Paulo pregara durante três anos antes de ver qual­ quer apóstolo. D epois viu som ente a P edro e T iago (vv. 18,19). Ignoram os quanto tem po teria perm anecido na A rábia, m as sabem os que retornou a D am asco e três anos depois visitou Jerusalém . A qui, encontram os novam ente um a prova de sua com pleta independência dos apóstolos. Sua perm anência com Pedro foi som ente “por quinze dias” . • Logo se dirigiu ao N orte, para a Síria e C ilícia, sem haver sido apresentado às igrejas da Judéia, as quais sabiam de sua conversão pelas notícias recebidas (vv. 20-24). • C atorze anos m ais tarde (a contar provavelm ente da data de sua conversão), d irigiu-se novam ente à cidade de Jerusalém , em obediência a um a ordem direta de D eus (2.1,2). “Paulo dem onstrava, até este ponto, com o fora independente dos doze apóstolos durante os prim eiros catorze anos de sua vida cristã. E prosseguia, a partir daí, dem onstrando com o perm anecera independente deles em Jerusalém na época de sua v isita a essa cidade” (Dr. K enneth S. W uest, G alatians in the G reekN ew Testam ent - “G álatas no N ovo T estam ento G rego”). • Paulo viajou acom panhado de B arnabé e T ito, um cristão gentio (2.1-3). Talvez tenha levado Tito com o “pedra de toque” , para determ inar que atitude tom ariam


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: s judeus cristãos de Jerusalém com respeito à controvér­ sia da circuncisão. Em Jerusalém , Paulo revelou os prin- :pios do evangelho que pregava. D urante um a conferên:ia privada, afirm ou sua posição perante os líderes da circuncisão, com o objetivo de resg u ard ar sua obra, tanto passada com o presente, da oposição e dos m al-entendidos. • Os dirigentes ju d eu s cristãos da cidade de Jerusalém não insistiram na circuncisão de Tito, m as “falsos ir­ m ãos” , espias traidores inspirados por um zelo hipócrita, queriam im pô-la a todo custo. C laro que Paulo não cedeu à pressão, nem por um m om ento, pois seu firm e propósi:: era que os princípios do E vangelho fossem preservalos (vv. 4,5). • Essas pessoas proem inentes da igreja em Jerusalém :ada lhe ensinaram que já não soubesse. Q uando com ­ preenderam que o m inistério especial do apóstolo se d es­ tinava aos gentios (At 9.15; 22.21), tanto quanto o de Pedro aos ju d eu s, não vacilaram em dar, com a colabora­ ção de Pedro, Tiago e João, as boas-vindas a Paulo e Barnabé na qualidade de co-obreiros, trocando votos de ^mizade sem abrigar dúvidas quanto à autoridade de P au­ lo (vv. 6-9). A penas lhe solicitaram que continuasse proendo as necessidades dos irm ãos pobres da Judéia, com : que Paulo concordou plenam ente (v. 10). • A pesar de os ju d aizan tes fazerem de tudo para ter a seu favor a autoridade de Pedro, o m esm o não reclam ou para si nenhum a prim azia, nem quando Paulo o censurou pela inco erên cia dem onstrada em A ntioquia. Em Jeru sa­ lém, Paulo se m anteve independente e num a posição de igualdade aos dem ais apóstolos. Em A ntioquia, não v aci­ lou em refutar a Pedro na cara (e não por detrás) por sua conduta oportunista. Pedro com ia em com panhia dos gen­ tios, m as quando vieram certos ju d eu s da parte de Tiago, Pedro tim idam ente se apartou dos gentios. A parentem en-


Comentário Bíblico

te. tinha m edo de enfrentar o descontentam ento dos j u ­ deus convertidos. E sta conduta h ipócrita acabou in flu en ­ ciando outros, de m aneira que até B arnabé, com panheiro de Paulo em seu trabalho m issionário, abalou-se pela conduta de Pedro (2.11-14). E ntão Paulo, diante de to ­ dos, dirigiu-se a Pedro com as palavras que encontram os em G álatas 2.14-21.

III

- J u s t if ic a ç ã o p e la F é

(2.14-21)

N esta seção, as palavras de Paulo se apresentam algu­ m as vezes parafraseadas com o objetivo de apresentar o argum ento da ju stificação pela fé. A ssim , inserim os aqui um a p aráfrase dos versículos 2.14-21 do bispo L ightfoot e do Dr. A. S. W ay, com o propósito de esclarecer o sentido preciso do texto. L eia-os (paráfrase e texto b íb li­ co) em conjunto, com parando-os sem pre que necessário: “Tu m esm o, ainda que nascido e educado com o judeu, pões de lado os costum es ju d aico s e vives com o os g en ti­ os. Com que pretexto obrigas os gentios a adotarem as instituições dos ju d eu s? C onsidera o nosso caso (v. 14). N ascem os com todos os privilégios da raça israelita: não som os ‘p ecad o res’, com o denom inam os, cheios de orgu­ lho, os gentios. Q ue direm os então? (v. 15). V em os que a observância da Lei não ju stific a ninguém e que a fé em Jesus C risto é o único m eio de ju stificação. Por isso é que abandonam os o ju d aísm o para crer em C risto. D essa m a­ neira, nossa profissão de fé em si m esm a constitui um reconhecim ento do fato de que tais observâncias são inúteis e vãs, porque, com o declara a E scritura, nenhum a carne pode ju stificar-se pelas obras da Lei (v. 16). “M as se nós m esm os (com o im plica a tua nova atitu­ de), ainda que buscando a ju stiça som ente por m eio da união com C risto, tem os caído no pecam inoso estado de m eros gentios, com o te atreves a aceitar a conclusão


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lógica de que C risto não é suficiente para salvar do p eca­ do? Fora com tal conclusão! (v. 17). M as agora, se de­ pois de derribares um a estrutura (com o feito com a Lei), com eças a edificá-la outra vez (com o estás fazendo pela presente ação), és culpável quanto ao prim eiro ato, isto é, a transgressão da Lei. “Por outro lado, ao abandonarm os a Lei, não fizem os outra coisa senão seguir as tendências da própria Lei. Som ente m orrendo para a Lei poderíam os viver para Deus (v. 19). Com C risto, fui crucificado tanto para a Lei com o para o pecado. P ortanto, vivo um a nova vida não eu, m as C risto, que vive em m im . E sta nova vida não consiste num conjunto de ordenanças carnais, sendo an­ tes espiritual, e seu princípio dinâm ico é a fé no Filho de Deus, que m anifestou seu am or por m im , m orrendo em m eu lugar (v. 20). P ortanto, não posso desprezar a graça de Deus. N ão posso d esfazer a m orte de C risto, apegan­ do-m e a um a ju stificação baseada na Lei (v. 21)” . Claro está que as palavras de Paulo a Pedro se esten ­ dem da ú ltim a cláusula do versículo 14 ao versículo 21. A sim ples censura expressa no versículo 14 não explica a grave natureza das dificuldades enfrentadas pelo E van­ gelho em A ntioquia. T am bém co n stituiria um extrato dem asiado breve das palavras de Paulo a Pedro, se é que seu autor p retendia dem onstrar aos gálatas as razões reais de sua controvérsia com Pedro. P or outro lado, som ente em G álatas 3.1 há um a m udança clara de vocativo, quan­ do Paulo se refere diretam ente aos gálatas, clam ando: “O insensatos gálatas” (W uest, ibidem ).

1. Paulo resiste a Pedro, em defesa da graça (2.14-18) N estes versículos, Paulo argum enta que se os judeus retornassem (com o Pedro o fizera) à regulam entação j u ­ daica acerca dos alim entos a fim de serem aceitos por


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Comentário Bíblico

D eus, estariam negando o perfeito e exclusivo critério da ju stificação p ela fé. Depois de tudo o que acontecera a Pedro na casa de Cornélio, inclusive a visão de um grande lençol cheio de animais imundos (cf. A t 10), os preconceitos do citado apóstolo deveriam ter acabado - ele não dem onstrara isso cabalm ente em Antioquia, m antendo livre e aberto convívio com eles? Não estava Pedro seguro do que fazia? Foi so­ mente quando certos judeus cristãos de idéias estreitas vie­ ram de Jerusalém que Pedro se tornou repreensível, con­ tem porizando com eles —talvez tem endo suas críticas ou o ostracismo. Era o velho Pedro volúvel de outrora! E Deus não o deixou sem a ju sta repreensão. Sua m aneira anterior de viver, em nada se valendo da Lei para m olestar os gentios, obedecia à revelação de C risto (At 10.28), dem onstrando de form a concludente que tanto os ju d eu s com o os gentios estavam isentos do cum prim ento ritualístico da Lei. M as, agora, sua m udan­ ça de atitude indicava esperar que os gentios cum prissem as cerim ônias da lei m osaica (v. 14) - na visão de Paulo esta era a m ais absurda das proposições. Paulo até enten­ dia, m as não concordava e nem podia acobertar tal d issi­ m ulação. N um certo sentido, era aos ju d eus inconcebível que, tendo m antido no passado um pacto privilegiado com Jeová, p ela observância da Lei de M oisés, fossem colocados agora por D eus no m esm o nível dos gentios, a quem outrora haviam considerado pagãos e pecadores (vv. 15,16). Paulo era ju d e u e não ignorava este senti­ m ento, m as sua convivência com o S enhor o fez ver além das fronteiras. A m udança na atitude de Pedro im plicava em co n si­ derar com o pecado o com er com os gentios, não obstante o S enhor ter colocado a todos sob a N ova A liança, em pé de igualdade. Com sua atitude, Pedro estava contradizen­ do a C risto, um a vez que fora o Senhor quem lhe ordena­


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ra não considerar im undos aqueles a quem D eus santificara. Se a Lei devia ser guardada, então C risto se fizera m inistro do p ecad o ” já que Ele é quem levara Pedro a ::ansgredi-la (v. 17). Ora, isso é algo com pletam ente fora ;e sentido, irracional m esm o, reflete Paulo. A lém do mais, retornando à Lei, Pedro co n stituía a si m esm o : omo transgressor, atribuindo valor a algo que ele m es­ mo anteriorm ente rejeitara (v. 18).

2. M orto para a Lei, vivo para Deus (vv. 19,20) A Lei rev ela o pecado. M as de certa m aneira o prom o­ ve. pois “o pecado não é im putado não havendo le i” (Rm 5.13). D essa m aneira, a Lei é a força do pecado (1 Co -5.56). E la torna evidente o pecado, m as não provê re ­ médio para o pecador, antes o condena, visto que n in ­ guém há capaz de lhe cum prir as exigências. A Lei, portanto, exerce um duplo poder sobre aqueles que estão sujeitos a ela: constitui pecadores a todos os que estão sob seu tacão e depois os castig a por serem pecadores. Com o escapar? N ão há outra alternativa senão m orrer para a Lei, dependendo inteiram ente da graça (cf. 1 Pe 1.13) a fim de viver para D eus (v. 19). “E stou crucificado com C risto ” (v. 20). A qui, a m etá­ fora da m orte, expressa no versículo 19, significa isenção das obrigações para com a Lei - só pela m orte um pacto anterior perde sua força de coação. D aí se dizer que a nova vida em C risto é um a vida que nasce da m orte, devendo ser conservada p ela fé. R etornar à Lei é negar a fé. A questão do pecado só se resolve p ela identificação do crente com C risto na sua m orte. N ão que devam os nos m atar a nós m esm os - não é um a questão de esforço pessoal - , m as assum ir p ela fé o fato de que já m orrem os com C risto —para a Lei, para o pecado e para o m undo. E dessa m esm a m aneira - p ela fé no Filho de D eus - que recebem os e podem os com partilhar a vida oriunda da


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Comentário Bíblico

ressurreição. N ossa vida agora realça a graça de Deus, não as obras m ortas da Lei.

3. A graça diz: Cristo não morreu debalde (v. 21) “N ão aniquilo a graça de D eu s” (v. 21). Paulo esclare­ ce aqui que não podem os m isturar a Lei com a graça elas são m utuam ente excludentes. Se é pela Lei, aniquila-se a graça; e se é p ela graça, para que as obras da Lei? Q ualquer tentativa de ju stificação pela Lei anula a graça de D eus m anifestada na m orte de C risto por um m undo perdido. Se fosse possível obter a ju stiç a pela prática individual das obras da Lei, então a m orte substitutiva de C risto seria supérflua, inútil e sem razão. M as se vivo pela fé, “não aniquilo a graça de D eu s” .

IV

- D o u tr in a

(3 .1 -4 .1 1 )

A nalisando-se os fatos narrados nos capítulos 1 e 2, acerca da vida pessoal de Paulo e de Pedro na cidade de A ntioquia, incluindo a repreensão de Paulo, percebem -se distintos elem entos de doutrina, m as a com unicação de caráter essencialm ente doutrinário aos gálatas tem início no capítulo 3. Paulo expressa surpresa, aliada a indignação, por não terem utilizado seu bom senso, deixando-se antes seduzir por um a doutrina que punha abaixo a graça - e Paulo questiona: “ Quem vos fascin o u ” ? (3.1). A palavra “re ­ presen tad o ” (v. 1) significa, no original, “proclam ado” com o um edital que se afixa em lugar público. N outras palavras, a m ensagem da crucificação e seu significado haviam sido claram ente pregados. Isso deveria ter sido suficiente para m antê-los afastados das sugestões sorra­ teiram ente lançadas pelos ju daizantes.

1. O dom do Espírito Santo pela fé (3.2-5) O ênfase leg alista dos ju d aizan tes, que havia sido aceita pelos gálatas, estava em contradição direta com a


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própria experiência deles no recebim ento do Espírito San­ to. As obras da Lei não tinham parte algum a na obtenção do batism o no E spírito Santo (v. 2). Se haviam com eçado sua vida cristã sob o selo do E spírito Santo e na depen­ dência dEle, esperavam agora ser aperfeiçoados m edian­ te seu esforço próprio? (v. 3). D iante do que haviam sofrido e qualquer que fosse a natureza de seu sofrim ento, seria um absurdo dar agora as costas à graça, colocando-se a si m esm os debaixo do legalism o dos ju d aizan tes (v. 4). O m inistério do E spírito e o poder m ilagroso de Deus não tinham relação algum a com o sistem a da Lei. V ieram pela m ensagem da fé (v. 5).

2. O pacto de Abraão é um pacto de fé (3.6-24) 2.1. O pacto divino com A braão dava um vislum bre da redenção, mas enganam -se os que pensam ser este um pacto de obras; não, ele é um pacto de fé. A resposta à pergunta em G álatas 3.2 (“R ecebestes o E spírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé?”) só pode ser uma: "A bsolutam ente p ela fé” . Assim , estendendo seu argum ento, o apóstolo faz m en­ ção ao A ntigo T estam ento, referin d o -se ao p atriarca A braão, de quem descendiam os ju d eus, respondendo hipoteticam ente à pergunta: “C om o são ju stificad o s os hom ens?” ou “Com o são declarados ju sto s? ” Os judeus davam a m aior im portância ao fato de serem descenden­ tes de A braão (Jo 8.33,39,53). Julgavam m esm o que sua relação com A braão era suficiente para assegurar-lhes a entrada no R eino de D eus. M as apesar de constituírem sua sem ente n a tu ra l, o Senhor dem onstrara-lhes, em João 8, que espiritualm ente nada de A braão passara a eles. A base para a justificação de Abraão foi nada mais nada menos que sua fé em Deus (v. 6). Com efeito, dizem as Escrituras que ele “creu no Senhor” (Gn 15.6), perm anecen­


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C om entário Bíblico

do confiante de que Deus cum priria sua palavra. De igual modo todos os que aceitam o Evangelho da salvação, por m eio da fé em Cristo e na obra que Ele fez, passam a integrar a fam ília de Abraão - ele creu em tudo quanto Deus prom eteu realizar. As Sagradas Escrituras declaram: “T o­ das as nações serão benditas em ti” (v. 8). Assim, os crentes de todas as nações são igualm ente benditos com o crente Abraão (v. 9) - mas não se pode dizer o mesmo de todos os que descendem dele segundo a carne. 2.2. O m ais grave para quem se põe sob a Lei é que ela não salva, antes am aldiçoa (v. 10). Sob a Lei não som en­ te uns poucos são am aldiçoados, m as todos. D epois de dem onstrar, valendo-se de provas concre­ tas de que a ju stificação é p ela fé, Paulo reforça seu argum ento, m ostrando a im possibilidade absoluta de toda e qualquer ju stificação p ela Lei. E im possível cum prir os requisitos da Lei. E la p ró p ria contém o pronunciam ento de m aldição sobre todos quantos não lhe cum prem os requisitos (Dt 27.26). R eforçando seu argum ento, Paulo reitera que m esm o que o cum prim ento da Lei fosse p o s­ sível, não haveria com o com patibilizá-lo ao princípio da fé do qual falou H abacuque (v. 11; cf. H c 2.4) - este sim a verdadeira fonte de bênção (vv.13,14). C risto tom ou sobre si a m aldição da Lei para que recebêssem os a bênção da fé (vv. 13,14; D t 21.23). Se alguém pergunta: “Q ue fazer para m e salvar?” a resposta só pode estar baseada no fato de que “C risto nos redim iu da m aldição da L ei” . N ão são as obras que conduzem à bênção de A braão, aliás ela já estava “a cam inho” , sendo detida pela sentença da Lei. Foi som ente por m eio de C risto que a bênção de A braão encontrou o cam inho dos gentios, ficando ao alcance deles. E o “testem unho” do Espírito Santo confirm a a recepção dessa bênção (v. 14). H á três palavras gregas na B íblia que em nossa língua são traduzidas pelos vocábulos “com prados” , “redim idos” e “resg atad o s” . A p rim eira significa “com prar no m erca­


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do de escravos” (1 Co 6.20). É ram os escravos do pecado, mas C risto veio ao m ercado de escravos e pagou o preço da nossa libertação. A segunda palavra, traduzida por "resgatou” em G álatas 3.13, significa “com prar do m er­ cado” . C risto nos com prou da m ão do traficante de escra­ vos, Satanás, para jam ais nos pôr à venda em nenhum outro m ercado de escravos. A terceira palavra, “resg ata­ dos” , significa “libertar p o r m eio do pagam ento dum resgate” (1 Pe 1.18). A referên cia im ediata ao resgate de que fala o apóstolo Pedro não é a ouro ou prata, m as ao sangue de Jesus derram ado por nós com o m eio exclusivo de salvação. 2.3. O pacto da fé não podia ser invalidado pela Lei, que entrou em vigor 430 anos m ais tarde (3.15-18). D es­ se m odo a barreira que excluía os gentios é, em C risto, aniquilada. A m bos, ju d eu s e gentios, são colocados no m esm o nível, encerrando-se na cruz a inim izade (E f 2.1416). O objetivo divino dessa união é que recebam ju n ta ­ m ente a prom essa do E spírito (o selo de D eus sobre um a transação finalizada) p ela fé (E f 1.13,14). A seguir, Paulo usa a ilustração extraída das relações com uns entre os hom ens. U m pacto hum ano, firm ado e selado convenientem ente, é sagrado e inviolável. Q uanto mais inviolável é o pacto divino, abrangendo tanto A braão com o a “sua p o sterid ad e” ! E sta expressão aparece no singular (“posterid ad e” e não “po sterid ad es” ), já que seu cum prim ento circunscre­ ve-se a um a pessoa - Cristo! O pacto de fé foi ratificado exclusivam ente p ela vinda de Cristo. A ssim , a p rom ulga­ ção da Lei pretendeu suprir um período de tem po com ­ preendido entre a criação do pacto com A braão e sua ratificação. U m a vez que a Lei entrou em vigor 430 anos depois da prom essa a A braão, suas exigências nada ti­ nham a ver com os term os da prom essa. A Lei era in ca­ paz tanto p ara ratificá-la com o para negá-la. N outras


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Comentário Bíblico

palavras, a Lei nunca foi um requisito para a prom essa, já que esta não previa nem estava condicionada a qualquer preceito da Lei, sendo concedida “ gratuitam ente a A braão” (v. 18).

3. O propósito da lei mosaica (3.19-24) 3.1. M as se a Lei nada acrescentava ou dim inuía à prom essa, por que D eus a pôs nas m ãos dum m edianeiro? “Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a p o sterid ad e” (v. 19). D essa m aneira, a Lei incluiu a todos debaixo do pecado, a fim de que recorressem à fé com o a derradeira esperança (3.19-22). Sobre os versículos 19 e 20 citam os o que disse o bispo Lightfoot: “A lei não tinha nenhum propósito? Sim , seu propósito específico, todo seu caráter e história revelam sua inferioridade com respeito à D ispensação da G raça. Sua inferioridade vê-se em quatro pontos. P rim ei­ ro , em vez de ju stificar, condena; em vez de vivificar, m ata; foi ordenada para revelar e m ultiplicar as tra n s­ gressões. Segundo, era tran sitó ria e foi anulada quando veio a ‘posteridade" a qual fora dada a prom essa. T ercei­ ro, não veio diretam ente de D eus ao hom em . E xistiu um a dupla interposição, um a dupla m ediação entre o D oador e o beneficiário. A njos, com o instrum entos de D eus, adm inistraram -na a M oisés que, com o o sumo sacerdote, a entregou ao hom em . Q uarto, com o sugere a idéia de m ediação, a Lei era por n atureza um contrato, dependen­ do em seu cum prim ento da o bservância de suas condi­ ções pelas duas partes contratantes. Isso não ocorria com a prom essa, a qual, procedente do desígnio absoluto de D eus, é incondicional e im u táv el” . A Lei, então, é m uito diferente da prom essa e tem outra finalidade. Por acaso é antagônica à prom essa? N ão, certam ente, pois além de não ser possível im aginar um a lei que tom asse o lugar da prom essa, sendo capaz


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de d ar v id a, a L ei de M o isés não fo i d ad a p a ra este :im (v. 21). Paulo se refere no versículo 22 à E scritura, pensando :alvez em Salm os 143.2 ou D euteronôm io 27.26, com o :estem unho para a condenação de todos. E sta condena­ ção, contudo, não é o fim últim o da Lei, apenas o m eio para se chegar à dispensação da fé, pela qual a prom essa pode enfim ser cum prida. 3.2. A Lei foi-nos com o um aio, um tutor, encarrega­ do de tom ar conta de nós, enquanto m enores, até que Cristo viesse. Por interm édio dele nossa condição de filhos é não só ratificada, com o reconhecida a nossa m aioridade (G1 3.23-25). A ntes que chegasse a fé, éram os guardados pela Lei .ité que a revelação se cum prisse, vindo a plenitude dos tem pos. A Lei era o nosso tutor, encarregado de nos vigiar enquanto m enores, até que obtivéssem os (nós, a hum anidade) nossa m aioridade em C risto e fôssem os justificados pela fé. V indo a dispensação da fé, fom os 'ibertados das restrições da Lei. A palavra grega aqui traduzida por “aio” (v. 24) signi­ fica o fiel escravo a que se havia confiado a supervisão m oral de um m enino durante sua tenra idade até a p u b er­ dade, a fim de m antê-lo afastado dos m ales físicos e m orais, e acom panhá-lo em seus estudos e diversões. “O aio em preende sua tarefa dando ordens e im pondo p ro i­ bições e, em certo sentido, lim itando a liberdade do m e­ nino. Tudo isso constituía um m eio para conseguir um fim, isto é, que o m enino fosse preparado para a idade m adura, tendo em consideração esse nível m ais elevado para o qual estava destin ad o ” (Lange). D essa m aneira, a Lei nos conduz a C risto (Rm 10.4); constrangendo-nos e censurando-nos. Ela nos m ostra nos­ sos pecados e os perigos resultantes, nos condena, faz-


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nos sentir a necessidade dum R edentor e nos prepara para recebê-lo quando for apresentado à nossa fé.

4. A vida do crente é governada pela graça e não pela Lei (3.26-4.31)

A fé em C risto, por interm édio da qual viem os a ser filhos, sendo adotados na fam ília de D eus, ab-roga a autoridade do “ aio ” (a Lei). A penas um núm ero m uito ínfim o declararia ser ju stificad o p ela Lei, m as não são poucos os que têm colocado o crente debaixo da Lei com o norm a de vida e prática. E sta é um a idéia veem en­ tem ente condenada por Paulo. A Lei, com o parte das E scrituras, é “útil para ensinar... para instruir em ju íz o ” (2 Tm 3.16), m as um a nova lei - a do E spírito de vida em C risto Jesus (Rm 8.2) - nos livrou da condenação e da fraq u eza (Rm 8.1). 4.1. O crente justificado é um filh o na fam ília de Deus, e não um servo debaixo da Lei (3.26-4.7). “Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” (v. 26). P ara ilustrar, poderíam os dizer que, debaixo da Lei, os santos do A ntigo T estam ento eram m eninos (lem brando-nos que “m eninos” e “filh o s” não são sinônim os). M as os crentes do N ovo T estam ento, por interm édio do E spírito Santo, tornam -se conscientes dos vínculos filiais que os unem a D eus; já não são m enores debaixo da tutela da Lei, um a vez que se encontram debaixo da autoridade im ediata e pessoal do Pai. O ato de fé da parte do crente o torna m em bro da fam ília de D eus na qualidade de filho e herdeiro (v. 26). A lém disso, ele é revestido de C risto no testem unho do batism o da m esm a form a com o na Igreja P rim itiva os novos convertidos se vestiam de roupas brancas (v. 27). D ebaixo do N ovo Pacto, todas as distinções sociais, raciais e sexuais caem por terra, quanto à salvação. T o ­


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dos são um em Cristo. Todas as barreiras foram destru í­ das (vv. 28,29). “N a fam ília de D eus ninguém pode go­ zar de privilégios especiais, nem ser discrim inado. Um coração bate em todos, um a m ente guia a todos, um a vida é vivida por todos. Som os um só corpo, porque somos m em bros de Cristo. Com o m em bros de C risto, som os a posteridade de A braão (a sem ente da fé) e reclam am os para nós a herança em virtude da prom essa, a qual n e­ nhum a lei pode anular” (Lightfoot). Servindo-nos ainda da propriedade com que L ightfoot tra ta a q u e stã o , tra n sc re v e m o s a g o ra um a de suas esclarecedoras paráfrases, desta vez sobre o capítulo 4 'W . 1-7): “D escrevo a Lei com o nosso tutor. Falo de nossa libertação respeitando-lhe no entanto as restrições. Perm itam -m e que vos explique o significado com m ais am plitude. U m herdeiro, durante o tem po de sua m enoridade, é tratado com o servo (v. 1). A pesar de suas espe­ ranças com o futuro senhor da propriedade, está sujeito ao governo de adm inistradores e tutoresaté a data d eter­ m inada pelo pai (v. 2). D e igual m aneira, a hum anidade era ‘de m en o r’ antes da vinda de Cristo. Q ual um m eni­ no, estava sujeita à d isciplina das ordenanças externas (v. 3). F inalm ente, quando se havia cum prido o tem po, Deus enviou seu próprio F ilho ao m undo, nascido de m ulher, como nós o som os, sujeito à Lei igual a nós (v. 4), para que pudesse redim ir e libertar os que estavam em tal condição, elevando-os ao estado de filhos, para o qual foram destinados (v. 5). D eus nos tem dado prova deste laço filial consigo m esm o. E fetivam ente enviou a nossos corações o E spírito de seu Filho, que testifica em nós, e roga a Ele com o se rogasse a um Pai (v. 6). N a realidade, não são m ais servos e sim filhos; e, com o filhos, são tam bém herdeiros, p ela bondade de D eus (v. 7)” . 4.2. Voltar à L ei significa renunciar nossa condição de filh o s (4.8-11). O abandono da posição superior e


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priv ileg iad a de filho e o retorno à servidão dum m enino, que em nada difere dum servo, eqüivale à conduta dum hom em que, depois de ter chegado à sua m aioridade física e m ental, coloca-se novam ente sob os cuidados dum a babá. Parece que Paulo os desculpa, em parte, pelo fato de terem antigam ente servido aos ídolos pagãos (v. 8). M as agora esses gálatas, desprovidos de toda consciência quan­ to à sua real condição de filhos, depois de haverem rece­ bido a revelação de D eus e de havê-lo conhecido, ou m elhor, depois de haverem sido conhecidos de D eus que lhes confirm ou a filiação pelo selo do E spírito Santo (o batism o no E spírito Santo), esses m esm os gálatas estavam sucum bindo à débil e m iserável d isciplina das re stri­ ções, sujeitando-se (a troco de nada) a um a servidão legalista, obrigando-se a observar (guardar e reverenciar) dias, m eses, estações e anos (vv. 9,10). Ora, não foi assim que Paulo lhes ensinara, por isso o apóstolo tem e que todo o trabalho feito entre eles possa ter sido em vão (v. 11). N este trecho, a lei m osaica é descrita, por assim dizer, com o o alfabeto da instrução m oral e espiritual. As re ­ gras nela expostas são passadas ao m enino (o povo de Israel em sua infância existencial) visando à m em orização - a raça escolhida, com o um indivíduo, teve seu período de m eninice. N esse período a instrução era m inistrada (dosada) de acordo com suas faculdades, as quais estavam ainda num processo de desenvolvim ento. D aí a su­ jeição a um a d isciplina de preceitos absolutos e ordenan­ ças externas, vazias de conteúdo. Tal condição não pode jam ais ser confundida com o ideal divino para a Igreja hoje - dela se esperam coisas m elhores, com o por exem ­ plo a adoração em espírito e em verdade. A Epístola aos Gálatas constitui um a resposta decisiva a doutrinas e práticas como o sabatismo, o vegetarianism o, o legalismo e o ritualismo (no que respeita à salvação frente a


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_m Deus Santo): “Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4).

V

- P e s s o a s q u e I lu s tr a m o P r in c íp io ( 4 .1 2 -3 1 )

N este ponto de sua exposição doutrinária, Paulo in tro ­ duz um poderoso elem ento pessoal, procurando dissuadir os gálatas do rum o equivocado que haviam tom ado (4.1220). Ele lam enta profundam ente o fato de que tão cedo houvessem se apartado daquele que os havia cham ado à graça de Jesus Cristo, para seguir um outro evangelho. Perderiam a bênção caso se voltassem contra ele, a quem :Io ardorosam ente haviam amado. C onsideravam -no agora :om o inim igo? Os falsos mesti'es, deduz, é que estavam seduzindo” o povo (vv. 17,18). O significado do versículo 12 é claro. Paulo exorta os gálatas a libertarem -se da Lei com o ele o fizera. Exortaos a proceder assim porque ele, que antes tam bém usu­ fruía as vantagens da Lei, deixara-as de lado e se coloca­ ra no m esm o nível dos gentios. D isse-lhes que abandonaos costum es tradicionais ju d aico s, e de certa m aneira m uitos vínculos raciais, a fim de ser com o um deles. Estava vivendo com o os gentios para poder pregar-lhes o Evangelho. A ssim , já que abandonara tudo por eles, rogalhes que não o abandonem . “Os gálatas não podiam esquecer a ocasião quando, ao térm ino do discurso de Paulo, em A ntioquia da Pisídia, os judeus saíram da sinagoga (porque não concordavam :om a m ensagem ), m as os gentios rogaram -lhe que lhes repetisse aquelas palavras de vida no sábado seguinte (At 13.42). T eriam de lem brar que os ju d eu s os haviam ex ­ pulso da cidade. Então foram eles m esm os, os gálatas, gentios, que o haviam convidado a m anter a liberdade do Evangelho. A gora ele os exorta a que m antenham a lib er­ dade desse m esm o E v angelho” (W uest, Ibidem ).


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Surpreende profundam ente a Paulo o fato de que os gálatas, que o haviam recebido tão calorosam ente, com o se fora um anjo de D eus (v. 14), e m esm o o suportado em fraqueza da carne (v. 13), se v oltassem agora dum a fo r­ m a tão contundente contra ele. A fraqueza de Paulo é caso de conjecturas, m as parece haver m otivos suficien­ tes para supor que se tratav a de um a enferm idade nos olhos. P oderia ser o “espinho na carn e” , m encionado em 2 C oríntios 12.7. Talvez essa “fraq u eza” é que tenha levado os coríntios a terem -no com o débil quanto à apa­ rência (1 Co 2.3; 2 Co 10.1). A suposição de que fosse um a doença ocular, vale-se de dois pontos no próprio livro de G álatas: a conjectura, feita por Paulo, de que eles até arrancariam os olhos para dá-los a ele (4.15) e um a p ossível evidência, em G álatas 6.11, onde Paulo registra: “V ede com que grandes letras vos escrevi por m inha m ão ” . E m bora essas referências possam ser apenas figuras de linguagem , os defensores dessa teoria dizem que ele escrevera com letras gregas grandes (naquela época só haviam m anuscritos) devido à dificuldade que tinha de enxergar. C onfira ainda A tos 23.5 (Paulo não reconhece o sum o sacerdote). “Fiz-m e, acaso, vosso inim igo, dizendo a verdade?” (v. 16), pergunta o apóstolo. Parece que os ju daizantes haviam -no acusado de ser inim igo dos gentios porque os excluíra dos pretensos privilégios da lei m osaica ao en si­ nar-lhes a ju stificação pela fé. A defesa de Paulo é um a só: tudo quanto tem a dizer nada m ais é que a verdade, nela se apóia todo seu Evangelho. N ão é ele e sim os ju d aizan tes que excluem os gentios das m uitas bênçãos de D eus, quando os priva do E vange­ lho (v. 17). Os m estres ju d eu s eram m uito zelosos em seus esforços para converter os gálatas, m as seu zelo era inconveniente pelo fato de que conduzia à escravidão da Lei (v. 17a). A lém disso, a exclusão dos cristãos gentios


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prom ovida pelos m estres ju d aizan tes atendia a um in te­ resse nitidam ente pessoal, num a pérfida estratégia que poderia ser assim definida: “dim inuindo os outros, eu fico m aior” ou “derrubando os outros, eu fico em evi­ dência” (v. 17b). Este era um fato que incom odava Paulo. Se pudessem arvorar um objetivo digno, bem como um motivo puro, ele não se oporia ao m inistério deles (v. 18). É na qualidade dum pai espiritual que Paulo trabalha para restau rar seus filhos, absortos no erro, ao plano espiritual donde haviam caído (v. 19). A té aqui falara duram ente, m as agora m uda de tom , deixando evidente que seu coração sente um afeto intenso por eles. Seu lesejo profundo é ver C risto plenam ente form ado neles ou, noutras palavras, vê-los plenam ente arraigados e am adurecidos em C risto. Q ueria estar com eles e escla­ recer tudo, pois está perplexo - não sabe com o tratá-los (v. 20).

1. Relação entre a Lei e a graça na história de Agar e Sara (4.21-31) Paulo retorna aqui ao argum ento doutrinário, in ter­ rom pido por suas declarações pessoais que acabam os de discutir. Com o o filho da escrava devia ceder seu lugar ao da m ulher livre, assim tam bém a graça veio tom ar o lugar da Lei. A linguagem do versículo 21 indica que os gálatas, ^pesar de estarem a ponto de adotar a Lei com o princípio de vida, ainda não o haviam feito. V ejam os as im plica­ ções se levassem a cabo sua intenção. Paulo nos convida às E scrituras (Gn 21.9-21). A braão tinha dois filhos: Ism ael (Gn 16.15), nascido segundo a ordem natural, e Isaque (G n 21.2), nascido segundo a prom essa, com o resultado de intervenção d i­ vina, além das possibilidades naturais (vv. 22,23).


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Paulo diz que a histó ria deles (A gar e Ism ael; Sara e Isaque) constitui um a alegoria, sujeitando-se à in terp re­ tação figurada ou m oral. Essas duas m ulheres, A gar e Sara, representam dois pactos. • A gar representa o pacto da Lei, firm ado no m onte Sinai, na A rábia, e corresponde, no argum ento de Paulo, “à então existente cidade de Jerusalém , o centro da o b ­ servância apóstata do jud aísm o . Com o o filho de A gar, um a escrava, veio a se tornar escravo, tam bém os que seguem o ju d aísm o legalista estão debaixo da escravidão da L ei” (vv. 24,25 - W uest, Ibidem ). • Sara, a m ulher livre, m ãe do filho “legítim o”, represen­ ta o pacto da graça. Ela é o símbolo da Jerusalém celestial, um termo conhecido dos “m estres rabínicos, que considera­ vam a Jerusalém celeste como o arquétipo da terrenal” (W uest, Ibidem). A Jerusalém celestial é a habitação da fam ília dos que vivem pela fé, em contraste com a Jerusa­ lém terrestre, que representa o legalism o (v. 26). O versículo 27 é um a citação de Isaías 54.1. Paulo o aplica a Sara na exposição que faz da verdade. Isto é, suas palavras se referem a Sara, a estéril, que veio a conceber de m odo sobrenatural. A s palavras do versículo 28 aplicam -se aos gálatas e a todos os crentes, no sentido de que nós, com o Isaque, som os os filhos da prom essa, nascidos do E spírito Santo, m ediante a graça. C ontinuando, Paulo dem onstra a incom patibilidade entre a Lei e a G raça, assinalando a sorte desses dois filh o s . A s sim co m o Is m a e l p e r s e g u iu Is a q u e , os ju d aizan tes dos dias de Paulo perseguiam e criavam d i­ ficuldades aos verdadeiros filhos da fé, m as a perm anên­ cia na graça vale qualquer sacrifício, pois apenas o filho da livre pode herdar a prom essa (v. 29). E nós som os filhos da livre (v. 31).


