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Fev. 2014 - n.º2 - ISSN: 2182-925X

negócios&empresas case study

Como um autarca comunista apostou no desenvolvimento económico e empresarial e criou o principal cluster de resíduos

Dez medidas para o crescimento da economia

Entrevista. Miguel Villas-Boas defende que Estado deve prosseguir disciplina financeira para ganhar confiança dos mercados opinião Manuel Caldeira Cabral e Pedro Ferraz da Costa Reportagem. Plimat, “Histórico” dos moldes lança ofensiva a novos mercados e produtos


Editorial

José eduardo carvalho

presidente da AIP

O crescimento da economia e as dinâmicas empresariais

A

convenção empresarial “Sobreviver e Crescer” proporcionou uma reflexão importante feita por 1700 empresários sobre a situação do país. A cortina de silêncio mediático colocada sobre o debate e conclusões, não impediu que o evento tenha constituído um marco nas realizações de cariz associativo. Em primeiro lugar, pela organização e capacidade de mobilização dos promotores. Em segundo, pelo elevado nível das intervenções. Em terceiro, pelo desassombro de algumas medidas propostas para o crescimento da economia. Não tem sido, infelizmente, comum no associativismo empresarial defender que o crescimento da economia está dependente da solvabilidade do Estado, da revisão constitucional e da flexibilização dos modelos de remuneração de trabalho ajustados aos ciclos económicos. Estas e outras conclusões poderão ser lidas nesta edi-

ção da revista Negócios & Empresas. Também é extremamente interessante reflectir sobre a forma como se constituiu o principal cluster de indústrias de resíduos em Portugal. Um autarca comunista conseguiu em oito anos transformar um concelho rural, com um desemprego endémico e sem acessibilidades, no principal pólo nacional de indústrias de resíduos e ambiente. E fê-lo, abandonando a postura normal da maioria de eternos reclamantes contra a falta de apoios de natureza regional ou nacional. Não são frequentes e bem sucedidas experiências de desenvolvimento regional impulsionadas por processos voluntaristas. Mas este caso demonstrou que não há regiões condenadas ao sub-desenvolvimento, mas sim regiões sem projectos e sem actores, e que a aposta na criação de dinâmicas empresariais não está condicionada por opções ideológicas.

fevereiro 2014 Ne - Negócios & empresas

03


sumário JAN 2014

o que eles disseram... /P.66 “O Presidente da República ganha menos do que alguns diretores de sucursais de agências bancárias” Paulo Macedo, Expresso,

04/08/2007

ESTATUTO EDITORIAL

breves Notícias curtas com a atualidade da atividade empresarial / P.06

Entrevista

Miguel Villas-Boas, especialista em marketing estratégico chama a atenção dos empresários para o “Big Data” /P.10

Dossier Como um autarca comunista apostou no desenvolvimento económico e empresarial e criou o principal cluster de resíduos /P.42

programas de apoio Mais Indústria + Produtividade /P.34

EMPREENDEDORISMO Ateliers Empreender Criança e Academia Empreender Jovem / P.56

OPINIÃO Actualidade empresas /P.32

Manuel Caldeira Cabral e Pedro Ferraz da Costa /P.60

negócios&empresas 04 Ne- Negócios & empresas Fevereiro 2014

ESPECIAL CONVENÇÃO EMPRESARIAL

“Sobreviver e Crescer”: O debate, a síntese, as conclusões e as propostas /P.20

Mais Cultura e lazer Quinta do Adamastor. Luxo e tradição aos pés da Serra da Estrela /P.70

A revista NE – Negócios & Empresas privilegiará reflexões sobre as áreas económicas e sociais que enquadram a actividade empresarial e as políticas públicas que as condicionam. O seu conteúdo editorial estará parametrizado pelo incremento da competitividade da economia, liberalização dos mercados, fluidez da concorrência, funcionamento do Estado e redução da despesa pública. Procurará elevar o prestígio, o status e o reconhecimento social da função empresarial e empreendedora. Centrarse-á nas preocupações e necessidades das empresas. A NE – Negócios & Empresas dará destaque às boas práticas de dinâmicas empresariais (exemplos de inovação, redimensionamento empresarial, internacionalização, entre outros).

Propriedade e edição: Associação Industrial Portuguesa/Câmara de Comércio e Indústria, Praça das Indústrias, 1300-307 Lisboa, Tel: 21 360 10 00, Email: dci@aip.pt, www.aip.pt Director: João Pedroso Coordenadora: Manuela Freitas Redacção: Isabel Pinto e Vitor Cunha Colaboraram nesta edição: Rui Madaleno, Benvinda Catarino e Maria João Quiaios Publicidade: Patrícia Soares, Email: patricia.soares@aip.pt, tel: 21 360 10 39 Depósito Legal: 358905/13 ISSN: 2182-925X Número de registo na ERC: 126422 Periodicidade: Quadrimestral Tiragem: 5500 exemplares DISTRIBUIÇÃO GRATUITA


2,3

breves actividade empresarial Portugal lidera CPLP em estudo sobre regulação de PME lll Portugal é uma das econo-

Garantia mútua viabiliza mais de 2,3 mil milhões de crédito em 2013 O sistema nacional de garantia mútua viabilizou no ano passado a concessão de mais de 2,3 mil milhões de euros de crédito à economia. Em 2013 foram prestadas novas garantias no montante de 1,155 mil milhões de euros, 21% acima dos objetivos fixados às quatro sociedades de garantia mútua (SGM) existentes: Norgarante, Lisgarante, Garval e Agrogarante. Introduzida em Portugal há 20 anos por iniciativa do Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e ao Investimento e dos principais bancos a operar no país, a garantia mútua facilita o acesso ao crédito por parte das pequenas e médias empresas que, ao contratarem uma garantia, se tornam beneficiárias do sistema e acionistas da SGM emitente. Atualmente servem-se do sistema perto de 70 mil pequenas e médias empresas nacionais, tendo o sistema encerrado 2013 com uma carteira viva superior a 3.000 milhões de euros, ligeiramente acima de 2012.

mias dos estados da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), ao lado do Brasil e Cabo Verde, melhor colocada no estudo do Banco Mundial, designado Doing Business, sobre as pequenas e médias empresas (PME) privadas. Este ranking mede e identifica mudanças em regulações incidentes sobre as PME, a operar na principal área económica de cada país, reclamando ser um indicador sobre a melhoria da regulação e não sobre menos regulação, e reúne 189 economias mundiais. As classificações atribuídas visam realçar a facilidade de fazer negócios, a criação de regulações que facilitem a interação no mercado e protejam importantes interesses públicos sem prejudicar sem necessidade o desenvolvimento do setor privado, assegura o Banco Mundial, que menciona o que diz ser “um sistema regulatório com fortes instituições e baixos custos de transação”. Portugal surge no 31.º posto, que corresponde também à 13.ª posição no conjunto das economias da União Europeia, seguido por Brasil (116.º), Cabo Verde (121.º) e Moçambique (139.º). O ranking é liderado por Singapura, Hong Kong e Nova Zelândia.

Reforma do IRC publicada em DR

Crédito às PME com menos restrições

lll A reforma do IRC (lei

2/2014) foi publicada a 16 de janeiro em Diário da República. A nova lei aplica-se “aos períodos de tributação que se iniciem, ou aos factos tributários que ocorram, em ou após 1 de janeiro” e cria também um regime simplificado para as pequenas empresas com volume de negócios até 200 mil euros. A reforma do IRC introduz alterações como a descida da taxa de impostos 25% para 23%. Para

06 Ne- Negócios & empresas fevereiro 2014

as PME certificadas, a taxa aplicável aos primeiros 15.000 euros é de 17%. A derrama estadual que incide sobre os lucros acima dos 1,5 milhões de euros é aumentada para 7% para os excedentes a 35 milhões de euros. “Até ao final de 2014”, o Governo “deve aprovar” os diplomas necessários à redução das obrigações declarativas das empresas que adiram ao regime simplificado, nomeadamente através da simplificação da Informação Empresarial Simplificada tendo em vista a sua adaptação à aplicação desse regime a estas empresas”.

lll Os critérios usados pelos

bancos na aprovação de empréstimos a empresas podem ser “ligeiramente menos restritivos” para as PME e para os créditos de curto prazo no próximo trimestre, segundo um inquérito divulgado pelo Banco de Portugal. No próximo trimestre, deverá verificar-se “um ligeiro aumento da procura de empréstimos”, especialmente por parte das PME. De acordo com os resultados do inquérito, os critérios

de concessão de crédito e as condições aplicadas aos empréstimos a empresas permaneceram sem alterações significativas, continuando a verificar-se um aumento na diferenciação com base no spread (margem de lucro do banco) aplicado aos diferentes perfis de risco.

Estágios 3I´S aprovado pelo QREN lll O Estágios 3I´S, desenvolvido pela Associação Industrial Portuguesa (AIP), recebeu a aprovação do QREN, no âmbito do Programa COMPETE. O projeto dispõe de 7,3 milhões de euros para financiar as empresas no pagamento das bolsas aos estagiários e de um prémio à contratação, após o período de estágio. A iniciativa tem por objetivo promover 680 estágios com a duração de 12 meses, destinados a jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 34 anos, com qualificações ao nível do Doutoramento, Mestrado, Licenciatura e Ensino Secundário.

Coimbra já tem Associação Empresarial Regional lll A NERC - Associação Empresarial da Região de Coimbra, estrutura recém-criada com o apoio da AIP, abriu as portas ao tecido empresarial no dia 1 de outubro. A NERC, cuja comissão instaladora é presidida por Horácio Pina Prata, vai integrar a rede de 13 associações empresariais regionais do universo da AIP, nomeadamente para a dinamização de projetos como “Exportar 1.ª vez”, “Mais Indústria, + Produtividade” e “Portugal Sou Eu”. A NERC é uma associação empresarial sem fins lucrativos constituída ao abrigo da lei civil, tem por objetivo promover o desenvolvimento das atividades económicas na região, e também assegurar uma participação de


breves actividade empresarial

crescimento no que diga respeito às empresas e à região, trabalhando de acordo com uma lógica de proximidade e de cooperação.

Capital próprio negativo empurra empresas para o encerramento lll Cerca de 50% das empresas

em Portugal tiveram resultados negativos em 2012 e 29% tem capitais próprios negativos, o que corresponde a um aumento de dois pontos percentuais face a 2011, segundo os dados do Banco de Portugal (BdP) na Análise Sectorial das Empresas não Financeiras em Portugal 2012-2013. O supervisor indica que “uma larga parcela” destas sociedades tem tendência para encerrar a atividade ao longo dos próximos anos. O comércio e outros serviços são os sectores onde a existência de capitais próprios negativos é mais relevante representado por 31% das empresas. O BdP adianta que face à situação de capitais próprios negativos, a atividade das empresas é financiada por capitais alheios.

“Exportar a 1ª vez” capta e orienta empresas para os mercados externos lll O programa “Exportar a 1ª. Vez”, lançado pela Associação Industrial Portuguesa, tem como objetivos alargar a base exportadora nacional, envolvendo novas empresas e orientando outras para mercados externos a consolidar. Destinado a PME localizadas nas regiões do Norte, Centro e Alentejo, sem experiência ou com fraca intensidade exportadora, com produtos ou serviços transacionáveis em mercados externos, o programa prevê a realização de um conjunto de iniciativas como missões empresariais (com incentivo do QREN de 45%)

08 Ne- Negócios & empresas fevereiro 2014

à África do Sul, Argélia, China (Macau e Guangdong/Cantão), Chile e Colômbia, Índia (Goa e Maarastra/Bombaim), Israel, Macau, Marrocos, Moçambique e Turquia. O “Exportar a 1.ª vez” contempla também a realização de mostras em Portugal, para dar a conhecer a oferta de produtos e serviços nacionais a importadores que vão ser convidados para esse efeito. São as chamadas “missões inversas” e mostras de valorização da oferta nacional (incentivo do QREN de 45%). A participação conjunta em feiras internacionais (incentivo QREN, 75%) é outra iniciativa prevista no programa.

2.3

Três universidades portuguesas nas melhores de Economia e Gestão da Europa lll O Ranking do Financial Times

integra três universidades portuguesas como as melhores escolas de Economia e Gestão da Europa. Na lista das melhores 75 escolas surge em 25º lugar a Universidade Católica, que subiu sete lugares em relação a 2012, seguindo-se a Universidade Nova de Lisboa, que desceu sete posições em relação ao ano passado e está agora em 36.º lugar. A Universidade do Porto aparece no 66º lugar, tendo descido uma posição em relação ao ranking de 2012.

Portugal à frente da Alemanha nos negócios lll Portugal ocupa a 20ª posição

de uma lista de 145 dos melhores países para se fazer negócios, segundo o ranking elaborado pela revista norte-americana Forbes, que coloca o nosso país à frente da Alemanha classificada na 24ª posição.

Sentimento económico em Portugal mantem melhoria em novembro O indicador de Sentimento Económico em Portugal manteve a tendência de melhoria dos últimos meses aumentando +2.3 pontos em novembro, com empresas e consumidores a efetuarem uma apreciação mais favorável que no mês anterior, segundo a Análise de Conjuntura elaborada pelo departamento de Informação Económica da Associação Industrial Portuguesa, com base nos dados da Comissão Europeia. Na União Europeia e na Zona Euro, o Sentimento Económico aumentou +0.4 pontos e +0.8 pontos em novembro, respetivamente, mantendo a tendência de melhoria que se verifica desde maio. Entre as economias de maior dimensão da área Euro, o indicador aumentou em Itália (+1.9), Espanha (+1.4), Holanda (+1.3) e Alemanha (+0.8), e deteriorou-se em França (-0.9).

A Irlanda, Nova Zelândia e Hong Kong surgem nos primeiros três lugares da tabela. O ranking, que já vai na 8.ª edição, baseia-se em 11 indicadores públicos como o Freedom House, Fundação Heritage, Transparência Internacional ou o Banco Mundial, e coloca seis países europeus nos dez primeiros. Os direitos de propriedade, inovação, impostos, tecnologia, corrupção, liberdade pessoal, de comércio e monetária, burocracia, proteção dos investidores e o desempenho da Bolsa são os indicadores utilizados. A revista Forbes indica os 25 melhores países para se fazer negócios são: Irlanda, Nova Zelândia, Hong Kong, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Singapura, Canadá, Noruega, Holanda, Austrália, Reino Unido, Bélgica, EUA, Islândia, Suíça, Eslovénia, Taiwan, França, Portugal, Luxemburgo, Chile, Estónia, Alemanha e Lituânia.

José Eduardo Carvalho lidera GTIEVAS lll José Eduardo Carvalho, foi

nomeado para liderar o Grupo de Trabalho para as Infra-estruturas Estratégicas de Valor Acrescentado (GTIEVAS). Este organismo criado pelo Governo a 29 de agosto vai avaliar os projetos de investimento para o país durante o próximo Quadro Comunitário de Apoio 2014-2020. O convite do Governo ao presidente da AIP foi a nível individual e na qualidade de personalidade de reconhecido mérito. O novo grupo de trabalho vai definir a prioridade e localização dos grandes investimentos em obras públicas até ao final da década, com destaque para os transportes ferroviários, rodoviários e portuários, e para o sector das plataformas logísticas, para interligação entre estes diversos modos de transporte. A LTM - Linha de Transporte de Mercadorias, o novo terminal de contentores para o Porto de Lisboa, a substituição do IP3 ou a redinamização da plataforma logística do Poceirão são alguns dos projetos que vão ser avaliados por este grupo de trabalho.


entrevista Miguel Villas-Boas

“O Estado tem que continuar a política de disciplina financeira para ganhar a confiança dos mercados de capitais e melhorar as condições de financiamento das empresas”

“Com a economia a começar a crescer, o Estado deverá reduzir as suas despesas de forma a poder reduzir a carga fiscal sobre os contribuintes e empresas”, defende Miguel Villas-Boas. O especialista em marketing estratégico chama a atenção dos empresários para o “Big Data”, uma “grande revolucão que está a acontecer ao nível da prática de gestão e do marketing” e que “vai melhorar as decisões dentro das empresas e oferecer grandes oportunidades de mercado”. 10 Ne- Negócios & empresas fevereiro 2014


J. Miguel Villas-Boas é professor catedrático de Gestão e Administração de Empresas e Chairman do Grupo de Marketing na Haas School of Business, University of California, Berkeley, onde também recebeu a “chair” J. Gary Shansby em Marketing Estratégico. Miguel Villas-Boas licenciou-se em Economia na Universidade Católica Portuguesa em 1984. Fez o Mestrado em Economia na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, o MBA no INSEAD (França) e doutorouse em Economia Aplicada no MIT – Massachussets Institute of Technology (EUA). É reconhecido internacionalmente nos campos da Economia e Marketing, com dezenas de publicações nas principais revistas da especialidade. Villas-Boas é director do Departamento de Marketing da Management Science, director associado da Marketing Science e Quantitative Marketing and Economics, e está no Conselho Editorial do Journal of Marketing Research e do International Journal of Research in Marketing. Foi diretor do programa de doutoramento na Haas School of Business, University of California, Berkeley (2006-2009), e chair do “committee on research” também na University of California, Berkeley (2006-2008). A sua investigação tem-se dedicado a estratégias de concorrência, teoria dos jogos, organização industrial, design de incentivos, canais de distribuição, “customer relationship management”, e estratégias para a Internet. Os trabalhos de investigação têm recebido diversos prémios internacionais incluindo a inaugural ISMS Long Term Impact Award de 2009, pelo seu artigo, em co-autoria com Russell Winer, sobre “Endogeneity in Brand Choice Models” (Management Science). Tem igualmente sido consultor nos setores das telecomunicações e da banca. Janeiro/março Nome da & revista fevereiro 2014 Ne2013 - Negócios empresas

02 11


entrevista Miguel Villas-Boas Como avalia a situação da economia portuguesa? O PIB per capita desceu em quatro dos últimos cinco anos. A taxa de desemprego está em cerca de 18% quando estava em 4% em 2000. Estas estatísticas são um indicador claro dos grandes sacrifícios das familias portuguesas durante os últimos anos. Estes sacrifícios resultam da reduzida produtividade em Portugal, proveniente de uma ineficiente afectação dos recursos e de uma fraca qualificação em geral da mão-de-obra em Portugal. A falta de disciplina financeira por parte do Estado até há dois ou três anos também não ajudou. Começa a ser considerada a possibilidade de Portugal correr o risco de um segundo resgate. Tendo em conta a evolução recente, considera que será necessário ou bastará um programa cautelar? Obter mais apoios da Europa, quer através de um segundo resgate, quer através de um programa cautelar, só pode ajudar. No entanto, quaisquer fundos que venham não podem ser desculpa para não continuar uma disciplina financeira básica por parte do Estado e para não se continuar a desenvolver políticas que permitam um melhor funcionamento dos mercados em Portugal. Como se poderão ultrapassar os obstáculos à competitividade das empresas portuguesas neste quadro recessivo e de instabilidade? O Estado tem que continuar a política de disciplina financeira para ganhar a confiança dos mercados de capitais internacionais, o que melhorará as condições de financiamento das empresas portuguesas. As decisões de despesas do Estado têm também que ser sujeitas a uma maior racionalidade económica. Com a economia a começar a crescer, o Estado deverá reduzir as suas despesas de forma a poder reduzir a carga fiscal sobre os contribuintes e empresas. (Notar que as decisões de despesas do Estado não são em geral sujeitas ao cuidado e atenção que acontece no sector privado, e portanto acaba por haver despesas e investimentos claramente ineficientes – dos quais há muitos exemplos). Para um melhor funcionamento dos mercados é também necessário liberalizar mais o mercado de trabalho (uma taxa de desemprego a 18% tem grandes custos sociais), continuar a investir na autoridade da concorrência para permitir uma melhor afectação de recursos (com especial atenção à competitividade dos preços dos inputs), criar um sistema legal que facilite o funcionamento dos mercados

12 Ne- Negócios & empresas fevereiro 2014

“Estes sacrifícios resultam da reduzida produtividade em Portugal, proveniente de uma ineficiente afectação dos recursos e de uma fraca qualificação em geral da mão-de-obra em Portugal. A falta de disciplina financeira por parte do Estado até há dois ou três anos também não ajudou.” “quaisquer fundos que venham não podem ser desculpa para não continuar uma disciplina financeira básica por parte do Estado e para não se continuar a desenvolver políticas que permitam um melhor funcionamento dos mercados em Portugal.”

e desenvolvimento de empresas, e tornar o sistema judicial mais eficiente de forma a que os agentes económicos tenham mais confiança para entrarem em transacções no mercado. A médio e longo prazo (mas começando já!) Portugal tem que tomar mais a sério as melhorias no sistema de educação, porque sem uma mão-de-obra qualificada e competente, a produtividade em Portugal será sempre reduzida. O crescimento económico depende de investimento. Quais as medidas que considera prioritárias para captação de IDE? Ter um sistema legal que facilite o funcionamento dos mercados e o desenvolvimento de empresas atrai investimento. Para além disso, ter um sistema judicial que defina claramente e garanta os direitos de propriedade das partes de um contrato também atrai investimento em geral, e IDE em particular. Outros aspectos que atraiem investimento são um mercado de trabalho com baixos custos de transacção (custos de recrutamento ou custos de despedimento), uma mão-de-obra qualificada e competente, uma boa ética de trabalho, grande concorrência e competitividade no mercado dos inputs e uma cultura de inovação. Quais são os sectores de actividade e os produtos em que Portugal deve apostar? A questão de quais os sectores de actividades e os produtos onde Portugal deve investir é uma questão muito perigosa, porque reflete, por vezes, uma mentalidade que o Estado deve ajudar os sectores “em que Portugal deve apostar”. É fácil jogar com dinheiro alheio, e o Estado não deve optar sobre que sectores subsidiar ou ajudar – irá sempre fazer erros, criar distorções, e afectar recursos a projectos não rentáveis. A mentalidade do empresário que quer começar uma empresa por ter um subsídio do Estado não funciona para um país. Boas ideias arranjam sempre investidores privados. Se, para funcionar, algumas ideias precisam do investimento ou subsídios do Estado, então afinal não devem ser assim tão boas. Quem escolhe “os sectores de actividade e os produtos em que Portugal deve apostar” são os investidores privados, porque são eles que estudam cuidadosamente as alternativas, dado que são os seus fundos que estão em jogo. Em geral, dois sectores que estão em grande crescimento ao nível mundial são o sector da saúde e o sector das novas tecnologias. Como avalia a qualidade da gestão em Portugal? Embora haja grandes sucessos e exem-


os sectores de actividades e os produtos onde Portugal deve investir é uma questão muito perigosa, porque reflete, por vezes, uma mentalidade que o Estado deve ajudar os sectores “em que Portugal deve apostar”. É fácil jogar com dinheiro alheio, e o Estado não deve optar sobre que sectores subsidiar ou ajudar – irá sempre fazer erros, criar distorções, e afectar recursos a projectos não rentáveis.

plos de excelência de gestão em Portugal, alguns estudos mostram que um grupo importante das empresas portuguesas têm uma qualidade de gestão de um nível muito baixo. O fraco nível de educação no país reflete-se também na área da qualidade de gestão. Melhorar o nível geral da educação em Portugal trará também benefícios na área da gestão. Permitir um melhor funcionamento dos mercados e da concorrência, levará também a uma melhor selecção das equipas de gestão. É especialista em marketing estratégico. Disse, durante a sua intervenção na 4.ª sessão dos “Encontros da Junqueira”, que as empresas devem apos-

tar mais no consumidor, o chamado “consumer focus”. Pode explicar a sua proposta? A grande maioria das empresas portuguesas tem um nível muito baixo de “consumer focus”, de se preocuparem com o que os consumidores (muitas vezes fora de Portugal) realmente querem. Isto resulta, por vezes, em produtos de boa qualidade, mas que são vendidos com margens baixas, em comparação com produtos de qualidade equivalente no mercado mundial. É necessário ter mais consumer focus, para perceber exactamente o que os consumidores realmente querem, como comunicar, onde vender, de forma a poder desenvolver imagens de marca, e obter margens maiores e maior lealdade dos consumidores. Atribuiu grande importância à análise e compreensão dos dados digitais. Como antevê que o “Big Data” possa influenciar a actividade das empresas? Uma grande revolucão que está a acontecer ao nível da prática de gestão e do marketing ao nível mundial é o grande crescimento de acesso a dados sobre o comportamento dos consumidores e mercados, e o desenvolvimento de técnicas de análise desses dados. Esta revolução do “Big Data” vai melhorar as decisões dentro das empresas e oferecer grandes oportunidades de mercado. Empresas que invistam em “Big Data” poderão ter grandes vantagens sobre os concorrentes. Disse, durante a sua intervenção, sentir-se “chocado” com o facto de 20 mil dos 110 mil jovens portugueses de 15 anos não terem literacia funcional e que é preocupante a faixa etária entre os 24 e os 35 anos, em que 50% não acabou o ensino secundário, sendo que, segundo as suas palavras, “esta é a mão-de-obra que poderá ser produtiva ou não”. Na sua opinião, de que forma poderemos inverter esta situação? A situação actual de falta de qualificações de um grande grupo dos jovens portugueses é um problema que vai limitar a produtividade e o crescimento da economia portuguesa durante os próximos 20 anos. Portugal tem que desenvolver uma verdadeira cultura de educação, e condições que permitam que todos os portugueses obtenham qualificações essenciais para serem o mais competitivos possível na economia mundial. Se começarmos agora, daqui a 15-20 anos poderemos começar a ver grandes crescimentos de produtividade na economia portuguesa. Não há soluções imediatas, só há a urgência de começar já!

