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Xavier Frias-Conde

TrĂŞs pombas e meia


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A pomba artista


Na Avenida dos Aliados do Porto há e houve sempre muitas pombas. Mas não são qualquer género de pombas, são pombas muito atrevidas, descaradas mesmo, que fazem coisas que outras pombas no mundo não fariam nunca. Por exemplo, passeiam pelas mesas das esplanadas dos cafés da praça onde as pessoas tomam café e dedicam-se a comer o miolo dos bolos e das sandes que ficam lá acima. Mesmo bebem os restos do que ficar na mesa. Às vezes é mesmo cerveja e alguma pomba já foi vista voar fazendo espirais para cima e para baixo até cair aos pés da estátua do Rei Dom Pedro onde se pode dormir tranquilamente sem ser incomodada. Os garçons estavam fartos de espantar estes pássaros. Com elas a correrem pelas mesas ou pelo chão, era muito difícil mover-se

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e mesmo os clientes queixavam-se de ter que mover os pés para deixarem as pombas apanhar o que quiserem do chão. Cada garçom tinha o seu método para espantar as pombas. Alguns punham mandis vermelhos muito brilhantes porque criam que assim as pombas iam espantar, mas não está demostrado que isso seja assim, mesmo que funcione nas pombas como nos touros, é dizer, que a cor vermelha as excita e provoca nelas uma grande vontade de atacar. Há garçons que, porém, gritam como tolos e mexem as mãos coma aspas de moinho, mas não se sabe com certeza se a reação das pombas, que geralmente ficam quietas, é devida a ser uma situação muito divertida, porque até os turistas que daquela estão no passeio começam a tirar fotos desses garçons. Os turistas japoneses mesmo dizem que se trata de “moinhos humanos” e que

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assim os clientes não se fartam de esperar. Houve mesmo um camareiro que recitava esconjuros em voz baixa, mas realmente espantava os clientes, pois enquanto levava o café, as pessoas ouviam coisas como “… que irás para sempre ao inferno”, ou “… caias do teu

voo

para

sempre…”,

sem

eles

compreenderem que se tratava das pombas, não das pessoas. Mas afinal, as pessoas, os garçons e os turistas, já estão costumados às pombas. Dizem que já há tempo que ninguém olha para as pombas porque fazem parte da paisagem do centro do Porto. A única coisa que incomodava muito era quando as pombas faziam caca desde as árvores –porque, acreditem, nem sempre andavam pelo chão, também subiam às árvores da praça. Mas claro, a caca, como é bem sabido, vai

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para abaixo. E quando encontra a cabeça duma pessoa,

faz

um

som

assim

como

“xooooooooffffffff” e deixa uma pegada muito desagradável. Os expertos consideram que a caca de pomba é, contudo, muito menos consistente do que a caca de gaivota. Pois é. Se vocês tiveram a sorte de comparar a caca das duas aves, ficariam contentes de receber caca de pomba na cabeça em vez de caca de gaivota. Além da consistência, é preciso dizer que o cheiro é muito diferente. Mas voltemos para a Praça dos Aliados. Dizíamos que a caca das pombas era uma moléstia para os clientes dos terraços, mas a situação foi resolvida muito facilmente graças aos guarda-soles que cobrem as cabeças da gente. Mas não vos fieis, porque se fica um bocadinho duma pessoa á vista, for a cabeça, for um ombro, for o que for, fora do guarda-

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sol, lá cai a caca da pomba. E assim seriam as coisas pelos séculos dos séculos. Mas aconteceu algo que fez com que se interrompesse durante um tempo a coabitação entre humanos e pombas (e mesmo gaivotas) na cidade do Porto.. Todo começou quando um certo estudante alemão no Porto estava a tomar um café na mencionada Avenida dos Aliados chamado Hans. Desfrutava dele na companhia da sua namorada Heidi e um amigo português, o João. Era uma tranquila tarde de julho, com o sol a bater com força, causando estragos entre os turistas que percorriam o centro da cidade que procuravam uma sombra como tolos, embora o dia tinha amanhecido cinzento e frio. Na esplanada não corria uma pinga de ar, mas ao menos ia sombra.

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Provavelmente tudo teria corrido com normalidade

se

não

fosse

porque

uma

daquelas pombas da caca fácil detectou um oco entre os guarda-soles para lançar o seu projétil mortífero sobre a cabeça do Hans. Sabia que tinha bem pouco tempo, com que disparou certeiramente até lhe atingir o meio do crânio. Foi um ataque perfeito. O Hans largou um palavrão, que aliás em alemão soava namorada

ainda

mais

apercebeu-se

forte. A logo

do

sua que

acontecera. Além disso, a cabeça do Hans mostrava claramente o que havia. Também o João dirigiu os seus olhos ao alto daquele espetáculo que se erguia na cocote. O Hans ia passar a mão pela cabeça para tocar aquilo. – Alto –berrou-lhe a Heidi. O Hans deteve-se de imediatamente. A

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Heidi colheu a câmara de fotos digital e tirou um par de fotos. O Hans pensou que era para depois enviá-las aos amigos na Alemanha, assim teriam tempo para ser rir dele à vontade. Mas estava errado, porque o que fez a sua namorada foi mostrar-lhe as fotos da caca da pomba na sua cabeça. – Isto é… –começou a dizer, mas quedou sem palavras. A Heidi e o João miravam-no a sorrir. – Uma estátua do Quixote com o Sancho Pança –concluiu o português. – Impossível –exclamou o Hans. – Pois é tal –apostilou a Heidi–. Espera que lhe vou fazer mais fotos desde outros ângulos porque isto paga a pena conservá-lo. E justo quando a Heidi estava de pé, a mesma pomba –era ela, sem dúvida–, viu a oportunidade de atacar outro molesto humano

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desde a sua atalaia entre as árvores. Apontou rapidamente, porque o seu objetivo se movia e havia de aproveitar os escassos segundos em que parava quieta, e… bingo! Acertou-lhe também no cocote. A caca aterrou-lhe perfeita, sem deixar lugar a discussões. A Heidi também largou um palavrão ao sentir aquele projetil biológico aterrar-lhe na cabeça. E foi também a passar a mão rapidamente para lho tirar de acima, mas foi na altura o Hans que lhe disse: – Para, para, não toques nada!! O Hans pôs-se em pé, tirou a câmara das mãos á sua namorada e começou a lhe tirar fotos. Depois mostrou-lhas. – Não o posso acreditar –disse ela ao comprovar a forma nítida daquela segunda caca–. É a Torre Eiffel exata. Parece um modelo.

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O João assentiu ainda sentado, mas comprovou que tinha proteção de mais do seu guarda-sol, não fosse que a pomba, se é que ainda tinha munições, lançasse também um ataque contra ele. – Temos que capturar essa pomba como seja –disse o Hans todo decidido. A Heidi parecia concordar, quiçá eles dois foram vítimas do síndrome da caca de pomba. O João não gostava da ideia. Como pretendiam aqueles dois ir trás uma pomba, com toda aquela calor? Nem que soubessem voar. Mas fizeram-no. Deixaram uma nota de cinco euros acima da mesa e saíram da zona dos guarda-soles. Como detectar uma pomba que cagava esculturas entre dúzias delas ali entre

as

jotas

das

árvores?

Isso

era

complicado. – Rapazes… –o João interrompeu os

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pensamentos dos seus amigos–, ainda não limparam as cagadelas que têm acima da cabeça. É que querem ficar assim? E foi durante aquele momento de indecisão quando uma pomba saiu da ramagem e colocou-se no ar. Foi velocíssima. Lançou um projétil com uma precisão própria dum míssil e alcançou o cocote do João. O único comentário foi: – Essa é a nossa pomba –disse o Hans. A pomba voltou junto das suas colegas, mas já estava localizada. Era fácil de reconhecer porque tinha o peito dum vermelho intenso, distinto do de todas as pombas da praça. – A propósito, João, bonita Estátua da Liberdade…

–disse

a

Heidi,

que

imediatamente começou a tirar fotos daquela maravilha escatológica que cobria a cabeça do amigo português.

