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o rappa: e quando a banda sentiu na pele o preconceito de que tanto falam? * emocore: a diferença que incomoda * primeiro emprego: escapei com vida! e você? * e mais: quadrinhos, crônicas, poesia e o caramba a quatro

o rappa


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contos, crônicas e poesia

Andréia Pinheiro - mtb 28102

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Orientadores

Jornalismo: Thompson Loiola Arte e Roteiro: Dalton Correa e Pedro Felício Design Gráfico: Edu Marin Fotonovela: Letícia Stankus Contos, Crônicas e Poesia: Paulo Condini Editor-Chefe: Luiz Flávio Lima Redatores: Aldrey Caroline e Antonio Tadeu Projeto Gráfico: Sylvia Sanchez/ Aiye Coordenador de Formação: David Santos Conselho Consultivo: Gabriel Vila e Bira Barbosa

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equipe técnica

jornalista responsável

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Agradecimentos especiais: Adriano Alves, Ana Paula, André Ferreira, Aprendiz Comgás, Arthur Ambrogi, Barbara Stutz, Breno Cavalcanti, Carol Paiva, Celso Jr., Cléia Silveira, Cristine Livespum, Daniel Cara, Denis Mizne, Diogo Campos, Dona Ângela, Dona Luzia, Dona Maria, Eduardo Longo, Eliana Lacombem, Elise Yamakami, Erick Rodrigues, Estela Barbieri “Teca”, Fabio Novo, Felipe Lucchesi, Fernanda Takai, Gabriel Gaspar, Gabriel Macedo, Giovana Cuginotti, Gledson Barbaresco, Jadiel Alves, James Alves, Jefferson Willian, João Rafael Almeida, Jocenilton Lourenço “Jossa”, Júlia Forlani, Juliana Schultz, Kátia Borba, Kauê Magalhães, Kelly Mitchell, todos os jovens de La Luciernaga, Leandro Garcia, Leda, Letícia Stankus, Lubi, Luciana Guimarães, Luciana Nova, Marcelo Cavalcanti, Marcelo Pereira, Marco Aurélio Silva, Mariana Montoro, Mark Van Loo, Max Júnior, Melina Risso, Miguel Marques, Natalicio Costa, Oscar Arias, Pablo, Patrícia Bianchini, Rafael Lira, Rodrigo Bandeira, Rodrigo Rampazzo, Ronaldo Araújo, Ronaldo Paixão, Sabrina Motta, Senac São Paulo, família Artemísia, Vagner Lima, Virginia Murano, Vitor Malab, Vitor Massao

E a todos que estão nos ajudando a tornar real mais este sonho! Obrigado! Você faz parte desta conquista!

10. Michelle Nascimento 11. Sylvia Sanchez 12.Thaís Kruse 13. Dimas Reis 14. Érick Diniz 15. Érico Hiller 16. Edson Santana 17.Giovani Contani 18. Ivan da Silva 19. Marlon Tenório 20. Tikka (Carol) 21. Wander Gabriel 22. Laerte 23. Marcel Zamarreño 24. Sheila Mara 25. Antonio Tadeu 26. Fernando Doretto 27. Manfred Barbosa 28. Ricardo Cabrini 29. Yuri Andrey

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nesta edição::1. Caio Teixeira 2. Fernanda Gonçalves 3. Luiz Flávio Lima 4. Sheila Santos 5. Soninha 6. Aldrey Caroline Riechel 7. Eduardo Garcia 8. Kléber Palmeira 9. Tais Forner

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fotonovela

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roteiro

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arte e arte final

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design

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fotografia

jornalismo

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contato imediato - entrevista

o rappa: “todo camburão tem um pouco de navio negreiro”

quadrinhos

siga a letra: “Manguetown” 04

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de repente: não mais que de repente

na pegada - opinião

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revelação - fotonovela: a insustentável leveza do ser

camelôs: “a lei do mais forte ou do mais rápido, o que vier primeiro.”

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emocore: “sou sim, sentimental”

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pirateando - por laerte 26

casos crônicos e poéticos querido profile

dor de cabeça: cliente bomba 36

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futebol gastronômico 15

o emprego e o jovem

mais seções

na ponta da língua: você tem fome de quê? 38

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para nóia

interativo 39

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licença poética: soltos contras

parceiros 40

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texto: Aldrey Caroline, Sheila Santos, Luiz Flávio, Manfred Barbosa

fotos: Érico Hiller

s sou, sim,

sentimental a

Galeria do Rock já foi o epicentro paulistano do punk, do heavy metal, do rap e hip hop, do rock – culturas musicais que lá se sedimentaram ao longo de décadas, como camadas geológicas que, sem se sobrepor, passaram a coexistir. Nessa acomodação peculiar, esbarram-se nas sacadas amplas, nas escadas rolantes estreitas e nas lojas apertadas. Faz sentido que a Galeria tenha se tornado, também, o terreno em que os emocores instalaram seu paraíso. Harmonia, contudo, é algo que não pertence a este Éden. A começar pela hostilidade com que fomos tratados por um grupo de jovens que identificamos como emos e diziam “Capricho, não! Capricho, não!”. Tentamos retrucar, mas... tarde demais. E aí começamos a buscar entender uma galera que parece estar cansada de ser alvo de matérias que os rotulam como “chorões” e “afeminados”.

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São rótulos que grudam de forma perigosa em seus adeptos. Falas exaltadas irrompem durante nosso papo com um grupo de emos. Algumas “não-emos“ – como fazem questão de frisar – dizem com severidade: “bata num emo e faça o mundo feliz!”. Não foi a primeira vez que ouvimos isso na Galeria, onde a campanha parece bastante difundida. Wellington Marcusso, 18 anos, arrisca uma explicação que fica no vazio: “todo mundo odeia a gente, não sei por quê”. emo, uma moda estranhíssima “Pertencer ao estilo emocore é mais do que simplesmente se vestir de forma característica”, afirma Wellington, que cursa pela segunda vez o terceiro ano do ensino médio. Sua identificação com o estilo ocorre nas letras de músicas de bandas emocore, que abordam temas como o amor e o ódio.

