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Sobre este imenso hospital O debate acerca do higienismo na imprensa da República Velha GT Comunicacion y Salud Autor: Wedencley Alves O autor leciona na Facom- UFJF, e integra o programa de mestrado da unidade. É doutor em Linguística, (Unicamp, 2007) e mestre em Comunicação (UFF, 2002). Brasil. wedenn@yahoo.com.br

RESUMO O presente trabalho é o resultado parcial de uma pesquisa que objetiva analisar como os discursos higienistas foram, por jornais do Rio, Minas e São Paulo, reproduzidos, refratados ou mesmo rejeitados durante o período conhecido hoje pelos historiadores como República Velha. O artigo traz a análise discursiva de textos do Correio da Manhã, jornal carioca, que se notabilizou por ser um dos principais opositores, na imprensa, dos governos Pereira Passos e Rodrigues Alves, patrocinadores tanto das reformas urbanas que mudaram a feição da então Capital Federal, quanto das novas posturas administrativas em relação ao combate das epidemias. O Correio da Manhã ocupou um lugar de destaque na imprensa às vésperas da Revolta da Vacina, em 1904, acontecimento histórico que significou a materialização traumática do confronto entre discursos distintos acerca dos procedimentos públicos de combate às epidemias. É desse período que tratamos. Palavras-chaves: Higienismo, imprensa, discurso

Introdução O presente artigo expressa resultados parciais de uma pesquisa em andamento que pretende compreender discursivamente e em perspectiva comparada como os jornais do Rio de Janeiro (Capital), Minas Gerais (Juiz de Fora e Belo Horizonte) e São Paulo (Capital) formularam, fizeram circular e, mesmo, constituíram sentidos daquilo que ficou conhecido como movimento higienista/sanitarista brasileiro e, mais criticamente, como “higienismo   social”,   na   sua   articulação   com o ideário de modernidade e progresso que acompanhou o processo de urbanização no país. A primeira etapa da pesquisa, no Rio de Janeiro, envolve a observação de quatro jornais: Correio da Manhã, Gazeta de Notícias, Jornal do Brasil e Jornal do Commercio, alguns dos mais prestigiosos periódicos da capital fluminense. Neste texto, trazemos o acompanhamento de edições do Correio do Manhã às vésperas da Revolta da Vacina, em outubro e novembro de 1904. O período da pesquisa de fundo se estende de 1891, no limiar da República, até vésperas da Era Vargas, justamente, porque foi nestas quatro décadas que se desenvolveram mais acentuadamente os discursos higienistas no país, com suas vertentes, e variações, suas linhas mestras, e formações discursivas constitutivas.

1. Higienismo: o ponto de vista discursivo


Da segunda metade do século XIX ao início do XX, acentua-se a tendência a pensar a cidade – algumas cidades – como espaço social a ser medicalizado (Foucault, 1998). Dentro disso, o higienismo ou sanitarismo elevou à condição de autoridade urbana médicos e pensadores da medicina, submeteu a administração pública a preocupações com a contaminação e o contágio por doenças, pelo que, à época se chamava de micróbios, ou por hábitos considerados perniciosos de alguns grupos sociais. Esta mentalidade médica e urbana tornou-se ainda mais presente com as repercussões no Brasil das novidades trazidas pela bacteriologia e pela parasitologia médica, que à época, se impunha como modelo epistêmico mais promissor do que a medicina tropical e as concepções que alimentavam as medidas e os temores da fase precedente do higienismo, como o conceito de miasma (Edler, 1999). O que pode parecer apenas uma re-evolução do pensamento médico trouxe conseqüências sociais surpreendentes. Como se disse acima, as medidas profiláticas alimentaram a ideologia de purificação da cidade, com iniciativas que, na maioria das vezes, voltaram-se para certos grupos sociais e certos modos de vida e certas estruturas habitacionais (Chalhoub, 1996) . A condenação dos cortiços como espaços sociais que punham em risco a saúde e a moral urbana é parte desse contexto histórico, em que foram combinadas campanhas sanitaristas eficazes, fundação de um consenso em relação aos perigos de contaminações e contágios por certas doenças como a febre amarela e a tuberculose, associação entre pesquisa médica e saúde pública, reformas urbanas ousadas, destruição de moradias precárias, expulsão de moradores de espaços urbanos e violência policial (Benchimol, 1990; Chalhoub, 1996; Costa, 1985). O modo como se deu a materialização urbana do discurso higienista ultrapassa qualquer tentativa de valoração simplificada: não há como acentuar, nas análises, iniciativas muitas vezes perversas contra os grupos sociais subalternos, silenciando ideais que revolucionaram a saúde pública daquele  “imenso  hospital”, como definiu certa vez o médico e sanitarista Miguel Pereira 1. Da mesma maneira, a aproximação entre cuidados médicos, pesquisas biológicas e intervenção urbana não deixou de se coadunar com o preconceito e a exclusão de grupos sociais, vistos como “perigosos”. Compreender a plêiade de sentidos que compõem o discurso e as práticas higienistas da virada de século, evitando reduzir analiticamente suas contradições, é um cuidado que se deve ter, para além das convicções de historiadores e sociólogos de um lado, e médico-sanitaristas de outro. 1

A frase foi proferida por Miguel Pereira, em discurso, já no ano de 1916, na Academia Brasileira de Medicina, de que era membro. Este, no entanto, parecia ser o sentimento das autoridades brasileiras desde meados do século anterior, quando começararm a despontar uma sucessão de epidemias, principalmente as de febre amarela e varíola.


Tendem os primeiros a acentuar o lado perverso das práticas de repressão que o movimento higienista motivou; tendem os segundos a naturalizar àquela pedagogia de massas, ainda que não neguem os exageros. A complexidade do pensamento higienista se torna ainda maior quando se sabe, o que é consenso nas pesquisas históricas, que em sua sintaxe encontravam-se signifcantes que materializavam sentidos pré-construídos de discursos da modernidade, do progresso, e da inevitabilidade do saber científico (Bruzo, 1989). Convicções   sobre   “modernidade”,   “progresso”,   “ciência”,   “temores”,   “perigos   reais   e   imaginários”,   “ideologias   racistas”   e sentimentos de inferioridade   em   relação   aos   padrões   do   “mundo   civilizado”   conjugaram-se, num todo discursivo, com tamanho efeito de coerência, que quase silenciou qualquer dissenso, não fossem as reações de setores populares da sociedade, como o evento da Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro, acontecimento histórico, cujas vésperas foram observadas nas edições do Correio da Manhã.

2. Questões para a análise Numa de suas últimas obras, Pêcheux (1997) analisa o acontecimento discursivo, na sua relação com a materialidade lingüística e o acontecimento histórico. De seu trabalho, depreende-se que não há necessárias coincidências entre o acontecimento discursivo, a materialidade linguística (estrutura) e o acontecimento histórico, compreendido aqui como ruptura de uma sequencia qualquer. A Revolta da Vacina, a mais devastadora das revoltas que vinham tendo como palco várias cidades do país e principalmente o Rio de Janeiro, foi sem dúvida um acontecimento histórico, que ajudou a colocar em questão os procedimentos policialescos das instituições na ação de medicalização da sociedade brasileira. Mas não representou uma ruptura discursiva, antes, pelo contrário, foi a própria materialização traumática de sentidos antagônicos acerca dos métodos de controle das epidemias, o cume de um processo discursivo que ganhou volume ao longo do ano de 1904. Essa é justamente a primeira constatação que pode ser feita, e, neste caso, o jornal Correio da Manhã torna-se uma ótima plataforma de observação. Por outro lado, as materialidades lingüísticas, gráficas e pictóricas do jornal apontam para uma intensificação de campanha contra as políticas públicas lideradas por Oswaldo Cruz, então chefe do Departamento Nacional de Saúde Pública, como identificaremos mais à frente, mas não estão nestas páginas necessariamente o nascedouro do discurso anti-vacinação. São temporalidades distintas – a das linguagens, dos discursos e da história – que formam como que uma topologia da crise que terá seu clímax em novembro de 1904.

3. O Correio da Manhã: Gêneros e práticas discursivas


Identificamos no Correio da Manhã, os primeiros acordes de oposição às estratégias públicas de combate à varíola no segundo semestre do ano, no momento das discussões, no Senado e na Câmara dos Deputados, sobre a lei que instituiria a vacinação obrigatória. Trazemos para este trabalho, algumas marcas lingüísticas e gráficas localizadas no jornal a partir do início de outubro. A oposição do jornal, em termos conceituais, sua posição-sujeito contrária à vacina, enquadra-se, no entanto, em contexto discursivo mais amplo, a da própria oposição do jornal aos governos locais, e, mais estritamente, à reforma urbana como se dava naquele momento. O jornal atém-se aos problemas de planejamento e os efeitos que as obras vinham tendo sobre a população,   e,   com   frequencia,   o   veículo   se   projetava   como   “a   voz”   daqueles   que   estavam   sendo   afetados pelas mudanças. Sabemos que, embora a reforma tenha atraído numerosos entusiastas, o discurso de rejeição ao que ficou conhecido como modernização do Rio, foi vocalizado por alguns jornais não simpáticos a Pereira Passos e/ou Rodrigues Alves, e, no caso do Correio da Manhã, bastante potencializado. Em primeiro de outubro de 1904, um exemplo de antagonismo pode ser encontrado na crítica ao projeto da Avenida Central e às supostas irregularidades e arbitrariedades cometidas. Um dos personagens que enfrentou maior oposição neste período foi justamente o mentor das obras, o engenheiro Paulo de Frontin. AVENIDA ERRADA Erro sobre erro. O silêncio do ser. Frontin. Erro ou tramóia? E, como dissemos, os prédios No. 13 da rua de Santo Antonio e 1, 3 e 5, da rua barão de São Gonçalo também foram demolidos fora do edital (Correio da Manhã, 01/10/1904)2

A marca lingústica mais evidente é   a   permanência   da   vinheta   (“Avenida   Errada”,   em   caixa   alta), em algumas edições seguintes: AVENIDA ERRADA O Correio pergunta: E o corte do morro do Castello? Pois não seria possível evital-o? Efeito irônico sobre sr. Frontin que foi à Europa aprofundar-se   no   estudo   de   “avenidas”. (Correio da Manhã, 02/10/1904) AVENIDA ERRADA Ainda o perfil errado... Poças  d’agua  na  Avenida.  O  sr.  Frontin emprazado....Erro ou tramóia? (idem, 03/10/1904) AVENIDA ERRADA Confirma-se o que dissemos... O perfil continua a não apparecer...O muro de arrimo...O sr. Frontin em silencio – Erro ou tramóia? (Idem, 04/10/1904)

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Nesta e nas demais citações analisadas, procuramos ser fiéis ao texto original, mesmo que nele identificássemos incorreções gráficas e/ou gramaticais.


Uma observação sobre os gêneros textuais jornalísticos deve ser feita neste momento. A configuração genérica no alvorecer do século XX é bem diversa do que estamos acostumados a encontrar nos jornais atuais. De longe, num primeiro momento, poderíamos projetar práticas discursivas caóticas, improvisadas, ou sem hierarquização e planejamento. Não é bem assim, e boa parte deste imaginário sobre o passado, com jornais necessariamente sensacionalistas e mal cuidados do ponto de vista estético é mais uma formulação do discurso de auto-legitimação do jornalismo de modelo americano. Outras linguagens, outros gêneros e outras práticas discursivas estão em jogo, e é preciso compreender estes jornais dentro de sua própria lógica simbólica. O Correio da Manhã trabalha com uma pluralidade de gêneros, entre os quais podemos destacar: notas (que, por sua vez, se subdividem, em notas críticas, humorísticas ou não, informativas e reflexivas), notícias, comunicados, artigos de opinião, charges, quadrinhas e informes publicitários (na falta de uma designação melhor). Pode parecer estranho incluir quadrinhas e informes publicitários entre os gêneros jornalísticos da época, mas as quadras faziam parte dos gêneros críticos, e estavam associadas quase sempre aos fatos do dia, assim como as charges. Quanto aos informes, muitas vezes vinham no decorrer do jornal, sem uma separação explícita que lhe indicasse como propaganda de produtos.3 É a partir dos gêneros notas críticas, quadrinhas e charges, que encontramos os vestígios mais fortes de uma certa univocidade discursiva 4 do jornal em sua oposição aos governos locais, às reformas desencadeadas por eles, e às políticas públicas de saúde da época. No dia 01 de outubro daquele ano, uma charge, ocupando a parte superior da primeira página, quinta e sexta colunas, ganhava o título A Vaccinação. A Lei foi feita para os pequenos. Um Monumento gothico, satirizando um suposto monumento, que representaria a legitimidade histórica do método de imunização. Em baixo dele, um personagem, aparentando simplicidade, de dedo no queixo, olhando para cima, diante do obelisco. Há uma relação de intertextualidade evidente entre charges como estas e as notas humorísticas: Pingos e Respingos - Quem é aquelle senhor? - É o André, André de tal... - André Edital? Então é ao Frontin (sobre André Gustavo Paulo de Frontin) (Idem, 01/10/1904)

A nossa pesquisa, em relação ao Correio da Manhã, acompanhou preferencialmente a primeira página, justamente, salvo algumas poucas exceções, porque foi neste espaço que o jornal se 3 4

Não é muito diferente hoje quando se lê seções de informação sobre tecnologia e produtos nos jornais e nas revistas Na verdade o  “efeito  de  autoria”,  de  estabilização  de  sentido,  que  faz  do  veículo  o  autor,  e  não  um  espaço  de  autores.


empenhou em articular o discurso anti-obrigatoriedade e anti-reforma. Neste espaço, é que apareceu boa parte daqueles gêneros citados, mobilizados para a crítica. Uma curiosidade para a nossa época é o fato de quadrinhas e notas humorísticas aparecerem em primeira página, assim como os artigos do médico e parlamentar Brício Filho, um tenaz opositor da política da obrigatoriedade, e articulista preferencial do jornal para o combate. Esta aparição de elementos de humor ao lado de artigos com forte retórica de contestação mostra, mais do que falta de hierarquização, o lugar do humor nas práticas discursivas do jornalismo da época. Em nenhum momento, mesmo nos momentos mais dramáticos de novembro, as notas humorísticas, as charges e as quadrinhas deixam de aparecer. As notas humorísticas, acompanhadas ou não de charges, apareciam, em geral, na seção Pingos e Respingos. PINGOS E RESPINGOS Para que servirá o paredão da Avenida? Naturalmente, para que fiixassem nelle os editaes do Frontin *** - Então a rua do Ouvidor vae ficar abaixo do nível? - Sim; os constructores do eixo querem que Ella fique á sua imagem e semelhança. (02/10/1904) PINGOS E RESPINGOS OS REQUINTADOS.  TRÊS  “DOUTORES”.   - ASH! Fulano agora está muito bem. Empregou-se no desvio. -? - Sim, no desvio dos cofres públicos (Idem, 07/10/1904)

Desde sua fundação, em 1901, o jornal de Edmundo Bittencourt projetava-se como a voz da população desprivilegiada da cidade. Recorre a um efeito de arquivo para reafirmar esta condição no dia 11 de outubro, quando a Câmara Municipal aprovou o aumento das passagens dos bondes, que anos antes, tinha gerado um das revoltas que viriam acontecer no período (Pereira, 2002). É desse lugar, que o Correio, projetando no leitor a necessidade de um veículo que o vocalizasse, e se autoprojetando como este espaço de vocalização, sem, no entanto, abrir-se para a própria expressão popular, fala tanto em relação às críticas aos governos locais, quanto em relação aos processos públicos de reforma urbana e combate às epidemias. AUGMENTO DE PASSAGENS (decisão tomada pelo Conselho Municipal) O Correio da Manhã apparecia, naquelles dias sombrios de junho de 1901, quebrando o applauso da imprensa ao governo de então: uma das primeiras campanhas em que teve de entrar foi essa que trazia o povo espingardeado pelas ruas da cidade. (...) Hontem, como Hoje, a nossa penna conservar-se-à fiel e intransigente, ao lado dos espoliados, affrontando com todas as energias o assalto dos que se apoderam das posições para trahir os interesses do povo. (Idem, 11/10/1904)


Mas é nos artigos de opinião e nos artigos não assinados, da redação, que a posição do jornal contra as reformas, e, principalmente, contra a obrigatoriedade da vacina ganha corpo – corpo material lingüístico. A partir de agora, passamos a nos debruçar especificamente sobre os textos, e como estes delineiam um percurso de sentido, que atualiza desde discursos políticos, jurídicos até médico-científicos.

4. Lutas verbais e memórias discursivas No segundo semestre de 1994, o Legislativo nacional dera início às discussões acerca da Lei de Obrigatoriedade da Vacinação, primeiro no Senado e, posteriormente, na Câmara. Nas duas casas, a tendência era francamente favorável ao Governo Federal, que discutia, primeiro, a aplicação da lei à Capital, e, posteriormente, a extensão a todo o país. Havia certeza nos círculos governamentais de que a lei passaria, tanto que, mesmo antes, da aprovação no Legislativo, detectava-se intensa movimentação de autoridades ligadas à segurança pública no Palácio do Catete. Discursivamente, o Correio da Manhã movimentava-se para associar as medidas do Sr Cruz (como o veículo se referia a Oswaldo Cruz) à violência contra a população. O significante violência apareceria quase que diariamente relacionado às medidas sanitárias, e aos preparativos para a execução da lei. Neste momento, início de outubro, o Correio pouco duvidava de que os governos Federal e da Capital fossem bem sucedidos no Legislativo. (o governo) que só atendeu ao director de Saúde Publica que, para obter da população a observância dos preceitos hygienicos, não confia si não na violência e na brutalidade. Não ha outros processos – dizem o Sr. Cruz e seus asseclas – para um povo atrazado como este. Não é licito ter ilusões sobre a sorte do projecto da terceira discussão. A Camara ha de aprovál-o como quiser o governo, embora divorciando-se cada vez mais do sentimento público. O presidente ha de sancionar a nova lei immediatamente, expedindo, em acto contínuo, respectivo regulamento. Dentro de poucos dias, teremos que assistir à invasão dos esbirros (?) do sr. Cruz nas casas dos cidadãos que não estejam nas boas graças do governo, para, à força, vacccinál-os e à sua família. Para os poderosos e para os amigos do governo não haverá, entretanto, vaccinação obrigatória, como não ha hoje as desinfecções, as fumigações, os expurgos violentamente praticados pelos servos do Santo Offício da Tortura Publica. As leis draconianas não são feitas para gente de alto cothurno. Os magnatas da República seguem os preceitos hygienicos que bem querem. Que os incomode a autoridade sanitaria que, si pó ventura se mette a contrariál-os, recebe logo uma carta do ministro do interior, prevenindo-a de que são sagradas tão altas personalidades. (Correio da Manhã, 01/10/1904)

O Correio da Manhã, portanto, atualiza duas memórias discursivas: aquela que aponta para a desconfiança dos métodos da República, vistos como injustos e desiguais, e aquela outra que aponta para experiências recentes de violência policial em questões de políticas públicas – como diante das manifestações contra aumentos de passagem. O jornal também recuperava, discursivamente,


procedimentos tidos como arbitrários na própria aplicação de medidas higienizadoras, de que a reforma urbana é, talvez, o acontecimento histórico mais importante. Cinco dias depois, o veículo tentava confirmar, a partir de uma reunião ocorrida no Palácio do Catete, a suspeita de que as intervenções poderiam ocorrer sob o uso de força desigual. Mas lança dúvidas de que militares pudessem executar as ordens. O jornal, então, em certo momento, deixa de falar à população – embora se dirija ao seu leitor costumeiro – e passa à convocação velada de uma resistência dentro das fileiras do Exército. Preparativos para a violência? Hontem, às 2 horas da tarde, no salão de honra da secretaria da justiça, realizou-se uma conferencia reservada entre os ministros do interior, da guerra e o chefe de policia, finda a qual o sr. SEABRA partiu para o palácio do Cattete, onde conversou demoradamente com o presidente da Republica. Por seu lado, o marechal Argollo, logo que chegou ao quartel general, mandou chamar os generaes Costallat e Marinho, com os quaes teve também longa e reservada conferencia. Todo esse movimento, segundo fomos informados, prende-se às providências que vão ser tomadas ao ser decretada a vaccinação e revaccinação obrigatorias, cuja 3ª discussão foi hontem encerrrada, e está pronta em vesperas de ser tornada lei entre nós. Por ahi se pôde calcular o que pretende fazer o governo para impor ao povo brasileiro a odiosa medida, contra a qual se têm manifestado todas as classes do paiz. (...) O povo e sobretudo o operariado, prepare-se para sofrer as violencias que estão sendo combinadas, mas com a alma e o coração tranqüilos quanto á intervenção do Exército nesse plano aterrorizador. Aquelles que soffrrem a indiferença e os desvarios do governo não descerão a servil—lo para attentar contra a liberdade e a os direitos de um povo, que com elles está irmanado pela dor, que a todos acabranha nesse pungitivo momento por que atravessa essa pátria infeliz. (Correio da Manhã, 06/10/1904)

Em 7 de outubro, o Correio anunciava a estréia para o dia seguinte da coluna do médico e deputado federal Brício Filho, que serviria como uma voz autorizada para a campanha do jornal contra a obrigatoriedade da vacina. No anúncio, o veículo diria que o novo articulista demonstraria os perigos da vacina que, em alguns casos, “poderia levar até a morte”. Junta-se, portanto, ao significante violência, outro ainda mais contundente e ameaçador: os riscos de morte, o que faz com o jornal, já não confiando no debate legislativo, passe à tentativa de produção de afetos, como medo e sentimento de revolta. O artigo abaixo produz efeitos de ironia sobre as explicações do governo de que as medidas evitariam as mortes causadas pelas epidemias. Na reversão de sentido que é própria ao efeito de ironia, o que era um sintagma formulado (“vaccina ou  morte”)  para produzir confiança na população acaba por aparecer como marca linguistica própria de um discurso alarmista VACCINA OU MORTE O governo arma-se desde agora para o golpe decisivo que pretende desferir contra os direitos e liberdades dos cidadãos deste paiz. A vaccinação e revaccinação vão ser lei dentro


em breve, não obstante o clamor levantado de todos os cantos e que foi ecoar na Camara dos Deputados atravez de diversas representações assignadas por milhares de pessoas. Da posse desta clava, que o incondicionalismo bajulador e mesbreiro preparou, vae o governo do sr. Rodrigues Alves saber si o povo brasileiro já se acanalhou ao ponto de abrir as portas do lar á violência ou si conserva ainda as tradições de brio e da dignidade com que, da monarchia democrática passeou a esta Republica de iniqüidades e privilégios. O attentado planejado alveja o que de mais sagrado contém o patrimonio de cada cidadão: pretende se esmagar a liberdade individual sob a força bruta, transformar o domicilio, santuario que a Constituição garante inviolável, em valhacouto de canalhas, onde os esbirros policiaes ha de floretear o cacete e manejar a laracha para abrir campo à hygiene official; pensa-se em reduzir a família brasileira a um conjuncto de entes indefesos, obrigando-a a ficar sob a ameaça imminente da morte, resultante dos mesmos descuidos e irreflexões que já cortaram a existência a infelizes desamparados. Executar semelhante lei é condemnar todo um povo à mais humilhante das degradações, é feril-o no que elle tem de mais sensível para, provocando-lhe a cólera, saber si é capaz de reagir contra a decretação da própria escravatura. Vexames da ordem desses, (ou) se anniquilam de vez os direitos de uma sociedade inteira, ou servem para, despertando-lhe os sentimentos adormecidos, dar inicio à sua completa libertação. (Idem, 08/10/1904)

A disposição do jornal para lançar-se como plataforma de convocação de uma revolta popular é clara, até quando percebe alguma demora nas mobilizações contra a vacinação. Na edição do sábado, 09  de  outubro,  o  jornal  reclama  explicitamente  “da  fraqueza  do  povo,  que  não  se  subleva”. Uma das figuras, a mais atacada no jornal naquele momento é o chefe do Departamento de de Saúde Pública, Oswaldo Cruz, e é o deputado Brício Filho que evoca o que ele chama de distanciamento entre as práticas laboratoriais do sanitarista e a medicina de beira de leito. No espaço simbólico do jornal, materializar-se-ia a contradição entre discursos que ganhavam corpo na medicina da época. VACCINAÇÃO OBRIGATORIA Logo que se fez doutor, teve o moço forte bafejo da fortuna e célere zarpou para os centros scientificos do velho mundo onde, com uma tenacidade digna de registro, entrou a fundo nas pesquizas da bacteriologia, conheceu minuciosamente todos os caldos de cultura, praticou com afinco a preparação dos sôros e mais productos injectaveis, e tornou aos pátrios lares, sempre actuando dentro dos limites da mesma especialidade. Aqui, continuou como bacteriologista, não se atirou aos lances da clinica, não se abeirou dos leitos dos doentes, não se habituou a sentir as dores dos enfermos, não testemunhou as angustiosas scenas das casas onde se adoece, e não adquiriu essa larga experiência tão neccessaria ao facultativo para, quando chamado a diretor de departamentos da hygiene publica, estar em condições de pesar as circunstancias, de soffrear os ímpetos de mando, só propondo medidas estrictamente indispensaveis, lembrando-se de que, si pó um lado tem o dever de resguardar a saúde da collectividade, por outro precisa, manobrar com cautela, preso ao respeito que reclamara o lar onde rebente a moléstia de notificação compulsória, escravizado à observância das garantias que a Constituição estabelece. (Correio da Manhã, 10/10/1904, assinado por Brício Filho)

O chamado à resistência (em artigos, notas, charges) e os argumentos que buscavam pôr em dúvida a eficácia da vacina e o consenso médico (argumentos arquitetados, principalmente, por Brício Filho) prosseguiram por todo o mês de outubro até a segunda semana de novembro, quando eclodiu a revolta. No dia 13 de outubro, o jornal convocaria os leitores a passar na portaria da redação para ver a foto de uma vítima da vacina.


OS PERIGOS DA VACCINA Retrato de uma vítima Acha-se em exposição à porta do Correio da Manhã, para que o publico possa bem avaliar do que está arriscado com a vaccinação obrigatória, o retrato de uma das muitas victimas da vaccina, publicado no supplemento do numero de setembro deste anno, do periódico The Liberator. A proposito desse caso escreve aquelle periodico o seguinte, cujo texto em inglez, expomos também ao lado do retrato. O retrato é de Benajmin F. Olewine, fallecido aos 23 annos de edade, em 23 de julho de 1897, na rua 11, n. 304, em Altvona. “Foi vaccinado dois annos e meio antes da sua morte. Quando soffreu a vaccinação, a sua pelle era lisa e limpa, macia e bella, e elle, além disso, gosava de perfeita saúde. Mas, contemplai attentamente o seu retrato, e vêde o miserrimo estado a que chegou posteriormente. E qual a causa dessa assombrosa mudança? Qual? Simplesmente a vaccinação, o grande destruidor da felicidade humana, da saúde humana e da vida humana. A vaccinação, a propagadora por todos os modos da moléstia immunda, o monstro que pollúe o sangue inocente e puro de nossos filhos com as vis excreções expellidas de animaes mórbidos,  e  de  natureza  a  contaminar  o  systema  de  qualquer  ente  vivo”. (Correio da Manhã, 13/10/1904)

A passagem mostra que os temores em relação aos efeitos da vacinação não se limitavam ao contexto nacional. Curiosamente, o discurso alarmista do Correio era compartilhado por outros veículos de comunicação mesmo no velho mundo, o que também serviria como legitimação e como modo de desestabilização de pré-construídos que apareceriam em torno da eficácia da vacina. O espaço ocupado por Brício Filho neste momento é modalizador: sendo favorável à vacinação, ele se contrapunha, no entanto, à obrigatoriedade. Contra o   chamado   “Código   de   Torturas”,   o   jornal   moveu   todas   as   armas   retóricas e discursivas. Desde associar a vacinação à violência e ao risco de morte até mobilizar discursos médicos que punham em dúvida a legitimidade das medidas, desde criticar a desigualdade no trato com os grupos sociais, até produzir o alarme contra a desonra da família, o apelo diário do Correio da Manhã, quando mais se aproximava o momento de o governo pôr em prática a campanha, mais se tornava inflamado. Em 05 de novembro, o apelo à resistência popular se explicita: APELLO AO POVO Contra a vaccinação obrigatória Consumou-se a iniquidade. O presidente da república acaba de sanccionar o decreto legislativo que torna obrigatória a vaccinação em todo o território brasileiro. Nunca foi tão clamoroso o descaso pela opinião pública. De nada valeram os reiterados protestos do povo desta capital contra a despótica medida pelo governo, encomnendada ao legislativo. Mas não se esgotaram ainda todos os recursos. Um meio digno resta-nos ainda para conseguirmos eliminar em breve, da legislação republicana, o inconstitucional decreto com que o governo acaba de affrontar o espírito liberal da nação. Em favor desse alvitre fala bem alto o exemplo da Inglaterra, dos dias invocados pelos nossos doutores constitucionais. La, como em toda a parte, o medicalismo conseguiu um dia dos delegados do povo a lei da vaccinação obrigatória. (Contra) ella protestaram as tradições liberaes da elite britannica e o conjuncto do proletariado, o mais seriamente ameaçado pelo inoquo decreto parlamentar. ...


Sigamos (ilegível) o exemplo da Inglaterra e muito breve veremos revogada o infanmante decreto que o presidente da Republica houve por bem sanccionar (Idem, 05/11/1904).

Apesar do insistente apelo à população e às referências ao clamor popular, somente no dia 06 de novembro aparecem, no jornal, informações sobre mobilizações contra a vacinação. Mobilizações, no entanto, já organizadas pela Liga Contra a Vaccinação Obrigatória, o que mostra que a insatisfação de parte da sociedade era referida, mas não vocalizada. Por uma prática discursiva própria dos jornais da época, as entrevistas com populares não eram ainda uma realidade, não havia espaços destacados para publicação de cartas, nem eram muito comuns o intenso trabalho de apuração nas ruas. Há poucos dias antes do acontecimento histórico da Revolta da Vacina, o jornal inscreve-se discursivamente como o veículo líder da resistência e passa a noticiar e legitimar a mobilização de sindicatos e populares. São dias dramáticos, que vão culminar com prisões, confrontos, e o próprio empastelamento do jornal, que ficaria durante o restante do mês de novembro sem circular. Um espaço privilegiado deste momento no jornal são as chamadas para os acontecimentos que se seguiram entre 06 e 10 de novembro: LIGA CONTRA A VACCINAÇÃO OBRITATORIA A REUNIÃO DE HONTEM NO Centro das classes operarias, discursos de protestos, indignação popular, duas mil pessoas. A gala, movimentação policial, manifestação ao Correio da Manhã, a fundação da liga e sua prectoria, varias notas. (Idem, 06/11/1904) AGITAÇÃO HONROSA.. Atmosphera de apreensões que a lei da vaccinação obrigatória está causando no espírito publico. (Idem, 09/11/1904) A LEI DO ARRÔCHO Regulamento monstruoso Ultraje ao povo...Invasão do lar e das casas de commercio...novo registro civil...addendo à reforma eleitoral...condição para o casamento... pátriotismo experimentado na vaccina ... exercito, armada e guarda nacional...o funcionamento publico...os operários e os mestres de obras...as casas de commodos. Os hotéis e as estalagens...quem não for vaccinado tem de morar na rua...condição para ser creado...muitas sobre multas...terra de milhões...insensatez ou loucura? (Idem, 10/11/1904)

. Considerações finais Um das motivações da presente pesquisa vem sendo entender o lugar da imprensa numa sociedade ainda sem os fenômenos da mídia eletrônica de massa. Contraditoriamente, é nesse período, sem mídia de massa, que podemos localizar um momento importante da construção das identidades nacionais, e do aparecimento de discursos fundadores da modernização de cidades brasileiras, sob o paradigma inicialmente surgido na França.


Uma outra questão intrigante que nos mobiliza é compreender se o processo de formulação midiática necessariamente refrata os sentidos constituídos em outros âmbitos, ou os deslocamentos deixam de ser relevantes na transposição de um discurso (no nosso caso, o discurso médico/administrativo) a outro (neste caso, o jornalístico conforme praticado na passagem do século XIX para o século XX). Apesar da pesquisa em andamento apontar para um período específico da história – a Primeira República ou República Velha – e para uma temática definida – o discurso higienista – o entendimento dos processos de refração/repetição dos discursos outros pelo jornalismo é bem produtivo para a compreensão dos fenômenos comunicacionais. O lugar do discurso higienista na fundação do imaginário moderno brasileiro sobre o corpo saudável e o corpo doente, a relação entre corpo social, raça, classe e gênero; o corpo submissível à violência, e o corpo imune a ela; a produção dos sentidos de repulsa e acolhimento, pena e nojo, são alguns dos temas que tornam a atual pesquisa extremamente intrigante para a compreensão da ação da imprensa naquele momento da história e sobre nossas sensibilidades contemporâneas. O presente artigo antecipa algumas destas questões.

REFERÊNCIAS BENCHIMOL, J. L. (1990). Pereira Passos: um Haussmann tropical. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura. BRUZO, Cristina. (1989) Em nome da saúde ... da ordem e do progresso: discurso e prática dos médicos do serviço sanitário: Século XIX Paulista. Dissertação de mestrado. Campinas, SP: Unicamp. CHALHOUB, Sidney (1996). Cidade febril: Cortiços e epidemias na Corte Imperial. São Paulo: Companhia das Letras. CORREIO DA MANHÃ (1904). Edições de 01 de outubro a 10 de novembro. Rio de Janeiro: O Autor. COSTA, Nilson do Rosário. (1985). Lutas urbanas e controle sanitário: Origens das políticas de saúde no Brasil. Petrópolis: Vozes. EDLER, Flavio C. (1999) A constituição da medicina tropical no Brasil oitocentista: da climatologia à parasitologia médica. Tese de Doutorado. Rio de Janeiro: UERJ. FOUCAULT, Michel. (1998) O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense. PÊCHEUX, Michel. (1984) Discurso: Estrutura ou acontecimento. Campinas: Editora da Unicamp, PEREIRA, L. A. de M. (2002). As barricadas da saúde: Vacina e protesto popular no Rio de Janeiro da Primeira República. São Paulo: Fundação Perseu Abramo.


GRAVIDEZ ADOLESCENTE E ANTICONCEPÇÃO DE EMERGENCIA. O SOFTWARE DESEGUINTE COMO AUXILIO VIRTUAL PARA AS EQUIPES DE SAUDE GT V- COMUNICACIÓN Y SALUD ão 1

Departamento de Prática de Saúde Pública, Faculdade de Saúde Pública, São Paulo, SP, Brasil. email: flefevre@usp.br 2 Instituto de Pesquisa do Discurso do Sujeito Coletivo São Paulo, SP, Brasil.email: alefevre@usp.br 3 Secretaria Municipal da Saúde, São Paulo, SP, Brasil.email:sandradi@usp.br 4 Bolsista CNPQ, Brasil. 5Bolsista CNPQ, Brasil.email:dre@usp.br 5 Bolsista CNPQ, Brasil. 5Bolsista CNPQ, Brasil.email:pati@usp.br

RESUMO INTRODUÇÃO- No contexto da problemática da gravidez na adolescência e da contracepção de emergência, pretende-se apresentar um software, em formato de programa multimídia, desenvolvido com base em resultados de uma investigação de representações Sociais dirigida a adolescentes e a ser aplicado por profissionais de saúde METODOLOGIA- O software foi construído com base em uma investigação junto a adolescentes sobre a temática da Anticoncepção de Emergência, para a qual se utilizou a metodologia do Discurso do Sujeito Coletivo. Permite um diálogo entre adolescentes usuários do programa e técnicos no tema do gravidez adolescentes. Mediante seis casos paradigmáticos apresentados em forma de historias em quadrinhos, o usuário pode optar por uma ou mais opiniões dos entrevistados da investigação sobre cada caso e ouvir a opinião dos especialistas. Caso necessite esclarecer suas dúvidas , o programa oferece textos técnicos em campos específicos. RESULTADOS: Foi produzido por uma equipe interdisciplinar o programa multimídia “Di@Seguinte”, disponível para livre distribuição nos sites: www.tolteca.com.br e www.ipdsc.com.br. Este programa foi positivamente avaliado por usuários jovens e por profissionais de saúde.


CONCLUSÃO: A elaboração de produtos educativos complexos e virtuais em formato multimídia, com base em investigações de Representação Social, mostrou posibilidades de funcionar como apoio às equipes de saúde em seu trabalho com jovens. Palavras chave: gravidez adolescente, contracepção de emergência, programa multimídia.

EMBARAZO ADOLESCENTE Y ANTICONCEPCIÓN DE EMERGENCIA: EL SOFTWARE “DI@SEGUINTE”  COMO  AUXILIO  VIRTUAL  A  LOS  EQUIPOS   DE SALUD RESUMEN INTRODUCCIÓN- En el contexto de la problemática del embarazo en la adolescencia y de la contracepción de emergencia, se pretende presentar un software, en formato de programa multimedia, desarrollado en base a resultados de investigación de Representaciones Sociales, dirigido hacia adolescentes y a ser aplicado por equipos profesionales de salud. METODOLOGÍA- El software fue construido con base en una investigación junto a adolescentes sobre la temática de la Anticoncepción de Emergencia, para la cual se utilizó la metodología del Discurso del Sujeto Colectivo. Permite un diálogo entre adolescentes usuarios del programa y expertos en la temática del embarazo adolescente. Mediante 6 casos paradigmáticos presentados en forma de comics, el usuario puede optar por una o más opiniones de los entrevistados de la investigación sobre cada caso y escuchar la posición del especialista. En caso de que necesite aclarar sus dudas, el programa ofrece textos técnicos en campos específicos. RESULTADOS: Fue producido por un equipo interdisciplinario el programa multimedia   “Di@Seguinte”, disponible para libre distribución en los sites: www.tolteca.com.br y www.ipdsc.com.br. Este programa fue

positivamente

evaluado por usuarios jóvenes y profesionales de salud. CONCLUSIÓN: La elaboración de productos educativos complejos, virtuales y en formato multimedia, con base en investigaciones de Representación Social, mostró


posibilidades de funcionar como apoyo a los equipos de salud en su trabajo con jóvenes. Palabras clave: embarazo adolescente; anticoncepción de emergencia; programa multimedia

I-PESQUISA SOBRE A PILULA DO DIA SEGUINTE No quadro da problemática da gravidez na adolescência, a contracepção de emergência e, dentro dela, a chamada pílula do dia seguinte ganha grande destaque e precisa ser adequadamente discutida para que possa constituir um elemento significativo nas políticas públicas destinadas a enfrentar as conseqüências para os indivíduos e para o país da gravidez na adolescente. Justifica-se pois, um estudo que busque descrever e interpretar representações sociais (Jodelet, 1989 ) associadas e padrões de uso, por adolescentes/jovens, de anticoncepção de emergência, abarcando também outros atores sociais particularmente envolvidos com a problemática, como os profissionais de saúde. Tal estudo além de seu interesse em si, tem uma significativa conseqüência pragmática, na medida em que o conhecimento destas Representações é, na qualidade de avaliação diagnóstica, condição necessária para uma adequada intervenção educativa junto ãos adolescentes visando alterar o panorama da gravidez na adolescência. Considerando tal justificativa, o estudo foi desenvolvido, de 2008 a 2010, junto a adolescentes e profissionais de saúde da área de abrangência da Coordenadoria de Saúde Sul da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, envolvendo 360 entrevistas processadas pelo método do Discurso do Sujeito Coletivo (Lefevre e Lefevre, 2010) e com o uso do software Qualiquantisoft. A pesquisa foi um projeto aprovado pelo CNPq. Processo 550763/2007-4 com o titulo: “Gravidez Adolescente   e   Pílula   do   dia   Seguinte:   desvelando   seu   sentido   entre   adolescentes  e  profissionais  de  saúde”.  Foi  realizada  entre  os  anos  de  2008  e  2010.


Os resultados da pesquisa serviram de base para a elaboração da cartilha O profissional de Saúde, o adolescente e a contracepção de emergência; ajudando a decidir. Guia de orientação profissional de saúde, do livro Aconteceu ...e Daí. Pílula do dia seguinte atalhos e caminhos e constituiu matéria prima para a construção de um software educativo, denominado Di@Seguinte, a ser aplicado aos adolescentes visando a prevenção da gravidez e o uso adequado da pílula do dia seguinte. Para a construção do software foram contratados quatro especialistas de experiência comprovada junto a educação e orientação de adolescentes. Como principais resultados da pesquisa pode-se apontar: a generalizada aceitação da contracepção de emergência como recurso para prevenir uma gravidez indesejada; dificuldades de compreensão em relação ao significado do conceito de emergência que caracterizariam a utilização da pílula do dia seguinte; crença generalizada de que o produto é abortivo e de que poderia fazer mal a saúde da mãe e do feto (caso ele exista); dificuldades de uso quando confrontados com a questão moral e religiosa. Há desconhecimento generalizado de que a fecundação não ocorre concomitantemente ão ato sexual. Entre os profissionais acrescenta-se que há um grande desconforto entre profissionais não médicos em indicar ou entregar o produto aos adolescentes que se encontram em relação de risco de gravidez, mesmo em situações de estupro. Por outro lado a pesquisa mostra, entre os jovens, uma grande preocupação com a construção de um futuro mais sólido, baseado em estudos continuados e desejo de estabilidade profissional antes da constituição da família. Muitos falaram sobre as conseqüências desastrosas de uma gravidez precoce tanto par si, para o companheiro, como para os pais. Muitos opinam sobre a importância do uso de métodos contraceptivos e da importância da opinião dos profissionais de saúde, em especial do médico, quando em situações de risco para a gravidez.


II- O DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO COMO BASE METODOLÓGICA PARA O DI@ SEGUINTE Como se assinalou acima, tal pesquisa foi realizada usando-se para processamento dos dados a técnica do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) O DSC é uma estratégia metodológica qualiquantitativa, que, utilizando matéria discursiva, visa tornar clara uma dada representação social, bem como o conjunto das representações que conforma um dado imaginário. A reconstituição das representações sociais sob a forma de Discursos do Sujeito Coletivo constitui um recurso que se formou para dar forma e visibilidade qualitativa e quantitativa às representações sociais. Qualitativamente, as Representações Sociais são obtidas por meio de questões abertas cujas respostas processadas pelos nossos instrumentos permitem que se construa(m) um ou vários discursos-síntese ou Discursos do Sujeito Coletivo (DSC) que, por sua vez, permitem reconstruir o pensamento das coletividades como totalidades qualitativas compostas pelos discursos possíveis sobre um dado tema. Quantitativamente, estas Representações têm um determinado peso que está associado ão número de indivíduos que foi necessário para compor cada uma delas e à distribuição espacial das representações no tecido social. Uma pesquisa típica que usa o DSC é uma pesquisa de opinião sobre um dado tema, dividida em questões abertas a serem respondidas por uma dada amostra de população; cada uma destas questões gera um número variado de diferentes posicionamentos, ou seja, de distintos DSCs. São redigidos na primeira pessoa do singular para marcar expressivamente a presença do pensamento coletivo na pessoa de um Sujeito Coletivo de Discurso. Estes DSCs são distintos tanto do ponto de vista qualitativo, na medida em que veiculam opiniões e posicionamentos distintos, como do ponto de vista quantitativo, uma vez que cada um deles é resultado da contribuição de um determinado número de entrevistas ou depoimentos (ou outros materiais) de indivíduos, que, ademais, são portadores de determinados atributos demográficos. A dimensão quantitativa do DSCs comporta basicamente dois operadores conceituais: a intensidade e a amplitude. A intensidade, que mede o peso do DSC, serve para


comparar, para cada tema pesquisado, os DSCs entre si, no que se refere ao número e proporção de depoimentos ou extratos de depoimentos necessários para compor cada DSC; a amplitude se refere à distribuição dos DSCs considerando os diversos setores do campo pesquisado. Estes dois operadores devem ser analisados em conjunto. O DSC consiste numa forma não-matemática nem metalingüística de representar (e de produzir) de modo rigoroso, o pensamento de uma coletividade, o que se faz mediante uma série de operações sobre os depoimentos. Estes depoimentos culminam em discursos-síntese que reúnem respostas de diferentes indivíduos, com conteúdos discursivos de sentido semelhante. O Discurso do Sujeito Coletivo ou DSC é um procedimento metodológico de natureza qualiquantitativa que busca superar os impasses das pesquisas tradicionais de representação social, recuperando na escala coletiva a natureza discursiva e argumentativa do pensamento. Para tanto utiliza procedimentos amostrais e de controle de variáveis que conferem representatividade aos achados. Para a técnica do DSC, o resgate do sentido das opiniões coletivas, que desemboca num conjunto de discursos, é um processo complexo, subdividido em vários momentos, efetuado por meio de uma série de operações realizadas sobre o material verbal coletado nas pesquisas. Para que se produzam os DSCs são necessários quatro operadores/operações que são: 1. Expressões Chave (Ech): trechos selecionados do material verbal, que melhor descrevem seu conteúdo. 2. Idéias Centrais (Ics): fórmulas sintéticas que descrevem o (s) sentido (s) presentes no material verbal (por exemplo, em cada uma das respostas há uma pergunta aberta de pesquisa) e também nos conjuntos de respostas de sentido semelhante ou complementar. 3. Ancoragens(Acs): como as Idéias Centrais, são fórmulas sintéticas que descrevem não mais os sentidos, mas as ideologias, valores, crenças, presentes no material verbal das respostas individuais ou nas agrupadas sob a forma de afirmações genéricas destinadas a enquadrar situações particulares. Na metodologia do DSC considera-se que existem Ancoragens apenas quando há, no material verbal, marcas discursivas explícitas destas afirmações genéricas.


4. Discursos do Sujeito Coletivo (DSCs) propriamente ditos: reunião das Expressões Chave presentes no material verbal (por exemplo, nas diferentes respostas a uma mesma questão de pesquisa), que tem Idéias Centrais ou Ancoragens de sentido semelhante ou complementar

III-PESQUISAS COM O USO DA METODOLOGIA DO DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO E INTERVENÇÕES PEDAGÓGICAS COM VISTAS A VIABILIZAÇÃO DA DIAGNOSE EM SAÚDE A metodologia para um projeto de pesquisa sobre Representações Sociais deve guardar estreito isomorfismo com o objeto de que trata. Sendo assim, além da diversidade de referenciais e de pontos de vista provenientes dos diferentes espaços sociais dos sujeitos entrevistados, deve-se lançar mão, para a parte empírica do projeto, de uma metodologia de coleta e processamento de dados que também dê conta do caráter plural, denso e complexo dos objetos pesquisados. A opção pelo DSC se justifica porque a técnica permite recuperar seja a densidade discursiva ou complexidade do pensamento coletivo, seja a diversidade ou pluralidade semântica dos diferentes modos de se posicionar diante do mundo, seja a intensidade e amplitude destas representações. A densidade e a pluralidade discursiva do pensamento coletivo, de uma perspectiva horizontalizante ou sintagmática, é recuperada, pelo DSC, lançando-se mão da soma qualitativa que consiste basicamente na idéia de agregar num único discurso redigido na primeira pessoa do singular, as Expressões Chaves-ECHs semelhantes dos diferentes depoimentos. Já, de uma perspectiva verticalizante ou paradigmática, esta diversidade e pluralidade semântica é obtida por meio das Idéias Centrais-ICs e das Ancoragens-ACs. Uma vez constituídos os DSCs como qualidades, pode-se considerar que eles tornam-se variáveis passíveis de serem quantificadas e associadas a outras variáveis. A técnica do Discurso do Sujeito Coletivo aplicada em pesquisas empíricas, nas quais se busca conhecer crenças, valores, sentidos e opiniões tem sido utilizada como base e suporte de estratégias de comunicação, na medida em que os dados qualitativos e quantitativos que ela gera informam de modo muito detalhado o conteúdo e os sentidos


das Representações Sociais pesquisadas. O uso do DSC permite a produção de   uma   “dia-gnose” ou conhecimento a dois (Lefevre e Lefevre, 2007) que se afigura como necessária para que possa avançar no processo de comunicação social em saúde (e nas demais áreas do social). Tal diagnose é um processo complexo podendo envolver, como base, uma pesquisa empírica de representação social, de corte qualiquantitativo, na qual - utilizando-se o Discurso do Sujeito Coletivo e seu software Qualiquantisoft - são ouvidos os distintos atores sociais relacionados ão tema em questão. Como resultante destas escutas são elaborados novos produtos comunicativos (livros, cartilhas, produtos multimídia) a serem veiculados e discutidos com o público alvo terminal (no caso jovens e adolescentes) Todo este processo constitui o que os teóricos da comunicação denominam semiose infinita (Veron,1980) na qual processo comunicativo é visto como um sucessão de leituras e releituras de discursos, com a produção sucessiva de interpretantes ( Peirce,1975), tendo como corolário um progressivo desdobramento de sentidos. O que propomos como dia-gnose para a área da saúde é um determinado encaminhamento deste processo comunicativo, utilizando como material de base resultados de pesquisa, visando com isso aumentar a chance de termos, ão final, um significativo avanço no conhecimento que beneficie não apenas a área acadêmica, mas todos os meandros e interstícios do tecido social. As sociedades contemporâneas são, inegavelmente, sociedades complexas e em processo crescente de complexificação. Por isso, os processos comunicativos e educativos presentes nestas sociedades precisam que este caráter complexo esteja garantido neles. Nesse sentido o uso do método do Discurso do Sujeito Coletivo que incorpora em si tal complexificação pode ser um instrumento útil. IV- PRODUTO MULTIMIDIA: DI@Seguinte 4.1- Introdução O Di@ Seguinte é, pois, um produto de uma pesquisa feita com o DSC. Tal pesquisa, como se assinalou acima, gerou três produtos para três públicos alvo relacionados com a


pesquisa: os jovens, para os quais foi destinado o Di@ Seguinte; os profissionais de saúde para os quais foi elaborado um Guia contendo uma ampla discussão

dos

resultados da pesquisa com os profissionais e um livro destinado à população em geral contendo uma discussão sobre os resultados da pesquisa com os jovens de interesse para os pais e demais educadores 4.2-Caracterização geral do produto Di@Seguinte Trata-se de um material multimídia sobre pílula do dia seguinte. Contém uma apresentação geral, cada um dos casos sob a forma de histórias em quadrinhos com fundo musical, as respostas que os adolescentes da pesquisa deram sobre os casos apresentado, os pareceres dos profissionais sobre cada uma das respostas e informações gerais sobre contracepção de emergência. Os casos são os seguintes: CASO 1 1)Uma adolescente muito namoradeira foi a um baile funk, bebeu um pouco demais e no dia seguinte nem lembrava muito o que tinha acontecido; aí resolveu tomar a pílula do dia seguinte para prevenir a gravidez.  O que você acha disso? (HOMEM)  Se você fosse essa adolescente, o que faria nessa situação?...Por quê? (MULHER) CASO 2 2) Uma adolescente que costumava tomar pílula todos os dias, foi a uma festa e acabou ficando com um rapaz bonito que ela tinha paquerado na festa. Aí, no dia seguinte ficou morrendo de medo porque não tinha certeza se tinha tomado a pílula anticoncepcional todos os dias. As amigas dela então falaram para ela tomar a pílula do dia seguinte; mas ela resolveu não tomar porque achava que só tinha esquecido de tomar a pílula um dia.  O que você acha da decisão que ela tomou?... Por quê? (HOMEM)  Se você fosse essa adolescente que decisão você tomaria?...Por quê? (MULHER) CASO 3 3)Uma adolescente namorava, faz tempo, um rapaz. Como eles se amavam muito, acabaram não resistindo e indo para cama. No dia seguinte, a moça ficou muito nervosa achando que poderia ter ficado grávida; ela contou para as amigas e mesmo


para a mãe, que recomendaram que ela tomasse a pílula do dia seguinte. Ela, porém, decidiu não tomar porque era uma pessoa muito religiosa.  Se essa adolescente religiosa fosse pedir conselhos para você, o que você diria para ela? (HOMEM)/ (MULHER) CASO 4 4)Uma adolescente que tomava pílula decidiu que não ia tomar mais porque achava muito chato tomar pílula todo dia já que sua vida sexual não era lá muito ativa. Decidiu então que seu método anticoncepcional seria a pílula do dia seguinte. Quer dizer, quando ela ficasse com alguém, tomava a pílula do dia seguinte.  Você concorda com isso? Sim ou não...Por quê? (HOMEM)  Se você fosse essa adolescente tomaria essa decisão ou não...Por quê? (MULHER) CASO 5 5) Uma adolescente saindo da Escola e tendo que passar por um matagal, foi violentada por um estranho; no dia seguinte ela encontrou suas amigas que insistiram para ela tomar a pílula do dia seguinte para prevenir a gravidez. Acontece que ela queria muito ter o filho e então decidiu não tomar a pílula do dia seguinte.  O que você acha da decisão que ela tomou? (HOMEM)  Se fosse você a adolescente violentada, o que você faria nesta situação? (MULHER) CASO 6 6)

O namorado terminou com ela e ela parou de usar qualquer método

anticoncepcional; mas eles se reencontraram numa festa e transaram sem tomar cuidado. Ai ela chega à conclusão que eles não estavam namorando e só tinham ficado aquele dia. Então foi conversar com uma amiga que disse: a pílula do dia seguinte serve para isso, quando a gente não está namorando e está só ficando.  O que você acha disso?... Por quê? (HOMEM)/(MULHER) CASO 7 7)Depois de conversarmos sobre todos esses casos, para finalizar a nossa entrevista, gostaríamos de perguntar: Para que você acha que serve a pílula do dia seguinte? (HOMEM/ MULHER)

O jovem pode navegar livremente no programa, escolher as opiniões que desejar e consultar os pareceres dos profissionais bem como as informações técnicas sobre contracepção de emergência.


V- CONCLUSÃO: DI@ SEGUINTE: UMA PROPOSTA DE PEDAGOGIA DEMOCRÁTICA E RELACIONAL Este programa multimídia pretende ser uma proposta pedagógica original no campo da saúde. Para todo observador atento da cena sanitária é meridianamente claro que a pratica educativa em saúde na imensa maioria dos casos consiste numa ação do stablishment sanitário (e também do mercado com apoio deste stablishment) em direção à população leiga e a todos os diversos estratos em que ela se compõe, de repasse de informações que considera úteis para que tal população leiga adote comportamentos considerados preventivos e práticas comportamentais que impliquem cumprimento de condutas curativas. Trata-se de um modo geral de uma educação verticalizada e autoritária, de atos enfim que poderiam ser caracterizados como violência simbólica no sentido que Bourdieu (1990 ) confere à expressão. O que o Di@ Seguinte propõe é uma pedagogia “horizontal” em  que  a  visão  do  jovem   sobre a problemática envolvida com o uso da pílula do dia seguinte aparece ao lado (e não submetida a) da visão sanitária do problema em diálogo ou confrontação com ela. Ão final do programa o jovem pode (é um direito seu) continuar com a mesma visão que tinha antes de acessar o programa mesmo que tal visão possa ser considerada equivocada, da perspectiva do pensamento sanitário. Mas mesmo assim ele terá tido acesso a um conjunto plural de informações e nesse sentido o processo educativo estará sendo democrático e ético. O objetivo de uma atividade educativa democrática e ética é disponibilizar e viabilizar, através de uma informação adequadamente tratada (com o uso de recursos que a tornem atrativa e promotora de identificação com o público alvo) uma relação de diálogo, no caso do campo da saúde, entre o que chamamos (Lefevre e Lefevre, 2007) de lógica sanitária e lógica do senso comum. Foi o que se buscou concretizar com o programa Di@Seguinte.


REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Bourdieu, P. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense,1990. 2. Jodelet D. Representations sociales: un domaine en expansion. in Jodelet D. (org.). Representations Sociales. Paris : Puf, 1989. 3. Lefevre F, Lefevre AMC, Ignarra R.O conhecimento de intersecção: uma nova proposta entre a academia e a sociedade. São Paulo:IPDSC. 2007 4. Lefevre F, Lefevre AMC. Pesquisa de Representações Sociais.Um enfoque qualiquantitativo. Brasilia: Liberlivro, 2010 5. Pierce, CS. Semiótica e filosofia. São Paulo Cultrix/Edusp, 1975. 6. Veron, E A produção do sentido. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1980


Multimedia educativo en el contexto de Plan CEIBAL en escuelas rurales de Uruguay

1. Datos de los autores: Elisa Martínez Luaces, Magíster en Comunicación y Educación, Universidad de la República, Uruguay, emluaces@gmail.com Mark Brul, Magíster en Ingeniería Biomédica, Twente University, Holanda, markbrul@gmail.com Digna Hoogenboom, Magíster en Psicología de la Educación y el Aprendizaje, Twente University, Holanda, dignahoogenboom@gmail.com Leticia Folgar Ruétalo, Magíster en Antropología de la Cuenca del Plata, Universidad de la República, leticia.folgar@gmail.com

2. Grupo de trabajo 5: Comunicación y Salud. 3. Resumen: La experiencia que se presenta refiere al tema general de las nuevas tecnologías y las configuraciones sociales en el área de la Salud, a partir de un proyecto desarrollado en la zona rural del departamento de Salto, Uruguay, entre 2010 y 2011. Un video presentación del producto final de este proyecto se puede ver en: http://www.youtube.com/watch?v=HQqaxc9VlI8. Tomando esta experiencia interdisciplinaria como punto de partida, exponemos algunas reflexiones sobre el desarrollo de multimedia en la intersección Comunicación y la Salud en el marco del impacto del Plan CEIBAL en las comunidades del medio rural, los desafíos que nos plantea esta coyuntura como comunicadores en cuanto al desarrollo de proyectos interdisciplinarios en la comunidad y la articulación de las nuevas tecnologías.

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4. Texto completo El Proyecto Salúdame 1 fue financiado por Plan CEIBAL (Uruguay) y National Committee for International Cooperation and Sustainable Development (Holanda), y además cuenta con el aval del Ministerio de Salud Pública de Uruguay (declarado “De Interés  Ministerial”  en agosto de 2010). El multimedia educativo Salúdame fue presentado oficialmente por Plan Ceibal el 26 de julio de 2011.

Introducción Los educadores, comunicadores y expertos en tecnologías nos encontramos ante el desafío de una herramienta formidable como es Plan CEIBAL cuya implementación se está ampliando a más países en todos los continentes y sobre la cual habrá que investigar su impacto en los procesos de alfabetización digital en las generaciones actuales y las que vendrán. Por las características de Uruguay, un país pequeño demográficamente, con estabilidad institucional y niveles de escolarización similares a los de Europa, ofrece una suerte de laboratorio perfecto para pensar estos problemas pero también para desarrollar soluciones educativas e innovaciones tecnológicas, para investigar y para evaluar su impacto socioeducativo.

Además de los autores, el equipo de trabajo de este proyecto se complementa de esta forma: Ing. Pablo Moleri, PhD Gabriel Eirea (Fundación ceibalJAM), Dr. Ramón Soto, Lic. Marianne Sosa, Aux. Enf. José Ghelfi, Dr. Oscar Irabuena (equipo de salud en la zona rural de Valentín e Itapebí, departamento de Salto, Administración de los Servicios de Salud del Estado), Profesora Agregada Dra. Alicia Sosa, Dra. Alejandra Paulo (Departamento de Medicina Familiar y Comunitaria, Facultad de Medicina, Universidad de la República), Lic. en Nutrición y Dietética Cecilia Piñeyro, Agente Comunitaria en Salud Aux. Alejandra Silva, Lic. en Comunicación Evelyn Chiribao, Juan Pablo Colasso (diseño gráfico e ilustraciones), Diego Mazzone, Emiliano Chinelli (programación), Juan Fornos (música y efectos de sonido), Prof. Leonardo Fiorelli (producción de sonidos, Licenciatura en Ciencias de la Comunicación, Universidad de la República), Maestra Graciela Sosa (asesorameinto en didáctica y redacción) y todos los niños y maestros de las escuelas rurales de Itapebí, Celeste, Biassini, Paso Potrero, Carumbé, Corral de Piedra, Paso de las Piedras, Pepe Núñez y Estación Quintana en el departamento de Salto, Uruguay. Apoyo técnico y metodológico: Maestra Cristina Guimaraes (coordinadora del Departamento de Educación para el Medio Rural en el departamento de Salto, Administración Nacional de Educación Pública), Dra. Rosario Berterreche (Directora del Programa Salud Rural, Ministerio de Salud Pública), PhD Gabriel Kaplún (Director de la Licenciatura en Ciencias de la Comunicación, Universidad de la República), Dr. Carlos Albisu (Director de Salud e Higiene, Intendencia Municipal de Salto). 1

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Presentación del problema: Salud y Educación en el medio rural No obstante Uruguay es un país netamente exportador de productos agropecuarios, la amplia mayoría de la población vive en zonas urbanas y aproximadamente la mitad del total vive en la capital, Montevideo. La baja densidad de población rural viene de la mano de las limitaciones en el acceso a los servicios y en la escasez de recursos humanos en todas las áreas, tal como sucede en el medio rural en toda América Latina. Existen aproximadamente 1.140 escuelas rurales en Uruguay donde asisten unos 20.000 niños. La significación sociológica de la escuela rural es ampliamente reconocida por todos los actores sociales, siendo frecuentemente el centro de encuentro de la comunidad para actividades que trascienden lo propiamente educativo. Según el investigador y actual Director del Departamento de Educación Rural de la Administración Nacional de Educación Pública, Limber Santos, la escuela rural en Uruguay tiene dos especificidades que históricamente se han ido profundizando: La primera de ellas refiere a la especificidad social, la que se deriva de la ubicación de la escuela en el medio como única institución pública y como única presencia del Estado. Elementos nada menores y que tienen efectos sobre el papel que la institución debe asumir, necesariamente. La segunda se refiere a la especificidad didáctica, la que se deriva de la existencia del grupo multigrado, con todas las consecuencias que ello tiene sobre los procesos de enseñanza y aprendizaje. Sin dudas que ambas especificidades -la primera de ellas fuertemente defendida en el proceso de creación del Programa [de Escuelas Rurales] de 1949- siguen teniendo, hoy, aún más razón de ser que antes. Esto puede evidenciarse en el proceso de despoblación del campo que se ha producido en estas décadas, lo cual ha resignificado la relación de la escuela con ese entorno, por un lado, y a la vez, ha provocado un aumento de los grupos multigrado en escuelas que progresivamente han visto reducir su matrícula (Santos, 2009, p.218).

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En este contexto de la Escuela Rural, los recursos humanos son escasos y trabajan de forma aislada por períodos prolongados. Los maestros rurales enfrentan problemas de aislamiento y múltiples tareas simultáneas con escasos recursos materiales. Por otra parte, los problemas de conectividad en las zonas rurales de Uruguay configuran una brecha importante. No obstante es un país altamente digitalizado, Uruguay no escapa a la tendencia mundial   de   la   llamada   “brecha   territorial”,   especialmente en los deciles de mayor pobreza (Pittaluga & Sienra, 2007, p.19). A pesar de las mejoras de los últimos años, la brecha territorial continúa y determina que los niños del medio rural tengan acceso limitado a Internet: conexiones débiles o precarias, inexistentes (en algunas zonas del interior profundo) o simplemente no disponibles en la distancia de su hogar. Por lo tanto en el medio rural se prioriza el uso desconectado de la XO y en consecuencia su utilización se diversifica. Exactamente las mismas condiciones de trabajo encontramos en el área de la Salud Rural. En especial los médicos rurales deben enfrentan todo tipo de situaciones clínicas en condiciones de aislamiento y escasos recursos materiales. Las oportunidades de realizar acciones educativas de promoción de la Salud y prevención de enfermedades y factores de riesgo son limitadas, reduciéndose en muchos casos al ámbito de la consulta médica. Esto último es muy relevante, ya que la prevalencia de enfermedades crónicas no transmisibles (cardiovasculares, diabetes, etc.), tal como sucede en los países europeos, apunta claramente a hábitos de vida inadecuados en cuanto a alimentación, actividad física y consumo de tabaco, entre otras sustancias. Las Enfermedades Crónicas No Transmisibles (ECNT) son la principal causa de morbimortalidad en Uruguay. También son el origen de la mayor parte de las discapacidades que presentan los individuos y que incrementan sus necesidades asistenciales. En Uruguay son responsables de más del 70% de las defunciones. Estas características determinan una gran carga económica para la sociedad por concepto de costos directos e indirectos. Dentro de los costos directos se encuentran los costos de atención médica, de los que las enfermedades crónicas se llevan más del 60% del total. Dentro de los costos indirectos debe tenerse en cuenta el ausentismo laboral, y las pensiones por invalidez, viudez y orfandad (DIGESA/MSP, 2009, p.8).

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La escuela y la policlínica rural son los puntos de encuentro social en ese medio (muchas veces se ubican en el mismo edificio). En investigaciones previas (Martínez Luaces, 2009; Brul, 2008) observamos que la situación de los maestros rurales es similar a la de los médicos rurales en cuanto al prolongado aislamiento que experimentan y la diversidad de problemas que deben enfrentar con la misma población. Fue en ese contexto que surgió la idea de desarrollar un proyecto que permitiera conectar a los maestros rurales de una zona con los equipos de salud (médicos, enfermeras, promotores de salud) de las localidades adyacentes para generar acciones educativas sobre hábitos de vida saludables en el contexto del aula rural, utilizando las XO. El éxito en la promoción de hábitos saludables depende en gran medida de los esfuerzos coordinados de diversos actores del medio rural, principalmente la red de atención primaria de salud a nivel local y las escuelas rurales del sistema educativo público. Considerando la escasez de recursos humanos en el área de la Salud y en el área de la Educación en este medio, la XO se presenta como una potencial herramienta para desarrollar y fortalecer las acciones de promoción de la salud que estos actores identifican como prioritarias. Plan CEIBAL: algunos datos y definiciones Como se sabe, el proyecto One Laptop Per Child fue desarrollado por el MIT (Massachusetts Institute of Technology) a comienzos de este milenio, retomando una antigua idea del investigador sudafricano Seymour Papert, quien ya había teorizado respecto a una iniciativa como esta hace más de cuarenta años. El primer gobierno de izquierda en la historia de Uruguay, este pequeño país latinoamericano de 3.2 millones de habitantes, resolvió en el año 2006 adoptar este proyecto del MIT y adecuarlo a la realidad del país con el nombre de Plan CEIBAL 2. Uruguay fue el primer país en el mundo con un nivel absoluto de penetración: desde fines de 2009 el 100% de los niños en edad escolar del sistema público tienen un computador portátil (modelo XO). El Plan CEIBAL constituye una iniciativa estratégica del gobierno uruguayo en la enseñanza, procurando promover la inclusión digital a través de esta inversión millonaria que significa que en las cuatro fases de la

Acrónimo de "Conectividad Educativa  de  Informática  Básica  para  el  Aprendizaje  en  Línea”.  La  sigla  hace  referencia   al árbol de la patria, el ceibo. Portal institucional: http://www.ceibal.org.uy/ 2

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primera parte del Plan (2007-2009) se entregaron un total de 380.000 computadores portátiles, de los cuales 362.000 corresponden a alumnos y 18.000 a docentes de enseñanza primaria, y se brindó conexión a Internet a 2.068 escuelas públicas en todo el país (Ferreira M. & Gilli & Ithurralde., 2010, p. 9). Las cifras del impacto de este Plan son contundentes, especialmente en los contextos socioeconómicos más desfavorecidos. Para tomar sólo un punto: a fines de 2009 nada menos que 220.000 hogares contaban por primera vez con un computador gracias a la llegada de la XO; de éstos la mitad corresponden al quintil más pobre de la población uruguaya (Ferreira M. et al, Op. Cit.). En cuanto a la motivación para su uso en clase, el 76,7% de los niños declaraba en 2009 que le gustaba más trabajar con la XO, especialmente en los contextos desfavorecidos (Plan CEIBAL, 2009, p.14). Complementariamente, en el 41% de los hogares de nivel socioeconómico bajo (tanto urbanos como rurales), la XO es el único computador que existe. Al mismo tiempo, se incrementa la importancia de las aplicaciones para uso desconectado en este contexto, debido a que el porcentaje de conexiones a Internet en estos hogares es sensiblemente inferior: sólo el 52% de los hogares de nivel socioeconómico bajo tiene conexión a Internet (Grupo Radar, Op.Cit.). En palabras del Presidente de Plan CEIBAL, Ing. Miguel Brechner,

durante una reciente

conferencia internacional 3, encontramos algunas de las definiciones centrales que permiten entender el alcance de este Plan: CEIBAL no es un plan de computadores portátiles ni es un plan de tecnologías de la información y la comunicación. En el mundo que vivimos, la mayoría de los programas tecnológicos y educativos han sido orientados hacia los vendedores, no hacia los usuarios. Permítanme ser algo rudo al decir que por vendedores me refiero a vendedores de hardware y software, quienes están manejando la agenda de qué hacer. (…)  Nuestra  responsabilidad  es  pensar  desde  la  perspectiva  del  usuario,  con  lo   cual nos referimos a los niños, brindándoles una herramienta con la cual pueden 3

Traducción propia. 6/18


acceder a información, aprender, investigar y trabajar. El problema es que debemos poner las preguntas correctas a los niños, luego ellos normalmente lo comprenden y encuentran las respuestas. Para los docentes, nuestra responsabilidad es totalmente diferente. Debemos facilitar la vida de los docentes. La tecnología debe hacer la vida más fácil  (…),  el  problema  es  que  queremos  que  los  docentes  hagan  cosas  sin  darles   las herramientas necesarias. Así es que nosotros decidimos darles laptops a todos los docentes y formar a los docentes. Plan CEIBAL incluye un Portal educativo que se alimenta permanente con recursos didácticos y software organizado por temáticas o áreas curriculares, desde el cual docentes y alumnos pueden descargar libremente todo tipo de contenido multimedia. Esto incluye los nuevos desarrollos, como es el caso de Salúdame. Asimismo, existen dos plataformas electrónicas para los docentes, una orientada a lectura y comprensión lectora y otra orientada a las matemáticas. A través de estas plataformas se brindan herramientas metodológicas para los docentes en una modalidad adaptativa, es decir que se adaptan a los niveles de conocimiento de los alumnos y los docentes reciben reportes que les permiten evaluar y planificar los procesos acorde a las necesidades de cada grupo y de cada niño. Proyecto Salúdame A partir de los problemas de la realidad que describimos más arriba, conformamos el equipo interdisciplinario que formuló y obtuvo los fondos para desarrollar un proyecto con los objetivos que presentamos a continuación. El proyecto comenzó a ejecutarse en julio de 2010 y finalizó su primera etapa en junio de 2011. Los objetivos específicos del proyecto fueron los siguientes: 

Desarrollar un videojuego educativo en el marco del Plan CEIBAL sobre el tema hábitos de vida saludable, una biblioteca digital y materiales didácticos, adecuados al contexto del medio rural en Uruguay.

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Implementar una metodología participativa de la comunidad en todas las fases del proyecto: exploración, desarrollo, implementación y evaluación.

Involucrar a otros actores locales en la sostenibilidad del proyecto (a partir de junio de 2011) tales como intendencias, Universidad, organismos públicos y privados, así como en la coordinación y estímulo al desarrollo de otras iniciativas en torno a la promoción de la salud y el Plan CEIBAL en el medio rural.

Para iniciar este proyecto resolvimos adoptar la estrategia de mapeo de intervención (Beazley & Ennew, 2006). A partir de este marco desarrollamos la técnica de relevamiento de necesidades entre los actores locales mediante talleres interactivos y entrevistas en profundidad. Basados en los resultados de este relevamiento de necesidades y problemas, los   “objetivos   de   proximidad”   son definidos y evaluados con la participación de los actores locales y nacionales vinculados a los temas de Salud y Escuela Rural.  Estos  “objetivos  de  proximidad”  refieren  al  cambio  en  los  hábitos   de vida y en las condiciones del medio. En función de estos objetivos, diseñamos el juego y el contenido sobre Salud en un trabajo conjunto del equipo interdisciplinario que integra el proyecto. Desarrollamos un enfoque interactivo y gradual para evaluar los subproductos del proyecto, por ejemplo: seleccionando y definiendo el concepto del juego mediante grupos focales con los niños de escuelas rurales; opciones en el juego en relación con la vida cotidiana en el medio rural (actividades recreativas, comidas típicas, etc.) mediante talleres en el aula con los niños de escuelas rurales y entrevistas con familiares; definiendo los temas de Salud y ajustando los objetivos específicos mediante reuniones focales con profesionales y autoridades de la salud y la educación rural. Asimismo, optamos por un abordaje participativo no sólo para las etapas de exploración y desarrollo. Se procuró generar también un proceso de permanente evaluación y ajuste de su implementación a nivel local para que el proyecto fuera una herramienta que permitiera iniciar en algunos casos y sostener en otros, programas interinstitucionales de promoción de hábitos saludables de vida en el medio rural.

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Un aspecto esencial de nuestra propuesta metodológica fue la generación de vínculos con actores locales que, en su carácter de referentes, permitieron mantener el intercambio fluido que hizo posible la consulta permanente a lo largo del proceso de desarrollo de este proyecto y el diseño de la implementación de la fase piloto realizada durante los meses de abril y mayo de 2011. Esos vínculos cercanos y significativos fueron claves a la hora de diseñar un proyecto que permitiera la sostenibilidad a nivel local de las articulaciones necesarias para que Salúdame funcione verdaderamente como una herramienta articuladora a nivel local de las diversas acciones de promoción de hábitos de vida saludables. En virtud   de   la   amplitud   del   tema   “hábitos   de   vida   saludable”   debimos   trabajar   en   un   primer   momento sobre la temática del videojuego, que fue necesario acotar a un tema específico. Definimos el enfoque del proyecto en los aspectos de alimentación y nutrición, que se evaluaron como los más importantes y adecuados, basados en el diagnóstico de necesidades entre maestros, niños, equipos de salud locales, la cátedra de Medicina Familiar y Comunitaria de la Facultad de Medicina y el Programa Salud Rural del Ministerio de Salud Pública. A modo de ejemplo, el multimedia hace hincapié en la falta de variedad en la dieta, el uso excesivo de sal en las comidas, abundancia de las grasas en la dieta diaria y la escasez de vegetales y frutas en el consumo diario. Temas complementarios son la higiene del cuerpo (por ejemplo: higiene bucal) y en la manipulación de alimentos (por ejemplo: lavado de frutas y verduras) y la preparación de las comidas saludables (por ejemplo: recetas saludables). Como resultado de este Proyecto se desarrollaron tres productos fundamentales: 1. Multimedia educativo en  el  cual  los  niños  deben  “cuidar”  a  un  personaje  virtual,  tomando   decisiones sobre actividades diarias vinculadas a la alimentación y aspectos relacionados (actividad física, control de salud, higiene, recreación). El principio del juego consiste en que los niños aprendan a tomar decisiones respecto a los hábitos de vida y las relaciones de causa-efecto en esta temática (Baranowski et al: 2008). Durante   el   videojuego   aparecen   tres   tipos   distintos   de   “desafíos”   que   buscan   evaluar el

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conocimiento del jugador en los temas específicos y reforzar conceptos aprendidos. Dos tipos de “desafíos” se   presentan   en   las   modalidades   de   pregunta-respuesta y verdadero-falso. El tercer tipo es una actividad de selección entre diversos ingredientes para cocinar una comida saludable. El videojuego está diseñado para su uso totalmente desconectado (sin Internet) debido a que la realidad actual en el medio rural que ya explicamos. No obstante, se sugieren algunas actividades didácticas que incluyen Internet (por ejemplo en la búsqueda de información) para aquellas escuelas donde exista conexión. Salúdame es un programa de software libre y distribuido bajo la licencia AGPL v3, por lo tanto está disponible para su posterior desarrollo por cualquier otra entidad interesada, en coordinación con Plan CEIBAL. También los contenidos educativos son de libre circulación (excluyendo fines comerciales). De esta forma, cualquier organización interesada podría desarrollar el multimedia hacia otras temáticas específicas, como por ejemplo Salud Bucal, Educación Sexual, consumo problemático de sustancias, etc. 2. Biblioteca digital4 para los niños, padres y maestros con información detallada y especialmente elaborada para el contexto rural de Uruguay, sobre alimentación saludable. La biblioteca contiene información educativa sobre los temas, información de prevención, recetas para cocinar e información práctica sobre la creación y cuidado de una huerta orgánica familiar. Los contenidos de la biblioteca están organizados en tres niveles, acorde al diseño pedagógico de materiales en educación primaria: 1° y 2° grado; 3° y 4° grado; 5° y 6° grado. La biblioteca contiene imágenes y texto seleccionado y elaborado por expertos profesionales de la salud. Se estudió la posibilidad de la inclusión de videos educativos pero el problema del peso total del videojuego para su descarga desde el Portal de Plan Ceibal, fue un obstáculo no superado. 3. Guías didácticas dirigidas a los maestros rurales con la finalidad de optimizar el uso del videojuego y otros recursos de la XO para trabajar la temática dentro y fuera del aula.

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Distribuida bajo la licencia Creative Commons. 10/18


Las guías permiten no sólo que el maestro trabaje en la escuela sobre hábitos saludables en torno a la alimentación y la nutrición, sino que abre la posibilidad de que se planifiquen intervenciones que articulen de manera significativa a otros actores locales (médicos de familia, enfermeros, estudiantes universitarios, familias, productores rurales, comerciantes) en relación a estos temas. En cuanto al uso en el aula, las actividades sugeridas en las Guías consideran el contexto de aula multigrado (mayoritario en el medio rural), no obstante es posible adaptarlas fácilmente a grupos de un solo grado. Desde esta concepción, a partir de la escuela como centro social y cultural de las comunidades rurales es posible desplegar un plan de promoción de hábitos saludables de vida y mejora la calidad de la alimentación y nutrición, articulando el trabajo frecuentemente disgregado de diferentes actores de las comunidades rurales. Enfoque pedagógico-comunicacional de la implementación del proyecto En cuanto a las definiciones pedagógicas que sustentan este proyecto, partimos del principio de que la tecnología -en este caso la XO- es potencialmente una herramienta formidable para la inclusión digital de los niños del medio rural, especialmente si consideramos el problema de la denominada brecha territorial en Uruguay, como sucede en todos los países de la región. Por otra parte, el desarrollo del proyecto Salúdame constituye un esfuerzo por superar el gran obstáculo de todo juego educativo: integrar exitosamente la recreación con los objetivos pedagógicos. Estamos convencidos de que las potencialidades de la XO sólo se desarrollan si los maestros pueden incluirlas exitosamente en los procesos de enseñanza y aprendizaje. Es por esto que el proyecto Salúdame no desarrolla únicamente un videojuego sino que incluye herramientas didácticas (biblioteca digital y guías docentes) y se articula con actores locales que permitan trascender el aula. Salúdame está pensado para tres contextos de uso: 

Juego individual del niño fuera del aula.

Juego individual o grupal del niño dentro del aula.

Juego individual del niño con apoyo o colaboración de su familia.

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Dentro del aula, está orientado a que los maestros aborden la temática de los hábitos de vida saludables a través de las actividades lúdicas que permite el multimedia (en forma individual o colectiva) pero  relacionándolas  permanentemente  con  “la  vida  real”  de  los  niños  en  su  medio  rural, en su comunidad. El diseño articulado de actividades con la XO y sin la XO es el eje fundamental de las propuestas de las guías didácticas para los docentes, las cuales seguramente serán enriquecidas y mejoradas por la experiencia en el uso de los propios maestros. A modo de ejemplo:   se   propone   una   actividad   para   trabajar   el   tema   “grupos   de   alimentos”   experimentando   con los que aparecen en el videojuego, pero luego se propone identificar comidas típicas durante una semana en la vida de los niños, que luego serán analizadas en clase, agrupándolas en función de sus ingredientes. Para aprovechar este potencial educativo del multimedia, las guías didácticas proponen actividades a) en el contexto del aula para el manejo de docentes, agentes comunitarios y profesionales de la salud; b) en el contexto del hogar en el marco de tareas domiciliarias de los alumnos en las cuales se pide la participación de la familia. Asimismo, se estimula a que el niño en forma individual o grupal utilice los contenidos de la biblioteca digital mediante enlaces al tema que se presentan en determinadas actividades del juego (por ejemplo, cuando el personaje come una manzana) o ante determinados eventos del juego (por ejemplo, cuando el personaje tiene diarrea). Por otra parte, las posibilidades del multimedia se orientan a que el docente pueda tomar partido de oportunidades de integración de habilidades y conocimientos que el niño ya posee o está en proceso de adquisición, como ser la narración, búsqueda de información, cálculos matemáticos, etc. Actividades en este sentido están sugeridas en las Guías docentes (incluyendo el uso de otros programas ya instalados en la XO), pero su desarrollo posterior queda en manos del maestro adecuándolas a las características de cada grupo. Entre abril y mayo de 2011 el equipo desarrolló una fase piloto de ejecución del proyecto en ocho escuelas de la zona rural del departamento de Salto, con el fin de encaminarnos hacia la elaboración final de los productos, sin perjuicio claro está de futuros desarrollos y complementos. En total participaron 9 maestros y 117 niños de grupos multigrado. En talleres diseñados específicamente, abordamos los resultados de las primeras experiencias en el uso del multimedia

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con los niños, en grupos de discusión, y complementariamente se utilizaron cuestionarios. En los talleres con  los  niños  utilizamos  el  juego  como  “caso”  (por  ejemplo,  qué  sucede  si  el  personaje  en   el juego sólo come un tipo de alimento) y discutimos esto en relación al objetivo del juego (por ejemplo: el exceso en el consumo de grasas y la diversidad en la alimentación). Durante esta fase piloto, el equipo del proyecto se propuso: 

Evaluar el juego entre los niños (diversión, usabilidad del juego).

Evaluar las guías docentes entre los maestros (diseño didáctico).

Evaluar el efecto en el aula entre maestros y niños (gusto/disgusto de los niños hacia el juego, conocimientos aprendidos o en proceso de aprendizaje).

Evaluar el efecto social entre niños y sus padres (uso del juego en el hogar, resultados en el proceso de cambio de hábitos, discusiones sobre el tema en el hogar).

Se utilizaron dos técnicas de evaluación: a) observación de los talleres con maestros, por un lado, y con los niños, por otro, así como en la situación de uso de Salúdame en el aula por parte del maestro; b) cuestionarios aplicados antes y después de la fase piloto entre niños y maestros para conocer su actitud y conocimientos previos en torno al tema alimentación y nutrición y en torno al uso de la XO. Los resultados se utilizaron para comprender el efecto del juego y tomar elementos que permitieran su desarrollo mejorado en la fase final del proyecto y en futuros desarrollos.

Evaluación preliminar El desarrollo del Proyecto Salúdame representa un complejo programa de coordinaciones entre un equipo interdisciplinario de dos países e instituciones públicas del ámbito de la Salud, la Educación y los gobiernos departamentales de Uruguay. Plan CEIBAL es un gran generador de oportunidades para que, no sin dificultades, estas complejas coordinaciones sean posibles. Consideramos que los problemas de fondo en relación a los hábitos de vida en el medio rural, y en particular en lo referente a alimentación y nutrición, sólo encuentran caminos de solución por la cooperación de todos estos actores. El equipo del proyecto ha logrado reunir los esfuerzos de

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actores que frecuentemente no tienen contacto, como por ejemplo la Facultad de Agronomía de la Universidad de la República en el departamento de Salto y las escuelas rurales y equipos de salud de la zona, a través de la plantación de árboles frutales en las escuelas y el asesoramiento en la creación y mantenimiento de huertas orgánicas en las escuelas que no lo tienen, es decir, la mayoría, desde el mes de junio de 2011. Otro ejemplo es la iniciativa del Programa Salud Rural del Ministerio de Salud Pública, para capacitar promotores de salud en las zonas rurales que utilicen el multimedia en la XO como parte de una campaña de promoción que se está discutiendo actualmente. Asimismo, la Administración de Servicios de Salud del Estado (ASSE) ha incorporado el videojuego como recurso de educación para la salud en un programa de educación continua para médicos del interior del país. Durante la fase piloto, obtuvimos pistas sobre algunos de los procesos socioeducativos que se van generando en este marco. Hemos observado como a todos los maestros participantes el programa les resultó atractivo y en muchos casos motivó una aproximación a la XO como herramienta que hasta ese momento había sido muy limitada. Si bien algunos de estos docentes pudieron avanzar más autónomamente en la propuesta trabajando con su clase a lo largo del tiempo que transcurría entre cada instancia de trabajo con el equipo, otros se manifestaron más dependientes del acompañamiento y mediación en el uso brindado por el equipo que llevó adelante el piloto. La falta de tiempo de los maestros en la lógica de multigrados,   tampoco   favorece   que   dispongan   de   las   condiciones   para   “explorar”   y   conocer   más los recursos de la herramienta. Con respecto a los niños, se mostraron en general muy entusiasmados con el programa y asumieron un rol activo proponiendo ideas y haciendo aportes que contribuyeron a mejorar el desarrollo de la versión final de Salúdame. Pudo observarse que el entusiasmo decayó levemente luego de pasada la novedad del primer momento, sin embargo la totalidad de los niños en el posttest manifestaron que les gustó mucho el juego. Una de las fortalezas del proceso de trabajo diseñado para esta fase fue plantear propuestas de trabajo con los niños que combinaban actividades en la XO con otras que implicaban recursos lúdicos y estrategias a las que estaban habituados en el aula.

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El juego fue preferido a la biblioteca, así como los desafíos en los que se desplegaba competitividad. Los niños se vieron estimulados por la posibilidad de avanzar superando niveles en el juego. Encontramos que el mismo se adecuaba de mejor modo a niños de 3º grado en adelante que a aquellos niños con un menor desarrollo en la lecto-escritura, quienes tendían más rápidamente a desinteresarse en relación a los desafíos que les planteaba el juego. Con respecto a los referentes de Salud que conocieron la propuesta, todos concordaron en que es una excelente herramienta para trabajar articuladamente sobre aspectos de promoción de hábitos saludables de vida, fortaleciendo las posibilidades de acción de médicos y otros profesionales de la salud que deben tomar a su cargo grandes extensiones de territorio en las cuales promover acciones que no pueden hacer los médicos por sí solos. Finalmente, acuerdan que el juego ofrece una mediación muy útil para abordar de manera amigable y original los temas vinculados a la promoción de hábitos saludables entre la población infantil del medio rural. Discusión Como resultado de la experiencia reseñada en este documento, concluimos que un multimedia educativo puede generar procesos socioeducativos en una comunidad desde los primeros pasos de su generación, desarrollo y seguimiento mediante una metodología participativa y comprometida con la realidad cotidiana de las personas involucradas. Por otra parte, se requiere investigación posterior para comprender el impacto educativo de este tipo de tecnologías en el aprendizaje y en el comportamiento de los niños en torno a la alimentación y nutrición. Definitivamente Plan CEIBAL en tanto programa estratégico de inclusión digital, constituye una herramienta formidable para el sistema educativo. Sin embargo, este es solamente el primer paso. Ante el desarrollo y la penetración de estas tecnologías crece proporcionalmente el desafío de realizar la tarea principal, es decir la de generar contenidos y metodologías que efectivamente articulen en el desarrollo de los procesos de aprendizaje.

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En lo que refiere específicamente al tema de la Educación para la Salud y las posibilidades de iniciar y fortalecer procesos educativos en la población rural a través de Plan CEIBAL, consideramos que las posibilidades son sumamente amplias para trabajar todos los temas de Salud a través de multimedia como el presentado en este documento, o con otros tipos de diseños, no necesariamente lúdicos. Asimismo, podrían desarrollarse productos que apoyen actividades de asistencia y control de la Salud de las familias rurales. Actualmente los maestros, los médicos y demás profesionales de la Salud son lo que conocemos como “inmigrantes   digitales”,   es   decir   sujetos   que   se   formaron   en   un   ambiente   analógico   y   debieron   “migrar”   a   un   ambiente   digital   (en   contraposición   a   los   llamados   “nativos   digitales”).   Lo   que entendemos por competencias comunicativas se transforma a la luz de este entorno tecnológico que replantea seriamente la formación académica de todos los profesionales y educadores (Pérez Tornero J.M., 2000, p.13). Los obstáculos y desafíos que plantea la integración de las TIC en procesos educativos no son menores,   pero   tampoco   son   causados   por   éstas.   No   existe   un   “aprendizaje   electrónico”, como tampoco  existe  un  “aprendizaje  impreso” (Kaplún G., 2005, p. 165-176). Entendemos que las TIC ponen en evidencia antiguos problemas de la educación y quizás no siempre contribuyan a solucionarlos (Gairín J., 2003, 3-20). Sin embargo, ofrecen un potencial al educador que esté dispuesto a instrumentalizarlas en función de un diseño pedagógico acorde a sus objetivos de aprendizaje y consistente con una propuesta de evaluación de procesos, no simplemente de resultados. Asistimos a un proceso de innovación tecnológica acelerada, mucho más acelerada que la capacidad de comprenderlas y apropiarlas por parte de los educadores, de los estudiantes y de las instituciones. El desafío para los comunicadores, desde nuestro punto de vista, es aportar a la construcción de los lineamientos conceptuales, pedagógicos y comunicacionales que deberían orientar la elaboración de objetos de aprendizaje. A su vez, otro aspecto que nos interesa señalar es el reto de la interdisciplinariedad en este tipo de proyectos. En nuestro campo de la comunicación, se presenta frecuentemente este desafío que implica la intersección de conocimientos y prácticas entre diversas disciplinas, en particular en este caso la Educación para

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la Salud, dentro de las Ciencias Médicas; las Ciencias de la Educación en el contexto específico de la enseñanza primaria en el medio rural; y el área transversal de las Tecnologías de la Información y la Comunicación abordadas desde el campo de la Comunicación Educativa y desde la Ingeniería de Sistemas. El campo privilegiado de los estudios de la comunicación, señala Moragas Spa (2011, 20), es el de la interdisciplinariedad, la cual “implica confrontación, intercambio de  métodos,  poner  en  común  experiencias,  confrontar  resultados”.   En el citado ensayo de Moragas, también se plantea claramente uno de los cambios más trascendentales en las sociedades contemporáneas que es la disolución de las fronteras entre productores y consumidores de contenidos. Desde la integración de la World Wide Web en la vida cotidiana de la cuarta parte de la población mundial, es decir los que tenemos acceso a Internet, se han generado procesos en este sentido que impactaron fuertemente en áreas como el periodismo, los estudios culturales, la medicina, el desarrollo tecnológico y, claro está, en la educación. Volviendo rápidamente al caso presentado en este documento, encontramos variados ejemplos de la superación de esta frontera en el Portal oficial de Plan CEIBAL y en las dos plataformas educativas asociadas, donde se publican contenidos y diseños metodológicos para el aula elaborados por maestros aislados o en grupos de trabajo localizados en cualquier rincón de nuestro país, disponibles por esta intervención tecnológica para cualquier docente en cualquier parte del mundo, basta que tenga acceso a Internet y comprenda el idioma español. Lo mismo sucede en el campo de la medicina, donde existe ya una amplia experiencia en este sentido, incluso en Uruguay y directamente vinculada a la interconsulta, a través de médicos tratantes que exponen situaciones clínicas complejas (con datos anonimizados de los pacientes, claro) a través de redes sociales especializadas u otros medios, con el fin de conocer las opiniones de otros colegas, dentro y fuera del Uruguay. En síntesis, pretendimos presentar a través de este proyecto interdisciplinario toda una área virtualmente inexplorada en torno al Plan CEIBAL (y por extensión, otros proyectos OLPC en otros países de nuestra América Latina) en la intersección Comunicación y Salud. Queda mucho por investigar antes de formular lineamientos en torno a la producción de contenidos y metodologías en este campo.

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As doenças negligenciadas e a comunicação: três afirmações e muitas questões Inesita Soares de Araújo Fundação Oswaldo Cruz / Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde / Laboratório de Pesquisa em Comunicação e Saúde Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde Rio de Janeiro – RJ – Brasil inesita@icict.fiocruz.br

Adriano de Lavor Moreira Fundação Oswaldo Cruz / Escola Nacional de Saúde Pública / Revista RADIS – Comunicação e Saúde Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (doutorando) Rio de Janeiro – RJ – Brasil delavor@ensp.fiocruz.br

Raquel Aguiar Fundação Oswaldo Cruz / Instituto Oswaldo Cruz / Assessoria de Comunicação Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (doutoranda) Rio de Janeiro – RJ – Brasil raquelaguiar@gmail.com

Resumo: O trabalho objetiva discutir as relações entre comunicação e negligenciamento, a partir de seu imbricamento na saúde pública e coletiva, particularmente pelo conceito de doenças negligenciadas. Reflete uma linha de orientação no Programa de PósGraduação em Informação e Comunicação em Saúde (ICICT/Fiocruz, Brasil), que acolhe pesquisas sobre o tema da invisibilidade e do seu reverso, a visibilidade como problemas de saúde e de comunicação. Formula e desenvolve três afirmações: 1 – a comunicação é evidência e é fator determinante do negligenciamento, devendo estar entre os indicadores que caracterizam uma doença negligenciada; 2 –a comunicação pode ser considerada negligenciada quando persevera nos velhos modelos e práticas, age de forma centralizada, privilegia exclusivamente a fala institucional, ignora os contextos, é tratada como informação e não como interlocução; 3 –a comunicação negligenciada nega princípios do Sistema Único de Saúde. A abordagem contempla, entre outros aspectos, a caracterização das doenças negligenciadas; o problema da visibilidade como uma característica marcante dos tempos atuais; a relação entre invisibilidade, negligência e cuidado; a caracterização do que se entende como “comunicação negligenciada”. Por fim, argumenta-se que importantes princípios do SUS são negados por essa falta e conclui-se que a comunicação de que precisamos, para garantir o direito à saúde, necessita promover o reconhecimento daquilo e daqueles que não estão em cena.

Palavras-chaves: Comunicação e Saúde, doenças negligenciadas, saúde coletiva, comunicação negligenciada.


1. Doenças negligenciadas, comunicação questões.

negligenciada: introduzindo

as

Tendo sido, até pouco tempo, um tema de interesse restrito às poucas instituições que a ele dedicavam seus esforços de pesquisa, as chamadas doenças negligenciadas vêm agora obtendo alguma visibilidade, seja pela insistência de alguns agravos em se fazerem presentes em âmbitos cada vez mais extensos, seja pelo movimento das organizações internacionais de saúde por uma maior eficácia em suas iniciativas de enfrentamento. Mesmo assim, por tudo e em tudo continuam merecendo o qualificativo de negligenciadas e clamando por atenção. Desejamos abordar as doenças negligenciadas pelo prisma da comunicação, no intuito de evidenciar a relação intrínseca entre comunicação e negligenciamento e assim contribuir para a compreensão deste conjunto de agravos que, se de um ponto de vista técnico são classificados de negligenciados, do ponto de vista político devemos considerar inaceitáveis. Queremos mostrar que a comunicação, pela sua ausência ou pelo modo como é tratada na saúde é, tanto quanto a pesquisa, os serviços, o desenvolvimento tecnológico e de produtos, ao mesmo tempo fator e indicador de negligenciamento ou – no seu reverso – de cuidado. Este entendimento é ocultado pela perspectiva instrumental com que ela é considerada e que ainda reina quase absoluta nos domínios da saúde. Queremos argumentar que os velhos modelos centralizadores de comunicação, que privilegiam a fala institucional, ignoram os contextos e tratam a comunicação apenas como informação são responsáveis pela ação potencializadora do negligenciamento que a prática comunicativa exerce ou fortalece. Queremos afirmar que a comunicação, assim negligenciada e, desta forma, produtora de negligenciamento nega fragorosamente alguns dos mais caros princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), particularmente os da universalidade, equidade, integralidade, descentralização e participação. Estes são os eixos em torno dos quais apresentaremos nossas ideias: considerar a comunicação evidência e fator de negligenciamento; entender o que confere a uma comunicação o caráter de negligenciada; relacionar princípios do SUS à comunicação negligenciada. Começaremos caracterizando as doenças negligenciadas nas suas


dimensões sociais, epidemiológicas e políticas. Em seguida, discutiremos a visibilidade e seu avesso, a invisibilidade, como problemas característicos da sociedade contemporânea, com seus reflexos no campo da saúde. Abordaremos a relação existente entre cuidado e negligenciamento, estabelecendo nexos entre estes e o tema da (in)visibilidade. Por fim, trataremos da comunicação negligenciada, apresentando argumentos que justifiquem o uso desta expressão. As questões que aqui nos ocupam nascem no seio de uma linha de orientação no PPGICS - Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (ICICT, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil). No âmbito de estudos sobre as relações entre instituições de saúde e população, em seus processos de produção, circulação e apropriação de informações, discursos e saberes evidenciou-se a necessidade de enfocar as ausências, os silêncios e entender melhor os mecanismos de silenciamento (Orlandi, 1993). Ali, onde há o vazio, onde só se escutam as altissonantes vozes autorizadas da mídia e das instituições, as constatações foram se avolumando e inquietações se tornaram inevitáveis: se a ausência de comunicação agrava a situação sanitária das pessoas ou de uma região, por que a comunicação não é considerada indicador de negligenciamento? Qual o papel, nesse cenário, da resistência dos modelos teóricos que relegam a comunicação a um papel neutro e meramente instrumental, mantendo-a prudentemente afastada do conjunto de ideias que pensam os determinantes sociais da saúde? Aqui, desejamos chamar atenção para estas questões, entre outras, sem a pretensão de respondê-las, mas de caracterizar uma problemática que demanda cuidado e exige investimentos em pesquisas.

