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EXPEDIENTE

EDITORIA

Palavra do Presidente Revista de Cultura AJUFE · 6ª Edição

Diretoria da AJUFE · Biênio 2008/2010 Presidente Fernando Cesar Baptista de Mattos Vice-Presidente da 1ª Região · Miguel Ângelo de Alvarenga Lopes Vice-Presidente da 2ªRegião · Andréa Cunha Esmeraldo Vice-Presidente da 3ª Região · Nino Oliveira Toldo Vice-Presidente da 4ª Região · Carla Evelise Justino Hendges Vice-Presidente da 5ª Região · José Parente Pinheiro Diretoria Secretário-Geral · Jurandi Borges Pinheiro 1° Secretário · Paulo Cezar Neves Junior Diretor Tesoureiro · Vilian Bollmann Diretor da Revista · André Ricardo Cruz Fontes Coordenação geral · Fernando Cesar Baptista de Mattos Coordenação de apoio · Mônica Sifuentes e Liliane Roriz Jornalista responsável · Renata Camargo Projeto gráfico e diagramação · Eye Design Ilustrações · Jô Oliveira Fotografias · Canindé Soares Apoio técnico · Andréia Levi Colaboradores desta edição · Anna Ruth Dantas, Maísa Carvalho e Vera Brant Capa: Morro do Careca, praia de Ponta Negra, Natal (RN) Foto: Canindé Soares AJUFE · Associação dos Juízes Federais do Brasil SHS Quadra 06, Bloco E, Conjunto A, Salas 1305 a 1311, Brasil XXI, Edíficio Business Park 1 Brasília/DF CEP 70322-915 Tel. (61) 3321.8482 e fax (61) 3324.7361 www.ajufe.org.br

Diretor de Assuntos Legislativos · Paulo Ricardo Arena Filho Diretor de Relações Internacionais · Marcelo Navarro Ribeiro Dantas Diretora Cultural · Raquel Domingues do Amaral Corniglion Diretora Social · Isadora Segalla Afanasieff Diretor de Relações Institucionais · Antônio Sávio de Oliveira Chaves Diretora de Assuntos Jurídicos · Márcia Vogel Vidal de Oliveira Coordenador de Comissões · Ivanir Cesar Ireno Junior Diretor de Esportes · Marcus Lívio Gomes Diretor de Assuntos de Interesse dos Aposentados · Edison Messias de Almeida Diretor de Informática · Bruno Augusto Santos Oliveira Diretora Administrativa · Élio Wanderley de Siqueira Filho Diretor de Comunicações · Lidiane V. Bomfim Pinheiro de Meneses Conselho Fiscal Guy Vanderley Marcuzzo Marcello Ennes Figueira

Os textos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião da revista. É proibida a reprodução total ou parcial dos textos, fotos e ilustrações sem prévia autorização. Revista não destinada à venda. Distribuição realizada pela AJUFE.

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Revista de Cultura AJUFE

Bianca Georgia Arenhart Munhoz da Cunha Diretores Suplentes Manuel Maia de Vasconcelos Neto Roberto Carlos de Oliveira

A Revista de Cultura da AJUFE chega à sexta edição como fruto da enriquecedora colaboração literária dos juízes federais. Em artigos, crônicas, poemas, contos e poesias, os magistrados traduzem, pouco a pouco, os sentimentos vivenciados pela alma humana. “Ser poeta e ser juiz?”. À pergunta, o juiz federal Marcos Mairton lembra, em Poesia e magistratura, que a poesia está em todo lugar – no pedido do advogado, no olhar do acusado, na sentença do juiz – e alerta para que não nos preocupemos se de repente descobrirmos o poeta que existe dentro dos nossos corações. A entrevista com o ex-ministro José Delgado, recém-aposentado, traz informações enriquecedoras sobre a cultura norte-riograndense e a vida de um magistrado que atuou como ministro no Superior Tribunal de Justiça por 14 anos, ocupou cadeira no Tribunal Superior Eleitoral e dedicou toda sua carreira ao aperfeiçoamento da magistratura federal. O papel histórico da mulher retratado no poema do juiz federal Carlos Augusto Tôrres Nobre, Ao dia internacional da mulher, mostra como a sensibilidade feminina poderia ter mudado os rumos da história. Essa mesma mulher, também enaltecida pelo juiz federal aposentado Adão de Assunção Duarte, no artigo Considerações sobre a mulher, revela-se uma notável “heroína anônima” e supera o mito do “sexo frágil”. Na crônica Perfil, do juiz federal Francisco de Barros e Silva, um retrato sobre o tempo – o passado, as lembranças, os arrependimentos e os aprendizados. Já o conto de Marcel Citro, Sol no asfalto, remete-nos a uma envolvente viagem no velho carro Corcel amarelo sob o “sol inclemente”. E sob o Calor da poesia do juiz federal Dario Machado, somos acolhidos pelo afago do peito, pegos pelo cheiro do corpo e envoltos pelas recordações da mente. Já no conto O mocassim¸ o juiz federal Alexandre Henry Alves narra os divertidos caminhos e devaneios feitos pelo personagem Ricardo, sem carro, mas com um novo e sempre limpo sapato mocassim marrom. Dos caminhos da fé às intimidades e aos conflitos humanos, retratado no conto Batina suspensa, o juiz federal Edison Pereira Nobre Júnior traça uma surpreendente e suave narrativa sobre o celibato. Em Filosofar é aprender a morrer, a juíza Márcia Hoffmann do Amaral e Silva Turri percorre os ensaios do francês Michel de Montaigne e ensina-nos a destemer a morte – inevitável e universal. Na resenha A vida de cada um, o juiz federal José Carlos Garcia analisa a obra A Vida dos Outros, produção alemã vencedora do Oscar de melhor filme em língua estrangeira no ano de 2006. O magistrado fala sobre o poder e a liberdade tratados na produção que caracterizou como “um comovente e perturbador manifesto pela humanidade”. Esta edição da Revista de Cultura da Ajufe também mostra todos os encantamentos e as belezas da cidade de Natal, apresentando a história potiguar, as manifestações culturais e religiosas, além de roteiro completo com dicas e pontos turísticos que não podem deixar de ser visitados por aqueles que estão na cidade. Sobre as belezas de Natal, o juiz federal Ivan Lira de Carvalho nos leva a um passeio pelos bairros, praias, artesanatos e museus de Natal, cidade onde “até o nome é sagrado”. Fernando Cesar Baptista de Mattos


SUMÁRIO

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Credibilidade Amigos, Estamos muito satisfeitos com a nossa Revista de Cultura AJUFE. As colaborações para preencher as páginas da nossa publicação cultural estão chegando em maior quantidade, a cada edição. Isso mostra o quanto a revista adquiriu credibilidade e, ao mesmo tempo, o tanto que a produção cultural dos juízes federais tem sido intensa, o que é gratificante para todos nós. Este número terá um novo formato. Na primeira parte, o conteúdo é composto pelo tradicional, isto é, as poesias, os contos, as crônicas e os artigos de nossos colegas. Na segunda, encontra-se uma prévia do que será o XXV Encontro Nacional da AJUFE. Nessa parte da revista, o leitor terá a oportunidade de aprender um pouco mais sobre Natal, a cidade-sede do evento… Só para deixar todos com água na boca. Boa leitura e divirtam-se! Liliane Roriz e Mônica Sifuentes

Cultura Popular O melhor do norte-riograndense · Por Maísa Carvalho Natal: até o nome é sagrado · Ivan Lira de Carvalho No ritmo do evento Inspiração poética Poesias · Dario Machado Carlos Augusto Tôrres Nobre Marcos Mairton da Silva

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Contador de histórias Crônica · Francisco de Barros e Silva

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Quem conta um conto Contos · Alexandre Henry Alves Marcel Citro Edilson Pereira Nobre Júnior

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Academia Artigos · Adão de Assunção Duarte Márcia Hoffmann do Amaral e Silva Turri

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Escurinho do Cinema A vida de cada um · José Carlos Garcia

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Ponto de Vista Entrevista com o ex-ministro José Delgado · Reportagem Renata Camargo

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Conhecendo Natal · Por Anna Ruth Dantas Na “esquina” do continente Os imortais potiguares O velho cantador e seus cordéis · Marcos Mairton O sabor que vem do sertão Entre rendas, bordados… Uma noite de gastronomia e muita música Os tesouros de Câmara Cascudo Bant: nos idos da II Guerra Mundial Por dentro dos pontos turísticos Pós-encontro: arredores de Natal Guia: gastronomia, entretenimento e compras Meditações de uma sogra · Por Vera Brant Revista de Cultura AJUFE

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NATAL

O melhor do norte-riograndense Reportagem Maísa Carvalho Potiguar é o nome de uma grande nação tupi que habitava a região litorânea do que hoje são os estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Em tupi quer dizer “comedor de camarão” e se tornou a denominação de quem nasce no estado norte-riograndense. Povo feliz, de tradição católica, os nascidos na região têm muito o que mostrar a seus visitantes. Diga-se lá os gabolas que vão atrás das caritós para dançar um popular “rela-bucho” no melhor do cheek to cheek… olhar…”. Composta por Othoniel Menezes e “Traga a vasilhaaaaaaaa. É o picolé caseiro Eduardo Medeiros, a canção fala sobre um de Caicó na sua rua, na sua porta.” A frase é grupo de pescadores natalenses que resolveu repetida à exaustão pelos bairros de Natal e sua lembrança já faz o potiguar abrir um sorri- partir a remo, em 1922, para o Rio de Janeiro, so. Nada mais é do que um picolé que leva o a capital do país na época. Por aqui no mês de junho, todo mundo nome de uma cidade distante a 280 quilômetros da capital que é famosa não só por seu dança quadrilha e não é das organizadas, é aquela gerada em meio à diversão, no impropicolé, mas muito, muito mais pela carne de sol, o queijo e o rico artesanato. Coisa assim, viso. Junta-se um grupinho e lá estão todos só potiguar entende. O mesmo ocorre quando em meio a “alavantus”, “anariês” e “balancês”. deixamos a língua portuguesa de lado e, em Difícil por essas ruas, é encontrar um natalense seu lugar, adotamos a linguagem papa jeri- com mais de 20 anos que não nasceu na Mamum. Aí danou-se. É um tal de caritó, pitoco, ternidade Januário Cicco ou ser apresentado incherida, fulêro, arrudear, invocado… Mas a alguém que nunca assistiu ao espetáculo com jeitinho, a gente vai explicando: “Cabra do Pastoril, torcendo pelo cordão azul ou pelo posudo é gabola, otário é abigobel, o chato é “encarnado” (vermelho). galado e puxa saco, xeleléu. Tudo que é bom É uma gente religiosa, de tradição católica “ Capaz de absorver é massa, é arretado, é primeira. Tudo que é (especialmente em dias de festa de padroeira), culturas dos povos ruim é peba, mas também pode ser reiêra. que faz sinal da cruz ao passar por igrejas, vai de todos os cantos, Botão de som é pitoco, mulher solteira é caritó, às missas de cura, ora pro santo de devoção [o potiguar] é um a galinha é incherida e lança perfume é loló. e na infância aprendeu a rezar “com Deus me povo feliz que adora Pernilongo aqui é muriçoca, chicote se chama deito, com Deus me levanto”. comer camarão e no açoite. Tá (sic) com raiva, tá invocado, quem Sobre a Pedra do Rosário, em meio ao Rio fim da tarde anda no entra sem licença, imbioca e sinal de espanto Potengi e o mar, o natalense encontrou o pôrcalçadão da praia de é vote”. Esse dialeto praticado na informalidade do-sol mais lindo do mundo. Conhecido pela Ponta Negra e toma é um dos muitos costumes de quem vive no hospitalidade, o potiguar é acolhedor e sempre uma água de coco” Rio Grande do Norte. pergunta ao turista de primeira viagem: – Já Potiguar nascido em Natal sorri e faz coro conheceu Ponta Negra? E o Morro do Careca? quando escuta os acordes da música de Pe- Capaz de absorver culturas dos povos de todos drinho Mendes, Linda Baby, e concorda com os cantos que passam por aqui, é um povo feliz o que diz a canção: “Essa é uma terra de um que adora comer camarão e no final da tarde deus mar, de um deus mar que vive para o anda no calçadão da praia de Ponta Negra e sol…”. Mas potiguar também se cala para ou- toma uma água de coco. Nos fins de semana vir a nossa música mais tradicional, Praieira: vai à praia, muda-se com a família para a fazen“Praieira dos meus amores, encanto do meu da, passeia nos shoppings, aporta na Redinha 6

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para saborear ginga com tapioca, leva os filhos O forró é uma paixão no Nordeste e por aos parques, corre em vaquejada, lancha na estes lados não poderia ser diferente. O ritPittsburg (famosa sanduicheria de Natal), vai a mo musical encanta muitos natalenses, mas, um show e pega um cineminha sempre recla- mesmo com o sucesso do forró eletrônico, a mando da pouca opção de filmes. preferência entre o povo é o tradicional péPotiguar dorme em cama e em rede. Fica de-serra – aquele onde um trio composto por balançando nas varandas pra lá e pra cá e é zabumba, triângulo e sanfona entoa canções “Todo fim de semana, e um povo que consegue transformar espaços que falam do sertão, de amores e saudades. até durante a semana, de sua rotina em ponto turístico. Um exem- Todo fim de semana, e até durante a semana, tem um lugar pra se plo é a Ponte de Todos – Newton Navarro. tem um lugar pra se dançar. Mas atenção! Pas- dançar. Mas atenção! Passar a parceira por Observando um pouco, vemos os mesmos sar a parceira por baixo da perna e fazer outros baixo da perna e fazer carros passando de um lado para o outro, malabarismos na pista de dança não voga nos outros malabarismos com seus motoristas contemplando a paisa- salões locais. O jeitinho de dançar potiguar é gem ao redor. o popular “rela-bucho”, dois passinhos pra lá, na pista de dança não voga nos salões locais” Quando busca o melhor preço, o potiguar dois pra cá, com damas e cavalheiros bailando não titubeia e foge dos shoppings. Nessas à base do universal cheek to cheek. ocasiões, lá vai ele bater perna pra cima e pra Na cidade, podem até existir mais de dois baixo, nos centros comerciais dos bairros do times de futebol, mas pelas conversas no meio Alecrim e Cidade Alta. O que se diz é que de da rua e nas discussões acaloradas depois de tudo um muito se encontra por ali. O negócio um domingo no Frasqueirão ou no Machadão, é ter paciência e pesquisar… logo se percebe que o coração do potiguar As praças dos bairros e as cadeiras nas ou é alvinegro ou alvirrubro. Por aqui, cedo se calçadas já foram substituídas há muito pelas aprende a torcer pelo ABC ou pelo América. praças de alimentação e, em cada esquina da E se o computador já invadiu as casas, ainda cidade, prepare-se para encontrar um super- “sobra” espaço para o elástico, a bola de gude, mercado. Tem aqueles de cadeia nacional, in- que aqui chamamos biloca, e as brincadeiras ternacional, mas natalense que se preze, pes- de polícia-ladrão, queimada, bandeirinha e quisa e é fiel ao supermercado que herdou a esconde-esconde. preferência de seus pais. Entretanto, as feiras No final do ano, os natalenses se reúnem de rua ainda têm lugar, dia e público garanti- pra assistir ao Espetáculo do Auto do Natal e dos. De domingo a domingo, vemos senhoras quando potiguar se encontra, seja lá em qual carregando suas amplas sacolas e homens pe- lugar for, é aquela festa. Para os íntimos, um chinchando. Rolete de cana, tapioca de coco, abraço apertado, já com os mais formais, a cuscuz de milho, cajá, mangaba, pitomba, cio- regra aqui é trocar dois beijinhos. ba, cavala, preá, celular… se é produto que se Todo potiguar que deixa Natal para tentar vende ou troca, nas feiras de Gramoré à Lagoa a sorte em cidades e países distantes, volta. Nova, você vai encontrar. Quem vem de longe e conhece, retorna. * Revista de Cultura AJUFE

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FOTOGRAFIA: CANINDÉ SOARES

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NATAL

Natal: até o nome é sagrado Por Ivan Lira de Carvalho

O que dizer de uma terra em que as manifestações culturais brotam espontaneamente do povo, que a hospitalidade é o cartão de visita dessa gente e o ar é considerado o mais puro das Américas? Conheça alguns dos caminhos que devem ser trilhados na, nada mais, nada menos, terra conhecida como Cidade do Sol. “O ar puro invade os pulmões, fornecendo o elemento vital para a purificação do corpo e para o enlevo da alma. A manhã se abre devagar, preguiçosa, mas radiante em perspectiva. Os raios de sol se atrevem a beijar as faces dos eleitos, de forma delicada e gradual, transpondo, em frestas, as monumentais ubaias-doces que guarnecem o trajeto. Os passos do caminhante tomam ritmo crescente, em paralelo com o dia. O percurso é vencido de forma prazerosa, num sensual abraço da vida com… a vida, estampada na relva orvalhada que orienta a trilha; no chilrear dos sabiás espevitados; no curvar reverente dos bambus, em mesuras botânicas e senhoriais. A brisa desce em lufadas, vinda dos morros, na cadência necessária para amalgamar-se à temperatura ordenada pelo astrorei, tornando – e mantendo – a amenidade do ambiente. A investigação intuitiva do visitante, voltada aos insetos que habitam o lugar, comandados pela tocandira (formiga grandona, coisa de duas polegadas), finda por demonstrar a harmonia entre bichos e homens. Tudo é paz.” A descrição acima pode ser aplicada a inúmeros lugares do Planeta. Mas onde ela cabe melhor é em Natal, no Bosque dos Namorados, porção do Parque das Dunas, uma das mais importantes reservas do ecossistema dunar do Brasil, que se arrasta desde a beira-mar, Via Costeira, até entregar-se às plagas do Tirol e de Capim Macio. Excelente programa para um amanhecer harmônico consigo mesmo e com as forças da criação.

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Mas, se o freguês é essencialmente de praia, não ficamos em débito. Limpe os olhos com as águas e com a salinidade moderada de Mãe Luiza, Barreira Roxa, Barreira D’Água e Ponta Negra. Respire fundo. Enfie os pés nas areias fofas que é oferta da casa. Nuns pontos, os grânulos são maiores e noutros pequeninos, igualmente macios. Avance até a enseada que se posta com vontade de enlaçá-lo com lentidão e manha. Não tenha pressa também. Usufrua cada segundo da caminhada no rumo do Morro do Careca. Distração só aceite das jangadas toscas que bordejam o lugar, indo para os mistérios oceânicos ou já quedadas pelo enfado da jornada do antanho. Os arrastões também merecem uma parada. Veja como cintilam os caícos e as gingas, peixes miúdos, que se desprendem das redes para fazer a festa das frigideiras pouco mais tarde, em dobradinha com tapioca de goma fresca. No sopé da grande duna, faça uma reverência ao modo praiano: admire-a, dê um volteio e… tchibum, mergulhe na água morna que está ali ao seu dispor, criada e reservada para a sua deleitação. E se o camarada gosta mesmo é de história e de cultura? Então, vá para outro lado da orla. Espie o Farol de Mãe Luiza, inaugurado em 1951, e siga pelas praias de Areia Preta, do Meio e do Forte, pois nessa última está a Fortaleza dos Reis Magos, cuja construção começou em 1598, no dia 6 de janeiro, que é consagrado a Gaspar, Baltazar e Belchior, os presenteiros de ouro, incenso e mirra ao Menino Deus. Anote aí que no ano seguinte, a 25 de dezembro, aniversário do Revista de Cultura AJUFE

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rapazinho aqui referido, foi criada a cidade (que não foi sítio, vila, distrito… foi logo cidade), por um decreto reinol. Por quem? A peleja histórica está entre Mascarenhas Homem e Jerônimo de Albuquerque. Se quiser saber mais, leia Diógenes da Cunha Lima1 , Manoel Onofre Júnior2 e Olavo Medeiros Filho3 . Na volta, lance olhos para a Ponte Newton Navarro (um poeta-pintor-escritor que viveu e morreu de boemia e de amor à sua terra), arrojada tecedura da engenharia e da arquitetura, inaugurada em 2007, cruzando o Rio Potengi na sua foz, de Santos Reis à Redinha. Para que se tenha uma razoável ciência sobre a nossa cidade, é interessante uma subidinha ao atual Centro de Turismo, topo da colina de Petrópolis, que já foi albergue, hospital e presídio. Além de poder comprar o artesanato potiguar mais representativo, leva de quebra um visual inesquecível, tanto das praias como da quase totalidade dos bairros margeados pelo rio e pelas dunas. Aproveite que dá tempo para uma volta pela Ribeira, bairro histórico, boêmio e sede de parte do comércio grossista. Portuário. Numa rua que tinha o sugestivo nome de “das Virgens”, nasceu Câmara Cascudo (1898-1986), expressão maior das nossas letras, etnólogo, professor, advogado, jornalista, folclorista… o escambau! Em adulto foi morador do bairro até o fim da vida, em um belo casarão que pode ser contemplado em salteios com outros exemplares igualmente exuberantes:

o Teatro Alberto Maranhão, a antiga Faculdade de Direito, o Museu do Folclore, a sede da Imprensa Oficial, a Capitania das Artes, o Solar Bela Vista e a sede da Ordem dos Advogados do Brasil. Já na Cidade Alta, sinta-se no primeiro quadrilátero urbano de Natal. Ali, na data da criação, foi celebrada missa em uma capelinha de palha de coqueiro, no chão onde posteriormente foi erguida a Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, a padroeira. Entre, está bem restaurada e conservada. Na vizinhança, o Instituto Histórico e Geográfico, guardião das nossas memórias, instalado em 1902, em cuja entrada está o marco português da posse do Brasil, que, em 1501, foi chantado na Praia de Touros por Gaspar de Lemos. É, entre nós, o “documento” mais antigo do domínio lusitano sobre a terra brasilis. Mais alguns passos e estará no Palácio da Cultura, antiga sede da governadoria do estado, atualmente abrigando a pinacoteca oficial e destinado a atividades artístico-culturais. No square em frente, encontrará também a Prefeitura Municipal (de 1922) e as sedes do Tribunal de Justiça e da Assembléia Legislativa, de estilo contemporâneo. Ainda nas cercanias, visite o Memorial Câmara Cascudo, edifício de 1722, com feições neoclássicas, que já foi cadeia, Senado Estadual, Tesouro e Quartel General do Exército. Tem muito dos objetos e da obra do venerado escritor. De museu tem o do Sobradinho, na Rua da

1 LIMA, Diógenes da Cunha. Natal: biografia de uma cidade. Rio de Janeiro: Lidador, 1999. 2 ONOFRE JÚNIOR, Manoel. O diabo na guerra holandesa e outros escritos. Natal: Nossaeditora, 1990. 3 MEDEIROS FILHO, Olavo. Terra Natalense. Natal: Fundação José Augusto, 1991.

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Usufrua cada segundo da caminhada no rumo do Morro do Careca. Distração só aceite das jangadas toscas que bordejam o lugar, indo para os mistérios oceânicos ou já quedadas pelo enfado da jornada do antanho

Conceição, com acervo pessoal de Café Filho, o

arquiteto greco-italiano responsável pelo projeto

único potiguar a ocupar a presidência da República. Na mesma linha de rua, já sob a invocação de

de urbanização da área, em 1929, consistente em um xadrez de ruas com os nomes dos rios do

Santo Antônio, tem a igreja dedicada a esse santo, anexa ao convento franciscano. Estilo colonial do século XVII, com belíssimos entalhes em rococó, é chamada Igreja do Galo, por ter a torre-mor

estado, cortadas por avenidas com os nomes dos presidentes da República, pela ordem dos mandatos, de Deodoro a Hermes da Fonseca. Já no bairro praiano, estão situados os mais recomendá-

encimada por um cacarejante de Barcelos. Quer ver o povão solto na buraqueira, nas

veis especialistas em frutos do mar, com destaque para os camarões e as lagostas, passíveis de fazer

suas falas, costumes, olores e visões? Vá ao Alecrim, que tem feira-livre e mercado de rua com camelôs estridentes e linhas de ônibus vindas dos quatro cantos da urbe, trazendo operários, comer-

a água da boca escorrer até encontrar-se com a do mar. Na noite, inverta o programa do meio-dia

ciantes, vendedores, donas de casa e outras patentes, em busca de artigos em preços módicos ou pelo simples prazer do furdunço. Embebedese com o cheiro dos cajus vermelhos disputando com os amarelos a melhor posição na bacia bem areada, no brilho. Encante-se com o grito dos vendedores de caranguejo, em pregão convicto de quem oferece o melhor, mesmo que não seja… Mas, se aprecia coisa mais refinada, estique a um dos bons shoppings, onde, no dizer do populacho, “tem de um tudo”, com relevo para as boas livrarias. Verá outra face da cidade; nem melhor e nem pior. Diferente, apenas. Hora de pensar em comer bem. Jogue dados, aposte no “par-ou-ímpar”, dispute palitinho, ou faça fé no “bem-me-quer-mal-me-quer” entre Petrópolis/Tirol e Ponta Negra. Páreo duro. No primeiro conjunto, assentado na área do Plano Palumbo, estão os restaurantes da gastronomia mais premiada. O Plano Palumbo é referência ao

e nenhum arrependimento terá, inclusive porque em ambos os trechos existem excelentes barezinhos para uma esticada decente. Claro que há muito mais a ser dito de Natal. Que é o ponto mais próximo entre o Brasil, Europa; e a África; que tem o ar mais puro das Américas, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), sob encomenda da Nasa; que tem as mais fiéis torcidas futebolísticas que se possa imaginar, mesmo que os principais times não correspondam a essa devoção; que a musicalidade dos artistas e compositores é cativante; que a hospitalidade é de primeira, etc. Entretanto, seria frustrar a capacidade criativa do visitante, que ao fim do périplo sentir-se-á habilitado a discorrer sobre a CidadePresépio com tanta propriedade como se aqui mesmo tivesse nascido e sempre vivido. Coisas que só acontecem mesmo em uma cidade que tem um nome desses…

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Ivan Lira de Carvalho é Juiz Federal em Natal (RN). Revista de Cultura AJUFE

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NATAL

No ritmo do evento Seja bem-vindo ao XXV Encontro Nacional Samba-choro e MPB dos Juízes Federais do Brasil. É com muito prazer que Natal recebe, com alegria e hospi- “Tamborim avisou, cuidado talidade, magistrados de todo o país para este Violão respondeu, me espera momento de debates e celebração. Em três Cavaquinho atacou, dobrado dias de evento, os participantes do encontro Quando a apito chegou, já era terão a oportunidade de discutir sobre assuntos relacionados ao tema meio ambiente e Veio o surdo e bateu, tão forte mudanças climáticas. Que a cuíca gemeu, de medo O primeiro dia de evento será reservado E o pandeiro dançou, que sorte às solenidades de abertura; o segundo dia, aos Fazer samba não é brinquedo…” debates e palestras relacionados ao tema, e o Em poucos segundos, o corpo não mais terceiro, à assembléia geral e à programação obedece. Basta a introdução da canção Alô esportiva. A conferência inaugural tem como Fevereiro, sucesso em todo o país, para a emotema Direito de Propriedade e Meio Ambiente, ção da música tomar conta suavemente. Interem painel dirigido pelo ministro do Superior pretada pela cantora e compositora potiguar Tribunal de Justiça (STJ) Teori Zavaski. Roberta Sá, a letra do hit é apenas uma mostra Mas nem só de “seriedade” será feito o do que vem a ser o show: uma brincadeira encontro. A organização do evento também criativa entre instrumentos e voz. preparou para você uma programação cultural Nascida em Natal, no dia 19 de dezembro recheada, que agradará a todos os gostos. Já no de 1980, essa sargitariana com ascendente jantar de abertura, que será realizado no Ocean em aquário mudou-se para o Rio de Janeiro Palace Hotel, localizado na badalada praia de aos nove anos de idade. Criada na capital caPonta Negra, a atração será a potiguar Roberta rioca, Roberta expressa a diversidade cultural Sá, que canta o melhor da MPB contemporâ- em sua música. “Ser nordestina sempre teve nea com composições próprias e sucessos de uma importância enorme para mim… Acho clássicos da música popular brasileira. que foi dessa diversidade de lugares e pesA noite de encerramento será contempla- soas, que veio o meu gosto musical”, conta da com a apresentação da Banda Eva, um dos em sua carta biográfica. grupos mais famosos de axé music. Conheça Além de Rio e Natal, a influência em sua um pouco mais sobre as atrações culturais musicalidade também tem raízes nos municídeste encontro. pios de Mirim, no Ceará – terra de sua família 14

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materna – e em Muriú, cidade litorânea do Rio Grande do Norte, onde a cantora passava férias de verão com o pai. Sua trajetória é marcada pela influência musical dos Beatles, da Jovem Guarda, de cantores da MPB e de músicas regionais. No show de abertura do XXV Encontro Nacional, Roberta Sá apresenta o repertório de seus dois álbuns: Braseiro, lançado em 2005, e Que Belo Estranho Dia para se Ter Alegria, de 2007. As canções, em meio a composições próprias e interpretações de músicas de Dorival Caymmi, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Junia Barreto, Moreno Veloso, Rodrigo Maranhão e outros, trazem uma mistura de samba-choro com MPB e uma pitada leve de eletrônica. Pra dançar “O Zuzum Ba Zumbaioba Oba oba oba (o Ererion) Domingo Rua 15 Festa da Quizumba lá na casa da mãe O Zumalaicara, o Zumalaicara…” Esse é apenas um trecho de uma das canções que promete “botar o esqueleto para dançar”. A letra, nada convencional, faz parte da mais nova canção da Banda Eva, Rua 15. Em uma mistura de axé music com pop, a música revela sonoridades vocais quase onomatopéicas. Na noite de encerramento do XXV Encontro, a banda Eva será a responsável pelo show que relembra o melhor de sua trajetória, com antigos e novos sucessos da música baiana. Sob o comando do vocalista Saulo Fernandes, a banda canta canções como Arerê, Carro Velho, Beleza Rara e outros sucessos. A Banda Eva surgiu em 1993, oriunda do bloco carnavalesco soteropolitano. O grupo baiano fez grande sucesso na década de 1990, sob os vocais de Ivete Sangalo. Hoje, a banda possui franquias espalhadas por todo o Brasil. Com ritmo forte e dançante, o show é mais do que uma apresentação musical, tendo se transformado em espetáculo de pirotecnia. *

Confira a programação do evento 1º Dia | 24/11 | segunda-feira 19h | Solenidade de abertura | Serhs Hotel Mesa | Presidente da Ajufe e outras autoridades Jantar e Show de abertura | Ocean Palace Hotel Roberta Sá 2º Dia | 25/11 | terça-feira 15h | Direito de Propriedade e Meio Ambiente Ministro Teori Zavaski Dr. Erlado Pereira 16h | Intervalo 17h | Desenvolvimento e Meio Ambiente Dr. Vladimir Passos de Freitas Dr. Paulo Roberto Pereira Dra. Silvia Capelli 19h | Mudanças Climáticas Dra. Suzana Kahn Diplomata Luiz Figueiredo 3º Dia | 26/11 | quarta-feira 9h | Assembléia Geral | Serhs Hotel Tarde | Programação esportiva Noite | Encerramento | Grupo Eva

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Calor É no meu peito, lado esquerdo, que te guardo. Te acolho. Te cuido. Te afago. É com meu corpo, por inteiro, que te pego. Te abraço. Te cheiro. Te esfrego. Na minha mente, tempo todo, é que te tenho. Te recordo. Te sinto. Te desenho. E me empenho em respeitar teu medo, teu tempo, teu jeito. Porque te guardo, lado esquerdo, no meu peito. Dario Machado é Juiz Federal da 5ª Vara Federal do Rio de Janeiro (RJ).