Diversos fóruns, blogs e comunidades virtuais têm como palavras de ordem incentivo a agressões contra quem se denomina emo. E o ultraje aos fundamentais direitos de liberdade de expressão e manifestação cultural ultrapassa as fronteiras do cibermundo. São inúmeros os relatos de violências como as sofridas por Felipe Amaral, tímido estudante de 16 anos. Ele nos mostra, constrangido, uma marca de queimadura em seu braço direito, feita minutos antes, na entrada da Galeria. Friamente, o agressor apagou o cigarro em seu braço. Outras vezes, Felipe já foi socado e ofendido. O otimismo de Amanda, 13 anos e assídua freqüentadora da Galeria do Rock, sugere que a aversão é passageira. “O emo é uma moda estranhíssima, e já está todo mundo se familiarizando”. Estilosa, cheia de adereços e bom humor, Amanda não se considera “da turma” e diz que tem “estilo próprio” e não faz tudo que outros de sua idade fazem. A distância entre aversão e agressão, porém, deveria ser maior. O que dá margem a preconceito e violência? Fernando Meira, universitário de 19 anos, culpa a “falta de critérios”. “[Punks e skinheads] respeitam quando vêem que temos conteúdo. O que queima são os posers [gíria que se dá a quem “posa” de roqueiro] que se vestem assim só para chamar atenção das meninas”. 8

trinta e nove


moda e modos Moda e comportamento, poucos casamentos são tão vistosos quanto esse, principalmente na juventude. Não seria diferente com o emocore, caracterizado pelo jeito “bonitinho” de ser e se vestir. Tudo no diminutivo, muitas cores e acessórios. Não chamar atenção é impossível. Não existe precisão para identificar um emocore, mas há pistas. Meninas: cachinhos e franjinhas, bolsa de pelúcia, saia curtas tipo colegial, lacinhos, presilhas e broches, principalmente da Hello Kitty. Meninos: camiseta curta, boné, munhequeira, franja nos olhos, piercings de argola no canto da boca e bermudão com cinto enorme de rebite – de função apenas decorativa, pois a cueca fica à mostra. Ambos: ofender-se com o termo “emo”, mesmo curtindo o estilo, as bandas e as baladas. A maioria não gosta de ser classificada. Quem é que gosta?

Priscila, 14 anos, a “Senhorita Emocinha”, assume e justifica sua posição: “mesmo que tenha virado moda, não vou deixar de ser [emo], porque eu sou o que sou”. A pequena Rosana – que prefere ser chamada de Rosa –, de 14 anos, companheira de Priscila em baladas e passeios pela galeria, deixa claro: “escuto emo, mas não me rotulo assim”. As duas carregam bolsas cor-de-rosa, broches (dezenas), pirulitos e franjas. Tanta conversa e a pergunta seguia no ar: afinal, o que é ser emo? A definição de Fernando Meira não é a mais completa, mas chamou nossa atenção: “Amar sem preconceito. Homofobia zero. Um estilo que tem lemas como esses não pode ser apenas uma moda passageira”. subversão de bandeira branca Desde que o rock ’n’ roll deu seus primeiros agudos, na década de 50, levou milhões ao arrebatamento e à histeria. Da subversão descolada dos hippies à revolta política e sonora do punks, o grito primal de guitarras em fúria tirou do sério gerações de adultos preocupados com o comportamento excêntrico de seus filhos. E agora, os emocores: pessoas frágeis, nascidas num mundo enfraquecido por mídia predadora, consumo acelerado e fracasso das utopias. 9


EMOtional HardCORE - o fenômeno, a moda, o estilo musical ultrapassa os fatos, indo parar em especulações, mitos e zombarias. Um grande número de adolescentes entre 11 e 18 anos, unidos na freqüência de paixões não-correspondidas, rejeição, solidão, melancolia. Do lado do abismo não alcançado por Estado, Igreja, família ou contracultura, eles se adaptam às circunstâncias como o náufrago à falta de TV na ilha deserta. Agarram-se a um romantismo decadente e elegante, escrevem diários virtuais onde escancaram sua fragilidade, expõem-se a um mundo que não tolera dúvidas sobre sua sexualidade, mas faz de tudo para transformar todos em escravos de seus próprios desejos. Sua maior fraqueza, contudo, está em não saber direito como dar vazão às emoções. Gritam na esperança de ouvir um eco. Podiam ter se tornado contrapartes violentas da sociedade, como os skinheads. Ou resolvido suas carências adotando uma postura predatória e rebelde, como grunges, metaleiros e punks. Optaram por ser inofensivos, mansos, o que hoje em dia é quase subversão, não fosse a razoável dose de alienação que carregam. Que ideal poderiam ter além de fugir da tristeza – e por que buscá-la com tanta veemência? O fenômeno se justifica um pouco quando pensamos na vontade e necessidade de pertencer a um determinado grupo social quando tentamos lidar com o vácuo emocional. Ainda que, por vezes, um grupo de identidade forte acabe anulando a identidade dos indivíduos que o compõem. E se tudo não passar de modinha, não significará que os sentimentos não tenham sido autênticos. Foi, sim, mais uma prova de que modas e ideologias passageiras estão tomando o lugar que um dia foi da filosofia, das revoluções e das utopias.