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Paulo, interpretando a alegoria, afirm a que o afasta­ m ento de Ism ael (a quem A braão m andou em bora ju n ta ­ m ente com A gar, a m ãe do m enino) indica o afastam ento dos filhos de A braão segundo a carne, em favor daqueles que se transform ariam em filhos de A braão pela fé (v. 30). “A Lei e a graça não podem coexistir. A Lei deve desaparecer perante o Evangelho. D esta m aneira, o após­ tolo anuncia a m orte do judaísm o, num tem po quando a m etade do C ristianism o se aferrava à lei m osaica com um afeto e zelo fanáticos e quando o partido ju d aico era m uito forte, m esm o entre as igrejas fundadas por Paulo, a ponto de m inar a influ ên cia do apóstolo e pôr em perigo sua v id a” (W uest, Ibidem ). O apóstolo encerra seu argum ento ao dizer, noutras palavras: “V ocês tolerarão o fato de serem reduzidos a filhos da escrava, tendo um a vez desfrutado os p riv ilég i­ os cabidos aos filhos da livre? Tem os o E spírito de seu Filho que dá testem unho da nossa condição de filhos; somos agora herdeiros de D eus e de C risto ” (v .31; cf. 4.6,7). V I - S eção P

r á t ic a

(C

aps.

5

e

6)

D epois que encerra sua argum entação, Paulo busca um a aplicação prática das verdades que havia dem onstra­ do (5 .1 -6 .1 0 ). N ão podem os deixar de notar a ênfase que Paulo im prim e ao m inistério do E spírito, sob o controle de quem o apóstolo exorta os gálatas a novam ente se colocarem . H aviam deixado de se render ao E spírito S an­ to, dependendo agora de seus próprios esforços para che­ gar ao inútil fim de obedecer à Lei, cujo resultado não podia ser outro senão o fracasso. N otem os as seguintes exortações práticas nesta seção:


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1. Perm anecer firm es na liberdade do Evangelho (5.1-12) A p alavra “liv re” de 4.31 tem origem idêntica à p ala­ vra “lib erd ad e” em 5.1. C risto nos lib erta da escravidão da Lei, representada por A gar e Ism ael. W uest se refere aos cristãos gálatas com o aqueles que, “depois de serem aceitos na fam ília de D eus, tendo recebido o E spírito Santo - que lhes cap acitaria a viv er um a vida espiritual fora das ataduras da Lei - , punham travas à sua vida pessoal, im pondo lim ites legalistas a suas ações e se privando do poder do E spírito Santo. E ram com o adultos que se punham debaixo de regulam entos preparados para m eninos” . Esses crentes, que praticavam a circuncisão com o m eio de ju stificação , acabaram se convertendo em devedores, obrigando-se a guardar toda a Lei. Tom ando essa atitude, haviam caído da graça, porque C risto não pode ajudar aqueles que pretendem ser ju stificad o s e santificados p e ­ las obras da Lei (vv. 2-4). E som ente pela fé, na plena dependência do poder do E spírito Santo, que o verd ad ei­ ro cristão pode alcançar a ju stificação (v. 5). As observâncias exteriores não têm efeito na ju stific a ­ ção da alm a; o que efetivam ente vale é a fé, cujo m otivo único é o am or (v. 6). N outras palavras, tudo quanto fazem os para D eus não é para serm os justificad o s, pois pela fé já o fom os. N ossas obras não constituem um m eio para um a finalidade; elas são um fim em si m esm as. O am or abnegado, derram ado em nossos corações pelo E s­ pírito Santo, é que nos constrange a p roduzir boas obras, as quais agora refletem gratidão e piedade, sendo feitas p ara a glória de Deus. Os gálatas tinham obtido algum progresso em sua vida espiritual. “C orríeis b em ” (v. 7). Com o, de repente, se vêem im pedidos? A palavra “im pedir” (A lm eida) pode


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:er sua origem em dois vocábulos gregos. U m desses em prega-se sim bolicam ente às operações m ilitares. A r^lav ra significa “interrom per um a estrada deixando-a :":ransitáv el” (L ightfoot). O outro evoca a idéia de com retidores num estádio e significado “estorvar” . D essa m aneira, a referên cia à corrida tanto faz alusão ao correio r que estorva outro, com o ao inim igo que im pede ou m terrom pe a estrada, retardando assim o progresso de quem está na linha de com bate. “C orríeis bem ; quem vos im pediu {estorvou], para que não obedeçais à v erd ad e?” - pergunta Paulo (v. 7). C ertam ente aquele que lhes im pedira o progresso, pela r^rsuasão ã Lei, não podia ser de D eus (v. 8). A quela doutrina do retorno às obras m ortas constituía um fer­ mento que, se não fosse lançado fora, contam inaria toda a igreja (v. 9). O apóstolo, contudo, espera que os gálatas não sigam as doutrinas estranhas daquele que os in q u ie­ tava, não tendo dúvida em afirm ar que o perturbador receberia seu castigo (v. 10). N ão satisfeitos, os ju d aizan tes levantam outra acusa­ ção contra o apóstolo: a de ser inconseqüente ou contra­ ditório (v. 11). Q ueriam dizer com isso que ele, enquanto estava entre os gentios, pregava a liberdade da circu n ci­ são; m as que entre os ju d eu s, defendia a guarda dos ritos. Paulo nega tais acusações e os silencia com um a resposta sim ples e direta. Se fosse verdade que ele pregava a circuncisão, a perseguição teria cessado, porque a prega­ ção da liberdade quanto à observância da Lei era ju sta ­ m ente a m aior pedra de tropeço no cam inho dum ju d eu e a m aior causa de ofensa (cf. A t 21.28). M as a p erseg u i­ ção não cessara. A ssim , no versículo 12, Paulo lança um a de suas denúncias m ais severas contra os judaizantes: “Eu quereria que fossem co rtad o s...” . A palavra “corta­ dos” significa m utilação física. E ra com o se Paulo dese­ jasse que esses ju d aizan tes fossem além da circuncisão, e se castrassem !


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O bispo L ightfoot fornece algum as observações de grande significado sobre esta passagem . Por exem plo, a cidade de Péssim o constituía o centro da adoração de C ibele, a deusa em cuja honra se efetuavam essas m utila­ ções físicas. T ratava-se dum a form a conhecida de devo­ ção pagã a C ibele, e os gálatas não podiam desconhecer esse costum e. Paulo faz um alerta a respeito da “falsa circu n cisão ” , em F ilipenses 3.2 (A RA ), onde, nalgum as versões da B íblia, em prega-se literalm ente o verbo “m u­ tilar” . C onform e se expressava, é evidente que para o após­ tolo Paulo a circuncisão se convertera num ato puram en­ te físico, destituído de significação religiosa. Q uando realizad a visando ao propósito dos ju daizantes, conver­ tia-se num a m utilação do corpo em nada diferente das m utilações prom ovidas pelas religiões pagãs existentes na época. D essa m aneira, g lorificando-se na carne, os gálatas retornariam à escravidão do seu antigo paganis­ m o (W uest, Ibidem ).

2. Não abusar da liberdade em Cristo (vv. 13-15) Paulo estabelece com clareza que a pregação quanto à liberdade da Lei não autoriza a quebra da Lei. A inda que o cristão seja livre da Lei no que se refere à justificação, ele não pode negar obediência ao m andam ento a que se subordinam todos os preceitos m orais do N ovo T esta­ m ento: o m andam ento do amor.

3. Andar no Espírito (vv. 16-26) N o capítulo 5.14, Paulo esclarece que a prática do am or abnegado, que não espera retorno, cum pre toda a Lei. Q uando o am or a D eus e a nosso sem elhante nos enche o coração, não são necessários m andam entos espe­ ciais sobre o que se deve ou não fazer. M as os judaizantes provavelm ente ensinavam aos gálatas que, sem a influên-


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ria m oderada da Lei, cairiam no pecado. A Lei não res­ tringe o m al, antes o incita ainda m ais; isto porque a elha natureza decaída rebela-se contra a própria Lei Rm 7.7-13). E nquanto estam os na carne, circunscritos ao corpo físico, presos à ordem natural das coisas, sem:re nos defrontarem os com a tendência para contrariar o m andam ento divino. O séias o expôs m uito bem , quando iisse: “Porque o m eu povo é inclinado a desviar-se de mim” (Os 1 1.7a). A única m aneira de com bater a concupiscência e os desejos desordenados da carne é andar em E spírito (v. 15). A ndar em E spírito significa conduzir-se dum a m a­ deira tal que o com portam ento e, por extensão, toda a ida sejam ordenados e subm etidos ao governo do E sp í­ rito Santo. Só assim poderá realm ente ser cum prida a lei io am or (vv. 16-18). Som ente pelo poder do E spírito Santo é que o crente pode crucificar a carne com todos os seus desejos p eca­ m inosos (vv. 19-21,24). O Dr. K enneth W uest, na obra em idiom a inglês in titulada G alatians in the G reek N ew Testam ent expressa de m odo m uito feliz a relação que existe entre o crente e o E spírito Santo, para que o p ri­ meiro possa ser conduzido a um a vida de vitória. D isse ele: “O E spírito Santo não é com o um a m áquina de m otor contínuo que opera autom aticam ente na vida do crente. Antes é um a pessoa divina cujo m inistério espera o cren­ te buscar, anelando ao m esm o tem po que os santos coo­ perem com Ele. D essa m aneira, a escolha depende do crente, que pode escolher entre render-se ao E spírito Santo ou obedecer à n atureza pecam inosa. O E spírito Santo está p resente para dar-lhe v itória sobre a natureza carnal quando o crente expressa um vigoroso “n ão ” ao pecado e ao m esm o tem po confia nEle para obter vitória. A carne opõe-se ao E spírito, e o E spírito está presente para opor-se à carne. O crente, por assim dizer, é quem


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decidirá a questão. R ender-se ao E spírito e p ersisten te­ m ente dizer “n ão ” ao pecado é um hábito que se adquire na senda da ju stiça. A ssim , as qualidades m orais que a Lei ordena m as não pode produzir finalm ente se desen­ volvem na vida do crente (vv. 18,22-24). O Dr. A. B. S im pson com parou o fruto do E spírito (v. 22) a um cacho de uvas. O am or é a seiva vital que corre por todas elas, de m aneira que podem os dizer assim: O gozo é am or vinculado à alegria. A paz é am or em repouso. A paciência é am or sofredor. A doçura é am or refinado. A bondade é am or em ação. A fé é am or que confia. A hum ildade é am or subm isso. A tem perança é o verdadeiro am or a si m esm o. As igrejas da G alácia, com o as de C orinto e Rom a, eram constituídas por duas classes de pessoas, tal com o acontece inclusive hoje nas igrejas. U m a classe era de crentes que haviam obtido a liberdade no sentido pleno da palavra - liberdade absoluta da Lei. E ssa classe corria o risco de converter sua liberdade em abuso (v. 13), orgulhando-se de não se prender a restrições. A outra classe era com posta de irm ãos m ais escrupulosos e tím i­ dos. Os prim eiros viam -se tentados a desafiar os últim os à prática de coisas que a Lei proibia, condenando o m edo que tinham de viver sem a tutela da Lei. Ora, onde fica o am or? Os prim eiros m encionados, apesar dum a visão m ais clara da graça, faziam -se assim culpados de vangloria e desam or, pois forçavam os outros a fazer coisas contrá­ rias à sua própria consciência. N a verdade, a liberdade não pode atropelar o am or, e isto sem pre acontece quan­ do ferim os a consciência m ais fraca do outro.


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Os últim os, por sua vez, quando não adotavam um a postura reacionária, condenando indevidam ente a lib er­ dade alheia, viam -se tentados a considerar com inveja a liberdade de co nsciência dos outros, recrim inando-se de sua vulnerabilidade. É sem elhante ao caso do cristão forte, cuja co nsciência está exercitada na P alavra e por isso tem confiança no que faz, e do fraco na fé que, por falta dum alicerce m ais sólido e am plo, vive cercado de escrúpulos (Rm 14.1-15.3; 1 Co 8; G1 5.26).

4. Levar as cargas uns dos outros (6.1-5) Parece evidente, a ju lg a r pelo versículo 1, que nem todos os gálatas haviam se deixado influenciar pelos falsos m estres, recebendo alguns o qualificativo de “es­ p iritu ais” . P or isso Paulo in sta com eles, um a vez espiri­ tuais, para reencam inharem à graça os porventura enga­ nados, tendo o cuidado de não se deixarem igualm ente seduzir. Todo cristão tem o dever de corrigir o irm ão que está no erro. M as aqueles que tom am sobre si essa tarefa devem ter cuidado de não adotar a atitude do fariseu que disse: “O D eus, graças te dou, porque não sou com o os dem ais h om ens” (Lc 18.11b). A hum ildade é a condição sine qua non na restauração dum irm ão que pecou (vv. 1 e 2). A quele que, ao ver um irm ão em falta, perm ite despertar em si próprio um sentim ento de jactân cia, está enganando a si m esm o (v. 3). Se busca algo de que possa se gloriar, que seja o verdadeiro serviço ao Senhor, não um a preten sa superioridade sobre os irm ãos (v. 4). O reconhecim ento das próprias faltas deveria fazer com que o crente se abstivesse de pronunciar p recipitadam en­ te ju íz o sobre seus irm ãos (v. 5). Os versículos 2 e 5 assinalam um a aparente contradi­ ção no em prego da p alavra “carg a” (A RC). N o idiom a


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grego em pregam -se duas palavras diferentes. A prim eira significa “p eso ” e a segunda “resp o n sabilidade” . D eve­ m os ajudar a levantar o peso dos om bros dum irm ão, mas cada um é responsável perante D eus por sua própria conduta pessoal.

5. Apoio ao m inistério e perseverança em fazer o bem (6.6-10) É ju sto que os crentes, um a vez tendo recebido in stru ­ ção espiritual de seus m estres na fé, contribuam m aterial­ m ente em favor destes (v. 6). O Dr. L ightfoot faz a seguinte p aráfrase dos versículos 7 e 8: “Q ue estais p en ­ sando? A vossa m esquinhez vos apanhará. N ão podeis enganar a D eus com palavras bonitas. N ão podeis escon­ der os fatos aos olhos de D eus. De acordo com a sem eadura, assim será tam bém a colheita. Se plantais a sem en­ te de vossas cobiças egoístas, se sem eais no cam po da carne, obtereis um a colheita corrupta. M as se sem eais na boa terra do E spírito, obtereis um a colheita de vida eter­ na” . T endo com o base o fato de que o princípio da sem eadura é inexorável, Paulo exorta os gálatas a não se cansarem de fazer o bem , principalm ente aos dom ésticos da fé (vv. 9 e 10). H á aqui um a exposição de prioridades; o bem deve ser dirigido a todos, m as aqueles que p erten ­ cem à m esm a fam ília da fé não podem ser preteridos na prática do cuidado cristão.

6. Conclusão (6.11-18) E stam os de acordo com as conclusões do Dr. W uest, de que Paulo escreveu toda a epístola aos G álatas, talvez dolorosa e laboriosam ente (4.14,15), com grandes letras m aiúsculas gregas. O versículo 11 diz literalm ente: “Vede com que grandes letras vos escrevi por m inha m ão” . Pelo caráter da carta e as circunstâncias reinantes na igreja da G alácia, não seria prudente rem eter um a carta


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citada. Paulo desejava dar a ela o m ais elevado caráter r>essoal possível. A gora apela aos carinhosos corações Jos gálatas. L em brar-se-iam do apóstolo aflito e do cari­ nho com que o haviam recebido. A pela a suas em oções mais tenras, para que não o esqueçam - nem dos seus sofrim entos, nem do seu abnegado ensino. E a nota m ais :ocante (W uest). A seguir, Paulo faz um resum o dos ensinos a que se dão os ju d aizan tes, desvendando-lhes os reais m otivos. Q uerem im por a circuncisão sobre os gálatas não só para serem bem reputados quanto ao zelo carnal, mas tam bém -e livrarem da perseguição que acom panha a pregação da cruz (v. 13). E não era som ente contra a hipocrisia dos que se diziam cristãos que Paulo tinha de lutar, pois :am bém encontrava oposição dos declaradam ente m un­ danos. N ão obstante, ele estava crucificado para o m undo (v. 14). Q uanto aos ju d eu s conversos, o p roblem a deles é que não estavam dispostos a fazer frente ao descaso a que lhes expunha o abandono das ordenanças m osaicas. Não tinham coragem suficiente para enfrentar as críticas dos seus patrícios não convertidos. P ortanto, com o era m ais conveniente e a fim de m anter boas relações com eles, aceitaram que im pusessem a circuncisão sobre os gentios convertidos. A ssim , além de evitar o confronto, ainda receberiam m éritos por seu zelo para com a Lei. Os ;udeus estavam m ais dispostos a to lerar nos cristãos a afirm ação de que Jesus era o M essias do que lhes supor­ tar o abandono da Lei (Lightfoot). V oltando aos ju d aizan tes, o único objetivo deles em im por a circuncisão aos gálatas era jactar-se da subm is­ são destes àquele rito carnal, obtendo m éritos ante os judeus por estarem fazendo p rosélitos (v. 13). M as P au­ lo, o apóstolo, não se g loriaria senão na cruz de C risto, pela qual o m undo perdera sobre ele o poder de atração (v. 14). U m a vez m orto para o m undo, ele vive em C ris­


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Comentário Bíblico

to, onde todas as distinções exteriores, com o a circu n ci­ são ou a incircuncisão, já não fazem m ais sentido (v. 15). P restes a term inar, o apóstolo ora para que a bênção de D eus repouse sobre todos aqueles que reconhecem esta verdade, sejam ju d eu s ou gentios (v. 16). F risa nova­ m ente a idéia do Israel de D eus, os filhos de A braão m ediante a fé. A ssim , que ninguém pusesse em dúvida sua autoridade de apóstolo - seu corpo sinalizava que ele era propriedade de C risto. Os sinais ou m arcas a que se referia eram da abnegação, do sofrim ento, da p erseg u i­ ção e do trabalho (v. 17). E ncerrando a epístola, Paulo evoca a bênção de C risto sobre os irm ãos, m encionando m ais um a vez a graça, razão e principal m otivo da carta que acabara de escre­ ver, visando a edificação dos gálatas em espírito (v. 18).

V II

- O b r a s d e P e s q u is a

O leitor notará que através do estudo fazem os referên ­ cia às obras de certos eruditos bíblicos de renom e: • Dr. K enneth S. W uest - P rofundo conhecedor da língua grega, foi p ro fesso r de grego no Instituto B íblico M oody, em Chicago. • Dr. Sco field - P ublicou a fam osa B íb lia A notada por Scofield, obra rep leta de anotações, que m uito têm servi­ do às igrejas durante décadas. • Bispo J. B. L ig htfoot - N ascido em 1828, n a In g la ­ terra, e educado na U niversidade de C am bridge, foi p as­ tor na C atedral de São Paulo, em Londres, e professor de teologia na U niversidade de C am bridge. Foi um grande erudito evangélico e autor de vários com entários sobre livros da Bíblia. • John P. L ange - Inglês do século passado, foi autor de obras bíblicas clássicas e de alto valor. A seu respeito


Gálatas, entre a Lei e a Graça

o fam oso pregador londrino, C harles Spurgeon, disse: "Para fins de hom ilética estes volum es (um a coleção de com entários sobre as E scrituras) representam uns tantos m ontes de ouro. N ão tem os nada igual a estes volum es... são um tesouro para o p reg ad o r” . • A. S. Way - Foi outro com entador de renom e, cujas obras foram igualm ente de grande proveito. C rem os sinceram ente que o leitor, nesta seção relativa à E pístola aos G álatas, tem à sua disposição extratos do que há de m elhor e m ais profundo na literatura evangéli­ ca m undial.


2 Filipenses, a Alegria e a Vohmtanedade I - Introdução

1. Fundo histórico É fato bem conhecido que Paulo escreveu quatro de suas epístolas quando estava em Rom a, por ocasião de seu prim eiro aprisionam ento - Filem om , C olossenses, Efésios e F ilipenses. As referências cruzadas entre elas, já que fazem m enção entre si, indicam que as três p rim ei­ ras pertencem ao m esm o grupo, escritas na m esm a oca­ sião, bem com o enviadas ao m esm o tem po, por T íquico e O nésim o. Já a E pístola aos F ilipenses divide as opiniões dos eruditos, quando se tenta descobrir se foi escrita antes ou depois do grupo das três. O Dr. H. C. Thiessen, no seu livro Introduction to the N ew T estam ent (“Intro­ dução ao N ovo T estam ento”), relaciona algum as razões que firm am o ponto de vista de que ela foi escrita depois das outras.

2. A cidade de Filipos A cidade de Filipos, hoje apenas um m ontão de ru í­ nas, tem lugar de destaque tanto na histó ria sacra quanto


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Comentário Bíblico

na secular. N as suas vizinhanças encontram -se as fam o­ sas m inas de ouro e prata que, na antigüidade, eram exploradas pelos diligentes fenícios, produzindo, até os dias do rei Filipe da M acedônia, dez m il talentos por ano (aproxim adam ente 342,7 toneladas). C ruzando a cidade, estava a fam osa V ia Inácia, dividindo-a em cidade alta e baixa. E ssa estrada se estendia por 800 quilôm etros, de H ebro, na Trácia, a D irraquio, no m ar A driático. De D irraquio se chegava à Itália, por barca. E ssa via expres­ sa foi d escrita por C ícero com o “aquela nossa via m ilitar que nos liga ao H elesponto” . Filipos estava assentada num ponto estratégico da V ia Inácia, ju stam en te onde a cadeia m ontanhosa dos Balcãs, entre o O riente e o O cidente, form a um a garganta, ou seja, um a entrada natural que facilita a com unicação en­ tre os dois continentes. G ozava dum a posição p riv ileg ia­ da, fato reconhecido por Filipe da M acedônia e pelo im perador rom ano A ugusto. Por conseguinte, acredita­ m os que foi por direção do E spírito de D eus que Paulo chegou ali. Se o E vangelho devia atravessar os B alcãs, F ilipos se apresentava com o o m eio de m ais fácil acesso. A cidade recebeu o nom e do seu fundador, F ilipe da M acedônia, pai de A lexandre M agno. Ele a construiu p ara festejar a anexação dum a p rovíncia a seu im pério, vindo a servir de posição fortificada na fronteira. O rio G angite passava a oeste, cerca de um quilôm etro e m eio da cidade. O im perador A ugusto (O taviano) elevou a dignidade de F ilipos, transform ando-a em colônia rom ana. A ssim ela se tornou um a povoação fro n teiriça do Im pério R o­ m ano, fazendo lem brar lig eiram ente a C idade Im perial (Rom a). N um a colônia rom ana, tanto a língua usada com o o dinheiro em circulação (a cunhagem das m oedas) e as leis vigentes, tudo se fazia em latim . D entre outras vanta­ gens, Filipos gozava da isenção de im postos sobre a


Filipenses, a Alegria e a Voluntariedade

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terra, chegando a ser elevada a um a dignidade idêntica à do solo sagrado da própria Itália. Seus habitantes podiam orgulhar-se da p lena posse de três grandes privilégios dos cidadãos rom anos: isenção de flagelação, isenção de prisão (exceto em certos casos) e o direito de apelar diretam ente a César.

3. A igreja em Filipos A história da fundação da Igreja em F ilipos é bem conhecida por todos nós (A t 16). C hegando de navio a N eápolis, Paulo e seus com panheiros, Silas, Tim óteo e Lucas (At 16.10-12), seguiram pela V ia Inácia até Filipos, onde havia provavelm ente poucos ju d eu s, devido ao ca­ ráter m ilitar e colonial do lugar. N ão encontrando n enhu­ m a sinagoga onde pudesse entregar sua m ensagem , P au ­ lo buscou a com panhia dum pequeno grupo que se reunia nas m argens do G angite, fora da cidade. Em Filipos ocorreram três conversões típicas: Lídia, a com erciante; a jo v em com espírito de adivinhação, es­ crava de Satanás (esta pode ter sido liberta); e o carcerei­ ro, um suboficial do exército rom ano. A íguns eventos, principalm ente a libertação da jo v em adivinha, resultaram em feroz perseguição por parte das autoridades, à qual se seguiu um a libertação m iraculosa. A perseg u ição continuou, m esm o quando P aulo foi paxa Tessalônica. Os convertidos filipenses foram , então, sub­ m etidos a um a parcela de conflito e aflição, conform e Paulo relata em 2 C oríntios 8.2 e F ilipenses 1.7,28-30. M ais tarde, Tim óteo e Erasto foram enviados à M acedô­ nia (At 19.22) e, sem dúvida, os irm ãos de Filipos devem ter cooperado com voluntariedade, pois deles Paulo dá testem unho de estarem prontos e bem dispostos a atende­ rem o apelo de socorro em favor dos crentes pobres e necessitados em Jerusalém (2 Co 8.1-5).


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Com entário Bíblico

No outono de 56 d.C., provavelm ente, após um a au­ sência de cinco anos, o próprio Paulo partiu de Efeso para revisitar suas igrejas européias (A t 20.1; 2 Co 7.5,6), passando por F ilipos rum o à G récia. N esta passagem , sem dúvida, os filipenses devem ter tirado grande p rovei­ to de sua presença. A lguns m eses depois, ele tornou a visitá-los, quando voltava, via M acedônia, rum o a Trôade (At 20.5,6). V em o-los, m ais tarde, enviando E pafrodito com o p ortador de ofertas voluntárias para socorrer P au ­ lo, que se encontrava num a prisão em R om a (2.25,30; 4.10-18). Foi por interm édio de E pafrodito que Paulo enviou sua E pístola aos F ilipenses. Seu relacionam ento com eles era o m ais am oroso e pessoal possível.

4. Data e ensejo da epístola A carta foi com certeza escrita em R om a durante os dois anos em que Paulo esteve preso, com o o registra Lucas em A tos 28.3-30. A data seria por volta do ano 61 d.C. Epafrodito fora o em issário dos filipenses, encarrega­ do de passar suas doações às m ãos de Paulo (2.25; 4.18). D esconsiderando sua própria saúde, no desejo de servir a Paulo ele ficou gravem ente enferm o, m as pôde se recu ­ perar por um m ilagre de D eus (2.27-30). E pafrodito, quando se apresentou a Paulo, estava tam bém extrem a­ m ente desejoso de retornar a Filipos, pois as notícias de sua enferm idade deixaram os irm ãos m uito aflitos (2.26). Paulo, sem dúvida, guiado pelo E spírito Santo e tam bém influenciado parcialm ente por notícias de m al-entendi­ dos entre alguns irm ãos (1.27; 2.2-4,14; 4.2), resolveu enviar a ep ístola pelas m ãos de Epafrodito. A m esm a revela a profunda afeição que, de coração, nutria por eles e seu ferv o ro so anelo pelo b em -estar esp iritu al dos filipenses.


Filipenses, a A legria e a Voluntariedade

II - A

n á l is e d a

E

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p ís t o l a

C onsiderem os nesta seção as principais característi­ cas ou, por assim dizer, o conteúdo exclusivo, capaz não só de definir com o dar o tom da epístola.

1. Não trata de controvérsias - tem caráter pacífico N ão havia necessidade de Paulo, com o nas cartas aos G álatas e aos C oríntios, defender sua autoridade apostó­ lica, pois os filipenses eram leais a ele e tam bém à “fé que um a vez foi dada aos santos” (Jd 3). T am bém a afeição que tinham por ele era ex traordinária e m ais de um a vez o haviam ajudado em suas necessidades (4.1018). N ote que, ao se d irigir a eles, Paulo dispensa o título de “ap óstolo” (Fp 1.1; com p. R m 1.1; 1 Co 1.1; G1 1.1). N enhum erro doutrinário dividia a igreja, e nesse as­ p ecto d ife re das e p ísto la s aos G álatas, C o rín tio s e C olossenses, enviadas da m esm a prisão. C ontudo, no capítulo três, Paulo adverte contra o ju d aísm o e um a possível form a de antinom ianism o. M as não há razão para crer que estes erros estavam realm ente presentes na igreja. O desejo de Paulo era preveni-los contra tais en si­ nos antes que efetivam ente surgissem .

2. Sobejam notas de afeição pessoal E ra com prazer e gratidão que Paulo orava pelos filipenses sem pre que se lem brava deles (1.3-5). E le lou­ va a D eus p ela com unhão que m antinham com ele no Evangelho (1.7). N ão podia negar que sentia reais sauda­ des (1.8). E m bora o seu desejo pessoal fosse partir desta vida para estar com C risto, ele de bom grado abriria mão disso, se D eus o perm itisse, a fim de lhes falar m ais sobre as coisas espirituais (1.21-26). O profundo am or de P au­


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Comentário Bíblico

lo por eles se expressa na form a com o se dispôs a p erm i­ tir o regresso de E pafrodito (2.25-30). T am bém estava disposto a abrir m ão da presença de T im óteo para que fosse cuidar deles (2.19-23). Suas dádivas haviam -lhe trazido gozo e alegria à alm a, sabendo que eram expres­ sões sinceras de corações cheios de genuína afeição (4.1018).

3. Constitui uma carta pastoral cujo tema é a união N ão obstante o vínculo de afeição que a m antinha unida, parece que um a questiúncula am eaçava desfigurar a beleza dessa igreja. Surgira um a “raiz de am argura” (Hb 12.15) que, se crescesse, contam inaria naturalm ente a m uitos. E m bora não houvesse rixas por questões de doutrina, o m esm o não se p odia dizer quanto a problem as pessoais de relacionam ento - talvez um desgaste em fu n ­ ção das diferentes dem andas do serviço cristão. D uas irm ãs, E vódia e Síntique (4.2), pioneiras daquele tra b a­ lho, são m encionadas com o as protagonistas. O sublim e capítulo 2 dessa epístola, que fala sobre o sentim ento de hum ildade que houve em C risto Jesus e exorta cada um a considerar os outros superiores a si m esm o, ao que tudo indica visava reso lv er de um a vez por todas qualquer situação que pudesse dividir a igreja. N ão que o m al tivesse alcançado proporções m uito grandes, m as Paulo não pretende vê-lo crescer, apressando-se em corrigi-lo. C om a m aior delicadeza, ele indica o perigo, e com a ternura p ró p ria de sua natureza cordial, roga-lhes que evitem dissensões e cultivem a m ais estrei­ ta união cristã. Q uanto a ele, am a-os a todos (1.1,4,7,8). A ssim os exorta para que perm aneçam firm es “num m es­ m o espírito, com batendo ju n tam en te com o m esm o âni­ m o pela fé do evangelho” (1.27b). Se quisessem alegrarlhe o coração, então, afastassem deles todo partidarism o


Filipenses, a A legria e a Voluntariedade

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e vangloria e fossem dum a só m ente na união do Espírito Santo (2.1-4). Ele os exorta a m ostrar em tudo aquele sentim ento que houve tam bém em C risto Jesus, o senti­ m ento de abnegação e de verdadeira auto-hum ilhação (2.5-8). A ssim , os convoca a pôr de lado as m urm urações e contendas, resplandecendo com o lum inares de Deus no m undo de trevas (2.14,15). Q ue as irm ãs res­ ponsáveis p ela suposta contenda se reconciliem (4.2,3). Que o espírito de subm issão m útua substitua suas riv a li­ dades (4.5; cf. W alker). III - P

alavras e

P

ensa m ento s

E

s p e c ia is

1. Está repleta de Cristo O nom e “C risto ” ocorre 37 vezes. O bispo L ightfoot tem observado m uito bem que “esta E pístola nos faz voltar das polêm icas teológicas e eclesiásticas para o próprio coração e centro do E vangelho, isto é, a vida de Cristo e a vida em C risto ” . C om grande habilidade, Paulo apresenta nosso relaci­ onam ento com C risto, n ossa possessão em C risto e n o s­ sa responsabilidade para com Cristo.

2. Está repleta de gozo A tô n ic a da e p ís to la é “ g o z o ” , r e p e tid a m e n te enfatizada - as palavras “gozo” , “aleg ria” e “reg o zijai” ou “reg o zijo ” aparecem cerca de 16 vezes. “R egozijaivos no S enhor” é a parte central da m ensagem do após­ tolo. A vida de louvor a D eus em m eio às circunstâncias, boas e m ás, é um ponto de nítido destaque. Q ue lugar estranho - a prisão - p ara originar um a m ensagem de tão grande im pacto! M as nem as paredes som brias de um a prisão poderiam restrin g ir o cântico de v itória do apósto-


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Comentário Bíblico

lo que se reg o zijav a no seu S enhor sem pre presente, nos braços de quem seu espírito saltaria caso o encarcera­ m ento resultasse em m orte. Que lição p reciosa nos salta aos olhos! Lição cuja utilidade a todo instante se realça nas m uitas e variadas circunstâncias por que passa a nossa vida.

3. Está cheia de inclinação para a santidade A p alavra grega ph ro n ein , cujo significado evoca a m ente sendo dirig id a dum a m aneira p rática de m odo a servir aos m elhores interesses de alguém , ocorre dez vezes (1.7; 2.2,5; 3.15,19; 4.2,10). A raiz dessa palavra, ph ren , inclui em seu cam po sem ântico tanto o coração com o a vontade, além do ra c i­ ocínio. “O apóstolo desejava que os cristãos em Filipos concentrassem as energias da m ente (sentim ento, volição e pensam ento) sobre um a só coisa: a glória do seu D eus e Salvador. Paulo desejava ver ‘a m ente de C risto ’ plen a­ m ente reproduzida neles. U m a vez que a ‘m en te’ deles e s tiv e s se em re tid ã o , sua v id a tam b ém se ria r e ta ” (W alker).

4. Está cheia de comunhão É notável o grande núm ero de palavras com postas com a preposição grega sun, que expressa com unhão e associação as m ais íntim as. “A leitura destas palavras com postas seria o bastante para acabar com o espírito de rivalid ad e e facções. Q uando as estudam os podem os sentircom o são reais, e nos aproxim am os dos laços que unem a todos os que ‘am am o nosso Senhor Jesus C risto em sin cerid ad e” ’ (Idem ). D entre as expressões que nos conferem esse significa­ do, podem os relacionar as seguintes:


Filipenses, a A legria e a Voluntarieda.de

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• “P articip an tes” (su n ko in o n o s), ju n tos, da graça de C risto; com panheiros nas aflições de C risto (1.7; 4.14). • “De m esm o ânim o” (su n p su c h o s), unidos de todo o coração em C risto, de m ente e alm a (2.2). • “C om panheiros de lu ta” (su n n a th le o ), com batendo lado a lado por C risto e trabalhando ju n tos na divulgação o E vangelho (1.27; 4.3). • “C olegas no reg o zijo ” (su n c h a iro ), regozijando-se juntos em C risto (2.17,18). • “C om panheiros de arm as” (su n stra tio te s), lutando juntos as guerras de C risto (2.25). • “C ooperadores” (su n e rg o s), trabalhando ju n to s na obra de C risto (2.25; 4.3). • “C ooperadores” (sunlam bano), ju n to s levando o far­ do de C risto (4.3). • “C om panheiros de ju g o ” (su n zu g o s), levando juntos o ju g o de C risto (4.3). • “C om panheiros a im itar” (su n m in eta i), seguindo ju n ­ tos o bom exem plo (3.17). S eguidores juntos. “Feliz a igreja que, um a vez firm e na confiança do E vangelho, pode ser efetivam ente caracterizada por este im portante aspecto da união cristã” (Idem ).