2. Negligenciar, um verbo duplamente transitivo A formalidade da língua portuguesa estabelece a transitividade do verbo ‘negligenciar’, uma  vez  que  seu  sentido  somente  é  completo  mediante  um  objeto,  alvo   do negligenciamento. No caso das doenças negligenciadas, os numerosos aspectos simbólicos do termo exigem que se admita a duplicidade desta transitividade. O negligenciamento de uma doença – que evoca o discurso de segregação, periferia e esquecimento, seja pela indústria farmacêutica, pelos governos ou pelos sistemas de saúde – significa também, de forma concomitante e inextrincável, o negligenciamento


das populações vitimadas por estes agravos. Pré-existente e, ao mesmo tempo, intensificado pela ocorrência de agravos negligenciados, o negligenciamento das populações está correlacionado à pobreza, num círculo vicioso que vigora para um sexto da população mundial (World Health Organization, 2010). A afirmação de que a comunicação é evidência e fator de negligenciamento pede a recuperação de sua gênese, iniciando-se pela formulação de conceitos por organismos internacionais de referência na área, vórtices de origem da construção de sentidos que serão circulados e reformulados nas mais variadas esferas. Historicamente, a origem   do   termo   ‘doenças negligenciadas’ remonta à década de 1970,   quando   foi   criado   o   programa   da   Fundação   Rockefeller   focado   em   ‘the   Great   Neglected  Diseases’.  Três  décadas  depois  do  uso  original  do  termo,  a   organização não governamental Médicos Sem Fronteiras (MSF) propôs, em 2001, dividir as doenças em Globais, Negligenciadas e Mais Negligenciadas. No mesmo ano, o Relatório da Comissão sobre Macroeconomia e Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentaria uma classificação similar, dividindo as doenças em Tipos I, II e III, correspondentes aos estratos contemplados na segmentação proposta pela MSF. Desde então, o termo doenças negligenciadas tem sido utilizado para se referir a um conjunto de agravos infecciosos e parasitários endêmicos em populações de baixa renda, localizadas sobretudo na África, Ásia e Américas (Souza, 2010). Segundo Morel (2006), esta classificação representa uma evolução em relação à denominação ‘doenças  tropicais’, uma vez que contempla os contextos de desenvolvimento político, econômico e social, ultrapassando a perspectiva colonialista associada a um determinismo geográfico. A correlação entre as doenças negligenciadas e a pobreza das populações que afetam fica evidente nas próprias nomenclaturas adotadas pelas entidades internacionais de referência no tema, evidenciando uma construção de sentidos. Enquanto a OMS utiliza o termo   ‘doenças   tropicais   negligenciadas’, o TDR (Special Programme for Research and Training in Tropical Diseases, da OMS) emprega o termo ‘doenças  da  pobreza’ i. No âmbito nacional, o Ministério da Saúde (MS) define que as doenças  negligenciadas  são  as  que  “não  só  prevalecem  em  condições  de  pobreza,  mas   também contribuem para a manutenção do quadro de desigualdade, já que


representam forte   entrave   ao   desenvolvimento   dos   países”   (Ministério da Saúde, 2010). Há convergências e divergências no rol de agravos considerados negligenciados pela OMS e pelo TDR sendo que Hanseníase, Dengue, Doença do Sono, Oncocercose, Filariose e Esquistossomose figuram nas definições dos dois organismos. O MS, além destas, inclui em seu rol a Doença de Chagas, Leishmanioses, Malária e Tuberculose. O  primeiro  relatório  abrangente   da  OMS  sobre   o  tema,  intitulado   ‘Working to overcome the global impact of neglected tropical diseases’   (World Health Organization, 2010), foi lançado em outubro de 2010, evidenciando que o assunto é ainda bastante recente no âmbito da definição de políticas públicas globais. Segundo o documento, as doenças tropicais negligenciadas são endêmicas em 149 países e territórios, afetando mais de um bilhão de pessoas. Em fevereiro de 2011, a OMS divulgou o documento ‘Accelerating  work  to  overcome  the  global  impact  of  neglected   tropical  diseases:  a  roadmap  for  implementation’,  de  caráter  executivo e operacional, em que conclui que o investimento de US$ 2 bilhões seria suficiente para prevenir e tratar todas as pessoas em risco de contrair uma doença negligenciada até 2015 (World Health Organization, 2012). Nas perspectivas de solução para as doenças negligenciadas, convivem construções de sentidos que apontam para diferentes alternativas. Sugere-se entendêlas em função de seus tempos e prazos de viabilidade, dividindo-se em conjuntos de soluções de presente e de soluções de futuro. Esta abordagem é respaldada na argumentação de Morel (2006), que delineia as três causas principais relacionadas à permanência das doenças negligenciadas relacionadas ao que identifica como falhas. As falhas de ciência estão relacionadas a conhecimentos insuficientes, apontando para uma construção de sentidos em que a solução das doenças negligenciadas está situada no

tempo

futuro.

Ancoradas

em

soluções

disponíveis

no

presente,

independentemente de inovações científicas, as falhas de mercado dizem respeito à situação de medicamentos ou vacinas que existem, porém disponíveis a custos proibitivos, enquanto as falhas de saúde pública ocorrem quando estratégias terapêuticas acessíveis ou mesmo gratuitas não chegam às populações afetadas devido a problemas de planejamento.


Na perspectiva   pautada   nas   ‘falhas   da   ciência’,   donde   se constrói um simbolismo que fia a superação das doenças negligenciadas em soluções de futuro, emerge o discurso sobre o baixo interesse da indústria farmacêutica no desenvolvimento de alternativas terapêuticas para as doenças negligenciadas, que é um dos enunciados mais hegemônicos neste contexto. Convergem vozes que apontam a necessidade de institucionalizar mecanismos que levem as indústrias a desenvolver pesquisas para o tratamento de doenças próprias da realidade sanitária dos países pobres, sugerindo-se a intervenção do Estado no fomento de pesquisa e desenvolvimento para novos medicamentos eficazes e seguros (Oliveira, Labra & Bermudez, 2006). Ao mesmo tempo, critica-se que, embora exista financiamento para pesquisas relacionadas às doenças negligenciadas, o conhecimento produzido não se reverte em avanços terapêuticos (Ministério da Saúde, 2010). No contraponto, pautando-se nas falhas de mercado e de saúde pública, emergem construções de sentidos que enxergam no tempo presente as condições necessárias para superação das doenças negligenciadas. A defesa mais emblemática da perspectiva de soluções de presente é liderada pela OMS, que afirma que a maioria dos agravos negligenciados é prevenível pelos meios atualmente disponíveis (World Health Organization, 2010). As soluções para as doenças negligenciadas ultrapassam o campo da saúde e exigem ações multissetoriais, envolvendo políticas econômicas e sociais (Barreto & Carmo, 2007, p. 1779). Coloca-se, então, a necessidade de situar as doenças negligenciadas no contexto dos determinantes sociais da saúde, entendidos como a forma pelas quais as condições de vida e trabalho dos indivíduos e de grupos da população estão relacionadas com sua situação de saúde (Buss & Filho, 2007).

3. A (in) visibilidade e o (re)conhecimento no mundo contemporâneo O atual contexto social, político e econômico é notadamente marcado por uma cultura de dependência dos dispositivos de informação e de excessiva visibilidade. Antes de tudo, há de se considerar que se vive em uma era congestionada por imagens, com um aumento exponencial de sua produção, circulação e consumo. Estudo na área de marketing (Rosa, 2006) revela que o século XXI convive com um volume mil vezes maior de imagens do que o que existia há 100 anos: até 2006, já


havia no planeta um estoque de 900 bilhões de imagens; a cada ano, gera-se 122 bilhões de novas imagens em máquinas fotográficas e telefones celulares; em apenas um dia, as 31.750 emissoras de televisão espalhadas em todo o mundo veiculam 762 mil horas de programação; a cada segundo, cerca de 380 fotos e vídeos são transmitidos pelo sistema de mensagem multimídia dos telefones celulares. Esta supervalorização das imagens, sua interferência na vida cotidiana e na configuração do espaço público se inscrevem em um novo modo de existência – um bios midiático (Sodré, 2002),   “sintaxe   universal   que   feitichiza a realidade e reduz a complexidade das antigas diferenças ao unum do   mercado”   (p.   11).   Sob   a   égide   do   consumo, indica o teórico, somos convidados, estimulados e por vezes conduzidos a enxergar este mundo através de olhos emprestados dos aparatos de comunicação, que interferem na construção de identidades e transformam a relação com o outro, com o tempo e com o espaço; redefinem comportamentos, cada vez mais ajustados às ações mediadas pelo uso de aparelhos portáteis de experimentação do mundo; promovem novas formas de agenciamento sobre aquilo que é visível, o que é esquecível e ainda o que (e quem) se tornará inesquecível – pelo menos até o início da próxima temporada, já que os interesses se renovam como se fossem mercadorias. Frohmann (2008) debruçou-se sobre o caráter social, material e público destes “aparatos   tecnológicos”   disponíveis   para   coletar,   processar   e   utilizar   informações,   alertando   como   eles   exercem   profundos   efeitos   “na   textura,   andamento,   ritmo   e   estruturas do dia-a-dia”.   O   autor   parte   da   discussão foucaultiana sobre enunciados, quando   defende   que   estes   têm   a   capacidade   de   “disparar   eventos”   e   fazer   com   que   indivíduos passem a ser levados em consideração a partir do momento em que se produzem informações a seu respeito. Em  “A  vida  dos  homens  infames”  (1977),  Foucault  defendeu que o ponto mais intenso da vida destes sujeitos foi o momento em que foram registrados pelo poder. A materialidade do enunciado lhes deu vida e lhes garantiu um lugar na história. Analogias com os dias de hoje são possíveis, quando se vive praticamente submerso em um mundo eletrônico que exige presença constante na ribalta cibernética e oferece reconhecimento social através das mídias. Estar fora do registro – ou seja, invisível – é correr o risco de abster-se da vida em sociedade.


Neste contexto de associação da participação social à possibilidade de estar visível, surge a preocupação com aqueles que estão à margem dos processos de interação tecnológica  informacional,  com  os  que  não  “aparecem”  no  universo  digital  e   que, não por coincidência, não são retratados pelos media. No mundo destes invisíveis, falta reconhecimento e sobra negligência. Inclusive com sua saúde. Gonçalves Filho (in Costa,   2004)   define   o   fenômeno   como   “invisibilidade   pública”,  que  traz  em  sua  essência a humilhação social e a angústia. Para os indivíduos, a condição invisível representaria impeditivo para que pudessem agir e se manifestar publicamente, serem considerados sujeitos singulares, não exclusivamente tipos ou exemplares de uma espécie. A visibilidade, por outro lado, estaria associada à capacidade de se enxergar e enxergar-se no outro – um reconhecimento da alteridade, fortemente associada às condições contextuais do sujeito e de seu(s) interlocutores. Costa (2004) corrobora a definição, apresentando a invisibilidade como “desaparecimento  psicossocial  de  um  homem  no  meio  de  outros  homens”,  fenômeno   observado  entre  aqueles  que  “se  tornam  historicamente  condenados  ao  rebaixamento   social   e   político”   (p.   57)   e   que   causaria   uma   “percepção   social   neutralizada”   na   sociedade e traria como consequências a humilhação social e a reificação. Humilhação social vista aqui como desigualdade política, interdito de sua participação no âmbito público da iniciativa e da palavra, bem como da ação fundadora, do diálogo, do governo da cidade e do trabalho e da construção de sua cidadania; reificação como processo através do qual homens e relações sociais são considerados a partir de seu valor econômico e mercantil. Indivíduos e suas ações passam a existir apenas como mercadorias. Para o autor, a partir do momento em que o indivíduo não aparece como alguém que age e fala, reconhece o mundo, reflete e opina sobre ele, deixa de aparecer como cidadão. Neste sentido, tais grupos invisíveis, não considerados em sua capacidade cidadã, migram para regiões de sombra, enquanto emergem para a luz suas funções ou atribuições visíveis. Assim, o cidadão desaparece para aparecer como integrante  de  um  grupo  social   estereotipado   e/ou   marginalizado,  “a  comunidade  dos   que publicamente desaparecem”  (idem,  p.  118). São   vítimas   de   “cegueira   social”,   seja   pela   indiferença   ou   pelo   preconceito. Tornam-se socialmente invisíveis, seja por sua condição econômica ou por sua origem


social, racial ou étnica, seja por sua orientação sexual ou faixa etária, dentre outras categorias de exclusão. Para este homem que desaparece, assinala o autor, restam a vulnerabilidade, a perda de sua autonomia e de sua humanidade. Soares (2005) refere-se à   “cegueira   seletiva”   quando   trata   da   invisibilidade   social. Para ele, tornar alguém invisível é projetar sobre ele (ou ela) um estigma, um preconceito, ou ainda a indiferença e a negligência. “Quando   o   fazemos,   anulamos   a   pessoa   e   só   vemos   o   reflexo de nossa própria intolerância. Tudo aquilo que distingue a pessoa, tornando-a um indivíduo; tudo o que nela é singular desaparece. O estigma dissolve a identidade do outro e a substitui pelo retrato estereotipado  e  a  classificação  que  lhe  impomos”  (p. 175). No entanto, o autor bem adverte que nem toda visibilidade é positiva. Ele orienta que é importante situar, por exemplo, a diferença que há entre preconceito e indiferença. Nos dois casos, explica, há a anulação da pessoa, embora por meios opostos. Ao contrário da indiferença, que negligencia a presença de alguém, o preconceito corresponde a uma hipervisibilidade, que ilumina uma imagem artificial e pré-construída, obscurecendo a individualidade da pessoa, mantida na penumbra. A invisibilidade repercute na saúde dos indivíduos, em primeiro lugar por inviabilizar a garantia dos princípios doutrinários que regem o SUS. A visibilidade é determinante na construção e manutenção do lugar de fala dos indivíduos no espaço público e no mercado simbólico (Bourdieu, 1982; Araújo, 2003) das práticas e políticas de saúde. Sem ela, portanto, não há participação. E, sem participação, não há controle social. Na   ausência   da   visibilidade,   não   há   garantia   de   universalidade.   “Quem   não   é   visto não é lembrado”,  adverte  o  ditado  popular.  Na  condição  de  invisíveis,  indivíduos,   grupos e doenças não serão levados em consideração na destinação de recursos, no planejamento e na promoção de ações de prevenção, assistência e vigilância à saúde. Por outro lado, não há como se garantir equidade, princípio que apregoa tratar os diferentes em sua diversidade. Grupos não reconhecidos não constituem objetos de estudo ou de implementação de ações que visem a corrigir distorções em relação ao acesso aos bens e serviços de saúde. Se são invisíveis, não apresentam particularidades ou diferenças.


O mesmo se pode afirmar em relação à integralidade, princípio que leva em consideração as necessidades específicas de pessoas ou grupos – ainda que minoritários em relação ao conjunto da população – além da articulação dos diversos níveis de complexidade do sistema e da humanização do atendimento. Sem visibilidade, não há como garantir tais preceitos, nem como indicar ações que favoreçam a construção de um sistema que respeite ainda princípios estruturais de descentralização, regionalização, hierarquização da rede, das ações e dos serviços. Em segundo lugar, é possível afirmar que, assim como a visibilidade pode contribuir para reconhecimento de necessidades de saúde, a invisibilidade pode levar à negligência. Vejamos: diante do conhecimento e reconhecimento público de um determinado grupo social ou de um agravo pelos meios de comunicação, por exemplo, é mais provável que se garanta que sejam incluídos nas bases de dados, que se transformem em   objetos   de   pesquisas   e   “apareçam”   nas   estatísticas   oficiais,   que   sejam registrados em taxonomias e documentos oficiais e motivem a discussão de políticas públicas sobre suas questões. São os tais registros que disparam eventos, como colocou Foucault. Isso porque ser levado em consideração é ser reconhecido; é ouvir do outro algo sobre si mesmo, garantir a sua alteridade e resgatar sua humanidade. Este reconhecimento,   que   é   o   antídoto   da   “cegueira   seletiva”   apontada   por   Soares,   é,   ao   mesmo tempo, construção e confluência de visibilidades, tarefa que não se esgota apenas   com   a   “divulgação”   de   ideias   positivas   que   favoreçam   uma   boa   imagem   daquele  de  quem  se  fala.    A  visibilidade  que  aqui  se  defende  vai  além  da  “construção”   de imagem proposta por ações de marketing e/ou publicidade, sendo o resultado de um processo comunicativo dialógico, construído com a participação efetiva dos sujeitos, o mesmo que se exige para a sua conquista plena da saúde. É, portanto a necessidade de uma comunicação que possibilite os indivíduos acesso às informações, mas também seu lugar de fala, sua capacidade de interação, intervenção e autonomia nas ações que lhe dizem respeito. Em contrapartida, não se pode ignorar que nem toda visibilidade é positiva. Se a invisibilidade pode gerar a indiferença e a falta de reconhecimento, a hipervisibilidade, por outro lado, pode gerar preconceito em relação a determinados grupos e/ou enfermidades, graças a um reconhecimento parcial e enviesado.


Indivíduos podem   ser   visibilizados   por   estigmas   nada   “saudáveis”   – como aconteceu com os homossexuais em relação à infecção pelo HIV, graças à irresponsável associação feita por especialistas e mídia nos anos 1990 – o que tanto coloca o grupo em situação de vulnerabilidade quanto dificulta o combate à doença até os dias de hoje. É por isso que se defende que a negligência é constituinte da cultura de excessiva visibilidade que experimentamos; é constituída dentro de suas engrenagens; é reflexo e parte de um contexto que se afirma por permitir (e muitas vezes cultivar) a falta de cuidado com determinadas questões, situações e populações (De Lavor, 2011). A saída está indicada no dicionário de antônimos: cuidado é o contrário de negligência. Cuidado, questão central para saúde. Então, poderíamos perguntar: Como encontrar cuidado em uma sociedade baseada na notoriedade e no (re)conhecimento? Se eu não sou reconhecido, não existo para as políticas públicas, não me comunico nem se comunicam comigo, não apareço em lugar nenhum, não recebo cuidado. Eu sou negligenciado, eu adoeço.

4. A comunicação negligenciada É certo que a visibilidade por si mesma não garante o cuidado. Mas, além do reconhecimento ser uma das principais dimensões do problema, é também evidência e diz respeito diretamente ao tema central que aqui nos mobiliza, que designamos por comunicação negligenciada. Retomemos nossa primeira afirmação: a comunicação é evidência e é fator determinante do negligenciamento, devendo estar entre os indicadores que caracterizam uma doença negligenciada.ii As doenças de que estamos falando padecem de muitas negligências e uma delas, tão importante quanto as demais, é a da comunicação. Não temos, no país, uma política de comunicação específica para esse conjunto de agravos e os investimentos pontuais são irrisórios, localizados e sem continuidade. Esta lacuna resulta na ausência de uma comunicação suficiente e adequada às necessidades das populações por eles atingidas, ausência que equivale à falta de investimento em pesquisas, tecnologias, serviços e ações de saúde. Equivale e agrava. Por isto podemos afirmar que, além de


evidência, é fator de agravamento e, por um mecanismo cruel de circularidade, é também produto. Detalhando os termos, temos sua natureza de evidência, ou seja, sua ausência caracteriza negligenciamento; sua natureza de fator, ou seja, que co-determina e agrava o negligenciamento; e sua natureza de produto, uma vez que as populações assim negligenciadas não dispõem de recursos e meios para se expressar e se fazerem ouvidas e consideradas pelas esferas públicas de saúde. As ações de comunicação mais comuns na saúde são voltadas para informar e recomendar a adoção de procedimentos que em tese evitarão doenças. Em geral, são veiculadas em campanhas sazonais ou em momentos de crise, em surtos ou epidemias. O cenário da circulação desta comunicação é inequívoco: não se contempla Leishmanioses,

Chagas,

Malária,

muito

menos

Filariose,

parasitoses,

Esquistossomose... São doenças que não recebem nenhum investimento ou recebem investimentos precários do ponto de vista da comunicação. Enquanto isto, uma quantidade imensa de materiais de comunicação é voltada, por exemplo, para a Aids, que sempre recebeu muita atenção, pesquisas, investimentos. Voltamos aqui ao ponto da dupla transitividade do verbo negligenciar, aplicada à comunicação. As doenças como Chagas, Leishmanioses e outras, atingem populações pobres, que têm pouca ou nenhuma importância na economia nacional ou global. Em contrapartida, a Aids é uma doença que atinge também os países ricos e as classes abastadas e esta é uma das razões porque recebe tanto investimento, sendo privilegiada pelas políticas de comunicação. Isto nos leva à segunda afirmação, a de que a comunicação pode ser considerada negligenciada pelo modo como ela é tratada, que resulta nos seus produtos (ou na ausência dos produtos). Este modo se deve, fundamentalmente, à insistência em velhos modelos e práticas. Os modelos de comunicação que ainda hoje predominam nas instituições públicas de saúde já foram amplamente criticados teórica e politicamente, mas são suficientemente fortes para continuar pautando as definições dos modos de enfrentamento dos agravos vividos pelas populações e pelo país. São modelos que produzem práticas caracterizadas fortemente pela centralização da


produção,

que

refletem

concepções

autoritárias,

mas

também

produzem

consequências muito nefastas à saúde, entre as quais citaríamos: o privilegiar unicamente a fala institucional e amiúde desqualificar outras vozes e outros saberes; o desconsiderar os contextos específicos, tratando a diversidade de situações e de pessoas como um bloco amorfo e caracterizado, na melhor das hipóteses, pela noção de perfil estatístico; o tratar a comunicação como informação, ignorando sua dimensão de interlocução. Deste modo, não se abre espaços para a criação de canais de escuta que seriam, no seu reverso, canais de expressão da população, que poderia assim contribuir muito para a compreensão de suas reais necessidades. Esta situação é agravada pela ausência de políticas de comunicação, sendo estas conduzidas por atendimento de demandas, fazendo com que as decisões sejam pautadas

por

pressões

externas,

interferências

políticas

ou

emergências

epidemiológicas, mas não pelas necessidades e perspectivas da população (Araújo, 2009). As considerações anteriores nos permitem enunciar a terceira afirmação que ordena nosso argumento: a comunicação negligenciada nega princípios do Sistema Único de Saúde. Sem muito esforço, podemos enumerar cinco destes princípios, três doutrinários e dois organizativos: a universalidade, a integralidade e a equidade; a descentralização e a participação. Não temos efetivamente uma comunicação para todos, nem uma comunicação que contemple equitativamente as necessidades diferenciadas. Não temos uma comunicação que procure integrar suas diferentes dimensões e não que cuide, como ocorre, apenas do seu aspecto informacional. Por outro lado, a comunicação negligenciada, operando de forma centralizada, age no sentido de dificultar a participação da população que, em última análise, deveria resultar de uma comunicação universal, integral, equitativa e descentralizada (Araújo & Cardoso, 2007). A descentralização, aplicada à comunicação, supõe a desconcentração do direito de falar, que em termos pragmáticos só pode ser pensada com descentralização dos recursos para comunicação, condição importante para favorecer uma efetiva participação. Nunca é demais lembrar que participar, em


comunicação, não é só acorrer aos chamados dos dias D, não é corresponder aos apelos das campanhas. É ter acesso aos meios de produzir e fazer circular seus próprios sentidos, seus discursos, seus saberes, modos de entendimento da saúde e da vida e suas necessidades daí decorrentes e ter a possibilidade de vê-los incorporados aos planos da saúde pública. Participar é poder ser ouvido e levado em consideração. Falando coletivamente, é ter a chance de discutir seus problemas e encontrar soluções locais, que respeitem os contextos, a cultura local e que possam ser incorporadas como políticas públicas, também, com todos os riscos que isso comporta. Retomando o argumento de que a comunicação deveria ser incluída como indicador de negligenciamento, sabemos que este entendimento exige que se abra mão ou se relativize a visão dominante de que ela é apenas um conjunto de instrumentos a serviço da divulgação do conhecimento produzido em outras áreas. Essa visão instrumental da comunicação nos impede de compreender suas outras dimensões, que a antecedem, que são fundamentais para entender os processos sociais da saúde e que fazem, por isto, com que a comunicação, à revelia dos documentos oficiais da área, seja um dos determinantes sociais da saúde: ter acesso à comunicação – e não só à informação – é condição de acesso à saúde. Em decorrência, o direito à comunicação é inalienável do direito à saúde. Entre outras, há duas dimensões da comunicação que gostaríamos de ressaltar, por serem sistematicamente ocultadas pelo modelo dominante. Uma, que a comunicação é um campo de produção de saberes e conhecimentos. Através de suas práticas, sem dúvida, inclusive e fortemente a midiática; mas principalmente um campo de pesquisas e não apenas um relê entre conhecimentos produzidos por outros campos e a população. Outra dimensão, a de que a comunicação é permeada e ao mesmo tempo constitutiva das relações de poder. Ou seja, é lugar de expressão e embate de diferentes interesses, por isto mesmo lugar de constituição das relações de poder. Não é um processo neutro, nem um lugar neutro, meramente tecnológico, por onde circulam informações. É lugar de interlocução, é prática social e, como toda prática, é determinada e determina as relações de poder. Isso nos desautoriza a pensar a comunicação na saúde como um lugar de convergência de inocentes interesses, de


pessoas dispostas simetricamente na topografia social e institucional, em busca da verdade e do bem comum. Antes, é campo de lutas e de disputas de poder. No cenário da comunicação negligenciada temos algumas exceções que complexificam as reflexões. Exemplificamos com a dengue, com um volume de comunicação que, nos tempos de epidemia, ultrapassa o da AIDS e a tuberculose, com um recente aporte, que dependendo das circunstâncias pode crescer ou minguar. Poderíamos cogitar, como hipótese a ser investigada, que o investimento em comunicação para estes agravos aponta para a vinculação da comunicação ao campo político. Assim, o alto investimento da comunicação na dengue, que começa no início dos anos 2000, poderia ter sua origem não apenas na emergência da epidemia, mas na vinculação desta a contextos eleitorais. A tuberculose, por sua vez, só começou a aparecer no cenário da comunicação pública a partir do apoio financeiro do Fundo Global contra a Aids, Tuberculose e Malária, portanto, sendo beneficiado por um motor externo, como antes o fora a Aids e – também é uma hipótese a ser comprovada – pela sua vinculação com a Aids. O que queremos ressaltar é que, mesmo no caso destas exceções, não temos políticas de comunicação que atendam aos princípios de universalidade, equidade e integralidade; temos planejamentos circunstanciais, orientados em geral por perspectivas e prioridades (epidemiológicas e políticas, por exemplo) que não correspondem às necessidades e perspectivas da população, aumentando assim seu negligenciamento. Como afirmaram Araújo e Cardoso, “a comunicação  que  queremos  [e que as doenças negligenciadas necessitam] precisa considerar os contextos, levar em conta os processos políticos de estabelecimento de prioridade, as condições sociais, materiais, institucionais e também subjetivas de produção dos sentidos e, muito importante, ter clara a importância das relações de poder que determinam e são determinadas pelos processos e pelas práticas comunicativas”. (2007, p. 110-111)

5. Ponto de chegada, ponto de partida Este é um momento bom para se repensar a comunicação negligenciada. As doenças negligenciadas estão tendo mais atenção dos gestores da saúde e a comunicação não pode ficar de fora disso.


O descaso e as práticas inadequadas de comunicação não atingem apenas as populações negligenciadas, mas é forte nelas e agrava sua condição de negligenciamento. A dimensão política das doenças negligenciadas, que as tornam inaceitáveis, também se aplica à comunicação. É inaceitável que, nos tempos de hoje, continue se praticando uma comunicação que fecha os olhos para aquilo que resiste e insiste em clamar (“o pulso  ainda  pulsa”,  como  diriam  os  Titãs), que continue abafando as vozes silenciosas e silenciadas, que continue se recusando a mostrar o que continua invisível aos olhos públicos, apesar de sua trágica materialidade: milhões de pessoas que não têm garantido o direito à saúde. Este paper resultou da colaboração entre uma pesquisadora e dois de seus orientandos de doutorado, com quem vem experimentando um processo de produção de conhecimentos em que as reflexões e descobertas de um alimentam as dos demais, numa profícua interlocução. Seus contextos pessoais e institucionais foram parte das condições de produção (Verón, 1980) destas reflexões. Assim, a pesquisadora, doutora em comunicação e cultura, tendo dedicado parte da sua trajetória a segmentos da população desfavorecidos no equilíbrio das forças sociais, vem nos últimos dez anos coordenando ou orientando (ICICT/Fiocruz) pesquisas que evidenciam como políticas, estratégias e práticas de comunicação são constitutivas dos sentidos da saúde e das relações de poder. O doutorando em fase de qualificação, mestre em Comunicação e Cultura, desenvolve tese sobre a (in)visibilidade como problema de comunicação e de saúde; sendo jornalista, trabalha na RADIS – Revista de Comunicação e Saúde (ENSPFiocruz), que faz circular por todo o país as vozes dos múltiplos atores da saúde. A jornalista e mestra em Ensino em Biociências e Saúde, que recém ingressou no doutorado, é coordenadora de jornalismo e comunicação no IOC/Fiocruz, promovendo a circulação do conhecimento científico e do debate em torno das doenças negligenciadas. O lugar de fala dos três autores evidencia a existência, no âmbito de uma instituição de saúde, de uma abordagem da comunicação que ultrapassa largamente sua concepção instrumental e a constitui como lugar, processo e objeto de produção de conhecimento, permitindo, desta forma, o questionamento e o redimensionamento do seu lugar no campo da saúde.


Foi desse lugar que falamos, ao longo deste paper, em doenças negligenciadas – termo que aponta para a dimensão técnica do problema, mas falamos também em doenças inaceitáveis – que aponta para a dimensão política. A dimensão técnica pede soluções

técnicas:

mais

pesquisa,

recursos

financeiros,

investimento

em

desenvolvimento de fármacos e tecnologias de diagnóstico. A dimensão política pede investimento em educação e cultura, ampliação do acesso aos serviços, informação e comunicação. Pede uma comunicação afinada com os princípios doutrinários e as diretrizes do SUS. Que não seja pautada por interesses econômicos, mas pelas diferentes necessidades da população. Que favoreça e potencialize os recursos locais e a participação da população na definição, implantação e avaliação das políticas de saúde que lhes dizem respeito. Que trabalhe para fortalecer as pessoas, grupos e comunidades no sentido de não só compreender quais são seus direitos, mas lutar por esses direitos, que implicam fortemente o direito à comunicação. A comunicação que queremos e precisamos para garantir o direito à saúde, nesta nossa sociedade em que a visibilidade é condição de cuidado, necessita, entre outros movimentos,  “escutar e entender os silêncios, as ausências, amplificar as vozes historicamente abafadas, entender os sentidos clandestinizados por força das estruturas e práticas autoritárias”   (Araújo   e   Cardoso,   2007). Em outras palavras, necessita promover o reconhecimento daquilo e daqueles que não estão em cena. Estas questões e reflexões podem nos levar a muitos caminhos para o pensar. O caminho que enveredamos aqui mobilizou uma rede de palavras que constroem um cenário: negligência, silêncio, esquecimento, visibilidade, reconhecimento, cuidado, comunicação. Rede semântica que partiu e converge para doenças e populações negligenciadas. E implica a comunicação. Para o bem e para o mal.


Bibliografia Araújo, I.S. (2004). Mercado simbólico: um modelo de comunicação para políticas públicas. Interface: Comunicação, Saúde e Educação , 8(14), 165-178. ____. (2009). Políticas e práticas de comunicação no SUS: mapeamento, diagnóstico e metodologia de avaliação (Relatório de pesquisa). Rio de Janeiro: LACES/ICICT/Fiocruz. Araújo, I.S., & Cardoso, J. M. (2007). Comunicação e Saúde. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz. Barreto, M.L., & Carmo, E.H. (2007). Padrões de adoecimento e de morte da população brasileira: os renovados desafios para o Sistema Único de Saúde. Ciênc. saúde coletiva, 12, suppl., 1179-1790. Bourdieu, P. (1982). A economia das trocas linguísticas. O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp. Brasil, Ministério da Saúde. (2011). Plano de ações estratégicas para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) no Brasil 2011-2022. Brasília: Ministério da Saúde. Recuperado em 20 setembro, 2011, de http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/cartilha_plano_final_11.pdf Buss, P.M., & Filho, A.P. (2007). A saúde e seus determinantes sociais. Rev. Saúde Coletiva, 17 (1), 77-93. Conteh, L., Engels, T., & Molyneux, D.H. (2010). Socioeconomic aspects of neglected tropical diseases. Lancet, 16, 375(9710), 239-247. Costa, F.B. (2004). Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social. São Paulo: Ed. Globo. De Lavor, A. (2011). Sobre medos e objetivos, negligências e cuidados. Texto apresentado na disciplina Portfólio IV, Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde/Icict/Fiocruz. Rio de Janeiro. Foucault, M. (1977). A vida dos homens infames. In: Le cahiers du chemin, 29. Frohmann, B. (2008). O caráter social, material e público da informação. In Fujita, M.S.P., Marteleto, R.M., & Lara, M.L.G. A dimensão epistemológica da Ciência da Informação e suas interfaces técnicas, políticas e institucionais nos processos de produção, acesso e disseminação da informação. São Paulo: Cultura Acadêmica; Marília, Fundepe. Ministério da Saúde, DECIT, SCTIE. (2010). Doenças negligenciadas: estratégias do Ministério da Saúde. Rev. Saúde Pública, 44 (1), 200-202. Morel, C. (2006). Inovação em saúde e doenças negligenciadas. Cad. Saúde Pública, 22 (8), 1522-1523. Oliveira, E.A., Labra, M.E., & Bermudez, J. A produção pública de medicamentos no Brasil: uma visão geral. Cad. Saúde Pública, 22 (11), 2379-2389. Orlandi, E. (1993). As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. Campinas: Ed. UNICAMP. Rosa, M. (2006). A reputação na velocidade do pensamento – Imagem e ética na era digital. São Paulo: Geração Editorial. Soares, L.E.; Bill, M.V., & Athayde, C. (2005). Cabeça de porco.Rio de Janeiro: Ed. Objetiva. Sodré, M. (2002). Antropológica do espelho. Rio de Janeiro: Ed. Vozes. Souza, W. (coord.). (2010). Doenças negligenciadas. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Ciências, Série Ciência e tecnologia para o desenvolvimento nacional – Estudos estratégicos.


Verón, E. (1980). A produção do sentido. São Paulo: Cultrix/USP. World Health Organization. (2010). First WHO report on neglected tropical diseases: working to overcome the global impact of neglected tropical diseases. Recuperado em 23 setembro, 2011, de http://whqlibdoc.who.int/publications/2010/9789241564090_eng.pdf ______. (2012). Accelerating work to overcome the global impact of neglected tropical diseases: a roadmap for implementation. Recuperado em 20 fevereiro, 2012, de http://whqlibdoc.who.int/hq/2012/WHO_HTM_NTD_2012.1_eng.pdf Whitehead, M. (1991). The Concept and Principles of Equity and Health. Health Promotion International, 6 (3), 217-228. i

Definições disponíveis em http://www.who.int/neglected_diseases/en/ e http://apps.who.int/tdr/. Sem nos preocuparmos com seus aspectos técnicos, falamos aqui de indicador como um conceito mais geral, um parâmetro que aponta e caracteriza uma dada situação e indica a distância entre esta e aquela que se desejaria ter. Precisamos, no entanto, de trabalhos científicos que desenvolvam indicadores de comunicação no campo da saúde. Conhecemos apenas a dissertação de Sílvia Santos (CPqAM/Fiocruz), denominada “Comunicação, Ciência  e  Saúde:uma  proposta  de  indicadores  de  comunicação  para  os   projetos de pesquisa do Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães/Fundação  Oswaldo  Cruz”. ii


As doenças negligenciadas e a comunicação: três afirmações e muitas questões Inesita Soares de Araújo Fundação Oswaldo Cruz / Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde / Laboratório de Pesquisa em Comunicação e Saúde Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde Rio de Janeiro – RJ – Brasil inesita@icict.fiocruz.br

Adriano de Lavor Moreira Fundação Oswaldo Cruz / Escola Nacional de Saúde Pública / Revista RADIS – Comunicação e Saúde Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (doutorando) Rio de Janeiro – RJ – Brasil delavor@ensp.fiocruz.br

Raquel Aguiar Fundação Oswaldo Cruz / Instituto Oswaldo Cruz / Assessoria de Comunicação Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (doutoranda) Rio de Janeiro – RJ – Brasil raquelaguiar@gmail.com

Resumo: O trabalho objetiva discutir as relações entre comunicação e negligenciamento, a partir de seu imbricamento na saúde pública e coletiva, particularmente pelo conceito de doenças negligenciadas. Reflete uma linha de orientação no Programa de PósGraduação em Informação e Comunicação em Saúde (ICICT/Fiocruz, Brasil), que acolhe pesquisas sobre o tema da invisibilidade e do seu reverso, a visibilidade como problemas de saúde e de comunicação. Formula e desenvolve três afirmações: 1 – a comunicação é evidência e é fator determinante do negligenciamento, devendo estar entre os indicadores que caracterizam uma doença negligenciada; 2 –a comunicação pode ser considerada negligenciada quando persevera nos velhos modelos e práticas, age de forma centralizada, privilegia exclusivamente a fala institucional, ignora os contextos, é tratada como informação e não como interlocução; 3 –a comunicação negligenciada nega princípios do Sistema Único de Saúde. A abordagem contempla, entre outros aspectos, a caracterização das doenças negligenciadas; o problema da visibilidade como uma característica marcante dos tempos atuais; a relação entre invisibilidade, negligência e cuidado; a caracterização do que se entende como “comunicação negligenciada”. Por fim, argumenta-se que importantes princípios do SUS são negados por essa falta e conclui-se que a comunicação de que precisamos, para garantir o direito à saúde, necessita promover o reconhecimento daquilo e daqueles que não estão em cena.

Palavras-chaves: Comunicação e Saúde, doenças negligenciadas, saúde coletiva, comunicação negligenciada.


1. Doenças negligenciadas, comunicação questões.

negligenciada: introduzindo

as

Tendo sido, até pouco tempo, um tema de interesse restrito às poucas instituições que a ele dedicavam seus esforços de pesquisa, as chamadas doenças negligenciadas vêm agora obtendo alguma visibilidade, seja pela insistência de alguns agravos em se fazerem presentes em âmbitos cada vez mais extensos, seja pelo movimento das organizações internacionais de saúde por uma maior eficácia em suas iniciativas de enfrentamento. Mesmo assim, por tudo e em tudo continuam merecendo o qualificativo de negligenciadas e clamando por atenção. Desejamos abordar as doenças negligenciadas pelo prisma da comunicação, no intuito de evidenciar a relação intrínseca entre comunicação e negligenciamento e assim contribuir para a compreensão deste conjunto de agravos que, se de um ponto de vista técnico são classificados de negligenciados, do ponto de vista político devemos considerar inaceitáveis. Queremos mostrar que a comunicação, pela sua ausência ou pelo modo como é tratada na saúde é, tanto quanto a pesquisa, os serviços, o desenvolvimento tecnológico e de produtos, ao mesmo tempo fator e indicador de negligenciamento ou – no seu reverso – de cuidado. Este entendimento é ocultado pela perspectiva instrumental com que ela é considerada e que ainda reina quase absoluta nos domínios da saúde. Queremos argumentar que os velhos modelos centralizadores de comunicação, que privilegiam a fala institucional, ignoram os contextos e tratam a comunicação apenas como informação são responsáveis pela ação potencializadora do negligenciamento que a prática comunicativa exerce ou fortalece. Queremos afirmar que a comunicação, assim negligenciada e, desta forma, produtora de negligenciamento nega fragorosamente alguns dos mais caros princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), particularmente os da universalidade, equidade, integralidade, descentralização e participação. Estes são os eixos em torno dos quais apresentaremos nossas ideias: considerar a comunicação evidência e fator de negligenciamento; entender o que confere a uma comunicação o caráter de negligenciada; relacionar princípios do SUS à comunicação negligenciada. Começaremos caracterizando as doenças negligenciadas nas suas


dimensões sociais, epidemiológicas e políticas. Em seguida, discutiremos a visibilidade e seu avesso, a invisibilidade, como problemas característicos da sociedade contemporânea, com seus reflexos no campo da saúde. Abordaremos a relação existente entre cuidado e negligenciamento, estabelecendo nexos entre estes e o tema da (in)visibilidade. Por fim, trataremos da comunicação negligenciada, apresentando argumentos que justifiquem o uso desta expressão. As questões que aqui nos ocupam nascem no seio de uma linha de orientação no PPGICS - Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (ICICT, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil). No âmbito de estudos sobre as relações entre instituições de saúde e população, em seus processos de produção, circulação e apropriação de informações, discursos e saberes evidenciou-se a necessidade de enfocar as ausências, os silêncios e entender melhor os mecanismos de silenciamento (Orlandi, 1993). Ali, onde há o vazio, onde só se escutam as altissonantes vozes autorizadas da mídia e das instituições, as constatações foram se avolumando e inquietações se tornaram inevitáveis: se a ausência de comunicação agrava a situação sanitária das pessoas ou de uma região, por que a comunicação não é considerada indicador de negligenciamento? Qual o papel, nesse cenário, da resistência dos modelos teóricos que relegam a comunicação a um papel neutro e meramente instrumental, mantendo-a prudentemente afastada do conjunto de ideias que pensam os determinantes sociais da saúde? Aqui, desejamos chamar atenção para estas questões, entre outras, sem a pretensão de respondê-las, mas de caracterizar uma problemática que demanda cuidado e exige investimentos em pesquisas.

2. Negligenciar, um verbo duplamente transitivo A formalidade da língua portuguesa estabelece a transitividade do verbo ‘negligenciar’, uma  vez  que  seu  sentido  somente  é  completo  mediante  um  objeto,  alvo   do negligenciamento. No caso das doenças negligenciadas, os numerosos aspectos simbólicos do termo exigem que se admita a duplicidade desta transitividade. O negligenciamento de uma doença – que evoca o discurso de segregação, periferia e esquecimento, seja pela indústria farmacêutica, pelos governos ou pelos sistemas de saúde – significa também, de forma concomitante e inextrincável, o negligenciamento


das populações vitimadas por estes agravos. Pré-existente e, ao mesmo tempo, intensificado pela ocorrência de agravos negligenciados, o negligenciamento das populações está correlacionado à pobreza, num círculo vicioso que vigora para um sexto da população mundial (World Health Organization, 2010). A afirmação de que a comunicação é evidência e fator de negligenciamento pede a recuperação de sua gênese, iniciando-se pela formulação de conceitos por organismos internacionais de referência na área, vórtices de origem da construção de sentidos que serão circulados e reformulados nas mais variadas esferas. Historicamente, a origem   do   termo   ‘doenças negligenciadas’ remonta à década de 1970,   quando   foi   criado   o   programa   da   Fundação   Rockefeller   focado   em   ‘the   Great   Neglected  Diseases’.  Três  décadas  depois  do  uso  original  do  termo,  a   organização não governamental Médicos Sem Fronteiras (MSF) propôs, em 2001, dividir as doenças em Globais, Negligenciadas e Mais Negligenciadas. No mesmo ano, o Relatório da Comissão sobre Macroeconomia e Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentaria uma classificação similar, dividindo as doenças em Tipos I, II e III, correspondentes aos estratos contemplados na segmentação proposta pela MSF. Desde então, o termo doenças negligenciadas tem sido utilizado para se referir a um conjunto de agravos infecciosos e parasitários endêmicos em populações de baixa renda, localizadas sobretudo na África, Ásia e Américas (Souza, 2010). Segundo Morel (2006), esta classificação representa uma evolução em relação à denominação ‘doenças  tropicais’, uma vez que contempla os contextos de desenvolvimento político, econômico e social, ultrapassando a perspectiva colonialista associada a um determinismo geográfico. A correlação entre as doenças negligenciadas e a pobreza das populações que afetam fica evidente nas próprias nomenclaturas adotadas pelas entidades internacionais de referência no tema, evidenciando uma construção de sentidos. Enquanto a OMS utiliza o termo   ‘doenças   tropicais   negligenciadas’, o TDR (Special Programme for Research and Training in Tropical Diseases, da OMS) emprega o termo ‘doenças  da  pobreza’ i. No âmbito nacional, o Ministério da Saúde (MS) define que as doenças  negligenciadas  são  as  que  “não  só  prevalecem  em  condições  de  pobreza,  mas   também contribuem para a manutenção do quadro de desigualdade, já que


representam forte   entrave   ao   desenvolvimento   dos   países”   (Ministério da Saúde, 2010). Há convergências e divergências no rol de agravos considerados negligenciados pela OMS e pelo TDR sendo que Hanseníase, Dengue, Doença do Sono, Oncocercose, Filariose e Esquistossomose figuram nas definições dos dois organismos. O MS, além destas, inclui em seu rol a Doença de Chagas, Leishmanioses, Malária e Tuberculose. O  primeiro  relatório  abrangente   da  OMS  sobre   o  tema,  intitulado   ‘Working to overcome the global impact of neglected tropical diseases’   (World Health Organization, 2010), foi lançado em outubro de 2010, evidenciando que o assunto é ainda bastante recente no âmbito da definição de políticas públicas globais. Segundo o documento, as doenças tropicais negligenciadas são endêmicas em 149 países e territórios, afetando mais de um bilhão de pessoas. Em fevereiro de 2011, a OMS divulgou o documento ‘Accelerating  work  to  overcome  the  global  impact  of  neglected   tropical  diseases:  a  roadmap  for  implementation’,  de  caráter  executivo e operacional, em que conclui que o investimento de US$ 2 bilhões seria suficiente para prevenir e tratar todas as pessoas em risco de contrair uma doença negligenciada até 2015 (World Health Organization, 2012). Nas perspectivas de solução para as doenças negligenciadas, convivem construções de sentidos que apontam para diferentes alternativas. Sugere-se entendêlas em função de seus tempos e prazos de viabilidade, dividindo-se em conjuntos de soluções de presente e de soluções de futuro. Esta abordagem é respaldada na argumentação de Morel (2006), que delineia as três causas principais relacionadas à permanência das doenças negligenciadas relacionadas ao que identifica como falhas. As falhas de ciência estão relacionadas a conhecimentos insuficientes, apontando para uma construção de sentidos em que a solução das doenças negligenciadas está situada no

tempo

futuro.

Ancoradas

em

soluções

disponíveis

no

presente,

independentemente de inovações científicas, as falhas de mercado dizem respeito à situação de medicamentos ou vacinas que existem, porém disponíveis a custos proibitivos, enquanto as falhas de saúde pública ocorrem quando estratégias terapêuticas acessíveis ou mesmo gratuitas não chegam às populações afetadas devido a problemas de planejamento.


Na perspectiva   pautada   nas   ‘falhas   da   ciência’,   donde   se constrói um simbolismo que fia a superação das doenças negligenciadas em soluções de futuro, emerge o discurso sobre o baixo interesse da indústria farmacêutica no desenvolvimento de alternativas terapêuticas para as doenças negligenciadas, que é um dos enunciados mais hegemônicos neste contexto. Convergem vozes que apontam a necessidade de institucionalizar mecanismos que levem as indústrias a desenvolver pesquisas para o tratamento de doenças próprias da realidade sanitária dos países pobres, sugerindo-se a intervenção do Estado no fomento de pesquisa e desenvolvimento para novos medicamentos eficazes e seguros (Oliveira, Labra & Bermudez, 2006). Ao mesmo tempo, critica-se que, embora exista financiamento para pesquisas relacionadas às doenças negligenciadas, o conhecimento produzido não se reverte em avanços terapêuticos (Ministério da Saúde, 2010). No contraponto, pautando-se nas falhas de mercado e de saúde pública, emergem construções de sentidos que enxergam no tempo presente as condições necessárias para superação das doenças negligenciadas. A defesa mais emblemática da perspectiva de soluções de presente é liderada pela OMS, que afirma que a maioria dos agravos negligenciados é prevenível pelos meios atualmente disponíveis (World Health Organization, 2010). As soluções para as doenças negligenciadas ultrapassam o campo da saúde e exigem ações multissetoriais, envolvendo políticas econômicas e sociais (Barreto & Carmo, 2007, p. 1779). Coloca-se, então, a necessidade de situar as doenças negligenciadas no contexto dos determinantes sociais da saúde, entendidos como a forma pelas quais as condições de vida e trabalho dos indivíduos e de grupos da população estão relacionadas com sua situação de saúde (Buss & Filho, 2007).

3. A (in) visibilidade e o (re)conhecimento no mundo contemporâneo O atual contexto social, político e econômico é notadamente marcado por uma cultura de dependência dos dispositivos de informação e de excessiva visibilidade. Antes de tudo, há de se considerar que se vive em uma era congestionada por imagens, com um aumento exponencial de sua produção, circulação e consumo. Estudo na área de marketing (Rosa, 2006) revela que o século XXI convive com um volume mil vezes maior de imagens do que o que existia há 100 anos: até 2006, já


havia no planeta um estoque de 900 bilhões de imagens; a cada ano, gera-se 122 bilhões de novas imagens em máquinas fotográficas e telefones celulares; em apenas um dia, as 31.750 emissoras de televisão espalhadas em todo o mundo veiculam 762 mil horas de programação; a cada segundo, cerca de 380 fotos e vídeos são transmitidos pelo sistema de mensagem multimídia dos telefones celulares. Esta supervalorização das imagens, sua interferência na vida cotidiana e na configuração do espaço público se inscrevem em um novo modo de existência – um bios midiático (Sodré, 2002),   “sintaxe   universal   que   feitichiza a realidade e reduz a complexidade das antigas diferenças ao unum do   mercado”   (p.   11).   Sob   a   égide   do   consumo, indica o teórico, somos convidados, estimulados e por vezes conduzidos a enxergar este mundo através de olhos emprestados dos aparatos de comunicação, que interferem na construção de identidades e transformam a relação com o outro, com o tempo e com o espaço; redefinem comportamentos, cada vez mais ajustados às ações mediadas pelo uso de aparelhos portáteis de experimentação do mundo; promovem novas formas de agenciamento sobre aquilo que é visível, o que é esquecível e ainda o que (e quem) se tornará inesquecível – pelo menos até o início da próxima temporada, já que os interesses se renovam como se fossem mercadorias. Frohmann (2008) debruçou-se sobre o caráter social, material e público destes “aparatos   tecnológicos”   disponíveis   para   coletar,   processar   e   utilizar   informações,   alertando   como   eles   exercem   profundos   efeitos   “na   textura,   andamento,   ritmo   e   estruturas do dia-a-dia”.   O   autor   parte   da   discussão foucaultiana sobre enunciados, quando   defende   que   estes   têm   a   capacidade   de   “disparar   eventos”   e   fazer   com   que   indivíduos passem a ser levados em consideração a partir do momento em que se produzem informações a seu respeito. Em  “A  vida  dos  homens  infames”  (1977),  Foucault  defendeu que o ponto mais intenso da vida destes sujeitos foi o momento em que foram registrados pelo poder. A materialidade do enunciado lhes deu vida e lhes garantiu um lugar na história. Analogias com os dias de hoje são possíveis, quando se vive praticamente submerso em um mundo eletrônico que exige presença constante na ribalta cibernética e oferece reconhecimento social através das mídias. Estar fora do registro – ou seja, invisível – é correr o risco de abster-se da vida em sociedade.


Neste contexto de associação da participação social à possibilidade de estar visível, surge a preocupação com aqueles que estão à margem dos processos de interação tecnológica  informacional,  com  os  que  não  “aparecem”  no  universo  digital  e   que, não por coincidência, não são retratados pelos media. No mundo destes invisíveis, falta reconhecimento e sobra negligência. Inclusive com sua saúde. Gonçalves Filho (in Costa,   2004)   define   o   fenômeno   como   “invisibilidade   pública”,  que  traz  em  sua  essência a humilhação social e a angústia. Para os indivíduos, a condição invisível representaria impeditivo para que pudessem agir e se manifestar publicamente, serem considerados sujeitos singulares, não exclusivamente tipos ou exemplares de uma espécie. A visibilidade, por outro lado, estaria associada à capacidade de se enxergar e enxergar-se no outro – um reconhecimento da alteridade, fortemente associada às condições contextuais do sujeito e de seu(s) interlocutores. Costa (2004) corrobora a definição, apresentando a invisibilidade como “desaparecimento  psicossocial  de  um  homem  no  meio  de  outros  homens”,  fenômeno   observado  entre  aqueles  que  “se  tornam  historicamente  condenados  ao  rebaixamento   social   e   político”   (p.   57)   e   que   causaria   uma   “percepção   social   neutralizada”   na   sociedade e traria como consequências a humilhação social e a reificação. Humilhação social vista aqui como desigualdade política, interdito de sua participação no âmbito público da iniciativa e da palavra, bem como da ação fundadora, do diálogo, do governo da cidade e do trabalho e da construção de sua cidadania; reificação como processo através do qual homens e relações sociais são considerados a partir de seu valor econômico e mercantil. Indivíduos e suas ações passam a existir apenas como mercadorias. Para o autor, a partir do momento em que o indivíduo não aparece como alguém que age e fala, reconhece o mundo, reflete e opina sobre ele, deixa de aparecer como cidadão. Neste sentido, tais grupos invisíveis, não considerados em sua capacidade cidadã, migram para regiões de sombra, enquanto emergem para a luz suas funções ou atribuições visíveis. Assim, o cidadão desaparece para aparecer como integrante  de  um  grupo  social   estereotipado   e/ou   marginalizado,  “a  comunidade  dos   que publicamente desaparecem”  (idem,  p.  118). São   vítimas   de   “cegueira   social”,   seja   pela   indiferença   ou   pelo   preconceito. Tornam-se socialmente invisíveis, seja por sua condição econômica ou por sua origem


social, racial ou étnica, seja por sua orientação sexual ou faixa etária, dentre outras categorias de exclusão. Para este homem que desaparece, assinala o autor, restam a vulnerabilidade, a perda de sua autonomia e de sua humanidade. Soares (2005) refere-se à   “cegueira   seletiva”   quando   trata   da   invisibilidade   social. Para ele, tornar alguém invisível é projetar sobre ele (ou ela) um estigma, um preconceito, ou ainda a indiferença e a negligência. “Quando   o   fazemos,   anulamos   a   pessoa   e   só   vemos   o   reflexo de nossa própria intolerância. Tudo aquilo que distingue a pessoa, tornando-a um indivíduo; tudo o que nela é singular desaparece. O estigma dissolve a identidade do outro e a substitui pelo retrato estereotipado  e  a  classificação  que  lhe  impomos”  (p. 175). No entanto, o autor bem adverte que nem toda visibilidade é positiva. Ele orienta que é importante situar, por exemplo, a diferença que há entre preconceito e indiferença. Nos dois casos, explica, há a anulação da pessoa, embora por meios opostos. Ao contrário da indiferença, que negligencia a presença de alguém, o preconceito corresponde a uma hipervisibilidade, que ilumina uma imagem artificial e pré-construída, obscurecendo a individualidade da pessoa, mantida na penumbra. A invisibilidade repercute na saúde dos indivíduos, em primeiro lugar por inviabilizar a garantia dos princípios doutrinários que regem o SUS. A visibilidade é determinante na construção e manutenção do lugar de fala dos indivíduos no espaço público e no mercado simbólico (Bourdieu, 1982; Araújo, 2003) das práticas e políticas de saúde. Sem ela, portanto, não há participação. E, sem participação, não há controle social. Na   ausência   da   visibilidade,   não   há   garantia   de   universalidade.   “Quem   não   é   visto não é lembrado”,  adverte  o  ditado  popular.  Na  condição  de  invisíveis,  indivíduos,   grupos e doenças não serão levados em consideração na destinação de recursos, no planejamento e na promoção de ações de prevenção, assistência e vigilância à saúde. Por outro lado, não há como se garantir equidade, princípio que apregoa tratar os diferentes em sua diversidade. Grupos não reconhecidos não constituem objetos de estudo ou de implementação de ações que visem a corrigir distorções em relação ao acesso aos bens e serviços de saúde. Se são invisíveis, não apresentam particularidades ou diferenças.


O mesmo se pode afirmar em relação à integralidade, princípio que leva em consideração as necessidades específicas de pessoas ou grupos – ainda que minoritários em relação ao conjunto da população – além da articulação dos diversos níveis de complexidade do sistema e da humanização do atendimento. Sem visibilidade, não há como garantir tais preceitos, nem como indicar ações que favoreçam a construção de um sistema que respeite ainda princípios estruturais de descentralização, regionalização, hierarquização da rede, das ações e dos serviços. Em segundo lugar, é possível afirmar que, assim como a visibilidade pode contribuir para reconhecimento de necessidades de saúde, a invisibilidade pode levar à negligência. Vejamos: diante do conhecimento e reconhecimento público de um determinado grupo social ou de um agravo pelos meios de comunicação, por exemplo, é mais provável que se garanta que sejam incluídos nas bases de dados, que se transformem em   objetos   de   pesquisas   e   “apareçam”   nas   estatísticas   oficiais,   que   sejam registrados em taxonomias e documentos oficiais e motivem a discussão de políticas públicas sobre suas questões. São os tais registros que disparam eventos, como colocou Foucault. Isso porque ser levado em consideração é ser reconhecido; é ouvir do outro algo sobre si mesmo, garantir a sua alteridade e resgatar sua humanidade. Este reconhecimento,   que   é   o   antídoto   da   “cegueira   seletiva”   apontada   por   Soares,   é,   ao   mesmo tempo, construção e confluência de visibilidades, tarefa que não se esgota apenas   com   a   “divulgação”   de   ideias   positivas   que   favoreçam   uma   boa   imagem   daquele  de  quem  se  fala.    A  visibilidade  que  aqui  se  defende  vai  além  da  “construção”   de imagem proposta por ações de marketing e/ou publicidade, sendo o resultado de um processo comunicativo dialógico, construído com a participação efetiva dos sujeitos, o mesmo que se exige para a sua conquista plena da saúde. É, portanto a necessidade de uma comunicação que possibilite os indivíduos acesso às informações, mas também seu lugar de fala, sua capacidade de interação, intervenção e autonomia nas ações que lhe dizem respeito. Em contrapartida, não se pode ignorar que nem toda visibilidade é positiva. Se a invisibilidade pode gerar a indiferença e a falta de reconhecimento, a hipervisibilidade, por outro lado, pode gerar preconceito em relação a determinados grupos e/ou enfermidades, graças a um reconhecimento parcial e enviesado.


Indivíduos podem   ser   visibilizados   por   estigmas   nada   “saudáveis”   – como aconteceu com os homossexuais em relação à infecção pelo HIV, graças à irresponsável associação feita por especialistas e mídia nos anos 1990 – o que tanto coloca o grupo em situação de vulnerabilidade quanto dificulta o combate à doença até os dias de hoje. É por isso que se defende que a negligência é constituinte da cultura de excessiva visibilidade que experimentamos; é constituída dentro de suas engrenagens; é reflexo e parte de um contexto que se afirma por permitir (e muitas vezes cultivar) a falta de cuidado com determinadas questões, situações e populações (De Lavor, 2011). A saída está indicada no dicionário de antônimos: cuidado é o contrário de negligência. Cuidado, questão central para saúde. Então, poderíamos perguntar: Como encontrar cuidado em uma sociedade baseada na notoriedade e no (re)conhecimento? Se eu não sou reconhecido, não existo para as políticas públicas, não me comunico nem se comunicam comigo, não apareço em lugar nenhum, não recebo cuidado. Eu sou negligenciado, eu adoeço.

4. A comunicação negligenciada É certo que a visibilidade por si mesma não garante o cuidado. Mas, além do reconhecimento ser uma das principais dimensões do problema, é também evidência e diz respeito diretamente ao tema central que aqui nos mobiliza, que designamos por comunicação negligenciada. Retomemos nossa primeira afirmação: a comunicação é evidência e é fator determinante do negligenciamento, devendo estar entre os indicadores que caracterizam uma doença negligenciada.ii As doenças de que estamos falando padecem de muitas negligências e uma delas, tão importante quanto as demais, é a da comunicação. Não temos, no país, uma política de comunicação específica para esse conjunto de agravos e os investimentos pontuais são irrisórios, localizados e sem continuidade. Esta lacuna resulta na ausência de uma comunicação suficiente e adequada às necessidades das populações por eles atingidas, ausência que equivale à falta de investimento em pesquisas, tecnologias, serviços e ações de saúde. Equivale e agrava. Por isto podemos afirmar que, além de


evidência, é fator de agravamento e, por um mecanismo cruel de circularidade, é também produto. Detalhando os termos, temos sua natureza de evidência, ou seja, sua ausência caracteriza negligenciamento; sua natureza de fator, ou seja, que co-determina e agrava o negligenciamento; e sua natureza de produto, uma vez que as populações assim negligenciadas não dispõem de recursos e meios para se expressar e se fazerem ouvidas e consideradas pelas esferas públicas de saúde. As ações de comunicação mais comuns na saúde são voltadas para informar e recomendar a adoção de procedimentos que em tese evitarão doenças. Em geral, são veiculadas em campanhas sazonais ou em momentos de crise, em surtos ou epidemias. O cenário da circulação desta comunicação é inequívoco: não se contempla Leishmanioses,

Chagas,

Malária,

muito

menos

Filariose,

parasitoses,

Esquistossomose... São doenças que não recebem nenhum investimento ou recebem investimentos precários do ponto de vista da comunicação. Enquanto isto, uma quantidade imensa de materiais de comunicação é voltada, por exemplo, para a Aids, que sempre recebeu muita atenção, pesquisas, investimentos. Voltamos aqui ao ponto da dupla transitividade do verbo negligenciar, aplicada à comunicação. As doenças como Chagas, Leishmanioses e outras, atingem populações pobres, que têm pouca ou nenhuma importância na economia nacional ou global. Em contrapartida, a Aids é uma doença que atinge também os países ricos e as classes abastadas e esta é uma das razões porque recebe tanto investimento, sendo privilegiada pelas políticas de comunicação. Isto nos leva à segunda afirmação, a de que a comunicação pode ser considerada negligenciada pelo modo como ela é tratada, que resulta nos seus produtos (ou na ausência dos produtos). Este modo se deve, fundamentalmente, à insistência em velhos modelos e práticas. Os modelos de comunicação que ainda hoje predominam nas instituições públicas de saúde já foram amplamente criticados teórica e politicamente, mas são suficientemente fortes para continuar pautando as definições dos modos de enfrentamento dos agravos vividos pelas populações e pelo país. São modelos que produzem práticas caracterizadas fortemente pela centralização da


produção,

que

refletem

concepções

autoritárias,

mas

também

produzem

consequências muito nefastas à saúde, entre as quais citaríamos: o privilegiar unicamente a fala institucional e amiúde desqualificar outras vozes e outros saberes; o desconsiderar os contextos específicos, tratando a diversidade de situações e de pessoas como um bloco amorfo e caracterizado, na melhor das hipóteses, pela noção de perfil estatístico; o tratar a comunicação como informação, ignorando sua dimensão de interlocução. Deste modo, não se abre espaços para a criação de canais de escuta que seriam, no seu reverso, canais de expressão da população, que poderia assim contribuir muito para a compreensão de suas reais necessidades. Esta situação é agravada pela ausência de políticas de comunicação, sendo estas conduzidas por atendimento de demandas, fazendo com que as decisões sejam pautadas

por

pressões

externas,

interferências

políticas

ou

emergências

epidemiológicas, mas não pelas necessidades e perspectivas da população (Araújo, 2009). As considerações anteriores nos permitem enunciar a terceira afirmação que ordena nosso argumento: a comunicação negligenciada nega princípios do Sistema Único de Saúde. Sem muito esforço, podemos enumerar cinco destes princípios, três doutrinários e dois organizativos: a universalidade, a integralidade e a equidade; a descentralização e a participação. Não temos efetivamente uma comunicação para todos, nem uma comunicação que contemple equitativamente as necessidades diferenciadas. Não temos uma comunicação que procure integrar suas diferentes dimensões e não que cuide, como ocorre, apenas do seu aspecto informacional. Por outro lado, a comunicação negligenciada, operando de forma centralizada, age no sentido de dificultar a participação da população que, em última análise, deveria resultar de uma comunicação universal, integral, equitativa e descentralizada (Araújo & Cardoso, 2007). A descentralização, aplicada à comunicação, supõe a desconcentração do direito de falar, que em termos pragmáticos só pode ser pensada com descentralização dos recursos para comunicação, condição importante para favorecer uma efetiva participação. Nunca é demais lembrar que participar, em


comunicação, não é só acorrer aos chamados dos dias D, não é corresponder aos apelos das campanhas. É ter acesso aos meios de produzir e fazer circular seus próprios sentidos, seus discursos, seus saberes, modos de entendimento da saúde e da vida e suas necessidades daí decorrentes e ter a possibilidade de vê-los incorporados aos planos da saúde pública. Participar é poder ser ouvido e levado em consideração. Falando coletivamente, é ter a chance de discutir seus problemas e encontrar soluções locais, que respeitem os contextos, a cultura local e que possam ser incorporadas como políticas públicas, também, com todos os riscos que isso comporta. Retomando o argumento de que a comunicação deveria ser incluída como indicador de negligenciamento, sabemos que este entendimento exige que se abra mão ou se relativize a visão dominante de que ela é apenas um conjunto de instrumentos a serviço da divulgação do conhecimento produzido em outras áreas. Essa visão instrumental da comunicação nos impede de compreender suas outras dimensões, que a antecedem, que são fundamentais para entender os processos sociais da saúde e que fazem, por isto, com que a comunicação, à revelia dos documentos oficiais da área, seja um dos determinantes sociais da saúde: ter acesso à comunicação – e não só à informação – é condição de acesso à saúde. Em decorrência, o direito à comunicação é inalienável do direito à saúde. Entre outras, há duas dimensões da comunicação que gostaríamos de ressaltar, por serem sistematicamente ocultadas pelo modelo dominante. Uma, que a comunicação é um campo de produção de saberes e conhecimentos. Através de suas práticas, sem dúvida, inclusive e fortemente a midiática; mas principalmente um campo de pesquisas e não apenas um relê entre conhecimentos produzidos por outros campos e a população. Outra dimensão, a de que a comunicação é permeada e ao mesmo tempo constitutiva das relações de poder. Ou seja, é lugar de expressão e embate de diferentes interesses, por isto mesmo lugar de constituição das relações de poder. Não é um processo neutro, nem um lugar neutro, meramente tecnológico, por onde circulam informações. É lugar de interlocução, é prática social e, como toda prática, é determinada e determina as relações de poder. Isso nos desautoriza a pensar a comunicação na saúde como um lugar de convergência de inocentes interesses, de


pessoas dispostas simetricamente na topografia social e institucional, em busca da verdade e do bem comum. Antes, é campo de lutas e de disputas de poder. No cenário da comunicação negligenciada temos algumas exceções que complexificam as reflexões. Exemplificamos com a dengue, com um volume de comunicação que, nos tempos de epidemia, ultrapassa o da AIDS e a tuberculose, com um recente aporte, que dependendo das circunstâncias pode crescer ou minguar. Poderíamos cogitar, como hipótese a ser investigada, que o investimento em comunicação para estes agravos aponta para a vinculação da comunicação ao campo político. Assim, o alto investimento da comunicação na dengue, que começa no início dos anos 2000, poderia ter sua origem não apenas na emergência da epidemia, mas na vinculação desta a contextos eleitorais. A tuberculose, por sua vez, só começou a aparecer no cenário da comunicação pública a partir do apoio financeiro do Fundo Global contra a Aids, Tuberculose e Malária, portanto, sendo beneficiado por um motor externo, como antes o fora a Aids e – também é uma hipótese a ser comprovada – pela sua vinculação com a Aids. O que queremos ressaltar é que, mesmo no caso destas exceções, não temos políticas de comunicação que atendam aos princípios de universalidade, equidade e integralidade; temos planejamentos circunstanciais, orientados em geral por perspectivas e prioridades (epidemiológicas e políticas, por exemplo) que não correspondem às necessidades e perspectivas da população, aumentando assim seu negligenciamento. Como afirmaram Araújo e Cardoso, “a comunicação  que  queremos  [e que as doenças negligenciadas necessitam] precisa considerar os contextos, levar em conta os processos políticos de estabelecimento de prioridade, as condições sociais, materiais, institucionais e também subjetivas de produção dos sentidos e, muito importante, ter clara a importância das relações de poder que determinam e são determinadas pelos processos e pelas práticas comunicativas”. (2007, p. 110-111)

5. Ponto de chegada, ponto de partida Este é um momento bom para se repensar a comunicação negligenciada. As doenças negligenciadas estão tendo mais atenção dos gestores da saúde e a comunicação não pode ficar de fora disso.


O descaso e as práticas inadequadas de comunicação não atingem apenas as populações negligenciadas, mas é forte nelas e agrava sua condição de negligenciamento. A dimensão política das doenças negligenciadas, que as tornam inaceitáveis, também se aplica à comunicação. É inaceitável que, nos tempos de hoje, continue se praticando uma comunicação que fecha os olhos para aquilo que resiste e insiste em clamar (“o pulso  ainda  pulsa”,  como  diriam  os  Titãs), que continue abafando as vozes silenciosas e silenciadas, que continue se recusando a mostrar o que continua invisível aos olhos públicos, apesar de sua trágica materialidade: milhões de pessoas que não têm garantido o direito à saúde. Este paper resultou da colaboração entre uma pesquisadora e dois de seus orientandos de doutorado, com quem vem experimentando um processo de produção de conhecimentos em que as reflexões e descobertas de um alimentam as dos demais, numa profícua interlocução. Seus contextos pessoais e institucionais foram parte das condições de produção (Verón, 1980) destas reflexões. Assim, a pesquisadora, doutora em comunicação e cultura, tendo dedicado parte da sua trajetória a segmentos da população desfavorecidos no equilíbrio das forças sociais, vem nos últimos dez anos coordenando ou orientando (ICICT/Fiocruz) pesquisas que evidenciam como políticas, estratégias e práticas de comunicação são constitutivas dos sentidos da saúde e das relações de poder. O doutorando em fase de qualificação, mestre em Comunicação e Cultura, desenvolve tese sobre a (in)visibilidade como problema de comunicação e de saúde; sendo jornalista, trabalha na RADIS – Revista de Comunicação e Saúde (ENSPFiocruz), que faz circular por todo o país as vozes dos múltiplos atores da saúde. A jornalista e mestra em Ensino em Biociências e Saúde, que recém ingressou no doutorado, é coordenadora de jornalismo e comunicação no IOC/Fiocruz, promovendo a circulação do conhecimento científico e do debate em torno das doenças negligenciadas. O lugar de fala dos três autores evidencia a existência, no âmbito de uma instituição de saúde, de uma abordagem da comunicação que ultrapassa largamente sua concepção instrumental e a constitui como lugar, processo e objeto de produção de conhecimento, permitindo, desta forma, o questionamento e o redimensionamento do seu lugar no campo da saúde.


Foi desse lugar que falamos, ao longo deste paper, em doenças negligenciadas – termo que aponta para a dimensão técnica do problema, mas falamos também em doenças inaceitáveis – que aponta para a dimensão política. A dimensão técnica pede soluções

técnicas:

mais

pesquisa,

recursos

financeiros,

investimento

em

desenvolvimento de fármacos e tecnologias de diagnóstico. A dimensão política pede investimento em educação e cultura, ampliação do acesso aos serviços, informação e comunicação. Pede uma comunicação afinada com os princípios doutrinários e as diretrizes do SUS. Que não seja pautada por interesses econômicos, mas pelas diferentes necessidades da população. Que favoreça e potencialize os recursos locais e a participação da população na definição, implantação e avaliação das políticas de saúde que lhes dizem respeito. Que trabalhe para fortalecer as pessoas, grupos e comunidades no sentido de não só compreender quais são seus direitos, mas lutar por esses direitos, que implicam fortemente o direito à comunicação. A comunicação que queremos e precisamos para garantir o direito à saúde, nesta nossa sociedade em que a visibilidade é condição de cuidado, necessita, entre outros movimentos,  “escutar e entender os silêncios, as ausências, amplificar as vozes historicamente abafadas, entender os sentidos clandestinizados por força das estruturas e práticas autoritárias”   (Araújo   e   Cardoso,   2007). Em outras palavras, necessita promover o reconhecimento daquilo e daqueles que não estão em cena. Estas questões e reflexões podem nos levar a muitos caminhos para o pensar. O caminho que enveredamos aqui mobilizou uma rede de palavras que constroem um cenário: negligência, silêncio, esquecimento, visibilidade, reconhecimento, cuidado, comunicação. Rede semântica que partiu e converge para doenças e populações negligenciadas. E implica a comunicação. Para o bem e para o mal.


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Definições disponíveis em http://www.who.int/neglected_diseases/en/ e http://apps.who.int/tdr/. Sem nos preocuparmos com seus aspectos técnicos, falamos aqui de indicador como um conceito mais geral, um parâmetro que aponta e caracteriza uma dada situação e indica a distância entre esta e aquela que se desejaria ter. Precisamos, no entanto, de trabalhos científicos que desenvolvam indicadores de comunicação no campo da saúde. Conhecemos apenas a dissertação de Sílvia Santos (CPqAM/Fiocruz), denominada “Comunicação, Ciência  e  Saúde:uma  proposta  de  indicadores  de  comunicação  para  os   projetos de pesquisa do Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães/Fundação  Oswaldo  Cruz”. ii


Mapeamento das práticas comunicacionais radiofônicas como terapia psicossocial nos serviços de saúde mental no Brasil GT 5– Comunicación y Salud Danielle Barros Silva Fortuna1 Valdir de Castro Oliveira2

RESUMO Resumo - Este trabalho teve como objetivo fazer um mapeamento das experiências radiofônicas utilizadas como práticas terapêuticas psicossociais desenvolvidas nos serviços de saúde mental no Brasil. A nossa hipótese foi a de que essas oficinas propiciam novos modos de cuidado em saúde mental na perspectiva das estratégias contemporâneas antimanicomiais. A justificativa foi a de que as experiências com a utilização de oficinas de rádio como terapia psicossocial a usuários de saúde mental têm sido relatadas, porém as informações a este respeito - onde ocorrem, metodologias e resultados - encontram-se dispersas na literatura com o propósito de fazer um mapeamento dessas experiências analisando onde elas ocorrem, quais atores envolvidos e que tipo de procedimento pedagógico são utilizados nestes processos. O mapeamento realizado concentrou-se nas experiências de terapias comunicacionais realizadas através de rádio (em ondas eletromagnéticas, oficinas em estúdio em circuito interno e webrádio). Palavras-chave: Comunicação, Informação, Saúde Mental, Rádio, Webrádio. 1 INTRODUÇÃO A construção do campo da Saúde mental no Brasil teve início através da implantação de políticas de saúde marcadas pelo Alienismo, caracterizado pela exclusão social (Oliveira & Melo, 2011). Até os anos 80, o atendimento psiquiátrico foi pautado pela crença na loucura como forma de doença e, assim, para seu tratamento é utilizado mecanismos que objetivam trazer o indivíduo à realidade, por meio de práticas de violência e confinamento (Amarante, 2007). Os maus tratos sofridos pelos pacientes durante o tratamento psiquiátrico e as más condições de trabalho aos profissionais do setor, propiciaram um espaço para a reflexão por

1

Licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), mestranda em Informação e Comunicação em Saúde no Programa de Pós-graduação do Instituto de Comunicação (PPGICS) e Informação Científica e Tecnológica (ICICT) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), Brasil. Bolsista CAPES. Email:danbiologa@gmail.com 2 Doutor em Ciências da Comunicação. Docente do PPGICS/ICICT/FIOCRUZ, Brasil. E-mail: valdirco@yahoo.com.br


uma possível Reforma Psiquiátrica que ampliasse o conceito de doença mental e humanizasse os tratamentos nessa área. Influenciada principalmente pelos modelos europeus, a Reforma Psiquiátrica no Brasil, teve início a partir da década de 1970, período em que foi desencadeado o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM) com o objetivo de protagonizar a luta em prol da reforma da assistência psiquiátrica nacional (Amarante, 2007). Na década de 1980, houve a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) e a criação do primeiro Centro de Atenção Psicossocial 3 (CAPS). A atual política de saúde mental brasileira tem como pilares os princípios do SUS e diretrizes da Reforma Psiquiátrica, que preconizam o resgate da cidadania do sujeito com sofrimento psíquico, tendo como meta sua reinserção social através de um modo psicossocial de cuidado em saúde mental. Dessa forma, surgiu a política de redução dos leitos hospitalares psiquiátricos e implantação de recursos terapêuticos substitutivos do aparelho manicomial, as terapias psicossociais (Ribeiro, 2003). Nesse sentido, dentro das estratégias antimanicomiais, as oficinas terapêuticas psicossociais têm um papel de destaque e engloba numerosas possibilidades, como: artesanato, teatro, capoeira, artes plásticas, entre outras. Neste contexto, surgiram as oficinas midiáticas como terapia psicossocial. As oficinas midiáticas consistem em encontros geralmente na própria unidade de saúde (CAPS), onde os pacientes desenvolvem a produção e apresentação de programas utilizando mídias: rádio, webrádio, fotografia, TV, etc. Em geral, essas oficinas têm como objetivos promover a socialização e desenvolver as habilidades comunicacionais dos participantes além de sensibilizar as pessoas nos ambientes sociais em que estão inseridos a superar o estigma em torno das questões relacionadas com a saúde mental (Fortuna & Oliveira, 2011). 3

Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) objetivam acolher pacientes com transtorno mental com projeto terapêutico voltado a estimular a integração familiar e reinserção social através do acesso ao trabalho, lazer e direitos civis visando fortalecer laços familiares e comunitários.


De acordo com Amarante e Lima (2008), há uma demanda por informações acerca das terapias substitutivas em saúde mental que valorizem a arte e cultura no Brasil. Embora algumas experiências de oficinas midiáticas tenham sido relatadas, as informações a este respeito - onde ocorrem, metodologias e resultados - encontram-se dispersas na literatura. Através de um estudo anterior (Fortuna & Oliveira, 2011), em foi feita uma identificação preliminar das oficinas midiáticas comunicacionais como terapia psicossocial nos serviços de saúde mental no Brasil, foi possível localizar um número significativo de experiências de práticas terapêuticas comunicacionais em serviços de saúde mental através de oficinas de rádio, webrádio, TV, oficinas de fotografia, construção de jornal, sites e produção de vídeos. No entanto, neste artigo, concentramos-nos apenas no mapeamento das experiências de terapias realizadas através de oficinas de rádio. Assim, o objetivo deste artigo consistiu em fazer um mapeamento dessas experiências com as seguintes perguntas de pesquisa: a) Em que espaços ocorrem as oficinas radiofônicas como terapia psicossocial nos serviços de saúde do Brasil? b) De que forma (por quais processos pedagógicos) essas oficinas são desenvolvidas com os usuários? c) De que forma essas oficinas contribuem para o usuário e ao movimento da reforma psiquiátrica? Partimos da premissa de que todas estas experiências podem trazer uma contribuição positiva nos processos terapêuticos de ressocialização dos usuários dos serviços de saúde mental por propiciarem espaço de mediações e comunicação dialógica entre os usuáriosparticipantes, profissionais de saúde, familiares e comunidade.

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COMUNICAÇÃO

COMUNITÁRIA

PROMOVENDO

PARTICIPAÇÃO

CIDADÃ De acordo com Moreira (2008), a comunicação tem papel fundamental no processo de mobilização social, para a ressocialização de pessoas marginalizadas. Experiências vem sendo desenvolvidas junto a doentes mentais do país, visando ampliar a participação e o capital social


das pessoas envolvidas. A relação entre a comunicação, a cidadania, o tratamento mental e as políticas públicas, que contemplem a comunicação como parte integrante dos cuidados em saúde mental, convergem para o empoderamento que tais veículos de comunicação podem propiciar aos usuários, participantes destas práticas comunicacionais. Segundo Oliveira (2010), com a evolução tecnológica, foi possível criar novos espaços de comunicação, através da transmissão radiofônica pela Internet através das webrádios4 que podem ser facilmente implantadas sem a necessidade de licença prévia nem da tutela do Estado, para autorizar o seu funcionamento, fato que potencializa a democratização da comunicação. Moreira (2008) problematiza esta questão, quando afirma que estes novos espaços conquistados, por vezes denominados  “alternativos”,  demonstram  um   certo  distanciamento da cidadania, uma vez que, “de certa   forma,   a   denominação   de   ‘alternativos’ para os veículos realizados por eles [usuários em saúde mental], demonstra o distanciamento da cidadania plena, ainda utópica, pela ausência de democratização da mídia”. Nesse   sentido,   afirma   o   autor,   “o caminho que ora se apresenta ainda é a mídia alternativa realizada por e para minorias, que nem sempre, ou na maioria das vezes, são retratados corretamente pela grande mídia”. O autor defende que a democratização da comunicação é algo necessário e urgente, para construirmos uma sociedade mais justa e igualitária onde a comunicação seja um direito fundamental e essencial à construção de cidadania (Moreira, 2008). John Downing (2002)   denomina   esses   meios   de   “mídia   radical”,   que   engloba   uma   variedade de formatos como o grafite, o cartum, o teatro de rua, a música, experiências comunicativas na internet, entre outros e consiste em atitudes que expressam uma visão alternativa às imposições hegemônicas.

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As webrádios são aquelas transmitidas exclusivamente pela internet. Há uma discussão se o web pode ser chamado de rádio, segundo Oliveira (2010), qualquer que seja o caso ou modelo de transmissão radiofônico, o que caracteriza o rádio é a interação por ele propiciada, levando em conta a sua principal característica, o som.


Peruzzo (s.d.) afirma que estas formas de comunicação encontram-se presentes nas práticas de movimentos populares e manifestações que objetivam promover a conscientização, a organização   e   ação   de   classes   subalternas   que   “em última instância, pretendem ampliar a conquista de direitos de cidadania, não somente para pessoas individualmente, mas para o conjunto   de   segmentos   excluídos   da   população”.   Na idéia da autora, o direito à comunicação não é meramente ter acesso à informação, mas também ser protagonista para pautar e emitir conteúdos. Segundo Peruzzo, estamos diante de   “uma   outra   comunicação”   que   tem   ganhado   expressividade nas últimas décadas. Contudo, essa comunicação não chega a ser uma força predominante, mas “desempenha um papel importante de democratização da informação e da cidadania, tanto no sentido da ampliação do número de canais de informação e na inclusão de novos emissores como no fato de se constituir em processo educativo”, ressalta  a  autora,  “não só pelos conteúdos emitidos, mas pelo envolvimento direto das pessoas no que fazer comunicacional  e  nos  próprios  movimentos  populares”. Nesse sentido, Mello (2001) afirma que embora o rádio tenha o potencial de mobilizar pessoas e custo mais baixo de produção em relação que a TV, isto não é o suficiente para garantir que minorias, como os sujeitos com sofrimentos psíquicos, apropriem-se deste espaço. Para a autora, é preciso criar veículos de comunicação ou, pelo menos, programas que rompam com o sistema vertical de comunicação das grandes redes de informação que monopolizam a versão pública dos fatos. Criar formas alternativas de comunicação que promovam a cidadania, visem à conscientização, constituam um aporte para a mobilização e o fortalecimento de um grupo ou movimento social. Segundo a autora, a comunicação comunitária contribui para isso.

3 ABORDAGEM METODOLÓGICA A partir dos resultados de um estudo de identificação preliminar das práticas comunicacionais relatadas na literatura científica no Brasil (Fortuna & Oliveira, 2011), no escopo deste trabalho, nos aprofundamos em mapear as experiências de terapias


comunicacionais realizadas somente através de rádio (em ondas eletromagnéticas, oficinas em estúdio sem veiculação externa e webrádio) com usuários de serviços de saúde mental do Brasil (sendo este o critério de inclusão). Como critério de exclusão, foram descartadas as publicações que relatavam experiências com outras mídias. Realizamos pesquisa bibliográfica a partir de fontes secundárias na literatura científica. Utilizamos pesquisa nas bases de dados “LILACS” e “Scielo”, e mecanismo de  busca  “Google” e “Google Acadêmico”, portal do Ministério da Saúde (documentos e relatórios) e anais de eventos científicos. Foram também consultadas as referências bibliográficas citadas nas publicações. A escolha por esses instrumentos foi em decorrência de sua adequação para obtenção   do   objetivo   proposto.   Os   termos   utilizados:   “oficinas   terapêuticas   e   saúde   mental”,   “psicossocial   e   saúde   mental”,   “rádio   e   saúde   mental”,   “webrádio e   saúde   mental”,   compreendendo o período de 1994 a 2011. Com base nos resultados, analisamos o título e o resumo para avaliar a adequação ou inadequação, de cada publicação à nossa pesquisa. As oficinas de rádio e webrádios encontradas foram quantificadas e alguns aspectos foram analisados qualitativamente. Um quadro foi estruturado para sistematizar didaticamente as experiências mapeadas por esta pesquisa.

RESULTADOS E DISCUSSÃO A partir dos descritores utilizados, foram encontradas 63 publicações. Destas, 48 foram descartadas segundo o critério de exclusão, foram selecionadas 15 publicações que relatavam experiências com uso de oficinas de rádio como terapia psicossocial nos serviços de saúde no Brasil. As oficinas radiofônicas realizadas com usuários em saúde mental descritas na literatura foram5: Rádio Tam Tam (SP), Programa Maluco Beleza (SP), Papo-cabeça (SP), Papo Cabeça

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Listagem com informações detalhadas das experiências com oficinas midiáticas encontradas constam no QUADRO 1. Na lista constam as 16 experiências nas quais obtivemos o maior número de informações.


(RS), Coletivo Potência Mental (RS), Rádio da gente- BA (Hayne, 2004) e Ondas Parabolinóicas (SP). Além dessas, outras experiências de oficinas radiofônicas foram encontradas, porém somente em algumas citações, sem registros mais detalhados das atividades: Rádio Antena Virada em Paracambi- RJ (Amarante, 2007; Calicchio, 2007); Rádio Revolução- RJ (webrádio) (Albuquerque & Stotz, 2004), Projeto e rádio Lokomotiva em NatalRN (Guerrini, 2009; Streppel, 2011); Delírio Coletivo (webrádio) (Francisco, 2009); De perto ninguém é normal- RS (Mello, 2001; Universidade Federal de Santa Maria [UFSM], 2005), Rádio Trovão em Praia Grande- RS; Programa Cuca Legal desenvolvido no CAPS Nossa Casa em São Lourenço do Sul- RS na Rádio Comunitária Vida FM; Rádio FMIL em Santo ÂngeloRS com usuários do CAPS Santo Ângelo (Streppel, 2011), Rádio Saúde- RS (Romangnolli, 2008). Essas experiências, ainda que apenas citadas, foram quantificadas no estudo. Guerrini (2009) apresenta um estudo comparativo de três experiências com programas de rádio “produzidos  por  pessoas  com  transtornos  mentais  no  Estado  de  São  Paulo”,  a  Rádio   Tam Tam, o programa Maluco Beleza e a série Papo Cabeça. Segundo o autor, a primeira experiência registrada no Brasil, foi a Rádio e TV Tam Tam, veiculado em emissoras comerciais, localizada em Santos, São Paulo, com usuários em saúde mental da Casa de Saúde Anchieta. O projeto foi idealizado por Renato Di Renzo e durou de 1990 a 1999. A partir desta experiência, outras iniciativas semelhantes surgiram, como o programa semanal Maluco Beleza, que teve o início das atividades a partir do ano 2000 e vai ao ar semanalmente pela Rádio Educativa de Campinas, emissora mantida pela prefeitura desse município. A terceira experiência relatada pelo autor ocorreu na Rádio Cultura de Amparo, o programa Papo Cabeça, que consistiu em uma série de dez programas com uma hora de duração cada, transmitida de 2004 a 2005, portanto já encerrada. De acordo com Guerrini Jr, (2009), as menções em livros e artigos sobre essas experiências eram muito sucintas, e não esclareciam maiores detalhes, como por exemplo, se teriam acontecido realmente um programa de rádio ou apenas uma simulação de programa de rádio. Uma das principais constatações no estudo


comparativo é que o autor havia utilizado no quadro teórico do seu projeto inicial, a contextualização dessas  experiências  de  rádio  dentro  do  âmbito  das  “rádios  públicas”,  contudo,   verificou que a Rádio Tam Tam, a pioneira e que se manteve por nove anos no ar, era emitido por  emissoras  comerciais.  Para  o  autor,  “esse  longo  período  no  ar  pode  ser  tomado  como  prova   de que o programa teve grande êxito, e devia dar lucro às emissoras: de outra forma não teria passado   de   uma   experiência   passageira,   de   vida   bem   curta”.   De   acordo   com   o   autor,   uma   possível explicação é que, vinte anos atrás, mesmo nas emissoras comercias, havia um pouco mais de espaço para experimentações, o que não se verificaria na contemporaneidade, pelo caráter conservador das emissoras. Em suas considerações finais o autor afirma que a pesquisa estimulou a reflexão sobre as profundas alterações no tratamento às pessoas com transtornos mentais do século passado até os dias atuais, e o quanto estas experiências de produção de programas de rádio (inseridos no contexto mais amplo, da Reforma Psiquiátrica brasileira) proporcionaram aos participantes a oportunidade de trabalharem e de se mostrarem para um público de milhares de pessoas. Segundo o autor, a auto-estima proporcionada, a capacidade de lutar pelos próprios direitos e de se reinserir como cidadãos na sociedade são benefícios evidentes dessa atividade,  e  completa  “pareceu muito claro o alcance dessa terapia”. Fachini e Carmo-Roldão (2008) relatam a experiência da rádio Maluco Beleza, feito por usuários do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira, em Campinas, São Paulo. A pesquisa buscou demonstrar como é na prática, a produção dos programas, através da descrição dos programas exibidos nos cinco primeiros anos de existência dos mesmos. Segundo os autores, como principais resultados, foi verificado que o programa apresenta uma pluralidade de temas, o que demonstra liberdade na escolha dos assuntos, este fato contribui para que os programas expressem a identidade dos próprios usuários, além de colocar em evidência a problemática da saúde mental. Além disso, utilizando o formato jornalístico, contribui também ao apontar “uma nova visão no modo de tratar os pacientes da saúde mental em uma luta constante pelos direitos humanos e combate ao preconceito; contribuindo, assim, para o resgate da cidadania desses


usuários”. No entanto, os autores constataram uma fragmentação no processo de produção. Se, por um lado, a elaboração do programa na reunião de pauta inicia de forma riquíssima, finalizado esse primeiro encontro, o sentido de unidade do projeto começa a se diluir, pois cada usuário executa, individualmente, as tarefas que ficaram sob sua responsabilidade, designadas a cada um, na reunião de pauta. De acordo com os autores, não há um momento em que os usuários se reúnam para conversar sobre o programa produzido, tampouco entram em contato com o produto final do seu trabalho, a não ser que ouçam a edição semanal pela Rádio Educativa. Apesar disso, em suas considerações finais, afirmam que foi verificado que existe uma relação de companheirismo e amizade entre os usuários e os profissionais envolvidos com o projeto. De acordo com os autores, os dados coletados permitem afirmar que a oficina de rádio tem contribuído para o tratamento médico que os usuários recebem na unidade de saúde no Cândido Ferreira. Esta oficina demonstra uma nova forma de tratamento aos usuários de saúde mental, que almejam superar a falta de direitos humanos e combater o preconceito, tudo isso contribui para o resgate da cidadania desses usuários. É um exemplo, afirmam os autores, “de como  a  comunicação pode  ser  usada  no  processo  de  transformação  social”. A experiência da oficina de rádio Ondas Paranóicas foi descrita por Sousa (2005). Este programa foi veiculado pela emissora comunitária Rádio Cidadã, em São Paulo entre os anos de 1995 e 1997. O programa é produzido pelos usuários da Associação Franco Basaglia, uma Organização não-governamental que funciona no CAPS do município. Os assuntos tratados nos programas são variados: política, música, poesia, saúde mental, entrevistas gravadas e conversas com os ouvintes. Vale destacar que os participantes tem a oportunidade de mostrar seus talentos: recitar poesias, tocar músicas, contar suas histórias, fazer reportagens, etc. Para participar da produção dos programas primeiro é preciso passar por uma oficina onde aprendem técnicas da linguagem radiofônica (como criar pauta, aprimorar expressão oral, como realizar entrevistas, entre outros). Segundo os coordenadores do programa de rádio (composto por um


psicólogo e uma psicopedagoga), a função da oficina radiofônica é terapêutica e comprovadamente eficaz. Mello (2001) apresenta um relato sobre a experiência de oficina de rádio criado em 1999, o programa Papo-Cabeça. Esta oficina está fundamentada em três pilares teóricos para seu desenvolvimento: o rádio como espaço a ser ocupado por grupos sociais excluídos; o segundo diz respeito a importância da comunicação comunitária visando a promoção da cidadania e da sociabilidade de um grupo que ainda luta contra o preconceito social; o terceiro traz elementos que apresentam as oficinas como um espaço terapêutico para os sujeitos com sofrimento psíquico que rompa com o modelo asilar de tratamento da loucura. A proposta para realização da oficina de rádio para usuários de serviço de saúde mental foi sugerida pelo CAPS de Santa Cruz de Sul (RS) – ao curso de Comunicação Social da Universidade de Santa Cruz do Sul. A oficina é realizada semanalmente às quintas-feiras, com duração de uma hora e meia, onde os pacientes desenvolvem a produção e apresentação do programa que é veiculado quinzenalmente numa rádio comercial local (Rádio Gazeta 1180 AM), aos domingos, das 19h30min às 20h. Mello constatou que os encontros semanais funcionaram como um espaço de socialização entre os participantes, e que a experiência também serviu para desenvolver melhores habilidades comunicacionais entre os usuários. Outro fator em destaque é que o número de internações psiquiátricas diminuiu durante a realização das oficinas de rádio. Alguns usuários abandonaram a oficina por terem voltado a trabalhar, fato considerado extremamente positivo pelos profissionais de saúde do CAPS. A oficina desenvolve-se da seguinte maneira: “num encontro planeja-se o programa, com a definição do assunto, do entrevistado, dos quadros, quem é o responsável por trazer a receita e a poesia, etc. Na semana seguinte grava-se o programa com a locução dos próprios pacientes”, tudo isso  “a partir de um roteiro redigido por um estudante de jornalismo que é bolsista do projeto”. Segundo a autora, até o momento pode-se dizer que o objetivo principal do programa, que é desenvolver uma oficina de rádio visando a uma atividade terapêutica e laboral para os usuários do CAPS, foi alcançado. Foi


realizada uma avaliação, onde os usuários do CAPS reiteraram a importância da oficina para a sua recuperação e manutenção da saúde mental, todos disseram gostar da atividade ressaltando como principal benefício o fato de terem ali uma ocupação. Alguns pacientes disseram participar da   oficina   porque   poderia   falar   na   “Gazeta”,   fazendo   uma   referência   ao   fato   do   programa ser veiculado numa rádio local que é a emissora comercial de maior audiência na cidade. Dessa forma, eles sentem-se, com isso, mais valorizados socialmente. A oficina radiofônica denominada Coletivo de Rádio Potência Mental foi descrita por Gorczevski, Palombini e Streppel (2009); Palombini, Cabral e Belloc (2008) e Streppel (2011). Esta oficina surgiu em 2006, através da iniciativa de um grupo de residentes em Saúde Mental Coletiva, em associação com usuários de serviços da rede de saúde mental da cidade de Porto Alegre, que, inspirados pelos trabalhos da Rádio La Colifata, de Buenos Aires, e Nikosia, em Barcelona, produzem um programa radiofônico transmitido na Rádio Comunitária da Lomba do Pinheiro (FM 87,9), situada na periferia sul da cidade. O programa está inserido na grade de programação da rádio, composta por programas musicais, informativos, de entretenimento, religiosos, entre outras temáticas e modalidades radiofônicas. É dentro do quadro “Comunidade   em   Ação”   que   acontece   a   intervenção   do   “Potencia   Mental   em   Ação”,   que   vai   ao   ar   quinzenalmente, às sextas-feiras das 10hs às 10h30min. Diferentemente de outros programas citados, realizados nos serviços de saúde do Brasil, de acordo com Palombini et al (2008),  “o   Potência Mental tem existência fora do contexto institucional dos serviços de saúde mental de onde provêm os usuários que dele participam, o que possibilita maior fluidez e horizontalidade nas   relações   entre   os   integrantes   do   grupo”.   Os   participantes   do   programa reúnem-se semanalmente para preparação dos programas. Nesses encontros é privilegiado o tempo das conversações, frutos das vivências cotidianas, narradas pelos participantes, e a partir delas, emergem os temas e pautas a serem abordados nos programas. A cada encontro, um de seus participantes fica encarregado de produzir um relato escrito da reunião. Esses relatos vão constituindo uma memória coletiva do grupo. Em   suas   “(in)conclusões”,   Gorczevski   et al


(2009), afirmam que a experiência “sugere a emergência de saberes e práticas para a invenção e produção de sentidos de convivência com as diferenças” que podem configurar propostas nas áreas de saúde mental   e   comunicação   social”   distintas   das perspectivas homogeneizantes, “fornecendo subsídios para inclusão de tecnologias de informação e comunicação na formulação e implementação de políticas de saúde e comunicação, tendo como perspectiva um alargamento  das  potências  de  vida  na  cidade”. Hayne (2004) divulgou, através do jornal-mural fruto de uma disciplina do curso de jornalismo, a experiência vivenciada Rádio da Gente, no Hospital Juliano Moreira, em Salvador, Bahia. A rádio surgiu em 1996 com a intenção de divulgar os acontecimentos internos do hospital e o nome da rádio foi escolhido através de votação entre os pacientes. De acordo com a assistente social que fundou o projeto, Edna Nonato, a rádio estimulou os pacientes  a   falar  ao   microfone  “o   que  não   falavam   nem  para   os   médicos.   Com  a   experiência,   vários  deles  tiveram  seus  diagnósticos  mudados  e  muitos  tiveram  parte  da  doença  curada”.   De acordo com a assistente social, o rádio propiciou a integração dos usuários com a s pessoas da comunidade e a família. Segundo o Paulo Souza, doutor em psiquiatria e psicoterapia, a rádio é muito importante para difundir idéias e contribui na integração, pois na medida em que é um meio que educa e informa, já tem um sentido terapêutico. Contudo, o médico alerta que a rádio não é a única responsável pela cura, ela atua como mais um fator de tratamento que, juntamente com os psiquiatras e elementos convencionais, acelera a recuperação. Em um breve texto na página de notícias da Universidade Federal de Santa Maria, RS, a experiência De Perto Ninguém é Normal é relatada. O programa vai ao ar através da Rádio Universidade 800 AM, às segundas-feiras, quinzenalmente. O programa é fruto de um projeto de estágio de estudantes de psicologia da UFSM, é produzido e apresentado por usuários do CAPS Prado Veppo, da Prefeitura Municipal de Santa Maria, numa parceria com o Curso de Psicologia da universidade. O programa já foi veiculado na Rádio Universidade nos anos de 1999 e 2000, foi desativado, retornando em 2005, a partir da iniciativa das estudantes e de


alguns usuários que participavam do programa e hoje fazem acompanhamento no CAPS. Assim como as demais experiências descritas, um dos objetivos da rádio é oportunizar a expressão de pessoas com sofrimento psíquico (UFSM, 2005). Das 16 experiências encontradas envolvendo a utilização de oficinas midiáticas radiofônicas com usuários nos serviços de saúde no Brasil (rádio, webrádio, oficinas de circuito interno) relatadas na literatura científica, 3 experiências de oficinas radiofônicas veiculadas em rádios comerciais, 3 veiculadas em rádios públicas (municipal, universitária e educativa) e 5 experiências em rádios comunitárias (nesta categoria se enquadram: as que se autointitulam “rádios comunitárias”,   as rádios com veiculação interna no próprio serviço de saúde, as webrádios e as rádios com licença para atuar como rádio comunitária). Em 5 rádios encontradas em nossa pesquisa não obtivemos informações suficientes para enquadrá-las em uma ou outra situação. Em relação à verificação se as veiculações dos programas ocorrem em emissoras comerciais, públicas ou comunitárias, ainda que esta verificação não estivesse estipulada dentre os objetivos iniciais da pesquisa, os resultados encontrados espontaneamente nos chamou atenção. De acordo com Guerrini (2009), tratando-se de uma rádio educativa, ao veicular um programa produzido por usuários de serviços de saúde, para fins terapêuticos, a emissora estaria  “cumprindo  um  dos  papéis  que  lhe  cabe   – a de produzir programas de utilidade social, com uma visão reflexiva, crítica e transformadora, realizando, entre outros, programas que deem   atenção   às   minorias”,   uma   vez   que   essas   minorias,   “como   as   pessoas   com   transtornos   mentais, de outro modo não alcançariam a quantidade de pessoas que alcançam, não fosse um programa   de   rádio”.   Assim   como   as   rádios   públicas,   as   rádios   comunitárias   são   espaços   de   mediações entre os membros da comunidade que visam articular/conquistar interesses e direitos em comum. Entretanto, vale ressaltar que existem emissoras municipais, estaduais, universitárias e comunitárias que, embora estejam classificadas como educativas, nem sempre apresentam uma programação de cunho educativo. As emissoras comerciais ainda que possam


apresentar em sua programação quadros de utilidade pública, não possuem em sua concepção o compromisso de servir comunidades ou grupos identitários, e sim cooptar um maior número de anunciantes e publicidade visando gerar lucros à emissora mediante interesses políticos e econômicos da classe dominante. Nesse sentido, via de regra, a programação das emissoras educativas devem ser um contraponto à programação das emissoras comerciais (Carmo-Roldão & Moreira, 2004). Portanto, de acordo com o perfil de cada tipo de emissora, nos interessou verificar se as emissoras públicas e comunitárias se destacariam entre as experiências, dada a natureza da atividade pesquisada neste artigo – as oficinas de rádio com usuários de saúde mental. Ainda que maior parte das experiências relatadas tenham ocorrido em rádios públicas/educativas e comunitárias, chamou atenção as três experiências relatadas em emissoras comerciais. Também encontramos duas experiências com webrádios, a rádio Delírio Coletivo no Rio Grande do Sul, e a Revolução FM, no Rio de Janeiro, que inicialmente começou como rádio em baixa freqüência, tornando-se posteriormente webrádio. Além dessas duas experiências, foi encontrado um áudio da rádio FMIL postado em um site, o que nos sugere que este programa foi veiculado na internet. Esses dados nos indica a tendência crescente de uso da Internet como importante ferramenta de comunicação e construção de redes sociais. As maiores ocorrências das experiências com oficinas radiofônicas como terapia psicossocial por regiões foram: 8 experiências no Rio Grande do Sul, 4 relatos localizados no estado de São Paulo, 2 no Rio de Janeiro e 1 relato no Rio Grande do Norte e 1 relato na Bahia. Supomos que haja outras experiências significativas sendo desenvolvidas pelos setores de saúde mental em todo o Brasil, embora não tenham tido suas atividades registradas pela literatura científica da área. A seguir, o quadro demonstrativo das experiências radiofônicas mapeadas pela pesquisa.