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Ser Emo é amar Ser Emo é viver sem preconceitos e naum só usar as franjinhas - Frase retirada de uma comunidade virtual


Profile

Eu (312)

Hoje, segundo meu computador, é dia 15 de agosto e o dia começou calmo, mas foi só o começo! De tarde descobri que perdi um cubinho de gelo no Orkut! Eu sabia que não devia ter brigado com meu melhor amigo virtual... Ele era tão meu amigo que eu tinha até colocado todos os corações, todos os cubinhos e todas as carinhas para ele, sem contar o depoimento que deixei. Pensei em me vingar, primeiro mudar o depoimento (apagar seria exagero!) e depois o cruel ato de não deixar nenhum scrap para ele durante uma semana inteira!

Eu (312)

Eu (312)

Pausa para deixar um scrap, pedindo um scrap. ...

texto: Aldrey Caroline

Eu (312)

uerido

Eu (312)

Pausa para deixar um scrap com indireta para que montem uma comunidade para mim. Ontem comprei pizza doce. Na verdade não era tão boa, mas mesmo assim entrei na comunidade “Eu AmO pIzZa DoCe”. E com tantas comunidades posso me considerar intelectual, afinal eu discuto e leio sobre tudo! Tudo mesmo! Até sobre “Eu sei digitar rápido” ou ainda “Odeio acordar cedo”. Coisas úteis sempre fazem bem para as pessoas! Com tudo isso, posso até criar a comunidade “Eu sei de tudo...”. Ou ela já existe? Pausa para verificar se a comunidade já existe. ... Pausa porque achei outra mais interessante. ...

Q

Eu (312)

Mais três pessoas me adicionaram! Depois dizem que eu não tenho amigos. Enganam-se! Eu tenho 499, só mais um e vira 500! Sem contar os 1301 (na verdade 1304... o Orkut não sabe contar!) scraps e 15 depoimentos! A única conclusão disso tudo é que tenho uma vida social e sou muito amada. Isso me faz pensar: por que não tenho uma comunidade dizendo o quanto sou legal, simpática e bonita? Até mesmo pessoas com menos contatos do que eu têm uma comunidade só pra eles! Posso jogar indireta para meus amigos... Mesmo nunca tendo visto nenhuma das pessoas da minha lista de contatos, sei que eles me acharam bonita! Afinal tem uma foto lá... Foto não mente, não é mesmo?

foto: Fernanda Gonçalves

Pausa para olhar se chegou um novo scrap. ...

Pausa porque achei meu irmão no Orkut (aos 500 amigos na lista!). Acho que não tenho do que reclamar só por um cubinho de gelo perdido. Imagine quantos scraps não vou ganhar tentando fazer as pazes ou brigando ainda mais... Todos nós deveríamos nos preocupar com coisas realmente importantes! Imagine as pobres criancinhas que não têm acesso ao Orkut!!! Como deve ser ruim viver assim... Lembrar disso me deu fome. Ser ativista dá fome, sabe? Pausa para o lanche. ... Pobres criancinhas...

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- Viiiinte e cinco minutos do segundo tempo! Dois para o Corinthians, zeeeero para o São Paulo! A posse de bola é do time alvinegro Pimpão passa a bola para Marquinho que domina no peito e toca pra frente adiante tem Rrrrrobinho! que recebe e faz o drible passa para Torquato ajeita a bola faz tabela com Robinho perto da grande área! passou um zagueiro deu um toque de calcanhar Torquato com a bola fez a finta preparou para chutar e...! Pênalti !!! PE-NA-LI-DADE MÁÁÁÁXIMA! O zagueiro não agüentou o drible viu que o gol estava na cara e deu um carrrrinho em Torquato! O juiz está chegando, o zagueiro Biomba já tem cartão amarelo e é lance para expulsão, certo, Júlio César Lebre?

- A regra é clara: o juiz deve usar o cartão para expulsar o jogador de campo. O juiz não pode simplesmente inventar uma regra para o lance. - Alguns jogadores do Corinthians chegam ali para tirar satisfação com Biomba. Ele não responde e apenas aponta para sua boca cheia! O que me diz do lance, Casebre? A partida esquenta no Pacaembu! Os jogadores estão começando a se empurrar e o juiz está cercado por Tiaguinho e Juarez! Torquato tenta dar uma cabeçada! É uma vergonha! Chegam outros jogadores e o juiz chama a escolta! Como jogador, Casebre, o que passaria na sua cabeça, Casa Nova? - Eu... Na verdade... Não sei. Eu... - Er... Bem... Júúúlio César Lebre! Qual o procedimento? - Bem, o jogador comeu o cartão e, sendo uma agressão à autoridade que é o juiz Jorge Veiga Cruz, o juiz deve expulsar o jogador imediatamente, mas... - Desculpe interromper, Júlio, mas a torcida acaba de invadir o campo! O Pacaembu vem à tooona para o estádio e começa-se uma grande confusão entre os torcedores dos times rivais! A polícia separa ali alguns focos de briga e escolta o juiz Jorge Veiga. Uma confusão tremenda, amigo! Right! - O juiz vai encerrar a partida.

texto: Eduardo Garcia

foto: Luiz Flávio

- O juiz já correu para o lance e está tirando o cartão para expuls... Mas o que é isso? O Biomba está lutando contra o juiz! Biomba tirou o cartão do bolso do juiz e... Não creio! Não dá para acreditar! Ele COMEU os cartões do juiz! Num ato desesperado o zagueiro Biomba COMEU o cartão do juiz e impediu ali o ato da arbitragem. Como proceder quanto a isso, Right?

gastronôo

- Realmente, houve a intenção do toque, foi uma jogada extremamente maldosa e desnecessária que impediu a jogada e podia contundir o atacante. Já tem amarelo. É vermelho, sem dúvida.

mic

futeb o l - E a partida está encerrada!!! Embaixo de pancadaria e de confusão o juiz suspende o jogo! Vamos ver o que Biomba tem para falar disso tudo, através do nosso repórter. Paes Leme. - Olá, Aguiar Boero. Estou ao lado do jogador que comeu os cartões. Biomba, o que você tem a dizer sobre o lance?