IV - A

O ração É P essoal

1. Saudação introdutória (1.1,2) A p alav ra “servos” , no versículo 1, significa literal­ m ente “escravos” . O verdadeiro m inistro de Cristo é com o o servo hebreu em tem pos passados que, obtendo sua liberdade, opta por continuar na casa do seu amo. Este, então, perfura-lhe a orelha em sinal de lealdade e escra­ vidão voluntária. E scravidão, sim, m as que de fato cons­ titui a m ais bendita liberdade - estar ju n to de quem se


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Comentário Bíblico

am a. S ervir a C risto, p ara aquele que por m otivo de am or se coloca à sua inteira disposição, é a m ais sublim e form a de liberdade. “Tudo que o europeu procura expressar por m eio de sua usual saudação grega charis ( ‘g raça’), e tudo que o sem ita quer expressar pela p alavra ‘p a z ’ (na língua ára­ be, saiam , e no hebraico, sh a lo m ) cum pre-se e é realiza­ do em C risto ” (W alker). “A palavra grega que significa ‘g ra ça’ é m aravilhosa... Os gregos pagãos a usavam ao referir-se a um favor feito a outro, m otivado pela m ais pura generosidade do coração e sem pensar em recom ­ p en sa” (W uest). No N ovo T estam ento, o vocábulo re fe ­ re-se ao favor concedido por D eus a um pecador indigno, em virtude da m orte vicária do seu Filho. A palavra “p az” tem com o conotação a reconciliação e a com unhão restabelecida. E sta saudação u sada no N ovo T estam ento é, na realidade, um p enhor da união do O riente e do O cidente, de todas as nações, sob um único Senhor (v. 2).

2. Ação de graças e oração (1.3-11) As igrejas que receberam de Paulo as m ais calorosas ações de graças foram as de Filipos e T essalônica. A expressão, no versículo 3, “dou graças ao m eu D eus todas as vezes que me lem bro de v ó s”, indica quePaulo os tinha na m ais alta conta, lem brando-se sem pre do zelo e carinho dos filipenses. O vocábulo “sem pre” (v. 4) ocorre 27 vezes nas ep ís­ tolas paulinas, quatro em Filipenses: • Sem pre orando (1.4). • Sem pre engrandecendo a C risto (1.20). • Sem pre obedientes (2.12). • Sem pre se regozijando (4.4).


Filipenses, a A legria e a Voluntariedade

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O crente que se ocupa em p raticar essas quatro reco ­ m endações sem pre terá um a vida de vitória. Satanás jam ais poderá derrubá-lo. Os versículos 3-11 do prim eiro capítulo revelam a intensidade do am or que Paulo tinha em seu coração pelos cristãos de Filipos. Em razão disso, pensar neles era para o apóstolo um prazer. E ra sem pre com alegria que orava por eles, confiando que D eus com pletaria a obra espiritual já com eçada e em franco desenvolvim en­ to (v. 6). Paulo os am ava, porque os tinha em seu cora­ ção (v. 7). E sta forte afeição, m anifestada nos versículos 7 e 8, deve ser o selo que une o pastor às suas ovelhas. A palavra “en tranhável” , ou “tern a” (v. 8 - A R C / A RA ), no grego é splagxnizom al e tem a ver m esm o com as entranhas, algo que vem de dentro, do fundo do cora­ ção. E ntre os hebreus, as entranhas eram a fonte das afeições m ais tenras, a origem de sentim entos com o bondade, b enevolência e com paixão. Paulo quer dizer que foi o am or potencializado pela presença de C risto nele que o fez ansiar profundam ente pelos filipenses. Paulo roga a D eus que seu am or - por C risto, de uns para com os outros, pelos pecadores —possa se ex trav a­ sar cada vez m ais. Este am or não deve ser um a afeição inflam ável, sem controle, que depois se apaga por falta dum a correta orientação, mas conservado e dirigido (v. 9) “em ciência e em todo o co nhecim ento” . No original, o term o em pregado para “co nhecim ento” denota - com o registrado noutras versões da B íblia - percepção, sensi­ bilidade e discernim ento. A frase encontrada no versículo 10, “para que aproveis as coisas ex celen tes” (cf. R m 2.18), pode ser interpreta­ da de duas m aneiras: “para que possais testar ou verifi­ car as coisas que diferem ” e “para que aproveis as coisas que transcendem ou se salientam ” . Q uerem os ressaltar


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Com entário Bíblico

com essas expressões a im portância do am or ser exercido com conhecim ento, se é que pretendem os fazer escolhas criteriosas, separando com propriedade a verdade da con­ trafação e o santo do espúrio (M oule). “E scolhendo as elevadas riquezas da graça; não se contentando com as experiências inferiores, m as ... sem ­ pre escolhendo, aprovando e entrando no gozo dos dons de m aior grandeza a nós outorgados, a fim de prom over em nós a vida e a p ied ad e” (W alker; cf. 2 Pe 1.3). E sse exercício espiritual resu ltará em serem achados “sinceros” (literalm ente: “sem m istu ra” , “com m otivos p u ro s”) e “sem escân d alo ” (literalm ente: “sem fazer os outros tro p eçarem ” , “in cu lp áv eis” ) no dia de Cristo. H á um a referên cia aqui ao T ribunal de C risto, onde os p en ­ sam entos, m otivos e razões, por enquanto ocultos, serão m ostrados tais com o são, sem m áscara ou disfarce, d ian ­ te da g loriosa presença do Senhor (v. 10; cf. 2 Co 5.10). Paulo roga tam bém a D eus que a vida de cada crente de F ilipos seja fru tífera na ju stiça, para que D eus seja glorificado (v. 11). Ora, sendo a ju stiç a produzida por Jesus C risto, tal frutificação só é possível pela união com Ele (Jo 15.1-16).

3. Referências pessoais de Paulo - seus grilhões, obra, rivais, dilem a e convicções (1.12-26) As palavras introdutórias desta passagem têm por alvo acalm ar os corações dos filipenses quanto à aparente calam idade de seu aprisionam ento em Rom a. Paulo lhes assegura que essas circunstâncias até contribuíram p ara a extensão do E vangelho (v. 12). E xplica-lhes que “suas prisões em C risto ” se tornaram bem conhecidas, sendo com entadas em todo o palácio (literalm ente: “por toda a guarda p reto rian a”), incluindo C ésar e sua corte, além dos rom anos em geral (v. 13).


Filipenses, a A legria e a Voluntariedade

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A prisão de Paulo é digna de nota num pleito ju d icial dessa natureza, devido ao seu testem unho da gloriosa pessoa de C risto, realçado por sua constância e firm eza. E m bora p reso a g rilh õ es p o r cau sa do M estre, seu encarceram ento acabou inspirando os irm ãos em R om a a testificar com coragem de C risto. O utros, provavelm ente judaizan tes agregados à ig reja em Rom a, em bora invejo­ sos e facciosos, tam bém ajudariam a prom over a p ro cla­ m ação de C risto, por estranho que pareça. O nom e de C risto, fosse de boa vontade ou contrariando a sim plici­ dade do E vangelho, estava nos lábios de m uitos (vv. 1418). Paulo crê que m esm o na difícil circunstância em que se encontrava, de provas e sofrim entos, com partilhada pelos filipenses em oração insp irad a pelo E spírito Santo, tudo resu ltaria na salvação de m uita gente (v. 19). E spe­ rava e desejava que C risto fosse engrandecido por m eio dele, não im portando se para isso devesse continuar vivo ou m orrer. Para Paulo, a vida resum ia-se a C risto - ele era tudo - , e a m orte p odia ser com putada por lucro, pois significava estar com C risto (v. 20,21). D e certa m aneira, ele estava num dilem a, perplexo, sabend o que sua “p a rtid a ” (no g reg o , litera lm e n te : “desatam ento”) significaria estar na presença do Senhor, sem ignorar que sua presença no corpo se fazia necessá­ ria, a fim de poder acom panhar-lhes o progresso espiritu­ al. Se fosse solto da prisão e pudesse reunir-se com os irm ãos, seria “para proveito vosso e gozo da fé” (vv. 2226). V - E

xortações e

E

xem plos

P

e s s o a is

1. Exortação à coerência e à coragem (1.27-30) “ Som ente (eu estando ou não com vocês) deveis p o r­ tar-vos dignam ente [literalm ente: ‘com portar-vos com o


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C om entário Bíblico

cid ad ão s’] conform e o E vangelho de C risto ” - que vos tem dado a cidadania celestial. A notícia que Paulo dese­ ja ouvir é a de que os filipenses “perm anecem firm es” , sem ceder terreno, unidos num só propósito com o se fossem um só espírito, ou um a só “alm a” (m ente), “com ­ batendo ju n tam en te p ela fé do ev an g elho” (no original: “com panheiros com batentes” , v. 27). O term o deriva-se dos jo g o s de gladiadores no anfiteatro rom ano, nos quais os hom ens lutavam até a m orte, om bro a om bro, contra um adversário com um . Os irm ãos devem m ostrar intrepidez no m eio da p e r­ seguição (Filipos, segundo A t 16, era um lugar sujeito a agitações). O próprio valor e a atitude inabalável deles dem onstraria aos inim igos, claram ente, que estavam con­ victos da vitória final e da destruição dos seus adversári­ os (v. 28).

2. Exortação à generosidade e à união (2.1-4) E s te s v e rs íc u lo s c o n té m u m a rd e n te a p e lo aos filipenses, de m anterem a paz e a união entre si. Se as experiências espirituais não resultam em am or fraternal é porque algo está errado. A lealdade a C risto exige obedi­ ên cia ao seu “novo m an d a m en to ” (Jo 13.34,35; cf. W alker). O apelo de Paulo b aseia-se no conforto, na co n so la­ ção, nas tenras m isericórdias e na com paixão, oriundas do S enhor que é o m esm o sobre todos, as quais os dev e­ riam in spirar à união da m ente e da alm a (vv. 1,2). N ada se deve fazer por interesse pessoal ou vaidade. T odas as ações devem dem onstrar a verdadeira nobreza do caráter, m otivadas pela abnegação, ou seja, cada um dando p refe­ rência às reivindicações de seu irm ão (vv. 3,4). O verda­ deiro espírito de hum ildade ataca a própria raiz dos p re­ conceitos raciais, sociais, nacionais ou regionais, lev an ­ do o cristão a reconhecer sem pre que não passa dum


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pecador salvo tão-som ente pela graça divina. Com o é incom um esse espírito, tão valoroso aos olhos de D eus, principalm ente entre os que se dizem espirituais!

3. O exemplo da hum ildade de Cristo (2.5-11) Paulo, agora, com o propósito de deixar bem clara a lição sobre a hum ildade, escreve um a das m ais sublim es passagens de toda a E scritura Sagrada. P ela inspiração divina, ele sobe às m aiores alturas e desce às m aiores profundidades, ao expressar o m istério da encarnação de Cristo. A presentam os aqui a seguinte paráfrase desta pas­ sagem , na qual se p reserva o sentido original da língua grega. “Pensai assim vós m esm os, com o C risto Jesus foi inspirado a pensar. Ele, que sendo originalm ente a verda­ deira expressão e declaração da vida íntim a e essencial da divindade, não considerou a igualdade com D eus um a coisa a que se devia aferrar. M as se esvaziou, assum indo a form a de servo, tornando-se sem elhante aos hom ens. E, sendo encontrado com o hom em na aparência externa, hum ilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a m orte - a m orte sobre a cruz. Por esta razão, D eus grandem ente o elevou e livrem ente lhe conferiu o nom e que está sobre todo o nom e, decretando que ao nom e de Jesus todo joelho se dobre, tanto os que estão nos céus, com o os que estão na T erra e debaixo da Terra, e que toda língua pronuncie esta confissão: ‘Jesus, M essias, é S en h o r!’ A ssim rendendo g lória a D eus, o P ai” . O versículo 6 atesta a divindade essencial de Cristo. A quE le que originalm ente ocupava um a m odalidade de existência própria de Deus. O vocábulo “form a” (m orphe, no grego) significa a m anifestação dum a realidade - a realidade de C risto foi m oldada a um a nova circunstân­ cia. O Filho de D eus, a fim de cum prir o plano da red en ­ ção, não se prendeu à sua prerro g ativ a divina de ig u ald a­


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Comentário Bíblico

de com o Pai, m as esvaziou-se a si m esm o (.E kenosen,

idem). C risto foi realm ente “o Filho do ho m em ”, tendo v en ­ cido o pecado na carne (Rm 8.3), num a condição igual à nossa. O escritor aos H ebreus o apresenta com o o D eushom em na presença do Pai, sendo o nosso fiel e m iseri­ cordioso Sum o S acerdote (cf. Hb 2.17,18; 4.15,16). Ele desceu do nível divino para o da hum anidade, e do nível hum ano para o da ignom ínia (a m aldita m orte de cruz), em razão do seu am or por nós. Pelo que fez, conquistou para nós um acesso ao trono de D eus, com o garantia de que nosso futuro se realizará conform e o com prom isso ou pacto celebrado no Evangelho.

4. Exortação à obediência e à santidade (2.12-16) Paulo elogia os filipenses por sua obediência - sem dúvida a D eus, prim eiram ente, e depois a ele m esm o, quando esteve em Filipos. Paulo deseja que a salvação e a santidade deles não dependam da sua presença; com o nós tam bém devem os ter a nossa p ró pria experiência com D eus e não depender além da conta dos pastores e am igos, ainda que os m ais consagrados (v. 12). C ada um deve buscar a santidade, porque esta é a vontade de D eus p ara conosco (W alker). E sta passagem (“operai a vossa salvação”) não en si­ na, em absoluto, um a salvação pelas obras. O versículo seguinte o esclarece m uito bem : “P orque D eus é o que opera em vós tanto o querer com o o efetu ar...” O sentido do texto com o um todo “constitui um apelo aos hom ens ju stificad o s a diligentem ente zelarem pelo progresso de sua santificação, a qual se consum ará brevem ente na ‘glória a ser re v elad a” ’. A consum ação de nossa salva­ ção, pois, está em nossa dependência de D eus (v. 13), m as com o Ele habita em nosso in terior devem os agir


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com “tem or e trem o r” (v. 12). O apóstolo, com isso, ressalta que devem os ter perm anentem ente o cuidado de não ofender a D eus, buscando em tudo fazer o que é reto - um a form a de confirm ar (não de obter) a nossa salva­ ção. C om plem entando os versículos 12 e 13, os santos de D eus devem fazer “todas as coisas sem m urm urações nem contendas” (v. 14), pois tais atitudes evidenciam um espírito arrogante, digno de censura. M as nós, com o fi­ lhos de D eus, devem os nos tornar irrepreensíveis e since­ ros (grego: “sem lig a” , “não adu lterad o ” ) em todas as áreas, especificam ente quanto ao caráter. Paulo afirm a que devem os ser “in cu lp áv eis” (literalm ente: “sem falha, m ancha ou culpa”) p ara que a luz do nosso testem unho de C risto resplandeça em m eio às trevas dum m undo transviado e corrupto (vv. 15,16).

5. Exposição de planos - as m issões de Timóteo e Epafrodito (2.17-30) A incerteza do resultado do ju lg am en to de Paulo é afirm ada em 2.17. Paulo estava disposto a derram ar o seu sangue com o libação sobre o sacrifício (holocausto) da igreja em Filipos, consagrada e cheia de fé. E sta p assa­ gem apresenta a idéia do sacerdócio universal dos cren­ tes sob a N ova A liança. A libação de Paulo ju n to com o holocausto dos crentes constitu iria um sacrifício de chei­ ro suave ao Senhor (vv. 17,18). Paulo p lan eja enviar-lhes T im óteo, a quem ele elogia por seu serviço abnegado (vv. 20,21) e com provado va­ lor (v. 22). Tão logo fosse term inado seu im inente ju lg a ­ m ento (v. 23), Paulo espera visitá-los pessoalm ente, mas por enquanto envia E pafrodito, seu m ensageiro e p o rta­ dor da epístola, p essoa que não p odia dispensar, pois m uito precisava de seus favores e cuidados, além do prazer da com unhão m útua em C risto, que era m uito


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Comentário Bíblico

p reciosa (v. 25). E pafrodito adoecera, enfrentando risco de vida, provavelm ente por causa dos perigos da jo rn ad a que em preendeu até Rom a, da qual se incum bira em benefício dos com panheiros. A o que tudo indica, a causa da enferm idade foi estafa (v. 30). H om ens tais, que ex ­ põem ao perigo a p ró p ria vida no serviço abnegado de C risto, são raros e devem ser honrados pela igreja em que se encontram (vv. 26-30). VI - A

dm o estaçõ es

1. Advertência contra o judaísm o (3.1-8) N ovam ente Paulo repete a frase “regozijai-vos no S e­ nh o r”, que se destaca em toda a epístola. Ele não acha penoso rep etir (“escrever-vos as m esm as coisas”) essa verdade tão vital e prática, sabendo que ela oferece “se­ guran ça” contra os erros (v. 1). As advertências nos versículos seguintes são contra a insistente propaganda dos m estres ju d aizantes, que p re­ gavam que a sim ples fé na obra consum ada de Jesus, no C a lv á r io , n ã o e r a s u f ic ie n te e p r e c is a v a s e r com plem entada pelas obras da Lei, isto é, a circuncisão, as festas cerim oniais, os jeju n s etc. N esta m ensagem , Paulo dá um golpe fatal na religião que se deixa determ i­ nar por exterioridades. Ele classifica as pessoas que p er­ vertem o E vangelho com o “cães” e “m aus o breiros” (sua obra era m á, tanto nos seus propósitos quanto nos resu l­ tados, perceptíveis no esforço que despendiam para fazer p rosélitos e colocar os gentios convertidos debaixo do ju g o da Lei). Paulo os id entifica claram ente com a cir­ cuncisão, considerada por ele com o prática inócua no que se refere à graça. A palavra grega em pregada para circuncisão é peritom ê (“fazer incisão em v o lta”). O objetivo de Paulo é explicar


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que a cerim ônia da circuncisão não p assava dum a “in ci­ são” na carne com o qualquer outra. N ão que a circunci­ são em si não fosse honrosa - m as só enquanto vigorava o pacto que lhe deu origem . V indo a N ova A liança, porém , estabelecida por C risto e rejeitad a pelos judeus, a “circuncisão ” (carnal) deles acabou se tornando um m eio de privá-los da (verdadeira) circuncisão, a do espírito. A cerim ônia tornou-se m era “in cisão ” na carne, sem efeito espiritual, enquanto a verdadeira “circu n cisão ” atinge o coração, os lábios e os ouvidos do cristão (Jr 4.4; 6.10; 9.25,26). A verdadeira circuncisão é um a p rática espiritual, sig­ nificando um serviço apresentado a D eus pelo E spírito Santo e que g lorifica som ente a Cristo. O coração circuncidado não cede lugar ao egoísm o ou à vangloria (vv. 2,3). O apóstolo, em seguida, passa a citar algum as razões em que po d eria gloriar-se nas coisas naturais, se o qui­ sesse. Ele se coloca na posição vantajosa de ser judeu, a fim de re fo rç a r seu arg u m en to e ex p o r o erro dos judaizantes. “Paulo gozava dum a posição irrepreensível, segundo qualquer critério ju d aico , quanto à raça, nascim ento e seita. Ele era ‘u ltra ju d e u ’ e ‘u ltrafariseu ’. C ontudo, tais honras só são por ele m encionadas para que possa colocálas no pó, aos pés de C risto, abandonando-as ali com o coisas da m ais total in u tilid ad e” (W alker) . C om todo o direito e sem m edo de contestação, com o o Dr. W alker diz, Paulo p odia gloriar-se das seguintes coisas: • Sua posição quanto à A liança: “circuncidado ao oitavo dia” . E stava “por d en tro ” . • Sua raça: “da linhagem de Israel” . A pessoa podia ser circuncidada e não passar dum prosélito. No caso de Paulo, ele não era alguém de fora, “enx ertado” na árvore,


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Comentário Bíblico

m as da verdadeira linhagem ju d aica. C orria em suas v ei­ as o puro sangue judaico. • Sua fam ília: “da tribo de B enjam im ” . A fam osa tribo de B enjam im , o filho de R aquel, esposa preferida de Israel (Jacó). • Seu patriotism o: “hebreu de h eb reus” . Paulo não era helenista (dado apreciar e adotar a cultura grega), pois dera prioridade ao idiom a, m aneiras e costum es judaicos. • Sua ortodoxia: “segundo a lei, fui fariseu” . E ra dos m ais zelosos de sua religião. • Seu zelo religioso: “segundo o zelo, perseguidor da Igreja” . E ra com o um fanático, partidário apaixonado por suas convicções. • Sua autojustiça: “segundo a ju stiç a que há na lei, irrep reen sív el” . Paulo era o próprio tipo da piedade h e­ braica. M as, de que valera tudo isso? Do ponto de vista h e ­ braico, ele é com o o orgulhoso possuidor de fabulosa riqueza - m as hav ia algum ganho? N ão, não havia n e­ nhum ganho quando suas posses religiosas eram co n tras­ tadas com a “excelência do conhecim ento de C risto Je ­ sus” . Em lugar de ganho, havia perda. Sim , seu tesouro acum ulado dentro do ju d aísm o não passava de esterco (vv. 7,8).

2. Perm anecer em Cristo, prosseguindo para o alvo (3.9-14) A paixão que o dom inava agora, tendo possuído C ris­ to, era ser “achado n ele” - em qualquer m om ento, tanto no presente com o na eternidade. C risto era a fonte da sua vida e o cerne do seu ser, pelo que via a si m esm o com o a vara bem ligada à vid eira que é C risto. Só assim seria nutrido p ela seiva da vida, suprido em espírito pela co­ m unhão com o S enhor (v. 9a).


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U m a vez em C risto, Paulo dependia dEle para tudo, repudiando claram ente qualquer reivindicação de aceita­ ção perante D eus à base do m érito pessoal. Ele sabia que todo m erecim ento próprio, ainda que se derivasse do m ais elevado código de leis então conhecido (a Lei de M oisés), era incapaz de ju stificá-lo diante de D eus. A s­ sim, baseava sua reivindicação na absoluta ju stiç a que Deus proveu em C risto, p ela fé (v. 9b). A m aior ex periência que alguém pode conseguir na carreira cristã é conhecer a Cristo. Isso im plica, de um lado, em experim entar o poder da ressurreição a fim de suplantar as circunstâncias e se reg o zijar sem pre no Se­ nhor. De outro, im plica em p articip ar dos seus sofrim en­ tos, tom ar a cruz e segui-lo (cf. M t 10.36-38; Lc 9.22,23). Paulo não se opunha à “com unicação de suas aflições” , dispondo-se à obediência m esm o que significasse m o r­ rer pela causa daquE le que não vira obstáculo em subir à cruz por todos nós (v. 10). O apóstolo não tem ia a m orte, porque sabia que ela seria apenas um m eio de “chegar à ressurreição dos m ortos” . A esperança do apóstolo é que vida de Jesus, um a vez com partilhada aos crentes, term ine por conduzi-los à sua própria glória. C hegará o dia em que nos erguerem os dentre os m ortos, sendo transform ados para um a existência bem -aventurada para sem pre na presença do Senhor (v. 11). U m a vez iniciada a carreira, restav a um cam inho a ser percorrido. Sem se im portar com os obstáculos, e deixando todo o em baraço, ele prosseguia a fim de al­ cançar aquilo para o qual fora arrebanhado por C risto (v. 12; cf. Hb 12.1,2). A única atitude coerente e segura para o cristão é buscar aquilo que está adiante, à frente, sem olhar para trás. N osso progresso nas coisas espirituais deve ser contínuo, não pode sofrer solução de continuidade; n es­


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Com entário Bíblico

sa jo rn ad a não se perm ite inércia ou apatia. D a m esm a form a que om undo corre com o um rio num a direção contrária a C risto, p arar significa retroceder. Se não p ro ­ gredir, o cristão voltará atrás. Com o Paulo, esqueçam os das coisas que para trás ficam . Os enganos, equívocos e falhas - com prazer deles nos esquecerem os. Das vitórias alcançadas? Sim , porque se constantem ente estam os re ­ petindo a histó ria dessas bênçãos, não olharem os para a frente e nem alcançarem os as coisas m ais elevadas e m elhores que D eus tem para nós. P ortanto, se querem os chegar lá, avancem os para o que está adiante, “pelo p rê­ m io da soberana vocação em C risto Jesu s” (v. 14).

3. Admoestação contra o antinomianismo (3.15-21) O antinom ianism o (grego: anti — “contra” ; nom os “le i”) seria o extrem o oposto do legalism o. É um a form a de oposição à Lei que representa a inferência ou d edu­ ção, feita por alguns a p artir da d outrina da ju stificação pela fé, de que a Lei não im põe nenhum a obrigação sobre os crentes, inclusive quanto a aspectos m orais. O term o hoje aplica-se a todas as doutrinas e práticas que parecem condenar ou desfavorecer as obrigações m orais. Foi para corrig ir esse falso postulado que Paulo escreveu o argu­ m ento que se encontra em R om anos, capítulo 6. “E videntem ente, neste ponto o apóstolo deixa de lado os partidários do legalism o para concentrar sua atenção nos defensores da libertinagem . Parece que ele tem em m ente os m estres antinom ianos, quer em Rom a, quer em F ilipos, ou em qualquer outro lugar onde pregassem um a perfeição sim ulada e não cristã. Suas pretensas afirm a­ ções de ter alcançado conhecim ento e liberdade superio­ res os levaram a um com portam ento indulgente que logo degenerou num declarado estado pecam inoso. É contra os tais perversores do legítim o E vangelho que Paulo


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in v o c a seu p ro te sto , fa z e n d o sé rias a d m o e s ta ç õ e s ” (W alker). Ele se dirige (v. 15) aos que são “p erfeito s”, isto é, a “hom ens m aduros” e não a “crian ças” . N ão descartam os a possibilidade de Paulo estar em pregando um pouco de sarcasm o, dirigido contra alguns que se consideravam “p erfeito s” , gabando-se de conhecim entos superiores aos dem ais, quando, no entanto, seu com portam ento diário, evidentem ente, era incom patível com sua profissão. A todos, porém , Paulo insiste na aderência ao p rin cí­ pio que acabara de form ular, “ ...esquecendo-m e das co i­ sas que atrás ficam e avançando para as que estão diante de m im ” (v. 13). D iante dele estavam as m elhores coisas —o prêm io que todos desejavam (cf. v. 14). Para alcançálo, todos deveriam andar segundo a m esm a regra, sob um m esm o sentim ento (v. 16). Q uanto a isso, não se cons­ trangia em claram ente adm oestá-los a serem seus im ita­ dores (v. 17), pois ele tam bém im itava a C risto (1 Co 11.1). Em tudo seu exem plo era coerente, pois tinha em vista o alvo: Jesus. C risto era o padrão, e o segui-lo, a regra. C onform arse a C risto não era opcional, não con stitu ía um a p rerro ­ gativa irresponsável da liberdade, a m enos que não se rotulassem cristãos. E nquanto assim escrevia, seu coração estava contristado a ponto de chorar quando contem plava a m aneira indulgente de vida por parte dum bom núm ero de crentes que, apesar de professarem a C risto, na realidade viviam na glutonaria, em briaguez e sensualidade (vv. 18,19). “O grupo a que ele se refere era constituído provavelm ente por aqueles que distorciam o evangelho da graça e a doutrina da ju stificação p ela fé, transform ando-os em capa para um afrouxam ento pecam inoso na m aneira de viver. Por outro lado, era possível haver alguns que, apesar de defensores obstinados da Lei e extrem istas,


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viviam abertam ente no pecado. Isso porque o fanatism o cego, ligado ao culto das exterioridades m uitas vezes se deixa acom panhar pelo m undanism o e a im oralidade” (W alker). O fim deles era a perdição, pois só pensavam nas coisas terrenas. C um pre ressaltar aqui quão grave é perder a persp ectiv a da eternidade. N inguém pode p ro s­ seguir para o alvo que está em C risto Jesus, nem aguardálo com esperança, se vive preso às coisas do m undo. A palavra “n o ssa” , no versículo 20, pela sua posição gram atical, dem onstra enfaticam ente o contraste entre a vida descrita nos versículos anteriores e aquela que Paulo passa a descrever. “Eles viviam um a vida terrena e v er­ gonhosa, o que não acontece conosco, porque a nossa m etrópole está no céu, e ali estão os nossos interesses. O nosso alvo é alcançar o céu ” (Id em ). “M as a nossa cidade está nos céus” (v. 20): “cid ad e” significa “p átria”, “co ­ m unidade” , “m etrópole” à qual pertencem os com o cid a­ dãos. Som os representantes dessa pátria, enquanto estiv er­ m os aqui na Terra. Som os em baixadores em terra estran ­ geira (cf. 2 Co 5.20), aguardando ardentem ente o apare­ cim ento no céu do nosso S enhor e Salvador. N ossa re ­ denção será com pletada por Ele, que transform ará o n o s­ so corpo de hum ilhação. A referên cia “de h u m ilh ação ” que Paulo faz a nosso corpo confirm a as conseqüências da queda de A dão e Eva. A prom essa divina é que nosso corpo será tran sfo r­ m ado (no grego significa que tom ará sua form a v erdadei­ ra e perm anente) e feito conform e o corpo da sua glória, isto é, sem elhante ao corpo ressuscitado de Cristo. N este ponto o leitor deve pesquisar as referências alusivas à ressurreição de Cristo: M ateus 28.1-20; M arcos 16.1-20; Lucas 24.1-53; João 20.1-31; A tos 1.9. A consum ação dessa prom essa nos é assegurada, pois E le é poderoso para sujeitar a si todas as forças co n trári­


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as, sejam elas quais forem . Para os que têm sua esperança nos Céus, Jesus voltará e tran sfo rm ará seus corpos abati­ dos, segundo a eficácia do seu poder pelo qual nos dará um corpo igual ao seu, glorioso (v. 21). Ele agirá na sua onipotência.

4. Exortação à união, ao gozo, à paciência, à oração etc. (4.1-9) O bviam ente, a palavra “p o rtan to ” liga esta passagem à anterior (o capítulo 3). Q ue os filipenses, assim ilando a lição quanto aos libertinos, não dêem tam bém brecha ao diabo. Por isso ele, que tanto os am ava, faz questão de exortá-los a perm anecerem firm es nos seus princípios, prosseguindo adiante na força do S enhor (v. 1). Sem delongas, Paulo faz m enção direta a E vódia e a Síntique, duas possíveis diaconisas, iguais a Febe, as quais haviam cooperado ativam ente com ele nos seus labores apostólicos (v. 3). E xorta-as a cultivarem um sentim ento com um , esquecendo-se de suas dissensões, a fim de agradar ao Senhor de todos (v. 2). Ora, tais desa­ venças e disputas não podem ex istir num am biente im ­ pregnado com a m ente de C risto (2.3-8), pois procedem do orgulho, dum espírito faccioso e do egoísm o em suas várias form as. U m a vez tratado o problem a im ediato (a possível con­ tenda por questões pessoais), Paulo segue m inistrando exortações práticas. Q ue os filipenses possam alcançar um a vida de constante regozijo no S enhor (v. 4); que m anifestem “m oderação” (ternura, bondade,subm issão, paciência e espírito tratável para com todos), à luz da im inente segunda vinda de C risto (v. 5). E xorta-os tam ­ bém a não se deixarem oprim ir p ela ansiedade, já que o “Trono da G raça” está sem pre acessível às nossas súpli­ cas. D eus “guardará [literalm ente: “colocará um a g uarni­ ção m ilitar”] os vossos corações e os vossos sentim en­


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to s” , outorgando-lhes a sua p ró p ria paz, que resultará na m aior calm a e quietude reparadoras (vv. 6,7). O Dr. W alker com enta: “O apóstolo m ostra que o coração e os pensam entos do cristão, enquanto guarda­ dos em C risto Jesus por sua paz, ainda têm bastante cam po p ara sua p lena expressão. A nte seus olhos, esten ­ dem -se relvados verdejantes, cheios de belas flores, a serem apreciados pelo servo de D eus. É verdade que existem fronteiras que não devem ser ultrapassadas. M as tudo que é bom está dentro daquilo que D eus preparou para nós. A lém de suas fronteiras é perigoso aventurarse. N em em pensam ento deve o cristão atravessar seus lim ites. Este versículo, então, serve de orientação para quem deseja viver de m odo consciencioso, debaixo do favor divino e no gozo de sua paz. Fica claro que tal experiência é circunscrita por oito m arcos, dentro dos quais há segurança: o que é verdadeiro, honesto, ju sto , puro, am ável, de boa fam a, virtude e louvor” (v. 8). Já que o testem unho de Paulo pautava-se pela coerên­ cia e integridade, nada havendo em sua conduta digno de censura, ele p odia m uito bem concitá-los a seguir seu exem plo: “O que tam bém aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em m im , isso fazei; e o D eus de paz será convosco” (v. 9).

5. Grato pelas doações e contente em qualquer circunstância (4.10-20) E xternando sua gratidão, Paulo m ostra-se reconheci­ do pelos auxílios que lhe cobriram as necessidades tem ­ porais, enviados pela m ão de E pafrodito (v. 10). N o versículo 11, Paulo em prega um a linguagem cautelosa para não deixar a im pressão de que o versículo 10 indica­ va haver outras necessidades prem entes. O apóstolo já aprendera a estar contente, sob quaisquer circunstâncias - na abundância ou em necessidade, na fom e ou na fartu ­


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ra, com sobra ou privação de recursos - tudo porque se sentia apto em C risto, que o fortalecia (vv. 12,13). Paulo os elogia pelo socorro tão gentilm ente enviado, pois evidenciava a apreciação que nutriam por sua p es­ soa e o fato de com preenderem quão im portante eram a com unhão e o gozo desse m inistério de auxílio m útuo (vv. 14-16). M ostrando estar satisfeito, evita qualquer sugestão de que estivesse pedindo ajuda financeira (v. 17). As doações que receb era eram valiosas, esp ecial­ m ente porque evidenciavam o am or que tinham para com ele. O utra vez Paulo lhes agradece a generosidade, que perm itiu a ele ter abundância em tudo. O socorro deles a Paulo, o servo de D eus, era a prova de que os filipenses haviam entregue suas vidas com o holocausto sobre o altar do serviço cristão. D eus os recom pensaria abundan­ tem ente, suprindo todas as suas necessidades, segundo as suas riquezas em g lória por C risto Jesus (vv. 18,19; cf. E f 3.16; Cl 1.27).

6. Saudações finais (4.20-23) A glória por todas as coisas, em ú ltim a análise, p er­ tence a D eus “pelos séculos dos sécu lo s” . Finalizando, Paulo envia saudações pessoais a todos os santos em Filipos. T am bém seus com panheiros e m issionários, seus colegas, bem com o os santos em Rom a, alguns dos quais pertencendo ao círculo íntim o do próprio im perador, igual­ m ente os saudavam - não os conheciam de vista, mas pertenciam à m esm a fam ília de D eus (vv. 21,22). “A graça de nosso Senhor Jesus C risto seja com vós todos. A m ém ” (v. 23).


Tessalonicenses, o Exemplo na Fé I - Introdução

a

1 T

e s s a l o n ic e n s e s

Sugerim os ao leitor que passe os olhos p ela epístola, antes de pro sseg u ir a leitura deste com entário. U m a vez que nossa opção de estudo segue a ordem cronológica, as inform ações básicas p ara o estudo de 1 T essalonicen­ ses encontram -se em A tos 16 e 17. Sigam os agora os estágios da segunda viagem m issionária de Paulo que estão relacionados à T essalônica.

1. Arcabouço histórico e geográfico De Filipos, onde chegou a ser tratado v ergonhosa­ m ente (não obstante ter estabelecido ali um a vigorosa igreja, A t 16; 1 Ts 2.2), ele passou por A nfípolis e A polônia, chegando finalm ente a T essalônica, um a cida­ de relativam ente im portante no âm bito com ercial e p o lí­ tico, tom ando-se por referên cia os tem pos apostólicos. Seu nom e original era T herm a, vindo a cham ar-se po ste­ riorm ente T essalônica em honra à esposa de C assandro,


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Comentário Bíblico

que eça irm ã de A lexandre M agno. A cidade hoje é conhecida com o Salônica. D urante a Prim eira G uerra M un­ dial serviu de base operacional aos A liados. E stá situada cerca de quatro cen to s q uilôm etros a oeste da antiga C onstantinopla, atual Istam bul. Em tem pos antigos, era um a cidade poderosa e a capital dum a das quatro d iv i­ sões da M acedônia, situada à cabeceira do m ar Egeu. A distância de Filipos a Tessalônica com preende cerca de 160 quilôm etros, o que representa um a viagem de quatro dias. Paulo e Silas chegaram a Tessalônica provavelm ente com as costas dilaceradas depois dos maus tratos que sofre­ ram em Filipos. Ao que tudo indica, fizeram questão de arrum ar um a ocupação para não serem pesados aos irmãos, obtendo seu próprio sustento (1 Ts 2.9; 2 Ts 3.8). Em Tessalônica, Paulo pregou por três sábados consecu­ tivos na Sinagoga (At 17.2,3), levando alguns a abraçarem a fé cristã, os quais se uniram a Paulo e Silas (At 17.4). O m inistério de ensino de Paulo só foi interrom pido por causa de uns “judeus desobedientes”, responsáveis por um a intri­ ga que envolveu tanto o povo como os magistrados (At 17.5-8). Essa igreja, além dos mem bros judeus, era com pos­ ta em sua m aioria por gregos (provavelm ente prosélitos do judaísm o), entre os quais “não poucas mulheres distintas”, conform e o relato de Atos 17.4b.