QUADRO 1- EXPERIÊNCIAS COM OFICINAS DE RÁDIO E WEBRÁDIO DESENVOLVIDAS COM USUÁRIOS DE SAÚDE MENTAL NO BRASIL RELATADAS NA LITERATURA CIENTÍFICA. NOME DO PROGRAMA /PROJETO

VEÍCULO/ SUPORTE

Antena Virada

Rádio

De perto Rádio ninguém é normal

LOCAL

NATUREZA

CLIENTELA/PRODUÇÃO

PERÍODO DE OPERAÇÃO Paracambi; * * * RJ Santa Maria, Rádio Usuários do CAPS Prado RS Universidade 800 Veppo de Santa Maria, RS Alexandre Henz AM Alfredo Lameira

Delírio Coletivo

webrádio

São Pedro de Porto Alegre, RS

Ondas Paranóicas

rádio

São SP

Papo Cabeça

rádio

Santa Cruz Comercial do Sul, RS Rádio Gazeta

Papo-cabeça

rádio

Amparo, SP

Potência Mental

rádio

*

Paulo, Comunitária Rádio Cidadã

Adolescentes do Hospital CIAPS do Hospital São Pedro de Porto Alegre

* 1999-2000 e 2005-?

*

*

Usuários da Associação Franco Basaglia (ONG) que funciona Edson Fragoaz dentro do CAPS Grácia Lopes Lima

1995-1997

Usuários do CAPS de Santa Cruz do Sul, RS

1999-*

*

Pública (rádio Usuários do CAPS de Amparo, Série de 10 educativa SP Juarez Pereira Furtado programas com municipal) 1h de duração cada Veiculados 2004-2005 Porto Alegre, Comunitária Usuários do CAPS de Porto * 2006-* RS Alegre, RS

Programa Cuca rádio Legal

São Rádio CAPS Nossa Casa em São Lourenço do Comunitária Vida Lourenço do Sul- RS Sul- RS FM

Programa rádio Maluco Beleza

Campinas, SP

Projeto e rádio Lokomotiva

rádio

Natal, RN

da rádio

Salvador/ BA

Rádio Gente

IDEALIZAÇÃO

Pública (rádio Usuários do Serviço de educativa Saúde Dr. Cândido Ferreira municipal de Campinas) * *

Comunitária

2000- no ar até Prof. Ivete Cardoso do hoje Carmo-Roldão *

Usuários do Hospital Juliano Moreira Edna Amato Nonato usuários do Ângelo, RS

CAPS

*

Santo

*

*

1996-2004 (último registro de funcionamento) *

Rádio FMIL rádio (antes denominava-se Rádio CAPS)

Santo Ângelo-RS

Rádio Revolução

Rio de Comunitária Janeiro, RJ

Usuários do Instituto 1995- no ar até Municipal Nise da Silveira, RJ Taís Ladeira, Annibal hoje Amorim

webrádio

*

*

Rádio GHC

Saúde rádio

Porto Alegre/RS

Comercial

Usuários do Grupo Hospitalar Conceição (GHC)

*

1994-1995

Rádio Tam

Tam rádio

Santos, SP

Comercial

Usuários da Casa de Saúde Anchieta Renato Di Renzo * *

9 anos 1989-1998

Rádio Trovão

rádio

Praia Grande- RS

*

OBS.: As células com * significa que não obtivemos informações sobre o item.

*


CONCLUSÃO Este trabalho serviu para desenhar um primeiro panorama do perfil das experiências de oficinas radiofônicas junto aos usuários de saúde mental no Brasil, relatadas na literatura científica. Com isso julgamos contribuir para dar maior visibilidade e conhecimento sobre o desenvolvimento deste tema. As experiências mostradas fazem parte de uma busca por terapias substitutivas em saúde mental permitindo conhecer como e onde acontecem as oficinas radiofônicas que fazem parte dessa busca. Ademais, as experiências aqui apresentadas são portadoras de um potencial terapêutico que merecem avaliações mais detalhadas. Se, por um lado, não acreditamos nelas como panacéia para desatar todos os nós da complexidade que envolve o trato em saúde mental, por outro lado, é notável sua contribuição em prol das práticas terapêuticas propostas pela luta antimanicomial. Além do mais, o direito de ser cidadão dos sujeitos com sofrimento psíquico também se relaciona com o direito à comunicação que vai muito além de se ter acesso à informação na vida em sociedade. É um lugar de expressão e de afirmação de um sujeito diante de outros sujeitos no qual convergem os princípios da cidadania e da comunicação tendo como referência a reforma antimanicomial possibilitando assim a comunicação entre eles e o enfrentamento dos estigmas e dos preconceitos sociais e culturais que acompanham os sujeitos com sofrimento psíquico. Respondendo às perguntas iniciais do artigo, de acordo com a análise das experiências mapeadas no Brasil, os espaços onde ocorrem estas experiências são: inseridos nos próprios serviços de saúde mental (CAPS); fora das instituições, em rádios comunitárias; em emissoras comerciais e através da internet. Os processos pedagógicos pelos quais as oficinas são desenvolvidas passam, em geral, pela busca da comunicação dialógica e participação dos sujeitos, nos permitindo relacioná-las às idéias do educador Paulo Freire, que defendia uma educação enquanto prática libertadora voltada à construção de uma consciência crítica e forma


de intervenção no mundo. Essas oficinas, por propiciarem espaço de participação, diálogo e possibilidade de ocupação (trabalho) ao atuarem como locutores, repórteres, entrevistadores, promovem a auto-estima dos participantes, socialização e habilidades comunicacionais, uma vez que, ao contar suas histórias de vida, recitar poesias, cantar músicas, falar de seus interesses, de política, direitos, entre outros assuntos, os usuários exercitam a oralidade, objetividade e expressa sentimentos, tornando as oficinas radiofônicas uma verdadeira catarse. Isso não significa que estas oficinas ocorram desprovidas de momentos de desafios operacionais, conflitos pessoais entre os participantes, dificuldades, entraves políticos e institucionais, o que muitas vezes culminam no encerramento temporário ou definitivo de suas atividades. Embora não tenha sido o objetivo do trabalho, neste momento, avaliar o impacto ou o resultado dessas oficinas em relação aos objetivos que se propõem alcançar, podemos adiantar que, pelos resultados apresentados, as oficinas têm sido um instrumento auxiliar de grande valia para a reinserção dos sujeitos no seio social e para a desmistificação dos estigmas e preconceitos em torno das pessoas com sofrimento psíquico.

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MENSAGENS DE SAÚDE NA CULTURA CIENTÍFICA E JORNALÍSTICA: UMA ANÁLISE SEMIÓTICA

Sonia Bertol Universidade de Passo Fundo, Brasil sobertol@upf.br GT 5 Comunicación y Salud

Resumo: Este estudo investiga as convergências e as divergências na cultura científica e na cultura jornalística na divulgação do câncer de mama. Nós usamos um esquema interpretativo fornecido pela Análise de Enquadramento e pela Semiótica, para argumentar que cientistas e jornalistas comunicam as novidades da Ciência de modos diversos. Através da análise dos dados de periódicos científico e jornalístico que divulgam o câncer de mama, nós encontramos apoio significante para nossas predições. As implicações destas diferenças entre a cultura científica (interpares) e a cultura jornalística (público leigo) para a comunicação da saúde são discutidas, às vezes apresentando-se como convergências, às vezes como divergências. Palavras-chave: Comunicação da saúde. Câncer de mama. Análise de enquadramento. Jornalistas e cientistas.

Introdução e Percurso Metodológico

A Análise de Enquadramento considera que nas notícias ocorre mais do que apenas “trazer” ao   público   certos   tópicos.   O   modo   pelo   qual   as   notícias   são   trazidas,   o   enquadramento (frame) no qual as notícias são apresentadas, é também uma escolha feita pelos jornalistas. Segundo Wicks (2005, p.339, tradução nossa),

Frames tornam as pessoas aptas a avaliar, conduzir e interpretar informações baseando-se em construções conceituais compartilhadas. Deste modo, mensagens da mídia contém sugestões contextuais oferecidas por comunicadores profissionais para ajudar pessoas a entender a informação.

Assim, um  “frame”  representa  o  modo  como  a  mídia  e  os  editores  da  mídia  organizam   e apresentam as questões que eles cobrem, e o modo como as audiências interpretam o que eles   estão   oferecendo.   “Frames”   ou   enquadramentos   são   noções   abstratas   que   servem   para  


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organizar ou estruturar significados sociais. A Framing Theory ou Análise de Enquadramento defende que   a   forma   “como”   algo   é   apresentado,   influencia nas escolhas que as pessoas fazem. Gaye Tuchmann (1978, ix, tradução nossa) diz:

Em 1966, parcialmente lembrando aquelas experiências e incitado pela preocupação com a Guerra do Vietnã, comecei a estudar notícias. Eu me dei conta de que as notícias da mídia estabelecem o enquadramento no qual cidadãos discutem eventos públicos e que a qualidade do debate cívico necessariamente depende da informação disponível. Desta forma, eu queria encontrar como os que trabalham com a notícia decidem o que a notícia é, porquê eles cobrem determinados tópicos e não outros, e como eles decidem o que eu e os outros queremos saber.

A maneira como notícias de saúde são enquadradas é objeto do estudo de Menashe e Siegel (1998). Aqui os autores analisam como as questões relativas ao tabaco foram enquadradas pela mídia durante a década de 1980, o que segundo eles permitiu importantes sugestões no entendimento das causas pelas quais os esforços da saúde pública não conseguem prevalecer sobre a influência da indústria do tabaco em políticas públicas e no uso do tabaco. Seu   estudo   “descreve e analisa a tática de enquadramento predominante usada pela indústria do tabaco e pelos defensores do controle do tabaco nos últimos 11 anos através da revisão de 179 artigos de capa do New York Times e do Washington Post durante   este   período” (Menashe &

Siegel, 1998, p.307, tradução nossa) . Também para estes autores, um enquadramento é um modo de   posicionar   e   “embalar”   uma   determinada   questão   de   modo   que   isto   acabe   conduzindo a um determinado significado; ainda, é definindo como uma ênfase colocada sobre uma determinada questão, procurando definir sobre o que esta questão de fato é. Citando Schon and Rein (1994, p.310, tradução nossa), trazem sua definição de enquadramentos como

os amplamente compartilhados crenças, valores e perspectivas familiares aos membros de uma sociedade e plausíveis a permanecer nesta sociedade por longos períodos de tempo, no qual indivíduos e instituições os arranjam no sentido de dar significado, sentido e uma direção normativa para seu pensamento e ação política.

E ressaltam a importante observação de Tversky and Kahnemann (2000, p.310, tradução nossa) no caso de uma redirecionamento no modo como este enquadramento se desenvolve: “Sistemáticas   mudanças   de   preferência são observadas quando um problema é


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enquadrado de  diferentes  modos”,  ou  seja,  gerando  diretamente  uma  influência  na  decisão  dos   indivíduos. Desta maneira, pode-se considerar que, num amplo nível, o enquadramento dado a um determinado tópico forma a base através da qual decisões públicas são feitas, podendo até mesmo sugerir sua solução, se considerarmos que, se mudanças são imprimidas na visão que se tem deste tópico, mudando seu enquadramento, em decorrência disso seu desenrolar também será outro. Assim, a Análise de Enquadramento considera que, dependendo da estruturação e da argumentação que impinge-se às notícias, colocando em relevância determinados atributos em detrimento de outros, haverá uma correspondência ao modo “como”  defensores  e  oponentes de determinados fatos os lapidam e apresentam tanto aos que fazem as leis, quanto aos líderes de opinião e ao público em geral e, em conseqüência, ao comportamento de cada indivíduo. Geralmente o enquadramento mais bem sucedido é o que estrategicamente captura a opinião pública.

1 Critérios de seleção e exclusão

Nosso par de textos, constituindo o corpus selecionado como material de análise para este estudo, foi escolhido intencionalmente, desde que constituíssem informação jornalística e científica. O único critério de seleção ao qual não fugimos, foi o de que o par de textos deveria versar sobre o mesmo tema relativo ao câncer de mama, ou seja, se no jornal é tratado o tema do auto-exame da mama, por exemplo, buscou-se no paper ou artigo científico o estudo original, geralmente claramente referido no jornal. Em nosso critério de busca nas bases de dados PubMed, para o artigo científico, e Lexis Nexis, para o texto jornalístico, utilizamos como protocolo de busca: 1) período de tempo: dois anos; 2) localização: em qualquer seção do jornal e/ou periódico científico; 3) conteúdo: utilizamos o nome do periódico e as palavras cancer (câncer) e breast cancer (câncer de mama).

2 Semiótica

A tradição Semiótica vem sendo considerada como tendo implicações importantes em distintas tensões em Comunicação da Saúde, bem como seus insights também podem ser


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usados para promover inovações positivas na sua prática, sugerindo questões que podem ser manejadas para aquelas que seriam fontes e também usuários de informação da saúde. Neste sentido Babrow e Mattson (2003, p.48-49, tradução nossa) nos trazem um exemplo no qual anúncios publicitários sobre dieta constroem novos sistemas de representação no qual o corpo e a identidade são transformados.

Linguagem agressiva e signos visuais resplandecentes fazem a conexão do corpo à vitalidade, aceitação social e auto-estima. Mais do que isso, através do sistema de ‘inversão simbólica’,  a  redução  de  peso  é  transformada  em  consumo  de  produtos,  e   uma dieta com produtos industriais toma o lugar da alimentação com produtos naturais. Desta forma, a audiência se associa a um padrão de dependência crônica de produtos dietéticos e na dieta industrial – uma dependência na assistência de fora – em vez de ver a redução de peso como uma moderação de calorias.

Há muito tempo pesquisadores vêm se debatendo na compreensão da dinâmica de cientistas e jornalistas ao divulgarem novos fatos da ciência. Geralmente esta dinâmica é entendida como   “problemática”,   já   que   está   praticamente   cunhado que ambos perseguem diferentes caminhos neste sentido - jornalistas são sensacionalistas, dizem os cientistas; cientistas são herméticos, dizem os jornalistas. É possível que em nosso par de textos jornalístico, que caracterizam-se,  “em  tese,   por   sua  atualidade, universalidade, periodicidade (durabilidade  limitada)  e  difusão”,  segundo  Lage (2001, p.113), e científico, que destina-se  “a   tornar público o avanço da ciência, repartindo com os leitores novos conhecimentos, novos conceitos”,  segundo  Melo  (1994, p.119), encontremos evidências de que cientista e jornalista estão cobertos de razão ao caracterizar suas diferentes formas de comunicar a ciência. Para verificarmos isso, procuraremos utilizar o conhecimento da tradição Semiótica, considerandoa como uma importante dimensão para nos fornecer subsídios na análise e retendo sua conceituação com base em Eco (2005, p.09),   para   quem   “Pode-se começar pelas duas clássicas definições fornecidas pelos pioneiros da semiótica contemporânea, Peirce e Saussure”:


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Segundo Saussure  (1916),  “a língua é um sistema de signos que exprimem idéias, e, por isso, é confrontável com a escrita, o alfabeto dos surdos-mudos, os ritos simbólicos, as fórmulas de cortesia, os sinais militares, etc., etc. Ela é, simplesmente, o mais importante de tais sistemas. Pode-se, assim, conceber uma ciência que estuda a vida dos signos no quadro da vida social; ela poderia fazer parte da psicologia social e, em conseqüência, da psicologia geral; chamá-la-emos semiologia. [...] Ela poderia nos dizer em que consistem os signos, quais as leis que os regem. [...] parece sem dúvida mais compreensível a definição dada por Peirce: “Eu   sou,   pelo   que   sei,   um   pioneiro,   ou   antes   um   explorador,   na   atividade   de   esclarecer e iniciar aquilo que chamamos semiótica, isto é, a doutrina da natureza essencial  e  das   variedades   fundamentais  de  cada  semiose  possível”  (1931,  5.488)...   “Por   semiose   entendo   uma   ação,   uma   influência   que   seja   ou   coenvolva   uma   cooperação de três sujeitos, como por exemplo um signo, o seu objeto e o seu interpretante, tal influência tri-relativa não sendo jamais passível de resolução em uma  ação  entre  duplas”  (Eco, 2005, p.9-10).

Para Santaella (1986, p.7), “Semiótica   é   a   ciência   dos   signos”,   com   o   que   concorda   Epstein (2002 b,   p.16):   “Os   signos são entidades tão centrais e importantes em semiótica quanto  os  átomos  em  física,  as  células  em  biologia  ou  os  números  em  matemática”. Ou ainda: “signo  é  algo  que  está  por  outra  coisa”  (2002 b, p.17). Para Lúcia Santaella (1986, p.79),

O signo é uma coisa que representa uma outra coisa: seu objeto. Ele só pode funcionar como signo se carregar esse poder de representar, substituir uma outra coisa diferente dele. Ora, o signo não é o objeto. Ele apenas está no lugar do objeto. Portanto, ele só pode representar esse objeto de um certo modo e numa certa capacidade. Por exemplo: a palavra casa, a pintura de uma casa, o desenho de uma casa, a fotografia de uma casa, o esboço de uma casa, um filme de uma casa, a maquete de uma casa, ou mesmo o seu olhar para uma casa, são todos signos do objeto casa.

Ainda para Santaella (1986, p.10) Semiótica “é a   ciência   geral   de   todas   as   linguagens”;;  “é  a  ciência  que  tem  por  objeto  de  investigação  todas  as  linguagens  possíveis,  ou   seja, que tem por objetivo o exame dos modos de constituição de todo e qualquer fenômeno como   fenômeno   de   produção   de   significação   e   de   sentido” (1986, p.15);;   “a   proliferação   histórica crescente das linguagens e dos códigos, dos meios de reprodução e difusão de informações e mensagens, proliferação esta que se iniciou a partir da Revolução Industrial – veio gradativamente inseminando e fazendo emergir   uma   ‘consciência   semiótica’”   (1986, p.19). A Semiótica (apesar das diferentes origens históricas, no presente estudo adotaremos este termo, e não Semiologia) é também considerada como a mais jovem das ciências humanas e originária de três fontes distintas – nos Estados Unidos, na União Soviética e na Europa Ocidental. A tradição norte-americana é representada quase que prioritariamente por


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Charles Pierce, enquanto a européia por Ferdinand Saussure. Segundo Santaella (1986, p.74), “A Semiótica  peirceana,  concebida  como  Lógica,  não  se  confunde  com  uma  ciência  aplicada.   O esforço de Peirce era o de configurar conceitos sígnicos tão gerais que pudessem servir de alicerce   a   qualquer   ciência   aplicada”.   Já   a   Semiologia   européia   concorda   também   com   a   existência de uma ciência dos signos, cujos conceitos principais viriam da Lingüística; segundo  Barthes  (2003,  p.8),  é  “a  linguagem  que  questiona continuamente a linguagem”. Roland Barthes (2003) considera que em nosso mundo de hoje talvez não exista um outro sistema de signos de tão ampla dimensão quanto a linguagem humana. Por isso, ao examinar o cinema, a publicidade, a arte em geral, os objetos, enfim, tudo o que produza sentido, o semiólogo irá deparar-se, antes de tudo, com a verdadeira linguagem, que não é a dos lingüistas, mas sim uma segunda linguagem, cujos fragmentos nos remetem a fatos ou episódios   que,   no   entanto,   só   ganham   significado   “sob a linguagem,   mas   nunca   sem   ela”.   Desta forma procuraremos detectar no artigo científico e jornalístico que a seguir estaremos analisando, esta segunda linguagem em seus interstícios. Pela suposição de Barthes, a Semiologia é que seria uma parte da Lingüística, ao contrário do que propunha Saussure. Sendo assim, Barthes traz da Lingüística os conceitos básicos, que permitirão o desenvolvimento da pesquisa semiológica. Destes conceitos iremos reter para uso em nossa análise  “Denotação   e   Conotação”.   Ao   constatar   que  a grande maioria da população mundial só tem acesso aos acontecimentos científicos através da mídia, Sanches (2001) verificou como se dá a transformação da linguagem utilizada na comunidade científica para a linguagem midiática.  Afirma  ser  esta  “tradução”  competência do jornalista de divulgação científica, que deverá simplificar a linguagem da ciência para que o público leigo possa compreendê-la.

Para que os meios de comunicação de massa possam veicular as informações do mundo da ciência é necessário que se proceda a uma tradução, já que a linguagem da ciência é caracterizada por termos, expressões e conceitos que intentam precisão, mas que são, freqüentemente, inacessíveis para o cidadão comum (SANCHES, 2001, p.373).

Com esta afirmação concorda Epstein (2002 a, p. 82), ao considerar que

Para a maior parte da população, a realidade da ciência é aquela apresentada pelos meios de comunicação de massa. O público, em geral, conhece a ciência menos por


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meio da experiência direta ou educação prévia do que através do filtro e da imagética do jornalista.

Acrescentamos que, além de tradutor ou mediador da comunicação primária para a secundária, consideramos o papel do jornalista também como debatedor das políticas de ciência e tecnologia, como um agente das transformações da sociedade no que se refere ao acesso às inovações científicas. Assim, concordamos com Kucinski (2001, p. 297) ao afirmar que

Hoje, os meios de comunicação de massa substituem as praças públicas como espaço físico da política e portanto de comunicação. Nesse aspecto, o jornalismo não é um mediador neutro entre os vários interesses, públicos e privados, ou entre os diversos saberes e protagonistas da saúde coletiva. Goza de autonomia discursiva na criação simbólica de sentidos, pela sua capacidade de escolher ou descartar temáticas, fundir, teatralizar fatos, reformular e recriar narrativas. Pode oscilar de um extremo de conformismo e reforço dos padrões dominantes ao extremo oposto da crítica total, contribuindo para sua mudança. Nesse processo vai tornar público o que autoridades desejam manter em segredo; vai dar sentido ao que parece desconexo, desarranjar e rearranjar discurso da saúde de inspiração científica ou médica ou dos aparelhos de Estado.

Considerando, portanto,   a   “autonomia   discursiva”   do   jornalista,   como   refere-se Kucinski  no  texto  acima,   bem  como  a  “segunda  linguagem”  denominada   por  Barthes,   como   também referimos no texto acima, procuraremos analisar estas referências nos textos aqui eleitos para análise, utilizando a Análise de Enquadramento para este desvelamento, através de categorias da Semiótica, na tradição norte-americana, ou Semiologia, na tradição européia. Para   este   fim   é   que   selecionamos   propositadamente   artigos   “casados”,   ou   seja,   artigos   nos   quais é possível identificar a tradução intersemiótica, já que os pares de artigos tratam da mesma novidade científica, aparecendo sua versão no jargão médico, interpares, e na sua versão destinada ao público leigo, pouco informado sobre questões da saúde. Sanches (2001) enfocou a tradução intersemiótica na passagem da linguagem científica para a jornalística, ao analisar textos de divulgação científica e jornalística sobre o medicamento Viagra. Para tanto utilizou a noção de Semiótica Denotativa e Semiótica Conotativa, como proposta por Barthes (2003) e por Epstein (2002 b). Para Barthes (2003), qualquer sistema de significação comporta um plano de expressão (E) e um plano de conteúdo (C), dos quais se originam estas suas semióticas, sendo que a significação coincide com a relação (R) entre os dois planos, da seguinte forma: E R C.


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Vamos agora supor que tal sistema E R C se torne, por sua vez, o simples elemento de um segundo sistema, que lhe será assim extensivo; estaremos então às voltas com dois sistemas de significação imbricados um no outro, mas também desengatados, um em   relação   a   outro.   Todavia,   o   ‘desengate’   dos   dois   sistemas   pode   fazer-se de duas maneiras inteiramente diferentes, segundo o ponto de inserção do primeiro sistema no segundo, dando lugar assim a dois conjuntos opostos. No primeiro caso, o primeiro sistema (E R C) torna-se o plano de expressão ou significante do segundo sistema: 2 E R C 1 ERC ou ainda: (E R C) R C. Trata-se do que Hjelmslev chama a Semiótica conotativa; o primeiro sistema constitui então o plano de denotação e o segundo sistema (extensivo ao primeiro) o plano de conotação.

Na análise de nosso corpus, constituído por textos científico e jornalístico sobre o câncer de mama – o que mais mata a mulher brasileira, estaremos empregando as noções de semiótica denotativa e conotativa na tentativa de desvelar elementos retóricos nos mesmos. Se o “signo”   é   uma   coisa   que   faz   vir   ao pensamento qualquer outra coisa, ele também é constituído por significado e significante, sendo o primeiro o seu conceito, seu conteúdo, e o segundo sua expressão, sua imagem psíquica. Para Epstein (2002 b, p.86), considerando o que preconizaram Hjelmslev e Barthes (2003),

podemos considerar o discurso científico – comunicação primária – como uma semiótica denotativa em que a expressão ou o significante é dado pelos enunciados das leis científicas [...] e o conteúdo ou significado, dado pelas constrições da realidade codificadas pelas linguagens científicas correlatas.

Epstein (2002 a, p.86) propõe que consideremos SE = Significante e SO = Significado para situarmos as comunicações primária e secundária:

Semiótica Denotativa (Sistema real)

SE1 = Discurso científico, fórmulas,

SO1 = Fenômenos e

Comunicação

enunciados, teorias

suas inter-relações

primária

Segundo Sanches (1999, p.379), “O   substantivo   Viagra,   na   comunicação   primária,   designa um medicamento indicado no tratamento da disfunção erétil”.   O   exemplo   também   ilustra corretamente no caso da comunicação secundária, quando haveria uma transformação


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desta semiótica denotativa (significante), para uma semiótica conotativa (significado), formando um segundo discurso, derivado do primeiro, portanto um discurso metalingüístico = SO2:

Metalinguagem SE2

HJELMSLEV, 1975

SO2 SE1

Comunicação secundária

SO2

Prosseguindo com a investigação empreendida por Sanches (1999), articula-se um segundo discurso no momento em que o jornalista de divulgação científica procede à tradução intersemiótica dessas comunicações, com o objetivo de informar o leitor comum. Para Sanches (1999,  p.379),  “Nesse  segundo  discurso,  emergem  figuras  de  retórica  como  ‘a  maçã   de   agora’,   ‘a   pílula   que   faz   as   coisas   subirem’,   ‘o   cálice   sagrado   da   medicina’,   etc,   que   são   termos   que  demonstram  abrigar  ideários  diferentes”.  Já   SE2 seria o significante do discurso da divulgação científica e a retórica sobreposta a este, a conotação.

3 Artigos que participam da amostragem

No.

Título

1

Socioeconomi c Risk Factors for Breast Cancer

Revista Científica Epidemiolog y

4 Categorias de análise

Data de Publicação Julho 2004

PubMed

Título

02 anos AND cancer=2 0567 items AND breast Cancer= 2933 items

Does Stress Cause Cancer? Probably Not, Research Finds

Jornal/ Revista The New York Times

Data de Publicação 29/11/2005

Lexis Nexis 02 anos –breast cancer= 421 items; cancer AND health= 571 items


10

Teorias E N Q U A D R A M E N T O

Criação Semiótica de sentidos (Eco, 2005, 2003 a e b 1973; Barthes, 2003; Hjelmslev, 2003)

Categorias

Questões

- denotação; - conotação; - significante; - significado; - apelos dominantes; - simbologia

- Na passagem da comunicação primária para a comunicação secundária, são criados novos sentidos? - Que elementos dos artigos científicos demonstram a presença de uma semiótica denotativa? E nos artigos jornalísticos? - Qual o sentido atribuído para a Ciência? Como ela é caracterizada? - Como a  doença  “Câncer  de  Mama”   é apresentada pelos cientistas e pelos jornalistas? - Como saúde/doença são apresentadas nos artigos? - É evidente a primazia da saúde?

5 Análise dos Dados

5.1 Socioeconomic Risk Factors for Breast Cancer e Does Stress Cause Cancer? Probably Not, Research Find

Os artigos acima citados, Fatores Sócio-econômicos de Risco ao Câncer de Mama e Stress Causa Câncer? Provavelmente não, pesquisa descobre foram extraídos da revista Epidemiology, de Julho de 2004, e do jornal The New York Times, publicado em 29 de Novembro de 2005, respectivamente. Podem ser considerados como exemplos de artigo científico, o primeiro, e de artigo jornalístico, o segundo. Constituem o corpus de nossa pesquisa, que busca identificar diferenças marcantes, ainda que sutis, na maneira como cientistas e jornalistas divulgam as novidades da ciência.


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Revista Epidemiology

Jornal The New York Times

Na consulta à base de dados PubMed, sobre as quais aplicou-se um protocolo de busca para identificar características do artigo científico acima referido, encontramos 20.567 itens utilizando a palavra cancer (câncer) e 2.933 itens utilizando a palavra breast cancer (câncer de mama), num período de 02 anos. Na consulta à base de dados Lexis Nexis, também empregamos um protocolo de busca para um período de dois anos no jornal The New York Times, período que engloba a publicação do artigo acima citado, e, utilizando os termos cancer and health (câncer e saúde) e breast cancer (câncer de mama), encontramos 571 itens para o primeiro, e 421 itens para o segundo. No artigo de Epidemiology, revista científica oficial da International Society for Environmental Epidemiology, originada em 1987 em Pittsburgg, Pennsylvania, Estados Unidos, é   possível   perceber   que   14,26%   do   período   recortado   salientou   o   tópico   “câncer   de   mama”.   Nesta   revista   que   publica pesquisas originais que compreendam temas no largo espectro da epidemiologia, entendida como o estudo das relações dos diversos fatores que determinam a freqüência e distribuição de um processo ou doença infecciosa numa comunidade, o fato de o câncer de mama aparecer em quase 15% das pesquisas publicadas sobre todos os demais tipos de cânceres, denota o interesse dos pesquisadores e editores por esta doença em especial, de grande incidência no Brasil, nos Estados Unidos e no mundo todo. Esta evidência aparece ainda com mais força no jornal The New York Times, jornal publicado pela primeira vez nos Estados Unidos no ano de 1851, cuja edição diária é a


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preferida pelos líderes de opinião daquele país. É líder em circulação nos Estados Unidos, com 1 milhão e 100 mil leitores diariamente, número que sobe para 1 milhão e 700 mil aos domingos. Dos 571 itens que apareceram em nosso protocolo de busca, 421 trataram sobre o câncer de mama, o que significa que este tópico apareceu em 73,7% dos temas relacionados à saúde e ao câncer. Uma saliência elevadíssima, fazendo com que este tema esteja muito presente na vida dos leitores do Times. O câncer de mama ganhou relevância nas páginas de Epidemiology e do The New York Times, e a maneira como este tema foi abordado em ambos os periódicos, entretanto, recebeu contornos diferenciados. No que diz respeito à análise do enquadramento de nossos artigos seguindo o que preconiza a Teoria Semiótica, gostaríamos de lembrar seu conceito emitido por Santaella (1986, p. 10) como “a ciência  geral  de  todas  as  linguagens”.  Assim,  em  nossos textos há uma linguagem específica para cada um, a qual em seguida iremos verificar através do olhar da Semiótica, que se ocupa de investigar as mensagens, informações e linguagens, detectando sua significação e sentido. Para exemplificar, encontramos uma prevalência da verdade científica em ambos os textos em análise, o que era de se esperar no artigo científico, evidentemente, mas a atribuição de uma verdade quase inquestionável ao que diz a Ciência aparece quase como um embate no texto extraído do jornal, onde se sucedem argumentos que contrapõem   ciência   X   senso   comum   (ou   “crença”,   como   aparece   no   texto),   mas   há   uma   convergência de argumentos que levam o leitor a aceitar fatos apenas quando estes estiverem referendados pela Ciência:

Na segunda,   ela   pensou   que   sabia   por   que   o   câncer   tinha   atingido.   “Eu   fui   e   falei   com um time de profissionais médicos que fizeram um exame dos tumores, e eu disse,   ‘há   quanto   tempo   isso   está   aqui?’   Eles   disseram,   ‘Cinco   a   dez   anos.’   E   imediatamente,   minha   mente   saltou   para:   ‘Bem,   eu   me   divorciei.   Eu   tive   stress”.   (Kolata, 2005, p.D6, tradução nossa). A questão se há uma conexão entre stress e câncer tem confundido e intrigado pesquisadores bem como seus pacientes. Estudo após estudo tem perguntado se pessoas que desenvolvem câncer tinham mais stress nos anos antes do diagnóstico, e contrariamente, se pessoas que experimentaram extremo stress estavam mais plausíveis a desenvolver câncer. (Kolata, 2005, p.D6, tradução nossa).


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Polly Newcomb, a diretora do programa de prevenção de câncer no Cancer Research Center em Seattle, decidiu perguntar se o stress causou câncer de mama, por que as mulheres pareciam estar convencidas disso. A questão veio em seus estudos de epidemiologia do que deveria estar causando câncer. Ela costumava treinar entrevistadores para perguntar a mulheres com câncer e mulheres saudáveis que serviam como observadas sobre suas histórias médicas, seus ambientes e os medicamentos que elas estavam usando. Então os entrevistadores perguntaram às mulheres se elas tinham alguma coisa para acrescentar. Repetidamente, as mulheres com câncer   voltariam   aos   seus   entrevistadores   e   dizem,   “Porque   você   não   me   perguntou  o  que  realmente  causou   meu  câncer?”  O  que realmente causou isto, elas diriam, foi stress. Isto era plausível, Dr Newcomb deu razão. Depois de tudo, stress poderia alterar o funcionamento do sistema imune, alterando a suscetibilidade ao câncer (Kolata, 2005, p.D6, tradução nossa). Mas os resultados eram claros: não havia associação entre eventos estressantes nos primeiros cinco anos e um diagnóstico de câncer de mama. Outros estudos tinham o mesmo resultado (Kolata, 2005, p.D6, tradução nossa). A preocupação, Dr Cassileth disse, é que pacientes de câncer sobre enorme stress, freqüentemente se preocupam que eles estão danificando seu próprio prognóstico. E pacientes que olham para suas vidas e lembram que eles estiveram sob tempos estressantes antes de seus diagnósticos freqüentemente concluem que causaram o seu câncer (Kolata, 2005, p.D6, tradução nossa). Eu  disse  a  eles  que  eles  não  causaram  seu  câncer.  Absolutamente  não”.  Dr  Cassileth   disse (Kolata, 2005, p.D6, tradução nossa). A velha idéia, Dr Pardoll disse, era que cânceres crescem todo dia mas o sistema imune os destrói. Nada do que debilita o sistema imune – stress, por exemplo – pôde impedir sua sobrevivência. O resultado poderia ser um câncer que cresce o grande suficiente  para  resistir  ao  esforço  do  corpo  para  curar  ele  mesmo.  “Ninguém  acredita nisto”.  Dr  Pardoll  disse (Kolata, 2005, p.D6, tradução nossa).

Nos textos que citamos acima, pode-se perceber a permanente oposição entre o que diz a ciência e o que acredita o homem comum, com resistências de ambas as partes em desacreditar de suas próprias evidências. Mas enquanto prevalece a visão da Ciência, continua a existir a crença..:

Dr Allisson, que licenciou a técnica para Bristol-Myers Squibb, está trabalhando com Medarex para ver se o método funcionará em humanos. Mas enquanto o trabalho mostrou que o sistema imunológico pode destruir cânceres, pelo menos em ratos, a questão que atormenta muitos pacientes continua sem resposta: Um debilitado sistema imunológico, possivelmente debilitado por stress, causou câncer em primeiro lugar? Imunologistas de   câncer   são   céticos.   “Não   há   absolutamente   evidências   para   esta   associação”,   Dr   Pardol   disse   (Kolata, 2005, p. D6, tradução nossa).


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O Sr. Kiefert, agora presidente do USToo, um grupo de suporte e defesa para pacientes de câncer, não hesita ao dizer aos homens no que ele acredita: que o stress causou seu câncer, que o stress intensificou o crescimento de células de câncer de próstata que estão ainda em seu corpo, e que o stress pode bem ter causado o câncer deles também (Kolata, 2005, p.D6, tradução nossa).

A Semiótica Conotativa representa a criação deste sentido que detectamos nos trechos acima entre  “certeza”  X  “probabilidade”.  O  sentido  produzido  percebido  nas  mensagens  é  de   que, se não há uma comprovação científica das crenças de que o stress causou o câncer, de nada adiantam as percepções e históricos médicos individuais; a primazia é atribuída à Ciência. A Semiótica Conotativa é um segundo discurso que emerge ao serem criados novos sentidos, como constatamos acima e nos outros trechos a seguir, revelando o que está expresso subliminarmente nas mensagens:

Sra. Koening, que vive em Chicago, estava divorciada quatro anos antes que seu câncer fosse diagnosticado. Isto foi apenas uma coincidência, ela pensou? (Kolata, 2005, p.D6, tradução nossa)

Através das ilustrações e legendas utilizadas na matéria do jornal The New York Times, também é possível distinguir o sentido conotado utilizado na linguagem da repórter, que procura atingir o leitor comum, desprovido de conhecimento científico, ao explicar em linguagem simples, acompanhadas de ilustrações que facilitam a compreensão do leitor, o fato de os cientistas estarem questionando por que o sistema imunológico não luta agressivamente contra células de câncer. Ainda, a Semiótica Conotativa é perceptível no sentido geral de dúvida entre Ciência X crença popular proposto pelo texto, na legenda que acompanha a foto de uma paciente de câncer que tem dúvidas se teria sido uma coincidência o fato de seu câncer ter aparecido depois de ter enfrentado um momento de stress, quando se divorciou. A relação entre o câncer e o stress aparece em toda a superfície textual como uma dúvida pela Ciência, enquanto uma certeza pela crença popular. Outra categoria de análise que nos é possibilitada pela Teoria Semiótica, a chamada Semiótica Denotativa, na qual haveria um emparelhamento entre o plano da expressão (significante) e o plano do conteúdo (significado), é encontrada com evidência no discurso científico, no qual fórmulas, enunciados, termos técnicos e teorias compõem um determinado fenômeno do mundo real, transmitindo significados em si, não subjacentes à outras acepções


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em que sejam empregados. O apelo retórico predominante é o da comprovação científica, através de dados que vão sendo expostos de modo rotineiro nos objetivos científicos, ou seja, com a proposição de atingir conhecimento sistemático e seguro e com uma exposição detalhada de seu método de investigação – um dos traços mais permanentes da Ciência e também garantia de crédito que merecem as conclusões das investigações científicas. Este método, entendido como um conjunto de regras que o cientista estabelece para o desenvolvimento de seu trabalho, aparece, junto com todo o conjunto do texto extraído de Epidemiology, como uma Semiótica Denotativa, como pode-se exemplificar pelos trechos a seguir:

Métodos: dados são de uma dada população, estudo de caso de controle de câncer de mama conduzido em Wisconsin de 1988 até 1995 (n = 14.667). Dados do status sócio-econômico (SES) da comunidade e da urbanidade vieram do censo de 1990, medidos na região do censo e com o código postal. Avaliamos relações entre o nível de variáveis individual e comunitário e risco de câncer de mama usando modelos de regressão logística multi-níveis com intervenções randomizadas da comunidade (Robert et al., p.442, 2004, tradução nossa). Índice de massa corporal (BMI, calculado como peso [m]2) foi distribuído em ‘quartiles’ (1/4)   baseado   na   distribuição   de   BMI   entre   mulheres   controle (BMI <22.14, 22.14-24.68, 24.69-28.24, e 28.25 ou mais alta). Reposição hormonal foi através de hormônios não-contraceptivos intraderme via oral por 6 meses os mais. O uso de contraceptivo oral foi definido como sempre usando contraceptivos orais por 3 meses ou mais. Determinamos status pós-menopausal para mulheres que informaram  ter  passado  menopausa  natural  ou  uma  ‘oophorectomy’  (remoção  de  um   dos ovários) bilateral antes da data de referência (Robert et al., p.443, 2004, tradução nossa).

Considerações finais

Se nos detivemos na análise de textos científico e jornalístico sobre o câncer de mama, fazendo emergir deles as categorias conceituais que respondem nossas principais questões de pesquisa à luz de um esquema interpretativo que abarcou pontos de vista que consideramos essenciais na sua compreensão, foi para frisar a importância destas categorias conceituais que comprovam nossa hipótese de que há convergências e divergências na cultura científica e na cultura jornalística. Enfim, espera-se ter mostrado algumas incompreensões existentes em relação à maneira como cientistas e jornalistas divulgam as novidades da ciência, as quais caracterizam seus ethos. A proposta não foi criticar a cobertura da mídia; também não foi criticar a maneira


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como os cientistas divulgam as novidades médicas nos periódicos científicos. Simplesmente tentei caracterizar os modos diversos como estas novidades são divulgadas, procurando atingir seus públicos específicos. Se um novo sentido aparece na transposição do texto científico para o texto jornalístico, se novos atributos são ressaltados, ou se enquadramentos se repetem em um e outro texto, isto quer dizer que cientistas, quando se dirigem aos seus pares, o fazem de maneira peculiar; e que jornalistas, ao dirigirem-se ao seu público, o fazem de maneira distinta do cientista, mas por dirigirem-se a outro público.

Referências

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Robert, S. A. et al. (2004, July). Socioeconomic risk factors for breast cancer. In: Epidemiology, 14(4). Sanches, C. A. (2001). Discursos midiáticos sobre o Viagra. In: Mídia e Saúde. Adamantina: UNESCO/UMESP/FAI. Santaella, L. (1986). O que é Semiótica (4a ed). São Paulo: Brasiliense. Tuchman, G. (1978). Making News. A Study in the Construction of the Reality. New York: The Free Press; London: Collier Macmillan Publishers. Wicks, R. H. (2005). Message Framing and Constructing Meaning: An Emerging Paradigm in Mass Communication Research. In: Communication Yearbook, 29, Mahwah, New Jersey, London.


Mídia e Saúde: os editoriais sobre saúde do jornal pernambucano Jornal do Commercio. Silvia Bezerra Santos1 Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães/Fundação Oswaldo Cruz Recife, Pernambuco, Brasil Trabalho a ser apresentado no GT 5 Comunicação e Saúde

Resumo Este trabalho integra as atividades do Observatório Saúde na Mídia, projeto do Laboratório de Comunicação e Saúde, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica da Fundação Oswaldo Cruz (Laces/ICICT/Fiocruz). Em Pernambuco, por meio da unidade da instituição no Estado, o projeto monitora os jornais Jornal do Commercio (JC) e Folha de Pernambuco, jornais de linhas e políticas editoriais distintas. De agosto a dezembro de 2010, de acordo com o monitoramento realizado, os dois jornais apresentaram um total de 28 editoriais sobre saúde, sendo 7 editoriais do JC e 21editoriais da Folha de Pernambuco. Neste trabalho, nos deteremos na análise apenas dos sete editoriais sobre saúde publicados no Jornal do Commercio (JC), a partir do referencial teórico-metodológico da Semiologia dos Discursos Sociais. É um conceito que integra uma perspectiva de produção de sentidos e envolve as noções de polifonia, contexto, concorrência discursiva, poder simbólico e lugar de interlocução. Tais concepções são fundamentais para análise e compreensão do editorial, um dos gêneros primordiais do jornalismo impresso, pertencente à categoria de jornalismo opinativo. O editorial expressa a opinião da empresa jornalística diante dos fatos de maior repercussão. É um texto predominantemente argumentativo, voltado para a persuasão, para convencer o leitor sobre o ponto de vista defendido pelo empresa jornal. É o gênero de maior responsabilidade discursiva da empresa jornalística dentre os diversos da esfera midiática. Sendo assim, a análise do gênero editorial nos permite observar as diversas vozes que emergem dos editoriais sobre os temas da saúde e do Sistema Único de Saúde (SUS).

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Mestre em Saúde Pública, jornalista do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães/Fundação Oswaldo Cruz (CPqAM/Fiocruz). E-mail: sbsantos@cpqam.fiocruz.br


Introdução O projeto Observatório Saúde na Mídia integra as atividades de pesquisa do Laboratório de Comunicação e Saúde, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica da Fundação Oswaldo Cruz (Laces/ICICT/Fiocruz). Com uma equipe multidisciplinar, o projeto teve início em 2008 e envolve, além do ICICT, outras unidades da Fiocruz. Em Pernambuco, a coordenação é do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, unidade da Fiocruz no Estado. O Observatório Saúde na Mídia tem, entre outros, o objetivo de propiciar uma vigilância crítica sobre os modos pelos quais os meios de comunicação produzem sentidos sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) e temas específicos da saúde. Para tanto, realiza o monitoramento diário de alguns dos principais periódicos impressos de grande circulação em nosso país. 2 Este monitoramento consiste na leitura dos jornais, seleção das matérias publicadas que abordam o tema saúde e o Sistema Único de Saúde (SUS) e a inclusão das informações referentes a estas matérias em um banco de dados, que tem por base a plataforma eletrônica do DATASUS/FormSUS.3

Neste trabalho4, analisamos os editoriais sobre os temas de saúde no jornal pernambucano Jornal do Commercio,5 no período de agosto a dezembro de 2010, a partir do referencial teórico-metodológico da Semiologia dos Discursos Sociais. Inicialmente apresentaremos algumas características dessa abordagem, bem como do gênero editorial. As principais observações sobre os editoriais publicados feitas a partir dessas conceituações serão mostradas na sequencia. A Semiologia dos Discursos Sociais, que estuda os fenômenos sociais como fenômenos de produção de sentidos, concebe a comunicação como um grande espaço de negociação – um mercado simbólico – no qual bens simbólicos são produzidos, circulam e são apropriados. Nesse mercado, o que está sendo negociado, em última análise, é o poder simbólico, a prerrogativa de fazer ver e interpretar a realidade sob 2

No Rio de Janeiro: O Globo e O Dia; em São Paulo: Folha de S. Paulo e Jornal da Tarde; em Brasília: Correio Braziliense; em Recife: Jornal do Commercio e Folha de Pernambuco. 3 FormSUS é um serviço do DATASUS para a criação de formulários na WEB, de uso público, com Normas de Utilização definidas, compatíveis com a legislação e com a Política de Informação e Informática do SUS. Página: http://w3.datasus.gov.br/formsus/formsus.php 4 Contamos com a colaboração dos bolsistas Enrile Ribeiro e Debora Santana. 5

Pernambuco tem três grandes jornais diários:, Jornal do Commercio(JC), Diário de Pernambuco (DP) e Folha de Pernambuco. Esse último é de uma linha editorial popular, diferentemente do JC, o mais vendido atualmente no Estado, de acordo com o Instituto Verificador de Circulação (IVC). A escolha por esses dois veículos,portanto, se justifica pelas linhas e políticas editoriais distintas.


determinada ótica. A concorrência que se estabelece, então, é entre várias perspectivas possíveis sobre os fatos sociais e os agentes, perspectivas que resultarão em diferentes modos de agir sobre a realidade (Araújo, 2000). É um conceito que integra uma perspectiva de produção de sentidos e envolve as noções de polifonia, contexto, concorrência discursiva, poder simbólico e lugar de interlocução. Para observarmos os editorais sobre os temas da saúde adotamos a concepção, ou seja, o método de Análise Social de Discursos (Pinto, 1999 & Araújo, 2000), método que correlaciona os textos com suas condições de produção e circulação: condições sociais, econômicas, políticas, institucionais e situacionais. Nessa perspectiva, os conceitos de texto e contexto, ou seja, a contextualização como condição de produção de sentidos sociais, é fundamental. O discurso - conjunto de textos articulados numa prática, a prática discursiva - é situado e o sistema produtivo dos discursos é constitutivo dos efeitos que produz. Ao sistema produtivo denominamos contexto, ou, em outros termos, o conjunto de variáveis que possibilitam a existência de uma enunciação, um texto, um discurso, mantendo com eles uma relação dialética de mútua constitutividade (Araújo, 2009, p. 45).

Os contextos são campos de luta simbólica e, como tal, espaços onde os agentes desenvolvem estratégias de manutenção ou transformação da ordem dominante, seja econômica, política, ou discursiva. Ainda de acordo com Araújo gerar um texto é gerar uma estratégia, o que corresponde uma intenção de produzir sentidos. E para compreende-los é preciso compreender os mecanismos que revelem em que malha, em que rede de outros textos, aquele texto se encontra e como se manifestam naquela materialidade discursiva. O conceito de texto põe de lado os de signo, código, mensagem, tão familiares aos modelos comunicacionais, e traz à cena a preocupação com as marcas do Outro, alteridade constitutiva do sentido a partir mesmo da estruturação textual num contexto discursivo (Araújo, 2000, p.134)

Por fim, é importante chamar atenção para a questão da polifonia discursiva em que um discurso é composto por diversas vozes, algumas convocadas intencionalmente pelo sujeito da enunciação, o responsável pelo discurso e em outras a convocação é feita sem ele perceber.


Tais concepções são fundamentais para análise e compreensão do editorial, um dos gêneros primordiais do jornalismo impresso, pertencente à categoria de jornalismo opinativo. O editorial é um texto predominantemente argumentativo, voltado para a persuasão, para convencer o leitor sobre o ponto de vista defendido pela empresa jornalística. Para Beltrão (1980), o editorial   “é   a   voz   do   jornal,   sua   tribuna”   e   para   Marques de Melo (1994), “editorial   é   o   gênero   jornalístico   que   expressa   a   opinião   oficial da empresa diante dos fatos de maior  repercussão  no   momento”.  É, portanto, o gênero de maior responsabilidade discursiva da empresa jornalística dentre os diversos da esfera midiática. É importante observar a finalidade do discurso do editorial. Ainda de acordo com Beltrão (1980) ao manifestar sua opinião sobre os fatos, o grupo proprietário e administrador do jornal  têm  a  intenção  de  “orientar  o  pensamento  social  para  a  ação  na   defesa  do  bem  comum”.  Para  o  autor,  o  editorial  tem  a  finalidade  de  aconselhar  e  dirigir   a opinião dos leitores. Marques de Melo (1994), porém, afirma que ao atribuir ao editorial o sentido d e opinião da empresa jornalística é indispensável caracterizar as relações de propriedade existentes. De acordo com o autor, o editorial reflete não exatamente a opinião dos seus proprietários nominais, mas o consenso das opiniões de todos aqueles que participam da propriedade da organização, como os acionistas majoritários, os financiadores e os anunciantes: Assim sendo, o editorial afigura-se como um espaço de contradições. Seu discurso constitui uma teia de articulações políticas e por isso representa um exercício permanente de equilíbrio semântico. Sua vocação é a de aprender a conciliar os diferentes interesses que perpassam sua operação cotidiana (Melo, 1994, p.96).

Ainda, de   acordo   com   o   autor,   “embora   se   dirijam   formalmente   a   opinião   pública, na verdade  encerram  uma  relação  de  diálogo  com  o  Estado”.  Citando  Viggiano,   que diz que o editorial destina-se a uma determinada classe de leitores, os empresários e políticos, Marques de Melo (1994) entende que, por meio dos editoriais, as instituições jornalísticas procuram dizer aos dirigentes do aparelho burocrático do Estado como gostariam de orientar os assuntos públicos. A idéia de que o editorial é dirigida a uma determinada classe de leitores também é compartilhada por Carmo Chagas, ex-editor da Revista Veja,


(...) são pouquíssimos os leitores de editoriais, mas aprendi que eles são escritos exatamente para esses pouquíssimos leitores. Os empresários mais sólidos, os políticos mais perspicazes, os economistas mais consistentes, os intelectuais mais atentos constituem a elite interessada nas opiniões que aparece todo dia na imprensa (Chagas et al, 1992, como citado em Silva, 2009, p. 91).

Sobre a estrutura dos editoriais, Beltrão (1980) afirma que o editorial tem estrutura rígida e simples, iniciando com o título, introdução, discussão e, por fim, a conclusão, que pode assumir diferentes modalidades: exortação, apelo, aviso, palavra de ordem, constatação   pura   e   simples.   “De   qualquer   modo,   a   conclusão,   como   o   adverte   Mostaza tem sempre de tomar partido, pois sua finalidade é aconselhar e dirigir a opinião dos leitores. Não se pode reservar: tem de decidir-se  (...)”  (Beltrão,  1980,  p.59 ). Em síntese, como afirma Marques de Melo, o editorial é singular, porque “estruturalmente,   reproduz   um   modelo   universal   do   discurso   aristotélico;;   funcionalmente, orienta-se não como bussola da opinião pública e sim como conversação (ora matreira, ora ostensivamente   ameaçadora)   com   os   donos   do   poder”   (Melo, 1998). Assim   sendo,   a   análise   do   gênero   editorial   nos   permite   observar   “essa   conversação" sobre os temas da saúde e o Sistema Único de Saúde (SUS).

O editorial do Jornal do Commercio O Jornal do Commercio (JC) foi fundado em 1919 no Recife, Pernambuco, pelo empresário e político paraibano F. Pessoa de Queiroz e pertence desde 1987 ao grupo JCPM, iniciais do seu proprietário, o empresário João Carlos Paes Mendonça. De acordo com o site do grupo, o JCPM atua nos setores de comunicação, shopping centers (espalhados pelos Estados de Pernambuco, da Bahia,de Sergipe e de São Paulo) e imobiliário. O conglomerado de comunicação chamado Sistema Jornal do Commercio de Comunicação é formado, além do jornal, por rádio AM e FM e por uma emissora de TV, constituindo hoje a maior rede de comunicação do Estado. De acordo com dados do Instituto Verificador de Circulação (IVC), o JC é o jornal que possui a maior carteira de assinantes do Estado. O editorial do JC integra a   editoria   intitulada   “Opinião”,   que   reúne   ainda   os artigos de opinião, a charge e as cartas dos leitores.


A localização e apresentação gráfica do editorial constituem também aspectos de análise. No modelo teórico utilizado, as representações por meio da imagem são consideradas significativos dispositivos de enunciação. No período analisado6, o editorial do jornal ocupava toda a cabeça da página do lado impar. Abaixo ficavam as cartas dos leitores e a charge. Já os três artigos de opinião ficavam na página ao lado, a página par. O JC apresentava ainda duas particularidades gráficas: o nome da editoria “Opinião”, estava  localizado  do  lado  esquerdo  da  página  e,  na   mesma  linha,  à  direita   conduzido por uma imagem de uma seta duplicada - que indica dinâmica de movimento -, estão os nomes dos diretores de redação, do diretor adjunto, da editora executiva, além  dos  telefones  do  “Fale  Conosco”. (Figura 1).

Figura 1 – Página da Editoria Opinião do Jornal do Commercio publicada em 11 de dezembro de 2010.

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Em abril de 2011, o JC implantou um novo projeto gráfico e editorial dando mais destaque as cartas dos leitores, que passaram  a  dividir  a  página  impar  com  uma  coluna  chamada  “Repórter  JC”.  O  editorial  permaneceu  no  início  na   página par juntamente com os três artigos de opinião e a charge.


A outra particularidade visual, que não mais existe no atual projeto gráfico, é o “olho” 7. É um recurso que se constitui um elemento de análise importante porque revela a escolha de uma frase que sintetiza – e destaca - o conteúdo do editorial. Distribuídos pelas cinco colunas, os textos apresentam em geral, cinco parágrafos numa estrutural textual como a definida por Beltrão (1980): título, introdução, discussão e conclusão. No período analisado, os meses de agosto a dezembro de 2010, o Jornal do Commercio apresentou   um   total   de   sete   editoriais   sobre   temas   da   saúde:   “Vidas transplantadas”;;   “O   fim   da   desnutrição”;;   “O   perigo   da   superbactéria”;;   “Controle   dos   antibióticos”;;   “O   mosquito   está   ganhando”;;   “A   invasão   e   o   perigo   das   motos”   e   “Reconstrução  penosa”.  

Os editoriais sobre temas da saúde O primeiro   editorial   analisado,   com   o   título   “Vidas   transplantadas”,   foi   publicado em 11 de agosto de 2010, e teve como origem o balanço divulgado pelo Ministério da Saúde sobre os procedimentos de transplantes de órgãos realizados no primeiro semestre do ano no Brasil. A discussão é sobre a política nacional de transplante de órgãos. De  acordo   com   o   texto,  “a   falta  de   conscientização   das   pessoas sobre a doação de  órgãos,  tema  que  era  quase  tabu  até  pouco  tempo  atrás”  e  um  sistema  “burocrático” e sem   estrutura   impedem   que   o   Brasil   alcance   “as   nações   desenvolvidas”.   O último período do quinto parágrafo sintetiza os dois argumentos (“O problema é que, mesmo quando surge o potencial doador, a efetivação de transplantes esbarra na falta de infraestrutura e na burocracia, como mostrado pelo JC em matéria do dia 12 de junho”). Nesse período é possível também perceber o discurso autorreferencial, ou seja, o texto deste  editorial  referencia  esta  e  outra  reportagem  realizada  pelo  próprio  jornal  (“  ‘A importância da doação é do tamanho  da  sua  dor’, declarou ao JC Almir Santos, pai de uma jovem vitimada em acidente de trânsito, para reportagem especial publicada em 3 de julho”). A autorreferencia é mais uma das estratégias do discurso da mídia jornalística de assegurar o reconhecimento por

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De acordo com o Dicionário de Comunicação, no   jornalismo,  “olho”  significa:     (1) O mesmo que antetítulo; (2) Intertítulo diagramado com destaque, de forma atrativa em relação ao corpo da notícia. (3) Pequeno texto de chamada para a matéria principal. OLHO. In: Rabaça, C. A., & Barbosa, G. (1978). Dicionário de Comunicação. Rio de Janeiro: Codecri, p. 331.


parte da sociedade, de sua importância enquanto mediadora da informação e dos acontecimentos.

Interessante ainda é observar, no parágrafo que conclui o texto do editorial, como é trabalhada a idéia da modernidade de medicina mundial em oposição ao sistema de transplante público brasileiro. O avanço das técnicas cirúrgicas não cessa de trazer esperança para quem necessita de transplante. Até cirurgia completa de rosto – incluindo boca e pálpebras – foi feita, em junho, por médicos franceses, em um homem que sofria de doença genética degenerativa. No entanto, para que a vida transplantada represente esperança concreta para os brasileiros, faz-se urgente a implantação de uma política pública que prime pela democratização do acesso aos órgãos doados em todo o território nacional (Jornal do Commercio, 11/08/2010 [grifos nosso]).

O segundo editorial sobre um tema de saúde publicado no período analisado foi sobre a desnutrição infantil no Nordeste. O texto teve origem em um estudo realizado pela Universidade de São Paulo sobre a questão. “O fim   da   desnutrição”, publicado em 14 de setembro de 2010, aponta para a principal conclusão do estudo, de que a desnutrição infantil poderá ser totalmente erradicada no Nordeste num prazo de 10 anos. No texto, a desnutrição é um impedimento para o progresso do Brasil e responsável também pela imagem de pobreza associada a região nordestina: Nosso País precisa se redimir definitivamente nessa matéria, para somente assim disputar um lugar entre as mais avançadas nações do mundo. E o Nordeste tem um papel muito especial nessa tarefa, porque ainda não conseguimos superar inteiramente a imagem que predominou por muito tempo, dando-nos como um dos maiores bolsões de pobreza do Ocidente. Hoje estamos numa arrancada de crescimento contaminado por indicadores sociais inaceitáveis, que precisam ser erradicados com urgência e, com eles, chegarmos finalmente ao fim da desnutrição como uma anomalia social (Jornal do Commercio, 14/09/2010 [grifos nossos]).

Reparem ainda a linguagem metafórica do último parágrafo em que a desnutrição é   chamada   de   “anomalia social”,   como   que   um tumor que precisa ser “erradicado”  de  um  cenário  “contaminado”  por  indicadores  sociais  inaceitáveis. Neste   texto   ainda   é   interessante   observar   o   “olho”,   que   destaca:   “Pernambuco tem   uma   participação   expressiva   na   indesejável   história   da   desnutrição”.   Sabe-se que escolha do período que será destaque do editorial não é tarefa do editorialista, mas do


editor da secção. E este, ao escolher para subtítulo do editorial uma frase incompleta, o início de um período que é, na verdade, a introdução de uma das vozes convocada para o texto, a do médico e cientista social pernambucano Josué de Castro, ele atribui outro sentido a intenção do editorialista. Da forma que é apresentado, pode conduzir o leitor para a ideia de que a contribuição do Estado para a questão da desnutrição é com o numero de desnutridos, por exemplo, e não os estudos e os trabalhos do cientista Josué de Castro. Inclusive, dos setes editoriais analisados, este é o único que usa o recurso da aspa: Pernambuco tem uma participação expressiva nessa história indesejável, principalmente através de um personagem muito especial, Josué de Castro, autor de Geografia da fome – entre outras obras fundamentais – e criador da Associação Mundial de Luta Contra a Fome (Ascofam), com sede na Suíça, ao lado de figuras de destaque no Brasil e no exterior. Josué de Castro, presidente da Associação, instalou em palavras as bases de todos os programas mundiais de combate à fome: “Sabemos  que estão bem fincadas, nas estruturas econômicas do mundo, as raízes desse problema que só poderá ser extirpado revolvendo-se profundamente toda a estrutura deste solo pantanoso de nossa civilização, onde a fome encontrou condições as mais favoráveis ao seu desenvolvimento”   (Jornal do Commercio, 14/09/2010 [grifos nossos]).

Antibiótico e superbactéria foram os temas de dois editoriais do JC no período analisado: “O   perigo   da   superbactéria”,   publicado   em   3   de   novembro   e   “Controle   dos   antibióticos”,   em   7   de novembro. Na verdade, a questão principal posta em discussão nos dois editoriais é a atuação da Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tendo como questão de fundo o controle da bactéria

Klebsiella pneumoniae

carbapenemase (KPC).

O primeiro dos dois textos discute a medida, adotada pelo órgão, para comercialização do antibiótico e, sobretudo, critica o argumento apresentado pela ANVISA para tornar obrigatória a retenção da receita do medicamento. A justificativa da Vigilância Sanitária para tal medida é apresentada logo no primeiro parágrafo: De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o mau hábito da automedicação que provoca o consumo indiscriminado de antibióticos pode estar causando o surgimento de microrganismos resistentes aos medicamentos, que ficam conhecidos como superbactérias por esta característica, embora sejam bactérias comuns (Jornal do Commercio, 03/11/2010 [grifos nossos]).

O editorialista não concorda e culpa, não a automedicação, mas a má gestão de saúde no Brasil pela infecção hospitalar causada pela superbactéria.


O texto   tem   início   evocando   o   medo   (“ O medo do contágio está de volta a Pernambuco...”). No segundo parágrafo critica outra medida recente da Anvisa, que

obriga as unidades de saúde utilizarem o álcool liquido ou em gel na higienização dos médicos e funcionários (“A pergunta   é:   se   trata   de   um   procedimento   tão   simples   e   de   baixo custo para a prevenção de infecções diversas, recomendada expressamente pela Organização  Mundial   de  Saúde  (OMS),   por   que  ainda   não   era   obrigatório?”)  para,   em   seguida,   sair   em   defesa   dos   pacientes   (“Pelo   visto,   não   são   apenas   os   hábitos   dos   pacientes que necessitam  ser  revistos.”). E no terceiro parágrafo convoca a voz da ciência, por meio do depoimento de pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, para reforçar a argumentação defendida: A retenção da receita do antibiótico nas farmácias é educativa, porém a explicação oficial sobre a origem do aumento de casos de KPC não convence alguns especialistas, ainda que ao defender a tese a Anvisa se inspire na própria OMS. Para a bacteriologista Ana Paula Assef, do Laboratório de Pesquisa em Infecções Hospitalares do Instituto Oswaldo Cruz, da Fiocruz, o consumo voraz de remédios deve, sim, ser contido, mas não pode ser apontado como causa do surto de KPC ou de outra superbactéria. A origem da resistência aos tratamentos estaria, na sua visão, ligada ao exagero na aplicação dos antibióticos dentro dos hospitais, e não do lado de fora (Jornal do Commercio, 03/11/2010 [grifos nossos]).

E o posicionamento do editorial torna-se mais explícito no final do quarto parágrafo: A origem da superbactéria nos hospitais, como sugerido pela cientista da Fiocruz, passa pela deficiência na gestão de saúde no Brasil, onde o descuido com a higiene e com as condições básicas de respeito aos pacientes abre o corpo dos internados para infecções (Jornal do Commercio, 03/11/2010 [grifos nossos]).

Apenas quatro dias após a publicação deste editorial um segundo é publicado sobre o mesmo assunto, no dia 07 de novembro, agora com o título “Controle de   antibiótico”. A crítica a automedicação assume outro tom e o foco se volta para a capacidade de atuação da vigilância sanitária para   enfrentar   os   “maus   hábitos”   dos   consumidores,   como é possível observar no quarto parágrafo: “A   medida   da   Agência   é   oportuna, mas para acabar com o exagero do automedicamento no Brasil será preciso investir mais na mudança dos maus hábitos que acometem consumidores, médicos e funcionários  de  farmácias  e  drogarias”  (...)”  Para  mudar  o mau hábito é necessário que as pessoas alterem a perspectiva sobre seus atos, na hora de pedir conselhos ao balconista da farmácia ou solicitar ao médico de


plantão a prescrição do antibiótico. Campanhas informativas com esse objetivo poderiam ser veiculadas pelos órgãos oficiais, fechando o cerco da informação sobre os   riscos   da   automedicação” (Jornal do Commercio, 07/11/2010 [grifos nossos]).

A questão da higiene hospitalar, tão enfocada no editorial anterior, é resgatada apenas no último período do último parágrafo, período que também explicita o alvo da principal crítica   do   editorial   (“Portanto,   assim   como   a   superbactéria   pede   uma   revisão   urgente da higiene no ambiente hospitalar nacional, o controle no consumo dos antibióticos pela população requer imediata avaliação da capacidade de atuação da vigilância  sanitária”). A dengue, tão presente na mídia, também foi assunto de um dos editoriais do período. No editorial do JC sobre o assunto, publicado em 21 de novembro, o título já revela a principal crítica:  “O  mosquito está ganhando”. Desde aí a metáfora bélica dá o tom – como o mosquito ganhando a guerra contra a doença - em um texto recheado de palavras   como   “ataque”,   “arma”   e   “recuo”.   Marcas do modelo de caráter coercitivo e militarizado presente nas práticas de saúde e nos discursos das campanhas sanitárias, uma das principais estratégias de intervenção no campo da saúde pública brasileira no início do

século XX. (Cardoso, 2001). No segundo parágrafo, outras duas ideias do modelo higienista/campanhista estão presentes: o vínculo entre sujeira e doença e a culpabilização do doente: Uma vez que a ação educativa e de orientação preventiva é, por enquanto, a única arma eficaz contra o transmissor de um mal que se espalha no ambiente do desleixo, da bagunça e do abandono restam motivos de sobra para o governo continuar com esse trabalho pelo menos até que os dados apresentem o recuo da doença (Jornal do Commercio, 21/11/2010 [grifos nossos]).

“Com maus hábitos persistindo e pouca informação circulando – ou circulando de maneira equivocada – o mosquito faz a festa, e o índice de  contaminação  explode”  – continua o terceiro parágrafo. A cobrança ao poder público já aparece no primeiro parágrafo, quando informa sobre   a   ação   preparada   pela   Secretaria   de   Saúde   do   Estado   (“Pergunta-se por que a mobilização não veio antes, se desde o ano passado já se esperava pelo ataque do mosquito  em  grande  escala  no  País”) e torna-se mais explícita na conclusão. Mais uma vez, o mau hábito da população é   o   culpado   e   ao   Estado   cabe   o   papel   de   “orientar   e   punir”:


A responsabilidade maior, entretanto, continua sendo do poder público, a quem cabe orientar e punir aqueles que não respeitam a saúde da própria família e a dos vizinhos, permitindo que seus imóveis se transformem em criatórios de dengue. Sem falar no déficit social que não pode ser esquecido, com milhões de pessoas sem saneamento básico, vivendo em condições mais propícias à reprodução de mosquitos do que de gente. Desse jeito, o mosquito vai ganhar sempre. (Jornal do Commercio, 21/11/2010 [grifos nossos]).

Outro exemplo de cobrança ao poder público é o editorial com o significativo título “A invasão e o perigo das motos”,  de  11  de  dezembro,  em  que  o  jornal  manifesta   preocupação sobre o crescimento da frota de motos no Nordeste e o impacto na saúde pública. O principal argumento utilizado são os prejuízos econômicos causados ao SUS. Para isso o editorial utiliza, maia um vez uma pesquisa, desta vez realizada no Hospital das Clínicas de São Paulo. E mais uma vez atribui a culpa ao paciente: Pesquisa realizada pelo Hospital das Clínicas de São Paulo com 84 pacientes do Instituto de Ortopedia define a moldura trágica da questão que estamos tratando: seis meses depois, 82% dos pacientes não tinham voltado a trabalhar, em média, os pacientes fizeram mais de duas cirurgias, a um custo de R$ 35 mil para o SUS cada uma. A pesquisa constatou que 80% dos motoqueiros não se consideravam culpados pelo acidente e achavam que andar a 70 quilômetros por hora entre os carros é normal. Nessa velocidade, o impacto de uma pessoa com 70 quilos contra um obstáculo como um muro é de 13 toneladas. (Jornal do Commercio, 11/12/2010 [grifos nossos]).

Interessante ainda neste texto é a expressão que inicia a conclusão - “Aqui entre nós” - marcando uma das características apontada por Melo (1998) de que editorial é uma  “conversação  (ora  matreira,  ora  ostensivamente  ameaçadora)”  dos  proprietários  do jornal  com  “os  donos  do  poder”: (“Aqui entre nós, as autoridades que foram capazes de enfrentar os problemas gerados por kombis irregulares bem que podiam começar a controlar e ordenar o fluxo de motos, antes que o caos absoluto se instale”). Cobrar das autoridades promessas feitas   “pelos   gestores   municipais, o governo do   Estado   e   até   o   presidente   da   República”   após uma calamidade pública é o foco do editorial  “Reconstrução   Penosa”,  de  28  de  dezembro. O intertítulo ressalta:  “O  que   foi   prometido   debaixo   de   emoção   e   holofotes   ainda   não   foi   cumprido”.   O   assunto é a situação das 42 cidades da Mata Sul do Estado atingidas pelas chuvas.


Neste editorial, outro   exemplo   de   autorreferenciação   (“A   série   de   reportagens   que publicamos na semana passada mostrou o panorama de precariedade e improviso dominante em algumas  das  cidades  mais  afetadas”),  sendo possível também perceber a atenção atribuída a saúde (“Em  caso  de  calamidade,  a  saúde  é  a  mais  atingida,  e  requer   atenção  dobrada  das  autoridades”).  Mais uma vez, a ineficiência do governo é ressaltada (“A   inquietação   das   pessoas   com   a   incapacidade administrativa do poder público é notória”). Considerações finais Observamos nesse relato, a partir de análises de textos dos editoriais sobre saúde, a importância de realização de estudos analíticos sobre o gênero para a compreensão dos sentidos produzidos na mídia impressa sobre a saúde o SUS. Os estudos que relacionam o gênero com o tema saúde são quase inexistentes. Escolhemos o gênero editorial por ser ele o texto de maior responsabilidade discursiva da empresa jornalística dentre os diversos da esfera midiática. Nosso estudo, apoiado na teoria da produção social dos sentidos, mais especificamente num modelo de comunicação baseado na semiologia dos discursos sociais, aponta a existência de um lugar de disputa de poder, o mercado simbólico. Nessa disputa, várias vozes, vários enunciadores, são convocados e colocados em disputa, sobretudo as vozes do “conhecimento científico”   - por meio de médico e cientista social no editorial “O   fim   da   desnutrição”   (o próprio editorial comenta uma pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da USP); - de bacteriologista e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz no editorial   “O   perigo   da   superbactéria”;; - de médico e consultor do Ministério da Saúde no  editorial  “O  mosquito  está  ganhando”; - de dados de pesquisa, como a de Hospital   das   Clínicas   de   São   Paulo   no   texto   “A   invasão   e   o   perigo  das  motos”. Nos textos analisados, observamos que os temas de saúde são todos apresentados no contexto do sistema público de saúde. É o caso da política pública de transplante de orgãos (editorial   “Vidas Transplantadas”);;   Da   desnutrição,   em   que   a   abordagem é na perspectiva de políticas públicas vinculada ao desenvolvimento econômico (editorial   “O   fim   da   desnutrição”)   ; ou ainda o controle da venda de antibióticos determinado pela Vigilância

Sanitária (editoriais “O   perigo   da  

superbactéria” e   Controle   de   antibiótico”).     A   mobilização da Secretaria de Saúde de


Pernambuco para  o  enfrentamento  da  dengue  no  Estado  (“O  mosquito  está  ganhando”);;   a  violência   no  trânsito   e   os   custos  ao   Sistema   Único   de  Saúde  (“A  invasão   e   o   perigo   das   motos”)   e   situações   de   calamidade   pública   e   a   saúde   (Editorial   “Reconstrução   penosa”) são os outros exemplos. Todos, em síntese, constroem a imagem de um poder público incapaz, ineficiente e mau gestor. Embora em trechos de alguns desses mesmos textos o Estado é apresentado como responsável e autor de políticas públicas objetivas. Ao poder público caberia, ainda, o papel de mudar os “maus hábitos” da população,  de  “orientar   e  punir aqueles que não respeitam a saúde da própria família e dos  vizinhos” como defende o editorial sobre a dengue. Atribuir a culpa da doença à população, ao paciente, ao usuário do sistema público de saúde também é uma constante nos discursos analisados. É a população que ainda não tem consciência da importância de doar o órgão para transplante; é a população que se automedica e faz uso abusivo de medicamentos; é aquele que transforma sua residência em criatório de dengue; ou o motoqueiro que acha normal andar a 70 quilômetros por hora entre os carros e, acidentado, causando prejuízos para o Sistema Únicos de Saúde (SUS). Observamos ainda em muitos dos discursos analisados a utilização de metáforas bélicas para abordar os temas, um recurso muito próprio da área da saúde e da mídia. A saúde se transforma num campo de guerra, em que o inimigo, ou seja, a doença, a anomalia, deve combatido com armas, ou seja, medicamentos, comunicação e educação, entre outras. Portanto, nesta interdiscursividade, neste espaço de trocas entre os vários discursos escolhidos convenientemente pelo sujeito da enunciação, como o editorial, é interessante observar como são construídos os sentidos sobre os temas da saúde na mídia.

Referências Bibliográficas Araújo, I. S. de (2000). A reconversão do olhar. São Leopoldo: Unisinos. _________ (2004). Mercado simbólico: um modelo de comunicação para políticas públicas [Versão eletrônica], Interface: Comunicação, Saúde, Educação, 8(14), 165-178.


_________ (2009). Contextos, mediações e produção de sentidos: uma abordagem conceitual e metodológica em comunicação e saúde. Reciis – Revista Eletrônica de Comunicação, Informação & Inovação em saúde, 3(3), 42-50. Recuperado em 18 Junho de 2012 em

http://www.reciis.cict.fiocruz.br/index.php/reciis/article/view/280/324. Beltrão, L. (1980). Jornalismo opinativo. Porto Alegre: Editora Sulina.

Cardoso, J. (2001). Comunicação, saúde e discurso preventivo: reflexões a partir de uma leitura das campanhas nacionais de AIDS veiculadas pela TV (1987-1999). Dissertação de mestrado. Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Melo, J. M. de (1994). A opinião no jornalismo brasileiro. (2a ed.). Petrópolis: Vozes. Pinto, M. J. (1999). Comunicação e Discurso: Introdução à Análise de Discurso. São Paulo: Hacker Editores. Silva, C. L. (2009). A carta ao leitor de Veja: um estudo histórico sobre editoriais [Versão eletrônica], Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, 32(1), 89-107.


"Efectividad de un Programa de Promoción de Salud después de seis años de seguimiento de  acuerdo  al  modelo  de  Pender:  Comunicación  para  la  Salud”

Carreño S., John1,2,3,4; Del Valle R., Carlos3; Cladellas P., Ramón 4; Ivanovic M., Daniza1,2,5 1

Programa Magister en Salud Pública, Escuela de Salud Pública, Universidad de

Loma Linda, California 92350. USA. johncarreo@yahoo.es 2

Universidad Adventista de Chile, Campus Las Mariposas, Camino Tanilvoro Km

12, P.O. Box 7-D. Chillán. Chile 3

Programa Magister en Ciencias de la Comunicación, Departamento de Lenguaje,

Literatura y Comunicación, Facultad de Educación y Humanidades, Universidad de La Frontera, Avenida Francisco Salazar 01145, Temuco, Chile. 4

Programa de Doctorado en Comunicación y Periodismo, Comunicación para la

salud,

Departamento de Psicología Básica, evolutiva y de Educación, Universidad

Autónoma de Barcelona, Edificio B, Campus UAB, 08193 Bellaterra, (Cerdanyola del Vallès). Barcelona, España. 5

Instituto de Nutrición y Tecnología de los Alimentos (INTA), Universidad de Chile,

Avda. Macul 5540 (Entrada El Líbano 5540), P.O. Box 138-11. Santiago. Chile. GT 5 Comunicación y Salud


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RESUMEN Introducción: La transición demográfica y epidemiológica ha tenido lugar también en Chile, representada por un aumento considerable de enfermedades crónicas no transmisibles asociadas al estilo de vida. Para mejorar la calidad de vida de la población, la Organización Mundial de la Salud ha planteado que la promoción de salud es la estrategia fundamental de la atención primaria. Esta estrategia implica la modificación de conductas en las personas, abandonar las que perjudican la salud y adoptar las que la favorecen, destacándose que la mujer cumple un rol fundamental en las generaciones futuras, específicamente en el desarrollo de valores, actitudes y conductas capaces de reducir situaciones de riesgo que constituirán el estilo de vida de la familia y de la comunidad. Objetivos: El objetivo de este estudio fue determinar el efecto a largo plazo de un programa de promoción de salud (PPS) sobre el comportamiento de mujeres Adventistas del Séptimo Día (MASD) y mujeres No Adventistas del Séptimo Día (MNASD). La intervención contempló un Programa Promotor de Estilo de Vida saludable (PPEVS). El programa está basado en el Modelo de Pender y mide seis dimensiones: Autorrealización, Responsabilidad en Salud, Ejercicio Físico, Nutrición, Apoyo Interpersonal y Manejo de Estrés. El propósito de este estudio fue determinar la efectividad de la estrategia comunicativa, con la cual se implantó e implementó en la comunidad, la intervención educativa relativa a evaluar el PPEVS. Método: El estudio inicial, de naturaleza experimental y de cohorte única y comparativo, se llevo a cabo el año 2002 en la ciudad de Villarrica, Novena Región de Chile. El estudio actual es longitudinal y comparativo entre las MASD y las MNASD, contrastando los resultados obtenidos en el PPEVS del pos-test del año 2002 con el re- test del año 2008, después de seis años de terminada la intervención. El seguimiento y el estudio comparativo del PPEVS entre el período de post- test del 2002 y período re-test en el 2008, seis años después de finalizado el PPEVS, contempló la aplicación en ambos grupos del mismo instrumento para medir el PPEVS total y en sus seis dimensiones.


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Resultados: El análisis del impacto del PPEVS después de seis años mostró un nivel alto de eficacia de la intervención comunicativa usada en el programa en las MASD. Concluimos que la estrategia comunicativa usada en el programa fue importante para los cambios positivos de conducta durante 2002 en el cual la gente adoptó los comportamientos que promueven la vida saludable, tanto en MASD como en algunas dimensiones de PPVS entre MNASD. En las MASD, al comparar el período de retest efectuado el año 2008, con el período de post-test efectuado el año 2002 solamente se observó un leve pero significativo descenso en las medianas del EVPS de 3.4 a 3.1 (P < 0.0309). En el resto de las dimensiones del EVPS no se presentaron diferencias significativas entre el período de re-test con el de post-test, Por el contrario, en las MNASD se observó un descenso significativo en las medianas del EVPS de 3,1 a 2,7 (P < 0.001). Conclusiones: Este estudio determino la importancia de refuerzo permanente de comportamientos. En todo el período de tiempo post intervención, las MASD dieron continuidad al estilo de vida adoptado a través de la práctica de la religión, las MASD mantuvieron las conductas promotoras de vida saludable. Palabras clave: promoción de salud, estilo de vida, comportamiento de salud, estrategia de comunicación. INTRODUCCIÓN El lograr la salud de las poblaciones ha sido preocupación prioritaria en todas las épocas. Para alcanzar este bienestar de tanta relevancia para el desarrollo humano, se han buscado diferentes enfoques, para organizar la atención de salud y lograr el impacto necesario. Inicialmente, se centraban los modelos de atención principalmente en las estrategias para recuperar la salud perdida, y luego se dio mayor relevancia a las estrategias orientadas hacia la prevención de las enfermedades y la promoción de la salud. La necesidad de variar los enfoques para conseguir y mantener la salud se debe a los cambios demográficos, epidemiológicos, socioeconómicos, de las comunicaciones y las condiciones de vida que han experimentado las poblaciones,


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para reconocer los factores de riesgos emergentes que han hecho variar las necesidades en salud. (OPS, 1996) El interés por entender lo que motiva a las personas a adoptar o no adoptar comportamientos que mejorarán su calidad de vida ha sido un tema de investigación para muchas disciplinas. Entre las teorías usadas con frecuencia para explicar este proceso se encuentran las relacionadas con los modelos de las etapas del cambio de comportamiento y las teorías de la persuasión, que pueden aplicarse a distintas culturas y a distintos comportamientos relacionados con la salud. Los programas de comunicación para la salud se planifican, se ejecutan y se evalúan después de un proceso sistemático. Un ejemplo de esto es que la División de Promoción y Protección de la Salud de la OPS lo utiliza, con la intención de comprender las percepciones, las creencias, los valores y las prácticas de la población en riesgo, para desarrollar programas de comunicación que atraigan y persuadan al público destinatario a que adopte modos de vida sanos. Los países han realizado esfuerzos sostenidos para promover dietas y estilos de vida saludables basados en las recomendaciones de la OMS. En este contexto, los hallazgos de varios autores sugieren la necesidad de implementar más programas educativos enfocados a prevenir enfermedades cardiovasculares, obesidad, diabetes y cáncer, especialmente para aquellos que viven en la pobreza. (FAO/OMS. 1992; Arthur, Pena, Holbert, 2001; Burdine, Chen, Gottlieb, Peterson, Demetri Vacalis, 1984; Reynolds, Raczynski, Binkley, Franklin, Duvall, Devane-Hart, 1998 ; Reynolds, Franklin, Binkley, Raczynski, Harrington, Kirk, 2000; Donnelly, Jacobsen, Whatley, Hill, Swift, Cherrington, 1996) De esta manera y considerando que la mujer cumple un rol fundamental en las generaciones futuras, específicamente en el desarrollo de valores, actitudes y conductas capaces de reducir situaciones de riesgo que constituirán el estilo de vida de la familia y de la comunidad, es que se realizó el año 2002, una intervención educativa que consistió en un Programa Promotor de Estilo de Vida Saludable. Este programa estuvo dirigido al auto cuidado en salud, usando el modelo de promoción


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de salud de Pender, ( Pender, Murdaugh, Parson, 2001) por sus investigaciones desarrolladas en esta área, basados en la Teoría Cognitiva Social de Bandura, (Jauregui, Suarez, 1998) y la teoría de la expectativa de valor que le han permitido desarrollar un modelo que permite explicar, predecir y modificar conductas promotoras de salud. Las conductas promotoras de salud integradas al estilo de vida saludable permiten mejorar la salud, perfeccionar el funcionamiento y generar una mejor calidad de vida en cualquier etapa del desarrollo. (Pender, et al., 2001) Las teorías o los modelos del cambio de comportamiento postulan que la adopción de comportamientos sanos es un proceso en el cual los individuos avanzan, a través de diversas etapas, hasta que el nuevo comportamiento se convierta en parte de la vida diaria. En la ciudad de Villarrica, se llevó a cabo una intervención educativa de abril a septiembre del año 2002, sobre las conductas que conforman el estilo de vida promotor de salud, de acuerdo a un modelo creado por una enfermera norteamericana de nombre Nola Pender. Esta investigadora creó un instrumento que permite medir “Estilo de   Vida   Promotor   de   Salud” (EVPS), el cual tiene seis sub áreas, es decir, autorrealización, responsabilidad de salud, ejercicio, nutrición, apoyo interpersonal y manejo de estrés. El estudio determinó el impacto de la intervención en dos grupos de mujeres. (Carreño, Vyhmeister, Grau, & Ivanovic, 2006). Este fue un estudio piloto, de diseño experimental y de cohorte única. La población estuvo compuesta por 300 mujeres, 150 Adventistas del Séptimo Día (MASD, n= 150) y 150 No Adventistas (MNASD, n=150) del sector urbano de la comuna de Villarrica, novena región de Chile, con edades entre 20-45 años. De la población antes mencionada, se seleccionó una muestra aleatoria y representativa de 18 MASD y 18 MNASD. Los resultados indicaron que las medianas aumentaron significativamente entre los períodos de pre- y post-test, tanto en los indicadores totales expresados como EVPS en ambos grupos, (MNASD) y (MASD), así como en las seis dimensiones por separado (Carreño et al., 2006).


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Han pasado seis años desde la intervención, por lo que el objetivo de este proyecto es analizar y determinar si la estrategia comunicativa utilizada en dicha intervención fue eficaz, tanto en lo conceptual, procedimental, actitudinal, como en lo emotivo. Método Diseño del Estudio El estudio inicial se llevó a cabo durante el año 2002, en la comuna de Villarrica, la cual se encuentra ubicada a 87 Km. de la ciudad de Temuco, Chile. Cuenta con una población de 45.531 habitantes. (INE. 2002) En las familias de la comuna prevalecen enfermedades como la hipertensión arterial, la diabetes, patologías digestivas y el cáncer, principalmente gástrico. El estudio piloto efectuado el año 2002 fue experimental, comparativo y de cohorte única. El estudio del año 2008, corresponde a un estudio longitudinal y comparativo, entre los resultados del programa EVPS obtenidos en el post-test en el estudio del año 2002 y en el re-test en el año 2008, entre mujeres Adventistas del Séptimo Día (MASD) y mujeres No adventistas del Séptimo Día (MNASD).

Población y Selección de la Muestra La población del año 2002 estuvo compuesta por 300 mujeres, 150 Adventistas del Séptimo Día (MASD, n= 150) y 150 No Adventistas (MNASD, n=150) del sector urbano de la comuna de Villarrica, Novena región de Chile, con edades entre 20-45 años. Se seleccionó una muestra aleatoria de 18 MASD y 18 MNASD, quienes se enrolaron en el programa EVPS. Ambos grupos fueron comparables, ya que todas las mujeres eran dueñas de casa, tenían a su cargo la responsabilidad del hogar, cuidado de los niños, preparación de los alimentos, pertenecían a un estrato socioeconómico similar (SES) (medio-bajo SES) y un nivel escolar (enseñanza media incompleta). El 2008 se logro ubicar al 92% de la muestra del año 2002 la cual fue objeto de


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seguimiento en el presente estudio según se indica en la Figura 1, la cual muestra que no fue posible ubicar solo a 3 MNASD. Las voluntarias participaron en el estudio de acuerdo a las normas del Comité de Ética de La Universidad de La Frontera, Temuco, Chile en el 2008 y el consentimiento de los participantes fue obtenido según la declaración de Helsinki. (The World Medical Association, 1964)

Estrato socio-económico (SES) Fue evaluado aplicando el método de Graffar modificado adaptado a la población urbana de Chile, que considera el nivel de escolaridad y ocupación del jefe del hogar, y características de la vivienda (calidad, tenencia, abastecimiento de agua, eliminación de excretas y bienes del hogar). (Álvarez, Muzzo, Ivanovic 1985). Estilo de Vida promotor de Salud ( EVPS ) El EVPS se determinó de acuerdo al instrumento creado por Nola Pender, junto a otras investigadoras de la Universidad de Massachussets, EE.UU (Walker, Kerr, Pender, & Sechrist, 1990). Este instrumento capacitará a los investigadores para estudiar modelos y determinantes de estilos de vida promotores de salud, así como los efectos de intervenciones para alterar el estilo de vida.

Versión en Español del instrumento EVPS La versión en español fue validada luego de ser administrada a un grupo diverso, pero predominantemente mejicano-americano, de 485 hispanos residentes en áreas metropolitanas y rurales que las circundan. En un análisis de factores de componentes principales, todos menos un ítem, pesaron significativamente en seis factores similares a aquellos aislados previamente, durante la evaluación psicométrica de la versión inglesa. Este instrumento consta de una escala total definida como Estilo de Vida Promotor de Salud y seis sub escalas, que incluyen, Autorrealización ,

Responsabilidad

en


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salud, Ejercicio, Nutrición, Apoyo Interpersonal y Manejo del estrés. La puntuación de los ítems es Nunca (N), A veces (A), Frecuentemente (F) y Siempre (S). La puntuación para la escala total es calculada con el promedio para las respuestas de la entrevistada a los 48 ítems y, en forma similar, se procede para obtener las puntuaciones de las seis sub escalas.

Periodo de Diagnostico o Pre-test

El objetivo del período de pre-test efectuado el año 2002 fue determinar a manera de diagnóstico, las conductas de EVPS global, como en las seis dimensiones, es decir, Autorrealización, Responsabilidad en Salud, Ejercicio, Nutrición, Apoyo Interpersonal, Manejo del Estrés. Para tal efecto, se aplicó el instrumento para medir el EVPS de Pender tanto en las MASD como en las MNASD. (Persky, Chatterton, Van Horn, Grant, Langenberg, Marvin, 1992) Diseño Metodologico del Programa de Estilo de Vida Promotor de Salud PEVPS El objetivo del PEVPS fue lograr cambios positivos de comportamiento tanto en el EVPS global, como en las seis dimensiones del PEVPS. Para tal efecto, el PEVPS que se desarrolló en ambos grupos, MASD y MNASD, durante tres meses con treinta y tres sesiones de trabajo en cada grupo como se aprecia en la Tabla 1. El PEVPS consistió en un programa de Comunicación para la Salud de carácter cognitivo-perceptual, en el cual se enfatizó especialmente, los beneficios del aire puro, descanso, luz solar, agua, manejo y control del estrés, responsabilidad en salud y nutrición haciendo uso de materiales audiovisuales para ilustrar las charlas expositivas, así como comunicación interpersonal como refuerzo a la intervención. Se desarrollaron talleres de cocina dos horas por semana, por un período de trece semanas, en las cuales las mujeres practicaron recetas de cocina saludable. Después de las clases teóricas acerca de los beneficios del ejercicio, las mujeres asistieron a


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gimnasia aeróbica dos veces por semana, cada sesión con una duración de una hora y con un total de 20 horas de dedicación a esta dimensión.