- Bom, a partida foi difícil, o Corinthians é um grande time, mas a gente vai treinar aí pra conseguir um bom resultado no próximo e se Deus quiser até conseguir aí uma vitória contra ele domingo que vem. - Mas e o ocorrido com os cartões? - Realmente a arbitragem errou muito e a torcida não gostou aí da falta de marcação, mas agora é levantar a cabeça e treinar muito para o jogo. O Corinthians é um time técnico que marca muito e vamos ver aí o que acontece no domingo. Vó! Melhoras, viu? Te amo.

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Os ônibus depositam pessoas nos becos

contras

Recolhem pessoas, cansaços, suores E as depositam nos becos onde se rastejam Início de noite, alívio

soltos

ilustração: Tikka

Quem te torna podre? Quem te faz tão só? Deus já não te quer... Joga-te nessa jaula, nessa sombra doentia... A sua escolha escolhe a escolha deles A sua escolha decide a escolha deles Não desista nunca. O nojo na verdade é medo Medo do que é verdade Medo da coragem... De si mesmo.

texto: Tais Forner

Um ser só, sol e silêncio. Por que tanta vergonha? Por que omitir esse desejo tão forte Essa dor Esse amor incontrolável pelo mesmo... Igual.

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fotos: Sylvia Sanchez/ Aiye e Érico Hiller

texto: Aldrey Caroline, Luiz Flávio e Manfred Barbosa

Este é um país colorido, bonito pra caramba, mas infelizmente ainda temos uma cultura meio escravagista.

todo

camburão tem um pouco de

navio negreiro 20


A

periferia da cidade é um grande caldeirão onde ferve uma inacreditável mistura de sons, cores, crenças e paranóias culturais, temperada por descaso, omissão, mitos e promessas falsas.

Entre esquecer e não esquecer seus milhares de problemas, a cultura das ruas encontra ritmo e coragem para se expressar. E é na voz do artista que as pessoas mais simples vêm declarar seus sonhos, seus pesadelos e o desejo de reconquistar aquilo que lhes foi roubado. Do meio dessa paisagem caótica e fascinante – onde a música nunca pára e as danças se seguem no compasso de um batimento cardíaco acelerado –, surgiu um grupo de músicos dispostos a escalar a montanha do preconceito e saltar o muro da indiferença. Essa é a proposta d’O Rappa: diversão sim, mas com atitude. Formada por músicos experientes e um vocalista carismático e, por que não, emblemático, a banda carioca, que apóia Menisqüência por meio de sua ONG Fase, tem letras que ora denunciam, ora celebram os contrastes dessa vida difícil – discurso e poesia, mistura de sonoridades. Mas será que uma geração perdida em labirintos de videogames, computadores e TVs consegue captar a mensagem? E o que significam, afinal, 12 anos na estrada, equilibrando identidade musical, som engajado e assédio da mídia? É o que veremos a seguir, na entrevista exclusiva realizada logo após um show do grupo em São Paulo. Enquanto Falcão, Marcelo Lobato e Xandão descontraíam no camarim, Lauro Farias trazia algumas respostas e novas dúvidas para os leitores de Menisqüência.

Qual era o maior sonho no início de carreira? O sonho de assinar um contrato com uma grande gravadora era algo distante. Imaginávamos pelo menos viver do nosso trabalho dignamente. Várias bandas que tiveram contratos com gravadoras não conseguiram. Você assina, faz um disco, mas se o disco não for bem trabalhado, fica na geladeira. Valeu a pena? Aconteceram muitas coisas em nossa carreira, em nossas vidas. A banda tem 12 anos, cada um veio de uma área diferente do Rio de Janeiro, com sua vivência, transformação e anseios. Quando você opta pela arte, existe um mundo à parte. Tem de brigar contra tudo e todos. As pessoas cercam muito, nunca para dar apoio, mas para jogar para baixo. “Pô! Não rola, cara, você não vai chegar a lugar nenhum”. Tem de ter um objetivo muito grande, querer, buscar, sonhar e trabalhar muito para chegar ao que somos hoje. O país infelizmente não oferece oportunidades para nenhum tipo de profissional, ainda mais se for artista. Oportunidades para jovens socialmente esquecidos = mais grupos como o Rappa? Sim, cara, é possível batalhar pelo sonho. Um exemplo é o AfroReggae, que era um grupo de garotos sem perspectiva, em uma comunidade carente no Rio, e quando chegamos lá para fazer um workshop, eles começaram a se identificar cada um com um instrumento. Hoje são uma banda internacional. Temos o maior prazer em saber que viajam o mundo e vivem de seu trabalho. É gratificante servirmos de “espelhos de bons exemplos”, sabemos que todos são capazes de alcançar seus objetivos. Como vocês criam? Temos claros os objetivos d’O Rappa: experimentação, arranjos elaborados, letras fortes... Trabalhamos pensando em elaborar músicas da forma mais simples possível, com elementos novos mas sem nada a mais. Nos encontramos para compor, e essa unidade é característica em nossa música, no palco, nos textos. Pesquisamos instrumentos, principalmente dos anos 60 e 70, que têm identidade própria. Esses elementos tornam nossos shows cada vez mais interessantes. A música é um universo e você pode passear por vários ritmos. 21