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Até

então

tinham

encontrado

três

esculturas impressionantes. Localizaram a pomba que, por alguma misteriosa razão, era capaz de fazer cagadelas escultóricas duma qualidade e precisão nunca vistas. Aliás, e isto já era exclusivamente algo fisiológico, a capacidade de fazer cacas daquela pomba era também algo salientável, porque em poucos minutos tivera matéria prima para realizar três esculturas. Os três amigos optaram por limpar as cagadelas da cabeça. Chamavam muito a atenção de todas as pessoas que passeavam pela praça. No entanto, não poderiam manter aquelas cacas para sempre na cabeça. Aliás, tinham fotos de todas as esculturas desde distintos ângulos. De repente, a pomba artista –como depois foi conhecida– ergueu o voo e saiu da praça em

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direção para a Torre dos Clérigos. A dita torre está no alto duma rampa imensa que se se faz correndo, cansa mesmo. É uma torre altíssima, desde a que se vê toda a cidade. A pomba foi naquela direção. – Sigamo-la –disse o Hans que nem se parou a ver se os outros dois o seguiam, em troca, corria coma um possesso com as suas sandálias

a

fazerem

claque-claque

mas

milagrosamente mantendo-se nos seus pés sem saírem voando. A Heidi aturava, mas o João, depois duns poucos metros, já ia com a língua para fora. Em todo caso, ele levava uma mochila e os outros

iam

ligeirinhos,

sem

nada

que

carregarem. Mas o pior não foi aquilo. O pior foi que ao chegarem ao pé da torre, descobriram que a pomba voara até o seu

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cimo. – Temos que subir –disse o Hans, que daquela agarrara a câmara. A Heidi seguiu-o, mas o João, a arfar coma um pinguim no deserto, ficou em baixo, tentando recuperar os fôlegos, apoiado na parede da torre. Mas foi mercê a isto que o João

descobriu

que

a

maldita

pomba

descendera do alto da Torre dos Clérigos e, portanto, ele correu para a Ribeira, a zona do rio, voando por cima dos telhados das casas arredor. Agarrou o seu telemóvel e ligou para o Hans: – Desçam, que a pomba já não está ali no alto, foi para a Ribeira… Os dois alemães estiveram em baixo em questão de minutos. O João não sabia donde podiam quitar tanta energia.

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– Vamos então para a Ribeira… –disse o Hans, que nem parara ao chegar ao pé da torre. – Pelo menos podemos ir de elétrico? – De elétrico? E tu és português e não sabes que já há anos que tiraram os elétricos de por aqui? –espetou-lhe a Heidi. O João mordeu os lábios e propôs-se não perder os seus amigos. Todavia, o caminho cara á ribeira era todo para baixo. Mas mesmo assim, o João perdeu os seus amigos aos poucos, porque eles, como duas máquinas, correram na direção da Ribeira, na procura da pomba. O casal alemão não voltou a se encontrar com o amigo português já até a noite, quando depois de se telefonarem, combinaram para cear numa pizzaria precisamente da Ribeira. – Verás –começou a contar o Hans ao seu

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amigo entre bocado e bocado duma pizza de mozzarela, toucinho, anchovas e ananás–, a Heidi e eu chegámos à Ribeira. Ainda tivemos a sorte de ver a pomba pousada num dos rebordos do passeio. Achegámo-nos a ela com calma, mas quando já estávamos a uma distância ajeitada para tentar deitar-lhe um casaco acima, apareceu uma gaivota imensa. A sério, parecia a sua escolta, porque se lançou contra nós, fazendo-nos recuar. E claro, por enquanto, a pomba voou na direção à ponte de ferro que une o Porto com Vilanova de Gaia. Já era inútil correr trás ela. Mas pelo menos tivemos tempo de ver que deixara algumas esculturas no

cocote de vários

turistas.

Pudemos fotografar algumas deles… O Hans mostrou varias fotos ao seu amigo. Podia-se

contemplar

Brandemburgo,

a

a

estátua

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Porta de

de

Cristóvão


Colombo, a Torre de Pisa e até a ponte de Carlos de Praga. Incrível. – Ficámos com muita vontade de conhecer o mistério da pomba, sim –suspirou a Heidi–, mas talvez é melhor assim. – Talvez, sim… O João deu uma palmada nos ombros do seu amigo, com a boca cheia também de pizza, e disse-lhe para o encorajar: – Se calhar, voltarás a encontrar essa maldita pomba quando menos o esperes. – Talvez, talvez –respondeu o alemão. E justo então, outra cagadela caiu na pizza do Hans. – Merda! –berrou o Hans. – Sim, exatamente isso é –assentiu o João. Mas via-se claramente que era una caca de pomba amorfa, sem pretensões artísticas.

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A pomba viageira


A história que vos quero contar aconteceu há vários anos no remoto Portugal. Porém, eu já a tinha esquecido, mas há uns dias aconteceu algo extraordinário. Eu estava numa varanda a desfrutar do outono. Lá, a várias dúzias de metros por baixo de mim, um pequeno parque se estendia diante do prédio onde eu estava, todo coberto de folhas caídas. O outono em Praga é espetacular, sempre gostei dele. Era uma noite de domingo, novembro ficava perto. Para ser domingo, tudo estava muito tranquilo. Mal passavam carros pela rua. As pessoas já estavam recolhidas em casa. E então soprou uma brisa muito suave. Cerrei os olhos, gostava dela. Depois abri-os. Não podia acreditar. Lá, a meio metro de mim, havia uma pomba pousada na minha varanda. Olhava para mim como se esperasse a minha

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reação, mas eu estava paralisado. Ela remexeu ligeiramente os pés e também as asas, mas sem voar. Eu

olhava sempre para ela

com

fascinação. Donde teria saído? E de repente, uma luz acendeu-se no meu cérebro. Tratavase de uma lembrança. Sim, os pensamentos foram tomando corpo na minha mente. Neles aparecia uma pomba, na cidade do Porto, uns anos atrás... e uma promessa. Sim, havia uma promessa. Eu tinha feito uma promessa a uma pomba. Tinha-lhe prometido que contaria a sua história, mas certamente não tinha feito. Sempre tinha ocupações, empenhos, tanta coisa pendente. A pomba pareceu adivinhar os meus pensamentos. Remexeu com energia as asas. Nesse momento pensei que as pombas são difíceis de ver pela noite. Poderia haver qualquer ligação entre aquela pomba e a

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pomba a que tinha feito a promessa? Era absurdo, como ia ser? Porém, sempre estive aberto a acreditar no incrível. Por que não? Tomei ar e disse à pomba: – Está bem. Cumprirei a minha promessa. Vou escrever essa história. Voltou a soprar a brisa agora com mais força. Algumas das folhas do parque fizeram um

remoinho.

Concentrei-me

na

contemplação daquela dança improvisada. São espetáculos apenas do outono. Depois virei a vista para o lugar onde estava a pomba. Mas a pomba fora embora sem eu me ter apercebido. Durante uns segundos fiquei a olhar para aquele lugar vazio onde já não havia qualquer ser vivo. Afinal mexi os pés e entrei em casa, enquanto murmurava não sei se para mim ou para quem me ouvir: – Fica prometido... Escreverei essa história

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E de repente a brisa cessou. A noite adormeceu e o outono foi cozinhar mais brisas.