Quem escolhe “os sectores de actividade e os produtos em que Portugal deve apostar” são os investidores privados, porque são eles que estudam cuidadosamente as alternativas, dado que são os seus fundos que estão em jogo. Uma grande revolucão que está a acontecer ao nível da prática de gestão e do marketing ao nível mundial é o grande crescimento de acesso a dados sobre o comportamento dos consumidores e mercados, e o desenvolvimento de técnicas de análise desses dados.

fevereiro 2014 Ne - Negócios & empresas

13


informação económica

INDICADOR DE SENTIMENTO ECONÓMICO 120

INDICADOR DE SENTIMENTO ECONÓMICO

110 120 ZONA EURO 100 110 ZONA EURO 90 100 80 90 INDICADOR DE SENTIMENTO ECONÓMICO homóloga de O 70índice de produção industrial registou uma variaçãoPORTUGAL 80 3.1% no 2º trimestre de 2013 e praticamente nula no 3º trimestre de 120 60 PORTUGAL 70OUT-03NoOUT-04 2013. ano terminado Setembro 2013,OUT-10 o índice produção 110 OUT-05 OUT-06em OUT-07 OUT-08 de OUT-09 OUT-11de OUT-12 OUT-13 ZONA EURO em relada indústria transformadora registou uma variação de -1.1% 60 FONTE: COMISSÃO EUROPEIA 100 OUT-03 OUT-04 OUT-05 (-0.5% OUT-06 na OUT-07 OUT-08 OUT-09 OUT-10 OUT-11 OUT-12 OUT-13 ção ao ano anterior indústria em geral).

Actividade económica | evolução recente menos negativa

Evolução da Conjuntura Económica

90FONTE: COMISSÃO EUROPEIA 80

ÍNDICE DE PRODUÇÃO INDUSTRIAL - INDÚSTRIA TRANSFORMADORA (%) PORTUGAL

70

ÍNDICE DE PRODUÇÃO INDUSTRIAL - INDÚSTRIA TRANSFORMADORA (%)

60

2% OUT-03

Novembro 2013

OUT-04

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OUT-13

FONTE: COMISSÃO EUROPEIA 2%

VARIAÇÃO HOMÓLOGA TRIMESTRAL -3%

FONTE: INE

SET-13SET-13

AGO-13AGO-13

JUL-13JUL-13

MAI-13MAI-13

JUN-13JUN-13

ABR-13ABR-13

VARIAÇÃO HOMÓLOGA TRIMESTRAL

MAR-13MAR-13

JAN-13JAN-13

FEV-13FEV-13

4T-12 4T-12

3T-12 3T-12

1T-12 1T-12 -0,9%

2T-12 2T-12

FONTE: INE

4T-11 4T-11

-2%

-3%

2T-11 2T-11

-6%

-3%

-0,9%

3T-11 3T-11

2% -6%

-0,9% INDUSTRIAL - INDÚSTRIA TRANSFORMADORA (%) ÍNDICE DE PRODUÇÃO

1T-11 1T-11

-2% -2%

VARIAÇÃO MÉDIA ÚLTIMOS 12 MESES

VARIAÇÃO MÉDIA ÚLTIMOS 12 MESES

SET-13

JUL-13

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MAI-13

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3T-12

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2T-11

O volume de negócios na indústria transformadora no 3º trimes-6% tre de 2013, face ao mesmo período de 2012, aumentou +1.0% . A variação foi de -2.0% no mercado interno e de +4.1% no mercado externo. HOMÓLOGA TRIMESTRAL VARIAÇÃO MÉDIA ÚLTIMOS 12 MESES ÍNDICE DE VOLUME DEVARIAÇÃO NEGÓCIOS NA INDÚSTRIA TRANSFORMADORA VARIAÇÃO HOMÓLOGA TRIMESTRALTRANSFORMADORA ÍNDICE DE VOLUME DE NEGÓCIOS NA INDÚSTRIA VARIAÇÃO HOMÓLOGA TRIMESTRAL

FONTE: INE

Sentimento económico | tendência de melhoria O indicador de sentimento económico tem vindo a melhorar desde Maio na União Europeia e em Portugal. Em Outubro, a variação foi de +1.1 pontos na União Europeia e de +0.9 pontos na Área Euro. Em Portugal, o indicador de sentimento económico aumentou +1.7 pontos.

INDICADOR DE SENTIMENTO ECONÓMICO 120 110

ZONA EURO

100 90 80

PORTUGAL

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OUT-03

OUT-04

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20 15 20 15 10 105 50 20 -50 -5 15 -10 10 -10 -15 5 -15 0 -5 -10 -15

1.ºT 1.ºT

2.ºT 3.ºT 2.ºT 2011 3.ºT 2011

4.ºT 4.ºT

1.ºT 1.ºT

MERCADO INTERNO MERCADO INTERNO

2.ºT 3.ºT 4.ºT 1.ºT 2.ºT 2012 3.ºT 4.ºT 1.ºT 2012 MERCADO EXTERNO

2.ºT

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MERCADO EXTERNO

ÍNDICE VOLUME SERVIÇOS 3.ºT DE 4.ºT 1.ºTDE NEGÓCIOS 2.ºT 3.ºTNOS4.ºT 1.ºT

1.ºT

2.ºT 2013 2.ºT 2013

No 3º trimestre de 2013, o volume de 2012 negócios serviços2013 diminuiu, ÍNDICE DE VARIAÇÃO VOLUME DE NEGÓCIOS NOS nos SERVIÇOS 2011 HOMÓLOGA TRIMESTRAL em termos homólogos, -2.6%. No ano terminado em Setembro de MERCADO INTERNO MERCADO EXTERNO VARIAÇÃO HOMÓLOGA TRIMESTRAL 0 2013, a variação foi de -6.5%. -20 -2 -4 ÍNDICE DE VOLUME DE NEGÓCIOS NOS SERVIÇOS -4 -6 VARIAÇÃO HOMÓLOGA TRIMESTRAL -6 -8 0 -8 -10 -2 -10 -12 -4 -12 -14 -6 -14 1.ºT 2.ºT 3.ºT 4.ºT 1.ºT 2.ºT 3.ºT 4.ºT 1.ºT 2.ºT 3.ºT -8 1.ºT 2.ºT2011 3.ºT 4.ºT 1.ºT 2.ºT2012 3.ºT 4.ºT 1.ºT 2013 2.ºT 3.ºT 2011 2012 2013 -10 FONTE: INE -12 FONTE: INE -14

OUT-13

FONTE: COMISSÃO EUROPEIA

4.ºT

1.ºT

2.ºT 3.ºT 2012

4.ºT

1.ºT

FONTE: INE

14 Ne- Negócios & empresas fevereiro 2014

ÍNDICE DE PRODUÇÃO INDUSTRIAL - INDÚSTRIA TRANSFORMADORA (%)

2%

ÍNDICE DE VOLUME DE NEGÓCIOS NA INDÚSTRIA TRANSFORMADORA VARIAÇÃO HOMÓLOGA TRIMESTRAL

4

ÍNDICE DE VOLUME DE NEGÓCIOS NO COMÉRCIO A RETALHO ÍNDICE DE VOLUME DE NEGÓCIOS NO COMÉRCIO A RETALHO VARIAÇÃO HOMÓLOGA HOMÓLOGA TRIMESTRAL TRIMESTRAL VARIAÇÃO


Janeiro/marรงo 2013 Nome da revista

02


ÍNDICEDE DEVOLUME VOLUMEDE DENEGÓCIOS NEGÓCIOSNO NOCOMÉRCIO COMÉRCIOAARETALHO RETALHO ÍNDICE VARIAÇÃO HOMÓLOGA TRIMESTRAL VARIAÇÃO HOMÓLOGA TRIMESTRAL

FONTE: INE FONTE: INE

2.ºT 3.ºT 3.ºT 2.ºT 2011 2011

4.ºT 4.ºT

1.ºT 1.ºT

2.ºT 3.ºT 3.ºT 2.ºT 2012 2012 GERAL GERAL

4.ºT 4.ºT

1.ºT 1.ºT

ALIMENTAR ALIMENTAR

2.ºT 2.ºT 2013 2013

3.ºT 3.ºT

NÃO ALIMENTAR NÃO ALIMENTAR

No 3º trimestre de 2013, a produção na construção diminuiu, em termos homólogos, -13.5% (-16.5% no 2º trimestre). Por segmentos, a variação foi de -13.0% na “construção de edifícios” e -13.9% nas obras de “engenharia civil”). No ano terminado em Setembro a variação anual foi de -18.1% (-16.9% na “construção de edifícios” e -19.1% nas obras de “engenharia civil”).

ÍNDICEDE DEPRODUÇÃO PRODUÇÃONA NACONSTRUÇÃO CONSTRUÇÃO ÍNDICE VARIAÇÃO MÉDIA ÚLTIMOS MESES VARIAÇÃO MÉDIA ÚLTIMOS 1212MESES

FONTE: INE FONTE: INE

TOTAL TOTAL

CONSTRUÇÃO DE EDIFÍCIOS CONSTRUÇÃO DE EDIFÍCIOS

SET-13 SET-13

JUL-13 JUL-13

MAI-13 MAI-13

MAR-13 MAR-13

JAN-12 JAN-12

NOV-12 NOV-12

SET-12 SET-12

JUL-12 JUL-12

MAI-12 MAI-12

MAR-12 MAR-12

JAN-12 JAN-12

NOV-11 NOV-11

NOV-12

JAN-12

JUL-13

SET-13

JAN-12

MAR-13 MAR-13

MAI-13

NOV-12

MAI-13

JUL-13

SET-13

NOV-12

JAN-12

MAR-13

MAI-13

JUL-13

SET-13

SET-12

SET-12

JUL-12

JUL-12

JUL-12

SET-12

MAI-12

MAI-12

MAI-12

MAR-12 MAR-12

MAR-12

JAN-12

JAN-12

JAN-12

NOV-11

Contas Nacionais | Crescimento do PIB no II e III Trimestre 2013

SET-11 SET-11

-6-6 -8-8 -10 -10 -12 -12 -14 -14 -16 -16 -18 -18 -20 -20 -22 -22

NOV-11

1.ºT 1.ºT

1.ºT 1.ºT

NOV-11

SET-11

2.ºT 3.ºT 3.ºT 4.ºT 4.ºT 1.ºT 2.ºT 2.ºT 3.ºT 3.ºT 4.ºT 4.ºT 1.ºT 2.ºT 2.ºT 3.ºT 3.ºT 2.ºT 1.ºT 1.ºT 2011 2012 2013 2011 2012 2013 O volume FONTE: INE de negócios no comércio a retalho registou, no 3º trimestre FONTE: INE de 2013, uma variação homóloga de -1.0%. No comércio de produtos “não alimentares” e de produtos “alimentares”, as respectivas variações foram de -4.6% e +2.2%. No ano terminado em Setembro a variação anual foi de -3.6% (+0.4% nos produtos “alimentares” e -8.0% nos não alimentares).

44 22 00 -2-2 -4-4 -6-6 -8-8 -10 -10 -12 -12 -14 -14

SET-11

informação económica

-12-8 -10 -14 -12 -16 -14 -18 -16 -20 -18 -22 ÍNDICE DE PRODUÇÃO NA CONSTRUÇÃO -20 VARIAÇÃO MÉDIA ÚLTIMOS 12 MESES -22 -6 FONTE: INE TOTAL CONSTRUÇÃO DE EDIFÍCIOS ENGENHARIA CIVIL -8 -10 FONTE: INE TOTAL CONSTRUÇÃO DE EDIFÍCIOS ENGENHARIA CIVIL -12 -14 EXPORTAÇÕES DE BENS, POR GRANDES CATEGORIAS ECONÓMICAS -16 MILHÕES DE EUROS -18 14 -20 000 EXPORTAÇÕES DE BENS, POR GRANDES CATEGORIAS ECONÓMICAS JAN-SET 2012 12 -22 000 MILHÕES DE EUROS JAN-SET 2013 10 000 14 000 JAN-SET 2012 8 000 12 000 TOTAL CONSTRUÇÃO DE EDIFÍCIOS ENGENHARIA CIVIL JAN-SET 2013 6 000 FONTE: INE 10 000 4 000 8 000 2 000 6 000 0 4 000 FORNECIMENTOS BENS DE CONBUSTÍVEIS E PRODUTOS MÁQUINAS, MATERIAL DE ALIMENTARES OUTROSCATEGORIAS BENS LUBRIFICANTES TRANSPORTE NE CONSUMO EXPORTAÇÕES DENEBENS, POR GRANDES ECONÓMICAS 2 000 INDUSTRIAIS E BEBIDAS E ACESSÓRIOS DE CAPITAL NOUTRA NOUTRA MILHÕES DEEEUROS 0 CATEGORIA SEUS CATEGORIA MÁQUINAS, CONBUSTÍVEIS E PRODUTOS MATERIAL DE ACESSÓRIOS 14 000 FORNECIMENTOS BENS DE FONTE: INE JAN-SET 2012 OUTROS BENS LUBRIFICANTES ALIMENTARES INDUSTRIAIS NE CONSUMO NE TRANSPORTE 12 000 NOUTRA E BEBIDAS E ACESSÓRIOS DE CAPITAL NOUTRA JAN-SET 2013 10 000 CATEGORIA E SEUS CATEGORIA Entre Janeiro e Setembro de 2013, as exportações de serviços atinACESSÓRIOS 8 000 FONTE: INE giram 15.5 mil milhões de euros (+6.5% face a período homólogo). EXPORTAÇÕES DE SERVIÇOS (JANEIRO-SETEMBRO 2013) As6 000 “viagens e turismo” registaram em termos homólogos o maior 4 000 16 000 aumento (+7.3%). 000 14 2000 EXPORTAÇÕES DE SERVIÇOS (JANEIRO-SETEMBRO 2013) 12 000 0 MÁQUINAS, CONBUSTÍVEIS E PRODUTOS MATERIAL DE FORNECIMENTOS BENS DE 1016000 000 INDUSTRIAIS NE CONSUMO NE TRANSPORTE OUTROS BENS LUBRIFICANTES ALIMENTARES 814000 E BEBIDAS E ACESSÓRIOS DE CAPITAL NOUTRA 000 NOUTRA E SEUS CATEGORIA CATEGORIA 612000 000 ACESSÓRIOS 410000 000 FONTE: INE 28000 000 0 6 000 TOTAL VIAGENS E TURISMO TRANSPORTES SERVIÇOS 4 000 FORNECIDOS PELAS EXPORTAÇÕES DE SERVIÇOS (JANEIRO-SETEMBRO 2013) EMPRESAS 2 000 16 0000 14 000 PRODUTO INTERNO TRANSPORTES BRUTO TOTAL VIAGENS E TURISMO SERVIÇOS FORNECIDOS PELAS 12 000 DADOS ENCADEADOS EM VOLUME EMPRESAS 10 000 3 8 000 1,9% PRODUTO INTERNO BRUTO 2 6 000 DADOS EM VOLUME 1 em relação ao trimestreENCADEADOS 000 O4PIB, anterior, cresceu 1.1% no II e 0.2% no 03 2 000 III trimestre. A variação em relação a trimestre homólogo foi, no II e -120 1,9% III trimestres, de -2.0% e -1.0%, respectivamente. -1,3% TOTAL VIAGENS E TURISMO TRANSPORTES SERVIÇOS -2 FORNECIDOS PELAS 1 EMPRESAS -3 0 -3,2% -4 -1 PRODUTO INTERNO BRUTO -1,3% -5 -2 1.ºT 2.ºT 3.ºT 4.ºT 1.ºT DADOS 2.ºT ENCADEADOS 3.ºT 4.ºT 1.ºT 2.ºT 3.ºT 4.ºT 1.ºT 2.ºT 3.ºT EM VOLUME SET-11

00 -2 -2 -4-4 -6-6 -8-8 -10 -10 -12 -12 -14 -14

ÍNDICEDE DEVOLUME VOLUMEDE DENEGÓCIOS NEGÓCIOSNOS NOSSERVIÇOS SERVIÇOS ÍNDICE VARIAÇÃO HOMÓLOGA TRIMESTRAL VARIAÇÃO HOMÓLOGA TRIMESTRAL

ENGENHARIA CIVIL ENGENHARIA CIVIL

De Janeiro a Setembro de 2013, as exportações de bens atingiram 35.4 mil milhões de euros (+4.0% que em igual período do ano anterior). Os fornecimentos industriais (12.1 mil milhões) e os bens de consumo EXPORTAÇÕES DEBENS, BENS,POR PORGRANDES GRANDES CATEGORIAS ECONÓMICAS EXPORTAÇÕES DE CATEGORIAS ECONÓMICAS (6.5 mil milhões), não especificados noutras categorias, registam os MILHÕES DE EUROS MILHÕES DE EUROS valores mais elevados. 000 1414No 000 JAN-SET 2012 material de transporte, as exportações diminuíram -8.0%. JAN-SET As 2012 000 1212exportações 000 JAN-SET 2013 aumentaram nas outras categorias com destaque para JAN-SET 2013 10 000 10os 000“combustíveis e lubrificantes” (+30%) e “produtos alimentares e 000 88bebidas” 000 (+7.0%). 6 000 6 000 000 44000 2 000 2 000 00 CONBUSTÍVEISEE PRODUTOS PRODUTOS MÁQUINAS, CONBUSTÍVEIS MATERIALDEDE MÁQUINAS, BENSDEDE FORNECIMENTOS BENS MATERIAL FORNECIMENTOS 16 Ne - NegóciosNE& empresas fevereiro 2014 LUBRIFICANTES ALIMENTARES ALIMENTARES OUTROSBENS BENS LUBRIFICANTES TRANSPORTE CONSUMO INDUSTRIAIS OUTROS NENE TRANSPORTE INDUSTRIAIS NE CONSUMO BEBIDAS CAPITAL ACESSÓRIOS DEDECAPITAL NOUTRA NOUTRA EEBEBIDAS EEACESSÓRIOS NOUTRA NOUTRA SEUS CATEGORIA CATEGORIA EESEUS CATEGORIA CATEGORIA ACESSÓRIOS ACESSÓRIOS FONTE: INE FONTE: INE

-3 2010 2011 2012 2013 3 -3,2% -4FONTE: 1,9% VARIAÇÃO FACE A IGUAL TRIMESTRE DO ANO INE TAXA ANUAL 2 VARIAÇÃO FACE AO TRIMESTRE ANTERIOR -5 1 1.ºT 2.ºT 3.ºT 4.ºT 1.ºT 2.ºT 3.ºT 4.ºT 1.ºT 2.ºT 3.ºT 4.ºT 1.ºT 2.ºT 3.ºT 0 2010 2011 2012 2013 -1 FONTE: INE VARIAÇÃO FACE A IGUAL TRIMESTRE DO ANO -1,3% TAXA ANUAL VARIAÇÃO FACE AO TRIMESTRE ANTERIOR -2 -3 -3,2% -4 -5 1.ºT 2.ºT 3.ºT 4.ºT 1.ºT 2.ºT 3.ºT 4.ºT 1.ºT 2.ºT 3.ºT 4.ºT 1.ºT 2.ºT 3.ºT 2010 2011 2012 2013

FONTE: INE

VARIAÇÃO FACE A IGUAL TRIMESTRE DO ANO VARIAÇÃO FACE AO TRIMESTRE ANTERIOR

TAXA ANUAL


Janeiro/marรงo 2013 Nome da revista

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Barómetro Informa D&B

Criação de novas empresas aumenta 15,8% em Portugal

Fonte: Análise Informa D&B; Dados: publicações de actos societários e Portal Citius / Ministério da Justiça

Mantém-se a tendência positiva verificada desde o início de 2013 na criação, encerramento e insolvência de empresas . Entre Janeiro e Novembro de 2013 observa-se um aumento na criação de empresas (+15,8%) e uma descida quer no encerramento (-17,4%) quer nos processos de insolvência (-7,3%) face ao mesmo período de 2012. M  antém-se a subida das constituições, com 2013 a apresentar crescimento em todos os meses quando comparado com os meses homólogos de 2012. A  análise dos trimestres permite observar que o 1º trimestre de 2013 foi o mais alto do ano, como é habitual nas constituições. O 3º trimestre voltou a apresentar um crescimento de dois dígitos (+12,9%), superando assim o aumento registado no 2º trimestre (+9,4%). A  s dissoluções continuam a descer (-17,4%) face ao período homólogo, acompanhando a tendência dos 3 trimestres de 2013 (-15%, -19%, -17% respectivamente), tendo sido Janeiro o único mês de 2013 a registar um aumento neste fenómeno.

18 Ne- Negócios & empresas fevereiro 2014

A  turbulência empresarial*, que mede o movimento de criação e encerramento de empresas, foi de 10,4% nos últimos 12 meses verificando-se um aumento da taxa de constituição e diminuição da taxa de dissolução face ao período anterior. A  s insolvências descem 5,3% face ao período homólogo, sendo o 3º trimestre consecutivo a registar descida.

A tendência de subida das constituições e descida das dissoluções é generalizada nos sectores e distritos. A variação nas insolvências nos sectores não é homogénea. Quando analisados os principais sectores, verifica-se que a construção, as indústrias transformadoras e o sector grossista apresentam uma descida considerável das insolvências, ao contrário do verificado nos serviços, retalho e alojamento e restauração que registam uma subida. * A turbulência empresarial é um indicador da dinâmica de constituição e dissolução de empresas correspondendo à soma das taxas de constituição e de dissolução

Sobre o Barómetro Informa D&B O Barómetro da Informa D&B permite acompanhar a evolução mensal do tecido empresarial português, conhecendo as suas dinâmicas e alterações mais relevantes. Com o Barómetro Informa D&B é possível identificar, numa visão sectorial e distrital, os principais fenómenos do universo empresarial nos últimos 5 anos.


Janeiro/marรงo 2013 Nome da revista

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Especial Convenção Empresarial “Sobreviver e Crescer”

Convenção Empresarial “Sobreviver e Crescer” O debate, a síntese, as conclusões e as propostas

20 Ne- Negócios & empresas fevereiro 2014


José Eduardo de Carvalho, Presidente da AIP Excertos da intervenção na Convenção Empresarial

A. REFLEXÃO SOBRE A COMPETITIVIDADE DA ECONOMIA PORTUGUESA 1 – Sobreviventes – processo de ajustamento “Ficou muita gente pelo caminho desde Janeiro de 2008. O número de insolvências e dissoluções naturais é de 112.583. Estes números dão-nos uma ideia dos efeitos do ajustamento na estrutura empresarial portuguesa. Alguns de nós caíram por falta de capacitação e competência empresarial; outros por insuficiências na qualidade de gestão; pelos efeitos desajustados da desalavancagem financeira consagrada no programa de ajustamento; pelas consequências da liberalização do comércio na UE sem contrapartidas em mercados emergentes; pela política monetária da zona euro; pela rigidez de alguns custos de produção que não nos permitiram ajustar custos face à concorrência; outros ainda pelo sobre ajustamento da procura interna.” “Esta convenção é feita para e por aqueles que sobreviveram apesar: do stock do financiamento bancário reduzir-se 16,4 mil milhões de euros em dois anos, e das rescisões unilaterais de contratos de financiamento; da descida significativa da euribor (5,2% em Set/08 para 0,33% em Jun/13), não ter qualquer reflexo nas taxas de juros praticadas continuando muito superiores aos seus concorrentes europeus; da valorização de 32% do euro face ao dólar; da impossibilidade de flexibilizar custos salariais para salvar empresas, nem flexibilizar vínculos contratuais anteriores à publicação da reforma, confrontando-se com uma lei constitucional que na sua essência proíbe os despedimentos mas não impede as falências; de suportarem uma pressão fiscal até à exaustão devido aos desequilíbrios orçamentais e à incapacidade financeira da República em solver os seus compromissos, sendo a taxa implícita de tributação no capital de 31,6% (5ª maior da UE) contra 25,5% no trabalho e 18,0% no consumo; de conviverem com um sector não transacionável que concentrou financiamentos, capitais e remunerações desajustadas do resto da economia, contribuindo para que as CUT’s no sector transacionável crescessem relativamente à UE no período 2005/2008, e para que os custos energéticos continuassem durante o período de 2008/2011 com preços superiores a 10% à média UE; de contração de 14% de procura interna que afeta as atividades vocacionadas para o mercado doméstico localizadas no interior do país; de não terem acesso a sofisticados planeamentos fiscais nem meios para se internacionalizarem localizando-se a contragosto numa Europa que é a única região do mundo que não cresce, mas onde continua a proliferar de forma incessante normas e mais normas de regulação e condicionantes ambientais que só contribuem para o aumento dos custos de produção e perdas de competitividade.”