Já mexeram em uma letra por acharem que não seria bem recebida, ou que causaria algum constrangimento? Não. Nunca nos limitamos em relação a nossas músicas ou letras. Na época do “Rappa-Mundi” [2º disco da banda, de 1996], tínhamos uma música que dizia “Foda-se que se foda-se”. Só não rolou por que não foi mesmo o momento. O grande lance é que vivemos em um país onde existe democracia e podemos falar o que a gente pensa, e é isso aí, cara! Acreditam que podem sofrer alguma censura? [Nós brasileiros] Passamos por um difícil período de censura durante longos anos, e vimos coisas que desmoralizam nossa sociedade. Se não tivermos cuidado, vários tipos de manifestações artísticas podem sofrer novamente com este tipo de censura. Vocês acham que a música de vocês tem o poder de gerar inquietação nos jovens? Gera algo que os faz analisar suas vidas e chegar à conclusão de que podem contribuir com alguma coisa para a sociedade. Nossa música, com arranjos frenéticos e letras contundentes, faz com que se sintam empolgados. Não acreditamos que só pelo som os jovens fiquem “loucos”, mas temos certeza de que cada jovem que vê nosso show volta para casa pensando em algo melhor para sua vida, para sua comunidade, para nosso país. O que é o instinto coletivo? É a participação de todos na construção de uma sociedade mais justa. O Rappa é uma banda que tem o papel de fazer com que as pessoas se sintam interessadas e engajadas em fazer sua parte. Desde que iniciamos nossos projetos, a gente vem buscando servir de “espelho” para outras pessoas e iniciativas. Por isso criamos, com a FASE [organização nãogovernamental que é o braço social da banda] a “Roda da Solidariedade”, um projeto que permite a diversas pessoas e segmentos da sociedade discutirem, se interessarem e também participarem destas mudanças. Isso é o instinto coletivo.

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cada jovem que vê nosso show volta para casa pensando em algo melhor para sua vida, para sua comunidade, para nosso país.


Violência, preconceito, miséria, corrupção: chegou a hora de o instinto coletivo aflorar? Não só chegou a hora de aflorar, mas de o colocarmos em prática. Sem determinação, vamos ficar vivendo no “instinto de sonho”, na ilusão de que as coisas poderiam ser diferentes. A única forma de mudarmos é batalharmos por nossas comunidades e fazer com que outras pessoas se sintam envolvidas. Então, isso é o instinto coletivo! Você se sentir útil e ser solidário, brother. É isso! Falam muito de preconceito e discriminação. Já sentiram na pele? Pô, é muito constrangedor, cara! Não faz muito, a banda estava aqui em São Paulo fazendo rádio, televisão. Já tínhamos uma estrada, estávamos há algum tempo batalhando a divulgação do “Lado B Lado A” [terceiro disco, de 1999]... Estávamos na [rua] Teodoro Sampaio, num estacionamento, dentro de uma van. Não sabíamos que era o estacionamento de um banco.

Esta é uma banda multirracial, né, cara? A galera de pele mais clara foi pesquisar e comprar instrumentos e eu, Falcão, o empresário e o produtor, muito cansados, ficamos no carro. Cara, quando a gente deu por si, uns 30 policiais chegaram com fuzis. Pior foi o helicóptero voando sobre nossas cabeças. Ali foi a parada. Os caras ficaram com o alvo na mira. Para nós foi marcante. O constrangimento e a forma com que os caras chegaram – você ser confundido com assaltantes de banco, todo mundo só descansando meia hora pra fazer outro programa de rádio... Fomos fazer o programa já meio envenenados, porque os caras conseguem passar essa energia ruim, um lance de não ter educação. Vivemos num país multirracial em que imaginam que porque você é negro, tem uma cor de pele diferente, ou é um cara da Paraíba, ou de qualquer outro lugar, é um vagabundo. É interessante a cor de nossa pele, é um lance do brasileiro mesmo. Este é um país colorido, bonito pra caramba, mas infelizmente ainda temos uma cultura meio escravagista. Repórter pedindo entrevista depois do show enche o saco? Que nada! Faz parte, entendeu? 23


A texto: Caio Teixeira

fotos: Dimas Reis

pós uma hora no Largo da Concórdia (SP), eu e o fotógrafo desta matéria, Dimas, não encontramos nenhum fiscal da prefeitura ou “Rapa”, como foram apelidados. Decidimos ir para a principal zona de embate entre o governo e trabalhadores informais, a R. 25 de Março. formigueiro humano

Ao pisarmos no Terminal de Ônibus do Parque D. Pedro II, não tínhamos idéia de onde começar a procurar os fiscais, mas a angústia durou pouco. Uma voz ao fundo grita, “olha o rapa!”, Dimas sorriu e começou a correr na direção contrária ao intenso fluxo de camelôs. O olhar de cada trabalhador era estarrecedor, mesclava desespero e adrenalina, camisetas emborcadas de suor, os chinelos corriam ligeiros pelo asfalto esburacado, e logo atrás se via um grupo de fiscais e alguns policiais civis. Andavam, não corriam atrás dos camelôs. A aura de superioridade que o grupo tentava passar era quase palpável, simplesmente caminhavam e confiscavam o que era deixado para trás.

A lei do Mais forte ou do mais rápido O que vier primeiro “Olha, por mim até deixo passar alguns camelôs que eu vejo que estão trabalhando honestamente. Como eu, ele também tem família para sustentar”, diz André Lossasso, um dos fiscais da prefeitura. Mas sempre há opiniões contrárias em discussões. “Esses camelôs são um bando de vagabundos que querem ficar na vida boa aqui”, fala João Batista, fiscal do bairro do Tatuapé. É a partir desse pensamento que surgem os conflitos violentos, onde ninguém sai ganhando. Após um tempo andando pela 25 de Março, percebi que a ação dos fiscais não tem efeito muito duradouro. Cinco minutos após “o rapa” passar, outros camelôs tomam o lugar dos que correram. “Não tenho nada contra os fiscais, eles estão fa24


zendo o trabalho deles. Até tem os que fazem ‘vista grossa’ e deixam a gente trabalhar, mas sempre tem aqueles que querem testar você, aí aparecem as brigas”, explica João Alvarenga, enquanto arruma suas mercadorias em cima de um caixote coberto por um tecido preto. É este que dá a agilidade na corrida, pois quando alguém dá o sinal é só fechar o pano e começar a maratona pela sobrevivência.