*

*

*

A estação de São Bento no Porto é considerada uma das mais bonitas do mundo. O vestíbulo, todo coberto de azulejos, é espetacular. Por vezes tenho entrado lá apenas para

o

contemplar,

porque

o

encontro

fascinante. Amiúde até colocam mesas nele e vendem livros. Tudo começou numa daquelas manhãs estranhas de julho em que o dia começa cinzento

e

depois

vai

aumentado

a

temperatura sem lógica nenhuma. Eu estava lá num recanto a ver as pessoas atravessar o

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vestíbulo e a tentar descobrir qualquer novo pormenor nas imagens dos azulejos (porque sempre descubro qualquer coisa nova, nunca está tudo visto). Atraiu a minha atenção uma pomba que caminhava pelo vestíbulo como se fosse qualquer viageiro. Ia às pressas, como se fosse perder o comboio. Achei engraçado que uma pomba se comportasse como um ser humano. Logicamente, a minha primeira pergunta foi por que não voava. Teria que lho perguntar. Entretanto, a pomba dirigia-se para o cais. Parecia comportar-se com absoluta normalidade. Nem as pessoas lhe prestavam atenção. Talvez nem a viam? Eu dispunha de tempo demais. Sentia-me fascinado por aquele animalzinho, portanto decidi segui-lo. Fi-lo a certa distância, para ele não me ver. Observei que lia os cartazes. Sabia ler, o qual não me surpreende, porque parece

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que os humanos pensam que os animais são estúpidos. Procurou o comboio de Aveiro. Por que Aveiro? Quando teve averiguado de que cais partia o comboio para aquela cidade, foi para lá. Mantinha o seu bom ritmo a caminhar, o qual tem que ser muito cansativo para uma pomba. Por que não voava? Se calhar tinha uma asa rota. A pomba chegou ao comboio. Ficou diante da porta, mas tinha que evitar os humanos que passavam ao seu lado. Estava à espera de alguém abrir a porta automática, pois isso era algo que ela não podia fazer. Não havia hipótese que saltasse e batesse com o bico o botão de abertura automática. Aliás, de repente, um miúdo fora de controlo, de quatro anos, corria pelo cais na direção da pomba. Qual a mãe ou o pai irresponsável que tinha deixado aquela criatura sozinha? A pomba foi

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logo ciente do perigo que lhe vinha acima. Eu estava certo que alçaria o voo, embora tivesse uma asa rota. Era a única opção de salvação que lhe ficava. Reconheço que observava toda a cena com desassossego. Estava a sentir empatia pela pomba, embora não fosse um animal que por norma me seja simpático porque cobre tudo de popô. Isso faz com que não seja um pássaro com charme. Entretanto, aquele garoto corria para a pomba. A distância entre eles diminuía perigosamente.

O

meu

coração

latejava

maluco. Quis gritar, mas sabia que devia ficar à parte. O resto dos viageiros eram alheios ao desastre. Onde andavam os pais daquele ser perigoso baixinho sobre duas pernas, onde? O menino chegou à altura da pomba, agachou-se e foi pegar nela. “Voa, pomba, voa!!”, gritei com os meus

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pensamentos numa tentativa desesperada de evitar aquela desgraça. Contra qualquer previsão, a pomba saltou para a sua esquerda. Parecia que tinha tudo calculado. Não alçou o voo, apenas saltou. E o garoto bateu com a cabeça no botão de abertura automática. Quis cerrar os olhos para não ver a desgraça que ia acontecer. O mínimo que se podia esperar é que depois do golpe contra o botão, o miúdo tivesse caído para o chão e estivesse a gritar de dor, a chorar com toda a força dos seus pulmões. Enganei-me só parcialmente. O miúdo estava sentado no chão, sim, mas não chorava. Estava a adorar aquele jogo de perseguir a pomba. Eu tinha esquecido que aquele menino estava ainda nessa fase em que parece que as crianças estão feitas de borracha. A pomba aproveitou que a porta se abria e

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entrou, sempre sobre os seus pés. O miúdo levantou-se do chão e entrou também no vagão. De repente ouvi uns gritos. Era a mãe. Finalmente se tinha apercebido de o menino ter fugido. De longe tinha-o visto entrar no vagão. Também ela se despachou pelo cais. Entrou no vagão meio segundo antes de o comboio partir. E eu também. Tinha entrado por outra porta mais afastada que estava aberta. Não estava pronto a me perder como ia acabar aquela história da pomba viageira e perseguida por um miúdo fora de controlo. Por nada do mundo! *

*

*

O trajeto entre São Bento e Campanhã não é muito

comprido

e

é

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quase

todo

ele


subterrâneo. O comboio atravessa um imenso túnel por debaixo das tripas da cidade e depois sai para a luz por cima do Douro, até alcançar a

estação

de

Campanhãs.

um

entroncamento. O comboio que vem de São Bento apanha depois lá a direção de Aveiro, de facto para todo o sul do país. A duração dessa viagem entre as duas estações é curta, apenas cinco minutos. Porém, nem imaginam quantas coisas podem acontecer em cinco minutos quando uma pomba corre por todo o comboio perseguida por um miúdo de quatro anos que não deixa de gritar: «pominha pa mi, pominha pa mi», o qual, por sua vez, é perseguido por uma mãe cheia de angústia que grita: «Joãozinhitico, vem cá, filho, vem cá». Apesar dos muitos diminutivos que lhe punha ao nome do filho aquela mãe, o Jõazinhitico não

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cessava de correr atrás da pomba. Talvez nem ouvia os gritos da mãe, porque entre o barulho do próprio comboio e as vozes dos viageiros ao verem passar primeiro uma pomba que corria como uma campeã de atletismo e depois um miúdo que corria sobre quatro patas como um gato, com uma agilidade mesmo felina, provocava uma pequena revolução no vagão, pois obrigava os viageiros que iam em pé a deixarem espaço livre. E se ainda aquilo não bastasse, a mamãe do Joãozinhitico causava ela sozinha ainda mais caos com os seus gritos e a sua angústia materna, enquanto prometia ao filho que lhe faria montes de presentes se voltava com ela... Algum viageiro do comboio pensou ao ouvir aquela senhora que, caso existisse uma licença de mãe, aquela mulher deveria passar um exame para demostrar que sabia ocupar-se com o seu filho.

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Mas tudo tem um fim. Aquela viagem também. O comboio alcançou o cais de Campanhã. Assim que as portas foram abertas, as pessoas saíram todas, também as que iam prosseguir a sua viagem. Aquele comboio parecia estar maldito. As pessoas procuravam a salvação fora dele. Horror. Também a pomba saiu. E trás ela o Joãozinhitico. Corria sempre sobre quatro patas. A mamãe corria apenas sobre duas, mas gritava ainda mais. A pomba corria para o início do comboio, evitando agilmente os pés dos humanos que poderiam acabar com ela em questão de segundos. Mas não pôde evitar que aquele miúdo fora de controlo o atrapasse. Sim, o Joãozinhitico tinha atrapado a pomba. Eu era muda testemunha daquela desgraça. O miúdo recuperou então a posição humana sobre duas pernas e disse tudo contente:

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– Pominha inha, pominha inha... Pensei que era o fim daquela criatura. Mas

enganei-me,

porque

uma

mão

poderosa assegurou o ombro do miúdo e uma voz histérica começou a gritar: – É a última vez que me fazes isto, ouviste, Joãozinhitico? A última vez! Mais nunca vais ir embora longe da mamãe enquanto a mamãe está a falar com uma amiga, ouviste? O garoto começou a chorar. E então largou a pomba. Também ela, segundo confessou mais tarde, estava convencida do seu fim nas mãos daquele ser humano de baixa estatura sem controlo. Enquanto

eu

próprio

na

distância

observava aliviado o desenvolvimento daquela cena, a pomba não perdeu o tempo. Justo antes de a porta fechar novamente, saltou para o interior do comboio.