2. O relatório de Timóteo T essalônica, então, tornou-se palco para a já co stu ­ m eira cena da perseguição ju d aic a (At 17.5-9), o que obrigou Paulo e Silas a fugirem para B eréia e depois (especialm ente Paulo) para A tenas (A t 17.10-15). Tal com o na Judéia e em outras igrejas recém -im plantadas, os perseguidores voltaram -se contra a igreja que se fo r­ m ava em T essalônica (1 Ts 1.6; 2.14; 3.3,4). Q uando Paulo tom ou conhecim ento disso, sua am orosa solicitude pelo b em -estar dos crentes fez com que lhes enviasse


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Tim óteo para orientá-los e confortá-los, encorajando-os a perm anecerem firm es face à perseguição (3.1-3). O regresso de Tim óteo, trazendo boas novas, foi que in sp i­ rou Paulo a escrever-lhes sua prim eira epístola (3.6-8). E xam inem os agora o com pleto relató rio de T im óteo, contido nessa epístola: • O pequeno grupo de crentes perm anecia fiel e dese­ ja v a m uito a volta dos m issionários. E ssa notícia serviu para tranqüilizar Paulo (3.1-7). • E videntem ente, os ju d eu s espalhavam notícias m ali­ ciosas a respeito de Paulo; im pugnavam seus m otivos e interpretavam de m odo errado sua conduta (1.14-16). • M al-entendidos a respeito da segunda vinda de C ris­ to continuavam nos corações de alguns irm ãos. O utros estavam enlutados com a m orte de entes queridos (4.13). N ote as palavras “ign o ran tes” e “en tristeçais” . • H avia irm ãos que, por não entenderem bem o tem po do arrebatam ento da Igreja pelo Senhor e seu relacio n a­ m ento com E le, tin h am ab an d o n ad o seus em pregos (4.11,12; cf. 2 Ts 3.10-12). • H avia um a tendência de suprim ir a m anifestação dos dons espirituais (5.19,20). • E xistiam ainda os que eram tentados a voltar às práticas im puras do paganism o (4.3-7).

3. Data e lugar C rê-se ter sido em C orinto, para onde se dirigira quan­ do deixou A tenas (A t 18.1-18), que Paulo escreveu esta epístola, cerca do ano 51 d.C ., pouco depois da chegada de T im óteo (3.1-5). A igreja nessa ocasião era com posta de crentes novos que passavam pelo fogo da perseguição. Observem os o propósito de Paulo, que parece ser quá­ druplo, ao escrevê-la: • Confirm ar a Igreja sobre os fundam entos que lhe foram ensinados (1.1-3.11).


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Comentário Bíblico

• Exortá-los ao crescim ento espiritual e à prática da santidade (3.12-4.12). • Confortá-los quanto àqueles que fisicam ente já haviam falecido como crentes, incluindo alguns m artirizados por sua fé (4.13-18). • Provê-los de exortações práticas quanto à sua conduta como crentes (5.1-28). Esta epístola é talvez o mais antigo dos docum entos cristãos, com exceção da Epístola de Judas, e contém m ui­ tas inform ações a respeito da segunda vinda de Cristo (cf. 2.19; 3.13; 4.15; 5.23). Grande parte de seu conteúdo é dedicado por Paulo a assuntos relacionados com a vinda do Senhor. O seguinte esboço tem ático (recom endamos sua m em o­ rização) é sugerido por Robert Lee, de Londres, segundo o qual a vinda de Cristo representa: • Uma esperança inspiradora para o novo convertido (cap. 1). • Uma esperança encorajadora para o servo fiel (2.1 a 3.11). • Uma esperança purificadora para o cristão maduro (3.12 a 4.12). • Uma esperança confortadora para o enlutado (4.1318). • Uma esperança despertadora para o crente indolente (cap. 5).

II

- 1 T e s s a lo n ic e n s e s

1. Capítulo 1 Paulo, com sua m aneira am ável, faz m enção dos seus cooperadores, saúda os crentes e dá graças a D eus pela “obra da fé ”, o “trabalho da caridade” e a “paciência da esperan ça” dos tessalonicenses perante o S enhor (vv. 1-


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3). O Dr. G oodspeed traduz essa tríade cristã da seguinte m aneira: “fé en erg ética”, “serviço am oroso” e “expecta­ tiva firm e no Senhor Jesus C risto ” são as m esm as v irtu ­ des m encionadas p o r Paulo em 1 C oríntios 13.13: a fé, o am or e a esperança. Esses elem entos do caráter cristão estavam em evi­ dência entre os irm ãos de T essalônica, com o se vê nos versículos 9 e 10: “dos ídolos vos convertestes a D eus” (“obra da fé”); “para servir o D eus vivo e verdadeiro” (“trabalho da caridade”) e “esperar dos céus a seu F ilh o ” (“paciência da esp eran ça” ). Os crentes tessalonicenses sabiam m uito bem terem sido beneficiados pela escolha divina, porque o E vange­ lho fora pregado a eles no poder do E spírito Santo, tendo um m ui digno exem plo na pessoa de Paulo e seus cooperadores. A segurança que desfrutavam no Senhor foi atestada pelo fato de que, apesar da perseguição feroz, receberam o E vangelho, seguiram a Paulo e, no m eio da aflição, experim entaram aquele gozo que som ente o E s­ pírito Santo pode conceder (vv. 4-6). O testem unho da estabilidade e firm eza de sua fé já era conhecido em todas as províncias da M acedônia e A caia. E tam bém além das fronteiras da G récia havia chegado a influ ên cia da nova assem bléia de irm ãos. E vi­ dentem ente, receberam algo do espírito evangelístico e m issionário dem onstrado por Paulo, m anifestando-o agora (vv. 7,8). A igreja que se m antém cheia do espírito evangelísti­ co dificilm ente estará às voltas com o problem a de to r­ nar-se fria e desviada.

2. Capítulo 2 Paulo fez num erosas referências à sua pessoa, não no sentido egoísta, m as para encorajá-los por seu próprio


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exem plo e testem unho a se tornarem servos exem plares do S enhor Jesus C risto. O servo ideal deve ser “ousado” e pregar o E vangelho a despeito da oposição (v. 2). D eve ser verdadeiro, sincero, portar-se de m aneira digna, não bajulador, nem avarento ou fraudulento, tendo a consci­ ência tran q ü ila perante D eus (vv. 3-5). O servo ideal é o de espírito brando que não busca glória para si. Ele não quer ser pesado para ninguém e não espera da igreja sustento financeiro dem asiado (vv. 6-9). A convivência de Paulo entre esses crentes fora to tal­ m ente coerente ao E vangelho que pregava. Sua postura para com eles era a de um pai am oroso (vv. 10,11). U m a vez que haviam recebido a m ensagem de D eus e e x p e rim e n ta d o na p ró p ria v id a seu s re su lta d o s, os tessalonicenses são exortados a dem onstrarem de m odo vivo este E vangelho diante dos outros, cultivando um andar digno perante D eus (vv. 12,13). Para reanim á-los, Paulo apresenta-lhes o relatório da posição corajosa tom ada pelos irm ãos da Judéia que estavam passando por grande aflições e tentativas persisten­ tes de destruir o E vangelho (vv. 14-16). Paulo expressa ainda seu ardente desejo de voltar a vê-los, no que fora im pedido pelo adversário (vv. 17,18). N os versículos 19 e 20, sem dúvida, Paulo está se referindo à coroa de louros que recebiam os atletas v en ­ cedores nos jo g o s do seu tem po, um a figura de retórica freqüentem ente usada por ele (cf. 1 Co 9.25; 2 Tm 2.5; 4.8). Im agina-se Jesus, ao voltar, cercado gloriosam ente pelos tessalonicenses triunfantes, sendo eles o fruto dos seus labores. E assim será com todo evangelista, pastor, m issioná­ rio, professor de E scola D om inical ou qualquer obreiro cristão que estiver servindo com fidelidade na hora da vinda do Senhor.


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3. Capítulo 3 N este capítulo, observam os a solicitude de Paulo pelo bem -estar da nova assem bléia (v. 1) à qual enviou T im ó­ teo, visando prom over-lhes o encorajam ento frente à ad­ versidade. Ora, não fora à toa que anteriorm ente lhes avisara que os verdadeiros crentes passariam por tribulações (vv. 2-4). E videntem ente, ele dem onstrava um p o u ­ co de preocupação, tem endo um eventual en fraqueci­ m ento da parte deles (v. 5). C ontudo, foi grandem ente encorajado pelo relatório de T im óteo, anim ando-se a p er­ m anecer firm e na sua própria esfera de trabalho, co n tan ­ do com a firm eza de fé e o desejo dos tessalonicenses em revê-lo (vv. 6,7). Paulo alegrou-se m uito em ver a co n s­ tância e a firm eza das assem bléias que tivera ocasião de fundar (v. 8). Os crentes eram para ele m otivo de grande regozijo e inspiração. As notícias que recebera deles o deixara ex­ trem am ente desejoso de revê-los. A ssim , ele esperava que, na p rovidência de D eus, um a viagem lhe fosse p er­ m itida (vv. 9-11). De certa form a, ainda orando a D eus, ele os exorta a buscarem m ais e m ais aquele am or abundante que deve existir entre os crentes, capaz tam bém de atingir os h o ­ m ens em geral; era esse am or que seu coração inclinavase a retrib u ir (v. 12). E ssa infusão de am or, que constitui a p rópria essência do E vangelho, seria um a contribuição decisiva p ara que se com pletasse a santificação dos tessalonicenses por ocasião da vinda do Senhor (v. 13).

4. Capítulo 4 Paulo reconhece que de m odo geral essa igreja se com porta dum a m aneira agradável a D eus. C ontudo, os


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Comentário Bíblico

exorta a se tornarem cada vez m ais plenos nas virtudes cristãs, segundo as norm as que lhes ensinara (vv. 1,2). E ntretanto, um perigo os am eaçava. O m undo rom ano era pagão ao extrem o, caracterizando-se por um padrão dissoluto de m oralidade. E ra um m undo absolutam ente im oral. P or isso Paulo os exorta a afastarem de si as cobiças da carne. Q uanto a isso, o Dr. L ange faz o seguinte com entário: “Este aviso contra os pecados grosseiros não nos deve surpreender. O E vangelho não nos afasta, com o que por encanto, de todo perigo de sedução... O sensualism o é um a forte cobiça para o hom em natural, e m ilita contra a santificação. Paulo refere-se a estas coisas sem em pregar qualquer pudicícia excessiva ou fingir qualquer esp iritu ­ alidade espúria. A quilo que pertence à natureza hum ana ele m enciona tal com o é. N ão disputa o que pertence à necessidade natural, m as ao m esm o tem po, insiste em que haja discip lin a p ró p ria e que esse instinto tam bém seja usado dum a m aneira co rreta” (vv. 3-8). N o versículo 9, Paulo passa do lado negativo da san ti­ ficação - necessário, é claro - para o lado positivo onde, de fato, todo problem a da vida cristã pode ser resolvido. E questão de “am or fratern al” (cf. 3.12; 5.13) para com os outros cristãos, m em bros da m esm a fam ília (1 Jo 4.712), o que é da m aior im portância. Paulo os louva pela evidente m anifestação dessa graça com seus irm ãos na M acedônia, contudo apela para que alcancem um fervor ainda m ais abundante (vv. 9,10). Com o previam ente notado no relatório de T im óteo a Paulo, parece que alguns interpretaram m al o ensino de Paulo sobre a im inência do retorno do S enhor à Terra, pensando se tratar de um a perm issão para a ociosidade. T alvez tenham assim arrazoado: “Se Jesus vem tão b re­ ve, por que tanto cuidado e esforço p ara prover as neces­ sidades diárias? Por que não dedicar nosso tem po a um a


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atividade exclusivam ente espiritual e esperar sobre o topo de algum a m ontanha [com o certos grupos em nosso tem ­ po têm feito] o som da tro m b eta?” (4.11,12). A resp o sta encontra-se nas palavras do próprio S e­ nhor, que disse: “N egociai até que eu venha” (Lc 19.13). Isto significa dedicar-se prudentem ente às lides norm ais da vida sem descuidar de que nossa esperança está nos céus, donde aguardam os o S enhor (cf. Fp 3.20). John W esley respondeu de m odo sem elhante quando alguém lhe perguntou o que faria se soubesse que o S enhor viria no dia seguinte, à m eia-noite: “Eu me ocu­ paria dos afazeres norm ais já planejados. P regaria esta noite em G loucester e outra vez am anhã de m anhã. D e­ pois iria a cavalo até T ew kesbury, pregar ali na parte da tarde e ter um encontro com os irm ãos à noite. E após, iria à casa do m eu am igo M artin, pois acho que ele se p repara para m e hospedar. C onversaria com ele, oraria com sua fam ília e m e retiraria ao quarto às 22 horas, quando m e encom endaria ao m eu Pai C elestial, dorm iria tranqüilo e acordaria na p lena glória do S enhor” . Isso significa m anter um a confiança im plícita no S e­ nhor, certos de nossa posição em C risto, o que resulta naquela segurança de se estar vivendo dentro da plena vontade de D eus - ou de estar p rep a ra d o ! V em agora a revelação vital, im portante e surpreen­ dente, relativa ao destino dos santos, que m uito nos confor­ ta, e de m odo prático (vv. 13-18). E sta revelação não é um a repreensão da parte de Paulo aos tessalonicenses, mas sim um a m ensagem recebida diretam ente do Senhor, com o propósito de aquietar a solicitude p ara com alguns irm ãos já falecidos, talvez com o m ártires, ou m esm o em circunstâncias norm ais. Parece que os tessalonicenses não tinham um a opinião clara sobre a sorte desses ir­ m ãos. Paulo considera-os com o aqueles que já dorm em (v. 13).


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A arqueologia cristã, por m eio dos epitáfios tum ulares, tem trazido à nossa apreciação aquela doce confiança em D eus de que a separação dos entes queridos é tem porária. V ejam os alguns deles: Q uerido Sim plio vive na eternidade G em ella dorm e em p a z R ecebido p o r D eus A lexa n d re não está morto, m as vive além das estrelas Ele dorm e, m as vive E le repousa no Senhor Jesus N enhum a evidência há de que Paulo acreditasse no “sono da alm a” , um a heresia que hoje é propagada por algum as seitas. E le está sim plesm ente em pregando a m esm a linguagem figurada que o próprio S enhor usou ao referir-se à m orte do corpo, que aparentem ente apenas dorm ia (cf. M t 9.24). Paulo dá a entender que aqueles que dorm em no S e­ nhor aguardam a consum ação final da ressurreição (cf. Fp 1.21-24), enquanto os crentes vivos serão trasladados por ocasião da segunda vinda de C risto, sendo este o destino dos santos (1 Co 15.51-53). Os detalhes desta passagem são m uito óbvios, m as de qualquer m aneira apresentam os o seguinte esboço que poderá servir de m odelo ao se estudar outras porções das Escrituras. a. A afirm ação da verdade da ressurreição de C risto (v. 14a). b.O lugar seguro dos santos que já partiram “em Je ­ sus” (v. 14b), cuja “vida está escondida com C risto em D eus” (Cl 3.3b). c.O s c re n te s v iv o s que p a rtic ip a re m do rap to da Ig re ja n ão terão v a n ta g e m so b re os c re n te s fa le c id o s (v. 15). d. A convocação do alarido e da voz do Arcanjo (v. 16a).


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e. A ressurreição dos crentes falecidos na Prim eira R essurreição (v. 16b). f. A subida em conjunto dos santos vivos [transform a­ dos] e m ortos [ressurretos] (v. 17a). g.O destino: “ ... estarem os sem pre com o S enhor” (v. 17). h .O valor prático desta verdade: “ ... consolai-vos uns aos outro s...” (v. 18). Q ue m aravilhosa revelação do propósito de D eus e do destino glorioso dos seus am ados, aos quais redim iu!

5. capítulo 5 O a p ó sto lo tra ta ag o ra d a a p lic a ç ã o p rá tic a da v e r­ dad e já c o m u n ic a d a a eles so b re o “D ia do S e n h o r” . E sta c rise c ro n o ló g ic a é um m o m en to de in te rv e n ç ã o d iv in a nos a ssu n to s dos h o m en s com o ju íz o sobre eles, ten d o em v ista o p ro p ó sito m a io r de in tro d u z ir um n o v o siste m a no m u n d o . D eu s, no seu p ro p ó sito e tern o , tem d e te rm in a d o ce rto s tem p o s (a p a la v ra g re ­ ga k a iro i s ig n ific a “c ris e s ” , “tem p o s d e c is iv o s ” ou “ép o cas em c a tá s tro fe ” ) re la c io n a d o s ao e s ta b e le c i­ m en to do n o v o siste m a (v. 1). A presente época ou ordem de coisas term inará com um a desastrosa calam idade para quem não estiver p rep a­ rado. M as o crente vigilante pode ficar tranqüilo, confi­ ando no Senhor, pois para ele tudo ficará bem. Isso não significa que não deva m anter a com postura e estar p re­ parado para o “D ia do S enhor” . Q uem procede retam ente não se intran q ü iliza nem vive indagando ou fazendo cál­ culos, cercado de ansiedade, sobre a data exata do reto r­ no do Senhor. T am bém não se deixa levar pela idéia de que Jesus não virá tão cedo, perm itindo-se a desordem espiritual.


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Comentário Bíblico

Tal estado de preparação requer v ig ilância - esta as­ segura a divina ilum inação dos “filhos da lu z” (v. 5), e aq u ele, a c o n sc iê n c ia do sig n ific a d o dos “te m p o s” (<chronoi) e das “estações” (ka iro i), m encionados no v er­ sículo 1. O “D ia do S enhor” apanhará de surpresa o m undo sem D eus com o o ladrão que realiza seu trabalho “de n o ite”, sem se anunciar (v. 2). E ste surpreenderá os que não estiverem preparados, ainda que detentores dum falso sentido de “paz e segu­ ran ça”, resultando na m aior calam idade. Q uando o m un­ do falar de “paz” , crendo tê-la obtido, suas palavras serão um presságio de “repentina destruição, com o as dores de parto àquela que está g ráv id a...” (v. 3). No entanto, em contraste a esta tranqüilidade traiço ei­ ra e falsa, Paulo trata os tessalonicenses de “filhos da lu z” e “filhos do dia” , entre os quais se inclui. A ssim , focaliza a necessidade de vigilân cia e sobriedade e de valer-se das arm as “da lu z” (cf. R m 13.12) para a batalha espiritual (estam os realm ente em batalha). E specifica­ m ente, m enciona a “couraça da fé e do am or” e o “cap a­ cete da salvação” (vv. 4 a 8; cf. E f 6.10-20). O assim cham ado “D ia do S enhor” e sua relação cro ­ nológica com o rapto da Igreja (1 Ts 4.13-18) não é o assunto em pauta no versículo 9, onde o que se explica em term os práticos é o significado da “esperança da salvação” , citada no final do versículo 8. Paulo m ostra que aconsum ação da nossa expectativa está em Cristo, que nos garante o escape incondicional da ira (pois tal é o “D ia do S enhor”) m ediante o arrebatam ento (vv. 9-11; cf. 4.17). Segue agora nos versículos 12-22 um a série de exor­ tações concisas, sucedendo-se um a à outra de form a ráp i­ da e com ênfase distinta, quais tiros de um a arm a de fogo. E m bora os irm ãos divinam ente colocados em p o si­


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ção de liderança não tenham aqui seus títulos m enciona­ dos, quer fossem “an cião s” (presbíteros) ou “b isp o s” , encontram os algum a indicação de suas funções nestas expressões: “os que trabalham entre v ó s” , “que presidem sobre vós no S enhor” , “vos adm oestam ” . Tais líderes devem ser respeitados, estim ados e receber a m ais estrei­ ta cooperação a fim de que reine a paz no m eio da assem bléia (vv. 12,13). A palavra “desordeiros” (v. 14), do grego ataktos, é um term o aplicado ao soldado que não se m antinha firm e na sua fileira. Por inferência, então, entendem os que o crente que abandona o seu lugar, sua fileira ou posição, que larga o cam inho reto, seguindo rotas irregulares e incertas, é desordeiro e rebelde. E stritam ente falando, esta palavra aplica-se à pesso a que não quer trabalhar ou que vive na dissolução e, no sentido m ais am plo, a qual­ quer pessoa que de um m odo ou de outro violam a ordem , com o os ébrios, m alfeitores e avarentos, além dos “ocio­ sos” e “p reg u iço so s” . A instrução “consoleis os de pouco ânimo” pode ser m elhor expressa com o “encorajeis os de pouca disposi­ ção” . A qui podem os incluir os irm ãos que estavam enlutados, ou os abatidos por causa da perseguição, ou ainda os que escrutinavam dem ais a si próprios num a prática indevida da “in tro sp ecção ” . A expressão “sustenteis os fracos” é um a adm oestação para “cuidar bem deles e não os d esp rezar” . Lange, com entando esta passagem , assim escreve: “É com um perder-se a p aciência com os fracos, com o gente que está sem pre criando problem as sem nunca alcançar um resu l­ tado po sitiv o ” . Paulo está pensando nas pessoas fracas na fé e na consciência, que não progridem e, quais crianças, facilm ente se escandalizam . A adm oestação “sejais pacientes para com todos” sig n ifica que devem os ter p aciên cia e suportar com


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Comentário Bíblico

longanim idade a todos - os desordeiros, os desanim ados, os fracos ou<quem porventura estiver precisando. E quem não precisa de paciência? Com o disse alguém : “C erta classe de gente p recisa dum tratam ento especial, m as todos precisam de paciên cia.”

“Vede que ninguém dê a outrem mal por mal” (v. 15a) é um outro conselho paulino de extrem a seriedade. Q uando contem plam os a nós m esm os e a com unidade cristã de m odo realístico, não idealizado, som os obriga­ dos a confessar que m uitas vezes surge a tentação de revidar, “dar o tro co ”, “ ajustar as contas” , dar expressão aos nossos ressentim entos carnais. M as tais m edidas, com uns ao hom em natural, nada valem no sentido espiri­ tual; apenas pioram a situação. “Segui, sempre, o bem” (v. 15b). O que urge ser feito, e nada há m elhor que isso, é um esforço autêntico de pagar o m al com o bem , o ódio com o am or e a provocação com a resp o sta branda (cf. Pv 15.1). Tais opções conduzem sem pre à vitória. E sta adm oestação relaciona-se diretam ente com a do versículo 22 (com pa­ re-as). “Regozijai-vos sempre” (v. 16). A qui está o segredo da vitória contínua. T al postura denota a confiança de que “todas as coisas [inclusive a perseguição, a adversi­ dade, os m al-entendidos etc.] contribuem juntam ente para o bem daqueles que am am a D eus” (Rm 8.28). O regozijo contínuo no S enhor produz um clim a espiritual que n eu ­ traliza o inim igo, deixando-o definitivam ente fora de ação. “Orai sem cessar” (v. 17). Paulo orava “dia e noite” (3.10). E tam bém trabalhava “noite e dia” (2.9). É claro que Paulo usa aqui um a figura de linguagem . Ele tam bém tinha seu tem po de sono, suas horas de descanso e outras ocupações. C orretam ente entendida, nada im pede que pratiquem os esta exortação, a qual poderia ser definida


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com o a constância na p rática da oração, p ela qual a vida inteira se caracteriza na procura deliberada das coisas de D eus. T am bém a relação entre oração e trabalho, p ro p ri­ am ente com parada, m ostra o equilíbrio que deve pautar a vida do cristão que, com sabedoria, cuida tanto do corpo com o do espírito. “Em tudo dai graças...” (v. 18a), isto é, em toda situação, em todo caso. H á tantas coisas pelas quais de­ vem os dar graças! A graça de D eus que salva, em si, já exige um a gratidão de nossa parte, a todo instante, sem falar nas m uitas bênçãos “ex tras” . “Não extingais o Espírito” (v. 19); “Não desprezeis as profecias” (v. 20). Em contraste com a vida eclesiás­ tica dos coríntios (1 Co 12-14), na qual os dons de lín ­ guas e de p ro fecia estav am m uito em evidência, os tessalonicenses talvez tivessem a tendência de subesti­ m ar o valor dos dons do E spírito Santo. Eles haviam esquecido - talvez nem tivessem sido instruídos - de que os dons sobrenaturais proviam o m eio pelo qual a igreja podia ser enriquecida pelos m inistérios do C onsolador. O Dr. Lange com enta: “Essa dissidência provavelm ente pro­ cedia m ais do valor que atribuíam ao intelecto e à ordem nos cultos; e não, com o em C orinto, de exagerar o valor das lín g u as” . “Examinai tudo...” (v. 21a). As versões de Goodspeed, M offatt e W eym outh (em inglês) todas concordam que a palavra “exam inai”, neste versículo, refere-se a avaliar as mensagens proféticas. Pela referência de 2 Tessalonicenses 2.2 (“... quer por espírito...”) é evidente que a igreja em Tessalônica sofria, de algum modo, a pressão de falsos profetas. Quanto mais pura a vida espiritual da igreja, mais sutis e persistentes os ataques satânicos contra ela. Portanto, não nos deve surpreender que falsas m anifestações espiritu­ ais tentem se introm eter e desviar alguns da fé. A Palavra de Deus freqüentem ente nos alerta contra tais instruções, que


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vêm em nom e de Deus mas não têm nada dEle. Esta exorta­ ção acom panha a linha de pensam ento encontrada em 1 Coríntios 14.29, que diz: “E falem dois ou três profetas, e os outros [p lural, no grego] ju lg u e m ” . M o ffatt traduz: “discirnam ”, isto é, “exerçam juízo sobre o que foi falado”. “Retende o bem” (v. 21b). U m a vez que exam inam os tudo quanto se nos apresenta, apenas o bem deve ser retido, isto é, as coisas boas, construtivas, santas e louvá­ veis. O resto deve ser apartado, rejeitado. A retenção do bem nada m ais é que o resultado prático disponível àque­ les que ex ercitam seu discernim ento na dependência do E spírito Santo. O exercício dessas faculdades nos p erm i­ tirá crescer esp iritualm ente rum o à m aturidade (cf. 1 Co 3.2; Hb 5.14). “Abstende-vos de toda a aparência do mal” (v. 22). D evem os evitar todo tipo de m alignidade, inclusive as coisas que dum a form a ou de outra possam apresentar qualquer conexão com ela. N ão só o m al, assim reco n h e­ cido, m as a própria aparência do m al traz prejuízos. U m bom exem plo a ser seguido é o de Jó, de quem D eus testem unhou que se afastava do m al (Jó 1.8). A essência do ensino do versículo 23 é a tríplice natureza do hom em : “espírito, alm a e corpo” . O hom em tem um a n atureza tríplice e, em sentido restrito, é um a som bra do trino D eus. O Dr. C. I. S cofield (autor da B íblia de E studo que leva o seu nom e) assim com enta: “A alm a e o espírito hum anos não são idênticos, com o se prova pelo fato de que há divisão entre eles (Hb 4.12), e que há um a n ítida distinção entre am bos no sepultam ento e na ressurreição do corpo. Sem eia-se corpo anim al (na­ tural) [do grego: som a psu ch iko n —“co rpo-alm a”], e re s­ suscitará corpo espiritual [do grego: so m a p n eu m a tiko n — “corpo -esp írito ”], isto é, anim ado e controlado pelo esp í­ rito (1 Co 15.44-46). Portanto, declarar que não há d ife­ rença entre alm a e espírito significa dizer que não há


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diferença entre o corpo m ortal e o corpo ressuscitado. Paulo claram ente afirm a que existe essa diferença” . Este assunto é vasto dem ais para ser tratado de m odo exaustivo neste estudo. C oncluirem os com a expressão do autor G. A. Pem ber: “O corpo pode ser considerado a parte na qual reside a consciência sensível e física (a consciência cósm ica); a alm a representa a consciência de si próprio; o espírito, a co nsciência de D eus. A alm a nos dá o intelecto que nos fornece as condições adequadas para a nossa presente existência e as em oções proceden­ tes dos sentidos. O espírito é a parte m ais elevada, vindo diretam ente de D eus, e por ele podem os aprender a ado­ rar a D eus. O corpo põe à nossa disposição os cinco sentidos físico s” . E m sua oração (v. 23), Paulo ora para que o nosso ser inteiro seja santificado, consagrado a D eus e conservado plenam ente são e irrepreensível para a vinda do nosso Senhor Jesus Cristo. A epístola, iniciada com ação de graças, encerra-se agora com a confiante expectativa da parte de Paulo de que D eus, que é fiel, com pletará neles a obra que com e­ çou (v. 24). D a parte de D eus não pode haver nenhum a falha (cf. Fp 1.6). Os versículos finais expressam a necessidade que Paulo sente da com unhão desses irm ãos na oração e do calor de suas afeições - tal com panheirism o na oração e no am or deveria caracterizar todos os crentes. Esses versículos contêm ainda as instruções de Paulo quanto ao uso da epístola e, com o de praxe, a bênção final (vv. 25-28). III - Introdução

a

2 T

e s s a l o n ic e n s e s

E sta epístola, m enor que a prim eira, evidentem ente foi escrita logo após aquela. A ocasião pode ter sido


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Comentário Bíblico

quando o p ortador da p rim eira (talvez Tim óteo, com o já vim os), retornando, trouxe a Paulo seu relatório. O bservem os o fundo histórico da epístola em referên ­ cia. N o intervalo entre um a e outra epístola, apesar de pouco extenso, parece terem surgido cartas espúrias (cf. 2.2). M as tudo indica que Paulo ainda se encontrava em C orinto, na com panhia de Silas e Tim óteo. N aquela ocasião, graves perigos am eaçavam a igreja em T essalônica: a. Os crentes estavam dem asiadam ente preocupados com a v inda do Senhor. b.P en sav am que a vinda de C risto seria por aqueles dias. c. E videnciava-se um espírito de desordem , com sultado de terem negligenciado os afazeres cotidianos. O deão F arrar, no seu liv ro The E a rly D ays o f C hristianity (“Os P rim eiros D ias do C ristianism o”) rela­ ta que um espírito inquietante, de alarm e, até m esm o no m undo pagão da época penetrava os hom ens. Os m ais sérios historiadores daquele período relatam sinais e p ro ­ dígios m isteriosos que faziam os corações trem erem de m edo. A lém desse espírito portentoso que se fazia sentir no m undo rom ano, os tessalonicenses estavam sendo seve­ ram ente perseguidos (1.4). E stavam sendo afligidos e atribulados por falsos profetas, os quais ensinavam que o dia da vinda do S enhor já chegara, em vez de ensinar o arrebatam ento da Igreja para encontrar o Senhor nos ares, com o Paulo lhes instru íra (1 Ts 1.10; 4.13-18; 2 Ts 2.5). O leitor deve ler e estudar as passagens de Joel 1.15; 2.1; 3.9-14 e Isaías 2.10-22 p ara obter inform ações p ró ­ prias do “D ia V indouro do S enhor” . O texto de referên ­ cia que Paulo aplicava para dar-lhes instrução era o A n ti­ go Testam ento.


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1. Versículos chaves Os versículos 1 e 2 do capítulo 2 servem com o ele­ m ento fundam ental para a com preensão de toda a ep ísto ­ la. E sta passagem diz: “O ra, irm ãos, rogam o-vos, pela vinda de nosso S enhor Jesus C risto e p ela nossa reunião com ele que não vos m ovais facilm ente do vosso entendi­ m ento, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, com o de nós, com o se o D ia de C risto estivesse já p erto ” . E necessário entender claram ente que estes versículos são vitais à com preensão da m ensagem e do sentido geral da epístola. P ara esclarecer o sentido desta passagem , apresentam os as versões de três eruditos, traduzidas em português: a.O D r. G o o d sp e ed diz: “C om re sp e ito à v in d a do S en h o r Jesu s C risto e à n o ssa re u n iã o com ele, rogov os, irm ão s, que não fiq u e is p re o c u p a d o s ou e m o c io ­ n ad o s p o r q u a lq u e r e s p írito de p ro fe c ia ou d e c la ra ç ã o ou c a rta com o se fo sse n o ssa, d iz en d o que o D ia do S e n h o r já c h e g o u ” . b.O Dr. M offatt assim o traduz: “C om respeito à vin­ da do Senhor Jesus C risto, e à nossa reunião perante ele, rogo-vos, irm ãos, que não fiqueis tão facilm ente preo cu ­ pados ou perturbados por qualquer espírito de profecia ou declaração que seria m inha, dizendo que o D ia do S enhor já chegou” . c. O Dr. W eym outh propõe: “C om respeito à vinda do nosso Senhor Jesus C risto e à nossa reunião com ele, rogo-vos, irm ãos, que não fiqueis perturbados por qual­ quer pretensa revelação espiritual, nem por qualquer de­ claração ou carta com o se fosse de m inha autoria, im agi­ nando que o D ia do Senhor já tenha chegado” . Para tornar mais com pleta a exposição desta passagem farem os um a paráfrase {paráfrase é um a declaração do


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texto ou passagem , apresentada noutra forma, geralm ente com o intuito de esclarecer e am pliar o sentido —Dicionário Webster): “A gora rogam o-vos, irmãos, com respeito à vin­ da (parousia, no grego, significando ‘estar presente’) do Senhor Jesus Cristo e com respeito à nossa união (esta m esm a palavra grega é usada em Hebreus 10.25 - ‘não deixando a nossa congregação...'') com ele (tal qual vos ensinei na carta anterior - 1 Ts 4.13-18), que não fiqueis logo abalados em vossos pensam entos (isto é, não percam aquela convicção sobre a verdade com o a aprendestes), nem por um a revelação qualquer dada no reino espiritual (algu­ m a falsa m anifestação, supostam ente atribuída ao Espírito Santo) e nem por algum a m ensagem ou carta que alguém diga ser de m inha autoria, que o D ia do Senhor (não o “D ia de Cristo” —o texto grego é muito claro) está já presente” . Em resum o, podem os então notar nesses versículos que falsos m estres inescrupulosos procuravam roubar dos irm ãos tessalonicenses a bendita esperança (Tt 2.13), chegando ao extrem o de forjar um a carta com o se fosse do próprio punho de Paulo (2.2). E videntem ente, ex isti­ am m ensagens proféticas falsas que im itavam os dons de profecia e de interpretação (2.2). O grande assunto de 2 T essalonicenses é estabelecer, portanto, a relação correta entre o D ia do S enhor e as duas fases da vinda de C risto, quais sejam o rapto da Igreja (arrebatam ento, num p iscar de olhos) e a revelação do Senhor (m anifestação em glória, quando todo olho o verá). N a p rim eira carta aos T essalonicenses Paulo ap re­ sentara a p rim eira fase. A gora, ele entra em porm enores sobre a segunda.

2. Um contraste A inda com o parte da introdução, vale notar os seguin­ tes contrastes entre as duas epístolas:


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A segunda epístola, no seu todo, pressupõe a existên­ cia da prim eira. A prim eira relata a histó ria da conversão dos tessalonicenses; a segunda m ostra o progresso e o desenvolvim ento espiritual que haviam alcançado. A p ri­ m eira trata da possível proxim idade da vinda de C risto; a segunda corrige um conceito falso sobre essa doutrina. A prim eira contém avisos am áveis contra o espírito de d e­ sordem ; a segunda é de caráter ofensivo, atacando com m aior veem ência o m al que resiste. E ncontram os em 2 T essalonicenses 2.15 um a referên cia à p rim eira epístola, e 2 T e s s a lo n ic e n s e s 2.1 fa z u m a in f e r ê n c ia a 1 T essalonicenses 4.17.