Ao dia internacional da mulher Ó triste mundo, nosso tempo, insana sede de glória, Bem podia ser mais leve A mão que escreveu a história. Pilhagem e guerra, domínio e escravidão, Assuntos de Estado para os homens, Os porta-vozes da razão. Sublime criatura e hálito da substância do Criador, Atravessaram o lado do teu filho, Mulher, Razão de príncipe, vontade de imperador. Quantas Marias há no mundo, e sepulcros por cavar, Por que te tomaram a pena da história, Mulher, Por que tanto medo de amar? Padece a natureza; estéril, o deserto se anuncia, Que a semente de ternura Salve a Terra em agonia. Que não levem ao patíbulo o decreto de igualdade, Manchando de rubro as águas, Profanando a liberdade. Que na devoção ao trabalho de escrever a história Homem e Mulher, lado a lado, completem a criação. Carlos Augusto Tôrres Nobre é Juiz Federal da 6ª Vara Federal de Goiás (GO).

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CONTADOR DE HISTÓRIAS

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Poesia e magistratura Por isso eu acho normal Que todo bom magistrado Venha a ser considerado Poeta em potencial. Incorre em erro fatal Quem quiser fazer sentença Somente com o que pensa Sem revelar o que sente.

Certa vez, fui perguntado Sobre como eu conseguia Dedicar-me à poesia Sendo eu um magistrado. Vivendo tão ocupado, Com as questões do Direito, Como é que dava jeito Para escrever rimando, E também metrificando, Fazendo verso perfeito?

Um juiz desse, é urgente Que se afaste, de licença. Eu penso que a poesia Está em todo lugar, E quem vive a julgar A encontra todo dia: Quando o parquet denuncia Quando o réu faz sua defesa Quando a polícia traz presa, Gente por ela detida, É a poesia da vida Que me chega de surpresa!

Ser poeta e ser juiz O que há de estranho nisso, Pra quem tem o compromisso De ouvir a parte o que diz? Que vê o olhar feliz De quem ganhou a questão E tem a satisfação De sentir que fez Justiça Reparando a injustiça Que atingiu o cidadão?

A poesia aparece Quando o advogado No pedido formulado Diz: – Doutor, ela merece, Todo dia sobe e desce A ladeira da Queimada Carregando uma enxada Para trabalhar na roça Não é justo que não possa Ser agora aposentada. A poesia é presente No olhar do acusado Seja quando é culpado, Seja quando é inocente. Na testemunha que mente, E na que fala a verdade. Na imparcialidade Que todo juiz queria. Veja quanta poesia Em nossa realidade.

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Tulio Liebman lecionava, Que a sentença é assim, Vem de “sentire”, em latim, E, dessa forma, ensinava: Que na sentença se grava Não somente o pensamento, Mas também o sentimento Do juiz que a profere. Que ninguém desconsidere Esse grande ensinamento.

Se o poeta, realmente, Não é mais que um “sentidor”. Que chega a sentir que é dor “A dor que deveras sente”, Juiz não é diferente Quando cumpre sua função. Mesmo quando a decisão Em versos não se transforma Na aplicação da norma Há uma carga de emoção.

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Eu, antes de responder, Calado, pensei assim: Quem pergunta isso pra mim Não conhece o métier De quem tem que resolver Toda sorte de conflito. Que de perto escuta o grito Da nossa sociedade, Clamando por igualdade, Pedindo pena ao delito.

Fique tranqüilo, portanto, Meu colega, magistrado, Se, agora, aí sentado, Surpreender-lhe o pranto. Pois não será por encanto, Magia ou maldição. É só manifestação, Que nesse instante sentiste, Do poeta que existe Dentro do seu coração. Una parola speciale Per il dottore italiano, Chi ha parlato qui, per noi, Chi è venuto dal lontano. Molte grazie, professore. Sono un tuo admiratore, Auguri, Mario Losano. Marcos Mairton da Silva é Juiz Federal da 8ª Vara do Rio Grande do Norte. Revista de Cultura AJUFE

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Perfil Por Francisco de Barros e Silva

Houve épocas em que perdi minha face. Não sei se em algum espelho dos versos de Cecília Meireles, ou pelo simples esquecimento. O tempo se encarregou de esmaecer as cores do meu passado. Preparei-me para o inverno na primavera. Trago alguns arrependimentos, mas não vivo de mágoas. Joguei sozinho. Sem as regras do jogo factual. Trabalhei pelas trilhas de Recife, encontrei nas ruas a Saudade, a Concórdia, o Livramento. Conversei com o Capibaribe, no Poço e na Aurora. Trabalhei no cais, onde as ondas ainda quebram nos arrecifes e o céu se avermelha nas tardes, minguando em tons púrpuras. Encontrei-me na minha carreira e na minha Ciência Feliz. Corri demais e já não tenho pressas. Devagar com o andor, que o Francisco é de Barros. Não ascenderei aos céus (marcou-me Caymmi: “Pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz”…). Estudei entre mosaicos e colunas de ferro retorcido. Fiz-me processo e nele vou adiante, descobrindo a cada dia novos passos. Aprendi a admirar as vítimas do tempo. Páginas desbotadas. Capas se desfiando em rosários. A poeira traçando novas letras, sobre as letras que se foram. Ainda estudo todo dia e carrego a cruz de não conhecer tudo do que gosto. Mas os anos têm sido ricos de aprendizado. Ainda restam grilhões e sei que alguns não devem ser quebrados. Hoje contemplo (normalmente) tranqüilo as mágoas lavadas no rio ao mar. Por vezes, nada disso teve sentido, à falta de algo que reunisse em mim o que sou. Veio-me a advertência de Vinicius, “a oeste a morte, contra quem vivo, do sul cativo, o este é meu norte. Outros que contem, passo por passo”. Meu Nordeste. Provinciano. Severino. Busquei partes em tantos outros. Encontrei em Borges sienes grises y grises ojos. A confissão de meus pecados em Pessoa. Em Rayuela, desenhei sorrisos. Descobri em Neruda a canción desesperada de amor. O mestre Drummond, enfim, alertou-me que “os ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança”. A promessa contida na mão de uma criança. Hoje tenho saudades da Bahia de Caymmi e do Rio de

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Jobim. Cansado de guerra ou não. Roma, più edificarei outras colunas no lugar. Dóricas ou lontana mi stai, più vicina ti sento… Deixei doídas. Salomônicas retorcidas. Projetar-se-ão partes em Sampa, onde alguma coisa acon- novamente aos céus, como tributo à vida. “A teceu no meu coração. E, mesmo sem ser de vida apenas, sem mistificação.” ferro, guardo fé nas Minas Gerais, barrocas ou Sinto-me acompanhado na rede da varanmodernas, onde também me sinto em casa. da e sozinho em meio às multidões. Descobri Nas igrejas da minha vida deixei sempre a alegria dos pequenos gestos de meus irmãos os mesmos pedidos. Meu Deus sempre me – e de dialogar, sempre. Sou apenas palavras a ouviu, embora nem sempre eu compreenda oferecer. Mais espírito que carne. Mais desejo Seus desígnios. Felizmente, não acredito em que satisfação. Afeto prestes a nascer. uma fé pela metade e me ponho aos seus pés. Trago, enfim, nos meus olhos, a minha Franciscano, posto que não tenha os braços terra, família e amigos. Uma cor fronteiriça, cruzados e carregue minhas chagas além do entre um Soneto do Desmantelo Azul e uma alcance dos olhos. Coincidência ou não, vim Valsa Verde. Aprisionar nos olhos o azul das parar perto de Nossa Senhora da Conceição, coisas gratas ou mesmo o azul de cansaço. nessa freguesia das Graças, tão perto dos ou- Vestir meus gestos insensatos. Transformar a tros Aflitos… tristeza cinza em valsa verde (intuitivamente Arruinar-me… Podem, de fato, fazê-lo e, ouvir os acordes da minha juventude e sair por vezes, com minha paradoxal ajuda. Mas cantarolando). Esse sou eu. *

Francisco de Barros e Silva é Juiz Federal em Pernambuco. Revista de Cultura AJUFE

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QUEM CONTA UM CONTO

O mocassim Por Alexandre Henry Alves

Sozinho, ele ia caminhando pela rua esburacada, enquanto pensava na vizinha da esquina, a nova vizinha que usava short azul colado no corpo e miniblusa branca, dando os contornos dos seios de tamanho médio. – Mulher deveria ser proibida de usar um troço daqueles. Esse povo reclama tanto de gente rica que fica mostrando carro importado por aí e nem liga pra mulher que usa short azul e miniblusa branca. É, e também short preto, deveria ser proibido – resmungava ele, enquanto dava a volta no quarteirão. Não queria mostrar pra menina logo de cara que não tinha um carro, achava que menina desse jeito só andava de automóvel. Resolveu dar a volta pra não passar andando em frente à casa dela, porque era o caminho do ponto de ônibus e ela veria que ele não tinha um carro. – Olha, meu Deus, como alguém pode andar de carro numa rua dessas? Prefeito que é prefeito mesmo tinha que tampar buraco, porque quando eu tiver o meu 2.0, eu não vou querer ficar passando nisso, estraga a suspensão toda e amassa a roda.

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Caminhava distraído, misturando pensamentos entre o automóvel sonhado e as coxas da vizinha que vira quase sem querer no dia anterior. Era nova a menina, talvez tivesse uns 16 anos, coisa boa. Ah, e o cabelo com rabo de cavalo? “Rabo de cavalo sim, esse deveria ser proibido! Homem tem que ficar vendo essas coisas sem poder fazer nada? O ser humano é fraco, homem mesmo não se agüenta diante de um rabo de cavalo.” Virou a esquina e continuou caminhando de cabeça baixa. Olhava os buracos na calçada e agora pensava no seu mocassim novinho que tinha gastado metade do salário. Ricardo era assim: podia não ter dinheiro pra gastar com um carro, mas gostava do bom e do melhor. Andava na linha e até para o serviço ia alinhado, mais chique até do que o chefe. Era a sua desforra quando o velho de bigode, que não tirava o dedo do nariz, enchia o seu saco por causa da lerdeza no computador. Às vezes chegava berrando, gostava de ver o empregado abaixando a cabeça e pedindo desculpas, mas não tirava o dedo do nariz. “Como é que um homem desses consegue uma menina com rabo de cavalo? Nesse caso eu até permitiria, só pro sujeito se danar! Dedo no nariz é pior do que arrotar, porque a gente só arrota quando tá (sic) com vontade, mas dedo do nariz não tem vez, é bola dentro. Bobeou, o dedo tá lá. Pior é quando além de tirar sujeira ainda sai colando debaixo das mesas.” O Ricardo tinha nojo daquilo. Não tinha carro, é claro, mas tinha educação e um sapato mocassim, que o chefe não tinha. Por isso sempre dava um jeito de pedir pra faxineira passar o pano debaixo da sua mesa, porque o chefe a usava depois do serviço e ele não queria encostar naquilo, ainda que já estivesse seco quando ele chegava. Short azul! Lembrava-se da prima de um colega seu, a menina de short azul mais bonita que já vira na vida. Era curtinho, bem apertado e mostrava as formas da menina de um jeito delicado, extravagante, é verdade, mas ao mesmo tempo delicado. “É isso, short deveria ser que nem o da Clarinha: delicado.” Ficara apaixonado pela tal menina, mas desistira na primeira vez em que a encontrara num bar perto

da Vila Madalena, no carro de um cara um pouco mais velho do que ele. “Homem não é homem sem um carro!” Chegou distraído no ponto e ficou encostado no muro sem olhar para os lados, só para o sapato mocassim. Era bonito! Meio marrom, dava um destaque diferente para a sua roupa um pouco gasta, porque ele não estava bem das finanças e o salário não recebia um aumento há oito meses. “No mês que vem eu compro o cinto de couro. Vai combinar, vai sim, melhor do que o outro.” O Ricardo era um apreciador de sapato. Não entendia a moda besta de usar tênis, até pra sair de noite. Tênis não era coisa pra homem, menina não gostava daquilo. Só a sua irmã. Mas também aquela era uma desgovernada das idéias, tinha até arrumado um namoradinho cheio de querer bancar o bom da grana. “Moleque besta, fica enchendo a Cecília de presente. Tá achando o quê? Que a minha irmã vai se entregar por causa de uma coleção de CDs? Mas não vai mesmo, porque antes dela se entregar eu arrebento aquele idiota.” Era o carro, era sim. A Ciça, como costumava chamar a irmã quando não estava com raiva dela, só ficara com ele por causa do modelo novinho, ainda na garantia. A irmã jurava que não, mas ele tinha certeza que era. E se não fosse, tinha sido fundamental, porque a Ciça não andava de ônibus, mesmo sendo que nem ele, um pobre. Mas aquele carro… Era o carro, era sim, porque o moleque era feio e tinha um nariz meio avantajado, além de ter as pernas compridas e ser meio torto de um lado. “Droga de ônibus, tá demorando de novo! Ah, se alguém pisar no meu mocassim, eu mato! Povinho mais feio esse que anda de ônibus, só usa tênis, ninguém coloca um mocassim” – pensou, enquanto olhava o relógio comprado à prestação, coisa fina. Nada de digital, era um clássico de metal e ponteiros. “Relógio de homem.” – Que horas são? – perguntou alguém do lado. Nem olhou de novo, apesar de gostar de ficar de vez em quando observando o relógio. Respondeu seco: – Oito e quinze. Revista de Cultura AJUFE

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– Obrigada. Só viu os pés, estavam de tênis. “Mulher ainda vai, mas homem…” Levantou os olhos para ler a placa do ônibus que vinha, não era o seu. – Droga. De repente o coração disparou e a face ficou corada, mais do que quando ficara sozinho na sala da casa do seu amigo junto com a Clarinha, ela perguntando se ele gostava de descer para o litoral no fim de semana. “Litoral… só se for de ônibus, mas aí já é demais! Essa humilhação eu não passo.” Mas agora estava ali, no ponto de ônibus a duas quadras da sua casa, de frente para um menina com rabo de cavalo e miniblusa branca. Era a sua vizinha, a ninfeta que usava short azul! E como estava linda, provocante, carregava os cadernos assim de um jeito largado, como se não estivesse muito a fim de estudar. Tinha adesivos, é, tinha sim! “Adesivo combina com caderno de mulher, fica delicado. De homem não, mas de mulher…” Lembrou-se que estava no ponto de ônibus, na frente da sua vizinha. No mesmo instante o rosto voltou a ficar rubro e ele não soube o que dizer. Ela estava ali, bem à sua frente, e agora sabia que ele não tinha carro! Olhou para o mocassim novinho, deveria estar com o cheiro da caixa ainda. Olhou também para o relógio, resolveu puxar a manga da camisa pra ficar à vista. Mas não adiantava nada, ela agora sabia que ele não tinha carro! “Homem tem que ter carro, mulher não sai a pé com um homem, só se já for o marido, e olha lá.” A nuca! Linda, linda com aqueles pelinhos loiros bem fininhos e delicados! Talvez sua paixão por rabos de cavalo viesse daí, dos pelinhos loiros na nuca. Sentia prazer em ficar olhando para eles, seria capaz de atravessar um dia inteiro só admirando uma menina com rabo de cavalo, observando a nuca sensual. “Mulher que não usa rabo de cavalo perde metade da sua sensualidade, não tem jeito.” Lembrou-se da ex-namorada, a Rita. “Aquela vagabunda, 24

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me trocou porque eu não tinha carro. Foi sim, e não adianta ela querer me provar o contrário. Homem tem que ter carro, senão não adianta.” A ex-namorada usava rabo de cavalo, fora isso que chamara a sua atenção. A vizinha estava parada, parecia impaciente à espera do seu ônibus. Pensou um pouco, não queria puxar conversa com ela, talvez ela nem se lembrasse depois que o conhecia de um ponto de ônibus. Não, seria melhor conversar. Arrumaria uma desculpa qualquer, diria que tinha vendido o carro e que estava esperando o mercado cair um pouco pra pegar um 2.0 novinho. Era melhor assim, ela já tinha visto a sua cara, menina não esquece a cara de um homem depois de saber que ele anda de ônibus. “Não esquece só pra não ficar com ele depois.” – Desculpa, já são oito e meia? Era a hora, ela tinha puxado assunto de novo e mulher quando puxa assunto duas vezes quer saber mais do que as horas. – É… Fez questão de demorar pra olhar no relógio, afinal de contas relógio de ponteiro era coisa fina, coisa de homem alinhado. – Oito e vinte e cinco. Não saiu mais nada. E aquela miniblusa ali, branquinha, linda! Sentiu um frio na barriga quando viu a renda por baixo, toda delicada e trabalhada. “Renda… mulher é mais mulher com uma renda!” Mas não poderia perder tempo, era a hora certa. – Você está atrasada? Ela olhara em seus olhos! Ah, uma menina com rabo de cavalo olhando para ele… – Estou. Eu tenho aula de inglês. Tinha que aprender inglês. Onde já se viu um homem alinhado não saber falar inglês? Sabia o tanto suficiente para trabalhar com o computador, mas ficava só digitando os textos bestas do chefe, tudo em português, não dava pra melhorar. Mas a culpa era do salário, era sim! Se viesse um aumento ele faria um curso, mas daquele jeito… Lembrou-se do cinto. Vira uma promoção de uma esco-

la de inglês, a matrícula era o preço do cinto. Ponderou um pouco, talvez fosse melhor o curso de inglês. “Se o cara não sabe inglês a menina desencana logo.” E o namorado da sua irmã sabia, vivia escrevendo frases em inglês pra ela, naquelas cartas idiotas. “Moleque besta! Irmã minha não se entrega por uma coleção de CDs, a não ser que me matem!” – A que horas começa? – Nove e quinze. Rapidamente calculou o tempo, de acordo com o congestionamento previsto e as paradas. “Se o motorista for bom, ela chega na hora!” De repente, sentiu outro frio na barriga. “E se o ônibus dela for o mesmo que o meu? Vou conversando com ela, vou sim, e vou prometer uma carona no meu carro quando o mercado abaixar os preços. Tá muito caro agora, é melhor esperar a linha do ano que vem, sai mais em conta.” – Dá pra chegar a tempo. É longe? – Lá em Higienópolis. Higienópolis! Sempre quisera morar por lá, no meio de gente importante. “Morar em Higienópolis é quase igual ter carro do ano: mulher vem mesmo, nem que seja só pra puxar papo.” Iria morar em Higienópolis, iria sim. Pertinho do centro, perto do serviço, perto da Paulista, lugar fino. Mas tinha que esperar a situação melhorar, não dava pra comprar imóvel naquelas épocas. “O governo tá em cima, não quer que o mercado se abra de novo, senão a inflação dispara. Melhor esperar os juros abaixarem, um dois quartos fica beleza.” – Dá sim, é claro. Pensou um pouco. A menina, que nuca! Ela estava olhando a avenida lá na frente, parecia mais preocupada em chegar logo à aula de inglês do que em conversar com ele. “Mas se eu estivesse de carro não seria assim, mas não mesmo, porque eu iria dar uma carona pra ela e aí ela iria conversar comigo até Higienópolis. É, bairro bom é Higienópolis.” Olhou pro mocassim. Estava novinho em folha, nem parecia já ter sido usado por duas quadras. Olhou para o relógio. Oito e vinte e oito.

– Você vai todo dia? – Não, só terça e quinta. É que hoje eu me atrasei, ainda não conheço esses lados direito, eu sou meio confusa com esse negócio de rua, sempre me perco quando mudo. Ele nunca havia se mudado. Morava na casa da sua avó, uma velha que adorava ficar assistindo Aqui Agora só pra ver a repórter correndo junto com a polícia. “Gente fina não assiste esse programa, isso é coisa de pobre.” Não gostava muito da avó, vivia brigando com ela, porque a velha comia macarrão com arroz. “Vê se pode, macarrão com arroz! Só brasileiro sem cultura come macarrão junto com arroz! Gente fina come um ou então o outro, nunca os dois juntos.” A mãe se casara e mudara pra lá com o marido, pros fundos da casa, num quarto e sala com banheiro do lado de fora. Para ele isso era o fim. Vai ver que era por isso que o pai havia se mandado de volta pro Goiás, lá tinha uma casa de frente com banheiro junto. Mas ele não, esse negócio de casa nos fundos não era com ele. Tinha sido persistente e agora morava junto com a mãe e a irmã na casa da frente. A dos fundos alugaram pra aumentar a receita da casa, bastante capenga desde que a aposentadoria da avó tinha sido cortada ao meio. “Governo ladrão!” – Aqui tudo é simples, você não precisa se preocupar. – É, eu é que sou meio avoada das idéias mesmo. A menina dera uma voltinha com a cabeça para olhar a avenida e o rabo de cavalo balançara, tocando a miniblusa branca nas costas! “Isso é pecado, meu Deus! Que coisinha mais perfeita, mais delicada!” Desceu os olhos nas costas e colou-os na calça jeans justa. “Falta de educação! Mata do coração, vai! Ah, menina que usa calça jeans justa judia de qualquer um! E de miniblusa branca ainda? Ah, se eu tivesse um carro…” – Você mora por aqui? – perguntou a menina, quase deixando cair o caderno. Morava! – Sou seu vizinho. – Prazer, meu nome é Juliana. Revista de Cultura AJUFE

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NO ESCURINHO DO CINEMA

Estendeu a mão e a face. Que pele macia, nunca tinha visto coisa igual! Não, não iria comprar o cinto, iria entrar num curso de inglês! O mocassim já estava bom, agora precisava saber inglês. – Ricardo. Aquele beijo delicado na face trouxera ao seu nariz o cheiro maravilhoso do perfume dela, o cheiro do shampoo nos cabelos ainda molhados e amarrados em forma de rabo de cavalo! “Menina adora se perfumar! Fica uma hora passando cremes, parece gata se lambendo em cima da cama, alisando a pele pra ficar mais macia… Perfume e creme são as armas de uma mulher, são sim!” Lembrou do seu Givenchy, estava no fim. Por três anos usara o mínimo necessário pra ficar perfumado, mas não abusava pra não gastar, tinha custado quase um terço do salário só com ele. “Aquele namorado da Ciça é um besta, vive falando dos Givenchy dele. Só porque tem carro e fala inglês acha que pode ficar exibindo coleção de perfume pros outros. Ah, mas se a Ciça se entregar pra ele… Eu quebro todos aqueles CDs!” – Você mora aqui faz tempo? Ela esticara a conversa, nem se lembrava mais do inglês! “Mulher quando passa de três frases é porque está a fim!” Tentava esconder que a mão tremia de nervoso, olhou pro mocassim novo, pensou em alguma coisa à-toa. – Não… quer dizer, faz sim. – É, eu mudei pra cá agora. Ele sabia, e como! Ficara olhando o alemão descer o sofá de três peças do caminhão, cuidando pra não rasgar o estofado. Vira também um monte de bichinhos de pelúcia, agora sabia ser dela, só podia. “É delicada, é sim! Menina que enche a cama com bichinhos de pelúcia é delicada!” Lembrou-se de novo da ex-namorada, havia gastado uma grana violenta uma vez só para presenteá-la com um bicho de pelúcia, que ela deixava jogado dentro do guarda-roupa. “Foi por causa do carro, foi sim, aquela vagabunda sabe que foi.” – Tem algum lugar legal pra sair por aqui? – perguntou a menina, tentando ajeitar o rabo de cavalo, sem conseguir. – É… 26