2 – Condições necessárias para crescer “Sem assegurar a solvabilidade do Estado através de um equilíbrio orçamental baseado na redução da despesa, permitindo desta forma controlar e estancar o crescimento da dívida pública, não há condições para haver crescimento em Portugal. Sem conseguirmos implementar mecanismos que substituam a desvalorização cambial, para desvalorizar a taxa cambial real não conseguiremos provocar choques de competitividade imediatos na economia. Sem revermos a Constituição, liberalizar mercados e reformar o Estado, dificilmente criaremos condições enquadradoras duma atividade económica dinâmica e com capacidade para atrair investimento estrangeiro. Sem políticas públicas orientadas para o sector transacionável e concentradas prioritariamente em três eixos: - recapitalização das empresas - redimensionamento - reforço da capacidade exportadora será um desperdício de recursos e retardará a alteração do perfil produtivo da economia portuguesa. Sem as empresas melhorarem a sua qualidade e capacidade de gestão, centrarem-se nos extremos da cadeia de valor, reduzirem o rácio Dívida/EBITDA, reorientarem a sua produção para mercados externos, melhorarem a estrutura de capitais próprios, integrarem a inovação na gestão operacional e redimensionarem-se, poderão continuar a exigir reformas estruturais e apoios, mas terão dificuldades em sobreviver. Sem a colaboração da Europa para implementar medidas que permitam a sustentabilidade da dívida pública, melhorar o funcionamento da união monetária, adotar medidas compensatórias nos países de periferia do euro e medidas expansionistas no norte da Europa, também será muito difícil encontrarmos condições para crescer.”

3 – Análise - envolvente Dívida pública e deficit orçamental “Achamos que nunca mais iremos obter financiamento no mercado para sustentar um modelo baseado no aumento da despesa, na procura interna, em défices orçamentais e dívidas públicas, e em salários não sustentados na produtividade. Não duvidamos que a redução da dívida dependa do crescimento da economia. Mas esta não cresce com uma despesa pública e deficits orçamentais insustentáveis. Cada dia o estado português gasta 29 milhões de euros que não tem. Cada dia o estado português tem de pedir emprestado 31,4 milhões de euros. Será que teremos excedentes primários e taxas de crescimento nominais do PIB para sustentar esta dívida? Não estamos a admitir que não o consigamos. Queremos é ser exigentes com governos para que controlem os deficits orçamentais e sejam obsessivos com a redução da despesa.” Taxa Câmbio Real “Temos uma TCR sobrevalorizada (i.e. os nossos preços de produção têm dificuldade em ser competitivos face aos preços dos nossos concorrentes) e não temos instrumentos (desvalorização de moeda e inflação) que a possam corrigir num curto espaço de tempo. O Prof. Vitor Bento comparou o processo de ajustamento de 1984/82 e 2012/08. No primeiro ocorreu uma desvalorização da

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Especial Convenção Empresarial “Sobreviver e Crescer”

taxa de câmbio nominal do escudo em 35%. Uma redução de CUT’s de 15%; compara com 5,9% em 2012; uma diminuição de salários reais de 12,6% compara com 2,5%; e um crescimento das exportações de 38% compara com 9%. Parece por isso, que o actual processo de ajustamento não está a provocar o choque de competitividade esperado para acelerar o processo de recuperação económica e compensar os efeitos de contração da procura interna: 14% contra 7% em 1982. Se não queremos recuperar o controlo da moeda e inflacionar a economia, temos de relançar a reflexão e o debate sobre a redução dos preços de produção face aos nossos concorrentes. E dificilmente conseguiremos essa redução sem: - Deflacionar preços e salários do sector não transacionável, nomeadamente nos sectores com remunerações desajustadas à economia (onde a concorrência tarda a criar efeitos); - Embaratecer os CUT’s através da redução dos custos laborais.” Revisão Constitucional “Será que os sobreviventes desta crise não tem legitimidade para exigir aos agentes políticos que defendem a economia de mercado e a continuação de Portugal no euro, para reverem a constituição? Não prevendo esta a insolvência e a falência da República, percebe-se a dificuldade no enquadramento institucional das medidas mais adequadas e eficazes para retirar o país da insolvência. Mas não é possível continuar impávidos a assistir a julgamentos constitucionais decididos 15 meses após a implementação de normas e regras em áreas sensíveis de gestão empresarial como é o caso das relações laborais. Algum investidor acha-se confortável para investir um cêntimo em Portugal quando regras de funcionamento do mercado laboral acordadas na concertação social e objeto de compromissos assumidas com credores externos sejam alteradas e anuladas? Perante o que se passou, ainda haverá alguém que defenda as extensões das convenções coletivas de trabalho? Alguém percebe que para se reduzir custos nesta fase tão difícil do ciclo económico, a opção seja despedir colaboradores do que ter a possibilidade de celebrar um acordo alargado e legal para reduzir custos salariais? Será que não é necessário tornar os preceitos constitucionais que enquadram a atividade económica, muito mais operativos, claros e menos complexos, evitando desta forma interpretações constitucionais discordantes e não consensuais? A certa altura já não percebemos se o problema está na constituição ou na composição do tribunal constitucional. O que sabemos, é que o que a política não quer fazer nos momentos que deve fazer, a economia fá-lo mais tarde com consequências mais gravosas para todos nós.” Financiamento e Recapitalização das Empresas • Divergência das taxas de juro na EU “Apesar do compromisso da banca portuguesa com a economia e empresas nacionais, nomeadamente na reestruturação e consolidação de passivos bancários, a política monetária europeia por um lado, e a estratégia da oferta de crédito privilegiando a dívida pública e grandes empresas por outro, tem provocado uma divergência acentuada nas taxas de juro na UE, estando as empresas portuguesas a pagar mais 41% do que na área euro; mais 52% do que na Alemanha; mais 18% do que em Espanha; mais 28% do que na Irlanda; menos 2% do que na Grécia e menos 1% do que no Chipre.

22 Ne- Negócios & empresas fevereiro 2014

A severidade da exigência da desalavancagem financeira feita aos bancos, talvez tivesse contribuído mais para a desestruturação do tecido produtivo do que as políticas de contenção orçamental.” • Insuficiência de Capitais Próprios “Mas também temos de reconhecer que a insuficiência de capitais próprios limita a nossa capacidade de endividamento. Já em 2011 defendemos que a utilização do valor remanescente do fundo de recapitalização da banca deveria ser canalizado para reforçar a solvabilidade das empresas, recapitalizando-as. Achamos que é uma medida atual que deveria ser acompanhada de um estímulo fiscal que permitisse um regime convencional de remuneração de capitais próprios. Se está previsto na reforma do IRC medidas fiscais que penalizem o recurso à divida, estas deveriam ser compensadas como incentivos à capitalização das empresas. Estudos da AIP demonstram que em termos de autonomia financeira, as empresas portuguesas com bom desempenho comparam bem com as melhores empresas alemãs e francesas. As de fraco desempenho têm um ponto médio de 5% quando comparadas com os 15 e 23% das empresas europeias com o mesmo nível de desempenho. E se analisarmos o rácio Dívida/EBITDA que mede a capacidade de liquidação da dívida com base no cash-flow actual, vemos que em média as empresas portuguesas demorariam 13 anos a liquidar a sua dívida atual e os do 1º quartil da análise apresentam cash-flow negativo, o que significa que o capital inicial foi integralmente absorvido pelos prejuízos. Isto demonstra a nossa grande preocupação e exigência pela recapitalização das empresas e pelas políticas públicas a elas associadas.” • Evolução da Europa “O Banco Central Europeu, desde o eclodir da crise, injetou em liquidez mais de 35% do PIB europeu (dinheiro que não corresponde a nenhuma criação real de riqueza) e o principal problema parece que continua a residir na solvabilidade do estado. Dizer que o mercado de capitais, devido à solvabilidade do estado e à falta de competitividade de economia, tem dúvidas que alguns países do sul possam pagar as dívidas não é uma heresia. É antes um aviso sério que talvez tenhamos dificuldade em regressar ao crescimento sem: • alargamento de prazos de reembolso de empréstimos; • alívio do serviço da dívida; • alargamento dos prazos de carência de juros; • redução significativa de taxas de juro. Percebemos as vantagens que temos com a criação da união bancária, duma maior integração política e financeira da UE, da redução da excessiva exposição dos bancos nacionais às dívidas soberanas, do crescimento das economias no norte da Europa… Mas se não tivermos oportunidade para melhorar as condições de parte da dívida pública durante o período de ajustamento da nossa economia, todo o nosso esforço poderá ficar comprometido. E da Alemanha, Senhor Primeiro-Ministro, o Estado poderá necessitar de dinheiro para pagar salários e pensões, mas o que as empresas e a economia precisam da Alemanha é de investimento e de mercado. Creio que o esforço que todos estamos a fazer bem o merecia.”


B. Síntese do debate em dez áreas críticas para as empresas

Excertos das intervenções na Convenção Empresarial (participantes, oradores, moderadores e comentadores)

1. COMPETIVIDADE (questões transversais) Daniel Bessa

“No atual contexto a minha preferência vai para abordagens de “problem solving”, dissecando os problemas de forma mais analítica para encontrar as soluções. Neste sentido julgo que esta Convenção deveria eleger um Top 10 das medidas a apresentar ao Governo e que sejam suscetíveis de monitorização. Os apelos à qualidade de gestão e à mudança de cultura empresarial, por caber aos empresários, não deveriam ser incluídos nesse Top 10 ”

Luís Filipe Pereira

“Normalmente, afirma-se que a qualidade de gestão é função da dimensão; prefiro a ótica inversa de que a dimensão é função da qualidade de gestão, pois quem detém esta última tem melhores condições para crescer”

Pina Moura (comentador)

“Todos concordamos que a economia portuguesa vive hoje um dos períodos mais complexos dos últimos anos. Para além da crise financeira internacional, não estávamos preparados para os problemas. Por exemplo a consolidação das finanças públicas deveria ter sido atacada desde 2000.”

Mira Amaral

“ Os empresários que participaram neste painel não estiveram à espera da legislação de trabalho perfeita ou do funcionamento eficaz do sistema da justiça para terem sucesso. Talvez fora de se dizer ao Governo que aguarde pela Constituição e Tribunal Constitucional perfeitos para fazer o que já deveria estar feito.”

Jorge Santos (NERLEI)

“Será desejável saber trabalhar em rede e participar mais em iniciativas associativas. Temos de saber antecipar as mudanças ainda antes das mesmas serem consideradas necessárias. Só assim resistiremos aos que teimam em dificultar-nos a nossa vida.”

Paulo Pereira da Silva (RENOVA)

“Não vejo o mundo com as divisões geográficas tradicionais. Vejo-o mais como uma sobreposição de redes. Gerir redes de conhecimento, interagindo com as universidades, com os for-

fevereiro 2014 Ne - Negócios & empresas

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Especial Convenção Empresarial “Sobreviver e Crescer”

necedores de equipamentos, com os clientes e com os cidadãos é vital para que a empresa se posicione corretamente no mercado”

Paulo Ribeiro (UNITOM)

“Sonho muito, durmo pouco. Gosto pouco de dormir, porque tenho pesadelos por coisas qua andam a fazer ao meu país.”

José Luís Simões (Transportes Luís Simões)

“As empresas de sucesso distinguem-se pelo controlo que têm do essencial da sua cadeia de abastecimento e de valor”

Amândio Santos (DEROVO)

“Temos de fazer hoje o que já fizemos no passado. Descobrir os lugares que nos podem fazer crescer e levar a fazer diferente. Cruzar mares e ares espalhando os frutos da terra.”

António Trigueiros de Aragão (NERCAB)

“ Sabendo incorporar a diferenciação, a ousadia e o trabalho, o futuro do país e dos portugueses passa por nós, pelas empresas. É muito importante mostrar esta realidade para que a atividade empresarial possa ser reconhecida e valorizada.”

Pina Moura

“ Não podemos subestimar nem maldizer a contribuição que a Europa nos tem dado. O futuro será com a UE, com Portugal na UE. Será pior, se não for assim.”

José Basílio Simões (ISA)

“ Fazer com que o Estado nas suas compras dê privilégio às PME. Por exemplo, 50% do investimento público realizado deveria ser canalizado para PME. Desta forma o Estado, bem como as grandes empresas, poderiam servir de montra de demonstração das capacidades das PME:”

Nuno Vasconcelos e Souza (Agromais)

“Se juntarmos a mentalidade dos portugueses com políticas e políticos erradas e com uma pequena economia fechada, acabamos onde estamos, sem independência nacional”

Jorge Pais

“Os empresários devem reclamar os seus direitos enquanto geradores de riqueza para o país”

Nuno Ferreira (PABI)

“Temos pouco tempo e por isso temos ter maior pressa na resolução dos problemas do país e das empresas. A batota terminou. Os Governos têm de viver com os recursos que têm. Não podem enxaguar mais as empresas através do aumento de impostos. A chave da resposta está no crescimento das empresas que produzem bens transacionáveis.”

José Luís Simões (Transportes Luís Simões)

“ Os empresários são responsáveis. A responsabilidade deve ser um dos valores principais da cultura empresarial”

José Manuel Fernandes (FREZITE)

“Neste momento estou a cerrar os punhos e a dedicar-me com toda a energia de que disponho para responder aos desafios que

24 Ne- Negócios & empresas fevereiro 2014


os mercados me impõem. A solução está em mim, é o princípio que norteou a minha atividade empresarial desde o início.”

que muitas vezes constatamos. Estamos convencidos que o Steve Jobs nunca veria um QREN aprovado.”

Empresário não identificado

Vítor Barbosa (Ibera)

“Deveriam ser criadas zonas francas em alguns parques industriais que permitissem a importação livre de matérias-primas, acrescentar-lhe valor em Portugal e exportar os produtos fabricados”

“ Os apoios públicos não devem ser dados a fundo perdido. O futuro QREN deve assentar nos subsídios reembolsáveis e parece-me boa a ideia da criação de um Banco de Fomento.”

2. FINANCIAMENTO

3. INOVAÇÃO

Daniel Bessa

“Não vejo como resolver as dificuldades de crédito enquanto perdurarem as necessidades de ajustamento da economia portuguesa. Julgo útil elaborar e divulgar um catálogo das medidas voluntaristas na área do financiamento, O que existe disponível em fundos estruturais, capitais de risco, linhas de crédito, etc.”

José Basílio Simões (ISA)

“ Não tivemos receio nem em mostrar as nossas contas nem de partilhar o capital e a propriedade da empresa. Foi isto que nos possibilitou conseguir a primeira cotação na bolsa por uma PME portuguesa.”

Carlos Lopes de Sousa (STI)

“ Em vez do financiamento, preferia falar do não-financiamento, isto é, desejaria que as empresas não necessitassem tanto do financiamento bancário, através da criação de condições que potenciassem a capacidade de gerar autofinanciamento”

Adão da Fonseca (TEKEVER)

“Em setores como a aeronáutica as barreiras como a certificação faz com que a cadeia de inovação se estenda por vários anos o que aumenta as necessidades de financiamento num contexto de risco dificilmente aceite pelo ADN do sistema bancário”

João Artur (RISA)

“ Deveria ser implementado um mecanismo de empréstimos obrigacionistas para conjuntos de empresas previamente selecionadas com a intervenção das sociedades de garantia mútua. Estes empréstimos obrigacionistas seriam posteriormente colocados junto de diverso tipo de investidores incluindo os fundos de investimento e outros intermediários financeiros.”

Carlos Lopes de Sousa (STI)

“Dever-se-ia estudar a possibilidade dos sócios obterem empréstimos de 10/15 anos para capitalizarem as suas empresas. O reembolso e a remuneração desses empréstimos deveriam ser ajustados à distribuição de lucros das empresas”.

Domingos Chambel (TRM)

“ A falta de capital na banca poderia ser torneada com a criação de um banco de fomento fora da órbita dos bancos, com uma intervenção do sistema de garantia mútua e a tutela do IAPMEI”

Adão da Fonseca (TEKEVER)

“A gestão dos fundos estruturais deveria evitar a aversão ao risco

Paulo Pereira da Silva (RENOVA)

“ Os novos conceitos e os produtos novos vêm de métodos de trabalho ajustados. Por exemplo, formar equipas internas com fluxos de trabalho informal envolvendo as várias áreas da empresa e instaladas em “open space” que permite as pessoas falar entre elas. Mas atenção: não podemos barrar o caminho às ideias que vêm de fora da empresa”

José Manuel Fernandes (FREZITE)

“Onde é que está quem sabe mais do que nós? Estão nas Universidades? Estão nos Centros Tecnológicos? Nos fornecedores? No estrangeiro? Não importa onde, mas temos de aprender a trabalhar com essa gente que pode acrescentar valor à minha empresa”

Amândio Santos (DEROVO)

“O setor está a criar novas dinâmicas. A embalagem, o toque, o cheiro e o sabor têm vindo a ser explorados como fatores de diferenciação da nossa produção.”

Paulo Pereira da Silva (RENOVA)

“Só vejo desafios e não sucessos. O mercado português é muito pequeno para se ter sucesso em estratégias de inovação. O caminho está no trabalho árduo, com sacrifícios e perseverança. Mas à medida que vamos progredindo, começamos a obter coisas positivas, que depois tem de trazer mais negócio.”

Empresário não identificado (metalomecânica)

Portugal é um pequeno país que não pode basear-se em produções massificadas de grande volume. A opção passará sempre pela diferenciação, que nos tem permitido crescer nos últimos tempos em contraciclo do contexto do país.

4. GESTÃO Luis Filipe Pereira

“Nas empresas e organizações gerimos recursos. Dos diversos recursos que gerimos os RH são os único que podem criar os outros. Gerir é conduzir equipas para obter resultados e isso só se consegue se tivermos Liderança e Gestão”

Rui Filinto (Key Plastics)

“As empresas devem focalizar-se nas variáveis que podem gerir e controlar. Evitar os custos da não-qualidade e identificar po-

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25


Especial Convenção Empresarial “Sobreviver e Crescer”

tencialidades de aumento da produtividade e de diminuição de custos, deverão ser as prioridades mais importantes.”

Luis Filipe Pereira

“Não faz sentido planear se não tivermos controlo de gestão; mesmo nas pequenas empresas tem de existir sistemas de controlo ainda que mais simples e ajustados à essa dimensão”

Joaquim Braz (….)

“Em Portugal, nas empresas de menor dimensão, a arte de desenrascar substitui a boa organização. Isso impede as empresas de crescerem e de ter condições para uma gestão mais profissional”

José Sequeira (Delta Cafés)

“Serão as empresas de propriedade familiar pior geridas do que as restantes? Depende dos donos, depende dos gestores profissionais e depende sobretudo da química gerada entre os dois”.

Filipe Ramos (Herdade do Monte Novo)

“Há um novo paradigma nas empresas agrícolas do Alentejo. Os agricultores do sequeiro estão a desaparecer e a dar lugar a novas empresas com modelos de gestão mais empresariais e mais inovadores.”

no estrangeiro. A exportação dá-nos esse “feed-back” do teatro real que nos ajuda a melhorar e a inovar.”

Paulo Ribeiro (UNITOM)

“Conseguimos ter sucesso numa empresa improvável localizada no Fundão. No início, nem fornecedores, nem a Banca acreditaram ser possível um crescimento tão significativo e ainda por cima com uma estratégia orientada para o mercado global num produto agrícola tradicional.”

Amândio Santos (DEROVO)

“ A evolução positiva do setor alimentar também tem a ver com a força da união e do cluster criado. Importa agora que não se estrague o que de bom foi feito. Por exemplo as redes diplomáticas estão hoje muito mais sensibilizadas para apoiar o desenvolvimento de negócios e fiquei agradado quando soube que na formação de novos conselheiros comerciais se inclua estágios em empresas.”

6. MERCADO INTERNO Luís Tão (NERVIR)

José Luís Simões (Transportes Luís Simões)

“Creio que em Portugal, existem empresas familiares muito eficientes e que têm mostrado grande capacidade de resiliência em tempos de crise.”

“Perante a aparente impossibilidade de uma dinamização generalizada do mercado interno, deve optar-se por medidas mais seletivas que possam minimizar a queda do consumo em regiões de menor densidade empresarial.”

Joaquim Braz (….)

Vítor Neto (Teófilo)

“A gestão do desempenho não deve servir fundamentalmente para premiar ou para punir, mas sim para identificar os problemas que nos afetam e a forma de os resolver”.

Rui Filinto (Key Plastics)

“As empresas que trabalham para o mercado interno não satisfazem apenas o consumo final dos portugueses. Elas também substituem importações, vendem bens e serviços críticos para o setor exportador e prestam serviços a não residentes como no caso do turismo.”

Adão da Fonseca (TEKEVER)

“Pouco podem os empresários fazer para contrariar as tendências dos mercados. Se os consumidores decidirem não consumirem, então temos uma consequência que não conseguimos controlar.”

“A valorização da I&D também pode conduzir à redução de custos. Em simultâneo devemos mitigar as necessidades de novos investimentos, diminuindo assim a pressão sobre o cash-flow, cuja geração é a fonte principal da capitalização” “Apostar no valor acrescentado, mas não esquecer os preços e os custos, mesmo nas empresas tecnológicas.”

5. INTERNACIONALIZAÇÃO Mira Amaral (comentador)

“ A primeira fase da internacionalização é a exportação. Mas fluxos mais regulares e consolidados de exportação, exigirão mais cedo ou mais tarde uma presença física nos mercados externos na distribuição e na produção. É então que a expressão internacionalização se pode usar com maior propriedade”

José Manuel Fernandes (FREZITE)

“Na internacionalização, saber para onde se vai é muito importante. Depois estar sempre atento à evolução da nossa presença

26 Ne- Negócios & empresas fevereiro 2014

Vítor Barbosa (Ibera)

Amândio Santos (DEROVO)

“Não há exportação no setor alimentar sem fortes no mercado interno. O mercado interno pode criar novos hábitos nos consumidores. Por exemplo, porque não introduzir nas escolas para que as crianças saibam ler rótulos nas embalagens e a distinguir a produção nacional?”

Nuno Vasconcelos e Souza (Agromais)

“ O mercado interno está em recessão e distorcido pois o único fator que conta é o preço. Uma futura recuperação nunca reporá as margens necessárias. O nosso mercado interno tem de ser as exportações, sob pena de entrarmos numa espiral de esmagamento da nossa rentabilidade”.

Eduardo Malhão (Habinordeste)

“Numa economia como a nossa, o crescimento não pode surtir


efeito sem o desempenho positivo do mercado interno. As empresas portuguesas, a grande maioria delas, precisa do seu dinamismo. Mas numa economia com escassez de capital, já não e mais possível fazer crescer a procura interna com base no crédito.”

Vítor Neto (Teófilo)

“Temos de admitir que não será possível relançar o consumo interno com medidas habituais de aumento do poder de compra pela via da fiscalidade ou da política de rendimentos. Mas é possível, uma política mais sensata e moderada de modo a potenciar os ainda muito débeis sinais de recuperação económica.”

Vítor Barbosa (Ibera)

“ Nas atuais circunstâncias, sobreviver parece ser o único objetivo das empresas que trabalham para o mercado interno. Antecipar a retoma, tentando perceber o que vai ser o mercado no pós-crise pode ser um caminho de maior confiança.”

7. FISCALIDADE Daniel Bessa

“ Seria interessante retomar a ideia de deduzir no IRC um valor de remuneração dos capitais próprios, mesmo que fosse apenas para as PME”

Adão da Fonseca (TEKEVER)

“Quando numa empresa com estratégia de I&D não existir distribuição de lucros a cobrança do IRC deveria ser suspensa”

Domingos Chambel (TRM)

“Proponho uma redução substancial do IRC para 10% de modo a tornar Portugal atrativo para o investimento estrangeiro e nacional”

Jorge Ramos (Imperalum)

“ A fiscalidade indireta como o ISP no gás natural ou as taxas municipais como a da ocupação dos subsolos deveriam ser revistas”.

8. SALÁRIOS Eduardo Malhão (Habinordeste)

“Proponho que o horário atualmente estipulado na maior parte da contratação coletiva seja aumentado de 40 horas para 42 horas. Este acréscimo beneficiaria o trabalhador através do aumento da remuneração. Não teríamos aumento dos custos unitário de trabalho e os trabalhadores teriam maior motivação.”

Henrique Neto

“Tenho dúvidas se a insistência na desvalorização do fator trabalho seja a via mais correta para se vencer a crise”

Jorge Ramos (Imperalum)

Nenhum empresário ou gestor baixa salários por prazer. Salários baixos não são a solução, mas num quadro de reestruturação

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27


Especial Convenção Empresarial “Sobreviver e Crescer”

para sobreviver à crise, torna-se necessário ajustar os custos dos salários. Na minha empresa por exemplo, a reestruturação levou à redução dos salários dos quadros de topo

9. FORMAÇÃO Mira Amaral

“ A educação é vital para o crescimento, constitui uma condição necessária, mas não é suficiente. Sem uma economia de mercado que funcione com sistemas de incentivos apropriados, um nível elevado de educação não é sinónimo de desenvolvimento. A experiência dos antigos países comunistas é elucidativa nesta matéria

José Luís Simões (Transportes Luís Simões)

“Acreditamos ser necessário a definição de uma missão e de uma estratégia para saber para onde vamos. Sem isso, a formação corre o risco de não produzir os resultados desejados.”