3. Capítulo 1 H á u m a se m e lh a n ça e n tre a sa u d aç ão d esta e p ísto la e a da p rim e ira (vv. 1,2). O s re m e te n te s são os m e s­ m os, e em am b as P au lo a g ra d ec e a D eus p o r seus d e stin a tá rio s. C o n tem p lan d o a g raça de D eus o p eran te n ele m esm o e o que e la p ro d u z ira n esses irm ão s, ele sen te um a c e rta u rg ê n c ia (“ d e v e m o s” , v. 3), um c o n s ­ tra n g im e n to d iv in o , no sen tid o de a g ra d e c e r ao S e ­ n h o r p elo p ro g re sso n a “fé ” e n a “c a rid a d e ” (lite ra l­ m en te, “ a m o r”) d em o n stra d o p e lo s irm ão s com o c o n ­ se q ü ê n c ia de terem o b e d e cid o às suas ex o rta ç õ e s a n ­ te rio re s (1 T s 3.12; 4 .1 0 ). Os v en to s da p e rse g u iç ã o c o n se g u ira m fa z e r com q u e os irm ão s se a p ro x im a s ­ sem a in d a m ais n a a fe iç ão fra te rn a l. S u a fo rç a m o ral e p e rs is tê n c ia eram tão e v id e n te s que P au lo ap ro v e ito u o en sejo p a ra o rg u lh a r-se d eles, d isc re ta m e n te , ao e s ­ c re v e r às o u tra s ig re ja s (v. 4). A força m oral e a estabilidade que haviam dem onstra­ do sob o im pacto da prova constituíam sinais da aprova­ ção divina sobre eles. A provação, com o em todas as relações de D eus com seus filhos, dem onstrava serem dignos do seu R eino, pelo qual estavam sofrendo. O


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sofrim ento, em vez de destruí-los, dar-lhes-ia m aior re ­ sistência (v. 5). D eus, sendo ju sto , no tem po próprio daria a ju sta retribuição aos que lhes haviam causado sofrim ento (v. 6). Os tessalonicenses, apesar de atribulados no presente, receberiam do S enhor um repouso glorioso no porvir, juntam en te com Paulo e todos os santos que suportaram a aflição pelo nom e de Cristo. N o dia em que o Senhor se m anifestar no céu, acom panhado de poderosas hostes angelicais, a tribulação terá valido a pena (v. 7). N essa trem enda consum ação dos séculos, o ju ízo virá sobre as nações iníquas e sobre todos quantos rejeitaram as boas novas da graça de D eus, os quais serão banidos para sem pre da sua presença. E nquanto o m undo ím pio estiver sendo julgado, os santos estarão desfrutando o descanso e a m aravilhosa tranqüilidade da presença e glória do Senhor. N otem os que os ím pios serão punidos. D aí subtende-se que tam ­ bém estarão em estado consciente, de m odo a sentir essa punição. Sendo que a punição é eterna, forçosam ente entendem os que assim é tam bém o estado consciente. A p alavra “p erd ição ” (v. 9) não significa aniquilam ento ou exterm ínio, m as o gosto am argo da ruína. Com o exem ­ plo, tem os M ateus 9.17, onde encontram os os odres que se estragam , vocábulo que vem da m esm a palavra grega aqui traduzida por p erdição. A “p erd ição ” ilustra-se por um autom óvel destroçado ou um navio naufragado - não deixaram de existir, m as já não cum prem seu propósito inicial. Q ue sorte terrível! M as os irm ãos tessalonicenses estavam não só em bar­ cados rum o à recom pensa celestial, m as iam de vento em popa! “ ... porquanto o nosso testem unho foi crido entre vós” (v. 10). N ão obstante, Paulo insiste em orar por eles para que o vento de D eus “lhes enchesse m ais as velas” . O im portante é que pudessem alcançar logo o propósito


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divino para si m esm os. A ssim cum pririam a resolução tom ada, com pletando sua “obra da fé” (v. 11). A lcança­ dos esses objetivos, p ela graça de D eus, o nom e de Cristo seria m ais ainda glorificado neles (v. 12). Jam ais nos esqueçam os de que C risto fez em cada um de nós um investim ento de infinito valor. Ele, com gran­ de paciência, aguarda o dia da consum ação, quando en ­ fim estarem os para sem pre em sua doce com panhia.

4. Capítulo 2 4.1. O D ia do Senhor. U m a vez que na introdução com entam os am plam ente os dois versículos iniciais do capítulo 2, passem os ao ensino sobre o “D ia do S enhor” . N a prim eira epístola, Paulo fizera apenas um a ligeira referên cia ao assunto (1 Ts 5.2). E evidente que os tessalonicenses não haviam com preendido bem o ensino de Paulo (cf. 2.5). Ele dá a entender que esses irm ãos haviam sido enga­ nados, e os alerta contra outra ilusão. T oda a em oção m anifestada a respeito deles, de início, é posta um pouco de lado, quando os lem bra, agora por escrito, de que o D ia do S enhor de m aneira algum a po d eria estar presente. Isto pela sim ples razão de que certas condições, que precederiam o D ia do Senhor, ainda não se haviam cum ­ prido. A seqüência cronológica dos eventos até a segunda vinda de C risto (incluindo esta) é a seguinte (note que os versículos não seguem necessariam ente a ordem de seu registro): 4.1.1. O m istério da injustiça (v. 7). N ote que, nos dias apostólicos, o “m istério da in ju stiça” já estava em operação, sendo no entanto restringido ou resistido, com o hoje, até que se cum pra o tem po. Isto significa que o espírito de iniqüidade e injustiça m antém -se em evidên-


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cia, não podendo se ocultar aos olhos ilum inados dos servos e profetas do A ltíssim o. 4.1.2. A apostasia (v. 3). A p alavra grega apostasia significa abandono da fé, partido ou religião. Os trad u to ­ res G oodspeed e M offatt cham am -na “a reb elião ” . No uso bíblico (encontram os o m esm o vocábulo em Atos 21.21 e 1 T m 4.1; cf. 2 Tm 3.1-8), significa estar recuado da fé ou de Deus. O Dr. Lange (concordando com H offm an e C alvino), com enta que, sendo a fidelidade deles um a fidelidade para com a fé, a apostasia teria de ser tam bém a apostasia da fé. É fácil notar com o essa p ro fecia hoje está sendo cum ­ prida no afastam ento generalizado dos fundam entos da fé cristã, nos púlpitos e centros culturais, com o por exem ­ plo as universidades e os sem inários, não obstante m uitas dessas instituições terem sido fundadas sobre princípios evangélicos. 4.1.3. A q u ele que resiste (vv. 6,7). E sse que restringe ou detém as atividades m alignas é um a pessoa, com o se prova pelo pronom e pessoal constante na língua grega. Q uem é esta p essoa que no fim da dispensação da Igreja estaria em oposição ao m al, restringindo-o? N ão seria o bendito E spírito Santo? O nde Ele reside e exerce sua atividade? N ão é nos crentes - o C orpo de C risto, a Igreja -, nos quais habita? Jesus não cham ou os discípulos de “o sal da terra” ? (M t 5.13). E um a das funções do sal é preservar a carne para que não se estrague e perca o sabor! Esta análise leva-nos à conclusão de que a presença do E spírito Santo na verdadeira Igreja é que restringe os últim os estágios de corrupção m oral da hum anidade. Esta presença, contudo, não será com pletam ente re ­ m ovida da T erra e nem deixará de operar nos indivíduos, pois o capítulo 7 de A pocalipse indica claram ente que, durante a G rande T ribulação, um a m ultidão de judeus e


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gentios será selada e salva. É o E spírito Santo, operando por interm édio da Ig reja com o corpo, restringindo a m a­ nifestação do iníquo (v. 8). Q uando a verdadeira Igreja for rem ovida (1 Ts 4.13-18), a anarquia chegará ao seu ponto culm inante, na pessoa do “hom em do pecado” . 4.1.4. O hom em do p eca d o (v. 3). N ão havendo m ais obstáculos, m anifestar-se-á o ho anom os (grego), hom em sem lei, o iníquo (v. 8), o “filho da perd ição ” (v. 3), aquele destinado à destruição ou perda eterna. N esse tem po, ele será revelado e conhecido de todos. Esse indivíduo não será um pecador qualquer, m as o próprio “hom em do p ecad o ” , em contraste com Jesus, o “hom em da o bediência” . O Dr. L ange com enta que ele será um a espécie de encarnação do pecado. O produto do pecado, nele corporificado, alcançará enfim sua expres­ são m áxim a, sendo m anifesto aos olhos de todos. N a sua pessoa, o m undo colherá os frutos da escolha equivocada feita por A dão e E v a no ja rd im do Éden. Estes, levados pela tentação, queriam ser com o D eus. P or isso ele “se assentará, com o D eus, no tem plo de D eus, querendo p a ­ recer D eus” (v. 4). No hom em do pecado verem os o fruto m aduro daquele pensam ento torpe que a serpente in su ­ flou na m ente do prim eiro casal. N o versículo 4 discernim os o caráter deste hom em do pecado, descrito nos seguintes term os: a. adversário ou antagonista de D eus; b. orgulhoso de língua, exaltando a si próprio, por blasfêm ia, intentará elevar-se acim a de D eus; c. assum irá a posição do próprio S enhor e dirá que é D eus; d. ele até se assentará no Tem plo, o santuário dedica­ do a D eus, e ali se proclam ará com o D eus. A m anifestação do A nticristo é “segundo a eficácia de S atanás” (v. 5). H averá m ilagres, sinais e prodígios, mas sua fonte não será D eus, nem seu fim visa o bem . O


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engano (“m en tira” ) é que m overá seus atos, um a vez que seu poder se deriva do diabo, o pai da m entira (Jo 8.44). 4.1.5. A vinda de Cristo e a destruição do iníquo (v. 8; cf. Ap 19.11-21). A ssim como a pedra cortada sem auxílio de mãos, de que fala Daniel (Dn 2.34,45), veio e destruiu os reinos hum anos representados na estátua de Nabucodonosor, a vinda de Cristo, no esplendor da sua glória, porá abaixo o hom em do pecado. E será aniquilado o iníquo, o servo do diabo, o Anticristo, a besta, o avatar da N ova Era, “o últim o ditador” , o filho da perdição. 4.2. O tem plo. Q uando se fala em tem plo, naturalm en­ te surgem certas p erguntas. Q ue tem plo? O nde será construído? Q uando? Em A pocalipse 11 (v. 1,2) João faz referên cia a um “tem plo” , que naturalm ente seria po ste­ rio r à época do apóstolo. D eve ser um tem plo judaico, pois há um a distinção entre o tem plo em si e o “átrio” dado às nações. C risto, no serm ão profético de M ateus 24, faz referên cia ao “lugar santo” (v. 15), no qual seria levantada “a abom inação da desolação” (Dn 9.27; 12.11). Os ju d eu s ortodoxos dos nossos dias anelam pelo resta­ belecim ento dos antigos ritos e sacrifícios num tem plo em Jerusalém . Estão dispostos a reconstruí-lo quando surgir a p rim eira oportunidade. As E scrituras indicam claram ente que a perm issão para construir o tem plo virá do “hom em do pecado” . D epois de autorizar aos ju d eu s o reinicio dos sacrifícios, ele m esm o profanará o recinto sagrado ao levantar ali um a estátua de si próprio (Ap 13.14) e decretar ainda que todo o povo a adore (Ap 13.15). 4.3. Uma interpretação alternativa. N o versículo 8 tem os um a alternativa. Ou Paulo está revelando m aiores detalhes sobre “o hom em do pecad o ” , apresentado no versículo 3, ou então se refere a outro indivíduo cham ado “o iníq u o ” (“o hom em sem lei”) que “en tão ” será rev ela­ do ao m undo - isto é, quando cessar aquE le que o “de­


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tém ” (o E spírito Santo, vv. 6,7). Só depois disso é que ele ocupará um lugar de evidência e liderança. E sta exposição está de acordo com A pocalipse 13, no qual se vê duas “b estas” ou “in d iv íd u os” . A segunda b esta é o “falso p ro feta” que opera prodígios sobrenatu­ rais na presença da prim eira besta, fazendo com que os habitantes da T erra a adorem (Ap 13.11-14). N ote a gran­ de sem elhança das passagens de 2 T essalonicenses 2.9,10 e A pocalipse 13.13,14. A com pleta destruição desse “in íq u o ” (e do “hom em do pecado” , caso sejam duas pessoas) e de todos os ím pios, os seguidores iludidos por poderes diabólicos e anticristãos (vv. 11,12), será efetuada pelo flam ejante “assopro de sua b o ca” (v. 8) e pelo “esplendor da sua vinda” (literalm ente, “o brilho da sua presença” ; cf. 1.7,8). 4.4. Um quadro m ais ünim ador. No versículo 13, Paulo desvia sua atenção deste quadro triste de depravação e blasfêm ia, por parte dos hom ens em escala universal, para fo calizar os próprios tessalonicenses, exortando-os, encorajando-os e instruindo-os. O apóstolo encerra a se­ ção sobre a vinda do A nticristo com ação de graças pela eleição e salvação dos irm ãos tessalonicenses, “em santi­ ficação do E spírito e fé da verdade” (v. 13). N este senti­ do, a p alav ra “san tificação ” refere-se certam ente à “cha­ m ada ao E v angelho” , p ela operação do E spírito, tornan­ do o coração voltado para a “fé da verdade” (vv. 13,14). A aceitação do Evangelho é subseqüente a esta “santifi­ cação”. A “glória de nosso Senhor Jesus Cristo” (isto é, a consum ação da salvação), que nos resta “alcançar” (literal­ mente, “possuir com o herança”), sem dúvida se refere à nossa participação com Cristo nos m aravilhosos eventos em que Ele será honrado, louvado e exaltado pelos salvos reu­ nidos naquela grande assem bléia geral e final (vv. 13,14). Segue-se um a exortação à firm eza na fé que, em bora m inistrada sem m uito alarde, reveste-se da m aior im por­


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tância, sendo em tudo necessária à vida cristã. A verdade recebida deve ser tam bém guardada com tenacidade, por tratar-se de um a aquisição de inquestionável valor (v. 15). Nos versículos 16 e 17, vem os o coração de Paulo transbordar de am or para com seus irm ãos tessalonicenses. Ele passa de C risto para o Pai, m ostrando-lhes ser o Pai a verdadeira fonte de toda bênção, exortação, conforto e confirm ação. N unca deveriam esquecer que “D eus am ou o m undo... que deu o seu F ilh o ...” (Jo 3.16).

5. Capítulo 3 “No demais [isto é, ‘quanto às coisas que tenho a dizer agora’], irmãos, rogai por nós...” (v. 1). Paulo roga aqui pelas orações, não por coisas pessoais, mas sim para que sua cham ada apostólica na pregação do Evangelho alcance êxi­ to, e que ele fique livre (como havendo armadilhas à esprei­ ta) dos “hom ens dissolutos e m aus” (v. 2). A palavra “dissolutos” , significa literalmente homens “desajustados, ou “fora do seu lugar” . São pessoas m al ajustadas que resistem tanto à ordem divina com o à humana. A palavra “m aus” significa “ím pios” . O Dr. Lange opina que estes homens maus eram fanáticos e que prepararam , de propósito, ardis para apanhar Paulo em Corinto (cf. At 18; 1 Tm 1.20; 2 Tm 2.17). C om efeito, Paulo está dizendo: “V ocês creram pron­ tam ente, m as saibam que este não é o caso de todos” (v. 2), pois certos hom ens são tão perversos e entregues à im piedade que não b asta um a sim ples oração do tipo: “Salva-os, S enhor” . Estes precisam ser prim eiro quebrantados, para se despojarem de sua auto-suficiência. “Porque a fé não é de to d o s” (v. 2), “mas fiel é o S enhor...” (v. 3a). Sim , o Senhor é fiel. Podem os confiar nE le inteiram ente para ter segurança nos m om entos de crise, sabendo que nos “guardará do m aligno” (v. 3b).


Tessalonicenses, o Exemplo na Fé

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(Nota: no grego, a palavra “m alig n o ” vem acom panhada do artigo, por isso acreditam os que se refere a Satanás “aquele que é m au ”). N o versículo 4, Paulo trata os tessalonicenses com m uita delicadeza e tato, depositando neles confiança e inspirando-lhes o desejo de se m ostrarem dignos dela. D esta m aneira, Paulo os está preparando para receber o “m andam ento” e outras exortações fortes que se seguem no versículo 6. O versículo 5 fala de sua intercessão e desejo de que fiquem cheios do am or de D eus e que com paciência aguardem a realização de suas esperanças pelo retorno de Cristo. N o versículo 6 vem o m andam ento, pela autoridade de C risto, que não com unguem com os desordenados ( c o n f r o n te c o m o c o m e n tá r io s o b re o v o c á b u lo “desord eiro ” , relativo a 1 Ts 5.14) que se davam à ocio­ sidade e ao fanatism o, além de se introm eterem em negó­ cios alheios. A “auto rid ad e” apostólica de Paulo (v. 9) dava-lhe o direito de receber rem uneração fin an ceira por seu m inis­ tério, m as, para lhes servir de exem plo, o apóstolo trab a­ lhava “noite e d ia” (v. 9) com as m ãos, para seu próprio sustento. A pessoa ociosa não m erece nenhum a com ida a título de esm ola. N ão há com o negar que logo essa pessoa se tornará um problem a, pois a vadiagem e a conseqüente tendência a m exericos, fará com que se introm eta nos negócios alheios (vv. 10-12). Paulo então, no versículo 13, fala às pessoas livres de tais defeitos, dizendo-lhes em tom cordial que “não vos canseis de fazer o b em ” (“não percam o ânim o”). O Dr. L ange assim com enta este versículo: “A pós tantas expe­ riências com pessoas desonestas, indignas e preguiçosas, é necessário coibir esse estado de abuso, para que p esso ­


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Com entário Bíblico

as inocentes, necessitadas e realm ente m erecedoras da caridade não sofram por causa dos d esordeiros” . O Dr. H offm an assim traduz a exortação de Paulo: “N ão desanim e de fazer o que é próprio e conduz ao bem -estar da com unidade” . O apóstolo recom enda tam bém aos tessalonicenses que andem de m aneira inculpável, firm e, am orosa e bem disciplinada, com toda b en eficên cia (vv. 14,15). N ão de­ viam cansar de cum prir seu dever com o cristãos e segui­ dores de D eus (Lange). A curta oração dos versículos 16-18 expressa um ar­ dente desejo (que seria o quarto na epístola) do coração do apóstolo — a paz. Os outros desejos do coração de Paulo seriam : 1) que se fizessem dignos (1.11); 2) que fossem consolados (2.16,17); 3) que a palavra tivesse livre curso, ficando eles livres dos hom ens dissolutos e m aus (3.1,2). P or fim roga ao Senhor que lhes dê um espírito p acífi­ co entre si e tudo quanto acom panha a paz: consciência lim pa para com D eus e tranqüilidade em m eio às adversidades, enquanto aguardam a paz d efinitiva para o m undo que virá com o advento do “P ríncipe da P az” .


4 Hebreus, Entendendo o Antigo Testamento I - Introdução

1. Canonicidade e autoridade A E pístola aos H ebreus ocupa lugar de destaque no N ovo T estam ento, em razão de sua contribuição à d o u tri­ na e excelência com o p eça literária, sendo neste sentido um livro sem par no N ovo T estam ento. N a m aioria dos an tig o s m an u sc rito s, foi co lo ca d a após as ep ísto las paulinas, isto é, depois de Filem om . P orém no m anuscri­ to sinaítico segue a 2 T essalonicenses. N o m anuscrito do V aticano ela é designada sim plesm ente “P ara H ebreus”, sem m enção de autor, situando-se depois de G álatas. N a versão siríaca (cerca de 150 d.C .) tam bém não há qual­ quer referên cia à sua autoria. Sobre ela, o Dr. C arlos B ernhard M oll, fam oso teólo­ go alem ão, com enta: “A E pístola aos H ebreus é um m a­ ravilhoso fenôm eno enigm ático e paradoxal, obscura em sua origem e ao m esm o tem po a m ais clara em conheci­ m ento da p essoa de Jesus Cristo. N essa época, no lim iar


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Comentário Bíblico

da histó ria eclesiástica, já se discerniam em suas páginas as tendências à apostasia da fé prim itiva! Os ensinos são plenam ente apostólicos em sua natureza, em bora não possam os afirm ar qual dos apóstolos a escreveu. São lábios de p rofeta que proclam am tais am eaças alarm an­ tes, mas estas tam bém não procedem de visão apocalíptica ou de transe. A epísto la eleva seus leitores às alturas da retórica, m as sem se afastar do seu objetivo. E m bora transm ita um a m ensagem há m uito conhecida, a m aneira independente com o apresenta o E vangelho de C risto é específica e nova. Sua expressão é peculiar, contudo, em pregando algo das m aneiras de João e Paulo, pelas quais o E vangelho ganhou expressão. E sta carta form ula a convicção irreversível de que o A ntigo C oncerto foi englobado e absorvido pelo N ovo, e isto em term os deri­ vados in teiram ente das próprias in stituições e profecias do A ntigo T estam ento! É dirig id a a cristãos de origem hebraica, na linguagem grega m ais p u ra do N ovo T esta­ m ento ! E, em bora não fornecendo provas concretas quanto à sua autoria e destinatários, está diante de nós com o M elquisedeque que, ungido por D eus, apresenta o resplendor do N ovo C oncerto e seu F undador - Jesus C risto - o D eus-hom em !” A antiguidade da epísto la é p lenam ente confirm ada. C lem ente de Rom a, geralm ente identificado com o o C le­ m ente m encionado em F ilipenses 4.3 e “b isp o ” de Rom a, que viveu até o ano 97 d.C. e escreveu um a epístola aos coríntios, cita-a m uitas vezes. Policarpo e Justino M ártir inegavelm ente a em pregam em suas obras. C lem ente de A lexandria, do século III, segundo o h istoriador eclesiás­ tico E usébio, era da opinião de que a ep ístola foi escrita por Paulo, em hebraico, e posteriorm ente traduzida para o grego por Lucas. O rígenes repetidam ente afirm a ter sido Paulo quem a escreveu. N ão há dúvida quanto à inspiração divina e ao seu lugar indispensável no cânon das E scrituras (entenda-se


Hebreus, Entendendo o A ntigo Testamento

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por cânon a coleção com pleta dos livros divinam ente inspirados). O E spírito Santo, sem pre operando no m eio da com unidade cristã, fez com que a Igreja tivesse cons­ ciência de que esse livro m erece, no m aior grau possível, o reconhecim ento de sua divina inspiração. O consenso universal lhe tem concedido essa posição honrada pelo m odo com o a epísto la apresenta os grandes fatos do E vangelho e por ser rep leta de valiosas e eternas lições.

2. Autoria Q uanto à autoria, som ente D eus poderia dizê-lo com certeza absoluta. O assunto vem sendo discutido por sé­ culos, e m uitas palavras ainda haverão de ser ditas a esse respeito. Podem os resum ir dizendo apenas isto: não foi escrita por B arnabé, nem Lucas, nem Silas e nem C le­ m ente de Rom a, em bora existam opiniões de certo porte em favor de cada um deles. A questão resum e-se em ter sido Paulo ou A poio de A lexandria (At 18.24) o autor da carta. Q uem deseja p esquisar m ais o assunto tem várias fontes disponíveis, entre as quais Introduction to the N ew T estam ent (“Intro­ dução ao N ovo T estam en to ” ), de H. Thiessen, e L a n g e ’s C om m entary (“C om entário de L ange”), editado por Philip Schaff.

3. Fundo histórico e destinatários O título da epístola, “A os H ebreus” (P ros H ebraious, no grego), corresponde plenam ente ao conteúdo do livro. O autor tem em m ente que os leitores sejam pessoas de confissão totalm ente ju d aica. Os argum entos ap resenta­ dos, as dem ais reflexões e m uitos detalhes, todos dirigem -se a hom ens hebreus, em cujos corações estavam os pensam entos, esperanças e consolações do A ntigo C on­ certo. Pelo conteúdo e tom , a epísto la revela que os


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leitores eram cristãos ju d aico s, isto é, ju d eu s que haviam abraçado o E vangelho de C risto. E la não traz nenhum a referên cia a gentios e nem controvérsias gentílicas. N ada diz a respeito da circuncisão, e nem da igualdade entre ju d eu s e gentios na Igreja. Os leitores a que se destinava a ep ístola haviam rece­ bido o E vangelho diretam ente dos prim eiros discípulos de C risto (2.3). H aviam presenciado “ sinais, prodígios e m ilag res” e bem assim “d istrib u içõ es” ou “dons” do E s­ pírito Santo (2.4). H aviam sido feitos “participantes de C risto ”, sendo necessário som ente que se guardassem firm es até o fim (3.6) e participado no “serviço aos san­ to s” (6.10). N outros tem pos, talvez na ocasião do m artí­ rio de Estêvão, haviam sofrido m uita perseguição, sem contudo ser derram ado sangue, e dem onstrado grande com paixão para com os encarcerados por causa do E van­ gelho (10.32-34; 12.4). E ram crentes h á um tem po relati­ vam ente longo - seus prim eiros líderes haviam falecido (13.7). Pelo tem po, deveriam ser m estres (5.12). P o ssu í­ am um bom conhecim ento dos “rudim entos [princípios elem entares] da d outrina de C risto ” (6.1). M as haviam sido indolentes e “tardios em o u v ir” (5.11,12). O autor tem e que a conduta deles os conduza à apostasia (6.4-8). Seu pecado principal era o da incredulidade (3.12). T o­ dos estes fatos indicam que os d estinatários eram judeus cristãos. O utrossim , tais fatos, por serem específicos, tam bém indicam tratar-se de um a com unidade ou grupo de j u ­ deus, com o se prova pelo fato do autor desejar visitá-los, com o fizera noutra ocasião (13.19,23). As características que identificam esse grupo aparecem nas seguintes re fe ­ rências: 5.11; 6.9; 10.32 e 12.4, pelas quais podem os facilm ente id en tificar as condições espirituais prevalecentes no seu m eio. Tem os na ep ístola um retrato da vida espiritual da Igreja Prim itiva, repleto de detalhes não


H ebreus , Entendendo o A ntigo Testam ento

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encontrados n outra parte (cf. 3 Jo). A quele prim eiro en­ tusiasm o e esperança haviam declinado. Os crentes já com eçavam a calcular os lucros e as perdas, alguns exa­ gerando as últim as. P ercebe-se que negras nuvens se form avam no horizonte ao fim da era apostólica (cf. 2 Tm 1.15; Ap 2.3; 2 Pe 3.1; 1 Jo 2.18). E costum e referirm o-nos aos prim eiros séculos do C ristianism o com o séculos de luz e vitórias sem q uais­ quer derrotas. M as na E pístola aos H ebreus sentim os a realidade da im perfeição que sem pre acom panhou a Ig re­ ja, enquanto sociedade de pessoas. De fato, a tristeza aqui apresentada faz-nos crer que a Igreja realm ente se integrava à H istória e que esteve sujeita a todas as in flu ­ ências da vida. As evidências parecem indicar a cidade de Jerusalém e suas adjacências com o o lugar onde m orava essa com u­ nidade judaico-cristã, receptora da epístola (cf. 1 Ts 2.14).

4. Ocasião e data U m período de tem po relativam ente longo havia trans­ corrido desde que C risto estivera na Terra. A expectativa de que E le brevem ente retornasse já se desvanecia. A perseguição e perda de possessões constituíram dura p ro ­ va à p aciência desses irm ãos. Sua íntim a associação com o esplendor e ritual do T em plo dos ju d eus, em Jerusalém , tornou m uito d ifícil a desvinculação total do judaísm o, por estarem acostum ados com ele desde a juventude. As crescentes dificuldades com os rom anos tornaram a posição dos crentes cada vez m ais delicada, sendo que Jesus havia predito a destruição de Jerusalém . M uitos já com eçavam a pensar que talvez houvessem sido influen­ ciados por um entusiasm o infundado. Q uem sabe se os perigos à nação não exigiam deles um a posição de leal­ dade p atrió tica para com T em plo e seu serviço? C onse­


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qüentem ente, com eçaram a ficar “tardios em ouvir” , in ­ dolentes, fracos na fé e quase apóstatas. N ão nos surpre­ enderia saber de fracassos de ordem m oral que p recisa­ vam ser sanados. Estes são os fatos que deram origem à epístola. Sem dúvida, o T em plo ainda p erm anecia e nele celebravam -se os rituais, pois se nota o uso do tem po p resen ­ te ao descrevê-los. Q uanto à data da escritura, podem os fixá-la à m orte de Tiago, o presidente da igreja em Jerusalém , que foi apedrejado no ano 62 ou 63, por ocasião da investida do sum o sacerdote A nás, “o m ais m oço” , e o com eço da G uerra dos Judeus, no ano 67, que resultou na destruição de Jerusalém no ano 70. Se Tiago, um hom em de tão grande dinam ism o, estivesse vivo na época, dificilm ente o autor veria necessidade de escrever a epístola. O fato de que não serem m encionados os horrores da G uerra dos Judeus deixa a im pressão de que ela ainda não com eçara e que o T em plo p erm anecia de pé.

5. Divisões do livro 5.1. Seção D outrinária (1.1—10.18)

a.C risto, o Filho, superior aos profetas (1.1-3) - R esum o da parte doutrinária. b .C risto , com o Filho, superior aos anjos (1.4-14) — A dvertência: não n eg ligenciar tão grande salva­ ção (2.1-4). c. C risto, com o F ilho do H om em , provisoriam ente m enor que os anjos, o soberano de um a nova ordem terrestre (2.5-18) d.C risto Jesus, m aior do que M oisés (3.1-6)


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- A dvertência: não se com portar com o Israel no deserto, que deixou de entrar no descanso prom etido (3.7 -4 .1 3 ). e.C risto Jesus, m aior do que Josué (4.8) - Josué conduziu o povo a um descanso terreno, m as Jesus nos conduz a um descanso eterno, celestial. f. C risto, superior a A rão (4.14 - 5.10) - A dvertência: contra o perigo da indolência, estag ­ nação e apostasia (5 .1 1 -6 .2 0 ). g .C risto , m aior que M elquisedeque (cap. 7) - U m sacerdócio eterno e im utável, tipificado .em M elquisedeque. h.O

novo santuário e o N ovo C oncerto (cap. 8)

i. O velho ritual e o novo: a expiação segundo a Lei e a expiação segundo C risto (cap. 9) j. Os velhos sacrifícios e o novo: a eficácia do único e perm anente sacrifício de C risto (10.1-18) 5.2. Seção p rá tica (10.19 - 13.25) a. O nosso privilégio de entrar no lugar santíssim o e ali h abitar (10.19-25) - A dvertência: contra o pecado voluntário e o retro ­ ceder para a perdição (10.26-39). b .E n co rajam en to pelos triunfos da fé (cap. 11) c. C risto Jesus, o grande exem plo, prínci consum ador da fé (12.1-4) d. C onsolação m ediante a filiação (12.5-13) - A dvertência: contra o fracasso e a apostasia (12.1429). e. O am or e as boas obras (cap. 13)


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I I - C r is t o , o F il h o , S u p e r i o r a o s P r o f e t a s (1.1-3)

As expressões “m uitas vezes” e de “m uitas m anei­ ras” , no início da epístola, indicam não som ente que D eus se revelou várias vezes no passado, e através de várias pessoas, m as tam bém que tais revelações eram apenas parciais e fragm entárias. A ep ísto la co m eça com D eus, com o no livro de G ênesis, tom ando por base o fato de sua existência e presença na H istória e na revelação. N ada se faz para provar o fato de D eus, que é auto-evidente a todo ser racional. Este D eus, em tem pos passados, falou através de seus p ro fe ta s , com o M o isé s, Isa ía s, J e re m ia s e E zequiel, hom ens de personalidades e ocupações distin ­ tas, vindos de circunstâncias diferentes, m as nos últim os dias, isto é, ao térm ino dos tem pos quando se dirige ao hom em , fala através do Filho! E este F ilho é D eus tanto quanto o Pai. A ssim , em C risto Jesus, o Filho, é concedi­ da a revelação final, pessoal, objetiva e perfeitam ente com preensível do próprio D eus (vv. 1,2). O autor tem em m ente provar um a única proposição: que o N ovo C oncerto é superior ao A ntigo.