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– Ai, segura aqui pra mim? Eu não consigo arrumar esse cabelo. Pegou o caderno como se pegasse uma flor. É, tinha adesivos! – Tem? – perguntou de novo a menina, com a presilha de cabelo na boca e com as duas mãos no rabo de cavalo. E agora? Se dissesse que havia, ela poderia pensar que ele freqüentava e ali não havia nada decente para ser freqüentado. “Bairro pobre.” Lembrou-se de novo da avó, sentiu nojo. A velha botava margarina no pão e depois ia com a garrafa de café lá na pia, onde encharcava o pão com café, virando uma coisa nojenta. “Quando o mercado melhorar e o governo abrir a economia, eu me mudo pra Higienópolis. Um dois quartos é legal, coisa de gente jovem, descolada.” – Não. A menina já amarrara o cabelo novamente e agora pegava de volta o caderno com adesivos. – E aonde você costuma ir? Olhou pro mocassim, estava novinho. Não, não iria comprar o cinto, iria fazer inglês. No caderno dela havia uma frase em inglês: “Don’t worry, be happy!” Sabia o que era “happy”, mas não sabia a outra palavra. “Que menina vai querer um cara que não sabe inglês?” O cinto ficaria pro adiantamento do décimo-terceiro. – Pinheiros. Tem uns barzinhos legais. – Ah, eu conheço um monte! Isso era verdade, ele costumava ir pra Pinheiros, mas tinha que voltar cedo. “Se eu tivesse um carro, ficava lá até de madrugada!” A imagem do namorado da irmã voltara à cabeça, aquele idiota estava ficando folgado. Só porque tinha carro achava que podia deixar a Ciça em casa na hora que quisesse. “Se a mamãe não falar nada, eu falo. Olha só, fica dando CD pra ela e a gente nem tem onde tocar. Disse até que vai dar um aparelho importado pra Ciça. Moleque besta, isso eu não vou deixar.” Ele não tinha onde escutar CD. Também, já pensara muitas vezes em comprar, até no mês passado, mas o dinheiro tinha ficado pro mocassim, afinal de contas o tal CD-Player não ia com ele pra Pinheiros no sábado à noite

e o mocassim ia. – Conhece Pinheiros? – perguntou ele. – Conheço! Se você quiser, a gente pode combinar uma hora de ir junto… Era um sonho! Sair com uma menina que gostava de usar miniblusa branca e rabo de cavalo, uma “delicadinha” que tinha um monte de bichinhos de pelúcia na cama… Iria sim, iria! Mas como? E o carro? Ficou triste. Era a oportunidade da sua vida, a chance de ficar com uma menina delicada e ele não poderia aceitar qualquer convite, não tinha carro. “Aquela velha besta, onde é que já se viu encharcar o pão com café? Ah, se eu morasse em Higienópolis…” – É… pode ser. – Você vai? – perguntou a menina, toda animada. Como diria a ela que não tinha carro? Como? Olhou para o mocassim, estava novinho em folha. Resolvera pagar de uma vez só, esse negócio de prestação não estava em hora boa, os juros andavam muito altos. “Inglês, eu preciso aprender inglês! O cinto fica pra outra hora.” De repente uma idéia lhe bateu à cabeça. “É claro, o mercado está ruim! Ela anda de ônibus, a gente vai lá assim enquanto o mercado não melhora! Eu não vou gastar o meu dinheiro com um 1.8 se daqui a pouco vai ter 2.0 baratinho. Ela anda de ônibus, vai esperar o mercado melhorar!” – Vou sim! – falou entusiasmado, voltando do seu pensamento e até assustando a menina de rabo de cavalo com a entonação da sua voz. Iria! O mercado certamente daria uma recuada em pouco tempo, as montadoras estavam pra lançar a linha nova e ninguém iria ficar dando muita grana por um 1.8 frouxo. Além do mais, ele tinha classe, não ficava com o dedo no nariz que nem o seu chefe. “Esse mocassim combinou comigo! Mas o cinto fica pro décimo-terceiro, agora eu tenho que entrar no inglês.” Estava maravilhado com a idéia de ir até Pinheiros. Trocaria o vale-refeição por dinheiro com o Marcelo, esse negócio de almoçar era bobeira. Dava até pra sobrar uma grana, quem sabe poderia enfim se sentar num daqueles bares. E acompanhado! Acompa-

nhado por uma menina linda e delicada, de rabo de cavalo e miniblusa branca! Ele amava miniblusa branca, menina delicada tinha que usar daquelas. “Um dois quartos em Higienópolis é a melhor opção. Depois, quem sabe um maior nas Chácaras Flora. Mas Higienópolis é legal e o governo não vai agüentar segurar esses juros altos por muito tempo!” Iria sair com ela, a vizinha! Iria aprender o que significava aquela palavra esquisita, “worry”, depois diria que ela tem bom gosto em relação a adesivos, ele também gostava de colar adesivos, ainda mais com frase em inglês. – Então tchau, Ricardo, eu já vou indo! – disse a menina, caminhando em direção a um carro que parava no ponto de ônibus, carro do seu amigo de escola que resolvera lhe dar uma carona até o inglês, porque ela não sabia pegar ônibus, ainda mais naquele bairro distante e de ruas esburacadas. Voltou à realidade. – Tchau... – Sábado passa lá em casa, tá? – disse a menina, já dentro do carro. – Mas não passa muito cedo, tá Ricardo? É porque eu demoro a me arrumar, não quero deixar você esperando. Depois de Pinheiros a gente dá uma volta lá pros lados dos Jardins, tá? Eu vou te mostrar uns bares legais que eu conheço! Tchau… O carro acelerou e sumiu pela avenida esburacada. “Arroz com macarrão, vê se pode?” Olhou pro mocassim, estava triste, muito triste. Nada mais de rabo de cavalo, nada de miniblusa branca, de bichinho de pelúcia em cima da cama, de pelinho delicado na nuca, nunca mais. Precisava de um carro, homem não é homem sem carro. “A Ciça que se atreva a ficar até de madrugada dentro do carro daquele magrelo lá na porta de casa! Eu jogo todos os CDs no lixo!” Olhou para o mocassim, o ônibus havia chegado. Não iria aceitar que ninguém pisasse no seu mocassim novo, tinha custado muito caro e tinha que estar novo para combinar com o cinto que compraria no mês seguinte. “Homem não é homem sem um carro.” Entrou no ônibus e se foi. * Alexandre Henry Alves é Juiz Federal Substituto em Uberaba (MG). Revista de Cultura AJUFE

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QUEM CONTA UM CONTO

Sol no asfalto Por Marcel Citro Viajam no Corcel amarelo o pai, a mãe e o filho de cinco anos. O sol está alto, e de tempos em tempos o homem enxuga a testa com um lenço. O menino — espremido no banco traseiro entre o liquinho e o isopor com o almoço — observa a estrada. A mulher suspira e sua, abanando-se com uma revista. Um carro aproxima-se, dá sinal, exige passagem. O filho pede ao pai para acelerar, mas o Vectra passa rugindo, o reboque com o jet ski tirando um fino do páralama dianteiro. — Paiê, por que tu deixou aquele auto passar? — É um carro potente, meu filho. Deixa ele ir. — Mas tava (sic) com reboque e tudo. — Tão (sic) indo pra praia. O motorista deve estar com pressa. — E nós, vamos pra praia também? O homem liga o rádio, procura a Farroupilha. A criança insiste na pergunta. — Ano que vem nós vamos. 28

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Outro carro encosta na traseira do Corcel. O menino observa o capô, os faroletes, o rosto irado do motorista. — Tem um Gol aí atrás — avisa. O Gol tenta ultrapassar, mas a pista contrária está repleta de carros. — Não deixa ele passar, paiê. O motorista acelera, o motor responde rugindo. Ao emparelhar com o Corcel, freia e faz um gesto com o braço. Pela janela aberta entram os palavrões. — Pedi pra não deixar... — Filho, ele tá sozinho no carro. O nosso tá (sic) pesado, eu não posso correr muito. Pega uma bolacha e pára de olhar pra esta estrada, que vai te dar dor de cabeça. O menino ajeita-se no banco. — O vidro da frente tá rachado. Silêncio. — Ouviu? O vidro do nosso auto tá rachado. — Arlete, faz este guri calar a boca! A mulher vira-se para trás, tenta afagar a cabeça do

menino. Ele esquiva-se da mão áspera, suarenta. Põe uma bolacha na boca: — Tá velha! Afasta o liquinho e recosta-se no isopor. — Falta muito? — Vai dormir! Fecha os olhos. Escuta freadas, palavrões, a voz forte do pai xingando alguém. Dormida por alguns instantes. Uma buzina forte o desperta. — Paiê, tem um caminhão aí atrás. O caminhão volta a buzinar. O homem acelera, o Scania vai ficando para trás. O menino observa a pista contrária, onde as carretas passam em comboio, deslocando o ar com um estrondo. — Desta vez ganhamos, né? Ouve o suspiro da mãe e engole uma bolacha, desta vez sem mastigar. Olha para trás e reconhece os faróis retangulares, a cabine alaranjada.

— Aquele caminhão tá vindo de novo. O homem acelera mais, e as portas começam a bater. O Scania aproxima-se rápido, quase encostando na traseira do Corcel. Dá sinal de luz, buzina forte. O homem empurra o acelerador até o fundo, o motor geme, a direção vibra com força. Toda a lataria range, mas o velocímetro permanece imóvel. — Deixa ele passar, pai. Nosso auto tá quase desmanchando. O Corcel derrapa para o acostamento. O Scania ultrapassa, a buzina soando como uma sirene. O homem desce, abre o capô, põe mais água no radiador. O menino aproveita e proclama: — Quando eu crescer vou ser caminhoneiro! Ele volta, os olhos marejados. Sob o sol inclemente, o velho carro arranca. * Marcel Citro é Juiz Federal Substituto da 2ª Vara de Execuções Fiscais de Porto Alegre (RJ). Revista de Cultura AJUFE

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Batina suspensa Entre a santíssima trindade, o espírito santo é apontado como o elemento que, por aproximadamente dois milênios, vem conferindo energia à crença cristã. Tanto é assim que, em nossa Pindorama, a influência recebida do colonizador português fez com que fosse atribuída a uma das 13 capitanias hereditárias a denominação de Espírito Santo, cujo primeiro donatário foi Vasco Fernandes Coutinho, e que, atualmente, constitui sede de estado do mesmo nome. Província de belas comunas, destacando-se Vila Velha, onde a boa formação familiar vicejou no clã dos Ramires Corvelo. Estruturado patriarcalmente por Augusto Manuel Mendonça Corvelo, com o auxílio de sua santa e cordata esposa, Mariana Ramires Corvelo, possuía aquela prole representada por dois filhos varões, batizados com os prenomes de Arthur e de Guilherme. A pujança econômica da família, calcada na produção de café, combinada com o seu dever de religiosidade, incutiu na mente dos genitores a pretensão de que, no futuro, aos seus filhos deveriam ser reservados lugares de relevo na política e na Igreja. A Arthur Ramires Corvelo, o privilégio da primogenitura fez com que fosse destacado à missão de cuidar dos negócios públicos. Casado com Antonieta Bastos Corvelo, lançou-se como candidato a deputado federal, participando da Assembléia Constituinte de 1946. No entanto, sua trajetória não prosseguiu brilhante, alcançando, na eleição seguinte, a terceira suplência, o que, todavia, foi capaz de lhe garantir uma nomeação para ministro do Tribunal de Contas capixaba. Isso foi o suficiente para que, nos seus 30 anos seguintes de vida, Arthur se dividisse entre a árdua tarefa de controle das contas públicas e a doce e harmoniosa convivência com sua “Tietinha”, 30

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ILUSTRAÇÃO: JÔ OLIVEIRA

Por Edilson Pereira Nobre Júnior com relação à qual se manteve na mais restrita e inabalável fidelidade. Por pouco não terminou seus dias habitando num monastério. Para Guilherme, restou o caminho da vocação sacerdotal. Ordenou-se padre, com estudos superiores em Roma, sendo designado

mente pelas variações que impunha ao ritmo do agitado atuar vivenciado na alcova. A outra foi Lolita Muñoz, afamada como a terna Lola, extremamente bela e, paradoxalmente, portadora do comportamento mais ordinário possível, por quem aquele dedicou ardente e, como

para pregar as sagradas escrituras perante o município de Vitória (ES). Diverso da postura calma e, até mesmo, ingênua de Arthur, Guilherme era dotado de espírito operante e folgazão. Exerceu produtiva atividade pastoral, de sorte a manter o estandarte cristão cada vez mais elevado nos anseios da população capixaba. A despeito disso, Guilherme Ramires Corvelo, mais e sempre conhecido como Padre Corvelo, mantinha, em sua conduta, pequena divergência frente aos mandamentos clericais. Consistia essa em falha ínsita à natureza humana, qual seja o forte desejo de não resistir aos sedutores apelos sentimentais do sexo oposto. Sempre lamentando o celibato, atribuindo sua instituição a um equívoco do Papa de então, protagonizou inúmeras aventuras amorosas. O apego à concisão faz com que nos limitemos a mencionar a sua assídua freqüência à Associação dos Amigos da Espanha, sediada em prédio pertencente à madame Mercedes de la Vega, outrora irresistível pelas suas madeixas cor de fogo, e que se impunha com o indispensável qualificativo de habitação tipicamente familiar. Ali foi o palco dos romances mantidos com duas interessantes hispânicas. A primeira delas, Concha Lopéz, mais conhecida como a Conchita de Granada, proporcionou ao pároco momentos da mais intensa alegria, principal-

sói acontecer, atormentadora paixão. Como já entrevisto, a intimidade do pároco não chegara a invalidar seu ingente labor pastoral. Na qualidade de vigário-geral de Vitória, desenvolveu relevantes atividades em favor da catequese da população carente, sendo de sobrelevar os famosos batizados coletivos. Certa feita, na preparação duma dessas festividades, certo cidadão, de aparência alva, a exemplo do mais autêntico dos Corvelos, dirigiu-se à dona Quinquina, senhora que, voluntariamente, auxiliava os trabalhos da paróquia, cabendo-lhe a responsabilidade pelo preenchimento das fichas de inscrição, a qual lhe formulou a seguinte indagação: – Qual o nome de seu pai? Diante de tal interrogação, o jovem, superando inicial timidez, declarou: – Padre Corvelo. Dominada por forte estupefação, dona Quinquina novamente indagou: – Virgem Maria! Desde quando Padre Corvelo deixou a batina? Seguiu-se pronta resposta: – Não, ele só fez levantar! Aí se tem mais um exemplo da forte resistência ao celibato, considerado antiquado para alguns, sobre o qual debates acalorados foram e ainda serão produzidos. * Edilson Pereira Nobre Júnior é Juiz Federal da 4ª Vara da Seção Judiciária do Rio Grande do Norte. Revista de Cultura AJUFE

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Considerações sobre a mulher Por Adão de Assunção Duarte

Em uma elegante exaltação à figura feminina, o autor relembra nomes consagrados daquelas que marcaram a história e reflete sobre “heroínas anônimas” que fazem contraditória a expressão que classifica a mulher como o “sexo frágil” Seja alegórica, mítica ou simbólica, na histó-

“Apesar de suas condições biológicas serem consideradas um tanto mais frágeis que as do homem, em alguns aspectos a mulher supera o seu oposto”

ria do paraíso bíblico, desde aquela remota época, já foi destacada a grande influência da mulher na vida humana e social. Apesar de suas condições biológicas serem consideradas um tanto mais frágeis que as do homem, em alguns aspectos, a mulher supera o seu oposto, como é o caso, por exemplo, nos momentos das dores do parto. Por outro lado, a atividade, o treinamento e os exercícios dedicados podem levar, e levam, racional e cientificamente, a mulher a posições invejáveis. Isso nos mostram os inúmeros exemplos dos recordes olímpicos, das maratonas, dos diversos jogos e campeonatos. Às vezes, chega a se exceder em modas e modismos, usos e costumes, mas com isso ela quebra barreiras e produz um colorido multiforme e modificador à sociedade de que faz parte, evitando o comodismo estacionário e a rotina entediante. A história, entretanto, mostra-nos, inúmeras vezes, a mulher desempenhando importantes tarefas e significativos trabalhos, projetando-se na vida dos povos e das civilizações. Se se nota a mulher a partir da tarefa e missão de Eva, do Gêneses bíblico, verifica-se na Bíblia um desfilar de nomes de destaque e de exemplos marcantes de vida, como foram Sara, Ester, Judite, Rute, Izabel, as irmãs Marta e Maria, a sogra de Pedro, Verônica, Madalena e, sobretudo, Miriam ou Maria de Nazaré – o silêncio ativo que gerou o Verbo, como Mãe de Jesus. Entre outros povos, surgiram Golda Meir, em Israel, Indira Gandhi, na Índia, Rosa Luxemburgo, polonesa, Elizabeth(s) e Margareth Tatcher,

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na Inglaterra, Santa Tereza de Ávila, na Espanha, Evita e Isabelita Perón e, tempos depois, Cristina Kirchner, argentinas, Maria Quitéria, Madre Joana Angélica, Princesa Izabel, Rosa Palmeirão, Olga Benário Prestes, etc, no Brasil. Todas elas agindo, lutando e atuando na política, filosofia, administração, educação e outras áreas.

Ester Bueno, a notável tenista, Hortência, Paula e Izabel, no basquete, e na ginástica olímpica, Luíza Parente, Daiane dos Santos, Laís de Souza, Daniele Hypólito, Camila Comin e Jade Barbosa, grande revelação brasileira da ginástica artística nos Jogos Pan Americanos de 2007. Beleza pura na ginástica rítmica e nas equipes brasileiras de nado sincronizado e a nobre atuação do futebol feminino, encantando a todos. Todos esses exemplos esportivos femininos do Brasil, seu belo trabalho e forte desempenho, elevaram o nome e o valor da mulher brasileira. Isso sem falar nos concursos de beleza, nos programas que, na televisão, elevam as qualidades e a beleza da mulher, dandolhe maior projeção e valor.

Notáveis Na ciência, lembro-me como exemplo apenas Madame Curie, perseverança ativa e eficiente na pesquisa. Na área filosófica, deve-se memorar a contribuição marcante de Annie Besant e Helena Petrovna Blavatsky e de Madre Tereza de Calcutá. Na literatura, como se sabe, a mulher sempre se destacou e teve projeção notável, bastando lembrar Madame de Stael, Gabriela Mistral (notável poetisa chilena) e as brasileiríssimas Rachel de Queiroz, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Lígia Fagundes Teles, Dinah Silveira de Queiroz, Cora Coralina e Zélia Gattai. Atualmente, há diversos nomes de valor e de muita influência nos meios culturais, principalmente na literatura, no teatro, na música, no cinema e, também no ensino, nos meios operários, sindicais e estudantis. Quem não possui seu cantor, sua cantora, seu artista, seu escritor ou escritora de preferência ou de admiração? Na área do Poder Executivo, a professora Ester de Figueiredo Ferraz foi a primeira mulher a ser ministra da Educação no Brasil, enquanto Dorothea Werneck foi a primeira ministra do Trabalho em nosso país. Destacam-se, ainda, Irmã Dulce e Carmen Prudente, na área de obras sociais. Maria

No comando Uma área em que despontou a mulher nos últimos anos foi a do Judiciário: cresceu enormemente o número de advogadas, promotoras, procuradoras, assessoras, juízas, desembargadoras, ministras de Tribunais Superiores, sendo que a excelentíssima senhora doutora Ellen Gracie foi a primeira mulher presidenta do Colendo Supremo Tribunal Federal (STF), já havendo ali outra ministra além dela, enquanto no Superior Tribunal de Justiça (STJ), já há mais de uma mulher ministra. Cresce mais e mais o bom desempenho da mulher nos concursos públicos, em geral, e nos jurídicos, em particular, superando muito os homens. A tendência é a mulher continuar crescendo nesse campo. E poderá ir mais longe, se não ficar querendo ser mais que tudo. Poderá contribuir para tornar menos moroso e mais eficiente o Judiciário em todas as áreas. No campo político e legislativo,

aumentou a participação da mulher, mas é necessário que nessas áreas ela cresça mais e mais. Observadas as filiações partidárias para candidaturas em 2007, visando as eleições municipais de 2008, grande dificuldade foi atin- “(...) a mulher precisa e deve avançar gir o percentual legal mínimo de vagas mais, participar melhor, agir mais do que femininas em cada partido (30%, por se omitir, em busca de maior equilíbrio exemplo). Uma área que precisa ser e progresso social, moral, ético, político, modificada, com mais e melhor atua- econômico, administrativo, filosófico, ção da mulher para equilibrar melhor o educacional e cultural” barco político-legislativo. Força feminina Em geral, a mulher atua muito bem nas fábricas, nas escolas, nas pesquisas, no Projeto Rondon e similares, no lar, na cozinha, no escaldante sol do sertão agrícola, muitas vezes com ínfimo salário ou sem ele. Ajudantes, auxiliares, balconistas, tecelãs, etc trabalham com sobrejornada marcante, nem sempre remunerada. A doméstica, por exemplo, foi discriminada tendo menos “direitos” que outras trabalhadoras e, ultimamente, pela atuação da Justiça do Trabalho, foram “aparecendo” mais direitos para a doméstica. De uma forma ou de outra, mulheres pobres, trabalhadoras comuns, domésticas sérias, etc são heroínas anônimas, vítimas do nosso sistema, que não lhes oferece uma participação ativa e constante nos processos decisórios. Elas ficam à mercê da roda capitalista do sistema, mesmo após o governo daquele que, vindo da área sindical, dava-nos a impressão de que seria um governo mais dos trabalhadores… Pelo que se verifica, entendemos que a mulher precisa e deve avançar mais, participar melhor, agir mais do que se omitir, em busca de maior equilíbrio e progresso social, moral, ético, político,

econômico, administrativo, filosófico, educacional e cultural. Em sendo assim, ela deve lutar, sem arrogância, sem violência, até mesmo para combater a badalada violência urbana que amedronta a todos nós. Assim agindo e assim alcançando, talvez mulher e homem se melhorem cada vez mais, aperfeiçoando mais e mais as condições de vida do ser humano, da sociedade, de nossas instituições e até de nosso governo, já que foi o que pregou a ética na política. Falavase em um governo diferente dos outros, mas, ao assumir, jogou toda a sua pregação embaixo dos tapetes e passou a mostrar quem verdadeiramente era, enlameando-se nos mensalões, nas sanguessugas, nos cartões corporativos, no uso vergonhoso da máquina administrativo-governamental para fins político-eleitorais. Tudo azeitado por uma grande propaganda enganosa, informações exageradas e tráfico de influência por meio da liberação de emendas e mais emendas no momento que bem quer… Por isso que o castigo veio feroz através da dengue, quando ele sempre dizia que a saúde no país estava próxima da perfeição…

*

Adão de Assunção Duarte é Juiz Federal aposentado e professor da Universidade Católica de Salvador (BA). Revista de Cultura AJUFE

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Filosofar é aprender a morrer Por Márcia Hoffmann do Amaral e Silva Turri

“a morte próxima de casa é dissimulada, enquanto a morte dos outros é exibida de maneira espalhafatosa, convertida num espetáculo que, não obstante, é apenas um dos muitos espetáculos da vida diária”

À luz do ensaísta francês Michel de Montaigne, a autora revela as virtudes da aceitação da morte e aponta os vários caminhos de banalização do tema

moral busca o viver bem, o fim último, por conseguinte, é a volupté, o prazer. Se assim o é, a virtude, então, é voluptuosa, prazerosa. Montaigne conclui: “um dos principais benefícios da virtude é o menosprezo pela morte (…)”. 2

“(…) Quem agüentaria fardos, Gemendo e suando numa vida servil, Senão porque o terror de alguma coisa após a morte – O país não descoberto, de cujos confins Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade, Nos faz preferir e suportar os males que já temos, A fugirmos para outros que desconhecemos?” (Hamlet) 1 A morte tem sido uma das grandes preocupações dos seres humanos ao longo do tempo. Da Antigüidade até os dias de hoje, o tema aparece com freqüência no rol das indagações literárias e filosóficas, não fazendo muita diferença se o autor é crente, ateu ou agnóstico. Não que o tratamento dado ao assunto seja o mesmo, é óbvio. Atualmente, talvez estejamos presenciando uma banalização da morte. Em nossa cultura contemporânea, com efeito, a morte próxima de casa é dissimulada, enquanto a morte dos outros é exibida de maneira espalhafatosa, convertida num espetáculo que, não obstante, é apenas um dos muitos espetáculos da vida diária. Assim banalizada, a morte se torna excessivamente habitual para despertar emoções intensas. É o evento usual, excessivamente comum para ser dramático. Seu horror é exorcizado pela sua onipresença, tornando ausente pelo excesso de visibilidade. Paralelamente, são publicados livros e mais livros, baseados em espiritualismos de denominações diversas, que nos asseguram que nada devemos temer; a morte, afinal, seria só uma mera passagem para um outro tipo de existência, digamos, quiçá muito mais satisfatória do que a 1 William Shakespeare. Hamlet. Trad. De Millôr Fernandes. Porto Alegre: L&PM, 2007, p. 67.

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terrena… Nessa última perspectiva, parece que a morte foi seqüestrada por um tipo de literatura new age. Numa tentativa de falar do assunto numa perspectiva um pouco diferente, procurarei resumir as reflexões do magistrado, filósofo e ensaísta Michel de Montaigne. Seus Ensaios já nascem, aliás, da experiência da proximidade da morte: a perda de seu grande amigo, Etienne de La Boétie, que coincide com a origem de sua obra mais conhecida. Aprender a morrer Não é melancolia, contudo, que Montaigne nos inspira. Quem o leu, sabe que é um autor cativante. Organizados de forma fragmentária, os Ensaios configuram uma espécie de repositório em que a reflexão se debruça sobre os temas mais variados. A consciência da mortalidade é um deles. Aliás, o capítulo XX do livro I dos Ensaios, intitulado Que filosofar é aprender a morrer, é um dos mais célebres textos de Montaigne. Nele, a morte aparece como finalidade da vida, enquanto a filosofia surge como o remédio que

nos permite enfrentá-la. Montaigne usa a constatação da morte como argumento contra o medo. O único problema filosófico efetivamente sério é a morte, dada a inutilidade que a sabedoria demonstraria se não fosse um longo e duradouro aprendizado para esse momento único e último para o qual toda a nossa vida converge. Num certo sentido, o exercício filosófico nos ensina o destemor da morte. O exercício, nesse caso, consiste em aprender a lidar com a condição humana e ser feliz com ela. Ora, como conciliar felicidade e morte, usualmente consideradas irreconciliáveis? A vida feliz é aquela que nos ensina a não temer a morte. Montaigne diz que a utilidade da razão está em fazer-nos viver bem e a nosso gosto. Dito de outra forma, a tranqüilidade perante a morte é construída pela razão. Se o prazer, para Montaigne, é a meta da vida humana, a finalidade da filosofia é a felicidade. A vida virtuosa é equiparada à vida feliz. A busca da virtude é, em si mesma, virtuosa (e prazerosa). Se a filosofia

Inevitável Montaigne fala da aceitação da inevitabilidade e da universalidade da morte, de um lado, e da preparação efetiva para enfrentá-la, de outro. A morte é inevitável e atinge todos os homens, podendo chegar, ainda, a qualquer momento. Temê-la constantemente pode nos paralisar, não se mostrando vantajoso, contudo, negá-la e recusar-se a pensar no assunto. Não há idade para morrer, morrendo-se, ademais, por qualquer motivo. A morte sempre nos persegue: “Não há lugar de onde ela não nos venha���. 3 A “(…) morte é o objetivo de nossa caminhada, é o objeto necessário de nossa mira (…)” 4. Montaigne critica, aqui, a conduta do vulgo, que procura não pensar na morte. O filósofo nos adverte contra a tolice dos homens que se recusam a refletir sobre a morte. A negação da morte fomenta ainda mais o sofrimento, já que, quando, finalmente, se dá conta de sua proximidade, o vulgo é tomado pela dor e pelo desespero. Montaigne propõe, em vez disso, imaginar a morte. Isso nos fortalece e enrijece. A virtude está ligada ao aprendizado da morte. Aprender a morrer é aprender a viver. Não são os argumentos persuasivos, no entanto, que acabam com o medo da morte. O medo da morte é extirpado pela consciência da morte. A premeditação da morte adestra a alma por que nos torna senhores das paixões, as quais deixam de ter um valor absoluto. Tudo perde valor absoluto. A premeditação da morte é um instrumento es-

2 Op. cit., Livro I, p. 121-122. 3 Op. cit., Livro I, p. 122. 4 Ibidem, p. 123.

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NO ESCURINHO DO CINEMA

“…a tranqüilidade perante a morte é construída pela razão. Se o prazer, para Montaigne, é a meta da vida humana, a finalidade da filosofia é a felicidade” ainda que tenham, por objetivo, lidar com o medo. No “Há um fio condutor que perpassa o ensaio: caso, vemo-nos diante de uma arte de morrer muito mais não devemos temer a morte, porquanto não próxima do paganismo do que do cristianismo. Montaigne é ela um mal, e sim nosso medo dela” não toca, de fato, na questão da salvação da alma, o que, no contexto cristão de sua época, não é pouca coisa. Imaginar a morte não visa à salvação da alma, mas à sua tranqüilidade. Montaigne tenta criar, assim, uma consciência da morte, avaliando as conseqüências disso. A máxima que se pode extrair insere-se no conjunto de lições éticas de felicidade: “A premeditação da morte é premeditação da liberdade”. 6 Ou ainda: “Quem ensinasse os homens a morrer estaria ensinando-os a viver”. 7

sencial para a virtude, ou, que seja, para a moderação e a temperança. Quem aprendeu a morrer desaprendeu a servir… inclusive às paixões. Pensar na morte retira seu aspecto trágico: o inesperado, o desassossego do desconhecido. Praticando-a, habituando-se a ela, tendo-a no pensamento, assimila-se que algo está por vir e que nada pode ser feito em sentido contrário. É com tranqüilidade que Montaigne almeja se deparar com a própria morte: “Quero (…) que a morte me encontre plantando minhas couves, mas despreocupado dela, e mais ainda de meu jardim imperfeito” 5. Conforto A reflexão, de uma forma ou de outra, traz conforto àquele que pensa. Se algo é incontornável, não há porque temê-lo ou sofrer de antemão: que se viva enquanto há vida para ser vivida. Tal postura propicia a liberdade, pressuposto para o fluir da própria vida. A idéia é não se preocupar com o quanto se vai viver ou com o como se dará a própria morte, mas sim com o momento em que se vive, uma vez que não há garantia alguma de que, no instante seguinte, ela não possa sobrevir de fato. Não sabemos como vamos morrer. Morrer, como nascer, acontece uma única vez. Diante dessa ignorância fundamental, podemos antecipar a morte por conjecturas, pela imaginação, alimentada, ainda que incompletamente, por experiências cruciais, tais como a morte alheia, o sofrimento, a doença e a velhice. Montaigne nos apresenta uma estreita correlação entre vida e morte, não se podendo pensar numa desconectada da outra. A delimitação do problema em relação à inseparabilidade dos conceitos de vida e morte, como posto por Montaigne, talvez seja o grande esteio de toda a atitude filosófica. Filosofar é aprender a morrer: talvez seja esse o grande papel da filosofia. 5 Ibidem, p. 131-132.