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E eu? Eu também tive que me despachar, até mais porque tudo foi uma surpresa inesperada. Estava pronto a chegar até ao final daquele mistério da pomba viageira, custasse o que custar. Quase a metade do meu corpo ficou entre as portas ao fecharem, mas também consegui entrar no comboio. *

*

*

O comboio partiu a caminho de Aveiro. Quase não viajavam pessoas nele. Apenas uma dúzia de homens e mulheres. Eu, pela minha parte, estava escondido para não ser visto pela pomba. Parecia que finalmente a coisa estava calma. Não havia mais perigos à vista. Podia relaxar-me, porque a pomba parecia também descansar depois da imensa corrida pelo

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comboio só uns minutos antes como o Joãozinhitico a persegui-la. Atravessamos o Douro e o comboio foi entrando em Vilanova de Gaia. No monitor luminoso e pelo megafone já anunciavam a próxima estação: General Torres. A viagem poderia ser tranquila. Sim, isso esperava eu. Sim... Nunca um pode imaginar como pode reagir uma pomba. O facto de ela ter procurado o comboio que ia para Aveiro não envolvia que ela quiser ir até aquela cidade. Procurava só o comboio que viajava para lá, mas não tinha intenção de ir tão longe. E isso descobri acidentalmente, quando vi de esguelho a pomba caminhar pelo cais da estação de General Torres. Tinha sido negligente, porque ela tinha descido precisamente onde queria descer.

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Novamente a porta quase me atrapou. Senti uma imensa dor no meu corpo, mas não me impediu seguir a pomba. Devia manter a distância. Queria saber quais as intenções daquele pássaro infernal. Enquanto ia trás ela, a minha cabeça elaborou todo género de hipóteses sobre por que é que aquela pomba não fazia a sua viagem pelos ares, como faria qualquer pomba? Por que que é que aquele animal caminhava e apanhava meios de transporte público? Aliás, pelo menos naquela altura não tinha pagado o seu bilhete. O andante do Porto, que eu saiba, não é de aplicação para as pombas, mas eu acho que ninguém pensou nunca que uma pomba usasse os transportes públicos. Se calhar, um cão guia, sim; e até se pode viajar com um gato. Mas ninguém viaja com pombas e, ainda menos, as pombas viajam sozinhas.

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Não, isso não é normal, reconheçam-no. Portanto, a nova hipótese que se formou na minha cabeça foi que a pomba tivesse feito uma aposta com outras pombas. Era absurdo, sim, mas os meus conhecimentos do mundo das pombas permitiam-me formular essa hipótese. Devia ter apostado com as suas camaradas que era capaz de viajar de comboio, entre os humanos, desde São Bento até General Torres sem voar. As suas camaradas com certeza teriam dito que não, que é impossível. Ela, a pomba, teria assegurado que uma pomba poderia fazê-lo, mas não uma gaivota, porque as gaivotas são muito mais grandes e os humanos sempre notam a sua presença. Se perto da discussão houver alguma gaivota, decerto se chatearia, porque as gaivotas são muito agressivas e não gostam da pouca consideração que as pombas têm com

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elas. Mas provavelmente aquela aposta entre pombas não teve qualquer gaivota testemunha. Enquanto eu imaginava o cenário daquela aposta, a pomba tinha saído da estação e continuava a pé o seu percurso. Subia e subia com uma ligeireza surpreendente. Porém, não ia ser tudo tão fácil. O destino quis que a pomba tivesse de afrontar um novo perigo. Qual o perigo mais comum para uma pomba que caminha pelo chão. Pronto, adivinharam: um gato, mas não qualquer gato, aquele era um gato da rua; mas nem só um gato da rua, era mesmo um gato da rua faminto. O gato espreitava os movimentos da pomba desde uma certa altura. Era evidente que a sua intenção era cair sobre a pomba. Eu tinha que agir sem o pássaro que eu estava a ajudá-lo na distância. Mas como? Da única maneira possível, chamando a atenção do gato. Não

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tinha nenhuma outra hipótese, a minha mente desenvolveu um plano rápido. Desde a minha posição, a pomba não me podia ver, mas o gato sim. Por isso, com um pé lancei uma pedra para abaixo, para a estação. A pedra, embora fosse pequena, atraiu toda a atenção do gato. Foram apenas uns segundos, mas bastaram para a pomba se ter afastado demais. O gato, depois, tinha perdido

a concentração

e

provavelmente era um animal um bocadinho doido, porque acho que nem se lembrava que era prestes a caçar aquela pomba. Se calhar encontraria algum rato mais tarde. A pomba fez a sua ascensão incrivelmente rápida. Pela minha parte, eu olhava para o céu com a esperança de ver outras pombas que seguissem o percurso da minha pomba, mas não conseguia ver nenhuma. Entretanto, a pomba atravessou a Rua Jau, pela qual na

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altura não passava qualquer carro, e foi até um parque no outro lado da rua, que se estendia até a Avenida da República. Continuou a sua caminhada novamente evitando obstáculos (na altura os pés de pessoas que caminhavam pelo parque). Eu temi que novamente aparecesse um miúdo de quatro anos sem controlo que quiser capturar a pomba, mas felizmente não havia nenhum à vista. Mas aquela viagem estava a chegar ao seu fim. A pomba foi direta para um homem sentado num banco. Logo me apercebi que era cego, pois além dos óculos escuros, levava um cajado branco. Chamou-me a atenção aliás um chapéu preto que levava, com alguns buracos, muito

velho,

tanto

como

ele,

mais

de

cinquenta e cinco ou sessenta anos, quem sabe. O homem parecia contemplar o que havia perante si, mas era evidente que não,

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porque não podia ver. Assobiava alguma canção muito baixinho, era uma melodia para mim desconhecida. A pomba foi para ele, sem hesitar. E quando chegou aos pés do homem, chamou-o. Logicamente não o chamou como o teria chamado outro humano, mas fez o som habitual das pombas: arrulhou. O homem parou de assobiar e sorriu. Depois diz: – Pronto, estás aqui? Que pontual! Eu não percebia nada. Falava com a pomba como se tivesse fixado um encontro com ela previamente. E então o homem agachou-se e pôs a sua mão esquerda no chão, enquanto com a direita sustinha sempre o cajado branco. A pomba deu um pulinho e saltou para aquela mão, a qual, como se se tratasse de um ascensor, começou a elevar-se lentamente para a cabeça do homem. Porém, o homem colocou

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de repente o cajado entre as pernas para se liberar a mão direita e aquela mão livre tirou o chapéu da cabeça. A mão esquerda chegou então à altura da cabeça. A pomba saltou acima. A seguir, o homem colocou o chapéu novamente no seu lugar e a pomba ficou lá escondida. Tinha sido testemunha de toda aquela cena, mas não tinha palavras. Era tudo tão estranho. Contudo, acheguei-me do homem. Já não encontrava qualquer motivo para me esconder da pomba. Estava certo que ela me poderia ver através dos muitos buracos do chapéu, mas eu já não me importava. Em toda a minha vida não tinha contemplado uma coisa tão estranha, desde o momento em que tinha visto a pomba entrar no vestíbulo da estação de São Bento até quando o homem cego tinha alojado –se é que se puder dizer