1. Em que o Filho é superior aos profetas 1.1 P o r designação divina, herdeiro de todas as co i­ sas (1.2). D eus, desde a eternidade, predestinou seu F i­ lho para ser o P ossuidor e Soberano de todas as coisas. O direito de sucessão acom panha a filiação, m as foi pela encarnação que C risto alcançou o senhorio m essiânico. Com o resultado da encarnação, Ele veio tom ar posse de algo antes não necessariam ente disponível por sua condi­ ção de Filho. Era seu o direito de prim ogenitura, mas foi de sua hum anidade, m orte e ressurreição que surgiu o tipo de soberania que se tornou sua som ente em razão de


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seu triunfo sobre o pecado na carne (v. 3), e com o resu l­ tado de sua identificação com os hom ens num a condição de irm andade. O senhorio m essiânico não lhe poderia pertencer enquanto estivesse no seu estado pré-encarnado, visto ser um a questão relativ a à função e não a poder e m ajestade inerentes. Em essência, sem pre foi o “Filho de D eus” , m as isso não o fazia M essias; era necessário que se tornasse o “F ilho do H om em ” . 1.2. O C riador do U niverso (séculos e eras, v. 2). C risto é herdeiro de tudo, mas tudo foi criado por Ele com o agente cooperador com o Pai. E ssa criação do U niverso e todos os seres inclui tam bém todos os p erío ­ dos de tem po nos quais D eus rev ela seu plano eterno. 1.3. O resplendor da glória de D eus (v. 3). A palavra “resp len d o r” é tradução da p alavra grega apagausm a, que significa “fu lg o r” , “eflu ên cia” de raios de luz com o os do sol, por exem plo. Isso quer dizer que o Filho é a efluência ou o brilho da g lória e m ajestade divinas. C ris­ to é um ser cheio de luz. 1.4. A expressão exata do seu ser (v. 3). “E xpressão ex ata” é tradução da palavra grega character, usada em referên cia ao fabricante de m oedas e da m atriz ou estam ­ pa usada por ele. Sim boliza, desde a antiguidade, as características distintivas dum objeto ou pessoa que fa­ culta a sua identificação. P ortanto, refere-se a C risto com o a “expressa im a­ gem ” ou “expressão ex ata” da pessoa, natureza e caráter de D eus (cf. Jo 14.9). 1.5. “Sustentando todas as c o isa s ” (v. 3). “S ustentan­ do” é tradução do vocábulo grego p h ero n te que, além do sentido im ediato de sustentar e apoiar, dá a idéia de m ovim ento e subsistência. O Filho de D eus não é um atlante que, segundo lendas gregas, sustenta nos om bros o peso m orto do m undo. Ele se ocupa da m anutenção,


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subsistência e contínua harm onia do U niverso que criou, com o afirm a Paulo em C olossenses 1.17. C risto m esm o é a eterna Palavra de D eus (Jo 1.1), que “fez todas as co isas” e na qual o U niverso subsiste —pela “palavra do seu p o d er” (note a expressão “a voz do S e­ n h o r” , no Salm o 29, e as coisas que ela executa). 1.6. E xecutou a p u rifica çã o dos p eca d o s (v. 3). Para levar as coisas adiante, ao seu destino, conform e a vonta­ de de D eus, o Filho teria de enfrentar e tratar o fato do pecado, que trouxera ao m undo a confusão e desordem em que se achava. No pensam ento da purificação dos pecados está p rev ista a obra de C risto com o Sum o S acer­ dote, que se destaca nessa epístola. C risto é o “C ordeiro de D eus que tira o pecado do m undo” (Jo 1.29). A “p u ri­ ficação ” inclui não som ente os pecados dos crentes, ex­ piados na cruz, m as tam bém a rem oção definitiva do pecado em todas as suas form as, inclusive sobre a nature­ za, banindo-o para sem pre de diante da face de Deus. 1.7. “A ssen to u -se à destra da M ajestade, nas a ltu ­ r a s ” (v. 3). E ssa expressão refere-se à gloriosa ascensão de C risto às regiões celestes, ao lugar de exaltação à destra do Pai. A expressão “assentou-se” tem o sentido de “descanso depois de ativ id ad e” , “conclusão” , “consu­ m ação” . Foi um ato solene e form al, de grande dignidade e autoridade, no qual C risto assum iu sua posição ao lado do Pai. O utras passagens que revelam com o C risto assen­ tou-se, um a vez realizad a sua obra, são as seguintes: 8 . 1, 2 ; 10 . 12 ; 12 . 2 . I I I - C r is t o , c o m o F il h o , S u p e r io r a o s A n jo s ( 1 .4 - 1 4 )

Os ju d eu s tinham alta consideração pelos anjos, um a vez que eles ocuparam parte proem inente na econom ia do A ntigo T estam ento, especialm ente na entrega da Lei


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(At 7.53). R everenciavam adm irados as hostes angelicais tantas vezes m encionadas nas E scrituras. D aí o autor de H ebreus enfatizar a superioridade essencial de C risto a todas as form as angélicas. M as, apesar de C risto em essência ser superior aos anjos, Ele, na qualidade de “Filho do H om em ” , só veio a ser “feito m ais excelente que os anjos” (v. 4) depois de descer à condição hum ana e realizar “a purificação dos nossos p ecados” (v. 3). Ele sem pre foi eterna e essencialm ente superior aos anjos. Sua glorificação, contudo, dependia do cum prim ento dos req u isito s im po sto s sobre o lado h um ano, fato este enfatizado no versículo 4. É digno de nota que a palavra “ superior” ocorre 14 vezes na E pístola aos H ebreus e 21 vezes em todo o N ovo T estam ento (cf. 1.4; 6.13,16; 7.7,19,22; 8.6 [duas vezes]; 9.23; 10.34; 11.16,35,40; 12.24). O objetivo des­ sa epístola é ju stam en te estabelecer a superioridade do N ovo C oncerto sobre o A ntigo. C risto possui o nom e superior de “F ilh o ” . E m bora os anjos tam bém sejam cha­ m ados “filhos de D eu s” , no sentido de serem criados por Ele (Jó 38.7; SI 89.6), tal menção e coletiva, nunca indi­ v id u al. No discurso de Paulo aos ju d eu s, em A ntioquia da P isídia (A t 13.33-35), a citação de H ebreus 1.5 e de Salm os 2.7 ( Tu es m eu Filho, hoje te g erei”) aparece associada à ressurreição de C risto, englobando ainda sua ascensão e posicionam ento à destra do Pai. N ão que Cristo algum a vez tenha perdido sua condição de filiação eterna (Ele nunca deixou de ser Filho), mas o reconheci­ m ento público e po sterio r pelo Pai de sua condição (de Filho) só veio p ela ressurreição (M t 3.17; 17.5). Por ela é que Cristo foi especificam ente “designado Filho de D eus”, com o se lê em R om anos 1.4. M udando o pólo de nossa abordagem^ o ponto aue se em Yieoreus i .D nao é a ocasiao ou o tempo em

q u c i 'i n v a r


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Comentário Bíblico

que Cristo veio a ser cham ado de Filho, mas o fa to de ser assim chamado, enquanto anjo nenhum fez jus a esse título. A segunda parte do v. 5 (“Eu lhe serei por Pai, e ele me será por F ilh o ”) é um a citação de 2 Sam uel 7.14, passagem em que ao rei D avi é prom etido um filho que edificaria um a casa ao nom e do Senhor. E evidente que o cum prim ento im ediato e parcial da p ro fecia recai sobre Salom ão, responsável p ela edificação do Tem plo. M as o pleno cum prim ento profético apontava para o “Filho m aior” , o “D escendente” , cujo trono seria confirm ado para sem pre (cf. 2 Sm 7.13; com p. Hb 1.8). N o versículo 6, fica estabelecido enfaticam ente que o F ilho de D eus é superior aos anjos: “E, quando outra vez introduz no m undo o P rim ogênito, diz: E todos os anjos de D eus o adorem ” . O advérbio p a lin (grego, “outra vez” ou “segunda v ez”) serve, a nosso ver, para qualificar o verbo “in tro d u zir” (no m undo), sendo assim um a refe­ rência à segunda vinda de C risto, quando os anjos o adorarão com o já o fizeram quando de seu prim eiro ad­ vento, em B elém , na condição de infante. E m bora os anjos sem pre tenham adorado o Deus Trino, a encarnação e os subseqüentes sofrim entos do Filho de D eus com vistas à redenção do hom em geraram entre eles um clim a de m uito m istério e expectativa. Pedro inform a que os anjos anelavam p erscru tar essas coisas (1 Pe 1.11,12). Q uão profunda, um a vez consum ada sua obra, a adoração angelical ao C risto de D eus e quão grandes os louvores que receberá futuram ente quando im plantar definitivam ente seu R eino na Terra, por oca­ sião do M ilênio! As passagens citadas pelo autor da E pístola aos H e­ breus dem onstram que a linguagem do A ntigo T estam en­ to apontava para o divino Filho, R ei de um reino eterno, C onstrutor de um tem plo perm anente e o grande V ence­ dor das batalhas. Tais descrições não cabem a nenhum anjo, mas som ente a Jesus, o M essias, o Filho de Deus.


Hebreus, Entendendo o A ntigo Testam ento

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Em seguida, o autor dem onstra a m ajestade perm anente do Filho com o Criador, em contraste com os ofícios transi­ tórios dos anjos. Estes são m inistros de Deus, cumpridores de tarefas, associados em sua descrição a forças físicas e fenôm enos naturais, cham ados “para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação” (v. 7; cf. v. 14). O Filho, em tudo diferente e superior, é detentor de um a soberania moral que se estende por toda a eternidade (v. 8). Em virtude de seu caráter inigualável, a plenitude da bênção que há sobre Ele transcende ao hom em comum, de quem se torna “com ­ panheiro”. A unção de Deus sobre o Filho é sem paralelo (v. 9) e produz alegria, com partilhada conosco quando nos introduz no seu Reino (cf. Rm 14.17).

1. A natureza dos anjos O versículo 7 é citação de Salm os 104.4, que com para os anjos a “ven to s” (no grego, p n e u m a ta ) e a “labaredas de fogo”, descrições que acentuam um a natureza m utável, transitória (quanto a funções) e subordinada, contrastada à soberania pessoal do Filho, com unicada a Ele pelo Pai. T udo indica que os anjos, assim com o Satanás, têm poder sobre ventos e fogo, com o no caso de Jó quando Deus perm itiu que o adversário experim entasse seu servo (Jó 1.16,19). O anjo visto por M anoá subiu ao céu num a cham a de fogo (Jz 13.20). Em A pocalipse 16, notam os a relação entre a função desem penhada pelos anjos e os elem entos da natureza. O m inistério dos anjos relaciona-se em p articular aos hom ens, “os herdeiros da salvação de D eus” (v. 14).

2. A natureza do Filho O Filho é D eus, e tam bém Rei: “Ó D eus, o teu tro ­ no...” (v. 8). Seu dom ínio é eterno: “O teu trono subsiste pelos séculos dos sécu lo s” . Sua autoridade fundam entase na m oral e na ju stiça: “C etro de eqüidade é o cetro do


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teu rein o ” (v. 8). Seu governo, no M ilênio, será a rep re­ sentação na T erra de toda a perfeição pretendida por D eus. Seu direito à soberania foi estabelecido em razão de sua própria escolha da ju stiça e de sua vitória sobre a iniqüidade: “A m aste a ju stiç a e odiaste a in iq ü id ad e...” (v. 9). Seu R eino é m essiânico, em cum prim ento às p ro ­ fecias (Is 11.1,2; 61.1-3), porque para isso foi ungido. “M essias” deriva-se do hebraico M oschicich e significa “ungido” . A unção à qual se refere aqui serve para ressaltar tanto a dignidade real com o as ocasiões festivas, que se distinguiam por sua alegria. Os “com p an h eiros” m encionados no versículo 9 referem -se aos redim idos do Senhor, com os quais se uniu p ela sua encarnação, tornando-se um com eles (cf. 2 Pe 1.4). Q ue privilégio não tem os nós! R eceber o m esm o E spírito que Ele recebeu e m inistrar sob a m esm a unção com que foi ungido! Os versículos 8 e 9 são citações de Salm os 45.6,7. O F ilho é o C riador do U niverso (vv. 10-12). A cria­ ção com o agora existe será “m udada” (v. 12) qual “v esti­ do ” , havendo depois novos céus e nova Terra, mas C risto é eterno, im utável, o “m esm o ontem , e hoje, e eterna­ m en te” (Hb 13.8). Os anjos têm um a esfera de ação na criação, com o seres criados que são, mas o Filho é o eterno A utor da criação —ele a transcende e não pode ser confundido com sua própria obra (SI 102.25-27; Hb 1.1012). A nenhum anjo D eus disse: “A ssenta-te à m inha mão d ireita...” (SI 110.1), com o o fez ao Filho. E sta p rerro g a­ tiva divinam ente concedida significa: “Seja associado com igo na m inha dignidade re al” . A ntes da encarnação, C risto era igual a D eus Pai (Fp 2.6) e com partilhava todas as coisas em função de sua própria condição de Filho. M as agora Ele com partilha o trono em virtude da


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vitória pessoal que obteve sobre todos os inim igos, cuja hum ilhação ainda espera concluir (v. 13).

3. A prim eira advertência (2.1-4) N ote que esse parágrafo (vv. 1-4) segue o estilo do autor, de colocar certas advertências e exortações p ráti­ cas em pontos estratégicos, intercalando com elas seus argum entos para em seguida reto rn ar à seqüência lógica. 3.1. O p erig o de neglig en cia r a nova revelação. A expressão “p o rtan to ” (v. 1) serve para introduzir um a nova linha de argum ento. É com o se o autor estivesse dizendo: “P orque recebestes um a revelação superior ao A ntigo C oncerto, m ediante o Filho, que é superior aos profetas, aos anjos e à criação, C riador que é” . O bvia­ m ente, tal revelação, dada por um superior M ediador, im plica em obrigações solenes da parte dos que a rece­ bem . A punição por n egligenciá-la é m aior do que a de n egligenciar a revelação feita por m eio dos anjos - a lei m osaica (v. 2). O significado do versículo 1 é que, um a vez ouvindo a verdade a respeito da graça, nos é im posta um a obriga­ ção. D evem os p restar m uita atenção ao que nos foi dito para não deixarm os passar essa tão grande salvação. Caso contrário, serem os com o a nau arrastada ao perigo pelos ventos e correntezas. T rata-se dum a advertência m uito séria dirigida aos crentes ju daicos. U m deslize na verdade resulta m ais com um ente da falta de atenção do que de um propósito consciente. F icar à deriva conduz à m orte, mas prestar atenção traz vida. U m pedaço de pau acom panha a m aré, mas o navio vence até as grandes ondas - se tiver à bordo, é claro, um piloto capaz e atento. A Lei de M oisés dada no Sinai teve por m ediadores os anjos (D t 33.2; A t 7.38,53; G1 3.19). A Lei “se tornou


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firm e” , sendo firm ada na santidade divina e inflexível de seus princípios e obrigações. C onseqüentem ente, o casti­ go se m anifestou sobre os casos de desobediência e tran s­ gressão, p alav ra que no original grego é parci-basis, significando “atravessar um a linha d em arcada” (v. 2). Com o escapar ou fugir, sem levar em conta a superior e definitiva revelação de D eus? O nde se esconder depois de negligenciar a salvação com unicada e executada pelo Filho? N ão há escape! (v. 3). A condenação para quem se deixa andar à deriva, a exem plo do povo ju d aico , é tanto m aior quanto m aiores os privilégios e as oportunidades de conhecer em p rim ei­ ra m ão o m inistério do próprio Senhor Jesus (m inistério aprovado por m uitos m ilagres), sem entretanto aceitá-lo. Em seguida ao anúncio em preendido pelo S enhor Jesus, de que era chegada a salvação, esta foi sobrenaturalm en­ te confirm ada pelos seus ouvintes (v. 3). D essa m aneira, o autor coloca-se entre a segunda geração de cristãos, os que não conviveram com Jesus, mas ouviram da boca de terceiros “todas as coisas que Jesus fez e ensinou” (At 1.1). C ontudo, o depoim ento dessas testem unhas foi am ­ plam ente autenticado pelos “sinais, e m ilagres, e várias m aravilhas, e dons do E spírito S anto” (v. 4). IV - C r is to , co m o F ilh o d o H om em , o S o b e r a n o s o b r e a T e r r a (2.5-18)

O propósito do autor desta passagem é dem onstrar que essa “tão grande salvação” , preparada por Cristo, está de acordo com o plano divino de dar ao hom em , e não aos anjos, o dom ínio do planeta. O cum prim ento de tal destino de soberania (Gn 1.28,29; 2.19,20) sobre a Terra, em razão da introdução do pecado nela, só poderia ser conseguido pelos sofrim entos de C risto (que rem o v e­ riam a m aldição). Eis a razão da encarnação de C risto, o grande fato que teve por alvo a restauração do hom em .


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F uturam ente, a adm inistração delegada aos anjos será posta de lado. Com o C risto assum iu um a posição superi­ or a todas as potestades angelicais, no m undo vindouro Ele levará consigo a hum anidade a um a posição de dom í­ nio nunca antes experim entada. D eus jam ais intentou um dom ínio a esse nível para os anjos (2.5). O Salm o 8 inform a que o m esm o reserva-se à raça hum ana: “C ontu­ do, pouco m enor o fizeste do que os anjos e de glória e de honra o co ro aste” (SI 8.5). A coroação do hom em , feito m enor que os anjos, im plica num a investidura sem prece­ dentes de autoridade, o que se faz adequado ao plano de D eus de conferir-lhe am plo dom ínio sobre o U niverso m aterial (2.7,8; cf. SI 8.5-8). A prom essa não se concretizou, por enquanto (v. 8), apesar das grandes conquistas científicas das quais tanto se gloria, com o o rádio, a televisão, a aviação supersôni­ ca, as m aravilhas da quím ica, as viagens espaciais, o desenvolvim ento da cibernética e da in form ática etc. Ao lado dessas descobertas notáveis, o hom em tam bém p ro ­ duziu, além da bom ba atôm ica, gases tóxicos e bactérias resistentes às form as convencionais de tratam ento, com os quais po d eria destruir toda espécie de vida encontrada neste planeta. C ontudo, apesar do fracasso do hom em , a prom essa divina não fracassou - “V em os... aquele Jesu s!” (v. 9). N ote que os títulos devidos a Jesus são om itidos, pois o que se pretende enfatizar é sua hum anidade. É usado o nom e p e sso a l J e su s, com o C abeça da h u m an id ad e redim ida. E le “por um pou co ” foi feito “m enor que os anjos” , tendo se tornado hom em a fim de sofrer a m orte na cruz. Esse fato, contudo, teve sua origem na “graça de D eus” . E ra necessário que o Cabeça da nova hum anidade experim entasse a m orte, rem ovendo assim a pena do pecado a fim de garantir o destino do hom em no plano divino. Jesus não som ente experim entou a m orte, mas “provou” sua am argura. A prova de que sua m orte alcan­


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çou todos os objetivos é ju stam en te o fato de Ele estar agora exaltado à destra da M ajestade nas alturas, “coroa­ do de glória e h o n ra” (v. 10; cf. Fp 2.9,10).

1. O Filho e os filhos D ada a profunda aversão que os judeus dem onstra­ vam à idéia de sofrim ento do M essias (1 Co 1.23), o autor argum enta, no versículo 10, que o sofrim ento e a m orte do F ilho foram determ inados por Deus. A palavra “conv in h a” dá a entender que os sofrim entos não tinham um a n atureza arbitrária, mas atendiam ao pleno conselho divino. C risto deveria suportá-los com o conseqüência de sua união aos hom ens, assum indo a responsabilidade pela culpa deles, a fim de conduzir “m uitos filhos à glória” . U m a vez que o sofrim ento pode ser interpretado com o disciplina, D eus achou por bem subm eter o F ilho à m es­ m a disciplina (v. 10). A ssim , tanto “o que santifica com o os que são santifi­ cado s” vêm de um só (v. 11). C onstituem um a só fam ília divina. Em C risto não há diferenciação, pois todos som os frutos de um só propósito divino, pertencem os igualm en­ te àquE le que nos resgatou, sendo, indistintam ente, ir­ m ãos. E o próprio C risto, apesar de sua superior d ignida­ de (Ele é “o P ríncipe da salvação deles”), “não se enver­ gonha de lhes cham ar irm ão s” . E ssa relação entre o “F ilh o ” e os “filh o s” se percebe nas relações entre D eus e certos hom ens que se d estaca­ ram durante o A ntigo C oncerto. O rei sofredor, D avi, escreveu profeticam ente de C risto no Salm o 22 (v. 12). O profeta típico, Isaías (v. 13; cf. Is 8.18), afirm ou sua fé em D eus num tem po de sofrim ento nacional, declarando que seus filhos eram “sinais” . U m filho cham ava-se SearJasube (“U m -R esto-V olverá” , Is 7.3); o outro cham avase M aer-Salal-H ás-B az (“R ápido-D espojo-Presa-Segura”, Is 8.3). O nom e Isaías significa “Jeová S alvou” . A n ali­


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sando ju n tam en te o significado dos nom es de Isaías e seus filhos, vem os a continuidade e a salvação de Israel com o nação, por m eio dum rem anescente fiel, e bem assim a destruição dos seus inim igos tipificados pela Assíria. U m a vez entendendo esse pano de fundo, o quadro que se nos apresenta é de crentes fiéis ou “filh o s” do A ntigo C oncerto prefigurando os “filh o s” do N ovo C on­ certo. Os “filhos que D eus m e d eu ” são tipificados pelo rem anescente fiel — aquele resto que se voltaria para Deus, libertado da condição de presa fácil do inim igo. C risto é, em si, a consubstanciação da “salvação de Isra­ el” , pois foi Ele que tom ou o despojo, livrando-nos dos laços que nos prendiam . O Salm o 22, que data do tem po da perseguição a D avi, por Saul, descreve as experiências e o sofrim ento pelos quais o “ungido do S enhor” passou em direção ao trono e ao estabelecim ento do R eino de D eus. N o versí­ culo 22 a tristeza é transform ada em regozijo, as palavras do salm ista ressoam com o que um “evangelho” . Esse versículo é citado em H ebreus 2.12, com o referente a Cristo. O rei típico (D avi) e o verdadeiro Rei (Jesus) alcançaram sua condição soberana, suportando as m es­ mas adversidades; e am bos, tendo triunfado, deram p arti­ cipação de sua alegria e vitória ao povo.

2. A encarnação e seu propósito A obra redentora de C risto foi realizada entre os h o ­ m ens e para os hom ens, por isso Ele participou necessari­ am ente “da carne e do sangue” (v. 14). Para ter com u­ nhão com o povo que am ava e poder salvá-los, foi-lhe necessário assum ir a restrita natureza hum ana. D aí a n e­ cessidade da encarnação. Essa participação nas lim ita­ ções da raça hum ana fê-lo arcar inclusive com a conse­ qüência do pecado - a m orte. C risto a suportou, sabendo


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ser ela a pena cabível ao pecado. D esse m odo, não só aniquilou o poder da m orte com o destruiu seu autor, Satanás (v. 14) - sua vitória foi com pleta! A servidão ao pecado resulta do medo da m orte e, queira-se ou não, da previsível responsabilidade perante Deus na eternidade. O argum ento dos versículos 14 e 15 visa prender a atenção dos hebreus, pois a teologia rabínica fala muito do medo e da constante presença do “acusador” na vida do homem. O povo antigo, de modo geral, dem onstra­ va grande pavor da morte, não obstante filósofos como Sêneca terem argum entado contra um medo tão primário. H oje em dia, o povo dem onstra um a atitude frívola diante da m orte, negando a existência da vida futura e rejeitando assuntos relativos a D eus. C risto dem onstrou, indo voluntariam ente à cruz, que o m edo da m orte era incapaz de detê-lo em sua m archa p ela salvação do m un­ do - Ele não a tem ia, subjugando-a até a sepultura, de onde em ergiu vitorioso sobre o acusador (v. 15). O grande objetivo da obra de C risto foi esp ecifica­ m ente salvar os hom ens, e não outros seres, com o os anjos, em bora sua m orte inocente h aja resultado em b ên ­ ção para toda a criação. E tam bém não poderia valer-se de outra criatu ra quando o que tinha em m ente era a raça hum ana. Por isso “lançou m ão ” (grego epilam banetai — “lançar m ão de” , “ so co rrer”) da descendência (grego sperm atos - “ sem ente”) de A braão, a fim de redim i-la. O nom e A braão foi escolhido porque o autor está falando a judeu s. M as naturalm ente todos os filhos na fé, quer ju d eu s quer gentios, são descendência de A braão, o pai da fé (v. 16; cf. G1 3.29). A necessidade da encarnação tam bém se percebe no tipo de obra que C risto realiza quando socorre o hom em caído. N aturalm ente, irá socorrê-lo “em todas as coisas” e em todas as circunstâncias da vida. Sua com paixão por aqueles com os quais se id entifica assum e assim o m ais


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pleno sentido possível. U m a vez que hom em no pecado está sujeito a veem entes tentações e fraquezas, Ele tam ­ bém se tornou delas participante, com um a diferença: sem pecado (cf. 4.15). D essa m aneira, o autor introduz a idéia básica da instituição do sacerdócio, isto é, a m ediação e com unhão entre D eus e os hom ens. A reconciliação já foi efetuada, a com unhão, restabelecida, e um S acerdote “m isericordi­ oso e fie l” —que não to lera o pecado, m as nem por isso deixa de se com padecer das nossas fraquezas - agora nos representa ju n to a D eus. A capacidade que C risto tem para nos socorrer é devido não som ente à sua divindade com o F ilho de D eus, m as tam bém à sua hum anidade, pela qual obteve a condição de condoer-se de nós (v. 17). C risto sofreu, no m aior grau possível, os ataques cons­ tantes de Satanás, que não m edia esforços para derrubálo, em pregando todo tipo de sutileza e artim anhas (M t 4.8-11; 16.22; 26.39; Lc 22.44; Hb 5.8). A lém desse aspecto, C risto com partilhou as dem ais “fraquezas” da nossa carne, pelo que sentiu cansaço, fom e, sede e neces­ sidade de habitação, entre outras. M as tais condições não constituem pecado. A palavra socorrer é muito expressiva, sendo derivada do grego boe (“um grito”), e theo (“correr”). O sentido com pleto então é “correr em atendim ento a um grito” . O crente clam a a Deus pedindo socorro, e Deus atende “cor­ rendo para nos socorrer!” Portanto, clam em os por socorro na hora da necessidade, esperando que nos atenda! (v. 18). V = C

r is t o

- M

a io r q u e

M

o is é s e

A

rão

1. Algo a ser considerado •- contraste com M oisés (3.1-6) H avendo declarado o pensam ento central do sacerdó­ cio de C risto, e antes de desenvolvê-lo nos capítulos 5 a


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7, o autor interrom pe o assunto, a fim de estabelecer, sob outro ponto de vista, a superioridade do N ovo C oncerto sobre o A ntigo. Ele já dem onstrou que C risto é superior aos anjos, os m ediadores espirituais da Lei; agora de­ m onstra que tam bém é superior a M oisés, o hom em que prom ulgou a Lei. O autor, ao abordar o assunto, em prega a expressão “o m undo fu tu ro ” ou “o século que há de vir” (2.5; 6.5) que no grego é cukoum enen (literalm ente, “o m undo v in ­ douro habita d o ”). Ele se refere ao R eino de D eus que será estabelecido entre os habitantes da Terra. Isso leva, naturalm ente, à com paração entre os fundadores da velha teocracia ju d aica, sob M oisés e Josué, e Jesus, do novo R eino. A posição de M oisés para com o sistem a judaico torna necessário o argum ento, porque os cristãos hebreus estavam confusos sobre este ponto. O parágrafo (3.1-6) inicia com um a referência à d ig ­ nidade da vocação cristã, tratando os crentes de “irm ãos santos, participantes da vocação celestial” . E sta frase, vinculada a outras evidências encontradas na epístola, convence-nos que o autor está escrevendo a cristãos j u ­ deus sinceros e não apenas àqueles que assim se ro tu la­ vam. A lem brança da dignidade e com paixão de Jesus face aos sofrim entos que experim entou na carne, sem elhantes aos deles, não pode passar em branco. O autor da epístola insiste que prestem m uita atenção (grego katanoesate “ponde sentido” , “co n sid erai”) à p essoa de C risto na qualidade de A póstolo e Sum o Sacerdote, a quem haviam “con fessad o ” e não m eram ente professado (v. 1). C risto é aqui cham ado “ap ó sto lo ” (enviado), pois, assim com o M oisés se tornou um enviado de D eus para conduzir a nação de Israel à terra de Canaã, tam bém “D eus enviou o seu Filho ao m undo não para que condenasse o m undo, m as para que o m undo fosse salvo por ele” (Jo 3.17).


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O ponto de com paração, no versículo 2, prende-se ao fato de que tanto M oisés com o C risto se ocuparam da adm inistração da econom ia d ivin a : aquele, sob a velha ordem da Lei; este, sob a nova ordem da graça de Deus, tendo am bos cum prido fielm ente suas responsabilidades. M as o autor apresenta em seguida um a série de contras­ tes que dem onstram a g lória m uito superior de Jesus: a. M oisés era apenas um m em bro (servo) da casa ou “econom ia” (grego oiko) de D eus, sob o sistem a do A n ti­ go C oncerto. A “casa de D eus” é aquela sociedade orga­ nizada na qual D eus habita. b .C risto , em cooperação com o Pai, foi quem estabe­ leceu a “casa” ou “econom ia” , tanto no A ntigo quanto no N ovo C oncerto. c. M oisés era fiel com o “ servo” nessa “casa” ou “eco­ nom ia” (Êx 40.16). d. C risto ocupa a posição de “F ilh o ” sobre a casa que Ele m esm o estabeleceu (vv. 3-6).

2. O segundo aviso - o exemplo de rebeldia no deserto (3 .7 - 4.13) A com paração de C risto com M oisés naturalm ente leva à dos seguidores dos dois sistem as. A infidelidade dos jud eu s, nos quarenta anos de jo rn ad a no deserto, serve de categórico aviso aos cristãos hebreus que estão a ponto de perder sua fé em Cristo. A própria data em que foi escrita a epístola (cerca de quarenta anos após a paixão de C risto) enfatiza tal paralelo. Sem dúvida, os acontecim entos do passado serviam p ara fortalecer “o rem anescente” de cristãos fiéis ante a incredulidade geral de seus patrícios. O A ntigo T estam ento registra os juízos sucessivos sobre Israel, dos quais apenas um a pequena m inoria escapou. Que exem plo!


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O argum ento, a esta altura, incide na interpretação da discip lin a no deserto (vv. 7-11; cf. SI 95.7-11). A fé é indicada com o condição indispensável ao recebim ento da bênção divina (3.7-19). N o capítulo 4.1-13, o autor m ostra a necessidade de alcançarem os cristãos o pleno cum prim ento da prom essa. As sérias conseqüências da incredulidade persistente são ilustradas pela experiência de Israel no erm o, quando os pais tentaram a D eus, pondo-o à prova (3.9; Êx 17.3,7; N m 13 e 14). “T entar a D eu s” significa dizer: “D eus proibiu certas coisas, m as vou praticá-las de qualquer m aneira, para ver o que acontece” . Foi isso que Israel fez repetidam ente, pelo que seus cadáveres (literalm ente, “seus ossos desm em brados”) foram espalhados pelo d e­ serto (3.17). A os cristãos vindos do jud aísm o , espreitava-os o p eri­ go de vacilarem no que resp eita à salvação, entre a velha ordem de sacrifícios no T em plo e a fé em C risto som en­ te. D eus exige de nós, ainda hoje, um a firm e decisão que deve ser conservada até o fim! N ote o aviso em 3.6,12,14. A sorte daqueles que foram resgatados do Egito tinha um sentido am plo e direto para os destinatários da epísto­ la. F oram libertados m as não “entraram no descanso de D eus” , perecendo no deserto. M esm o a segunda geração, que conseguiu entrar em Canaã, não alcançou a plenitude da prom essa divina. Só p ela vinda do M essias ela foi alcançada - quando nos apropriam os dela m ediante a fé. Tanto Israel com o os cristãos hebreus ocupavam a idênti­ ca posição de haver recebido o “evangelho” (“boas n o ­ v as”), tendo a oportunidade de “ap ro p riar-se” dele. Israel falhou. A gora, o perigo para esses prim itivos ju d eu s c ris­ tãos era que, p o r causa da incredulidade (3.19) e desobe­ diência (3.18), deixassem de entrar no descanso esp iritu ­ al de D eus (4.1). O próprio Josué, que introduziu os


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rem anescentes em C anaã, não lhes deu de fato o repouso (4.8). N ão que tal repouso inexistisse; ele já estava p re­ parado desde que D eus encerrara suas obras (4.4); a p e ­ nas não p u d era m e n tra r n ele. S o m en te em C risto “nós, os que tem o s c rid o ” , p o d em o s a lc a n ç á -lo (4 .3 ,9 -1 1 ; cf. M t 11.29). O repouso ou descanso, ilustrado pelo sábado original de D eus (v. 4) após a criação, é a condição para todas as coisas virem a se ajustar p erfeitam ente à vontade divina. E esse descanso que D eus pretende estender aos que lhe são fiéis - o descanso da alm a, relativo ao cessar das “obras” (as que partem do esforço hum ano) e que im plica num a confiança p len a na obra perfeita de redenção con­ sum ada por C risto (v. 10). A prom essa de descanso traz um a responsabilidade especial para o povo de D eus, o qual deve estar atento para não se perm itir a “p rovocação” de Israel, caindo “no m esm o exem plo de deso b ed iên cia” (v. 11). O autor re­ força sua exortação trazendo à m em ória o caráter dinâ­ m ico da P alavra (grego logos - “rev elação”) de D eus, de onde ex traíra sua citação. N ão é um a p alavra m orta ou form al, m as cheia de poder e eficácia, capaz de esquadri­ nhar até as profundezas da n atureza hum ana. E la é apta para estabelecer ju ízo s de cunho m oral e “discernir os pensam entos e intenções do coração” (v. 12). D eus percebe logo a dúvida ou o pecado m ais dim inu­ to. A lm a e corpo não podem furtar-se ao seu olhar. A p alavra “p aten tes” (v. 13) deriva-se do vocábulo grego traquelos (“garganta”), e significa virar para trás a g ar­ ganta, com o faz o cirurgião no paciente. O anim al do sacrifício tem sua garganta exposta totalm ente à lâm ina do cutelo. S em elhantem ente, todo ser hum ano está to tal­ m ente descoberto diante dos olhos daquE le cuja Palavra é com o espada cortante de dois gum es (V incent).


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3. Cristo, um Sumo Sacerdote maior que Arão (4.14-5.10) O autor retorna ao pensam ento central do sum o sacer­ dócio, do qual se afastara um pouco. C risto, já ap resenta­ do com o superior aos anjos e a M oisés, além de m aior que Josué (o descanso), agora é m ostrado com o quem efetivam ente fez m ais do que M oisés e Arão, não obstante o terem estes prefigurado. As palavras de 4.14 reportam se a 2.17 e 3.1. O tem or do fracasso final, aliado à consciência de debilidade e fracassos parciais, encam i­ nham os pensam entos novam ente ao M ediador. C risto, nosso Sum o S acerdote, que já entrou no d es­ canso que Ele m esm o prefigurou, tem condição de in tro ­ duzir nesse m esm o descanso o seu povo. Ele já “penetrou nos céu s” , na presença de D eus, e está agora além de todas as forças de oposição satânica, “principados e p o ­ deres” . Este Sum o S acerdote nos pertence, fato que in d i­ ca o privilégio que tem os de m anter firm e a nossa “co n ­ fissão ” (e não a m era “p ro fissão ”), na qual reside a segu­ rança de felicidade final (v. 14). Ele, apesar de habitar as regiões celestiais, está m ais próxim o de nós do que qualquer sacerdote hum ano, pois foi experim entado em todo ponto sem elhante a nós, m antendo-se contudo im aculado. Ele conheceu todas as “fra­ quezas” que os hum anos conhecem , com o fom e, cansa­ ço, sede etc. Foi atacado por Satanás, m as triunfou sobre ele (v. 15). Por conseguinte, devem os nos aproxim ar desse sacer­ dote com passivo e, em vez de abandoná-lo, m anter um contato diário e pessoal com Ele. A expressão “com confiança” , ou “confiadam ente” (v. 16), significa expres­ sar com coragem nosso rogo a Ele, contando-lhe todas as nossas fraquezas e falhas. Seu trono é o “trono da graça” , do qual se m inistra “m isericó rd ia” para com os pecados


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dantes com etidos, e “graça” com o socorro na hora p reci­ sa, antes que seja tarde dem ais (A. T. R obertson). Em relação a C risto, os cristãos hebreus não o conhe­ ciam sob a figura de sum o sacerdote. Por isso, não com ­ preendiam a aplicação desse título e ofício à sua pessoa. N ão sendo Ele da linhagem de A rão, naturalm ente não o contem plariam com o “sacerdote” . Seu m inistério tam ­ bém não lhes d espertaria um tal pensam ento, um a vez que não reivindicou nenhum privilégio de acesso ao T em ­ plo, nem executou nenhum a função sacerdotal, e sem pre criticou o concerto ju d aico do sacerdócio (V incent). O autor resum idam ente apresenta as características e atribuições do sum o sacerdote (5.1-4), dem onstrando que são p erfeitam ente satisfeitas em C risto (5.5-10). Segundo o sistem a levítico, todo sumo sacerdote é escolhido entre os hom ens e constituído a favor dos h o ­ m ens. Ele traz ao altar tanto sacrifícios cruentos com o sem sangue (5.1). E xige-se dele que possa “condoer-se” ou ter com paixão do povo. A expressão significa ser “m oderado” ou “ten ro ” em seu ju lg am ento, nem severo dem ais e nem tolerante dem ais. N ão deve ser hom em que se irrita diante do pecado e da ignorância, e nem transigente com o m al (vv. 2,3). Ele deve ser cham ado por Deus (v. 4). C risto cum priu todas essas qualificações. A sua vo ca­ ção divina nos é apresentada em Salm os 2.7 e 110.4. Jesus repetidam ente declarou que seu Pai o enviara em m issão especial a este m undo (vv. 5,6; Jo 5.30,43; 8.54). O autor, agora, dem onstra que C risto tam bém cum ­ priu a o utra qualificação, a de ser conhecedor, através da experiência, das necessidades e fraquezas hum anas. U m a vez que não com eteu pecado, não era necessário que oferecesse sacrifício por si m esm o (v. 3). C ontudo, com o Sum o S acerdote, podia, em todas as áreas, com padecer-


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se do povo, estando preparado para o ofício. Sua prep ara­ ção incluiu aprender a o b ediência e padecer pela causa a que fora designado (v. 8). O versículo 7 encontra seu cum prim ento na agonia de C risto no jard im de G etsêm ani (Lc 22.44; M t 26.39). N essa ex periência terrível, a alm a de C risto experim en­ tou dor e agonia m ental cruciantes ao contem plar os horrores do m adeiro que se aproxim ava, trazendo consi­ go a separação da face do Pai. Sem dúvida, sentiu toda pressão das potestades das trevas a esm agar-lhe a vida antes de chegar à cruz. Jam ais com preenderem os tudo o que aconteceu ali. A preparação de C risto para exercer o sacerdócio incluía o sofrim ento, apesar de ser Ele o Filho de D eus (v. 8). A obediência, apesar de natural para Jesus (cf. Jo 8.29), foi-lhe necessária enquanto disciplina esp e­ cial na esfera da severa ex periência hum ana, a fim de que pudesse “co n d o er-se” de nós e tornar-se o A utor “da nossa eterna salvação” (v. 9). C risto foi “nom eado” (lite­ ralm ente, “saudado”) por Deus e reconhecido com o “sumo sacerdote, segundo a ordem de M elq uisedeque” , pelo fato de ter com pletado sua disciplina terrestre (v. 10). VI - A viso c o n t r a o P e r i g o d a O c io s id a d e , I n é r c ia e A fa s ta m e n t o E s p i r i t u a l (5 .1 1 -6 .2 0 )

N este ponto, o autor poderia ter procedido a com para­ ção de C risto com M elquisedeque. M as, tem endo que o leitor não alcançasse o seu significado, um a vez que seria contrária às opiniões correntes ju d aicas, ele form ula um aviso e só retom a o argum ento a p artir do capítulo 7. N os versículos 11-14 (cap. 5), o autor alerta quanto ao perigo de estacionar na vida espiritual e m enciona as possíveis conseqüências. A vida espiritual é sem elhante à natural: em todos os seus estágios depende de fatores


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sem os quais não poderá ser m antida. U m crescim ento sadio dá ao cristão condições de se apropriar do que seria im possível num estágio anterior e inferior. C ontudo, essa constatação traz sérias responsabilidades: a.O período de infância espiritual pode ser prorrogado de form a abusiva, com o fizeram os hebreus, m antendose com o “crian cin h as” - estágio esse que já deveria ter passado (vv. 11,12). b.C om o conseqüência do prim eiro item , a pessoa pode não estar prep arad a para a instrução m ais m adura (“sóli­ do m an tim en to ”), em tudo necessária, quando m inistrada a seu tem po (vv. 13,14). Os hebreus eram ainda “crian cin h as” quando, pelo tem po de convertidos, deveriam ter alcançado certa m a­ turidade. Já era tem po de serem m estres e não de ainda e s ta r e m b u s c a n d o i n s tr u ç ã o e le m e n ta r . E ra m inexperientes, im aturos e despreparados para participar das discussões sobre problem as de grande vulto do p en ­ sam ento cristão. S egue-se um a exortação para avançarem na busca de um conhecim ento m ais elevado a que o autor os conduz, convicto de que o acom panharão (6.1-3): “Pelo que, d ei­ xando os rudim entos da d outrina de C risto, prossigam os até a p erfeição ” . Os crentes hebreus precisarão de m aior percepção espiritual, um a vez que o autor irá dem onstrar que o sacerdócio de C risto significa a abolição da A ntiga A liança. N ão se consegue a m aturidade cristã retornando aos padrões dos prim eiros estágios da instrução cristã. Para que o edifício espiritual seja concluído é m ister ir além dos alicerces - o arrependim ento das obras m ortas pela fé em Deus! A expressão “obras m o rtas” não se refere a “p eca­ dos”, m as sim às obras destituídas do elem ento vida,


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procedente da fé no D eus vivo. Todas as obras do hom em em si, à parte de D eus, são “obras m o rtas” . Sem dúvida, o autor tem em m ente todo o sistem a levítico com o um ritualism o m orto. A fé em D eus é igualm ente básica e fundam ental p ara todo cristão.