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Consciência da morte “Que filosofar é aprender a morrer” não é, decididamente, um texto cristão. Montaigne faz uma alusão a Jesus Cristo, decerto, mas só por conta de sua morte aos 33 anos. Em outras palavras, o cristianismo vem à baila sim, mas sem implicações religiosas, ou, dito de outro modo, os argumentos montaignianos não são tributários da esperança religiosa. Havia uma tradição, basicamente cristã, de textos que tratavam das tais artes de morrer, cuidando, em apertada síntese, dos procedimentos a serem seguidos antes, durante e depois da passagem para a suposta vida eterna: confissão, extrema-unção (atualmente, unção dos enfermos), palavras de consolo ao moribundo, práticas funerárias etc. Acreditava-se que tal preparação era necessária para a salvação da alma. O capítulo XX dos Ensaios não se insere, obviamente, nessa tradição. As atitudes preconizadas por Montaigne não se confundem com as consolações, no sentido clássico do termo,

Desapego da vida É vantajoso preparar-se para a morte. A própria natureza nos auxilia na preparação para a morte; vale dizer, a enfermidade e a velhice nos ensinam o desapego da vida: “(…) percebo que à medida que me enfronho na doença começo a ter naturalmente um certo desdém pela vida”. 8 A natureza, a própria existência, enfim, o fluxo inexorável das coisas, nos prepara, a seu modo, para o que está por vir, o que não exclui a necessidade de preparação racional, do treino da alma contra o medo da morte. Há um fio condutor que perpassa o ensaio: não devemos temer a morte, porquanto não é ela um mal, e sim nosso medo dela. Em outras palavras, o escopo maior é a dissipação do medo de morrer, já que a morte, em si mesma considerada, é irrelevante; não é outra, com efeito, a conclusão jocosa do príncipe da Dinamarca: “Não, por minha fé, nada disso! É apenas seguir o pensamento com naturalidade. Vê só: Alexandre morreu; Alexandre foi enterrado; Alexandre voltou ao pó; o pó é terra; da terra nós fazemos massa. Por que essa massa em que ele se converteu não pode calafetar uma barrica?” 9 *

Mácia Hoffmann do Amaral e Silva Turri é Juíza Federal em São Paulo.

6 Ibidem, p. 128. 7 Op. cit., Livro I, p. 133. 8 Ibidem, p. 133. 9 William Shakespeare. Op. cit., p. 124.

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NO ESCURINHO DO CINEMA

PONTO DE VISTA

A vida de cada um Por José Carlos Garcia

Tendo como pano fundo um longa-metragem alemão que narra a história real do dramático sistema de espionagem da Alemanha Oriental durante a Guerra Fria, o autor faz uma reflexão sobre a liberdade, a angústia das escolhas e as relações de poder

“O abuso do poder é não exatamente uma conseqüência do poder concentrado e sem controle social, mas uma característica que lhe é inerente, uma qualidade essencial para sua caracterização”

“Será isto a liberdade? Ele agiu; agora, já

siona em troca de favores sexuais, determina

não pode mais voltar atrás: deve parecer-lhe estranho sentir atrás de si um ato desconhecido, que quase já não compreende e que vai transformar sua vida. Eu, tudo o que faço, faço-o por nada; dir-se-ia que me roubam as conseqüências dos meus atos; tudo se passa como se eu pudesse sempre voltar atrás. Não sei o que daria para cometer um ato irremediável.” 1

que a Stasi, a temida polícia política alemãoriental, vigie Dreyman. Um agente exemplar da Stasi, Gerd Wiesler (Ulrich Mühe), passa a vigiá-lo dia e noite, mas acaba fascinado pela sua forma de vida e sua relação com Christa. O gigantesco aparato policial-repressivo do estado totalitário apresenta-se no filme como uma imensa e onipotente engrenagem a moer a vida dos personagens. Já não importa se os investigados são ou não inimigos do Estado, nem mesmo se há ou não corrupção no uso abusivo da Stasi para tirar de cena um rival no amor por Christa. Onde o poder é absoluto, a finalidade de seu uso é irrelevante, a correção ou a corrupção de seu exercício são a mesma coisa, e o abuso é uma condição permanente para sua manutenção e reprodução. O abuso do poder não é exatamente uma conseqüência do poder concentrado e sem controle social, mas uma característica que lhe é inerente, uma qualidade essencial para sua caracterização. Onde o poder se espraia por todos os poros, em todas as paredes, em todas as escutas, em todos os informantes, não há nada fora, além ou aquém, de seu alcance. Esse poder é total, o poder que recontextualiza todas as ações e valores e subordina e condiciona todas as outras determinações, para funcionalizá-las como seus mecanismos. Esse poder é o que almeja ser tudo, tanto sintética, quanto analiticamente, de modo que dele se

O filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre dizia que estávamos irremediavelmente condenados a sermos livres, a exercer nossa liberdade, a realizar escolhas em nossas vidas. A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen, no original), produção alemã vencedora do Oscar de melhor filme de língua estrangeira em 2006, trata da liberdade e das escolhas mais graves que fazemos em nossas vidas, aquelas que equivalem aos “atos irremediáveis” de que nos fala o personagem sartreano Mathieu. Elogiado por crítica e público, o filme escrito e dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck (disponível em DVD) ambienta-se nos últimos anos da Alemanha Oriental. Georg Dreyman (Sebastian Koch) é um dramaturgo de sucesso que, contrariamente a vários de seus amigos, prefere não contestar abertamente o regime político de seu país. Interessado na namorada de Dreyman, a atriz Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck), o poderoso ministro Bruno Hempf (Thomas Thieme), que a pres-

1 SARTRE, Jean-Paul. L’age de raison. Paris: Gallimard, [1960?], pp. 438-9; texto livremente traduzido pelo autor.

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extraia ele e somente ele e mais dele, e somando-se suas partes nada resulte da operação, senão ele próprio. Entretanto, mesmo esse poder total não pode totalizar eficazmente tudo. Resta a esfera ambígua, contraditória, muitas vezes imperceptível, da irremediável liberdade de cada um; o momento em que alguém, imbuído de suas verdades, repleto de suas certezas, comodamente inserido em seus valores e compreensões de mundo, coloca todos em cheque e decide, opta, compromete-se, exerce sua liberdade inescapável, mesmo quando ela se apresenta impensável, quando suas conseqüências lhe são óbvias e, desde logo, reconhecidamente negativas. Ainda assim, ele decide. E age. Movido por um impulso que, muitas vezes, não consegue explicar, sequer compreender. Ali encontra-se a fissura mais radical de toda forma de poder total, o meandro em que nenhuma propaganda, nenhuma polícia, nenhuma escuta pode atingi-la. Rebelião individual Cinema e literatura são prolíficos em retratar esses momentos de visceral e, muitas vezes, silenciosa rebelião individual contra o poder instalado. Não é apenas nesse perturbador filme alemão que esse cenário se apresenta. Inúmeros são os exemplos possíveis, mas podemos citar apenas outros dois, extremamente distintos entre si, mas que expressam grandemente esses aspectos. Há cerca de seis anos, fez grande sucesso em todo mundo a adaptação

para o cinema do relato autobiográfico O Pianista, de Wladislaw Szpilman. Dirigido por Roman Polanski (Inglaterra, Polônia, França, Alemanha, 2002), a versão cinematográfica retrata, de modo cru, o passeio pelo inferno do pianista rumo à sua sobrevivência, com grande fidelidade ao texto original. Paradoxalmente, traído por um polonês ligado à resistência antinazista, Szpilman acaba sendo salvo, em seus últimos dias, por um capitão da Wermacht, Wilm Hosenfeld. O livro, publicado no Brasil, traz um interessante anexo com

trechos do angustiado diário do capitão alemão que salvou vários judeus da morte pelas mãos das SS, vivendo dramaticamente sua liberdade de escolha em um momento extremo da história, poucos anos antes de morrer em um campo soviético, após a libertação da Polônia pelo Exército Vermelho. No excelente Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, EUA, 2008, dirigido por Cristopher Nolan), pode-se dizer que o núcleo da ação reside precisamente nas escolhas que as pessoas devem fazer para Revista de Cultura AJUFE

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“Capítulo inarredável de nosso próprio processo civilizatório, a punição dos ocupantes dos belos salões e amplas cabines com vista para o mar em nosso enorme transatlântico brasilis é sem dúvida um passo adiante na construção de nossa democracia soluçante” lidar com a barbárie nos dias de hoje – o terror, a alta criminalidade – e, ainda, preservar sua própria humanidade e a

Já tive a oportunidade de, nessas mesmas páginas, mencionar a profunda encruzilhada civilizatória em

cima, as violações a direitos que se passam no andar de baixo, na casa de máquinas e nos porões, não salvará

capacidade de construir coletivamente uma sociedade minimamente justa – dilema magistralmente exemplificado pela cena em que, para se salvar, ocupantes de dois barcos carregados de explosivos devem acionar o detonador que explodirá o outro barco. É possível salvar-se fingindo ser moralmente aceitável a opção que aparentemente se coloca diante das pessoas nos dias de hoje: igualar-se ao mal para combatê-lo? Ou é possível, e mesmo necessário, exercer a liberdade oculta nas entranhas da objetivação e da brutalização a que estamos submetidos pela violência cotidiana e sua banalização espetaculosa pela grande mídia? O grito A Vida dos Outros é um comovente e perturbador manifesto pela humanidade, uma demonstração sobre a possibilidade de comprometer-se, grandemente, em pequenos gestos ao nosso alcance. É um grito

que nos encontramos, a partir dessas precisas definições, em especial, do preço que nos dispomos a pagar para aparentemente nos livrarmos de um pretenso mal absoluto. E de falar também sobre a sensibilidade necessária para evitarmos que, ainda que com a intenção de salvar a democracia de seus inimigos, não nos tornemos nós mesmos, involuntária e inconscientemente, seus algozes (L de liberdade, in Revista de Cultura da AJUFE. Brasília, Ano I, n.° 3, nov. 2006, pp. 29-31). Não deixa de ser irônico, entretanto, e exatamente por isso tão ou mais indigesto, que Das Leben der Anderen ganhe uma tintura particularmente atual no momento em que se debate, acalarodamente, em nosso país, acerca dos eventuais limites para o uso de grampos telefônicos, autorizados como mecanismo essencial na investigação dos chamados crimes de colarinho branco. Capítulo inarredável de nosso próprio processo civilizatório, a punição dos ocupantes dos belos

seus tripulantes. Se cruzarmos, inadvertidamente, com o iceberg da totalitarização surda através das pequenas concessões (ao lado das grandes concessões, que já não parecem nos incomodar quando relativas aos andares de baixo do navio), sucumbiremos todos nesse Titanic social. Em algum lugar por onde tateamos no terreno movediço e sem direção da história, talvez encontremos esse delicado e sutil ponto de equilíbrio entre vários deveres e objetivos simultâneos, sobre o qual, precariamente, prosseguiremos em nossa construção coletiva, imperfeita e inacabável de uma sociedade onde o sistema jurídico seja, ao mesmo tempo, justo, eficaz e mais democraticamente aplicável a todos os cidadãos. A Vida dos Outros, poesia incômoda em forma de imagem, sustentada em seu ótimo roteiro, em edição e fotografia expressivas da angústia e da incerteza reinantes e no sólido desempenho de seu elenco, é uma experiência impres-

contido, mas carregado de dor e vida, pela individualidade e contra o individualismo, pelo compromisso e contra o cinismo egoísta, que torna a sociedade insustentável e toda sobrevida amoral insuportável.

salões e amplas cabines com vista para o mar em nosso enorme transatlântico brasilis é sem dúvida um passo adiante na construção de nossa democracia soluçante. Mas estender, ainda que parcialmente, ao andar de

cindível para pensar-se complexamente essas e outras inúmeras realidades conflitantes do mundo contemporâneo, um passeio inconveniente, mas indispensável para a reflexão sobre a liberdade na vida de cada um. *

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Revista de Cultura AJUFE

“A vida dos outros é um comovente e perturbador manifesto pela humanidade, uma demonstração sobre a possibilidade de comprometer-se grandemente em pequenos gestos ao nosso alcance”

Ficha Técnica Título Original: Das Leben der Anderen Gênero: Drama Tempo de Duração: 137 minutos Ano de Lançamento (Alemanha): 2006 Site Oficial: www.thelivesofothers.com Estúdio: Creado Film / arte / Wiederman & Berg Filmproduktion /Beyerischer Rundfunk Distribuição: Sony Pictures Classics Direção: Florian Henckel von Donnersmarck Roteiro: Florian Henckel von Donnersmarck Produção: Quirin Berg e Max Wiedemann Música: Stéphane Moucha e Gabriel Yared Fotografia: Hagen Bogdanski Desenho de Produção: Silke Buhr Direção de Arte: Christiane Rothe Figurino: Gabriele Binder Edição: Patricia Rommel Elenco Martina Gedeck (Christa-Maria Sieland) Ulrich Mühe (Gerd Wiesler) Sebastian Koch (Georg Dreyman) Ulrich Tukur (Anton Grubitz) Thomas Thieme (Ministro Bruno Hempf) Hans-Uwe Bauer (Paul Hauser) Volkmar Kleinert (Albert Jerska) Matthias Brenner (Karl Wallner) Charly Hübner (Udo) Herbert Knaup (Gregor Hessenstein) Marie Gruber (Meineke) (Fonte da ficha técnica: http://www.adorocinema. com.br/filmes/vida-dos-outros/vida-dos-outros.asp, visitada em 29 de julho de 2008)

José Carlos Garcia é Juiz Federal na Seção Judiciária do Rio de Janeiro Revista de Cultura AJUFE

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PONTO DE VISTA

Vitorioso do sertão Reportagem Renata Camargo

Ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça, José Augusto Delgado é daqueles que vive com sabedoria e dedicação o presente, mira com esperança o futuro e carrega consigo as lições do passado. Em entrevista à Revista de Cultura AJUFE, Delgado revela a multiface de um cidadão norte-riograndense “José é homem cheio de passado a ser visto e revisto. Penso que o seu sentido de organização, singular disciplina, aliado à inteligência, cultura e inventividade transformaram-no em vitorioso.” As palavras são do escritor potiguar Diógenes da Cunha Lima, ao descrever um amigo e conterrâneo, a quem considera um homem “humilde, tenaz, tranqüilo, rigoroso e bem-humorado”. De muitos “Josés” poderia falar o nobre escritor potiguar. Mas da Cunha Lima preferiu escolher apenas um: José Augusto Delgado. Nascido em São José de Campestre, no estado do Rio Grande do Norte, o ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) não é somente um cidadão campestrense. Delgado exibe em seu currículo mais de 50 distinções honrosas. E, entre elas, os títulos de cidadão honorário de Pernambuco, Rio de Janeiro, Areia Branca (RN), Mossoró (RN), Santo Antônio (RN), Parnamirim (RN) e outros. “Honra-me muito ser cidadão honoris. Na minha vida, eu sempre me dediquei com muita garra e muito amor a tudo o que faço. O segredo de todo o meu sucesso e vitórias foi dedicar-me de corpo e alma e receber o apoio de minha esposa, que há 48 anos me agüenta”, diz descontraído o ex-ministro, que é casado com Maria José Costa Delgado. Na infância e adolescência, Delgado morou no agreste norte-riograndense. Apesar de ter 42

Revista de Cultura AJUFE

nascido em São José de Campestre, mudou-se muito pequeno para Santo Antônio do Salto da Onça, município hoje conhecido como Santo Antônio. “De lá fui para Natal, estudar no colégio Marista. Em 1952, depois de três anos sem estudar, decidi fazer a prova de admissão para o ginásio e passei em segundo lugar”, relembra orgulhoso. “Antônio Campos da Silva foi o primeiro lugar”, reaviva a memória. Formou-se em direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em 1964. “Sou da velha faculdade de direito da Ribeira da cidade de Natal. Hoje tudo é campus”, recorda. Advogou por um ano e quatro meses, quando então decidiu prestar concurso para juiz, sendo aprovado em segundo lugar. Em 1965, foi empossado juiz de direito do estado. Dez anos depois, prestou concurso para juiz federal substituto do Rio Grande do Norte e passou em primeiro lugar. “Em 1989, fui promovido para o Tribunal Regional Federal da 5ª Região. Além de ministro do STJ, fui também ministro do TSE [Tribu- “A vida no agreste era nal Superior Eleitoral], corregedor eleitoral e de ver o tempo passar. presidente da Escola da Magistratura Eleitoral”, Tínhamos a dificuldade conta. Recém-aposentado pelo STJ, Delgado de água, de energia exerceu a magistratura por 43 anos. Há quase elétrica, mas tudo isso ao 50, é professor de direito, atuando hoje tam- lado de uma vida mais bém como advogado, junto a um dos filhos. pacata, uma convivência Em um entrevista à Revista de Cultura AJUFE, de muita solidariedade José Delgado conta um pouco sobre a sua ex- entre as pessoas”

periência de vida no sertão norte-riograndense e relembra histórias que o marcaram na infância e na adolescência. O

poesias foi só um momento da mocidade. Depois passei a me dedicar exclusivamente à literatura jurídica.

ex-ministro fala também sobre suas impressões em relação à cultura norte-riograndense e encerra a entrevista com uma análise acerca da sociedade brasileira.

O senhor viveu, por muitos anos, no sertão. A vida no agreste era difícil?

Ajufe: Como era a vida em Santo Antônio do Salto da Onça? José Delgado: A vida no agreste era de ver o tempo passar, de usufruir das tradições da terra, como o Pastoril, em janeiro, as Vaquejadas, de junho a julho, as festas da padroeira Imaculada Conceição, no dia 8 de dezembro… Recordo-me da tranqüilidade da cidade, o toque do sino para a missa, as missões de Frei Damião às 4h da madrugada, a amplificadora tocando Angelos às 6h da tarde… Era de lá que vinha minha inspiração para escrever crônicas. Fazia várias crônicas sobre os fatos da vida, sobre a beleza da tarde, sobre a convivência das pessoas, sobre as tradições natalinas, sobre as tradições da Festa de Reis Magos, sobre o amor maternal, sobre a juventude... Era um menino bem atrevido. Mas essa fase de crônicas e

Depende do que se considera uma vida difícil. Lá, a vida se aproximava muito da natureza e se procurava conviver com as dificuldade que a vida impunha. Enfrentávamos a seca de outubro a março. Esperávamos o dia 19 de março, Dia de São José, ansiosamente. Tínhamos a dificuldade de água, de energia elétrica, mas tudo isso ao lado de uma vida mais pacata, uma convivência de muita solidariedade entre as pessoas. Que conselhos o senhor guarda daqueles tempos? Ouvi muito de meu pai e de minha mãe a mensagem de que o amor ao trabalho, o culto à dignidade e a solidariedade ao ser humano são três pilastras a serem construídas pelo homem. Carrego sempre esse conselho comigo. Revista de Cultura AJUFE

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ACADEMIA

Entre as muitas histórias de sua infância e adolescência, há aquela que mais o marcou? Tem uma história muito curiosa sobre o nome da cidade onde vivi até os 13 anos. Conta-se que os fazendeiros da região caçavam as onças pelo fato delas devorarem os animais de criação. Numa dessas caçadas, sobraram duas onças que não foram atingidas. Vendo as onças acuadas, os caçadores as colocaram contra duas pedras, perto de um rio, para matá-las. Mas quando atiraram, uma delas saltou e um dos fazendeiros gritou: “Valha-me, Santo Antônio, a onça saltou”. Daí o nome, Santo Antônio do Salto da Onça. Tem outra história que também marcou muito minha vida. Foi uma conversa entre Lindolfo Gomes Vidal, que era candidato a prefeito na época, e meu pai. Lindolfo, derrotado nas eleições, foi pagar a papai o fornecimento de tecidos, chapéus e sombrinhas. [Na época, esse material era distribuído aos eleitores. Hoje, não é mais permitido esse tipo de campanha.] Na hora do pagamento, papai foi prestar contas de tudo que tinha fornecido. Sem olhar o papel, Lindolfo rasgou a prestação de contas e disse olhando para papai: “Seu Batista, eu sou homem de bem e o senhor é homem de bem. Diga quanto lhe devo”. Isso é para demonstrar como eram os negócios de antigamente. Papai não tinha uma assinatura dele, só a palavra. Hoje é tudo diferente. Em maio deste ano, o então ministro da Cultura Gilberto Gil, no evento de lançamento do projeto Mais Cultura, em Natal, admitiu que pouco conhecia sobre a cultura potiguar. De modo geral, os brasileiros sabem pouco sobre a cultura norte-riograndense? Em regra, confundem com a cultura do Nordeste. Mas as pessoas reconhecem personalidades do estado como, por exemplo, Luís Câmara Cascudo, que é universal. Ele levou a inteligência do Rio Grande do Norte para o mundo. O estado também se notabilizou por grandes juristas. No início do século XX, Amaro Cavalcanti. No final, [Miguel] 44

Revista de Cultura AJUFE

EDITORIA

Seabra Fagundes, que aos 25 anos já era desembargador. Também não se pode esquecer de Auta de Souza, poeta feminista potiguar, que também viveu no início do século passado. As pessoas sabem também que Augusto Severo, mártir da tecnologia aeronáutica, era do Rio Grande do Norte. E há vários outros exemplos.

É um povo muito hospitaleiro, que gosta de receber pessoas, que trata o “estrangeiro” – nisso, digo brasileiro e pessoas de fora do Brasil – com muito carinho. Esse fato tem contribuído para o desenvolvimento turístico da região. O norte-riograndense é um povo muito comunicativo. E se caracteriza pela linguagem cantada.

Quais outras personalidades norte-riograndenses o senhor cita?

Do ponto de vista social, quais os problemas mais graves do estado hoje?

Posso citar o jornalista, juiz e professor Luis Carlos Guimarães; o escritor Diógenes da Cunha Lima, atual presidente da Academia Norte-Riograndense de Letras, e o professor, escritor e empreendedor Onofre Lopes da Silva, fundador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Na área religiosa, o arcebispo e escritor Dom Nivaldo Montes e o Padre José Maria. Do folclore, Veríssimo de Melo; na pintura, Dorian Gray, e na arte, Newton Navarro. Na política, nomes como Aloísio Alves, Tarcísio Maia, o atual presidente do Senado, Garibaldi Alves, e o líder da oposição no Senado, José Agripino. Cito, também, a educadora potiguar Noilde Ramalho, que fundou a primeira grande escola doméstica do Brasil, que formava donas de casa. Há muitos outros nomes de referência. O Rio Grande do Norte é um estado pequeno, mas atrevido. Veja que sempre estamos em destaque. Isso demonstra a garra de cada um, enfrentando todas as dificuldades. O que o senhor destaca no estado do Rio Grande do Norte? Na área da gastronomia, o estado se destaca pelo culto à carne de sol, ao feijão verde, à farofa d’água, à peixada e ao camarão. Hoje se destaca também no desenvolvimento do turismo. A praia de Pipa, por exemplo, é chamada de santuário ecológico. Todos os anos, o Rio Grande do Norte recebe, em média, 300 mil pessoas entre dezembro e fevereiro. Destaco, também, o amor às tradições da terra. O modelo do folclore é muito cultuado no campo e nas cidades, enquanto as tradições familiares permanecem no interior do estado. Em relação ao povo, qual a característica mais marcante do norte-riograndense?

Segurança, especialmente na Zona Oeste, além de problemas nas áreas de saúde e educação, em todo o estado. Não obstante o esforço que governos anteriores fizeram, há uma distância muito grande para se alcançar pelo menos o bom. Entre suas publicações, chama atenção o artigo Reflexões sobre a eficácia e a efetividade dos valores morais e éticos. No início do texto, o senhor afirma que “a sociedade brasileira sente, nos dias atuais, intensa necessidade da moralidade e da ética”. Há uma carência generalizada desses valores? Cada vez mais crescente. Eu sempre tenho afirmado que a moralidade, prevista expressamente na Constituição Federal, necessita ser transformada em prática efetiva do dia-a-dia. Quando falo em moralidade é moralidade da religião, da família, da prática negocial, da prática educacional. Ética na conduta das pessoas. Penso que, a partir dessa base, os problemas ficam mais fáceis de serem solucionados. Em outro trecho, o senhor escreve que “há uma intolerância manifestada de modo intensificado e crescente, provocando ira em cadeia, gerando estado de não confiabilidade nas instituições estruturais (públicas e privadas) do Estado”, o que pode abrir espaço para uma “revolução assentada no inconformismo e na revolta”. É nessa direção que a sociedade brasileira caminha? Chegamos em uma época de “revolução”? Tenho chamado de “a pior das revoluções”, que é a do inconformismo, do desencanto. Em face do cidadão não ter suas necessidades atendidas pelo Estado, no que tange à educação, segurança, etc, começa a perder a fé

“Uma espécie de bandeira que tremulasse em cada esquina, cada quarteirão, cada residência, lembrando ao brasileiro do culto à moralidade, solidariedade, respeito à coisa pública e outros princípios axiológicos” no futuro. E ao perder essa fé no futuro, na sua terra, ele vai transmitir aos seus semelhantes esse desencanto. Isso gera um estado de inquietude que tem efeitos negativos. É uma revolução que desestabiliza. Você observa o que está acontecendo no Rio [de Janeiro]. O Estado precisa imediatamente fazer todos os esforços para diminuir esses riscos. O século XXI tem que ser o século da cidadania. Nunca tivemos um século voltado para a cidadania, em que o homem fosse o centro de todas as atenções. O senhor já fez críticas contundente ao Estado brasileiro, atribuindo a ele um “infernal ambiente onde imoralidade práticas feridoras da ética têm sido uma constante”. Qual o pior aspecto do Estado brasileiro? As condutas ilícitas, e até de abusos de direitos cometidos, que demoram muito a serem reprimidos. Os três Poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – precisam encontrar mecanismos de maior celeridade, para, por vias aceitáveis, diminuir esses riscos e controlar os excessos. Vivemos hoje uma onda de violência e um mal-estar social provocado por posturas antiéticas, por falta de valores e injustiças sociais. Como lidar com esse tempo de “insegurança”? Pregar, pregar e pregar. Ensinar, ensinar e ensinar. Não desistir, não desistir, não desistir. Na minha visão, as igrejas de quaisquer tipos, as associações, os clubes de serviço, as escolas, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, o indivíduo isolado ou em grupo deviam formar um grande conselho para que o culto à moralidade e à solidaridade, o respeito à coisa pública, a dignidade, a valorização da cidadania, o valor do trabalho, a proteção ao meio ambiente, a guarda da criança e do adolescente fossem todos rigorosamente preservados. Uma espécie de bandeira que tremulasse em cada esquina, cada quarteirão, cada residência, lembrando ao brasileiro esses princípios axiológicos. Sei que não é fácil, mas não custaria tentar. Eu gostaria de ver o resultado. * Revista de Cultura AJUFE

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NATAL

Conhecendo Natal FOTOGRAFIA: CANINDÉ SOARES

Reportagem Anna Ruth Dantas

A capital potiguar está de braços abertos para recebê-lo. Com belíssimas praias, várias opções de lazer e descanso, riquíssima cultura e um povo acolhedor, Natal é, sem dúvida, um destino imperdível. Para ficar por dentro da Cidade do Sol, a organização do evento preparou para você um rol de sugestões e dicas dos melhores points da capital. Com cerca de 800 mil habitantes, uma beleza natural de praias e dunas, o artesanato rico em diversidade e uma culinária que encanta, a cidade de Natal, capital do Rio Grande do Norte, compõe um verdadeiro convite ao turismo. Conhecer Natal é contemplar o mar, o sol e sentir a brisa de um litoral belo e aconchegante. De um lado o oceano, do outro o rio Potengi, com um pôr-do-sol de bonita paisagem. Pelo Aeroporto Internacional Augusto Severo, principal porta de entrada dos visitantes, passam dois milhões de pessoas anualmente. Uma estatística que mostra o encanto promovido por Natal a todos que a conhecem. A capital potiguar é hoje uma das cidades brasileiras que mais recebe turistas, nacionais e estrangeiros. Pessoas que, geralmente, vêm em busca de sol e mar e quando chegam se deparam com uma cidade rica na diversidade de lazer. Natal foi fundada exatamente no dia 25 de dezembro de 1599. O principal símbolo da história da cidade é o Forte dos Reis Magos, construído pelos portugueses para proteger a cidade das invasões holandesas. 46

Revista de Cultura AJUFE

A capital do Rio Grande do Norte é rica em história e atrativos turísticos. Visitar Natal é contemplar não apenas a beleza natural, mas conhecer um povo acolhedor e muito receptivo com os visitantes. Além do mais, essa é a cidade que tem o ar mais puro da América Latina, segundo estudos recentes realizados por instituições internacionais. Para os turistas, o lugar se apresenta com as mais diversas atrações, que rompem as divisões municipais. Os passeios são realizados, em grande parte, na Grande Natal. Dica 1: Praias Natal tem em todo seu entorno o mar. No litoral Sul, a primeira praia natalense é Cotovelo, que chama atenção pelas falésias e pelos restaurantes, onde se pode apreciar um ótimo caranguejo. Quando o cliente chega no estabelecimento comercial a primeira pergunta que escuta é: caranguejo no coco ou na água e sal? Não se preocupe. Independente da sua resposta, o produto típico do nosso litoral, com certeza, será do seu agrado.