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assim–, lá naquele parque de Vila Nova da Gaia. O cego captou a minha presença. Esboçou um sorriso e dirigiu a cabeça na direção a mim. Depois cumprimentou-me: – Bom dia, temos bom tempo, não é? – Bom dia, pois é... Eu não tinha feito todo aquele percurso simplesmente para falarmos no tempo. Aquele homem podia explicar-me a razão da viagem da pomba e porque ela agora repousava na sua cabeça. – Posso fazer-lhe uma pergunta? – ousei dizer-lhe. – Pronto, o que quiser – respondeu-me o cego num tom muito amável. – Vi como o senhor recolheu uma pomba do chão e a meteu no chapéu. Estou muito curioso de saber como é que a pomba veio para

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si caminhando. Tem-na amestrada? O homem riu. Encontrava engraçada a pergunta. Ainda bem. Por um momento temi que se sentisse ofendido. Mas em vez de responder a minha pergunta, ele perguntoume: – O senhor não é daqui, é estrangeiro. Se calhar da Europa do Leste? – Sou checo. Sou de Praga. – Ah, o senhor fala muito bem português. – Obrigado. Houve um momento de silêncio. Então o homem cego lembrou que eu lhe tinha feito uma pergunta. – A pomba, com efeito, é adestrada. É uma história muito curiosa. Quer ouvi-la? – Pronto. – Verá, eu desde garoto tenho medo dos cães. Foi por causa de um que me mordeu.

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Portanto, quando fiquei cego... Porque eu não fui sempre cego, só desde os vinte e oito anos, não quis ter um cão guia. Porém, em minha casa sempre houve pombas. Eu apreendi a adestrá-las para elas serem as minhas guias. – Incrível – exclamei. – Sim, verá, eu apreendi a desenvolver uma habilidade para interpretar os sons que elas emitem. Lá, no meu chapéu, elas guiam-me graças aos sons que fazem. Dizem-me se tenho que ir para a esquerda, para a direita, se tiver que me deter, se houver um obstáculo em frente... o que for. Portanto, eu adestro as minhas próprias pombas. Porém, ainda ficava o mistério de por que aquela pomba precisamente não voava. Eu procurava o modo de lho perguntar sem o homem suspeitar que eu tinha seguido a pomba desde São Bento. Tive uma ideia.

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– Mas as pombas não têm tentação de escapar voando? O homem sorriu novamente. – Não, elas são muito responsáveis. Fazem muito bem o seu trabalho... Parecia que não ia obter a informação que precisava, mas então o homem adicionou: – Esta pombinha que está agora sob o meu sombreiro, porém, não voa. – Como assim? – É que ela foi abandonada pela mãe. Eu recolhi-a quando era só um bebé de pomba. Estou-lhe a ensinar ainda a ser uma pomba guia, mas não posso ensinar-lhe a voar... Lá ficava o mistério resolvido, pelo menos a parte relativa à pomba não voar. Não era qualquer aposta. Que ideias estúpidas tinha eu às vezes. Bom, estava quase tudo resolvido... – Foi um prazer falar consigo – disse eu

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como despedida. – Igualmente. Eu já vou voltar para O Porto. A pomba vai-me guiar até a estação. – Vai apanhar o metro? – O metro? Não, o comboio, eu vou ao Porto de comboio. – Mas lá tem o metro, apenas cruza a ponte de ferro e... Lá ele interrompeu-me: – Vou dizer-lhe uma coisa... Essa ponte vai quebrar um dia e os vagões vão cair para o rio... Será uma catástrofe muito grande. Eu vou de comboio, como fiz sempre, até São Bento... – Ah, é que mora lá perto? – Não, é que a minha pombinha tem que apreender a fazer essa viagem. Vou deixá-la outra vez lá, para ela voltar sozinha até aqui. Faço isto três ou quatro vezes por dia... Bom,

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foi um prazer também falar consigo. Desfrute do Porto. E o homem foi embora. Eu podia ouvir o arrulho da pomba desde debaixo do chapéu. Eu não dizia precisamente gire à esquerda ou qualquer

outra

instrução,

mas

dizia

exatamente, dirigindo-se a mim: – Salve-me, faça favor, esta não é vida para uma pomba, salve-me, conte a minha história ao mundo! Pronto, aquilo era mesmo uma tragédia. Aquela pomba tinha que sofrer aquela odisseia até várias vezes cada dia. Era justo que o mundo conhecesse aquela história... *

*

*

Portanto, antes de o cego se perder de vista, prometi à pomba que contaria a sua história.

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Isso fiz, sim, ainda que o seu espírito tivesse que se me aparecer para mo relembrar. Tenho má memória, o que lhe vou fazer. Dei-lhe a minha

palavra

de

kavka,

que

é como

chamamos no meu país ao pássaro que vocês chamam gralha, e cumpri-o. E sim, a kavka é a origem do apelido Kafka, o do grande escritor Franz Kafka. E não, não é por acaso que eu também me apelide assim.

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A pomba mĂ­stica


O Alberto saiu do metro na estação dos Aliados. Naquele mês de julho estava estranhamente frio, nem parecia verão. O Alberto contemplou os céus cobertos e perguntou-se se teria que passar aqueles dias de férias no Porto com um casaco. Aquele estudante universitário italiano tinha viajado sozinho desde Pisa para viver a realidade portuguesa de um modo improvisado. Com apenas trezentos euros na algibeira e um bilhete de avião de ida e volta tencionava passar pelo menos uma semana naquela cidade que, desde sempre, o tinha fascinado. Pela net encontrara uma pensão na Rua Bonjardim. Assim que saiu do metro e esteve na rua, tirou para acima, para a Câmara Municipal. Levava na mão um plano da cidade que lhe tinham dado no aeroporto havia uma hora e meia. Encontrara a Rua do Bonjardim como

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paralela à Avenida dos Aliados. Quando chegou à altura da Câmara Municipal, subiu por uma rua à direita. Sempre subia, mas a paisagem mudou de tudo. Tinha passado de uma rua ampla para uma ruela estreita que aparentemente poderia estar em qualquer cidade portuguesa, nem mesmo no Porto. A Rua do Bonjardim estava muito mais movimentada do que os Aliados. Não havia turistas por aquela parte, Antes de procurar a sua pensão, o Alberto sentiu fome. Estava, aliás, cansado dos paralelepípedos que conformavam o solo daquela rua. Caminhar por ali tornara-se uma tortura para os seus pés. Ficou perante um pequeno café, na esquina da própria Rua do Bonjardim com outra que nem tinha nome, mas ia para a Rua da Trindade. Entrou sem mesmo se aperceber. Algo o tinha

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empurrado para dentro, se calhar um cheirinho delicioso e doce. Os olhos do Alberto pousaram numa bola de Berlim redondinha, coberta de açúcar e recheia de creme. Sentiu a saliva movimentar-se na sua boca sozinha e como o seu estômago lançava imensos protestos em forma de rugidos. O Alberto, embora tinha estudado português, não sabia como é que se chamava aquela bola gostosa. O garçom, sem muita clientela, estava diante dele, à espera de receber o pedido. ─ Boa tarde ─começou a dizer o Alberto─. Eu gostaria de um café e um... um... um... Parecia gago, mas a questão é que nem sabia como é que se chamava a bola de Berlim em português. ─ Quella pallina lì ─disse afinal em italiano.