1. A doutrina dos batismos A expressão com preende os ritos de purificações c eri­ m oniais em geral, com o as abluções ju daicas, o batism o de João B atista e m esm o o batism o cristão, pois este tam bém é introdutório, servindo com o testem unho e não com o fonte de salvação.

2. A im posição das mãos E ra a im posição das m ãos sinal com um de bênção (M t 19.13), de cura (M c 7.32), n^ escolha dos diáconos (At 6.6) e na separação de alguém para um a obra especial (At 13.3), entre outros m om entos especiais.

3. A ressurreição dos mortos A ressurreição de C risto, no que tange aos crentes, naturalm ente alterou por com pleto a d outrina com o era ensinada pelos ju d eu s. O bserva-se que a doutrina da res­ surreição tam bém é fundam ental (1 Co 15).

4. O juízo eterno Este ju ízo transcenderá os dem ais ju izo s tem porais. Será efetuado sobre princípios diferentes dos adotados pelos tribunais terrestres. Suas decisões serão de acordo com as norm as do m undo futuro (vv. 1,2). O versículo 3 indica que o autor prosseguirá com o argum ento já iniciado, sem discutir os elem entos p rim á­


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rios. O resultado final dependerá do poder que D eus conferir ao seu ensino, m as ao m esm o tem po os seus esforços poderão ser anulados pela im possibilidade de arrependim ento (v. 4).

5. A apostasia Os versículos 4-8 são de alta im portância, co n stitu in ­ do um seriíssim o aviso, bem com o anunciando as conse­ qüências funestas para quem não o atender. Satanás já usou esses versículos (ele sabe citar referências bíblicas) para desanim ar e oprim ir pessoas fracas na fé que caíram em pecado, sussurrando aos seus ouvidos: “V ocê pecou de form a tal que já não existe m ais perdão. N em pode m ais se arrepender. C om eteu um pecado im perdoável, e, portanto, está condenado eternam ente. Já não lhe é m ais possível voltar-se para D eus!” Fora com as sugestões diabólicas! A p rim eira ep ístola de João, escrita para a fam ília de D eus, tem um a boa notícia para as pessoas sob ataque do inim igo: “E, se alguém pecar, tem os um A dvo­ gado para com o Pai, Jesus C risto, o Ju sto ” (1 Jo 2.1). D eus nos corrige, m as não nos lança fora por um fracasso qualquer. A interpretação correta dessa passagem requer que se considere ter sido ela escrita a cristãos hebreus, que cons­ tantem ente enfrentavam a tentação de retornar à velha ordem dos sacrifícios levíticos. L em bre-se de que o T em plo de H erodes ainda estava de pé, e os antigos ritos levíticos continuavam . Os cris­ tãos estavam sendo perseguidos por sua fé em Jesus. C om m uita razão, aguardavam o cum prim ento das E scri­ turas do A ntigo T estam ento que preconizavam um reino teocrático visível na Terra. M as, com o esse reino dem o­ rava a se concretizar, h avia a tentação de abandonar C risto com o o único S acrifício pelo pecado, retro ced en ­


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do para as som bras e figuras ultrapassadas do A ntigo T estam ento. T rocava-se, assim , indevidam ente, a subs­ tância e a realidade das coisas pelos tipos im perfeitos até então vigentes. A p assag em n ad a co n tém in d ican d o que alguém apostatara (caíra ou desertara da fé), m as os hebreus enfrentavam tal perigo, diante do qual podiam sucum bir. H aviam sido de um a vez por todas ilum inados pela rev e­ lação de D eus em Cristo. T inham provado o dom celesti­ al, o E spírito Santo. H aviam experim entado a boa P ala­ vra de D eus - o E vangelho de C risto, pregado entre eles e autenticado pelos poderosos m ilagres e operações do século vindouro - a virtude característica do reino m ilenial de Cristo. Para essas pessoas, caso se desviassem , seria im possível (o original não adm ite que se em pregue na tradução o vocábulo “d ifícil” , v. 4) renová-las outra vez para o arrependim ento (m udança de idéia), um a vez que deliberadam ente rejeitaram a Cristo, destituindo a cru ci­ ficação do sentido que antes lhe atribuíam . D ificilm ente o verdadeiro crente fará um a coisa d es­ sas, contudo, tal é possível, porque tem os o livre-arbítrio, o que constitui um vitupério a C risto (v. 6). O autor da epístola sente bem de perto o perigo peculiar que os hebreus enfrentavam . Ele em prega a ilustração da n atu ­ reza, contrastando dois tipos de solo, am bos bem reg a­ dos, sendo que um produz “erva p ro v eitosa” (v. 7) e o outro apenas “espinhos e abrolhos” (v. 8). O contraste realça a d iferença entre duas classes de cristãos, am bas trabalhando sob condições ideais, mas chegando a resu l­ tados diferentes (V incent). O aviso teve seu cum prim ento (im ediato, e que ilustra um a destruição ainda m aior profeticam ente) na queda de Jerusalém no ano 70 d.C., quando o T em plo e o serviço ritualístico foram extintos.


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O autor expressa a esperança de que tal calam idade não lhes sobrevenha, se bem que seja necessário avisálos do perigo, pois já evidenciavam sua fé m ediante um operoso am or cristão. Ele os encoraja a perm anecer fir­ m es e constantes até o fim , quando todas as prom essas de D eus se cum prirão (vv. 9-12). D esejava o autor que escapassem ao perigo im inente e que se esforçassem para alcançar o ideal exem plificado na vida dos grandes heróis da fé (cf. cap. 11). Para isso enfoca de m odo singular o exem plo do patriarca A braão. O E xem plo de A braão focaliza duas coisas: a. a “com pleta certeza da esp eran ça” (v. 11), que se apóia na prom essa de Deus; b .a necessidade de p aciência (v. 12), a fim de que se cum pra. A prom essa de D eus a A braão foi ratificada por ju ra ­ m ento. A braão esperou m uito tem po, m as não foi reb el­ de. A ssim , tornou-se o representante de todos os que, crendo e ab raçan d o as p ro m essas, ch eg am en fim a alcançá-las (Hb 11.13-16). A braão agüentou firm e, confiando na redenção e usu­ fruto da bênção prom etida. N ós, atualm ente, tem os o incentivo adicional de um a redenção já efetuada, em cum prim ento a prom essa e ju ram en to divinos. D evem os, pois, nos refugiar na p essoa de C risto, em quem tem os proteção não apenas contra o pecado, m as contra as m e­ ras, superficiais e inúteis form alidades religiosas. A es­ perança do cristão é com o âncora “segura e firm e” que jam ais perde a resistência. É um a esperança pessoal, firm ada no S enhor Jesus C risto “feito eternam ente sum o sacerdote, segundo a ordem de M elq u isedeque”, que en­ trou no santuário celestial com o precursor dos m uitos “filh o s” que está conduzindo à glória. É na qualidade de D eus-hom em que Jesus está no céu, “à destra do trono da


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M ajestad e” (8.1), com o garantia de que nosso glorioso destino se concretizará um dia (vv. 17-20).

E

V II - C r is t o , n o sso S um o S acerdote (C a p. 7)

terno e

O autor agora reverte ao argum ento de 5.10, no qual se refere a C risto com o o Sum o Sacerdote de um serviço divino de ordem m ais elevada que a estabelecida sob a lei m osaica. E sta ordem sacerdotal é de origem divina “segundo a ordem de M elq u ised eq u e” (5.10; 6.20). O capítulo divide-se da seguinte m aneira: a. As características de M elquisedeque (vv. 1-8). b .A relação en tre M elq u ised e q u e e o sacerd ó cio levítico (vv. 4-10). c. A com paração do sacerdócio levítico com o de C ris­ to (vv. 11-25). d. A qualidade superior do sacerdócio de C risto (vv. 26-28).

1. As características de M elquisedeque A descrição histórica desse personagem singular encontra-se em Gênesis 14.17-20. Ele surge de repente nas pági­ nas sagradas qual estrela nova no firmamento. Logo desapa­ rece para só vir a ser encontrado depois, no livro de H e­ breus. Quando Abraão voltava da batalha em que libertara o sobrinho, Ló, encontrou-se com M elquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssim o (El Elyori). Os títulos a ele conferidos indicam o seu caráter: M elquisedeque, “rei de justiça”, rei de Salém, “rei da paz” . Certa tradição judaica corrente durante a era apostólica aparentemente identifica Salém com Jerusalém. O Dr. W estcott informa: “No tempo de Jerônim o, Salém era identificada com um a cidade perto de Citópolis, onde se viam as ruínas do palácio de M elqui-


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sedeque” . Contudo, a identificação do lugar nao faz parte do argumento do autor da epístola. C ertos intérpretes vêem no relato de M elquisedeque um exem plo de teofania, ou seja, um a m anifestação de Cristo antes da encarnação. M as acham os pouco p rová­ vel e m esm o desnecessário à prática da lição, que é de ordem típica. O fato de a B íblia não apresentar o registro genealógico de M elquisedeque, seja indicando seu n asci­ m ento ou sua m orte, já o torna tipo perfeito do sacerdó­ cio eterno de Cristo. O antítipo, ou seja, a realidade, é sem pre m aior do que o tipo (vv. 1-3). O versículo 3 é significativo porque é um tipo de sacerdócio diferente do levítico, no qual a g enealogia era de capital im portância.

2. A relação de M elquisedeque com o sacerdócio levítico É evidente a superioridade do sacerdócio de M elqui­ sedeque sobre o levítico pelo fato de que os “filhos de L evi” (A rão e seus sucessores), autorizados a receber os dízim os do povo, haviam (em A braão, rep resen tativ a­ m ente, pois descendiam dele) dado dízim os a M elquise­ deque. A lém disso, A braão, de quem o sacerdócio levítico procedeu, foi abençoado por M elquisedeque. O argu­ m ento afirm a que o m enor é abençoado pelo m aior, indi­ cando a superioridade de M elquisedeque sobre A braão. O utro fator im portante é que o sacerdócio levítico era sem pre interrom pido p ela m orte, m as M elquisedeque, que recebeu dízim os de A braão, foi tipicam ente im ortal (vv. 4-10).

3. A com paração entre o sacerdócio de Cristo e o levítico O sacerdócio levítico deixou de prover um a relação adequada entre os hom ens e D eus, visto ser transitório.


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Comentário Bíblico

Se a perfeição espiritual fosse adquirida m ediante a Lei, então não haveria necessidade de outro sacerdócio além do arônico. A ntes de sua organização, já se previra outro tipo de sacerdócio, sendo que qualquer m udança tam bém im plicaria em alteração na lei m osaica (v. 12), pois esta estabelecia um a tribo sacerdotal apenas, a de Levi. Ora, nosso Senhor procedeu da tribo de Judá (vv. 13,14). O sacerdócio segundo a ordem de M elquisedeque é eterno, im utável, em conform idade com o tipo (vv. 1517). A idoneidade para a posição de sacerdote no sistem a levítico dependia de g enealogia precisa, aptidão física e pureza cerim onial. T al sacerdócio não podia ser eterno e não passava de algo “segundo a lei do m andam ento car­ n al” , enquanto o sacerdócio de C risto é “segundo a v irtu ­ de da vida in co rru p tív el” que estava nEle. E, desde que o sacerdócio prom etido é diferente do sacerdócio levítico, vê-se que os dois são incom patíveis e independentes um do outro. U m a vez estabelecido o novo sacerdócio, não há m ais razão p ara existir o p rim ei­ ro. O sacerdócio levítico nada aperfeiçoou, m as o sacer­ dócio m elhor, o de C risto, realm ente conduz o hom em à com unhão p erfeita com D eus (vv. 18,19). O utro fato notável é que o sacerdócio levítico foi instituído sem ju ram en to . Já o sacerdócio de C risto foi solenem ente juram en tad o , com o testem unho de seu cará­ ter im utável e ininterrupto no que respeita ao seu desem ­ penho pelo próprio C risto. Os sacerdotes levíticos m o rri­ am! C risto vive eternam ente! Por essa razão ele pode “ salvar p erfeitam en te” , expressão que significa “salvar totalm en te” ou “ ao m áxim o” (vv. 20-25).

4. A qualidade superior do sacerdócio de Cristo C risto é o sacerdote ideal, capacitado para suprir a necessidade de cada crente, em razão de:


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a. Ser em verdade o “R ei da Ju stiça” (v. 2), alguém que possui perfeita excelência m oral, sem m ancha ou im perfeição (v. 26). A com paixão para com o pecador não significa que C risto tenha experim entado pecado. Pelo contrário, a com paixão é im ensurável exatam ente porque Ele conheceu o poder da tentação e a venceu. Quem cede à tentação ainda não a conhece em sua força m áxim a. b. Sendo im aculado, C risto não precisava oferecer sacrifícios por si. Possuía condições para servir de antítipo dos cordeiros sacrificados nos antigos rituais. E ra o sa­ crifício perfeito pelos pecados dos hom ens (v. 27). c. Os sacerdotes levíticos eram hom ens fracos, m as o sacerdote “segundo a ordem de M elq u isedeque” é o F i­ lho perfeito, para sem pre (v. 28). N ós, sendo im perfeitos e pecam inosos, carecem os de um Sum o S acerdote p er­ m anente que seja “im acu lad o ” e p erfeitam ente provido de todas as condições necessárias, tanto pela vontade divina com o p ela ex periência hum ana (2.17; 5.1-10). A ssim , Ele pode suprir todas as nossas necessidades, oferecendo-se a si m esm o em nosso lugar.

V III - O N o v o S a n t u á r i o e a N o v a A lia n ç a (C a p . 8 ) A ntes de considerar detalhadam ente a obra sacerdotal de C risto (cap. 9; 10.1-18), o autor apresenta um pan o ra­ ma geral, quanto à natureza, da relação entre o novo santuário (8.1-6) e a N ova A liança (8.7-13).

1. O novo santuário O autor inicia o argum ento dizendo: “Q uanto ao as­ sunto em discussão, este ponto é principal (a essência do


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Comentário Bíblico

que tem os dito) porque agora possuím os um Sum o S a­ cerdote, e Ele já está exercendo a obra sacerdotal condig­ na à sua posição no santuário celeste” . Este santuário foi divinam ente estabelecido sobre o trono da M ajestade nas alturas (vv. 1,2). A obra de C risto com o Sum o Sacerdote, nas regiões celestiais, de m aneira nenhum a poderia cum prir-se na Terra, pois no tem po em que foi escrita a epístola ainda havia um a ordem sacerdotal (ultrapassada,contudo ainda funcionando) estab elecid a p ela lei m osaica. U m a vez que C risto não perten cia ã tribo de L evi (7.13,14), n atu ral­ m ente não p odia atuar com eles (vv. 3,4). A lém disso, o sistem a terrestre não passava de “figura e som bra” das coisas celestiais que têm seu pleno cum ­ prim ento em C risto (vv. 5,6).

2. A Nova Aliança O sistem a levítico baseava-se num a aliança que até os profetas reconheceram im perfeita e transitória, pois fala­ vam do propósito divino de estabelecer um a nova. Se a prim eira fosse perfeita, não h av eria procura por um a segunda aliança (v. 7). D aí entendem os que havia no coração do povo santo que viveu no A ntigo T estam ento um senso de insatisfação. P rocuravam algo superior. E essa aliança m elhor já fora prom etida, com o provam as E scrituras (Jr 31.31-34; Ez 36.25-29; vv. 8-12). C aracterísticas da N ova A liança: • Inclui todo o povo da A ntiga A liança - Israel e Judá - e m ais os gentios (v. 8). • É distin ta da A ntiga A liança, in stituída no tem po do Ê xodo (v. 9), através da qual D eus ordenou um a nação, em tudo separada e exclusiva, para testem unho do seu poder. A nação de Israel veio servir de tipo à “nação santa” (assim representada p ela Igreja, 1 Pe 2.9) que seria levantada por m eio da N ova A liança.


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• Possui características positivas, de ordem espiritual e subjetiva. Sua eficiente operação transform aria o coração daqueles que cressem, de um modo tão definitivo que os m andam entos fariam parte da personalidade deles (v. 10). • É universalm ente eficaz em favor de todos os povos, incluindo a “casa de Israel” , de quem o S enhor seria individualm ente conhecido (v. 11). • A póia-se na graça de D eus, suficiente para prover um perdão absoluto. O pecado seria rem ovido até da m em ória divina (v. 12). A N ova A liança não é apenas “m elhor” e fundam enta­ da sobre m elhores prom essas. A lém disso, ela substitui sua predecessora, envelhecida e revogada (v. 13). N este versículo (veja Introdução, O casião e D ata) o autor já indica que os últim os vestígios da A ntiga A liança - a celebração dos rituais no T em plo em Jerusalém , num espírito de incredulidade - , estavam prestes a d esapare­ cer. D e fato, Jerusalém e o T em plo com todo seu ritual foram destruídos no ano 70 d.C., fato que cum priu à risca a profecia de C risto concernente ao T em plo (M t 24.1,2). I X - O A n t ig o e o N o v o S is t e m a : a E x p ia ç ã o S e g u n d o a L e i e a E x p ia ç ã o d e C r is t o ( C a p. 9 )

T endo apresentado o santuário m ais elevado e celesti­ al e a S uperior A liança (8.1-13), o autor agora passa a com pará-los com o sistem a levítico. P rim eiram ente, des­ creve de m odo reverente a disposição do antigo santuário (o T abernáculo e sua m obília, bem com o os privilégios restritos e lim itados do sacerdócio anterior, vv. 1-10). Em seguida, faz um contraste com a expiação efetuada pelo Sum o Sacerdote, da N ova A liança, que terá seu desfecho glorioso na ocasião da segunda vinda de C risto (vv. 11-28).


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1. O Santuário e os sacerdotes sob a Antiga Aliança (9.1-10) 1.1. O Tabernáculo: suas p a rtes e m obília (vv. 1-5). A ntes de tratar o assunto das glórias do sacerdócio de C risto, o autor apresenta em retrospecto o m inistério levítico, descrevendo o T abernáculo com seus dois com ­ partim entos, o L ugar Santo e o Santo dos Santos, ou Santíssim o. H avia algo de belo e m ajestoso nessa antiga econom ia de culto e serviço sacerdotal que, pelo contras­ te, enaltece a glória da nova ordem cristã. 1.2. O serviço sacerdotal do Tabernáculo (vv. 6,7). Os sacerdotes diariam ente entravam no L ugar Santo, m as som ente o sum o sacerdote entrava no Santo dos Santos e isto acontecia apenas um a vez por ano, no D ia da E x p ia­ ção, quando oferecia sangue expiatório pelos pecados seus e do povo. 1.3. A s lições colhidas das restrições (vv. 8-10). Sob a ordem m osaica, entendia-se que não havia livre acesso à presença de D eus. Som ente um a vez por ano, e isso por m eio dum representante, não sem sacrifício cruento, p o ­ dia o hom em aproxim ar-se de D eus. A lição que aprende­ m os é que, devido ao pecado, o propósito do hom em , de acercar-se diretam ente de D eus, é definitivam ente fru s­ trado — e a ordem lev ítica não reso lvia em absoluto o problem a. T oda a econom ia levítica era provisória, não passando de som bra ou tipo da realidade celestial. Os sacrifícios anuais jam ais poderiam resolver o problem a da consciência. E ra um sistem a provisório, aguardando um tem po de “refo rm a” ou de “co rreção” - um a ocasião m elhor.

2. A expiação da Nova Aliança (9.11-22) O tem po de reform a introduz um santuário m elhor, um sacrifício eficiente e um a salvação m ais com pleta. O


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serviço do sum o sacerdote ju d aico no D ia da Expiação representava o clím ax do sistem a levítico. N esse dia, todo ano, ele entrava na presença divina, num T aberná­ culo terreno, levando o sangue expiatório de anim ais. Sob a N ova A liança, C risto, “o sum o sacerdote dos bens futuros”, entrou um a vez para sem pre no próprio taberná­ culo celestial, levando o seu próprio sangue com o ex p ia­ ção (vv. 11,12). O sangue de touros e cabras efetuava apenas p u rifica­ ção ritu alística e sim bólica, de alcance lim itado, mas o sangue de C risto, oferecido com o sacrifício espiritual e vivo, executa a purificação interior, que traz com unhão com o D eus vivo (vv. 13,14). O bispo W estcott observa os seguintes itens pelos quais o sangue de C risto é superior, partindo da análise de seu sacrifício, que foi: a. voluntário, ao contrário dos sacrifícios exigidos pela Lei; b .racio n al, e não com o o dos anim ais (irracionais); c. espontâneo, e não em obediência a ordens superio­ res; d. m oral, com o oferta de si próprio por ação do supre­ mo poder nE le residente (o E spírito E terno), pelo qual m antinha com unhão com D eus. N ão seguiu m eram ente um rito, um esquem a predeterm inado. Não! Ele detinha os m ais puros m otivos. E m razão da eficácia absoluta do sangue de C risto em efetuar a purificação interna, C risto tornou-se o M edia­ dor da N ova A liança, que preconiza exatam ente esse tipo de purificação (v. 15; cf. 8.8-12). “O valor real dos sacri­ fícios do sistem a do A ntigo T estam ento, com o tipos, consistia em seu cum prim ento, com o antítipo, na m orte de Cristo. Seu valor está no fato de que são tipos de Cristo. D essa m aneira, o sacrifício expiatório de C risto é


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a base da salvaçao de todos os crentes, quer dos tem pos antes da cruz, quer depois” (R obertson). Ao interpretar os versículos 16-22, deparam os com a palavra grega diatheke, cujo sentido geral em todas as epístolas é “alian ça” . O autor, contudo, a fim de ilustrar a necessidade da m orte da vítim a para a expiação, introduz no versículo 16 um segundo sentido, o de “testam en to ” e “testad o r” . C risto seria o “testad o r” que deixou para seus discípulos um precioso docum ento legal, o seu “testa­ m ento” , que entrou em vigor com sua m orte. O autor considera a felicidade eterna com o “herança” da m orte de Cristo. Com o prova da necessidade da m orte de C ris­ to, ele cita ainda o caso da aliança m osaica ter sido sancionada com sangue. A introdução da idéia de “testa ­ m ento” nesse texto aparentem ente influenciou os trad u ­ tores da V ulgata L atina a traduzir, através do N ovo T es­ tam en to , o v o cáb u lo d ia th eke p o r “te sta m e n to ” . D a V ulgata L atina passou a várias outras traduções, em d i­ versas línguas (Léxico de Thayer, p. 137). W estcott assim in terp reta a passagem : “U m a aliança im utável im plica m orte. N ão no sentido que o testador ‘deva m o rrer’, m as sim que sua m orte ‘seja trazida ao con h ecim en to ’, ‘ap resen tad a’, ‘introduzida no p ro cesso ’ ou ‘posta em ev id ên cia’. A quele que celebra a aliança é, para os devidos fins, identificado com a vítim a por cuja m orte representativa a aliança costum a ser ratificada. No caso da N ova A liança, C risto representou, em si m esm o e a um só tem p o, tanto o D eus que revela (por m eio de e em C risto) a grandeza do seu divino am or com o a com pleta e voluntária sujeição da hum anidade. C risto foi um rep re­ sentante legítim o tanto da p alavra em penhada por Deus com o do com prom isso hum ano. U m a aliança celebrada nessas condições não poderia falhar. A fraqueza e a in s­ tabilidade dos hom ens já não figuravam no caso. O p en ­ sam ento expresso na vítim a rep resen tativa tornou-se um


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fato eterno. U m pacto solene firm ou-se, com base no sacrifício, com o é o caso de todas as alianças entre Deus e os hom ens (cf. Gn 15.8-20). A m orte da vítim a, supu­ nha-se, dava validade ao pacto, com o afirm a o texto em apreço” . A declaração do versículo 18 confirm a-se na form a pela qual foi estabelecida a aliança m osaica (vv. 19-22; cf. Ex 24). Seus term os foram declarados ao povo (Ex 24.3), que os aceitou plenam ente. A seguir, foram levan­ tados um altar e doze m onum entos, sendo oferecidos holocaustos e ofertas pacíficas (Êx 24.4,5). M etade do sangue foi aspergida sobre o altar e a outra m etade sobre o povo (Êx 24.6,8). Os sacrifícios foram oferecidos pelos jovens de Israel, representando a p lenitude da vida do povo (Êx 24.5). A inda não haviam sido dadas as orde­ nanças do sacerdócio levítico, m as a celebração da A li­ ança e sua ratificação pelo povo representava a totalidade da revelação de M oisés, cujos detalhes subseqüentes Deus faria conhecer através de ju ízo s e ordenanças. A

/-v

3. O santuário celeste purificado pelo sacrifício de Cristo (vv. 23-28) Havendo o autor se apartado do assunto principal para esclarecer o pleno significado do “sangue” (vv. 16-22), ele agora regressa ao pensam ento indicado em 9.11,12. O san­ tuário celeste exigia um a purificação m elhor do que a provi­ da pelo sistem a levítico. As cópias das coisas celestiais podiam ser purificadas com sacrifícios de animais, mas essas m esm as coisas celestiais exigiam um sacrifício m e­ lhor. O grande erudito D elitzsch escreve: “Um a vez que a cidade celestial de Deus, com seu Lugar Santíssimo, está destinada a receber um povo vinculado a Deus através de aliança, a fim de ali chegar à perfeita com unhão com Ele, então a culpa desse povo contam inou as coisas sagradas, tanto quanto as terrenas. Só poderão ser purificadas pelo


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mesm o sistem a indicado pela lei m osaica para as coisas terrenas, com esta diferença: que o sangue seja não de um sacrifício imperfeito, mas perfeito” . “ Sob a A ntiga A liança o derram am ento de sangue era sim bólico, e a m orte do in stitu id o r era sim bólica e atra­ vés de substituto. N a ratificação da N ova A liança, C risto m esm o foi a vítim a. O verdadeiro poder purificador do seu sangue é conseqüência de Ele ter oferecido seu E sp í­ rito E tern o ” (V incent). Em virtude desse sacrifício, Ele agora com parece à presença de D eus com o nosso rep re­ sentante sacerdotal (vv. 23,24). O sacrifício de Cristo, por causa de seu infinito valor e de sua natureza um a vez para sempre eficaz, jam ais precisa­ rá ser repetido, com o o foram os sacrifícios típicos do Dia da Expiação. O sacrifício de Cristo tratou o assunto do pecado como princípio (“para aniquilar o pecado” é que se m anifestou), enquanto os sacrifícios levíticos tratavam das transgressões individuais (vv. 25,26). A o term inar a expiação levítica, o sum o sacerdote novam ente aparecia entre o povo (Lv 16.24). A ssim tam ­ bém C risto. T endo sofrido de um a vez para sem pre as conseqüências do pecado, voltará ao lugar onde realizou seu sacrifício, a Terra, isento de qualquer ônus p ecam i­ noso, na qualidade de Juiz de todos os hom ens, com ple­ tando a salvação para todos “que o esperam ” (vv. 27,28). X -

Os S a c r if íc io s A n t ig o s e o N o v o :

a E f i c ás c i a P e r m a n e n t e d o S a c r i f í c i o U n i c o d e C r i s t o (10.1-18)

1. Os sacrifícios da Lei são insuficientes para remover o pecado (vv. 1-4) O í ?A5ò d t ç>ç, serem. reçeúdçss dem onstra que não podiam levar à perfeição. Se fossem


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espiritualm ente eficazes, tal repetição seria d esnecessá­ ria (vv. 1,2). Q uando contem pladas com realism o, en ten ­ dem os que foram planejados para expressar um a n ecessi­ dade, a qual não supriram (v. 3), e que, devido à natureza deles, jam ais poderiam fazê-lo (v. 4).

2. O único sacrifício válido: oferecido por Cristo (vv. 5-10) Os versículos 1-4 dem onstram a d eficiência dos sacri­ fícios levíticos. A gora, em contraste, vê-se a eficiência total do sacrifício de C risto. O autor em prega a lingua­ gem de Salm os 40.6-8, cujas palavras são atribuídas ao M essias, na encarnação (pela qual vem ao m undo na condição de S alvador). A obediência à vontade divina, que o salm ista coloca em contraste com os sacrifícios m osaicos, significa o sacrifício único de Cristo. Com efeito, o autor assim descreve a oração do M essias: “Tu, ó D eus, não desejas o sacrifício de anim ais, m as preparaste o m eu corpo com o sacrifício único. P ortanto, vim para cum prir a tua vontade, com o de m im foi predito, pelo sacrifício de m im m esm o” (V incent). O sacrifício de si m esm o foi um ato de plena e volun­ tária subm issão à vontade do Pai, não que este o co n s­ trangesse, m as porque assim o deliberara em seu próprio espírito, num ato de o b ediência e grande dignidade m o­ ral. Foi p articularm ente a expressão de sua vontade p es­ soal, não obstante ser tam bém a vontade do Pai (vv. 5-9). P ela vontade de D eus, expressa no sacrifício de C ris­ to, “tem os sido san tificad o s” na oferta de sua vida, “um a vez por to d as” (v. 10).

3. A total eficácia do sacrifício de Cristo (vv. 11-14) N os versículos 11-14 há um contraste m uito interes­ sante no uso das palavras “aparece... m inistrando” (em


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Comentário Bíblico

pé, v. 11) e “está assen tad o ” (v. 12). A prim eira expres­ são indica o serviço contínuo dos sacerdotes levíticos, incapazes de realizar a verdadeira purificação do pecado. A segunda fala de um a obra consum ada, que satisfaz totalm ente as exigências de D eus. D eus reconheceu a obra no C alvário, exaltando o Filho, que assum iu um a posição de igualdade no trono da M ajestade divina. C ris­ to outrora ocupava essa posição, da qual se destituíra quando veio ao m undo (Fp 2.6); agora, Ele a recupera por ter sido vitorioso no C alvário. N esse trono, C risto aguarda a vitória defin itiv a e certa, a seu tem po. G anha a guerra, aguarda apenas que “seus inim igos sejam postos por escabelo de seus p és” (v. 13). Sua oferta “um a vez por to d as” realizou o que os antigos sacrifícios deixaram por fazer. O versículo 10 revela um fato m uito im portante: a obra consum ada e perfeita de C risto está com pletando diária e co n stan te­ m ente a obra de santificação ainda inacabada na vida do crente. N ão som ente a posição do crente “em C risto ” está com pleta (santificação posicionai - em C risto som os to ­ dos santos), com o tam bém a obra do C alvário opera um desenvolvim ento (santificação p rogressiva - am adureci­ m ento espiritual) na vida da pessoa, que a faz confor­ m ar-se cada vez m ais à im agem de Cristo. O E spírito Santo testifica que a obra perfeita de C risto é o cum prim ento da profecia a respeito da N ova A liança, registrad a no capítulo 31 de Jerem ias e m encionada em H ebreus, no capítulo 8. A parte essencial dessa aliança é o perd ã o dos p eca d o s já não há m ais necessidade de qualquer outra oferta propiciatória. O perd ã o já é um fa to consum ado (vv. 15-18). X I - L iç õ e s P r á t ic a s - A p r o p r ia ç ã o e A p l i c a ç ã o à V i d a (1 0 .1 9 -1 3 .2 5 )

Havendo estabelecido seu ponto de vista doutrinário sobre a relação entre Cristianism o e judaísm o, som bra e


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substância, o autor passa à aplicação prática da verdade. Ele apresenta os privilégios (10.19-25); avisa contra a vacilação (10.26-39); encoraja através de exem plos (cap. 11); exibe a grandeza das responsabilidades e esperanças cristãs (cap. 12); e exorta todos ao am or e à prática das boas obras (cap. 13). Os privilégios devem ser usufruídos, as obrigações, cumpridas. A fé não se destina à m era especulação, mas à vida. Devem os abrir mão de todas as consolações do siste­ m a levítico, pois falta nenhum a fazem e entram em com pe­ tição com a obrigação cristã (W estcott).

1. O privilégio de adentrar no Santo dos Santos (10.19-25) P ela eficácia do sangue de C risto tem os um m eio de aproxim ação, um a porta de entrada à presença divina (v. 19). E um novo e vivo cam inho através da encarnação, “isto é, p ela sua carne” (v. 20). Tem os tam bém disponí­ vel um A dvogado (pessoa), “um grande sacerdote sobre a casa de D eu s” (v. 21). P ortanto, devem os nos valer desses gloriosos privilégios e exercer nosso direito de acesso à presença de D eus com coração sincero, em p le ­ na certeza de fé e com a co nsciência lim pa. A expressão “o corpo lavado com água lim p a” (v. 22) pode ser um a referên cia tanto ao batism o cristão, oposto às abluções cerim oniais dos sacerdotes ju d aico s (cf. 1 Pe 3.21; E f 5.26; Tt 3.5), com o ao processo espiritual de santificação que tão com pletam ente p urifica aquele que a C risto en ­ trega corpo, alm a e espírito. “O versículo 23 exorta-nos a guardar firm e a ‘confis­ são da esp eran ça’. A p alavra esperança realça os o b jeti­ vos especiais da fé a serem realizados no futuro. A esp e­ rança dá form a e realidade à confiança absoluta da fé. A fé repousa integralm ente no am or de D eus, e a esperança antecipa que D eus cum prirá de um m odo especial as suas prom essas” (W estcott).


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Com entário Bíblico

O verbo “estim u lar” no versículo 24, no original gre­ go é pa raxuno, cujo significado aparece às vezes nas traduções associado ao substantivo “p aroxism o” (“ata­ que” , “ acesso”, “ím peto” , “auge” , “ apogeu”) para dar a idéia de incitar, instigar, m otivar. D evem os, pois, esti­ m ular uns aos outros não à rep resália e à retaliação (lei de talião), m as ao am or e às boas obras (a lei de C risto). Já naquele tem po, alguns dos crentes ju d eu s costum a­ vam ausentar-se dos cultos públicos (v. 25), hábito m uito perigoso tam bém nos nossos dias. É incalculável o valor da exposição da Palavra, a com unhão dos crentes e as exortações ouvidas durante as reuniões. N egligenciar os cultos é correr perigo de desviar-se da fé. A expressão “vai se aproxim ando aquele D ia” refere-se à segunda vinda de C risto, dia que trará ju ízo a Israel. M as ao m esm o tem po podem os notar que o E spírito Santo, usan ­ do o verbo “v edes” , apontava os distúrbios políticos da P alestina nessa época. Os leitores hebreus lem brar-seiam que C risto p rofetizara a destruição do T em plo (M t 24.1,2) e notariam os sinais de distúrbio que culm inaram na G uerra dos Judeus e a destruição de Jerusalém , no ano 70 d.C., por Tito e as legiões rom anas.