Já no litoral Norte, a praia natalense é Redinha, de onde se pode apreciar o mais novo cartão postal da cidade: a Ponte de Todos Newton Navarro. Com uma extensão de quase dois quilômetros e 55 metros de altura, a ponte está sobre o rio Potengi. As praias urbanas de Natal são Areia Preta, Artistas, Forte e Ponta Negra. Além disso, o visitante em um rápido passeio pela capital potiguar tem a oportunidade de apreciar uma bela orla. Saindo da praia de Ponta Negra em direção a praia do Forte, o melhor e mais agradável caminho é a Via Costeira, onde ao longo do percurso é possível apreciar o mar de beleza ímpar da Cidade do Sol. Entre todas as praias urbanas, Ponta Negra, com certeza, é a mais conhecida e famosa. É lá onde se encontra o Morro do Careca, uma grande duna, cercada pela vegetação nativa. Durante muitos anos, foi possível subir a duna,

uma verdadeira escalada. Mas, por decisão dos órgãos ambientais, a entrada está proibida. O Morro do Careca agora só para apreciar e fazer fotos. Nessa praia, também há bons restaurantes à beira-mar. Um belo cenário para comer tendo o mar na frente e ao lado, o Morro do Careca. Mas, se o turista não quiser ficar na areia da praia tomando uma água de coco, há as barraquinhas padronizadas onde é possível comprar desde um refrigerante até um delicioso peixe. E como toda praia muito concorrida, o comércio ambulante de Ponta Negra é uma verdadeira diversidade de produtos. De comidas regionais a souvenirs, de tudo pode ser encontrado, inclusive quadros de artistas plásticos. Cotovelo | Na praia de Cotovelo é possível encontrar restaurantes simples à beira-mar, Revista de Cultura AJUFE

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EDITORIA

onde se pode comer um caranguejo enquanto aprecia a vista da natureza. Em vários pontos da praia, dá para se tomar um bom banho de mar. Ponta Negra | A praia de Ponta Negra é a mais famosa da capital potiguar. Com o Morro do Careca como cenário principal, a praia é apta para banho. Em Ponta Negra, o turista fica toda manhã. Começa com uma boa água de coco, envereda por petiscos degustados à beira-mar e depois ainda vai para os restaurantes da orla, onde se come bons pratos de camarão. Via Costeira | A Via Costeira é um local típico de passeio com automóvel. Na ligação da Zona Sul à Zona Leste de Natal, as pessoas vão contemplando a paisagem. É nesse local onde estão os melhores hotéis da capital potiguar. Mas, atenção, na Via Costeira, próximo ao bairro de Mãe Luíza, a praia é imprópria para banho. Também vale o alerta para a segurança. Como boa parte do trecho da Via Costeira fica isolado, é perigoso fazer passeios pelo local. Praia do Meio | A Praia do Meio está localizada na Zona Leste. É um ponto mais popular. Muitos natalenses aproveitam para fazer caminhadas no calçadão.

Dica 2: Bares Depois de um dia de muitos passeios pelo litoral potiguar, o fim de tarde e início de noite é reservado para boas conversas nos bares da cidade. No bairro de Petrópolis, Zona Leste, ou na orla natalense, muitas são as opções. Petrópolis | O bairro de Petrópolis é um dos points da cidade. No local, é possível encontrar diversos barzinhos, cada um com sua característica própria. Dom Café | Localizado no largo do Atheneu, o Dom Café tem petiscos, mas também serve refeições. No bar, o cliente pode se acomodar em um lounge ou nas mesas. Um das pedidas da casa é o “escondidinho de camarão”, feito como pirão de macaxeira (mandioca). Cervantes | O Cervantes tem como especialidade a picanha, servida com diversos acompanhamentos. Outro atrativo são as caipifrutas, feitas com frutas típicas da região ou mesmo as tradicionais de morango e kiwi. O bar começa a funcionar no estilo happy hour e se prolonga até a meia-noite.

Praia do Forte | Um dos cartões postais de Natal é o Forte dos Reis Magos, daí o nome de “Praia do Forte”, que fica exatamente ao lado da fortaleza. Na Praia do Forte, os moradores

Dom Vinícius | O Dom Vinícius fica, exatamente, em frente ao Cervantes. No local, a noite se prolonga pela madrugada. Após um evento de início de noite, geralmente, os natalenses seguem para continuar o encontro no Dom Vinícius. Com uma música agradável, o barzinho é uma das

próximos ao local aproveitam para a prática de esporte.

pedidas da noite de Natal.

Redinha | É na Redinha que o turista pode degustar um prato típico do local, a “ginga com tapioca”. O mercado central, muito popular, também agrada aos visitantes que apreciam culinárias locais.

Sargento Pepers | Também em Petrópolis, há o Sargento Pepers. Esse bar congrega mais jovens. Com música ao vivo, geralmente, um pop rock, o Sargento Pepers é muito concorrido. Tem como ponto forte a noite de sexta-feira.

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Revista de Cultura AJUFE

Boemia | Recém-inaugurado, o Boemia é um bar temático, com caricaturas de vários artistas internacionais, como Elton John e Jimi Hendrix. A música é um dos atrativos do local, a banda Deck anima com o pop internacional. Real Botequim | No bairro de Cidade Jardim, um dos atrativos é o bar Real Botequim. O local é especializado em petiscos. Um dos diferenciais é o fato de que os garçons já ficam passando nas mesas oferecendo os salgados. O Real Botequim é uma boa opção para happy hour. Taverna Pub | No bairro de Ponta Negra estão concentrados muitos dos bares da cidade. No alto de Ponta Negra, a diversidade de bares é muito grande, onde é possível encontrar o típico forró, mas também curtir uma balada. Um dos atrativos do local é o Taverna Pub. Esse bar funciona no Albergue Lua Cheia e já chama atenção pela arquitetura que é semelhante a um castelo. Dica 3: Culinária A capital potiguar é uma cidade rica na culinária. Em Natal, é possível apreciar desde os pratos regionais até comidas internacionais. Muitos são os restaurantes onde o turista poderá saborear uma boa comida, tendo como cenário a bela visão da cidade. Camarões | O restaurante localizado em Ponta Negra é um dos mais famosos de Na-

tal. A especialidade, como o próprio nome já diz, é o camarão. Os pratos servidos à base de camarão são os mais diversos, desde o tradicional camarão internacional até o camarão cabugi, feito com manteiga do sertão. Mangai | O restaurante Mangai, no bairro de Lagoa Nova, transformou-se em um atrativo turístico. É lá onde estão as mais diversas comidas típicas. Vale a pena reservar um almoço para comer no local. Ao chegar ao restaurante, o turista já começa fazendo foto na entrada. O Mangai é totalmente ambientado com a decoração regional. Manary | Se o desejo é por um restaurante mais requintado, a opção é o Manary, localizado na praia de Ponta Negra. O local serve os mais diversos pratos. O atrativo, além da culinária, é a bela vista. O restaurante fica exatamente na beira-mar. Abade | O Abade tem como especialidade a comida portuguesa. O prato principal da casa é o bacalhau. Restaurante requintado, o Abade está localizado no bairro de Ponta Negra, no início da Via Costeira. Guinza | O restaurante Guinza tem como especialidade a culinária japonesa. Na terça-feira, o atrativo é o rodízio à noite. O restaurante também possui música ao vivo, o que compõe uma noite ainda mais agradável. * Revista de Cultura AJUFE

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NATAL

Reportagem Anna Ruth Dantas

De Nova Amsterdã a simplesmente Natal, a capital potiguar faz um convite para mergulhar no passado e resgatar a raiz heróica dessa privilegiada península brasileira A história da Capitania do Rio dição foi tomar precauções contra o Grande do Norte teve início a partir ataque invasor. Doze dias depois da de 1535, com a chegada de uma fro- chegada, no dia 6 de janeiro de 1598, ta comandada por Aires da Cunha, a começou a construção de um forte soserviço do donatário João de Barros bre os arrecifes situados nas redondee do rei de Portugal. Com o objetivo zas da Boca da Barra, que foi chamado de colonizar as terras da região, a fro- de Reis Magos, por sua construção ter ta, porém, foi impedida de adentrar sido iniciada no dia consagrado aos o território pela forte resistência dos Santos Reis. O forte foi concluído no índios potiguares e piratas franceses, dia 24 de junho do mesmo ano e, no traficantes de pau-brasil. entorno, logo se formou um povoaComeçava aí a trajetória histórica do que, segundo alguns historiadores, da área situada na esquina da América foi chamado de Cidade dos Reis, em do Sul. No dia 25 de dezembro de uma referência à edificação que lhe 1597, sessenta e dois anos após a frus- deu origem. Tempos depois, o povotrada tentativa de Aires da Cunha, uma ado mudou de nome, passando a se esquadra comandada pelo Almirante chamar Cidade do Natal. Antônio da Costa Valente e integrada Para alguns escritores, o nome Natal por Francisco de Barros Rego, Masca- é explicado em duas versões: a primeirenhas Homem e Jerônimo de Albu- ra, refere-se ao dia em que a esquadra querque, entrava na barra do rio Po- adentrou a barra do Potengi e, a seguntengi, que depois viria a ser município da, tem ligação direta com a data da de Natal. Com essa entrada histórica demarcação do sítio primitivo da cidade, teve início a povoação em toda área. realizada por Jerônimo de Albuquerque, A primeira providência da expe- no dia 25 de dezembro de 1599. 50

Revista de Cultura AJUFE

“A cidade cresceu e evoluiu com a presença de contingentes militares brasileiros e aliados, que construíram a base aérea e naval, local de onde as tropas partiam para o patrulhamento e para a batalha na defesa do Atlântico Sul”

tinha 6.393 habitantes, e no último ano do século XIX, a cidade já tinha uma população de 16.056 pessoas. Somente a partir de 1922, a cidade começou a se desenvolver em ritmo mais acelerado. As primeiras atividades urbanas tiveram início no Bairro da Ribeira, situado na parte baixa da cidade, próximo a foz do rio Potengi, expandindo-se em direção ao centro, atual bairro da Cidade Alta. Na década de 1940, a deficiente estrutura física da cidade provocou o adensamento das áreas urbanizadas, sobrecarregando-as de novos logradouros, como o Bairro do Alecrim. Pela sua privilegiada posição geográfica, localizada no litoral nordestino, na chamada esquina do continente ou esquina do Atlântico, Natal foi favorecida pelo advento da Segunda Guerra Mundial. A cidade cresceu e evoluiu com a presença de contingentes militares brasileiros e aliados, que nessa época construíram a base aérea e naval, local de onde as tropas partiam para o patrulhamento e para a batalha, na defesa do Atlântico Sul e na realização das campanhas militares no norte da África. *

FOTOGRAFIA: CANINDÉ SOARES

Na “esquina” do continente

Nova Amsterdã Com a presença holandesa na região, a vida da cidade que começava a evoluir foi inteiramente mudada. No período de 1633 a 1654, sob o domínio holandês, o Forte dos Reis passou a se chamar de Forte de Keulen e a Cidade do Natal, Nova Amsterdã. Segundo o historiador Câmara Cascudo, no livro História da Cidade do Natal, em 31 de dezembro de 1805, Natal

Pontos Históricos Capitania das Artes Restaurada pela Secretaria Estadual de Turismo O prédio reúne a beleza da arquitetura neoclássica de seu frontão e amplos vãos livres de arquitetura moderna de seu interior. Já foi Capitania dos Portos e sede do Governo. Localização: Av. Câmara Cascudo, 434, Ribeira. Informações: (84) 3234-4956. Forte dos Reis Magos Construído sobre os recifes e banhado pelo rio Potengi e pelo oceano Atlâtico, é o marco inicial da história da cidade de Natal. É tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional. Localização: Av. Café Filho, Praia do Forte. Informações: (84) 3202-9006. Teatro Alberto Maranhão Teve a sua construção iniciada em 1818 e concluída em 1904. Sua arquitetura neoclássica encontra-se totalmente restaurada. Localização: Praça Augusto Severo, no Bairro Ribeira. Informações: (84) 3222-3669.

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NATAL

ACADEMIA

Os imortais potiguares Reportagem Maísa Carvalho

tem assunto nenhum, é só uma carta para saber

década de 50 veio a mudança para o Rio de Janeiro.

como você está.”

Passou a ser funcionário do Banco do Nordeste do

Hoje, a trajetória do folclorista pode ser obser-

Brasil em 1955, onde permaneceu até se aposentar

vada no Memorial Câmara Cascudo e o museu da

em 1979. Depois de 38 anos no Rio, refugiou-se

Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que

na Fazenda Acauã, município de Riachuelo, com

Provinciano incurável, Câmara Cascudo é tido por muitos como o folclorista mais “minuscioso e abrangente” do último século. Assim como ele, outras personalidades mostraram ao mundo todo o potencial da cultura norte-riograndense. Saiba a história de algumas delas como Nísia Floresta, Oswaldo Lamartine, Augusto Severo de Albuquerque Maranhão e Chico Daniel.

Oswaldo Lamartine de Faria, o sertanejo

Luís da Câmara Cascudo, o historiador do Brasil

amigos do Brasil e do exterior encarregados de lhe fornecer infor-

as terras além do horizonte e para outros, o quintal

demia Norte-riograndense de Letras – na cadeira 12,

uma região fisiográfica.

mações, a obra “cascudiana” ganhou forma, sotaque e cores.

perdido da infância.” A frase, de Oswaldo Lamartine,

que outrora fora ocupada por seu pai e por Veríssi-

Além da terra, das

leva seu nome.

“Cada vivente tem o seu Sertão. Para uns são Natal, século XX. Época em que a internet e o correio ele-

seu cachorro Parrudo. Lá, morou até novembro de 2005, quando então passou a habitar sua cidade natal, Natal. Empossado, em 2001, como membro da Aca- “O Sertão é mais que

trônico não se faziam presentes na vida das pessoas. A casa

Uma obra composta por uma quantidade dantesca de livros

revela a grandeza desse que é considerado o maior

mo de Melo e cujo patrono era Amaro Cavalcanti –,

plantas, dos bichos e

de número 377, na Avenida Junqueira Aires, em Natal, recebia

escritos durante anos de dedicação à busca das origens da cul-

etnógrafo-contador das histórias do sertão que já

Oswaldo foi, dois anos depois, agraciado com o títu-

do bicho-homem, tem

passou pelo Rio Grande do Norte.

lo de Pesquisador Emérito, pela Fundação Joaquim

o seu viver, os seus

correspondências freqüentemente. Para seu ilustre morador, Luís

tura popular brasileira. Tido por muitos, como o folclorista mais

da Câmara Cascudo, as cartas eram suporte de pesquisa e fonte

minucioso e abrangente, são dele títulos como: Alma Patrícia,

Seu primeiro choro foi derramado em uma

Nabuco (PE). Em 16 de novembro de 2005, a Uni-

cheiros, cores e ruídos. –

de dados para suas obras. Por meio dessas, o intercâmbio de

Dicionário do Folclore Brasileiro, Literatura Oral, Histórias que o

capital litorânea, Natal, aos 15 de novembro de

versidade Federal do Rio Grande de Norte (UFRN)

Oswaldo Lamartine”

informações e o registro do cotidiano construíram vínculos de

Tempo Leva, Vaqueiros e Cantadores, Prelúdio da Cacha��a, Rede

1919. Mas a sua raiz secular fora fincada no sertão,

lhe concedeu o título de Doutor Honoris Causa.

amizade para toda a vida.

de Dormir, Jangada, Locuções Tradicionais do Brasil, Superstições

nos chãos de pedra do Seridó, assegura Vicente

Filho do ex-governador Juvenal Lamartine de

“Grandes” como Carlos Drummond de Andrade, Luís Gon-

no Brasil, Vaqueiros e Cantadores, Geografia dos Mitos Brasilei-

Serejo. No final da década de 1940, quando Oswal-

Faria e de Silvina Bezerra de Faria, o Doutor Hono-

zaga, Walt Disney, Monteiro Lobato, Juscelino Kubitschek, Hen-

ros, Meleagro: Catimbó e Magia Branca no Brasil, Geografia do

do começou a publicar seus escritos, José Lins do

ris Causa de Acauã, por algumas vezes, assim se

rique Castriciano, Assis Chateaubriand, Jorge Amado, José Lins

Brasil Holandês, História da Alimentação no Brasil e Sociologia

Rego, surpreso com o estilo do jovem, falou: “…

apresentou: “Sou sobejo da seca de 19, o último

do Rego, Roquette Pinto, Érico Veríssimo e Mário de Andrade

do Açúcar.

muito teria que aprender com o jovem ensaísta

de uma ninhada de dez”.

trocaram com o famoso potiguar saberes e idéias; ensinaram e aprenderam mutuamente.

Em cada livro, ensaio, revela um misto de Brasil e mundo.

riograndense do norte”. Sobre ele, muitos outros

Certa vez, esse apreciador de armas tomou

Nunca pensou em deixar sua terra, Natal, e para o ex-presidente

também comentaram. Câmara Cascudo lhe era

os passarinhos que o amigo Monsenhor Expedito

Nascido aos 30 de dezembro de 1898, na Rua das Virgens,

da República José Sarney, Cascudo foi o grande guardião da nossa

íntimo, chamava-o por ‘Oswaldinho’ ou ‘sobrinho

criava e libertou todos eles. Nunca se interessou

cidade de Natal, a capital do Rio Grande do Norte, Cascudo foi o

brasilidade. “Brasileiro no hábito alimentar, brasileiro no morar,

honoris causa’ e certa vez escreveu: “Esculpido em

por política e costumava plantar árvores em home-

filho único de Francisco Justino de Oliveira Cascudo e Anna Maria

brasileiro ao deitar na rede nordestina, ao contar ‘causos’ de todo

pau-ferro, ágil por dentro e por fora”.

nagem aos amigos. A respeito das amizades, discor-

da Câmara Cascudo. Do pai, escreveu Cascudo, subiu lentamente

o Brasil, ao registrar nossas lendas, nosso folclore.”

Para Rachel de Queiroz, Oswaldo, que havia cooperado na adaptação para TV do Memorial de

reu: “A balança do julgamento dos amigos costuma

na vida e fora rico para os padrões da época, possuindo uma chá-

Jornalista, etnólogo, antropólogo, historiador, folclorista, não

cara no bairro do Tirol, que chamavam ‘principado’. “Nossa casa

escondia a predileção em ser chamado de professor. Em texto

Maria Moura, era o “anjo magro” que no Brasil mais

Enquanto homem das letras, tudo quanto pôde,

no Tirol, hospedou a Família Imperial e Fabião das Queimadas,

escrito por ele próprio, conta: “Queria saber a história de todas as

entendia de sertão e de Nordeste. E Gilberto Freyre,

ele aprendeu na Escola do Sertão, no exercício diá-

cantador que fora escravo”, lembrava Cascudo.

cousas do campo e da cidade. Convivências dos humildes, sábios,

acertadamente observou: “Em torno de assuntos

rio do ver e ouvir, observar e anotar, analisar e com-

ser manca”.

O menino aspirou à medicina, mas quis o destino que ele

analfabetos, sabedores dos segredos do Mar das Estrelas, dos

nordestinos, se tornaram mestres Luís da Câmara

parar. Sobre o solo sertanejo, conheceu Bernardo

se formasse bacharel em direito e nunca deixou de escrever.

morros silenciosos. Assombrações. Mistérios. Jamais abandonei

Cascudo e Oswaldo Lamartine”.

Cintura e Moça Caetana, os nomes pelos quais são

Até pouco antes de sua morte, em 30 de julho de 1986, Cas-

o caminho que leva ao encantamento do passado. Pesquisas.

cudo trocou correspondências. Ao longo de seus 87 anos, esse

Indagações. Confidências que hoje não têm preço.”

“provinciano incurável” reuniu 15 mil cartas que atualmente se

Essa sede de saber, essa busca por respostas e principalmen-

Amante da literatura sertaneja, sua introdução

chamados, respectivamente, a fome e a morte. “O

ao mundo do saber se deu com a professora Be-

que botei no papel foram apenas momentos do dia-

lém Câmara. A fase da adolescência e juventude

a-dia do nosso sertanejo. Convivi com alguns deles

encontram no acervo da família. “Ele tratou de fazer sua obra

te, a sua afetuosidade humana, fizeram dele um homem querido

passou-a nos Colégio Pedro II, no Ginásio do Recife

debaixo das mesmas telhas.” Ao longo de 87 anos,

gigantesca, composta por mais de 150 livros, enviando cartas

e admirado. Para representar a cultura brasileira em um dos par-

e no Instituto La-Fayette, no Rio de Janeiro. Como

Oswaldo edificou uma vida de histórias alicerçadas

para conhecidos e até desconhecidos de todo o mundo”, revela

ques temáticos da Flórida, Walt Disney pediu para Cascudo infor-

um chamado da terra, ingressou na Escola Superior

nos Alpendres d’Acauã, nos Ferros de Ribeiras, nos

sua filha, Anna Maria Cascudo. A fim de viabilizar as informações,

mações sobre o Brasil e em retribuição, lhe enviou um exemplar

de Agricultura de Lavras, em Minas Gerais, onde

Arreios do Vaqueiro, na Faca de Ponta, nas Abelhas

Cascudo realizava inquéritos diretos e escrevia cartas aos amigos,

do livro Alice no País das Maravilhas. Já Monteiro Lobato, pediu

em 1940 tornou-se técnico agrícola. Casou-se, teve

do Seridó, na Pescaria de Açudes e no Sertão do

usando-as sempre como fontes de pesquisa. Ao escrever seus

para que seu amigo lhe mandasse características do Saci-Pererê,

filhos e netos. Foi professor da Escola Doméstica

Nunca Mais, surrupiado pela “terraplanagem cultu-

livros e artigos, não hesitava em recorrer aos companheiros. Por

para compor o personagem. Tamanha era a intimidade entre eles,

de Natal, da Escola Técnica de Jundiaí e pracinha

ral da eletricidade, da eletrônica, das estradas, dos

meio de suas “vítimas indefesas”, como costumava apelidar os

que Monteiro Lobato certa vez lhe escreveu: “ Minha carta não

durante a Segunda Guerra Mundial. Junto com a

meios de comunicação”.

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Revista de Cultura AJUFE

Revista de Cultura AJUFE

53


ACADEMIA

Apesar das mudanças, em Oswaldo, o sertão é onipresente.

das Brasileiras, em 1831. Um ano depois veio seu primeiro livro,

rádio uma chamada para o Encontro Anual de Apresentadores

Augusto Severo é apontado como um dos pioneiros da aviação.

“O sertão é mais que uma região fisiográfica. Além da terra, das

Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens. Idealista, foi de-

de João Redondo, evento realizado pela Fundação José Augusto.

Na capital potiguar, o aeroporto internacional leva seu nome,

plantas, dos bichos e do bicho-homem, tem o seu viver, os seus

fensora da educação digna às mulheres. “Certamente, Deus criou

Mesmo sem ter feito a inscrição, ele chegou a Natal e teve a

bem como uma praça no centro da cidade. Olavo Bilac, por oca-

cheiros, cores e ruídos. O cheiro da água que nos desertos tam-

as mulheres para um melhor fim, que para trabalhar em vão toda

oportunidade de mostrar seu trabalho. A platéia se rendeu ao

sião da morte do aviador, escreveu: “Para Augusto Severo, o de-

bém cheira. O da terra molhada, do curral, da lenha queimada e

sua vida”, escreveu ela.

talento de Chico Daniel.

sastre foi uma glorificação”.

de cada flor. O belo-horrível-cinzento dos chãos esturricados, o

Tendo morado em Recife, no Rio Grande do Sul e no Rio

Foram 11 apresentações até o último dia do encontro e a

Apaixonado pela aeronáutica e pela mecânica, Augusto Se-

‘arrepio-verde’ da babugem, a explosão em ouro das craibreiras

de Janeiro, após deixar sua terra natal, Papari, aos 14 anos, fun-

quantia em dinheiro arrecadada (aproximadamente 5 mil cru-

vero realizou, em Recife, as primeiras experiências com balões,

em flor. Os ruídos dos ventos, das goteiras, do armador das redes,

dou e dirigiu o Colégio Augusto, anos depois no Rio. Em 1942,

zeiros) era a maior que Chico tinha visto na vida. O sucesso

tendo projetado o dirigível Potiguarania. Esse, nunca saiu do papel,

o balido das ovelhas, o canto do galo, o estalo do chicote dos

publicou Conselhos à minha filha. O livro, dedicado à filha Lívia

no encontro levou o mamulengueiro para a cidade de Macaíba.

mas a busca por aumentar a estabilidade e dirigibilidade dos

matutos, o ganido dos cachorros em noite de lua, os tetéus, o

como presente pelo aniversário de 12 anos, torna-se o trabalho

Depois veio a amizade com o Mestre Manuel Marinheiro, do boi

balões o levaria mais além.

dueto das casacas-de-couro, os gritos do socó a martelar silêncios,

de Nísia mais editado e traduzido. No ano de 1849, se muda

de reis, e a conseqüente mudança para a capital.

os aboios, o bater dos chocalhos, o mugido do gado e tantos

então para a Europa onde passa 28 anos. Durante a estada no

Casado e com dez filhos para criar, Chico Daniel nunca viveu

nejou também a hélice dentro de um grande tubo, permitindo a

outros que ferem nas ouças da saudade”, conta.

Velho Mundo, trocou correspondências com o filósofo positivista

somente de arte. Cedo aprendeu o ofício de sapateiro e pelos

um dirigível aéreo inverter sua marcha e deslocar-se tanto para

Em 2007, quando a lua reinava em meio às estrelas na noite de Natal, Oswaldo Lamartine de Faria bateu com os olhos nas paredes do céu. Nísia Floresta Brasileira Augusta, a mais notável mulher

Aprofundou-se nos estudos e projetou o motor “reação”. Pla-

lugares onde morou sempre manteve uma plaquinha oferecendo

frente quanto para trás. Pacífico, Severo acreditava que os dirigí-

serviços. Aprendeu a fazer brincadeiras das fatalidades da vida e,

veis deveriam voar em grandes altitudes, valendo-se da menor

disse ela: “Todos os brasileiros, qualquer que tenha sido o lugar de

com histórias engraçadas, tornou a realidade do bairro de Felipe

resistência ao avanço e da ausência de turbulência.

seu nascimento, têm iguais direitos à fruição dos bens distribuídos

Camarão, onde residiu, mais amena e menos violenta.