Periodo de Evaluación o Post-test El período de post-test comenzó tres meses después de finalizado el PEVPS efectuado en el año 2002. El objetivo fue determinar el impacto del PEVPS, en las conductas de EVPS global, como en las seis dimensiones, es decir, Autorrealización, Responsabilidad en Salud, Ejercicio, Nutrición, Apoyo Interpersonal, Manejo del Estrés. Para tal efecto, se aplicó el instrumento para medir el EVPS de Pender, tanto en las MASD como en las MNASD, al igual que en el período de pre-test. (Persky, et al., 1992)

Estudios realizados el año 2008 Periodo de Re-evaluación o Re-test El período de re-test se efectuó en el mes de diciembre del año 2008, es decir, seis años después de finalizado el PEVPS. El objetivo fue determinar el impacto del programa, en el largo plazo, tanto en las conductas de EVPS global, como en las seis dimensiones, es decir, Autorrealización, Responsabilidad en Salud, Ejercicio, Nutrición, Apoyo Interpersonal, Manejo del Estrés. Para tal efecto, se aplicó el instrumento para medir el EVPS de Pender tanto en las MASD como en las MNASD, al igual que en el período de pre-test y post-test. (Persky, et al., 1992) Análisis Estadístico Los resultados están expresados como mediana, modo, rango y quartiles (PROC UNIVARIATE), utilizando el software Statistical Análisis System Package (SAS, 1983). Este análisis estadístico incluyo la prueba del Signo (PROC UNIVARIATE), para

determinar

diferencias

significativas en cada

dimensión del EVPS,

separadamente para cada grupo de MASD y MNASD, al aplicar el instrumento


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después de seis años, al 92 % de la muestra encuestada el año 2002. La prueba de Wilcoxon (PROC NPAR1WAY) se utilizó para comparar los grupos MASD vs. MNASD, durante los periodos de pre-test vs. post-test, post-test vs. re-test. (Kamieneski, Brown, Mitchell, Perrin, Dindial, 2000)

RESULTADOS La Tabla 2 muestra los puntajes en el EVPS, como en sus dimensiones, en los períodos de pre-test y post-test obtenidos el año 2002 y, en el período de re-test, durante el año 2008 tanto en las MASD como en las MNASD. En ambos grupos, las medianas de los puntajes aumentaron significativamente del periodo de pre-test al de post-test, tanto en los resultados totales expresados como EVPS, como en cada una de las seis dimensiones. En las MNASD, todos los cambios fueron significativos al nivel de P< 0.0001. A pesar del hecho que las MASD presentaron cambios significativos en todas las dimensiones medidas en el EVPS, el progreso en las dimensiones nutrición (P < 0.0005) y ejercicio (P < 0.0042) fue menos significativo que el registrado por las MNASD. En las MASD, al comparar el período de re-test efectuado el año 2008, con el período de post-test efectuado el año 2002 solamente se observó un leve pero significativo descenso en las medianas del EVPS de 3.4 a 3.1 (P < 0.0309). En el resto de las dimensiones del EVPS no se presentaron diferencias significativas entre el período de re-test con el de post-test, Por el contrario, en las MNASD se observó un descenso significativo en las medianas del EVPS de 3,1 a 2,7 (P < 0.001), en autorrealización, de 3,7 a 3,4 (P < 0.0018), en ejercicio, de 3,0 a 1,6 (P < 0.0074) y en la dimensión manejo de estrés de 3.0 a 2.3 (p< 0.0129); en el resto de las dimensiones, aunque las medianas disminuyeron en el período de re-test, en comparación con el período de post-test, no se observaron cambios significativos. La Tabla 3 resume los valores del test de Wilcoxon para la comparación de los puntajes en las MASD vs. MNASD, tanto en el EVPS como en sus dimensiones, durante los periodos de pre-test, post-test y re-test. Con la excepción de la dimensión nutrición, no se observaron diferencias significativas en las otras dimensiones del


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EVPS, tanto en los periodos de pre y post-test. Al respecto, las MASD manifestaron puntajes significativamente más altos para la dimensión nutrición que sus pares MNASD, tanto en el periodo de pre-test (P< 0.0001) como en el post-test (P<0.0005). No obstante, durante el período de re-test, las MASD presentaron medianas significativamente más elevadas, en comparación con las MNASD, tanto en el EVPS (P < 0.0048), como en las dimensiones ejercicio (P < 0.0008), nutrición (P < 0.0183) y manejo de estrés (P < 0.0381). La Figura 2 ilustra los valores de las medianas de las MASD y MNASD, tanto en el EVPS, como en sus dimensiones, durante los períodos de pre-test, post-test y re-test. La Figura 3 muestra que las MASD, tienen una frecuencia de actividades promotoras de vida saludable, es decir un EVPS superior a la de las MNASD ya que desde el pre-test obtuvieron puntajes más altos, manifestando cambios y alcanzando medianas más altas en el pos-test como en el re-test, en contraste con las MNASD, quienes presentaron un descenso significativo. En autorrealización, ambos grupos presentaron puntajes similares en los períodos de pre-test y post-test en el año 2002 y se mantuvieron en su cambio de comportamiento después de seis años, lo que muestra una frecuencia de actividades semejante, alcanzando las MASD un puntaje más alto en el re-test, en esta dimensión. En responsabilidad en salud, las MASD mostraron medianas más altas en el pre-test, post-test y en re-test, y mostraron el mayor descenso luego de seis años después de la intervención en comparación con las MNASD, las cuales muestran una tendencia al descenso. En ejercicio físico, las MNASD el año 2002 comenzaron con puntajes más altos y finalizaron con mayores logros, en los periodos de pre-test y post-test, siendo la única dimensión en donde las MASD obtuvieron puntajes más bajos; sin embargo después de seis años, el re-test muestra que las MNASD bajaron significativamente sus puntajes en contraste con las MASD, las cuales han mantenido sus logros, ya que no tuvieron un cambio significativo en esta dimensión. En nutrición, las medianas muestran que las MASD tienen un puntaje alto en los periodos de pre-test, post-test y re-test. En el caso de las MNASD comenzaron con medianas más bajas y, por la intervención educativa, obtuvieron en el período de post-test, medianas similares al registrado por las MASD


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en el período de pre-test. Las medianas del re-test efectuado en el presente estudio muestra que las MNASD no han logrado mantener los cambios en esta dimensión a diferencia de las MASD, quienes mantienen conductas favorables en esta dimensión. En apoyo interpersonal, las MASD y las MNASD presentaron en el pre-test valores iguales en sus medianas; sin embargo, tanto en el período de post-test, como en el período de re-test seis años después, las medianas muestran que en las MASD los cambios de conducta permanecen en el tiempo después de la intervención. En cuanto al manejo de estrés, las medianas muestran que las MASD, tienen puntajes más altos en los periodos de pre-test, post-test, y el re-test seis años después, en contraste con las MNASD, cuyo puntaje sufrió un descenso considerable.

DISCUSIÓN Es indudable que el enfoque de promoción de la salud es reconocido hoy mundialmente, como la estrategia de alto rendimiento costo-beneficio para mejorar la salud de los individuos. Cuando el cliente es la familia o la comunidad, tiene un valor agregado. En estas situaciones, tanto la familia como la comunidad son responsables del desarrollo de la salud de las futuras generaciones, porque es en este contexto que se transmiten valores, actitudes y conductas relacionadas con la salud, resumidas en estilos de vida familiar saludables capaces de reducir situaciones de riesgo. Diversos estudios llevados a cabo en Chile y también en el extranjero, en diferentes grupos etarios, han enfatizado los beneficios que representa la implementación de programas de promoción de la salud en el logro de un estilo de vida saludable. (OPS, 1996; Pender, et al., 2001; Jauregui, et al., 1998; Willett, 2003; Foster, 1989; WHO, 2004; OMS, 1990; Burdine, et al., 1984; Reynolds, et al., 1998 ; Reynolds, et al., 2000; Donnelly, et al., 1996; Singh, Fraser, 1998; Fraser, Shavlik, 1997; Fraser, Sumbureru, Pribis, Neil, Frankson, 1997; Singh, Fraser, Knutsen, Lindsted, Bennett, 2001; Chile, INE, 2002; The World Medical Association, 1964; Alvarez, Muzzo, Ivanovic, 1985; Walker, 1990)


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Al observar los resultados del estudio efectuado en el año 2002, así como los indicadores del estudio del año 2008, nos damos cuenta que las MASD, tienen una frecuencia de actividades promotoras de salud, es decir un EVPS superior a la de las MNASD y, en general, en todas las dimensiones. Este hecho podría explicarse debido a la filosofía de vida de las MASD y a la educación que reciben por parte de su Iglesia, ya que con frecuencia asisten a charlas y conferencias en las cuales se usan elementos didácticos de multimedia que dan énfasis a la salud, independiente de su nivel socio económico, ya que en sus creencias existe el concepto de salud integral, en las áreas: física, mental, social y espiritual. Diversos estudios efectuados a nivel internacional han destacado el positivo impacto que tiene el estilo de vida saludable de carácter integral que practica la comunidad de los Adventistas del Séptimo Día, en la prevención de las enfermedades crónicas no transmisibles relacionadas con la dieta. (Fraser, et al., 1997; Fraser, Sumbureru, Pribis, Neil, Frankson, 1997; Singh, et al., 2001; Chile, INE, 2002; The World Medical Association, 1964; Alvarez, et al., 1985) En autorrealización, ambos grupos presentaron puntajes similares en los períodos de pre-test y post-test en el año 2002 y se mantuvieron en su cambio de comportamiento después de seis años lo que muestra una frecuencia de actividades semejante, alcanzando las MASD puntaje más alto en esta dimensión. Este hecho se explicaría en las MASD, por las diversas actividades que realizan a favor del prójimo, como asistencia social y, en el caso de las MNASD, contribuyó el hecho que realizaban mayor ejercicio físico el año 2002 que las MASD, lo que tuvo mucha ingerencia en su autorrealización. En responsabilidad en salud, las MASD mostraron medianas más altas en el pre-test,

post-test y en re-test en comparación con las MNASD, probablemente

debido a la conciencia de cuidado de su cuerpo que adquieren, producto de su filosofía de vida y educación integral que reciben de su Iglesia, lo que ha quedado de manifiesto en diferentes estudios a nivel internacional. (Singh, et al., 1998; Fraser, et al., 1997; Fraser, Sumbureru, et al., 1997; Singh, et al., 2001; Chile, INE, 2002; The World Medical Association, 1964; Alvarez, et al., 1985; Walker, 1990)


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Sin embargo mostraron el mayor descenso luego de seis años después de la intervención, es probable que esto se deba a la disminución de frecuencia de visitas al médico y otros profesionales de los centros de atención primaria, debido a las demoras en la atención y buena salud percibida. Las MNASD manejaban poco conocimiento sobre salud preventiva y comportamiento saludable. Sin embargo, aunque se constató un descenso en las medianas entre los períodos de post-test y retest, tendieron a mantener a lo largo de seis años los cambios positivos en esta dimensión. Es probable que esto se deba a las orientaciones recibidas en el PEVPS, ya que al no tener acceso a información y visitas periódicas de profesionales de la salud, como lo es en el caso de las MASD en sus iglesias y reuniones, las MNASD valoran la entrevista con profesionales del área médica, cuando presentan síntomas de posible enfermedad o anomalías, acudiendo a los consultorios y en algunos casos haciendo el esfuerzo económico de visitar en forma particular al médico. En ejercicio físico, las MNASD el año 2002 comenzaron con puntajes más altos y finalizaron con mayores logros, siendo la única dimensión en donde las MASD obtuvieron puntajes más bajos; sin embargo después de seis años, las MNASD bajaron significativamente, en contraste con las MASD, las cuales no tuvieron un cambio significativo en esta dimensión. Las MNASD comenzaron con puntajes altos como lo muestra el pre-test el año 2002, debido a que en ese tiempo, ellas estaban participando en bailes folklóricos, de 2 a 3 veces por semana en forma sistemática, preparando una presentación para el mes de septiembre, lo que hizo aumentar sus puntajes. En el caso de las MASD, en el PEVPS adquirieron el habito de hacer ejercicio y o caminatas aeróbicas en forma permanente, lo que aumento el puntaje en el post test y lo han mantenido en el re-test aplicado en el año 2008. En ejercicio físico, las medianas muestran que las MASD están por debajo de las MNASD, previo a la intervencion, lo que podría explicarse por la vida sedentaria de las MASD tenían; si bien es cierto existía el conocimiento de las bondades del ejercicio, no se le había dado la debida importancia. Las MNASD comenzaron obteniendo puntajes más altos en la dimensión ejercicio físico, debido a que previo a la intervención, ellas ya estaban participando sistemáticamente, dos a tres veces por semana, de un programa


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de actividad física; sin embargo, el re-test efectuado el año 2008 muestra que los cambios favorables no se han mantenido en el tiempo en las MNASD, no así en las MASD, que muestran medianas más altas seis años después de la intervención. En nutrición, las medianas muestran que las MASD tienen una dieta muy saludable, ya que muchas de ellas declararon tener un régimen ovo-lacto vegetariano, bajo en calorías y grasas animales y rico en fibra dietaria. Se puede observar que tenían conocimiento previo, en relación a las características de una dieta saludable y que, por la intervención educativa, hubo también un cambio favorable de comportamiento. En el caso de las MNASD comenzaron con medianas más bajas y, por la intervención educativa, obtuvieron en el período de post-test, medianas similares al registrado por las MASD en el período de pre-test. Este hecho manifiesta el positivo impacto de la intervención educativa producto del desarrollo del PEVPS en ambos grupos, siendo especialmente beneficioso en las MNASD, las cuales al inicio del programa, no tenían los conocimientos suficientes que se tradujeran en conductas apropiadas para seleccionar una dieta saludable. Las medianas del re-test efectuado en el presente estudio muestra que las MNASD no han logrado mantener los cambios en esta dimensión a diferencia de las MASD, las cuales si han mantenido los cambios en este comportamiento saludable. Esto se debe a que no solo es necesario manejar información, conocimiento, de conductas promotoras de vida saludable, también se hace necesario mantener un refuerzo en forma periódica, que permita mantener el cambio de conducta, lo que se da en este caso en la MASD, por medio del soporte de la religión. Los beneficios de una alimentación saludable han quedado de manifiesto en varios estudios efectuados en comunidades Adventistas del Séptimo Día. (Fraser, et al., 1997; Singh, et al., 2001; Chile, INE, 2002; The World Medical Association, 1964; Alvarez, et al., 1985; Walker, 1990) En apoyo interpersonal, ambos grupos presentaron en el pre-test valores iguales en sus medianas; sin embargo, tanto en el período de post-test, como en el período de re-test seis años después, las medianas muestran que en las MASD no sólo hubo mayor cambio sino que también estos cambios de conducta permanecen en el tiempo


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después de la intervención, aunque en las MNASD también se observa una buena internalización de estas conductas. Esto puede deberse a la red de apoyo que encuentran las MASD, en la comunidad religiosa y a las relaciones afectivas que se desarrollan allí. En cuanto al manejo de estrés, las medianas muestran que las MASD, en la frecuencia de actividades, manejan mejor el estrés que las MNASD. Después de la intervención educativa, en el post-test, donde se les enseño a controlar el estrés, así como en el re-test seis años después, las MASD presentaron valores superiores en sus medianas, en relación a las MNASD, lo que podría deberse a la red de apoyo, estilo de vida y fe, como ya se ha mencionado. Los resultados del presente estudio permiten concluir que un programa educativo de promoción de la salud basado en el modelo de Pender, con la estrategia comunicativa adecuada, podría ser de gran utilidad en el mejoramiento de la calidad de vida de la población. ( Bateson, 1972; Bateson, Hall, Watzlawick, 1990; Del Valle, & Matus, 2007; Eco, 1994; Eco, 2000; López, Parada, Simonetti, 1991; Mucchielli, 1998; Coe, 1998)

El programa permite potenciar cada dimensión citada por la

autora, lo que lo hace un programa integral, para promover aquellas conductas que fortalecen la salud y abandonar aquellas que la deterioran. Por otra parte, estos programas deberían impartirse desde la edad escolar, para evitar la alta prevalencia de las enfermedades crónicas no transmisibles en la edad adulta, en donde impartir programas se hace más difícil.( Walker, et al., 1987; Walker, et al., 1988) Estos hallazgos se consideran importantes para el Sector Salud, ya que la implementación de programas de promoción de la salud, como el que se propone en el presente estudio, podrían ser de gran utilidad en la prevención de las enfermedades crónicas no transmisibles relacionadas al estilo de vida. El EVPS que presenta la muestra en el período de re-test en el año 2008, nos permite apreciar que en ambos grupos MASD y MNASD fueron significativas las diferencias en las medianas, constatándose un descenso, menos significativo en las MASD, en comparación con las MNASD, sin embargo el resultado es muy positivo


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en las dimensiones del EVPS en las MASD, ya que no hay diferencias significativas con el periodo de post test del año 2002. Desafortunadamente, en las MNASD, hay un descenso en las medianas del EVPS y especialmente en las dimensiones, autorrealización, ejercicio, y manejo de Estrés, las cuales en el re-test descendieron a niveles del pre-test, esto se debe probablemente a la falta de refuerzo en el tiempo, de los beneficios que para la salud representa, el mantener las mencionadas conductas, situación que no ocurre en las MASD, ya que la filosofía de la iglesia, permanentemente enfatiza estos aspectos. El ambiente, que funciona también como red de apoyo, ya que en las frecuentes reuniones en conjunto son animados por medio de charlas y seminarios a adquirir y mantener conductas saludables que forman parte del estilo de vida promotor de salud. También es importante destacar que pese a esta desventaja, de no tener un refuerzo en forma sistemática, así como el acceso a una red que pudiera servir de apoyo al comportamiento adquirido el año 2002, luego de la intervención, las MNASD lograron mantener sus conductas promotoras de vida saludable en autorrealización (aunque el descenso de las medianas fue significativo, el puntaje logrado es alto), responsabilidad en salud, nutrición y apoyo interpersonal.


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REFERENCIAS

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ANEXOS

Figura 1. Diagrama de flujo de los sujetos seleccionados en la muestra y tasas de participación durante el Programa de Estilo de Vida Promotor de Salud basado en el Modelo de Pender. M= mujeres; MASD, mujeres Adventistas; MNASD, mujeres no Adventistas del Séptimo Día.


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MASD

MNASD

Autorealizaci贸n

Responsabilidad en Salud


24

MASD

MNASD

Ejercicio

Nutrici贸n


25

Apoyo Interpersonal

Manejo de EstrĂŠs


26

MASD

MNASD

EVPS

Figura 2. Valores de las medianas y rangos de los resultados totales como de las seis dimensiones del Programa Estilo de Vida Promotor de Salud (PEVPS) en los periodos de pre-test, post-test y re-test en Mujeres Adventistas del Séptimo día (MASD) y Mujeres No Adventistas del Séptimo Día (MNASD)


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Programa Promotor de Estilo de Vida Saludable 1 (PPEVS) y sus di mensiones Grupos PEVPS

----------------------- Puntajes------------2 3

4

MNASD MASD Autorrealización MNASD MASD Responsabilidad en Salud MNASD MASD Ejercicio MNASD MASD Nutrición MNASD MASD Apoyo Interpersonal MNASD MASD Manejo de Estrés MNASD MASD

Figura 3 Valores de las Medianas de las Mujeres No Adventistas del Séptimo día ( MNASD, n= 18) y Mujeres Adventistas del séptimo Día (MASD, n=18) en el Programa Promotor de Estilo de Vida Saludable (PPEVS) y sus dimensiones durante los periodos de el pre-test ( ), post-test ( ) y re-test ( ) . El test de Wilcoxon’s fue  usado  para  la  comparación  de  MASD   vs.   MNASD. Los puntajes obtenidos durante los periodos de pre- y post-test. **** p< 0.0001; *** p< 0.0005


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AÑO

PERIODO

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

DURACION Abril-junio 2002

Diagnótico (Pre-test) (MASD y MNASD)

Determinar Autorrealización, Responsabilidad en Salud, Ejercicio, Nutrición, Conducta, Apoyo Interpersonal, Manejo del Estrés.

1 sesión

1 Sesión

2002

Programa de Estilo de Vida Promotor de Salud (PEVPS)

Lograr cambios positivos en Autorrealización, Responsabilidad en Salud, Ejercicio, Nutrición, Apoyo interpersonal, Manejo del Estrés

1 sesión 1 Sesión

MATERIALES DIDACTICOS AUDIOVISUALES

EVALUACION

Aplicación de la escala de Pender de 48 ítem.

Tests

Diagnostico

Beneficios del: Aire puro Descanso

13 sesión 1 Sesión 1 Sesión

Audiovisuales usando Proyector de Video, películas, power point

Luz solar Ejercicio

20 Sesiones 1 Sesión

(MASD y MNASD)

METODO DE APRENDIZAJE O ACTIVIDADES

Practicas de cocina Agua

Formativa, principalmente a través de juegos didácticos

Practicas aeróbicas Elementos de cocina

Dominio propio Manejo de Estrés Responsabilidad en salud

1 Sesión Nutrición: 1 sesión 1 Sesión 1 Sesión 1 Sesión 1 Sesión

Proteínas Carbohidratos Grasas Vitaminas Minerales Fibra dietaria

1 Sesión Evaluación (Posttest) (MASD Y (MNASD) Reevaluación 2008

(Re-test) (MASD y (MNASD)

Determinar Autorrealización, Responsabilidad en Salud, Ejercicio, Nutrición, Conducta, Apoyo Interpersonal, Manejo del Estrés.

Determinar Autorrealización, Responsabilidad en Salud, Ejercicio, Nutrición, Conducta, Apoyo Interpersonal, Manejo del Estrés.

1 sesión

Tests Aplicación de la escala de Pender de 48 ítem.

1 sesión

Tests Aplicación de la escala de Pender de 48 ítem.

Evaluativo

Evaluativo

Tabla 1. Diseño Metodológico. MNASD= Mujeres no adventistas del séptimo día; PEVPS= programa de Estilo de Vida Promotor de Salud.


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Tabla 2 Puntajes del Pre-, post- y re-test en el Programa de Estilo de Vida Promotor de Salud (PEVPS) en sus dimensiones de Mujeres Adventistas del Séptimo Día (MASD) y Mujeres No adventistas del Séptimo Día (MNASD) Pre-test Post-test Re-test Pr>= Pr>= Md Mo Q1 Q3 Q4 Md Mo Q1 Q3 Q4 Md Mo Q1 Q3 Q4 M(Sign) M(Sign) Pre vs. post Post vs. re MASD (n=18) PEVPS Autorrealización Responsabilidad en Salud Ejercicio Nutrición Apoyo Interpersonal Manejo de Estrés MNASD (n=18) PEVPS Autorrealización Responsabilidad en Salud Ejercicio Nutrición Apoyo Interpersonal Manejo de Estrés

2.8 3.3 2.5

2.6 3.4 2.8

2.6 2.7 1.8

3.1 3.5 2.9

3.4 4.0 3.5

3.4 3.8 3.2

3.4 3.8 2.6

3.1 3.2 2.6

3.6 3.9 3.4

3.7 4.0 3.7

3.1 3.6 2.4

3.4 4.0 2.1

2.9 3.2 2.1

3.3 3.8 2.8

3.4 4.0 3.9

0.0001 0.0001 0.0001

0.0309 0.8145 0.0963

2.0 3.3 3.0 2.5

1.8 3.2 3.0 2.0

1.8 3.2 2.6 2.0

2.4 3.8 3.4 2.9

3.4 4.0 3.9 3.4

2.9 3.8 3.7 3.1

3.0 4.0 3.7 3.1

2.2 3.5 3.0 3.0

3.2 4.0 3.9 3,6

4.0 4.0 4.0 3.9

2.4 3.6 3.3 2.9

2.4 3.5 3.1 2.9

2.0 3.2 3.1 2.2

3.0 3.8 3.7 3.1

3.6 4.0 4.0 3.6

0.0042 0.0005 0.0001 0.0001

0.3323 0.3018 0.3323 0.3323

2.6 3.2 1.9

2.4 3.1 1.9

2.4 2.7 1.7

2.9 3.5 2.4

3.4 3.8 3.2

3.1 3.7 2.8

3.1 3.8 2.8

3.1 3.5 2.5

3.5 3.8 3.3

3.6 3.9 3.6

2.7 3.4 2.3

2.2 3.4 2.3

2.4 3.0 1.8

3.0 3.6 2.8

3.1 3.8 3.0

0.0001 0.0001 0.0001

0.0010 0.0018 0.0923

2.2 2.7 3.0 2.3

2.6 2.7 2.6 2.3

1.8 2.3 2.6 2.0

2.6 3.0 3.4 2.4

3.4 3.3 4.0 3.3

3.0 3.3 3.5 3.0

3.2 3.3 3.1 2.7

2.2 3.0 3.1 2.7

3.2 3.5 3.9 3.3

4.0 4.0 4.0 3.7

1.6 2.7 3.1 2.3

1.4 2.7 3.7 2.3

1.2 2.5 2.9 2.1

2.0 3.5 3.7 2.7

2.6 3.7 3.9 3.4

0.0001 0.0001 0.0001 0.0001

0.0074 0.6072 0.3018 0.0129


30

Tabla 3 El test de Wilcoxon evaluó la comparación de las Mujeres Adventistas del séptimo Día (MASD, n=18) vs. Mujeres No Adventistas del Séptimo Día (MNASD, n=18) Los puntajes en el Programa Promotor de Estilo de Vida Saludable (PEVPS) y de las dimensiones en el periodo de estudio Año 2002 Año 2008 PEVPS dimensiones Pre-test Post-test Re-test PEVPS

Z = 1.33

NS

Z = 1.33 NS

Autorrealización Responsabilidad en Salud Ejercicio

Z = 0.00 Z = 1.30 Z = -0.40

NS NS NS

Z = 0.40 NS Z = 0.92 NS Z = -0.41 NS

Nutrición

Z = 4.04 P< 0.0001 Z = -0.70 NS Z = 0.86 NS

Z = 3.48 P< 0.0005 Z = 0.19 NS Z = 1.44 NS

Apoyo Interpersonal Manejo de Estrés

Z = -2.82 P< 0.0048 Z = -1.60 NS Z = -0.999 NS Z = -3.34 P< 0.0008 Z = -2.360 P< 0.0183 Z = -1,058 NS Z = -2.074 P< 0.0381


Autor: Lic. Mónica Castro Lara monica.cl2@hotmail.com Facultad de Ciencias de la Comunicación Benemérita Universidad Autónoma de Puebla Puebla, México GT5 Comunicación y Salud Detección de recursos referenciales e instrumentos de comunicación para el diseño de una estrategia de comunicación para el reconocimiento de la Enfermedad Celiaca en la ciudad de Puebla

Resumen El contexto mexicano actual enfrenta uno de los episodios más problemáticos en términos de salud pública y alimentación. Los cambios de patrón de morbi-mortalidad comienzan a relacionarse con enfermedades crónicas asociadas a la dieta y a los estilos de vida, tales como: diabetes, hipertensión, osteoporosis, cáncer, enfermedades cardiovasculares y obesidad, siendo México el país con el mayor índice con un total de 52.5 millones de personas con este tipo de padecimientos en 2011. No obstante, existen otras enfermedades relacionadas a las anteriores que, por presentarse en menor proporción, son poco estudiados en la academia y nulamente abordadas por los programas de salud pública y que por lo tanto carecen de prevención, divulgación, reconocimiento, tratamiento e investigación. Una de esas enfermedades es la celiaquía. La celiaquía o Enfermedad Celíaca, es una enfermedad autoinmune sin cura caracterizada por la inflamación crónica de la parte proximal del intestino delgado, causada por la exposición a la gliadina, mejor conocida como gluten. Las personas diagnosticadas con dicho padecimiento no pueden digerir gluten (presente en el 70% de los alimentos), por lo que deben consumir una dieta libre de él aproximadamente cinco veces más costosa que una dieta tradicional y cuyos productos no son fácilmente comercializados.


En México la Enfermedad Celiaca afecta al 2.6% de la población mestiza, lo que indica que los índices de la misma son más altos o similares a los de otros países, sin que el Estado Mexicano, a través de la Secretaría de Salud, haya hecho avances en materia de etiquetación de productos, divulgación, tratamiento y educación. Además de resultar un asunto de seguridad social y salud pública, el problema de la celiaquía se recrudece más allá de lo estimado al existir : falta de información y reconocimiento de la población en torno a ella, falta de sensibilización y responsabilidad social empresarial en la elaboración y etiquetación de productos alimenticios, falta de divulgación e impacto de las asociaciones dedicadas a la enfermedad celiaca en la elaboración de políticas públicas y falta de indicadores estadísticos actualizados y oficiales al respecto, lo que mina la calidad de vida de quienes ya han sido diagnosticados y de los que no tienen ningún conocimiento de la enfermedad y la padecen. Este proyecto, abocado al área de comunicación para la salud, se sustenta en detectar los recursos referenciales y necesidades comunicativas de los pacientes celiacos, con el fin de lograr el consenso simbólico adecuado para el reconocimiento de la enfermedad y de sus implicaciones clínicas, económicas y psico-sociales, a través de un enfoque predominantemente cualitativo, con diseño de investigación-acción y bajo la técnica de cuestionarios cualitativos abiertos administrados a la población celiaca diagnosticada residente en la ciudad de Puebla. Con ello, se contempla el diseño de una estrategia de comunicación para la salud sustentada en la Comunicación Participativa para socializar la enfermedad y lograr el desarrollo del tratamiento integral de la celiaquía en la ciudad a través de cualquier nivel comunicativo.

Planteamiento del Problema En el contexto mexicano actual, se enfrenta uno de los episodios más problemáticos en términos de salud pública y alimentación. Los cambios de patrón de morbi-mortalidad comienzan a relacionarse con enfermedades crónicas asociadas a la dieta y a los estilos de vida, tales como la diabetes, hipertensión, osteoporosis, cáncer, enfermedades


cardiovasculares y obesidad (Secretaría de Salud, 2011), siendo México el país con el mayor índice con un total de 52.5 millones de personas con este tipo de padecimientos (Instituto Nacional de Salud Pública, 2011). Actualmente, esos padecimientos reciben una reconocida cobertura, tanto gubernamental como mediática. Existen distintos factores en las enfermedades gastrointestinales e inmunológicas mencionadas anteriormente, como el genético, como consecuencia de los hábitos alimenticios de la población, que por presentarse en menor proporción son poco estudiadas en la academia y nulamente abordadas por los programas de salud pública y que por lo tanto carecen de prevención, divulgación, reconocimiento, tratamiento e investigación, aunado a fuentes limitadas de información. Una de esas enfermedades es la celiaquía. De acuerdo al estudio realizado por Uscanga (2008), en México la enfermedad celiaca afecta al 2.6% de la población mestiza, lo que indica que los índices de la misma son más altos o similares a los de otros países, sin que el Estado Mexicano, a través de la Secretaría de Salud, haya hecho avances en materia de etiquetación de productos, divulgación y tratamiento. Este hecho se debe, de acuerdo con José Ángel Córdova (Secretario de Salud), a que la agenda de trabajo es muy extensa, tenemos muchos problemas de nutrición, de obesidad que acaparan la atención del sector salud y eso ha retrasado que nos avoquemos a problemas como el de los Celiacos (Infoceliacos, 2009: s/p), a diferencia de otros países Latinoamericanos, como Brasil y Argentina, en donde incluso existen leyes nacionales al respecto. Claramente, el problema de la celiaquía es más importante de lo estimado; resulta un asunto de seguridad social y salud pública, siendo un gran desaliento la falta de información y reconocimiento de la población en torno a ella, la falta de sensibilización y responsabilidad social empresarial en la elaboración y etiquetación de productos alimenticios, la falta de divulgación e impacto de las asociaciones dedicadas a la enfermedad celiaca en la elaboración de políticas públicas y la falta de indicadores estadísticos actualizados y oficiales al respecto, lo que implica la falta de redes y grupos de celiacos controlados dietéticamente.


La adopción y creación de programas y estrategias de comunicación para la salud conlleva el objeto de transformar -mediante el conocimiento, la integración y la participación de múltiples agentes (gobierno, industria alimenticia, entre otros)-

el

comportamiento y la actitud en torno a la celiaquía, no para prevenirla (como usualmente se plantean las políticas comunicacionales de salud), sino para reconocerla, optimizando el flujo de información y conocimiento al respecto.

Justificación Resulta alarmante la escasa circulación y claridad de la información que se tiene de la enfermedad, tanto en la comunidad médica como en la sociedad en general (Casellas, et al, 2006), lo que genera el contraste entre la prevalencia de la celiaquía y el número de casos diagnosticados (y registrados) en el país (Cerda en Uscanga, 2008). En este sentido, es preciso acotar que la importancia de este trabajo de investigación no sólo radica en la detección de necesidades de información para el caso específico de la celiaquía, sino para dar cuenta de la potencialidad e injerencia que tiene el área de Comunicación en los procesos de resolución social de problemáticas que implican necesariamente la cimentación de nuevos sentidos y lazos comunitarios para el desarrollo y plenitud de una sociedad o población determinada. A razón de lo anterior, no resulta pretensioso señalar que a través de la consecución de la investigación se busca contribuir también a la profesionalización y proyección académica del sub-campo social de la Comunicación para la Salud en México.

Objetivo general Detectar las necesidades de información para el reconocimiento de la Enfermedad Celiaca en la ciudad de Puebla.

Objetivos particulares 

Identificar los medios de comunicación que intervienen en la divulgación de la enfermedad celiaca en Puebla.

Diagnosticar las necesidades comunicativas que la comunidad celiaca en Puebla posee en torno a la enfermedad.


Determinar los sectores de la población que intervienen directa o indirectamente para el reconocimiento y tratamiento de los enfermos celiacos.

Describir el tipo de acciones que las asociaciones de celiacos en México emprenden para atender a los enfermos celiacos miembros.

Marco Teórico Corresponde al marco teórico de la presente investigación abordar el rol de la comunicación en la gestión y promoción de la salud pública para la construcción de programas de salud que favorezcan a la calidad de vida de personas de una comunidad. Lo anterior funge como soporte académico para el análisis y promoción de información de la enfermedad celiaca, con miras a su reconocimiento y familiarización en la ciudad de Puebla. La comunicación, reflexionada y estudiada, se puede definir como un proceso por medio del cual una persona se pone en contacto con otra a través de un mensaje, y espera que esta última dé una respuesta, sea una opinión, actitud o conducta; es una manera de establecer contacto con los demás por medio de ideas, hechos, pensamientos y conductas (Martínez de Velasco, 2006). La comunicación entonces se vuelve esencial para la construcción de mensajes adecuados a públicos determinados que sean capaces no solamente de entenderlos, sino de modificar algunos de sus estilos de vida en torno a problemáticas como la carencia de salud. Por lo que la comunicación, aunado a distintas disciplinas y siguiendo diferentes metodologías, funge como la base para la construcción de acciones que encaminen hacia el logro de ciertos objetivos planteados dentro de un programa de salud, lo que comúnmente se llama una estrategia de comunicación. Una estrategia es definida como una serie sistemática y bien planificada de acciones que combinan diferentes métodos, técnicas y herramientas, para lograr un cambio concreto u objetivo, utilizando los recursos disponibles, en un tiempo determinado (Mintzberg, 1993). Igualmente, una estrategia de comunicación es una serie de acciones bien planificadas que se proponen lograr ciertos objetivos a través del uso de métodos, técnicas y enfoques de comunicación (Mefalopulos, et al, 2008). Esta estrategia debe ser:


a) Consistente con las conclusiones de campo y con el marco de referencia del proyecto b) Viable con relación a los recursos disponibles y con el tiempo determinado c) Efectiva, o sea que hace el mejor uso de los recursos disponibles para lograr todos los objetivos (Pérez, 2001). El combinar y revisar toda la información disponible para decidir cuáles serán los enfoques, los mensajes, los medios, los métodos y las técnicas que deben utilizarse, es el objetivo de una estrategia de comunicación (Ídem). A continuación se desglosa la secuencia básica de los principales pasos del proceso para desarrollar una estrategia de comunicación. Esta secuencia ha sido desarrollada considerando el diseño de los mensajes como el enfoque principal: 1) Revisar el marco de referencia del proyecto (recapitular información, principios y objetivos del proyecto) 2) Realizar un diagnóstico de la situación 3) Identificar y esquematizar los perfiles de los grupos interactivos prioritarios 4) Definir los objetivos y las soluciones de comunicación de forma específica, medible, alcanzable, realística y en un tiempo determinado 5) Establecer contenidos aproximados de los temas relacionados con los objetivos 6) Seleccionar el modo de diseño de los mensajes y los temas de discusión) 7) Definir los enfoques y métodos de comunicación 8) Identificar en forma preliminar resultados, actividades e insumos requeridos 9) Desarrollar el diseño creativo de los temas y mensajes de discusión 10) Seleccionar los medios y finalizar el diseño de mensajes 11) Revisar y definir todos los enfoques de comunicación requeridos para lograr los resultados (el diseño de los temas y mensajes de discusión, el diseño de las actividades para la movilización de grupos) 12) Revisar y finalizar las actividades necesarias para alcanzar los resultados que se han contemplado 13) Revisar y finalizar los insumos que se requieren para llevar a cabo las actividades planificadas 14) Ajustar y revisar el plan de trabajo para la fase de implementación


15) Desarrollar los materiales de comunicación 16) Llevar a cabo la validación y la revisión subsiguiente de los materiales 17) Supervisar la producción masiva 18) Capacitación sobre los temas pertinentes y los materiales 19) Supervisar la implementación de las actividades, y 20) Supervisar el seguimiento y la evaluación (Mefalopulos, et al, 2008). La Organización Mundial de la Salud (OMS) considera a la salud como el estado de completo bienestar físico, mental, espiritual, emocional y social, y no solamente como la ausencia de enfermedades (OMS, 1948). Como concepto, la salud ha ido desarrollando nuevos sentidos; ha trascendido la esfera enfermedad-curación, para poder abarcar aspectos globales tales como la alimentación, la vivienda, la seguridad civil, la educación, el nivel socio-económico, el ecosistema, la justicia social, la equidad y la paz. Estos enlaces proporcionan la clave para una comprensión holística de la salud (Silva, 2001). La salud pública es un concepto social y político encaminado a la mejora de la salud; a prolongar la vida y la mejora de la calidad de ésta en poblaciones enteras a través de la promoción de salud, prevención de enfermedades y otras formas de intervención en salud (OMS, 1986). Entre sus características más importantes, se encuentran la recolección constante de datos epidemiológicos y la vigilancia permanente de una comunidad. (Childress en Verweij y Dawson, 2005). El Instituto Nacional de Ciencias Médicas y Nutrición Salvador Zubirán (INNSZ) realizó un estudio, el cual arrojó el dato de que la enfermedad celiaca puede afectar potencialmente al 2.6% de la población de mexicana y que lo inscribe entre una de las tasas más altas de prevalencia en el mundo, haciéndola un claro problema de salud pública (INNSZ, 2008). Por lo que es necesario implementar programas de salud especializados en la enfermedad celiaca, dirigidos tanto a la población que actualmente padece la enfermedad, como para los posibles enfermos, agrupando así a los distintos agentes externos que la componen y que éstos trabajen conjuntamente en búsqueda de una mejora de salud en


este ámbito. Estos programas de salud, son llevados a cabo por una disciplina denominada Comunicación y Salud. Comunicación y salud es considerada como una disciplina útil para informar, influenciar y motivar a los individuos (Holtgrave en Silva, 2001) y a las instituciones, sobre temas de salud importantes como la promoción de ésta, la prevención de enfermedades, el desarrollo de políticas públicas, el financiamiento y el mejoramiento de la calidad de vida de los miembros de una comunidad (Alcalay, 1999), y para el mantenimiento de estos tópicos dentro de la agenda pública. La comunicación para la salud debe ser concebida como un proceso estratégico, para poder mejorar la eficiencia y la efectividad de los programas de salud. (Mosquera, 2003). Existe un modelo sistemático y racional para programas de comunicación social; es práctico para la aplicación de los campos en los niveles de comunicación organizacional e interpersonal y es estratégico, en el establecimiento de objetivos a largo plazo. Este proceso consta de seis pasos que son seguidos para implementar estrategias de comunicación: 1) Investigación y análisis 2) Diseño estratégico 3) Desarrollo, producción y revisión de materiales y métodos 4) Gestión, implementación y monitoreo 5) Evaluación de impacto 6) Planeación para la continuidad (Mosquera, 2003) La metodología para realizar programas de comunicación y salud efectivos, que estén dirigidos a públicos específicos cuyas necesidades hayan sido previamente analizadas, se apoya de distintas disciplinas relacionadas con la comunicación, como lo son la comunicación participativa y las relaciones públicas.

Diagnóstico Contextual Primeramente, cabe considerar las fuentes de información por las cuales los pacientes celiacos conocen la enfermedad y su tratamiento, en función de valorar la inclusión de


alguna de éstas en algún momento de la investigación. Dentro de las más importantes se destacan: a) Comunicación interpersonal con el médico especialista (información clínica) b) Comunicación grupal entre los miembros de las asociaciones de celiacos (información, asesoramiento, apoyo) c) Comunicación masiva (a través de internet como recurso de información) Alrededor del mundo existen campañas comunicativas para la prevención, cambio de actitud, divulgación y control de enfermedades, que ofrecen recursos publicitarios, materiales y fuentes de información para su implementación con miras a revertir situaciones críticas o mejorarlas, resultan el vehículo necesario por el cual es confiable y eficaz emitir mensajes relacionados con la salud pública de una comunidad. En este sentido el NIH es el organismo que oficialmente ha diseñado y difundido la campaña de reconocimiento de la enfermedad celiaca en Estados Unidos, desarrolla y diseña materiales educativos estandarizados, especialmente para médicos y estudiantes de medicina, con el fin de aumentar el reconocimiento de la enfermedad celiaca, ya que el propio organismo determinó que entendiendo y conociendo a la celiaquía se puede llegar a mejores y oportunos diagnósticos y tratamientos. A pesar de ello, es importante destacar que los logros sociales obtenidos y la divulgación sigue siendo producto del activismo de los pacientes (NIH, 2008). En referencia a la Campaña de Reconocimiento auspiciada por el NIH, su objetivo principal es aumentar la consciencia acerca de: a) Prevalencia de la enfermedad celiaca en Estados Unidos b) Disponibilidad y la validez de las pruebas diagnóstico c) Consecuencias para la salud asociadas con la enfermedad celíaca d) Percepción errónea de que la enfermedad celiaca es una enfermedad gastrointestinal.


Metodología 

Tipo de investigación: Paradigma Cualitativo

Diseño de la Investigación: Investigación- Acción

Técnica de recolección de datos: Cuestionario de preguntas abiertas vía electrónica

Instrumento: Cuestionario Cualitativo de 25 preguntas abiertas, electrónico, autoadministrado.

El instrumento se dividió en 4 tópicos principales: a) Experiencia personal (preguntas 1 a 6) b) Sintomatología y Métodos de diagnóstico (preguntas 7 a 11) c) Divulgación (preguntas 12 a 24) d) Asociaciones de ayuda a celiacos (pregunta 25)

Muestra: Homogénea por oportunidad. Se compuso de 13 sujetos mayores de edad diagnosticados con la EC residentes en la ciudad de Puebla. Tal como sugieren las investigaciones médicas, se trata de una preponderancia del género femenino (10) sobre el género masculino (3). Sus edades oscilan de los 18 a más de 70 años.

Análisis de Resultados La aplicación del cuestionario fue posible a través de la intermediación de ACELMEX quienes como asociación poseen una base de datos actualizada de celiacos diagnosticados en toda la República Mexicana, ello en función a que instituciones de salud pública o privada no cuentan con esta clase de registros estadísticos. Las implicaciones de la Enfermedad Celiaca remiten al cambio de la cotidianidad y estilo de vida de las personas con este padecimiento. De éstas se distinguen cuatro principales aspectos: a) Personal. Se presenta la modificación de hábitos relacionados a la alimentación como el consumo de alimentos, la necesidad de aprender a cocinar y preparar por sí mismos alimentos aptos, falta de confianza al ingerir alimentos y dificultades en el cumplimiento estricto de la dieta.


b) Sociales. Se manifiestan repercusiones en los círculos sociales cercanos, siendo el más importante el de la familia. Las formas de convivencia social se modifican al verse limitadas las actividades. Existe discriminación e indiferencia a los celiacos en función del desconocimeinto de información acerca de la enfermedad. c) c) Psicológicos. Se expresa que en la celiaquía deviene un shock emocional, en donde se suele presentar fastidio, depresión, inseguridad, pero también la modificación de la autopercepción personal después de un proceso de aceptación de la enfermedad en la que las personas se asumen como "diferentes". d) Ecónomicas. Se modifican las prácticas de adquisición de productos alimenticios, siendo los productos libres de gluten más costosos que el resto.

En la identificación de la enfermedad, transcurrieron de entre 10 a 20 años para que los individuos estudiados fueran diagnosticados como enfermos celiacos, consultando a su vez de entre 3 a 6 médicos, lo cual no concuerda con lo revelado por Casellas, et al, quien indica que el tiempo para diagnosticar la enfermedad es aproximadamente de 12 meses. Actualmente, gracias a una mayor circulación de información en torno a la enfermedad celiaca, los pacientes no llegaron del todo desinformados al diagnóstico ya que en algunas ocasiones ellos mismos decidieron hacerse las pruebas correspondientes para la detección de la enfermedad. La comunicación sin duda sería fundamental para la alfabetización de la lectura de las etiquetas de los productos, para que los pacientes aprendan qué productos contienen gluten, cuáles no, cuáles pueden y no pueden consumir. Por lo regular, las primeras fuentes de información para los pacientes celiacos son: el médico, otros miembros de asociaciones para celiacos y el Internet, coincidiendo esto con lo mencionado por los sujetos objeto de estudio. Sin embargo en Puebla la información que recibieron del médico nunca fue la adecuada, ya que fue breve, poco profunda e incluso por vía telefónica, provocando mayor confusión e incertidumbre en los pacientes, por lo que la relación entre médico-paciente se ve afectada ya que los celiacos confían más en la poca información que adquieren de internet, de artículos científicos y libros. El National Institute of Health diseña en sus campañas de divulgación y concientización de la enfermedad celiaca distintas actividades tales como dossiers,


trípticos, artículos científicos, conferencias, infomerciales etc. Los pacientes estudiados concordaron que se requiere de estos mismos medios y sugirieron además socio dramas, carteles y seminarios que se difundieran a través de medios masivos y en espacios locales como supermercados, farmacias, laboratorios y consultorios médicos que puedan ser vistos y reflexionados tanto por los posibles enfermos celiacos como por la sociedad en general. Mediante el presente estudio se observa la importancia de contar con programas de comunicación y salud como lo proponen Alcalay y Silva, ya que la finalidad de estos programas es estimular a las personas para que busquen más información referente a su salud, difunden conocimiento refuerzan conductas y dan lugar a estilos de vida más saludables (Mosquera, 2003) al impactar en otros aspectos que influyen en una salud integral.

Dichos programas deben ser elaborados de manera conjunta tanto por

comunicólogos como por especialistas en el área de la salud que incidan en la mejora de calidad de vida de los pacientes celiacos, que al ser una minoría en México, no son tomados en cuenta. La acción de los comunicólogos es de suma importancia no sólo al construir mensajes dirigidos a los públicos correspondientes de manera tal que puedan ser entendidos y que se encuentren en los medios adecuados para su recepción, sino una investigación previa y profunda que realmente sirva de base poner en marcha todo lo anterior.

Y la acción de los médicos servirá para avalar toda la información que se

maneje durante toda la etapa previa a los diseños de programas de salud.

Conclusiones Los celiacos no cuentan con un íntegro estado de salud debido a que, de acuerdo a la OMS, la salud es un estado de completo bienestar físico, mental, espiritual, emocional y social (OMS, 1948) y conforme a los resultados arrojados en la presente investigación, la enfermedad no les permite vivir de esta manera ya que afecta a todos los elementos previamente mencionados y se sienten constantemente discriminados por otros al no brindarles una mejor calidad de vida, por lo que es necesario implementar programas de salud pública en la ciudad de Puebla a favor de enfermos celiacos. Las necesidades comunicativas y de información que se requieren para el reconocimiento de la enfermedad celiaca en la ciudad de Puebla,

son aquellas que


contemplan no sólo a los medios masivos de comunicación, sino a medios de corto y mediano alcance como lo son: trípticos, dossiers, artículos, conferencias, seminarios, socio dramas y carteles que contemplen la explicación de qué es el gluten, su proceso de digestión y absorción, la sintomatología de la enfermedad celiaca, su diagnóstico, su tratamiento y complicaciones de la misma. Toda esta información deberá ser emitida en un lenguaje sencillo, claro, capaz de ser entendida por el público en general y mediante mensajes llamativos. Dicha información estar avalada por médicos de organizaciones de salud oficiales, garantizando así la veracidad de la información. Los sectores de la población que intervienen directa o indirectamente para el reconocimiento y tratamiento de los enfermos celiacos son los siguientes: 

Los propios celiacos. A través de testimonios y de sus historias de vida, los enfermos celiacos van difundiendo la enfermedad a personas (sean cercanas a ellos o no).

Las asociaciones de apoyo a celiacos quienes con su labor difunden la enfermedad, algunas implicaciones que ésta conlleva y listados de alimentos libres de gluten.

Los médicos especialistas en gastroenterología, debido a que la principal sintomatología que presentan los celiacos son trastornos gastrointestinales y los médicos en ocasiones realizan diagnósticos pertinentes.

Legislación y sector gubernamental. En México desafortunadamente este sector no ha mostrado interés por apoyar a los celiacos que representan una de las tantas minorías que existen en el país, ya que su deber y potencial servirían para incidir en la creación de leyes que apoyen a los enfermos celiacos y que regulen múltiples cuestiones dirigidas a la industria alimenticia.

La industria alimenticia. Aquellos pocos productores de alimentos libres de gluten, apoyan

directamente

al

tratamiento

de

la

enfermedad,

aunque

desafortunadamente sigue siendo muy poca la competencia, demanda e incremento del precio de estos productos. Asi también, se conluye que el estado mexicano no ha diseñado programas de salud pública en relación a la enfermedad celiaca, que incluyan en una primera etapa a los pacientes ya diagnosticados, y en una segunda etapa al público en general.


Recordando que la importancia que tienen los programas de salud pública radica en informar, influenciar y motivar a todos los individuos (Holtgrave en Silva, 2001) y a las instituciones para darle una adecuada promoción a la salud, a la prevención de enfermedades, al desarrollo de políticas públicas, al financiamiento y al mejoramiento de la calidad de vida de los miembros de una comunidad (Alcalay, 1999), toda la sociedad en la ciudad de Puebla necesita conocer y aprender todo el contexto de la enfermedad celiaca y de sus implicaciones. Es precisamente en este punto donde la labor de los comunicólogos incide de manera significativa al difundir correctamente toda la información posible y a los públicos correspondientes. Se concluye que los pacientes celiacos requieren no sólo de una estrategia sólida de comunicación para dar a conocer su enfermedad, sino de un conjunto eficaz de estrategias y estudios de comunicación que contemplen y mejoren la interacción y comunicación interpersonal entre médicos y celiacos, en función a que el internet y las redes sociales son los únicos medios que intervienen en la divulgación de la enfermedad celiaca en la ciudad de Puebla y éstos comienzan a reemplazar el rol del médico especialista ya que éste sólo les proporciona información breve, poco profunda y conduce a los pacientes a indagar más información por cuenta propia. Se corroboró también que la enfermedad celiaca acarrea en los pacientes varios tipos de implicaciones: 

De tipo personal, ya que se ven en la necesidad de cambiar sus hábitos alimenticios y por lo tanto se ve modificada su cotidianidad.

Sociales, porque se torna sumamente difícil la convivencia y socialización con otras personas no enfermas al no poder consumir los alimentos que la mayoría ingiere

Shock emocional, ya que se modifica su autoimagen, se asumen diferentes a los demás y tienden a caer en depresión e inseguridad

Finalmente implicaciones económicas por el difícil acceso y alto costo de los productos libres de gluten. Por último, las acciones emprendidas por las asociaciones de celiacos en México,

en específico de ACELMEX, para atender a los enfermos celiacos miembros a pesar de


ser loables, no cumplen con los objetivos que plantean en su página web. Se sugiere que debe existir una reestructuración desde la parte interna y organizacional de ACELMEX, ya que esto repercutirá en el cumplimiento de los objetivos que plantea la asociación y que se vea reflejado de manera externa mediante actividades de relaciones públicas que en verdad involucren y busquen la interacción de todos los públicos implicados. Esto sin duda beneficia a ambas partes: a los enfermos celiacos, para que reciban un mejor servicio por parte de la organización, y la asociación se posiciona como una referente de ayuda para los celiacos. Esta investigación, además de ser útil para el reconocimiento de la enfermedad celiaca y constatar que es un problema potencial de salud pública, ha puesto de manifiesto

la importancia de la comunicación en áreas poco abordadas para esta

disciplina en México, pudiendo incursionar los comunicólogos en el campo de la Comunicación para la Salud, a través de los cuatro principales niveles de la comunicación –intrapersonal, interpersonal, masiva y organizacional- así como implementando técnicas como el marketing social, la comunicación participativa y las relaciones públicas.


Listado de Referencias Alcalay, Rina. (1999) Recuperado el: 16 de febrero de 2011, de Revista Panamericana de Salud Pública. Página Web: http://www.scielosp.org/scielo.php?pid=S102049891999000300020&script=sci_artt ext Alcalay, Rina. (1988) PROYECTO COMSALUD: Un estudio comparativo de mensajes relacionados con salud en los medios masivos latinoamericanos. Recuperado el: 04 de abril de 2011. Página Web: http://www2.metodista.br/unesco/PCLA/revista7/projetos%207-5.htm

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Entre ciência e representações: a esquizofrenia e seus personagens nas páginas da Folha de S.Paulo Carla Costa GARCIA Universidade Estadual  Paulista  “Julio  de  Mesquita  Filho”  (Unesp),  Brasil e-mail: carlac.garcia@uol.com.br GT5: Comunicación y Salud Resumo: Um tema localizado na intersecção entre saúde e sociedade e uma cobertura midiática marcada pelo caráter polissêmico. Assim são as notícias sobre a esquizofrenia, doença mental que carrega o maior estigma e atinge a quase 2 milhões de. Em 2009, a Folha de S.Paulo abordou a psicose em editorias variadas e, a fim de contar estórias inteligíveis ao público, adotou versões distintas, que exploraram desde a imagem de uma doença biológica, cuja cura será encontrada por meio da ciência e da genética até a representação social de uma condição permanente materializada na loucura e na visão de seus portadores como violentos, insanos e incapazes.

Introdução Uma ciência com muitas interrogações e um saber prático (senso comum) cheio de certezas. É nesse contexto sociocultural que a esquizofrenia e seus personagens – quase 2 milhões de brasileiros – estão inseridos. O desconhecido gera o medo e se a sociedade não controla, ela exclui, cria estigmas e representações sociais que obrigam os portadores a conviverem com o preconceito gerado por imagens construídas a partir da relação entre loucura, animalidade, irracionalidade e periculosidade social (Foucault, 1978). Unidades consensuais de pensamento estabelecidas por meio de memória social, crenças, notícias e da cultura que disseminam o estigma contra o portador de esquizofrenia e os condenam, muitas vezes, a viverem como excluídos sociais vagando pelas ruas ou trancafiados em suas casas, hospitais ou manicômios judiciários remanescentes. A esquizofrenia é uma psicose complexa e intrigante, cujas causas ainda não são totalmente conhecidas (ABP, 2009). A doença caracteriza-se por algumas condutas e manifestações psicológicas que revelam uma perturbação mental e impedem a pessoa de


manter relacionamentos interpessoais e arcar com as responsabilidades sociais. O portador de esquizofrenia tende a fechar em si mesmo, apresentando desinteresse por aspectos positivos da vida, como trabalho, sexo e cuidado pessoal; adota expressões bizarras como rir sozinho, esquivar-se dos outros e usar uma linguagem própria; além de exprimir ideias delirantes (Romero, 1996). Desse modo, durante os períodos de crise, não consegue manter vínculos reais, refugiando-se no  imaginário  “chegando  inclusive a uma ruptura com a realidade – o que significa que não consegue compartilhar a vida comunitária com suas normas e exigências, ou sua  adaptação  é  muito  precária  e  frágil”  (Romero, 1994, p.234). Entretanto, quanto tratada, “a   evolução é para uma completa ou  quase  completa  recuperação”  (OMS,  1993,  p.86),  sendo  que   25% dos casos são curáveis e em outros 50% deles os pacientes podem viver em sociedade (ABP, 2009). Ainda assim, a falta de um consenso no campo científico, no qual quatro vertentes – uma biológica e três psicológicas – lutam para se chegar a um paradigma e definir o que sejam as doenças mentais e quais as suas causas 1, e o fato de já haver muitas versões e imagens populares construídas sobre os distúrbios que os veem como sinônimo de loucura 2, faz com que a esquizofrenia seja considerada a doença mental com maior carga de preconceito,   mantendo   viva   a   imagem   de   condição   intratável,   de   modo   que   as   “pessoas   consideram   um   portador   de   esquizofrenia   capaz   de   cometer   um   ato   violento”   (ABP,   2009,   p.40). A Associação Brasileiro de Psiquiatria (ABP, 2009) expõe outros dados como: 90% das pessoas não sabem o que é essa enfermidade; Há um grande número de portadores não diagnosticados por causa do estigma relacionado à doença; Muitos pacientes param o tratamento por não aceitarem que têm o distúrbio e/ou porque a família nega que há entre eles um portador de transtorno mental e, para não assumir o fato à sociedade, deixam-no reclusos e sem atendimento. Isso se dá pelo medo de assumir que um comportamento fora do padrão social ocorre em seu grupo social ou família, o que fortalece a discriminação.

1

Enquanto os organicistas reduzem os transtornos a seu caráter biológico, ignorando a influência do psíquico em sua origem ou manifestação; comportamentalistas, freudianos e existencialistas buscam provar que fatores sociais estão diretamente vinculados aos distúrbios mentais. Para a psicanálise, o fator desencadeador   “é   o   inconsciente;;   para   o   comportamentalismo   é   a   conduta;;   e   para   a   fenomenologia   existencial   é   a   vivência   enquanto   manifestação   concreta   da   existência”   (ROMERO,   1994, p.14). 2 Michael Foucault (1978), ao estudar a história social da loucura, expôs suas principais representações sociais que as ligam à fúria, animalidade, insanidade, irresponsabilidade e incapacidade de seguir e se adaptar às normas e padrões sociais. Denise Jodelet (2005) incluiu nesse senso comum as crenças no caráter contagioso da loucura.


Porém, é importante ressaltar que o estigma não está presente somente no meio social. Ele também nasce e habita outros meios a mídia, por meio do jornal, da notícia e dos jornalistas. A notícia por se tratar de um valor simbólico, algo que recontextualiza, representa e reconstrói um fato, a partir da visão, das crenças e da prática do jornalista – um ser cultural – alguém que compartilha a cultura da sociedade e escreve um texto que por ela deve ser compreendido. Diante desse cenário, a mídia adquire um importante papel social. Ao divulgar a ciência, o jornalismo a populariza mesclando e fundindo o saber popular ao científico (Guareschi & Jovechelovitch, 2009) e, por meio da notícia, transmite valores que integram e participam da   construção   da   “realidade”.   Por   isso,   este   artigo   tem   como   objeto   as   notícias   sobre a esquizofrenia que se referem a seus aspectos clínicos e científicos (saúde) e a seus personagens veiculadas pela Folha de S.Paulo em 2009. As quais serão analisadas com o objetivo de identificar: (a) quais as notícias que temos sobre a psicose e seus portadores; (b) quais os elementos constitutivos e versões da realidade (senso comum e científica) que atuam em sua construção social; (c) se elas reiteram ou negam as representações sociais existentes; (d) por fim, inferir porque as notícias - de uma temática de saúde fortemente influenciada por questões sociais - são como são. Para tanto é utilizado pesquisa bibliográfica e análise de conteúdo. A primeira, na revisão bibliográfica sobre representações sociais, teorias da notícia, jornalismo científico e em saúde e esquizofrenia e suas representações. Já a análise de conteúdo - a busca por conhecer aquilo que está por trás das palavras (Bardin, 2009) - é empregada, nos enfoques quantitativo e qualitativo, a fim de analisar as 35 notícias que compõem o corpus, quantificando-as e inferindo a respeito de seu processo de construção e dos sentidos da psicose por elas empregados e difundidos.

Jornalismo Científico: entre conceitos e imagens Divulgar ciência consiste em mesclar o saber popular ao saber científico (Moscovici apud Guareschi & Jovchelovitch, 2009). É o ato de selecionar um fato científico, interpretá-lo a partir das crenças e conhecimentos compartilhados por uma sociedade – as representações sociais, por exemplo - e transformá-lo em uma narrativa inteligível a um público amplo e abrangente. Sendo   que   “A   transição   do   conhecimento   proveniente   de   um   círculo   científico restrito de especialistas para territórios públicos mais amplos é, muitas vezes, a mesma


transição entre  o  pensar  com  conceitos  para  o  pensar  com  imagens  e  mitos”  (Moscovici  apud   Bauer, 2009, p.232). Essa transição é que diferencia o conteúdo da disseminação e da divulgação científica, cujo um dos tipos é o jornalismo científico. E a divulgação consiste na veiculação de ciência (conceitos que devem ser interpretados a partir de enquadramentos culturais pré-existentes) para um público geral. De modo que “divulgação   científica   não   é   outra   coisa   senão   um   esforço de inteligibilidade do mundo que se busca e, ao mesmo tempo, se compartilha com os demais”  (Capazzolli, 2002, p.121).

Representações Sociais Devido à abrangência e por sua função de recodificar e levar as representações sociais sobre a Esquizofrenia e seus portadores ao grande público, os meios de comunicação de massa atuam como auxiliares na constituição do conhecimento e do imaginário da sociedade. As representações   sociais,   por   sua   vez,   são   “uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, tendo uma visão prática e concorrendo para a construção de uma realidade   comum   a   um   conjunto   social”   (Guareschi, 2009, p.196). Vista como teorias do senso comum, elas são mediações que buscam transformar algo não familiar em familiar e, a comunicação é um dos atores dessa rede que, se não constrói esse senso comum, ao menos o divulga, influencia, confirma e realça ou o desconstrói. Ao familiarizar o desconhecido, as representações têm a capacidade criativa e transformadora dos sujeitos podendo mudar conceitos, estigmas e a própria sociedade. Elas nascem da coletividade, mas também modificam-na, pois são símbolos construídos e compartilhados por membros do grupo social, que usa os mass media para difundi-los.

Notícia como produto cultural A notícia é fruto de um sistema sociocultural, no qual estão inseridos além do próprio jornalista, as fontes, o fato noticiado, a organização jornalística e interesses, crenças e a cultura de todos os envolvidos. Desse modo, o jornalista não é alguém neutro, que apenas reporta um fato a partir de normas e procedimentos indicados pelo ritual estratégico profissional, ele se torna participante ativo nessa construção, uma vez que é a partir de sua interpretação do acontecimento – a qual se dá a partir das crenças, mitos, e representações sociais por ele conjugadas -, que um fato torna-se um discurso e se transforma em notícia.


Os jornalistas   enquanto   elementos   de   uma   cultura   particular   “estão   sujeitos   à   ‘gramática   da   cultura’   (Colby,   1975)”   (Bird & Dardenne, 1999, p.271). Regras que determinam quais aspectos da realidade social são úteis para a sobrevivência a fim de que sejam absorvidos (Moretzsohn, 2007) e retratados em narrativas que constituem as notícias (Tuchman, 1999). As notícias são o produto final de um processo complexo que tem início com a seleção sistemática de acontecimentos (Hall et al., 1999) e versões da realidade socialmente construídas a serem transformados em estórias (Tuchman, 1999; Bird & Dardenne, 1999), relatos de acontecimentos noticiosos. A notícia é a transformação de um fato em discurso, que institui um modelo simbólico dos valores vigentes na sociedade. Modelo que se estabelece através do que Motta (2002) define como a disputa, situada na linguagem jornalística, entre o logos (rituais e ideologia da objetividade) e o mythos (valores, crenças, fantasias e a cultura do jornalista) que se origina no processo de construção do texto. É por meio da linguagem que um fato torna-se discurso (notícia). O qual não representa apenas o relato de um fato ou a tradução de uma ocorrência em linguagem, mas produz um novo acontecimento, que vem integrar o mundo, criando valores e significações e influindo sobre e interagindo com a realidade social (Rodrigues, 1999). Os jornalistas tornam-se   ativos   quando   transformam   “uma   matéria–prima (os acontecimentos)   num   produto   (as   notícias)”   (Traquina, 1999, p.169) e para fazê-lo recontextualizam o fato a partir de enquadramentos (frames) compreendidos, aceitos e legitimados pela sociedade a qual se reportam (Tuchman, 1999; Sousa, 2002). Utilizam como base de interpretação e construção discursiva da estória, crenças e representações sociais compartilhadas pela cultura e memória social do público. Para isso, precisam estar inseridos e serem sujeitos dessa gramática da cultura, familiarizados com instituições, estruturas e pensamentos da coletividade para poderem utilizar, até mesmo inconscientemente, um conjunto de regras e conceitos destinados a dar sentido ao mundo e que sejam inteligíveis em determinado contexto social e histórico (Hackett, 1999).

Entre notícias e representações sociais Tanto as notícias quanto as representações sociais podem ser interpretadas a partir de seu caráter cultural, uma vez que transmitem valores e até mesmo definições sobre o bem e o mal, o certo e o errado, o justo e o injusto, o mocinho e o vilão.


A influência das representações sociais sobre a construção da notícia é pouco explorada pelos comunicólogos. Tuchman (1999) afirma que a presença do senso comum (representações sociais) nas narrativas jornalísticas é usada como ritual estratégico do jornalista para garantir a inteligibilidade e aceitabilidade de seu produto. Sousa (2002), Hackett (1999), Tuchman (1999), Traquina (1999) e Moretzsohn (2007) revelam que a construção da notícia parte de convenções, normas e padrões sociais, os quais ao lado da cultura predominante determinam os enquadramentos a serem utilizados na interpretação do fato e enquanto se conta a estória. Ou seja, as representações sociais são forças ativas na fabricação de um texto noticioso, o qual pode reiterá-las, recontextualizá-las e até mesmo combatê-las, mas de qualquer forma, elas estarão nele refletidas e serão por ele alteradas. Tanto a notícia quanto a representação social nascem do contexto social, são fabricadas para integrá-lo e têm o potencial de construí-lo e alterá-lo, pois   a   “realidade”   também é socialmente construída (Berger & Luckman, 2001). E, a partir do momento em que as notícias e as representações circulam e surgem no tecido social, passam a constituir valores simbólicos e se tornam parte da cultura, dos mitos e das crenças que atuam ativamente na formação desse contexto. Portanto, o jornalismo trabalha no campo das representações sociais. Desde o senso comum profissional que determina os valores-notícia até mesmo aquele que serve de enquadramento para um fato ser reportado. E usá-las é fundamental para a notícia, seja por refletirem a cultura e as convenções sociais, por garantirem a credibilidade e sustentarem o ideal da objetividade, ou até mesmo, por serem familiares ao público, que como audiência significa vendas e anunciantes (lucro). A prática jornalística é entrelaçada pelas representações e mesmo quando noticia uma versão que contrarie o saber e as crenças populares, elas estarão presentes, nem que seja como contraste. Por isso, o jornalismo é uma atividade que tem o poder de reiterar, alterar e negar as representações sociais.

A esquizofrenia nas páginas da Folha de S.Paulo Em 2009, a Folha de S.Paulo citou a esquizofrenia em 79 notícias, as quais utilizaram o termo em contextos diversos como ciência, personagens, geral, opinião, referência a outras mídias e metáfora. Porém, desse universo, analisou-se apenas aquelas matérias que se referem à psicose a partir de seus aspectos clínicos e científicos (saúde) ou que mantêm o foco em seus portadores. Por isso, estabeleceu-se que o corpus deste artigo seria composto por 35 notícias.


Delas, 25 ou 71,4% referem-se à esquizofrenia por meio do jornalismo científico. São textos que abordam ou divulgam um achado, pesquisa ou acontecimento científico que tragam contribuições e melhorias para os portadores da psicose. Portanto, fatos que alterem o conhecimento e a forma de tratar e compreender a doença e seus portadores. As outras dez matérias (28,6%) focam em pessoas que sejam ou alegam ser portadores de esquizofrenia, porém não fazem com o objetivo de divulgar ciência, mas a ação de um personagem. Das 35 notícias somente dez (28,6%) têm a psicose como único transtorno mencionado. Oito (22,9%) vêm acompanhadas por termos usados para referir-se aos distúrbios mentais como loucura, doença (doente, distúrbio) mental, tratamento psiquiátrico, surto psicótico e psicose. Nos outros 17 textos (48,6%), ela divide espaço com outros distúrbios como transtorno maníaco-depressivo (7), depressão (5), autismo (3), além de ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo, fobia social, estresse pós-traumático e psicopatia (1 cada). Os textos foram dispostos em oito diferentes seções do diário. E ainda que se trate de uma temática científica, apenas 14 notícias foram alocadas em Saúde (10), Ciência (3) e Equilíbrio (1), de modo que a editoria que mais explorou a temática foi Ilustrada (11). As outras matérias foram veiculados em Cotidiano (7), Folhateen (1), Ribeirão (1) e New York Times (1). As notícias específicas de Personagens foram veiculadas nas editorias Cotidiano (4), Ilustrada (3), Folhateen (1), Ribeirão (1) e Equilíbrio (1) - seção vista como científica. Por outro lado, as de jornalismo científico foram alocadas em Saúde (10), Ilustrada (8), Cotidiano (3), Ciência (3) e New York Times (1). Isso sé da uma vez que, “o conhecimento científico pode ser utilizado para melhor compreender qualquer aspecto, fato, ou acontecimento de interesse jornalístico. Assim, a informação científica pode estar presente em qualquer editoria” (Oliveira, 2002, p.47), a fim de proporcionar matérias secundárias ou que sirvam de pano de fundo para a compreensão de outro evento (Burkett, 1990, p.18), contextualizando-os (Luiz, 2006, p.51) e os esclarecendo. Em relação à abordagem das notícias sobre o transtorno, 13 matérias (37,1%) apenas o cita, enquanto 22 (62,9%) falam sobre a esquizofrenia. Em 24 (68,6%) textos ouviu-se fontes e em 18 (51,4%) do corpus há personagens.

As notícias de Ciência Como dito anteriormente, no jornal Folha de S.Paulo, 25 notícias abordaram a Esquizofrenia a partir de seus aspectos clínicos e científicos no ano de 2009. Destas, 12 matérias divulgaram um evento, projeto ou estudo científico conduzido por instituições de


pesquisa, sendo três nacionais e oito internacionais. Sete textos veicularam opiniões – em artigos ou editoriais – sobre a psicose ou seus portadores. Três voltaram seu foco à saúde pública, com ênfase na questão do tratamento e do atendimento ministrado ao doente mental. Duas discutiram sobre medicações ou terapias alternativas e um texto adotou um foco distinto, ao divulgar a esquizofrenia, a partir da história de luta, sofrimento e superação de um portador, José Alberto Orsi.

Temática

Quantidade

Causas

7

Diagnóstico

1

Terapias

3

Medicamentos

4

Tratamento – Reforma Psiquiátrica

4

Tratamento – Saúde Pública

3

Reinserção Social

1

Divulgando a doença pelo portador

1

Arte e internação

1

As notícias adotaram um viés notadamente organicista, no qual a esquizofrenia era vista com uma doença ocasionada por uma falha orgânica – genética ou biológica – que causa o mau funcionamento do cérebro, impedindo a concentração do portador em tarefas comuns ou confundindo seus pensamentos e sua noção entre real e imaginário. Como explicou o poeta Ferreira Gullar, pai de dois portadores de esquizofrenia, em um de seus artigos nos quais fazia um desabafo e criticava a Reforma Psiquiátrica. “Doença mental  não   é   motivo de vergonha, não pode ser estigma para ninguém, trata-se de uma enfermidade como outra qualquer. O cérebro é um órgão do corpo humano como o coração ou os rins e, por isso, pode adoecer como qualquer um deles. Porque uma de suas funções é produzir pensamentos, se passa a funcionar mal, o cara perde o controle do que pensa,  ouve  vozes  ou  sofre  alucinações”  (GULLAR,  FSP, 19/07/2009). Além do poeta, que a seu modo, buscou conceituar e explicar as doenças mentais, somente uma matéria – esta de saúde pública, mas que repercutia o questionamento de Gullar sobre a implantação da reforma psiquiátrica no país – o   fez.   Alocada  em   Cotidiano,  a   notícia  “Falta   leito   psiquiátrico   na   rede,   diz   escritor”   (FSP,   19/04/2009)   traz   uma   entrevista   com   o   vicepresidente da Abre, João Cândido de Assis, também portador da psicose, na qual ele, no papel


do discurso de autoridade, avalia a reforma e o tratamento público ministrado aos portadores. A explicação, porém, é dada pelo jornalista que com o uso de aposto ao identificar a esquizofrenia como “doença em   que   o  paciente  enfrenta   fases   de  não  distinguir  realidade   do   que   acredita   ser   real”   (FSP,   19/04/2009).   Essa   conceituação   não   científica   exemplifica   o   tratamento dado pelo jornal à esquizofrenia, no qual o didatismo é raro ou omisso e quando buscado o faz apenas ao descrever os sintomas da doença ou um caso de alucinação, mas jamais se explica que esquizofrenia é uma psicose (doença mental) cujas causas são biológicas   e   também   comportamentais,   como   pode   ser   notado   em   “Esquizofrenia sob controle”   (07/06/2009).   Notícia   que   conta   a   história   do   engenheiro   e   diretor   da   Abre,   José   Alberto Orsi, um homem inteligente e profissional brilhante, filho de um portador de esquizofrenia, que já na vida adulta começou a manifestar os primeiros surtos psicóticos. Em um dos surtos de esquizofrenia, o engenheiro José Alberto Orsi, 41, acreditou que estava sendo monitorado por agentes da FBI [a polícia federal dos EUA] e da CIA [agência de inteligência norte-americana]. Em outro, imaginou ser Adão e se jogou nu em uma piscina. Depois, achou que era a reencarnação de Jesus Cristo. Foram seis anos de sintomas, quatro surtos psicóticos e seis internações em clínicas psiquiátricas no Brasil e nos Estados Unidos até receber o diagnóstico de transtorno esquizoafetivo -uma doença que associa a esquizofrenia e o distúrbio bipolar. (FSP, 07/06/2009)

O texto elucida os sintomas, exemplifica as crises e alucinações, elenca possíveis causas, levantando inclusive a hipótese sobre a hereditariedade, conta que é difícil chegar a um diagnóstico preciso. Mostra a dificuldade de o paciente aceitar-se portador de esquizofrenia e tomar os medicamentos. Explica, através da fala de um expertise, que a doença é degenerativa e os surtos causam perdas de neurônio, mas em momento algum definiu o que é esquizofrenia. Para isso, trabalha-se com duas possibilidades, ou a jornalista acreditou que ao dar essas outras informações – inéditas em relação aos outros textos – já bastava para que o leitor compreendesse e soubesse o que é a doença. Ou então, ela partiu do pressuposto que por não ser um assunto novo, a totalidade de seus leitores sabe o que é a esquizofrenia. Caso a segunda hipótese seja a crença do jornal, uma vez que outros textos também não trazem uma definição para a psicose, caberia, então, ao leitor usar o seu conhecimento prévio – sendo que, segundo a ABP (2009), 90% das pessoas não sabem o que é a esquizofrenia – para compreender o texto e o contexto descrito. E, na ausência do conhecimento científico, destaca-se o saber popular, o qual é baseado em representações sociais que associam o transtorno à loucura e seu portador à violência, irracionalidade, insanidade e periculosidade social. De modo que a esquizofrenia seja vista como uma doença,


algo ruim e negativo. Imagem que vai ao encontro com o próprio sentido de enfermidade, “um estado   que   afeta   o   organismo   de   um   indivíduo”   (Adam   &   Herzlich,   2001,   p.9),   impedindo o bem-estar e, por consequência, causando sofrimento. E é exatamente a doença, que se destaca como a protagonista da cobertura de Comunicação e Saúde (Bueno, s/d). Em contrapartida à visão de sofrimento, as notícias apresentam uma visão idealizada da Ciência, a qual será a responsável por descobrir as causas, compreender a doença, definir os tratamentos e encontrar a cura da psicose, ou seja, a ciência como a super-heroína capaz encontrar   “soluções   mágicas”   (Nelkin,   1995)   para excluir os sofrimentos dos homens. E o fazem como uma corrida na qual sempre são apresentadas as últimas descobertas, estudos e os medicamentos mais eficazes. Informações que por terem sido veiculados em um periódico internacional de respeito ou produzido por uma instituição ou país de ponta não precisam ser questionados ou repercutidos, uma vez que a ciência é algo infalível e seus pesquisadores têm como único interesse trabalhar em prol da humanidade (Teixeira, 2002). Por isso, nota-se que os textos costumam apenas pesquisadores que participam da pesquisa ou, em outros casos constroem suas notícias somente a partir do resumo de um artigo científico. Se a ciência é a salvação, o meio é a genética, a qual é vista como causa e caminho para a compreensão da psicose. E notícias   como   “Autismo   é   o   preço   da   inteligência”   (FSP,   03/06/2009)  e  “DNA  apagado  dobra  risco  de  tumor  no  cérebro,  diz  grupo”  (FSP, 18/06/2009) divulgam estudos e opiniões de expertises que afirmam ter encontrado genes ou mecanismos genéticos que seriam os causadores da psicose. Nas outras matérias que abordam a busca pela causa e tratamentos, o foco na genética é corroborado. Nota-se, portanto, que a cobertura da esquizofrenia como ciência é fortemente marcada pela crença de ciência salvação e o ainda forte encantamento pela genética. O fator sociedade-comportamento é minimizado e encoberto pela visão organicista de que o mau funcionamento do cérebro é a causa predominante da psicose. E se é biológica, cabe à ciência desvendá-la e descobrir sua cura. Pois, ainda que ressaltem o caráter da doença e do sofrimento, predomina a visão de que por meio da ciência, com terapias e medicações é possível   curar   essas   quase   2   milhões   de   brasileiros   que   “sofrem”   de   e   pela   esquizofrenia   e reinseri-los socialmente. - Quando o personagem é notícia Dez notícias foram enquadradas em Personagem. São textos que se referem não à esquizofrenia, mas sim a pessoas que portam ou alegam portar a psicose. Desses textos, sete


retratam o portador de modo negativo, dois focam o caráter negativo do transtorno mental e um, ainda que construído a partir do senso comum da loucura, fala em inserção social e mostra o personagem positivamente. “Editor abre  baú  de   Agrippino  de  Paula”  (FSP,  19/01/2009)  e  a  entrevista  de   Mônica   Bergamo com a atriz Deborah Secco (23/08/2009) retratam os personagens das notícias de forma positiva, porém referem-se à esquizofrenia como algo incapacitante e insano (incapaz de distinguir real e imaginário). Dos sete textos que retratam negativamente o portador, dois relatam os personagens como seres dependentes e incapaz. Os outros cinco textos retratam situações de violência e, em alguns casos, o uso da esquizofrenia como justificativa para um crime irracional ou brutal ou como atenuante de pena, nos quais os acusados alegam ser portadores de esquizofrenia a fim obterem atenuante de pena, pois pela legislação penal, portador de doença mental é considerado inimputável e ao invés de penas só pode cumprir medidas de segurança. A notícia   “Paciente   produz   e   dirige   documentário;;   ator   cria   blog   contra   preconceito”   (FSP, 04/07/2009) é a única que retrata a esquizofrenia e seus portadores de modo positivo, porém o faz dentro das imagens e preconceitos existentes na sociedade em relação à loucura e seus personagens. O texto retrata ações do ator global Bruno Gagliasso e do cineasta Kayky Avraham, - este portador de esquizofrenia - que usam a arte “como forma de combater a loucura”   (FSP,   04/07/2009). Avraham codirigiu o filme Sociedade Secreta, sobre as mudanças no atendimento à saúde mental após a reforma psiquiátrica de 2001.   “Gagliasso, que interpreta o personagem esquizofrênico Tarso na novela ‘Caminho das Índias’, usa a arte para contar que problemas como o preconceito sofrido por Avraham continuam parte da rotina  dos  doentes  mentais” (FSP, 04/07/2009). O texto aborda a questão do estigma aos doentes mentais e cita exemplos dessa questão vivenciados pelo ator - "O preconceito contra essas pessoas é imenso. Um paciente com esquizofrenia me disse que nem   queria  ter   os  direitos   dos  ‘normais’, só queria ser visto da mesma forma que um deficiente físico" (FSP, 04/07/2009) - e também pelo presidente da Associação Brasileira de Saúde Mental, Walter de Oliveira - "Basta a pessoa chegar perto de um hospital psiquiátrico que fica estigmatizada, é vista como improdutiva". (FSP, 04/07/2009). A matéria é finalizada por outro exemplo do ator, que em 2008, na peça "Um Certo Van Gogh", interpretou o pintor holandês, que sofria de ataques psicóticos e delírios, e para isso participava de ensaios de uma banda formada por profissionais e pacientes psiquiátricos, no Rio e contou que o taxista tinha medo de levá-lo até a clínica. "Eu o convidei a entrar.


Apontei para um deles, todo mundo dançando e cantando, e  perguntei  para  o  taxista  ‘esse aí é louco'? ‘Claro que é, olha a cara dele’, ele respondeu. Era um dos terapeutas" (FSP, 04/07/2009), Essa matéria serve como exemplo clássico a respeito da construção da notícia. Nela, um novo acontecimento – o uso da arte por Avraham e Gagliasso para lutar contra o preconceito aos doentes mentais – foi selecionado e transformado em narrativa noticiosa após a interpretação do fato dentro dos enquadramentos culturais existentes. No caso, a visão da loucura como definição de toda e qualquer forma de transtorno mental e também termo que concentra o maior estigma aos portadores de doenças mentais; o uso de esquizofrênico ao invés de portador de esquizofrenia, que faz com que a pessoa torne-se a própria encarnação da doença, que é instituída como condição permanente; e também o exemplo do taxista que se baseia numa imagem e em pré-conceitos moldados socialmente para definir quem é ou não é louco. Portanto, ainda que o texto busque veicular a questão da inserção social dos portadores de distúrbios mentais, ele foi construído a partir de interpretações e significados comuns ao público leitor – a loucura e o estigma. O que confirma a afirmação de que mesmo quando se noticia uma versão que contrarie o saber e as crenças populares, elas estarão presentes, nem que seja como contraste. Por fim, notou-se que quando o personagem é o foco do texto, as representações sociais da loucura são fortemente empregadas. Seja para justificar um ato brutal ou insano ou como pano de fundo para compreender uma luta pela inclusão social.

Considerações Finais Portanto, é possível afirmar que tanto no viés científico quanto nos textos que focam ações de personagens, são empregadas múltiplas imagens e significados da esquizofrenia. Ora ela é uma doença orgânica, que será tratada pela ciência, ora ela se resume apenas à loucura e a seus diversos significantes negativos e estigmatizados. Por isso, diz-se que a Folha de S.Paulo realiza uma cobertura polissêmica, abordando muitos sentidos de uma única psicose, e na qual, a informação científica e as tentativas de reinserção social convivem lado a lado com a corroboração do preconceito e as representações sociais da loucura, que mesmo quando negadas são lembradas e utilizadas para fornecer os enquadramentos culturais pré-existentes que permitem ao público e também ao jornalista compreender o conteúdo do texto.


Conclui-se que, por se tratar de um tema que se encontra na intersecção entre saúde e sociedade, as notícias sobre a esquizofrenia tendem a carregar tanto as representações sociais da ciência como salvação, em especial o encantamento com a genética e a busca pela saúde perfeita, quanto o senso comum da loucura e suas construções negativas. Isso se dá uma vez que o jornalismo atua no campo do senso comum e as notícias, como produtos culturais, estão presas a uma representação social, seja para reafirmá-la ou rebatê-la. Por isso, partem de um conhecimento popular para informar o leitor de algo novo, porém usam enquadramentos culturais já existentes e compartilhados pelo público, jornal e jornalistas. Isso torna o texto inteligível para ambos e permite que ele seja ser inserido na realidade social, que o formou, mas que também ajudará a construir.

Referências Associação Brasileira de Psiquiatria. (2009). Manual para a imprensa: boas práticas de comunicação e guia com recomendações para um texto claro e esclarecedor sobre doenças mentais e psiquiatria. Rio de Janeiro: ABP. ADAM, P., & HERZLICH, C. (2001). Sociologia da doença e da Medicina. Bauru: Edusc. BARDIN, L. (2009). Análise de Conteúdo (4ª ed.) Lisboa: Edições 70. BAUER, M. (2009). A Popularização da Ciência como Imunização Cultural: A Função de Resistência das Representações Sociais. In: GUARESCHI, P. A., & JOVCHELOVITCH, S. (orgs). Textos em representações sociais (11 ed.). Petrópolis: Vozes. BERGER, L. P., & LUCKMANN, T. (2001). A construção social da Realidade (20 ed.). Vozes, Petrópolis. BIRD, E., & DARDENNE. R. W. (1999). Mito, registro   e   “estórias”:   explorando   as   qualidades narrativas das notícias. In: TRAQUINA, N. (org). Jornalismo: Questões, Teorias e Estórias. (2 ed.) Lisboa: Vega. BUENO, W.C. (s/d). Comunicação para a saúde: uma revisão crítica. Recuperado em 12 setembro, 2011 <http://www.jornalismocientifico.com.br/jornalismocientifico/artigos/jornalismo_saude/artigo 9.php>. BURKETT, W. (1990). Jornalismo Científico: Como escrever sobre ciência, medicina e alta tecnologia para os meios de comunicação. Rio de Janeiro: Forense Universitária. CAPAZZOLI, U. (2002). A divulgação e o Pulo do Gato. In: MASSARINI, L., MOREIRA, I.C., & BRITO, F. (orgs). Ciência e Público: caminhos da divulgação científica no Brasil. Rio de Janeiro, RJ: UFRJ.


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1. Datos del autor o autores: nombre, universidad, país, correo electrónico. Nombre: Victoria Cuadrado Gómez Universidad: Universidad Autónoma de Nuevo León (México)- Universidad de la República (Uruguay) País: Uruguay Correo electrónico: victoria.cuadrado@gmail.com

2. GT/GI en que se presentará. Grupo de Trabajo: Comunicación y Salud

3. Resumen. La Visión 2012 de la Universidad Autónoma de Nuevo León (UANL) tiene como uno de sus ejes de acción, la estrategia social y, uno de los puntos para lograrlo, es el acercamiento a la comunidad. Para dar cumplimiento a éste, se propusieron varias líneas y una de ellas, es la implementación de un espacio virtual de asesoría en salud a la comunidad: Expertos UANL en Línea. Esta investigación busca analizar y reflexionar sobre las propiedades que tiene la comunicación escrita mediada por computadora de los expertos y de los usuarios. La misma se realizó mediante la elaboración de categorías donde se identificaron aquellas consideradas como relevantes en la interacción social entre consultantes y expertos. De esta manera, se determinó si este espacio de consulta en salud está cumpliendo con el propósito de proyección social de la universidad. Se tomo como muestra para el análisis, los mensajes de la sección de Ginecología. La metodología fue cualitativa y la técnica principal para cumplir con los objetivos de investigación fue el análisis de contenidos. Los resultados muestran que se establece una relación de cercanía de parte del experto al consultante, es un vínculo de comunicación horizontal, los mensajes se transmiten en un lenguaje claro y accesible para un sector no especializado y, en su mayoría, los expertos cumplen con su función de orientación médica. Los resultados obtenidos son un aporte para que la universidad revise algunos aspectos que denotan debilidad en el


desarrollo del foro, para que su propósito de apoyo y asesoría dirigido a la comunidad se logre de manera exitosa.

4. Texto completo.

Expertos UANL en Línea: un servicio de apoyo y asesoría a la comunidad. Problema de investigación y objetivos La presente investigación analiza y reflexiona sobre un servicio nuevo que brinda la Universidad Autónoma de Nuevo León (UANL). Expertos UANL en Línea, es un foro, un espacio virtual donde las personas pueden consultar a expertos en el ámbito de la salud sobre temas que necesiten orientación. Actualmente, el uso de internet está presente en la vida cotidiana de las personas, lo que originó que sus usos se diversifiquen, en este sentido, un sitio Web como este, viene a cubrir con esos nuevos retos y demandas de la sociedad. Los expertos de la UANL que trabajan en este servicio, tienen como objetivo aclarar o despejar dudas a quienes se lo demanden y el propósito de esta investigación es analizar cómo se lleva a cabo esa comunicación escrita, qué características tiene, cómo es el vínculo experto -consultante, especialmente, en la consulta ginecológica. Por lo tanto, todos estos puntos pretenden determinar si los expertos están cumpliendo con sus objetivos y la función social que la universidad se propone en su Visión 2012. El foro tiene como eje cinco grandes áreas de consultas: Psicología, Medicina, Enfermería, Odontología y Nutrición. El análisis se realizó con los mensajes de Ginecología. Se consideró que trabajar con esta especialidad puede dar información relevante para el cumplimiento de los objetivos planteados y porque las consultas realizadas en este campo ocupan un número relevante en el foro.


La existencia de este espacio de consulta se debe fundamentalmente al desarrollo tecnológico y, por supuesto, al origen de la web 2.0. La nueva modalidad de comunicación, también denominada web social, se vincula con el objeto de la investigación porque entre sus cualidades se encuentra el que es una forma de compartir conocimiento, tal como sucede en Expertos UANL en Línea. En la Visión 2012 se plantea dar respuesta a los desafíos de este siglo. Es la sociedad del conocimiento el motor que impulsa a la UANL a consolidar la oferta educativa. De las áreas estratégicas que se definieron para llevarla adelante, la que interesa para el objeto de estudio de la investigación es la vinculación social. Expertos UANL en Línea es una forma de incrementar los servicios de apoyo y asesoría dirigidos a la comunidad tal como la Visión 2012 establece.

Definición del Problema La UANL se ha propuesto cumplir una función social que abarca diferentes puntos y estrategias. Para el caso de esta investigación, interesa lo referente a incrementar los servicios de apoyo y asesoría dirigidos a la comunidad. Una de las estrategias para llevar a cabo estos propósitos es el foro Expertos UANL en Línea, por lo cual, es importante detectar si éste cumple con dicha función.

Objetivo General Analizar cómo se trasmite los mensajes a través del foro Expertos UANL en Línea en la sección de Ginecología, para determinar si cumple su función de servicio de apoyo y asesoría dirigido a la comunidad, así como si esta sección contribuye con la proyección social de la UANL.

Objetivos Específicos 

Determinar si se establece una interacción social positiva entre los expertos que atienden la sección de Ginecología y sus consultantes.

Determinar si la sección de Ginecología de Expertos UNAL contribuye con la proyección social de la UANL.


Marco Teórico Medicina y Salud Pública El surgimiento de la medicina moderna, según Foucault (2009) se dio hacia los últimos años del siglo XVIII cuando ésta dio un giro empírico, y asume los rasgos más esenciales de una ciencia positiva, regirse por verdades absolutas y no meras observaciones. Pese a este cambio, la medicina moderna no se deshizo de todos los antecedentes, sino que hubo una reorganización de sus elementos y de la concepción de su objeto de estudio. A partir de ese período aparece la idea de medicalización, según Rodríguez (2008), buena parte del comportamiento de las personas están sujeto a controles médicos, o sea, la medicina se hace presente en diferentes ámbitos de la vida de las personas. A la ciencia de la salud y su papel protagónico en la vida de las personas se le atribuye una potestad que muchos autores, entre ellos y el más destacado es Foucault (2009), refieren como el saber médico, entendido como un tipo de poder y una forma de control social. La relación médico paciente es básicamente una relación social de poder donde intervienen múltiples factores tales como la influencia sobre el paciente, la autoridad propiamente dicha, el prestigio y la dependencia en la que se encuentra el enfermo. Estos elementos reproducen procesos de la sociedad, fundamentalmente procesos de dominación y subordinación.


Divulgación de la ciencia La ciencia es un producto cultural y, como tal, todas las personas deberían tener acceso a ella o ser capaces de comprenderla. Según señala Blanco (2004), la comprensión pública de la ciencia se considera actualmente como uno de los valores intrínsecos de las sociedades democráticas. La divulgación científica en la actualidad rompe (o intenta hacerlo) la brecha que ha existido desde hace mucho tiempo entre la comunidad científica –integrada por  unos  pocos  “sabios”- y la comunidad en general. El desarrollo de los medios de comunicación ha incidido satisfactoriamente en zanjar esta diferencia y un ejemplo de ello es Expertos UANL en Línea, como una forma de poner al servicio de la comunidad el conocimiento que se genera en la universidad para resolver problemas de salud cotidianos y contribuir al bienestar de las personas.

Interaccionismo Simbólico El interaccionismo simbólico –cuyo nombre lo dio Herbert Blumer en 1938- junto con la Escuela de Palo Alto, fueron dos manifestaciones que consideraron la comunicación, antes que nada, como interacción social. “Las dos   corrientes   orientan   sus  reflexiones  e  investigaciones  desde  un   punto  de  partida   básico: las definiciones de las relaciones sociales son establecidas interactivamente por sus participantes, de modo que la comunicación puede ser entendida como base de toda relación”  (Rizo,  2011,  p.  3). Actualmente, se debe considerar como parte de la interacción y de la comunicación interpersonal el papel que están jugando las tecnologías de la comunicación e información (TIC).

Comunicación mediada por computadora (CMC) La investigación sobre la comunicación interpersonal empezó a considerar la CMC en 1980 y principios de 1990 comparándola con la comunicación cara a cara. Los primeros puntos de vistas de esta teoría fueron reflexionar sobre la CMC como una comunicación impersonal, por la ausencia de señales verbales. Una de sus líneas fuertes, son los estudios sobre el grado en el cual


la pérdida de señales no verbales, se trata se suplir a base del uso del texto, influye en sus resultados comunicativos (Garza, 2008). Entre las perspectivas teóricas sobre la CMC se encuentra la Teoría del Proceso de Información Social. Ésta hace referencia a que la ausencia de señales verbales en la comunicación mediada, habilita a quien emite un mensaje a desarrollar mecanismos para reducir la incertidumbre que se pueda generar por dicha falta. Desde ese punto de vista, la CMC puede tener los mismos efectos en los interlocutores que la comunicación cara a cara. El intercambio de información es más lento pero la relación que se lleva a cabo en un espacio virtual puede ser tan personal como la cara a cara.

Escritura La escritura es parte del canal por cual se lleva a cabo la interacción entre expertos-consultantes. La escritura utilizada en la comunicación mediada por la tecnología desarrolló cualidades particulares que se asemejan a la oralidad y los autores de referencia para este aspecto las definen como “oralidad  escrita”, de acuerdo a Levis  y  “formas  textuales  híbridas”, según Pietrosemoli y Domínguez (2001).


Metodología La metodología desarrollada es cualitativa y la técnica central que permitió cumplir con los objetivos de investigación es el análisis de contenidos.


Enfoque metodológico Es una investigación transversal porque la recolección de datos, se hizo en un momento de tiempo determinado (19 de agosto de 2009 a 5 de marzo de 2011). La tipología es exploratoria y descriptiva, característica intrínseca de la investigación cualitativa que, a diferencia de la investigación cuantitativa, es un proceso inductivo que requiere de la exploración y descripción para llevarse a cabo. En cuanto a lo exploratorio se debe a que Expertos en Línea UANL es un proyecto nuevo y del cual se desconocen antecedentes, entonces, este abordaje permite acceder a un tema del cual no se tiene información, genera un preámbulo para próximas investigaciones y sirve de base para el proceso descriptivo. Asimismo, la descripción busca desarrollar una representación del objeto de estudio y sus propiedades más relevantes.

Método de recolección de datos “El análisis   de   contenido   se   sitúa   en   el  ámbito   de   la  investigación   descriptiva,   pretende,   sobre todo, descubrir los componentes básicos de un fenómeno determinado extrayéndolos de un contenido dado a través de un proceso que se caracteriza por el intento  de  rigor  de  medición”  (Pérez,  2007,  p.142). La elección de utilizar esta técnica es porque se adapta al estudio y análisis de la comunicación que se establece en Expertos UANL en Línea. Específicamente desde el enfoque cualitativo, dice Álvarez (2006) que es una forma de analizar la comunicación emitida por los medios masivos de comunicación o por personas comunes y corrientes. Desde el punto de vista cualitativo, esta técnica considera la ausencia o presencia de una característica de contenido dada en un texto. En los mensajes de Ginecología se buscó detectar la presencia y ausencia de las categorías, sub-categorías primarias y secundarias para dar cumplimiento a los objetivos de investigación. A modo de ejemplo, en los mensajes se examinó la existencia o no de saludo, la utilización o no de un lenguaje accesible para un público no especializado, entre otras.


Esta técnica, tiene entre sus funciones, conocer el sentido manifiesto (directo) y el sentido latente (oculto) del objeto a estudiar. En esta investigación no es un fin indagar en los contenidos ocultos de todos los mensajes porque se parte de la base que no es una propiedad de la comunicación que aquí se establece. Sin embargo, existen casos donde fue necesario profundizar en esos aspectos latentes por la información interesante que surgió de éstos.

Muestra Para el tamaño de la muestra se utilizó el criterio mostrado por Galindo (1998, p. 50) y se extrajo del total de los menajes de Ginecología (población) desde su inicio hasta el hasta 5 de marzo de 2011 cuando se hizo el último reporte de los datos desde la coordinación del foro. Una vez establecida la cantidad de mansajes, se utilizó la función random de Excel para elegir los mensajes. El total de mensajes es de 1638, da aproximadamente que la muestra es de 300 mensajes. El procedimiento para elegir los mensajes a analizar se hizo de manera aleatoria.

Población

Muestra. Margen de error +/- 5%

1.000

275

2.000

319


Análisis Perfil de la persona que consulta Tabla 1. Distribución por sexo y edad. Edad Menos

Sexo

De 19 a 30

De 31 a 45

De

18 años

años

años

más

Total

Femenino

30

158

68

17

273

Masculino

5

16

3

3

27

35

174

71

20

300

Total

de

46

a

En cuanto al sexo, por la especialidad que está en estudio, los datos obtenidos son lógicos, que las mujeres representen 273 consultas hechas frente a 27 de hombres. De todos modos, más allá de que esta investigación analice los mensajes de Ginecología, en casi todas las especialidades las mujeres sobresalen en comparación con las consultas de los hombres. En cuanto   a   la   edad,   la   franja   que   está   más   representada   es   la   de   “19   a   30 años”   con   el 174 mensajes. Lo más relevante es el vínculo de la edad con el uso de las nuevas tecnologías. Son personas más jóvenes quienes tienen mayor acceso a ellas porque es una generación que ha ido acompasando su desarrollo. En este entendido, se puede sostener que el primer rango debería tener la representación más alta, sin embargo, por la temática que se trata no todas las personas menores de 18 años tienen inquietudes ginecológicas. La edad en este caso está relacionada con el tema y según lo que se puede observar son mayores de 19 años donde se comienzan a presentar interrogantes en esta materia.