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O garçom olhou para ele sem compreender, logicamente. Felizmente a linguagem dos gestos funcionou, porque bastou com acenar para aquela bola para o garçom perceber que se tratava do que o Alberto procurava. ─ Café ─perguntou a seguir o garçom. ─ Prego. ─ Quer pão no prego? ─ disse o garçom estranhado, porque o prego italiano é o por favor português, mas o prego português come-se com o pão. ─ Não, não. Scusi. Quero só café. ─ Tá bem. O Alberto sentou-se numa cadeira e pôs o café e o bolo numa mesa. Comeu com calma. Estava tão bom tudo aquilo. Ainda pediu outra bola de Berlim e outro café. E enquanto comia a segunda bola de Berlim muito devagar, pen-

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sou que, talvez, tinha recebido alguma mensagem no seu telemóvel. Quando o teve ligado, recebeu uma mensagem da sua companhia italiana, onde o informavam das tarifas. Mas a seguir chegou uma nova mensagem. O Alberto esqueceu-se que estava a comer a bola e, com os dedos cheios de açúcar, remexeu o ecrã sem cuidado, cobrindo toda a superfície do telemóvel de grãos de açúcar. Mas nem aquilo impediu que o Alberto alcançasse a mensagem recebida. Abriu-a, porque temeu que fosse uma mensagem de casa e que, decerto, tivesse acontecido alguma coisa. A mensagem dizia: «Ajuda» Ajuda? Quem pedia ajuda? Só vinha aquela palavra. Bem logo o Alberto procurou a origem da mensagem, mas nem tinha um número de telefone. Desde onde lhe tinham enviado aque-

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la mensagem? Começou a pensar que se tratava de uma brincadeira, mas uma brincadeira estranha, porque a palavra estava escrita em português e não em italiano. O Alberto não quis pensar mais nisso. Acabou a segunda bola e o segundo café, pagou e foi embora com a sua mochila. Felizmente a pensão estava apenas a 50 metros do café onde acabava de almoçar. O rapaz italiano acomodou-se rapidamente. A pensão era um local sinistro, mas o Alberto apenas queria dormir lá, desejava passar todo o dia a percorrer a cidade. Provavelmente se tivesse ficado durante certas horas, teria sentido terror, mas felizmente ele queria estar na rua. Portanto, deixou a sua mochila no quarto escuro, pegou no mapa, no telemóvel e tirou um saquinho para pendurar da mochila,

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onde levaria as coisas imprescindíveis, como o seu bilhete de identidade. Enquanto descia pelas escadas, nem notava a escuridão horrível que as envolvia. Porém, sim notou, antes de pôr um pé na rua, a campainha do seu telemóvel a avisá-lo da chegada de uma mensagem. Tinha esquecido desligálo, portanto podia receber mensagens em qualquer momento. Tirou o telemóvel do bolso e procurou a mensagem. Novamente não aparecia qualquer número. Que estranho. Se era uma brincadeira, era uma coisa muito estranha. Porém, abriu a mensagem. Leu: «Ajuda. Estou na sede da fe. Venha, por favor». O Alberto deteve-se na parte final das escadas, já quase no rés-do-chão. Contemplava aquela mensagem sem dar creto. Donde teria chegado? Quem a tinha enviado? Seria real-

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mente uma brincadeira? Caso não fosse uma brincadeira, por que lhe enviavam as mensagens sem mostrar o número? Demasiadas perguntas. Porém, algo no interior do Alberto dizia-lhe que aquelas mensagens não eram uma brincadeira. Voltou a ler aquela segunda mensagem. Falava da sede. Que queria dizer com sede da fe? Olhou no mapa, mas para isso teve que sair até à rua, para poder ter algo de luz. Quando esteve lá fora, estudou o mapa. Não demorou muito até que encontro a sé do Porto. Ficou a pensar. A sede da fe tinha que ser a sé, isto é, a catedral. Despachou-se para lá. Felizmente, desde a pensão chegaria à sé em pouco mais de meia hora a pé. Embora naquelas horas já havia muitas mais pessoas pelas ruas, talvez porque um tímido sol começava a se debruçar entre as nuvens.

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Seguiu toda a Rua do Bonjardim para o sul. Logo chegou à estação de São Bento. Tinha ouvido dizer que o vestíbulo da estação estava coberto de azulejos e que era uma joia arquitetónica. Subiu pela Rua 31 de Janeiro e em poucos minutos chegou à sé. Olhou por fora. Não havia nada aparentemente estranho. Depois entrou na sé. Alguns fieis oravam o rosário. Não era um muito bom momento para fazer pesquisas lá dentro. Alguns dos fieis não gostavam dos turistas enquanto oravam entre murmúrios o rosário. O Alberto não sabia muito bem o que procurava nem por onde tinha que procurar. Caminhava lentamente pela sé, como um turista curioso que tudo quer ver. A cidade fora parecia muda. Lá dentro, o jogo de luzes e sombras criava uma atmosfera que podia causar medo.

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Só o murmúrio das pessoas que oravam impedia o silêncio absoluto. Passou pelo menos vinte minutos a dar voltas pela sé sem encontrar sinais de nada estranho. Começou, portanto, a pensar que sim, que tudo era uma triste brincadeira. Infeliz... Bom, já tinha visitado a sé, eram horas de ir ver outras coisas na cidade, se calhar poderia achegar-se até a ponte de ferro, ficava relativamente perto. E antes de alcançar a saída da sé, o telemóvel do Alberto lançou dois bipes que fizeram eco em todo o templo. O coração do rapaz deteve-se e os murmúrios do rosário cessaram. Houve um silêncio sepulcral durante uns segundos, até que dentre as pessoas que seguiam o rosário, saiu um imenso “shshshshshshshsh” que alcançou quase a força de um furacão.

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O Alberto despachou-se para fora e abriu o telemóvel. Lá tinha novamente uma mensagem anónima. Naquela altura dizia: «Vens já? Sigo à tua espera! Sede da fé». Se aquilo era uma brincadeira, não prestava. Já se tinham rido dele amais. Decidiu voltar para a pensão, estava cansado e queria tomar um duche antes de ir para a cama. Pelo caminho pararia no mesmo café em que tinha almoçado. Se calhar, tomaria outra bola de Berlim para o jantar. Decidiu na altura passar pela estação de Sã Bento. Não tinha pressa. Finalmente o sol estava a sair, ao fim da tarde, como se fosse uma brincadeira. A luz que entrava pelas janelas altas do vestíbulo da estação de São Bento aumentavam a beleza da mesma. Os azulejos eram esplêndidos. O Alberto começou a tirar fotos deles com o telemóvel, alheio ao movi-

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mento das pessoas que cruzavam aquele vestíbulo de entrada e saída. Das pessoas sim, mas não de uma pomba que caminhava para o cais como se fosse um viageiro normal. Era uma coisa muito estranha. Parou de contemplar os azulejos e observou aquela pomba que caminhava a bom passo. Perguntou-se por que é que ela caminhava e não voava. Mas não passaram nem um minuto quando observou uma gralha que parecia segui-la na distância. Por acaso as gralhas se alimentavam de pombas? Ele achava que não, mas a bilogia não era a sua especialidade. Saiu dali e voltou para os Aliados. Ia um sol impressionante. Que estranho o tempo no Porto naqueles dias, que passavam do frio para o calor tão rapidamente. O rapaz italiano ficou a contemplar a estátua em bronze do vendedor de jornais apoiado numa caixa dos correios

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vermelha. Pensou que talvez pudesse pedir a alguém que lhe tirasse uma foto junto com a estátua. Virou-se para encontrar alguém que lhe oferecesse confiança. E então viu três rapazes, mais ou menos da sua idade, também com aspeto de estudantes universitários que corriam para ele. O Alberto assustou-se. Um deles bateu involuntariamente contra o Alberto, porque olhava para o céu, enquanto gritava com um forte sotaque alemão: ─ A pomba vai para os Clérigos! Com efeito, a torre dos Clérigos ficava às suas costas, belíssima com a última luz do dia. O Alberto quis dizer algo, mas já aqueles três, dois rapazes e uma rapariga, estavam longe demais para ouvirem as suas queixas. Portanto, decidiu voltar para a pensão, mas antes passaria pelo café para jantar, como tinha previsto.