José Sequeira (Delta Cafés)

“Não é desejável que os jovens apenas conheçam o mundo do trabalho após acabarem os estudos. È necessário que os jovens possuam alguma experiência de trabalho, ainda na fase da sua formação de base”

José Basílio Simões (ISA)

“ Mais importante do que a formação em sala mais tradicional, será criar grupos de partilha de experiência até com os nossos concorrentes.”

Empresário não identificado

A qualidade de gestão faz a diferença entre Sobreviver ou Crescer. Mas a qualidade de gestão não é inata, aprende-se com a formação”

10. ENERGIA Jorge Ramos (Imperalum)

“Segundo a ERSE 17% do preço a que pagamos da energia elétrica são para os CIEG - Custos de Interesse Económico Geral), componentes que nada têm a ver com a produção ou a fiscalidade da mesma. Estes CIEG tiverem um aumento exponencial nos últimos anos atingindo atualmente 3.000 Milhões € e são pagos pelos consumidores sejam eles empresas ou famílias.”

Jorge Ramos (Imperalum)

“ De que nos vale um esforço permanente de racionalização energética com uma poupança dos kwh consumidos, se os preços dos mesmos têm vindo a sofrer aumentos sucessivos?”

Domingos Chambel (TRM)

“ As Associações Regionais deveriam constituir-se em sindicatos de compra de energia elétrica, negociando melhores condições de fornecimento de energia à PME”

28 Ne- Negócios & empresas fevereiro 2014


C. Dez medidas para o crescimento da economia (com base nas intervenções efetuadas na Convenção)

1 Assegurar a Reforma e a Solvabilidade do Estado

Assegurar a solvabilidade do Estado, implementando uma Reforma de Estado que reduza a despesa estrutural de forma seletiva privilegiando a competitividade da economia. Reduzindo o deficit público pelo lado da despesa, saberemos conteremos a dívida pública em níveis que possam ser aceites pelos nossos credores internacionais, sem hipotecar as possibilidades do crescimento económico.

os mercados e flexibilizar os modelos de organização 2 eLiberalizar de remuneração do trabalho

Continuar a liberalização dos mercados, assegurando-se uma concorrência efetiva com uma função de regulação independente, forte e eficaz. Em simultâneo, não abrandar no processo de flexibilização do modelo de organização do trabalho e criar mecanismos mais ajustados aos ciclos económicos da sua remuneração. Dever-se-á avaliar os impedimentos constitucionais que possam criar obstáculos à implementação destas medidas, revendo a Constituição, quando e se tal for considerado necessário.

3 Gestão europeia das dívidas soberanas dos estados periféricos

A retoma do crescimento nos países com programas de ajustamento pressupõe a concretização de medidas no plano europeu, alguma delas já politicamente decididas como a criação de uma União Bancária. Para além desta medida estrutural, importa que se consiga através de soluções que assegurem a sustentabilidade da dívida através de mecanismos de mutualização que possam aliviar condições de prazo, períodos de carência de capital e juros e do nível destes últimos, e ajustá-los ao volume de geração de excedentes primários pelas economias, objeto de programas de ajustamento como Portugal.

4 Concentração e focalização de políticas de apoio às empresas

Concentrar as políticas públicas, nomeadamente os próximos fundos estruturais, nas atividades transacionáveis privilegiando três prioridades – a recapitalização, o redimensionamento e o reforço da capacidade exportadora. Estas são as questões básicas que determinarão a capacidade das empresas em crescer num contexto que continuará a ser de forte concorrência a nível internacional. Em termos de políticas públicas esta concentração de recursos evitará o seu desperdício e incentivará a alteração do perfil de especialização da economia portuguesa.

5 Modificar padrões da cultura empresarial

Alterar os comportamentos empresariais não receando as estratégias de partilha e de cooperação que podem levar a ganhos de dimensão, valorizando mais o investimento em melhores capacidades de gestão, adotando uma cultura mais positiva face a práticas de inovação de processos ou produtos, reorientando a sua produção para os mercados externos e reforçando a importância dos capitais próprios como fonte de financiamento.

6 Dedução no IRC de remuneração de capitais próprios

Os incentivos financeiros como os fundos de capitalização não se aplicarão, na melhor das hipóteses, a mais de um milhar de empresas. Se assim for, julgamos mais eficaz usar mecanismos de uso mais universal, como os incentivos fiscais, pelo que propomos a consideração como custo dedutível na matéria coletável do IRC de uma percentagem do acréscimo de capitais próprios - a designada remuneração convencionada de capitais próprios.

7 Linha de empréstimos obrigacionistas agregados

Aproveitando a experiência acumulada do sistema de garantia mútua, propomos como mecanismo de reforço dos capitais permanentes uma Linha de Empréstimos Obrigacionistas. Cada empréstimo cobriria as necessidades de um conjunto de PME pré-selecionadas com base em perfis de risco similares e seria tomado como firme pela Banca, com garantia mútua de cobertura parcial do risco.

8 Incentivos ao dimensionamento empresarial

O acesso aos incentivos do próximo QREN a projetos de internacionalização e de inovação e I&D, deveria estar obrigatoriamente condicionado a requisitos de dimensão mínima. Caberia às empresas com apoio das suas associações encontrar a melhor forma de ganhar essa dimensão, optando ou pela constituição de redes de cooperação ou enveredando pelo caminho das fusões. Num e noutro caso, as estratégias poderiam alavancadas com a participação em capital de um Fundo de Fusões & Aquisições.

9 Compras agregadas de energia

Pesem embora os esforços de liberalização e de regulação dos mercados de energia, a oferta continua fortemente oligopolizada. As empresas consumidoras especialmente as PME defrontam-se com esta realidade e apresentam-se sem qualquer poder negocial. Propomo-nos assim lançar a iniciativa AGRUPAR, agregando previamente necessidades de diversas empresas de consumos de energia elétrica ou de gás empresas e lançado posteriormente um leilão aberto para se obter melhores condições de preço e de fornecimento.

10 Valorizar a oferta nacional no mercado interno

O apelo ao consumo de produtos fabricados em Portugal deverá ser promovido já que poderá propiciar aumento de quotas num mercado que vai continuar com procuras em queda ou estagnação, através do relançamento de programas como o Portugal Sou Eu ou através de um sistema de compras públicas que favoreça os produtos e soluções inovadoras oferecidas pelas PME nacionais.

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INFORMAÇÃO ECONÓMICA

Uma projecção do processo de ajustamento da economia portuguesa com base em mecanismos de mercado Síntese do estudo de Francesco Franco* Estudo mandado elaborar pela AIP

Este trabalho tem como objectivo estimar a trajectória para a economia portuguesa, baseada no mecanismo de mercado conhecido por “desinflação competitiva” ou “desvalorização interna” que opera quando um país faz um processo de ajustamento dos desequilíbrios externos, numa zona de moeda única ou num sistema de taxa de câmbio fixa. O postulado mecanismo baseia-se na pressão exercida pelo desemprego no sentido da descida de salários e preços, que por sua vez recupera a competitividade, e pode ser descrito do seguinte modo: a perda de competitividade e a deterioração da balança comercial conduz a um aumento do desemprego; o aumento do desemprego pressiona a descida dos salários nominais; a descida dos salários nominais reduz o nível geral dos preços; a redução do nível geral dos preços conduz a uma melhoria da competitividade; a melhoria da competitividade reequilibra a balança comercial e a balança corrente; o aumento das exportações diminui a taxa de desemprego. Este trabalho estima a velocidade do ajustamento deste mecanismo de mercado e apresenta projecções de referência para: Taxa de desemprego (INE) -μ Inflação (deflator do PIB) - π_p Variação das remunerações do trabalho (taxa de variação anual do rácio entre o total das remunerações e o número total de empregados) - π_w  Taxa de câmbio real (REER-Real Efective Exchange Rate, baseada no deflator do PIB) -ε No trabalho, tendo em vista o objectivo referido, descreve-se a metodologia seguida no exercício que, partindo de uma classe de modelos DGSE (Dynamic Stochastic General Equilibrium), apresenta a especificação de um modelo microfundamentado (a New Keynesian model of a small open economy within a currency union). É caracterizada a resposta deste modelo económico a vários choques únicos e não antecipados – de produtividade, taxa de juro, oferta de trabalho e consumo externo. São referidas, no exercício empírico, as simplificações feitas neste modelo (motivos de operacionalidade, e dificuldades postas pela pequena dimensão das amostras de dados reais disponíveis) bem como o caminho seguido até aos modelos estimados. São estimados modelos para o nexo “desemprego-competitividade” (modelo

30 Ne- Negócios & empresas fevereiro 2014


I), para o nexo “remunerações-desemprego” (modelo II) e para o nexo ”inflação-remunerações” (modelo III). As projeções para as trajectórias do desemprego, competitividade e inflação são referidas na figura I. O ponto de partida da simulação é a situação da economia no quarto trimestre de 2011. Estas projeções têm como premissas que a estrutura da economia não muda e que não ocorrem outros choques (políticas, externos, etc.).

Embora os ajustamentos implícitos nos modelo I e II sejam grandes, a taxa de desemprego actual aumentou acima das projeções, como se constata pela trajectória prevista para a taxa de desemprego em comparação com a série actual (Figura II). Isto pode indicar que choques desfavoráveis e políticas continuaram a afectar a economia, ou que o ritmo de ajustamento durante esta crise é mais rápido do que o estimado indicando uma possível instabilidade dos parâmetros, ou a combinação destas causas.

Figura I - Caminho projectado em cada um dos três modelos MODELO 1

0.35 0.3 0.25 0.2 0.15 0.1 0.5 0

01

02

0

30

40

0.7 0.6 0.5 0.4 0.3 0.2 0.1 0

01

02

0

30

40

MODELO 2

0.45 0.4 0.35 0.3 0.25 0.2 0.15 0.1 0.5 0

01

0 -0.2 -0.4 -0.6 -0.8 -1 -1.2 -1.4 -1.6

02

0

30

0 -0.1 -0.2 -0.3 -0.4 -0.5 -0.6 -0.7 -0.8 -0.9 01 40

requererá um aumento do desemprego de cerca de 4.4 p.p. nos primeiros 20 trimestres e de aproximadamente 6.0 p.p. após 40 trimestres. O modelo II prevê um ajuste semelhante, mas mais forte para a taxa de desemprego, de 5,6 pontos p.p. após 20 trimestres e de cerca de 7.9 p.p., após 40 trimestres. O ajustamento projectado para a competitividade é de 6.6 p.p. após 40 trimestres e para o mesmo período a projecção para a variação das remunerações é de entre – 16.0 p.p. (modelo I).

MODELO 3

02

0

30

40

02

0

30

40

Figura II - Desemprego – Caminhos projectado e observado

0 -0.2 -0.4 -0.6 -0.8 -1 -1.2 01

02

0

30

40

-1.4

01

A primeira coluna (modelo I) mostra a trajectória projectada para a variação da taxa de desemprego (expressa em taxas trimestrais) e da REER (também expressa em taxas trimestrais). Note-se que a trajectória projectada para a variação no desemprego utilizando o modelo II, embora maior, não difere substancialmente da trajectória implícita no modelo I. O mesmo se aplica para a trajectória associada à variação das remunerações do trabalho usando os modelos II e III. O ajustamento acumulado projectado para os próximos 20 trimestres (5 anos) e próximos 40 trimestres (10 anos) consta do quadro I.

Quadro I - Ajustamento acumulado depois de 20 e 40 trimestres

A interpretação dos resultados requer cautela. Os desafios colocados pela disponibilidade de dados e por questões metodológicas são importantes. As estimativas mostram que dinâmicas coerentes com o mecanismo postulado estão presentes nos dados. Um aumento do desemprego melhora a competitividade, e, esta por sua vez, diminuirá o desemprego. Reconhecidamente a última força parece ser mais fraca do que a primeira, implicando que a melhoria da competitividade só lentamente se traduzirá em melhoria do desemprego. De um modo geral o ajuste exigido é grande e persistente, reflectindo a relativa baixa velocidade do mecanismo de ajustamento e os grandes desequilíbrios iniciais. Obviamente acontecerão choques e serão implementadas políticas e o caminho actual será diferente. No entanto, as projecções podem ser interpretadas como um caminho contrafactual, na ausência de novos choques e políticas e, portanto, poderem servir de orientação na elaboração de políticas visando o ajustamento do reequilíbrio externo.

Em presença dos actuais desequilíbrios, no modelo I prevêse que no nexo “competitividade-desemprego” o ajustamento

*Versão original do estudo e tradução para português, da responsabilidade da Direcção de Economia da AIP, estão disponíveis a pedido (Fevereiro, 2013)

fevereiro 2014 Ne - Negócios & empresas

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actualidade empresas clipping Inseticidas portugueses vão proteger fruta e café no Brasil, em 2014

Mendes Gonçalves: a fábrica dos temperos de Portugal Há mais de 30 anos com o enfoque na inovação como estratégia de diferenciação

l

Mendes Gonçalves é actualmente uma das maiores empresas produtoras de vinagres e molhos da Península Ibérica. De cariz familiar, a empresa, fundada em 1982 na Golegã, conta com mais de 140 colaboradores. Com três marcas próprias - Paladin, Creative e Peninsular -, a Mendes Gonçalves produz vários tipos de temperos: vinagre, mostarda, maionese, ketchup, molhos e piri-piri e distribui alguns produtos alimentares para a restauração. Representa ainda algumas marcas exclusivas de produtos gourmet. A Paladin é a primeira marca de temperos a certificar os seus produtos com o selo “Portugal Sou Eu”. Em termos de aquisição de matérias-primas, a Mendes Gonçalves dá preferência aos produtos provenientes da zona. O figo é um bom exemplo já que a empresa acolhe grande parte da produção da zona de Torres Novas para a produção de vinagre. Piri-piri com fruta e vinagres com polpa - são algumas das propostas inovadoras de

A

32 Ne- Negócios & empresas fevereiro 2014

sabor desta marca localizada na Golegã, que anualmente desenvolve mais de 200 produtos. A aposta na inovação, em fórmulas, packaging ou rotulagem do produto, suscitou interesse de empresas multinacionais, como foi o caso da McDonalds. Já em 2011, o vinagre de figo em spray da Mendes Gonçalves foi o produto mais inovador e com maior sucesso do mercado português, segundo as grandes cadeias de distribuição em Portugal, no âmbito do prémio SIAL D’or. No ano passado a Mendes Gonçalves obteve um volume de negócios de 17 milhões de euros, mais 13 % do que os 15 milhões registados no período homólogo de 2011. Este ano prevê um crescimento de 20%. Com mais de 2.000 produtos no mercado, a Mendes Gonçalves já exporta os seus temperos para mais de 20 países (Angola, Espanha, Argélia e Canadá, entre outros) e a tendência é de crescimento. As vendas internacionais já representam 30% da facturação da empresa. Em 2016/2017 espera que a internacionalização chegue pelo menos aos 40% da facturação. A Mendes Gonçalves já foi premiada como PME Líder (atribuído pelo IAPMEI), integrou a lista de empresas inovadoras da Rede PME Inovação e ficou entre as 100 Melhores Empresas para Trabalhar em Portugal.

lll A Sapec produz tudo em Portugal mas factura 65% lá fora. Com o Brasil e talvez Moçambique, as vendas no exterior chegam aos 80%. A Sapec Agro, que hoje se dedica exclusivamente ao fabrico de agroquímicos, já tem 65% das vendas de cem milhões de euros em Espanha, Itália e França, mas prepara-se para dar mais um passo na internacionalização. O Brasil foi o local escolhido, um mercado que vale 8,7 mil milhões de euros e para onde a empresa vai começar a exportar em 2014, avançou o administrador executivo, João Estrela (In Dinheiro Vivo)

Somague ganha obras de 176 milhões de euros em Moçambique lll Somague assinou esta semana o contrato de adjudicação de duas obras em Moçambique para o conglomerado industrial brasileiro Vale do Rio Doce, no valor conjunto de cerca de 176 milhões de euros (cerca de 228 milhões de dólares). (In Diário Económico )

Moneris apoia empresas em Moçambique lll Rui Pedro Almeida, CEO da Moneris, avança a estratégia de internacionalização deste grupo português, que recentemente abriu um escritório em Maputo, onde acompanha as empresas em todas as áreas relacionadas com a atividade de gestão financeira. (In oje)

Grupo Rangel investe no negócio farmacêutico lll O grupo Rangel vai

investir mais 1,2 milhões de euros no negócio farmacêutico. O projeto assenta no reforço da


automatização dos processos de “picking” e de “sorting” de encomendas até ao final do ano. Está previsto também o alargamento das instalações logísticas da Rangel Pharma no Montijo. (In Vida Económica)

Gallo Worlwide duplica capacidade de produção da fábrica de Abrantes lll A fábrica de azeites Gallo

inaugurou em Abrantes uma nova linha de produção, destinada a reforçar a presença do grupo nos mercados internacionais. O reforço representou um investimento de oito milhões de euros nesta unidade que possibilitou o reforço do número de colaboradores para 120 funcionários, duplicar a capacidade de embalamento de azeite e reforçar a dinâmica exportadora, avançou a Lusa. (In Diário Económico)

Sumol+Compal investe em Moçambique lll Empresas portuguesa aplica 8 milhões de euros neste país e espera exportar 70% do que ali vai produzir para mercados vizinhos. Só falta estimar o prazo de retorno do investimento. (In Expresso)

Grupo Ascendum investe 12 milhões para entrar no Dacota do Norte

lll O grupo Ascendum chegou a acordo com a Swanston Equipment para a aquisição dos direitos de distribuição da Volvo Constructions Equipment no Estado de Dacota do Norte, em 17 condados do Estado do Minesota, nos EUA. Esta operação envolveu um investimento de 12 milhões de euros num mercado que vale 600 milhões de euros. Ricardo Mieiro, presidente da comissão executiva, disse que esta operação pode representar 20% do total da facturação da Ascendum nos EUA. (In Diário Económico)

Efacec ganha encomendas de dez milhões de euros para eléctrica do Bahrain

(…) A companhia é hoje a maior exportadora nacional de cerâmica de mesa, em parte graças à especialização de quadros técnicos. (In Dinheiro Vivo)

lll A Efacec concluiu o

fornecimento de sistemas integrados de automação, protecção e controlo de 50 subestações no Bahrain, obra que valeu 10 milhões de euros, avançou em comunicado o grupo eletromecânico português.

(In Diário Económico)

Almadesign aposta na inovação no sector dos transportes.

Adegas portuguesas abrem delegação na China para aumentar exportações

lll A Fenadegas, que congrega

56 adegas cooperativas e três uniões de cooperativas portuguesas, abriu uma delegação na China, um mercado para onde prevê exportar 1,5 milhões de euros este ano.

(In Diário Económico)

lll Empresa está desenvolver

soluções inovadoras a nível mundial para o interior de aviões, comboios e autocarros. A estratégia “trilogia da inovação” da Almadesign” resulta do objectivo de aproveitar a experiência da empresa no sector dos transportes e as sinergias existentes entre os diferentes modos - aeronáutico, ferroviário e rodoviário - para desenvolver soluções inovadoras a nível mundial para interiores de cabina de avião, comboio e autocarro, utilizando um modelo de open innovation. (…) Cerca de 60% das actividadaes desenvolvidas na Almadesign, são actividades de IDI – Investigação Desenvolvimento e Inovação. (In Diário Económico)

MatCerâmica. A empresa portuguesa que está a conquistar a China lll A introdução de tecnologias

modernas e o desenvolvimento de um design próprio abriram muitas portas à empresa de cerâmica de S. Mamede. Hoje vende tudo o que produz para fora do país. (…) A MatCerâmica conta com 450 trabalhadores. No ano passado atingiu um volume de negócios de cerca de 12 milhões de euros. (…) A empresa vende para fora tudo quanto produz. Europa e EUA, mas também Qatar, Egipto, Índia, Brasil e China são já mercados.

Unicer inaugura projeto de 20 milhões de euros lll A Unicer inaugurou

oficialmente o Pedras Salgadas Spa & Nature Park em julho, num investimento de 20 milhões de euros. O projeto da cervejeira, que implantou 12 pequenas casas para alojamento turístico no centenário parque termal de Pedras Salgadas, está a dinamizar o comércio e restauração locais (In oje)

pequenos agricultores a escoar toda a produção, informou a empresa. (…) A empresa garante “uma cadeia de escoamento, experiência de venda no estrangeiro e espaço para produzir, embalar e congelar” produtos como a amêndoa, azeitona ou a mais variada fruta. A estratégia passa, para já, por criar uma rede de pontos de venda nos grandes mercadores abastecedores do país. (In oje)

A maior protecção a altas temperaturas lll A SetLinings tem 250 cola-

boradores fixos, mas em picos de trabalho chega a 1500, em Portugal e no estrangeiro. É para fora que vende, aliás, quase tudo quanto produz, tendo conseguido uma faturação de 32 milhões de euros em 2012. A SetLinings fornece e instala materiais refratários, utilizados para proteger equipamentos industriais a altas temperaturas. (…) Empresa da Moita é uma das três maiores do mundo. (In Diário Notícias)

Unidade autónoma de gás natural permitirá poupança de 4 milhões euros Grupo Lena com carteira de lll A Tagusgás inaugurou dia 27 superior a 2,3 mil de Novembro, em Coruche, a maior milhões na Venezuela unidade autónoma de gás natural

lll O grupo Lena dispõe actualmente de uma carteira de encomendas na Venezuela num valor superior a 2,3 mil milhões de euros. Este montante foi conseguido com o último contrato assegurado pelo grupo construtor português, para a construção de mais 12 mil apartamentos e fábricas naquele país. (In Diário Económico)

Sortegel alarga negócio para apoiar agricultores lll A maior transformadora e exportadora de castanha, a Sortegel, de Bragança, está a alargar a área de negócio a outros produtos agrícolas com a promessa de ajudar os

do país, um investimento superior a um milhão de euros que poderá representar uma redução total de quatro milhões de euros/ano na fatura energética de cinco empresas. A inauguração, que contou com a presença do ministro do Ambiente, do Ordenamento do Território e da Energia, Jorge Moreira da Silva, assinalou formalmente o arranque do abastecimento, inicialmente a duas empresas - a açucareira DAI e a corticeira Amorim -, estando em curso negociações para a ligação a outras três empresas instaladas na Zona Industrial do Monte da Barca, em Coruche - a Atlantic Meals, a Amorim e Irmãos e a Arrozeiras Mundiarroz.

(in Lusa)

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programas de apoio

Mais Indústria + Produtividade

Modelo KAIZEN aplicado às PME industriais aumenta eficiência produtiva Grandes empresas já testaram a eficácia do modelo Kaizen, que significa melhoria contínua em japonês, obtendo resultados positivos na gestão diária. Agora, é a vez das PME industriais aplicarem esta metodologia de trabalho para aumentar a sua eficiência produtiva. Empresas do Centro e Norte do país e de vários setores de atividade como o metalomecânico, têxtil, máquinas e equipamentos e químico rendem-se às potencialidades do projecto “Mais Indústria + Produtividade”. Direcionado essencialmente a PME industriais e apoiado pelo QREN, o projecto – que teve o seu início em Junho de 2013 e encerrará em Dezembro de 2014 –, conta com 1,3 milhões de euros e tem um financiamento médio de 50% para as empresas aderentes. Reconhecido nas Estratégias de Eficiência Coletiva do PRODUTECH – Pólo de Competitividade das Tecnologias de Produção, permite às pequenas empresas (até 49 trabalhadores) ter uma majoração de 5% na taxa de incentivo. O modelo de intervenção é suportado nas metodologias Lean Manufacturing, nomeadamente através da aplicação de ferramentas de melhoria contínua KAIZEN, conducentes à reestruturação e otimização dos processos produtivos, permitindo a definição e implementação de soluções de melhoria ao nível dos fluxos físicos e informativos, propiciando processos de transformação global nas organizações. O KAIZEN tem sido amplamente seguido e implementado internacionalmente nos mais diversos setores, com excelentes resultados ao nível das melhorias operacionais, inclusive, ao nível dos serviços, sobretudo na grande distribuição, banca e saúde. A filoso-

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fia KAIZEN parte do princípio que é sempre possível fazer melhor, seja na estrutura da empresa, seja ao nível do individuo e do seu posto de trabalho. Trata-se de um processo diário, contínuo, cujo objetivo vai para além do aumento da produtividade. Quando corretamente implementado e seguido, humaniza o ambiente de trabalho, envolvendo e incentivando os colaboradores a identificar e eliminar desperdícios no negócio, ou seja, tudo o que não acrescenta valor à organização. O modelo de intervenção KAIZEN, apesar de pressupor uma abordagem de melhoria contínua de longo prazo, adota metodologias de identificação e resolução de problemas que originam soluções no curto prazo, possibilitando rápidas tomadas de decisão. Ao eliminar na organização o que não acrescenta valor na cadeia de fornecimento, liberta recursos para o desenvolvimento e concessão de novos produtos e serviços, potenciando a inovação empresarial.