Tabla 2. Distribución por nivel socioeducativo Frecuencia Medio-Superior

51

Bajo

249

Total

300

Esta categoría, a diferencia de las anteriores, se infirió a partir de datos presentes en los mensajes como son: la ortografía, el vocabulario y rasgos que se consideraran significativos en este tema. De acuerdo a lo abordado en el marco teórico, en cuanto a la escritura mediada y a la ortografía, se podría pensar que no es estrictamente un indicador de nivel educativo. Sobre todo, porque las personas usuarias de las nuevas tecnologías con el afán de lograr una comunicación escrita eficaz, con rasgos de la oralidad, pierden de vista las reglas gramaticales o el adecuado uso de la ortografía. A los efectos prácticos de realizar esta categorización en los mensajes se debió ser estricta con ese aspecto para que su análisis fuese objetivo.


Tabla 3. Estado de ánimo Frecuencia Muestra aprensión

44

Muestra

255

tranquilidad No aplica

1

Total

300

Esta categoría surgió en una segunda revisión de los mensajes cuando se observó que era un aspecto que aparecía en repetidas ocasiones. Por las características de este servicio muchas personas manifestaban explícitamente su estado anímico, su ansiedad, preocupación o miedos. Cuando se definió esta categoría se esperaba encontrar datos que refiriesen a ésta en los aspectos más latentes (ocultos) del mensaje que en los manifiestos. Sin embargo, esto no sucedió. En este sentido puede incidir el anonimato para que las personas puedan expresarse sin disimulos. Las personas que muestran aprensión se observan en 45 mensajes frente a quienes muestran tranquilidad 255. Existe un caso en que la consulta fue tan escueta que no permitió identificarla en ninguna de las sub-categorías primarias por esa razón figura como  “no  aplica”. El perfil de las personas usuarias de Ginecología es: mujeres, de una edad de 19 a 30 años, con nivel educativo bajo. Por lo general, no muestra aprensión en su consulta. En sus mensajes se dejan entrever la importancia de los nuevos códigos y expresiones que surgen en la escritura mediada, como también el uso de este espacio para confirmar una información con la que se cuenta, entre otras observaciones que aparecen menos representadas.


Cualidades de los mensajes en relación al vínculo de expertos-consultantes de Ginecología Tabla 4. Utilización del saludo Utilización del saludo Mensaje de aliento o de ánimo

Saludo de despedida No

No

Saludo de bienvenida

No

Si

No

17

8

25

Si

154

67

221

171

75

246

No

9

1

10

Si

39

4

43

48

5

53

Total Si

Saludo de bienvenida

Total No

Saludo de bienvenida

aplica

Total

Si

aplica

Total

1

1

1

1

En 71 mensajes el experto saludó al iniciar el mensaje y al cerrarlo. Como saludo -sea de bienvenida o despedida- se tomó   cuando   el   experto   dice   “Gracias   por   su   pregunta”   o   sólo   “Gracias”,  esto  no  es  un  agradecimiento  en  el  sentido  estricto  sino  que  es  una  forma  de  introducir   en el mensaje. En las despedidas también aparecieron como saludos mensajes como "Espero haber  resuelto  tu  duda"  o  “Hasta  luego”.   Otro dato relevante es que existen más mensajes sólo con saludo de bienvenida que sólo con saludo de despedida, 193 mensajes a 9. Por otro lado, en 26 no figura ni uno ni otro saludo. En este último caso se ve algo más de distancia entre experto-consultante. Por otro lado, cuando aparecían mensajes de aliento no había saludo de despedida, el experto cuando cerraba su respuesta en ocasiones utilizaba “Cuídate”.  Se  categorizó  como  un mensaje de aliento o ánimo porque produce un mensaje cálido, aunque, en México se podría entender como una modalidad de despedida.


Tabla 5. Lugar desde donde responde el experto y utilización del tuteo Lugar desde donde responde el experto y utilización del tuteo Tuteo

Desde qué lugar responde el experto

No

Si

Total

7

40

47

27

85

112

De forma impersonal

51

89

140

No aplica

1

0

1

86

214

300

A nombre personal A

nombre

de

la

Institución

Total

En la utilización del tuteo se puede observar que es un número alto de mensajes donde se utiliza esta modalidad. Este aspecto es sumamente importante para determinar la cercanía o lejanía que establece el experto con la persona que consulta. El tuteo muestra como en este nuevo servicio, el vínculo experto-consultante cambió en algún sentido la distancia o la relación social de poder que ha existido en la sociedad entre el médico y el paciente. Esto no quiere decir que esta relación haya terminado sino que, al cambiar el espacio de interacción, varía el vínculo que se establece entre ellos. El tuteo es un dato relevante para sustentar esa afirmación. El uso de tuteo, muestran un vínculo más cercano y horizontal. Este rasgo también está relacionado con lo que sostiene la teoría de la CMC. Garza (2008), hacía referencia a que a teoría del proceso de información social (SIP), subraya cómo la falta de señales no verbales y una baja presencia social hace más difícil que surja el liderazgo. En cuanto al lugar desde el cual responde el experto, se puede decir que es de esperar que responda en nombre de la institución a la que representa pero, por una cuestión de cercanía, también es relevante que lo haga a nombre personal. Como se observa, los mensajes a nombre de la institución (“Le  recomendamos”)  son  más  que  los  que  se  respondieron  a  nombre  personal  (“Te   recomiendo”).  


Los datos muestran que la mayor parte de las respuestas fueron impersonales, esto llama la atención porque esa sub-categoría secundaria implica más distancia. Aunque, en el procesamiento de los datos se pudo establecer un factor que incide en este aspecto, es decir, cuando los mensajes son impersonales pero el experto tutea a la persona, refiere a algo más cercano que cuando no existe tuteo. Se parte de la base que la carencia de este espacio es no hacer una revisión física pero, tal como dice la teoría de la CMC en cuanto a la ausencia de señales verbales, en este caso sucede lo mismo, se deben implementar otros mecanismos para suplirlo. Entonces, cuando se ve que el experto no supo o no pudo orientar se determina, en definitiva, que no desarrolló otras alternativas comunicativas. Entre otras observaciones se mostró que hay casos en que indirectamente está prescribiendo, sobre todo, cuando se refiere a anticonceptivos como reguladores del período menstrual. Deja abierta esta opción y en la sociedad donde la automedicación es un rasgo de la medicalización de la vida, es prácticamente como recetarlo explícitamente. Un aspecto que habla de buena disposición y de un vínculo horizontal es cuando responde sin problemas aunque la consulta es para otra especialidad o en aquellos casos que son hombres quienes tienen dudas sobre sus órganos genitales, por no haber una especialidad para ellos, también le consultan en Ginecología y reciben una respuesta orientadora. Tabla 6. Uso de términos técnicos Uso de términos técnicos Frecuencia No

278

Si

21

No aplica

1

Total

300

En cuanto a lo que se mostró y de acuerdo a la tabla se puede afirmar que desde Ginecología se comunica en un lenguaje llano, son relativamente pocos, 21 mensajes, donde se utilizan términos


técnicos. Sobre este punto hay que aclarar que, cuando se utilizaron, en la mayoría de los casos se trataba de explicar que significaba el término técnico utilizado. La categoría de correspondencia del uso del tu o del usted buscó profundizar un poco más en cómo es el vínculo que se establece entre expertos y consultantes, lo relevante de ésta es considerarla conjuntamente con las otras categorías que refieren a dicha relación. Luego de la lectura y análisis de las categorías que se consideraron para dar respuesta a la pregunta de investigación -¿Qué cualidades muestran los mensajes en relación al vínculo de expertos-consultantes de Ginecología?- se está en condiciones de sintetizar la información para responderla. Los mensajes que presentan saludos –bienvenida, despedida o mensaje de aliento aunque sea sólo uno u otro, son 283. Es un dato es significativo para considerar la cercanía que se establece entre las partes involucradas. En cuanto al lugar desde donde responde el experto, el único rasgo que los hace más lejanos es cuando se habla de forma impersonal y no se tutea, pero si se considera este aspecto, son insignificantes los mensajes que muestran este rasgo. Por lo contrario, en este sentido la mayor parte de éstos muestran que existe cercanía entre expertos y consultantes. La utilización de un lenguaje técnico no prima en los mensajes, el experto tuvo la capacidad para traducir la información que se le pedía a un lenguaje llano y accesible para un público no especializado. Esto se vincula a lo promueve la divulgación de la ciencia, el hacer accesible un conocimiento científico a toda la sociedad como parte de democratizar la información. De acuerdo al análisis de las categorías que aluden a cercanía entre experto y consultante y a la estrategia que se propuso la universidad de apoyo y asesoría a la comunidad, se puede decir que se está cumpliendo.


Evolución de las consultas de Ginecología durante el período de referencia Figura 1. Evolución de las consultas en el foro, Medicina y Ginecología

Fuente: Administración del Foro

En cuanto a los mensajes de todo el foro se observa que los primeros meses hubo un aumento pero después ha variado bastante las consultas. La pendiente de evolución de todo el foro es de 0.26 lo que hace afirmar que no existió un crecimiento. Según muestra la línea de Ginecología y Medicina, el mes más significativo fue en noviembre de 2009, en Medicina hubo 247 consultas y en Ginecología 129 (más de la mitad). La evolución de Medicina y Ginecología es similar, de alguna manera, ambas acompasan la tabla de evolución de todo el foro. Tal es el caso de noviembre de 2009, donde las tres líneas muestran uno de los puntos altos del funcionamiento del foro. De acuerdo a los datos expuestos, no se puede hablar de una evolución progresiva y creciente de consultas, por ejemplo si se comparan los meses de enero y febrero, que son los únicos que se pueden comparar, se muestra que de una año para el otro existe una disminución en las consultas.


En Ginecología los mensajes se movieron en un rango de 129 como máximo y 41 como mínimo, se observan picos de repunte pero, en general, la pendiente es de -0.04, por lo que no se considera que hubo crecimiento desde que se inauguró el espacio hasta febrero de 2011. Esto no muestra ninguna tendencia definida, no se puede especular con factores que puedan incidir porque el comportamiento varía de un año a otro y sólo son dos años para compararlo. En general las consultas se han mantenido, tanto en Ginecología como en el foro en general. Figura 2. Evolución de las visitas del foro

Fuente Administración del foro

Para complementar la información anterior de la evolución de las consultas se muestra la evolución de las visitas. En este sentido y comparando ambas gráficas, se puede sostener que las visitas, a diferencia de las consultas, han variado y se percibe una evolución más sostenida, según la pendiente de crecimiento es de 64.62.

Rasgos que presentan los mensajes de Ginecología de la CMC En lo que refiere a la escritura, los nuevos códigos y expresiones que surgen de este vínculo mediado por computadora, se representan en 20 mensajes. Esta cualidad le da al foro un rasgo de flexibilidad en el sentido que las personas se comunican naturalmente y no se muestra en ello


una relación asimétrica del vínculo médico-paciente. También, se observan mensajes muy formales. Las personas más jóvenes tienden a usar este tipo de códigos o expresiones por su mayor familiaridad con las nuevas tecnologías. Las smiles son parte de estos nuevos códigos como figura en el primer mensajes (=D) o   el   acortar   palabras   (kiero)   y   “hola   doc”,   díganme   please”  son  ejemplos  de  nuevas  expresiones. El experto no manifiesta ningún malestar por dicha informalidad, él responde cortésmente sin marcar una diferencia con las personas que son más formales y estas otras que escriben en un lenguaje más informal y cotidiano. Este aspecto refuerza la idea de horizontalidad a la que refiere la teoría de la CMC, se observa en gran medida que no existe liderazgo de parte de los expertos en los mensajes. Ellos, en este caso, tienen el rol de divulgador del conocimiento pero no marcan una diferencia de estatus frente a la persona que consulta. Existen otros mensajes de quienes consultan, que por no respetar el correcto uso de la ortografía o las reglas gramaticales en ocasiones hacen que la idea que se buscó expresar no logre entenderse del todo. Sin embargo, es de destacar la postura del experto por interpretarlo y dar una respuesta acorde a la consulta. Esto corrobora que el experto utiliza, en estos casos, la capacidad de decodificar que se requiere en este medio debido a la ausencia de señales verbales. Algo que se observó en varias ocasiones fue que el experto cuando escribe de forma impersonal y el mensaje es más extenso que lo habitual suele copiarlo de otra página Web. Lo paradójico es que al copiar esa información, no le da el crédito a la persona o el sitio de dónde sacó la información. El acceso ilimitado a la información, como sucede con internet, lleva a que algunas personas hagan uso de ésta sin hacer referencia a la fuente. También, la divulgación de la ciencia se ha intensificado con las posibilidades que ofrece internet y al tomar información de otra Web, el experto UANL, se transforma es un intermediario entre la comunidad y ese divulgador del cual tomó la información. Esto que sucedió en el foro, más allá de la transgresión de tomar una información como propia, también se observa que se incluía información de más, lo cual hace pensar que el experto no tuvo


la disposición de discriminar los datos que hacían referencia a la consulta y que no tenía relevancia. Otro rasgo de la CMC es el anonimato y en este foro se advirtió en algunas ocasiones. “[…] la   posibilidad de no ser identificado u ocultarse ante los demás con un nick o apodo, es uno de los aspectos   que   con   frecuencia   atrae   a   muchos   usuarios   a   este   medio”   (Moral y García, 2003, p.134). El anonimato le quita a los mensajes la formalidad de la que se habló y hace que las personas se expresen, en muchos casos, sin obstáculos. También, esta comunicación mediada hace que algunas personas den más información y generen una mayor intimidad con quien interacciona que si fuese un vínculo presencial. Según señalan Walther y Parks (2002), la CMC puede resultar ser hypersonal, pues, pueden resultar ser más personales y suponer un mayor nivel de revelación que cuando se establece una interacción cara a cara.

Particularidades de la escritura en los mensajes de Ginecología Levis (2007), manifiesta que las personas en una comunicación mediada están más interesadas en que ésta sea eficaz y no se preocupan demasiado por las reglas gramaticales u ortográficas. No obstante, el experto tiene el rol de divulgador del conocimiento y debe ser cuidadoso con estos recursos de la lengua, tiene que escribir de forma clara y esto se logra haciendo un adecuado uso de las reglas gramaticales. Para dar respuesta a esta pregunta de investigación, en el análisis de contenido se utilizaron las categorías: adecuado uso de la sintaxis y uso correcto de la ortografía.


Tabla 7. Sintaxis y ortografía en mensajes del experto. Sintaxis y ortografía en mensajes del experto. Adecuado uso de

Uso correcto de

la sintaxis

la ortografía

Frecuencia

Frecuencia

No

41

92

Si

258

206

No aplica

1

2

Total

300

300

En 41 mensajes no se representa un adecuado uso de la sintaxis y en 92 no se utiliza una adecuada ortografía. Si se considera que  son  “expertos”  quienes  no  hacen  un  correcto  uso  de  este   rasgo de la escritura, es bastante alto el resultado. Esta tabla parece contradecir lo que señalan Pietrosemoli y Domínguez (2001) “Una  buena  ortografía  indica  una  buena  educación […]”.  Sin duda que está vinculado querer lograr una comunicación eficaz y también, el experto, perdió de vista las reglas gramaticales y ortográficas. Las observaciones que se analizaron en una categoría aparte, muestran que los temas son diversos, con relación a este tema se constató que en 21 mensajes, figura el uso de nuevos códigos y nuevas expresiones propios de la comunicación mediada.


Interpretación de los mensajes de Ginecología Esta respuesta se dará considerando la sub-categoría primaria de correspondencia con el tema de la consulta. Tabla 8. Correspondencia en el tema. Correspondencia en el tema. Frecuencia No Si No aplica Total

5 294 1 300

En 294 hubo correspondencia mientras que en los que no la hubo, no necesariamente significa que la respuesta del experto hizo referencia a un tema opuesto sino que, no se focalizó en lo que se le preguntaba. La no correspondencia entre pregunta y respuesta es significativa, si se considera que el funcionamiento del foro gira en torno a este aspecto, interpretar lo que se consulta y orientar. El interaccionismo simbólico dice que el sentido que el autor pretende dar al texto puede no coincidir con el sentido percibido por el lector mismo. Sobre este aspecto, no se pudo corroborar de forma exhaustiva, pues, los expertos no establecen un vínculo con quienes consultan, no hay testimonios en cuanto a si la interpretación es correcta porque no se conoce si hay la persona re pregunta.


Conclusiones El supuesto de la investigación refiere a que los expertos que atienden la sección de Ginecología, están cumpliendo con su función de servicio de apoyo y asesoría a la comunidad al establecer un vínculo positivo entre ellos y los usuarios, asimismo, están contribuyendo con la proyección social de la UANL. A partir del análisis, de los mensajes de Ginecología se puede determinar que los expertos, en gran medida, están cumpliendo con dicha función de servicio de apoyo y asesoría a la comunidad. Considerando que es un servicio nuevo que brinda la UANL y, que la mayor parte de los profesionales que responden por dicha institución, específicamente los de Ginecología, no tenía experiencia en una consulta virtual está funcionando adecuadamente. Además, esta investigación es el primer examen que se hace y del cual surgen propuestas o puntos a considerar para su mejora. Entonces, la afirmación de un adecuado funcionamiento se sustenta por el vínculo positivo que se establece entre expertos y usuarios, el cual se irá especificando a lo largo de este capítulo. Asimismo, estas fortalezas contribuyen con la proyección social que la universidad se propuso en su Visión 2012. Con el objetivo general se buscó analizar cómo se trasmiten los mensajes a través del foro Expertos UANL en Línea en la sección de Ginecología, para determinar si cumple su función de servicio de apoyo y asesoría dirigido a la comunidad, así como si esta sección contribuye con la proyección social de la UANL. De acuerdo al análisis de contenido, en la sección de Ginecología, se pudo establecer que la comunicación escrita, en términos generales, fue adecuada para lograr ese vínculo de cercanía entre ambas partes. Un aspecto que contribuye a hacer esta afirmación es la evolución de las consultas y de las visitas al foro. Aunque las consultas han fluctuado más–aumentando y disminuyendo a lo largo del período de referencia-, se ha dado una evolución creciente en las visitas. En cuando a la evolución ascendente de las últimas, hace suponer que pueden existir personas que sin hacer la consulta, encuentren en la plataforma, los temas e inquietudes por los que iba a consultar y, al


final, no le es necesario hacerlo. Esta suposición explica el porqué las personas entran al sitio Web, navegan por éste en un promedio de tres páginas por visita y hace que éstas aumenten pero que las consultas no representen una tendencia, del todo, ascendente. Se busco, específicamente, determinar si se establece una interacción social entre los expertos que atienden la sección de Ginecología y sus consultantes. Este aspecto requiere hacer una aclaración, para que hablar de interacción social debió existir interpretación de los mensajes, desde el punto de vista del experto, con los datos obtenidos, se llegó a definir que existe una correcta interpretación. En este sentido se considera que el experto tuvo la capacidad de ponerse en el lugar de la persona que formulaba la consulta para entender cuál fue específicamente su interrogante. Fue a lo largo del análisis, al dar respuesta a las preguntas de investigación, que se pudo determinar que la interacción social establecida entre expertos y consultantes en Ginecología fue positiva. Por el análisis de los datos, se puede decir, en términos generales, que existe una interpretación o voluntad de los expertos por entender lo que la persona expresa, pese a las faltas ortográficas o mala redacción que pueden incidir en su entendimiento. Plantear un vínculo positivo, refiere a que: existe correspondencia con el tema de la consulta; la información de los mensajes de los expertos tiende a ser suficiente, tal como requiere una comunicación mediada, como un divulgador del conocimiento el experto utiliza un lenguaje accesible para un público no especializado y; por último, la cercanía que se estableció entre el experto y el consultante representa mensajes cálidos. En cuanto a determinar si la sección de Ginecología de Expertos UANL en Línea contribuye con la proyección social de la universidad, se considera que sí, porque los expertos están cumpliendo con su función al establecer un vínculo positivo. Los mensajes, en su mayoría, cumplen con la función de orientación y esto da la posibilidad que las mujeres y hombres se sensibilicen sobre temas de sus genitales y su sexualidad, así como prevenir y estar alertas por enfermedades que les pueden afectar su vida. Esto implica una contribución fundamental para la comunidad y de la Salud Pública, por lo cual, se considera una contribución a la proyección social de la universidad.


El acceso universal a la salud no existe, entonces este medio viene a cubrir esa fisura que los gobiernos no estĂĄn cubriendo en su totalidad. Muchas personas en su consulta manifestaron no tener dinero para ir al mĂŠdico o que una cita demoraba mucho tiempo, entonces, optaban por adelantarle al experto UANL su inquietud. Por ellos, desde este punto de vista se percibe como un lugar de mucha ayuda a nivel social.


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Tablas Tabla 1. Distribución por sexo y edad Tabla 2. Distribución por nivel socioeducativo Tabla 3. Estado de ánimo Tabla 4. Utilización del saludo Tabla 5. Lugar desde donde responde el experto y utilización del tuteo Tabla 6. Uso de términos técnicos Tabla 7. Sintaxis y ortografía en mensajes del experto. Tabla 8. Correspondencia en el tema. Figuras Figura 1. Evolución de las consultas en el foro, Medicina y Ginecología Figura 2. Evolución de las visitas del foro


Autores: Cuberli, Milca. Facultad de Ciencias Sociales. Universidad de Buenos Aires. (UBA) Argentina milcacu@hotmail.com Albardonedo, María Valeria. Facultad de Ciencias Médicas y Facultad de Derecho y Ciencias Sociales. Universidad Nacional del Comahue. (UNCo) Argentina. enialbardonedo@yahoo.com

GT -5: Comunicación y Salud Título: Categorías analíticas para la investigación en comunicación y salud. Aportes desde el análisis del discurso Resumen Discusión En la actualidad, la multiplicidad de intersecciones entre la comunicación y la salud han dado lugar a la constitución de un campo de estudios e interés interdisciplinario en constante desarrollo y expansión. Desde lo empírico, el horizonte de temas y problemáticas se ensancha progresivamente, al advertir los determinantes simbólicos que atraviesan los procesos de salud –enfermedad –atención. Estos determinantes pueden comprenderse como signo cultural, sistema de hábitos, costumbres, creencias y mediaciones que surgen de la identificación de individuos y comunidades con un grado de salud, su tratamiento-social- y manifestación. La dimensión simbólica nos recuerda la centralidad del sujeto en el proceso citado; un sujeto social que define y redefine constantemente padecimientos, sentires y estados saludables, en el marco de un sistema en el que se impone más de lo que se propone. En esta dinámica, donde tensiones, negociaciones y transposiciones definen la complejidad del proceso y evocan su dimensión simbólica, emerge la relación comunicación –salud.


Reflexión teórica En línea con esta ubicuidad, la investigación en el campo citado se ha ido formalizando en mayor medida a través de la sistematización de temáticas específicas, casos y experiencias desarrolladas que ponen de manifiesto la dimensión comunicacional de los procesos citados. La construcción y/o desarrollo de categorías analíticas puede considerarse un ejercicio epistémico y teórico para fortalecer el campo en función de lograr mayor solidez y rigurosidad. Esta iniciativa no pretende limitar lo empírico, sino brindar un marco de análisis aún más acorde a la multiplicidad y al carácter innovador de las prácticas que se incluyen en la relación comunicación-salud. Desde una reflexión teórico-epistémica el trabajo se propone los siguientes objetivos: - Identificar y seleccionar perspectivas de AD que resulten acordes a la investigación en comunicación y salud. -Desarrollar categorías analíticas tendientes a formalizar la investigación en comunicación y salud. - Construir a modo de ensayo, posibles matrices de análisis que pongan en juego las categorías seleccionadas.

Enfoque Como un marco analítico a medida, las categorías que surgen de distintas tradiciones del AD, resultan útiles para formularlas comunicacionalmente, ya que develan la complejidad de la producción de sentido y la construcción de significados en contexto. A través  del  trabajo  de  “desmontaje”  que  logra  el  AD,  pueden  rastrearse  prácticas   que obturan o proyectan integralmente los procesos salud –enfermedad atención. Las categorías construidas y seleccionadas resultan claves para una lectura teórica, rigurosa y política de dichos procesos.


Introducción. El campo de la salud ha mostrado en las últimas cuatro décadas un interés particular en la comunicación, ya sea como conjunto disciplinar, estrategia y/o producto. Puede citarse a  modo  de  referencia  inicial  y  a  la  vez  “piedra  de  toque”  la Carta de Ottawa para la Promoción de la Salud (1986). Ya en aquel momento, el documento afirma y advierte explícitamente el valor de la comunicación para “mejorar la salud  de  individuos  y  poblaciones”. Particularmente en Latinoamérica y en los   países   denominados   “en   vías   de   desarrollo”,  la  tradición  sostenida por la filosofía de la Promoción de la Salud junto a la demanda de orientar los sistemas hacia la estrategia de la Atención Primaria, impulsaron el abordaje integral de los procesos de salud enfermedad –atención. A partir del mismo el peso de los determinantes sociales fue considerándose cada vez más central. En ese marco, la comprensión de la complejidad que comportan los factores socioculturales y el componente simbólico que subyace a los mismos, ha ido constituyéndose como un desafío intelectual para el campo de la salud y las ciencias médicas en particular. Las disciplinas reunidas bajo el abanico de las ciencias sociales han sido convocadas a partir del desafío señalado. No obstante, del conjunto que puede incluir a la sociología, la antropología, las ciencias de la educación, las ciencias políticas, entre otras; la comunicación ha cumplido un rol fundamentalmente subsidiario, orientándose a la ilustración y explicación de fenómenos y casos más que a la interpretación y a la investigación a partir de su cuerpo teórico. Cabe destacar que la tendencia y el tratamiento referido, no representan una modalidad fortuita, determinada por su asociación con la salud. La constitución disciplinar de la comunicación se enmarca en una trayectoria particular; ya que surgió desde el campo de lo profesional hacia el científico. Por lo tanto, no se constituyó desde la investigación teórica ni empírica sino desde necesidades


operativas provenientes del auge mediático. Así, el interés prioritario no fue propiamente científico, en relación a ninguno de los objetos (productos) emergentes de dichas necesidades. (Follari, 2005) Algunos interrogantes y cuestiones clave. De acuerdo a lo expuesto más arriba, puede concluirse que la polémica por el estatuto de la comunicación, sumado al reconocimiento  de  la  misma  como  “amplia   estrategia”   aportado   inicialmente   por   Ottawa,   incluyendo   la   urgencia   actual   del   tratamiento de determinantes sociales y simbólicos, pueden identificarse como el telón de fondo sobre el que se ha ido afirmando el sesgo práctico que caracteriza la producción de conocimiento en materia de comunicación y salud. A propósito, un artículo editorial de reciente aparición en una revista especializada sobre comunicación y salud 1, señala con preocupación el escaso número de “textos   científicos” que llegan luego de sucesivas convocatorias, a la publicación en cuestión. En el mismo, se advierte sobre el auge del interés por lo “comunicacional” que en la actualidad evidencia el ámbito de la salud en general. “Si centramos el foco en las cuestiones diarias, observamos que los actores individuales y colectivos involucrados en el ámbito de la salud y aledaños van asumiendo

-insensiblemente

o

intensa reflexión

mediante;

libremente

o

empujados- que los aspectos prácticos derivados de nuestra disciplina de estudio se desplazan cada vez más desde la periferia de sus inquietudes hacia un lugar más central. No obstante este gran avance, atenderemos solo a una parte de la realidad si creemos que ese creciente interés por la comunicación y salud aplicada lleva aparejado una simultánea atención al estudio y la investigación de los fundamentos científicos que soportan la práctica.” (Ugarte,  2012:  2)

1

La Revista de Comunicación y Salud (RYCS) surge en 2011 con el patrocinio del INICyS (Instituto Internacional de Comunicación y Salud) radicado en Madrid, España. Se define como una publicación científica semestral revisada por pares de la región iberoamericana. Se difunde electrónicamente en formato de libre acceso y es una publicación indexada. Tiene como objetivo primordial contribuir al desarrollo de la comunicación y la salud en Iberoamérica.


Esta apreciación, sirve como disparador para impulsar una revisión que convoque a re-descubrir y analizar escrupulosamente desde qué posicionamientos teóricos, epistemológicos

y

hasta

ontológicos

se

está

proyectando

la

relación

comunicación-salud. Con el objeto de comenzar por articular esa revisión, se sugieren algunas cuestiones-eje que ponen el acento en jerarquizar la mirada interdisciplinaria y académico –científica sobre la vinculación en cuestión. En forma de interrogantes pueden

enunciarse los

siguientes: ¿Qué concepciones

de salud

y de

comunicación subyacen a la relación? ¿Sobre qué investiga la relación? ¿Qué objetivos de conocimiento tiene la misma? Se intentará dar cuenta de algunas razones para comenzar a pensarlas. De concepciones, conceptos y objeto (s) teórico (s). Si bien sigue siendo polémico y dificultoso instalar en el campo académicocientífico una concepción compleja de salud en sí misma, la densidad que comporta el conjunto de los determinantes sociales se ha ido consolidando como la preocupación que legitimó la revisión epistemológica y la entrada de las ciencias sociales en el campo de la salud. Una comprensión multidimensional de la salud admite que todo ser humano es “simultáneamente y de manera indisociable un ser biológico, viviente, dinámico, único; un ser social en interacción permanente con otros seres humanos, situado en el tiempo y en el espacio, dependiendo de su medio ambiente y actuando sobre éste; un ser de emociones, de sensaciones, de deseos, de intenciones, un ser espiritual; un ser de conocimiento, de racionalidad, de reflexión.” (Cotandriopoulos,   2006:5) Así, la salud se expresa como una cualidad del ser humano que está presente e interactuando en cada una de estas dimensiones y es justamente esa dinámica lo que le atribuye intrínsecamente, complejidad. Dinámica que no puede entenderse sino como un proceso del que la enfermedad es parte constitutiva. “El   proceso  


salud- enfermedad humano es un proceso complejo, que integra sistemas de procesos biológicos, psíquicos, sociales, culturales y sus interacciones, que forman parte de la actividad humana y que garantizan la estabilidad o inestabilidad, la existencia o muerte del hombre y sus sistemas de relaciones, y donde los procesos sociales desempeñan un papel de determinación, pero no agotan, ni   sustituyen   a   los   procesos   psíquicos   o   biológicos.”   (Araujo y Barroto, 2000: 1) Ahora bien, ya sea por la pregnancia del discurso médico -exacerbado en la actualidad por la tecnología- como por la asunción de la estrategia curativa que privilegian los sistemas en todos sus niveles, el carácter de proceso para pensar y analizar la salud humana en el ámbito científico-académico queda soslayado por lógicas de curación, atención e intervención que reproducen modelos explicativos. En el contexto de estas tensiones, se han producido revisiones que evidencian la necesidad de jerarquizar paradigmas como el interpretativo y el político (o sociocrítico) para la investigación en ciencias de la salud- incluyéndose entre estas la medicina- (Sarrado., et.al 2004). En coincidencia con los avatares del ámbito científico- académico de la salud, las concepciones de comunicación convocadas a la vinculación también reflejan contrapuntos. Como antecedente de la relación comunicación- salud

pueden

referenciarse las primeras unidades de Comunicación para el Desarrollo, que en tanto práctica de intervención, surgen bajo el impulso del desarrollismo de la década del  50’ como corolario de los procesos de transferencia de tecnología y de cultura sociopolítica desde  las  sociedades  “modernas” (Estados Unidos) hacia las sociedades   “tradicionales” (América Latina).

Se propone   la   “Comunicación   en  

salud” como estrategia general para implementar el uso de medios masivos e interpersonales, la investigación y planificación en salud con el propósito de establecer audiencias, indagar el efecto de los mensajes y evaluar políticas de comunicación. (Cuberli, 2008).


Paralelamente a los aportes sustanciales de los modelos de Comunicación para el Desarrollo, se privilegió la Comunicación para el cambio de Comportamiento. Una línea que apoyándose en teorías de la conducta y la persuasión, desarrolló modelos

desde

los

cuales

mensajes,

métodos

instructivos

y

patrones

socioculturales se asumían como recurso comunicacional por excelencia para movilizar acciones tanto colectivas como individuales en el ámbito de la salud. Más adelante, durante la década de los   80’ en Latinoamérica, se propone una revisión contextualizada del lugar que le asigna la Promoción de la Salud a la comunicación. Surge una mirada pedagógica desde la que se destaca la estrecha relación con la participación comunitaria. Así se toma distancia de una concepción instrumental y fundamentalmente, comienza a pensarse que los procesos de Comunicación en salud no remiten a una relación lineal entre discursos emitidos y recibidos sino que mediaciones materiales y simbólicas convergen durante el mismo. (Petracci., et al 2010). Esta última línea enfatiza la comunicación como un componente presente en los procesos de salud –enfermedad-atención, opción que puede leerse superadora de la concepción más utilitaria. A partir de los recorridos que presentan las concepciones de salud y comunicación pueden advertirse cruces de “objetos   reales” que han ido demarcando los conjuntos disciplinares implicados. La constitución de un espacio de investigación implicaría la re-construcción

de -al menos- algunos de ellos como objetos

teóricos. (Bourdieu, et al 1975). Una apuesta en esta dirección debería priorizar la densidad de los conceptos implicados. Así la comunicación como proceso de producción de sentido y la salud como fenómeno social pueden postular su interacción intrínseca para generar desde allí, preguntas y reflexiones de conocimiento. Siguiendo la reflexión citada, los itinerarios de sentido implicados en los procesos de salud-enfermedad-atención, pueden constituirse en uno de los interrogantes fundamentales de la relación comunicación- salud. Si los

objetivos de

investigación se estructuran a través del mismo, partirán de considerar el campo


de la salud como espacio simbólico polémico, el cual debe ser entendido a partir de la complejidad de sus múltiples relaciones internas y externas. Las primeras, tienen como referente empírico los signos expresados a través del lenguaje y a su significado en el espacio interior de cada persona, es decir a su mapa mental. Las relaciones externas se refieren a la manera como se da la construcción colectiva de los imaginarios de la salud. (Echeverry, 1999:1) Complejidad, sentido y discurso. Si se asume que la pregunta por el sentido es dominio del campo disciplinario de la comunicación y que el campo de la salud reconoce parte de su complejidad en el sistema simbólico que lo atraviesa, la relación comunicación -salud encuentra en el discurso un denominador común que interpela la densidad anteriormente destacada. A partir del reconocimiento y el análisis del mismo pueden leerse cuestiones que se suponen tácitas en los procesos de salud-enfermedad-atención. La distancia analítica que propone el concepto de discurso implica una concepción crítica que   supone   asumir   “que   las   personas llevan a cabo acciones de índole política  o  social  cuando  utilizan  textos  o  cuando  hablan”  (Van  Dijk  2001:  21). Para Foucault (1985), los discursos son dominios prácticos limitados por sus reglas de formación y sus condiciones de existencia. De esta perspectiva surge también, la noción de "formaciones discursivas" para referirse al conjunto de reglas anónimas e históricamente determinadas, que se imponen a todo sujeto y operan demarcando el ámbito de lo enunciable y de lo no enunciable en un momento y en un espacio. Esto se explica a través de una dinámica; tal como afirma en El  orden  del  Discurso  “en toda sociedad la producción del discurso está a la vez controlada, seleccionada y redistribuida por un cierto número de procedimientos que tienen por función conjurar los poderes y peligros, dominar el acontecimiento   aleatorio   y   esquivar   su   pesada   y   temible   materialidad”   (Foucault,   1973:40)


La perspectiva del autor citado es de relevancia para lograr la articulación de un marco acorde y comprometido con el contexto del que emergen los fenómenos y objetos de comunicación y salud. De acuerdo a Foucault, el discurso en tanto práctica social conduce a una pregunta por el poder y a la consecuente afirmación de que los mismos son espacios en los que se lucha por el poder. (Cuberli y Lois, 2010) En línea con los

aportes sustanciales de Foucault, se reconocen las

consideraciones de Laclau y Mouffe (1987). Para los autores, los discursos son en sí mismos prácticas sociales. Laclau supone que existe una identidad, unidad y coincidencia entre la constitución discursiva, las prácticas sociales y sus condiciones objetivas, afirmando así la conexión entre la producción de sentido, la comunicación intersubjetiva y la praxis social. (Mayorga, 1983). Más allá del declamado determinismo que impone al discurso, la contribución de Laclau aporta claves para pensar la dimensión política de las prácticas discursivas. Fundamentalmente, son las cuestiones de poder y consecuentemente los efectos de verdad y saber internalizados en mandatos, creencias y concepciones materializados en discursos, los objetos de conocimiento más polémicos que atraviesan y en algunos casos determinan las prácticas de salud. Inscriptas en textos y afirmadas por contextos, éstas constituyen material significativo y relevante para el Análisis del Discurso (AD) Bajo estos supuestos puede citarse una perspectiva en particular que retoma fuertemente las contribuciones de la obra foucoltiana y suma la influencia de Laclau entre otros muchos aportes, el análisis crítico del discurso (ACD). “La pretensión del ACD es la de estudiar el discurso como práctica social, prestando especial interés al contexto de uso del mismo, y a la relación entre textos y estructuras sociales. Por ello, los intelectuales que adoptan esta perspectiva dedican especial atención a la relación entre lenguaje y poder, desde un espíritu abiertamente crítico, y tomando la postura de los desfavorecidos”. (Fernández Rodriguez, 2004:284)


Algunas categorías analíticas convocadas. El AD se comprende desde una interdisciplinariedad que le es propia desde sus orígenes, lo cual le otorga cierta flexibilidad para llevar adelante un proceso investigativo. Esta flexibilidad está además, en consonancia con la naturaleza de las problemáticas y objetos que puede abordar el AD.

En la mayoría de las

ocasiones, los mismos requieren de un trabajo   analítico   de   “desmontaje” para advertir construcciones, fijaciones y efectos de sentido. El AD puede pensarse como caja de herramientas que vuelve operativo el “desmontaje”. Se describen a continuación algunas categorías y conceptos propios de la perspectiva materialista francesa2 que si bien han tenido raigambre en distintas tradiciones, el ACD particularmente, las ha reivindicado. Dada su actualidad y trascendencia en los análisis críticos, se cree que las mismas colaboran a formalizar la investigación científica desde un tipo de producción del conocimiento comprometida social y políticamente. Inicialmente,   la   noción   de   “práctica   discursiva”   de   Foucault,   reviste especial importancia ya que permite delimitar el fenómeno a estudiar y abordar al discurso desde su dinámica creadora y reproductora. (…)   “las   prácticas   discursivas ensamblan diversas disciplinas y ciencias o las atraviesan y las reagrupan en unidades inesperadas... son encarnadas en procesos técnicos, en instituciones, modelos de comportamiento general, formas de transmisión y difusión, y en formas pedagógicas que los imponen y conservan... tienen distintos modos de transformación en su dominio y en otras prácticas discursivas colaterales ...no están basadas en un agente de conocimiento (histórico o trascendental) sino más bien designan una voluntad de

2

Sus exponentes Pechueux y Robin, entienden al discurso como una práctica social vinculada a sus condiciones sociales de producción y a su marco de producción institucional, ideológica- cultural e históricocoyuntural.


saber que  es  anónima,  polimorfa  y  susceptible  de  transformaciones  regulares”(...)   (Foucault, 1977: 34) Las mismas pueden comprenderse en interacción con las formaciones discursivas, desde su carácter de reglas. Las formaciones discursivas pueden leerse también como formaciones ideológicas (Pecheux, 1978). Así, la ideología se materializa en prácticas discursivas que se inscriben en determinadas formaciones discursivas . Las formaciones ideológicas y discursivas se comprenden desde una dialéctica que las imbrica y transforma constantemente. La perspectiva en la que se inscribe Pecheux, brinda especial importancia a las posiciones ideológicas- que a la vez contribuyen a la construcción de subjetividades- puestas en juego en los procesos sociales en los que se originan las palabras. Desde esta perspectiva el concepto de ideología es otra categoría central de la que puede partir el análisis del discurso. Las formaciones discursivas también pueden ser comprendidas como la resultante de   un   proceso   de   articulación   desde   el   que   se   fija   el   sentido   a   través   de   “puntos   nodales”   (Laclau   y   Mouffle,   1987)   Este   concepto sirve para advertir que las prácticas discursivas también pueden ser en cualquier momento del proceso, hegemónicas. Un concepto que vuelve operativo el análisis que parte de las formaciones, es el de regularidad discursiva. (Foucault, 1987) El mismo hace referencia a un patrón de comunicación en el que se expresa una manera especial de entender, representar y transmitir el sentido de la realidad que se sostiene en el tiempo. Las regularidades discursivas permiten dar cuenta de los regímenes de verdad y de las relaciones poder/saber.


Hacia la construcción de una matriz analítica en el plano discursivo.

DISCURSOS

Se analiza el significado de los discursos dentro de las

FORMACIONES IDEOLOGICAS FORMACIONES DISCURSIVAS

(constituidas por las formaciones discursivas)

PUNTOS NODALES La articulación construye puntos nodales donde se fija el sentido de forma parcial. La articulación del elemento se denomina “momento”,   transformación que permite la emergencia de formaciones ideológicas que se materializan en formaciones discursivas que hacen el campo de la disputa por la hegemonía.

PRACTICAS ARTICULATORIAS (Operaciones que dan lugar a las formaciones discursivas, mecanismo instituyente que puede ser operado por el régimen de verdad)

ESTRUCURACION IDEOLOGICA (Que parte de un punto nodal y le da un determinado sentido al resto de la cadena significante).

REGIMENES DE VERDAD (Las formaciones ideológicas se vinculan a determinados regímenes de verdad, según el contexto analizado).


A modo de conclusión. Las revisiones y argumentaciones desarrolladas en este trabajo han intentado desarrollar una mirada crítica sobre las características actuales de la producción de conocimiento en comunicación y salud, mostrando a la vez las posibilidades de fortalecer la misma. La propuesta ha sido invitar a un ejercicio intelectual que permita delimitar qué objetos de conocimiento abarca o podría abarcar la relación, una relación en la que se encuentran dos dimensiones de la vida social y dos campos disciplinares complejos e indeterminados que confluyen en el horizonte epistémico de las ciencias sociales. Por esto, su cruce es en principio inevitable y tácito, más allá de que puedan postularse abordajes estratégicos. La opción de interpelar dichos objetos desde el AD, las categorías descriptas y la tradición crítica apuesta a instaurar un marco de análisis que logre especialmente, revisar, captar y advertir los discursos que producen y reproducen prácticas que obturan o potencian el ejercicio pleno de la salud por parte de individuos y poblaciones. Las relaciones de poder instituídas en los diferentes contextos de salud a través de los discursos constituyen un enclave desde el cual postular la investigación en comunicación y salud y promover a partir del mismo, mayor ajuste entre producción del conocimiento y praxis. Si se asume que el derecho a la salud implica el acceso a la información oportuna y la participación en los procesos de adopción de decisiones, entonces, los mecanismos discursivos por los cuales se imponen o comienzan a cuestionarse determinadas “verdades”   inscriptas   en   concepciones,   tipos   de   razonamiento y creencias, deben estudiarse y reconocerse

para comenzar a garantizar dicho

acceso y en consecuencia la participación. Producir conocimiento sobre el tipo de información que divulgan los servicios de salud y la academia médica, advertir la ideología en el discurso de instituciones, reconocer matrices hegemónicas en el tratamiento de determinados procesos de


enfermedad, entre otros se vuelven desaf铆os fundamentales para avanzar en la construcci贸n activa de una cultura de salud.


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O negligenciamento da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) nos materiais de comunicação do Ministério da Saúde: análise da campanha do Dia Nacional de Combate ao Fumo 2011 1 Pedro Gabriel das Vestes de Miranda VALLE 2 Luiz Marcelo Robalinho FERRAZ 3

Resumo O tabagismo é o principal causador de morte evitável no mundo, levando a problemas pulmonares frequentes. Dentre eles, a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) é uma das que apresenta maior relação com o cigarro. Alocada na categoria das doenças e agravos não transmissíveis, a DPOC faz parte das patologias respiratórias, acometendo 210 milhões de pessoas em todo o planeta. Dados do Ministério da Saúde (2011) indicam que aproximadamente 12% das internações hospitalares do SUS ocorrem por diagnósticos de DPOC, juntamente com asma e pneumonia. A partir dessa constatação, o objetivo do nosso artigo é analisar as comunicações do Ministério da Saúde alusivas ao Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado todos os anos em 29 de agosto, desde 1986, com a instituição da Lei Federal nº 7.488. Como material de análise, escolhemos as peças   da   campanha   “Viver   bem   é   viver   com   saúde.   Fique   longe   do   cigarro”,   produzidas pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA), com apoio do Ministério, para marcar a data em 2011 e alertar a população sobre o assunto. Analisamos ainda dois textos   produzidos   sobre   o   lançamento   da   campanha   (“Combate   ao   fumo   evita   mortes   por  doenças  crônicas”  e  “Adolescentes  têm  fácil  acesso  ao  cigarro”),  disponíveis  no  site   do Ministério (www.saude.gov.br). Defendemos a ideia que, embora a nossa saúde seja ditada pelos fatores de risco, que representam características do indivíduo ou do ambiente no qual ele vive de aumentar as chances de adoecer (Castiel, Guilam & Ferreira, 2010), a noção de causalidade está bastante presente na atualidade, inclusive nos sentidos criados sobre as doenças crônicas, sobretudo se levarmos em conta as narrativas midiáticas sobre cuidados com a saúde (Vaz, 2006). No tocante às campanhas, a análise feita aos materiais parece deixar evidente a correlação entre tabagismo e câncer de pulmão, apesar de não estar claramente enunciada nas mensagens construídas. Nessa perspectiva, acreditamos que essa correlação seja construída a partir do senso comum, deixando subentendido que o fumo pode levar ao câncer. Verificamos também que o poder público parece desconsiderar os demais agravos provocados pelo tabaco na produção do seu discurso, enfocando apenas no risco do câncer. A nosso ver, isso se deve ao fato de o INCA coordenar e executar nacionalmente o Programa de Controle do Tabagismo e Outros Fatores de Risco de Câncer. Sabendo que o lugar de fala de determinado sujeito determina a abordagem privilegiada do que está sendo dito (Araújo & Cardoso, 2007), a forma do discurso e a ênfase dada à marca do instituto nas peças publicitárias relativas às ações do Dia de Combate ao Fumo corrobora a nossa constatação. Já as notícias produzidas pela Assessoria de Comunicação do Ministério, informam que o cigarro é um importante fator para o surgimento de doenças crônicas, 1

Trabalho apresentado no GT Comunicación y salud no XI Congreso Latinoamericano de Investigadores de la Comunicación, em Montevideo, Uruguai. 2 Mestrando em Comunicação e Saúde pelo Programa de Pós-graduação em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS-ICICT/Fiocruz), fisioterapeuta e professor colaborador da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). email: fisiovalle@gmail.com. 3 Doutorando em Comunicação e Saúde pelo Programa de Pós-graduação em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS-ICICT/Fiocruz), jornalista e publicitário. email: marcelorobalinho@yahoo.com.br.


ressaltando nesse grupo os cânceres (entre eles, o de pulmão). Tendo em vista o impacto provocado pela doença pulmonar na saúde publica, parece importante que as comunicações ministeriais de prevenção e controle contemplem também a DPOC, não a deixando negligenciada de suas ações. Palavras-chave: comunicação e saúde; doença pulmonar obstrutiva crônica; fatores de risco; tabagismo Introdução O tabagismo é uma toxicomania que provoca dependência psicológica e física pela nicotina, uma das 4.720 substâncias tóxicas presentes no cigarro (Iglesias, Jha, Pinto, Costa e Silva & Godinho, 2007). Estima-se que a utilização do tabaco cause em torno de 50 doenças, com destaque para as moléstias cardiovasculares, os cânceres e a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Estudos indicam que 85% das mortes relacionadas à doença pulmonar estão atribuídas ao consumo de tabaco. O fumo também é relacionado a 90% dos óbitos por câncer de pulmão, 45% das mortes por infarto agudo do miocárdio e 25% da mortes por derrames e isquemias (Rosemberg, 2002). Dentre as doenças citadas, a DPOC é uma das que apresenta maior relação com o cigarro. Alocada na categoria das doenças e agravos não transmissíveis, ela faz parte das patologias respiratórias, sendo considerada a maior causa de morbidade e mortalidade4 em todo o mundo. Cerca de 210 milhões de pessoas são acometidas pela DPOC no planeta. Por ano, morrem em torno de três milhões de pessoas (Campos, 2004; Vollmer, Osborne & Buist, 1998). Caracterizada pela inflamação progressiva das vias aéreas inferiores do pulmão, essa doença provoca a diminuição da capacidade respiratória, sendo parcialmente reversível (Pauwels, Buist, Calverley, Jenkins & Hurd, 2001; Sociedade Britânica de Tórax, 1997). No Brasil, a DPOC é um dos grandes problemas da saúde pública. De acordo com o Ministério da Saúde (2011a), cerca de 12% das internações hospitalares do Sistema Único de Saúde ocorrem por diagnósticos de DPOC, juntamente com a asma e a pneumonia. Com um peso tão elevado no sistema de saúde, a ênfase em diagnóstico mais preciso, tratamento bem estruturado da doença, busca por dados epidemiológicos confiáveis sobre a prevalência, gravidade e as exacerbações da DPOC são fundamentais 4

Em epidemiologia, a morbidade representa a taxa de portadores de determinada doença em relação à população total estudada, em determinado local e momento. É estabelecida pelos coeficientes de prevalência, referindo-se aos casos já existentes, e incidência, que tem a ver com os casos novos (Rouquayrol & Almeida Filho, 2003).


para orientar as tomadas de decisões no nível das políticas públicas, visando a melhores estratégias custo-efetivas (Miravitlles, 2004). Tendo em vista o impacto causado pela doença pulmonar obstrutiva crônica na saúde publica brasileira, parece indispensável que as campanhas de prevenção a contemplem, a fim de divulgar o assunto junto à população. Nesse sentido, o objetivo do nosso artigo é analisar as comunicações do Ministério da Saúde alusivas ao Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado todos os anos em 29 de agosto, desde 1986, com a instituição da Lei Federal nº 7.488. Como material de análise, selecionamos as peças da  campanha  “Viver  bem  é  viver  com  saúde.  Fique  longe  do  cigarro”,  produzidas   pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) em 2011, com apoio do Ministério, para marcar a data, alertando a população sobre os males do tabagismo. Além das peças publicitárias, avaliamos dois textos produzidos pelo ministério sobre o lançamento da campanha  (“Combate  ao  fumo  evita  mortes  por  doenças  crônicas”  e  “Adolescentes  têm   fácil  acesso  ao  cigarro”),  disponíveis no site www.saude.gov.br. Para aprofundar a nossa discussão, trouxemos à tona o conceito de fator de risco a fim de refletir sobre os sentidos criados pelos materiais ministeriais produzidos a respeito do tabagismo. Também discutimos a ideia de negligenciamento em função do tipo de abordagem feito nos materiais de campanha aos agravos relacionados ao fumo, em especial a DPOC. Para isso, buscamos informações sobre o Programa de Controle do Tabagismo e Outros Fatores de Risco de Câncer, coordenado pelo INCA e que é responsável pela realização das campanhas nacionais de alerta a respeito do tabagismo. A nosso ver, as peças parecem enfocar mais o risco do câncer, deixando de enfatizar ou mesmo de abordar na produção discursiva os demais problemas causados pelo tabaco. Desde já, cabe aqui ressaltar que a nossa intenção não é enquadrar a DPOC no rol das doenças negligenciadas, já definidas pela Organização Mundial de Saúde [OMS] (Souza, 2010), e sim no que tange ao negligenciamento, termo que remete à noção de falta de atenção, cuidado e interesse (Houaiss, 2009; Michaelis, 2009). Fator de risco na mídia O sentido de risco é bastante perceptível na nossa sociedade, especialmente nas mensagens produzidas sobre saúde. Noção complexa, por se tratar de uma representação do  perigo  (e  não  a  catástrofe  em  si),  o  risco  “designa,  ao  mesmo  tempo,  tanto  um  perigo   potencial quanto sua percepção e indica uma situação percebida como perigosa na qual se   está   ou   cujos   efeitos   podem   ser   sentidos”   (Veyret   &   Richemond,   2007,   p. 25). Na


disciplina da epidemiologia, o conceito de risco foi incorporado em meados do século XX, possibilitando o estudo das doenças não transmissíveis. A partir do momento em que a área criou marcadores para medir quantitativamente a morbidade no contexto das coletividades (os fatores de risco 5), foi possível definir intervenções preventivas, visando a mudanças de comportamento e estilos de vida dos indivíduos. Todavia, o refinamento das técnicas estatísticas no cálculo das probabilidades e a consequente ênfase na adoção de normas às rotinas de vida acabaram provocando, em certa medida, uma padronização do viver humano em prol da promoção da saúde e da redução de doenças e outros agravos. Com o passar do tempo, a adoção de juízos de valor favoráveis ou não às rotinas padronizadas como   saudáveis   produziu   uma   certa   “regularidade”   no   estilo   de   vida,   possibilitando uma quantificação e associação do sedentarismo e da vida desregrada a um maior risco às doenças. A moralização dos estilos arriscados de vida e a responsabilização individual são duas consequências dessa mudança (Castiel, Guilam & Ferreira, 2010). A moralização costuma trazer consigo uma conotação de pecado e fraqueza  de  caráter  ao  indivíduo  que  foge  às  “regras”.  Já  a  responsabilização  individual   deixa de lado os aspectos macro-sociais que estimulam as condutas de risco para focar nos aspectos relativos ao sujeito. Esse último aspecto correlaciona as práticas cotidianas com o surgimento de potenciais doenças, colocando o sujeito como vítima de seus atos e  transferindo  o  controle  da  doença  para  ele.  “Essa  ligação  também  reduz  a  incerteza  em   relação  ao  futuro  por  dar  sentido  à  vida  e  ao  sofrimento”  (Vaz,  2006,  p.  92). Embora a nossa saúde seja ditada atualmente pelos fatores de risco nas doenças crônicas não-transmissíveis, a ideia de causalidade ainda está bastante presente. Articulada à compreensão das doenças infecciosas, que hoje representam mais de 25% das mortes anuais no mundo (Silva & Angerami, 2008), a causalidade dita a experiência de adoecimento, determinando a origem a um agente patogênico externo (os vírus e bactérias, por exemplo). No caso das doenças e agravos não transmissíveis, a causalidade se une ao fator de risco para indicar as chances de um indivíduo vir a adoecer, sobretudo se levarmos em conta os discursos midiáticos, que contribuem para construir e disseminar em larga escala uma ideia de saúde e doença para a população. A bem da verdade, a associação entre causa e fator de risco torna-se um tanto inconsistente porque o fator de risco não determina diretamente o aparecimento de uma 5

Fatores de risco são características do indivíduo ou do ambiente onde ele vive que aumentam as chances de se adoecer (Castiel et al., 2010).


doença não transmissível, e sim a relação entre uma série de fatores correlacionados que podem ser considerados potenciais desencadeares do processo de adoecimento. Mesmo assim, vemos que a causalidade é preponderante para compreendermos não apenas os discursos da saúde como também os midiáticos. O tabagismo é um exemplo a ser analisado, não apenas por ser fator de risco para diversos cânceres, doenças cardiovasculares e respiratórias, como também por se aliar a outros fatores para explicar a origem de uma mesma doença. No geral, ao tratarmos do tabagismo, costuma-se pensar que o cigarro representa maior risco para o desenvolvimento do câncer de pulmão, justamente pela forte vinculação do fumo com essa neoplasia, constatada por diversos estudos científicos e reforçada através dos media. A partir da verificação dos malefícios do fumo, entende-se que a exposição ao cigarro leva ao surgimento do câncer, principalmente o pulmonar, devido à disseminação do saber médico-científico que esse tipo de doença é considerado o mais letal, além de ser uma das principais causas de morte no planeta 6. A doença pulmonar obstrutiva crônica também é outro exemplo. Embora o tabagismo seja o principal fator de risco, existem outros fatores associados à DPOC, como os demográficos (sexo masculino e idade avançada), socioeconômicos (precárias condições de vida), os ambientais (fumo ativo, fumo passivo e poluição) e os genéticos. Além disso, pessoas que tiveram doenças respiratórias na infância têm maior predisposição para desenvolverem a enfermidade na fase adulta, apesar de o mecanismo permanecer um tanto obscuro, conforme aponta Menezes (1997). Essa gama de fatores possivelmente torna mais complexo o entendimento sobre a doença, dificultando, a nosso ver, a construção de mensagens na mídia, já que epidemiologicamente a DPOC ainda guarda algumas interrogações sobre o seu aparecimento. A nosso   ver,   a   antiga   concepção   de   um   agente   “causador”   de   doenças   ainda   persiste, assim como havia no passado. Só que, desta vez, não é apenas um microorganismo em específico a razão para o aparecimento de determinada doença ou agravo, mas determinados hábitos de vida, a exemplo do próprio cigarro, de alimentos considerados  “nocivos”  à  saúde  ou  mesmo  da  falta de camisinha nas relações sexuais, a depender da doença em questão. No tocante ao cuidado, isso ampliou a gama de 6

Dados do relatório Globocan 2008 apontam a ocorrência de 12,7 milhões de casos novos de câncer e 7,6 milhões de mortes pela doença no mundo. Desse total de óbitos, 1,3 milhão diz respeito a câncer de pulmão. No Brasil, as estimativas para 2011 indicam o surgimento de 28 mil casos novos desse tipo de neoplasia. Em geral, comparando os fumantes com os não fumantes, os tabagistas têm de 20 a 30 vezes mais chances de desenvolver um câncer de pulmão, segundo o INCA (2011a).


prescrições comportamentais, já que, em vez de um agente causal, a doença é ditada, muitas vezes,  por  uma  rede  de  causação,  “uma  imbricada trama de fatores de risco cuja interação  explicaria  os  padrões  das  doenças  não  transmissíveis”  (Castiel   et al., 2010, p. 39). Vaz, Pombo, Fantinato e Pecly (2010) consideram que o advento das doenças crônicas e dos fatores de risco levou a um cuidado crônico com a saúde, modificando a relação do indivíduo com a sua própria saúde e a forma de encarar boa parte das moléstias. De acordo com os autores: Essa construção de um estado generalizado de quase-doença que incita à atividade de evitar doenças futuras significa a proposição de uma experiência médica da morte. Para que os indivíduos cuidem de si, a morte deve estar a uma distância adequada, aquela onde acreditam que podem evitá-la, nem muito afastada no horizonte das decisões cotidianas, para que seja ignorada quando se age, nem próxima demais, de modo a que se pense que nada pode ser feito para adiá-la e que o melhor é repensar a relação com a vida (p. 150).

Vemos que, apesar da mudança ocorrida no padrão das doenças, a morte continua presente no imaginário como uma possibilidade a ser evitada. Risco e morte se aliam para explicar a experiência da doença, assim como a noção de causalidade e risco, e para reforçar a necessidade da adoção de práticas comportamentais ditas saudáveis para prevenir a médio ou longo prazo o aparecimento de doenças. Aos que seguem a “cartilha” do   discurso   médico,   as   chances   de   adoecer   se   reduzem   a   um   mínimo   “aceitável”,   distanciando   a   possibilidade   de   morte   e   dando   uma   maior   tranquilidade   à   saúde dos indivíduos, muito embora essa garantia não seja totalmente plena. Nessa ideia construída de prevenção, Vaz et al. (2007) observam uma concepção de  tempo  baseada  num  jogo  entre  dívida  e  crédito:  um  “bem  agir”no  presente  a  partir  da   adoção   de   hábitos   saudáveis   asseguraria   uma   “recompensa”   no   futuro,   enquanto   que   uma ação contrária poderia ter uma consequência negativa sobre a vida dos indivíduos. Mesmo  saudável,  o  sujeito  é  “convidado”  a  mudar  seu  estilo  de  vida  no  presente  a  fim   de evitar a ocorrência de uma enfermidade no futuro, tornando a intervenção à saúde, antes comum apenas com o aparecimento de algum sintoma, agora permanente ao longo de   toda   a   sua   vida.   “Como   se   trata   de   um   convite   a   orientar   a   vida   de   acordo   com   a   verdade, a adesão dos indivíduos às recomendações médicas publicadas na mídia depende   da   credibilidade   da   fonte   e   da   ausência   de   controvérsia”   (Vaz   et al., 2007, p. 149).  Assim,  a  “verdade”  estaria  contida  no  discurso  produzido  pela  medicina  e  a  saúde   de um modo geral, além da falta de contradição nas discussões sobre saúde produzidas pela mídia, enfatizando a credibilidade e a segurança nos métodos e práticas adotados.


Negligenciamento da DPOC nos materiais de comunicação sobre tabagismo É justamente nessa ideia de prevenção que o nosso trabalho foca as análises. Nos materiais de comunicação produzidos pelo Ministério da Saúde em 2011, vemos claramente como as mensagens publicitárias criadas pelo poder público são calcadas na mudança ou mesmo no estímulo à adoção de determinado estilo de vida. As peças têm o jovem como público-alvo principal. A finalidade é alertá-lo a respeito dos riscos da dependência química causada pela nicotina e das possíveis doenças que podem aparecer em decorrência das demais substâncias presentes no cigarro. Isso pode ser observado na ilustração das peças, composta por dois rapazes entre 15 aos 18 anos de idade correndo na praia com duas adolescentes na mesma faixa etária nas costas deles. A imagem é complementada pela chamada dos anúncios: “Viver bem   é   viver   com   saúde.   Fique   longe do cigarro” 7. A título de exemplo, selecionamos o panfleto criado para a campanha (figura 1).

Figura 1 – Panfleto produzido para a campanha de combate do fumo de 2011. FONTE: Site do Ministério da Saúde (www.saude.gov.br).

7

Em 2011, foram produzidas 23 peças publicitárias, entre cartazes, banners, avatar, busdoor, outdoor, elevamídia, telas elevamídia, mobiliário urbano, newsletter, e-mail marketing e panfleto. O período de veiculação foi de 29 de agosto a 31 de dezembro (Portal da Saúde, 2011a).


Não é por menos a preocupação com os jovens. As tendências de seu consumo vem aumentando gradativamente. Para se ter uma ideia, no início da década de 90, cerca de 1,1 bilhão de indivíduos eram fumantes no mundo. Em 1998, esse número já atingia a cifra de 1,25 bilhão (Ministério da Saúde, 2001). Atualmente, calcula-se que 1,3 bilhão de pessoas fumam, aproximadamente um terço da população adulta. Nos países em desenvolvimento, os fumantes representam 48% dos homens e 7% das mulheres, enquanto que nos países desenvolvidos, 42% dos homens e 24% das mulheres são fumantes. No Brasil, dados da pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2010 apontam que a frequência de pessoas que fumam nas capitais brasileiras, mais o Distrito Federal, é de 15,1%, sendo 17,9% no sexo masculino e 12,7% no feminino (Ministério da Saúde, 2011b). Nesse cenário, são especialmente preocupantes as tendências de consumo entre mulheres e jovens, uma vez que as companhias de tabaco têm procurado dirigir, de forma crescente, suas estratégias de marketing para esses grupos sociais. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (2003), quase 100 mil jovens começam a fumar a cada dia no mundo inteiro, sendo que mais de 80 mil são jovens de países em desenvolvimento. A idade média de iniciação no tabagismo é de 15 anos, e cerca de 70% dos que experimentam tornam-se dependentes do tabaco. Esse fato fez com que a OMS passasse a considerar o tabagismo uma doença pediátrica. Em grande parte dos países, parece haver uma forte correlação entre baixo nível de escolaridade, baixa renda e tabagismo. Na China, os indivíduos com nenhuma escolaridade apresentam chance sete vezes maior de se tornarem fumantes do que os indivíduos que possuíam terceiro grau completo. No Brasil, as estatísticas não são muito diferentes em relação à China, já que, entre o grupo dos indivíduos com baixo nível de escolaridade, essa probabilidade é cinco vezes maior (Organização Mundial de Saúde, 2003). De acordo com os dados do Vigitel 2010, nas capitais brasileiras mais o Distrito Federal, o hábito de fumar aumenta entre as pessoas com até oito anos de escolaridade. O percentual é de 18,6%. Entre os homens, esse índice é de 22,3%, enquanto que entre as mulheres, de 15,5% (Ministério da Saúde, 2011b). Na campanha analisada, o alerta principal foram os aditivos adicionados aos produtos do tabaco com intuito de melhorar o sabor e diminuir a irritação provocada pela fumaça do cigarro, porém tão ou ainda mais capazes de potencializar a dependência química. Segundo o INCA (2011b), essa modificação na utilização dos aditivos estaria


dirigida aos adolescentes, considerados pré-fumantes8. O texto do panfleto (figura 1) enfatiza os riscos do uso dos flavorizantes nos cigarros, como é possível observar no trecho: “Com ou   sem   aditivos   que   dão   sabor   ao   cigarro,   a   nicotina   causa   dependência   química.   As   demais   substâncias   provocam   várias   doenças.   Não   fume”.   Do   ponto   de   vista publicitário, esse elemento texto representa a expressão do tema abordado, desenvolvendo e divulgando a ideia contida na chamada (Hoff & Gabrielli, 2004). Fazendo um contraponto entre as questões que permeiam a comunicação e a saúde, consideramos que o texto é um tanto vago e impreciso ao informar que as substâncias contidas no cigarro provocam “várias doenças”.  Gramaticalmente,  a  palavra   várias (pronome indefinido adjetivo), usado com a finalidade de determinar as doenças. A questão é que ela pode se referir não apenas a algumas como também a numerosas (Michaelis, 2009). A nosso ver, isso tende a enfraquecer o teor da mensagem. Quantas e quais doenças seriam essas? Analisando o conjunto das peças, não se sabe ao certo. Apenas que existe uma relação direta com o câncer, uma vez que, no panfleto, o texto informa que “muitos  dos  aditivos,  inclusive  o açúcar, ao serem queimados durante o ato de   fumar,   se  transformam  em   substâncias  altamente  tóxicas   e   cancerígenas”   (figura 1). Sendo assim, as neoplasias acabam sendo privilegiadas na produção discursiva em meio às  “várias doenças”  relacionadas  ao  tabagismo. No Brasil, as campanhas públicas de mídia relacionadas ao fumo estão sob a coordenação do Instituto Nacional de Câncer (INCA), através do Programa de Controle do Tabagismo e Outros Fatores de Risco de Câncer 9. O fato de a instituição estar à frente da produção dos materiais de comunicação pode induzir os cidadãos a uma correlação maior do fumo como fator de risco para o câncer em detrimento dos outros agravos. Mesmo que o objetivo do Programa de Controle do Tabagismo seja reduzir a prevalência de fumantes e a morbi-mortalidade relacionada ao consumo de tabaco e seus derivados, a imagem construída pelo INCA como órgão responsável por atuar na prevenção e controle das neoplasias ressalta essa correlação, fazendo com que a imagem do instituto se confunda com a do programa e reforçando, consequentemente, um senso 8

No Brasil, o tabaco é a segunda droga mais consumida entre adolescentes, conforme Tavares, Béria e Silva de Lima (2001). A iniciação precoce ao fumo seria uma porta de entrada para o uso de outras substâncias, como o álcool e as drogas ilícitas. Estudo do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas [CEBRID] (2006) revela que jovens de 12 a 17 anos de idade afirmaram já terem consumido álcool e tabaco antes experimentar drogas ilícitas alguma vez na vida. 9 O INCA coordena as ações nacionais do referido programa em parceria com as secretarias estaduais e municipais de saúde dentro de uma lógica de promoção desde 1989. As campanhas de mídia, bem como a divulgação de assuntos de interesse junto à imprensa, estão alocadas dentro do rol das ações educativas (Ministério da Saúde, 2003).


comum a partir desse fato peculiar. A assinatura do INCA nas campanhas é um elemento publicitário que reforça isso. Como senso comum, tomamos como base a definição de Lalande (1999, p. 16-7), que considera o termo: [...] o conjunto das opiniões tão geralmente admitidas numa época e num meio dado, que as opiniões contrárias aparecem como aberrações individuais, que será inútil refutar seriamente e das quais é melhor rir, se forem fúteis, mas que será melhor tratar  (‘soigner’)  se  forem  graves.

Sendo assim, o senso comum seria construído historicamente e encarado como um modo de pensar da maioria das pessoas. Pensando no aspecto linguístico, esse tipo de consenso se baseia na paráfrase (a estabilidade), e não na polissemia (o deslocamento), uma vez que dizem respeito a dizeres já consolidados no meio social. Essa constatação não se distancia da realidade do discurso. Orlandi (2007, p. 37-8, grifo nosso) afirma que os sujeitos e os sentidos se constituem na relação tensa entre os jogos parafrásticos e polissêmicos, condição de possibilidade da linguagem para o mesmo (a produtividade, a estabilização e a memória) e o diferente (a criatividade, a ruptura e o equívoco). Regida pelo processo parafrástico, a produtividade mantém o homem num retorno constante ao mesmo espaço dizível: produz a variedade do mesmo. Por exemplo, produzimos frases da nossa língua, mesmo as que não conhecemos, as que não havíamos ouvido antes, a partir de um conjunto de regras de um número determinado. Já a criatividade implica na ruptura do processo de produção da linguagem, pelo deslocamento das regras, fazendo intervir o diferente, produzindo movimentos que afetam os sujeitos e os sentidos na sua relação com a história e com a língua. Irrompem assim sentidos diferentes. Nesse modo de considerar a produção de sentidos, não se banaliza a noção de criatividade. O que vemos com mais frequência – por exemplo, se observamos a mídia – é a produtividade e não a criatividade.

Sabendo que o lugar de fala de determinado sujeito determina a abordagem privilegiada do que está sendo dito (Araújo & Cardoso, 2007), a produção discursiva e a existência da marca do instituto nas peças publicitárias relativas às ações do Dia de Combate ao Fumo corrobora a nossa constatação da correlação feita entre o tabagismo e o câncer. Discursivamente, o lugar de fala do INCA é importante para compreendermos a abordagem feita nas campanhas e a competência atribuída socialmente, capaz de conferir destacabilidade aos seus enunciados. Em grande parte, isso tem a ver com o capital simbólico da instituição. Conceito caro a Bourdieu (2007), o capital simbólico representa uma espécie de medida de prestígio de um sujeito ou organização dentro de determinado campo 10 com 10

Tomamos como base o conceito de Bourdieu (2007), que define o campo como um espaço social estruturado no qual sujeitos ou instituições ocupam determinadas posições de maior ou menor destaque e lutam por legitimidade a partir do poder simbólico constituído.


propriedade de  “fazer   ver”   e  “fazer  crer”.  Para   Araújo   e  Cardoso  (2007,  p.  38),  isso  se   obtém através do reconhecimento de capitais de outra natureza, como o cultural e o social.  “A  legitimidade  se  conquista,  via  de  regra,  no  território  da  comunicação,  que  é  o   da produção e circulação dos sentidos sociais. E, num movimento circular, a comunicação  é  mais  eficaz  quando  emanada  de  uma  voz  autorizada  por  legitimidade”. Por estarmos analisando peças da campanha, a comunicação se materializaria não apenas nos materiais publicitários produzidos pelo poder público, como também nas próprias ações educativas propostas pelo Programa de Controle do Tabagismo motivando a população a adotar hábitos saudáveis. O conhecimento científico e as possibilidades de prevenção, que constituem os saberes desse programa, seriam parte fundamental do capital simbólico do INCA, constituindo as suas ações de comunicação. No que tange às notícias produzidas pela Assessoria de Comunicação do Ministério da Saúde durante o lançamento da campanha, observamos que os dois textos também não são muito claros quanto ao conjunto de doenças que o fumo pode provocar. Numa das notícias, entretanto, o Ministério informa que o fumo contribui para o surgimento de doenças crônicas, enfatizando os cânceres, em especial o de pulmão, como podemos ver no trecho abaixo (exemplo 01): (01) Existem cerca de 1 bilhão de fumantes no mundo e 10% de todas as causas de mortes são atribuídas ao tabagismo. O fumo é um importante fator que influencia no surgimento de doenças crônicas. Dentre elas, destacam-se os vários tipos de câncer, como o de boca, faringe, estômago e, principalmente, o de pulmão. Em 90% dos casos diagnosticados, o câncer de pulmão está associado ao consumo de derivados de tabaco. No Brasil, foi responsável por 20.622 mortes em 2008, sendo o tipo que mais fez vítimas. (Portal da Saúde, 29 de ago 2011b)

Através do fornecimento de percentual e dados absolutos, o Ministério ressalta o câncer de pulmão como um das principais doenças ligadas ao fumo. Sem querer questionar a influência do tabagismo para o desenvolvimento de cânceres, verificamos que elas ocupam lugar de destaque no discurso em detrimento de outras doenças, a exemplo da doença pulmonar obstrutiva crônica, que possui um espaço tímido ou quase nulo nas campanhas, ainda mais quando se sabe que a DPOC já é considerada a quinta causa de morte no mundo e com expectativa de se tornar a terceira nas próximas décadas (Kokuvi, 2011). De certa forma, parece haver algum grau de negligenciamento dessa doença, se pensarmos no seu impacto epidemiológico.


Ao utilizarmos o termo negligencimento, nossa intenção não é alocar a DPOC na categoria das doenças negligenciadas11. Nosso verdadeiro intuito nasceu de uma consideração ao sentido literal da palavra negligenciada, originada do verbo negligenciar, que, conforme Souza (2010), advém da junção do latim nec (negação) com o grego lego (escolher, ler). Assim, o sentido utilizado por nós para o negligenciamento passa  a  ser   o  de  “aquela  que  não  escolho”,  “aquela   que   não  leio”. A própria  imprecisão  do  termo  “várias  doenças”  nas   peças  publicitárias  ratifica  a  falta  de   abordagem desse agravo nos materiais de comunicação. Ainda que nossa análise tenha se construído em torno da DPOC, fica evidente que o tabagismo está associado a uma variedade maior de doenças do que apenas o câncer, o que nos faz acreditar que as próximas campanhas não devem deixá-la de fora das ações junto à mídia.

Considerações finais A análise feita neste artigo revela que o tabagismo ainda carece ser melhor esclarecido para a população, sobretudo no tocante aos fatores de risco. O câncer, em especial o de pulmão, ainda ocupa um lugar de destaque em detrimento de outras doenças de alto impacto epidemiológico e tão importantes quanto ele, a exemplo da doença pulmonar obstrutiva crônica, foco de discussão do nosso trabalho. Ao tecermos considerações críticas a respeito das comunicações governamentais, não queremos defender a exclusão do câncer das campanhas de combate ao fumo capitaneadas pelo INCA. Muito pelo contrário. Sabemos que as neoplasias são uma das grandes causadoras de mortes no Brasil, com estreita correlação com o tabagismo. Acreditamos que é preciso repensar as mensagens das campanhas, incluindo espaço para outras enfermidades nas ações educativas relativas ao tabagismo, como a própria DPOC, além da doença coronariana, da doença cerebrovascular e do aneurisma arterial, só para citar alguns dos problemas que também são motivo de preocupação. Nossa análise, que partiu da constatação do negligenciamento da DPOC nos materiais de comunicação, aponta para a necessidade de as próximas campanhas levarem em consideração essas outras doenças pouco relacionadas a fim de que as pessoas tenham maior conhecimento acerca dos agravos e passem a adotar medidas 11

O termo “doenças negligenciadas”   foi proposto nos anos 70 pela Fundação Rockefeller, sendo aprimorado, em 2001, pela ONG Médicos Sem Fronteiras, que propunha a divisão das doenças em globais, negligenciadas e mais negligenciadas. Naquele mesmo ano, segundo Souza (2010), a OMS introduziu uma classificação similar, dividindo as doenças em tipo I (equivalente às doenças globais), tipo II (negligenciadas) e tipo III (mais negligenciadas).


preventivas mais eficazes em função da realidade que permeia o fumo. Num país como o Brasil, em que as condições sociais ainda estão aquém do ideal, o trabalho de prevenção é de suma importância para garantir uma melhor qualidade de vida dos usuários de saúde. Enfermidades como a doença pulmonar apresentam uma relação custo x benefício mais vantajosa quando são tratadas através de ações de prevenção. Nesse sentido, o trabalho da comunicação pode ser uma estratégia interessante a fim de incentivar a mudança de atitude. A dependência química, considerada um dos principais consequências do consumo da nicotina, é motivo de preocupação. A grande dimensão atingida pelo tabaco na vida das pessoas pode ser revertida por meio de políticas públicas fortalecidas no eixo da promoção da saúde. Ao discutirmos acerca das campanhas governamentais, acreditamos contribuir para a construção da uma consciência sanitária e cidadã sob uma ótica interdisciplinar, envolvendo o campo da comunicação e saúde.

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Os sentidos da saúde nas mídias jornalísticas. Valdir de Castro Oliveira 1

Resumo - O propósito deste trabalho foi o de analisar os sentidos produzidos pela mídia jornalística impressa sobre a saúde relacionando-os com razões editoriais e socioculturais que orientam as suas estratégias narrativas. O nosso pressuposto é o de que os temas da saúde ganham espaços cada vez maiores nestas mídias e, ao serem midiaticamente codificados pelas, constroem diversos imaginários sobre a saúde e a doença apontando para os seus fatores de risco e ,simultaneamente, para apontando comportamentos corretos e exemplares capazes de proporcionar uma vida feliz e saudável aos seus leitores. Para entender estas operações discursivas, analisamos textos de jornais e revistas impressas de circulação nacional, como o jornal Folha de S. Paulo e as revistas Veja e CartaCapital, publicados em 2011 que trataram de temas da saúde em suas páginas.

Palavras-chaves - 1. Jornalismo; 2.saúde; 3. linguagem; 4. sentidos

Introdução A principal hipótese deste trabalho partiu do conceito trabalhado por vários autores de que toda prática discursiva é sempre uma forma de prática social e exercício de poder mediante a organização simbólica de determinados aspectos da realidade e definição dos lugares e modos de fala dos interlocutores. Umas das opções metodológicas para desvelar estas operações na mídia impressa podem ser obtidas mediante a análise discursiva dos textos publicados para fazer emergir as suas formas de entender e atribuir sentidos a saúde e, ao nos valermos destes recursos, podemos analisar e compreender melhor as pistas ou as marcas deixadas pelo processo social de produção de sentidos que são marcados pela pressão e tensão do ambiente no qual ocorrem diversas formas de disputas simbólicas (Pinto, 1978).. Como campo de disputas simbólicas, a mídia jornalística cria uma relação tensa com o campo da saúde porque ambos os campos são ligados a diversas formas de poder, de dizer, de nomear e de interpelar os atores e as situações sociais em que vivem e, ao fazerem isto, modulam, significativamente, os imaginários sociais a este respeito. A diferença entre os dois campos está na natureza expressiva de cada um. O campo da saúde se apresenta como um discurso especializado tratando de suas questões forma esotérica com base em determinados princípios filosóficos e científicos, o que irá determinar a natureza expressiva e os modos de dizer por parte dos seus respectivos corpos profissionais. Já o campo do


jornalismo interpreta estes mesmos princípios a partir de sua natureza predominantemente expressiva e exotérica conferindo a eles maneiras particulares de codificação e que nem sempre coincide com os princípios do primeiro. Neste contexto o discurso esotérico deriva da sua natureza particular derivada de um campo social ou um modo de dizer voltado para si mesmo com seus rituais e liturgias, geralmente opacas aos que não pertencem ao seu corpo ou campo, enquanto o discurso exotérico faz parte da natureza expressiva da mídia voltada para um público universal e não especializado. Para atingir este público a mídia faz uma espécie de tradução do discurso esotérico de maneira a torná-la inteligível para os seus públicos. (Rodrigues, 1997). Esta simbiose entre estas modalidades discursivas cria diversas zonas de tensão e de conflitos entre estes campos devido a natureza expressiva e interpretativa de cada um, ou seja, pelas maneiras diferentes de nomear e interpretar os fatos e os acontecimentos relacionados à saúde. Netas condições o jornalismo se torna uma instância que faz convergir para si diversas formas de disputas simbólicas da sociedade sendo ele também parte desta disputa que se manifesta em sua produção textual. No contexto destas disputas simbólicas duas questões basilares se entrelaçam e emergem simultaneamente das coberturas jornalísticas midiáticas: os fatores de risco e os de

promoção da

saúde que, por sua

vez, se desdobram em variáveis de

segurança/insegurança envolvendo questões epidemiológicas, doenças, formas de tratamento,

modos de

viver,

procedimentos

de assistência, cura

ou

métodos

comportamentais para se ter uma vida saudável. Deste conjunto de questões a mídia jornalística pauta e ordena suas narrativas em torno do que julga ser o imaginário contemporâneo da saúde destacando os fatores de riscos e as variáveis que interpreta como problemas e ameaças que impedem ou dificultam a saúde individual e a coletiva. Em contrapartida oferece, discursivamente, formas de segurança mediante um amplo receituário caracterizado pela difusão de descobertas científicas, inovações tecnológicas, novos métodos de tratamento, orientação e aconselhamento como maneiras de superar as situações negativas relacionadas à saúde e à doença. Este contexto pode ser entendido a partir a partir do que Ulrich Beck chamou de sociedade reflexiva na qual os imaginários individuais e coletivos da contemporaneidade se apresentam fortemente atravessados e influenciados por diferentes processos de exaustão, desintegração e desencantamento com o mundo. Segundo Beck, ao contrário das certezas


oferecidas pela fixidez das sociedades tradicionais, a sociedade reflexiva tem de conviver com a turbulência dos riscos provocados pelos efeitos da modernidade que trazem consigo uma espécie de insegurança ontológica para os seus membros (Beck, 1997). Em comparação do conceito de risco na sociedade reflexiva com as sociedades tradicionais Anthony Giddens nos lembra nestas últimas a preocupação a este respeito era desnecessária porque eram voltadas para o passado. Já as sociedades contemporâneas são voltadas para o futuro e, neste aspecto o risco é sempre avaliado em relação a possibilidades futuras e que a complexidade e a variedade de riscos se tornam cada vez mais entranhadas no cotidiano da sociedade reflexiva sugerindo e fazendo emergir práticas discursivas destinadas a proporcionar o desejo e a constante busca da segurança ontológica pela via do controle, regulação ou forma de normalização no presente voltado para o futuro. No entanto, as tentativas a este respeito tendem a ricochetear e cair sobre nós, forçando-nos a procurar, de maneira constante e incessante novas formas de relação com a incerteza (Gideens, 2010). Os riscos se ligam tanto à natureza quanto às diversas áreas da sociedade e da vida, como o desastre nuclear provocado pela da usina de Chernobyl, na Ucrânia ou o episódio da encefalopatia espongiforme bovina no Reino Unido, o surto que ficou conhecido como a doença da vaca louca e que ganhou intensas coberturas da mídia jornalística em todo o mundo. As conseqüências desse fato no cotidiano social, na política e na economia criaram intensas zonas de incertezas em que o medo e a insegurança de consumo de alimentação originária da carne bovina se transformou em uma paranóia global através da divulgação feita pela mídia jornalística de todo o mundo. Ao retratar estas e outras situações semelhantes as diversas mídias jornalísticas se tornam em um centro nervoso e em uma espécie de vigilante público alertando a sociedade para os fatores de risco e suas conseqüências para a vida cotidiana. Direta ou indiretamente, contribuem para evitar tragédias similares na atualidade ou no futuro, graças aos sinais dramáticos emanados dos seus dispositivos constituídos de vários suportes discursivos (televisão, jornais, revistas, rádio, Internet, redes sociais, entre outros), indicando diferentes perigos comprometendo uma suposta normalidade social e formas de equilíbrio relacionadas com a segurança ontológica. Mas este alarmismo, conforme expressão de Giddens, não é produzido apenas pelas mídias jornalísticas, mas também pelas próprias autoridades quando julgam que tal


comportamento “pode   ser   necessário   para   reduzir   os   riscos   que   enfrentamos”,   como   aconteceu com a questão da Aids. Neste caso tanto os governos quanto as autoridades e especialistas em saúde   “fizeram   grande   alarde   público   com   os   riscos   associados   ao   sexo   não  seguro,  para  conseguir  levar  as  pessoas  a  mudar  seu  comportamento  sexual” (Giddens, 2010) Estas posturas foram decisivas para influenciar e direcionar as amplas coberturas feitas pelas mídias jornalísticas e as campanhas publicitárias que passaram a alertar a população para os riscos do sexo não seguro. Mas ao fazer isto, com base nas fontes institucionais e de especialistas, as estratégias narrativas jornalísticas também serviram para alimentar e exacerbar preconceitos e estigmas sobre a doença e as pessoas por ela afetadas. Em1 1982 adotou-se, temporariamente, o nome Doença dos 5H, representando os homossexuais, hemofílicos, haitianos, heroinômanos (usuários de heroína injetável) e hookers (nome em inglês dado às prostitutas). As taxonomias, formas de classificação, logo, exercícios de poder, não só relacionaram a aids a este público muito específico, como também a associaram a um caráter irreversível. O momento inicial da construção de sentidos sobre a doença realizou-se à medida que ela foi sendo publicizada, introduzindo na sociedade   noções   discriminatórias,   estigmatizantes,   como   os   termos   “peste   gay”,   “câncer   gay”  e  “peste  rosa”,  expressões  que,  por  vezes,  foram  utilizadas  pelos  principais veículos de comunicação do País para se referirem à aids (Fausto Neto, 1999).. Igualmente, isto tem acontecido com as campanhas antitabagistas divulgadas pelo Ministério da Saúde ao alertar para as conseqüências do fumo através de imagens negativa s estampadas nos maços de cigarro. Embora não se possa afirmar que o consumo tabagista tenha decrescido por causa destas campanhas, é certo que elas são complementares a um contexto sociocultural em que fumar se torna um ato politicamente incorreto, o que é atestado pela legislação que, cada vez mais, restringe os locais públicos em que se tolera o ato de fumar. E não há dúvida também que a mídia jornalística, ao divulgar e discutir estes atos restritivos e enfocar, através de notícias e reportagens as conseqüências do tabagismo para a saúde, contribui também para criar um ambiente em que fumar se torna politicamente incorreto.


Mas também podemos interpretar que este alarmismo feito pela mídia e pelas autoridades, descontando os seus indefectíveis exageros ou mesmo preconceitos oriundos do campo científico e do próprio jornalismo, pode ter contribuído, ainda que indiretamente, para que esta doença não se espalhasse em alguns países como fora originalmente previsto (Giddens, 2010) Mas é certo que a ciência, a mídia jornalística, as instituições e os especialistas da saúde, entrelaçados, são as principais fontes de construção dos nossos imaginários em relação a um conjunto de questões que nos afetam ou interferem cada vez em nossas vidas cotidianas, principalmente em relação à saúde em que a certeza e a incerteza parecem caminhar juntas. Assim quando as pessoas decidem o que comer ou de fazer uma dieta, esta decisão costuma ser baseada em informações científicas e tecnológicas divulgadas por diferentes dispositivos midiáticos, ainda que sejam conflitantes ou mutáveis no tempo e no espaço em que a certeza de ontem se torna à incerteza de hoje. Este tipo de contradição parece tender a crescer com o advento da Internet cujas informações amplamente disponibilizada e acessada rapidamente por milhões de pessoas revelam tantos pontos de vista sobre uma mesma questão que, ao invés da segurança, pode provocar mais insegurança ao cidadão comum. O excesso de informação ofertado, principalmente, pela Internet para milhões de pessoas, pode estar provocando mais saturação do que informações relevantes e capazes de educar o público (Castiel, Guilan, Ferreira, 2010). Mas é certo também que nem a ciência e nem o jornalismo provêm completamente a segurança ontológica buscada pelo público ou pelos leigos porque eles mesmos se tornam, cada vez mais, em fontes de desmentidos de suas próprias versões, prescrições e recomendações sobre as questões da saúde. Isto cria vários climas de incertezas e de controvérsias aumentando o coeficiente de insegurança do cidadão comum em relação aos temas da saúde. É o caso, por exemplo, das movimentações globais contra ou a favor dos alimentos geneticamente modificados ou transgênicos que poderiam causar supostos perigos para a saúde humana, mas que tanto os cientistas quanto os ambientalistas têm opiniões divergentes sobre o assunto, além de ocorrer o mesmo entre os próprios membros de cada um desses grupos. Estas controvérsias alcançam também a mídia jornalística que ora adere a uma posição, ora a outra. Mas também no interior da própria mídia jornalística este debate se torna intenso em que jornais e profissionais se atacam mutuamente ou


defendem uma e outra posição sem que se chegue a um acordo sobre as conseqüências deste tipo de alimento para o ser humano. Estas incertezas servem para aumentar ou exacerbar os dilemas da sociedade reflexiva, que podemos resumir em duas frases proferidas por Riobaldo, personagem de Guimarães Rosa, do seu livro Grande Sertão Veredas: “Viver   é   muito   perigoso”   e   “Cada   hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade  nova  de  medo”.   Não é difícil de constatar neste cenário que os sentidos sobre a saúde produzidos pelas narrativas jornalísticas são pautados a partir de supostos e diferentes graus de incertezas e de desinformação do público e, por esta razão, suas formas de expressão giram, obsessivamente, em torno de variáveis como risco, insegurança, obscuridade e, em contrapartida buscam atribuir inteligibilidade aos fatos e aos acontecimentos da área como fatores de segurança.. Em contrapartida oferecem aconselhamentos e orientações indicando comportamentos e situações exemplares a serem seguidas como fator de segurança e variável capaz de evitar os riscos e as anomalias provocadas pelas doenças ou comportamentos inadequados para se ter uma vida saudável. Para isto as narrativas jornalísticas apontam para quem sabe e quem não sabe cuidar de si como resposta aos dissabores e à aleatoriedade do mundo e, ao mesmo tempo, apontando para a responsabilidade individual e humana diante da saúde (Vaz, Fantinato, Pecly, 2007)..

Aconselhamento e vidas exemplares Relacionando o conceito de sociedade reflexiva, com a noção de risco em saúde e os fatores socioculturais no campo das mídias jornalísticas, observa-se que estas expressam, com clareza diversas formas de entrelaçamento entre perigos reais ou imaginários vividos pela sociedade, mas sem se restringir apenas às probabilidades estatísticas dos riscos, como fazem diversos campos das ciências, mas sim como uma maneira de dar um tipo de inteligibilidade e resposta social a um mundo marcado pela crescente insegurança na qual os

riscos

ganham

proeminência.

Ao

captar

os

acontecimentos

e

ordená-los

jornalisticamente, muitas vezes exacerbando as suas conseqüências, a mídia jornalística desconfia e interpela outros sistemas peritos. Sendo o jornalismo também um sistema perito, as formas de geração de confiança emuladas por ele se dão através de suas particularidades expressivas em que, se por um lado, aponta para os riscos, por outro lado,


prescreve valores e atos que supostamente poderiam controlá-los ou superá-los. Para isso contrapõe-se ao caráter entrópico dos acontecimentos através de suas particulares formas de codificação e ordenação que permitem reinterpretar e particularizar os sentidos da saúde. Nesta perspectiva, com base na noção de sociedade reflexiva proposta por Ulrich Beck anteriormente citada, Lavina Ribeiro analisou as revistas Veja e Istoé mostrando de que maneira temas como autocompreensão, racionalização da experiência e focos de insegurança ontológica da vida em sociedades complexas, fazem parte de seus procedimentos editoriais.

Segundo ela o presente contingente e o futuro incerto são

enquadrados numa teia explicativa cuja tarefa é a de reduzir e controlar os elementos que possam vir a ameaçar o senso de domínio sobre a rotina da vida cotidiana. Segundo ela essas publicações realizam um exercício público de atualização dos indivíduos sobre temáticas que demandam permanentemente novas racionalizações, porque nunca são esgotados os esclarecimentos sobre suas manifestações, desafios e riscos (Ribeiro, .2006). Todos os temas têm forte ligação com a experiência da vida cotidiana e, nesse sentido, o discurso é dirigido diretamente aos indivíduos comuns, aos leitores singulares, mas sempre marcadas por uma mesma rotina discursiva baseada e apoiada centralmente no conhecimento científico, nos recursos da medicina e de seu aparato tecnológicos e farmacêuticos referendados por especialistas. Estes quadros passam a existir nas práticas discursivas midiáticas dentro do cenário de escassez de pontos de orientação firmes e seguros e de guias confiáveis coincidindo assim com uma intensa proliferação de sugestões tentadoras e ofertas sedutoras de orientação e com uma crescente onda de guias no meio de infladas multidões de conselheiros (Bauman, 2011) Este cenário concentra diferentes narrativas jornalísticas que passam a ser caracterizadas pelo aconselhamento e pelo comportamento exemplar de algumas pessoas notórias sobre a sua própria saúde, como foi o caso da apresentadora da Rede Globo, Ana Maria Braga, em 2001, acometida de câncer e que teve a sua luta contra a doença e o tratamento a que se submeteu expostos publicamente nessa emissora. A sua dor privada se tornou pública através desta emissora e repercutiu fortemente também em outros dispositivos midiáticos.  A  mensagem  era  clara  “Faça  como  ela”,  sugerindo  um  exemplo  de  


luta pessoal contra a doença. A divulgação cronológica das etapas de seu tratamento foi montada de maneira a criar um suspense diário, como se faz com os capítulos das novelas para prender e chamar a atenção do telespectador. No dia 24 de julho o Jornal da Globo anunciou que a apresentadora ia se internar para tratamento de saúde. No dia 25/7/2001, no noticiário das 23h30, informou que a apresentadora revelaria na manhã seguinte que estava com câncer e fazer tratamento quimioterápico. No dia seguinte, ao final do programa, ela anunciou a todo o País a sua doença informando que seria internada no hospital SírioLibanês. O programa termina em lágrimas e aumento na audiência. Nos dias seguintes repórteres permanecem com boletins médicos dando detalhes do tratamento da apresentadora. Os outros jornais da emissora também deram amplo destaque ao assunto. No dia 29/07/2001, a doença de Ana Maria Braga foi o tema de abertura do Fantástico. O assunto repercutiu em diferentes mídias do país inteiro se transformando em temas das conversações das pessoas na ida cotidiana. No dia 1/8/2001 a apresentador voltou a fazer o programa depois de uma internação de cinco dias. Em uma transmissão de futebol pela Tevê Globo (21h30) um torcedor ganhou o seu minuto de fama ao ser focalizado com uma placa com dizeres de coragem e fé para a apresentadora com cenas mostradas e comentadas no programa do dia seguinte (Moraes, 2002). Esta situação não foi muito diferente com o que aconteceu com o ator Reynaldo Gianecchinim, da mesma Tevê Globo, em 2011, acometido de câncer no sistema linfático. O acompanhamento de sua doença e tratamento ganhou tons dramáticos e públicos na mídia seguido de informações sobre a doença, modos de tratá-las e, principalmente, com destaque para tratamentos alternativos não muito convencionais em se tratando do discurso biomédico. A capa da revista Veja (edição de 21/9/2011) o destacou, com a cabeça raspada (situação-símbolo de  quem  passa  por  tratamento  quimioterápico)  com  o  título:  “Medicina  e   Fé”,   acompanhado   do   lide   “Na   luta   contra   o   câncer,   o   ator   Reynaldo   Gianecchini   alia   o   tratamento  convencional  ao  espiritismo”.  Abaixo   do   lide  vem  a  afirmação:  “Saiba  por   que   os  médicos  reconhecem  os  efeitos  positivos  desse  tipo  de  prática”. Estas situações relatadas pelas mídias jornalísticas foram feitas estética e narrativamente de maneira a ressaltar a articulação entre a notariedade da pessoa e a


exemplaridade do seu comportamento diante da adversidade da vida servindo assim como uma espécie de cartografia moral e de esperança para os seus públicos. Ao pontuar e individualizar os agravos, o sofrimento e as lutas tentativas para superá-los estas narrativas apontam para   um   tipo   de   “política-vida”   que   ameniza   ou   substitui   o   enfraquecimento   da   Política, graças à ênfase atribuída à vontade e a responsabilidade individual. Por causa disso, as situações exemplares são transformadas em obsessivas pautas midiáticas que, por sua vez, transformam os problemas privados de figuras públicas em problemas públicos..(Bauman, 2001). Os efeitos destas situações são os de promover a substituição das responsabilidades pelos outros por uma responsabilidade para si mesmo e por si mesmo e que, na atualidade, procurar exemplos, conselhos e orientação se transformou em uma espécie de receituário coletivo que proliferam nos espaços midiáticos, principalmente na chamada mídia massiva de largo alcance e em outros formatos midiáticos, embora raramente comprovem ou cumpram o que prometem. Isto está relacionado com o spiritu movens da sociedade contemporânea em que os aconselhamentos e a exemplaridade comportamental de algumas pessoas sobre vários aspectos da vida se tornam sinônimos de superação dos obstáculos da vida tornando a felicidade algo factível e individualmente tangível. Para isso cada um deve descobrir e localizar corretamente os problemas que o afeta e seguir o exemplo daqueles que  venceram  “a  batalha  pela  vida”.   É assim também que relatos de pessoas se tornam cada vez mais comuns nas mídias jornalísticas, principalmente na televisão, ao focalizar pessoas humildes que salvaram um vizinho em uma situação de calamidade pública ou do morador de rua que achou no lixo uma grande quantia de dinheiro e devolveu ao dono transformando estas pessoas em personalidades momentaneamente em celebridades públicas. Suas estórias são contadas e recontadas pelos diferentes dispositivos jornalísticos de tal maneira a sugerir que, em um mundo de riscos, de pouca solidariedade e de corrupção desenfreada (mostradas e enfatizadas à exaustão pelas próprias mídias) existe alguma esperança. Mas não é o morador ou o faxineiro anônimos que lhe interessam de per se, mas o exemplo dos quais são portadores. Neste aspecto, a mídia se torna um fator de prescrição moral em um mundo em busca de certeza ou exaurido pela balbúrdia do egoísmo e dos riscos da sociedade contemporânea.