2. Aviso contra a apostasia (10.26-31) O pecado voluntário que am eaçava os hebreus consis­ tia em abandonar o C ristianism o e voltar ao judaísm o. N ão há nenhum sacrifício em favor dos que apostatam da fé em C risto - p ela alm a do hom em só existe um único sacrifício, o de C risto (v. 26). Ora, se o sacrifício de C risto é definitivo, tam bém é o últim o. R ejeitá-lo volun­ tariam ente im plica “um a certa expectação horrível de ju ízo e ardor de fogo” (v. 27). O autor não lim ita a eficácia da obra de C risto em favor do penitente. Essa passagem deve ser estudada em conjunto com o capítulo 6.4-8.


Hebreus, Entendendo o A ntigo Testam ento

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Sob a A ntiga A liança, quem desprezasse a Lei de M oisés era punido com a m orte (v. 28). O m esm o p rin cí­ pio está em vigência, e com m aior rigor ainda, para quem apostatar da fé, pois constitui afronta a C risto e à eficácia do seu sangue e um insulto ao E spírito Santo, através de quem a graça de Deus se manifesta. Sobre os tais pesa o juízo de Deus, do qual ninguém pode escapar (vv. 29-31).

3. Encorajam ento pelas experiências do passado (w . 32-39) A pós as palavras de aviso vêm as de encorajam ento, do m esm o m odo que na passagem de 6.4-8. Eles haviam experim entado m uitos sofrim entos, dem onstrando gran­ de coragem durante as perseguições e socorrendo uns aos outros nos m om entos de angústia (vv. 32,33). Sem dúvi­ da, a referência concerne aos prim eiros dias das p erse­ guições contra a Igreja na P alestina (cf. A t 8.1ss). Eles haviam sido m uito corajosos durante esses dias de perigo e perdas m ateriais. A lguns haviam sido aprisi­ onados, e receberam o apoio e consolação dos dem ais (v. 34). A gora, são exortados a não rejeitar a confiança d e­ m onstrada no princípio, se é que pretendiam alcançar a prom essa, perseverando em fazer a vontade de Deus. P ara tanto um a virtude se fazia necessária: a paciência, sem a qual não poderiam resistir até o fim . O autor recom enda que se m antenham firm es, pois é grande o g a l a r d ã o de quem dem onstra confiança e persistência (vv. 35,36). D entro de pouco tem po aquE le “que há de vir v irá” . Ele consum ará toda a esperança do seu povo (v. 37). D urante o tem po de espera, o crente é sustentado em sua vida espiritual p ela fé nas prom essas de Deus. N ão co n ­ vém ser covarde num a hora dessas! Sejam os valorosos, cristãos intrépidos que causem prazer ao coração de Deus,


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Com entário Bíblico

perm anecendo firm es até se com pletar a plenitude da nossa salvação (vv. 38-39).

X II

- E n c o r a ja m e n to p e l a s V i t ó r i a s d a F é ( C a p . 11)

O autor, neste capítulo, destaca a fé com o sendo a grande característica e o denom inador com um do verda­ deiro povo de D eus em todos os tem pos (cf. 10.38,39). Ele m enciona detalhadam ente os heróis da fé que viviam sob a A ntiga A liança e cujos exem plos nos incentivam a serm os leais a D eus, hoje. O versículo 1 é m uitas vezes citado como um a definição de fé, porém na realidade é mais um a explicação das carac­ terísticas da fé. Em poucas palavras, a fé é simplesmente confiança em Deus e na sua Palavra (cf. Rm 10.17). Para­ fraseando o versículo, poderíam os dizer: “A fé significa que somos confiantes; temos a certeza (algo que serve de base ou apoio a qualquer coisa, com o um alicerce, um funda­ mento, um a prom essa ou contrato) daquilo que esperamos receber, a convicção da realidade das coisas invisíveis” . Foi com essa atitude de fé que, naquele tem po, os heróis enfrentaram o futuro e aprenderam as coisas in v i­ síveis. Os antigos alcançaram testem unho e o próprio Deus tam bém testificou da fé que possuíam , a qual supe­ rou todos os obstáculos, sendo seus feitos registrados na B íblia com o hom ens de fé (v. 2). A crença em D eus com o C riador de todas as coisas do U niverso é im prescindível para a vida de fé, qualquer que seja sua m anifestação (v. 3). “Por isso, em prim eiro lugar, o autor declara essa ação p rim ária da fé, pela qual chegam os à plena certeza de que o m undo - a H istória e as eras - não resultou do acaso; é um a resposta à expres­ são da vontade de D eu s” (W estcott).


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Três grandes heróis da fé dos prim órdios da história bíblica encabeçam a lista:

1. Abel (Gn 4.2-7) A bel ofereceu a D eus literalm ente “m ais” sacrifício do que Caim . Aos olhos de D eus teve m aior valor (v. 4). A interpretação geral sobre a razão da aceitação dessa oferta é que A bel sacrificou os prim ogênitos do rebanho, reconhecendo dessa form a o p rin cíp io revelado por Deus a seus pais, de que para estar na sua presença era preciso o sacrifício de um a vida. As E scrituras não especificam de que m aneira D eus revelou o seu agrado p ela oferta de A bel e o desagrado pela de Caim . U m a lenda, até hoje corrente entre os m uçulm anos, relata que fogo desceu do céu e consum iu o sacrifício. Sabem os que, na ocasião da inauguração do T abernáculo no deserto e do T em plo de Salom ão, Deus m andou fogo sobre o altar.

2. Enoque (Gn 5.22-24) E noque destaca-se com o exem plo do verdadeiro des­ tino do hom em , que é ter com unhão com D eus. Ele viveu em m eio a um a civilização que m aterialm ente se d esen­ volvia m uito, o que geralm ente resu lta na perda da p ers­ pectiva eterna, m as ele agradou a D eus por seu “andar” espiritual diante dEle. E, em determ inado dia, D eus o conduziu diretam ente à sua presença, sem que experi­ m entasse a m orte (v. 5). A fé é a condição essencial para agradar a D eus ou ter com unhão com Ele. O hom em que se aproxim a de Deus com o adorador terá de “crer” (isto é, ter fé) que D eus existe e exerce o governo m oral do U niverso (v. 6).


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Comentário Bíblico

3. Noé (Gn 6.14,22) N oé recebeu um a revelação especial de D eus relativa ao dilúvio que se avizinhava e, p ela fé, esse "‘pregador da ju stiç a ” alertou os antediluvianos da im inência dum a fa ­ talidade tão inexorável. A própria arca, construída longe do m ar, sem dúvida despertou m uitos com entários jo c o ­ sos, m as aos m esm o tem po destacou a fé im pávida desse hom em de D eus. A ssim ele, “divinam ente avisado” acer­ ca de acontecim entos que ainda não se viam e sendo tem ente a D eus, condenou o m undo e se tornou herdeiro da ju stiç a que vem da fé (v. 7). N um estudo resum ido com o o nosso, é im possível fazer um a exposição m ais com pleta das experiências d es­ ses grandes vultos da fé. P ortanto, exam inarem os apenas algum as das várias características desses hom ens.

4. Os patriarcas (vv. 8-22) 4.1. A braão (vv. 8-19). A vida de A braão destaca a fé caracterizada p ela obediência. Foi um hom em que co n ­ fiou plenam ente em D eus, saindo de sua terra (Ur dos caldeus) para um lugar desconhecido. Sua fé dem onstrou m uita renúncia. Com o peregrino em Canaã, esperou com paciência no Senhor, na expectativa de residir perm anen­ tem ente num a cidade que D eus lhe daria. D em onstrou, assim , a p a ciên cia da f é (vv. 9,10). M as não guardou a fé só para si —com unicou-a à esposa incrédula, Sara. D esse casal saiu um a p osteridade inum erável (vv. 11,12). Por tais atitudes ele dem onstrou a in flu ência da fé sobre outrem . » Os patriarcas viveram vidas de fé e confiança nas prom essas de D eus até o fim , fé que descansava na obe­ diência integral ao Senhor e olhava para além das coisas terrenas, aguardando a realização das prom essas (vv. 13,14).


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^ 4 # ( ^ v ^ p l ^ f o i ^ d ^ m e n l e provada pelo Senhor, quando, em aparente contradição com sua prom essa de lhe dar através do seu filho Isaque (Gn 21.12) um a se­ m ente inum erável, o m esm o Senhor lhe exige sacrificálo com o holocausto, aquele a quem tanto A braão amava. A braão não vacilou em obedecer, superou a prova e rece­ beu de volta o seu filho, agora am ado m ais do que nunca, com o se tivesse “ressuscitado dentre os m ortos” . Foi a fé da entrega total (vv. 17-19). 4.2. Isaque (v. 20). Isaque contem plava pela fé even­ tos de um rem oto porvir, segundo as palavras da bênção de Jacó (cf. G n 27.28,29). Ele por fim aceitou (Gn 27.33) a substituição do seu propósito pessoal pelo de D eus porque, ju lg an d o conferir a “bênção da p rim ogenitura” a Esaú, contrariava a predição divina que dizia: “O m ais velho servirá ao m ais m oço” (G n 25.21-23). Jacó era o m ais m oço; Esaú, o m ais velho. 4.3. Jacó (v. 21). A bênção de Jacó m arcou época no cum prim ento da prom essa divina. José, seu filho, pela ju sta providência ocupou, quanto à bênção da p rim ogeni­ tura, a posição de R úben, que profanara o leito de seu pai (Gn 35.22; 49.3,4). D eliberadam ente, Jacó abençoou o filho m ais m oço de José, Efraim , antecipando a grande nação posteriorm ente conhecida com o o R eino do N orte, que herdou coletivam ente o seu nom e: Israel (Gn 48.14). 4.4. José (v. 22). O juram en to que José exigiu de seus filhos por ocasião de sua m orte (Gn 50.24,25), concernente à rem oção dos seus ossos para C anaã, evidencia sua fé na prom essa de D eus a A braão, Isaque, e Jacó, seu pai. Era um a fé de âm bito tanto pessoal quanto nacional. Ele contem plava pela fé a independência política do seu povo e reivindicava para si a participação no seu futuro. 4.5. M oisés e seus p a is (vv. 23-29). M oisés, o p rim ei­ ro redentor, assim com o A braão, o pai dos fiéis, ocupa lugar de destaque na lista dos heróis da fé. N ão sabem os


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C om entário Bíblico

se seus pais receberam qualquer revelação de D eus a respeito do futuro do filho, m as sabem os que eram p ied o ­ sos. A lguém já sugeriu que algo em sua fisionom ia d es­ pertara a esperança de seus pais quanto ao seu destino. Estes, pedindo de D eus a proteção, não tem eram as or­ dens do ím pio Faraó (v. 23). Q uando chegou o tem po, a fé dos pais evidenciou-se no filho, a quem D eus cham ou para libertar seu povo. Sob o fa v o r e sp e c ia l e p e sso a l da ilu stre p rin c e sa H atsepsute, filha de T utm ose I, m ulher que na realidade dom inou o trono durante os reinados de T utm ose II e T utm ose III, M oisés foi educado “em toda a ciência dos egíp cio s” , tornando-se “poderoso em suas palavras e obras” (A t 7.22). O histo riad o r ju d eu Josefo inform a que M oisés com andou um exército egípcio e sitiou a cidade de M eroé nas proxim idades da ju n ção do rio N ilo A zul com o rio N ilo B ranco (M arston). A p rincesa H atsepsute adotou M oisés com o seu próprio filho e sem dúvida planejou para ele a sucessão ao trono. Porém M oisés, “quando gran d e” , deliberadam ente escolheu recusar to ­ das as honras de sua benfeitora, identificando-se com o destino do seu próprio povo. Ele conhecia as prom essas divinas concernentes ao destino do seu povo e contem ­ plou com confiança o futuro, aguardando seu cum pri­ m ento (vv. 24-26). O versículo não se refere ao êxodo do Egito, m as sim à fuga de M oisés à terra de M idiã depois de m atar o feitor egípcio. A lguém entendeu que Êxodo 2.14, onde está dito que M oisés “tem eu ” , constitui um a contradição à fé que ele sem pre dem onstrou. A interpretação válida é que, no interesse do seu povo, M oisés enfrentaria a própria m orte; na verdade, ele não tem ia o rei (v. 27). Foi a falta de fé do seu povo, a quem ele q ueria libertar, que o obrigou a retirar-se. Q uando saiu do Egito, ele não estava “tem endo a ira do rei” . A ssim procedeu pela fé no Deus


Hebreus, Entendendo o Antigo Testamento

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invisível (m as sem pre presente), aguardando o m om ento oportuno de agir (v. 27). “P ela fé ele tem instituído a P áscoa” (literal). O tem po perfeito do verbo grego denota um a cerim ônia ou ato contínuo. O sacrifício do cordeiro e a aspersão do sangue constituíram um a grande prova de fé e ao m esm o tem po um golpe decisivo nas superstições dos egípcios (v. 28). A fé do líder foi com unicada aos israelitas, e estes obedeceram à ordem de “avançar” ! A travessaram o m ar V erm elho a pé enxuto! Os egípcios, ao tentarem fazer o m esm o, m orreram afogados (v. 29). 4.6. Josué (v. 30). A destruição de Jerico dem onstra a persistên cia da fé. In vestir contra a cidade-fortaleza p a­ recia a m aior loucura. A m archa em volta dela, realizada diariam ente, pressupunha um fracasso. B em poderiam ter desistido, m as persistiram até que se cum priu a P ala­ vra do Senhor. Jericó caiu! (v. 30). 4.7. R aabe (v. 31). Os habitantes de Jericó e toda a região em volta ouviram falar dos feitos do D eus de Israel (Js 5.1), m as som ente R aabe, a m eretriz, aguardou confiante a vitória de Israel e obteve para si um lugar entre o povo de D eus. E la dem onstrou a p resciência da fé (v. 31).4.8. A f é dem onstrada na vida nacional (v. 32). A entrada em C anaã encerrou um ciclo de disciplina na história de Israel. O autor apresenta agora, em resum o, os nom es e proezas de outros grandes heróis da fé. A rela­ ção apresentada estende-se até ao tem po dos m acabeus (175 a 164 a.C.), quando se deu a últim a luta nacional decisiva dos ju d eu s antes do nascim ento de Jesus.

5. Esboço dos eventos (v. 32) 5.1. G ideão (Jz 7). O relato do triunfo glorioso daque­ les trezentos escolhidos sobre um a m ultidão im ensa de


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Comentário Bíblico

m idianitas. G ideão fez prova de D eus, e um a vez obtida a resposta não tem eu, m as foi avante e derrotou os in im i­ gos. 5.2. Baraque (Jz 4). O rientado por D ébora, a profetisa, B araque subiu à p eleja com dez m il hom ens e im pôs fragorosa derrota às hostes de Jabim , o opressor de Isra­ el, cujo ponto culm inante foi a m orte do fam oso general S ísera pelas m ãos dum a m ulher de fibra cham ada Jael. 5.3. Sansão (Jz 13-16). As freqüentes derrotas dos filisteus, tanto na vida quanto na m orte deste nazireu, testifica do cuidado de D eus em prover ao povo juizes que pudessem livrá-los dos inim igos (geralm ente id en ti­ ficados com os povos pagãos dos arredores). A pesar de se deixar vencer p ela sensualidade, Sansão arrependeuse e voltou a ser usado por D eus. 5.4. Jefté (Jz 11). Jefté, “o gileadita, valente e v alo ro ­ so, porém filho dum a p ro stitu ta” (Jz 11.1), que obteve vitória sobre os am onitas, é conhecido tam bém por um voto precipitado que recaiu sobre sua filha única, e do qual não pôde se furtar (Jz 11.30-40). 5.5. D avi. O relato das vitórias que D eus deu a D avi, hom em segundo o seu coração, rei de cuja casa viria o M essias, é longo dem ais, pelo que nos lim itarem os em trazê-lo à m em ória. O autor da epístola, igualm ente, se lim ita a citá-lo. 5.6. Sam uel. A vida deste hom em , profeta e sacerdote de D eus desde a ju v en tu d e até a velhice, é um a história im pressionante de intim idade e fiel obediência a Deus. N ote o significado de 1 Sam uel 3.10: “Fala, porque o teu servo ouve” e 1 Sam uel 9.15: “Porque o Senhor o rev ela­ ra aos ouvidos de Sam uel, um dia antes que Saul v iesse” . Sam uel usufruía de um a intim idade ím par com D eus, que se com prazia em lhe revelar seus desígnios e o fazia de form a audível, diretam ente.


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5.7. Os profetas. E xem plos vivos, ainda que m ortos às vezes por causa de sua fidelidade à voz de D eus, das m últiplas operações da fé (em cum prim ento ao propósito divino). Estes podem ser cham ados de cooperadores de D eus, em tudo obedientes. N os versículos que se seguem , 33-38, podem os id en ­ tificar certos personagens bem com o eventos específicos registrados na histó ria sacra, m arcados p ela vitória obti­ da m ediante a fé. E sta fé resultou em grandes vitórias m ateriais, sucesso no exercício de governos, recom pen­ sas espirituais, libertações diversas, dem onstrações de força e coragem e, inclusive, triunfo sobre a m orte. N o versículo 33 identificam os D an iel (D n 6). N o v er­ sículo 34, Sadraque, M esaque e A bede-N ego (Dn 3) e os prín cip es m acabeus. No versículo 35, podem os contem ­ plar a insistên cia da m ulher sunam ita (2 Rs 4) e a cora­ gem de uma m ãe e seus sete filh o s, m ortos um após o outro, na presença dela, pelos agentes do rei A ntíoco E pifânio, da Síria (cf. o livro apócrifo de 2 M acabeus, cap. 7). N ota: E m bora não considerem os os “livros apócrifos” com o divinam ente inspirados ou com o parte do cânon das E scrituras, contudo são m uito valiosos com o fonte histórica, pois relatam acontecim entos ocorridos nos “qua­ trocentos anos de silên cio ” entre o A ntigo e o Novo Testam ento, principalm ente relacionados ao povo de Deus nessa época.

6. Conclusão geral do capítulo 11 (w . 39,40) T odos os eventos registrados na histó ria bíblica rev e­ lam que a prova da fé dependia da vontade de D eus. Ele é quem , desde o passado, pode ver o fim de todas as coisas. D eus está constantem ente realizando seu propósi­


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Comentário Bíblico

to de estabelecer um a fam ília redim ida naquela “cidade cujos fundam entos” A braão contem plava. A ssim , em cada dispensação concedeu a seu povo luz suficiente para manter-se íntegro e p erm anecer firm e no cam inho do Senhor. D entre os santos, tanto da A ntiga com o da N ova A li­ ança, Ele está constituindo a grande fam ília da fé, que é prim eiro provada. Os santos da A ntiga A liança não v i­ ram realizados em seus dias todas as prom essas de Deus. E m esm o nós, apesar dos p rivilégios exclusivos (v. 40), ainda aguardam os o cum prim ento de m uitas prom essas. M as, enquanto estiverm os aqui, D eus perm anecerá nos orientando p ara a perfeição, m ediante as m aravilhas de sua divina presença e com unhão.

X III

- C r is t o J e s u s , o G r a n d e E x e m p l o , o P r ín c ip e e A p e r f e i ç o a d o r d a F é ( C a p . 12)

Os cristãos hebreus tinham à sua disposição m uito m ais vantagens que as perm itidas aos heróis que os ante­ cederam . O autor se com para, ju n tam en te com seus ir­ m ãos em C risto, a atletas disputando um a corrida, ao redor dos quais está aquela num erosa p latéia enfileirada, com o nas arquibancadas de um grande estádio. As teste ­ m unhas da grande prova são ju stam en te os heróis da fé cujos feitos estão registrados no capítulo 11. Tom ando o exem plo desses hom ens das gerações anteriores, o autor procura nos encorajar a correr a boa corrida da fé e ganhar, pela resistên cia e coragem , o prêm io que nos é oferecido (vv. 1-4). O encorajam ento está no contem plar o próprio Se­ nhor. N ovam ente (v. 3) entra a solene adm oestação para “co n sid erar” a Jesus C risto, exposta em 3.1. Ele “correu” a carreira que lhe estava p roposta e ganhou o prêm io,


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servindo agora com o grande exem plo e incentivo à fé. D aí o dever de “co n sid erar”, levar em conta, estim ar, atentar para Jesus, “autor e consum ador da fé” (v. 2). P ortanto, tal com o a C risto, há um a carreira proposta ao povo de D eus, um alvo a ser alcançado, um cam inho a ser percorrido. Jesus C risto é o P ríncipe, o L íder e o A perfeiçoador da fé; aquE le que não se em baraçou com as coisas m ateriais e visíveis desta vida, pois contem pla­ va a eternidade, sabendo discernir o valor das coisas que se não viam . Tal deve ser a nossa paciência. A luta de C risto foi até à m orte, e ele a venceu. A nim ados por seu exem plo poderem os fazer o m esm o.

1. A consolação de sermos filhos de Deus (12.5-13) O autor passa a lem brar aos cristãos hebreus um fato m uito im portante: o sofrim ento é essencialm ente d isci­ plina, um a correção que se im põe aos filhos, oriunda do am or divino. É prova da nossa inclusão nos privilégios filiais e de nossa preparação para ocupar um a posição de responsabilidade na fam ília de D eus (v. 5,6). T odo verdadeiro pai às vezes castiga seus filhos. A l­ guns poderiam pensar que, sendo filhos de D eus, auto­ m aticam ente estavam isentos de qualquer sofrim ento. No entanto, o caso é bem outro. Se estivessem isentos de sofrim ento, isto pro v aria não serem filhos de D eus (v. 7,8). A disciplina de D eus serve com o reconhecim ento de um a filiação em tudo superior à terrena (v. 9) e visa alcançar um fim m uito m ais nobre - a participação no m aior de seus atributos, a santidade (vv. 9,10). Será m ais fácil tolerar a disciplina se a p essoa contem plar o resu lta­ do final das provas: “o fruto pacífico de ju stiç a ” (v. 11).


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C om entário Bíblico

A disciplina, portanto, é um a necessidade. N ão obstante causar dor, ela produz um grande bem . A ssim , o cristão deve suportar a correção com alegria, encorajar os ir­ m ãos em C risto que se acham sob sofrim ento, quando este é parte de um a d isciplina e nunca ser causa de tro p e­ ço ao irm ão m ais fraco (vv. 12,13).

2. Aviso contra o fracasso e a apostasia (12.14-19) O cristão deve “p erseg u ir” (literalm ente) a paz com o quem caça um anim al, tratando-se de suas relações gerais com os hom ens (v. 14). C ontudo, sua preocupação p rin ­ cipal deve ser a santidade. As relações m útuas entre cristãos exigem m uita cautela para que nenhum elem ento estranho (“raiz de am argura”) à nossa fé, um a vez b ro ­ tando, contam ine a igreja com sua im pureza (v. 15). O cristão, individualm ente, tam bém deve cuidar de si e não p raticar a im oralidade, pela qual pode contam inar os dem ais. H á que se atentar para o perigo de alguém falhar por desconsiderar a bênção de D eus, com o o fez Esaú, o “p ro fan o ” . E ste é um exem plo clássico de al­ guém que ocupava um lugar de priv ilégio filial, por n as­ cim ento, e que jo g o u tudo fora por um prazer m om entâ­ neo. N a barganha ele (per)deu algo de valor inestim ável (perm anente, incorruptível, eterno) - a prim ogenitura - , em troca dum a in sig n ificân cia —um m anjar. Os hebreus, por sua vez, com o os “prim ogênitos da igreja” , estavam a ponto de tro c ar as b ên ção s da p ro m essa po r coisas efêm eras com o as cerim ônias do Tem plo. A paz com o judaísm o com prom etia a santidade cristã, e esse era um cam inho sem volta, um ato sem direito a arrependim ento (W estcott - vv. 16,17).


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3. Caráter e obrigações da Nova Aliança (yy. 18,19) E sta seção apresenta nitidam ente as características das duas alianças, resum indo tudo no uso das palavras “terrív el” , aplicada à Lei (v. 21), e “g raça” (v. 28), apli­ cada ao R eino inabalável de C risto. Em conform idade ao tem a geral da epístola, enfatiza a verdade de que quanto m aiores os privilégios, m aiores as responsabilidades. Nos versículos 18-24 observa-se o contraste entre a posição dos cristãos, hoje, e a dos israelitas, quando receberam a lei m osaica. Estes chegaram a um a cena em que a presença divina causou-lhes pavor, inclusive a M oisés, seu líder. M as o cristão não experim enta essa sensação terrível que os israelitas provaram junto ao m onte Sinai. Pelo contrário, ele chega ao m onte e à cidade de D eus, ao trono da graça e ao lar que D eus preparou para seu povo, no m eio do qual Ele habita. T am bém aqui anjos e hom ens não estão m ais separados, com o no Sinai, form ando antes um a ú nica e extensa assem bléia (cf. Ap 5.11-13). A expressão “universal assem bléia” , do versículo 23, no original grego evoca o sentido de um a reunião festiva, um a ocasião de ju b ilo sa celebração. A qui, m iríades de anjos e hom ens redim idos são arrolados com o cidadãos da com unidade celestial onde se congregam , de todas as dispensações, na presença de D eus, o Juiz de todos. C ontudo, D eus não é contem plado com o um Juiz que está para p ronunciar sentença. U m a vez que o sangue do seu Filho havia ratificado a N ova A liança e tornado operativas suas provisões, o pecado foi rem ovido. Este “precio so ” sangue clam a por m isericórdia e perdão, e não por vingança, com o o de A bel (v. 24).


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Comentário Bíblico

“Para os apóstatas, as conseqüências agora são terrí­ veis, pois os terrores de Sião são m aiores que os do Sinai - e estes eram m uito grandes” (A. T. R obertson). Israel rejeitara um a dispensação terrena. D eus falara na T erra através de um m ediador, M oisés. A gora, em caráter final, fala do Céu pela voz de um M ediador m aior, Jesus. O trem or de terra sentido no Sinai era apenas um sím bolo do trem or m uito m aior, não só da T erra com o tam bém dos céus; trem or que é final e assinala o estabelecim ento de um novo sistem a, este sim inabalável (vv. 25-27). Ora, um a vez que nós, cristãos, som os herdeiros de um “R eino [eterno] que não pode ser abalado, reten h a­ m os [constantem ente] a graça [gratos a D eus], pela qual sirvam os a D eus agradavelm ente com reverência e p ie­ dade [santo tem o r]” (v. 28). Jeová é o D eus de am bas as alianças, mas um a vez revelado em C risto, oferece todos os privilégios da “ali­ ança m elhor” (vv. 22-24). O que m uitos não suspeitam é que a ira divina continua consum indo, com o fogo todo aquele que rejeita os privilégios e desperdiça as pro v i­ sões da graça (v. 29).

X IV - O A m o r

e as

B o a s O b r a s ( C a p » 13)

Os prim eiros 12 capítulos form am um tratado doutri­ nário com pleto, intercalado com avisos e exortações. O capítulo 13 é notavelm ente de ordem p rática e, em certo sentido, pessoal, pois revela os sentim entos e traços típ i­ cos do autor.

1. As obrigações sociais (vv. 1=6) O am or entre os irm ãos pode ser com parado à “v ara” que segurava as tábuas recobertas de ouro do antigo T abernáculo, servindo para dar unidade ao recinto em que se m anifestava a divina presença. O am or do cristão


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p ara com seu próxim o é universal. Q ue esse am or conti­ nue sem pre entre nós (v. 1). H á um a p ossibilidade de que o grupo de cristão h e ­ breus a quem foi endereçada a epístola consistisse de pessoas abastadas e influentes, que facilm ente poderiam cair em tentação e na cobiça do luxo e do am or ao dinheiro (cf. 13.5). N esse tem po era um a necessidade que houvesse h ospitalidade particular, devido à falta de hotéis. A h ospitalidade não é necessariam ente um a v irtu ­ de cristã, m as de qualquer m aneira a sociedade cristã deve pro v ê-la (v. 2). De m odo prático, o cristão deve procurar socorrer quem precisa dele, seja tal necessidade resultado de perseguição ou decorrente das circunstâncias adversas da vida (v. 3). Os avisos sobre o caráter sagrado do m atrim ônio eram especialm ente oportunos, devido à facilidade do divórcio entre os ju d eu s, um a vez sancionado pelos m estres da escola do grande rabino H illel (W estcott). D eus ju lg ará e condenará as violações dos laços m atrim oniais, quer dos solteiros que vivem em fornicação, quer dos casados que praticam adultério, independente de qual seja a opinião tolerante da sociedade na época. Com o é necessária essa m esm a exortação para os dias atuais! (v. 4). O versículo 5 enfatiza que devem os nos contentar com o que possuím os, tendo paz de espírito, um a vez que D eus prom ete jam ais nos abandonar. Sejam quais forem as circunstâncias da vida, essa prom essa nos dá total garantia do cuidado de Deus, o que é fortem ente enfatizado pelo E spírito Santo. No original grego do versículo 5 são em pregados cinco negativos, os quais literalm ente trad u ­ zidos assim se lêem : “Eu não, não te desam pararei (“não soltando a m inha m ão sobre ti”); nunca, não, não te deixarei p ara trás ou te aban d o n arei” . Q ue prom essa im ­ portante para esses dias de depressão e angústia espiritu­ al! (A. T. R obertson).


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Sendo assim , qual não deve ser a nossa confiança em enfrentar as condições m ais adversas, tendo o Senhor com o aquEle a quem podem os recorrer para receber so­ corro! (v. 6; cf. com entário sobre 2.18).

2. As obrigações religiosas pessoais (vv. 7-17) A m aneira com o os deveres religiosos são apresenta­ dos dá a entender que havia um espírito de divisão entre os hebreus. O autor m anda que se lem brem dos prim eiros guias espirituais, os fundadores da Igreja, que lhes tro u ­ xeram a P alavra de D eus (v. 7), “a fé dos quais” deviam im itar, atentando para a m aneira com o viviam entre eles. Em que se baseava sua fé? N o fa to de ser Jesus o M essi­ as, aquE le que é sem pre o m esm o (v. 8). “Jesus deve ser para você hoje o que foi para eles ontem e o que será eternam ente para as hostes celestiais - o C risto, o M essi­ as” (V incent). Ele é im utável, e jam ais será substituído por ninguém ! A leluia! Sem dúvida, à luz do contexto m ais extenso da E p ís­ tola aos H ebreus e do contexto im ediato do versículo 9, as “doutrinas várias e estranhas” (literalm ente, de “várias cores”) eram aquelas que negavam ser Jesus o M essias e visavam a coisas externas, às observâncias cerim oniais da Lei, representadas por “alim entos” , em contraste com a graça de D eus, que pode dar estabilidade ao coração. E possível tam bém que surgissem certas novidades doutri­ nárias, que sem pre cativam certas pessoas pelo sim ples fato de serem novidades. Q uando sopram esses ventos de doutrina, somente estará firm e de coração quem tiver expe­ rim entado a graça de Deus em Cristo (v. 9 —Robertson). O “altar” do versículo 10 é um altar espiritual e cris­ tão, que expõe a m aneira certa de aproxim ar-se de D eus e do qual os adeptos da A ntiga A liança e da velha econo­ m ia não têm direito de participar. Os dois sistem as são


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m utuam ente incom patíveis. Os corpos dos anim ais, cujo sangue se levava para dentro do Santo dos Santos no D ia da E xpiação, eram queim ados fora do arraial de Israel, sim bolizando a ira de D eus que desceu sobre C risto quan­ do este foi feito pecado sobre a cruz, levando sobre si a m aldição de D eus e sendo por Ele desam parado (v. 11). A fim de “san tificar” (“apresentar santo”) o povo p e ­ rante D eus, C risto foi m orto “fora da porta” de Jeru sa­ lém , isento de qualquer conexão com a religião judaica, desprezado e rejeitado pelos hom ens e afastado de toda form alidade, exterioridade e hip o crisia da Lei (v. 12). O lugar para os seguidores de C risto, então, é ju n to a E le, do lado de fora, desprezados e não reconhecidos pelo m undo. Q ue todo cristão, ju d eu ou gentio, possa segui-lo em sua rejeição, pois é um a bênção tom ar nossa cruz e ir ao seu encontro, associando-nos a Ele em sua separação do pecado, do m undo e das religiões vazias. Q ue possam os nos encontrar com o C risto ressuscitado e glorificado, o C risto que agora m esm o habita naquela “cidade p erm anente” , “fu tu ra”, e que tam bém buscam os (vv. 13,14).

3. O sacrifício do crente-sacerdote E xiste um sacrifício ou o ferta de gratidão que o crente pode estar constantem ente oferecendo: o “sacrifício de louvo r” , a expressão do coração cheio de jú b ilo e g rati­ dão a D eus p ela abundância de sua graça para conosco (v. 15). T am bém podem os o ferecer-lhe a evidência externa e prática desse louvor servindo ao nosso próxim o. A p ala­ vra “co m unicação” (traduzida por “ad m inistração” em 2 Co 9.13 - A RC) significa no original grego “contribui­ ção” , e constitui um a das form as de se praticar a benefi­ cência cristã (v. 16).


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4. A obediência do creníe-sacerdote E sta seção inicia com um a referên cia aos líderes da igreja (v. 7) e assim tam bém se encerra (v. 17). D a prim eira vez, o autor ordenara aos crentes reconhecerem com gratidão os seus pais na fé, os fundadores da igreja, que possivelm ente haviam já falecido, procurando se­ guir-lhes o exem plo. A gora, ele m anda que obedeçam àqueles que estão atualm ente na direção, seus pastores. Tais hom ens não eram aventureiros inescrupulosos, m as hom ens de D eus, cônscios de sua responsabilidade pasto ­ ral perante D eus e a igreja. Portanto, que não lhes causas­ sem tristeza, com portando-se com o ovelhas desgarradas, pois isso não lhes seria proveitoso (v. 17).

5. Conclusão e instruções pessoais (vv. 18-25) Ao chegar às derradeiras palavras da epístola, é m uito d ifícil não nos convencerm os de que seja Paulo o seu autor. A linguagem é nitidam ente paulina; contudo um hom em culto e capacitado com o A poio tam bém poderia tê-la escrito. O uso do pronom e “n ó s” tanto pode indicar o plural “literário ” com o se referir a outras pessoas que estivessem presentes com o autor. As orações dos outros cristãos nos ajudam m uito, um a vez que tem os a certeza de co nsciência tranqüila, sinceri­ dade de m otivos e vida consentânea (v. 18). O versículo 23 exclui a p o ssibilidade de o autor estar preso ao escre­ ver a epístola. P ortanto, o pedido que faz no versículo 19 significa que não estava com os hebreus ou por enferm i­ dade ou por força das circunstâncias. A oração e bênção dos versículos 20 e 21 são um a expressão sublim e do ardente desejo do autor. O cum pri­ m ento de tal bênção, em resposta à sua oração, resu ltari­ am na realização m áxim a “das coisas que se esperam ” (11.1). E suas palavras representam ainda um a d eclara­


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ção de fé, abordando a expiação, a ressurreição, a pro v i­ dência divina, a santificação e a glória futura. “R ogo-vos, porém , irm ãos, que suporteis a palavra desta exortação” é o po st-scrip tu m do autor, tendo p assa­ do rev ista no que acabara de escrever. O lhando em retrospecto, ele sente que a brevidade do seu argum ento sobre tais tem as, tão im portantes, m erece a m ais séria consideração (v. 22). N ada se sabe sobre as circunstâncias aludidas pelo autor no versículo 23. Se foi Paulo o autor e Tim óteo veio a R om a, atendendo a um pedido dele, conform e 2 T im óteo 4.11-13, então possivelm ente Paulo foi liberto da prisão ou absolvido em algum a causa. A saudação do versículo 24 pode significar o seguin­ te: “A queles que estão na Itália enviam saudações da Itá lia” , ou: “Os crentes italianos presentes com o autor enviam saudações do lugar onde a epístola foi escrita” (v. 24). “A graça seja com todos vós. A m ém !”


Gálatas* KIljj euses t i e 2- 'l&ggala-iiieenges c- Lieln-eus

Frank M. Boyd Este livro não é um simples comentário bíblico. É um devocional dirigido às igrejas e aos crentes em particular. Tendo em vista os problemas enfrentados pelos gálatas, filipenses, tessalonicenses e judeus cristãos, Frank M. Boyd contextualiza as epístolas enviadas a estes crentes, tornando-as im prescindíveis aos crentes atuais.

Autor Frank M. Boyd, professor de Teologia no C olégio Bíblico Central, em Springfield, Missouri, EUA, é autor de Luz Bíblica sobre as Profecias e

Carta aos Coríntios.

ISBN 85-263-0066-0

Comentário bíblico gal fil tess heb frank m boyd  
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