Três opções de adesão

O projecto comporta três opções de adesão: uma, ao nível do diagnóstico, e duas, no respeitante à implementação. Ao nível do diagnóstico é proposto o desenho da visão do

fluxo produtivo, plano de implementação detalhado com responsáveis e “timings”, e uma estimativa do retorno esperado do projeto. A fase de diagnóstico incorpora uma análise ABC por quantidades e valores das referências produzidas e características das encomendas, levantamento dos métodos e tempos, análise de “layouts”, principais parâmetros de processo e meios de produção, armazenagem e movimentação. Após o mapeamento da situação atual de cada empresa, determinam-se os principais problemas que afetam a eficiência das operações de forma quantificada e apresenta-se a descrição de todas as oportunidades de melhoria na cadeia de valor. As duas opções que contemplam a fase de implementação diferem sobretudo na carga horária disponível para o efeito. A opção Coaching destina-se a empresas com fluxos produtivos menos complexos e a opção Total Management a organizações de maior dimensão e complexidade nas operações. As soluções a implementar incluem normalização de movimentação de materiais, criação de fluxo, normalização de métodos de trabalho, redução de tempos de “set-up” das máquinas, diminuição de “stocks” de matérias-primas e produto acabado, eliminação das causas de produtos não conformes e simplificação dos processos de planeamento da produção. A operacionalização do projeto efetua-se através da criação dos “GembaKaizen” “workshops”, que significa melhoria no terreno e que permitirão realizar as transformações e atingir os resultados pretendidos. Para o desenvolvimento do projeto, a AIP estabeleceu uma parceria com o Kaizen Institute Consulting Group, fundado por Masaaki Imai, criador do modelo e das ferramentas de melhoria contínua Kaizen. Serão organizadas sessões de demonstração com apresentação dos resultados alcançados e visita às instalações onde o projeto incidiu, com a participação de entidades externas, nomeadamente instituições públicas, clientes e fornecedores das empresas. Os resultados que as empresas irão alcançar com a participação no “Mais Indústria + Produtividade” serão disseminados por uma vasta comunidade empresarial, com a produção de um “kit de demonstração” por empresa que inclui um vídeo com filmagens realizadas antes e após a implementação do projeto, ilustrando as transformações ocorridas e uma brochura com a descrição da intervenção e os principais indicadores de impacto.


PUBLIREPORTAGEM

marcas: Diferenciar e valorizar Vender um produto ou serviço com marca é a forma de uma empresa se distinguir da concorrência, sendo um elemento crucial no modo como esta se apresenta no mercado e potencia as margens de lucro. Mais do que uma questão de prestígio, ter marcas próprias mostra ao mercado “estou aqui para ficar!”. Constata-se que, hoje em dia, é rara a empresa que não atribui marcas aos seus produtos ou serviços, por exemplo, actualmente muita da fruta está assinalada por uma marca. É cada vez mais uma estratégia para transmitir confiança ao consumidor e fidelizá-lo. Por outro lado, sob o aspecto legal, ter a marca registada é a única forma de impedir terceiros de utilizar a imagem ou designação dessa marca na classe de Nice em que foi registada, sendo a garantia da exclusividade comercial e o modo de proteger o negócio contra imitações e outros actos de concorrência desleal. Em suma, é a forma de impedir a concorrência de comercializar produtos com iguais ou semelhantes sinais distintivos. Porém, para além de todos estes benefícios que a propriedade de uma marca proporciona, há uma característica menos notória: a marca é um bem intangível do seu titular, cujo registo pode ser renovado indefinidamente ou sem limite de tempo. Numa linguagem mais simples poderá mantê-la/ conservá-la perpetuamente, sendo um bem passíEnquanto que o de ser avaliado e incluído no balanpatrimónio físico vel ço, como activo da empresa, podendo de uma empresa também ser negociado, vendido e/ou está dentro licenciado a terceiros. A marca pode ser avaliada sozida empresa, nha, independente de qualquer outro o património activo, sendo um património por si da marca está mesmo. Além de elevar consideravelno mercado e mente o valor final de uma empresa, um incremento patrimonial no balanço essencialmente aumenta o património de forma efecna mente das tiva e melhora a imagem financeira da pessoas. empresa perante fornecedores e instituições financeiras, especialmente quando se negoceia financiamentos. A grande diferença: enquanto que o património físico de uma empresa está dentro da empresa, o património da marca está no mercado e essencialmente na mente das pessoas. Os métodos de avaliação de uma marca são diversos e muitas vezes subjectivos. A Norma Contabilística de Relato Financeiro 6 veio definir as regras a aplicar para os activos intangíveis. Porém, a directiva comunitária ISO 10668 é mais específica e tornou-se um guia internacional que aponta os métodos ideais de avaliação de marcas, garantindo a transparência e a autenticidade dos resultados. Assim, cada marca deve ser avaliada sob três áreas essenciais: - Avaliação legal efectuada por advogados especialistas em Propriedade Intelectual que verificam o enquadramento jurídico bem como quaisquer outros aspectos relevantes que possam influenciar o valor da marca ou as garantias dos direitos do seu proprietário.

- A força da Marca, atendendo ao princípio que é à lembrança das pessoas que o método de avaliação vai buscar parte do seu valor real. Neste item a marca é avaliada pela sua importância no mercado e pela proximidade com o público alvo, a sua presença verbal e visual nos seus mercados preferenciais, a lembrança racional e a emocional ao longo do tempo, o potencial de mercado dos seus produtos, a imagem projectada da marca e da empresa, a política de valorização da marca (marketing da marca), a gestão da empresa e outros factores que poderão ser específicos de determinada marca. - Análise Financeira em que são estudados os custos, investimentos e lucros do passado mas também os rendimentos projectados no futuro. Depois de devidamente avaliada, pelo método que mais se adaptar à situação, é emitido pelo avaliador um Certificado de Avaliação com o valor da marca. Ter consciência do valor da marca é útil não só para determinar com exactidão o património da empresa no balanço, mas também porque permite estabelecer uma base de negociação para vender marcas quando não há mais interesse comercial, elaborar cálculos de licenças para negociação de royalties, negócios de franchising, fusões, alianças estratégicas, licenciamento e exploração da marca por um agente ou parceiro comercial no estrangeiro ou, em casos de insolvências, auxiliar administradores de insolvências a inventariar todos os bens negociáveis. A valorização da marca é um passo que pode ser feito em qualquer altura do ciclo de vida da marca e repetido sempre que alterações significativas ocorram. Uma marca é um elemento potenciador de riqueza, avaliar uma marca é reconhecer esse valor.

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empresa em destaque Grupo MatosGest SGPS

“Histórico” dos moldes lança ofensiva a novos mercados e produtos Rigor no processo produtivo, inovação tecnológica, oferta de vasta gama de artigos, satisfação das necessidades dos clientes e procura de novos mercados é o “modus operandi” do Grupo MatosGest SGPS, da Marinha Grande, um dos pioneiros do sector dos moldes em Portugal.

N l

o parque de estacionamento que envolve parte da fábrica Plimat, sediada na zona industrial da Marinha Grande, alguns vestígios de actividade laboral anunciavam a azáfama da manhã. Sobre a relva dos canteiros, um homem, em mangas de camisa, trocava algumas palavras com outro, que segurava um ancinho. Tranquilo, Joaquim Domingues Matos, fundador e administrador do Grupo MatosGest SGPS, despede-se do jardineiro e prepara-se, ainda no exterior do edifício, para encetar mais uma narrativa da sua obra e existência. “Estou a tentar dar um outro aspecto aos exteriores”, diz, orgulhoso e com a descontração de quem se sente bem no “Outono da vida”: “São já 81 anos, dos quais mais de 70 a trabalhar!...”. Sem delongas, Joaquim Matos anuncia aquele que será o seu próximo feito: “Vamos investir ainda este ano cerca de dois milhões de euros na Plimat com a compra de novos equipamentos produtivos, por forma a aumentar a qualidade e diminuir o desperdício, e na Plimex construiremos uma nova unidade fabril em 2014/2015”. “Empresário em construção” – imagem que assume e o caracteriza – de um pioneiro na indústria dos moldes e dos plásticos, que iniciou em 1968, consolidou durante mais de quatro décadas e continua a expandir, Joa-

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quim Matos (“Quimatos” para os conterrâneos) é uma “força da natureza”, “amparado pelo talento e dedicação” dos seus três filhos, Isabel, Paula e Miguel Matos, administradores das empresas que integram este grupo familiar: Plimat – fabricação de artigos em plástico - acessórios de canalização; Molde Matos – fabricação de moldes para plástico; Plimex – produção de válvulas; e Matosplás – transformação/injecção de plástico.

O “berço” das fábricas do grupo

Joaquim Matos deu os primeiros passos no mundo laboral aos nove anos de idade, trabalhando primeiro no vidro, na olaria da família e na serralharia e, mais tarde (década de 50), na indústria de moldes para plásticos, na Marinha Grande, onde começou com 18 anos de idade, na fábrica “Aníbal H. Abrantes”, pioneira no sector, seguindo-se a do seu tio, a “Edilásio Carreira da Silva”. “Fiz o primeiro molde exportado por Portugal e pela fábrica “Aníbal H. Abrantes”, com o meu amigo José Feliciano, para uma boneca, projecto que demorou nove meses e foi totalmente executado à mão”, recorda Joaquim Matos, sublinhando o carácter “inovador” da empresa e do seu mentor, “uma autêntica escola” que lhe permitiu “aprender e desenvolver” o ofício “a um ritmo invulgar para a época”.


bi da empresa Empresa: Plimat – Plásticos Industriais Matos, SA Sede: Zona Industrial da Marinha Grande Área de actividade: produção especializada de artigos em plástico/acessórios de canalização Detentora das marcas: Plimat Número de colaboradores: 86 Início de actividade: 1978 Facturação em 2012: 12.400.041€ Previsão da facturação no final de 2013: 13.200.000€ Quota de exportação: 76% Clientes principais: Sorodist CM, Bevo Vertriebsges MBH, Bosta B.V., Cablerie d’Eupen SA e Comercial e Industrial Plásticos (internacionais); Plimex, Manuel da Silva Henriques, Matoplas SA, Nicolau & Rosa Lda e Gustavo Cudell Lda (nacionais) Encomendas em carteira: 425.000€ Mercados: Cerca de 50, com França, Alemanha, Bélgica, Reino Unido, Holanda, Chile e Rússia à cabeça (incluindo Portugal) Factores de diferenciação: Boa relação qualidade/preço Investimentos recentes/impacto: 2% facturação Projectos para o futuro: Apostar nos próximos anos no incremento das relações comerciais com os mercados da América Latina e Europa de Leste, com o objectivo de alcançar um aumento global do volume de negócios em média 5% ao ano; ampliar a área coberta e adquirir máquinas de última geração; construir uma nova nave de armazém informatizada para distribuição das produções das fábricas. Empresa: Plimex – Plásticos Industriais, S.A. Sede: Ordem, Marinha Grande Área de actividade: Injecção de plásticos Detentora das marcas: Plimex Número de colaboradores: 32 Início de actividade: 1999 Investimento inicial: 500.000 € Facturação em 2012: 2.036.986 € Previsão da facturação no final de 2013: 2.100.000 € Clientes principais: Plimat- Plásticos Industriais , S.A. Factores de diferenciação: A Plimex é a única empresa portuguesa especializada na produção de válvulas de alta qualidade em matéria plástica (PVC, PP, ABS) para a condução de água potável e outros fluídos. As válvulas são testadas e controladas em laboratório e concebidas de acordo com as normalizações fevereiro 2014 Ne - Negócios & empresas

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empresa em destaque Grupo MatosGest SGPS

Já na fábrica do tio Edilásio, considerado um mestre na arte dos moldes para vidro, o jovem aprendiz assinala uma nova etapa na sua carreira. A empresa, que não trabalhava para a exportação, acabaria por se estrear no mercado externo, em parte devido à audácia e engenho de Joaquim Matos. “Seis meses depois, conheci Alfredo Brites, de Leiria, que tinha familiares nos EUA os quais, por sua vez, me proporcionaram o contacto com a “Hasbro Inc”. Fiz o primeiro molde, do brinquedo “Magic Cutter”, que era tão barato que ninguém acreditava que trabalhasse…”. Joaquim Matos continuou a fazer “magia”. Galvanizou os companheiros – “alguns surpreenderam-me pela qualidade e habilidade”, recorda –, e foi aprender inglês no Instituto Britânico, em Leiria, “para melhor dialogar com o sr. O’Connor”, um “humanista e sábio” que, entretanto, conhecera, e lhe abrira portas, na “terra do tio Sam”, e com quem “cresceu e se enriqueceu, profissional e culturalmente”. Depois de ter conquistado o fabricante de brinquedos e jogos norte-americano, “as encomendas multiplicaram-se” (inclusive com o “G.I. Joe”, boneco que representava o soldado americano e que mais tarde foi substituído pelo célebre “Action Man”), dinamizando também outras fábricas portuguesas, “trazendo para Portugal, por muitos anos, centenas de moldes e milhões de dólares”, mas também “exigindo uma nova organização e metodologia” no sector: “Criei normas e regras que definiam todas as tarefas a executar na concepção de todas as partes do molde, e atribuí-lhes um número e nome, com tolerâncias específicas para cada operação. Em 100 moldes produzidos, 95 eram bem executados logo à primeira. Isto há cinco décadas!”

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O trabalho de sistematização dos processos e normalização do produto não lhe dava tréguas. A procura, incessante, por mais e melhor conhecimento, levou Joaquim Matos a procurar outros empresários do sector que “já possuíam uma lista numérica de algumas partes do molde”. Cruzou a informação, completou-a e consultou tabelas de conversão e normas internacionais. “Numerei todas as cavidades, buchas, movimentos e todos os acessórios que compõem o molde; e mandei, inclusive, desenhar cada peça para melhor facilitar a compreensão da mesma”, conta, revelando o brio que sente pelo trabalho que fez, “difícil e complexo”. Estavam lançados os alicerces para assumir novo desafio: a criação, com o irmão Arnaldo Domingues Matos, da sua primeira empresa, a Molde Matos, em 1968, que, até à data, se tem dedicado à produção de moldes para a indústria de plásticos, com aplicação no fabrico de componentes para automóveis, electrodomésticos, brinquedos, embalagens, tubagens, utilidades domésticas e electrónica diversa, entre outros.

Plimat, a “jóia” do império

“Jóia” do grupo, a Plimat foi fundada dez anos depois da Molde Matos, por Joaquim Matos e o seu irmão Arnaldo. Dedica-se à transformação de matérias plásticas, e, principalmente, à fabricação de acessórios em plástico para canalizações com aplicação na construção civil, obras públicas, agricultura, entre outros. “Os conhecimentos técnicos, a experiência na produção de moldes e na moldagem de produtos em plásticos, a existência de uma empresa produtora de moldes [a Molde Matos], o conhecimento dos mercados,

nacional e estrangeiro, e a existência de uma oportunidade de negócio na produção especializada de acessórios de canalização em PVC, deram origem à Plimat”, explica Joaquim Matos. O negócio evoluiu e a empresa estruturou-se mediante as condições do mercado e através, nomeadamente, de aumentos de capital e da alteração do seu regime, de sociedade por quotas para sociedade anónima, em 1994. “Vencer a concorrência dos acessórios em ferro galvanizado” e “possuir um catálogo razoavelmente vasto que possibilitasse as sinergias entre os produtos e dessa forma enfrentar o mercado, interno e externo, com maior acuidade”, foram “dois desafios estratégicos” que a Plimat “enfrentou e teve de vencer”, refere Joaquim Matos. A evolução da empresa tem sido caraterizada por um “crescimento constante e equilibrado dos vários valores e indicadores, resultado de uma política estratégica centrada na investigação e desenvolvimen-


bi da empresa existentes. Estão entre as melhores que se produzem a nível mundial, no que respeita a qualidade Investimentos recentes/impacto: Nos últimos 2 anos, investimento na ordem de 1.000.000 € permitiu crescimento de cerca de 35% no Volume de Negócios. Projectos para o futuro: continuar a crescer de uma forma sustentada; construir uma nova unidade fabril com um investimento a rondar os 8.000.000€, que duplicará a área actual. Empresa: Molde Matos, SA Sede: Moita Área de actividade: Moldes para plástico Detentora das marcas: Molde Matos Número de colaboradores: 32 Início de actividade: 1968 Facturação em 2012: 1.690.706,42€ Previsão da facturação no final de 2013: 1.800.000€ Quota de exportação: 60% Encomendas em carteira: 1.000.000,00€ Mercados: Nacional; Bélgica, Inglaterra, Holanda, França e Espanha Projectos para o futuro: Requalificação com melhoria das instalações e aquisição de máquinas de alta qualidade.

to, bem como na qualidade”, releva o presidente do grupo. Atitude que pressupõe uma “filosofia de constante desenvolvimento de novos produtos e novos métodos organizativos, procura e exploração de novos mercados e a participação dos colaboradores na procura das soluções tecnicamente mais eficientes e eficazes para a empresa”.

Plimex, a criadora das “válvulas”

A Plimex foi fundada em 1999 e iniciou a sua actividade em Setembro de 2000. Surge da necessidade de dar respostas adequadas às exigências de mercado por parte da “empresa mãe”, a Plimat, tendo sido criada uma nova unidade fabril, separada geograficamente. Empresa especializada na produção de válvulas de alta qualidade para a condução de água potável e outros fluídos, a Plimex está fortemente vocacionada para a concepção e desenvolvimento de produtos que são devidamente estudados, testados e controlados em laboratório.

“Esta atitude permitiu alcançar uma posição cimeira no mercado português, sendo actualmente a única empresa portuguesa produtora de válvulas em matéria plástica (PVC, PP, ABS) e estando entre as melhores a nível mundial no que respeita à qualidade”, observa Joaquim Matos. Em 2001, nasce a Matosplás, empresa do grupo que “tem prestado um importante apoio na produção das nossas peças através da subcontratação, em especial, e, mais recentemente, com os programas de produção de “válvulas borboleta”, caixas para válvulas e o novo modelo de braçadeiras roscadas”, precisa. O projecto “válvulas borboleta” está orçado em 1 milhão de euros em moldes e constitui uma “novidade”, sobretudo pelas dimensões do próprio produto, explica Paula Matos, administradora da Plimex e do Grupo: “Foram projectados cinco modelos, dois já estão prontos e vão ser lançados brevemente, e os outros estão ainda em fase de finalização”.

Empresa: Matosplas – Indústria de Plásticos SA Sede: Moita Área de actividade: Transformação/ injecção de plástico Detentora das marcas: MPdrink Número de colaboradores: 24 Início de actividade: 2001 Facturação em 2012: 662.340 € Previsão da facturação no final de 2013: 800.000 € Encomendas em carteira: 700.000 € Mercados: Espanha, França, Dinamarca, Suíça e Luxemburgo Clientes principais: FERMOD e empresas do grupo (Plimat e Plimex) Investimentos recentes/impacto: Alargamento das instalações Projectos para o futuro: Expansão e diversificação da gama MPdrink; duplicar a área industrial nos próximos dois anos.

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empresa em destaque Grupo MatosGest SGPS

perfil Joaquim Matos O construtor de sonhos Filho dum revolucionário anarco-sindicalista, participante do 18 de janeiro de 1934, esteve também preso em Caxias “Nunca desisto, mesmo quando tenho tudo e todos contra mim”, vaticina Joaquim Matos, com a legitimidade que lhe emprestam as suas oito décadas de existência, e ao recordar um dos maiores pesadelos da sua vida profissional – “uma viagem aos EUA, com 19 voos, que durou 40 dias, em que nada vendi e que quase me matou; estive capaz de me atirar da janela do avião, mas não desisti!”. Considerado um dos empresários mais carismáticos da indústria de moldes da Marinha Grande, Joaquim Matos ainda sente a “pontada” causada por aquela digressão infernal. Debelado o susto, tenta, emocionado, embarcar numa outra viagem, algures entre os confins do homem e, como prefere dizer, do “construtor de sonhos”. “O que sou eu?” “Será que o que fiz, o que faço, enquanto empresário, me define?” A palavra, por ora, ainda pertence a Joaquim Matos, o empresário, que evoca certos “episódios marcantes”: “Contei, há poucos dias, 65 países visitados em trabalho. São centenas de voltas ao mundo! Estive preso em Caxias durante um mês por denúncias políticas baseadas em ciúmes profissionais, julgo que perpetradas por alguns colegas com quem trabalhava na fábrica do meu tio Edilásio. Cheguei a dormir com uma espingarda de caça no meu quarto durante o pós-25 de Abril, porque eu recebia ameaças contantes de alguns trabalhadores; a Molde Matos estava sem encomendas e sem dinheiro. Foi uma confusão, a minha vida estava um caos…”. “O que sou eu?” – Repete, na esperança de encontrar acolhimento no olhar dos seus filhos, que o acompanham nas memórias. “Não sou ateu, li bastante, desde temas como

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Estive preso em Caxias durante um mês por denúncias políticas baseadas em ciúmes profissionais Cheguei a dormir com uma espingarda de caça no meu quarto durante o pós-25 de Abril, porque eu recebia ameaças contantes de alguns trabalhadores; a Molde Matos estava sem encomendas e sem dinheiro “Criei um certo gosto por quadros e comecei a comprar alguns. Tenho à volta de 200”

a Inquisição até literatura sobre outras religiões; considero-me um social-democrata de esquerda; e penso que sou uma boa pessoa.”

“Longe das ‘letras’ e dos moldes”

“Dia e noite a trabalhar”, Joaquim cede à demanda do espírito, que precisa de ser aliviado da tensão e ansiedade causadas pela vida empresarial. E encontra na caça a escapatória, interesse que mantém há cerca de 40 anos. Mas, avisa, “sou um “caçarreta” e não um caçador”: “Antigamente ia para Moura, no Alentejo, às duas da manhã e voltava no mesmo dia. Agora caço numa coutada, somos uma dúzia de sócios numa casa com 12 quartos e uma cozinheira disponível sempre que lá vamos. Assim, apanhamos sempre caça: lebres, perdizes, coelhos, javalis… É uma coisa extraordinária quando nos deparamos no meio do montado, nem está frio nem está calor, estou longe de tudo, não há ‘letras’, não há moldes, não há plásticos… só pássaros a cantar”. Também com o mesmo efeito redentor, a pintura começa a ocupar espaço nas suas preferências desde cedo, quando entrou na escola industrial, onde conheceu um colega no curso de vidraria que lhe falava de alguns dos mais célebres pintores: “Criei um certo gosto por quadros e comecei a comprar alguns. Tenho à volta de 200, espalhados pela minha casa e pelas empresas, mas de pintores desconhecidos e outros até anónimos. Só compro os que me dizem algo, ou porque me recordam o país que visito. É extraordinário olhar para alguns deles como, por exemplo, para os que retratam as montanhas da Ucrânia e do Cazaquistão”.


“A nossa estratégia centra-se na inovação” lll Nos próximos dois anos, a implementação de uma “política de proximidade e interação constante com os clientes” conduzirá ao “incremento das relações comerciais com os mercados da América Latina e Europa de Leste”, prevê o administrador que classifica “a Plimat, assim como a Plimex”, como “fábricas muito boas”. Na Plimat, assim como nas restantes empresas do grupo, o volume de negócios tem aumentado este ano, face a 2012. A que é que se deve este crescimento? Vencemos a concorrência dos acessórios em ferro galvanizado com um vasto catálogo diversificado de produtos, introduzimos fatores de diferenciação em cada peça que lançamos no mercado, praticamos uma política de gestão assente na qualidade, rigor, precisão e investigação. Temos promovido, nomeadamente na Plimat, uma política de investimentos anuais, entre os quais destaco a aquisição, este ano, de vários equipamentos industriais, entre os quais dois refrigeradores, que permitirão aumentar a qualidade e diminuir o desperdício. As duas últimas décadas foram marcadas por fortes investimentos. Entre 1990 e 1992 construímos novas instalações na zona industrial da Marinha Grande, e mais tarde, por volta de 2004, estas instalações foram ampliadas com a duplicação do espaço de armazém, o que possibilitou um significativo aumento da capacidade produtiva. Apetrechamos ainda o laboratório com um vasto conjunto de equipamentos, robotizamos parte da produção. Posteriormente, e mais uma vez, ampliamos a capacidade do laboratório, com a aquisição de novos equipamentos. Instalamos dois silos exteriores de matéria-prima, procedemos à semi-automatização do processo de composição e à aquisição de dois silos, que permitiram a alimentação directa de material granulado às máquinas de maior tonelagem e um melhoramento da qualidade ambiental, no que diz respeito à ausência de desperdício e à melhoria significativa do meio ambiente. A par destes investimentos, o investimento anual em novos moldes atingiu, nos últimos quatro anos, uma média de 877 mil euros. Enfim… Posso dizer que as empresas do Grupo são efetivamente boas.