Mas o vaivém entre más notícias e notícias alvissareiras dadas pelas mídias jornalísticas pode se tornar também uma fonte de incerteza e insegurança para o público porque, ao exacerbar alguns fatores de risco por meio de quadros dramáticos expressivos negativos, fazem sobressair a insegurança dos sistemas peritos ou induzindo as pessoas a um comportamento marcado pelo medo e pela angústia. Por exemplo, diante de uma gripe, alguns programas televisivos e outras mídias sugerem que vivermos acuados e cercados por todos os lados de micróbios (risco). Depois deste quadro aterrador, vem o inevitável aconselhamento ou orientação para evitar o mal, geralmente acompanhado de alguma propaganda sobre marcas de remédio ou formas de tratamento para combatê-la. É o que aconteceu com a chamada gripe suína (H1N1) em que os perigos por ela oferecidos foram contrapostos com os atos de lavar as mãos e o uso de máscaras como medidas para evitá-la. Ao fazerem isto, tornou estes atos uma obsessão nacional, mas sem uma clara certeza de que isto seria suficiente diante do tamanho do problema discursivamente criado em torno dessa questão. As pautas e os sentidos da saúde nas pautas jornalísticas Mas as práticas discursivas jornalísticas anteriormente assinaladas não nascem exclusivamente dos dispositivos jornalísticos. Elas são feitas a partir de várias injunções derivadas de outras instâncias discursivas que constituem as suas condições socioculturais de produção, como a ciência, medicina, as agências e as instituições de saúde, os profissionais da saúde, publicidade, política ou pelo complexo industrial farmacêutico e o próprio imaginário social sobre a saúde cujos interesses envolvem tanto necessidades reais quanto os interesses particulares de certos setores do mercado da saúde. Por exemplo, em relação aos de medicamento para emagrecimento, por um lado existe uma pauta constante em função de que este mercado faz circular cerca de 350 milhões de reais por ano com a venda de cinco toneladas de anoxerígenos consumidos em um mercado que tende a crescer mais ainda. (Revista CartaCapital, 667 12/10/2011) e, por outro lado, um desejo real das pessoas

para

se

adequar

aos

ideais

estéticos

corporais

disseminados

pela

contemporaneidade como um fator de satisfação pessoal e social. Diante dessas questões se torna difícil distinguir qual nasceu primeiro: se a galinha ou o ovo.


Mas, seguramente, é este o contexto que justifica as constantes pautas jornalísticas em torno deste tipo de medicamento, embora não seja o único fator. Qualquer matéria jornalística se pauta também pelas supostas expectativas que julga existir em seu público (ainda que este possa ser plural e nem sempre estar de acordo com a angulação das notícias publicadas) e, a partir disso, faz a adaptação desta expectativa com os possíveis discursos das fontes (principalmente anunciantes, que funcionam como uma espécie de editores invisíveis) que giram em torno dos dispositivos jornalísticos. Estas convergências, juntamente com os fatores socioculturais, são o que irão nortear o processo de captação e de expressão dos dispositivos jornalísticos para reinterpretar e traduzir os discursos da saúde. Do ponto de vista das estratégicas narrativas, os possíveis conflitos interpretativos, graus de complexidade ou controvérsias desaparecem para dar lugar a questões supostamente interessantes, inteligíveis e sensíveis ao seu público e aos interesses extra-jornalísticos que giram em seu entorno. Diante disso as narrativas jornalísticas indicam as condições para se levar uma vida saudável relacionando-a com a responsabilidade individual e o estilo de vida das pessoas e que, para isso, são aconselhadas a fazer exercícios, não comer isto ou aquilo, não beber ou comer em demasia, não se estressar, entre outras coisas e, sendo o caso, usar alguns medicamentos recomendados ou referenciados por vozes autorizadas (ciência, laboratórios, especialistas ou pessoas comum que obtiveram êxito com algum tratamento ou uso de algum medicamento, os chamados e inevitáveis efeitos-demonstração), como discursos preditivos. Por exemplo, no contexto da saúde pública, em que a obesidade se tornou um problema pelo campo epidemiológico, esta questão passa a ser reverberada nas pautas jornalísticas e  na  publicidade  em  que  anúncios  e  reportagens  sugerem  “milagres”  a  favor  da   estética corporal, como foi o caso da revista Veja (edição 36, de 7/09/2011) ao anunciar, em matéria de capa, o uso do remédio para diabetes, o Victoza, como panacéia para emagrecimento cujo resultado foi a busca desenfreada por este produto nas farmácias que repassou a faltar até mesmo para os que dele realmente necessitavam: os diabéticos. Aliás, foi esta situação que levou o articulista da revista CartaCapital

(edição 667, de

28/12/2011, p.31), Riad Yunes, que escreve sobre saúde, a lamentar esta atitude da revista Veja como um dos mais lamentáveis equívocos da imprensa sobre saúde em 2011. Mas, lamentou ainda mais o silêncio desta publicação em relação aos desmentidos feitos pela


Anvisa e  pelos  especialistas  e  farmacologistas  em  relação  à  matéria  publicada.  “Foi  um  dos   pontos  mais  baixos  nos  assuntos  de  saúde  de  2011”,  escreveu. Diferentemente destas situações e de forma rara em se tratando de anunciantes na mídia jornalística, a revista CartaCapital (edição 686, de 29/2/2012, p. 15) recebeu da empresa Eternit, fabricante de produtos relacionados à telhas e coberturas residenciais e industriais, manifestação de interesse de publicar anúncios em suas páginas. Para isso apresentou um nota de esclarecimento desvinculando o nome da Eternit brasileira da Eternit italiana. Na nota ressaltou a inexistência de vínculo societário com a detentora italiana da marca argumentando que o tipo de amianto que utiliza na fabricação de seus produtos é distinto daqueles usados na Itália cuja utilização foi proibida. Além disso, a empresa argumenta   na   nota   que   aqui   a   fabricação   atende   a   “rígidos   padrões de segurança que superam  as  exigências  legais”. No entanto, a revista resolveu checar as informações oferecidas pela empresa antes de aceitar ou não o anúncio. Consultando vários especialistas, a revista concluiu que o crisotila, variedade de amianto extraído no Brasil, é classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no grupo 1 das substâncias cancerígenas. A revista informa que o mineral é responsável por 80% dos casos de câncer da membrana que envolve os pulmões; que o Brasil é o quarto maior produtor e consumidor deste produto no mundo e que é proibido em 60 países. Informa ainda que, embora uma lei de 1997 tenha permitido o uso da clisotila, ela previa a substituição gradual deste produto por outras alternativas e que cinco estados brasileiros proíbem o seu uso, o que é motivo de contestação judicial pela indústria. Diante disso, a revista resolveu recusar a veiculação do anúncio proposto pela empresa. Isso mostra que no tenso espaço das disputas simbólicas na vida social a mídia jornalística se transforma em um ator central. Apesar do poder que tem de pautar os sentidos das informações, isso não se faz sem que ela sofra as injunções das diferentes disputas simbólicas que giram no seu entorno permitindo a emergência de diferentes formas de contestação a partir do que publicam. Um bom exemplo disso foi a reportagem da revista Veja sobre o Victoza que foi imediata e publicamente contestada pela Anvisa,


contestação esta ignorada pela revista. Mas se esta contestação não repercutiu na revista, ela repercutiu em outras mídias, como na revista CartaCapital que, ao contrário do que supôs seu articulista, Riad Younes, no jornal Folha de S. Paulo e por centenas de manifestações de pessoas comuns e especialistas pela Internet. No jornal Folha de S. Paulo, edição de 31/10/2011, o assunto ganhou destaque na página de Saúde (Caderno C-6), ao tratar do off label (medicamentos oficialmente indicados para um fim, mas utilizado para outros). Um dos exemplos dados nesta esta matéria sobre o off label foi o caso do Victoza com base na advertência da Anvisa que o contra-indicou para outros fins que não aqueles previstos na bula que foi avaliada pelas autoridades sanitárias, contraditando assim com a extensa reportagem da revista Veja que estimulou o seu uso para outros fins que não o tratamento da diabete. A seguir a Folha apresentou vários outros medicamentos nesta mesma situação e advertiu o leitor sobre os perigos que isso pode acarretar e qual a responsabilidade do profissional de saúde em receitá-los e que, em casos de efeitos colaterais, este poderia ser responsabilizado criminalmente como erro médico. Mas mesmos estas matérias, de cunho mais crítico, como esta da Folha, sempre giram em torno   do  “você   decide”  e,  discursivamente,  não  deixam  de  responsabilizar o indivíduo pela sua saúde exacerbando assim o ambiente contemporâneo em que as responsabilidades morais individuais suplantam as responsabilidades coletivas, situações estas que podem ser encontradas, à exaustão, nos espaços midiáticos. Neste contexto,   “se   as   pessoas   ficam   doentes, supõe-se que não foram industriosos para seguir seus tratamentos; se ficam desempregadas, foi porque não aprenderam a passar por uma entrevista, ou porque não se esforçaram o suficiente para encontrar trabalho ou porque são, pura e simplesmente avessos ao  trabalho” (Bauman, 2001). Se por um lado, as narrativas jornalísticas desvelam e enfatizam situações de risco, por outro lado, sugerem comportamentos e formas de lidar com a saúde e a doença, graças a uma forma particular de ordenamento discursivo capaz de tornar estas questões inteligível e palatável ao público ao qual se dirige e, ao fazer isto, supõe estar aumentando o coeficiente de segurança das pessoas diante das situações de riscos e das turbulências da vida e do mundo. A ausência de doenças, a vida saudável e a felicidade são obtidas mediante a responsabilidade individual, a divulgação de informações, o acatamento aos


conselhos emitidos por especialistas e pelas pessoas bem sucedidas diante da batalha pela vida. Dessa forma as narrativas jornalísticas se transformam em poderosas ferramentas para interpelar os atores sociais e enfatizar determinados sentidos sobre a saúde sugerindo e apontando para uma suposta inteligibilidade e segurança ontológica sobre a vida na sociedade reflexiva. Conclusão Pelo exposto podemos dizer que os sentidos da saúde na mídia jornalística impressa analisada são construídos a partir de vários fatores. Um deles é sua obsessiva tentativa de atribuir, em suas narrativas, inteligibilidade aos fatos sociais para evitar toda e qualquer indeterminação dos sentidos e, para isso, valer-se-á de diferentes estratégias discursivas (argumentação, uso de verbos, recursos infográficos, localização do texto na geografia do medium, etc.). Estas estratégias não são necessariamente forjadas pelo rigor lógicoargumentativo da exposição, mas sim pelo efeito de verossimilhança que pode despertar no público ao qual se dirige. Neste caso, observarmos, comparativamente, que, se do ponto de vista da saúde, dados epidemiológicos são interpretados pelos epidemiologistas partir de suas probabilidades estatísticas, nas narrativas jornalísticas estes mesmos dados são transformados em certezas absolutas pela individualização dos casos por elas focados. Assim, os riscos e os agravos da saúde nunca ficam sem respostas, mas estas seguem enfatizando a responsabilidade individual das pessoas e sobre as suas possibilidades de seguir os aconselhamentos referenciados pelas vidas exemplares. Este tipo de receituário sugere a adoção de estilos saudáveis de vida, recursos de tratamento inovadores e inovações tecnológicas na saúde produzidas pelo campo científico. Estas respostas são sempre dadas no sentido de aumentar o coeficiente de segurança ontológica do público diante das suas incertezas em relação à saúde e, simultaneamente, indicar respostas de como aliviar os seus males e alcançar uma suposta felicidade.. Para isso a ordenação das estratégias narrativas jornalísticas reitera uma suposta clareza sobre os fatos narrados evitando controvérsias de fundo provocadas tanto pelas turbulências do mundo quanto pelas narrativas derivadas das ciências, da política ou dos


sistemas peritos. Por exemplo, ali nunca se diz que não existe cura para o câncer, mas sempre sobre possibilidades de tratamento, como uma forma de conforto ontológico. Mas, além destas questões devemos levar em conta também que as mensagens produzidas pelos dispositivos jornalísticos não podem ser interpretadas criticamente sem levar em conta também à natureza da própria fabulação jornalística que é tanto marcada pela urgência da atualidade, do aqui e agora, quanto pelas condições socioculturais, fatores estes que definem as suas condições de enunciação. Neste aspecto, os imaginários ou os sentidos produzidos pela mídia jornalística não constituem, de per se, manipulação ou expressão de pura intencionalidade dos jornalistas ou dos proprietários dos veículos de comunicação, embora as suas marcas estejam presentes em sua superfície discursiva, mas sim que estão subordinados às suas próprias condições de enunciação que determinam o alcance, limite e estética de suas narrativas e que, por sua vez, guardam íntima relação com as suas condições de circulação e de reconhecimento. Ao buscarmos entender os sentidos da saúde publicados pela mídia jornalística impressa devemos levar em conta também que se trata de uma arena de disputas simbólicas permeadas por determinadas condições de produção e de enunciação que, por sua vez, são atravessadas por variáveis socioculturais. A articulação e a hierarquização resultantes das articulações destas condições são os principais fatores de modulação do processo de produção e recepção das mensagens midiáticas sobre a saúde. Referências bibliográficas Bauman, Zigmut. A ética é possível num mundo de consumidores. Tradução de Alexandre Werneck. Rio de Janeiro, Zahar, 2011, p. 37. Bauman, Zigmut. Modernidade liquida. Tradução de Plínio Dentzein. Rio de Janeiro, Zahar, 2001. p. 83. Beck, Ulrich.  “A  reinvenção  da  política:  rumo  a  uma  teoria  da  modernização  reflexiva”.  In Modernização Reflexiva: política e estética na ordem social moderna. Ulrich Becker, Anthony Giddens, Scot Lasch. Tradução de Magda Lopes. São Paulo, Editora da Unesp, 1997, p.11-71. Castiel, L.; Guilan, M; Ferreira, M. Correndo o Risco. Uma introdução aos ricos em saúde. Rio de Janeiro, Editora Fiocruz, 2010. Fausto Neto, Antônio. Comunicação e mídia impressa. Estudos sobre a AIDS. São Paulo, Hacker Editores, 1999.


Giddens, Anthony. Mundo em descontrole: o que a globalização está fazendo de nós. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. 7ª. Edição. Rio de Janeiro, Record, 2010., p. 36 Giddens, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo, Ed. da Unesp, 1991. Moraes, Heloísa   Junckaus   Preis.   “Meios   de   Comunicação   e   persuasão:   a   cobertura da doença  de  Ana  Maria  Braga”.  ECOS  REVISTA,  2002, Pelotas, V.6, no. 1. p. 38. Pinto, Milton José. Comunicação e Discurso. São Paulo, Editora Hacker,1999, p. 24. Ribeiro,  Lavina  Madeira.  “Comunicação  e  reflexividade”.  In   Recepção mediática e espaço público: novos olhares. São Paulo, Editora Paulinas, 2006. Págs. 39-53 Rodrigues, Adriano  Duarte.  “Delimitação,  natureza  e  funções  do  discurso  midiático”.  In   O jornal: da forma ao sentido. Maurice Mouillaud & Dayrell Porto (orgs.). Tradução de Sérgio Porto Grossi. Brasília, Paralelo 15, 1997. Págs. 217-233. Vaz, P.; Fantinato,   M.   Pecly,   G.   “O   fator   de   risco   na   mídia”. Revista Interface Botocatu) vol.11 no.21 Botucatu Jan./Apr. 2007. Texto fotocopiado, p. 3 .

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Pesquisador do LACES – Laboratório de Pesquisa em Comunicação e Saúde e Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação para a Saúde. ICICT/FIOCRUZ. Rio de Janeiro/Brasil.


LO DECIBLE ACERCA DEL ABORTO EN EL DISCURSO SOCIAL CONTEMPORÁNEO Autora: Del Manzo, María Belén Institución: Facultad de Periodismo y Comunicación Social, Universidad Nacional de La Plata, Argentina. belenmanz@hotmail.com GT 5 Comunicación y Salud RESUMEN El propósito de este trabajo es presentar ciertos lineamientos teórico- metodológicos que hemos comenzado a elaborar en el marco del Doctorado en Comunicación (FPYCS, UNLP), a los fines de analizar y poner en cuestión el tema del aborto. En este sentido, nos proponemos dar cuenta de cómo el discurso social de un momento histórico determinado, a saber la discusión del proyecto de Ley de Interrupción Voluntaria del Embarazo presentado en marzo de 2010 en el Congreso de la Nación, habla acerca del tema del aborto en diferentes espacios de la vida social (medios gráficos y salud pública) constituyendo distintas situaciones, objetos de conocimiento, representaciones e identidades sociales. Sin lugar a dudas, este es un fenómeno social complejo, abordado desde diversas dimensiones tales como las nociones de salud pública, género, los derechos sexuales y (no) reproductivos y desde el marco legal. Específicamente es esta ponencia indagaremos en algunos de los diferentes lugares desde donde el tema ha sido trabajado histórica y académicamente y propondremos ciertas líneas de investigación que serán necesarias estudiar desde el campo específico de la comunicación. Una de las preguntas de investigación desde las cuales partimos consiste en problematizar, ¿cuáles son los sentidos/resignificaciones/ representaciones del tema del aborto en el discurso social contemporáneo? De esta manera, resulta pertinente entender la temática del aborto desde el concepto de “discurso social”  como  “lo  decible”,  lo  narrable  y  opinable  en  una  coyuntura  discursiva. Esto supone identificar un conjunto de prácticas, correspondientes al campo de los medios de comunicación (gráficos) y la salud, lo que implica estudiar diversos órdenes y géneros discursivos, que permiten visualizar las tensiones, enfrentamientos y articulaciones entre las diferentes representaciones, identidades y relaciones sociales que están en juego en ese estado del discurso social. Trataremos de indagar, repensar y exponer algunas significaciones hegemónicas en cuanto al orden del discurso, de modificaciones para dar lugar a nuevas interpretaciones


que iremos recuperando en nuestra investigación a los fines de develar la lucha por los sentidos con respecto al aborto en relación con los medios y la salud. En Argentina las discusiones públicas sobre este fenómeno tienen un carácter discontinuo, existe una fragmentación en el tratamiento del tema (no es un tema de agenda).Si bien en la actualidad adquirió una creciente visibilidad, aún persiste una disputa por sus sentidos: por un lado, concepciones restrictivas y por otro, posturas que lo reconocen como un derecho humano y abogan por su incorporación a la agenda política de las autoridades sanitarias. Este trabajo se ubica entonces, en una línea de investigación en Ciencias Sociales cuya intencionalidad fundamental es la de comprender la realidad social que estudia, captar el significado, el sentido profundo que las personas y los grupos le atribuyen a sus prácticas (discursivas). Tomar conciencia de estas representaciones acerca del aborto en distintas esferas de nuestra vida es propiciar el camino para el diseño de nuevas estrategias comunicativas, proporcionar fundamentos para la formulación de políticas públicas o fortalecer las ya existentes y contribuir a un debate público informado respecto a la temática que posibilite la participación ciudadana. PRESENTACIÓN La ponencia que presentamos es parte de una investigación mayor, que hemos iniciado en el marco del Doctorado en Comunicación de la Facultad de Periodismo y Comunicación Social de la Universidad Nacional de La Plata. El objetivo que hemos perseguido apunta a reflexionar acerca del aborto en el discurso social contemporáneo. Especialmente, indagaremos en la relación comunicación, aborto y salud a partir de un relevamiento bibliográfico acerca de la temática, que nos llevó a delimitar algunas investigaciones que tienen relación con el problema desde el cual partimos. Esta selección es un primer acercamiento que destaca algunos aspectos, que resultan interesantes para trabajar las representaciones y significaciones sociales que se van construyendo acerca del aborto, en particular, en los medios de comunicación. El aborto en Argentina es un tema sensible, un hecho social que involucra una dimensión material y simbólica, pone en juego relaciones de poder: de género, legales, económicas y está atravesado por cuestiones referidas a la salud, la sexualidad, la moral, la ética y la subjetividad, entre otras.


De ahí que, nos resulta necesario pensar dichas relaciones de manera interdisciplinaria, es decir, atender las complejidades en los cruces que atraviesan al campo de la comunicación y la salud. Si bien la salud en Argentina es una cuestión que aparece como una preocupación mediática y pública, la temática del aborto no siempre es abordada en la trama de la discursividad desde el marco de la salud pública y los derechos. En este sentido, nos resulta relevante cómo este reciente anudamiento entre disciplinas, conocimientos, experiencias, investigaciones en el espacio de la comunicación y la salud, nos posibilita dar cuenta de la práctica abortiva en términos de agenda, de debate y de intervenciones en las políticas públicas referentes a la salud sexual y (no) reproductiva de la ciudadanía. A lo largo de este trabajo se entenderá a la comunicación y su imbricación en el campo de la salud más allá de ciertas herramientas y saberes que facilitan el logro de objetivos en un sentido práctico. La propuesta de estos estudios es problematizar el campo a partir de interrogantes más profundos y abarcadores sobre el papel de los medios en el tratamiento de la salud y específicamente, en el abordaje de la temática del aborto. Un nodo analítico, atravesado por cuestiones referidas al poder, el estigma, la discriminación y la construcción de identidades (Petracci, M. & Waisbord, S., 2011). En cuanto a la organización de este escrito, en primer lugar se desarrollan algunas dimensiones para pensar al aborto poniendo particular atención en aquella referida a la comunicación/salud. Luego, y de manera sintética, daremos cuenta de ciertas condiciones de producción de dicha práctica en nuestro país. Para finalizar, comenzaremos a delinear la trama discursiva del aborto en los medios y haremos especial hincapié, en la producción/ reproducción de ciertas representaciones y significaciones sociales acerca del aborto, que nos hablan de una determinada construcción histórica social de los cuerpos de las mujeres y su connotación política e ideológica como dimensión normativa. DIMENSIONES PARA PENSAR EL ABORTO El aborto desde los derechos sexuales y (no) reproductivos En este sentido existen un conjunto de trabajos que Mónica Gogna (2005) ordena en torno a dos ejes: aquellos que presentan un recorrido histórico- conceptual de la construcción del concepto de derechos sexuales y (no) reproductivos y su


posicionamiento en el paradigma de los derechos humanos y los que, describen el proceso por el cual estos derechos llegan a la legislación argentina. La mayoría de estos textos, incluida la obra de Mónica Petracci y Silvina Ramos (2006), hacen referencia a las políticas pronatalistas de nuestro Estado Nacional, afectando el derecho de las personas de decidir cuántos hijos tener y cuándo, y a la relación entre el Estado y la Iglesia Católica. Asimismo, se proponen pensar la temática desde los problemas de salud pública, la equidad social y la construcción de ciudadanía. Es desde este lugar que, en la actualidad, diversos sectores piensan al aborto.

Estudios legales acerca del aborto Otra línea de investigación, está relacionada con el marco jurídico: qué dice la legislación en nuestro país, en particular el Código Penal, nuestra Constitución Nacional, cuáles son sus interpretaciones, sus alcances, el tratamiento de derechos reconocidos por el ordenamiento jurídico internacional y nuevos proyectos presentados por diferentes organizaciones que apuntan a la legalización de la práctica y a su despenalización. Esto promovería la equidad de género y la aplicación de la justicia social ya que la mayoría de las mujeres que mueren por abortos clandestinos e inseguros son pobres. Para muchos sectores, este es otro factor que contribuye a la “criminalización” de  la  pobreza.

Aborto y subjetividad También está presente una tradición de estudios desde la psicología a partir de pensar la problemática en función del deseo, el placer, los imaginarios sociales y representaciones. Se piensa la manera en que los estereotipos y las relaciones de género afectan a las decisiones de hombres y mujeres de llevar adelante conductas de prevención y cuidado de la salud reproductiva. Temática relacionada con el embarazo no deseado y por consiguiente, con el aborto.

Comunicación y aborto En este campo encontramos diversos trabajos de investigadores/as nacionales acerca del tratamiento del tema del aborto en medios gráficos. Las investigaciones que ponemos “en diálogo”   son:   Mónica Petracci y Silvio Waisbord (2011); Milca Cuberli, Andrea Palopoli y Marina, Lois (2011); Mariana Carbajal (2009); Josefina Leonor Brown (2007); Natalio Cosoy y Marina Lois (2005) y Mónica Petracci (2004).


En primer lugar, damos cuenta de cómo entienden estos autores/as el papel de los medios gráficos nacionales (Diario La Nación, Clarín y Página/12 1) en relación con el fenómeno social del aborto. A lo largo de estas reflexiones, se problematiza a los medios de comunicación como espacios públicos donde se producen y circulan diversos discursos, entendidos como prácticas sociales en los que se materializan ciertas representaciones acerca del mundo. A su vez, tienen un rol central en el abordaje del tema como co-constructores de la agenda política y social y del imaginario colectivo. Al respecto Claudia Laudano (2008) sostiene que, historizar la temática del aborto en los medios de comunicación es una tarea complicada debido a la falta de sistematicidad en su tratamiento. Sin embargo, en los últimos años, fue ganando terreno en el campo mediático con continuidades y transformaciones. De ahí que, el debate sobre el aborto comience a formar parte de la trama de la discursividad pública. Desde esta línea, los medios de comunicación les permiten a los sujetos informarse sobre su entorno. Depende de ellos, tanto los hechos como la evaluación del clima de opinión. Es decir, los medias forman y crean determinadas opiniones que favorecen ciertas tomas  de  posición  y  silencian  otras,  las  vuelven  “invisibles”  en  la  sociedad. En esta perspectiva, se   piensa   a   los   medios   a   partir   de   la   “fijación   de   agenda”.   Éstos   deciden cubrir e incluir, en determinado momento, ciertos acontecimientos en torno a la temática en cuestión y otros no. Es por ello que nos resulta necesario indagar acerca del modo en que se construyen, presentan y jerarquizan las cadenas significantes acerca del aborto presentes en el discurso de la información y que las hacen objeto de opinión. O sea, los medios ocupan un lugar de activadores ya que ponen a circular determinadas apreciaciones y las exponen al debate público. La información que nos proporcionan los diarios acerca del aborto es capital en la medida que posibilite nuevas formas de opiniones para la toma de decisiones y para el ejercicio de acciones por parte de diversos grupos sociales. Uno de los puntos nodales en la relación comunicación/aborto, tiene que ver con los diferentes momentos históricos en los que la temática tuvo mayor visibilidad pública y con la resignificación de ciertos sentidos que comienzan a incluir la noción de salud en la cadena connotativa. Russell Neumann (1990 citado en Petracci, 2004) sostiene que   “el aborto puede ser definido como una ‘crisis   simbólica’,  dado   que   se  trata  de  un   problema   social   de  larga  


data que, generalmente bajo un hecho externo, reaparece en los medios masivos con cierta periodicidad”. Todos los/as autores/as marcan como quiebre en cuanto a la presencia del tema en los medios, el año de la reforma constitucional (1994). A partir del 2000 (del 2002 al 2004), comienza a formar parte de la agenda de debate público político destacándose por un lado, la postulación de Carmen Argibay a la Corte Suprema de la Nación (caracterizada por los medios como atea y a favor de la despenalización del aborto) y por otro lado, el debate, la aprobación y reglamentación de la Ley Nacional 25.673 de Salud Sexual y Procreación Responsable (2002). Desde entonces, comienza a proponerse este tema como un problema de salud pública y de derechos. En el 2005 se inicia la Campaña Nacional por el Aborto Legal, Seguro y Gratuito, en la que diferentes organizaciones sociales llevan adelante acciones de visibilidad pública y cobertura mediática. Hacia los años 2008/2009, los medios gráficos hacen eco de la responsabilidad del Estado frente a la mortalidad gestacional de la mujeres provocada por abortos inseguros/clandestinos. Aparecen en escena casos de abortos no punibles. Siguiendo el trazado de esta línea temporal, encontramos un análisis comparativo realizado entre 1994 y 2008 en torno a los discursos sociales del aborto en Clarín, La Nación y Página/12 2, la disputa por las significaciones de este tema se organizan en torno a tres regimenes de verdad 3. El   primero   denominado   “nacional   y   moral”   corresponde al año 1998, en el que emerge la relación Iglesia-gobierno de turno y el aborto es representado como una práctica inmoral, pecaminosa y un crimen. El segundo régimen de verdad, comprende  los  años  2002  y  2004  y  lo  enuncian  como  “nacional  y  de   derecho”.   Aquí,   como afirmamos anteriormente, surge en el campo discursivo una perspectiva de derechos y salud pública a partir de la aprobación de la Ley de Salud Sexual y Procreación Responsable. Finalmente, el tercer régimen, se centra en el 2008 bajo  el  título  de  “cumplimiento  de  derechos”  ya  que  las  formas  simbólicas  que  circulan   en algunos medios, dan cuenta de la despenalización del aborto como una cuestión de derechos humanos para las mujeres (Lois & Cosoy, 2005). Otro de los puntos en común, se despliega en torno al debate público (que incluye a los medios de comunicación), caracterizado por posturas extremas, lo que se ha señalado como   la   estrategia   de   “los   dos   bandos”, una tendencia a simplificar y reducir la discusión a posturas pertenecientes a la Iglesia Católica y movimientos pro-vida, cuyos


argumentos apuntan a la socialidad de la vida desde la concepción y por tanto, el aborto es considerado un crimen, reapropiándose de  los  “derechos  humanos”  para  el  no  nacido.   Y por otro lado, los movimientos sociales a favor de la despenalización y legalización del aborto, denominados pro-elección cuyos argumentos se centran en la autonomía de las mujeres para decidir sobre sus cuerpos y sus proyectos reproductivos. Como vimos a lo largo de este apartado, surge en nuestro país la imperiosa necesidad de darle visibilidad a este hecho social con diferentes abordajes, en especial desde los derechos humanos y como un grave problema de salud pública. Es en este sentido que la articulación comunicación y salud adquiere una visión integral. Esta última es pensada desde la definición de la Organización Mundial de la Salud (OMS), como el estado de bienestar físico, mental y social y no únicamente desde la ausencia de enfermedad o dolor. Al mismo tiempo, la comunicación en este diálogo, está relacionada con los procesos de participación en la producción e intercambio de ideas  y  opiniones.  Esta  perspectiva  toma  en  cuenta  a  los  “complejos  procesos sociales y políticos de intercambio y formación de sentido social como así también de participación  política”  (Petracci  &  Waisbord, 2011, p. 13). Estos aportes contribuyen a pensar la salud y, particularmente al aborto como fenómenos sociales que son narrados por una multiplicidad de discursos y puestos en circulación en nuestra vida cotidiana construyendo mundos posibles. CONDICIONES DE PRODUCCIÓN E INTERACCIÓN Entender entonces el tema del aborto como práctica social y discursiva supone una caracterización que atienda a las condiciones de producción e interacción que le dan forma. A continuación, sólo presentaremos algunos de los elementos que forman parte de la trama discursiva y que consideramos pertinentes para complejizar y exponer con mayor profundidad esta problemática.

El aborto en la historia Giulia Galeotti   en   su   libro   “Historia   del   aborto” (2004) marca diferentes fases, la primera de ellas va desde la Antigüedad hasta el SXVIII. En esta etapa, el aborto es una cuestión de mujeres, no se ve en el feto una entidad autónoma sino que forma parte del cuerpo materno. Cabe destacar que, con el hebraísmo y el cristianismo se comienza a entender al aborto como una práctica que interrumpe la obra creadora de Dios o que suprime una vida humana. Si bien le confieren al feto cierta autonomía, las religiones no


cambian la idea de que la gestación, el parto e interrupción del embarazo forman parte del ámbito privado femenino. La segunda fase, se enmarca con la Revolución Francesa y el aborto tiene un alcance público. La mirada acerca del tema cambia sobre todo a partir de los desarrollos científicos en el SXVII, que permiten visualizar al feto entendido como una individualidad. De ahí que, la Iglesia modifica su posicionamiento en función de estos avances a pesar de que en las Sagradas Escrituras (tanto en el Antiguo como Nuevo Testamento) no existe ninguna frase condenatoria. Este período en la historia marca la conformación de los Estados Nacionales y son éstos quienes plantean el inicio de un conflicto entre dos exigencias: ¿es más importante la vida de la madre o la del feto? Así, se protege y garantiza a “quien va  a  nacer  en  tanto   entidad   políticamente   relevante” (Galeotti, 2004, p. 6). La natalidad comienza a ser de suma importancia para los nuevos Estados ya que no sólo necesitan ciudadanos que defiendan sus intereses (soldados) sino también ciudadanos que aseguren el progreso económico (trabajadores). Este posicionamiento se mantendrá aproximadamente dos siglos. La tercera fase, se inscribe en los años  ‘70  del  SXX  con  nuevas  legislaciones  que  toman   en cuenta a la mujer, con límites y tiempos diferentes según cada país. Esta etapa tiene como antecedentes la creación y venta de las pastillas anticonceptivas. Las mujeres comienzan a controlar su capacidad procreativa convirtiendo a la maternidad en una opción y a separar el binomio sexo/procreación dando lugar al placer y al deseo.

La situación del aborto en Argentina Según Marcela Aszkenazi (2007), en nuestro país, a finales del SXIX, lo esencial era potenciar y fortalecer la etapa de modernización y expansión del aparato productivo y por tanto, era central el control demográfico en relación con la fuerza de trabajo. De esta manera, el discurso público de ese entonces, señalaba que la maternidad era un compromiso ineludible de las mujeres para con la sociedad. Dentro de este panorama comienza una fuerte persecución y represión contra el aborto. El interés en restringir la sexualidad y aumentar la natalidad es un continuo en la política pública de nuestro país en el SXX. Por ejemplo, en la reforma constitucional de 1949 se  refiere  a  la  mujer  como  “agente  creador”,  un  término  que  la  reduce  a  funciones   biológicas de reproducción (Bianco, 1998).


Durante los ciclos de democracia y dictaduras, se mantenía una posición pronatalista que reprimía los anticonceptivos y abortos. En 1974, durante el gobierno de Isabel Perón se promulgó el decreto 659 que prohibió el control de la natalidad, la venta de anticonceptivos y realizó campañas de educación sanitaria para destacar los riesgos de toda práctica anticonceptiva. Bajo la dictadura militar de 1976 la política de control de la mujer y la negación de sus derechos reproductivos se intensificó. Las diferentes Juntas Militares definieron a la mujer desde su rol de madre y mantenía la planificación familiar. A partir   de   los   años   ’80   y   con   el   retorno   de   la   democracia, comenzó tardíamente un debate público sobre los derechos (no) reproductivos. En este marco surgen diferentes movimientos de mujeres y grupos feministas destacándose la realización del primer Encuentro Nacional de Mujeres. Con la lucha de estos sectores, el Estado comienza, de manera incipiente, a reconocer ciertos derechos civiles. A pesar de un nuevo posicionamiento en el tema, en 1994 ante la reforma de la Constitución, el gobierno menemista alineado con la Iglesia Católica (Vaticano) y los sectores más conservadores intentó incluir el derecho a la vida desde la concepción en la nueva Constitución. La unión y reacción del movimiento de mujeres denominas “autoconvocadas”  frenó  tal  iniciativa  y  se  incluyó  en  nuestra  Carta  Magna  una  cláusula   que protege al niño desde el embarazo dejando una puerta abierta para un futuro tratamiento de una ley que despenalice y legalice el aborto. Hasta la fecha la Ley 25.673 es la más trascendente aprobada en relación a los derechos reproductivos, tuvo lugar en el año 2002 y fue reglamentada en el 2003 durante el gobierno de Néstor Kirchner. Esta iniciativa establece un Programa Nacional de Salud Sexual y Procreación Responsable que garantiza la educación sexual, el acceso a la salud reproductiva y a los anticonceptivos. Si bien esta Ley fue un paso importante aún queda pendiente su puesta en práctica en todo el país, la obligatoriedad de brindar educación sexual en todas las etapas formativas y el tratamiento de una Ley que despenalice y legalice el aborto en tanto reclamo histórico y un derecho negado a las mujeres y a la sociedad.

Legislación vigente El aborto es considerado por el Código Penal un delito contra la vida al igual que el homicidio y dedica varios artículos al tratamiento del tema, del 85 al 88. Por lo tanto, se castiga a la mujer y a la persona que practica la interrupción del embarazo.


La Ley se enfoca en el artículo 86 en donde pueden distinguirse dos excepciones que autorizan a la realización de un aborto (abortos no punibles). En casos en que este en peligro la vida o salud de la madre y ante un embarazo producto de una violación o de un atentado al pudor cometido sobre una mujer idiota o demente. La interpretación de este artículo ha generado serios debates doctrinarios. A pesar de establecer en qué casos un aborto no merece castigo, esta disposición no se cumple de manera efectiva lo que conlleva a la judicialización del proceso.

Nuevo proyecto de Ley En la actualidad, ha cobrado fuerza pública la cuestión del aborto a través de la Campaña Nacional por el Derecho al Aborto iniciada en el 2005 por más de 260 organizaciones de todo el país. En el 2010, estas agrupaciones presentaron un proyecto (luego de perder estado parlamentario en 2007 y 2009) que propone la despenalización y legalización de la práctica abortiva voluntaria hasta las doce semanas de gestación, y sin límite de tiempo en los casos en que la salud y la vida de la mujer corriese peligro, existan malformaciones en el feto, o haya sido violada. Por primera vez el debate se instaló de manera institucionalizada en el Congreso de la Nación y generó un espacio de discusión que comenzó a hacerse visible en los medios y en la opinión pública. Este proyecto, avalado por distintas fuerzas políticas, fue tratado en la Comisión de Legislación Penal, durante el período 2011, logrando una resolución favorable e instalándose como un hecho histórico. Sin embargo, el dictamen perdió nuevamente entidad parlamentaria ya que no reunió la cantidad de firmas de los miembros. A pesar de ello, se anuncia la continuidad de la discusión en el Congreso de la Nación. Quienes forman parte de la Campaña sostienen que la legalización no obliga a ninguna de las mujeres a abortar, pero sí exige al Estado aplicar políticas públicas para garantizar los derechos humanos de todas/os.

Cifras La información existente tiene limitaciones debido a la clandestinidad y penalización de la práctica. Es decir, no existen registros oficiales ni cifras exactas, sin embargo, se recurre a métodos indirectos como por ejemplo, el ingreso y egreso a un hospital público por complicaciones postabortistas. Cabe resaltar que, quedan por fuera del


cómputo las mujeres que recurren a un aborto seguro y no tienen complicaciones, las que reciben atención en entidades privadas y las que mueren (Carbajal, 2009). De acuerdo a estos métodos, por año se realizan entre 460 mil y 600 mil interrupciones voluntarias de embarazo en relación a los 700 mil nacimientos en nuestro país. Cada año, mueren 100 mujeres a causa de abortos inseguros y otras, quedan mutiladas, infértiles y con infecciones. Estos datos pertenecen a los sectores más pobres de la población. Si bien no hay números exactos, desde el ámbito de la salud pública, los abortos inseguros son la principal causa de muerte entre mujeres desde hace más de veinticinco años en la Argentina. EL ABORTO EN EL DISCURSO SOCIAL Y SUS REPRESENTACIONES El tema del aborto como pudimos ver, es el producto de un proceso social con determinada historización. A partir de sus condiciones de producción e interacción podemos iniciar la búsqueda e identificación de un conjunto de discursos sociales contemporáneos acerca del aborto que construyen una red discursiva particular. En este punto, se presenta la necesidad de explorar cómo se entretejen las significaciones, los sentidos, las representaciones del tema del aborto y su especial incidencia en los cuerpos femeninos presentes en la trama discursiva de los medios de comunicación y particularmente, en la prensa gráfica nacional. Raiter y Zullo (2008, p.13) afirman   que   “en   la   medida   que   los   medios   establecen   la   agenda, los miembros de la comunidad comentarán, hablarán, discutirán sobre los temas y representaciones que los mismos medios  han  presentado”.   De acuerdo a esto, la formación y complejización de las representaciones está atravesada por el lenguaje y la comunicación, lo que ha posibilitado su intercambio y circulación desde diferentes roles y jerarquías. Es decir, la sociedad cuenta con responsables institucionales como los medios de comunicación, ocupando un lugar simbólico, especializados en la construcción y fijación de significados que no son neutros, tienen consecuencias en la vida cotidiana de los sujetos. Los sistemas de representación son aquellas imágenes mentales que se constituyen en creencias acerca del mundo propias de una época y pasan a formar parte de nuestro sentido común, se naturalizan y cristalizan en determinados discursos que comportan contradicciones y múltiples sentidos. Es decir, implican una manera de ver el mundo y por lo tanto, de actuar en él.


Los sujetos utilizan diversos sistemas de representación para experimentar, interpretar y darle sentido a las condiciones de su existencia. Ahora bien, podemos preguntarnos ¿qué representaciones ideológicas activa la prensa gráfica en relación al aborto y en especial, aquellas cadenas de asociaciones/ connotaciones que dominan el cuerpo de las mujeres? Desde este aspecto, nos interesa caracterizar lo que Marc Angenot  (2010)  denomina  “el   discurso  social”,  en  tanto  alude  a  todo  lo  que  se  dice  y  escribe  en  un  estado  de  sociedad,   en una coyuntura discursiva particular (Chouliaraki & Fairclough, 1999). El mismo, presenta reglas de producción y circulación específicas en cada época que le confieren aceptabilidad y encanto: tiene eficacia social y públicos cautivos. En este enfoque no se disocia   jamás   el   “contenido”   de   la   “forma”,   lo   que   se   dice   y   la   manera   adecuada   de   decirlo. A partir de estos términos y según estos autores, el lenguaje y por ende, los discursos de un momento dado, reflejan y a la vez construyen ideologías, manteniendo, reproduciendo y modificando las relaciones de poder en la sociedad. De aquí se desprende, que ningún uso del lenguaje es neutral, objetivo, carente de valores e inocente. “Entendemos  los  discursos  producidos  por  una  sociedad  y  dentro  de  ella  (…)  como   un lugar donde, por una parte, se reflejan las tensiones y conflictos de aquélla y, por otra, se proponen modelos de representación normativos que encajan con las necesidades del desarrollo social de una época, necesidades que son definidas y elaboradas  por  los  grupos  sociales  dominantes”  (Sánchez,  1999:  66). EL CUERPO FEMENINO: CUERPOS POLÍTICOS En el reciente debate público acerca de la despenalización y legalización de la interrupción voluntaria del embarazo, se observa la presencia en los medios y en especial en los diarios nacionales, de ciertos discursos sociales que dan cuenta de lógicas corporales a partir de una mirada biológica y un saber biomédico. Le Breton (1992) piensa al cuerpo desde su materialidad pero sobre todo, desde una dimensión simbólica, con determinada significación y valor. Este autor, afirma la existencia de representaciones y valores vinculados con el cuerpo que lo identifican y establecen vínculos con el sujeto que lo encarna. Aquí, se aprecia la idea de las representaciones imbricadas en la práctica. De ahí que, se vuelvan una cuestión política central.


Siguiendo a este autor, la corporeidad se construye socialmente y las representaciones que de ella circulan responden a una visión de mundo determinada desplegada en una red interdiscursiva. En el caso de los cuerpos femeninos, esta construcción histórica-social se realiza desde el Estado (a través de las políticas públicas que implementan) y desde los medios de comunicación (mediante la publicidad, el discurso de la información, etc.). Como afirmamos anteriormente, la materia prima de los discursos que circulan en los medios, es el lenguaje marcado ideológicamente. Por tanto, esta fuerza social en la que se constituyen los medias, opera en la producción y circulación de significaciones que extienden prácticas, modos de actuar que atraviesan a las diversas identidades y a su vez, construyen estereotipos. De esta manera, la prensa gráfica institucionaliza a las muertes por abortos inseguros y clandestinos bajo  la   categoría  “muertes   maternas” 4. Esta nominalización aparece como una construcción semántica de los medios y del discurso público que se arraiga en la cadena significante mujer = madre, y reduce el abordaje de la cuestión al orden biológico como fundamento para entender la cuestión. En esta narrativa niega la posibilidad de ser simplemente muerte de mujeres y ginecologiza el cuerpo femenino ya que se lo significa atrapándolo en su función reproductora (se la tiene en cuenta de la cintura para abajo) (Schiavani & Fretes, 2010). En tanto cuerpo reproductor, las mujeres están sujetadas al control social e institucional y son vigiladas en su corporeidad. Por consiguiente, su rol social es organizado en función de la maternidad de manera constitutiva e inherente desplegándose como un fenómeno social naturalizado. La capacidad y potencialidad biológica de gestar atraviesa múltiples discursos y se instala como una característica de lo femenino y con ello, se anudan sus cuerpos y subjetividades. Esta representación de mujer = madre implica una cadena significante asociada connotativamente con lo emotivo y sensible, con la fragilidad y debilidad, la limita al cuidado y la crianza, su sexualidad está sujetada a la reproducción y por tanto, negada al deseo y placer. Predomina entonces, un discurso naturalista donde la función de procreación y la maternidad aparecen como el símbolo ético positivo por excelencia. En este sentido, los medios de comunicación incluida la prensa periódica, actúan por insistencia y repetición de estas cadenas significantes, en complicidad con otras instituciones del espacio social.


El relato mediático, en general, se construye sobre la base de un discurso organizado a partir del control sobre el cuerpo de las mujeres, que se constituye en terreno de debates públicos al que todos/as pueden tener acceso. Sin embargo, en muchas ocasiones, las mujeres que llevan adelante esta práctica son silenciadas, no tienen escucha de reconocimiento ni palabra autorizada. Mientras que el cuerpo masculino como damnificado directo permanece ausente, sin embargo su voz está presente como fuente legitimadora en el ámbito de la experticia (médicos, abogados, sacerdotes, funcionarios, legisladores). De esta manera, la mujer se constituye en sujeto y objeto del tutelaje de las políticas públicas basadas en una lógica de poder patriarcal 5. Por otra parte, Le Breton (1992) sostiene que los sentimientos que experimentamos, como por ejemplo culpa, vergüenza, temor, repercuten y se expresan en nosotros, se arraigan en normas colectivas y se inscriben en el cuerpo. Estos dispositivos disciplinadores están relacionados con la trama social y cultural en la que el sujeto se inserta con determinadas visiones, creencias acerca del mundo y la manera en la que se sitúa frente a su grupo de pertinencia. Otra representación imperante en la narrativa mediática 6 acerca del aborto, es aquella que la  connota  como  “asesinato”,  cuyo  significante se ve asociado con la idea de delito y muerte. De ahí que, el sentido común de prohibición y crimen se constituye sobre la base de un ideario social atravesado por nociones propias del pensamiento científico y religioso que tiene incidencia en el cuerpo de las mujeres, puesto que ante un embarazo no viable sienten miedo, culpa, desamparo y la sensación de haber realizado algo incorrecto. Los sentimientos entonces, se inscriben como una marca cultural y social sobre el cuerpo femenino y se materializa sobre la carne a través de las cicatrices y/o mutilaciones y muertes, a las que se ven afectadas las mujeres ante la práctica de abortos inseguros. Y sobre la psiquis, es decir, sobre las subjetividades a partir de mecanismos de culpabilización aún en abortos llevados delante de manera segura. Las representaciones sociales dominantes en los medios, se anclan en un sentido común que afirma que la función primordial de las mujeres es la maternidad de manera inexorable, se estructura como destino y no como deseo, negando la posibilidad de “elegir”.


Para Giddens (1995, 1998, p.106), la elección es un componente fundamental de la conformación del   yo.   “Todas   las   elecciones   que   como   sujetos   efectuamos   en   nuestra   vida cotidiana son decisiones referentes a los modos  de  actuar  y  a  quién  ser”. En nuestra sociedad contemporánea, existen multiplicidad de elecciones pero no todas están abiertas a todo el mundo. El mismo autor sostiene que en una cultura masculina, muchas opciones están veladas a las mujeres, entre ellas, la posibilidad de elegir sobre sus propios cuerpos y proyectos de vida con verdadera autonomía.

REFLEXIONES FINALES Este recorrido nos aporta algunas líneas de trabajo que serán útiles continuar, sobre todo la necesidad de poner en diálogo, ampliar e integrar resultados que nos permitan profundizar la cuestión e identificar ciertas categorías y proposiciones para la generación de teoría desde nuestro campo disciplinar, la comunicación en articulación con el ámbito de la salud. Al respecto, Mónica Petracci y Silvio, Waisbord (2011, pp. 461-462) afirman que: “Los mejores   resultados   se   obtendrán   en   la   medida   en   que   lo   comunicacional   se   inserte en un modelo de salud que apunte a lo colectivo, que considere a la salud como un derecho humano garantizado desde el Estado a través de políticas públicas que profundicen la democracia social, la no discriminación, la interculturalidad, la equidad  de  género,  y  las  prácticas  de  cuidado  y  humanización  de  la  atención”. Si bien se registran avances con respecto a las cuestiones de género, a la sexualidad, a los derechos reproductivos, a la visibilidad de estas temáticas en los medios, el tratamiento del aborto es una deuda pendiente de nuestras políticas de Estado. A pesar de esto último, existe un desplazamiento de sentido en el debate público respecto al significante aborto, la cuestión penal comenzará a ser subvertida por la noción de salud connotada en la red discursiva a partir de significaciones referentes a las políticas públicas, los derechos sexuales y (no) reproductivos, la puesta en marcha de programas y acciones que dan lugar a voces antes marginadas. A lo largo de este trabajo, también hemos dado cuenta del papel de los medios como recursos de poder simbólico a la hora de determinar los temas y sus contenidos en la agenda mediática, que comportan tensiones y articulaciones.


En este proceso, se destaca la complejidad en las formas en que las significaciones sociales son aceptadas, apropiadas e interpretadas por los sujetos en sus vidas cotidianas. Así, los discursos sociales de un momento dado, construyen una representación del cuerpo de las mujeres asociada a su función reproductora y por tanto, a la maternidad. Es por ello que, la definición de su ser, de su modo de estar en el mundo y de relacionarse con él pasa esencialmente por este destino biológico y patologizado. La importancia de rescatar ciertas representaciones sociales del aborto que nos hablan de los cuerpos femeninos, radica en la necesidad ineludible de reflexionar acerca de este hecho social en un sentido político, es decir, abordarlo y ponerlo en la escena pública de la cotidianeidad, develar aquellas vivencias que evidencian condiciones de discriminación y naturalización de las micro-violencias existentes hacia las mujeres. La trama discursiva y pública del tema del aborto rebela en parte, la regulación, control y normatización de nuestros cuerpos. Lo que somos (en esa construcción simbólica y encarnada) está efectivamente condicionado, estigmatizado, silenciado, en este caso por los medios de comunicación y a su vez, nuestra materialidad corporal puede convertirse en un actor para la confrontación, la resistencia y la transformación que nos permitan construir relaciones y políticas públicas que respeten los derechos de las mujeres. De esta manera, nuestro aporte al tema intentará la búsqueda de significaciones que den lugar a nuevas interpretaciones en la lucha por los sentidos con respecto al aborto y promuevan la creación  de  instancias  “críticas”  en  las  que  la  comunicación,  el  discurso  y   la salud pública, tengan un papel muy importante en la concreción y la reproducción de un sistema social de prácticas transformadoras. BIBLIOGRAFÍA Angenot, M. (2010). El discurso social. Los límites históricos de lo pensable y lo decible. Buenos Aires: Siglo XXI. Aszkenazi, M. (2007). Clausuras y aperturas. Debates sobre el aborto. Buenos Aires: Espacio Editorial. Brown, J. (S.f.) La cuestión de aborto en Argentina. Una mirada a partir de la prensa periódica. Universidad de Buenos Aires/ CONICET. Bianco, M. et al. (1998). Mujeres sanas, ciudadanas libres (o el poder para decidir). Buenos Aires: FEIM, CLADEM, FNUAP y Foro por los Derechos Reproductivos.


Carbajal, M. (2009). El Aborto en Debate. Aportes para una discusión pendiente. Buenos Aires: Paidós. Carbajal, M. (2009). El aborto en medios gráficos argentinos. Recuperado el 18 de mayo de 2011, de http://www.despenalización.org.ar. Chouliaraki, L. & Fairclough, N. (1999). Discourse in Late Modernity. Rethinking Critical Discourse Analysis. Edinburgh/Cambridge: Edinburgh University Press. Cosoy, N. & Lois, M. (2005). La problemática del aborto en Argentina: las luchas por la hegemonía discursiva (1994-2004). Carrera de Ciencias de la Comunicación, Facultad de Ciencias Sociales, Universidad de Buenos Aires. Tesina sin publicar. Cuberli, M., Palopoli, A. & Lois, M. (2011, Septiembre). Discursos sobre aborto: disputas, tensiones y luchas por la constitución de sentido. Ponencia presentada en las XV Jornadas Nacionales de Investigadores en Comunicación, Río Cuarto, Argentina. Fernández, A. Ma. & Tajer, D. (2006). Los abortos y sus significaciones imaginarias: dispositivos políticos sobre los cuerpos de las mujeres. En S., Checa (Comp.). Realidades y coyunturas del aborto (pp. 33-46). Buenos Aires: Paidós. Foucault, Michel (1992) Verdad y poder. En Microfísica del Poder. La Piqueta: Madrid. Galeotti, G. (2004). Historia del Aborto. Buenos Aires: Nueva Visión. Gamba, S. (Coord.) (2009). Diccionario de estudios de género y feminismos. Buenos Aires: Biblos. Giddens, A. (1995, 1998). Modernidad e identidad del yo. Barcelona: Península. Gogna, M. (2005). Estado del arte. Investigación sobre sexualidad y derechos en Argentina (1990-2002). Buenos Aires: CEDES/CLAM. Disponible en www.cedes.org.ar Gutiérrez, Ma. A. (2011). Todo con la misma aguja: sexualidad, aborto y arte callejero. En Ma. A., Gutiérrez (Comp.). Voces polifónicas. Itinerarios de los géneros y las sexualidades (pp. 117-141). Buenos Aires: Ed. Godot. Laudano, C. (2008). El aborto en los medios: fragmentos de una historia en construcción. En El aborto en la prensa gráfica argentina. Monitoreo de 10 casos.

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Estos trabajos reconocen posiciones claramente diferenciadas entre los diarios Clarín, La Nación y Página/12, en relación con el tratamiento de la temática. El diario La Nación con una línea conservadora, el diario Página/12 en defensa de la despenalización y legalización y Clarín, con una posición “equidistante” del  tema. 2 A diferencia de los diarios Clarín y La Nación, Página/12, aún siendo un medio hegemónico, se caracteriza por tener una agenda de temas alternativa con tópicos que no tienen lugar en otros medios de comunicación o que tienen un enfoque diferente. 3 Este concepto es tomado de Foucault, M. (1992) y se refiere, sintéticamente, a aquellos procedimientos reglamentados por la producción y circulación de enunciados y a su vez, ligados a los sistemas de poder que producen y mantienen esos juegos de verdad-saber. 4 Cabe aclarar que esta noción proviene del discurso médico/estadístico propio del ámbito de la salud y da cuenta de las defunciones de mujeres en el período de gestación, en el parto o dentro de los 42 días después de la terminación del embarazo. 5 Entendido como un sistema de relaciones sociales sexopolíticas, un constructo histórico y social basado en diversas instituciones públicas y privadas y en la solidaridad interclases e intragénero instaurada por los varones, quienes oprimen a las mujeres y se apropian de su fuerza productiva y reproductiva, de sus cuerpos, ya sea de manera pacífica o mediante el uso de la violencia (Gamba, 2009, p. 260). 6 De acuerdo a las investigaciones referenciadas en  la  dimensión  “comunicación  y  aborto”, es importante señalar que dichos calificativos para nombrar al aborto, aparecen de manera sistemática en el diario La Nación. En el caso del diario Clarín, si bien no utiliza adjetivos negativos, sus argumentaciones se fundamentan en posiciones restrictivas (religiosas, médicas, jurídicas y filosóficas). Y Página/12, tiene una posición amplia sobre el tema, sosteniendo una perspectiva de derechos que apuntan a la autonomía de las mujeres.


Vanderli Duarte de Carvalho Universidade Federal de São Paulo UNIFESP/SP - BRASIL vanderlicarvalho@gmail.com vanderli.duarte@unifesp.br GT 5: Actores de La comunicación y salud

RESUMO A comunicação interpessoal na saúde: relatos pessoais de mulheres com câncer de mama A questão relacional na área da saúde envolve o imaginário sociocultural. Nos casos de mulheres com câncer de mama, denota um caráter emergencial em virtude do elevado número de ocorrências e pelo desconhecimento e/ou falta de percepção feminina da doença, o que dificulta a prevenção e o tratamento em tempo hábil. O entendimento do processo comunicacional, relacionado, em particular, às informações de mama, apesar de amplamente abordado pela mídia, ainda é incipiente nas ações práticas envolvendo pacientes e profissionais da saúde. Na comunicação entre profissionais da saúde e pacientes, a relação unidirecional está associada ao ensino da medicina baseado no modelo biomédico, fator que impede que se estabeleça uma relação interpessoal satisfatória. Assim, o objetivo central desta pesquisa é entender como se processam tais relações e o impacto que provocam na saúde das pacientes. Para analisar os relatos das pacientes diagnosticadas com câncer de mama (em diferentes estágios do tratamento) e profissionais de saúde (professor, médico, residente, psicólogo, enfermeiro e técnico de radiologia), foi utilizada a Teoria das Representações Sociais de Serge Moscovici (2010). Com a TRS foi possível identificar e compreender o imaginário dessas mulheres em três etapas da doença: a partir do diagnóstico, durante a rotina do tratamento e na reabilitação. Também ao longo da pesquisa de campo e na análise dos relatos, foram delineados alguns pilares comunicacionais evidenciados nas teorias: barreiras da comunicação, comunicação interpessoal, intrapessoal e não verbal. A metodologia que norteou o trabalho foi a de corte qualitativo. As análises foram feitas com base no Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), aporte teórico desenvolvido por Lefévre, Crestanam e Corneta (2003). Nos relatos das mulheres com câncer de mama foram identificados conflitos de ordem socioculturais, como crenças, valores pessoais, estereótipos, enfim, distorções provenientes do senso comum e do imaginário coletivo, mas também disseminadas nas representações da doença levadas a público pela mídia em geral. Tais representações (estigmas sociais) interferem na relação com os profissionais de saúde, influenciando, assim, a adesão ao tratamento da doença. Os aspectos comunicacionais são aqui apontados de maneira tácita. Porém se inseridos no contexto educacional da saúde, numa perspectiva relacional, o atendimento ao paciente terá um ganho em termos de qualidade.

Este trabalho reflete a discussão da tese de doutorado defendida pelo Programa da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista em 2011 sob a orientação da Profa. Dra. Elisabeth Gonçalves. O conteúdo completo (relatos pessoais de mulheres com câncer de mama e profissionais da saúde) está disponível no site: www.metodista.br


A comunicação interpessoal de mulheres com câncer de mama: relatos pessoais de mulheres com câncer de mama Focada no câncer de mama feminino, este artigo abordou a doença em duas perspectivas: a da equipe multiprofissional que cuida de pacientes com essa patologia e a das mulheres que estavam em tratamento em decorrência da doença. Estudos revelam que construções culturais, no que se refere ao diagnóstico da doença, induzem a mulher a assumir o papel de doente, com drásticas implicações em sua rotina de vida. O recorte na questão do câncer de mama feminino se deve ao fato de a doença afetar física e psicologicamente a paciente – podendo ainda ter consequências socioculturais. A área da Comunicação funciona como aporte de conhecimento, uma vez que abarca e se nutre de diferentes áreas, entre elas: Sociologia, Antropologia, Filosofia, História, Direito, Ciência Política, Psicologia, História, Economia, Psicossociologia e os múltiplos Estudos da Linguagem. A comunicação é um saber multifatorial, portanto, interdisciplinar e multidisciplinar. No campo da Saúde, a comunicação se expressa em vários segmentos, por meio de campanhas públicas e na relação interpessoal, entre profissionais da saúde e pacientes. Por ser campo de grande interesse público, a interface da Saúde com a sociedade é medida pelas relações desses profissionais com os pacientes e pela mídia em geral, que a cada dia traz novidades sobre diagnósticos, medicamentos e tratamentos para as diferentes patologias. Assim, a divulgação dos avanços científicos, ao mesmo tempo em que representa uma preciosa aliada dos pacientes e de seus familiares – particularmente na área de câncer –, gera expectativas que nem sempre correspondem à realidade, pois os resultados das pesquisas – apesar dos maciços investimentos no setor – ainda não vislumbram a cura desejada. As relações de poder podem ser percebidas nos diferentes cenários nos quais circulam profissionais da saúde e pacientes: ambientes acadêmicos, hospitais, clínicas, ambulatórios e consultórios – aliás, espaços que privilegiam os profissionais da saúde, já que estão em seu hábitat natural. Simultaneamente, as relações desses profissionais com os pacientes e seus familiares contribuem (e muito) com o tratamento e o bem-estar desejado. De modo que não é por acaso que o debate sobre o papel desses profissionais da saúde no relacionamento com os pacientes tem sido objeto de estudos, seja no campo da saúde, seja no da comunicação.

Este trabalho reflete a discussão da tese de doutorado defendida pelo Programa da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista em 2011 sob a orientação da Profa. Dra. Elisabeth Gonçalves. O conteúdo completo (relatos pessoais de mulheres com câncer de mama e profissionais da saúde) está disponível no site: www.metodista.br


Tais relações de poder estão explicitadas no saber-fazer competente preconizado por Perrenoud (2002 p.198). Para o autor, um profissional reflexivo aceita fazer parte do problema. Ele reflete sobre sua própria relação com o saber, com as pessoas, com o poder, com as instituições, com as tecnologias, com o tempo que se vai e com a cooperação, assim como reflete sobre sua forma de superar os limites ou de tornar mais eficazes seus gestos técnicos. No cenário contemporâneo, o significado mais geral da palavra poder remete à capacidade ou a possibilidade de agir, de produzir efeitos. Tanto pode ser referida a indivíduos e a grupos humanos como a objetos ou fenômenos naturais (1986 Bobbio apud Epstein, 1993,   p.35).   Epstein   complementa   esta   definição   de   Bobbio,   escrevendo   que   “o   próprio   substantivo   ‘poder’,   quando   acompanhado de determinados atributos, constitui um campo polissêmico formado de expressões corriqueiras na linguagem cotidiana”   (Epstein, 1993, p.35). Portanto, o poder exercido nas inter-relações humanas pode ser o de uma pessoa sobre a outra. Baseado nessa premissa, o encontro com o outro é sempre um mundo desconhecido, o que implica relações de poder a partir daquele que detém o saber – que, no caso da relação médico-paciente, se estabelece de maneira unidirecional pelo médico ou profissionais da saúde. Nessa relação com os profissionais de saúde, qual pode ser, então, a expectativa dos pacientes fragilizados? De que forma os profissionais da saúde podem contribuir para o bemestar dos pacientes, ajudando no tratamento após diagnósticos, que ainda representam uma sentença de morte para os pacientes? Como esses profissionais são capacitados/educados para manter uma relação positiva com os pacientes, que vá além da parte técnica? Ademais, é fundamental entender que as atitudes, a empatia e a postura são princípios (inclusive propostos nos parâmetros curriculares do curso de Medicina) do ato médico e que se forem apreendidos de maneira adequada, podem ser aplicados durante a consulta, com benefício direto aos pacientes. No entanto, pelo fato de o Sistema Público de Saúde não favorecer um atendimento com qualidade no que diz respeito aos aspectos técnicos – o que faz com que toda a equipe técnica enfrente dificuldades relacionadas à infraestrutura e à sobrecarga de atendimentos –, não cabe aqui depositar apenas nos profissionais de saúde a responsabilidade pelos problema s de relacionamento existentes. Este trabalho reflete a discussão da tese de doutorado defendida pelo Programa da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista em 2011 sob a orientação da Profa. Dra. Elisabeth Gonçalves. O conteúdo completo (relatos pessoais de mulheres com câncer de mama e profissionais da saúde) está disponível no site: www.metodista.br


Para entender o contexto atual, é necessário discutir o papel do Estado nas questões públicas de saúde – saber, portanto, da responsabilidade dos programas de saúde em relação aos pacientes. Além disso, é preciso avaliar o ensino e a prática da Medicina na atualidade. E, levando em conta o papel natural de liderança do médico na relação com o paciente, também é essencial compreender se o atendimento médico corresponde às novas expectativas frente à doença. Para Alves (2003a, p.21),  hoje  “o   médico  é  um  profissional   como   os  outros”.   Perdeu   sua aura sagrada. E, para exemplificar esta afirmação, ele cita a observação do diretor da Escola   de   Medicina   de   Princeton:   “um   médico   é   uma   unidade   biopsicológica   móvel,   portadora de conhecimentos   especializados,   e   que   vende   serviços”   (Idem).   Se   no   passado   a   figura do médico era considerada uma extensão da própria família – um generalista capaz de resolver não somente os problemas do corpo, mas também os da alma, profissionais que muitas vezes eram conselheiros da família –, atualmente, devido às mudanças processadas ao longo do tempo e com o surgimento das especialidades, tudo isso resultou em prejuízo aos pacientes, sobretudo no que diz respeito às relações interpessoais. Quanto às especialidades médicas, o foco desta pesquisa será nos estudos das doenças mamárias e nos diferentes aspectos que envolvem cuidados direcionados às mulheres. E como esses cuidados não se limitam aos médicos, mas se estendem a outros profissionais, também serão analisadas as diferentes áreas da saúde envolvidas na rotina do paciente oncológico. Cabe ressaltar, porém, que são múltiplas as representações coletivas e individuais abordadas no processo de diagnóstico e tratamento do câncer de mama. A doença pode causar o chamado vazio da esterilidade, frustração nos relacionamentos, enfim, incertezas de todo tipo e origem. A partir de práticas discursivas constituídas no campo teórico da linguagem, Citelli (2004,   p.55)   afirma   que   “as   cadeias   discursivas   contribuem   para arrefecer o sentimento de solidão  humana,  visto  que  nelas  os  ‘contratos  de  linguagem’  autorizam  recuperar  a  tradição,  a   história,   assim   como   prospectar   projetos   futuros”.   Esse   contrato   está   relacionado   às   práticas   sociais. Maingueneau, por sua vez, explica que a noção de contrato pressupõe que indivíduos pertencentes a um mesmo corpo de práticas sociais sejam capazes de entrar em acordo a propósito das representações de linguagem dessas práticas. [...] Logo, um sujeito ao enunciar

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presume uma   espécie   de   “ritual   social   da   linguagem”   implícito,   partilhado   pelos   interlocutores. (Maingueneau, 1997, p.30) Por que isto acontece? Em que medida a prática médica de distanciamento, consagrada na relação médico-paciente, é necessária para o olhar técnico, uma vez que ela mais prejudica do que ajuda? Qual o papel dos diferentes profissionais da saúde nesta relação com os pacientes? Como as dificuldades são inerentes ao ato médico, muitos ruídos ocorrem no processo comunicacional, em detrimento do bem-estar do paciente. Por isso, a linguagem atua como um instrumento essencial para minimizar os ruídos comuns em situações dessa natureza. É necessário, portanto, romper com as múltiplas barreiras impostas (social e cultural) no atendimento médico para que essa relação seja humanizada. É na fala do médico que o código verbal predomina. Aqui, então, recorremos ao contrato comunicativo, no qual é dado o direito de falar, o direito de dizer e argumentar. No caso da relação médico-paciente, o primeiro assume o direito de dizer, mantendo assim o status de autoridade. O médico assume a validação do enunciado, buscando autores que legitimam a visibilidade. Em outras palavras, o contrato de linguagem nos processos verbais tem uma instância locutiva. De acordo com Jaspers (1998, p.19), o “pressuposto  é  que  ambos,  médico  e  paciente,   são seres racionais que se opõem conjuntamente a um processo da natureza, conhecendo-o e tratando-o,   e   que   pela   sua   humanidade   se   unem   na   apetecibilidade   da   meta”.   Embora   a   racionalidade deva estar presente no ato médico para garantir objetividade no diagnóstico e no tratamento, ela não pode prescindir de sua humanização. A relevância de se abordar este problema de saúde pública deve-se aos recentes prognósticos mundiais sobre a doença. No Brasil, as estimativas válidas para o biênio 2010-11 apontaram que ocorrerão 49.240 novos casos de câncer de mama anualmente, com risco estimado de 49 casos para cada 100 mil mulheres (BRASIL, 2009), principalmente nas regiões Sul e Sudeste, onde já existe uma concentração maior de diagnósticos da doença. Números, sem dúvida, alarmantes. No entanto, embora seja uma doença antiga, bastante conhecida na atualidade e que campanhas de diversos tipos tentem esclarecer sobre a enfermidade, o câncer de mama feminino continua cercado de tabus e estigmas. Considerada uma doença terminal, pelo sofrimento que causa tanto ao doente quanto aos familiares, no imaginário social (sobretudo Este trabalho reflete a discussão da tese de doutorado defendida pelo Programa da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista em 2011 sob a orientação da Profa. Dra. Elisabeth Gonçalves. O conteúdo completo (relatos pessoais de mulheres com câncer de mama e profissionais da saúde) está disponível no site: www.metodista.br


no da mulher com câncer) o diagnóstico ainda é recebido como uma sentença de morte. E tudo isso faz com que se torne ainda mais complexa a relação das pacientes com os profissionais da saúde. Diante de tal constatação, surgem os seguintes questionamentos: Será que é possível utilizar todos os recursos tecnológicos existentes sem abrir mão do lado humano dos profissionais da saúde? E como isso poderá interferir no processo de cura? Nas abordagens para colher depoimentos de mulheres com câncer de mama, além de identificar a comunicação não verbal durante o processo de tratamento, verificou -se como se estabelecem as ações comunicacionais (nas relações intrapessoal e interpessoal). Também foram identificadas as barreiras da comunicação propostas por Parry (1972), que desencadeiam conflitos de natureza relacional. Quanto a direcionar um foco para as equipes multiprofissionais que atendem mulheres com diagnóstico de câncer de mama, nossa decisão se justifica porque a intensidade da convivência (constantes retornos para dar continuidade aos tratamentos) permite que se estabeleçam relações mais prolongadas entre pacientes e membros de tais equipes (por exemplo, médicos, enfermeiros, psicólogos, técnicos em radiologia e professores). Portanto, esses profissionais da saúde são interlocutores naturais na relação com o doente no processo de adesão ao tratamento. Ao se propor a desvelar as dificuldades encontradas pelas mulheres que recebem o diagnóstico de câncer – por meio da linguagem e levando em conta a visão multiprofissional, este trabalho procura estabelecer a necessária ponte entre os estudos da Comunicação e da Saúde, refletidas nas práticas discursivas de seus diferentes atores sociais. Com isso, espera -se colaborar para o avanço desse conhecimento, buscando entrelaçar esses campos do saber, com destaque aos aspectos linguageiros no campo da Saúde e da Comunicação. O percurso metodológico justifica-se na escolha da Teoria da Representação Social (TRS) proposta por Serge Moscovici (2010), utilizada como instrumento de análise dos relatos de pacientes e profissionais da saúde. Para auxiliar a metodologia, recorremos a Fernando e Ana Maria Cavalcanti Lefévre (2006), em sua visão sobre o Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), imprescindível à construção do corpus para as análises. Descrever o cenário comunicacional na atualidade (com foco na relação: profissionais da saúde versus pacientes), busca na Psicologia da Comunicação, destacada por Parry (1972), o conceito das Sete Barreiras da Comunicação Humana. Também é utilizado o suporte teórico Este trabalho reflete a discussão da tese de doutorado defendida pelo Programa da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista em 2011 sob a orientação da Profa. Dra. Elisabeth Gonçalves. O conteúdo completo (relatos pessoais de mulheres com câncer de mama e profissionais da saúde) está disponível no site: www.metodista.br


de outros autores, como: Berlo (1999) e Watzlawick (2007), o qual formula quatro axiomas da comunicação, que são discutidos e exemplificados no sentido de enfatizar as práticas discursivas na relação entre pacientes e profissionais da saúde. Recorrendo à Teoria das Representações Sociais, desenvolvida por Moscovici (2010), que trabalha com a representação da realidade por meio de fenômenos sociais. A escolha da TRS deve-se à abertura analítica que Moscovici oferece ao se valer de diferentes áreas do conhecimento (Sociologia, Antropologia, História, Psicologia e Linguagem). Portanto, ideologias, saberes populares e senso comum foram os caminhos percorridos. Para o autor, esse processo é essencial para a compreensão das relações entre pessoas e grupos, por meio das relações interpessoais e subjetivas. Diante desse quadro, trabalhar com o método da Teoria das Representações Sociais se torna importante, porque, além de evidenciar fenômenos individuais e sociais, proporciona maior compreensão da linguagem no contexto da comunicação em saúde, no qual se destaca o envolvimento subjetivo. Portanto, justifica-se o emprego de uma metodologia que esteja aliada às práticas discursivas. Se para  Moscovici  (2010,  p.71),  “a  objetivação  une  a  ideia  de  não  familiaridade  com  a   de realidade, [a objetivação]   é   a   verdadeira   essência   da   realidade”,   para   que se estabeleça, então,   uma   linha   tênue   entre   esses   atores   sociais   e   a   paciente   é   necessário,   “desde   que   suponhamos   que   as   palavras   não   falam   sobre   ‘nada’,   [...]   ligá-las a algo, [...] encontrar equivalentes  não  verbais  para  elas”  (Idem).   Cabe dizer que com a Técnica do Discurso do Sujeito Coletivo, foi possível trabalhar com onze ideias centrais que foram analisadas à luz da Teoria das Representações Sociais. Deve-se salientar que outro aporte teórico utilizado para análise foram as Barreiras da Comunicação (Parry, 1972). Embora com abordagem diferente, Parry contribuiu para o estudo pormenorizado das falas das pacientes e dos profissionais da saúde. É importante observar que, diante dos resultados encontrados e relatados ao longo do trabalho, as representações sociais e o entendimento advindo dos preconceitos de qualquer natureza podem ser usados para um enfrentamento da realidade, tornando algo que é abstrato em concreto.

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Desse modo, as mulheres com câncer de mama podem lidar e enfrentar essa realidade. Nos atos de fala, segundo o filósofo inglês John Austin, a linguagem é uma forma de ação por meio da qual participamos, em diferentes níveis, da vida social (1962, apud Citelli, 2008). Os próprios autores enfatizam que as expressões-chave correspondem às ideias centrais; o pensamento de um grupo ou coletividade aparece como se fosse um discurso individual. E para conduzir tais ideias, o instrumento utilizado foi um roteiro para as entrevistas – porém tendo em mente que, conforme argumenta Meihy e Holanda (2007, p. 118), “o efeito   da   presença   das   entrevistas   tem   de   ser   transformador   de   resultados,   caso   contrário não justifica usá-la”.   Ao   trabalhar   duas   décadas   com   aspectos   da   comunicaçãoeducação em saúde, pude observar os problemas existentes com o profissional da saúde e sua formação no que se refere às relações comunicacionais com os pacientes. Por essa razão, neste trabalho busco compreender as práticas discursivas no contexto da comunicação e da saúde, as quais fazem parte de minha prática cotidiana. Ao iniciar a pesquisa, um dos pontos que mais me chamou atenção foi o documento do Ministério da Educação: Parâmetros Curriculares da Educação. Este documento, que traça diretrizes para o ensino médico, tem sua integração fragmentada – dificultando, assim, as constantes mudanças nos diferentes aspectos sociopolíticos do cenário contemporâneo. O modelo biomédico de medicina emergiu em meados do século XIX, como o modelo predominante utilizado por médicos no diagnóstico de doenças. Este modelo, ensinado nas escolas de medicina, por estar focado na doença e não no indivíduo, pouco contribui para os aspectos psicológicos dos pacientes – que esperam do médico e dos profissionais de saúde em geral bem mais do que uma relação puramente técnica. Essa formação deficitária, na perspectiva comunicacional, irá refletir direta e negativamente na prática do profissional de saúde, no ato médico. E se somam a essa situação as pressões e as tensões enfrentadas pelo médico ao assumir a profissão, bem como as expectativas da sociedade em relação ao seu poder de cura, real ou imaginário. De modo que os problemas relacionados à prática médica, no que se refere aos aspectos humanitários e à responsabilidade social, ficam comprometidos, prejudicando a relação com os pacientes. E isso ocorre apesar das inovações tecnológicas, que colaboram para a resolução das questões técnicas (referentes aos diagnósticos laboratoriais). Numa perspectiva sociológica, é possível

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dizer que  o   homem   enquanto   ser   humano   perdeu  a  dignidade   do  “seu   possível ser-racional”   (Jaspers, 1998, p.24). Portanto, além de se tornarem uma questão de saúde pública, os problemas gerados pelos fatores relacionais – assim como a precariedade de políticas públicas para o setor, os atos médicos e os avanços científicos na área – chegam ao conhecimento de grande parte da sociedade por meio da mídia, suscitando novos questionamentos, como: Por que o atendimento é ruim? Por que faltam vagas nos hospitais? Por que há tanta gente nas filas, aguardando atendimento? Por que os remédios e os tratamentos disponíveis não possibilitam as curas anunciadas? Por que a relação entre os profissionais de saúde e pacientes deixa tanto a desejar? Portanto, investigar alguns aspectos dessa realidade na área da saúde. Com base nos depoimentos de pacientes com câncer de mama e de profissionais da saúde envolvidos em seu processo de tratamento, será analisado como se estabelecem os conflitos existenciais (discutidos a partir do autoconhecimento) e como surgem as indagações (muitas são recorrentes) de mulheres que sofrem dessa doença. Por exemplo: Por que eu? O que eu fiz para merecer isto? Câncer? Qual é o tipo do meu câncer? O meu câncer tem cura? Qual é o estágio do meu câncer? O que foi mesmo que o meu médico me disse? Será que eu vou morrer de câncer? Tenho que parar de trabalhar por causa do câncer? Meu cabelo vai cair? Vou ficar gorda? Meus ossos enfraquecerão? Vou perder meus dentes? Tenho que me tratar com psicólogo, nutricionista? Posso contar para o meu namorado? Minha filha também terá câncer? Com um diagnóstico de câncer de mama, quais são os meus direitos? O que faço com a minha cura? Ou seja: além de receber a confirmação da doença, a mulher diagnosticada com câncer de mama voltará para casa insegura, fragilizada e com inúmeros questionamentos – sendo que muitos ficarão sem respostas, pois algumas dessas mulheres não saberão onde, nem a quem perguntar. E os motivos são tão variados quanto as perguntas. Algumas pacientes se calam por timidez, medo da morte ou qualquer outro sentimento que as impeça de ir adiante e buscar ajuda. Há também as que preferem não perguntar, por temerem a resposta. Aqui, é importante salientar que familiares e amigos de uma paciente com câncer de mama também vivenciam esse drama, em maior ou menor grau. Na área hospitalar, por sua vez, as pacientes costumam ser encaminhadas para uma equipe multiprofissional (psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, assistentes sociais etc.), Este trabalho reflete a discussão da tese de doutorado defendida pelo Programa da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista em 2011 sob a orientação da Profa. Dra. Elisabeth Gonçalves. O conteúdo completo (relatos pessoais de mulheres com câncer de mama e profissionais da saúde) está disponível no site: www.metodista.br


que, diante da grande demanda, nem sempre estão disponíveis. Tanto a frequência dos encaminhamentos quanto a disponibilidade dos profissionais de apoio dependem da capacidade de atendimento de cada hospital. Embora reconheçam que pacientes com câncer de mama precisam de orientação e acompanhamento de outros profissionais da área da saúde, é comum que os hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS) não disponibilizem tais serviços de forma sistemática, o que faz com que muitas mulheres contem apenas com o apoio de voluntários. Sem dúvida, enfrentar uma doença como o câncer é algo que afetará drasticamente a vida de qualquer pessoa. E a mulher com câncer de mama, em especial, vivencia emoções profundas e conflitos emocionais intensos, que surgem desde o primeiro momento da consulta de rotina com seu médico e se estendem para os outros profissionais da saúde. Fora da área médico-hospitalar, a doença também começa a fazer parte da rotina da família da paciente, tornando-se, portanto, algo coletivo, de zelo e de responsabilidade para com o outro. Mas nem sempre foi assim. Por estar atrelada a estigmas, estereótipos e preconceitos arraigados no senso comum, durante muito tempo o indivíduo com câncer foi excluído do convívio social. Quanto mais escondido, quanto menos se falasse na doença, melhor. Não que hoje este quadro tenha mudado por completo, porém já se consegue falar mais abertamente sobre o assunto. Por isso, é necessário desmistificar cada vez mais o tema. E esta incumbência não cabe apenas ao paciente e a sua família, mas à sociedade em geral, com seus múltiplos atores e agentes. Este trabalho reflete uma inquietação que vem se transformando em objeto de estudo da comunicação e saúde e áreas interdisciplinares, como a educação e a sociologia, tanto do ponto de vista prático quanto teórico. Ao direcionar um olhar mais atento às práticas discursivas (analisadas a partir de relatos de pacientes com câncer de mama e de alguns profissionais de saúde), procuramos analisar os problemas comunicacionais existentes na relação profissionais da saúde versus pacientes. Nesse sentido, também avançamos na direção de um diálogo com a comunicação em saúde, para ressaltar a importância da educação como uma área que possibilita que se forme uma tríade importante no cenário atual: educação, comunicação e saúde.

Este trabalho reflete a discussão da tese de doutorado defendida pelo Programa da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista em 2011 sob a orientação da Profa. Dra. Elisabeth Gonçalves. O conteúdo completo (relatos pessoais de mulheres com câncer de mama e profissionais da saúde) está disponível no site: www.metodista.br


No que diz respeito à comunicação interpessoal (“eu” versus “o  outro”),   que  envolve   pacientes, familiares e profissionais da saúde, constatamos nos relatos pessoais que a comunicação influencia de maneira decisiva na compreensão e aderência ao tratamento de câncer de mama. Ou seja: Se a paciente não consegue entender o que o médico fala, isso poderá desestimulá-la a aderir ao tratamento. Os PS, por sua vez, admitem que a comunicação multiprofissional deve atentar para valores e crenças pessoais dos pacientes, bem como levar em conta o contexto sociocultural de cada um. E que é preciso ter, no setor público de saúde, condições adequadas para um atendimento de qualidade. Também concordaram que, apesar de não existir uma fórmula ideal ou padrão, algumas características devem ser observadas no comportamento do médico na hora de transmitir o diagnóstico de câncer às mulheres: além de o médico utilizar uma linguagem simples e clara, deve tentar perceber como a informação será recebida pelas pacientes, demonstrando apoio com gestos amistosos, como um abraço, uma forma menos impessoal de olhar etc. E manter sempre um canal aberto para o diálogo. Reconhecem ainda que, para algumas pacientes, a compreensão do diagnóstico e tudo o que a doença demandará em termos de tratamento e cuidados especiais não ocorre logo na primeira consulta. Portanto, é importante que o profissional da saúde entenda o tempo de cada paciente. Enfim, utilizando as palavras de uma das entrevistadas: P-6 (Suei): O médico tem que estar atento [ao] que o paciente sabe, o que ele já sabe e o que ele quer saber. E o que ele suporta saber. Por isso, que eu falo que é uma “verdade  progressiva  e  suportável”.    

Nesse sentido, os profissionais da saúde propõem ações educativas a partir da experiência pessoal que as pacientes adquirem enquanto estão em tratamento, levando em conta as angústias provocadas pela doença – algo que pode ser facilmente constatado na construção discursiva das mulheres que passaram por tratamentos longos e dolorosos, como a quimioterapia, cujos efeitos colaterais são devastadores e traumáticos. No que concerne ao universo simbólico e cultural da mulher com câncer de mama, questões como fé e valores pessoais vão influenciar a ideia de que a doença é um castigo divino ou da vontade de Deus. Outra forma recorrente de encarar (e até mesmo evitar) a doença é cuidar da parte emocional (buscando equilibrar melhor as emoções). Portanto, mais que religiosidade, a fé para algumas mulheres diagnosticadas com câncer está associada à Este trabalho reflete a discussão da tese de doutorado defendida pelo Programa da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista em 2011 sob a orientação da Profa. Dra. Elisabeth Gonçalves. O conteúdo completo (relatos pessoais de mulheres com câncer de mama e profissionais da saúde) está disponível no site: www.metodista.br


esperança de se curar da doença. Muitas pacientes, amparadas por essa fé, conseguem força e equilíbrio para enfrentar os desafios e as adversidades da enfermidade. A vantagem desta aproximação ao universo simbólico, social e historicamente construído, é a possibilidade de destacar a importância da interação humana e do contexto social na construção permanente recriação dos denominados processos psicossociais, tais como percepções , atitudes, idéias, representações crenças e valores. Quanto aos medos e mitos que envolvem o câncer de mama, os profissionais da saúde consideram que as dificuldades que as pacientes têm para entender tanto a patologia quanto o tratamento se devem, em parte, às informações desencontradas e equivocadas que surgem no imaginário coletivo por conta do estigma que a doença ainda carrega. Assim, é preciso desmistificar o câncer, com rastreamento e ações educativas. E citam exemplos de países europeus, onde o rastreamento é de 100%, enquanto no Brasil esta porcentagem está bem longe de ser alcançada. Embora seja inegável a importância de informar e mobilizar as mulheres para os mutirões de mama e para o autoexame, vale resgatar aqui a hipótese apresentada inicialmente neste trabalho: as informações e campanhas sobre o câncer de mama devem ser aprimoradas, para que as mulheres compreendam melhor o funcionamento do próprio corpo. Nas campanhas atuais, é priorizado o atendimento de mulheres que estão nos chamados grupos de risco, com idade acima de 40 anos. Na verdade, trata-se, como mencionado nos relatos dos profissionais da saúde, de uma ação meramente estatística. Essas ações educativas podem ser iniciadas a partir do profissional de saúde. E aqui vale destacar mais uma vez a importância da comunicação, que deve fazer parte dos estudos em medicina durante todo o período de formação dos profissionais da saúde. Embora seja uma recomendação dos Parâmetros Curriculares do MEC, isso não foi constatado nos relatos pessoais dos profissionais de saúde. Para muitos, a comunicação está associada à mídia. Já do lado das pacientes, inseguras e fragilizadas pela possibilidade de terem uma doença que, mais que o temor da morte, desperta muita angústia e sofrimento por mexer com símbolos importantes de feminilidade, algumas chegaram a admitir que somente conseguem informações sobre a doença nos meios de comunicação (ainda que superficiais) ou por conta própria, pesquisando na internet – o que muitas vezes pode gerar interpretação errônea e fazer com que elas fiquem ansiosas até o dia da consulta. Contudo, embora exista muita informação Este trabalho reflete a discussão da tese de doutorado defendida pelo Programa da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista em 2011 sob a orientação da Profa. Dra. Elisabeth Gonçalves. O conteúdo completo (relatos pessoais de mulheres com câncer de mama e profissionais da saúde) está disponível no site: www.metodista.br


questionável, a internet oferece uma infinidade de sites com relatos de mulheres que compartilham suas experiências. Institutos e hospitais também disponibilizam informações de todo tipo, desde as mais básicas sobre a doença, até artigos científicos publicados na íntegra. E ainda é possível acessar algumas revistas eletrônicas de caráter científico. A recomendação feita pelos profissionais da saúde foi no sentido de acessarem apenas sites que tenham credibilidade, como, por exemplo, do Inca – um dos mais atualizados sobre o câncer em geral e oferece informações específicas sobre o câncer de mama. Na opinião dos PS, quanto mais bem informado estiver o paciente, maior facilidade ele vai ter para aprender como prevenir ou, se for o caso, entender que deve aderir ao tratamento e tomar os cuidados necessários. No que diz respeito às estratégias de políticas públicas de saúde direcionadas ao tratamento do câncer de mama, pacientes e profissionais da saúde concordam que as informações deveriam ser mais específicas sobre as questões que envolvem a doença. De modo geral, campanhas publicitárias (governamentais ou de instituições privadas), entrevistas exibidas na televisão, matérias jornalísticas, novelas, filmes etc., falam da importância do exame de mamografia, porém não enfatizam os aspectos da prevenção, nem dão o devido destaque às informações sobre os tipos de tratamentos disponíveis. Ainda no âmbito das estratégias de políticas públicas de saúde, vale ressaltar que, diferente do que acontece em hospitais que atendem convênios particulares, nos da rede pública não há material de apoio (cartilhas, folders etc.) para auxiliar os profissionais da saúde a transmitir informações essenciais sobre o câncer de mama. De modo que os únicos recursos que continuam sendo utilizados pelas estratégias de políticas públicas de saúde são: personalidades midiáticas incentivando o autoexame e as campanhas convocando as mulheres para o mutirão de mamografia. Sobre campanhas que utilizam pessoas famosas (por exemplo, as do IBCC, com artistas vestindo as camisetas da campanha “O câncer   de   mama   no   alvo   da   moda”),   os   profissionais da saúde consideram que elas, apesar de colaborarem no sentido de mobilizar as mulheres a realizar os exames preventivos, apresentam um conteúdo insuficiente, pois não abordam outras questões importantes, como as funções da mama, as formas de prevenção etc. Aqui vale destacar que, para poder realizar o exame de mama em um mutirão, as mulheres precisam apresentar uma indicação médica. De modo que os PS consideram essas campanhas

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úteis na medida em que as instituições públicas (hospitais) tenham condições de atender a demanda – o que, em geral, não acontece. Retomando o tema das estatísticas oficiais, constatamos que no Brasil não existe um rastreamento efetivo de casos em todos os estados. Portanto, na opinião dos profissionais da saúde, em vez de convocação para mutirões, deviam se feitos alertas para as mulheres se prevenirem melhor contra o câncer de mama. Se o sistema de saúde não tem vagas suficientes para atender todas as pacientes cujos diagnósticos foram positivos, como essas mulheres poderão dar continuidade ao tratamento? Este, sem dúvida, é um desafio importante para a comunicação nas estratégias de políticas públicas de saúde. Informações jornalísticas sobre equipamentos quebrados e sem previsão para conserto, falta de vagas nos hospitais públicos, enormes filas de espera para atendimentos emergenciais, escassez de medicamentos, tudo isso gera nas pacientes uma sensação de que não adianta nada detectar um câncer logo no início, quando as possibilidades de cura são maiores, pois ela não vai poder mesmo receber o tratamento em tempo hábil. Melhor, então, nem saber que está doente. A baixa autoestima também foi outra questão detectada na análise dos relatos. Não bastassem as complicações provocadas pela doença (mastectomia, perda dos cabelos, efeitos colaterais da quimioterapia etc.), às vezes a paciente ainda tem que enfrentar situações de incompreensão, desprezo e/ou abandono; muitos homens deixam suas companheiras tão logo descobrem que elas têm câncer de mama. Nos relatos das pacientes que passaram por esse tipo de situação, percebe-se que a falta de sensibilidade e senso humanitário de alguns homens em relação às suas companheiras está relacionada às questões da feminilidade presentes no imáginário coletivo: mulher sem seios e sem cabelo deixa de ser sexualmente atraente. Nesse sentido, é recomendável a criação de campanhas informativas no sentido de conscientizar os homens sobre a importância de apoiarem suas companheiras durante o tratamento – isso também ajudaria a eliminar alguns tabus que envolvem o câncer de mama. Esse tema nos remete a outra situação de conflito: a atenção que os profissionais da saúde precisam dispensar ao cuidador, isto é, ao companheiro ou familiar que participa da rotina do tratamento de câncer de mama, pois ele também sofre junto com o doente. Por isso, também é preciso transmitir a esses cuidadores informações sobre a doença de forma clara e objetiva, para não aumentar ainda mais a aflição deles. Este trabalho reflete a discussão da tese de doutorado defendida pelo Programa da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista em 2011 sob a orientação da Profa. Dra. Elisabeth Gonçalves. O conteúdo completo (relatos pessoais de mulheres com câncer de mama e profissionais da saúde) está disponível no site: www.metodista.br


Quanto às barreiras propostas por Parry (1972), as mais recorrentes foram: limitação da capacidade do receptor, distração (ruído), presunção não enunciada, incompatibilidade dos planos e intrusão de mecanismos inconscientes ou parcialmente conscientes. E elas podem acontecer em diferentes situações, como, por exemplo, quando o médico informa o diagnóstico. Algumas barreiras também se sobrepõem às outras, repercutindo, assim, nas práticas discursivas entre os profissionais da saúde e pacientes. A barreira incompatibilidade de plano ocorre na dificuldade de compreensão de questões sobre o tratamento e está relacionada a diferentes aspectos, que podem ser regionais, diferença de faixa etária e situação socioeconômica. Portanto, essas características se tornam fundamentais para o acesso à informação e sobre os cuidados com a saúde. Essa barreira ainda pode ocorrer conforme a reação do paciente ao receber o diagnóstico. Ou seja: uma mudança brusca de comportamento pode se tornar uma barreira. A barreira presunsão não enunciada está fortemente identificada entre os profissionais da saúde, quando alegam não ter problemas de comunicação com as pacientes e que fazem de tudo para explicar o diagnóstico. Todavia, a paciente afirma que tem, sim, dificuldades para entender o que o médico está falando.  Como  foi  revelado  pela  paciente  Célia:  “[...]  eu  gostaria   de  entender  tudo  o  que  ele  está  dizendo”.   Os médicos também atribuem essa falta de compreensão sobre a doença e o tratamento às informações desencontradas que surgem em decorrência do estigma que a doença carrega. Outro problema de comunicação que pôde ser evidenciado nos relatos é se a paciente vai aceitar o diagnóstico. Aqui, o PS deve estar atento à participação da paciente, levando em conta suas crenças, bem como desejos e informações que ela já tem sobre a doença. Nesse sentido, o entendimento da barreira da presunção não enunciada pode ser um recurso de comunicação útil para o profissional da saúde. Outra barreira é a intrusão de mecanismos inconscientes ou parcialmente conscientes, que ocorre no momento em que o médico vai comunicar à paciente que ela está com câncer de mama. Essa barreira funciona como mecanismo inconsciente de bloqueio, quando a paciente se recusa aceitar o diagnóstico. Como o fator tempo é preponderante nos casos de câncer, essa barreira deve ser observada com muita atenção pelos profissionais de saúde.

Este trabalho reflete a discussão da tese de doutorado defendida pelo Programa da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista em 2011 sob a orientação da Profa. Dra. Elisabeth Gonçalves. O conteúdo completo (relatos pessoais de mulheres com câncer de mama e profissionais da saúde) está disponível no site: www.metodista.br


Ao evidenciar as barreiras da comunicação no ambiente multiprofissional e também durante a mediação, foi possível constatar que essas teorias comunicacionais podem auxiliar os profissionais de saúde a amenizar os conflitos que surgem na rotina médica. Ampliando ainda mais a questão, é possível dizer que os problemas comunicacionais podem ser trabalhados por meio de uma mediação nos espaços de convivência dos hospitais, como parte das estratégias de políticas públicas de saúde. Esse acesso à informação provocaria mudanças de paradigmas, fazendo com que a sociedade, tendo maior conhecimento sobre como prevenir doenças, possa cuidar melhor da saúde. Longe de pretender esgotar o tema, é possível dizer que este trabalho, ao abordar a questão do câncer de mama feminino, contribui para avançarmos na direção de um diálogo entre as áreas da comunicação, saúde e educação. Embora não tenhamos percorrido todos vieses possíveis, pelo menos indicamos um caminho para futuros pesquisadores.

Este trabalho reflete a discussão da tese de doutorado defendida pelo Programa da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista em 2011 sob a orientação da Profa. Dra. Elisabeth Gonçalves. O conteúdo completo (relatos pessoais de mulheres com câncer de mama e profissionais da saúde) está disponível no site: www.metodista.br


REFERÊNCIAS Alves, R. (2003a) O médico. 4. ed. Campinas: Papirus. Berlo, D. K. (1999) O processo da comunicação: introdução à teoria e à prática. 9. ed. Tradução de Jorge Arnaldo Fontes. São Paulo: Martins Fontes. Citelli, A. (2004). Comunicação e educação: a linguagem em movimento. 3. ed. São Paulo: Senac. DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS do Curso de Graduação em Medicina. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/Med.pdf>. Acesso em: 10 maio 2011. Epstein, I. Org. (1993). Gramática do Poder. São Paulo, Ática, 2005. INSTITUTO NACIONAL DO CÂNCER (Inca). Estimativa 2010: incidência de câncer no Brasil, 2010. Disponível em: <http://www.inca.gov.br/estimativa/2010/index.asp?link=conteudo_view.asp&ID=1>. Acesso em: 9 maio 2011. Jaspers, K. (1998). O médico na era técnica. 70. ed. Lisboa: Nova Biblioteca. Lefévre, A. M. C.; Crestanam, M. F.; Corneta, V. K. (jul.-dez. 2003). A utilização da metodologia do discurso coletivo na avaliação qualitativa dos cursos de especialização “Capacitação e  Desenvolvimento  de  Recursos  Humanos em Saúde-Cadehu”.  Revista Saúde Pública, São Paulo, v. 12, n. 2, p.70. Maingueneau, D. (1997). Novas tendências em análise do discurso. 3.ed. Tradução Indursky, Campinas: Pontes. Meihy J.C.S. e Holanda, F. (2007). História Oral: como fazer como pensar. São Paulo: Contexto. Moscovici, S. (2010). Representações sociais: investigações em psicologia social. 7. ed. Tradução de Pedrinho Guareschi. Petrópolis: Vozes. Parry, J. (1972). Psicologia da comunicação. São Paulo: Cultrix. Perrenoud, P. (2002). A prática reflexiva no oficio de professor profissionalização e razão pedagógica. Tradução de Cláudia Schilling. Porto Alegre: Artmed.