Auguste Comte. Entusiasta dos direitos do homem, em uma obra de 1853,

pelo seu governo, assim como à consideração e ao interesse de

Rei no improviso e dono de uma memória de elefante, Chi-

Depois do insucesso de seu dirigível Bartholomeu de Gusmão, que fora concebido para combater a Revolta da Armada, que

co Daniel aguçava os ouvidos para os causos que o povo ma-

assolava a capital do país em 1893, o professor de matemática,

do Norte registrou.” O apontamento é de Veríssimo de Melo e

Acometida por pneumonia, faleceu a 24 de abril de 1885.

traqueava e ia incorporando os contos em suas apresentações.

diretor do colégio Atheneu, abolicionista, líder político, orador e

apesar da grandeza que encerra essa sentença, ainda há mais o

Enterrada no cemitério de Bonsecours (França), quase 70 anos

Mestre do teatro de bonecos, suas histórias tiveram como cenário

deputado federal Augusto Severo reuniu meios financeiros e par-

que dizer de Nísia Floresta Brasileira Augusta.

tiu para Paris com intuito de construir o balão PAX.

“Ela foi a mais notável mulher que a história do Rio Grande

seus concidadãos”.

depois seus restos mortais foram transportados para o Rio Gran-

as cidades, o circo e o anedotário popular que ele, sabiamente,

Sua natureza não permite definições absolutas, mas Nísia foi

de do Norte. Hoje os despojos da mais notável mulher que o

apimentava com malícia, paródia e sátira, como nos ensina o

escritora, educadora, poetisa, indianista, abolicionista, nacionalista

nosso estado registra, encontram-se no túmulo que foi erguido

folclorista Deífilo Gurgel.

e, como se não bastasse, é considerada precursora do movimento

próximo ao sítio onde Dionísia nasceu, na cidade que recebeu o

feminista no Brasil.

seu nome, Nísia Floresta.

Fruto da união de um português com uma brasileira, nasceu Dionísia Gonçalves Pinto, em 12 de outubro de 1810, numa ci-

Chico Daniel, o mestre mamulengo

O nome sinalizava sua crença nos balões como instrumentos que poderiam evitar guerras. E mais, para Augusto Severo, os di-

Em qualquer lugar onde o palco pudesse ser montado, lá

rigíveis eram como “navios de alto ar”. O seu PAX, uma aeronave

estava Chico Daniel com sua mala repleta de magia. No dia 3

semifixa, media 30 metros de comprimento e valia-se de 2 mil

de março de 2007, ele estava pronto para partir. O destino? Mais

metros cúbicos de hidrogênio para elevar-se, além disso, contava

uma apresentação do bonequeiro que com certeza encantaria o

com dois motores de 16 e 24 cavalos para propulsão horizontal.

dade que à época se chamava Papari, município do Rio Grande

O nome dele é Francisco Ângelo da Costa. Mas sendo o filho

público. Acontece que, como nas voltas que a vida dá e nas brin-

O balão cortou os céus de Paris e por 10 minutos realizou

do Norte. Posteriormente, adotou o pseudônimo de Nísia Flores-

de Daniel dos Calunga, logo passou a ser chamado por Chico de

cadeiras que nos aprontam, apareceu o elemento surpresa: Chico

manobras a 400 metros de altura com perfeição. Grande era o

ta Brasileira Augusta. “Nísia é o final de seu nome de batismo.

Daniel. Daí para passar a Chico Daniel, foi um pulo. A história do

sofreu um ataque fulminante no coração. Partiu em busca de um

número de pessoas que acompanhava com olhos fixos no céu a

Floresta, o nome do sítio onde nasceu. Brasileira é o símbolo de

Mestre Mamulengueiro que encantou gerações de potiguares

palco onde pudesse montar seu “paninho” e fazer rir os anjos.

experiência do norte-riograndense.

seu ufanismo, uma necessidade de afirmativa para quem viveu

com o negro Baltazar, Etelvina, Doutor, Padre Ibiapina, Inês, entre

quase três décadas na Europa. Augusta é uma recordação de

tantos outros bonecos, começa em Assu, cidade onde ele nasceu

seu segundo marido, Manuel Augusto de Faria Rocha, pai de sua

e onde espiava o pai brincar de João Redondo.

De súbito, ocorreu uma explosão. O dirigível foi tomado por Augusto Severo de Albuquerque Maranhão, o aviador potiguar

chamas, causando a morte de Augusto Severo e do mecânico

Augusto Severo de Albuquerque Maranhão viveu 38 anos. Nas-

Sachêt, que o acompanhava. Na França, no local da queda do PAX,

Desde os dias da infância nos passeios com o irmão Manoel,

ceu em Macaíba, município que integra a região metropolitana de

existe hoje uma placa de mármore com os seguintes dizeres: “À

Ao longo de 75 anos de vida, foram 15 livros. Escreveu em

o menino sempre dava um jeito de improvisar. Com muita ima-

Natal, em 11 de janeiro de 1864. Quiseram seus sonhos de aviador

la memoire de L`Aéonaute Brésilien AUGUSTO SEVERO et de son

francês, italiano, realizou traduções e se firmou entre a elite in-

ginação, pedaços de madeira se transformavam em marionete e

que ele viesse a falecer em Paris, no dia 12 de maio de 1902.

telectual européia. De artigos, poemas, romances, novelas, nar-

vozes de crianças, idosos e mulheres eram criadas. Aos 15 anos,

rativas de viagem e até mesmo de discurso, é composta a obra

Chico deixou a casa dos pais e foi ganhar o mundo.

filha Lívia Augusta.”

de Nísia Floresta. Seus primeiros artigos foram publicados no jornal Espelho

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Revista de Cultura AJUFE

Oriundo de tradicional família norte-riograndense, é conside-

mécanicien français GEORGE SACHÊT Chute du dirigible PAX - Av du Maine. Le 12 mai de 1902”.

rado o Mártir da Tecnologia Aeronáutica. Ao lado de brasileiros,

Na base do túmulo do aviador, há um baixo-relevo em bron-

Ultrapassou os limites do Rio Grande do Norte e morou um

como o Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, o paraense

ze com o desenho do PAX e a seguinte inscrição: “Tendo se

tempo no Maranhão, até que resolveu voltar. Um dia, ouviu no

Júlio César Ribeiro de Sousa e o mineiro Alberto Santos Dumont,

esforçado para vencer os astros, venceu a morte”.

*

Revista de Cultura AJUFE

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NATAL

EDITORIA

Naquele dia, o velho cantador chegou à feira

ofício. Obras de seis pés, ou sextilha:

um pouco mais tarde que de costume. As barracas já estavam quase todas armadas e havia muita

Agora vem-me à lembrança

gente transitando entre elas, mas o seu lugar es-

Os passos do meu sertão

tava vazio, como que esperando sua chegada. Ele

Pomba de bando, asa branca

montou o tamborete com assento de couro – que

Marreca, socó, carão,

já lhe acompanhava há anos – e, antes de abrir a

Também pássaro pombinha

mala dos cordéis e espalhá-los sobre a lona que

Arara e currupião.1

trouxera dobrada, sentou um pouco para descansar. Depois tirou sua viola do saco e conferiu a afina-

Obras de sete pés, ou septilha:

ção. Ensaiou alguns acordes, temperou a garganta e começou a cantar:

Uma Carta de ABC

Bom dia para a senhora

Um punhado de cordéis

E uma velha Tabuada,

O velho cantador e seus cordéis Por Marcos Mairton

Em meio a versos de cordel, o autor nos brinda com a história da origem dessa poesia popular e nos revela como essa rica arte de herança portuguesa se tornou um importante instrumento de divulgação de questões sociais

E para o senhor que passa.

Numa maleta encantada,

Vou começar mais um dia

Me deram luz do saber.

Cantando aqui nesta praça.

Ali eu pude aprender

Pois se eu nasci pra cantar

Até a História Sagrada.

Eu canto para lhes dar O que Deus me deu de graça… Era uma estrofe antiga. Já não recordava a

E até martelo agalopado, pois sem ele um cantador não sobrevive:

primeira vez que havia começado o dia daquela

Admiro demais o ser humano

maneira, saudando o início de mais uma jornada e

que é gerado num ventre feminino

as pessoas que passavam. Lembrou de uma época

envolvido nas dobras do destino

em que começava a juntar gente antes mesmo de

e calibrado nas leis do Soberano

arrumar os seus cordéis sobre a lona, mas isso havia

quando faltam três meses para um ano

sido muito tempo atrás. As pessoas agora andavam

a mãe pega a sentir uma moleza

cada vez mais apressadas e, enquanto ele entoava

entre gritos lamúrias e esperteza

seus primeiros versos, elas continuavam passando

nasce o homem e aos poucos vai crescendo

sem lhe dar muita atenção. De vez em quando,

e quando aprende a falar já é dizendo:

alguém parava, olhava um pouco, mas logo conti-

quanto é grande o poder da Natureza.

ILUSTRAÇÃO: JÔ DE OLIVEIRA

nuava o seu caminho. O velho cantador parecia não se incomodar.

Fraco na criação de enredos e rimas, o velho

“Talvez o velho cantador

Apesar de os pulmões já não terem a potência de

cantador foi fazendo a sua fama mais como decla-

não soubesse que essa

antigamente, soltava a voz, lembrando das cantorias

mador de cordel do que como repentista. Para ser

queda de movimento na

comuns em sua infância no interior do nordeste bra-

bom repentista é preciso ligeireza de pensamento,

feira não significava que

sileiro. Desde criança, não perdia uma oportunidade

facilidade para usar as palavras e criar os versos na

o interesse pelo cordel

de assistir às apresentações dos violeiros, aqueles

hora, de acordo com o tema oferecido, chamado

estivesse acabando, mas

homens que dominavam tão bem a arte de rimar e

mote. Já a declamação de cordel requer, antes de

apenas mudando de

metrificar, com suas violas enfeitadas e suas vozes

tudo, boa memória, e isso o velho tinha de sobra.

forma… E de lugar”

poderosas. E juntava gente para assistir. Um dia,

Apesar de ler com dificuldade, decorava um folhe-

conseguiu arrumar algum dinheiro e comprar sua

to de cordel numa velocidade espantosa. E nunca

própria viola, e não parou mais de cantar. Nunca

mais esquecia. Assim, sabia, de cor, glosas sobre

foi um grande improvisador e, talvez por isso, não

os mais variados assuntos, além de vários dos mais

alcançou nenhuma projeção como repentista, mas

conhecidos “romances”, aqueles cordéis que trazem

conhecia as formas e as métricas necessárias ao

uma história completa, com heróis, aventuras e al-

1 Este exemplo e os dois seguintes foram extraídos da obra Cantadores, de Leonardo Mota, na qual constam outras métricas. Também disponível em http://mundocordel.blogspot.com/2007/10/tcnica-de-fazer-cordel.html

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Revista de Cultura AJUFE

Revista de Cultura AJUFE

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PÉ NA ESTRADA

EDITORIA

“Os educadores brasileiros

já ouvira falar disso, embora nunca tenha

a internet para perceber isso. Digita-se a

O Romance do Pavão Mysteriozo, Juve-

vendido os seus dessa maneira. Sempre

expressão “literatura de cordel” no Google,

Mas as transformações pelas quais

que começou a ouvir alguns acordes de

estão redescobrindo o

nal e o Dragão, O Cavalo que Defecava

os levou para a feira em uma mala e espa-

e logo surgem mais de 200 mil referên-

o cordel vem passando não ficam nisso.

viola, primeiro longe, depois se aproxi-

cordel como ferramenta

Dinheiro… Nos bons tempos da feira, as

lhou sobre a lona, no chão mesmo. Pendu-

cias. Tiram-se as aspas e esse número

Quando o velho cantador se queixa que

mando, até chegar à porta do seu barraco.

para o aprendizado. A

pessoas pediam e ele ia narrando aquelas

rado ou não, o cordel foi sendo reconheci-

sobe para mais de 300 mil. Encontra-se

só os turistas se interessam por seus folhe-

Alguém começou a cantar um “dez pés

cada dia encontram-se

aventuras em verso, dando-lhes uma me-

do no Brasil, especialmente no Nordeste,

de tudo na rede. São sites com cordéis

tos, talvez nem imagine que não apenas

em quadrão”:

lodia que combinasse com a métrica de

não pela maneira como era exposto para

antigos e novos, textos sobre a história

turistas, mas também professores e alunos

guma fantasia misturando-se à realidade.

tema de cordéis e repentes…

ficou esperando o sono chegar. Foi então

cada um. Um dos que mais gostava era a

venda, e sim pela forma rimada e metrifi-

do cordel, biografia de seus nomes mais

de inúmeras escolas brasileiras são hoje

Velho que canta na feira

Cantiga do Vilela:

cada de tratar dos assuntos mais diversos,

proeminentes e vários artigos acadêmicos

grandes apreciadores do cordel. Os edu-

E mora nesse barraco,

contando histórias, dando notícias, fazen-

abordando o assunto.

cadores brasileiros estão redescobrindo o

Põe a viola no saco,

Meu povo, preste atenção

do homenagens e críticas. Aos poucos, ga-

A par disso, as estruturas de rima e

cordel como ferramenta para o aprendiza-

Encerra essa brincadeira

Ao que agora eu vou contar

nhou tanta importância que chegou a ser

de métrica do passado continuam a ser

do. A cada dia encontram-se mais projetos

De passar a tarde inteira

De um homem muito valente

considerado o “jornal do sertão”. Dizem

usadas pelos cordelistas dos tempos atu-

de escolas estudando o cordel – como

Como antigos menestréis,

Que morava num lugar

até que, quando Lampião morreu, muita

ais, em um encontro inacreditavelmente

manifestação cultural – e usando o cordel

Querendo mostrar que és,

E até o próprio Governo

gente só acreditou quando saíram os pri-

harmônico da tradição com a modernida-

para que os próprios alunos desenvolvam

Para o povo ignorante,

Tinha medo de o cercar..

meiros cordéis contando o ocorrido.

de. Obras de seis, sete, oito e dez pés; ver-

a leitura, a escrita e a expressão artística.

Mais que um comerciante

sos de sete, dez ou onze sílabas; moirões,

Coletâneas de folhetos, reunidos em livro,

De repentes e cordéis.

Em um país de muitos analfabetos, a Vilela era natural

forma rimada e metrificada de se expres-

martelos e galopes à beira-mar… O cordel

estão em todas as livrarias. Obras de lite-

Do sertão pernambucano,

sar, facilitava a memorização e permitia

continua se mostrando um excelente ins-

ratura infantil ilustradas, com o texto em

mais projetos de escolas estudando o cordel”

O velho cantador entendeu o que esDo jeito que estava deitado na rede, o

tava acontecendo e sorriu também. Agora sabia que as coisas fantásticas que acon-

E ele, desde o princípio

que a história fosse passada oralmente.

trumento para abordar questões sociais e

cordel, são adotadas com entusiasmo

Que tinha o gênio tirano:

Alguns mais interessados, como o velho

contar histórias fantásticas, mas também

nas escolas. E há os clássicos da literatura

Comete o primeiro crime

cantador, aprenderam a ler por causa do

para tratar de temas mais recentes como

adaptados para o cordel, como O Corcun-

De repentes e cordéis

apenas fruto da imaginação de seus autores.

Com a idade de dez anos.

cordel. De tanto ouvir os outros contarem

a tecnologia. Encontrado em páginas da

da de Notredame, Os Miseráveis, A Am-

Eu sou mais que vendedor.

Enquanto cumprimentava cada um daque-

as histórias, iam manuseando os folhetos,

internet, diz o Cordel do Software Livre :

bição de Macbeth e contos de Machado

Sou um velho cantador

le grupo de cantadores, alguém começou

de Assis, entre outros3.

De “martelos” e “dez pés”.

um “martelo” mais ou menos assim:

Com doze anos de idade,

pedindo ajuda a quem sabia, até que aca-

numa véspera de São João,

bavam aprendendo.

Vilela mais o seu mano

Apesar de o cordel ter essa bela his-

2

Computador e internet

velho cantador respondeu no ato:

teciam nos romances de cordel não eram

Se soubesse dessas coisas, o velho

Não inverta os papéis,

Vivem no nosso Presente

cantador não sentiria apenas nostalgia

Você que canta aí fora,

Sê bem-vindo, bom e velho cantador,

Tiveram uma alteração;

tória, os tempos foram se modernizando e

Mesmo sendo tão ligados

ao expor seus folhetos na feira, mas tam-

Vem chegando a essa hora,

Neste mundo em outra dimensão

Só por causa de um cachimbo,

os fregueses do velho cantador escassean-

Cada um é diferente

bém orgulho de ver o cordel ocupando

Mas sei que seu pensamento

Já cumpriste na terra tua missão

Vilela mata o irmão.

do. Cada vez mais, arrumava seus folhetos

Mas toda coisa criada

novos espaços e novas mídias. Mas, ele

É vender seu instrumento

De ser da nossa arte um difusor.

sobre a lona e via pouca gente parar para

Não serviria pra nada

não terá oportunidade para isso. Já ouvira

Para poder ir embora.

Quando eu lhe chamei de vendedor

Com quinze anos de idade,

comprar. Como nunca economizou o que

Se não fosse para gente

falar em computadores e internet, mas

Passando os três ao depois,

ganhou nos bons tempos da juventude, o

Como uma calculadora

como algo muito distante de sua realida-

Ele próprio se impressionou com a

Vilela monta a cavalo,

sustento foi dependendo cada vez mais

Um bocado mais sabida

de. Considerava-se velho para mexer com

facilidade com que respondeu aos versos

Na verdade, foste muito importante

Vai ao campo atrás duns bois;

da pensão da falecida esposa e de alguma

Nasceu o computador

essas coisas.

provocativos que ouvira. Conhecia suas

Pra manter o cordel vivo e pulsante

Encontrou quatro rapazes;

ajuda dos filhos, que moram na capital.

No cenário da cultura brasileira.

Atirou num, matou dois.

De folhetos de cordel em plena feira

Pra fazer conta e medida

Naquele dia, sentia-se cansado, lento,

limitações como repentista, mas naquela

– Os sertanejos se acostumaram a ver

Mas foi se modernizando

com a vista embaçada. Quando tentava

noite os versos fluíram fáceis. O entusias-

televisão e só querem saber de novela.

Seu poder acrescentando

tomar fôlego para cantar um pouco mais

mo renovou-lhe as energias. Levantou-se

A cantoria prosseguiu noite adentro,

E por aí prosseguia… Talvez o velho

Quem acaba comprando os folhetos são

E o “programa” ganhou vida

alto, era como se algo pressionasse o seu

num salto, pronto para pegar a viola e con-

com todos aqueles poetas se revezando

cantador não tenha noção da importância

os turistas, quando aparecem – comen-

do seu ofício na preservação dessa arte

tou com um de seus poucos fregueses

tão brasileira, vinda da península ibérica

daquele dia.

peito. Indisposto, voltou mais cedo para

tinuar a cantoria lá fora, mas logo percebeu

no cantar de seus versos, e o velho canta-

E seguem as estrofes sobre esse

o barraco compartilhado com sua viola e

que ao redor da sua rede havia vários vio-

dor nunca mais foi visto na feira.

assunto tão diferente daqueles tratados

seus folhetos. Depois de tomar um pou-

leiros afinando seus instrumentos, sorrin-

nos idos do século XVI, embora não se

Talvez o velho cantador não soubesse

nos primeiros cordéis. O velho cantador

co de mingau de aveia que ele mesmo

do para ele, envoltos em uma luz que só

saiba exatamente quando. A expressão “li-

que essa queda de movimento na feira

não poderia imaginar uma coisa dessas:

preparou, deitou na rede, apagou a luz e

poderia ser coisa do sobrenatural.

teratura de cordel” decorreria do fato de os

não significava que o interesse pelo cordel

o cordel se desprendendo do folheto e

folhetos serem expostos pendurados em

estivesse acabando, mas apenas mudando

se difundindo no mundo virtual da inter-

barbantes, em cordéis. O velho cantador

de forma… E de lugar. Bastaria ele acessar

net. Ao mesmo tempo, a internet virando

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Saiba que foi somente brincadeira

Revista de Cultura AJUFE

*

Marcos Mairton é Juiz Federal da 8ª Vara do Rio Grande do Norte.

2 Obra de autoria de Cárlisson Galdino, disponível em http://www.dicas-l.com.br/dicas-l/20071223.php. 3 O Corcunda de Notre Dame, Ed. Nova Alexandria, de João Gomes de Sá; Os Miseráveis, Ed. Nova Alexandria, de Klévisson Viana; A Traição de Macbeth, Ed. IMEPH, de Arievaldo Viana; Marcos Mairton adaptou A Cartomante e Rouxinol do Rinaré O Alienista, ainda não publicados.

Revista de Cultura AJUFE

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NATAL

EDITORIA “Entres os pratos típicos merecem destaques aqueles que tem o ‘selo de exclusividade’ potiguar. E nesse quesito aí está a carne de sol. Um dos pratos mais pedidos é a carne de sol na nata”

FOTOGRAFIAS: CANINDÉ SOARES

O sabor que vem do sertão Reportagem Anna Ruth Dantas

Carne de sol na nata, camarão ao jerimum, tapioca com manteiga do sertão, farofa d’água, bolo de macaxeira, arroz doce com mel... Deu água na boca?! Hummm... Então espere até você experimentar os segredos gastronômicos da Cidade do Sol em uma das mais de 60 opções entre restaurantes e bares que a capital tem a oferecer. As comidas típicas do Rio Grande do Norte trazem os produtos do litoral com o sabor do sertão. Nesse contexto democrático, há também o produto do sertão com todo sabor do sertanejo. Em Natal, os pratos típicos, necessariamente, trazem peixes e frutos do mar. Nesses pratos, estão os ingredientes dos potiguares: manteiga do sertão e leite de coco. O camarão pode vir, inclusive, dentro de um jerimum. Criatividade é o que sobra na hora de preparar os pratos, que vão desde o camarão internacional (que já é muito conhecido) até o camarão a cabugi (feito com manteiga do sertão, verduras e um gosto muito peculiar). O acompanhamento? Esse também é um atrativo à parte. Esses pratos vêm acompanhados de feijão verde, macaxeira (mandioca) e até arroz de leite. Mas não pode esquecer da farofa. Ela pode ser preparada 60

Revista de Cultura AJUFE

de diversas maneiras. Tem, inclusive, a farofa d’água. E se a pedida é feijoada, não tenha dúvida que a preparada em Natal traz um gosto todo especial. Entre os pratos típicos também merecem destaques aqueles que tem o “selo de exclusividade” potiguar. Nesse quesito está a carne de sol. A explicação é que antigamente, antes mesmo da geladeira, o nordestino desenvolveu a prática de salgar a carne, o que facilitaria a conservação. O produto era salgado e colocado no sol. Daí o nome carne de sol. É também desse produto que é feita a paçoca (uma espécie de carne desfiada com farofa). A carne de sol é servida nos restaurantes da culinária regional. Um dos pratos mais pedidos é a “carne de sol na nata”. Geralmente, as porções são muito bem servidas e suficientes para três pessoas.

Água na boca Outro prato regional é a tapioca, feita com goma de mandioca. Há uma grande diversidade de recheios para a tapioca, desde queijo até carne de sol na nata. Essa é uma comida muito fácil de ser encontrada nos restaurantes típicos de Natal. A tapioca pode ser doce ou salgada. Os doces da culinária potiguar também são uma atração à parte. Bolo de milho, cocada de leite e de coco, doce de leite com goiaba, bolo de macaxeira. Sem esquecer a canjica e a pamonha, ambas feitas de milho verde. Também é possível saborear o arroz doce (arroz feito com mel). Em geral, os hotéis natalenses se caracterizam por um farto café da manhã. É nesse horário que o turista já tem oportunidade de conhecer um pouco da culinária local e das frutas típicas da região, como a pinha, a siriguela, a cajarana. No café da manhã, tapioca, macaxeira cozida e queijo do sertão são algumas das opções. * Revista de Cultura AJUFE

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FOTOGRAFIAS: CANINDÉ SOARES

NATAL

Entre rendas, bordados, argila e algum jeans Reportagem Maísa Carvalho

De bolsas de sisal, esteiras de junco e almofadas de renda a rapaduras temperadas, doces de caju e compotas de mangaba. O artesanato potiguar é muito mais do que acessórios e utensílios. A beleza da arte do trabalho manual norte-riograndense invade até mesmo a culinária. Confira a criatividade do povo potiguar e o que Natal tem de melhor a oferecer. Definido como técnica e trabalho do artesão, ou ainda como a arte de fazer objetos, o artesanato se faz presente em todas as culturas. Entre os potiguares, seja na capital, Natal, ou nos municípios que compõem o estado do Rio Grande do Norte, não poderia ser diferente. Na esquina do continente, ele desponta junto a materiais como couro, madeira, areias coloridas, barro e pedras semipreciosas, que resultam em bijuterias, barcos em miniatura, peixes, ferramentas indígenas e até santos. A cerâmica utilitária, decorativa e de escultura também encontra lugar garantido. Com auxílio de peças ainda rudimentares – como facas improvisadas, pedaços de metal ou madeira, seixos rolados e forno de lenha –, jarras, jogos de feijoada, abajur, panelas, frutas naturais e esculturas retratando tipos regionais, como o vaqueiro, o carro de boi e o trio de sanfoneiro, ganham vida. Outros produtos muito apreciados são aqueles confeccionados com as fibras de sisal, coco e junco, que dão forma a bolsas, esteiras e cestas.

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Revista de Cultura AJUFE

Mas, sem dúvida, ao falar de artesanato potiguar, não há como esquecer os delicados trabalhos das rendeiras e bordadeiras, com suas toalhas, mantas e enxovais. Muito famosos, em cada peça concebida como obra de arte vai o carinho de mãos que aprenderam o ofício do bordado e das rendas ainda na infância e não esquecem de como conduzir os bilros, fazer apliques e labirintos primorosos. É de Caicó, a cidade situada no Seridó norteriograndense, a fama de “terra do bordado”. A qualidade das peças executadas pelas artesãs caicoenses é reconhecida internacionalmente. Dos bordados feitos em peças de linho, cambraia, piquê aos de algodão, saltam aos olhos “(…) a dica é comparar os a criatividade e o capricho em toalhas, panos preços antes de realizar as de prato, centros de mesa, lenços, etc. Em cada compras, porque é comum peça, o seridoense vai revelando um pouquinho encontrar o mesmo de seu dia-a-dia, que se mostra na amabilidade e produto exposto em mais na firmeza dos traços, nas cores leves e pulsantes de uma barraca” do sertão. Já na região litorânea, especificamente nas

cidades de Natal, Parnamirim e Nísia Floresta, são encontrados os trabalhos de Renda de Bilro. Para realizar as rendas, são utilizadas como matéria-prima a linha e o lacê. De forma manual, com o auxílio de almofadas, bilros, alfinetes e riscos criativos, as rendeiras vão produzindo peças de cama, mesa e vestuário. O artesanato potiguar também chega às mesas. E tem cada delícia! Comidas de dar água na boca, como diz o matuto. Fabricados principalmente no interior, em pequenas localidades rurais, chegam até nós doces, biscoitos, suspiros, sequilhos, rosquinhas, bem-casados, queijos, rapaduras temperadas, castanhas de caju, licores e lambedores. Para quem não resiste em deixar a vida mais doce, uma boa dica é comprar uma compota de doce de goiaba, caju, mangaba, coco, mamão, coco/mamão, leite, ameixa, caju seco, caju cristalizado, rapadura temperada com goiaba, caju, abacaxi ou jaca. Depois de saborear a comidinha caseira, você lembra da dieta…

Compare os preços Agora que já conhece algumas de nossas opções de artesanato, atenção! Como por aqui há muitas feirinhas e mercados de artesanato, a dica é comparar os preços antes de realizar as compras, porque é comum encontrar o mesmo produto exposto em mais de uma barraca. Quando o assunto é pechincha, Natal não é diferente de outras capitais brasileiras. Converse com o vendedor e peça desconto, principalmente se estiver levando mais de um produto. A cidade dispõe de seis grandes centros de venda de produtos artesanais. O maior de todos esses centros é o Shopping do Artesanato Potiguar, que funciona no bairro de Ponta Negra. Inaugurado há três anos, localiza-se ao lado do Praia Shopping e tem quatro

pavimentos com 212 lojas, além de uma praça de alimentação. Ainda na Avenida Engenheiro Roberto Freire, em Ponta Negra, há outros três centros de artesanato. O Vilarte possui 53 lojas, oferecendo trabalhos em argila, madeira, tecidos, vidro, etc, além de praça de alimentação e varanda de frente para o mar, onde se pode contemplar o Morro do Careca. Há, ainda, o Centro de Artesanato de Ponta Negra e a feirinha permanente da Cooperativa do Artesanato (Coart), com 32 quiosques que funcionam ao ar livre. Apesar dessa concentração de centros artesanais na Zona Sul de Natal, o mais tradicional ponto de venda de artesanato da cidade está localizado na Zona Leste. Lá, situa-se o Centro de Turismo, um prédio onde funcionou a antiga cadeia pública e cujas celas foram transformadas em 46 lojas de artesanato. Situado no alto de uma ladeira, o Centro de Turismo tem ainda galeria de arte e restaurante com cozinha regional. Nas noites de quinta-feira, há o concorrido Forró com Turista e, para os embalos de sexta, existe no lugar a boate Papion, que abre a partir das 22h. O ambiente é decorado com fotos antigas de Natal e com discos de vinil. Outra oportunidade para quem deseja voltar de viagem com uma lembrança de Natal é dar uma passada pelo Centro de Artesanato da Praia dos Artistas. Com 80 lojas e praça de alimentação, o lugar está sempre movimentado. Já para aqueles que não dispensam a contemporaneidade de um jeans com t-shirt (camiseta), a boa são os shoppings. Nesse caso, a pedida é bater perna nesses redutos que estão espalhados de ponta a ponta na cidade.