Actualmente a exportação é responsável por 76% da facturação da Plimat. Como antevê os próximos tempos numa altura em que o mercado, quer o nacional quer o internacional, se apresenta cada vez mais difícil? A nossa aposta para os próximos dois anos centrar-se-á no incremento das relações comerciais com os mercados da América Latina e Europa de Leste, com o objectivo de alcançar, nesse período, um aumento global do volume de negócios na ordem dos 10%. A nossa estratégia continua a centrar-se na constante inovação e crescimento das gamas de produtos oferecidos aos clientes, introduzindo todos os anos novos produtos no mercado e adequando-os às necessidades dos clientes. É o resultado de uma política de proximidade e interação constante com os clientes. Temos um catálogo actual com mais de 3.000 produtos, a serem vendidos para um universo de mais de 300 clientes, sobretudo do mercado internacional, facto que também contribuiu para que tivéssemos atingido esses saudáveis 76 por cento do volume de negócios. A factura do preço da electricidade é pesada para as empresas portuguesas, colocando-as em desvantagem em relação aos seus concorrentes mais directos. Como é possível contrariar este obstáculo à competitividade? Iniciamos, em 2012, a auditoria energética, com o objectivo de concebermos um plano de racionalização de consumos de energia, tendo em vista a diminuição dos mesmos em cerca de 10%. Para o efeito, a Plimat irá enfrentar a curto prazo investimentos na ordem de 250 mil euros e a médio prazo investir na substituição de vários equipamentos com melhor eficiência energética. Penso, no entanto, que as empresas deveriam ser apoiadas quanto aos custos da electricidade, o que lhes permitiria adquirir mais equipamentos, contratar mais mão-de-obra especializada e serem mais competitivas. Estamos claramente desfavorecidos em relação a qualquer industrial que passa a linha de Madrid. Na sua opinião, como podem o país e as empresas sair da crise económica? Apostando na indústria, na pesca e na agricultura. Investir, sobretudo, na pequena e média indústria. Devemos, também, valorizar, repensar e melhorar as empresas existentes. Refazê-las. Eu consegui fazê-lo depois de um “plano Mateus” a duas delas, a Molde Matos e a Plimat. Mas não sou adepto da ideia de que só se devem apoiar as empresas exportadoras.

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Dossier Eco Parque do Relvão Carregueira-Chamusca

Como se formou o principal cluster da indústria de resíduos em Portugal Como é que um município, gerido por um autarca eleito pela CDU, conseguiu, em oito anos, transformar um concelho rural, com um desemprego endémico e reduzida actividade económica, no principal pólo nacional da indústria de resíduos e ambiente? “Com verdade”, “atitude construtiva” e “clima de confiança entre todos os vereadores”, garante Sérgio Carrinho, que liderou a Câmara Municipal da Chamusca durante três décadas e foi capaz de mobilizar a população em torno do mesmo objectivo. A criação do Eco Parque do Relvão, através da Resitejo-Associação de Gestão de Lixos do Médio Tejo, permitirá, dentro de três anos, chegar aos 510 postos de trabalho, após investimento que ultrapassa os €100 milhões.

[As declarações de Sérgio Carrinho foram recolhidas no final do mandato de presidente da Câmara Municipal da Chamusca, cargo que deixou depois de mais de duas décadas à frente do município]

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N l

inguém acolhe de bom ânimo a ideia de ter “à porta de casa” o lixo dos outros, muito menos os resíduos perigosos, como os hospitalares. Mas na Chamusca, coração do Vale do Tejo, a história é outra, e foi protagonizada por um homem nascido e criado na terra. Exímio conhecedor da natureza humana e observador atento das dificuldades, Sérgio Carrinho acaba de “pendurar as botas” com a consciência de ter cumprido a missão: “Tenho 99 por cento de boas recordações!” Na sua memória, e na dos munícipes, inscreve-se uma iniciativa empresarial única no país, o cluster do Eco Parque do Relvão Carregueira-Chamusca, que arrancou em 2008, e que confirmou a dimensão económica do concelho, a avaliar pelos projectos de investimento previstos num futuro próximo, que representarão um acréscimo de 50 milhões de euros aos mais de 100 milhões já efectuados, a criação de mais de 160 postos de trabalho directos aos 350 existentes, bem como o consequente aumento do número de empresas instaladas no parque, actualmente 16. Sempre com o fito da criação de emprego na região, Sérgio Carrinho desdobrou-se na procura de oportunidades para melhorar as condições de vida dos seus conterrâneos, que assistiam, ano após ano, ao encerramento de fábricas e empresas. “Criar postos de trabalho, ou até meio posto de trabalho, em concelhos como este é uma coisa absolutamente dantesca”, lamenta, momentos antes de acompanhar a comitiva da AIP ao Eco Parque do Relvão, liderada pelo presidente José Eduardo Carvalho. “Industrialização zero, afastamento das populações, reduzido número de habitantes, existência de grande propriedade privada, o desemprego”, e o facto de “todos os vereadores” se revelarem “unidos no mesmo objectivo” foram então “os cliques”, conta Sérgio Carrinho, que “motivaram” a implementação do projecto do Eco Parque do Relvão. O facto de o território “ter pouca gente [10 mil habitantes para 780 km2] foi também um factor” que jogou “a favor” na instalação do parque, de modo a que “não afectasse as populações mais próximas, situadas a cerca de quatro quilómetros”, esclarece. “Não estou a vender-vos produto”, avisa o carismático autarca. “Estou a comunicar-vos, não uma história, mas uma boa realidade. A Câmara tem esta postura: a partir do momento em que aprova um projecto de investimento e começa a trabalhar com um promotor, não se assume como o poder que vai aprovar, mas sim como companhei-

“Vivemos com as empresas e elas podem confiar no presidente e nos vereadores, nos chefes de gabinete e nas pessoas que trabalham na Câmara, que estão disponíveis para os apoiar no que for necessário e, inclusive, fazerem reuniões mesmo no fim-de-semana, com já tem acontecido”. ro de estrada que vai resolver os problemas de todos”. “Ganhador em várias frentes”, sublinha Sérgio Carrinho, o projecto contribuiu para consolidar esta nova e espontânea forma de fazer negócios, “também com coração”, explica: “Vivemos com as empresas e elas podem confiar no presidente e nos vereadores, nos chefes de gabinete e nas pessoas que trabalham na Câmara, que estão disponíveis para os apoiar no que for necessário e, inclusive, fazerem reuniões mesmo no fim-de-semana, com já tem acontecido”. Dirigido por uma vasta equipa, “séria, confiante e unida nas dificuldades”, o projecto do Eco Parque do Relvão “não aconteceu pela ‘obra e graça do divino espírito santo’”, explica Carrinho: “Deve-se ao espírito de proximidade e de empenho dos eleitos locais, de preocupação com a vida concreta dos cidadãos e de se tomar as decisões nos vários órgãos em função das realidades. Isso faz parte da nossa pele, são essas as coisas essenciais que nos movem. O resto é administração “tout court” e esperar que corra tudo bem”.

Ideia do “negócio do lixo” brotou no Porto

Sérgio Carrinho despertou com outro olhar para o cluster da indústria de resíduos e ambiente ainda no século passado, em 1982. “Vi, pela primeira vez, que os lixos tinham

um peso importante quando fui a um seminário realizado pela Lipor, no Porto”. Volvidas mais de duas décadas, a vontade do edil Sérgio Carrinho e da sua equipa que na altura o acompanhava no governo do concelho começou a ganhar forma quando a Câmara Municipal da Chamusca definiu no seu Plano Director Municipal (PDM) uma área com cerca de 1800 hectares para futura instalação de equipamentos destinados ao tratamento de resíduos, ambiente e energia. O concelho acabou por albergar o maior aterro de resíduos sólidos urbanos (RSU) da região, provenientes de 10 municípios (representando um total de 275 mil habitantes): Santarém, Tomar, Entroncamento, Torres Novas, Chamusca, Alcanena, Constância, Ferreira do Zêzere, Golegã e Vila Nova da Barquinha. Os mesmos que se uniram para constituírem uma associação de municípios, a Resitejo – Associação de Gestão e Tratamento dos Lixos do Médio Tejo, responsável, até à data, pela criação de 210 postos de trabalho (em 2004 empregava oito trabalhadores). O aterro de RSU da Resitejo é o primeiro equipamento instalado no Eco Parque do Relvão, em 1999. A primeira fase do projecto contemplou uma área de sete hectares com oito lotes e acolheu seis empresas; a fase II, 22 hectares e 22 lotes; a fase III abrange 40 hectares e 25 lotes para empresas e na quarta fase está prevista uma área de cerca de 7 hectares com cinco lotes. As obras nos loteamentos para a fase I e para a fase II foram suportadas pela autarquia, com recurso a fundos comunitários (QCA III e QREN, respectivamente). O Eco Parque do Relvão alberga os dois únicos equipamentos que fazem o tratamento de resíduos perigosos do país e que obtiveram licença por parte do Ministério do Ambiente e Ordenamento do Território: os CIVER (Centro Integrado de Recuperação, Valorização e Eliminação de Resíduos Perigosos) Ecodeal e Sisav, que representam investimentos de 25 e 30 milhões de euros, respectivamente; ambos com capacidade para tratamento de 150 mil toneladas de resíduos perigosos por ano. Empregam 30 e 60 trabalhadores, respectivamente. O Centro Integrado de Valorização e Tratamento de Resíduos Hospitalares e Industriais (CIVTRHI) é outro projecto âncora, com entrada em funcionamento prevista para 2014. Trata-se de um investimento de 9 milhões de euros, com capacidade de tratamento na ordem das 10 mil toneladas/ano, e ocupará uma área de cinco hectares. Estão previstos 30 postos de trabalho.

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Dossier

Estação de Tratamento Mecânico e Biológico da Resitejo inovadora a nível mundial

Equipamento considerado inovador a nível mundial, a Estação de Tratamento Mecânico e Biológico, que a Resitejo inaugurou em Julho deste ano, foi alvo de um investimento de 17,7 milhões de euros, dos quais 11 foram financiados por fundos comunitários e a restante verba suportada por aquela associação de municípios. ‘Pérola do império’, a unidade da Resitejo, com capacidade para receber 150 mil toneladas de resíduos por ano, foi pensada para processar os resíduos urbanos, sob três princípios, conforme explica Diamantino Duarte, administrador Delegado: “Retirar da deposição em aterro o máximo de produtos; obter produtos de boa qualidade que pudessem ser utilizados na indústria recicladora; conseguir obter dos restantes resíduos produtos com qualidade e capacidade energética que possibilitasse a sua colocação no mercado obtendo mais-valias económicas”. Após três anos de pesquisa e análise, “foi possível juntar neste projecto vários tipos de equipamentos, já disponíveis no mercado, redesenhar a sua interacção e obter os produtos necessários”, recorda. Este projecto “possibilita a retirada de aterro de toda a matéria orgânica que os RSU da recolha indiferenciada possuem”: “No nosso caso representa 50 por cento dos RSU, transformando-a numa biomassa de alto poder energética, uma vez que a mesma, antes de ser colocada no mercado, é submetida a um processo de secagem, possibilita a produção de CDR [combustível de alta eficiência energética] de alta qualidade

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e com baixo teor de humidade, assim como é possível entregar no mercado reciclador de plástico produto com muito baixo teor de contaminação. Para além das vantagens obtidas, quer no tratamento dos resíduos quer na qualidade de produto obtido, este processo possibilita que os municípios utilizadores do nosso sistema possam deixar de liquidar a TGR [Taxa de Gestão de Resíduos], que actualmente apresenta um encargo que rondará os seis euros por tonelada”. Diamantino Duarte recorda os dois princípios que estiveram na base da criação da Resitejo: “O tratamento de resíduos produzidos nos dez municípios associados e a criação do máximo número de postos de trabalho, pois esta é uma das contrapartidas que podemos dar às populações que aceitaram que no seu seio se instalasse este tipo de actividade. Perante estes princípios haveria que explorar todas as capacidades instaladas. Assim foi possível contratua-

lizar com entidades que não dispunham de capacidade instalada suficiente para o tratamento dos seus resíduos o tratamento destes nas nossas unidades. Este facto possibilitou a criação e manutenção de mais 200 postos de trabalho directos, o aumento do volume de negócios em mais dois milhões de euros e a possibilidade de colocar no mercado particular alguns milhares de euros provenientes das receitas geradas no comércio local pelos serviços que este passou a fornecer a outras entidades que se deslocam ao nosso parque no âmbito desta nossa actividade”. A Resitejo nunca teve resultados negativos desde o primeiro ano da sua existência. O negócio atingirá, no primeiro semestre deste ano, 8 milhões de euros – 7 milhões registados no ano passado –, e tem vindo a aumentar 500 mil euros por ano. “A regularidade dos nossos resultados deve-se, em primeiro lugar, ao facto de termos colaboradores de grande dedicação à Resitejo”, observa Diamantino Duarte que acrescenta ainda outros factores como “o cuidado que permanentemente é posto na gestão, quer na área dos investimentos, quer na área da compra de serviços ou na aquisições de bens”.

Constrangimentos de tráfego aguardam “luz verde” do Governo

A Resitejo nasceu em 1995 e foi criada por dez Municípios do Ribatejo, que tinham em comum a necessidade de tratarem os seus resíduos e proceder ao encerramento das lixeiras que existiam nos seus territórios. Desde o seu início que a Resitejo se dedica ao tratamento dos resíduos. Numa pri-


lamenta-se que o Governo não tenha cumprido, até hoje, a sua parte. o parque tem de ser servido por uma via de comunicação que possibilite às empresas aqui instaladas evitar os constrangimentos de tráfego provocados pela necessidade de atravessar o rio Tejo através de duas pontes que já há muito não possuem as condições aceitáveis para o tráfego”

meira fase, com a deposição em aterro; na segunda, com a implementação da recolha selectiva, e agora, nesta terceira fase, com a implementação de uma unidade de tratamento que, para além de tratar os resíduos, possibilita o seu aproveitamento em cerca de 95% da sua totalidade. As instalações situadas no Eco Parque do Relvão são as únicas licenciadas em Portugal para tratamento de resíduos perigosos. Quanto ao tratamento de resíduos hospitalares, existia em Portugal uma incineradora que estava instalada em Lisboa mas que já foi desactivada. Numa época de crise económica a produção de lixo será menor. A Resitejo espera contrariar este eventual decréscimo de modo a rentabilizar os seus equipamentos e investimentos efectuados. “Estamos neste momento a lutar para manter as actuais quantidades de resíduos que chegam às nossas instalações. Para isso, estamos a desenvolver novas formas de comunicação que possibilitem o aumento dos resíduos recicláveis, assim como estamos no mercado à procura de novos parceiros que necessitem dos serviços que hoje já temos possibilidades de disponibilizar na área do tratamento de resíduos”, adianta Diamantino Duarte. Mas não há projecto sem senão. Quem está instalado no Eco Parque do Relvão, “só pode lamentar que o Governo de Portugal não tenha cumprido, até hoje, a sua parte, e esta representa um contributo muito importante, pois tem a ver com a necessidade do Parque ser servido por uma via de comunicação que possibilite às empresas aqui instaladas evitar os constrangimentos de tráfego provocados pela necessidade de atravessar o rio Tejo através de duas pontes que já há muito não possuem as condições aceitáveis para o tráfego”, revindica Dia-

empresas instaladas Fase I: 7 hectares, 8 lotes. Empresas: Recipolymers (reciclagem de plásticos); Florecha (biomassa florestal); Restus Rip (medicamentos); Taxa & Sousa (materiais ferrosos e VFV – Veículos em Fim de Vida); Pedecão – Construções (resíduos de demolições); e Such (resíduos hospitalares - microondas). Fase II: 22 hectares, 22 lotes. Empresas: Purus (recilagem de alumínio); Sucatas Lopes (materiais ferrosos e VFV); Terra Fértil (compostagem de resíduos); Sogebat (reciclagem de baterias) e Eurostone (pedras ornamentais). Em construção e/ou projeto: Cespa (Estação de armazenamento temporário de lamas); Enviroil (reciclagem de óleos); Ambipower (reciclagem de papel, vidro e materiais ferrosos); Componatura (produção de energia a partir da compostagem) e Manuel Maria Sousa (reciclagem de materiais ferrosos e VFV). Fase III: 40 hectares e 25 lotes para instalar empresas Fase IV: 7 hectares com cinco lotes

mantino Duarte. O administrador refere-se às acessibilidades que aguardam luz verde da administração central: o IC3, que está projectado no âmbito do Plano Rodoviário Nacional, mas que foi suspenso; o 1.º Troço – A23/Vila Nova da Barquinha/Golegã/ Chamusca, projecto que inclui a construção de uma nova ponte da Chamusca que permitirá a ligação directa ao Eco Parque do Relvão; e o 2.º Troço – Almeirim/Alpiarça/Chamusca, obra suspensa por deliberação do Governo. PUBLICIDADE

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Dossier

Sérgio Carrinho. “Para dirimir um conflito temos de ter um depósito de ‘água benta’ lá atrás” Foi eleito presidente da Câmara há quantos anos e por que partido? Fui eleito em 1980. Mas antes disso tinha pertencido ao anterior Executivo camarário como vereador. A minha primeira experiência nesta casa remonta, portanto, a 1976, ano das primeiras eleições autárquicas. Fui eleito como independente, apoiado pela CDU, que na altura tinha outra designação. Mantive-me até hoje, renovando os meus “contratos a prazo”, como lhe chamo. Como caracteriza o concelho antes do aparecimento deste aglomerado de empresas da fileira dos resíduos e do ambiente? O concelho é profundamente rural e florestal. Tinha algumas empresas, parte delas desapareceram na crise de 1983/85. Nos anos noventa encerrou também uma empresa que laborava no sector do tomate. O concelho nunca teve grandes empresas. Só nos últimos anos, a partir de 2005, mais concretamente, com a criação do Eco Parque, é que apostamos nessa fileira, tendo em conta que essa é uma área muito importante. Por vezes, diga-se, conflitua muito com as populações… Mas o concelho deparava-se com o facto de ter muito território e muito pouca gente. Nos últimos tês anos abriu, na freguesia de Ulme, uma empresa de engarrafamento de águas – a Aguarela do Mundo – e outra, de papel reciclado, a Glob Span, que começou a laborar o ano passado. Ambas ocupam cerca de 100 pessoas. Entretan-

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to, com o projecto do Eco Parque do Relvão foi possível empregar cerca de 360 pessoas, já contando com a última unidade que foi inaugurada recentemente, de Tratamento Mecânico e Biológico. Num concelho com esta dimensão e estas características foi muito importante controlarmos o número de desempregados, que não cresceu desmesuradamente com a crise, embora tivesse encerrado uma empresa de construção civil que empregava bastantes pessoas. Este projecto representa, portanto, uma alternativa clara para o desenvolvimento económico do concelho? Sim, sem dúvida. Na área dos resíduos, principalmente, mas também noutras. Sabemos que ainda há muito para fazer, que este não é apenas um projecto de depósito de resíduos, mas sim de encaminhamento para vários vectores. Na área das simbioses, a particularidade de se encontrarem aqui sediados alguns equipamentos nacionais, permite que o município continue a trabalhar com os operadores ali instalados, com empresas, entidades e outras instituições, porque há necessidade de fazer “upgrades”. Penso que temos conseguido fazer esse trabalho tendo em vista a sustentabilidade do projecto. Apesar de ser uma área de resíduos, consegue também dar emprego a pessoas com formação média/superior na ordem dos 10%. E conseguem assim empregar parte da população jovem?

Sim, caso contrário já tinham partido. Tentamos que as empresas tenham preferência pelos recursos humanos do concelho, existindo para o efeito uma espécie de acordo de princípio. As coisas não têm estado a correr mal… Como surgiu a estratégia para esta opção? Reflectiu, leu, visitou algum projecto idêntico no país e no exterior? Eu já estava na câmara quando se iniciou o processo da recolha do lixo, nos anos setenta, com os primeiros financiamentos que houve, especificamente do Governo central. O concelho, como é muito extenso, tem um problema complicadíssimo, que são as distâncias que se têm de percorrer entre várias localidades. Como todos faziam, depositávamos o lixo nas lixeiras. É evidente que isso, a partir de certa altura, começou a causar embaraços!... Esse problema foi fazendo parte das minhas preocupações. E, em 1982, fui ao Porto, a um seminário da Lipor, com dois engenheiros, um do município da Chamusca e outro de Torres Novas, para ver “in loco” a solução. A Lipor [Serviço Intermunicipalizado de Gestão de Resíduos do Grande Porto, é a entidade responsável pela gestão, valorização e tratamento dos Resíduos Urbanos produzidos pelos oito municípios que a integram: Espinho, Gondomar, Maia, Matosinhos, Porto, Póvoa de Varzim, Valongo e Vila do Conde], na altura, já fazia a compostagem e um produto, o chamado Fertor, um adubo que os pequenos agricultores do Norte já usavam, mas que apresentava algumas dificuldades por causa do vidro moído que continha. Vi na Lipor um grande espaço e muita gente a trabalhar e registei. Na década de oitenta, a câmara da Chamusca, e mais outras cinco do distrito, combinaram comprarem equipamentos semelhantes para se apoiarem umas às outras quando surgissem dificuldades de vária ordem com os mesmos. Depois, começamos a pensar num espaço onde colocar os nossos resíduos urbanos. Para o efeito, chegamos a fazer quatro ou cinco estudos. Porém, o local encontrado acabava por ser impróprio, ou por causa de um morcego em vias de extinção, ou porque o proprietário de um terreno vizinho não deixava, ou ainda porque o presidente de determinada junta de freguesia não concordava… Entretanto, sugeri para procurarmos na Chamusca, ao que me responderam que era longe. Tivemos, no final dos anos oitenta, um grande incêndio florestal, que começou numa lixeira nossa, e nos custou um “dinheirão” em indemnizações aos pro-


prietários, pois não conseguimos provar em tribunal a sua origem, que suspeitamos ter sido duvidosa e não natural. Decidimos transferir a lixeira para uma zona mais próxima do rio. Mas, um dia, vieram as cheias e arrastaram o lixo!... Andamos três semanas a apanhar plástico preso nas vinhas… Mais tarde, quando se começou a falar dos aterros sanitários, integrei uma delegação que se deslocou a vários países europeus para visitar projectos nesta área, nomeadamente em Arlon [Bélgica]. Conseguimos construir, na Chamusca, o primeiro aterro de resíduos sólidos urbanos, com meia dúzia de postos de trabalho, constituiu-se uma associação – a Resitejo –, e, depois, criou-se o Aterro de Resíduos Industrias Banais, que foi inaugurado em 2003, ano em que surge a controvérsia à volta da co-inceneração dos resíduos perigosos. Mas porquê aquela zona em concreto? Porque já tínhamos naquele território o Aterro de Resíduos Sólidos Urbanos, o dos Resíduos Industriais Banais, já tínhamos

“Através de um protocolo definimos as nossas condições que eram basicamente estas: queríamos 2,5 por cento da facturação dos promotores, para aplicar no sector social, e 2,5% do capital, porque era uma forma de gerarmos confiança na população e lhes dizermos que também fazíamos parte da empresa.”

acessos, redes, energia eléctrica… A evolução deste processo coincidiu também com um acidente natural, os fogos de 2003, que nos deixaram completamente arrasados e em que morreram quatro pessoas, arderam milhares de animais, 22 mil hectares de floresta, 14 casas, empresas, enfim… Um inferno! Estávamos completamente angustiados. E percebemos que tínhamos ali uma boa oportunidade de negócio, no bom sentido do termo. O assunto foi debatido com as várias forças políticas, a nível local, e, também, a nível nacional. Conversamos com os proprietários dos terrenos confinantes a avisá-los de que seriam contactados pelos promotores do projecto que iriam concorrer, para fazer pré-contratos de venda de parcelas de terreno com vista à instalação dos vários equipamentos. Tratava-se de áreas grandes, cada uma daquelas empresas tem cerca de 30 hectares. Os proprietários confiaram em nós, sabem que somos pessoas fiáveis. Através de um protocolo definimos as nossas

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Dossier condições que eram basicamente estas: queríamos 2,5 por cento da facturação dos promotores, para aplicar no sector social, e 2,5% do capital, porque era uma forma de gerarmos confiança na população e lhes dizermos que também fazíamos parte da empresa. Esta foi a estratégia usada. Foi muito interessante este processo, que se revelou também numa aprendizagem, no relacionamento com as várias forças políticas, e com pessoas que tinham opiniões diferentes das nossas. Fizeram-se diversas reuniões, não houve bofetada nem insulto. Todos perceberam que havia possibilidade de criar postos de trabalho. Foi esse o factor de união? Sim, esse foi o “clique”, passe o termo. As pessoas começaram a entender que o projecto era uma mais-valia para o concelho. Foi muito importante a intervenção da Quercus, que nos acompanhou nestas questões, por um lado, e, por outro, o estudo que a CCDR/LVT [Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo] encomendou ao professor Paulo Ferrão sobre ecologia industrial e simbiose. Foi um processo muito empolgante e continua a sê-lo porque é um processo de equilíbrios, permanente. Nada disto é definitivo. Existiam dois projectos desta natureza – aterro dos resíduos industriais banais – para o distrito de Santarém. Como é que a Chamusca acabou por ser o local escolhido? Mas eu não fiz guerra com ninguém!... No concelho de Almeirim, onde se fez também um aterro sanitário, na freguesia da Raposa, que pertence também a um conjunto de câmaras, é que houve guerra. As populações reagiram mal. No nosso terreno, também tivemos uma acção de contra-informação, mas que não resultou. Mas esses dois projectos não eram competidores entre eles? Eram de entidades diferentes. Um deles, salvo o erro, acabou por ir para Rio Maior. Mas não “bombardeamos” o projecto lá. Limitamo-nos a defender o nosso, contrariando assim a acção de contra-informação perpetrada. O concorrente de Almeirim, a certa altura, acusou-nos de estarmos a fomentar aquela guerra o que não foi, de todo, verdade. Curiosamente, o líder da contestação de Almeirim – que ainda hoje é vereador na câmara – era uma pessoa da minha área política… Na Chamusca o promotor foi a Fomentinvest que, a determinada altura, comprou a HLC Tejo [Engenharia e Gestão