Briga mesmo é difícil. Acontece quando algum fiscal ‘folgado’ encontra um camelô de cabeça quente, aí vira uma bola de neve. Diana Gonçalvez, camelô

a mídia É interessante ver o enfoque que a mídia dá para essa questão, pois ela só mostra os campos de batalha urbanos, quando ocorrem embates violentos entre polícia e ambulantes. “Briga mesmo é difícil. Acontece quando algum fiscal ‘folgado’ encontra um camelô de cabeça quente, aí vira uma bola de neve”, diz Diana Gonçalvez, camelô do Tatuapé. E, após conversar com ambulantes e fiscais, percebi que evitar violência é uma constante dos dois grupos. A partir disso dá para se notar o sensacionalismo que rege a mídia no nosso país.

verdadeira natureza Quando nos demos por satisfeitos, eu e Dimas fomos embora. Chegando perto de casa, no Tatuapé, vi uma cena no mínimo curiosa. Uma vendedora ambulante, com não mais do que 15 anos, empurrava seu carrinho de DVDs piratas quando a roda passou num buraco e o virou. Enquanto me dirigia para ajudá-la, vejo um policial metropolitano chegando a passos rápidos. Ao invés de confiscar a mercadoria, ou dar alguma multa, para meu espanto, ele a ajudou a recolher os produtos do chão e os colocou no carrinho de novo. Simples assim. Fiquei parado, estático, pensando no que acabara de ver: os “piores inimigos” se ajudando. Então ouço um mecânico que falava para si mesmo, quase no tom de um sábio: “é, acima de tudo, somos humanos”.

vinte e cinco


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olítica? p e d ta s o g ê c o v : o id p Responda rá

e

i, peraê, não precisa gritar, já entendi. E já esperava que a maioria fosse dizer mesmo um sonoro “Nãããão”.

texto: Soninha Francine

fotos: Ronaldo Paixão

Quer saber? Você tem razão. Ou melhor: você tem mil motivos para não gostar de política. Em primeiro lugar: política É MUITO CHATO. É chato porque tem mil salamaleques, rapapés, formalidades. “Registro a presença de Vossa Excelência, o nobre vereador tal, que muito nos honra com a vinda ao nosso bairro, e na pessoa dele agradeço a todos os ilustres parlamentares...”. Ai, que saco. É chato também porque algumas coisas têm mesmo que ser superelaboradas, esmiuçadas, detalhadas. Caramba, quando você está escrevendo um troço

. . . r o r r o h é um que pode virar LEI, que vai mudar a vida das pessoas, tem de tomar mil cuidados – ler uma porção de textos (Constituição Federal, Lei Orgânica do Município, etc.), ouvir um monte de especialistas (em Direito, Meio-ambiente, Urbanismo, Saúde), discutir com uma porção de gente. Vixe, e isso é muito chato... Democracia é um SACO. É que a alternativa – ditadura – é muito, muuuito pior. Alguém chega lá e diz: “É assim

porque eu tô dizendo que tem de ser assim e pronto”. Na democracia, você tem de discutir com uma porção de gente. E isso é demorado, certo? E exige muita paciência, porque todo mundo tem o direito a sua opinião, e todas têm de ser ouvidas com respeito. E às vezes as pessoas se exaltam, falam demais, perdem a calma, repetem mil vezes a mesma coisa, se confundem... Mas todo mundo quer ser ouvido, não quer? Então tem de saber ouvir o outro... 28

Em política, existe gente muito legal, fazendo coisas muito bacanas. Essas quase não aparecem... Chato, também, na política, é que tem muita gente mal-intencionada (que defende o interesse de uns, sem se importar com o mal que esse interesse causa a todos os outros...). Gente que tá lá pra se dar bem, se promover, ganhar dinheiro. Tá lá por orgulho, vaidade, ambição, e não para trabalhar pelo interesse público. Mas peraí: e por um acaso


É uma viagem achar que é possível ficar longe da política e não ser afetado por ela.

isso é só na política? Não é em tudo?? No futebol, na banda, na escola, no comércio, na indústria, na medicina... Aí é melhor dizer que “no mundo tem muita gente mal-intencionada”, e a política faz parte desse mundo. Pode até parecer que os políticos são uns extraterrestres, mas não são não. Eles são gente daqui mesmo...

Pra “ajudar” as pessoas a detestar política, tem a cobertura da mídia. Que quando fala de política, fala do quê? De problemas... Ou dos rapapés, em linguagem cifrada (“os líderes dos partidos decidiram não dar quórum na sessão plenária para obstruir os trabalhos e obrigar o governo a retirar a medida provisória que atravanca a pauta”), de um jeito que ninguém entende o que aquilo tem a ver com a sua vida e que diferença vai fazer nela, ou então da desonestidade, corrupção, etc. E não tem de falar nisso? Claro que tem! Mas não pode falar SÓ disso. Em política, existe gente muito legal, fazendo coisas muito bacanas. Essas quase não aparecem... Assim, como as pessoas vão se animar e se interessar? Acontece que não adianta você não se interessar por política. É uma viagem achar que é possível ficar longe da política e não ser afetado por ela. Política tem muita influência na sua vida... No lugar onde você mora, em quanto tempo você fica no ponto de ônibus, no seu trabalho e lazer. Se você acha que a política é um HORROR, o melhor que você pode fazer é tentar entender melhor esse negócio e descobrir como pode participar e interferir. Aí você vai ajudar a transformar as coisas e a fazer a política ser menos chata, menos errada, menos torta. E fica esperto: você pode até acabar curtindo :o) 29