Este trabalho reflete a discussão da tese de doutorado defendida pelo Programa da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista em 2011 sob a orientação da Profa. Dra. Elisabeth Gonçalves. O conteúdo completo (relatos pessoais de mulheres com câncer de mama e profissionais da saúde) está disponível no site: www.metodista.br


Watzlawick, P. 2007. Pragmática da comunicação humana: um estudo dos padrões, patologias e paradoxos da interação. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix,

Este trabalho reflete a discussão da tese de doutorado defendida pelo Programa da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista em 2011 sob a orientação da Profa. Dra. Elisabeth Gonçalves. O conteúdo completo (relatos pessoais de mulheres com câncer de mama e profissionais da saúde) está disponível no site: www.metodista.br


XI Congreso Latinoamericano de Investigadores de la Comunicación Mayo 2012 – Montevideo - Uruguay Ponencia Título: "COMUNICACION, PARTICIPACION Y CULTURA EN LA PROMOCION DE LA SALUD.

El campo de la comunicación en contextos institucionales desde la

perspectiva teórica constructivista. (Estudio de caso en la ciudad de Córdoba, Argentina). Autor: Dionisio Francisco Egidos Magister en Comunicación y Cultura Contemporánea del Centro de Estudios Avanzados de la Universidad Nacional de Córdoba (U.N.C.) - Lic. en Comunicación Social de la Escuela de Ciencias de la Información (E.C.I.) de la Facultad de Derecho y Ciencias Sociales (F.D. y C. S.) de la U.N.C. –– Ex Becario de la Secretaría de Ciencia y Técnica de la U.N.C. – Docente de grado y de posgrado de la E.C.I. de la U.N.C. – Coordinador del Área de Comunicación Institucional y Comunitaria de la Dirección de Atención Primaria de la Salud de la Secretaría de Salud de la Municipalidad de Córdoba, Argentina. Institución: Escuela de Ciencias de la Información – Facultad de Derecho y Ciencias Sociales - Universidad Nacional de Córdoba. Argentina. degidos@arnet.com.ar degidos@hotmail.com

GT 5:  “Comunicación  y  Salud”

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RESUMEN: Hemos focalizado este trabajo de investigación en el campo de la promoción de la salud,

ya

que

tal

área

temática

–por

su

propia

naturaleza

informativa/formativa/comunicativa- es un campo investigativo rico en sus posibilidades de indagación desde el punto de vista de la articulación entre lo social, lo cultural y lo comunicacional, y –paradójicamente- poco explorado   desde   este   entrecruzamiento   “tridimensional”. Al plantear la problemática nos preguntamos si el cambio en las prácticas comunicativas y de participación en las interacciones equipo de salud/población, equipo de salud/promotoras y promotoras/población facilita o no la aparición de prácticas transformadoras en cuanto a la promoción de la salud. Nuestro objetivo general fue dar cuenta de tales prácticas –a partir de sus condiciones históricas de producción- desarrolladas entre 1998 y 2005 por mujeres promotoras de salud desde un centro de salud municipal de un barrio de sectores sociales vulnerables de la ciudad de Córdoba, Argentina. Pretendimos caracterizar el sistema de posiciones y de relaciones entre las posiciones de los agentes sociales intervinientes en el campo social objeto de estudio. Fue nuestra intención conocer las prácticas de comunicación y de participación de las promotoras, así como las transformaciones que sufren dichas prácticas en la trayectoria de dichos agentes sociales en el campo social. La perspectiva sociológica del Constructivismo Estructuralista de Pièrre Bourdieu dio el marco teórico general a nuestro trabajo. Tal perspectiva fue complementada con algunos conceptos de la Teoría de la Estructuración de Anthony Giddens, así como el planteo sociológico cultural de Raymond Williams. Nuestra conceptualización específica provino de los estudios culturales de la comunicación, la participación y la salud. Enmarcamos metodológicamente nuestro trabajo en el paradigma interpretativo y la perspectiva de investigación cualitativa. Desde esta perspectiva, trabajamos con el método del estudio de casos. A partir de él logramos un entendimiento comprensivo del grupo objeto   de   estudio   con   la   pretensión   de   ver   “lo   general”   en   “lo   particular”   y   realizar     así   algún aporte a la teoría.

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Consideramos necesario investigar experiencias de promoción de la salud –como la que se presenta aquí- y realizar estudios sectoriales que permitan generar propuestas de acción y/o intervención, así como planificaciones que tiendan a la gestión de un sistema de salud colectiva basado en la participación comunitaria y en la equidad.

PONENCIA "COMUNICACION, PARTICIPACION Y CULTURA EN LA PROMOCION DE LA SALUD. El campo de la comunicación en contextos institucionales desde la perspectiva teórica constructivista. (Estudio de caso en la ciudad de Córdoba, Argentina). 1

A modo de introducción: En el caso de la institución salud, sus organizaciones concretas y los ciudadanos que utilizan sus servicios -especialmente si nos referimos a atención primaria de la salud (APS)tanto la comunicación como la participación deben ser consideradas dimensiones axiales en función del logro de sus objetivos. Habremos de presentar aquí algunos de los resultados de una investigación dentro del ámbito de la salud pública, focalizada en el campo de la promoción de la salud en APS. La elección temática radica en que dicho campo –por su propia naturaleza informativa/formativa/comunicativa- es un área de estudio rica en sus posibilidades de indagación desde el punto de vista de la articulación entre lo social, lo cultural y lo comunicacional, y –paradójicamente- poco explorada desde la articulación de estas tres dimensiones.

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Basada en el trabajo de tesis de Egidos, D. (2011) “Las Prácticas  Sociales  de  Comunicación  y  de  Participación  en  el  

Campo de   la   Promoción   de   la   Salud”   (Estudio   de   caso   en   el   ámbito   de   la   salud   pública   municipal en la Ciudad de Córdoba). Tesis de Maestría no publicada. Maestría en Comunicación y Cultura Contemporánea. CEA. UNC. Córdoba, Argentina.

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Daremos cuenta de las prácticas sociales de comunicación y de participación –a partir de sus condiciones históricas de producción- desarrolladas entre 1998 y 2005 por mujeres promotoras de salud desde un centro de salud municipal de un barrio urbano marginal de la ciudad de Córdoba, con el fin de realizar un aporte al conocimiento del mencionado campo. Los propósitos generales del trabajo son: caracterizar el campo social construido como objeto de estudio; dar cuenta de las prácticas sociales de comunicación y participación desarrolladas en las trayectorias de los agentes intervinientes y, considerar el atravesamiento de la dimensión institucional en la problemática. El trabajo de investigación se fundamenta en la necesidad de analizar experiencias comunicacionales y realizar estudios sectoriales, que permitan generar propuestas de acción y/o intervención y que redunden en un aporte a la eficiencia del sistema de salud y el bienestar de la población. La realidad argentina demuestra que la educación y la salud han sido sin duda los ámbitos más  castigados  por  el  modelo  económico  neoliberal  instaurado  a  fines  de  los  ‘80  y   consolidado  en  su  versión  más  ortodoxa  durante  la  década  de  los  ‘90.  Un  Estado  ausente en relación a esos aspectos gravitacionales para el desarrollo del país produjo su severa crisis, la que aún hoy –a pesar del proclamado mejoramiento de la situación macroeconómica- no se ha podido superar. En esta situación, en que el sector público en general y el subsector salud en particular, atraviesan por una etapa de crisis, cambios y redefiniciones, son escasos los estudios realizados sobre la problemática que contemplan la dimensión comunicacional, su marco cultural y las condiciones históricas de producción. Asimismo, pudimos reconocer que todavía son escasas en el ámbito de la salud, las experiencias que le dan la importancia que tiene el aspecto comunicacional, sobre todo si se trata de proyectos de promoción de salud comunitarios.

¿Qué problemática y desde qué lineamientos teórico-conceptuales? Nuestra práctica profesional, nos ha permitido observar la relación entre la modificación de las condiciones de producción y el cambio en las prácticas de 4


comunicación y viceversa, en la dinámica dialéctica de los agentes en el campo social. El trabajo con sectores sociales vulnerables nos facilitó además, observar cómo muchas prácticas sociales relacionadas con la salud resultan obsoletas, inútiles, cuando no iatrogénicas. Asimismo, la población –por desconocimiento de otro tipo de oferta o como consecuencia de la supremacía del discurso hegemónico en salud (biologicista asistencialista-basado en la enfermedad) ha naturalizado e incluso continúa demandando la existencia de tales prácticas, cuyos resultados están a la vista. Por otra parte, la distancia social y cultural entre los integrantes de los equipos de salud y los usuarios de los servicios, en general es muy grande y esto, naturalmente incide en las posibilidades de acceso a la salud por parte de los sectores de menores recursos. Coincidimos con Giddens (1995) cuando caracteriza al agente social como competente, activo, productor y reproductor de la estructura. No obstante, vale la pena recordar que estamos hablando de agentes sociales pertenecientes a sectores excluidos de la población, que presentan necesidades básicas insatisfechas. Ante tal panorama, resulta útil preguntarse hasta dónde las condiciones históricas de existencia de estos agentes sociales facilitan u obstaculizan el ejercicio de su competencia en términos de prácticas transformadoras. Hasta dónde y cómo su posición en el campo social les permite desarrollar acciones de producción o de reproducción social, cultural o comunicacional. Como resulta fácil imaginar, las condiciones de carencias múltiples que presentan estos sectores sociales comprometen seriamente su situación de salud. A la explicitada situación objetiva, se le suma la inaccesibilidad simbólica socio-cultural que dificulta el acceso a la participación en los diferentes programas de salud. A partir de la perspectiva de Bourdieu 2 (1988b), podemos considerar al campo de la salud, como un campo social donde diferentes actores -desde sus posiciones y disposiciones- llevan a cabo prácticas sociales (comunicacionales y de participación, en este caso relacionadas con la promoción de la salud) y entablan relaciones de fuerza a partir de las cuales pugnan cotidianamente por modificarlo y redefinirlo, negociando con el poder y las instituciones.

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Recordemos que Bourdieu -entre otras formas- define los   campos   sociales   como:   “espacios   de   juego   históricamente   constituidos con sus instituciones específicas y sus leyes de funcionamiento propias”  (1988b:108)

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Formulamos entonces nuestra cuestión problemática en términos de cómo se articulan las prácticas sociales de comunicación y de participación -en el campo de la promoción de la salud (como parte del sistema social y cultural significante) y en relación a la distribución del capital específico: el conocimiento para la promoción de la salud- en el caso de la promoción social de salud del área de cobertura de la Unidad Primaria de Atención de la Salud (UPAS) Nº 4 de Bº Cárcano

-dependiente de la Dirección de

Atención Primaria de la Salud (DAPS) de la Municipalidad de Córdoba- en el período delimitado (1998-2005). Asimismo, nos cuestionamos sobre qué relación se entabla entre las estructuras sociales incorporadas de los agentes sociales (disposiciones relacionadas con el campo de la promoción de la salud) que orientan esas prácticas y la estructura social externa (campo de la promoción de la salud). Al plantear en forma más precisa la problemática nos preguntamos si el cambio en las prácticas comunicativas y de participación en las interacciones equipo de salud/población, equipo de salud/promotoras y promotoras/población facilitó o no la aparición de prácticas transformadoras en cuanto a la promoción de la salud. Dado que este campo está compuesto por –además de los agentes sociales- las mencionadas instituciones de salud, consideramos imprescindible incorporar la dimensión institucional a la comprensión de dichas prácticas y relaciones. Resulta necesario aclarar aquí que el período tomado en el estudio: 1998-2005 no es azaroso. Se trata de la etapa en que desarrollamos –pobladores e integrantes y colaboradores del equipo de salud en forma conjunta- distintas acciones y proyectos de intervención comunitaria para la promoción de salud en el área estudiada. Acciones y proyectos que se caracterizaron por el intento de modificación de concepciones y de prácticas socio-culturales relacionadas con la comunicación y la participación para facilitar la promoción de la salud en ese sector poblacional. Ante la imposibilidad de desarrollar aquí en forma completa el marco teórico de la investigación, sólo mencionaremos sus lineamientos generales. La perspectiva sociológica del Constructivismo Estructuralista de Pièrre Bourdieu en su bibliografía (1988a, 1988b, 1990, 1991, 1995) complementada con aspectos de la Teoría de la Estructuración de Anthony Giddens (1995), así como del planteo sociológico cultural de Raymond Williams (1982) constituyeron el marco teórico general de nuestro trabajo. 6


Por otra parte, buscamos dar cuenta de nuestra conceptualización específica desde el paradigma interpretativo de los estudios culturales de la comunicación. Partimos de la perspectiva sociológica cultural en la que se encuentran textos de investigadores y autores como Héctor Schmucler (1997), Roberto von Sprecher (2005), Jesús Martín Barbero (1989, 1997, 1999, 2004), Stuart Hall (1980a), entre otros.

Asimismo, abordamos

conceptualmente la problemática de la participación y la salud desde el enfoque dialéctico de José Luis Coraggio (2003), Mario Róvere (2000) y Susana Belmartino (1999) entre varios autores e investigadores más.

De los  objetivos  y  la  estrategia  metodológica  para  lograrlos… Por las limitaciones de extensión de esta ponencia, daremos cuenta sólo de los objetivos generales de nuestro trabajo. En primer lugar, pretendimos identificar y caracterizar el sistema de posiciones y de relaciones entre las posiciones de los agentes sociales intervinientes en el campo social construido como objeto de estudio. Asimismo, fue nuestra intención conocer las prácticas sociales de comunicación y de participación de las promotoras en el campo social, así como las transformaciones que sufren tales prácticas a lo largo de la trayectoria de dichos agentes sociales en el campo. Por último, nos aproximamos al análisis del papel desempeñado por la dimensión institucional (UPASDAPS) en relación a la producción/reproducción de las prácticas comunicativas y de participación de las promotoras sociales de salud. En busca del logro de los mencionados objetivos, enmarcamos nuestro trabajo en el paradigma interpretativo y la perspectiva de investigación cualitativa. Desde esta perspectiva, trabajamos con el método del estudio de casos. A través de él, intentamos llegar a un entendimiento comprensivo del grupo objeto de estudio (el de las promotoras sociales   de   salud)   con   la   pretensión   de   ver   “lo   general”   en   “lo   particular”   y   realizar     así   algún aporte a la teoría. Dentro de los posibles tipos de estudio de casos, utilizamos el interpretativo, que contiene básicamente descripciones, pero donde las mismas son utilizadas para desarrollar categorías conceptuales. El estudio de casos usa procedimientos abiertos, flexibles y 7


adaptables. Por ello nuestra recolección de datos se realiza fundamentalmente a través de entrevistas no estructuradas, focalizadas en temáticas relacionadas con los problemas y propósitos de la investigación. Los agentes sociales involucrados como unidades de observación fueron: las promotoras sociales de salud, los integrantes del equipo de salud municipal de la UPAS y en particular del sub-equipo de proyectos comunitarios (trabajadora social, psicóloga comunitaria y médico). En relación a todos ellos se incluyó -como atravesamiento institucional- la UPAS como instancia material organizacional en el campo y la DAPS como nivel organizacional central. Por tanto, el estudio incluye específicamente las categorías micro y mesosociales aunque necesariamente contextualizadas en su marco macrosocial. La aproximación a la dimensión institucional se llevó a cabo a partir de la revisión documental y el análisis de contenido de documentos normativos, informes y programas de la DAPS y la UPAS. Por tratarse de un estudio retrospectivo de las prácticas sociales de comunicación y participación realizadas en el período 1998-2005, la observación de las prácticas concretas de comunicación interna y externa y la reconstrucción de su marco contextual y témporoespacial fue recuperada a partir de las entrevistas a los mencionados informantes claves; así como de los documentos a los que pudimos acceder.

¿Qué aportes a  partir  de  qué  “estado  de  la  cuestión”? A los fines de encontrar producciones de investigación sobre nuestro tema –o relacionado- buscamos en primer lugar en los trabajos de tesis de posgrado (maestrías o doctorados) de instituciones académicas locales, luego en centros nacionales y por último en ámbitos de producción científica latinoamericanos o españoles3. El recorte hecho sobre

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CEA (Centro de Estudios Avanzados) – UNC; IIFAP (instituto de Investigación y Formación en Administración Pública) – UNC; Escuela de Salud Pública de la Fac. de Ciencias Médicas – UNC; SeCyT (Secretaría de Ciencia y Tecnología) –UNC; CONICET; Plangesco (Maestría en Planificación y Gestión en Comunicación) UNLP; Fundación Walter Benjamin; Instituto Gino Germani; Fac. Ciencias Sociales – UBA; FLACSO y CLACSO – Felafacs; Univ. Autónoma de Barcelona; Univ. Complutense de Madrid.

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trabajos de estos lugares tuvo que ver con el supuesto de que el contexto sociocultural de producción investigativa está relacionado con la elección de temáticas y problemáticas, modalidades de abordajes y perspectivas teóricas utilizadas. Asimismo, recurrimos a bibliotecas especializadas, portales o sitios web relacionados con nuestra problemática en busca de materiales afines4. Si bien obtuvimos datos sobre algunos textos sobre el tema, ha sido en artículos, publicaciones, ensayos o ponencias en revistas virtuales o resúmenes de ponencias en eventos científicos donde hemos obtenido la información más actualizada y novedosa al respecto. La más profusa bibliografía encontrada sobre comunicación y salud puede ser caracterizada como de carácter normativo prescriptivo: numerosos manuales de presentación de métodos y técnicas para el desarrollo de programas de promoción de la salud producidos por organismos de regulación internacional en la materia como OPS u OMS, o bien por Ministerios o Secretarías afines de jurisdicción Nacional, Provincial o Municipal. Pudimos reconocer que fue en la última década que comenzaron a desarrollarse investigaciones en relación a la promoción de la salud centradas en el vínculo entre la comunicación, la participación y la cultura, desde una mirada constructivista, estructuracionista o socio-semiótico-cultural. Las producciones que dan cuenta de la preocupación por el vínculo entre esos tres tipos de prácticas sociales, lo hacen a partir de sistematizaciones o relevamientos de campañas o proyectos con una relativa profundización analítica. Cabe aclarar que (aunque los hay) son escasos los estudios que –como el que llevamos a cabo- buceen en el conocimiento de las prácticas sociales desde estrategias metodológicas cualitativas   tales   como   las   “trayectorias   de   vida   de   los   actores   sociales   en   relación  al  objeto  de  estudio”.

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A los mencionados centros académicos y/o sus correspondientes portales de internet o sitios web, agregamos las bibliotecas de la Fac. de Ccias. Médicas, de la Esc. de Ccias. de la Información y la Esc. de Trabajo Social de la UNC; 8º (Salta) y 9º (Tucumán) Congreso REDCOM Argentina; IV Foro de Investigación e Intervención social (Córdoba); Observatorio de Salud del Ministerio de Salud de la Pvcia. de Córdoba; Dirección de Atención Primaria de la Salud de la Municipalidad de Córdoba; Revistas especializadas en ciencias sociales, comunicación o salud: Zigurat (Fac. Cias. Sociales – UBA), Estudios (CEA – UNC), Documentos del CIFFYH, Re-presentaciones (Univ. Stgo. De Chile), Revista Española de Investigaciones Sociológicas (Centro de Investigaciones Sociológicas – Madrid), Revista de Gerenciamiento de Políticas de Salud (Bogotá), Razón y Palabra (México), Diálogos de la Comunicación (FELAFACS –Lima) y Chasqui (CIESPAL – Quito) (entre otros recursos).

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Desde el relevamiento realizado para este “estado   de   la   cuestión”   surgió la necesidad de revisar las prácticas y analizar en qué medida fueron experiencias transformadoras tanto desde la comunicación, como desde la participación y las formas de concebir la salud y su promoción. Esta investigación intentó realizar una aproximación al complejo entramado de prácticas socio-culturales de comunicación y de participación que intervinieron en una experiencia concreta de promoción del derecho a la salud de sectores populares en Córdoba, Argentina.

A modo de conclusiones y hallazgos desde los interrogantes 1. ¿Los cambios comunicacionales y de participación facilitaron la sustitución de concepciones biologicistas y asistencialistas por consideraciones bio-psico-sociales y de prevención-promoción de la salud, o al menos la incorporación de estas últimas a los esquemas de percepción y sistemas de disposiciones de los agentes sociales involucrados?

Conclusiones Durante el proceso de construcción/apropiación del conocimiento para la promoción de la salud por   parte   de   las   promotoras   se   produjo   en   ellas   un   efecto   de   “resignificación”   del   concepto de salud -comienzan a otorgarle importancia y a proceder preventivamente- y de su relación con la UPAS. Entre las promotoras se dio una tensión permanente entre disposiciones basadas en perspectivas asistencialistas y tradicionales (modelo médico hegemónico) respecto a la salud y otras contra-hegemónicas y participativas de promoción de la salud.

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Hallazgos Como correlato de las modificaciones mencionadas, se produjeron cambios en definiciones y modelos relacionados con otras instancias más generales pero también íntimamente ligadas a la salud en su concepción integral: los roles de hombre/mujer, esposo/esposa, madre/padre, trabajadora, ciudadana, etc. Las prácticas de participación en estas experiencias, les brindaron competencias para asumir actitudes activas en el ejercicio de sus derechos y en los diversos ámbitos de su vida cotidiana (desde el familiar hasta el institucional, barrial y extra barrial). La experiencia se valoraba y se sentía como un proceso facilitador de la superación de malestares psico-afectivos personales.

2. ¿Cómo se fueron entablando –según sus propias percepciones- las relaciones de fuerza entre los agentes sociales intervinientes en estos procesos de intercambios simbólicos relacionados con la promoción de la salud? ¿Qué resultados consideran se obtuvieron de esas “contiendas”  en  dicho  campo  social?

Conclusiones Entre las promotoras se dieron vínculos de dominación/dependencia que se produjeron por distintos motivos (antigüedad en la participación, vínculo personal con integrantes del equipo, nivel de estudios alcanzados, supuesta posesión de mayor conocimiento para la promoción de la salud por ser madres de varios hijos, posicionamiento frente al cobro del peculio, etc.). No obstante, hubo una tendencia al equilibrio de fuerzas y a la cooperación entre ellas -muchas veces facilitado por el subequipo de promoción de la salud- y fueron posibles el abordaje y la superación del conflicto, la continuidad en la producción grupal y la adquisición de diversos capitales por parte de las mujeres.

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El vínculo de las promotoras con los profesionales también sufrió transformaciones a raíz de la aparición del dinero: de una relación inicial de cooperación, las mujeres resignificaron el vínculo dándole el sentido de patrón/empleada, o puntero político/beneficiaria. El “empoderamiento”   por   parte   de   las   mujeres   participantes   se   logró   en   diversos   grados,   según las características personales de ellas y los distintos momentos de los proyectos. En la relación entre las promotoras y el resto de los vecinos, la evolución de las prácticas sociales -en el marco de los proyectos de promoción de la salud- hizo que pasaran de una situación  en  la  que  ambos  se  percibían  como  “dominados”  en  relación  al  equipo  de  salud  y   a la posesión del conocimiento para la promoción de la salud, a otra de dominación/dependencia a medida que las promotoras se apropiaban de ese conocimiento. Las relaciones de fuerza entre los miembros del equipo de salud, se constituyeron por momentos en verdaderos campos de luchas entre disciplinas biológicas y disciplinas sociales. De tales pugnas surgieron resignificaciones respecto a la salud y a la participación de la comunidad en las estrategias para la promoción de la salud.

Hallazgos Para las promotoras, la sensación de pertenencia a un grupo: el equipo de salud, o a una institución: la UPAS, pareció dotarlas de cualidades que las gratificaban -capital social y simbólico- la posibilidad  de  adquirir  visibilidad,  de  “ser  alguien”  en  el  barrio. Las   mujeres   participantes   que   pudieron   “empoderarse”   durante   el   desarrollo   de   las   experiencias registraron cambios disposicionales, comportamentales y el mencionado “efecto  terapéutico”  a  sus  malestares  psico-afectivos. Relacionadas a su participación en las experiencias de promoción de la salud, se generaron importantes luchas de poder vinculadas al género y la representación social de la mujer 12


entre las mujeres participantes y sus parejas u otros familiares varones. De estas contiendas, resultaron nuevos modos de vinculación y nuevas prácticas ejercidas desde posiciones que ya no son de subordinación al varón, sino de mayor simetría.

3. ¿De qué manera las simetrías/asimetrías entre organizaciones de salud, profesionales integrantes de las mismas, promotoras y población usuaria de los servicios de salud, se relacionan con la accesibilidad/inaccesibilidad cultural de esa población a la oferta institucional y a las prácticas de promoción de la salud?

Conclusiones Se presentaba una asimetría entre el nivel central DAPS y la UPAS caracterizada por: -

Un organismo de conducción basado en un modelo vertical y unidireccional de comunicación, que sostenía el statu quo y el mantenimiento de vínculos asimétricos sustentados en el modelo médico hegemónico.

-

La UPAS que desde sus proyectos comunitarios se ubicaba en el lugar del cambio, de lo instituyente, con una dinámica interna anclada en la interdisciplina y un accionar externo sustentado en redes sociales e institucionales, con prácticas comunicativas dialógicas, abierta a la participación permanente de la comunidad. La UPAS asumió el rol de transgresora del orden (de la DAPS) al desarrollar “estrategias de  herejía”  a  través de sus proyectos comunitarios de promoción de la salud.

Existieron diferencias al interior del equipo de la UPAS (entre los dos subequipos) que daban cuenta de disposiciones distintas que facilitaron u obstaculizaron el acceso de la población a la UPAS y a sus proyectos. Siempre existió entre promotoras y profesionales algún grado de asimetría, pero el desequilibrio fue minimizándose hasta facilitar el acceso de las promotoras no sólo a los

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servicios de la UPAS, sino también a la toma de decisiones sobre algunos aspectos de los mismos. El rol de las promotoras como facilitadoras de la relación entre la comunidad y la UPAS estuvo sostenido por la empatía producida por el vínculo mujer-mujer, joven-joven o vecina-vecina. El desempeño de las promotoras incrementó la confianza del resto de la población en la oferta de servicios de salud de la UPAS. La participación de la población en los proyectos comunitarios facilitó la accesibilidad cultural a la UPAS y a su oferta de salud al disiparse temores relacionados con las prácticas preventivas o asistenciales de salud.

Hallazgos La incorporación de la perspectiva de género y de derechos, significó impulsar la accesibilidad cultural de las mujeres a las instituciones de salud, verificándose no sólo un aumento en cantidad, sino en calidad de participación, empoderándolas en el ejercicio de sus derechos en general y de salud en particular. Los logros de la UPAS a nivel de promoción de la salud se obtienen en parte por las brechas que, por desinterés o desvalorización, dejaba   la   autodenominada   “casa   central”   DAPS. Cuando la oferta desde la institución de salud comienza a basarse en necesidades sentidas de la gente y en sus recursos para enfrentarlas, el acceso y la participación de la población están más asegurados.

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Nuevos interrogantes y líneas de indagación futura: A partir de las conclusiones de la investigación podríamos plantear otras posibilidades de proyección del trabajo. Una línea posible sería estudiar el impacto de este tipo de prácticas de promoción de la salud en la modificación del sistema de salud actual. Asimismo, sería interesante elucidar la relación entre políticas de Atención Primaria de la Salud y estrategias de comunicación comunitaria en el campo de la salud pública. Por otra parte, nuestro trabajo sienta algunas bases como para continuar analizando las tensiones entre posiciones hegemónicas y contrahegemónicas respecto a paradigmas de salud y su relación con las prácticas de comunicación organizacional en dependencias sanitarias del Estado. Desde el punto de vista de la ciudadanía usuaria de los servicios públicos de salud, otra línea de indagación futura –a partir de nuestro estudio- podría ser estudiar el sistema de salud actual y las posibilidades de transformación de posiciones y disposiciones de la población respecto al ejercicio del derecho a la salud. Finalmente y a raíz de algunas conclusiones del trabajo, consideramos que sería interesante profundizar en la relación entre género y estrategias de comunicación comunitaria para la promoción de la salud.

Consideraciones finales: Con esta investigación, consideramos haber realizado un aporte al estudio de las prácticas de promoción de la salud en el ámbito local desde un enfoque tridimensional poco explorado: la articulación entre lo social, lo cultural y lo comunicacional. Asimismo, creemos haber colaborado con el conocimiento/reconocimiento del rol profesional del comunicador social en salud, en contextos comunitarios y en abordajes interdisciplinarios. Por otra parte, intentamos trabajar con una perspectiva relativamente poco explorada  aún  en  el  “enfoque  comunicacional”  de  la  problemática  de  la  salud. Nuestra perspectiva no se circunscribe al estudio de los medios, se relaciona con el marco cultural y las condiciones sociales e históricas de producción. 15


Desde el punto de vista metodológico, pretendemos que este estudio sirva de estímulo a la valoración del uso de estrategias cualitativas para el estudio de las prácticas sociales relacionadas con la salud. Finalmente, esperamos haber hecho un aporte al escaso nivel de sistematización de experiencias comunitarias de promoción de la salud con abordaje interdisciplinario en Córdoba, Argentina.

Bibliografía: Belmartino, S. (1999) Nuevas reglas de juego para la atención médica en la Argentina. ¿Quién será el árbitro?. Buenos Aires: Lugar Editorial. Bourdieu, P. (1988a) La distinción. Madrid: Alfaguara. (1988b) “Espacio social   y   poder   simbólico”   en Cosas Dichas. Buenos Aires: Gedisa. (1990)   “Algunas   propiedades   de   los   campos”   en   Sociología y Cultura. México: Grijalbo. (1991) El sentido práctico. Madrid: Taurus. y Wacquant, L. (1995): Respuestas por una Antropología reflexiva. México: Grijalbo. Coraggio, J. L. (2003) De la emergencia a la estrategia. Buenos Aires: Espacios. Giddens, A. (1995) La constitución de la sociedad. Buenos Aires: Amorrortu. Hall, S. y otros. (1980a.) Culture, Media, Languaje. London: Hutchinson & Co. The centre for contemporary cultural studies. Martín Barbero, J. (1989) “Comunicación   y   cultura.   Unas   relaciones   complejas”.   Revista Telos, Nº 19. Madrid. (1997) De los medios a las mediaciones. Comunicación, cultura y hegemonía. Barcelona: Gustavo Gilli. y Silva, A. (Compiladores) (1999) Proyectar la comunicación. Bogotá: 3er. Mundo. (2004) Oficio de Cartógrafo. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica.

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Róvere, M. (2000) Redes: Hacia la construcción de redes en salud. Rosario: Secretaría de Salud Pública. Schmucler, H. (1997) Memorias de la Comunicación. Buenos Aires: Biblos. von Sprecher, R. (2005) “Concepto de  Comunicación  Social”. (Mimeo). Univ. Católica de Sta. Fe. Argentina. Williams, R. (1982) Cultura. Sociología de la comunicación y del arte. Barcelona: Paidós.

Mgter. Dionisio F. Egidos

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MOVIMENTOS SOCIAIS E NOVAS TECNOLOGIAS: O YOUTUBE E A LUTA ANTIMANICOMIAL Wanda Espírito Santo Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Informação e Comunicação em Saúde- ICICT/Fiocruz, Pesquisadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (LAPS)/ENSP/Fiocruz wanda.santo@ensp.fiocruz.br Inesita Soares de Araújo Doutora em Comunicação e Cultura Pesquisadora do Laboratório de Pesquisa em Comunicação e Saúde (LACES), ICICT/Fiocruz inesita@icict.fiocruz.br

Paulo Amarante Doutor em Saúde Pública Pesquisador do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (LAPS/ENSP/Fiocruz) pauloamarante@ensp.fiocruz.br

Resumo Este paper apresenta uma análise de um conjunto de postagens realizadas por atores sociais no site YouTube, por ocasião da data comemorativa do Dia Nacional de Luta Antimanicomial. O estudo permitiu obter informações importantes sobre os núcleos antimanicomiais, bem como compreender como as diretrizes nacionais do movimento são absorvidas pelos diferentes atores sociais. As postagens do YouTube foram analisadas em seu teor discursivo, a partir da teoria social do discurso, que considera o discurso uma prática. Os vídeos escolhidos contemplam todas as regiões do Brasil e retratam manifestações públicas ocorridas no dia 18 de maio, a partir do Encontro de Bauru, onde o alvo do movimento deixou de ser a adequação do hospital psiquiátrico a uma função terapêutica, em favor de uma sociedade sem manicômio que se constrói a referência de todas as manifestações públicas analisadas. Na região Sul, os slogans “Por uma  outra  visão   da   questão  manicomial” e “Não deveria   ser   proibido   ser   livre”   captam   de   forma   correta   a   questão,   assim   como, na região Centro-Oeste, o slogan “Sensibilização para uma sociedade livre de manicômios e sem preconceitos”  e  os  cartazes  da  região  Norte  que  pedem  integração  e  inclusão  sociais. A região Nordeste não consegue nos seus cartazes alcançar essa perspectiva, assim, limitando-se à nominação como “atendimento   humanizado”, sendo porém, é a única região que reivindica 1


capacitação profissional. Apesar das diferenças existentes, a produção cultural e artística dos atores sociais provoca o imaginário da sociedade procurando fazê-la refletir sobre o tema da loucura. Palavras-chave: comunicação e saúde; luta antimanicomial; YouTube; comunicação; análise de discursos.

Introdução A centralidade que a comunicação adquire na esfera pública não só modifica as relações entre os diversos campos sociais como influi profundamente na organização dos movimentos sociais e suas formas de reivindicação. O fenômeno é de relevância tal, que alguns autores   falam   de   uma   “ordem   biomidiática”   (Sodré,   2010) e de midiatização das instituições (Neto, 2010). Nesse contexto, a Internet, configurando-se como espaço multimídia, capaz de instaurar uma comunicação descentrada e produzida a partir de múltiplos lugares de fala, ganha importância para circulação de mensagens dos movimentos sociais. Tal temática tornase reflexão de autores como Langman (2005) e Poster (1997). Entre as várias possibilidades desenvolvidas pela Internet, destaca-se o YouTube, site que permite que seus usuários carreguem e compartilhem vídeos em formato digital. Fundado em fevereiro de 2005, hospeda grande variedade de materiais, e se tornou espaço de visibilização de enorme pluralidade de atores sociais, institucionais e políticos. Os movimentos que defendem as causas ligadas às identidades dos sujeitos são movimentos de seu tempo e a ele estão vinculados. Assim, seu funcionamento e a divulgação de suas causas estão extremamente relacionados com as novas tecnologias de comunicação. Tourraine (1994) e Castells (1999) são alguns dos autores que refletem sobre o tema. A luta Antimanicomial não foge a essa lógica, assim, ela foi capaz de se adaptar aos novos tempos. Em seu percurso, vem conseguindo que seu ponto de vista seja mais aceito e capaz de influir nas políticas públicas. No que tange a isto, destacam-se o Projeto de lei Paulo Delgado, que propõe a extinção gradual da institucionalização dos pacientes psiquiátricos e sua substituição por novas modalidades assistenciais e a instauração das portarias de 189/91 a 224/92, do Ministério da Saúde, que possibilitam que o Sistema Único de Saúde (SUS) financie outros procedimentos assistenciais diferentes do leito e da consulta ambulatorial. O movimento da Luta Antimanicomial usa novas possibilidades de comunicação, dentre elas, a Internet. Esse uso do espaço virtual para fortalecimento de identidades aponta para a necessidade e a importância de analisar as práticas discursivas utilizadas pelos atores 2


sociais da Luta Antimanicomial no ciberespaço. Este artigo, que integra um conjunto de reflexões de uma pesquisa de doutorado, relata uma análise sobre um conjunto de postagens realizadas por atores sociais no YouTube, por ocasião da comemoração do Dia Nacional de Luta Antimanicomial. Por meio deste material, foi possível observar diferenças e semelhanças entre as manifestações do Movimento de Luta Antimanicomial ocorridas em diferentes regiões do Brasil.

Cidadania e Comunicação A cidadania pode ser o ponto inicial desta discussão, pois, observada como experiência histórica, sofre reformulações.. A cidadania que emerge das lutas cotidianas é uma medida de convivência social, torna-se realidade na esfera pública e exprime a luta por novos direitos ou procura garantir os já existentes (Espírito Santo, 2009). Na esteira da cidadania, estão os novos movimentos sociais. Castells (1999, p.429) acredita que os movimentos que visam à “transformação do  padrão  global  de  relações  sociais   entre   pessoas”   causam   impacto   e   transformação   na   sociedade.. Tourraine (1995, p.256) crê que as orientações culturais de uma sociedade não estão acima dela e que a defesa dos sujeitos “está  repleta  de  movimento  social”. O interclassismo de sua composição e o alcance planetário e solidário de suas lutas (Goulart, 1993) são características que moldam os movimentos e ganham especial vigor por meio da Internet. Alguns autores refletem sobre a importância da Internet para as lutas políticas. Langman (2005) fala da possibilidade sem precedentes da troca de informações fora do controle das corporações dominantes da mídia. Poster (1997) sublinha as novas formas de interação que possibilitam novos tipos de relação de poder entre participantes. Novas formas de fazer política ganham vigor, assim, não só a cidadania ganha novos formatos, mas também são constituídas novas formas de construção de opinião pública (Barbero,2006). No universo das novas tecnologias de comunicação encontra-se o YouTube. O site, que pode ser caracterizado como de cultura participativa, foi considerado, no início do século XXI, o maior aglutinador de mídia de massa da Internet. Criado por Chad Hurley, Steve Chen e Jawed Karim, o site era um dos serviços que tentavam eliminar barreiras técnicas para o compartilhamento de vídeos na Internet (Burgess & Green, 2009). A Google adquiriu o YouTube em 2006, por 1,65 bilhão de dólares. O site desde então, tem ascensão contínua, atestada por vários serviços que medem o tráfego da Web e está entre os mais visitados do mundo (Burgess & Green, 2009).

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A fácil operacionalidade e rapidez com que as informações são divulgadas no YouTube o tornam atraente para indivíduos diversos publicarem informações. O consumidor não só se torna autor e produtor, mas tem a facilidade de utilizar os ciberconteúdos em outros locais.. O não-aprisionamento da informação pode ser considerado uma das mais interessantes características do.site. Por outro lado, o YouTube tem potencialidade para a cidadania cultural. Nele, os indivíduos não só podem representar suas identidades, mas também conhecer representações culturais de outros indivíduos. O sucesso desse site pode ser debitado a sua utilização por sujeitos das mais diversas áreas, inclusive atores da Luta Antimanicomial. Passemos então para o relato de alguns pontos relevantes para o objetivo deste artigo: a história do movimento no Brasil

A Reforma Psiquiátrica no Brasil: a Luta Antimanicomial No Brasil, o Movimento da Reforma Psiquiátrica surgiu na década de 70, em importante momento histórico nacional. Os votos de protesto de 1974 contra o regime militar caracterizaram a retomada da luta pelo Estado de Direito (Nunes & Jacobi, 1983). Nessa fase de resistência ao regime militar, o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) e o Movimento Nacional de Renovação Médica (REME) podem ser identificados pelo apoio prestado aos movimentos que surgiram em algumas áreas da saúde. Dentre eles, destaca-se o Movimento de Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM). O MTSM materializou graves denúncias contra o Sistema Nacional de Assistência Psiquiátrica, acusações que foram acompanhadas por mobilizações por projetos alternativos ao modelo asilar dominante e a efetivação de um pensamento crítico sobre as práticas psiquiátricas (Amarante, 1995). A campanha pelas Diretas Já (1983), a eleição indireta de Tancredo Neves (Presidência da República) e de José Sarney (vice-presidência), a morte de Tancredo (1984) e a posse de Sarney, primeiro governante civil após duas décadas de regime militar, formaram um contexto político efervescente, que materializou avanços na área da saúde. Nesse sentido, destacam-se a 8ª. Conferência Nacional de Saúde (1986), e, em seqüência, a I Conferência Nacional de Saúde Mental (Amarante, 1995). O II Congresso de Trabalhadores de Saúde Mental

(1987), Bauru, São Paulo,

acompanhou tal efervescência, distinguindo-se de especial importância para a compreensão das manifestações públicas aqui analisadas. Dentre os acontecimentos que fizeram do Congresso de Bauru um momento emblemático vale a pena citar: a criação do Movimento Nacional de Luta Antimanicomial e a inclusão, em suas discussões, dos usuários e suas 4


famílias. Para o atual trabalho, destaca-se o estabelecimento de 18 de maio como dia Nacional da Luta Antimanicomial (Amarante, 1995). Também cabe citar a criação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que têm como proposta atender a situações de crise psiquiátrica e problemas de cunho social relacionados ao estado mental. Os CAPS permitem o desenvolvimento de projetos culturais, artísticos, de lares abrigados e de cooperativas de trabalho, e formalizam o sistema de desinstitucionalização (Amarante, 1995). O I Encontro Nacional da Luta Antimanicomial, realizou-se em 1993, em Salvador, na Bahia, e ratificou a identidade do movimento. O movimento, de caráter apartidário, porém político se organiza em núcleos que são articulados nacionalmente, mas, de forma descentralizada, compõem uma rede (Soalheiro, 2003). Nesse período, o lugar social do louco e da loucura definia as discussões. Esse trajeto inclui a luta pela alteração do lugar social dos que sofrem transtorno mental entre os novos movimentos sociais. O Movimento de Luta Antimanicomial concentra sua força em seus atores que, nos mais diversos locais do Brasil têm o orgulho de divulgar sua luta. As postagens realizadas no You Tube confirmam o engajamento dos atores antimanicomiais nas cinco regiões do Brasil.

Metodologia Nosso estudo observa a Internet como artefato cultural. Nessa perspectiva, a rede está inserida na vida cotidiana. O objeto Internet é percebido como multifacetado; assim, diferentes contextos ocasionam diferentes significados culturais (Fragoso, Recuero & Amaral, 2011). O objeto pesquisado na Internet é o YouTube, alinhando-se a justificativa do estudo e sua relevância para a área. O site, com sua interface de fácil uso, torna possível aos atores sociais postar na Internet um vídeo, que pode ser visto por grande número de internautas.. Por intermédio do estudo, foi possível obter informações importantes sobre os núcleos antimanicomiais, além de compreender como as diretrizes nacionais do movimento são absorvidas pelos atores sociais. A pesquisa permite maior conhecimento sobre o Movimento de Luta Antimanicomial, e podendo trazer subsídios para as decisões dos antimanicomiais. Na base escolhida, foram selecionadas cinco postagens, cada uma representando uma região do Brasil. Foram critérios de seleção foram: 1) ter relação temática com uma manifestação em espaço público ocorrida no Dia Nacional da Luta Antimanicomial; 2) A postagem ter sido realizada até um ano antes da data da pesquisa (janeiro de 2011); 3) contemplar todas as regiões. 5


A teoria que considera o discurso uma prática serve de norte para a atual análise. Foucault (2010, p.52) comenta que as relações discursivas   “determinam   o   feixe   de   relações   que o discurso deve efetuar para poder falar de tais ou tais objetos, [...]. Essas relações caracterizam [...] o próprio discurso enquanto prática”. A análise do discurso visa a entender a produção de sentido dos objetos simbólicos. Os sentidos não se restringem aos objetos, estão, por exemplo, na relação que eles estabelecem com o exterior e em suas condições de produção. Assim, ultrapassam as intenções dos sujeitos (Orlandi, 2008). As condições de produção, além dos sujeitos e da situação, compreendem também a memória. Logo, pode-se incluir na produção o contexto sócio-histórico e o ideológico, os quais são considerados de sentido amplo em razão de ultrapassarem o contexto imediato. A memória pensada em relação ao discurso é tratada como interdiscurso. O interdiscurso (o já dito), além de determinar o intradiscurso (o que se está dizendo) através da memória, permite a constituição da formulação, bem como, por meio da historicidade, permite determinar o que é relevante para o atual discurso (Orlandi, 2008). O estudo dos fenômenos culturais como fenômenos de comunicação, orientado pela concepção desta como produção, circulação e consumo de sentido, proposto por Pinto (1994, p.16) no postulado da economia política do significante, determina que “todo objeto significante é produzido num dado contexto histórico, circula no meio social e é consumido, real   e   simbolicamente”. A análise da produção (ideológica) como construtora do real e a análise dos efeitos produzidos pelo discurso (poder) no real compõem parte do estudo. Assim, o procedimento analítico teve como objetivo verificar efeitos de sentido produzidos pelas postagens no YouTube, considerando que os materiais de divulgação são textos ideológicos com temáticas políticas e sociais, que discursam contra-hegemonicamente. A partir das postagens, é possível supor que cada grupo de atores fez escolhas durante a produção do evento, conscientes ou não, que diferenciaram seu evento dos demais. Na materialidade da superfície analisada, as diferenças ideológicas são investigadas (Pinto, 1994). A pesquisa do  termo  “Dia  da Luta Antimanicomial”, realizada no dia 02 de janeiro de 2011, obteve 210 respostas, com postagens de meses, um, dois e três anos antes, principalmente. Os vídeos eram referentes à temática antimanicomial, não sendo necessariamente relacionados a manifestações ocorridas no dia de 18 de maio. Foram selecionados vídeos postados no período anterior de um ano (em 2010) e postagens com referência explícita ao Dia da Luta Antimanicomial. Foram encontradas 20 postagens referentes ao dia 18 de maio, postadas até um ano antes. Assim, os vídeos escolhidos são 6


vinculados ao “Dia da   Luta   Antimanicomial”, contemplam todas as regiões do Brasil, retratam uma manifestação pública ocorrida no dia 18 de maio e estão entre as postagens de 2010.. A análise não permite uma apreensão universal dos núcleos antimanicomiais, nas diversas regiões do país, no interior ou nas capitais. Ela é circunscrita aos eventos analisados, embora possa dar subsídios para se pensar a atuação dos núcleos antimanicomiais. As regiões Sudeste, Norte, Nordeste e Centro-Oeste têm uma ou mais postagens com as características especificadas. A região Sul apresenta vídeos comemorativos no ano de 2010, mas não com as características solicitadas. Os vídeos da região Sul são instrutivos ou falam dos serviços, mas não focalizam eventos públicos realizados na data 18 de maio de 2010, de modo que excepcionalmente o vídeo escolhido para essa região é de um evento público organizado pelo Coletivo da Luta Antimanicomial, em comemoração ao Dia Nacional da Luta Antimanicomial, mas no ano de 2009. Os vídeos são apresentados aqui através tabelas comparativas, onde as principais características das postagens são destacadas. Região S NE CO N SE

Estado Paraná Ceará Mato Grosso Pará Rio de Janeiro

Cidade Curitiba Marco Alta Floresta Belém Rio de Janeiro

Endereço/apresentação <http://www.youtube.com/watch?v=qfq0EUxRGs0>.

Postado MrBetaKS um ano atrás

Duração 3:45min

<http://www.youtube.com/watch?v=uGoxG6SzLN4>

osisresgabriel,

55s

Passeata de 18 de maio, Dia Nacional da Luta Antimanicomial, CAPS, Marco, CE,

7 meses atrás.

CO

<http://www.youtube.com/watch?v=1S_mBXXbeiI>

iigdaf 6 meses atrás.

2:12min

N

Dia da Luta Antimanicomial e 7º. aniversário do CAPS, em Alta Floresta <http://www.youtube.com/watch?v=u3Ay6Fq0R04>.

carloscdi 7 meses atrás

1:24min

SE

Comemoração do Dia de Luta Antimanicomial, Belém, PA, Caminhada pela Praça da República, em Belém, em comemoração ao dia de Luta antimanicomial, com panfletagem reflexiva sobre Saude Mental <http://www.youtube.com/watch?v=VPDUm7MafYQ>

vm8572 7 meses atrás

2:08 Min

S

Evento de comemoração do Dia Nacional da Luta Antimanicomial no Paraná, organizado pelo coletivo da Luta Antimanicomial paranaensse NE

18 de maio Dia da Luta Antimanicomial, Evento na Cinelândia, Rio de Janeiro, RJ,

S

vídeo

Seqüência

montagem de fotos

data - logo – grupo em barraca - distribuição panfletos-conversa com pedestres- cartazes artesanais – frase” Por  uma  outra  visão  da   questão  manicomial”  – panfletagem – palestra auditório

Foco Panfletagem

Diferenças de 2009, seqüência de fotos, evento em um auditório

7


NE

amador

Moto – faixa de apresentação – passeata – faixa com frase de

Passeata

Mário Quintana – passeata – faixa com assinatura CAPS

Carro de som, Reivindicações

Marco – faixa com reivindicação –carro de som encerra o desfile CO

elaborado

Repórter informa: motivos comemoração, panfletagem – faixa

Panfletagem

Uma reportagem com

apresentação – repórter comenta: 18 anos de dia da luta

fotos, textos,

antimanicomial no Brasil e implicações – faixa anterior – fotos em

entrevistas e várias

instituições manicomiais e esclarecimentos –

locações

CAPS (espaço

físico) – comentários do jornalista (material distribuído, como funciona instituição) – textos reflexivos (importância da nãodiscriminação)– imagens de uma moça segurando um cartaz ( desenho de flores e um texto que referencia o CAPS) – van– um funcionário fala sobre a importância do CAPS – divulgação do material – o jornalista comenta: sobre o aniversário do CAPS e importância seu funcionamento – voz de um usuário

Falando

sobre o CAPS.

N

amador

Faixa de apresentação – voz solicita ajuda das pessoas no Brasil e particularmente no Estado do Pará – carro de som – música – faixa: Implantação da residência terapêutica – voz: “Temos  aqui   presente...,  convidamos  aqui...”,  e  ao  mesmo  tempo  a  música  que   fala de liberdade – cartazes sobre integração social e inclusão cultural e faixa: Saúde mental na atenção básica está no final da passeata

Passeata

Chapéus e sombrinhas, implantação da residência terapêutica, carro de som

SE

amador

– toca um samba – o cantor  apresenta  o  bloco:  “Este  é  o  bloco  ‘Tá   pirando,  pirado,  pirou’”  – uma porta-bandeira e um mestre-sala rodopiam  com  uma  bandeira:  “Tá  pirando,  pirado,  pirou”  – alguns participantes carregam estandartes e muitas pessoas sambam, algumas com adereços de mão, outras fantasiadas e outras com roupas comuns – ao fundo há um palanque com um grupo tocando – outras pessoas estão filmando o evento – outra porta-bandeira fantasiada, mas com a bandeira recolhida – algumas pessoas se aproximam e beijam a bandeira em evolução - outras se aproximam para dançar e ainda há as que são chamadas a dançar – alguém faz careta e se aproxima da câmera, aparecem os pés de

show

Sem faixa comemorativa. Festa. Fantasias

algumas pessoas – acaba a filmagem.

Logos S

Foto de meio corpo de um homem com os braços levantados, encostado-os em moldura em volta de si

NE

Logo Marco e outro provavelmente do núcleo local

N

Desenho de um casal fotografado de costas. O homem caminha de cabeça baixa.

SE

Do bloco carnavalesco  “Tá  pirando,  pirado,  pirou

Faixas NE

1 8


CO

N

Placas CO

Cartazes artesanais S

CO

9


SE

Música

Cartazes impressos S N

“XIII Encontro  Paranaense  de  Psicologia”  e outros com menos destaque Integração social – Inclusão cultural

S

Balada do louco, de Arnaldo Batista e Rita Lee.

NE N

O que é, o que é? de Gonzaguinha Fala sobre liberdade (não identificada)

se

Samba do bloco

Algumas Frases S NE

CO

“Dia de  Luta”,  “Por  uma  outra  visão  da  questão  manicomial”  e  “Não  deveria  ser  proibido  ser  livre”. O locutor fala em oferecer aos usuários de serviços de saúde mental um atendimento humanizado, em que o respeito pelo paciente seja um [...] e não apenas palavras soltas [...] como profissionais da área e enquanto cidadãos envergonhados [...] é pelo tratamento do passe livre sem que a lei seja retirada, inclusive pela família. As   da   reportagem:   “Faz   18   anos   que   se   comemora   o   Dia   da   Luta   Antimanicomial   e   também   é   aniversário de 7  anos  do  CAPS  de  Alta  Floresta”,  “Neste  dia  é  a  sensibilização  para  uma  sociedade   livre   de   manicômios   e   sem   preconceitos”,   “Na   instituição   dessa  data   muito   se   ganhou   contra   um   sistema  arcaico  de  tratamento  em  todo  o  país”.   “Achava  que  era  um  manicômio,  que era aquela coisa... só tem gente doida. O CAPS é totalmente diferente, tem outra coisa, são muito educados, tem várias terapias, terapias boas, coisas que a gente pode aproveitar e até ganhar dinheiro com isso. O CAPS é totalmente diferente, tem outra coisa, são muito educados, tem várias terapias, terapias boas, coisas que a gente pode  aproveitar  e  até  ganhar  dinheiro  com  isso”

N

Ditas ao  microfone  do  carro  de  som,  “Obrigada  para  todas  as  pessoas  por  aderir  a  nossa  caminhada  de  solidariedade  à  luta   das pessoas   com   deficiência   mental   no   Brasil   e   particularmente   no   estado   do   Pará”,   “Temos   aqui   presente...,   convidamos   aqui...”.  

SE

Esse é  o  bloco  ‘Tá  pirando,  pirado,  pirou’...  Tá  todo  mundo  legal...  Vamos  juntos  brincar  o  carnaval....   eh! eh! Pinel...”  (letra  da  música)

S NE

Realizador Coletivo da Luta Antimanicomial CAPS

CRP Município de Marco

Apoiador

CO

CAPS

Município de Alta Floresta, Secretária de Saúde Municipal

N

provavelmente um núcleo antimanicomial local.

Não identificados (faixa inicial)

SE

Desconhecidos

Desconhecidos

10


Próximos e distantes: diferenças e semelhanças Inicialmente, é essencial dar algumas informações sobre as condições de produção dos vídeos. Todos os vídeos informam em sua postagem que são comemorativos do dia 18 de maio. Os vídeos, que têm de 55 segundos a 3min45s, são todos resultado de filmagens de eventos públicos em comemoração ao Dia de Luta Antimanicomial. O vídeo do Sul é de 2009, postado em 2010, pois para os estados do Sul não havia vídeos de 2010 de manifestações em espaço público. Em sua maioria, os vídeos postados no Sul do país para a data comemorativa eram de entrevistas ou instrutivos sobre o tema. No Sudeste, as postagens tinham formato parecido com a postagem escolhida: parte de espetáculos ocorridos em espaço público. Nas regiões restantes existia mais de um vídeo que retratava manifestação em espaço público. Os eventos, desde sua organização, tomam feições diferentes. Assim, cabe perguntar: Quem organizou tais eventos? As duas manifestações realizadas no interior (Marco e Alta Floresta) são organizadas pelo CAPS. As das capitais, Curitiba e Belém, são organizadas por núcleos da Luta Antimanicomial. Os apoiadores são: no Sul, o XIII Encontro Paranaense de Psicologia; no Norte, não há apoiador aparente; e, no interior (Marco e Alta Floresta), os municípios. A filmagem do Rio de Janeiro não apresenta referência aos organizadores, apenas é notório que grupos vinculados aos serviços estão se apresentando na festa. Na forma de verbalizar, no modo de se apresentar ou objetivando conquistar o público, os grupos organizadores se diferenciam: três eventos têm como finalidade ou parte importante dela a panfletagem (Sul, Centro-Oeste e Norte), dois, uma passeata (Nordeste e Norte) e um é parte de uma festa comemorativa (Sudeste). No Rio de Janeiro (RJ), o espetáculo em praça pública é a forma de sedução; em Belém (PA), a passeata brada por solidariedade; no interior do Ceará (Marco), o lema é humanização; no Paraná (Curitiba), outra visão manicomial; no Mato Grosso (Alta Floresta), a importância do CAPS é ressaltada. As relações que o discurso deve efetuar para falar do Dia de Luta Antimanicomial vão se estabelecendo do seguinte modo: em Curitiba, o XIII Encontro Paranaense de Psicologia é chave; em Marco, a religiosidade é indispensável; em Alta Floresta, a valorização dos investimentos municipais é necessária; no Rio de Janeiro, os resultados obtidos pelos projetos culturais do serviço devem ser registrados; em Belém, os aliados políticos são valorizados. A enunciação da data comemorativa para os diversos grupos é investigada nas postagens. Todos os vídeos são comemorativos do Dia Nacional de Luta Antimanicomial. Além disso, Nordeste, Centro-Oeste e Norte têm faixas no início do vídeo que marcam a data 11


18 de maio. O Sul inicia o vídeo com a data 18 de maio de 2009 e a foto do logo do próprio coletivo de Luta Antimanicomial. Os participantes do Centro-oeste comemoram também o aniversário do CAPS Alta Floresta, informação que consta da faixa inicial. O vídeo do Sudeste é a exceção, pois, se a faixa estava presente no evento, não recebe destaque. Sabe-se que se trata de um evento comemorativo apenas pela postagem, pois a data mesma não é destaque na filmagem. O interesse restringe-se à apresentação do bloco. Na maioria dos vídeos, a abertura é vinculada à data comemorativa. A diferença encontra-se, então, no vídeo do Sudeste, que não destaca faixas relacionadas com a data na filmagem.

Práticas discursivas antimanicomiais Verón (2004) observa que as marcas, dentro da metalinguagem, funcionam como sintomas para operações que ocorrem fora do discurso. Isso torna importante observar como os manifestantes utilizam os termos que designam a loucura. Portadores de transtornos mentais é a nomenclatura utilizada na faixa do Nordeste, que apresenta o cuidado como uma forma de agradar a Deus. Na faixa que tem a assinatura do CAPS, os discursos, religioso e técnico, misturam-se para falar do cuidado ao usuário do serviço. Marco, cidade do semiárido cearense, com cerca de 25 mil habitantes, tem forte vínculo com a Igreja Católica, pois, dado o abandono dos governantes, tem seus principais avanços relacionados ao apoio eclesial. Atualmente, cerca de 95% de seus habitantes são católicos praticantes (Wikipédia, 2011). A relação com a religião transborda da história de Marco para a superfície discursiva. Na faixa, há articulação entre os valores tradicionais da localidade e um termo técnico utilizado por trabalhadores da área de saúde mental. O cuidado perde seu valor de direito, para ser observado como salvação daqueles que o praticam. Outra faixa na região Nordeste tem os dizeres “Louco é   quem  não  consegue  ser   feliz   com o que possui”, com assinatura de Mario Quintana. No Sul, a música que acompanha o filme é Balada do louco, a qual proclama: “Mas  louco  é  quem  me  diz que não é feliz, não é feliz”. A insatisfação diante da vida é apontada como a real forma da loucura (pejorativa) pelos dois eventos e se contrapõe ao portador de transtorno mental. Na região Sudeste, o bloco carnavalesco Tá Pirando, Pirado, Pirou utiliza no nome o termo popular “pirar”, para brincar com o enlouquecimento. Ao rir da própria loucura e mostrar que todos piram na folia do carnaval, consegue-se romper o estigma. No Centrooeste, o   termo   “gente doida” é usado pela usuária do serviço para diferenciar o CAPS do manicômio: “Achava   que   era   um   manicômio, que era aquela coisa... só   tem   gente   doida”, e mostra: “O CAPS é totalmente diferente, tem outra coisa, são muito educados, tem várias 12


terapias, terapias boas, coisas que   a   gente   pode   aproveitar   e   até   ganhar   dinheiro   com   isso”.   Assim, relacionar a idéia de loucura ao manicômio e a idéia de terapia ao CAPS revela que mudanças estão se costurando no tecido social. Enquanto a palavra “doido” é utilizada com sentido negativo, a palavra CAPS tem associação positiva. No Norte, a música fala sobre engano, e a pessoa ao megafone agradece aos que aderiram à luta da pessoa com deficiência mental. O termo “deficiência mental” é utilizado de forma não muito apropriada. Fairclough (2001, p.128) nos lembra que “mesclas    de  estilos  formais  e  informais,  vocabulários  técnicos   e não técnicos, marcadores de autoridade e familiaridade, formas sintáticas mais tipicamente escritas  e  mais  tipicamente  faladas  e  assim  por  diante” coexistem na mudança Os sentidos da palavra “loucura” e seus sinônimos, utilizados nos eventos analisados, ocupam os espaços públicos e constroem a realidade. Foucault (2010, p.122) explica o termo discurso como “conjunto de enunciados que se apóia num mesmo sistema   de   formação”,   assim, têm-se o discurso antimanicomial. Maingueneau (1997, p.56) retoma a explicação para conceituar comunidade  discursiva  como  “o  grupo ou a organização de grupos no interior dos quais são produzidos, gerados os textos que dependem da  formação  discursiva”. Todas as manifestações procuram legitimar o discurso antimanicomial. Todos os grupos escolheram lugares centrais em suas respectivas cidades para realizar seus eventos. Todos também disponibilizaram os vídeos no YouTube, na busca por um público ampliado. Mas, qual é o conjunto de enunciados que os grupos organizadores privilegiaram na composição de um discurso antimanicomial? O termo mais utilizado é saúde mental. O Centro-Oeste usa-o como compromisso de todos, já o Nordeste apresenta a possibilidade de oferecer aos usuários de saúde mental um serviço humanizado, e o Norte relaciona atenção básica e “não é brincadeira”. No Sul, cria-se uma relação do Movimento de Luta Antimanicomial com outros movimentos de defesa do sujeito. Assim, “Por   todos   os   lados, todas   as   cores,   todas   as   idéias,   todos   os   novos” é acompanhado pelas frases “Por  uma  outra  visão  da  questão  manicomial” e “Sim às diferenças e não aos manicômios”. No Centro-Oeste, há a frase “Por uma sociedade sem manicômios e livre   de   preconceitos”   e uma   explicação   sobre   a   necessidade   da   “não   discriminação”   dos   pacientes que necessitam de tratamento, assim, também há aproximação do referido movimento com outros movimentos de defesa dos sujeitos. As palavras liberdade (Sul e Norte), inclusão (Sul e Norte), integração (Norte), respeito (Nordeste e Norte), humanizado (Nordeste), cuidar (Nordeste) e terapias (CentroOeste) são utilizadas nos textos produzidos pelos grupos e constituem o discurso

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antimanicomial, que conclama a população a dar as mãos (Sul), a ter solidariedade (Norte) e a brincar juntos (Sudeste). Os serviços estão presentes e têm referência em quatro vídeos: Nordeste e CentroOeste, o CAPS; no Norte, a Residência Terapêutica e a Atenção Básica; no Sudeste, os que se apresentam no espaço público são vinculados aos serviços. No Sul, em contrapartida, observase a vinculação do movimento com uma categoria: os psicólogos. Ela destaca-se pela forte presença no Movimento de Luta Antimanicomial. Em todo o Brasil, a categoria é realizadora ou apoiadora de eventos e materiais de divulgação, desde os primórdios do movimento. . Em quatro dos eventos, há música de fundo, à exceção da região Centro-oeste. Balada do louco é a trilha musical do Sul; no Nordeste O que é, o que é? acompanha a passeata; no Norte, uma música que menciona a liberdade, mas não identificada, acompanha a caminhada; e no Sudeste o samba da escola de samba Tá Pirado, Pirado, Pirou toca durante a filmagem. Apesar de todos estarem comemorando a mesma data, cada ato histórico é único, e não repetível. As enunciações de cada vídeo são socialmente dirigidas e estão circunscritas no meio social que envolve os atores. Os atores envolvidos dialogam com outros atores do Movimento de Luta Antimanicomial, com o público que utiliza o YouTube, com forças políticas locais e com população da localidade, dentre outros. Seus discursos são elos nas cadeias de fala. O evento do Centro-Oeste destaca-se por ter sido, além de postado no YouTube, acompanhado por uma rede de televisão. Ribeiro (2006, p.39) explica que “há consenso no pensamento sociológico contemporâneo sobre a importância das instituições de comunicação para a experiência e a formação de opiniões e comportamentos dos indivíduos nas sociedades atuais”. Já Oliveira (1995, p.5) mostra como as mídias podem se “colocar na posição de promotores de uma determinada unidade ideológica do   espaço   social”, e assim ocorre na postagem do Centro-Oeste, em que um repórter de uma rede de televisão não só acompanha o ato público, como também passa aos telespectadores informações sobre o Movimento de Luta Antomanicomial. O jornalista apresenta fotos que retratam os horrores dos hospícios e pronuncia informações balizadas. As entrevistas de um funcionário do CAPS e de uma provável usuária compõem a notícia O vídeo do Nordeste apresenta atores sociais que não estão só comemorando uma conquista, mas são capazes de compreender que estão vivendo um processo e existem novos desafios a serem enfrentados. São destaques as reivindicações de capacitação e passe livre, pois é o único evento que faz solicitações de melhorias para os técnicos e usuários. A 14


compreensão de que o novo serviço demanda exigências diferentes, a capacidade de reconhecer quais são as exigências e reivindicá-las torna os atores de Marco especialmente importantes. O vídeo do Sul mostra um núcleo da luta antimanicomial que procura reconhecimento no espaço público e também de seus pares, caracterizados no XIII Encontro Paranaense de Psicologia. O vídeo e os eventos que nele aparecem são bem organizados, assim, refletem a própria estruturação do coletivo. .Chamam a atenção os vídeos comemorativos produzidos por estados do Sul, postados no ano de 2010, porque são em sua maioria explicativos da luta e dos atendimentos. Várias são as entrevistas realizadas por atores do movimento ou técnicos dos serviços aos meios de comunicação. Fica evidente a especial preocupação com a divulgação das abordagens antimanicomiais, além do esforço na divulgação do tema em espaços midiáticos. O evento do Norte informa que materializou um sonho: a residência terapêutica. Assim, mostra que vem conseguindo fazer valer seus pontos de vista e ampliar seus instrumentos de atuação. O núcleo também aparenta organização. O evento do Sudeste se diferencia dos outros eventos, pois a filmagem concentra-se em um momento de festa, da qual todos participam. Não existe hierarquia ou ordem determinada. Todos estão participando da confraternização, que parece ter diversas atrações, mas o vídeo se restringe ao bloco carnavalesco, omitindo-se outros interesses.

Conclusão O MTSM fez rupturas importantes no encontro de Bauru, em 1987: seu alvo deixou de ser o aperfeiçoamento clínico, a reforma do hospício e a adequação do hospital psiquiátrico a uma função terapêutica, passando a uma sociedade sem manicômio. Uma ruptura, no entanto, não ocorre de uma só vez, ela é feita ao longo do tempo e pela convicção dos atores que participam do movimento. A cidadania como representação resultante da vontade política dos membros de uma sociedade está presente em todas as postagens analisadas. O movimento de atuação nacional, no entanto, diferencia-se localmente. Cada uma das manifestações destaca conquistas ou necessidades específicas. No entanto, todos os núcleos optaram por postar suas experiências no YouTube. A importância, quase vital, que os espaços midiáticos adquirem para os movimentos sociais da atualidade, nas novas tecnologias, descortinam novas possibilidades de alcançar visibilidade.

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Outra ruptura importante que ocorreu em Bauru envolve o protagonismo do movimento. A partir de Bauru, os protagonistas deixaram de ser só trabalhadores de saúde mental e outros atores ganharam destaque e compartilharam o movimento. A principal inclusão é a dos portadores de transtorno mental, que formam núcleos e conseguem destaque no movimento, além de suas famílias e da sociedade em geral. O protagonismo dos usuários é percebido em todos os vídeos, mas somente no sudeste o vídeo apresentado rompe com as hierarquias. Todos neles brincam e se divertem, não há delimitação entre usuários, técnicos e transeuntes. Em contrapartida, nas postagens do Sul, do Norte e do Nordeste a presença dos usuários e parentes não é central. No Centro-Oeste há uma participação importante, o usuário entrevistado tece diferenças entre o que esperava encontrar e o que encontrou no Caps. As relações com o sujeito louco precisam ser mudadas, não só no campo da assistência, mas no que a sociedade pensa sobre a loucura. As hierarquias precisam ser quebradas e os papéis, multiplicados. O CAPS não só pode dar respostas clínicas mais adequadas, como pode transformar a concepção de terapia. O CAPS pode inovar com projetos culturais que modificam a própria concepção de clínica e de loucura. No entanto, novos saberes e práticas exigem investimento, sobretudo, em mão de obra capacitada. Amarante (2007, p.71-72) ressalta que, para que haja real aquisição de cidadania, é necessário “mudar   mentalidades,   mudar   atitudes,   mudar   relações   sociais”,   pois   não   se   “determina   que   as   pessoas   sejam   cidadãs   e   sujeitos   de   direito   por   decreto”. O autor mostra que, a partir da produção cultural e artística dos atores sociais, sejam usuários, parentes, técnicos e voluntários, é possível provocar o imaginário social e fazer a sociedade refletir sobre o tema da loucura. Por fim, a reinvenção da identidade dos que têm transtorno mental, assim como a dimensão nacional que o movimento conquistou não podem ser desvinculadas de uma esfera pública ampliada pelas novas tecnologias de comunicação. O destaque adquirido pelo campo da comunicação permite que o Movimento de Luta Antimanicomial encontre novas formas de movimentação. Estas novas formas, porém, não padronizam os sentidos que se constituem a partir da produção e circulação dos produtos comunicacionais. Como as anteriores, elas só existem pela linguagem e seus produtos correspondem a práticas discursivas, que são formadas, entre outros elementos, por dispositivos de enunciação. São os dispositivos que, contextualizados, produzem sentidos diferentes, mesmo que o tema seja o mesmo. E são os dispositivos, através de suas marcas e relação com os diversos contextos, que permitem ao analista encontrar respostas para suas perguntas. 16


AtravĂŠs desta pesquisa, foi possĂ­vel compreender os diferentes modos pelos quais os atores do movimento da luta antimanicomial utilizam esses dispositivos no seu empenho por combater o estigma e agir numa perspectiva contra-hegemĂ´nica.

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Limites e possibilidades de fortalecimento da participação social na saúde pela radiocomunicação comunitária Autores: Hugo Fanton Ribeiro da Silva¹; Ivan França Junior² 1. Mestre em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP). Brasil. hfanton@gmail.com 2. Prof. Dr. Livre Docente pelo Departamento de Saúde Materno-Infantil (2010) da Faculdade de Saúde Pública da USP. Brasil. ifjunior@usp.br GT – Comunicación y Salud Resumo Este trabalho se propõe a analisar limites e possibilidades da participação social na saúde pela radiocomunicação comunitária, por um estudo de caso realizado em Heliópolis, São  Paulo,  SP.  A  partir  das  “práticas  significantes”  relacionadas  à  produção   simbólica e material daquele território,  do  “entrejogo”  entre  práticas  sociais  e  trajetórias   individuais, e entre aquelas e contexto global, foi possível uma formulação teórica acerca do tema. Na relação estabelecida entre rádio comunitária e campo da saúde em Heliópolis prevalece a lógica de propagação de valores e normas pelo sistema. A importância das ações proporcionadas pela interação entre órgãos administrativos do Estado com as rádios reside fundamentalmente na disponibilização de informações que tornam possível uma melhor fundamentação das escolhas racionalmente motivadas, e isso é reafirmado por locutores e ouvintes. Há na comunicação em saúde, e isso se reproduz em alguma medida na radiocomunicação comunitária, a forte influência do campo da promoção da saúde que, como parte do discurso científico contemporâneo, toma o indivíduo como livre das determinações econômicas e sociais e coloca em suas mãos a possibilidade e a responsabilidade de, a partir de atitudes educacionalmente formadas, engendrarem novas relações sociais. Estas acabam por ser, no apelo feito a mudanças de comportamento, desprovidas de historicidade. Pela prescrição normativa do bom viver, a medicina se estabelece como autoridade na determinação das boas e más condutas, as ditas saudáveis, e induz a processos de interiorização da coerção no indivíduo. Para tanto se vale dos meios de comunicação, passando a influenciar no que devem ou não fazer as pessoas, independente do contexto histórico em que estão inseridas. Desse modo, a saúde se torna bens que se compram e vendem com base em opções individuais e sua promoção significa ajudar os indivíduos a mudar o próprio estilo de vida. Ainda que haja a busca por legitimar tais ações por discursos que remontem a fatores sociais envolvidos, estes são apenas referência, mero envoltório de uma operacionalização que tem centralidade nos comportamentos individuais. Além disso, o sistema gera demandas a que existem respostas sistêmicas previamente definidas. As deficiências que não têm possibilidade de satisfação na institucionalidade posta acabam por ser ignoradas e tornadas invisíveis na relação entre os distintos grupos sociais e o sistema. A rádio comunitária, no entanto, é um espaço de produção e divulgação culturais, também de lazer e trabalho, constituído por relações sociais de troca e produção material e simbólica que se expressa enquanto forma e conteúdo, fundamentalmente, na programação musical. Da especificidade da relação entre forma e conteúdo na produção


e expressão culturais decorre a possibilidade de emergência diferenciada de necessidades políticas, econômicas e sociais de dado território, de modo que a rádio possibilita a expressão, articulação e mobilização de indivíduos e grupos em busca de anseios ou pela superação de carências em ação política diferenciada daquela que ocorre em espaços institucionalizados. É a partir de tais características que atuação pela rádio comunitária também possibilita a construção histórica de necessidades sociais em sua relação com a saúde, e tem função organizativa de demandas que permitem guiar a satisfação dessas necessidades pela reivindicação frente ao poder público e ao sistema de saúde.

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1 - Introdução Na segunda metade do século XX, a organização dos serviços de saúde no Brasil passou por profundas mudanças políticas, ideológicas e sociais, decorrentes da crise do Estado brasileiro ao final dos anos 1970, que culminou na transição democrática e na elaboração de uma nova Constituição, superando-se o modelo médico assistencial privatista de atenção à saúde em direção à sua concepção enquanto direito de todas e todos e dever do Estado. Resulta deste processo de Reforma Sanitária Brasileira (RSB) o Sistema Único de Saúde (SUS). O SUS é a expressão sistêmica de um projeto amplo de reforma social, em que a participação social consolida-se como princípio, na medida em que é proposta como “conjunto de   intervenções   que   as   diferentes   forças   sociais   realizam   para   influenciar   a   formulação, a execução e a   avaliação   das   políticas   públicas   para   o   setor   saúde”   (Machado, 1987, p. 299). Trata-se de um projeto reformista que pressupõe como processos constitutivos a democratização da saúde, do Estado e da sociedade, pela relação estabelecida entre saúde, seus determinantes sociais e a justa distribuição de bens e conhecimento, bem como pela necessidade de “garantia  de  participação  social  no   estabelecimento  de  políticas  e  de  gestão” e de “descentralização  do  processo  decisório  e   controle  social”,  que  remetem  à  transparência das ações e projetos de Estado e governo (Paim, 2008, p. 173). Assim, o direito à saúde ganha expressão constitucional no Capítulo da Ordem Social, e no decorrer dos anos 1990 se dá a consolidação normativa do SUS, com o objetivo de tornar a formulação e gestão de políticas públicas mais permeáveis às demandas da população. A resposta sistêmica ao princípio da participação social é a consolidação institucional de processos e espaços como as conferências e conselhos de Saúde. Tal configuração proporciona a incorporação de grupos sociais antes alijados dos processos decisórios na gestão do sistema de saúde (Carvalho, 1997). No entanto, mantém-se a centralidade das decisões e ações na esfera técnico-administrativa, permanecendo limitada a incorporação das demandas de grupos sociais submetidos a situações de exclusão econômica, social e política, e também ao exercício do controle social (Coelho, 2004; Oliveira, 2004; Morita, Guimarães, & Muzio, 2006; Pestana, Vargas, & Cunha, 2007; Wendhausen & Cardoso, 2007; Paim, 2008; Teixeira et al, 2009; Côrtes, 2009a; Côrtes, 2009b). 3


Apesar da institucionalização de processos e espaços participativos, assegurou-se “à burocracia   central   a   preservação   de   poder”,   ainda   que   com   tensões   decorrentes   do   exercício do poder compartilhado entre entes federados e esferas administrativas. Mantém-se a   desigual   distribuição   financeira   em   favorecimento   de   “grupos   corporativos, impedindo que os ideais da reforma se concretizem e garantam a centralidade   do   usuário   cidadão”   (Fleury, 2009b, p. 749). O   “êxito   da   reforma”   resultante   da  luta   do  movimento   sanitário  gera,  “contraditoriamente,  a   superação   deste   caráter   de   movimento   vindo   da   sociedade   civil   como   crítica   ao   Estado”,   em   direção   à   sua concretização pela institucionalidade estatal, especificamente secretarias municipais e estaduais de saúde, promotores públicos e a burocracia reformadora (Fleury, 2009b, p. 749). Os limites postos à garantia efetiva de participação social na saúde pela via institucionalizada remetem ao dilema preventista (Arouca, 2003), por haver uma tematização de reforma social geral no projeto da RSB, porém num contexto de sociedade capitalista, desigual e de relações autoritárias no Estado, na sociedade e entre Estado   e   sociedade.   “A   dura   verdade   se   revela   como aprendizagem a partir das dificuldades na implantação do projeto da Reforma Sanitária: NÃO SE CRIA IGUALDADE   POR   LEI,   ainda   que   não   se   consolide   a   igualdade   sem   a   lei”   (Fleury, 1997, p. 34 – grifo no original). As dificuldades encontradas para enfrentar tal conjuntura adversa resultam, em grande medida, da não ampliação das bases políticas e sociais do movimento da Reforma Sanitária, que permaneceram estreitas para além do movimento que consolidou   seu   projeto.   “Fincar   o   projeto   da   RSB   nas   instâncias   sócio-comunitárias, ampliando sua base de sustentação política, continua como desafio central” (Paim, 2008, p. 310). E isso se faz pela transformação do movimento na recuperação de sua dimensão  instituinte,  “transcendendo,  portanto,  o  sistema” (Paim, 2008, p. 256). Ainda que exista hoje um   corpo   técnico   “com   grande   habilidade   no   manejo   do   jogo   de   poder   institucional”,   há   intolerância   aos   “processos   participativos   nos   quais   a   população  e  os  profissionais  de  nível  local  se  manifestem  de  modo  efetivo  e  autônomo”, pois a lógica dos  “movimentos  sociais  e  das  pequenas  práticas  locais  de  enfrentamento   dos   problemas   de   saúde”,   que   se   manifestam   por   “fora   dos   espaços   institucionais   formais”  no  embate  político, choca-se a lógica sistêmica (Vasconcelos, 2004, p. 76). Nesse sentido, a gestão democrática se faz pelo desencadeamento de um processo participativo em movimento instituinte, na organização social em torno de questões 4


comuns. Isto   ocorre   por   espaços   e   práticas   sociais   que   possibilitam   “organizar   uma   demanda popular em   políticas   de   saúde”   (Tobar, 1995, p. 105) e alterar relações de poder político e econômico, tais como os meios de comunicação controlados pela “classe  ausente”. Por sua historicidade relacionada à luta social do território onde estão inseridas, à margem do clientelismo político entre grupos dominantes e poder público, espaços como as rádios comunitárias surgem da atuação política de grupos sociais alijados da institucionalidade posta (Machado et al, 1986). É confirmativa e constitutiva da organização social, e espaço de resistência às práticas dos meios de comunicação controlados por poucos grupos que defendem interesses político-econômicos de classes dominantes. Buscar a ampliação da base social da RSB pela atuação na via sócio-comunitária significa atuar pela transformação de relações e valores. A dinâmica social local pode explicitar práticas, saberes, relações e processos próprios do grupo dela constitutivo, engendrando um processo instituinte pela subjetivação de indivíduos integrados socialmente a partir da resistência a determinações de classe, gênero, raça e origem. Neste sentido, busca-se aqui refletir sobre os limites e possibilidades da participação social na saúde pela rádio comunitária, em sua relação com as práticas de integração social, determinações políticas e econômicas, e afirmação da liberdade.

2 - Metodologia Para a realização desta pesquisa, optou-se por um estudo de caso em Heliópolis, em olhar para o território na sua diversidade de espaços e vivências, e também para os conflitos que lhe são próprios e relacionados às relações sociais daquele espaço constitutivas. Heliópolis é uma favela de São Paulo que possui, de acordo com o censo demográfico de 2000, cerca de 125 mil habitantes, concentrados em uma área de 1,2 milhão de metros quadrados. A ausência de espaços livres leva ao atual processo de verticalização das moradias e concentração populacional (Sampaio & Pereira, 2003, p. 174). Também compõem a paisagem de Heliópolis pequenos estabelecimentos comerciais, tais como bares, padarias, oficinas de automóveis e mercados. De acordo com a Secretaria de Habitação do Município de São Paulo, em 2009, 83% dos domicílios possuíam abastecimento de água e 62% tinham rede de esgoto. A

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rede elétrica abrangia 94% das casas e 57% do espaço público. Em 2009 existiam 18.080 imóveis e a renda média familiar era de R$ 479,48 1. A principal associação de moradores é a União de Núcleos, Associações e Sociedades dos Moradores de Heliópolis e São João Climaco (UNAS). Sua atuação se dá principalmente por projetos financiados pelo poder público ou empresas. Os principais são: Centro de Educação Infantil (CEI); Centro da Criança e Centro do Adolescente; Centro de Referência da Criança e Adolescente (CRECA); Biblioteca Comunitária; e Prevenção DSTS/AIDS (em parceria com a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo). Há também atividades do Movimento Sem Teto e a Rádio Comunitária Heliópolis FM. A emissora foi criada pela UNAS em 1992 e funcionava por meio de auto-falantes ligados a uma central de emissão sonora. Em 1997, torna-se emissora FM, mas é fechada em 2006 pela Polícia Federal. Em março de 2008 recebe autorização para funcionar. O trabalho nela desenvolvido é voluntário, por equipe composta por 36 locutores e locutoras. Cinco deles compõem as coordenações técnica e de programação da rádio. Há também um coordenador geral, ex-locutor que faz parte da direção da UNAS. Os serviços de manutenção, limpeza e atendimento ao público são feitos pelos próprios locutores. A rádio é um Ponto de Cultura (programa do Ministério da Cultura), possui dois estúdios de produção/gravação, cinco computadores, uma impressora, microfones e amplificador, dentre outros equipamentos. A antena tem potência de 25 watts e atinge um raio de 1 km (máximo permitido por lei). A programação pode ser acompanhada pela Internet, na página www.heliopolisfm.com.br. Foram feitas 39 visitas a Heliópolis entre junho e setembro de 2010 para a realização de observação participante, entrevistas e redação em diário de campo. O material produzido fundamentou a construção de categorias analíticas em diálogo com a formulação inicial do problema, em movimento do particular ao geral. As particularidades da região foram estudadas em sua relação com os conceitos e historicidade de saúde, comunicação e participação social, de modo que o particular possibilitou a construção de generalizações na relação entre observação e questão de pesquisa.

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Informação atribuída à Prefeitura de São Paulo, mas cedida por associação de moradores e diretoria da Escola Municipal de Ensino Fundamental Campos Salles, localizada na região. 6


A abordagem inicial dos sujeitos da pesquisa teve início pela rádio comunitária, e desde o primeiro encontro houve a possibilidade de acompanhar a programação e conhecer locutores, a partir dos quais foi possível conhecer ouvintes e lideranças comunitárias, pela técnica de bola-de-neve. Nesse caminhar, foram entrevistadas 79 pessoas, dentre locutores, militantes da UNAS, ouvintes, artistas, conselheiros de saúde e professores de escola pública da região. Destas, 43 foram transcritas e tornaram-se a principal referência na construção do material empírico e na descrição daquele território. Das 19 entrevistas com locutores, optou-se por transcrever as 15 a partir das quais foi possível reconstruir trajetórias de vida. Foram também transcritas as oito entrevistas com ouvintes e as sete com militantes do movimento Hip Hop, considerados artistas locais. Em relação às lideranças – 13 transcrições – foram dois os critérios: possibilidade de reconstrução da trajetória de vida em Heliópolis e importância histórica atribuída pelos sujeitos da pesquisa ao entrevistado 2. As entrevistas foram semi-estruturadas – o próprio entrevistado estrutura seu pensamento, limitado dentro do objetivo do estudo – com plano de entrevista definido a partir da observação participante, quadro teórico e informações prévias sobre o contexto histórico e social do(a) entrevistado(a) (Ruquoy,1997). Esse material empírico fundamentou a reconstrução de trajetórias de vida dos sujeitos da pesquisa e a descrição de suas práticas e relações sociais. A utilização deste método torna possível a abordagem do coletivo a partir do individual, uma vez que na descrição de suas trajetórias os indivíduos remontam a parâmetros que balizam suas vidas em relação com as “normas   sociais   presentes   nos   contextos”   em   que   estão   inseridos   (Nardi & Yates, 2005, p. 97). Nesse sentido, optou-se por reconstruir a trajetória de locutores e das principais lideranças de Heliópolis, pelo diálogo com as historicidades de rádio e território. Tratase da descrição do espaço social que em diferentes momentos ocupam e atribuem significados. Esta construção foi também realizada pela relação entre falas e práticas individuais, e entre estas e as práticas sociais, muitas delas próprias das institucionalidades locais. Ou seja, as práticas da UNAS enquanto associação 2

Os nomes dos sujeitos da pesquisa estão mantidos em sigilo (atribuiu-se aleatoriamente nomes fictícios às pessoas para facilitar a leitura), em atenção ao cumprimento das exigências éticas fundamentais, conforme a resolução 196/96 de 10/10/1996 do Conselho Nacional de Saúde, que dispõem das Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa envolvendo Seres Humanos, disponível em http://conselho.saude.gov.br/resolucoes/reso_96.htm. A pesquisa obedecerá aos quatro referenciais básicos da bioética: a autonomia; a não maleficência; a beneficência e a justiça. Foram utilizados Termos de Consentimento Livre e Esclarecido da participação dos sujeitos envolvidos. 7


condicionam e são condicionadas pelas práticas dos sujeitos que dela participam. O mesmo se pode dizer acerca da rádio comunitária. Assim, o locutor que diz fazer reportagens faz reportagens, e para a construção de sua trajetória de vida as duas ações, falar e agir, foram descritas e relacionadas. Discurso e   prática   social.   Deste   “entrejogo”   entre   práticas   significantes   e   discursos,   pôde-se   construir   os   significados   em   função   das   “exigências   teóricas   postas   pela   definição   do   objeto   de   pesquisa”   (Magnani, 1997, p. 138-40). Em um passo seguinte, tais práticas sociais foram relacionadas ao contexto geral em que se inserem, de modo a se apreender a totalidade histórica de que conformam e são conformadas. 3 – Resultados e discussão Conforme exposto inicialmente, o contexto de desigual distribuição de recursos e poder no conjunto de práticas sociais, técnicas e sistêmicas do campo da saúde traz limites à efetivação do direito, o que remonta ao   “paradoxo   da   reforma   sanitária   brasileira”   que   em   sua   expressão   institucional   a   restringe a política pública e, assim, reduz   sua   “capacidade   de   ruptura,   inovação   e   construção   de   uma   nova   correlação   de   forças  desde  a  sociedade”.  É  a  institucionalidade  que  se  impõe  ao  instituinte  “reduzindo   o caráter libertário  e  transformador  da  reforma”   (Fleury, 2009b, p. 751). O movimento que se organizou inicialmente a partir de experiências não institucionalizadas de resistência a determinações sociais, pela atuação de grupos populares por espaços de que o Estado se fazia ausente, passa a dar centralidade à conformação de uma institucionalidade que satisfizesse as necessidades em saúde (Fleury, 2009a; 2009b). Estes elementos também são historicamente constitutivos da formação e organização social em Heliópolis. O processo de democratização do Estado brasileiro transformou progressivamente sua relação com aquele território. Anteriormente reconhecido como antagonista do movimento social, passa a ser concebido como espaço de exercício do poder de que diferentes grupos sociais podem fazer parte. No entanto, esta centralidade do Estado como campo de intervenção e desenvolvimento das lutas políticas é resultante de um amplo processo de organização política e social engendrado pelos moradores daquele território e sua associação. É parte deste processo a criação, pela UNAS, em 8 de maio de 1992, da “Rádio   Popular   de   Heliópolis”.   Um   dos   fundadores,   Brandão, descreve a rádio daquele tempo como “popular”,   “um   serviço   de   alto-falantes”,   que   depois   foi   chamado   de   rádio   corneta.   O   8


objetivo era   “conversar”   com   os   moradores,   numa   “área   adensada, com povo aglomerado   e   desinformado”.   Criou-se   então   um   “serviço   de   informação”   para   que   as   pessoas   “participassem   das   reuniões” do movimento de moradia, que aconteciam três vezes por semana. O estúdio foi instalado na Rua da Mina, localizada no centro de Heliópolis, em uma  casa  com  dois  andares.  “tinha um quartinho bem em cima, e a rádio começou ali”.   Era em frente a um poste de madeira, em que foram instaladas “quatro bocas de autofalantes”.  Deste  poste foram estendidos “uns fios até a Rua São Gregório”, em direção transversal.   “Tínhamos 14 bocas de auto-falantes. E a gente conversava com os moradores, não tinha poste de cimento”,  explica  Brandão.   Ex-coordenadora da rádio, Aline conta que seu interesse por ela decorria da importância de se desenvolver mecanismos   de   comunicação   na   comunidade.   “Nessa   época de corneta era interessante porque o pessoal trazia o vinil para tocar. Formava fila aqui  na  rua.  Perdia  o   papagaio,  a  gente   falava:  ‘perdeu  o  papagaio  da   dona  Maria’”.  A   criação da rádio foi também importante no processo de consolidação dos núcleos da associação, por possibilitar maior   divulgação   das   reuniões.   “Todo   mundo   vinha   aqui,   falava,  comunicava”. Os locutores, com duas exceções, apontam atividades relacionadas ao lazer como motivação principal para entrar na rádio. Atualmente, a programação possui duas grades distintas e fixas: uma para os finais de semana, outra referente aos cinco dias da semana. De segunda a sexta-feira, são realizados sete programas com músicas de estilos variados. Há uma programação de uma hora, noticiosa, e a transmissão de A Voz do Brasil. Aos fins-de-semana são oito programas, com músicas de estilos variados. A programação musical, portanto, tem centralidade, mas as relações de troca entre pessoas e espaço, que possui historicidade própria, a todo momento se refaz, tornam-no repositário de distintas e ao mesmo tempo convergentes expectativas. As pessoas que nele buscaram o entretenimento acreditam que a legitimidade do exercício do direito à comunicação reside na adjetivação da rádio enquanto comunitária, portanto atribuem a ela  a  importância  de  “prestar  serviço”.   Nessa dinâmica que perpassa consumo de produto cultural e o lutar por anseios sociais, fraturas e oposições entre aquele grupo social e classes dominantes se explicitam, de modo que em meio a padronizações de gostos musicais, por exemplo, conservam-se   “certos   valores   – espontaneidade, capacidade para diversão e lealdade mútua”   (Thompson, 1987, p. 61). Assim compõem-se os momentos de diversão no 9


território como um todo e na rádio: pela conservação e contestação da ordem. Na caracterização da rádio, ganham relevância não apenas as ações que nela se dão e expectativas por ela geradas, mas a relação do espaço com as dinâmicas dos tempos sociais daquele território. No campo da saúde, locutores, ouvintes e militantes da UNAS se valem da emissora para abordar problemas relacionados à atenção primária na região. Mas a relação entre comunicação e saúde está presente na programação majoritariamente pela lógica de utilização do meio de   comunicação   para   “educação   em   saúde”. Há vinhetas disponibilizadas pelo Ministério da Saúde acerca, por exemplo, da prevenção ao vírus H1N1. E eventualmente organizações não-governamentais distribuem material informativo relacionado a questões de saúde, com destaque às Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST). O tema já ganhou programação própria na rádio, de meia hora semanal. Quando questionados sobre a relação entre saúde e a rádio comunitária, os locutores Leandro, Balza, Fábio, Guilherme e Thiago dão ênfase a este programa, que se chamava DST/AIDS – Nas ondas do Rádio. Além das informações sobre prevenção, a equipe responsável realizava exames na própria emissora e distribuía preservativos. O trabalho resultou   de   parceria   entre   a   rádio   e   um   “posto   de   saúde”   da   região   do   Ipiranga.   “Era   muito   importante   para   a   rádio   e   a   comunidade”,   mas   a   Prefeitura   cortou   a   verba   de   transporte   da   equipe   parceira   e   desde   então   não   existe   a   programação.   “Hoje   a   gente   está em conversa para ver se consegue alguma verba   para  disponibilizar  o  transporte”,   explica Balza, atual coordenador da emissora. Ele afirma que a rádio tentará se mobilizar para voltar a tratar da temática, apesar de todos os programas, de alguma forma, falarem de saúde, valendo-se de vinhetas disponíveis na Internet. Conta que a emissora, além desta programação específica, já se mobilizou  em  “questões  de  campanha”,  como  de  prevenção  à  dengue.   E é esta lógica de propagação de valores e normas pelo sistema de saúde para a população que prevalece na produção acadêmica que relaciona radiocomunicação comunitária e saúde. A aproximação, por pessoas e instituições do campo da saúde, das rádios comunitárias se dá por ações, na acepção habermasiana, instrumentais, na medida em que se fundamentam em processos de emissão de enunciados pelo sistema de saúde ou pela comunidade científica a um público específico (este tipo de abordagem está presente em: Bianco, 2000, Gallo, 2001, Figueiredo & Ayres, 2002, Matos et al, 2007,

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Jurberg e Macchiute, 2007, Prado, 2007, Matos et al, 2009, Gallo & Espírito Santo, 2009). Ressalta-se o   uso   da   rádio   como   instrumento   para   “divulgação   científica”   e   disponibilização de informações, ou mesmo de educação para a participação social. A importância destas ações proporcionadas pela interação entre órgãos administrativos do Estado, organizações não-governamentais e pesquisadores do campo da saúde com as rádios reside fundamentalmente na disponibilização de informações que tornam possível uma melhor fundamentação das escolhas racionalmente motivadas, e isso é reafirmado por locutores e ouvintes de Heliópolis. Tal processo remonta à lógica da medicina preventiva, que desde seu surgimento propunha uma nova forma de atuação a ser adotada por médicos, para que pudessem garantir a preservação da saúde das pessoas na totalidade das dimensões de suas vidas (Arouca, 2003). Tratava-se de uma nova atitude profissional para propiciar melhoria na qualidade de vida das pessoas, por uma ampliação do conceito de saúde para além de ausência de doença. Atribuir   tal   função   ao   médico,   no   entanto,   o   faz   “livre   das   determinações”,  e  o  coloca  como  um  indivíduo  com  a  possibilidade  de  instaurar  “novas   relações sociais; em que as atitudes educacionalmente formadas transformam as relações sociais; em que estas são determinadas pelos homens e por cada um em particular”   (Arouca, 2003, p. 173). Assim, as relações sociais são desprovidas de sua historicidade e descontextualizadas socialmente. Nos anos recentes, pela proposta de extensão de tais funções do médico a um conjunto maior de profissionais, a promoção da saúde, valendo-se da difusão de conhecimentos   científicos   de   diferentes   áreas,   “se   estabelece   como   a   suprema   autoridade sobre o que é bom ou mal para a saúde de cada um e para a própria existência humana, fazendo da noção de risco em saúde o epicentro em torno do qual gravitam as normas de conduta que prescreve”  (Nogueira, 2003, p. 178). Pela sistematização dos resultados de pesquisas científicas e tradução destas ao público   leigo,   a   medicina   promotora   “defende e difunde essas normas que passam a influenciar decisivamente o que devem ou não fazer as pessoas, sejam estas pacientes da medicina  ou  simples  leitores  de  jornais  ou  usuários  da  internet”.  Justamente  para  isso,  se   vale dos meios de comunicação de massa ou destinados a públicos específicos, na concepção instrumental do meio de comunicação.

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A medicina promotora busca promover novas atitudes perante a saúde de maneira generalizada na sociedade, e não apenas mudar o comportamento do médico. Em certo sentido, essa é uma forma de medicina que dispensa a figura do médico, porque seus objetivos dependem nada mais do que uma adequada utilização dos canais de comunicação de massa e de alguns meios tecnológicos de educação para a saúde (Nogueira, 2003, p. 178).