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“Desmistificou-se este medo feroz que as pessoas tinham dos aterros, percebeu-se que gera actividade económica” A minha formação política começou cedo, aos 16 anos, quando as pessoas da minha aldeia começaram a ir para a guerra, uns a morrerem lá e outros a chegarem estropiados. A minha maneira de actuar como eleito é resultado de muitas destas coisas, mais do que ter lido Marx, Engels…

de Projectos, SA], empresa que construiu o nosso aterro de resíduos industriais banais, do qual o município retira 2,5% da facturação para o sector social. Entretanto, desmistificou-se este medo feroz que as pessoas tinham dos aterros, percebeu-se que gera actividade económica. Muitos destes resíduos vêm do exterior, principalmente de Lisboa, embora hoje existam outras instalações mais próximas da capital, o que torna os nossos menos competitivos. Como se desenrolou o processo relativo aos resíduos perigosos? Encontrou rivais à altura? Concorreram sete empresas, não tínhamos nenhum parceiro, não fomos padrinhos de ninguém. Assinamos pré-protocolos com todas elas e tinham também uma autorização de instalação para efeitos de contactos com os proprietários dos terrenos. As relações com os proprietários dos terrenos e com as empresas foram “clarinhas”, com conhecimento, inclusive, da Assembleia Municipal. É claro que estas empresas queixam-se um bocado, porque tinham expectativas de terem fluxos maiores de resíduos, calculados a partir de alguns estudos, o que de facto não veio a acontecer, situação que a crise económica também agravou. No entanto, estão a ser tratados alguns passivos importantes como a Lagoa de Sto. André e os terrenos do Seixal. Ainda há pouco foi feito um concurso relativo às escórias localizadas em S. Pedro da Cova, operação que decorrerá no próximo ano. Não há preocupações excessivas, apesar dos investimentos vultuosos feitos. Até agora têm sido cumpridas as obrigações, mas temos de pensar no futuro, como é óbvio. Existem ainda outros passivos para tratar, e as empresas, inclusive, têm desenvolvido algum trabalho em termos de solos contaminados. Em que medida os estudos do Instituto Superior Técnico (IST) contribuíram para a consolidação e credibilidade do projecto? Trabalhamos este projecto de acordo com a CCVR, na altura presidida pelo engenheiro Fonseca Ferreira. Ele ficou boquiaberto quando lhe disse que aceitávamos acolher o projecto. Diria que nessa altura as nossas decisões eram quase decisões do desespero porque não tínhamos nada mais para competir… Tínhamos os sectores florestal e agrícola mas é óbvio que isso não bastava. Financiaram-nos o estudo do projecto feito pelo Instituto Superior Técnico. O professor Paulo Ferrão entusiasmou-se com o estudo, bem como a engenheira Inês Costa,


que acabou por fazer o seu doutoramento na área das simbioses industriais, tendo como exemplo o Eco Parque. Criou-se um clima muito interessante, que extravasou a relação universidade/autarquia. Passamos a ser uma espécie de “cobaias”, aprendemos e passamos a ser um potenciador de experiências, pois estávamos, e estamos, sempre abertos a novas iniciativas. A intervenção deles tem sido importante por dois aspectos. O primeiro, desde logo, quando fazem connosco, no ano de 2003/2004, um estudo, que teve a colaboração técnico-financeira da CCDR, em que de facto se conseguiu na altura com um grupo de alunos de alunos de várias áreas liderado pelo professor Paulo Ferrão e pela engenheira Inês Costa, que vieram para o terreno estudar a questão do Eco Parque, as várias valências e as empresas que existiam, perspectivas de crescimento, cenários futuros, etc. E é precisamente a partir desse estudo que começámos a tomar conhecimento de algo que era recente na altura e hoje está muito em voga, que é a história das simbioses industriais. Quando ouvimos falar, pela primeira vez, em ecologia industrial, uma disciplina leccionada no Técnico, em que o coordenador é o professor Paulo Ferrão, que de facto faz todo o sentido no nosso projecto e que é com base nisso que fazemos as primeiras conversas com as empresas. Quando chega uma empresa de determinada área, geralmente já tem a montante uma outra que já está instalada e que lhes vai servir, por exemplo, para um tipo de resíduo de que eles vão precisar. O que lhes vamos dizer é que se vêm para aqui partilhem o mais possível com as empresas que estão instaladas, seja na área dos serviços, dos resíduos, de algum material que já não precisem. Tentamos potenciar ao máximo estas siner-

gias no Eco Parque para que se crie valor entre as várias empresas. É essa a visão. O IST continua a dar-nos apoio técnico nesse sentido. Inês Costa, nas apresentações que faz sobre a matéria (e nas várias publicações científicas), pelo mundo fora, dá como exemplo o Eco Parque do Relvão, um cluster que gostaríamos que fosse reconhecido em Portugal a nível de empresas na área do ambiente e energia. Com um maior grau de consolidação creio que chegaremos lá. Como conseguiu mobilizar as populações para aceitarem o aterro que acabou por lançar as bases deste Pólo industrial? Qual foi a argumentação utilizada? Falando verdade e não escondendo as dificuldades. Assumindo responsabilidades de que íamos controlar esse acompanhamento. Não fizemos demagogia, apenas dissemos que o projecto ia criar postos de trabalho e que iriamos dar preferência às pessoas do concelho. Mais: dos 2,5% que recebemos das receitas já aplicamos, por exemplo, na construção de um lar, e na regeneração de uma antiga banda de música e respectiva escola, envolvendo mais jovens. Gerou-se um clima de confiança entre todos os vereadores de modo a que esta estratégia não “borregasse”. Localmente, sempre houve união e ninguém criou dificuldades. Actuamos sempre discretamente e demonstramos, inclusive às entidades com quem conversávamos, que esta era uma atitude de fundo e não de conjuntura. Mas o senhor foi o catalisador… Pessoalmente, acreditava, e acredito, no projecto. Consegui transmitir essa confiança. Comecei a trabalhar muito cedo, na contabilidade da fábrica do tomate e, também, nas campanhas do tomate, altura em que contactava com largas centenas de fornece-

dores. À noite trabalhava num restaurante, onde fazia as folhas para a Caixa de Previdência. Lidei com gente diferente, de várias classes sociais e de diferentes terras. Essa escola foi muito importante para a minha formação como pessoa. Até cheguei a ajudar à missa, era sacristão numa altura em que se usava o latim e havia os chamados “bancos de família”, com chapa amarela!... Chamusca era uma terra estratificada, inclusive nas colectividades: proprietários, comerciantes e empregados de escritório, operários e trabalhadores rurais. Eu era sócio de todas essas colectividades, menos das dos ricos, para poder ir aos bailes. Se aprendi muitas coisas das várias vidas, até do ponto de vista político, teve muito a ver com estes palcos em que me movimentei. Aprendi que para dirimir um conflito temos de ter um depósito de água benta lá atrás, que para saber ouvir uma pessoa devemos dizer que vamos pensar em vez de reagirmos imediatamente. Fiquei a conhecer muito bem as pessoas da Chamusca do ponto de vista sociológico, digamos assim. O serviço militar na Guiné também foi uma experiência enriquecedora. Foi filiado no PCP? Não, só fui filiado no MDP. Tenho sido eleito independente, embora apoiado pela CDU. A minha formação política começou cedo, aos 16 anos, quando as pessoas da minha aldeia começaram a ir para a guerra, uns a morrerem lá e outros a chegarem estropiados. A minha maneira de actuar como eleito é resultado de muitas destas coisas, mais do que ter lido Marx, Engels… Em termos de actividade económica complementar, quais as consequências mais visíveis deste “cluster” para o desenvolvimento do concelho? A instalação de empresas, sempre que possível, porque criam postos de trabalho. PUBLICIDADE

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Dossier

Há coisas que me irritam como a “quadrilhice electrónica” que é o facebook.

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Desenvolver as áreas da formação profissional, especialização, produção de energias, estudar aproveitamento dos materiais não recicláveis. O nosso plano estratégico para os próximos anos prevê estas questões, nomeadamente através de protocolos com institutos politécnicos e outras entidades como a NERSANT, com quem, aliás, temos belíssimas relações, e realização de workshops à entrada do Eco Parque. Que balanço faz dos seus mandatos enquanto presidente da Câmara? Trabalhei sempre até poder. Tenho 99 por cento de boas recordações. Isto nunca funcionou como carreira política. É claro que a família acabou por ser vítima desse tipo de dedicação. Mas tive uma vida cheia. Durante a minha formação pessoal, havia coisas que me angustiavam muito, como o índice de analfabetismo, que era gigantesco, e o abuso de poder, que me aterrorizava. Não existiam serviços essenciais como o Serviço Nacional de Saúde. O facto de ter tido acesso a uma bolsa de estudo acabou por exigir da minha parte maior atenção às dificuldades da vida e ver falhas que outros não conseguiam detectar. O seu trabalho assenta numa forte relação de proximidade, tornando a comunicação muito mais eficaz… Costumo dizer que aqui, nesta casa, o “Não” não existe. Digo antes “deixe-me dormir três dias para pensar”. As pessoas sabem que podem vir à Câmara pois são muito bem atendidas. Sempre o foram. São ouvidas. Isso tem gerado um ambiente de trabalho muito profícuo. Por exemplo, nas relações com as várias juntas de freguesia, independentemente dos partidos políticos, nunca tivemos conflitualidade, apesar de, por vezes, defendermos opiniões diferentes. Esta união de vontades que o senhor construiu ao longo de três décadas irá manter-se, venha quem vier? Penso que sim. As pessoas estão habituadas a este trato, a este “modus operanti”. Poderá haver algumas clivagens, ao nível das gerações mais novas, porque não têm um certo “background”, são mais impulsivas. Não estou nada desanimado com isso. Há coisas que me irritam mais como a “quadrilhice electrónica” que é o facebook. Utilizamos meios que são espectaculares para nos ajudarem na nossa vida, mas com eles corre também aquela “quota da parvoíce”. Creio que são fases... Nada é igual, não podemos pensar que somos infalíveis, todos têm de ter o seu espaço para respirar.

“Câmara Municipal de Chamusca revelou qualidade de gestão estratégica”

José Félix Ribeiro* O que me impressionou mais na visita ao Eco Parque do Relvão foi a qualidade da liderança da autarquia. Em primeiro lugar, por ter avaliado o que muitas outras rejeitariam - a instalação de unidades destinadas ao tratamentos e reciclagem de resíduos - como uma oportunidade, dadas as condições geográficas do seu território e desde que seguisse uma atuação rigorosa e exigente em termos de sustentabilidade. Em segundo lugar, por ter sido capaz de evoluir de uma fase em que aceitou a localização de instalações de tratamentos de resíduos dos municípios vizinhos para uma fase em que se candidatou à localização de dois CIVERS, ou seja, duas instalações nacionais para tratamento de resíduos perigosos. Em terceiro lugar, por ter antecipado as vantagens de atrair empresas privadas com negócios na área das reciclagens e tratamento de resíduos, por forma a criar um eco parque com variedade e abrangência. Em quarto lugar, por ter iniciado a exploração de outras oportunidades que resultam da massa critica reunida - desde as energias renováveis, até possíveis parcerias com empresas mineiras para processamento futuro de ouro resultante de exploração mineira no Alentejo. E tudo isto foi feito na base dum consenso duradouro entre forças políticas diferentes no seio do executivo camarário. É pena que Portugal não tenha revelado ao nível central uma qualidade de gestão estratégica como a teve a Camara Municipal de Chamusca. *Economista


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Dossier

Paulo Ferrão, especialista e docente do Instituto Superior Técnico de Lisboa, é o “pai” do projecto

“Firme e visionária liderança da autarquia percebeu que ambiente é motor de desenvolvimento económico e social” 52 Ne- Negócios & empresas fevereiro 2014

A ecologia industrial procura integrar soluções ecológicas nos sistemas industriais, nomeadamente a simbiose industrial. O Eco Parque do Relvão representa, actualmente, o maior ‘cluster’ nacional da indústria de resíduos e ambiente? A ecologia industrial procura replicar nos sistemas industriais os princípios inerentes aos ecosistemas naturais, que são caracterizados pelo fecho dos ciclos materiais, ou seja, o fim de uma forma de vida implica a transformação da matéria que a compõe em nutrientes, através de organismos que se especializam nesta tarefa, sendo que esses nutrientes irão alimentar e viabilizar novas forma de vida, e ainda uma gestão eficiente de energia, a qual é essencialmente gerada pelo sol. O paralelo nos sistemas industriais implica a concepção de infra-estruturas industriais específicas, que se especializam em transformar os resíduos em matérias-primas, por forma a que os diversos ecossistemas industriais interajam entre si, promovendo a simbiose – a convivência de dois organismos diferentes numa relação de benefício mútuo. A expressão “simbioses industriais”


é aqui usada para representar a cooperação entre um conjunto de empresas que se caracterizam pelo facto de os resíduos de umas se transformarem em matérias-primas de outras. Este foi o conceito base que presidiu ao desenho do Eco-Parque do Relvão, e que o permite definir como um “Eco-Parque” industrial. Com estas características específicas será o melhor exemplo a nível nacional. De facto, este movimento iniciou-se em forma de ‘cluster’ promovido pelas instalações de gestão de resíduos urbanos existentes e da atração dos dois CIRVER, tudo isto com base numa firme e visionária liderança da autarquia que percebeu o ambiente como motor de desenvolvimento económico e social. Que balanço faz dos potenciais benefícios, de ordem social, económica e ambiental para a região, resultantes da implementação do projecto? Estão de acordo com o previsto no seu estudo? O estudo feito pelo IST – e do qual resultou uma tese de mestrado, uma tese de doutoramento e vários artigos científicos – decorreu entre 2006 e 2009 e acompanhou o processo de desenvolvimento do Eco Parque do Relvão, sobretudo a transformação do contexto regional (Chamusca), em virtude das acções levadas a cabo quer ao nível das políticas de gestão de resíduos (“top-down”), quer das acções levadas a cabo pelas empresas (“bottom-up”). O estudo “previu” que uma concentração de atividades diversificadas associadas à gestão de resíduos, apoiadas em grandes estruturas “consumidoras” de materiais – como os CIRVER – poderiam ser dinamizadas de modo a aumentar a sua influência económica e social (sobretudo ao nível do emprego) através da promoção de simbioses entre empresas do parque e empresas na região. E isto tem-se vindo a verificar! A concentração destas empresas numa área específica aumentou a possibilidade de inte-

racção, surgiram sinergias entre elas e com outras fora do Eco Parque (oito sinergias estabelecidas até 2009, três delas com empresas fora do Eco Parque). O impacto económico e social para a região esteve directamente relacionado com a instalação das empresas e, de facto, entre 2004 e 2010, o emprego passou de 50 para 350 postos de trabalho, as empresas de duas para 14 e o investimento de 10 para 90 milhões. O impacto ambiental assume uma escala regional/nacional, uma vez que, embora o projecto seja “importador” de resíduos para a Chamusca, os benefícios ambientais associados a um tratamento eficaz de resíduos produzidos ao nível nacional são certamente significativos. Tendo em conta o levantamento do potencial de sinergias a nível regional feito pelo IST, o projecto do Eco Parque do Relvão constitui-se como uma alavanca para o desenvolvimento de novos projectos na área de simbioses industriais na região, que pode ser mais relevante se os esforços forem partilhados com as universidades, a Agência Portuguesa do Ambiente, o CCDR e empresas. Neste momento, não existem equipas dedicadas à facilitação, avaliação dos benefícios económicos, sociais e ambientais associados às sinergias identificadas e apoio à sua implementação. Todo o esforço neste momento é feito unicamente pelo campeão do projecto – o governo local, mas como este é o primeiro a assumir, não é suficiente. Na concepção e desenvolvimento de políticas de estabelecimento do Eco-Parque do Relvão, quais são as condicionantes, especificações e incentivos mais significativos para a localização? Numa primeira fase, as condições disponibilizadas pela Câmara Municipal da Chamusca foram importantes para a atracção do investimento inicial, como o dos CIRVER. Assegurar este esforço ao longo do tempo,

seria uma tarefa que beneficiaria com uma entidade gestora do parque, com uma estrutura independente e profissionalizada, como se verifica em outras iniciativas a nível internacional, o que permitiria manter a dinâmica do processo e simultaneamente o compromisso inicial para com o conceito de ecologia industrial. Isto não tem sido fácil de afirmar e poderia ser benéfico numa fase de dinamização do esforço efetuado, mas também para o reconhecimento do mérito da iniciativa. É evidente que neste quadro de gestão são centrais a definição de incentivos à localização no parque, as obrigações dos parceiros e a procura de sinergias para obtenção de apoios financeiros que isoladamente seriam mais difíceis de obter. A Resitejo inaugurou recentemente uma unidade considerada inovadora, a nível mundial, a Estação de Tratamento Mecânico e Biológico. A recolha selectiva com vista à reciclagem, e o reaproveitamento de resíduos, nomeadamente para valorização energética, é um mercado com futuro em Portugal? Há espaço para mais projectos semelhantes sem que se afecte a competitividade dos mesmos? R - Qualquer iniciativa inovadora que contribua para o sucesso da gestão de resíduos urbanos em Portugal é muito importante, particularmente se atender às suas dimensões ambientais, económica e social. Como em qualquer solução inovadora, importa avaliar o seu efetivo contributo no terreno, para que se possam retirar conclusões sobre o seu mérito e os pontos a melhorar. A unidade da Resitejo apresenta um contributo importante em algumas dimensões da gestão de resíduos urbanos, que importa analisar, mas que deve eventualmente ser entendida como uma fase de um processo que importa consolidar num futuro próximo, particularmente no que diz respeito à valorização orgânica. PUBLICIDADE

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Dossier “Aposta no desenvolvimento económico e na criação de dinâmicas empresariais não está condicionada por opções ideológicas”

josé eduardo carvalho* Lembro-me de há 15 anos ter visitado com o Sérgio Carrinho uma central de compostagem na Bélgica. Germinava na sua cabeça uma alternativa para o desenvolvimento económico de um dos maiores concelhos do país, com elevadas taxas de desemprego, sem acessibilidades rodoviárias, tecido empresarial frágil e sem capacidade competitiva para atrair e localizar empresas. Constatar como um território emergiu desta situação para criar um cluster sectorial concentrado regionalmente, é uma análise interessante. Destaco três factores que estiveram na base deste processo: Voluntarismo de Sérgio Carrinho. Não há muitas experiências de desenvolvimento regional bem sucedidas quando o principal factor impulsionador desses processos reside no voluntarismo de um actor. Mas aqui sucedeu. O então presidente da autarquia procurou alternativas de desenvolvimento, definiu uma estratégia que pudesse captar empresas e criar postos de trabalho. A indústria de resíduos era uma aposta arriscada nessa altura devido à forte contestação das populações, facilmente mobilizáveis contra este tipo

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de projecto. Sérgio Carrinho demonstrou que não há regiões condenadas ao sub-desenvolvimento, mas sim regiões sem projectos e sem actores. Consenso inter-partidário. Creio que foi o segundo factor de sucesso deste processo. O pessoal político local do PS e PSD foram co-solidários com a opção estratégica e co-responsáveis pelo seu sucesso. Os vereadores da oposição nunca colocaram o projecto em causa nem protagonizaram clivagens comprometedores para o mesmo. Capacidade de mobilização das populações. Sérgio Carrinho liderou este processo em diálogo com as populações de forma muito transparente e participativa. Mas temos de admitir que só o Partido Comunista e os Verdes tinham capacidade para arregimentar populações face a um projecto desta natureza. Enquanto na Carregueira essas forças políticas mobilizaram a população para aceitarem o projecto, noutro local, a 20 km, um projecto concorrente era derrotado pela oposição da população. Conclui-se também que a aposta no desenvolvimento económico e na criação de dinâmicas empresariais não está condicionada por opções ideológicas. Outros autarcas de centro direita, na mesma conjuntura, colocaram a ênfase nos pavilhões multiusos, praias de interior, museus, espectáculos de ópera, cultura, em detrimento da atracção de empresas e do apoio à iniciativa privada. *Presidente da Associação Industrial Portuguesa

“Lições de um cluster em formação”

nelson de souza* Confesso que, até a visita à Chamusca que uma equipa da AIP realizou no Verão passado e que tive o gosto de integrar, o projecto da autarquia de recolha e posterior valorização de resíduos sólidos urbanos nunca tinha suscitado uma atenção particular do meu lado. Mas julgar sem conhecer o suficiente é preconceito e será por isso que boas práticas seguidas em alguns territórios não são suficientemente valorizadas na sociedade portuguesa. Da informação que recolhi e da reflexão propiciada pela deslocação para conhecer in loco a realidade do projecto de desenvolvimento da Chamusca, concluo que o mesmo constitui uma experiência muito singular de desenvolvimento regional no nosso país. Situada na região do Médio Tejo numa zona com características evidentes de interioridade (a cerca de 110 km de Lisboa ou da costa portuguesa, as ligações rodoviárias levam perto de duas horas a percorrer!), a Chamusca defronta-se com os problemas característicos de regiões de baixa densidade populacional e empresarial com bloqueios que, muitas vezes, afiguramse como inultrapassáveis no processo de geração de ri-

queza e de emprego. O atual período de crise financeira e económica e as consequentes restrições orçamentais agravam estas debilidades estruturais dificultando dinâmicas de criação de atividades económicas empresariais. Também as restrições orçamentais vêm tornando cada vez mais difícil a adoção de soluções de emprego público municipal, que no passado mitigaram a ausência de actividades económicas. Tal como muitos outros do interior do país, o município da Chamusca parecia ficar remetido à condição de eterno reclamante contra a falta de apoios de natureza regional ou nacional, sem, no entanto, assumir estratégias alternativas concretas de ação. Foi nessa visita à Chamusca que constatamos estar perante um caso singular em contextos de desenvolvimento de regiões com menor potencial. Perante a inacção inconsequente ou uma aposta que comportava riscos elevados, o concelho optou corajosamente por esta última, mesmo com elevada probabilidade de rejeição pelos munícipes eleitores. Com o apoio aparente da restante vereação, ouvimos o anterior presidente da município explicar como acolheu sem complexos, mas com os cuidados apropriados, a centralização dos RSU (resíduos sólidos urbanos) da região, integrando-a com a atração de novas empresas que pudessem incluir um cluster relacionado com esta atividade e instalado no Eco Parque do Relvão. Observamos


o cuidado colocado na construção dos aterros e sistemas de tratamento de RSU com tecnologias “state of art” de acordo com as boas práticas aconselhadas. Confirmamos o início da instalação de empresas com atividades correlacionadas com a valorização dos resíduos dando-lhes novas utilizações. Verificamos a preocupação da autarquia no acolhimento amigável de novos investimentos empresariais oriundos de outras regiões do país. Estamos assim perante uma iniciativa que merece ser considerada de forma muito positiva que parece vir a constituir uma aposta bem sucedida, constituindo-se como uma alternativa de desenvolvimento de um concelho com poucos recursos como o da Chamusca. Paralelamente, a experiência da Chamusca deveria ser considerada e discutida, como um exemplo prático de (re)industrialização da estrutura produtiva portuguesa, como um bom modelo de desenvolvimento industrial que crie valor acrescentado mas que não está baseado em tecnologias de vanguarda. Mas o que vimos carece ainda de consolidação. Um conjunto integrado de actividades produtivas (neste caso, relacionado com os resíduos sólidos) é condição necessária para a criação de um cluster. Sendo necessária, não é contudo suficiente. Para o desenvolvimento de um cluster são necessárias as chamadas indústrias de suporte que envolvem fabricantes/developpers de tecnologias, as universidades como centros geradores de conhecimento e as instituições de ensino como veículos fundamentais da qualificação. Aqui ficam algumas reflexões singelas sobre as iniciativas que, em minha opinião, deveriam ser implementadas num futuro próximo: a) Estabelecer laços mais permanentes com centros de saber (universidades, politécnicos e

centros tecnológicos) de forma a gerar conhecimentos que possam sustentar o desenvolvimento de novas actividades;

