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José Calamote nasceu em 15 de Outubro de 1893, em Salvador, filho de José Calamote e de Maria Antónia. Casou em 5 de Junho de 1919, com Maria Lucinda Pereira da Silva, natural de Penamacor. Tiveram uma união de 62 anos e três filhos: Henrique, Aníbal e Albertino. Morreu em 16 de Janeiro de l983, em Lisboa, em consequência de uma queda (Foto de 1940).

ra o «do meio» de cinco irmãos, no seio de uma família humilde de trabalhadores rurais, sendo rapariga apenas a mais nova. Tal como seus irmãos e a grande maioria dos jovens de então, não foi à escola enquanto criança porque era preciso ajudar a família e contribuir para o seu sustento. Assim, ainda de tenra idade, esperou pelo S. Miguel1 e «ajustou-se» com um patrão. Foi trabalhar para uma malhada2 da raia de Espanha, algures entre Salvador e Valverde del Fresno, juntamente com alguns dos seus irmãos e outros jovens da terra ou de terras vizinhas. Viveu ali a sua juventude como pastor, ganhão e criado de todos os trabalhos campestres, até que a vida militar o chamou. O trabalho na malhada era pesado e a sério, mas também as horas de lazer eram muito alegres e divertidas. Os trabalhadores, maioritariamente jovens, que estavam alojados em ambiente de camarata, ansiavam pelo fim do dia de trabalho e pelos serões bem humorados, repletos de brincadeiras e partidas inocentes. Todos os jovens recebiam um «baptismo» à entrada ao serviço na malhada: coube-lhe a alcunha de «Zé Grande». Porém, em breve chegaria à malhada outro Zé mais alto do

e

1

Os «contratos de trabalho» na esfera rural eram costumeiros, normalmente anuais, com início e termo num dia de S. Miguel (29 de Setembro). 2 «Malhadas» eram propriedades rústicas, de grande extensão agrícola, de montado e pastos, que, por serem afastadas de centros urbanos, dispunham de condições mínimas para alojarem o seu pessoal, que só ia ao «povo» em ocasiões excepcionais.


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que ele, que lhe roubaria a alcunha, pelo que recebeu outra, que o acompanharia por toda a vida: «Zé Violas». Naqueles recuados tempos, os horizontes dos rapazes eram extremamente restritos em termos de futuro, dividindo-se sumariamente em dois períodos: até aos vinte anos (antes da tropa) e depois da tropa. A primeira parte era passada na dependência dos pais, quer trabalhando na família, quer trabalhando para outrem, mas em proveito daquela. Após a vida militar é que os rapazes adquiriam a sua autonomia e extravasavam o raio de acção familiar. José Calamote era analfabeto e tinha a profissão de jornaleiro quando foi para a tropa. Ali aprendeu o ofício de sapateiro, bem como a ler e escrever, completando a instrução primária elementar. Como homem voluntarioso e inteligente, as leituras de livros e jornais que depois sempre praticaria, assim como a ida à guerra de 1914-18, conferiram-lhe um notável capital de conhecimentos sobre a vida social e as relações humanas, que lhe granjeariam um grande poder de observação e um espírito crítico bastante elevado, características que o posicionavam bem à frente do seu tempo. Desejava que a justiça e a liberdade fossem para todos e em partes iguais. Era contra a repressão política, nomeadamente na forma de censura à liberdade de expressão – de que, aliás, viria a ser vítima bem cedo. Tomou parte na I Grande Guerra durante cerca de três anos. Foi mobilizado para Moçambique, para onde embarcou em 11 de Setembro e onde desembarcou em 22 de Outubro de 1914. Evacuado para Metrópole, por doença, em 9 de Novembro de 1915, tendo chegado a Lisboa em 6 de Dezembro. Dado como curado, voltou a embarcar para Moçambique, em

Fronteira norte de Moçambique com a actual Tanzânia. O rio Rovuma e as localidades de Quionga, Palma, Namoto, Mocímboa do Rovuma, Nelvala, entre outras, eram refridas por José Calamote quando recordava à sua ida à guerra.


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8 de Julho do ano seguinte, desembarcando em Palma em 5 de Setembro, em plena zona de conflito. Por ter terminado a comissão, regressou à Metrópole em 1 de Março de 1918, desembarcando em Lisboa em 16 de Maio, data em que foi desmobilizado. Foi condecorado com a Medalha Comemorativa do Exército Português Moçambique 1914-1918, por decreto de 30-11-1918; com a Medalha da Victória, por decreto de 30 de Outubro de 1919, e condecorado colectivamente, como membro do Regimento de Artilharia de Montanha, com a Cruz de Guerra de 1.ª Classe, em 1919. Ingressou na Guarda Nacional Republicana (GNR) em 15 de Abril de 1919. Estava-se, então, numa fase muito conturbada da vida portuguesa, devido aos constantes tumultos políticos, sociais e governamentais que marcaram a primeira década do novo regime republicano. A GNR estava constantemente nas ruas de Lisboa, em acções de repressão política de confronto com uma população descontente por causa das subidas 1920– Greve de civis e militares dos preços, da inflação acelerada e das desvalorizações monetárias, para nomear apenas alguns dos graves problemas económicos com que o governo se debatia. Numa dessas saídas do quartel, José Calamote não conseguiu calar a sua revolta e recusou-se a tomar parte na repressão. Foi então «exemplarmente» punido com quarenta dias de prisão correccional, em 31 de Agosto de 1920, que cumpriu na prisão política de S. Julião da Barra.