texto: Manfred Barbosa

ilustração: Ivan da Silva

C

omeçou mais ou menos assim: seus pais tiveram uma boa oportunidade de demonstrar seu afeto um pelo outro. Especialmente neste dia, sua mãe estava apta a gerar um filho. E antes que nos fosse pedida qualquer autorização por escrito (lavrada em cartório e com firma reconhecida), já estávamos boiando no líquido amniótico (alguns poetas dizem que estaríamos até hoje, nossa placenta é o mundo). Querendo ou não, crescemos, descobrimos o mundo judaico-cristão cheio de culpa e medo, montamos as peças dos nossos legos, ganhamos diversos conselhos inúteis dos nossos adorados parentes até que um dia, durante uma relaxante sessão de videogame, ouvimos aquela maldita frase capaz de mudar nossas vidas para sempre: “Vai trabalhar, vagabundo!” Acabou a moleza, pode ir guardando o tênis e pegando a gravata. É chegada a hora de entrar no mercado de trabalho. Ou melhor, ainda não! Toma uma água sem gás, senta e escuta o que a gente tem pra te dizer. Leia esta fantástica matéria. Você pode dizer pra sua mãe que está se informando sobre como se portar numa entrevista de emprego... uma visão geral da sua carreira Entre o seu primeiro salário-mínimo (minúsculo) e o seu primeiro infarto na fila do INSS, diversas etapas serão transpostas até a fase final, que é quando você larga tudo e casa com uma muambeira paraguaia. Cada etapa é importantíssima, como em um videogame (só que nesse caso o chefão é mesmo o chefão).

o

emprego

eo jovem

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por quê, meu deus? Um jovem pode entrar no mundo do trabalho por diversos motivos, todos duvidosos: necessidade de sustentar a família (não é a família que deveria te sustentar? Que mundo é esse?); de adquirir bens de consumo, alguns deles muito caros (e, francamente, fúteis); para realizar seus próprios e inconseqüentes sonhos; para escapar da rotina; ou porque seu pai saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou (ou então voltou e quis bater em você). a grande ilusão O intrépido rapaz ou a intrépida mocinha, munidos de carteiras de trabalho (como é fácil tirá-la, como é difícil preenchê-la) e currículo com foto, saem à procura de uma coisa abstrata, um fenômeno civilizado, uma piração humana chamada “emprego”. Eis a questão: segundo especialistas que estudam a dinâmica do mercado de trabalho, esse tal de emprego está à beira da extinção. O máximo que você encontrará por aí é uma variante mais frágil, porém muito atraente, chamada “bico”. O bico nasce e se desenvolve no ambiente selvagem e caótico da cidade grande. Possui hábitos nômades, se alimenta de pequenas esperanças que vai encontrando pelo caminho, se pendura de galho em galho à procura de abrigo. Já o emprego é difícil de ser achado. Dizem alguns sociólogos que não passa de lenda, inventada para ludibriar os que costumam caçá-lo (desempregados, órfãos, carentes de afeto e atenção por parte dos gerentes de banco). Diferentemente do emprego, o estágio pode ser visto por toda parte e se reproduz com facilidade. Pena que seu período de vida seja tão longo quanto o bater de asas de uma borboleta. Muita fé é depositada no setor de “aprendiz-de-qualquer-coisa”, função sempre das mais requisitadas, tanto pelo mercado informal, quanto pelo registrado. Ser um dedicado “aprendiz-de-qualquer-coisa” exige coragem para enfrentar qualquer coisa que o cargo exigir, de descascar laranjas com os próprios dentes a realizar minuciosas limpezas em turbina de avião. os dados Fomos à procura de pessoas que estivessem bem empregadas e que pudessem nos dar seu testemunho sobre os primeiros passos de um jovem trabalhador. Infelizmente, todos os possíveis entrevistados estavam desempregados ou haviam acabado de levar um pé da firma em que trabalhavam e, portanto, não se encontravam em estado psicológico para depor. Novamente saímos a campo, só que agora à procura de adolescentes incentivados a requisitarem vagas em empresas ou escritórios. Todos estavam tão empolgados e confiantes que preferimos não desiludi-los. Procuramos especialistas em estudos comportamentais, os analistas de recursos humanos formados na Universidade Xamanística de Bangladesh, com quem colhemos as estatísticas que você vê na página a seguir.

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Dez dicas fundamentais para descolar falando concretamente Dos jovens sem experiência que tentam uma vaga no mercado de trabalho hoje em dia: 1. 27% tenta, tenta, tenta e é obrigado a tentar outra vez. 2. 35% resolve voltar para a casa da mãe para continuar jogando videogame. 3. 10% abre o próprio negócio, pirateando o negócio dos outros. 4. 8% lê a Revista Menisqüência e não está nem aí pra nada. 5. 32% não responde devido a traumas psicológicos agudos, adquiridos no RH das empresas, ou não sabem opinar. considerações inconclusivas Através do trabalho, uma pessoa pode obter conquistas importantes como, por exemplo, não precisar mais trabalhar. O mercado age de tal forma que acaba barrando os convidados antes da festa. Estes poderiam se revoltar e criar o seu próprio “mercado”. Uma solução maluca, porém quem sabe viável, seria despedir os patrões e criar suas próprias cooperativas de trabalho. Outra solução seria um absoluto investimento na própria capacitação profissional, ignorando talvez a fome e a sede. Mas uma boa alternativa seria jogar tudo pro alto e ficar de papo pro ar. e por que não? O verdadeiro lance de arranjar um emprego é desafiar nossa capacidade de se meter em enrascada e sair vivo. Provar que podemos bancar as próprias bobagens, escolher nosso estilo e ainda pagar o “refri”. Existem ideais e talvez eles sejam uma grande furada, mas por que não quebrar a cara?

