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PARÓDIA: UM BREVE PANORAMA HISTÓRICO

A paródia é, pois, repetição, mas repetição com diferença; é imitação com distância crítica, cuja ironia pode beneficiar e prejudicar ao mesmo tempo. Versões irônicas de “transcontextualização” e inversão são os seus principais operadores formais, e o âmbito de ethos pragmático vai do ridículo desdenhoso à homenagem reverencial (HUTCHEON, 1989, p. 54).

INTRODUÇÃO O presente trabalho tem como proposta apresentar de maneira breve uma discussão sobre o conceito de paródia, ressaltando os acontecimentos relevantes da sua origem e de seu desenvolvimento ao longo do tempo, a partir de textos literários e de outras manifestações artísticas – música, cinema, artes plásticas etc. Com uma origem possivelmente datada do séc. V/VI a.C., segundo Affonso Romano de Sant’Anna (1985), o termo “paródia” é caracterizado pela ação de transfigurar o sentido de uma Ode original – poema de origem grega – em uma Ode secundária, cantada simultaneamente à Ode originária. Nesse período, Hegemon de Thaso (séc. V a.C) e Hipponax de Éfeso (séc. VI a.C), surgem como os precursores do “fazer paródico” intrinsecamente relacionado ao gênero cômico, tido como gênero de pouco valor literário se comparado a tragédia e a epopeia. Este carácter de inferioridade atribuído ao texto cômico estendeu-se por toda a Idade Média e só seria modificado na Idade Moderna com o Renascimento, no qual os recursos estéticos e estilísticos destinados à produção do riso – jogo de palavras, “ridicularização”, estereótipo, dentre outros - sofrem uma evolução, passando a ser componentes também de composições ditas “sérias”, a exemplo do romance, segundo Mikhail Bakhtin (2002, apud CANO, 2004, p 85). A paródia assume assim um caráter peculiar artístico, rompendo com o tradicionalismo na literatura e enveredando pelos demais campos artísticos. A partir do método de pesquisa bibliográfica, pretende-se argumentar a importância da paródia não somente no campo da literatura, mas também sua utilização por outros campos da arte.


REVISÃO TEÓRICO-METODOLÓGICA O trabalho em questão é fundamentado por uma revisão bibliográfica realizada a partir de artigos, resumos e literaturas pesquisados em sítios da internet e na biblioteca do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA). No artigo “O riso sério: um estudo sobre a paródia” de autoria de José Ricardo Cano (2004) são apresentados alguns conceitos básicos da paródia, bem como elementos que a distingue enquanto gênero contrário ao tradicionalismo da literatura, como exemplo, a continuidade, o dialogismo e a subversão que contrapõem a originalidade da criação pretendida pelo tradicionalismo submetido às convenções artísticas – descrição de temas elevados e nobres – sociais ou morais. O autor estabelece, com base em tais conceitos, um paralelo entre a obra do escritor português José Saramago, A jangada de pedra, e a epopeia de Luís de Camões, Os Lusíadas. Com uma abordagem notadamente mais diacrônica, Affonso Romano de Sant’anna, em sua obra intitulada Paródia, paráfrase & cia, levanta a proposição de que o ato de parodiar vem adquirindo uma ocorrência significativa nas obras artísticas contemporâneas, afirmando que “existe uma uma consonância entre paródia e modernidade”, mais precisamente na metade do século XIX em diante com o surgimento dos movimentos renovadores da arte ocidental, a exemplo do Futurismo e Dadaísmo. No entanto, Affonso Romano não deixa de destacar o ato paródico na sua origem, cuja data é imprecisa, mas estima-se que seja do séc. V/VI a. C e sem destacar também a transposição da paródia do campo literário para os demais campos artísticos no decorrer dos séculos, evidencia-se assim, uma visão semiológica em seu trabalho, e não somente uma visão literata de fatos. DISCUSSÃO Desde a antiguidade clássica, o termo paródia vem sendo discutido e empregado com uma intencionalidade cômica, ainda que na origem etimológica da palavra (do grego: para-ode) o termo significasse o ato de contra cantar um canto principal, ou segundo os gregos, um poema feito para ser cantado - ode - simultaneamente a outro poema, sendo assim, a origem datada imprecisamente entre os séculos VII e IV a. C. é musical.


Ainda nesse contexto, surgem como expoentes do fazer paródico Hegemon de Thaso (séc. 5 a. C.) e Hipponax de Éfeso (séc. 6 a. C.), este primeiro, segundo observações feitas por Aristóteles em sua Poética, realiza as primeiras inversões semânticas ao utilizar o estilo épico -