Registo disciplinar (extracto)

«Por no dia 23 de agosto findo, cerca das 7 horas, ao tocar a avançar para a instrução, proferir várias frazes em que mostrava a sua relutância em ir para a instrução e de incitamento para que as outras praças não entrassem em forma, o que constitui a infracção do dever 47.º do art.º 4.º do R.D.M.»

A conotação política desta infracção está claramente evidente no excessivo rigor da punição atribuída, nitidamente fora do âmbito disciplinar


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– não criminal – do Regulamento de Disciplina Militar. O propósito foi, sem dúvida, que a natureza da punição pudesse calar a voz incómoda e implicasse a expulsão da GNR, o que veio a verificar-se quase imediatamente, naquele contexto arbitrário, sem hipótese, sem condições e sem meios para contestar. Readquirindo a antiga alcunha de «Zé Violas», regressou definitivamente à sua terra, onde exerceu a honrada arte de sapateiro3 durante mais de cinquenta anos, cumulativamente – e fazendo jus das suas notáveis capacidades –, com outras tarefas de interesse público e cívico, durante longos anos, tais como as de Encarregado do Posto de Correio de Salvador, Encarregado do Relógio da Torre da igreja da aldeia. Exerceu também funções de Regedor e de membro da Junta de Freguesia.

À porta de sua casa, acompanhado da mulher

Na oficina de sapateiro, chegando-se à porta para aproveitar a luz do dia

Era agnóstico, mas tolerante com os que o não eram: teve sempre, aliás, boas relações com os padres da terra. Dizia, por graça, que ninguém de Salvador ia mais vezes à igreja do que ele próprio... que tratava do relógio da torre! Mantinha grande interesse pela vida pública portuguesa, dando também muita importância à situação política espanhola. Foi assinante do 3

Dizemos «arte» de sapateiro porque, naquele tempo, o artista tomava nas mãos as matérias-primas e com elas produzia as peças de calçado, por medida, do princípio ao fim, deixando-as prontas a usar.


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jornal «República» (conjuntamente com mais dois conterrâneos de ideias próximas: Frederico Costa e Manuel Raposo), e, assim que pôde, adquiriu um aparelho de rádio, para ouvir os noticiários (os «comunicados», como lhe chamava). Era ouvinte assíduo da BBC e de outras estações que também emitiam programas em português. Era opositor da política do Estado-Novo, mas sem hostilizar os que pensavam diferentemente. Colaborou na campanha de Norton de Matos para as eleições de 1949 e na de Quintão Meireles para as de 1951. Depois do 25 de Abril de 1974, já octogenário, ainda fez questão de exercer a sua liberdade e a sua cidadania, integrando as listas, para a Assembleia de Freguesia, de um pequeno partido da sua simpatia política. Saudou calorosamente a mudança de regime, mas falava muito na sua experiência da 1.ª República, com receio de que viessem a repetir-se «as lutas do poder e a incompetência dos políticos para serem honestos com o povo» – para repetir as suas palavras. Raramente estava só enquanto trabalhava: a sua oficina de sapateiro era também local de amena cavaqueira ou de animada tertúlia, envolvendo pessoas, algumas delas ocasionalmente de Aos oitenta anos férias na terra, outras residentes, mas todas partilhando o gosto de comentarem as notícias do país e do mundo, ou a própria actualidade local, ou, ainda muito frequentemente, de disputarem ou de assistirem a uma boa partida de damas! Outra faceta interessante do «Ti Violas» – porventura aquela por que o identificavam a maioria das pessoas que o conheceram de mais novo, era o seu elevado sentido de humor, o seu grande jeito para a piada e a sua participação activa em romarias e nas tradições pagãs de tipo burlesco daquele tempo, como o Entrudo, a Serração da Velha, as Janeiras, etc. Muitas vezes ouvimos, em Salvador, as pessoas mais velhas dizerem, com uma ponta de saudade: – Já não há entrudos como os do tempo do «Zé Violas»!


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Biografia de José Calamote (1893-1983), natural de Salvador - Penamacor. In Albertino Calamote, Salvador Barquinha d'Oiro, Lisboa, Edições C...

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