É neste cenário que se expressam, nos serviços e meios de comunicação, as “ações educativas extremamente normatizadoras e centradas apenas na inculcação de hábitos individuais  considerados  saudáveis”  (Vasconcelos, 2004, p. 77). A medicina promotora é, assim, forma de  expressão  “dos  interesses  dos  grupos  sociais  dominantes  na  política  e   na  economia”,  que   pela  perspectiva  liberal   enfatizam  “a  liberdade   e  a   capacidade   de  o   indivíduo controlar os eventos que influenciam sua vida, sendo ele, assim, o grande responsável   pelo   próprio   sucesso   ou   fracasso”.   A   saúde   se   torna   um   “bem   que   se   compra  e  vende,  se  escolhe  ou  rejeita  com  base  em  opções  individuais”  e  sua  promoção   significa   “ajudar   os   indivíduos   a   fazer   mudanças   no   estilo   próprio   de   vida”   (Vasconcelos, 1999, p. 75). Ainda que haja a busca por legitimar tais ações por discursos que remontem a fatores sociais envolvidos, estes são apenas referência, mero envoltório de uma operacionalização que tem centralidade nos comportamentos individuais. É a mitificação do social (Barthes, 1972), que tem seu sentido reduzido pela deformação do conceito resultante das ações efetivamente operadas.

Esta proposta de promoção da saúde é orientada pelos estudos epidemiológicos que buscam identificar fatores de risco que estejam associados com os problemas de saúde. Mas os fatores de risco pesquisados são, em geral, comportamentos capazes de ser alterados individualmente. Para o profissional, formado numa perspectiva positivista e, portanto, buscando orientar sua atuação em ações que tenham eficácia comprovada estatisticamente, há poucas opções legitimadas pela ciência além de buscar alterar os comportamentos individuais identificados como fatores de risco (Vasconcelos, 1999, p. 76).

Esta centralidade no comportamento individual decorre da moldura que condiciona a  ação   social   e   exerce  uma  “manipulação  refinada”   do  reconhecimento   das   necessidades existentes. Ainda que os determinantes sociais da saúde e da doença em regiões como Heliópolis tenham relação direta com o mundo do trabalho e condições de moradia, por exemplo, o único programa específico sobre saúde de que pessoas ligadas 12


ao sistema de saúde participavam tratava das DSTs/AIDS. A programação é importante e valorizada pela população (não se trata aqui de refutar ações deste tipo), mas resulta da geração, pelo sistema, de demandas a que existem respostas sistêmicas previamente definidas. No entanto, o processo de associativismo por que os diferentes sujeitos passam naquele território erige-se no reconhecimento e construção sociais de necessidades comuns e na decorrente resistência a um mundo expresso em termos de escassez, o que remonta não apenas a serviços, mas a condições sociais, políticas e econômicas de existência. As práticas  que  “integram  a  totalidade   do   social”   são objetivadas em ações políticas. Isto se expressa quando Ester diferencia os diferentes momentos históricos de atuação.  Nos  anos  1980,  afirma,  “era só casa, casa, casa... Em 1990, a gente percebe que só   a   casa   mais   já   não   corresponde”.   Passam   a   “perceber”   que   “precisavam   lutar   por   outras  coisas”,  como equipamentos culturais, de educação e saúde. Também   diz   Lia   que   “as   coisas   estavam   tão   vinculadas   à   questão   da   saúde   e   à   vida da comunidade, do povo, que quando a gente discutia moradia não dava para discutir moradia   se   não   falasse   de   saúde”.   Ela   explica   que   a   cobrança   da   responsabilidade do poder público na garantia de moradia digna a todas as pessoas passa  a  também  significar  que  “a  saúde  tem  que  funcionar”. Durante   “um   longo   tempo”,   Lia   participou   de   “um   grupo   de   saúde”,   representando   Heliópolis   em   fóruns,   tanto   regionais   quanto   municipais.   “Em   88   já   participava   das   manifestações   na   cidade”.   Uma   das   questões   debatidas   era   “a   do   saneamento   básico”,   pois   se   relacionava   ao   “que   estava   afetando   mais   as   nossas   crianças  na  comunidade  sobre  as  doenças  que  existiam”.  E este debate surge a partir de uma   “parceria”   com   uma   “médica   muito   preocupada,   sanitarista,   com   essa   questão   da   mortalidade   infantil”,   pois   a   população   local   precisava   “ter   claro   o   porquê   da   mortalidade, e quando faz um pequeno levantamento percebe que uma das questões era o  saneamento  básico  que  a  gente  não  tinha”.

As crianças conviviam com a contaminação das próprias fossas, esgoto aberto, e era assim, muitas diarréias, chegou a ter problema de cólera na época. E a partir de que a gente descobriu, fizemos esse levantamento, fizemos documento e fomos questionar isso ao poder público: olha, acho que é mais fácil trabalhar prevenção que trabalhar doença, e chamamos até a Prefeitura e falamos: o problema é este. E a gente precisa denunciar tudo isso, e começa toda essa luta, não está desvinculada uma coisa da outra. A moradia é a mesma coisa. Por exemplo, há muitos anos quando discute questão das áreas de risco, os 13


barracos em cima dos córregos, famílias convivendo com ratos, problema grave que ainda tem com nossas crianças, a partir de tudo isso, a gente começa a fazer todo esse levantamento, e vai ao poder público dizer que não pode numa cidade como São Paulo uma criança sendo contaminada com xixi de rato. (Lia)

E Lia se valeu da rádio para este trabalho. “O  levantamento  que  a  gente  fazia  era   discutido na rádio com o povo. Se não fizesse esse trabalho, o povo não ia entender e se unir  para  lutar  por  esse  direito”.  Hoje ganha destaque a mobilização relacionada à coleta de lixo, que se dá pela organização de dias e locais de depósito dos dejetos nas calçadas. Há também ações pontuais e igualmente fundamentais. Uma liderança local, Marcinha, conta que recentemente organizou a retirada de entulhos de um ponto  da  Estrada  das  Lágrimas.  “Ali  era  um  lixo  muito  grande”.  Órgãos administrativos do Estado não conseguiam evitar o acúmulo de lixo no local. Marcinha passou então a conversar com diferentes pessoas, dentre comerciantes, lideranças populares e moradores, e iniciou uma articulação para tentar resolver o problema. “Comecei   a   ficar   lá   na   rua   conversando   com   os   carroceiros,   falando   que   não   era   mais   para  jogar.  Eles  começaram  a  implicar  comigo,  porque  ali  era  o  ganha  pão  deles”.   O fato de o lixo estar em frente a uma escola infantil, atrair ratos para o “parquinho  das  crianças” e a proximidade do local com uma Unidade Básica de Saúde (UBS) foram os argumentos de Marcinha para que os carroceiros atendessem seu pedido. “Aí entrei em contato com a Sub-Prefeitura, procurei saber quem era o responsável”.   No   entanto,   Sub-Prefeitura, escola e UBS não se responsabilizaram. “Todo  mundo  falava  que  eu  não  ia  conseguir,  porque  ninguém  tinha  conseguido”. O desestímulo vindo dos órgãos administrativos, que deveriam assumir a responsabilidade pela limpeza da região, não impediu Marcinha de continuar com sua atuação. A empresa responsável pela retirada do lixo fez, por insistência dela, uma limpeza   no   local.   “Falei:   quero   que   você   mande   todos   os   caminhões   que   forem   necessários para tirar tudo, quero que você zere e deixe limpo, porque aí vou tomar conta.   Já   falei   com   os   moradores,   já   articulei   para   não   vir”.   Hoje,   a   questão   está   resolvida. E nesse processo, a rádio foi utilizada para denunciar a situação e pedir às pessoas que não mais jogassem lixo no local. Um dos locutores que se envolvem constantemente com a questão é Carlos. Ele conta   que   pessoas   jogavam   lixo   em   frente   a   uma   creche.   “Era   problema   da   SubPrefeitura, porque estavam tirando as casas, reformando, mas eles não colocavam 14


caçamba para a pessoa colocar o lixo. O material que sobrava era colocado ao lado da creche”. No   local,   havia   também   animais   mortos,   mas   a   instituição   de   ensino   não   conseguia  fazer  com  que  alguém  se  responsabilizasse  pela  retirada  dos  dejetos.  “Fomos lá, fizemos reportagem, manifesto na rua e com dois, três dias, a Sub-Prefeitura mandou a  lixeira,  as  caçambas  e  tirou  tudo”. O conjunto de ações políticas e sociais engendradas em ambos os casos se deu em um contexto de negação, pelo Poder Público, de necessidades sociais. Como parte desse processo, a rádio comunitária, pela divulgação, produção de informações e por fazer parte de um trabalho organizativo, se mostrou como espaço propício para a construção histórica de necessidades sociais em sua relação com a saúde, e também para a articulação e mobilização de sujeitos e coletividades pela efetivação deste direito e construção de relações entre moradores, agentes públicos, entidades, empresas prestadoras de serviço e órgãos administrativos do poder público. É a rádio enquanto parte da dinâmica social, e objetivada para fins políticos durante processos organizativos de transformação do território onde está inserida. E para além de explicitar anseios e carências, uma rádio comunitária deve corresponder à expectativa social decorrente do processo de sua legitimação: é sua função   “prestar   serviço”.   Com   isso,   locutores   se   envolvem   nas   ações   coletivas   de   enfrentamento a mecanismos de coerção e exclusão sociais na perspectiva de transformação da realidade. Na cobrança direta que passa a realizar frente àqueles que deveriam assumir a responsabilidade pela resolução de problemas locais, a rádio se afirma como espaço de mobilização de sujeitos articulados em torno de objetivos comuns. A importância da radiocomunicação comunitária na saúde vai, nesse sentido, muito além da possibilidade de transformação de comportamentos individuais. A rádio se torna parte de uma cadeia de ações coletivas e ainda promove enfrentamento político com aqueles que se omitiram no exercício de sua responsabilidade, nos casos referidos, órgãos da administração municipal. A luta pelo direito à saúde via rádio comunitária se insere em contexto em que a organização coletiva em torno da emergência de necessidades sociais se dá por espaços e ações sociais instituintes e instituídos. Tais processos apontam para a possibilidade de se construir ações políticas e culturais por formas diferenciadas na resistência à dominação política, econômica e social. O estabelecimento de laços sociais de solidariedade ganha sentido político nessa dinâmica entre contingência e resistência. Nela inserida, a rádio comunitária se caracteriza enquanto espaço de participação social. 15


4 - Conclusão Para caminhar no sentido da concretização do projeto da Reforma Sanitária pela ampliação das bases sociais de seu movimento, é necessário um processo de mudança social que não se esgota na implementação do SUS, mas tem como horizonte a democratização radical da sociedade e do Estado. Com a redução progressiva do processo reformista a um sistema conformado no interior de uma estrutura estatal patrimonialista, cartorial e fundada pela desigualdade social, há a tendência de se reforçar a seletividade estrutural do Estado capitalista. A transformação desta realidade é conformada por processos políticos, culturais e em relações sociais erigidas sobre laços sociais de solidariedade, que se inserem em uma dinâmica entre determinações econômico-sociais e afirmação da autonomia. É por espaços como uma rádio comunitária, formativos dessas relações, que se podem construir as contra-instituições que possibilitarão um advir democratizante da saúde, do Estado e da sociedade. 5 – Referências Arouca, A. S. (2003). O dilema preventista: contribuição para a compreensão e crítica da Medicina Preventiva. São Paulo: UNESP; Rio de Janeiro: Editora Fiocruz. Barthes, R. (1972). Mitologias. São Paulo: Difusão Européia do Livro. Bianco, N. R. (2000). Rádio a serviço da comunidade. Comunicação & Educação, 18, 22 -35. Carvalho, A. I. (1997). Conselhos de saúde, responsabilidade pública e cidadania: a reforma sanitária como reforma de Estado. In: Fleury, S. M. (Ed.) Saúde e democracia: a luta do Cebes. Lemos. Coelho, V. S. (2004). Conselhos de saúde enquanto instituições políticas: o que está faltando? In: Coelho, V. S., & Nobre, M. Participação e Deliberação: Teoria Democrática e Experiências Institucionais no Brasil Contemporâneo. São Paulo: Editora 34, pp. 255-69. Côrtes, S. M. V. (Org.). (2009a). Participação e saúde no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz. _________. (2009b). Conselhos e conferências de saúde: papel institucional e mudança nas relações entre Estado e sociedade. In: Fleury, S., & Lobato, L. V. C. (Orgs.) Participação, democracia e saúde. Rio de Janeiro: Cebes.

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Dra. Susana Fernández Carral, Prof. Viviana Anahí Villa Universidad Nacional de La Plata Argentina observatoriocys@perio.unlp.edu.ar GT 5- Comunicación y Salud

Resumen: “Embarazo Adolescente:   Observación sobre el tratamiento periodístico- informativo gráfico”. El Observatorio de Comunicación y Salud, de la Facultad de Periodismo y Comunicación Social, de la Universidad Nacional de La Plata (Argentina) ha relevado, sistematizado y analizado el comportamiento y tratamiento periodístico- informativo sobre   el   contenido   “Embarazo   Adolescente”   en   el   corpus   original –soporte papel- de dos medios gráficos: el diario de producción local “El   Día”   y el matutino de tirada nacional “Página/  12”  durante  el año 2010. Dicho estudio se llevó adelante en el marco del desarrollo del proyecto de Voluntariado Universitario   denominado   “Comunicación   y   Salud   en   la   Escuela”   ejecutado   conjuntamente con la Especialización en Comunicación y Salud –de la Unidad Académica nombrada  y  la  Organización  no  Gubernamental  “Médicos  en  Prevención”.     Este trabajo se ocupó de observar las noticias -categorizadas como destacadas y medianamente destacadas- a fin de indagar sobre: la inclusión de la temática mencionada y su tratamiento particular, sus títulos, los contenidos generales y específicos abordados, las asociaciones temáticas que los medios presentaban, las fuentes informativas y el tratamiento fotográfico e infografico. El objetivo se concentró en evidenciar procesos de producción de sentido en torno al tema anunciado, los sujetos de salud, los actores y referentes inmediatos mencionados y el sistema sanitario. La construcción de la noticia, siempre subjetiva e interesada enmarca saberes y valoraciones que se manifiestan, se niegan ó se sancionan entre otras tantas posibilidades. A partir del análisis del discurso con una perspectiva critico-propositiva, este trabajo pretende dar cuenta de la multiplicidad y complejidad de sentidos que encierran los enunciados de la prensa. El rol de los periodistas y medios de comunicación en torno al ejercicio de la Comunicación y la Salud posibilitan investigar modos de construir concepciones en torno al embarazo adolescente en particular, pero sobre todo son una parcial muestra para comprender la salud como una construcción social. Entendemos que las problemáticas sociales acompañan los procesos de significación y – en consecuencia- el discurso debe analizarse en su relación con las instituciones y las instancias histórico-sociales que le otorgan sentido a su existencia. Son decisiones, selección de voces, de datos, jerarquización, omisiones y presencias textuales y paratexuales las que encierran y visibilizan diferentes sesgos políticoideológicos. El debate en torno al aborto, el acceso al sistema de salud, los derechos sexuales y reproductivos, la educación, los contextos económicos e institucionales se ponen en escena de mano de espacios informativos que atienden a lógicas de


producción particulares. Consecuentemente, la observación arrojará conclusiones sobre posicionamientos editoriales. El análisis propuesto por el Observatorio de Comunicación y Salud aspira a producir conocimiento y a comprometerse en prácticas profesionales que contribuyan a fortalecer los grupos sociales más vulnerables, apelando mediante la descripción y análisis del comportamiento mediático a la explicación de las mediaciones de poder que se manifiestan en las publicaciones periodísticas. “Embarazo Adolescente:   Observación   sobre   el   tratamiento   periodísticoinformativo  gráfico”. Marcos y Dimensiones para observar “Embarazo  Adolescente”   Se denomina embarazo en adolescentes al que ocurre durante la adolescencia de la madre, definida esta última por la Organización Mundial de la Salud (OMS) como el lapso de vida transcurrido entre los 10 y 19 años de edad. También se suele designar como embarazo precoz, en atención a que se presenta antes de que la madre haya alcanzado la suficiente madurez emocional para asumir la compleja tarea de la maternidad. Este, también es considerado embarazo de riesgo, ya que es la principal causa de mortalidad de jóvenes, ya sea por complicaciones del parto o debido a abortos producidos en condiciones de inseguridad. Cabe  aclarar,  que  actualmente  está  en  revisión  el  concepto  “embarazo  adolescente”,  ya   que no considera al varón en la vinculación al fenómeno. En tanto, el nuevo modelo se refiere  a  “maternidad  y  paternidad  adolescentes”.   Según,  Edith  Alejandra  Pantelides  y  Georgina  Binstock  “el  límite  superior  es  la  edad  de   19 años, pero   el   límite   inferior   es   menos   claro” (Pantelides y Binstock, 2007). Las comparaciones internacionales casi siempre se limitan al grupo de 15 a 19 años, pero eso deja afuera a una parte del fenómeno, que si bien no suele ser cuantitativamente importante en la Argentina, lo es por motivos de orden social y de salud, incluida la salud mental. En los primeros años del siglo que estamos viviendo, la tasa de fecundidad de las mujeres de entre 15 a 19 años en la Argentina –con un valor de alrededor de 60 por milse sitúa por encima del promedio mundial, estimado en 49,7 por mil para el período 2000-2005, pero por debajo de la media para América Latina y el Caribe que es de 72,4 por mil (Naciones Unidas, 2003).


El Observatorio de Comunicación y Salud (OCyS) comprende el “Embarazo Adolescente”  no  tan  sólo  como  una  variable  estadística  y  una  categoría  de  análisis  sino   como una construcción social, definida por diversos discursos y representaciones sociales que conforman un modo de describir el tiempo-espacio y pronunciarse en relación. Como lo señala María Alicia Gutiérrez, “La   existencia   de   un   sustrato   biológico   compartido universalmente, no autoriza a comprender la dimensión del cuerpo con criterios universalistas. Uno de los ejemplos más interesantes que se ha trabajado desde la antropología y la historia es la noción  del  instinto  “natural”  de  la  maternidad,  que  se   juega  en  el  cuerpo  de  las  mujeres” (Gutiérrez, 2011). Rosa Entel, agrega a la comprensión de este entramado de representaciones la existencia de limites y condicionantes que dependen de mandatos sociales (Entel, 2002). “Enfrentar  la  maternidad  en  la  adolescencia,  en  especial  si  el  hijo  no  ha  sido  planeado  ni   deseado, es un desafío para la joven mujer que pasa por esa experiencia. La crianza y el cuidado del hijo, el sostén afectivo y económico que requiere, la adaptación a una pareja, generalmente reciente, son exigencias que se le presentan junto a otras como su desarrollo   personal   y   laboral,   su   participación   social,   etc.” (Climent, 2003). Estás exigencias también se corresponden con lo esperado o demandado por la cultura. Vale  anunciar   que  “la  variabilidad   de  los  papeles  “propios”  de  la  mujer y del varón en diferentes culturas y pueblos, muestra que lo que se atribuye a la naturaleza femenina y masculina, se explica por factores culturales más que por factores biológicos y genéticos asociados   al   sexo” (Fainholc, 1993). Es decir, se trata de un proceso comunicacional que genera identidades, sentidos y valoraciones. Cuando  nos  referimos  a  “Adolescentes”  asistimos  a  una  etapa  particular  de  la  vida,  con   indefiniciones y conflictos propios, pero también atravesado por la construcción social de expectativas, críticas y debates procedentes del contexto adulto y de las instituciones que transitan los adolescentes.    “La  vinculación  que  mantienen  los  adolescentes  con  los   contenidos mediáticos, la escuela y la familia, constituyen ámbitos que permiten comprender –en general- la forma en que se edifica el ser adolescente y la expresión o abordaje de la sexualidad” (Valero, 2007).


Embarazo Adolescente en el  Diario  “El  Día” El OCyS,  relevó,   sistematizó   y  analizó  la  presencia  del  tema  “Embarazo   Adolescente”   durante el año 2010 sobre las publicaciones en soporte papel correspondientes al diario de la ciudad de La  Plata  “El  Día”  y  al  diario  de  tirada  nacional  “Página/  12”. El corpus observado se constituyó por noticias categorizadas como destacadas o medianamente destacadas1. Cabe   indicar   que   el   diario   “EL   Día”   le   otorgó   a   la   construcción   de   la   noticia   sobre   la   temática   “embarazo   adolescente”   un   lugar   importante:   titulo   en   tapa,   desarrollo   informativo a doble página, ubicación en página de numeración impar y una extensión superior a la mitad de página según el caso correspondiente. Pero, se trata de un conjunto temático de noticias, de escasa ó nula sostenibilidad temporal. Los títulos de las noticias principales se corresponden a construcciones informativas referidas a la magnitud del tema ó problema que trata la noticia. El titulo informativo es la condensación   de   la   noticia.   “El   periodista   los   compone   pensando que el lector puede no tener tiempo para leer la información completa, y con la sola lectura del título puede hacerse una clara idea de los hechos que se recogen en el cuerpo  informativo”  ( López, H. 2009). En tanto, referirse al tema desde la perspectiva de magnitud en sus títulos comunica un posicionamiento particular del medio, regido por los datos. Algunos de los títulos registrados son: “Madres  adolescentes.  Sólo  3 de  cada  10  termina  la  escuela” (Tapa, 02/05/2010), “El  80  %  no  se  cuida  en  su  primera  vez”  (Pág.  16  y17.  Sección  “Información  General”,   24/05/2010) y  “El  15  %  de  bebés  nacidos  en  el  país  son  de  madres  adolescentes” (Pág. 23,  Sección  “Información  General”,  24/09/2010).

1

El Observatorio de Comunicación y Salud de la Facultad de Periodismo y Comunicación Social U.N.L.P. considera que una noticia ha  sido  “Destacada”  si tiene presencia en tapa, presenta su desarrollo informativo en el primer tercio del cuerpo del diario y cuenta con una o más páginas para su tratamiento. Se considera que una noticia ha sido “Medianamente   Destacada”   si tiene presencia en el primer o segundo tercio del cuerpo del diario y cuenta con un despliegue de más de mitad de página.


Contexto y Embarazo Adolescente A

partir

de

la

elección

de

la

fuente

testimonial,

el

medio

construye

comunicacionalmente una relación entre contexto socio-geográfico y embarazo adolescente. La escasez de oportunidades, las limitaciones y dificultades socio-económicas que plantea el tratamiento periodístico se pone en relación a deserción escolar. El hilo narrativo describe la historia de adolescentes de barrios periféricos, que por haber quedado embarazadas no pudieron seguir con sus estudios. Si bien en la mayoría de los casos el problema afecta mayormente a los adolescentes de menores recursos sociales-educativos y económicos,

no se trata de un fenómeno

exclusivo de dichos sectores. El planteamiento del problema desde los sectores medios a partir de testimonios o consideraciones de informantes claves se encuentra ausente en el tratamiento del tema. Este recorte teñido de discriminación pretende el supuesto de adolescentes exentos de esas problemáticas, cuando en realidad los jóvenes de sectores medios padecen de estas mismas dificultades, pero llegado el caso, disponen de posibilidades de resolución o prevención con los que no cuentan sus pares que viven alejados del micro-centro de la ciudad.

La Salud El medio aborda la cuestión de salud a partir de: A) alusión a la enfermedad, como una limitación o una interrupción que aleja a las adolescentes de su vida habitual, B) el desarrollo del tema prevención asociado al uso inadecuado de métodos anticonceptivos y al no empleo de los mismos como resultado de la conducta sexual adolescente; y C) se ocupa de los rasgos de salud de los gestantes e hijos de madres adolescentes – refiriéndose a los riesgos-. El tema   “Embarazo   adolescente”   no   se   presenta   como   una   noticia   ligada   a   contenidos   estrictamente sanitarios ó médicos, sino que se comunica preponderantemente como un tema de orden social, general.


Responsabilidad La práctica sexual del adolescente se asocia a: imprevisión, omnipotencia propia de la edad e irresponsabilidad. El término “responsabilidad” atraviesa casi todo el texto en un intento por definir deberes y obligaciones. La respuesta –de lo que se evalúa del cuerpo informativo- debería ser de los adultos, quiénes deben brindar información, orientación y revalorizar la sexualidad. En el medio gráfico se señala que de los agentes dedicados a la gestión política vinculada a Educación se espera una mayor respuesta sobre esta cuestión. Las expresiones que se manifiestan en el texto, se pronuncian demandando por dos cuestiones: educación preventiva e inclusión. Para ello, se requiere de la ejecución de la ley de Educación Sexual Obligatoria y de proyectos de inclusión educativa destinados a adolescentes madres o embarazadas.

Madres Adolescentes En general, el contenido y el tratamiento se relacionan directamente a la referencia “madre adolescente”  con  lo  cual  podemos  afirmar  que  se  da  un  tratamiento   “femenino” de la temática de comunicación y salud, donde se destaca la figura, el rol y el relato de la  adolescente  “mujer”    cursando  el  embarazo  o  tras  el  nacimiento  de  su hijo. Los títulos, el contenido del cuerpo principal del texto noticioso y el tratamiento fotográfico e infográfico destacan la condición de mujer-madre.

Texto noticioso y Fuentes Informativas La información tiene como eje central los testimonios de adolescentes, quienes a partir de la experiencia dan cuenta de su situación, la realidad familiar, el contexto social, las dificultades o limitaciones que se originaron con el embarazo y sus expectativas. Para Alfredo Serra y Edgardo Ritacco, autores de “Curso de  periodismo  escrito” (Serra y Ritacco, 2005), las fuentes testimoniales en la producción de noticias son un aporte insustituible de veracidad informativa. La noticia con este tipo de fuentes posibilita al lector establecer una percepción de mayor proximidad –que generalmente deviene en credibilidad-, la subjetividad creada a partir de la reproducción de las propias expresiones de sus protagonistas acorta la distancia y busca interpelar al receptor.


A partir de la presentación de un caso, el tratamiento informativo ofrece datos de carácter cuantitativos y abordajes analíticos de fuentes acreditadas. Sólo, en un caso en el cual la noticia parte de la presentación de un informe de sociedades científicas no se comienza con el testimonio de una adolescente, sino de datos documentados para luego complementar la información con la consulta a otras fuentes acreditadas2. Se analizaron un total de veintitrés fuentes informativas en el corpus de estudio. De éstas, ocho se corresponden a Fuentes Testimoniales: cinco mujeres adolescentes – madres o embarazadas-, un varón adolescente padre, una mujer adulta madre de una adolescente embarazada y una mujer adulta -suegra de una adolescente. Las restantes quince se corresponden a Fuentes Acreditadas. De los rasgos de las fuentes se observa un importante porcentaje de consultas a fuentes testimoniales y acreditadas locales, con una menor mención a fuentes de orden internacional. Las fuentes informativas guardan una relación equilibrada en referencia a la diversidad consultada

Tratamiento Fotográfico e infográfico

2

El Observatorio   de   Comunicación   y   Salud   U.N.L.P.   considera   “Fuente   Acreditada” a la fuente (personal, institucional o documental) que legítimamente ofrece información de carácter oficial, representa a una institución, organismo, organización o sus entidades dependientes; como así también considerará Fuente Acreditada a quien se pronuncie responsablemente teniendo crédito para expresarse por ser el contenido informativo materia de su formación y desempeño profesional.


Las fotos muestran a las adolescentes que brindaron su testimonio en cada caso. Cuando se ilustra la noticia que no cuenta con la fuente testimonial se acude a la publicación de una foto de archivo de similares características. Las embarazadas aparecen de frente o de perfil, destacándose el estado avanzado de la gestación, en la mayoría de los casos las manos de las adolescentes se sitúan sobre la panza en un gesto de caricia o contención o bien- generalmente -se presentó a las madres con sus hijos en brazos. La infografía cuenta con las mismas características, se trata de figuras femeninas embarazadas, iconos de perfil. El registro fotográfico e infográfico no incluye presencia masculina de ningún tipo. Las adolescentes están solas o sólo acompañadas por sus hijos.

Las variaciones tipográficas y de diagramación o disposición de texto y gráfica en la página son decisiones morfológicas que el medio periodístico-informativo asume al momento de definir la construcción visual que presentará a sus lectores. Entendiendo que estos aspectos constituyen un ordenador guía que le interesa al medio propiciar como complemento de la comprensión del texto, desde la observación se concluye que el diario  “El  Día”  presenta  una  construcción  paratextual (Genette, 1987) que refuerza el contenido del texto principal y destaca la producción de sentidos ligados a la femeneización del tratamiento temático.

Embarazo Adolescente en Página/12 Algunos de los títulos fueron: “Mi hija  tiene  derecho  a  abortar”  (Pág.  18  y  19,  Sección   “Sociedad”,  19/02/2010).  Esta  noticia  tiene  presencia  en  tapa  con  el  titulo  “El  aborto  no   es un capricho”   y   en   su   interior   se   la   observa   acompañada   por   una   nota   de   opinión  


titulada “Sin   libertad   para   decidir”.   Esta   última   le   pertenece   a   la   psicóloga   y   escritora   Liliana Mizrahi. “El   derecho   humano   de   la   decisión”   (Pág.22 Sección   “Sociedad”,   09/05/2010), “Maternidad   y   Paternidad   adolescentes”   (Pág.   36,   Sección   “Psicología”   24/06/2010).

Las voces de la noticia A diferencia   del   empleo   de   fuentes   que   realiza   el   diario   “El   Día”,   en   el   matutino   “Página/12”  en   ningún   caso   de   los  analizados   se  presentan   expresiones procedentes de adolescentes embarazadas o adolescentes luego del nacimiento de sus hijos. Las voces del texto mayoritariamente tienen su origen en fuentes denominadas especializadas por el medio y clasificadas como fuentes acreditadas por el Observatorio de Comunicación y Salud. Sólo para la  noticia  publicada  bajo   el  titulo  “Mi   hija  tiene   derecho  a  abortar”,   publicada el día 19 de Febrero de 2010, se elige hacer eje en los enunciados de una fuente testimonial. Se trata de la voz de Aurora Luisa Fuentes, madre de una adolescente de 15 años, de Comodoro Rivadavia, que reclama un aborto no punible.

Los títulos “Mi hija   tiene   derecho   a   abortar” se trata de un titulo en forma de cita textual. El enunciado pertenece a una expresión de la fuente testimonial, con esta decisión, de alguna manera el medio posiciona un discurso particular, es una decisión que pone de manifiesto las pretensiones informativas del diario. Como lo recuerdan Armentia y Caminos “De  entre  todas  las  declaraciones  posibles  el  redactor  selecciona aquella que considera   más   interesante   y   noticiosa   para   el   texto   informativo   que   desea   elaborar” (Armentia y Caminos, 1998). Asimismo, muestra qué protagonista es considerado más importante y creíble para ser citado en relación con la noticia. En tanto, el titulo “El   derecho   humano   de   la   decisión”, podría definirse según la clasificación de Alarcos Llorach como un titulo Incompleto o implícito ya que se limita a una parte de la noticia (Alarcos, 1977). Este titulo netamente subjetivo busca llamar la atención al lector e introducirlo en una noticia que da cuenta de las conclusiones abordadas en el V Congreso Latinoamericano de Derechos Sexuales y Reproductivos, donde se reafirmó que los derechos mencionados son Derechos Humanos.


El término   “decisión”   se asocia   a   “elección”   y   la   información   del   titulo   alude   a   la   posibilidad de conseguir que la maternidad no sea una imposición. Asimismo, a partir del  titulo,  la  noticia  también  conduce  al  lector  a  la  asociación  de  la  palabra  “decisión”  a   temas como el aborto y el debate sobre su despenalización. “Maternidad   y  Paternidad  adolescentes” es otro de los títulos analizados. En este caso, el título es temático, según la clasificación de Alarcos Llorach se trata de un titulo Objetivo. La información señala “En la actualidad, la expresión embarazo adolescente está en revisión, por ser incompleta al omitir al padre, un actor importante en la producción del  fenómeno.  El  nuevo  modelo  de  aproximación  al  problema  habla  de  “maternidad  y   paternidad  adolescentes”.  A partir de este enunciado, la noticia se refiere a las causas y consecuencias del embarazo adolescente. Van Dijk invita a reflexionar sobre los titulares y los modos en que un periódico puede interpretar la realidad con su sesgo político-ideológico singular. El autor afirma que la relevancia de una temática determinada por lo que se refiere a las noticias está específicamente marcada en el texto y, en especial, en el titular y las cabeceras que expresan convencionalmente los eventos principales (Van Dijk, 1998). No obstante, ello se efectúa con cierta intersubjetividad porque manifiestan la información más relevante del modelo cognitivo periodístico, es decir, de qué modo el colectivo ve y define un evento noticiable. A la luz de sus aportes observamos que el comportamiento   del   diario   “Pagina/   12”   respecto a sus títulos y el desarrollo del cuerpo informativo en el tratamiento del tema “embarazo   adolescente”   manifiesta   una   mayor   inclinación   por   la   defensa   de   los   derechos sexuales y reproductivos y la despenalización del aborto mientras que el acceso a la educación y la salud en general son temas tratados en segundo orden. Para el diario  “El  Día”  son  prioritarios  el  acceso  a  la  educación  y  la  salud  en  general  y  no  así  la   defensa de los derechos sexuales y reproductivos y la despenalización del aborto. Es importante recordar –como también lo señala Van Dijk- que muy probablemente, salvo que el consumidor del diario disponga de creencias o conocimientos distantes de los que el medio postula, el lector por lo general adoptará las definiciones mediáticas subjetivas de lo que constituye la información importante sobre un evento.


Relación Embarazo Adolescente-Pobreza En la  noticia  publicada  el  9  de  Mayo,  titulada  “El  Derecho  Humano  de  la  Decisión”  se   afirma: “La eliminación  de  los  embarazos  no  deseados  reduce  la  pobreza”. En   el   cuerpo   informativo   correspondiente   al   titulo   “Maternidad   y   paternidad   adolescentes”   se   observa   la   siguiente   enunciación:   “También   debieran   remarcarse,   como causas importantes del embarazo adolescente y sus consecuencias negativas, al contexto  de  pobreza  y  la  falta  de  oportunidades  vitales”.   A partir de la observación efectuada, se puede concluir que la pobreza se presenta como un factor destacado, pero sin jerarquización determinante en “Página/12”,  mientras  que   en el  diario  “El  Día”,  “pobreza”  se  asoció  de  modo  singular  y  reiterado  en  el tratamiento periodístico.

La Demanda El eje  discursivo  del  diario  “Página  /12”  pone  énfasis  en  la  demanda  por  una  legislación   que despenalice el aborto y por políticas de salud sexual y reproductiva. Así, por ejemplo, el medio, elige las expresiones de la abogada Alejandra Cárdenas, del Centro para los Derechos Reproductivos para finalizar una noticia: “Hay  que  poner  las  cosas  claras  para  las  cortes  nacionales: ni el feto ni el cigoto ni el embrión  son  personas  frente  al  derecho  internacional” y agrega: “El  sistema  universal   de  protección  de  derechos  humanos  ha  rechazado  otorgar  “el  derecho  a  la  vida”  desde   el momento de la concepción y ha rechazado una protección absoluta de la vida en gestación…”  (Diario  “Página/12”,  09/05/2010) En  la   noticia  titulada  “Mi   hija  tiene  derecho  a  abortar”,   el   medio   cierra  la   información   diciendo: “Hoy,  con  el  patrocinio  legal  de  la  abogada  Sandra  Grilli  y  el  respaldo  del  Programa Nacional de Salud Sexual y Reproductiva, Fuentes presentará la apelación. Pero los días siguen corriendo y el embarazo avanza. La adolescente, mientras tanto, sufre ensimismada.  Y  desde  el  Estado  nadie  le  da  la  respuesta  que  está  esperando”.  (“Página/   12”,  19/02/2010) Mientras que –mayoritariamente- el  diario  “El  Día”  se  ocupa  de  desarrollar  información   ligada a las consecuencias del embarazo adolescente a nivel social y particularizando


sobre la   deserción   escolar;;   el   diario   “Página/   12”   –en su mayoría- busca profundizar sobre las causas que intervienen en esta problemática (factores políticos-legislativos, practicas sociales, sistema de salud y educación) y de modo particular se ocupa de mencionar  el  tema  “aborto”.

Embarazo Adolescente. Embarazos no deseados En el  diario  “El  Día”  la  práctica  sexual  del  comportamiento  adolescente  que  deviene  en   embarazo se asocia a: imprevisión, omnipotencia propia de la edad e irresponsabilidad. En   cambio,   en   “Página/   12”   –mayoritariamente- se construye un sentido diferente, donde el tema central no es “embarazo adolescente” sino  “embarazos   no  deseados”.   A   partir de esta definición, el medio gráfico ofrece diversas líneas de tratamiento vinculadas a la actualidad sobre la problemática, las alternativas o posibilidades de reducción de la mortalidad materna y el embarazo adolescente. A   pesar   de   que   ambos   medios   mencionen   el   tema   “embarazo   adolescente”   será   importante advertir sus tamices diferentes e implicancias en cada una de las formas del decir que se eligen al momento del tratamiento de contenidos. Cuando   se   hace   referencia   a   “embarazo no deseado”   se   asocia   la   idea   de   una   concepción   “inesperada”,   “impuesta   u   obligada”   o   “inconsciente”   donde   la   pareja,   alguno de sus miembros o bien sujetos que no conformen una pareja no deseen una concepción. Se trata de una categoría amplia, que no se restringe a una edad o etapa etárea.  “Embarazo  no  deseado”  puede  incluir    a  la  categoría  “embarazo  adolescente”.   En   tanto,   en   líneas   generales,   cuando   el   diario   “El   Día”   en   su   tratamiento se refiere a “embarazo  adolescente”   se  acerca  a  la  idea  de   embarazo aceptado, donde el deseo de concepción no es previo al acto sexual, sino que se presenta luego del conocimiento de la concepción misma. En este caso, el deseo tiene relación con la voluntad de darle continuidad a la gestación. Finalmente,   es  valido   señalar   que  “embarazo   no  deseado”   para  “Página/12”  tiene otras implicancias de sentidos, las cuales dependen también del sujeto al cual se refieran, no sólo en relación a su edad, sino a su realidad, circunstancia y creencias filosóficas o religiosas.


La Opinión:  “Niña-Policía- Aborto” Según Sibila Camps y Luis Pazos, la opinión es la interpretación personal que el periodista hace de un hecho o fenómeno determinado. Además, agregan que “aborda  un   hecho o tema de actualidad y es escrita circunstancialmente por cualquier periodista o personalidad especializada en ese tema, ya sea por iniciativa propia o por encargo del medio” (Camps y Pazos, 1996). En la opinión titulada “Sin  libertad para   decidir”, la autora enfatiza su postura y en el texto señala: “Yo creo que habría que atender urgente a esa niña, ayudarla con el trauma de la violación, y sacarla de esta situación-problema-embarazo lo antes posible, restituirla a su adolescencia, tratarla  psicológicamente,  que  vuelva  a  su  vida  anterior.”  (Columna I, Párrafo IV) El  uso  del  “yo”  en  público  deviene  un  uso  comprometido,  arriesgado.  Con  su  uso,  como   lo señalan Tusón y Calsamiglia, el locutor no sólo se responsabiliza del contenido de lo enunciado sino que al mismo tiempo se impone a los demás (Tusón y Calsamiglia, 1999). Para finalizar,   la   inscripción   del   “Yo”   en   el   texto   adopta   otra   forma,   el   locutor se incorpora a un grupo: “Si   esto   se   sigue   repitiendo,   ¿algunas   mujeres   tendremos que capacitarnos profesionalmente para resolver estas cuestiones entre nosotras, separadas del poder patriarcal  depredador  que  se  mediatiza  en  varones  y  mujeres?”   Según se propone, el desafío será una cuestión que deberá asumir un determinado género: el femenino. Por otro lado, del análisis del texto se desprende un sentido particular al momento de referirse a la victima de violación de 15 años, a quien se le niega el aborto no punible. Se la menciona –por lo general- como  “niña”: “La   niña   es   obligada/sometida”,   “Una   niña,   cuya   vida   cambió”,”La   niña   no   puede   decidir”,  “Lo  que  está  viviendo  esta  pobre  niña  debe  ser  terrible,  sórdido”.  


En tanto, cuando la información se refiere a las acciones demandadas por su situación se elige el  término  “adolescencia”:  “…restituirla  a  su  adolescencia”,  “Se  arruina  la  entrada   a  la  adolescencia”.   Sólo en un caso, se usa una expresión vinculada a su realidad de minoridad, pero a partir de un interrogante general: “¿Por  qué  alguien,  que  ni  siguiera  es  mayor  de  edad,   tiene que  obedecer  un  abuso  tan  extremo  y  ultrajante  de  parte  de  los  adultos?”. Decir   “niña”,   “adolescente”   o   “menor”   comunica   sentidos   diferentes.   La   asociación   reiterada  a  “niña”  –en este caso- recrea sentidos ligados a la indefensión, el desamparo. Sobre la figura del padrastro, quien ha sido el ejecutor de la violación se expresa que en esta  sociedad  patriarcal  se  lo  considera  como  “Un  macho  que  se  sacó  el  gusto,  eyaculó  y   se  fue”  y  también  se  indica  “el  violador  está  impune”.  Pero,  lo  que  llama  la  atención es que en el artículo de opinión se elige en reiteradas oportunidades decir:   “El   violadorpadrastro-policía  está  libre”.  Informar  sobre  la  relación  parental  con  la  victima  y  su  rol   profesional carga de valoración crítica los enunciados, aunque en el texto no se profundiza sobre estas particularidades. En tanto, cuando la autora de la opinión se refiere al producto del embarazo decide escoger  la  palabra  “organismo”:   “Ya  ha  sido  objeto  de  abuso,  violación,  y  no  quiere  que  un   organismo crezca dentro de ella  y  le  arruine  la  vida  para  siempre”   Con este término, la opinión se aleja de las posibilidades de connotar la gestación de un embrión. Acompaña la línea periodística observada en el tratamiento de otras noticias relevadas por el OCyS, donde se declara que el sistema universal de protección de derechos   humanos  ha  rechazado   otorgar  ‘el   derecho  a  la  vida’  desde  el   momento   de  la   concepción. Casi al finalizar, Liliana Mizrahi, afirma “No  quiero  hablar  de  aborto.  Quiero  hablar   de   libertad   para   decidir”.   Se trata de una táctica semántica de negación, donde implícitamente se busca mitigar la declaración, en un discurso en que queda clara la adhesión al reclamo del aborto no punible.


Las imágenes fotográficas

En el  caso  de  “Página/  12”,  en  la  noticia  titulada  “El  derecho  humano  de  la  decisión”  la   imagen muestra un cuerpo en una toma que se extiende de la cintura hasta la mitad de las piernas. Se trata de un cuerpo femenino, de apariencia adolescente, cuyas manos ocultan la zona genital en una posición artística. No hay ninguna evidencia de embarazo en curso ni de reciente maternidad adolescente. La imagen se captó a partir de una angulación denominada  “picada”,  la   cual  coloca   la   mirada de la cámara en una posición que busca capturar el momento de arriba hacia abajo. La misma produce un sentido especial en el tratamiento, a los observadores los coloca psicológicamente por encima del sujeto fotografiado, mientras que en este caso, la adolescente desnuda transmite una sensación de inferioridad. La adolescente se presenta sin rostro, de alguna manera el diario con ello busca expresar una identidad anónima, lo cual podría traducirse en una propuesta para el lector, el cual puede libremente completar esa imagen en un ejercicio de proyección o bien el medio comunica que el rostro, la identidad, no es importante por ello omite el rostro priorizando el cuerpo, un cuerpo que le puede pertenecer a cualquier adolescente y no a un tipo en particular. “El  Día”   acude a este recurso en una sola oportunidad, en el caso de la noticia titulada “El  15  %  de  bebés  nacidos  en  el  país  son  de  madres  adolescentes”,  la  cual  hace  mención   a un informe de sociedades científicas sobre la realidad de este fenómeno en el país y no posee declaraciones de adolescentes sino de fuentes acreditadas.


La característica que iguala a las imágenes observadas en ambos medios es la soledad del sujeto fotografiado. A modo de conclusión puede decirse que  mientras  el  diario  “EL   Día”  de  alguna  manera destaca la condición del embarazo/maternidad,  “Página/  12”  nos   comunica la imagen de una adolescente en situación de inferioridad, desprotegida, victima.

Entre el retrato y el desnudo Peter Burke afirma que el retrato es un género que se realiza según un sistema de convenciones que cambian muy lentamente en el tiempo (Burke, 2001). Los objetos presentados junto al sujeto protagonista de la imagen están cargados de significados simbólicos. Tal es el caso de   la   producción   fotográfica   del   diario   “El   Día”,   donde   aparecen imágenes de individuos específicos, reales y únicos. En ellas se pueden observar no sólo su apariencia física, sino también su posición social y cultural. Los fondos muestran construcciones de casas sin terminaciones, casas bajas de barrios, interiores de habitaciones desordenadas, fachadas de instituciones sin grandes estructuras. En   conclusión,   se   ponen   a   la   vista   “personajes”,   es   decir,   sujetos   que   cumplen un rol en su escenario cultural. En   tanto,   en   el   diario   “Página/   12”   la   observación   nos   habla   –sobre todo- de dos aspectos de la imagen: su encuadre y el género. Sabemos que capturar una imagen con la cámara implica seleccionar una parte de la realidad para representarla. Pero, esta decisión también implica definir aquello que quedará afuera. En este caso, el encuadre de la fotografía nos imposibilita conocer el entorno espacial y estético que contextualiza el cuerpo. Figura física y fondo se encuentran casi despojados de información. Por su parte, el cuerpo desnudo, como expresión del arte contemporáneo, muestra el rasgo físico del sujeto y su sentido de vulnerabilidad.

Reflexiones Finales Jesús Martín Barbero, ya ha puesto en discusión el poder de los medios, nos ha invitado a pensar en las instancias de mediación, en donde los medios también son mediados (Barbero, 2003). Con esto, el Observatorio de Comunicación y Salud quiere señalar que la utilización de los medios e interpretación de los mismos no se produce de manera


lineal ni mecánica, sino desde el contexto propio de quien interpreta, desde su cultura y relaciones. Los sujetos se constituyen individual y colectivamente enmarcados en un determinado universo simbólico (Berger y Luckmann, 1997). Un universo simbólico que es la matriz de todos los significados objetivados socialmente y subjetivamente reales. Cabe aclarar que cada expresión, se trata de un tejido discursivo en el que ciertos sentidos institucionalizados se expresan socialmente, siempre se trata de sujetos sujetados en el lenguaje. Aquello que se dice o se deja de decir, a quién se le otorga la posibilidad de expresarse, tanto como los modos en que se recrean las construcciones comunicativas y los sentidos manifiestos o no, que se entrecruzan en el discurso de la prensa gráfica han sido objeto de análisis en este trabajo, considerando, como lo comprende María José Lecaros que en periodismo sobre todo se plantean posturas y que la verdad se torna relativa en la actividad mediática (Lecaros, 1989). La pluralidad de expresiones y la democratización de la palabra guardan en el ejercicio periodístico la potencialidad de contribuir socialmente a la libertad. Escuchar las diferentes campanas de la información ofrece la posibilidad de enriquecer los fundamentos de la elección del ciudadano. Es decir, una noticia cuyo tema sea salud con tratamiento serio y desarrollo de contenidos responsable contribuyen a la calidad de vida. A raíz del análisis efectuado, el Observatorio de Comunicación y Salud entiende que el tratamiento del   tema   “Embarazo   Adolescente”   debería   abordarse   no   como   un   tema   primordialmente femenino sino procurando contemplar en el tratamiento a quien acompaña este fenómeno: el sujeto de género masculino. Muchos son los casos de adolescentes varones que son o serán padres adolescentes, a ellos les impacta en muchos aspectos de su vida de igual manera este proceso. Quedó evidenciado cierto grado de naturalización en el tratamiento del tema, concentrado en la instancia de género. Por otro lado, poner en discusión si en realidad el embarazo adolescente es un problema y en todo caso, para quién, contribuiría a una comunicación crítica que indague sobre los supuestos socialmente aceptados y compartidos. Es importante advertir –como ya fue señalado- que la vinculación entre embarazo adolescente y origen socio-económico vulnerable también omite la realidad de este fenómeno en otros segmentos sociales y desconoce las prácticas a las cuales puede


acceder este último grupo, con los cuales se genera una importante invisibilización de las estadísticas. Finalmente, sería oportuno incluir entre los datos que proporciona la información, alguna referencia que acerque al lector contenidos de prevención o datos de espacios públicos del sistema de salud que brinden contención, orientación y asesoramiento sobre los diferentes aspectos que atraviesan este fenómeno.

Referencias Alarcos Llorach,  E.  (1977)  El  lenguaje  en  los  titulares”  en  AAVV:  Lenguaje en periodismo escrito. Madrid: Fundación Juan March. Armentia, J y Caminos, J. (1998) La información: Redacción y estructuras. Guipúzcoa: Universidad del País Vasco. Arnheim, R. (1979). Arte y percepción visual. Madrid: Alianza. Barbero, J. (2003). De los medios a las mediaciones. Comunicación, Cultura y Hegemonía. Bogotá: Convenio Andrés Bello. Berger, P y Luckmann, T. (1997) La construcción social de la realidad. Buenos Aires: Amorrortu. Burke, P. (2001) Visto y no visto: El uso de la imagen como documento histórico. Barcelona: Crítica. Calsamiglia, H. y Tusón, A. (1999) Las cosas del decir. Manual de análisis del discurso”.Barcelona: Ariel. Camps, S. y Pazos, L. (1996) Así se hace periodismo. Manual práctico del periodista gráfico. Buenos Aires: Paidós. Climent, G. (2003, Noviembre). Maternidad adolescente: un camino hacia la marginación”.    Cuadernos médico sociales. Revista Argentina de Sociología. Año 1 Nº 1. Argentina. Ducrot, O. (2001) El decir y lo dicho. Buenos Aires: Edicial S.A. Entel, R. (2002). Mujeres en situación de violencia familiar. Buenos Aires: Espacio Editorial. Fainholc, B. (1993). La mujer y los medios de Comunicación Social. Buenos Aires: Editorial Humanitas. Gutiérrez, M. (2011). Voces polifónicas. Itinerarios de los géneros y las sexualidades.. Buenos Aires: Ediciones Godot.


Lecaros, M. (1989) Ética  periodística”.  Santiago. Pontifica Universidad Católica de Chile. Escuela de Periodismo. López, H. (2009) El titular. Manual de titulación periodística. México D. F. Alfaomega. Pantelides, A. y Binstock, G. (2007, Julio). La fecundidad adolescente en la Argentina al  comienzo  del  Siglo  XXI”  Revista  Argentina  de  Sociología  Año  5  Nº  9.  Argentina. Serra, A y Ritacco, E. (2005) Curso de periodismo  escrito”.  Buenos  Aires:  Atlántida. Valero, J. (2007) Adolescentes, sexualidad e interacciones mediáticas. México D.F. Universidad Iberoamericana. Van Dijk, T. (1998) News as discourse. Hillsdale, NJ, Lawrence Erlbaum.


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Políticas Públicas Binacionales: Caso Marketing Social de Salud en Migración México y Estados Unidos Americanos.

Autor: Dra. Janet García González, Universidad Autónoma de Nuevo León, México janet.garciag@uanl.mx; janetgarcia71@yahoo.com.mx Co-autores: Mtra. Vianney Hernández Xochipa, Universidad Popular Autónoma del Estado de Puebla, México. vianeni@hotmail.com Mtra. Nohemí Palacios De Aquino, Benemérita Universidad Autónoma de Puebla, México. agape_nohemi@hotmail.com Mtra. Ingrid Rodas Castillejos, Benemérita Universidad Autónoma de Puebla, México. ingridrodasc@yahoo.com.mx Grupo Temático: Comunicación y Salud. Resumen Reflexionar sobre las diferencias y puntos de acuerdo que surgen a partir del análisis comparativo sobre estrategias de marketing social mexicanas y estadounidenses para la salud del migrante, realizado en 2006 por investigadores del Departamento de Servicios de Salud Pública de California, la Oficina Binacional de Salud Fronteriza/ Universidad de California y la Benemérita Universidad Autónoma de Puebla. El diseño es cualitativo, la técnica de recolección entrevistas semiestructuradas aplicadas a 21 informantes claves, funcionarios de instituciones de salud en México y EU involucrados con programas y/o campañas relacionadas con migrantes. Hay disparidad de significación entre los funcionarios de ambos países respecto a promoción de la salud y marketing social pero los referentes conceptuales son consistentes, los puntos de acuerdo se refieren al plan presupuestal, definición del público objetivo, desarrollo de mensajes, procesos de implantación, priorización, planificación, seguimiento y


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evaluación de campañas. Las actividades de promoción y marketing social son hasta el momento aisladas, la propuesta es comunicación para la salud ya que su significación se incluye en ambos.

Caracterización del estudio, experiencia o reflexión teórica propuesta. En las últimas décadas el marketing ha trascendido el planteamiento único de que su existencia se encuentra en una relación de venta de productos tangibles al consumidor, hacia la noción de marketing social i, entendido como un proceso cuyo objetivo es cambiar el comportamiento individual, utilizando principios de comercialización destinados a promover intervenciones que mejoren un bien social1. El marketing social aplicado a la salud está emergiendo con fuerza en los últimos años con el objeto de incrementar la concienciación pública y promover cambios en las conductas de las personas 2. El marketing social puede ser una herramienta eficaz para lograr objetivos de salud pública3; con frecuencia éste es un proceso viable, pero parece que hay bastante confusión respecto a lo que es, lo que razonablemente se puede esperar que hacer, y cómo ha de hacerse 4. Ante ello, la promoción de la salud tiene cabida en este quehacer del marketing, ya que se basa en la interpretación social y cultural de la salud y la enfermedad, y cuyo objetivo es capacitar a la gente para la adquisición de mayor control sobre su salud a través de la acción intersectorial. En la revisión efectuada por Lindenberger 5 sugiere que el "marketing" está involucrado en   "promoción   de   la   salud”;;   pero   sostiene   que   las   intervenciones   de   promoción de la salud a menudo carecen de un plan global de marketing y de una

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Se señala el año 1971 como fecha de acuñación del término marketing social, cuando Philip Kotler y Gerald Zaltman publicaron en The Journal of Marketing, el artículo denominado Social Marketing: An Approach to Planned Social Change, refiriéndose al uso de principios y técnicas para hacer progresar una idea o conducta social.


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insuficiente integración de sus componentes para hacer que el proceso sea verdaderamente estratégico. Una vertiente de las más frecuentemente utilizadas del marketing social en salud es la administrativa, llamada  “marketing  de  servicios  de  salud” 6, cuya estrategia es orientar la organización provisora de tales servicios hacia al mercado, por lo que la gestión debe practicarse en dicho sentido y para ello han de conceptualizar los servicios como productos que se suministran a los pacientes, tomando en cuenta la perspectiva de éstos respecto a aquéllos. Más que depender de la medicina, la salud del pueblo está cifrada en condiciones decorosas de vida y de trabajo, educación libre y medios adecuados de reposo y recreación, así como a la tarea de lograr el acceso de toda la gente, misión primordial de la salud pública. Por tanto, la política de prevención (que implica la educación de la gente para que cuide su salud) es de suma importancia y la política de curación debe situarse en el último lugar pues, solo debía aplicarse en el caso de fallar la política de prevención 7. Un ejemplo de población que podría beneficiarse de este tipo de políticas establecidas de salud es la migrante; cuyas condiciones se caracterizan por los más bajos niveles de cobertura de seguridad médica, lo que obstaculiza un monitoreo regular de su estado de salud. El elevado nivel de desprotección de la población mexicana en E.U.A se relaciona con su elevada concentración en actividades poco calificadas y de baja remuneración, las cuales en general, no incluyen la prestación de beneficios por parte del empleador. Al propio tiempo, en México se requiere redoblar esfuerzos para atender las necesidades de salud de la población migrante y sus familias en todas las etapas del proceso migratorio. Si bien ya se llevan a cabo programas orientados a mejorar el acceso de los migrantes mexicanos a los servicios de salud, resulta crucial implementar una política integral de provisión de salud 8.


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No se debe olvidar que México y los E.U. comparten una población transnacional equivalente al 12% de la población de México9. El crecimiento inexorable de esta población ha ocurrido en ausencia de un marco regulatorio o de una política compartida que asegure beneficios mutuos y el bienestar de migrantes y de sus familias, tanto en E.U. como en las comunidades de origen. Esta situación tiene implicaciones serias con respecto a su bienestar, sobre todo en el caso del acceso a la salud pública y a los servicios médicos, aunado a retos financieros en ambos lados de la frontera. A consecuencia, la intervención del Estado Mexicano busca desarrollar sistemas de información para la salud a los migrantes por medio de sus organizaciones; otorgar atención a la salud de éstos en las unidades médicas del sector en el lugar de origen, traslado y destino identificadas como fases de atención; realizar acciones de prevención de enfermedades; establecer convenios de cooperación bilateral México - Estados Unidos, entre otros. El Marketing Social juega un papel primordial para la planeación de acciones de prevención y promoción de salud en ambos países, la herramienta permite el estudio de la problemática de salud de la población trasnacional cuyos factores de riesgo están relacionados a las diferentes etapas de su movilización: desde el origen, durante el traslado y en el destino final.

Enfoque y/o metodología de abordaje. Se llevó a cabo un estudio con diseño cualitativo, tomando a la entrevista semi estructuradas. Se entrevistaron un total de 17 informantes claves de instituciones de salud pública (públicas y privadas) mexicanos y de E.U. (ver cuadro no. 1); con el objetivo de explorar la conceptualización del marketing social, así como el desarrollo y descripción de las campañas relacionadas en programas de salud para migrantes.


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El perfil de los informantes para México fue de personas laborando dentro de los programas de   salud   como:   “Vete   Sano,   Regresa   Sano” 10 de la Secretaría de Salud;;  del  programa  “Bienvenido  Paisano” 11, y las regidurías de salud de algunos municipios, pertenecientes a los estados de mayor saldo migratorio hasta el 2004, como fueron: Baja California, Distrito Federal, México, Puebla y Veracruz 12; un informante proveniente de la Secretaría de Salud a nivel federal y uno oficial internacional en promoción de la salud de la oficina de la frontera México-E.U. de la OPS. Para el caso de EUA, los informantes participaban en la conducción de campañas de marketing social de forma activa en las agencias del Estado de California, del condado de San Diego, y una privada (tabla no. 1).

Tabla No. 1 Características de los entrevistados y campañas de Marketing Social de México y EUA México EUA Grado 3 Maestrías en salud 1 BA / BS ii académico pública 4 MA / MS / MPH iii 1 Maestro en ciencias 3 Doctoral (marketing médicas social) 1 Maestro en ciencias 1 Maestro en administración pública 1 Lic. en derecho 1 Lic. en psicología 1 Lic. en nutrición Puesto Coordinadores Coordinadores de internacionales, estatales, campañas de jurisdiccionales y marketing Social municipales Programa Promoción de la salud 3 Estado de California Prog. “Vete  Sano,  Regresa   (CDPH) Sano”   4 Condado Salud Municipal. 1 Privada Tiempo de 5 años promedio (Rango 10 años (Rango de 5 a afiliación (años de 0 a 5 años) 20 años) ii

El grado de bachelor, ya sea en ciencias (BS) o en artes (BA), es donde el alumno tiene experiencia universitaria en un programa de 4 años, pero no tiene una especialización tan acentuada como un "licenciado" en México. iii Maestría en administración, ciencias y salud pública


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Promedio) Experiencia en el área (porcentaje) Tipo de entrenamiento No. de Staff (promedio) Presupuesto para actividades del último año (rango) Tipo de campaña en MS últimos 3 años

Campañas de difusión

50% No tiene 50% Si tiene

100 % Si tiene

2 Maestría en marketing 1 Lic. en comunicación

6 En el trabajo 7 Formal 4 Ambos 5 personas (Rango de 1 - 16 personas (Rango de 8) 1 – 118) Nivel Internacional 107 millones de dólares 100,000 dólares por la agencia Nivel Estatal 800,000 pesos a 1,200,000 Nivel Jurisdiccional 50,000 Nivel Municipal 800,000 Campañas binacionales Siete de las ocho Prevención de accidentes organizaciones VIH Sida indicaron dirigida a los latinos, tanto en sus campañas actuales y anteriores Radio Televisión Comunicación alternativa Fuente: Elaboración propia

La guía para la entrevista se basó en tres campos semánticos: salud, migración y marketing; la construcción de las categorías de análisis se definieron por los equipos binacionales de investigación durante dos estancias de investigación (ver tabla no. 2).

Cuadro No.2 Tabla de Categorías más representativas del estudio CATEGORI AS

DEFINICIÓN OPERACIONAL

TOPICOS

Causa social13

Objetivo social que los agentes de cambio consideran que ofrecerá una respuesta acertada a un problema social.

Expectativas que tiene el Marketing social (MS) para la resolución de problemas de salud dentro de las actividades de promoción de la salud Procesos de la organización para priorizar o aplicar las campanas de MS


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Estrategia de cambio 14

Marketing social para migrantes

La dirección y el programa adoptados por un agente de cambio para llevar a cabo el cambio en las actitudes y conducta de los destinatarios. Segmenta en grupos homogéneos que son el blanco de los mensajes desarrollados a la medida de sus cualidades compartidas

en temas de salud Criterios en su organización para la planificación del desarrollo de campanas de MS Campañas de MS que se aplican actualmente Campaña (elementos, proceso de planeación, barreras en la implementación de las campanas de MS) Cambios estructurales comunitarios que se han detectado a consecuencia de la implementación de campañas de MS Experiencia en el desarrollo de campañas de MS con migrantes Objetivo del MS en poblaciones migrantes Vínculo con organizaciones binacionales

Fuente: Elaboración Propia

La técnica de análisis de la información se desarrolló bajo la propuesta de Gilberto Giménez15, llamada análisis del discurso argumentativo. Se realizó en dos planos complementarios: uno sintagmático y otro paradigmático. En el primero se trata de reconstruir analíticamente el proceso de esquematización de la realidad operado por el discurso. En el segundo se intenta identificar y explicitar el esquema o paradigma ideológico latente a partir del cual se produce el proceso argumentativo.

Resultados Para los informantes mexicanos, el concepto de marketing social, no tiene una significación familiar explícita, posiblemente porque el Sistema de Salud no tiene definidas actividades de marketing social en su estructura orgánica; sin embargo los entrevistados ligan la idea de marketing social con las actividades de


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promoción de la salud, que sí se encuentra definida en la organización y se define como herramienta para la prevención de enfermedades, comprende acciones de difusión y uso de materiales de comunicación educativa, masiva, comunitaria e individual dirigidas a una población objetivo. La evaluación del impacto de las actividades de promoción se mide con indicadores cuantitativos que son reportados al nivel superior correspondiente, el único indicador cualitativo que se identifica se basa en qué tanto el migrante tiene conocimientos sobre temas de salud. Para los entrevistados en el estado de California, el Marketing Social se determina por actividades de mix marketing. El marketing social y la promoción de la salud. Un punto de acuerdo destacable entre los funcionarios de ambos países es que tanto el marketing social como la promoción de la salud son herramientas que ayudan a motivar el auto cuidado y permiten la adopción de estilos de vida saludables entre la población objetivo. Éstos incluyeron conceptos que se relacionan con los programas y campañas a cargo como: educación para la salud, medios masivos de comunicación, promoción, y comportamientos saludables, sin embargo se considera que el uso de las herramientas de promoción y marketing son sólo una parte de la estrategia para obtener resultados. Desarrollo de campañas. En ambos países se identifican dos aspectos que obstaculizan la realización de campañas, la primera es la falta de capacitación y la segunda es la insuficiencia de fondos, mientras México cuenta con un rango de recursos de entre$50,000 a $1,200.000 pesos, en el estado de California se otorgan $107 millones de dólares, por agencia o institución. Por otro lado los funcionarios de México apuntan que la mayor parte de los recursos se ocupan para la difusión de información, dejando con muy poco presupuesto otras actividades que se relacionan con campañas de marketing social. Los procesos de aplicación y priorización de las campañas. En México se implementan mediante la vinculación interinstitucional, esto es, se desarrolla la


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estrategia a nivel federal y se envía por niveles estatal, jurisdiccional y operativo; priorizan el diagnóstico epidemiológico para focalizar sus acciones (mortalidad como factor definitivo) y los indicadores de bienestar y de salud. Los mecanismos de evaluación se fundamentan en parámetros ya establecidos como el logro de metas cuantitativas. El desarrollo de las campañas las realizan en dos momentos, primero con la elección de la población objetivo, y segundo con la selección de las estrategias adecuadas orientadas hacia la educación y prevención para la salud. En contraste, en el estado de California, se determina un objetivo desde el análisis de la población para la realización de campañas específicas. Identifican y segmentan la población objetivo por grupo étnico, edad, ubicación geográfica, región, tipo de la comunidad, sensibilidad cultural, creencias y comportamientos. Desarrollo de mensajes. En México, el área de promoción de la salud construye y

desarrolla

mensajes

de

manera

unidireccional

por

departamentos

administrativos (federal, jurisdiccional y centros de salud). Cada uno de ellos cuenta con infraestructura, recursos materiales y humanos para llevar a cabo las actividades de promoción, sin embargo los entrevistados coinciden en la insuficiencia de éstos y reconocen de sí algunas inconsistencias con la visión y capacitación profesional. La difusión de los mensajes es la tarea más común y es realizada por medio de materiales gráficos y mensajes radiofónicos. Para el Estado de California, el mensaje es interactivo, o construido a sí mismo con información recibida de la población. Una campaña no se ejecuta hasta que se aprueben los mensajes por la misma comunidad mediante el uso de metodologías cualitativas y cuantitativas como grupos focales, sondeos de opinión y por pruebas piloto para dar legitimidad a los mensajes. Todo ello constituyen herramientas de marketing cuyo enfoque en problemas sociales, sirven para garantizar que la campaña sea culturalmente apropiada en el contenido y objetivo. Se difunde a través de las nuevas tecnologías y mensajes radiofónicos. Implementación del marketing social. Se reporta que en México no existe planificación para la elaboración de este tipo de campañas y que, al contrario,


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éstas son improvisadas de acuerdo a las contingencias presentadas. Sin embargo, se fomenta la colaboración interinstitucional y la participación de la población, procesos que requieren de planificación y que comparten las campañas californianas. En México reportan campañas realizadas en temporadas de retorno de los migrantes (fiestas culturales, familiares y periodos vacacionales), mientras que en el estado de California se llevan a cabo estas actividades en forma continua. Para la implementación de campañas de marketing social en el estado de California se realiza una planificación previa a la implementación de cualquier programa nuevo. Actualmente, en el estado de california se están implementando estrategias no tradicionales, llamadas  marketing  “guerrilla”- que significa la difusión de mensajes de salud por medios de comunicación o en sitios que normalmente no se consideran por campañas de marketing tradicionales. Algunos ejemplos de este marketing   denominado   “guerrilla”   incluyen   calcomanías   en   los   baños   y   bares/antros o mensajes escritos en las banquetas, o anuncios macros (es decir, que forran) en los autobuses. Existen varios obstáculos que México enfrenta en la implementación de campañas de marketing social. Por una parte la falta de fondos para elaborar y difundir campañas de mercadotecnia social resulta ser un gran reto en la aplicación de esta metodología; por otra, la escasez de recursos económicos se traduce en una baja calidad y diversidad de materiales de difusión así como en el número de distribución de los mismos. En el estado de California se experimentan otras barreras, por ejemplo los errores en la coordinación del personal por parte de las compañías que reciben contratos para diseñar ciertos aspectos de las campañas, la desvinculación con instituciones no gubernamentales, y el manejo inadecuado de los materiales que forman parte de las campañas. En México se identifican como barreras la falta de


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reconocimiento de la población migrante que no permite identificar las necesidades de salud de éstos. Evaluación. En los estados de California y México, se encontró que el proceso final de evaluación de las campañas de marketing social, es decir, la medición del impacto es difícil de realizar. México reporta una nula actividad de evaluación, esto se debe en parte a la falta de parámetros de medición que permiten deducir el éxito que pudiera tener algún programa de promoción. Sin embargo, consideran que es importante el uso de los medios masivos de comunicación para que este tipo de campañas sean exitosas. Además, ambos países reportan una escasez de recursos de personal calificado para llevar a cabo un programa de evaluación de las diferentes campañas que se inician, traduciéndose esto en una barrera compartida. En el estado de California, se reconoce la importancia del proceso de evaluación, reporta varias estrategias, algunas más rigurosas que otras, dependiendo de los datos recopilados. Las metas principales de la evaluación incluyen examinar cambios en comportamientos y conocimientos de los migrantes. Las barreras con que se enfrentaron al desarrollar la evaluación fue la pobre calidad de los datos recopilados, falta de recursos económicos para desarrollar un plan de evaluación minucioso, y cambios en las políticas públicas que, por consiguiente, impactan directamente a los migrantes y los latinos que residen en E.U. y en el estado de California. Dado que los presupuestos para campañas de marketing social tienden a ser pequeños, la falta de datos que apoyen al desarrollo de campañas en el futuro también perjudica la posibilidad de obtener financiamiento para estas actividades por parte de fundaciones privadas. Definición del migrante. Existe una diferencia de perspectivas en cuanto a este tema, en México no se obtuvo una definición en concreto mientras que en el estado de California, este tema sobresalió. Se considera que los migrantes pueden describirse en cuanto a cuatro cualidades: (1) su perfil laboral, (2) sus antecedentes familiares como migrantes, (3) sus características sociales y morales y por último, (4) sus características de inmigración al país. Es necesario además


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notar aquí que la falta de claridad sobre este término podría influir en las políticas públicas para proteger la salud de los migrantes que se desarrollan e implementan en cada país. Discusión El marketing social 16 ha sido una herramienta utilizada de manera estratégica con la finalidad de generar e influir cambios conductuales y de comportamiento en salud para el público objetivo. California y México comparten el mismo público meta, los migrantes, por ello se determinó la situación en la que se encuentran analizando su conceptualización, proceso, elementos que la integran, identificando las necesidades y barreras sociales para lograr su cometido, entre otros. La implementación de actividades de promoción de la salud y de marketing son hasta el momento aisladas, el uso de otras disciplinas podrían enfocar el problema desde varias miradas y dar cavidad a la unificación de conceptos, tareas y objetivos de modo que la población y en este caso, los migrantes se han más susceptibles a la modificación de actitudes, intereses, sentimientos y creencias, lo que reflejará una serie de beneficios a mediano y largo plazo de toda la sociedad. Respecto a la unificación de conceptos se nota en México una mayor identificación de la palabra de promoción de la salud con nula distinción respecto a marketing social, de este modo se maneja marketing social igual que promoción de la salud, a pesar de ello una de las consistencias que se obtuvo en ambos país es del estudio fue alentar el cambio de comportamiento. La complejidad de los retos que se enfrentan en el terreno de la salud hace que sea prioritario un trabajo concertado y multidisciplinario, capaz de identificar los múltiples aspectos en los que es necesario intervenir, para ello parece conveniente unificar criterios y ampliar el campo de cavidad de conceptos ampliamente utilizados en el campo de la salud como promoción de la salud, marketing social, educación para la salud, la propuesta es comunicación para la salud ya que en su significación se incluyen desde la visión tradicional de difusión


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de información,

la implementación de acciones de marketing social. La

comunicación es esto, y también es más. Se deben desarrollar intervenciones y mensajes promoviendo los beneficios de los comportamientos saludables acordes a la población meta. La información generalmente no es suficiente para cambiar el comportamiento. Hace falta internalizar la información en un nivel más afectivo, emocional, en forma repet itiva, donde las normas sociales refuercen el nuevo comportamiento, y se pueda poner en práctica regularmente. Es importante tener personal especializado para la adecuada aplicación de la comunicación para la salud, incluidos entrenamientos que garanticen la adecuada promoción de la salud y el éxito de campañas y aplicación de técnicas propias del marketing social, para ello se requieren de modificaciones curriculares de los programas de formación de recursos humanos. Por otra parte e igualmente importante es abogar por políticas públicas binacionales favorables a la salud por medio de la identificación de problemas en salud, sus

causas,

actores

y responsabilidades. Utilizar

estrategias

de

comunicación y de negociación para colocar en la agenda pública binacional los temas de salud; y facilitar la discusión pública para promover y monitorear políticas de salud en ambos países. Desarrollar intervenciones de comunicación para la salud 17, no sólo de marketing social que proporcionen condiciones favorables para la adopción individual y colectiva de comportamientos saludables. Identificando y priorizando situaciones que afecten la salud y el bienestar colectivos susceptibles de mejora a través de procesos

comunicacionales;

así

como

diseñando

planes

efectivos

de

comunicación que incluyan indicadores que faciliten la cogestión y la evaluación. Implementar intervenciones en comunicación abarcando una diversidad de medios, canales y niveles de actuación. Sin olvidar el seguimiento a las intervenciones resultados.

de comunicación

monitoreando,

evaluando

y

socializando


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Es necesario reconocer y analizar los determinantes de salud y enfermedad y la diversidad de respuestas en una realidad concreta con el fin de orientar estratégicamente las intervenciones de comunicación en salud. A partir de la utilización de la información e instrumentos epidemiológicos básicos para determinar factores de riesgo y protección, priorizar acciones. El análisis de las características esenciales de los principales problemas de salud pública binacional y sus medios de detección, diagnóstico y tratamiento es necesario para mejorar el acceso y uso de los servicios de los sistemas de salud públicos y privados de ambos países. 1

Tan EJ, Tanner EK, Seeman TE, Xue QL, Rebok GW, Frick KD, Carlson MC, Wang T, Piferi RL, McGill S, Whitfield KE, Fried LP. Marketing public health through older adult volunteering: Experience Corps as a social marketing intervention. J Public Health 2010 727-34. 2 Beerli-Palacio A, Martín-Santana JD, Porta M. El marketing como herramienta para incrementar la eficacia de los planes de salud pública. Informe SESPAS 2008. Gac Sanit 2008. 22(Supl 1): 27-36 3 Pirani S, T. Reizes El Turning Point The Turning Point Social Marketing National Excellence Collaborative: Integrating Social Marketing Into Routine Public Health Practice. J of Public Health Management & Practice. 2005; 11 (2) 131-138 4 Brad L. Neiger, Rosemary Thackeray, Michael D. Barnes, James F. McKenzie. Positioning social marketing as a planning process for health education. American Journal of Health Studies 2003: 18(2/3) 5 Lindenberger, K. Publishers Notes. Social Marketing Quarterly, 2001: 7, 2-3. 6 Losada O., Rodriguez O:A. Health service quality: a literature review from a marketing perspective. Cuad. Adm., July/Dec. 2007, vol.20, no.34, p.237-258. 7 García G Janet Interacción y comunicación para la salud, fundamentos para la implementación de programas de sexualidad y VIH/SIDA 8 Leite, Paula   y   Xóchitl   Castañeda,   “Mexicanos   en Estados   Unidos:   (falta   de)   acceso   a   la   salud”,   en   La situación demográfica de México 2008, México, Consejo Nacional de Población, 2009: 117-128. 9 Ortiz, R. Cultura e identidad migratoria en la frontera México-Estados Unidos. Inmediaciones entre la comunidad chicana y la comunidad transfronteriza. Antíteses, América do Norte. 2010. 10 Programa Vete Sano, Regresa Sano. [consultado 2009 julio 10] Disponible en: http://www.saludmigrante.salud.gob.mx/acciones/vesano.htm 11 Programa Bienvenido paisano. [consultado 2009 julio 10] Disponible en: http://www.paisano.gob.mx/ 12 CONAPO, “Datos  sobre  migración  a  EUA”  (www.conapo.gob.mx),  2004 marzo. 13 Tan E. J., Tanner E. K., Seeman T. E., Xue Q-Li. Marketing Public Health Through Older Adult Volunteering: Experience Corps as a Social Marketing Intervention Am J Public Health 2010: 727-734 14 Forero Santos, J.. El marketing social como estrategia para la promoción de la salud. La Sociología en sus escenarios, Norteamérica No. 20. 2009. 15 Giménez G. Poder, Estado y discurso. Universidad Autónoma de México. 1981: 122 - 123 16 Manoff RK. Social Marketing: New imperative for public health. New York: Proeger Pub; 2007. 17 COE, G.A. Comunicación y promoción de la salud. Rev. Latinoam. Comunic. Chasqui, v.63, 1998:26-9.


REVISIÓN Y VISITA A LA COMUNICACIÓN EN SALUD: RECUENTO Y RESEÑA DE PRODUCTOS FINALES RECIENTES ELABORADOS EN MÉXICO Y AMÉRICA LATINA.

Dra. Adriana González Martínez. Benemérita Universidad Autónoma de Puebla. México. E-mail: cielorojo5760@yahoo.com.mx Dr. David D. Bañuelos Ramírez. UMAE HEP Instituto Mexicano del Seguro Social. Puebla, Pue. México. E-mail: davra43@yahoo.com GT 5. Líneas temáticas: Actores de la comunicación y salud. Políticas, prácticas, procesos y productos en la América Latina.

Introducción En este trabajo se pretende abordar algo complejo: hablar de comunicación y salud, de sus múltiples interrelaciones, de los límites no bien definidos y las perspectivas de un campo todavía en construcción; nos hemos propuesto tratar la sobreposición que existe con la educación y con otras muchísimas disciplinas, cuando se aborda comunicación y salud. Lo haremos a partir de la necesidad que consideramos existe por acrecentar este interesante campo de conocimiento. Y también lo hacemos considerando que la comunicación y salud son algo más que la intersección simple entre dos áreas de conocimiento disciplinar. Es sumamente necesario comprender que el campo de la comunicación y salud es mucho más que la sola intersección de disciplinas, y que la relación entre ambas, lleva a la sinergia que es resultante del conocimiento transdisciplinario, pero también, conlleva las dificultades de la no conjunción plena al no contar los participantes de la construcción del campo de la comunicación y salud, un enfoque


único, no dominar por completo las técnicas y procedimientos ni el dominio de los medios de comunicación. Además, al ser según nuestra percepción un campo en crecimiento, en consolidación, también conlleva la posibilidad de no llegar a productos finales concretos donde se plasme la vinculación entre las áreas de la comunicación y el terreno de la salud. Este estudio que presentamos analiza los estudios y trabajos que sobre comunicación y salud se han elaborado por diferentes autores en los 5 últimos años, tanto en México, como en otros países de América Latina. Los productos finales son: libros, artículos, videos, infogramas, programas de radio y TV, y material de la internet, consolidado; materiales pues, que se puedan considerar formativos y con ciertos criterios de seriedad. En la muestra final de materiales estudiada y reseñada, se incluyen solo materiales consolidados, con autoría académica, enfoque serio y que cuente con un sistema de arbitraje previo y a los cuales se les sigue su ruta. No obstante, la revisión inicial incluyó todos los materiales posibles elaborados e identificados como correspondientes a comunicación y salud, a través de la búsqueda por etiquetas y palabras clave (tags, key words), identificando: autores, temas, títulos, cruce de temas, prioridades en el material, coautoría, áreas disciplinares de autores, recursos, profundidad de los temas, posibilidad de acceso y costos (cuando estos se comercializan), formas de promocionarse, y de los autores identificamos trayectoria previa y variables relacionadas. El enfoque del trabajo y la metodología incluye revisión cuantitativa del fenómeno y un análisis cualitativo. Los resultados muestran que en tanto los trabajos promocionales de productos comerciales donde han participado las tecnologías y herramientas de la comunicación alcanzan gran difusión, los productos finales serios y consolidados que se han elaborado en forma académica seria y transdisciplinaria son escasos. Encontramos videos, textos, blogs, artículos, de los cuales mostramos segmentos. Se revisaron también los materiales y resúmenes de congresos de diferentes disciplinas que tratan la salud, educación y comunicación. Conclusión: la intersección real de comunicación y salud, según nuestros datos, a partir


de los estudios encontrados y el análisis efectuado, es un área aun en construcción. No hay tampoco una línea teórica epistemológica identificable en la intersección de comunicación y salud a través de los trabajos encontrados.

La transdisciplinariedad en la comunicación y salud, un engarce con la educación. Un enfoque adecuado para nuestros fines y congruente con nuestros trabajos anteriores

es

el intentar abordar

los fenómenos

desde una

perspectiva

transdisciplinaria (Bañuelos RD, González MA 2008, González MA, Bañuelos RD 2000), partiendo de conceptos básicos que luego nos sirvan como eslabones aglutinadores y enmarcadores del objeto de estudio. Será el mismo que ahora intentemos para tratar sobre comunicación y salud y por ello consideremos que comunicación en el sentido más amplio   y   básico   a   la   vez,   es   “poner   algo   en   común” (www.monografias.com, www.definicion.org.com). Así, simple y sencillamente la comunicación es poner las cosas en posibilidad de que se conecten por un factor común, que compartan algo y por extensión, que los participantes en el proceso de la comunicación estén conectados por algo que les es compartido. Para que la comunicación se dé, para que exista, algunos autores hablan de que la comunicación es el proceso de producción de sentidos que se realiza a través de las trocas simbólicas entre individuos y grupos (Deleuze G, Campbell Jeremy 1940). Esto es aplicable a la comunicación y salud. Y entonces, la comunicación en salud va mas allá de lo que es la simple información, que se define como el contenido de las trocas simbólicas comunicacionales. La comunicación en salud para nuestra percepción, es un proceso educativo, es un proceso de construcción del conocimiento; es un proceso de desarrollo de la capacidad crítica y de intervención en la realidad para su transformación (modificado de Ignarra, 1988, cuando habla de educación). La comunicación en salud, pues, es algo más complejo, es lo que se conoce como una interfaz, es el lugar en que 2 sistemas

interdependientes se encuentran, se

encuentran, interactúan y se intercomunican, compartiendo elementos (igualmente lo hemos modificado de Larousse 2012).


Objetivos, planteamiento del problema y justificación para la revisión de la comunicación en salud. Consideramos que el estudio de la interrelación entre comunicación y salud no es una zona temática agotada, y no soólo eso, es más bien, incipiente, es un área joven, una área en construcción. Los sujetos participantes en la comunicación y salud provienen de disciplinas diversas, pueden compartir intereses y objetos de estudios, pero este compartir intereses y objetos debe hacerlos también compartir experiencias y puntos de vista. La visión de un problema de salud que debe ser comunicado a través de algunos medios, solo desde el balcón de la comunicación o bien, en el lado opuesto, desde solo el balcón de la ciencia médica puede quedarse en un enfoque reducido. La visión complementaria es otra historia. Por ello, el planteamiento del problema que condensa lo fundamental para este trabajo lo resumimos en la siguiente pregunta: ¿Qué hay de comunicación y salud, engarzados en la educación en América Latina en los últimos 5 años??? Los objetivos que pretendemos alcanzar son, entre otros, conocer la productividad que se ha alcanzado en los últimos años sobre comunicación y salud, especificando a los productos de acuerdo a temas, autoría individual, colectiva; años de producción, colaboraciones universitarias, otras instituciones, presentaciones en foros, congresos, culminación en producto final como textos completos (libros) o artículos en revistas electrónicas o bien, revistas impresas, videos, blogs, infogramas o presentación en diapositivas, en cualquiera de los formatos posibles para esta ultima variante (power point o flash, por ejemplo). Metodología El primer abordaje es cuantitativo, cuantificamos la producción de todos los materiales relacionados con comunicación y salud que previamente hemos enunciado arriba. Esta búsqueda se efectúa a través de internet, memorias de congresos, catálogos libros y revistas y búsquedas avanzadas electrónicas. A partir de esta primera


aproximación que solo cuantifica los productos, una revisita (segunda vuelta, segundo vistazo) permite separar los productos encontrados y clasificarlos de acuerdo a otras características para juzgar su consolidación y solidez. De los productos relacionados sobre comunicación y salud, buscamos también que no correspondan meramente a productos para mercadeo, publicidad engañosa o pseudoinformación que enmascare un producto y fin netamente comercial. Para ello también recurrimos a la definición de infomercial que previamente hemos citado en otro de nuestros trabajos (Bañuelos RD, Gonzalez MA 2010,2011). Esto permite una separación dicotómica en dos grandes categorías: a) Productos relacionados con comunicación y salud, con perspectiva académica y por lo tanto, engarzados con educación y b) Productos relacionados con comunicación y salud, engarzados para fines comerciales. De esta información existente sobre comunicación y salud buscamos variables que nos permitieran clasificarlos por temas, por año de producción, por autoría, dividiendo a esta autoría en: autores individuales, corporativos, grupos o redes universitarias o grupos o redes colaborativas de otro orden. Buscamos también la posibilidad de encontrar si poseen un enfoque epistemológico explícito, o bien, ausencia de éste. Otras de las características a explorar en los trabajos son acerca de los aspectos formales como por ejemplo: resumen de congreso, nacionales, internacionales, publicación digital o escrita, articulo completo o bien, texto completo o solo capítulos de libros insertos en textos que no sean únicamente exclusivos de comunicación y salud. Materiales aun más cortos o breves, como los materiales gráficos informativos también se consideraron para su análisis y descripción si cumplían los requisitos de accesibilidad publica y localización mediante las tags y key words: comunicación, educación, salud, información, eligiendo estos últimos términos para ampliar el campo de búsqueda. El periodo de búsqueda se delimitó en 5 años atrás (de 2007 a 2012) y el tiempo de diseño del estudio, conceptualización de las variables y metodología a emplear fue de un periodo de 2 meses, en tanto que la búsqueda y sistematización de


los datos llevó 2 meses más, efectuándose esto por los autores del estudio. El trabajo no transgrede ninguna norma ética, no implica el otorgamiento de consentimiento informado, no hubo financiamiento externo ni se emplean recursos institucionales, corriendo todos los gastos a cargo de los participantes. Se decidió de manera conveniente que los resultados se procesaran en forma gráfica y descriptiva, efectuando algunas tablas para la concentración óptima cuando ello fuese posible. Se decidió similarmente emplear imágenes ilustrativas de algunos textos y otros materiales para ilustrar más adecuadamente la presentación final de los resultados. No se citan textos de los trabajos; los autores son citados cuando corresponde y no hay ningún conflicto de interés que pueda ser sucedáneo a este trabajo que revisa lo relativo a la comunicación y salud en los últimos años.

Resultados La búsqueda mediante internet utilizando las palabras: principios de la comunicación y salud da 31 000 000 resultados (búsqueda Google), en varias páginas, de las cuales solo la minoría corresponden a productos de América Latina; eliminando de la búsqueda la palabra principios y dejando solo comunicación y salud los resultados se reducen a 9 050 000. Aquí quedan incluidos libros, cursos, proyectos, noticias de periódicos, comentarios, revistas, muchos repetidos, reseñados y adicionalmente, también corresponden la mayoría a materiales no producidos en nuestro continente. La revisión de estas páginas y materiales permite ver que los productos finales de calidad son escasos. Una buena parte del material es reciclado, reseñado y otro porcentaje, es material que reseña trabajos y cursos, por lo tanto no pueden ser considerados material original, con consolidación y sustento para ser tomados en cuenta en forma final. Una vez efectuadas estas consideraciones redujimos nuestra búsqueda y encontramos como confiables para ser reseñados a los materiales encontrados en la revista JLACR, la revista ALAIC, más la revista Chasqui


(www.Chasqui.comunica.org)

y,

la

revista

Razón

y

Palabra

(www.razonypalabra.org.mx), que no son propiamente revistas especializadas en comunicación y salud, lo mismo que la revista de la organización panamericana de la salud (www.revista.paho.org). Realmente revistas especializadas en comunicación y salud, son únicamente 2. Manuales para la comunicación y salud se anuncian 5 y cursos formativos en comunicación y salud son 6. Encontramos que sin embargo, muchas de las revistas médicas y las revistas de comunicación si alojan artículos relacionados con la salud y la comunicación, aunque también se encuentra que la mayoría de estos artículos van relacionados a cuestiones educativas de padecimientos específicos. Por lo anterior, decidimos reseñar sólo algunos pocos materiales relativos a la comunicación y salud.

Principios del estudio de la comunicación y salud en América Latina Los orígenes del estudio de la comunicación y salud de manera formal no los podemos establecer de manera puntual, es decir, en una fecha precisa, corroborable, sin embargo encontramos diversos antecedentes que constituyen los elementos con lo que se fue conformado el campo que enlaza ambas disciplinas. Se da como una necesidad de informar y modificar conductas y seguramente existen diversos pioneros que se pueden haber perdido en el tiempo, al no existir los registros adecuados. No siendo el objeto de esta presentación el efectuar una exhaustiva revisión histórica de los antecedentes formales de la comunicación y salud, solo citaremos algunos antecedentes identificables del nacimiento de este campo. En 1986 en Peebles, Escocia, se efectúan reuniones convocadas por diversos gobiernos europeos con el objeto de implementar estrategias para abordar problemas de salud publica, con el diseño de campañas informativas y encaminar estas campañas hacia población blanco juvenil con el objeto de reducir el consumo de alcohol y drogas. En 1998 se dan reuniones similares impulsadas por gobiernos europeos con el fin de atacar otros


problemas de salud publica, y en este año 1998 encontramos material digital donde se aborda el tópico en América Latina, pues en esta fecha es cuando encontramos antecedentes de lo que hora sería el subgrupo de trabajo de comunicación y salud dentro de ALAIC y el antecedente más inmediato del denominado projeto radix, ahora disponible en su página propia en: www.projetoradix.com.br Projetoradix es una página concentradora, una biblioteca que concentra artículos, reseña libros, algunos enlaces para videos y de 2004 al 2012 (suponemos también tendrá el material de 2012) concentra los resúmenes presentados en el congreso ALAIC. En esta página del projetoradix encontramos que en 1998 se presentaron 9 ponencias, un año después se localizan 14 y aumentan a 20 en el año 2000. En cambio, en el año 2004 se encuentra un crecimiento exponencial pues se mencionan 61 ponencias relacionadas con comunicación y salud. Luego se observa un descenso pues en el año 2005 encontramos solamente 10 trabajos y, vuelve a ascender en el 2006 con 32 presentaciones, decreciendo este número a 19 en el 2007 y, un descenso más en el 2008. Los trabajos referidos como ALAIC en esta misma pagina son igualmente variables y parecen estar directamente relacionados con las cifras anteriores. En el año 2004 se consignan 27 trabajos, en el 2006 son 13; luego, en el año 2008 se presentan 16 y finalmente, de los datos registrados con que se cuenta, tenemos que en 2010 hay 18 trabajos.

En la revista Chasqui, encontramos materiales escritos y reseñados para la comunicación y promoción de la salud. Buen índice de impacto, buen número de búsquedas, los artículos y materiales están sustentados en referencias bibliográficas y existe revisión previa a la publicación. Lo mismo se puede afirmar de la revista razón y palabra, que incluye localización de textos por numero de la revista y que además cuenta con un motor de búsqueda con mas de 11 mil palabras indizadas y que facilita enormemente la localización de artículos y temas. Da cabida a artículos relacionados con comunicación y educación para la promoción de la salud, aunque sólo encontramos 2, uno de ellos publicado en 2005.


Como se puede observar, el material especializado en comunicación y salud es francamente escaso, se publica de manera dispersa, parece responder a esfuerzos individuales y la única sistematización en torno a esta conjunción de las dos áreas disciplinares es la que presenta el projeto radix y la revista RCyS, o revista de comunicación y salud, de reciente creación (2011) que tiene su sede en Barcelona, España. Se anuncia también en su página un OCS, Observatorio Comunicación y Salud (www.revistadecomunicaciónysalud.org). Encontramos un solo texto reciente producido en nuestro país (México), editado por el esfuerzo conjunto de una universidad privada y una editorial reconocida. El proyecto tardó 3 años en concluirse, consta de 12 capítulos y el nombre es “Signo vital” (Signo vital: comunicación estratégica para la salud 2011). En este texto se plantea el problema de la comunicación en salud como algo vigente, necesario, y el producto final es resultado del esfuerzo de una red de investigadores y colaboradores. Contiene material que previamente fue presentado en congresos y se modificó en forma sucinta para adecuarse a capítulos del texto global. Otro material que vale la pena reseñar desde el punto de vista de la conjunción de comunicación, salud y educación es el video  en  cortometraje  “Los  pacientes  del  Dr. Verdes  versus  la  s uegra  c harlatana” disponible en youtube en: vimeo.com/9740998. De manera gráfica ahora presentamos una concentración de los resultados agrupados por géneros posibles de la elaboración de materiales de comunicación y salud engarzados por la educación.


Cuadro número 1. Libros sobre comunicación y salud Año aparición

Titulo

Comentarios

2000

Antología de materiales comunicación y salud

2005

Comunicación y educación para la Reseña en revista razón y promoción de la salud palabra.

2008

Comunicación y salud

España, UCM, 2do texto, avances y modelos estrategias intervención

2008

Comunicación y salud

España, UCM, 1er texto. Introductorio a C y S

2010

Coaching y salud: pacientes y médicos

Enfoque alternativo, psicología, autoayuda

2011

Comunicación y salud: nuevos escenarios y tendencias

PDF Gratis, compilación materiales previos y reseñas

Año aparición

Titulo

Comentarios

2011

Signo vital: estrategias comunicación y salud

2012

Comunicación y salud: coordenadas juveniles y familiares

para

de Recopilación de materiales aparecidos en congresos, coordinador, falta uniformidad

la Compilación, previos de ALAIC

materiales congresos

Red UCC, UIA, UAEM. Autoayuda

Elaboraron: Bañuelos D.; González A., 2012.

Ahora respecto a revistas y artículos publicados encontramos lo siguiente:


Cuadro número 2. Artículos sobre comunicación y salud en revistas indizadas Año

Titulo

Comentarios

2001

La investigación en comunicación y Análisis bibliométrico salud. Una perspectiva nacional e internacional 1995-2000

2005

Hacia un modelo de comunicación en Rev Pan Salud Pub. Análisis salud publica en América Latina y el bibliométrico inconcluso Caribe

2007

Matriz tetralémica, cosmovisión, salud, Chile, visión conjunta y comunicación matricial, economía, cultura

2011

PNL y salud

2011

Libertad de expresión y abuso: el caso de JLACR. los productos milagro en la TV México

2011-2012

RCyS

Uruguay. Difusión, divulgación, PNL

UCM. 3 números, especializada en CyS.


Gráfica número 1. Trabajos presentados comunicación y salud en congresos y documentados en projetoradix

70 60 50 40 30 20 10 0 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008

Gráfica número 2. Trabajos presentados en congreso ALAIC documentados en projetoradix

30 25 20 15 10 5 0 2004

2006

2010

2012


Comentarios y conclusiones El primer planteamiento formal de comunicación y salud es difícil de precisar y probablemente se pierda en el tiempo por ausencia de registro. Sin embargo, los registros que nos permiten ver la importancia de la concatenación de estos campos disciplinares los consideramos recientes, de 1998 a la fecha, lo que nos da pocos años. La importancia de la comunicación en salud, con herramientas y tecnología propia de las disciplinas que se entrecruzan surge como una necesidad práctica, para informar sobre riesgos en la salud, planear y ejecutar campañas de salud publica y obvio, el interés comercial se deja ver muy pronto, incluyendo las técnicas de marketing y mercadotecnia para desplazamiento de productos. Solo dos proyectos que aglutinan comunicación y salud, con la interfase educación pueden considerarse serios y completos, enfocados a la comunicación y salud, por entero, desde nuestro punto de vista y corresponden al projetoradix y Revista Comunicación y Salud. Muchas otras revistas de comunicación y las revistas médicas también incluyen tópicos de salud. La revista de la organización panamericana de la salud (OPS en español y PAHO en ingles) incluye frecuentemente artículos enfocados a comunicación y salud. Por lo anterior, consideramos el campo en crecimiento, con muchas áreas y puntos académicos por cubrir, y aun más, muchísimo más por hacer en América Latina, donde los materiales producidos no alcanzan los índices bibliométricos que sí se dan en otras latitudes.


Referencias 1. Bañuelos RD, González MA. 2006. Estrategias de comunicación en las actividades de salud. La experiencia colaborativa de un hospital del Instituto Mexicano del Seguro Social. UNIrevista Vol 3, Núm 1(julho 2006). 2. González MA, Bañuelos RD. 2006. Análisis de las trayectorias educativas y escolares en la frmación de estudiantes de comunicación en la Benemérita Universidad Autónoma de Puebla, BUAP UNIrevista Vol 1, Núm 3 (julho 2006). 3.

www.monografias.com,

www.definicion.org.com.

Definiciones

básicas

y

conceptuales de comunicación e información. No las hemos citado textualmente para la redacción de este trabajo. Consultado 02.02.2012. 4. Deleuze Gilles y Campbell Jeremy 1940. En Google académico. Información para estos autores, es un conjunto sistematizado de datos que final y operacionalmente constituyen un mensaje. Son pioneros para la formación y estudio del campo de la comunicación a través de herramientas semióticas. Consultado 05.02.2012. 5. Ignarra 1988. www.juridicas.unam.publica/librev/rev/rap/com.

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11. Revista de la Organización Panamericana de la Salud. En: www.revista.paho.org 12. www.projetoradix.com.br. La página de projetoradix, la hemos consultado en varias ocasiones. Contiene una buena cantidad de información y ligas para acceder a los trabajos. 13. www.revistadecomunicaciónysalud.org. Revista de fundación reciente, fácil acceso, varias ligas, última consulta para este trabajo, fue: 04.03.2012. 14. Signo vital. Comunicación estratégica para la promoción de la salud. Coordinadores Hidalgo TJA, Gómez MDG. 2011. Ed Porrúa-Anáhuac. México 15. La suegra charlatana contra los pacientes del Dr. Verdes. Video en www.youtube.com.


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XI Congresso ALAIC - GT5 - Parte 1/2  

XI Congresso ALAIC, 2012. GT5. Comunicación y Salud.

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