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E sim, jantou duas bolas de Berlim e dois cafés. O garçom tomou nota mental daquilo, porque tinha a suspeita de que aquele italiano maluquinho ia repetir a mesma refeição muitas vezes. Apenas tinha que atravessar a rua e caminhar uns metros para chegar à sua pensão. Caminhou lentamente, enquanto contemplava como as luzes dos faróis da rua iam iluminando a Rua do Bonjardim. Havia bastante gente pela rua, estava menos fresco àquelas horas do que tinha estado durante o dia. Alguém ofereceu um papelinho de propaganda ao Alberto. O rapaz pegou nele e deixou-o na mão. Não tinha intenção de lê-lo, nunca lia aquelas porcarias, mas não queria atirá-lo ao chão, como faziam outras muitas pessoas, mas não havia lixeiras à vista.

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Abriu a cancela, que rangeu como uma alma penitente, e começou a subir pelas escadas quase às escuras. As tabuas do chão também rangiam, de outra forma, mas rangiam. Aquela parecia a casa do terror. Tirou a chave da porta. Também aquela porta rangeu. Caminhou pelo corredor, o qual, pronto, também rangia. A escuridão era quase total na morada, apenas se ouvia uma rádio nalguma parte. O Alberto entrou no seu quarto. Acendeu a luz. Era muito fraca. Deixou-se cair na cama. Nem tinha vontade de tomar duche... Que preguiça. E então apercebeu-se que ainda levava na mão o papel que lhe tinham dado na rua. Estava para fazer uma bola com ele, quando os seus olhos capturaram duas palavras escritas nele: a sede da fé. A sede da fé. Isso existia. Alçou-se e ficou sentado na cama. Se calhar não se tratava de

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uma brincadeira. Mas como era possível que alguém lhe pedisse ajuda e nem deixasse constância do seu número do telemóvel. Contudo, havia uma hipótese de encontrar a sede da fé. Leu todo o papel. Tratava-se de uma seita. Sim, era uma seita que falava da destruição do mundo ─grande estereotipo─ e que os deuses viriam salvar uma escolha de humanos. Bem, até aí tudo normal. Mas aqueles falavam de uma pomba mística que interpretava a vontade dos deuses. Buf, que paranoicos, pensou o Alberto. Mas o mais engraçado é que tinham o seu templo no seu mesmo portão, justo em baixo da pensão! No papel convidavam as pessoas a se unirem ao grupo para ser salvados. Pronto, e a próxima reunião seria às onze da noite. O Alberto olhou para o seu relógio. Eram as nove e meia. Decidiu averiguar o que é que havia trás tudo aquilo.

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Mas como ainda tinha tempo, tomou um duche e ficou depois na cama deitado a ouvir música. De facto adormeceu na cama. Mas um bipe despertou-o. Tratava-se do seu telemóvel. Acabava de receber uma mensagem. Começou a lê-la: «Ainda bem que averiguaste onde fica a sede da fé. Vem já!» O Alberto não podia acreditar o que estava a ler. Em menos de um segundo saltou da cama, pôs a camisola e saiu do quarto. Atravessou o corredor ainda mais escuro a toda a velocidade, mas ainda assim pôde ouvir o som da televisão a dar as notícias. Chegou à porta, abriu-a rapidamente e desceu as escadas. Quando chegou abaixo viu algumas pessoas que entravam, com efeito, no apartamento que ficava em baixo da pensão. Não vestiam de maneira estranha, mas todos eles caminhavam

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com a cabeça a olhar para o chão. Aliás, havia muita pouca luz, quase não se via nada. Também ele entrou naquele apartamento e adaptou-se a improvisada procissão. Inclinou a cabeça para fingir que só olhava para o chão e caminho arrastando os pés como faziam os outros. Esperou que alguém o detivesse na porta, que lhe perguntasse quem era, mas não foi assim. Contudo, lembrou-se que o papel que tinha recolhido na rua falava de um convite a participar numa sessão da seita. Havia cerca de quinze pessoas. Não era uma seita muito potente, não. Reuniam-se no salão da casa, que estava apenas iluminado com candeias. O Alberto tentou olhar a decoração sem ter que alçar a cabeça. Havia uns cartazes feitos a mão que representavam cenas apocalípticas, provavelmente copiadas de filmes. Na parede da frente havia uma espécie de

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altar, que na realidade era uma mesa coberta com um pano verde. Acima dele havia uma pomba numa gaiola. E na parede do fundo um cartaz ainda mais grande onde estava escrito “A sede da fé”. Além disso, soava uma música instrumental suave, que tencionava imitar algum tipo de música tibetana. Durante uns minutos nada aconteceu. A pomba apenas remexia as asas na gaiola, nervosa, desesperada, o qual era normal. E então, o Alberto comprovou algo que lhe pareceu tirado de um livro de ciência ficção, algo que achou incrível, impossível, que mais bem parecia uma alucinação: num dos laterais da gaiola havia um velho telemóvel pendurado com cabos. Estava ligado. E enquanto os “fiéis” seguiam a olhar para o chão, arrastados pela música, a pomba começou a bater nas teclas do telemóvel, como se estivesse a escrever uma

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mensagem no telemóvel. E tanto foi assim, que uns segundos depois, o telemóvel do Alberto fazia bipe-bipe. Por um lado, os devotos seguidores da seita pareceram não se terem apercebido do som; pelo outro, a música, embora suave, escondeu os bipes. O Alberto pegou no telemóvel e leu a mensagem: «Ainda bem que vieste! E agora que estás aqui, liberta-me!» A pomba? Era a pomba que escrevia as mensagens? Aquilo tinha que ser um pesadelo. Sim, era um pesadelo. Talvez lhe tinham dado algum alucinógeno com o café ou com a bola de Berlim. Tinha que ser isso. Não era possível. Se calhar o garçom tinha metido algo no jantar, ou no almoço, ou nas duas refeições... Mas aqueles pensamentos ficaram interrompidos quando entrou o líder da seita. As-

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sim que entrava, a música foi morrendo até permitir os seus passos pelo chão, o qual rangia como o da pensão. Quando esteve trás o altar, pôs uma mão na gaiola e falou: ─ Irmãos e irmãs, e visitantes, que vejo que há algum, sejam bem-vindos. Cá estamos para ouvir outra vez as mensagens que os deuses cósmicos nos transmitem através da pomba mística─depois falou para a pomba da gaiola─. Ó, pomba mística, comunica-nos nesta noite o que os deuses querem dizer-nos. E a pomba voltou a bater com o bico nas teclas do telemóvel. Uns instantes depois, os bipes soavam em todo o salão. Todos os telemóveis das pessoas que estavam lá dentro receberam uma mensagem, também a do Alberto. E todas as pessoas foram ler a mensagem, também o Alberto e também o guru da seita, quem vestia uma túnica branca e cobria o seu

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rosto com uns cabelos pretos muito compridos e umas barbas de seis meses que chegavam até ao peito. Mas a mensagem era incompreensível. Tratava-se de uma sequência que incluíam letras, números e signos tipográficos diversos, como se fosse uma dessas mensagens em clave que precisam de um código para ser decifradas. Lá já falou o líder da seita. Também ele tinha recebido a mensagem no seu telemóvel e parecia ser o único capaz de traduzir aquela mensagem mística. ─ Irmãos e irmãs, visitantes, a mensagem de hoje é uma mensagem de esperança. Dizem os deuses cósmicos que a destruição do planeta é já iminente, mas que as naves que virão recolher os humanos escolhidos já estão escondidas por trás do planeta Marte para não

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serem vistas desde a Terra. Porém, os deuses místicos ainda nos pedem mais sacrifícios, dizem que é preciso darmos mais dinheiro para a construção das pistas de aterragem secretas que os nossos irmãos sacerdotes estão a construir no fundo do Atlântico... O Alberto compreendeu que aquilo era um engano que não poderia acreditar nem um miúdo de oito anos, mas aqueles coitados ouviam sem alçar a cabeça. Evidentemente acreditavam. E então, um por um, foram achegando-se do altar e foram deixando notas de banco num saquinho azul com o desenho de uma pomba em branco. Depois foram saindo em procissão silenciosa. Afinal, o Alberto ficou no salão, a sós com o guru da seita. ─ Caro amigo, vejo que vens iluminado pelos deuses cósmicos. Eles vão salvar-te. O Alberto não disse nada.