um trampo Floreie o currículo. Se não tiver experiência, seja objetivo e implore clemência divina. No nome, coloque Antonio Ermírio de Moraes! Vá bem vestido. Pegue as roupas daquele tio que morreu faz pouco tempo, coloque um perfuminho, mas não exagere! No máximo 20 gotas. Fale pausadamente e de modo decidido, porém tranqüilo. Se inspire no Batman, colha pistas sobre o caráter do entrevistador. Seja positivo e criativo nas dinâmicas. Aceite tudo, mas se pedirem para colocar roupa de menina, encha a cara deles de porrada. Não roube as canetas! No máximo alguns clipes e a revista de variedades que ninguém dará pela falta. Não tente seduzir quem estiver entrevistando você. Pegue o telefone e ligue mais tarde. Envie flores no terceiro dia. Não conte para os amigos, dizem que dá azar. Principalmente se o amigo tiver mais experiência e estiver desempregado. Ao retirar-se do local feche a porta delicadamente tendo cuidado de não batê-la. Se for numa oficina mecânica, bata com força! Para não pensarem que você é frutinha. Não leve os pais. A menos que sejam do exército e tenham alta patente. Evite exaltar-se ao ser aprovado na dinâmica. Não recomendamos pular sobre a mesa, soprar línguas de sogra ou chorar convulsivamente chamando pelo nome da mãe. 33


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ia

texto: Kleber Palmeira

Minhas narinas são duas válvulas de escape. Nessa viagem não posso escapar pra Rússia, eles podem amputar o meu nariz, e quem vai abraçar o caro canudo. Mutilação por causa da folha do tabaco, danço com índios em um rito ao deus Baco. Como perfume. Me lanço para o canto, que essa noite será meu tortuoso leito. O catarro é meu único amigo do peito.

foto: Erick Diniz

o

Som estridente voa do canto da festa. Fresta da veia escorre meu sangue amarelo, claro. Gastei meu último salário na farmácia com sal-defruta, Diazepan e RinoSoro. Dei mais um tiro que entrou pela culatra.

n

p ara

Me coço em meio ao chiado de um disco, entre o Nirvana e um grito da Elis Regina. O disco não consegue mais mudar de faixa. Som estridente que nunca desafina. Ninguém escuta o canto da sala.

A larica é uma fome que vem de cima, insetos, em minha boca seca e rachada, o rato roeu a garganta de uma prima – disseram que se engasgou em Coca-Cola. Ninguém tem overdose de baseado. Eu vou a esmo esmoer mais um trocado. E não me vendo para conseguir bagana, me apaixono mesmo. Só. Por uma noite, por todas elas, todos eles, tudo isso. Deus me perdoa por chupar picas por pico?

Quero um caixão com espelhos por dentro, pra ver minha cara daqui a uns vinte anos. Passados. Sonho com um bacharel de óculos. Quadrados. Feito um feto com o fígado perfurado. O buraco do meu olho está crescido, ele já é maior e vacinado. Preciso sair desse corpo abandonado. Compro a passagem de ambulância pro sanatório, preciso me mudar desse corpo. Acre. Assepsia da seringa para nóia. O caminho é cada vez mais comprido, e o corpo cada vez mais parado. Maremoto por dentro do meu umbigo, boca do estômago esporrando suco gástrico. Acordo dentro de um canto giratório, com a cabeça em cima do meu próprio fardo. Vômito impregnado nos ouvidos e cabelos, num carrossel torpor e cavalos calados. Levanto com gosto marrento e vou amargo buscar mais sopro da flauta doce.

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O

você tem

O fome

de quê?

“A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte, a gente não quer só bebida, a gente quer saída para qualquer parte...”, já filosofavam os Titãs. As pessoas sentem fome de muitas outras coisas que não são comestíveis e quem deu opinião estava com a barriga bem vazia...

fotos: Sheila Mara texto: Fernanda Gonçalves

As pessoas sentem fome. Eu tenho fome de vencer na vida, fazer sexo e beijar na boca. Leandro Torin Chocair auxiliar de escritório 21 anos

De sair de casa, de liberdade e justiça. Fernanda de Souza estudante 18 anos

De moradia para o pessoal carente.

De conhecimento e de um Brasil melhor, embora eu não acredite que isso vá acontecer. Romero Miguel Jr. operador de site 20 anos

Anderson Roberto Oliveira estudante de jornalismo 19 anos

De cultura, porque o povo necessita de mais conhecimento, de mais educação. Zélia Teixeira aposentada 70 anos

De música. Ricardo Marques mecânico 23 anos

De dinheiro. É o que eu mais quero, pois sem ele você não consegue nada. Jorge Wellington Souza Cruz aux. de crédito e téc. informática 21 anos

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E você, tem fome de quê?

Nós temos fome da sua participação na revista. Use essa página para começar a rabiscar idéias, sugestões, textos e ilustrações para os próximos números da Menisqüência. Depois, envie tudo pelo site www.menisquencia.com.br e venha fazer parte desta equipe. Sinta-se em casa. 38


Uma revista comportamental diferente. A Revista Menisqüência é totalmente voltada para jovens, abordando o seu dia-a-dia de modo inteligente e interessante, com uma linguagem bastante acessível.

PATROCÍNIO

A idéia...

Além disso, a Menisqüência é produzida por jovens e oferece um amplo canal de interatividade aos leitores, para que nos ajudem a construir a revista que eles querem ler.

Gente que acredita! Sabe aquela sensação de não estar sozinho? É isso que sentimos. Que não estamos sós na empreitada de lançar uma revista! Somos felizes por poder contar com essa galera super pró-ativa que apóia nosso projeto e várias outras iniciativas.

Obrigado por acreditarem!

www.fase.org.br

www.orappa.com

APOIO institucional

A Revista Menisqüência é também um empreendimento juvenil, para os jovens que produzem a revista e também para os que a distribuem.

www.artemisiafoundation.org

www.soudapaz.org

www.opcaobrasil.org.br

realização:

www.continuo.com

www.ispis.org.br

Revista Menisqüência! | Edição 01  

1ª Edição da Revista Menisqüência! quadrinhos* cultura* opinião*

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