Issuu on Google+


“E tudo nascerá mais belo, O verde faz do azul com o amarelo O elo com todas as cores Pra enfeitar amores gris...” DJAVAN – “Nem um dia” [Malásia, 1996]


APRESENTAÇÃO Assim como o estudo das formas (Composição Visual), o estudo das cores é um dos grandes responsáveis pelas transformações do meu olhar para com o mundo ao meu redor. Quando ocasionalmente vejo crianças brincando com tintas com uma intimidade que me soa desconcertante, fico me perguntando onde eu estava nas aulas de educação artística, se é que eu tive alguma disciplina parecida com isso algum dia – coisa da qual, devo confessar, realmente não me lembro. Suspeito que nenhuma outra teoria seja, literalmente, tão difícil de ser colocada em prática. Passado o encantamento inicial, próprio de uma criança, de vislumbrar o verde surgindo do azul com o amarelo, a tarefa de reproduzir a cor exata com a qual se deseja trabalhar se revela, ao menos para mim, muito mais impossível do que estimulante e desafiadora. Eu simplesmente não podia imaginar que aquilo que me parecia uma brincadeira de criança fosse algo tão difícil, que exigisse uma habilidade tão singular. Os trabalhos apresentados a seguir não têm qualquer pretensão artística, mas guardo como memoriais de grande valor sentimental por me trazerem ao menos dois aprendizados de valor inestimável: (1) entender porque alguns artistas são considerados geniais, mesmo quando suas obras não são do meu gosto pessoal; e (2) aprender a valorizar e respeitar o mais simples daqueles “quadrinhos” que antes me pareciam tão grotescos. Em ambos os casos, e também no caso dos desenhos de crianças, simplesmente não dá mais para olhar e dizer “até eu faço isso”.


“SALADA DE FRUTAS” – Malha de criação própria em cores quentes


“INVERNO” – Malha de criação própria em cores frias


“ASSIM SEM VOCÊ”* – Malha de criação própria em tons de cinza

*Ao meu esposo, cuja ausência torna meus dias gris.


“WALKING ON BROKEN GLASS”* – Abstração geométrica em tons de cinza

*Dedicado a uma amiga querida, companheira de caminhadas cortantes...


Depois de pronto, parece fรกcil... Mas, se uma imagem vale mais que mil palavras, nada mais resta a dizer!


[IN MEMORIAM] Se todos fossem iguais a você... “Você me lembra Tom Jobim”: nessas palavras eu ouvi talvez o mais lisonjeador elogio que já recebi. Nem pude compreendê-lo sem explicação, afinal, como assim, se nem musicista eu sou? Nas palavras que se seguiram – que me fizeram sentir meu rosto, literalmente, arder e corar de embaraço e constrangimento – veio uma declaração que jamais imaginei ouvir um dia: “se todos fossem iguais a você, que maravilha seria dar aulas! Se todo aluno fosse assim, nosso ofício seria não simplesmente muito mais fácil, mas também uma grande alegria”. Assustada e sabendo não ser merecedora de tamanha expectativa, eu só queria achar um canto para me esconder de todos ao redor. Desejosa de reencontrá-lo para lhe mostrar minha criação para o relógio de uma sala de jantar, sou surpreendida pela notícia de que ele “já não está mais entre nós”. E eu nem tive a oportunidade de lhe mostrar uma criação singela, mas da qual, imagino, ele ficaria orgulhoso por perceber que seus ensinamentos não foram em vão... Mais do que isso, perdi a oportunidade de lhe dizer que a honra era minha. Afinal, se todo professor fosse igual a ele, as salas de aula brasileiras seriam ambientes de verdadeira construção do aprendizado, ambientes verdadeiramente acadêmicos, onde a produção intelectual seria estimulada e devidamente valorizada e, sobretudo, o mundo seria um lugar com mais ética e competência. Portfólio dedicado à memória de Valério Rodrigues (1950-2014): professor cujas provocações aparentemente rudes, escondiam simplesmente o desejo de formar não apenas novos “diplomados”, mas seres pensantes e capazes de encantar o mundo através das cores; homem que me fez enxergar esse mundo de um jeito bem mais colorido...



Teoria e Prática da Cor