*

Confira os endereços dos locais de compra aqui citados a partir da página 77. Revista de Cultura AJUFE

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NATAL

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FOTOGRAFIA: CANINDÉ SOARES

zinhos com música ao vivo, que vão desde MPB até o pop rock. No bairro de Petrópolis, uma das opções é o Bohemia. A banda Deck anima a noite com pop rock. E esse é também o ritmo das bandas que animam a noite do Sargento Pepers. No bairro da Ribeira, a Música Popular Brasileira está na programação do bar Calígula. O Praia Shopping, localizado em Ponta Negra, tem uma ampla programação de apresentações artísticas com MPB ao vivo.

Uma noite de gastronomia e muita música

Reportagem Anna Ruth Dantas

Na capital potiguar, a melhor pedida é misturar a boa culinária local com o envolvente ritmo nordestino. De forró a techno, de buchada à tapioca… O turista tem as mais variadas opções, podendo ainda combinar restaurante e boate ou trocar tudo por um bom bar à beira da praia Em Natal, a noite traz uma mistura de excelente gastronomia com muita música e um cenário típico de uma das cidades mais aconchegantes e bonitas do litoral brasileiro. Vários são os locais para dançar, desde o techno de boate até o forró pé-de-serra. E, geralmente, o lazer da noite termina em um restaurante, seja em uma sanduicheria ou em uma casa de massas. Se você está em Natal e quer “cumprir o ritural” da noite, então comece logo cedo. Um bom jantar à base de peixe ou camarão é o mais recomendado. Nesse caso, o rumo é a Zona Sul, onde está concentrado o maior número de restaurantes dessa culinária. Mas, 64

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se o desejo for pelos pratos regionais, o mais indicado é o restaurante Mangai, onde o cliente tem a opção de comer desde a buchada até a tapioca. Aliás, essa última tem diversas opções de recheio: pode ser desde carne de sol na nata até queijo de manteiga. Com boas conversas e assuntos diversos, o jantar se prolonga até 22h ou 23h. Nesse caso, a opção é sair para dançar. Forró ou techno? Depende do gosto de cada um. Se a opção for pela boate tem a Nyx Club, antes chamada de Chaplin, e o Seven, localizado na Praça das Flores. No Centro de Turismo, está instalada a boate Papilon. Na capital potiguar, muitos são os bare-

Ritmos A música não está restrita apenas às baladas noturnas. Nos fins de semana, há restaurantes com os tradicionais pagodes do início de tarde. É o caso do Shock Bar, localizado em Petrópolis. Aliás, esse restaurante é famoso pelo caranguejo. Aos domingos, no Seven, o final de tarde também é reservado ao pagode. Mas, se a intenção é ouvir o chorinho, uma das alternativas é o Buraco da Catita, na Ribeira. Já o forró tem como uma das opções o Rasta Pé, no bairro de Ponta Negra. Na casa, é tocado o forró pé-de-serra, com direito a sanfona e zabumba. Às quintas-feiras, esse também é o ritmo do Forró com Turista, realizado no Centro de Turismo. Se o turista tiver um pouquinho de sorte, pode ter como opção as vaquejadas, que ocorrem na Grande Natal. Há um calendário próprio de vaquejada (veja o site www.vaquejada.com.br). A mais famosa é realizada no Parque Otaviano Pessoa, em Macaíba, região da Grande Natal. O esporte, como a queda do boi, é o cenário principal. Mas o atrativo mesmo, que leva milhares de pessoas ao local, é a festa com bandas de forró. Tira o pé do chão A capital potiguar também tem diversas festas. A mais famosa delas é o Carnatal, car-

naval fora de época, que acontece no primeiro fim de semana de dezembro. Chiclete com Banana, Asa de Águia, Ivete Sangalo e Ricardo Chaves são algumas das principais atrações do evento. O carnaval fora de época ocorre durante quatro dias, tendo como ponto alto o sábado, onde cerca de 200 mil pessoas vão às ruas. O modelo do Carnatal é com trios elétricos, abadas, camarote e arquibancada. Mas quem não deseja custear essas despesas pode ficar nas principais avenidas da cidade, que de lá verá o bloco passar. Mas, se o turista está em Natal no mês de janeiro, uma das alternativas de diversão é o Circo da Folia, localizado na praia da Pirangi, onde aos sábados são realizados shows com bandas baianas e cantores de forró. Durante o ano, há também diversas festas “Se você está em Natal e com bandas nacionais. As empresas promoto- quer ‘cumprir o ritural’ da ras de eventos contratam grandes artistas para noite então comece logo shows no Boulevard, casa de festa localizada cedo. Um bom jantar à no bairro de Nova Parnamirim, ou na Vila Fo- base de peixe ou camarão lia, tradicionalmente reduto de eventos com é o mais recomendado” bandas baianas. Agora, se a opção for um passeio cultural mais light, vale a pena buscar o Teatro Alberto Maranhão, que tem um cronograma mensal que inclui desde peças teatrais nacionais até a apresentação da Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte. Ainda de quebra, no domingo, uma das grandes opções de lazer é ir ao Parque das Dunas, no bairro do Tirol. Essa é uma das reservas de Mata Atlântica do país. Além de contemplar a natureza, o visitante é presenteado com uma boa música. No final de tarde, é realizado o projeto Som da Mata, sempre com a presença de um artista local. * Confira os endereços dos locais aqui citados a partir da página 77. Revista de Cultura AJUFE

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Os Tesouros de Câmara Cascudo Reportagem Maísa Carvalho

Para quem visita Natal, é imperdível conhecer a história daquele que é considerado um dos maiores folcloristas do último século. No memorial, o visitante realiza uma viagem pela vida e obra desse imortal. No museu, a coleção revela a história por meio da ciência natural, da cultura e da antropologia Memorial Câmara Cascudo Situado à Praça André de Albuquerque, número 30, no bairro de Cidade Alta, está localizado o prédio que, em 1875, foi construído para abrigar a Tesouraria da Fazenda. Nesse mesmo lugar, existira o edifício do Real Erário, erguido no século XVIII. Séculos depois, é um espaço de memórias, ambiente que resguarda e divulga a vida e a obra de Luís da Câmara Cascudo. Ao adentrar o espaço, o visitante realiza uma viagem que perpassa passado e presente. Cercados por vestes imponentes estão trechos de livros, objetos muitos, fotografias, registros de uma Natal de ontem e hoje com seus costumes. Por todos os lados, lembranças de uma vida, sinalizadas por uma rede de dormir, uma jangada, santos, altares e charutos. No Memorial, está a biblioteca particular de Cascudo, com cerca de 10 mil volumes que contemplam assuntos os mais variados, como folclore, religião, história, biografias e romances. Considerada “rara” por possuir obras do início do século passado e livros em diversos idiomas, a biblioteca traz 66

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numeráveis títulos com anotações de próprio punho de Cascudo e dedicatórias dos autores. No espaço, encontram-se ainda as correspondências de Cascudo com diversos intelectuais como Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Carlos Drummond de Andrade e Gilberto Freyre. Sua máquina de escrever também está disponível ao olhar do visitante. Por meio da exposição permanente O Mestre Câmara Cascudo, que toma cinco salas do memorial, são abordados aspectos estudados em sua obra literária. Lá, somos apresentados ao estudo feito pelo Banco Central para o lançamento da cédula de cinqüenta mil cruzeiros (Cr$ 50.000), que homenageia Câmara Cascudo. Com superstições e lendas como a do lobisomen, a botija, o boi tatá, entre tantas, e com referência ao sincretismo religioso brasileiro, existe no lugar uma Sala da magia. E para aqueles que vêm de outros mares, é possível descobrir o mamulengo, o boi de reis, a renda de bilro… elementos da rica cultura potiguar.

Museu Câmara Cascudo Imagine um lugar que oferece momentos de lazer e promove conhecimento. Um espaço onde se desenvolve pesquisa, extensão e ensino e, ao mesmo tempo, um ambiente no qual o patrimônio natural e cultural do Rio Grande do Norte é coletado, conservado, investigado e divulgado... Assim é o Museu Câmara Cascudo. Criado em 22 de novembro de 1960, é um museu universitário voltado para as ciências da natureza, da cultura e da museologia. Seu acervo, composto por coleções, maquetes, miniaturas, reproduções de ambientes e peças avulsas, encontra-se disposto em dois pavimentos. No térreo, há uma ode ao nosso litoral, com a reconstituição do ambiente de praia. No mesmo pavimento, avistamos a réplica de uma mina de Scheelita – minério de grande importância econômica local na década de 1970. Mais à frente, na representação do Pico do Cabugi, está um antigo conduto vulcânico remanescente de um vulcão que se situa a 590 metros acima do nível do mar.

FOTOGRAFIA: CANINDÉ SOARES

NATAL

“Ao adentrar o espaço, o visitante realiza uma viagem que perpassa passado e presente. Cercados por vestes imponentes estão trechos de livros, objetos muitos, fotografias, registros de uma Natal de ontem e hoje” No museu, preguiças e tatus gigantes, elefantes e tigres dentes-desabre são destaque do painel que retrata o Pleistoceno, uma época geológica com datação compreendida entre 10 mil e 2,2 milhões de anos. Junto a isso, está uma maquete em alto relevo com as feições geomorfológicas dominantes no estado e uma sala dedicada ao sal, que tem sua relevância na história econômica do Rio Grande do Norte. Subir as escadas, é quase uma volta ao tempo. No primeiro pavimento, o visitante se depara com pegadas originais de dinossauros encontrados na Bacia de Sousa (PB) e fósseis de mamíferos de grande porte encontrados em tanques, lagoas e ravinas norte-riograndenses. Lá também estão conchas de moluscos marinhos e de água doce, representativas de várias partes do mundo, e uma coleção de esqueletos de animais. No museu, a cultura tem espaço reservado. Um setor de antropologia cultural abrange os ciclos da cana-deaçúcar e do ouro. A arte e a religião afro-brasileiras convivem ao lado de uma coleção de arte sacra e objetos indígenas. Já para representar a tradição norte-riograndense, peças que ilustram rituais, cenas do cotidiano e eventos sociais. *

Memorial Localização: Avenida Hermes da Foneca, 1398, Tirol. De terça à sexta-feira, aberto à visitação das 8h às 16h30. Aos sábados e domingos, das 13h15 às 16h. Entrada franca. Museu Localização: Praça André de Albuquerque, Cidade Alta. Aberto de terça à sexta-feira, das 8h às 11h e aos sábados das 10h às 16h.

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NATAL

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Nos idos da II Guerra Mundial Reportagem Anna Ruth Dantas “A Bant também sediou a Esquadrilha de Reconhecimento e Ataque 21 (ERA-21), que veio transferida da Base Aérea do Recife (PE) e permaneceu em Natal por mais de dois anos (entre 1967 e 1969)”

Batizada de Trampolim para a vitória, a Base Aérea de Natal revela a grandeza e importância da própria história do Brasil. Para os amantes da Força Aérea Brasileira e curiosos, um passeio ao local é uma boa opção. A base pode ser visitada por grupos, mediante prévia autorização. Saiba um pouco mais sobre esse importante ponto de encontro aéreo. A Base Aérea de Natal (Bant), localizada no município de Parnamirim, na região metropolitana, foi cenário de um importante capítulo da história da II Guerra Mundial. O bacharel em história pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Roberto Portella Bertazzo relata que, desde os primeiros vôos transatlânticos realizados pelos franceses na década de 1920, a importância da localização de Natal já se fazia notar. Em 1924, por exemplo, o “No final da década de 1930, piloto francês Paul Vachet escolheu a vila de as Forças Armadas Norte- Parnamirim para lá ser construído um campo Americanas já consideravam a de aviação. Em 15 de outubro de 1927, um cidade de Natal como de vital avião francês da companhia aérea Latécoère, importância para a defesa do pilotado por Costes e Lê Brix marcou o início continente americano” dos vôos entre Paris e Buenos Aires. Em 1934, a companhia alemã Deutsche Lufthansa começou a operar também no Atlântico. A partir de junho de 1939, a Itália também se interessou por Natal e a Companhia LATI (Linee Aeree Transcontinentali Italiane) começou a voar entre Roma e Rio de Janeiro, passando pela capital potiguar. Os vôos eram semanais com aviões Savoia-Marchetti SM-83. No final da década de 1930, as Forças Armadas Norte-Americanas já consideravam a cidade de Natal como de vital importância para a defesa do continente americano. Para essa análise, os americanos consideraram o fato de que as tropas brasileiras estavam concentradas na região Sudeste do país e os Estados Unidos tinham a necessidade de construir bases aéreas no Nordeste brasileiro. Como os dois países ainda estavam neu68

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tros na guerra que despontava, contratou-se a companhia aérea Pan American para executar as obras. O contrato foi assinado entre o governo norte-americano e a empresa de aviação no dia 2 de novembro de 1940. Cerca de um ano depois, os americanos começaram a chegar em grande quantidade ao Brasil, especialmente após o ataque japonês à base militar norte-americana Pearl Harbor, em dezembro de 1941. Durante a II Guerra Mundial, passaram por Natal milhares de aviões destinados aos vários teatros de operação, onde combateram os Aliados – bloco do qual faziam parte Grã-Bretanha, Estados Unidos, União Soviética, China, França e Brasil, além de outras nações. A base ficou conhecida como Trampolim para a vitória. Também tiveram passagem e estabeleceram base em Natal vários esquadrões da Marinha Americana, equipados com inúmeros modelos de aeronaves como PBY Catalina, Martin Mariner, Consolidated PB4Y (versão naval do B-24), Lockheed Hudson e Blimps (dirigíveis não-rígidos). História A Base Aérea de Natal foi criada oficialmente no dia 5 de novembro de 1942. Inicialmente concentrava diversas unidades de caça, bombardeio e patrulha. Entre elas, o 2º Grupo de Caça, com os aviões Curtiss P-40 – monomotor, construído como avião de ataque ao solo. O setor oeste da base pertencia à Força Aérea Brasileira (FAB), enquanto que o setor leste, era ocupado pelos norte-americanos.

Além das missões de patrulha no Atlântico Sul, os americanos realizaram uma verdadeira ponte-aérea para o norte da África, a fim de abastecer as tropas aliadas. Após o conflito, os americanos se foram e toda a base passou a pertencer à FAB. No dia 5 de outubro de 1944, o 2º Grupo de Caça foi transferido de Natal para a cidade de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Algum tempo depois, esse esquadrão foi transformado no Estágio de Seleção de Pilotos de Combate e, depois, no 3º/1º Grupo de Aviação de Caça (GavC). Enquanto isso, em Natal, era criado o 1º Grupo Misto, equipado com um esquadrão de caça e outro de bombardeio. Tal grupo foi extinto em 28 de agosto de 1945 e criado em seu lugar o 5º Grupo de Bombardeio Médio (GBM), equipado com os aviões de ataque NA B-25J Mitchell. Com a reorganização das unidades da Força Aérea Brasileira, em março de 1947, a FAB desativa o 5º GBM e, em seu lugar, cria o 5º Grupo de Aviação. Seu primeiro esquadrão, responsável pela instrução e emprego da Aviação de Bombardeio, operou os NA B-25J Mitchell até 1958, quando foram substituídos pelos Douglas B-26B/C Invader e, posteriormente, pelos Morane-Saulnier MS-760 Paris C-41.

Mas foi com os aviões Beechcraft TC45T, que a FAB encerrou esse tipo de instrução. Em novembro de 1953, a Força decidiu transferir o 3º/1º GAvC de Santa Cruz para Natal, transformando-o no 2º/5º GAv Esquadrão Joker. Na época, o esquadrão passou a utilizar os Republic F-47 Thunderbolt e NA T-6 Texan. O Joker funcionou em Natal até 7 de dezembro de 1956, quando teve os seus pilotos e aviões transferidos para o 1º/4º GAv em Fortaleza (CE). Base de apoio A Bant também sediou a Esquadrilha de Reconhecimento e Ataque 21 (ERA-21), que veio transferida da Base Aérea do Recife (PE) e permaneceu em Natal por mais de dois anos (entre 1967 e 1969), quando todas as ERAs foram transformadas em Esquadrões de Reconhecimento e Ataque. Em julho de 1968, em decorrência da criação do Núcleo do Centro de Formação de Pilotos Militares, a Base Aérea de Natal foi desativada, sendo o 2º/5º GAv Esquadrão Joker desativado e o 1º/5º GAv, transferido para Recife juntamente com seus Douglas B-26C Invader. Em fevereiro de 1970, a base de Natal foi totalmente fechada. Somente 19 anos depois, em 1989, a Bant

voltou a funcionar, sediando o Comando Aéreo de Treinamento (Catre). No dia 1º de janeiro de 2002, o Catre foi desativado e a Base Aérea de Natal novamente instalada. Assim, além do 2º/5º Gav Joker, o avião 1º/4º GAv Esquadrão Pacau foi transferido de Fortaleza para Natal, concentrando toda a frota de AT-26 Xavante. A frota, que agora chega ao final de sua vida útil, continua a servir no treinamento dos líderes de esquadrilhas de caça. Em 17 de novembro de 2005, foi criada a Primeira Força Aérea (I FA), com base em Natal. A FA é responsável por reunir todas as unidades de treinamento operacional. Essa estrutura da nova Força Aérea foi ativada em fevereiro de 2006. Com isso, além dos Pacau e Joker, chegou também o 1º/11º GAv Gavião, que veio de Santos. * Visitação A Base Aérea de Natal (Bant) pode ser visitada por grupos, mediante autorização prévia. Deve-se encaminhar um ofício com pedido de visitação para o endereço Estrada da Bant, s/n, Natal, ou para o fax (84) 4008-7533. O documento deve ser enviado aos cuidados do coronel aviador Carlos Eduardo Alves da Silva. Informações: (84) 4008-7537. Revista de Cultura AJUFE

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FOTOGRAFIAS: CANINDÉ SOARES

Por dentro dos pontos turísticos

Litoral Sul

A beleza natural de Natal é inconfundível. E o turista que vem à capital potiguar não fica restrito apenas às praias urbanas. Na região metropolitana, incluindo os municípios de Parnamirim, Extremoz e Nísia Floresta, vários são os atrativos. As praias se transformam em cenário para esportes radicais e passeios exóticos. Na praia de Genipabu, por exemplo, é possível fazer o “esquibunda”, onde o turista desce a duna em uma pequena prancha de madeira. O passeio de dromedário também é imperdível. Em plena duna potiguar, o visitante anda nesses animais como se estivesse no deserto, com areia por todos os lados. É também em Genipabu que é feito o principal passeio para o visitante natalense: o passeio de buggy. Em 30 minutos, como passa70

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geiro do buggy, o turista contempla uma das mais belas paisagens do litoral potiguar. São dunas que encantam o mais desatento espectador. Ainda no litoral Norte, o turista tem a oportunidade de conhecer a Lagoa de Jacumã. Mas se opção for o passeio pelo litoral Sul, é possível partir de Natal e em 20 minutos chegar ao maior cajueiro do mundo, na praia de Pirangi. Nesse local, também é possível fazer um passeio aos parrachos de Pirangi. Em um barco, o turista chega no meio do mar e mergulha nas piscinas naturais. Conheça um pouco mais dessas praias que estão a poucos quilômetros de Natal. Locais onde o turista não pode deixar de passar.

Na orla dessa praia, o turista pode aproveitar para caminhar um pouco até o quebra mar, que compõe um belo cenário.

Pirangi Jacumã Entre as praias do litoral Sul, pela proximidade com Natal, PiranLocalizada a 33 quilômetros de Natal, a praia de Jacumã tem gi é considerada praticamente uma praia urbana. O passeio começa como principal atrativo a lagoa, que leva o mesmo nome do local. Aliás, com uma visita ao maior cajueiro do mundo, uma árvore gigante com é também nessa lagoa onde são feitos diversos esportes, inclusive, o 8,5 mil metros quadrados de copa e responsável por uma produção anual de 80 mil frutos. Ao lado do cajueiro está localizada uma feira “aerobunda”, onde a diversão começa em cima de uma duna e a pessoa termina caindo na lagoa. de artesanato, com vários souvenirs locais. Logo em frente ao cajueiro, está o complexo de lazer Marina BaGenipabu dauê, responsável pelos passeios aos parrachos de Pirangi. A diversão começa logo no início do trajeto até o local onde será feito o mergulho. Essa é uma das grandes atrações para o turista que visita o Rio O turista é levado de barco até lá. Minutos de contemplação, beleza e Grande do Norte. Na praia de Genipabu, os visitantes se divertem com o passeio de dromedário e com as aventuras de buggy nas dunas. Esse muitas fotos para registrar a paisagem inesquecível. é, sem dúvida, o principal destino de quem vai ao litoral Norte do Búzios estado. Inclusive, as dunas de Genipabu foram cenário para diversos A praia de Búzios se caracteriza pela beleza das falésias. Um re- programas de televisão e telenovelas. gistro fotográfico da arte da natureza é obrigação de todo turista. Em Além do mar de águas límpidas e mornas, protegidas por uma Búzios, também há bons restaurantes, cujos pratos típicos são feitos coluna de recifes que garante tranqüilidade para banhos, Genipabu de peixe e camarão. conta com dunas (fixas e móveis), que chegam até a água do mar, e uma lagoa de água doce, formada pela água que brota das dunas. Barra de Tabatinga Também no litoral Sul, está a praia de Tabatinga, localizada a 45 Muriu quilômetros de Natal. Nessa praia, os arrecifes formam verdadeiras No passeio pelo litoral Norte, um dos belos destinos é a praia de piscinas naturais. Além do banho de mar, vale a pena parar nos quios- Muriu. Uma típica praia de veraneio, que durante o ano está restrita aos pesques instalados na praia. Também em Tabatinga, há várias barracas cadores. Muriu tem um encanto natural e se destaca pelo vasto coqueiral e instaladas em cima das falésias. O cenário é um convite a saborear um o mar, propício para banho, com ondas que empolgam os visitantes. bom pastel de camarão enquanto contempla a natureza. Maracajau Litoral Norte Indo mais adiante, o turista chegará à praia de Maracajau. Uma praia típica de pescadores, que se transformou em um dos grandes Redinha destinos turísticos. O principal atrativo do local é o passeio até o fluA praia da Redinha é a única no litoral Norte que está localizada tuante – que fica localizado no meio do mar. É lá onde os visitantes no município de Natal. Logo no caminho, o turista já pode contemplar fazem um belo mergulho em piscinas naturais, podendo contemplar o mais recente cartão postal da capital potiguar: a Ponte de Todos – não apenas a riqueza da natureza sob a água, mas nadar com os peixes. Newton Navarro, maior obra de engenharia do estado, inaugurada Em Maracajau, também tem o Parque Aquático Ma-noa. em novembro de 2007. Redinha é uma praia antiga. Lá o visitante pode ir à igreja de Nossa São Miguel do Gostoso Senhora dos Navegantes, cujas paredes e altar demonstram um pouco Um convite à parte é a praia de São Miguel do Gostoso. Distante da história que o local traz. Também na Redinha, está o Aquário Natal, 112 quilômetros de Natal, o local se caracteriza pelos bons restaurantes com 60 espécies de animais, como tubarão, moréia, peixe de corais, e pousadas. Uma calmaria que soa como convite para o turista concavalo marinho, além de jacaré, pingüim, pirarucu, entre outros. templar a beleza natural e relaxar. Essa é também a praia preferida dos O espaço possui um tanque de toque em tubarões e as visitas são praticantes de windsurf e kitesurf, devido aos ventos fortes possíveis acompanhadas por monitores. O aquário abre diariamente, das 8h às apenas na ponta do continente. Foi nessa região onde, em 1501, os 18 h, no período de verão. Na baixa estação, fica aberto até as 17 horas. portugueses deixaram o primeiro marco da chegada ao Brasil. Revista de Cultura AJUFE

71


EDITORIA

FOTOGRAFIAS: CANINDÉ SOARES

EDITORIA

Além do mar Além de toda a beleza natural, com dunas, praias e mar, a cidade de Natal tem muitos atrativos turísticos. São lugares que guardam muito da história, da cultura e da tradição da capital potiguar. Entre os pontos turísticos, como deixar de citar lugares que foram cenários do nascimento da cidade de Natal. Como também esquecer empreendimentos erguidos com a temática “natureza”, como é o caso de grandes aquários. Chegar à Cidade do Sol é fácil. Difícil é não querer mais voltar a Natal. Com tantos atrativos, um povo acolhedor e uma culinária especial, o turista que chega a essa cidade transforma a empolgação inicial em admiração pela beleza natural, pela história e por toda graça que guarda o solo natalense. Como já falamos muito de praia, agora você vai conhecer um pouco dos pontos turísticos de Natal. Aquário Natal Esse é um dos atrativos localizados na Zona Norte. São 29 aquários, com mais de 60 espécies de animal. Localização: Avenida Litorânea, 1091, Praia da Redinha. Horário: Diariamente, das 8h às 18h. Barreira do Inferno O Centro de Lançamento da Barreira do Inferno fica no município de Parnamirim, mas pela proximidade com Natal é considerado um dos pontos turísticos da cidade. Não é possível entrar no local. Na frente da barreira, no entanto, há um monumento com o desenho de um foguete. Vale a pena dar uma paradinha para registro fotográfico. O visitante que estiver a caminho da praia de Pirangi, por exemplo, necessariamente passará em frente à Barreira do Inferno. Localização: Rota do Sol, Parnamirim, km 19. Farol de Mãe Luiza O farol está instalado no bairro de Mãe Luiza. Ele foi construído para orientar as embarcações que chegam ou passam por Natal. O facho de luz do farol atinge uma extensão de 44 quilômetros e emite lampejos de intervalos de 12 segundos. O farol foi inaugurado em 1951. Ele possui uma torre de concreto e uma escadaria com 151 degraus. A lanterna no alto da torre funciona à base de energia elétrica, mas há um sistema alternativo movido a gás. A visita de turistas é permitida. De lá, é possível fazer belas fotografias da cidade de Natal, exatamente pela excelente localização do farol. 72

Revista de Cultura AJUFE

Localização: Via Costeira, Mãe Luiza. Informações: (84) 3211-4959 Igrejas Catedral Metropolitana de Natal Instalada no centro da cidade, a catedral é dedicada a Nossa Senhora da Apresentação, padroeira de Natal. A festa ocorre, anualmente, no dia 21 de novembro. Localização: Avenida Deodoro da Fonseca, Centro. Convento Santo Antônio Conhecido como Igreja do Galo, o convento abriga o Museu de Arte Sacra, que reúne quadros e peças religiosas dos últimos quatro séculos. Sem dúvida, um ícone histórico da cidade, que merece ser visitado. Localização: Rua Santo Antônio, 698, Centro. Informações: (84) 3211-4236 Igreja de Nossa Senhora da Apresentação Essa foi a primeira catedral de Natal. Foi inaugurada no dia 25 de dezembro de 1599 e é dedicada a Nossa Senhora da Apresentação. Localização: Praça André de Albuquerque, Cidade Alta. Informações: (84) 3222-2245 Parques Parque da Cidade Dom Nivaldo Monte O Parque da Cidade é um projeto assinado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, responsável pela construção de Brasília. Ele está instalado em uma grande área verde na Zona Sul de Natal. No parque, é possível fazer caminhada em contato direto com a natureza. Localização: Prolongamento da Avenida Prudente de Morais, Candelária. Parque das Dunas Uma das poucas reservas de Mata Atlântica do Brasil está em Natal. O passeio ao Parque das Dunas é uma grande oportunidade de estar em contato direto com a natureza. No local, é oferecido o passeio de trilhas, onde ao final o visitante chega a um mirante para contemplar a beleza do litoral natalense.