epopeia e tragédia que eram destinados a

descrições de comportamentos e mentalidades tidas como nobres - para representar a figura do homem enquanto ser inferior a sua condição real, para Aristóteles tal atitude figuraria como a degradação desse estilo, visto que para ele já havia um gênero destinado ao risível, ao cômico – a comédia – um espaço da representação popular. Percebe-se a forte influência do contexto sócio-cultural-histórico sobre as produções artísticas da época e vice-versa, a estratificação encontrada na sociedade se espraia ao campo das artes. Ao caráter de inferioridade delegado ao gênero cômico na Antiguidade Clássica soma-se o caráter de profanação do sagrado/religioso em decorrência da cristianização do Império Romano ocorrida no século III a. C. Com o processo de cristianização instaurou-se na mentalidade da sociedade uma visão maniqueísta de mundo caracterizada pela “seriedade sem falha” e pela condenação do riso e da diversão, tidos como “emanações do diabo”, tal concepção estendeu-se por toda a Idade Média. Apesar dessa concepção repressiva se observou a capacidade de produzir o riso através da literatura, visto que o riso, segundo Aristóteles, é uma especificidade humana. A partir desse cotidiano paradoxal e maniqueísta da sociedade medieval Mikhail Bakhtin apud CANO (2004) faz a seguinte consideração: [...] o homem medieval levava mais ou menos duas vidas: uma oficial, monoliticamente séria e sombria, subordinada à rigorosa ordem hierárquica, impregnada de medo, dogmatismo, devoção e piedade, e outra públicocarnavalesca, livre, cheia de riso ambivalente, profanações de tudo o que é sagrado, descidas e indecências do contato familiar com tudo e com todos. E essas duas vidas eram legítimas, porém separadas por rigorosos limites temporais (2002, p.129).

Bakhtin afirma ainda que os recursos que fundamentam a produção do riso jogos de palavras, ridicularização, estereótipo, grotesco, burlesco, obscenidade e a ironia - seja na literatura ou nas demais expressões da arte, sofreram modificações ao longo do período da Renascença que acarretaram na inclusão destes mesmos elementos em composições ditas sérias, como exemplo mais notório tem-se o romance. A partir


desse contexto a paródia assume o caráter libertário no que concerne à seriedade preconizada pelo tradicionalismo enraizado na produção literária até esse período. Assim como Affonso Romano de Sant’anna, Camila Alavarce em sua obra A Ironia e suas Refrações: um estudo sobre a dissonância na paródia e no riso (2009) defende a ideia de paródia enquanto uma espécie de inversão do modelo literário sobre o qual se estabelece um “canto paralelo” à realidade em questão, realidade esta que é multifacetada, logo, as possibilidades de reconstrui-la são inúmeras e diversas, sendo assim, a paródia subverte, questiona, problematiza as tendências de determinada época. A autora afirma que a paródia se transfigura enquanto ‘modelo alternativo’ quando se observa a saturação de um tradicionalismo carente de novas ‘verdades’ as quais se encontram culturalmente inseridas na sociedade, portanto, segundo Alavarce esse ‘modelo alternativo’ não figura como uma crítica sem conteúdo ou sem propósito, pelo contrário, a paródia figura como uma recusa que sugere inovações a um modelo preestabelecido, considerando para isso o contexto histórico-cultural e social no qual acontece. No entanto, alguns autores, a exemplo da Linda Hutcheon, defendem a ideia de que o ato de parodiar não se restringe a subversão, a crítica ou a ridicularização em si, mas, também, pode remeter-se a uma obra, a um momento histórico de maneira valorosa através de homenagem. Segundo a autora, os artistas da modernidade podem contextualizar sua realidade histórica/social baseados em um período histórico anterior “... a mudança implica continuidade e oferecerem-nos um modelo para o processo de transferência e reorganização desse passado. As suas formas paródicas, cheias de duplicidades, jogam com as tensões criadas pela consciência histórica” (1985, p. 15). Camila Alavarce (2009) refere-se ao caráter expansivo da paródia ao relevar sua significância enquanto discurso artístico na medida em que não se restringe à vertente literária, ou seja, questiona sem responder, apresenta as questões e sugere reflexões. Aragão apud Alavarce afirma que “Parodiar é recusar e esvaziar, é dessacralizar sem descrer, pois só se discute e se leva em consideração aquilo em que se acredita...” (1980, p.20). Para a autora o conceito de paródia apresenta infindas possibilidades de entendimento as quais se contrapõem, visto que ao se caracterizarem, também, por uma ruptura com modelos anteriores, transfiguram os mesmos a partir da inversão, desconstruindo-os e (re)contextualizando-os.


Affonso Romano no ensaio Paródia, paráfrase & cia ratifica a importância desse gênero literário ao afirmar que “...a paródia, por estar do lado do novo, do diferente, é sempre inauguradora de um paradigma. De avanço em avanço, ela constrói a evolução de um discurso, de uma linguagem, sintagmaticamente” (1988, p.28). Afonso Romano refere-se à paródia como uma descontinuidade do processo tradicionalista literário a qual contrapõe uma ideologia; no que concerne ao campo literário fala-se em “intertextualidade das diferenças”, isto é, a paródia se configura como um discurso em progresso quando comparada à paráfrase ou à estilização por exemplo. No que se refere ao caráter expansivo da paródia, Affonso de Sant’anna apresenta interessante contribuição acerca da relação estabelecida entre paródia e a representação enquanto algo que revela à consciência informações que se encontravam veladas - sentido psicanalítico de representação - ao afirma que o texto parodístico realiza uma (re)leitura do convencional estimulando a consciência crítica. Retomando a discussão acerca da utilização da paródia no âmbito literário, José Ricardo Cano no artigo O riso sério: um estudo sobre a paródia (2004) apresenta alguns conceitos referentes à paródia, além de exemplificar o gênero a partir da comparação entre a obra de Luís de Camões Os Lusíadas e a obra de José Saramago A jangada de pedra. O autor propõe a análise de algumas relações dialógicas entre as obras a fim de aplicar os conceitos de paródia nessas relações, para isso reafirma o caráter de continuidade, dialogismo e subversão, próprios da paródia, já expostos anteriormente por Alavarce e Sant’anna.

Paródia: Um Breve Panorama Histórico  

Artigo Científico

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