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─ Vou explicar-te a nossa revelação ─começou a dizer o guru com uma falsa gentileza─. Eu fui contatado pelos extraterrestres há muitos anos. Eles mostraram-me as verdades cósmicas e falaram-me dos seus deuses. Eu acreditei logo, porque me deram esta pomba que vês aqui. Com esse aparelho que há na gaiola, ela comunica-nos qual a vontade dos deuses. É um transmissor cósmico. O Alberto olhou para o aparelho em questão. Não havia qualquer dúvida que se tratava de um telemóvel de primeira geração, do tamanho dum tijolo. A pomba não fazia mais do que olhar para o Alberto. Nos seus olhos havia uma grande expressão de tristeza, toda a tristeza que é capaz de transmitir uma pomba com os olhos, enquanto largava melancólicos “hmm, hmm”.

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─ Vou dar-te uns folhetos da irmandade para conheceres melhor os fundamentos. E convoco-te aqui para a semana. Como te chamas? ─ Alberto. ─ Muito bem, Alberto, espera aqui cinco minutos e volto em breve. Por enquanto, medita se quiseres, que este local está cheio de energia cósmica... Energia cósmica talvez, mas cheiro a pés sujos tinha por certo aquele salão. Já não ia poder aturar muito. O guru saiu do salão. Os seus passos rangiam a cada vez mais longe. O Alberto olhou outra vez para a pomba. Tinha uma expressão tão triste... Só lhe faltava falar. O que a mente do Alberto não teve coragem de fazer, teve o seu coração. Pegou na gaiola, levantou-a ─pesava muito, se calhar por causa do telemóvel-tijolo─ e fugiu daquele salão,

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mas não pôde evitar que os seus próprios pés rangessem. Correu para fora, correu como nunca. Correu para a rua e fugiu com a pomba na gaiola pela Rua do Bonjardim para abaixo, novamente na direção da sé. Nem ousava olhar para trás, temia que o seguissem. Em qualquer momento esperava que uma mão se pousasse no seu ombro e lhe disse: «Detem-te». Mas em vez disso, o que sentiu foi outro bipe no seu telemóvel. Não se deteve para ler a mensagem. Porém, uns segundos depois, soou outro bipe, e outro, e outro, e outro. O Alberto deteve a sua corrida louca. Estava perdido. Não estava perto da sé. Tinha ido mais para o leste. Encontrou-se num parque desconhecido. Sentou-se num banco. Pousou a gaiola no chão entre os seus pés. Depois abriu o telemóvel. A mensagem que recebia era sempre a mesma: «Onde é que vais?». Olhou para

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a pomba, a qual tinha o bico no teclado e começou a escrever novamente. «Abre a gaiola, faz favor, e tira fora o telemóvel». O Alberto abriu a gaiola. A pomba, assim que viu a porta aberta, saltou à liberdade e perdeu-se de vista pelos céus da cidade, rumo a qualquer parte. Dela só ficaram umas plumas no chão da gaiola e muita porcaria. O Alberto pegou no telemóvel, mas antes teve de retirar as cordas que o sujeitavam à gaiola. Quando teve aquele aparelho na mão, o pequeno ecrã iluminou-se. Soou um bipe. Não foi no telemóvel do Alberto, mas naquele imenso que ainda sustinha na mão. E, de repente, uma voz começou a falar: ─ Obrigado, terrícola, por teres recuperado este transmissor. Aquele tipo que se faz cha-

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mar o guru tinha-o encontrado... mas nem vou dizer como, pois é uma longa história. ─ Pronto... ─ Mas sim, ele tinha razão, este aparelho permite a comunicação connosco. Somos uma civilização extraterrestre. ─ Ah... Mas se vocês podem falar através disto, por que é que usavam uma pomba para se comunicarem connosco os humanos? Lá houve um silêncio breve. Depois a voz voltou a falar: ─ Nós podemos comunicar-nos muito bem com as pombas. Existe uma grande similitude entre elas e nós. Porém, nós não tentávamos transmitir mensagens à humanidade, era a pomba que escrevia signos às toas. Viste alguma vez uma pomba que saiba escrever? Só contigo é que tentámos uma transmissão séria para recuperares este aparelho.

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─ Como assim? ─quis saber o Alberto. ─ Porque tu és um elegido. ─ Não percebo nada. Elegido por quem? ─ Por nós. ─ Por alguma razão espiritual? ─ Não, por uma razão prática. Sabíamos que tinhas reservado um quarto na pensão que há justo acima do templo da seita. Aliás, o teu telemóvel recebe muito bem o sinal do nosso transmissor. A maioria dos telemóveis dos humanos são muito fracos, embora eles pensem o contrário. Novamente silêncio. Depois a voz falou outra vez: ─ Como nos salvaste, vou permitir-te que me vejas. Vais ver como somos realmente os da minha espécie. E no ecrã do telemóvel apareceu uma figura.

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Era uma pomba. Uma pomba com óculos, exatamente. Aquilo parecia uma brincadeira. Era impossível que aquela raça de extraterrestres fossem pombas ou algo parecido. ─ E agora ─continuou a voz do telemóvel─, prego-te que deixes o telemóvel lá no banco e vás embora. Daqui a uns minutos passaremos a recolhê-lo, mas convém que tu já não estejas. E faz favor, nunca contes o nosso segredo. Contar o seu segredo? Como ia contar o seu segredo? Quem ia acreditar que entre as pombas do Porto havia pombas reais e pombas extraterrestres? Se contasse isso, iria direito para o manicómio. Não, aquele seria para sempre o seu segredo, pela sua própria saúde mental. Antes de abandonar o parque, o Alberto ainda sentiu um forte remexer de asas. Cessou

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de bater um momento e depois voltou o bater de asas. Afinal, o barulho perdeu-se nos ares. O Alberto não pôde evitar a tentação de voltar para o banco. O telemóvel já não estava lá. Apenas ficavam umas plumas... de pomba. O estudante italiano deixou-se engolir pela noite do Porto. Caminho sem rumo, tentando entender a experiência que tinha vivido. A sua vida, sabia-o ele, já não seria a mesma. Porém, de repente apercebeu-se de algo: mais nunca poderia olhar para uma pomba porque nunca teria a certeza se se tratava de uma pomba deste mundo ou de outro, e nunca saberia quais as suas autênticas intenções. Lamentou que os extraterrestres não tivessem forma de pinguins, porque, naquelas latitudes, isso seria uma garantia de tranquilidade. Muito cansado, chegou à pensão de madrugada. Meteu a chave na fechadura, mas

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antes de acabar de abrir, uma mão pousou-se no seu ombro. O Alberto virou-se. Era o guru sob aquela floresta de cabelos, que num tom sossegado só lhe perguntou: ─ E agora, acredita o que eu dizia? Tenho ou não tenho razão?

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Três pombas e meia  

Três histórias misteriosas que têm como protagonistas três pombas num dia de julho na cidade do Porto. Qual a relação entre elas?

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