Localização: Avenida Alexandrino de Alencar, Morro Branco. Museus Museu de Arte Sacra É um museu pouco visitado pelos natalenses. Guarda muito da história da própria Igreja. Indo ao local, o turista tem oportunidade de conhecer uma das igrejas mais antigas de Natal: o Convento Santo Antônio, conhecido como Igreja do Galo. Localização: Rua Santo Antônio, 698, Cidade Alta. Horário: Aberto de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. Museu Café Filho Café Filho foi o único norte-riograndense que chegou à presidência da República. O museu traz um pouco da história desse político e expõe seus objetos de uso pessoal. Localização: Rua da Conceição, 601, Cidade Alta. Horário: Aberto de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. Museu Câmara Cascudo Embora traga o nome do maior folclorista brasileiro, o museu é dedicado à história do Rio Grande do Norte, à cultura, às tradições potiguares e à riqueza natural. Localização: Avenida Hermes da Fonseca, 1398, Tirol. Horário: Aberto de terça a sexta-feira, das 8h às 11h, e aos sábados de 10h às 16h.

Cascudo. O principal destaque é a biblioteca particular de Câmara Cascudo, com cerca de 10 mil volumes de diversos assuntos, como folclore, religião, história, biografias e romances. Localização: Praça André de Albuquerque, 30, Cidade Alta. Horário: Aberto de terça a domingo, das 8h30 às 18h – Entrada franca Palácio Felipe Camarão Atual sede da prefeitura municipal, o Palácio Felipe Camarão é um prédio histórico que chama atenção por sua arquitetura em estilo eclético. Ele foi construído no início do século XX. Localização: Avenida Junqueira Aires, Cidade Alta. Centros culturais Teatro Alberto Maranhão Fundado em 1904, o Teatro Alberto Maranhão tem como um dos atrativos sua arquitetura. Mesmo que o turista não assista a nenhuma peça que esteja em cartaz, vale a pena visitar o local. Localização: Praça Augusto Severo, Ribeira. Informações: (84) 3222-3669 Teatro Sandoval Wanderley Esse teatro é mais modesto do que o Teatro Alberto Maranhão. Está instalado no popular bairro do Alecrim e se destina, especialmente, a apresentações locais. Localização: Avenida Presidente Bandeira, 530, Alecrim.

Museu do Mar Onofre Lopes O Museu do Mar pertence à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Para os que querem saber um pouco mais sobre a vida marinha, a visita é obrigatória. O material do museu é composto por peças que contam a história da fauna e flora brasileira e estrangeira.

Espaço Cultural Palácio Potengi Esse palácio, durante muitos anos, foi sede do governo do estado. Hoje, o Palácio Potengi é aberto para exposições e solenidades. É nesse local onde anualmente acontece o espetáculo Um Presente de Natal.

Localização: Avenida Senador Dinarte Mariz, Via Costeira.

Localização: Praça Sete de Setembro, Cidade Alta.

Construções históricas

Bairro Ribeira O bairro da Ribeira é conhecido por seus barzinhos e sua arquitetura. Esse é um dos bairros mais antigos da capital. É lá onde está instalado o Porto de Natal. *

Memorial Câmara Cascudo O memorial preserva e divulga a vida e a obra de Luís da Câmara

Revista de Cultura AJUFE

73


ILUSTRAÇÃO: JÔ DE OLIVEIRA

NATAL

Pós-encontro: arredores de Natal Reportagem Anna Ruth Dantas

Quem vem a Natal também tem a oportunidade de visitar, nos arredores da capital, lugares inesquecíveis com os mais diversos perfis. Da cidade potiguar, estamos a uma hora de avião do arquipélago de Fernando de Noronha. E se a opção for automóvel, em três horas e meia é possível chegar à cidade de Mossoró, famosa pelos espetáculos de história e tradição, ou ir até o sertão potiguar. Muitas são as opções. Confira! Mossoró Esse município está localizado na região da Costa Branca. Cidade de clima quente, é conhecida pela sua história. Foi aqui onde ocorreu a resistência ao bando do cangaceiro Lampião. Mas é também no solo mossoroense, onde está localizado um dos famosos hotéis do Rio Grande do Norte, o Thermas, conhecido pela es74

Revista de Cultura AJUFE

trutura oferecida ao turista, inclusive com piscinas termais. Pipa Localizada no litoral Sul, a 100 quilômetros de Natal, Pipa é um daqueles lugares mágicos. Ainda na chegada, ao avistar a praia, o turista precisa necessariamente parar o carro e contemplar o mar, o sol e as falésias. A praia de Pipa começou como uma colônia de pescadores e hoje é o local mais internacional da região. Tantas são as pessoas vindas de outros países, gente que chegou para conhecer, encantou-se e adotou Pipa como a nova morada. Hoje, essa praia passa muito longe do clima de vila de pescadores. É um local de bons e diversificados restaurantes, hotéis luxuosos e pousadas aconchegantes. O que não mudou foi o

clima mágico de Pipa. Andar despretensiosamente a pé, parar nos bares, dançar à noite. Não se visita Pipa, se vive Pipa. E nesse local encantador, são muitos os atrativos. O passeio de barco leva o turista a ver golfinhos no mar. A Praia do Amor e o Chapadão são outras atrações que encantam o visitante. Baía Formosa Se o desejo do turista é procurar uma praia mais calma, com o clima de vila de pescadores, a opção é a Baía Formosa, também localizada no litoral Sul do estado. O local é um pedaço da costa cercado por aspectos selvagens da natureza. Do alto das falésias, contemplar os barcos

de pescadores ancorados é um belo cartão postal. Além disso, a culinária no local é um dos “aperitivos” da visita. Na Baía Formosa, há vários restaurantes e a melhor pedida é peixe ou algum fruto do mar, de preferência o camarão.

João Pessoa Se o turista que vem a Natal quer conhecer os mares e praias de outro estado, basta pegar a estrada que, em pouco tempo, estará contemplando João Pessoa, capital da Paraíba. A cidade está a 180 quilômetros de Natal, seguindo pela BR Fernando de Noronha 101, rodovia de fácil acesso e que Para quem vem a Natal com um está em boas condições. tempinho a mais, uma boa alternaJoão Pessoa tem uma beleza tiva é ir a Fernando de Noronha. As natural encantadora e é conhecida agências locais oferecem o pacote como a segunda cidade mais verde de duas noites e três dias. A capital do mundo. É também a capital onde potiguar está a uma hora de via- está localizado o ponto mais oriental gem de avião desse local que é um das Américas, de onde é possível ter show à parte. Praia, mar e mergulho uma das mais belas vistas do litoral compõem alguns dos atrativos para brasileiro. Próximo a esse ponto, há quem tem o prazer de conhecer o Farol do Cabo Branco. esse arquipélago. Nas praias, muitas são as Revista de Cultura AJUFE

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EDITORIA

Guia de Gastronomia Restaurantes

Camarões Restaurante

Fellini

Avenida Engenheiro Roberto Freire, 2610, Ponta

Avenida Erivan Franca, 22, Ponta Negra.

Negra.

Especializado em massas e na cozinha clássica.

Avenida Senador Dinarte Mariz, 8828 – tam-

Especializada em frutos do mar.

Galo do Alto

bém conhecida por Via Costeira, antes do

Camarões Potiguar

Rua Dr. Manoel Augusto Bezerra de Araújo, 142 ,

Centro de Convenções de Natal, na praia de

Rua Pedro Fonseca, 8887, praia de Ponta Negra.

no Alto de Ponta Negra.

Ponta Negra.

Tem dois andares. Um ambiente aconchegante

Especializado em peixes e camarão.

Frutos do mar, com destaque para o bacalhau.

e acolhedor.

Gostinho da Bahia

Além de pratos da cozinha internacional.

Casa de Taipa – Tapiocaria

Rua Irineu Joffili, 3642, Candelária.

Abade

atrações turísticas, como o passeio de buggy. Outra boa opção é a ida à Ilha de Areia Vermelha, onde é possível chegar de lancha. A capital paraibana tem também um centro histórico que é reduto de tradição e bela arquitetura. Certamente, um ponto turístico imperdível. Um passeio pelo local, contemplando a riqueza histórica, leva o visitante a conhecer um pouco mais não só da João Pessoa de hoje, como também da João Pessoa de ontem.

Recife A capital pernambucana está localizada a 280 quilômetros de Natal, em uma ligação feita também pela BR 101. Recife é uma grande atração da região Nordeste. Praia, história e cultura em um mesmo local. Boa Viagem é a praia mais famosa de Recife. Mas as atrações da capital pernambucana vão muito além disso: passam por Recife Antigo, tradicional bairro da cidade, que traz em sua arquitetura um pouco da história da qual foi cenário. *

SERVIÇOS DE TURISMO RECEPTIVO EM NATAL serviços

valor

duração

Transfer in + out – Hotéis em Natal R$ 44,00 – Transfer in + out – Hotéis em Jenipabu, R$ 66,00 – Redinha ou Pirangi Transfer in + out – Hotéis em Pipa R$ 187,00 – City tour – Hotéis em Natal R$ 28,00 Meio período Litoral Norte de buggy – mínimo 4 pax R$ 83,00 Dia todo Praia de Pipa R$ 61,00 Dia todo Praia de Maracajaú R$ 94,00 Dia todo (inclui passeio de barco) Praia de Baía Formosa R$ 49,00 Dia todo Praia Barra de Cunhaú R$ 72,00 Dia todo (inclui passeio de barco) João Pessoa R$ 83,00 Dia todo Pacote Fernando de Noronha R$ 1.031,20 02 noites (passagem de ida e volta + taxa de embarque + 02 noites de pousada CM + translado + city tour + passeio de barco)

76

Revista de Cultura AJUFE

freqüência – – – Diariamente A consultar A consultar A consultar A consultar A consultar A consultar A consultar

Agaricus

Rua Dr. Manoel A. B. de Araújo, 130, Alto de

Especializado em comida baiana.

Rua Afonso Pena, 529, bairro Petrópolis.

Ponta Negra.

Guinza

Especialidade filés de peixe e carnes. Restaurante

Como o próprio nome já diz, é especializada em

Avenida Dinarte Mariz, s/n, Praia de Ponta Negra.

de culinária requintada.

tapioca e pratos típicos da região.

Especializada em comida japonesa e internacional.

Âncora Caipira

Cassol

Hikari

Avenida Seridó, 745, Petrópolis

Rua Assu, 663, Petrópolis.

Avenida Romualdo Galvão, 2085, Lagoa Nova.

Deliciosa cozinha regional, que preza pelo autên-

Self service especializado em carnes e culinária

Especializado em comida japonesa.

tico sabor do Nordeste.

internacional.

Irachai Sushi Bar

Aprecie

Chikenin

Rua Trairi, 714, Petrópolis.

Rua das Algas, 2282, Ponta Negra.

Avenida Prudente de Morais, 5990, Lagoa Nova.

Especializado em culinária japonesa.

Oferece petiscos e pratos rápidos, como hambúr-

Especializada na cozinha chinesa.

La Cachette

guer, costela de porco e pizzas.

Chinatown

Avenida Engenheiro Roberto Freire, 3218, praia

Barraca do Caranguejo

Avenida Prudente de Morais, 1321, Lagoa Seca.

de Ponta Negra

Avenida Erivan Franca, 1180, Ponta Negra.

Especializada em comida chinesa.

Especializado em fondue.

Um dos atrativos da casa é o rodízio de camarão.

Con Xin China

Lula Restaurante

Bari Palesi

Avenida Engenheiro Roberto Freire, 2963, Capim

Avenida Xavier da Silveira, 1047, Morro Branco.

Avenida Engenheiro Roberto Freire, 2963.

Macio.

Especializado na culinária nacional.

Serve comidas tradicionais.

Especializada na culinária chinesa.

Mamma Itália Restaurante e Pizzaria

Brazzeri Brazil

Costela no Bafo

Avendia Engenheiro Roberto Freire, 8750, loja 4.

Rua Pedro da Fonseca Filho, 1393, Ponta Negra.

Rua São José, 1981, bairro de Lagoa Nova.

Especializada na culinária italiana.

Especializada na cozinha internacional, com car-

Restaurante pequeno, mas aconchegante. O pra-

Mangai

nes nobres.

to típico é a costela.

Avenida Amintas Barros, 3300, Lagoa Nova.

Bella Napoli

Don Vincenzo

Especializado em comida regional, é parada obri-

Avenida Hermes da Fonseca, 960, bairro Tirol.

Avenida Erivan Franca, 3318, Ponta Negra.

gatória dos turistas que chegam a Natal.

Especializada em massas. O restaurante é aberto

Especializada em massas.

Manary

também de madrugada.

Douce France

Rua Francisco Gurgel, 9067, Ponta Negra.

Buongustaio

Avenida Afonso Pena, 628, Petrópolis.

Especializado na cozinha internacional.

Avenida Afonso Pena, 395, Petrópolis.

Bistrô, especializado em comida francesa.

Marenosso

Especializado na cozinha internacional.

Farofa D’Água

Localizado no interior do Centro de Turismo de

Cactus

Avenida Engenheiro Roberto Freire, 8353, Ponta

Natal, na Rua Aderbal Figueiredo, 980, Petrópolis.

Avenida Erivan França, 5, orla da praia de Ponta

Negra.

Especializado em peixes e camarão.

Negra.

Especializada na culinária regional, com destaque

Mina D’água

Especializada na culinária local e comida mexicana.

para carnes.

Avenida Campos Sales, Tirol.

Camarão e Cia

Farol Bar e Restaurante

Restaurante especializado em comida mineira.

Avenida Engenheiro Roberto Freire, 8790, Capim

Avenida Governador Silvio Pedrosa, 105, Areia

Moqueca Capixaba

Macio.

Preta.

Avenida Governador Silvio Pedroza, 266, Areia Preta.

Especializada em camarão e frutos do mar.

Especializada em comida regional.

Especializada em peixes e camarão. Revista de Cultura AJUFE

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Guia de Gastronomia Only Pizza

Guia de Entretenimento Especializado em massas.

variados, desde o filé com fritas, até o escondi-

Avenida Eng. Roberto Freire, 5896, Ponta Negra.

Restaurante Tal Sabor

dinho de camarão.

Especializada em massas e pizzas.

Rua Jerônimo de Albuquerque, 3645, Candelária.

Cervejaria Via Continental

Paçoca de Pilão

Self service especializado na culinária nacional.

Via Costeira, Ponta Negra.

Avenida Deputado Márcio Marinho, 5708, praia

Sal e Brasa Churrascaria

Guia de Compras Onde dançar

Teatro Sandoval Wanderley

Centro de Turismo

Arrasta pé

Avenida Presidente Bandeira, 530, Alecrim.

Rua Aderbal de Figueiredo, 980, Petrópolis.

Cinemas – Midway Mall

Reúne 46 lojas, que funcionam nas celas da an-

Com música ao vivo, chopp e petiscos é um bom

Rua Aristides Porpino Filho, esquina com a Rua

Av. Salgado Filho, Lagoa Nova, Praia Shopping.

tiga cadeia pública da década de 1930. O Centro

de Pirangi, litoral Sul de Natal.

Avenida Eng. Roberto Freire, 1426 , Capim Macio.

programa para a noite. Destaca-se pela localiza-

Senador Antônio Vilela, no Alto da Ponta Negra.

Para o turista que chega até a praia de Pirangi,

Oferece rodízio com grande variedade de frutos

ção: na beira-mar, de onde é possível ver o Morro

Boate Nyx

o Paçoca é parada obrigatória, onde é possível

do mar, carnes nobres, mesa de frios, sushi bar,

do Careca.

Avenida Presidente Café Filho, 27, Praia dos

saborear a paçoca e comidas regionais, como o

queijos e saladas.

Calígula

Artistas.

arroz de leite.

Tábua de Carne

Rua Chile, 39, Ribeira.

Boate Papion

Capitania das Artes

Feira permanente com 32 quiosques que funcio-

Pantanal

São duas casas, uma na Avenida Eng. Roberto

Local para ouvir MPB.

Funciona no Centro de Turismo de Natal, na Rua

nam ao ar livre.

Avenida Eng. Roberto Freire, 8553, Ponta Negra.

Freire, 3241, em Capim Macio, no acesso para

Deck Bar e Restaurante

Avenida Câmara Cascudo, 434, Ribeira.

Aderbal Figueiredo, 980, bairro Petrópolis.

Centro Municipal de Artesanato

a praia de Ponta Negra; e a outra na Aveni-

Avenida Engenheiro Roberto Freire, Ponta Negra.

Forró com Turista

Local onde se realizam apresentações culturais e

Churrascaria especializada em carnes.

lançamentos de livros.

Avenida Presidente Café Filho, s/n, Praia dos Ar-

Pasta & Pasta

da Senador Dinarte Mariz, 229, Via Costeira,

Bar com música ao vivo. Destaque para os pe-

Todas às quintas-feiras, a partir das 22h, no Cen-

Centro de Turismo

tistas, localizado na orla de Natal.

Avenida Salgado Filho, Lagoa Nova – shopping

Areia Preta.

tiscos do local, primando pelo escondidinho

tro de Turismo de Natal, na Rua Adebarl Figuei-

Rua Aderbal de Figueiredo, 980, Petrópolis.

Centro de artesanato com 80 lojas, praça de ali-

Midway Mall.

Especializada em carnes. O cliente pode escolher

de camarão.

redo, 980, bairro Petrópolis.

Forró da Lua

mentação e um bom movimento.

entre à la carte ou rodízio.

Dom Café

Antiga penitenciária de Natal, hoje é um centro

Especializado em comida italiana.

Midway Mall

Peixada da Comadre

Talher

de artesanato.

Avenida Campos Sales, Petrópolis.

Estrada da lagoa do Bonfim, São José do Mibibu.

Avenida Bernardo Vieira, 3775, Tirol.

Avenida Afonso Pena, 892, Tirol.

Bar com música no telão, um local especial para

Seven Pub

Forte dos Reis Magos

Praia de Areia Preta.

Avenida Café Filho, Praia do forte.

Natal Shopping

Especializada em peixes.

É self service com comidas típicas e cozinha

happy hour.

Rua Seridó, 722, Petrópolis.

BR 101, Candelária.

internacional.

Cervantes

Na sua história, está muito da fundação de Natal.

Piazzale

Boate com música pop rock ao vivo, aberta de

Natal Norte Shopping

Estrada de Pirangi (Rota do Sol), Ponta Negra.

Tayo Restaurante

Memorial Câmara Cascudo

Rua Ângelo Varela, Petrópolis.

quinta a sábado.

Especializada em massas.

Avenida Eng. Roberto Freire, Ponta Negra.

Tem como atrativo os petiscos grelhados.

Taverna Pub Medieval Bar

Picanha do Quebra Osso

Tem como especialidade a comida japonesa.

Dom Vinícius

Avenida Lima e Silva, Lagoa Nova.

Thin San

tem ainda galeria de arte e restaurante com co-

Visitas culturais

zinha regional.

Cooperativa do Artesanato (Coart ) Avenida Roberto Freire.

Praça André de Albuquerque, 30, Cidade Alta.

Avenida João Medeiros Filho, 2395, Potengi.

O Memorial conta a história desse folclorista que

Orla Sul

Rua Manoel Augusto Bezerra de Araújo, anexo

é lembrado e reverenciado pela população.

Avenida Engenheiro Roberto Freire, 1685, Capim

Rua Ângelo Varela, Petrópolis.

ao Castelo do Hostel Lua Cheia, no Alto de Ponta

Museu Câmara Cascudo

Macio

Especializada em churrasco.

Avenida Hermes da Fonseca, 890, Tirol.

Destaca-se pelas caipifrutas.

Negra.

Praia Shopping

Especializado em comida chinesa.

Buraco da Catita

Avenida Hermes da Fonseca, 1398, Tirol.

Pinga Fogo

Avenida Engenheiro Roberto Freire, Capim

Avenida Engenheiro Roberto Freire, Ponta Negra.

Tibério

O espaço é reservado para a história do Rio

Bairro da Ribeira, Natal.

O restaurante é self service e possui desde os

Avenida Eng. Roberto Freire, 9102, Ponta Negra.

Opção para ouvir choro.

pratos convencionais até um sushi bar. Abre para

Especializado em massas.

Pastel Petrópolis

almoço e jantar.

Tirinete

Avenida Campos Sales, no canteiro central da

Circo da Folia

Pizzaria Cipó Brasil

Avenida Salgado Filho, Shopping Midway Mall.

via, no largo do colégio Atheneu, no bairro de

Estrada de Pirangi, s/n, litoral Sul.

Rua Aristide Porpino Filho, 3111, Alto da Ponta Negra.

Especializado na culinária regional.

Petrópolis.

Guinza Blue

Especializada em pizzas. Tem como atrativo o

É uma opção para um happy hour, saboreando

Via Costeira, 4, Ponta Negra.

um bom pastel.

Muriú Praia Clube

do Norte.

estilo rústico do local, onde o piso é de barro.

Restaurante Galileu

Real Botequim

Praia de Muriú, litoral Norte.

Avenida Prudente de Morais, 4262, Lagoa Nova.

Avenida Engenheiro Roberto Freire, Cidade Jardim.

Largo da Rua Chile

Tem como especialidade da casa os petiscos

Rua Chile, Ribeira.

grelhados.

Vila Folia

Sargento Pepers

BR 101, Estrada de Parnamirim, Nova Parnamirim.

Rua Seridó, Petrópolis.

Parque São José

Especializado em culinária internacional.

Restaurante Maturi Rua São José, 2184, Lagoa Nova. Self service especializado na culinária nacional.

Guia de entretenimento Guia de Entretenimento

Bares

Points e lazer

Restaurante Oriente

Boemia

Música ao vivo, geralmente com uma banda de

Estrada de Macaiba, Macaiba.

Avenida Prudente de Morais, 358, Petrópolis.

Rua Mipibu, 64, esquina com a Avenida Rodri-

pop rock.

Parque Estadual Dunas

Especializado na culinária chinesa.

gues Alves, bairro Tirol.

Shock Bar

Restaurante Reis Magos

Recém-inaugurado, o Boemia se transformou no

Estrada de Pirangi (Rota do Sol), Ponta Negra.

point de Natal. Os petiscos da casa são os mais

78

Revista de Cultura AJUFE

Grande do Norte, economia, cultura e belezas

Macio.

naturais.

Shopping Cidade Jardim

Teatro Alberto Maranhão

Avenida Engenheiro Roberto Freire, Cidade

Praça Augusto Severo, Ribeira.

Jardim.

Localizado em um monumento tombado pelo

Shopping do Artesanato Potiguar

Patrimônio Histórico e Artístico do Rio Grande

Avenina Engenheiro Roberto Freire, 8000, Ponta Negra. Com quatro pavimentos, o shopping conta com 212 lojas.

Shopping Via Direta BR 101, Mirassol.

Guia de Compras Guia de compras

Vila Colonial Avenida Afonso Pena, Tirol.

Vilarte

Alamanda Mall

Avenida Roberto Freire, próximo a bons restau-

Avenida Afonso Pena, Petrópolis.

rantes como Samô e Camarões e vizinho ao

Entre os bairros Mãe Luíza e Capim Macio/Ponta

Centro de Artesanato de Ponta Negra

Granada Flat.

Avenida Nilo Peçanha, 343-A, Petrópolis.

Negra, estendendo-se ao longo da Via Costeira.

Avenida Roberto Freire, vizinho ao Granada Flat.

Local com 53 lojas de artesanatos, praça de ali-

Bar com música ao vivo, famoso pelo caranguejo.

Mais conhecido como Bosque dos Namorados.

De proporções menores, reúne 37 lojas.

mentação e varanda de frente para o mar.

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Revista de Cultura AJUFE

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OUTRAS PALAVRAS

Meditações de uma sogra

Por Vera Brant

Não posso tossir alto para não acor- de à noite. Às vezes, ela senta-se a meu Já os gatos, não. dar o meu genro que já reclamou, duas lado e conversa, durante longo tempo, Estou pensando tudo isso só para me vezes, da minha tosse. contando casos dos seus colegas e dos distrair e não tossir de novo. Devo ter Não posso me levantar e ir à cozi- seus estudos. E escuta, com paciência, pegado esta gripe quando fui, ontem à nha tomar um copo de água porque, ao as minhas histórias. tarde, à padaria comprar pão e leite. Na acender a luz do corredor, irei clarear o Há dias contei-lhe sobre a morte do volta, choveu e eu achei que não podia quarto de meus netos que estão dormin- meu marido, quando eu tinha apenas esperar a chuva passar porque a Nora do e, se um deles acordar levarei, com 38 anos e fiquei sozinha, com dois filhos estava esperando o pão para fazer o seu certeza, uma bronca. para criar. lanche e seguir para a faculdade. Coloco o cobertor sobre a cabeça Não contei a morte do meu filho, Cheguei em casa ensopada e sequei para abafar o barulho da tosse e fico menos de um ano depois da do meu os cabelos com uma toalha. Depois, tosufocada de calor e sem ar. marido, porque achei que seria morte mei um chá quente e me deitei. É muito difícil ter que acreditar que demais para um dia só e ela poderia ficar Já são duas horas da manhã e eu ainos filhos, quando crescem, deixam de chateada com tanta tristeza e não querer da não consegui dormir. gostar da gente. me ouvir nunca mais. Fico apavorada de pensar que os É muito triste saber que, quando as Não tenho ninguém para ouvir as mi- meus pais morreram muito velhos, com filhas se casam e amam os maridos, fi- nhas histórias, fico contando para mim quase 80 anos, e eu só tenho 65. cam apavoradas da mãe atrapalhar o seu mesma, recordando. Se essa história de morrer tarde é de relacionamento, quando os genros não Às vezes, me surpreendo falando sozi- família, ainda vou ter muitas noites em gostam da sogra. nha e olho depressa para os lados, para claro e muita chateação pela frente. E Eu sempre soube que o meu genro verificar se alguém percebeu. É o medo isso me desanima. tem um gênio péssimo e que não gos- que tenho de me levarem para o asilo Se eu ainda recebesse uma aposentata de mim. Acho, mesmo, que ele não dos velhos. doria mais digna, de professora primária tem muita capacidade de amar. É gente A minha única amiga é Estela, a quem que fui, talvez comprasse um presenque vem ao mundo com uma dosagem vejo aos domingos. Ela não se casou e tinho para os meus netos, de vez em de amor muito limitada, muito reduzida. eu já a invejei, algumas vezes, naquela quando, tentando cativá-los. Mas, nem Deve ser defeito de construção. vidinha sossegada, sem ninguém para isso eu posso. O máximo que aconteNem com os filhos o meu genro é perturbar a sua solidão. ce, raramente, é eu poder comprar uns amoroso. Nem com a Laura, minha filha. Quando as crianças eram pequenas tinham verdadeiro pavor do pai, que as colocava de castigo e era muito bravo. Agora, parece que se habituaram com a secura e se dão mais ou menos bem, sem grandes afetos, sem ternura alguma. A única que ele trata com um pouco de carinho é a Nora, minha neta. Talvez, por isso, ela distribua afeto à mãe, aos irmãos e até sobra um pouquinho para mim. Nora é a única pessoa da casa que tem paciência comigo. É a única que me dá um beijo quando sai para o trabalho pela manhã e quando vai para a faculda-

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Estela merecia ter tido um montão de filhos, que seriam abastecidos do amor de que seu coração é gerador. Mas, talvez pelo fato de ser feia e ter um defeito na perna, não tenha conseguido marido. O amor e o carinho que ficaram sobrando em seu coração, por falta de gasto, e que poderiam abastecer uma centena de crianças órfãs, ela distribui aos seus três gatos, talvez por defesa, ou esperteza. Vamos dizer que ela fosse para uma creche cuidar de um montão de crianças. Ela amaria, profundamente, essas crianças e, quando elas crescessem a abandonariam e a fariam sofrer.

novelos de lã e tecer um suéter, para aquecê-los no inverno. Mas, quando o verão chega, eles já nem se lembram do carinho. Geralmente, só penso para trás, coisas já acontecidas, para não me chatear com a realidade presente. Mas, hoje, resolvi soltar a imaginação para, além de me distrair da tosse, cansar a inteligência e ficar com sono. Estou com sono. Vou dormir. *

Vera Brant é escritora e empresária.


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