“Urgente resolver o problema das acessibilidades”

b) “Profissionalizar” as actividades de atração de investimento empresarial e de marketing territorial relacionado com o cluster, resistindo à tentação de aceitar actividades produtivas fora do core do Eco Parque do Relvão; c) Adotar uma postura de orientação das empresas para fora do território do Médio Tejo e até para os mercados internacionais; limitar as iniciativas empresariais aos recursos libertos apenas no território de atuação, poderá inviabilizar a dimensão crítica que determinadas tecnologias de recuperação requerem; d)  As realidades que não se conhecem acabam por não existir. Este projeto precisa e merece que se fale dele. Pelo seu potencial, mas também por aquilo que já representa; e) Finalmente, a qualidade ambiental da iniciativa deverá ser preservada em todo o momento, sugerindo-se para o efeito uma monitorização por parte de uma entidade com credibilidade técnica inquestionável e um fluxo transparente e contínuo de informação à comunidade local, sob pena de alienar a aceitação por parte dos munícipes. O enunciado deste conjunto de preocupações não deve ser entendido como um elemento de desvalorização do mérito do projecto realizado na Chamusca, mas, ao contrário, como contributos que poderão consolidar a dinâmica agora criada e que poderiam ser integradas na programação dos fundos estruturais europeus no próximo período de 2014-2020. *Economista

veiga simão* A visita de uma delegação de dirigentes e técnicos da AIP ao Eco Parque do Relvão, liderada pelo presidente da Direcção, José Eduardo Carvalho, foi, sob múltiplos aspectos, uma agradável surpresa, como exemplo da capacidade empreendedora e de gestão estratégica do poder local. Recebida a delegação na Câmara Municipal da Chamusca, o seu presidente, Sérgio Carrinho, acompanhado pelos vereadores e por José Eduardo Carvalho, elucidou a audiência sobre a génese do empreendimento, os naturais conflitos de propriedade regionais e a posterior adesão à solução encontrada, sinal de maturidade dos responsáveis. Os dirigentes regionais políticos e empresariais souberam compreender o valor da cooperação para um desenvolvimento regional equilibrado, harmonioso e integrado, de acordo com as potencialidades, o capital social e material e a maximização criativa dos recursos existentes em cada município. Por sua vez, a visita técnica ao Eco Parque revelou o enorme esforço desenvolvido quer em infraestruturas únicas no país, quer nos investimentos realizados e previstos nas di-

versas fases e chamou-nos a atenção para os avanços científicos e tecnológicos no tratamento de resíduos diferenciados e para os caminhos a percorrer na investigação, desenvolvimento e demonstração, com incidência em novos equipamentos e tecnologias e nos tratamentos químicos, mecânicos, biológicos, electrónicos e radiativos… A importância crescente destes domínios do conhecimento e a sua estreita ligação às áreas da energia, do ambiente, dos novos materiais e da recuperação de outros posicionam o Eco Parque para um futuro promissor. Há questões críticas a resolver a nível nacional no domínio dos resíduos perigosos e entre eles dos radioactivos (hospitalares, industriais, agrícolas, mineiros e equipamentos da defesa e segurança). Afirmando-se já como uma fonte imprescindível de empregabilidade, a leitura do breve historial apresentado pela Câmara Municipal da Chamusca revela-nos que esta opção estratégica representa uma realidade incontestada e que as fases em progresso e as previstas devem merecer do poder político uma atenção cuidada, sendo urgente resolver o problema das acessibilidades. O Eco Parque do Relvão merece ser um projecto aglutinador ao serviço da comunidade ribatejana, diria mais, um projecto-piloto a nível europeu. *Consultor da AIP

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Empreendedorismo

Ateliers Empreender Criança e Academia Empreender Jovem

De pequenino se assimila o empreendedorismo

“Gostar do que fazemos”, “espírito de sacrifício”, “atitude competitiva”, “visão futurista” e “ter algum capital” são algumas das expressões mais bisadas pelos cerca de dois mil alunos de 87 escolas do ensino básico de Lisboa, Beja, Leiria, Castelo Branco e Portalegre envolvidas no projecto Ateliers Empreender Criança, que a AIP criou em 2012 com o apoio do POAT/FSE. Projecto dinamizado em vários distritos do país, com parcerias de grandes empresas locais e autarquias. “Empresários em embrião” de 118 turmas do 3.º e 4.º ano meteram “mãos-à-obra”, revelando possuir o empreendedorismo no seu “ADN”, a avaliar pelos mais de 125 projectos exibidos em apresentações públicas e feiras promovidas para o efeito. Na Academia Empreender Jovem, projecto implementado no ensino secundário e profissional, foram mobilizados mais de 800 alunos – oriundos de 43 turmas e 12 escolas – e mostradas 78 ideias de negócio que abrangeram diversos sectores de actividade. “Portugal precisa de moldar os sonhos das suas crianças para que, mais tarde, não abandonem o país, criem empresas e sejam ambiciosas”, é um desejo da AIP, diz o seu presidente, José Eduardo Carvalho. Pretende-se que os alunos, após um ano de aprendizagem, consigam verbalizar e dominar conceitos como capital, lucro, juro, empréstimo, proveitos e custos. Pretende-se, ainda, incutir valores como dinamismo, capacidade de decisão e risco. “Balanço positivo, acima do expectável”, conclui Helena Caiado, responsável pelo

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Departamento de Empreendedorismo e Cooperação Empresarial da AIP. Foi o “resultado de um ‘casamento bem-sucedido’ entre a AIP, as escolas, as autarquias e as associações empresariais regionais, que conseguiram aproximar a educação à realidade empresarial do país”. Obreiros “incansáveis”, conforme salienta, os “professores e directores das escolas foram, têm sido e serão os grandes motores” desta família em crescimento, mas já numerosa. A segunda edição dos Ateliers Empreender Criança e, também, da Academia Empreender Jovem (ano lectivo 2013/14) já está em curso em diferentes distritos do país.

Alcance pedagógico do projecto “Ateliers Empreender Criança” da AIP

A AIP pretende criar ambientes em que os alunos possam exercitar a sua capacidade de imaginar as mudanças, de forma a desenvolver desde muito cedo a sua capacidade de iniciativa, criatividade, autoconfiança, liderança, trabalho em equipa, responsabilidade e sentido cívico em tudo o que irão empreender, seja na vida académica e profissional como nos aspectos pessoais e sociais da vida quotidiana. O projecto atinge vários objectivos: despertar e incentivar comportamentos e atitudes empreendedoras; criar uma visão mais precoce da actividade empresarial; estimular a associação do empreendedorismo e da dinâmica empresarial a valores positivos; compreender e introduzir os conceitos empreender, empreendedor, “marketing”, custo,

resultado, entre outros; conhecer quais os factores inerentes à criação e implementação de uma ideia de negócio e desenvolver uma ideia de negócio (produto ou serviço) que demonstre os conhecimentos adquiridos e que será posteriormente levada a apresentação pública. O programa leccionado é composto por 30 sessões de 45 minutos cada, ministradas por um professor/dinamizador que desenvolve, em conjunto com a turma, quatro módulos subordinados aos seguintes temas: A empresa – “Crio o meu negócio já!”; O Marketing – “Quero vender o meu produto!”; Os Resultados – “Deixa ver... que resultados espero obter?” e Ser Empresário – “Como é ser empresário? Quero saber. Contem-me tudo!”.


Ode ao empreendedor* Todos temos iniciativa De ser empreendedores De ter muitas ideias E de ser inovadores Para ultrapassar obstáculos Muito temos de fazer Mas quando vencermos Muitas diferenças vamos obter Desenvolver a ideia É o que queremos fazer Pois o que disto esperamos É muitas coisas vender Testar em possíveis clientes O que eles acham agradável O que eles querem nós temos Seja ou não variável Dar um nome à empresa É um passo fundamental Pois quando isso fizermos Vai para a TV e para o jornal Dar um nome e protegê-la É o que vamos fazer Afastá-la de escuros negócios É o que nós vamos querer

Temos vários concorrentes Mas isso pouco importa Vemo-nos indiferentes Com quem nos quer fechar a porta

A AIP criou um ‘kit’ de materiais pedagógicos, que inclui um manual para os professores – “Cinco Dedos Doces – A empresa de Su Cesso”, da Susana –, ‘storytellings’, jogos de tabuleiro e digitais, histórias ilustradas, banda desenhada e fichas pedagógicas. Como complemento a estes materiais, estão contempladas visitas a empresas e de empresários às escolas que serão organizadas ao longo do desenvolvimento do projecto, visando a observação e a exploração de experiências práticas e interacção com o meio envolvente (família, comunidade, empresas e cidade). O projecto (tal como acontece com o Empreender Jovem) culmina com apresentações públicas e/ou feiras organizadas para o efeito no final do ano lectivo, junto da co-

munidade escolar e empresarial local, não esquecendo o esmero dos pais e encarregados de educação.

Academia Empreender Jovem: treino para o mundo do trabalho e “viveiro” de ideias de negócio

A Academia Empreender Jovem da AIP esteve no passado ano lectivo nas escolas dos distritos da Guarda, Lisboa, Portalegre e Viseu, envolveu mais de 800 alunos, e teve, nalgumas regiões, parceria com a associação empresarial local e/ou o apoio da autarquia e do POAT/FSE. A iniciativa é sobretudo dirigida a jovens do ensino secundário e profissional com elevada apetência para os factores da inovação e da tecnologia, tornando as suas ideias em oportunidades de negócio.

Transformar em negócio O que aparece pela frente Pois é isso que fazemos É nossa a semente Amáveis temos de ser Para os produtos vender Agradar aos clientes Até produtos não haver Transformar negócios Em empresas agradáveis Para as pessoas não pensarem Que não somos amáveis *Alunos do 4.º ano do Agrupamento de Escolas João Roiz, em Castelo Branco

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Empreendedorismo

1935 Alunos 118 turmas 87 escolas 12 apresentações/feiras: Torres Vedras (2), Castelo Branco, Caldas da Rainha, Avis, Lisboa (3), Gavião, Portalegre, Beja e Odivelas 125 projetos apresentados Mega apresentações: Grande Festa da Criança – XXIV Oeste Infantil, no Dia Mundial da Criança, com 800 alunos das escolas de Torres Vedras

Dos ‘robots’ camuflados no Gavião às gomas saudáveis de Torres Vedras

Enquadra-se na estratégia da AIP para a área do empreendedorismo, que passa pela criação de condições favoráveis à renovação do tecido empresarial, através da promoção de iniciativas potenciadoras da geração de novas ideias, projectos e empresas. Trata-se de um “grande desafio para as instituições de ensino”, explica Helena Caiado, referindo que os jovens são acompanhados por equipas da AIP, e, com a ajuda de novas metodologias, instrumentos e ferramentas, “são desafiados a transformarem as suas em potenciais negócios”. “Após a conclusão do ensino secundário e profissional são muitos os jovens que pretendem aceder ao mercado de trabalho”, pelo que “a criação da própria empresa e do posto de trabalho são hipóteses que devem ser consideradas”, é uma ideia sublinhada por aquela responsável durante as várias sessões de apresentação dos projectos. “O projeto Academia Empreender Jovem procura ter um efeito acelerador na concretização de novos negócios e empresas, em setores de maior potencial”, conclui.

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‘ Robots’ camuflados que assumem figura de animais, limpam florestas e jardins de forma dissimulada e não causam impacto visual nem interferem com o meio onde são utilizados (Escola Básica de Gavião) Sabonetes de cinza com aromas, embalados com motivos dos bordados de Castelo Branco. Bonecas em tecido (Agrupamento de Escolas Faria de Vasconcelos-Castelo Branco) Jornal “O Mestre”, o primeiro da Escola Avis, em homenagem ao Mestre de Avis. Mimos de chocolate (Escola Básica Mestre de Avis) Gomas saudáveis, EB Padre Vítor Melícias Torres Vedras Suporte para pousar telemóvel enquanto está a carregar em material reciclado (Escola Básica José Régio, Portalegre)

837 alunos 48 turmas 13 escolas 10 apresentações/feiras 75 projetos apresentados revelaram “criatividade”, “confiança”, “clareza” e “consciência social”

Engenho e consciência social quanto baste!  áquina eletrónica distriM buidora de guarda-chuvas, colocada em pontos estratégicos da cidade. Associação de voluntários para concretizar desejos a doentes oncológicos (Escola Profissional de Imagem, Lisboa) Personalização de bicicletas usadas ou novas. Rede social de músicos, com espaço físico, para combater o sedentarismo e o isolacionismo existente na população jovem (Colégio Valsassina, Lisboa) Aplicação tecnológica para ‘tablets’ e telemóveis que permite visualizar lugares disponíveis em parques de estacionamento (Escola Secundária de Pedro Nunes, Lisboa) Domótica para assistência a idosos, isolados e a viverem sozinhos, com aplicações diversas e oferta de serviços variados/Equipamento de monitorização (Escola Secundária Marquês de Pombal, Lisboa) Sistema de produção de energia a partir da fricção provocada pela locomoção em ruas e ambientes citadinos (Escola Secundária da Sé, Guarda)


Empreender por esse mundo fora… Timor-Leste, Cabo Verde, Angola e Moçambique são os paísesalvo, numa primeira fase de internacionalização, dos Ateliers Empreender Criança, um projeto com bandeira portuguesa promovido pela AIP e apoiado por grandes empresas nacionais com o apoio institucional do Governo de Portugal. TIMOR-LESTE, 130 alunos. A assinatura do protocolo com a Escola Portuguesa de Díli decorreu no dia 29 de novembro, na presença do secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação do Governo português, Luis Ferreira Campos, do embaixador de Portugal em Timor-Leste, Manuel Gonçalves de Jesus, e do adjunto do secretário de Estado, Gonçalo Marques. O documento foi assinado por Filipe Martins, responsável pelo Departamento de Internacionalização da AIP, e por Conceição Godinho, diretora da Escola Portuguesa de Dili. Os Ateliers Empreender Criança vão envolver cinco professores e 130 alunos. Na Escola Portuguesa de Dili, esta iniciativa estará inserida nas Oficinas de Língua Portuguesa, projeto que procura reforçar e incentivar a aprendizagem do português, uma das línguas oficiais do jovem país, onde a maior parte das crianças só fala a língua de

Camões dentro do ambiente escolar. Com os familiares e os amigos a linguagem mais utilizada é o tétum. A Escola Portuguesa de Díli é frequentada maioritariamente por alunos timorenses, sendo que as crianças portuguesas representam apenas 10%.

CABO VERDE, 740 alunos. Vai envolver, neste ano lectivo, 25 turmas para um total de 740 alunos, em cinco escolas do ensino público. As sessões de formação foram realizadas nos dias 21 e 23 de outubro, na Cidade da Praia e em São Vicente, respetivamente, tendo participado 30 professores do 4º ano do ensino básico e técnicos da Direção Nacional de Educação de Cabo Verde. A AIP e o Ministério da Educação e Desporto de Cabo Verde assinaram, no dia 15 de novembro, em Lisboa, um protocolo de cooperação com vista à implementação e dinamização, em Cabo Verde, do

Indicadores escolas ateliers Empreender Crianças: Nacional e Internacional

Programa de Empreendedorismo - Ateliers Empreender Criança. “Temos 2138 alunos em Portugal que estão inseridos neste programa e começámos a pensar em estender o projeto aos países de língua oficial portuguesa. E é o que estamos a fazer, possibilitando aos ministérios de educação desses países a implementação dos Ateliers Empreender Criança”, disse José Eduardo Carvalho na ocasião. “Quando surgiu esta iniciativa, imediatamente entendemos que seria um projeto a agarrar e que devíamos ensinar as crianças a serem empreendedoras desde muito cedo”, apontou Pedro Moreno Brito, diretor do Planeamento, Orçamento e Gestão do Ministério da Educação e Desporto de Cabo Verde. O responsável referiu que por uma questão de logística não foi possível alargar o projeto a mais do que cinco escolas abrangidas, sendo três na Cidade da Praia e duas em São Vicente. “Acreditamos que vamos ter sucesso com este projeto. Os professores manifestaram um grande entusiasmo. Acreditamos que vamos chegar ao fim com resultados palpáveis e por isso agradeço esta iniciativa”, salientou Pedro Moreno Brito.

ANGOLA, 160 alunos. O projeto Ateliers Empreender Criança chegou a Angola após ter-se celebrado um protocolo de cooperação em Luanda, assinado no dia 11 de outubro, na presença do secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Luís Campos Ferreira, com a Escola Portuguesa de Luanda. Serão abrangidos mais de 160 alunos a frequentar o 3º ano de escolaridade. MOÇAMBIQUE, 130 alunos. Os técnicos da AIP iniciaram, no passado dia 9 de outubro, a formação de 26 professores da Escola Portuguesa de Maputo que irão ser responsáveis pela implementação do projeto junto de cerca de 130 alunos do ensino básico. Foi com grande entusiamo e motivação que os professores participaram nas sessões que terminaram com a entrega dos “kit” pedagógicos. A aposta na formação profissional – uma área forte de especialização da AIP - pretende dar um contributo válido para a comunidade local e assim fortalecer e criar raízes nestes países de modo a poder apoiar as empresas portuguesas nos seus processos de internacionalização. fevereiro 2014 Ne - Negócios & empresas

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opinião Manuel Caldeira Cabral

Crescimentos das exportações e recuperação da competitividade A taxa de crescimento das exportações acelerou e supera a média europeia desde 2005. Nos últimos anos a procura externa líquida voltou a dar um contributo positivo para o crescimento, invertendo a tendência verificada entre 1990 e 2005. Entre 2006 e 2013, as exportações líquidas deram um contributo positivo para o crescimento do PIB em 21 dos 30 trimestres. O peso das exportações no PIB aumentou de 27% para cerca de 40%.

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N

os últimos oito anos as exportações portuguesas voltaram a crescer acima da média dos países da União Europeia e mesmo dos países da OCDE. Desde 2005, as exportações portuguesas registaram a segunda maior taxa de crescimento da UE15, ficando apenas atrás do crescimento registado pela Alemanha. O crescimento do PIB voltou a ser puxado pelas exportações líquidas e o peso das exportações no PIB deu um salto semelhante ao registado nos anos a seguir à entrada na CEE. Neste artigo analiso a forma como se deu este crescimento, mostrando que não seguiu nem a linha dos que acreditavam que só poderíamos aumentar as exportações nos sectores tradicionais, nem a linha dos que defendiam que a solução teria de passar principalmente pelos sectores ligados a grandes projectos de investimento estrangeiro, em sectores como automóvel e máquinas, nem tão pouco a dos que, perante a concorrência asiática, consideraram que só o Turismo conseguiria crescer. Turismo, Automóvel, Máquinas, Têxteis, Vestuário e Calçado continuam a ter um peso muito importante nas exportações portuguesas, mas foram responsáveis por apenas 15% do crescimento total das mesmas entre 2000 e 2012.

Nos últimos doze anos, o crescimento das exportações deu-se num conjunto diversificado de sectores e de empresas de bens e serviços, que incluem áreas tão diversas como o mobiliário, a agricultura e as agro-indústrias, os produtos metálicos, indústria química, farmacêutica, borracha e plásticos, ou os serviços de transporte, de informática e tecnologias da comunicação, de engenharia, construção e arquitectura. Também no que diz respeito aos mercados, a expansão foi no sentido da diversificação, invertendo a tendência verificada até 1999 de progressiva concentração das exportações num único mercado, o da União Europeia. Os dados apresentados mostram que a recuperação do crescimento das exportações começou antes da crise e não apenas em resposta à crise, com um forte aumento das exportações no PIB já em 2006 e 2007, e com o processo de alteração da estrutura de exportações e de diversificação de mercados a começar antes de 2000. Depois de entre 1990 e 2005 se assistir a perdas de quota no mercado europeu, por aumento da concorrência asiática e dos países do leste europeu, as empresas portuguesas conseguiram responder ao desafio da globalização reconquistando posições em alguns mercados europeus, mas principalmente expandindo as suas actividades para fora da Europa, afirmando-se e crescendo no mercado global. O contributo do crescimento das exportações foi determinante para atenuar os efeitos no PIB da redução da procura interna, contrariando os efeitos recessivos da política de austeridade seguida e evitando que esta tivesse efeitos tão devastadores como os verificados na Grécia.

O CRESCIMENTO PROTEGIDO E A CRISE DE COMPETITIVIDADE

No pós-guerra, a abertura comercial de Portugal apresentou dois períodos de forte crescimento: os períodos após a entrada na EFTA e na CEE. Em ambos, o forte crescimento das exportações deu-se num contexto de abertura preferencial às nossas exportações (face aos concorrentes externos), que resultou num aumento da concentração nos mercados europeus e num reforço da especialização em produtos em que o país tinha vantagens comparativas dentro desse espaço, mas não face à concorrência global.


Portugal era o país com mão-de-obra mais barata de um clube de ricos. O mercado comunitário então ainda era relativamente fechado ao resto do mundo, em particular em alguns dos principais produtos exportados por Portugal. Tal contribuiu para o reforço de uma especialização que se viria a revelar como não sustentável quando o clube se alargou à entrada de países com salários inferiores aos portugueses (do leste) e se abriu à entrada de produtos de países de baixos salários. O alargamento e o acordo multifibras tornaram insustentável a especialização portuguesa. Estes factores, aliados à valorização do real e à alteração das prioridades de investimento nacionais decorrentes dos incentivos criados pela entrada no Euro, condenaram o país a um crescimento das exportações menor que o dos países da UE entre 1995 e 2005 – ver gráfico 1. Situação que só se inverteu nos últimos anos, em que as exportações portuguesas não só voltaram a crescer acima da média da UE15, como estiveram entre as que mais cresceram – ver gráfico 2.

inicialmente por grandes projectos de investimento, nos sectores automóvel, máquinas e material eléctrico – ver gráficos 3 e 4. Foi um período de alteração da estrutura, mas de baixo crescimento das exportações totais, pois enquanto novos sectores emergiam, os sectores tradicionais diminuíam. Nesta década, o principal pólo de exportação deixa de ser a fileira têxtil, vestuário e calçado, para passar a ser um grupo de indústrias marcado pela presença de investimento estrangeiro, maior escala de produção e maiores necessidades de mão-de-obra qualificada e capital – Automóvel, Máquinas e Material Eléctrico.

Gráfico 1 – Diferencial de Crescimento entre Portugal e a UE15 Gráfico 1 – Diferencial de Crescimento entre Portugal e a UE15 8 8 6 6 4 4 2 2 0 0 -2 -2 -4 -4 -6 -6

Diferença do crescimento médio anual das Exportações de Bens e serviços de Portugal e da UE15. Fonte Ameco. Diferença do crescimento médio anual das Exportações de Bens e serviços de Portugal e da UE15. Fonte Ameco.

Gráfico 2 - Taxa de Crescimento das exportações 2005-2012 Gráfico 2 - Taxa de Crescimento das exportações 2005-2012

7 7 6 6 5 5 4 4 3 3 2 2 1 1 0 0

Fonte: Ameco.- Taxa de crescimento nominal em euros das exportações de bens e serviços.

Fonte: Ameco.- Taxa de crescimento nominal em euros das exportações de bens e serviços.

Entre 1995 e 2005, iniciou-se um interessante processo de alteração da estrutura das exportações, com a diminuição do peso dos sectores tradicionais e de baixa tecnologia e o aumento progressivo do peso de sectores de média e alta tecnologia, impulsionados

CRESCIMENTO COM DIVERSIFICAÇÃO

A taxa de crescimento das exportações acelerou e supera a média europeia desde 2005. Nos últimos anos a procura externa líquida voltou a dar um contributo positivo para o crescimento, invertendo a tendência verificada entre 1990 e 2005. Entre 2006 e 2013, as exportações líquidas deram um contributo positivo para o crescimento do PIB em 21 dos 30 trimestres. O peso das exportações no PIB aumentou de 27% para cerca de 40%. No aumento das exportações dos últimos 12 anos destacam-se os contributos de sectores tão diversificados como a agricultura, indústria alimentar, papel, mobiliário, produtos metálicos, plásticos, borracha, produtos petrolíferos, indústria química e farmacêutica, com crescimentos nominais próximos ou acima dos 10% ao ano. As exportações de vestuário e calçado, depois de mais de uma década em queda, voltam a recuperar depois de 2005 e as de automóveis e máquinas continuaram a crescer, mantendo-se como dois dos mais importantes sectores das exportações portuguesas. Hoje, ao contrário do que acontecia nos anos 80 e 90, é difícil designar um pólo exportador dominante no crescimento das exportações portuguesas. O crescimento verificado na última década foi liderado por empresas de vários sectores, resultando numa maior diversificação sectorial, desafiando a ideia de que o caminho para a recuperação das exportações teria de vir ou dos sectores tradicionais, ou da aposta em grandes investimentos, como os que que se registaram no sector automóvel e de máquinas nos anos 90. Os gráficos 5 e 6 apresentam esta ideia, mostrando que os sectores com maior peso nas exportações no início do novo século (automóvel, máquinas, ou têxteis e vestuá-

No novo século, o país teve de enfrentar a globalização sem atenuantes, com um forte impacto nos sectores tradicionais – visível em perdas de quota entre 2000 e 2005. Depois de 2005, a capacidade de resposta das empresas afirma-se. Inicia-se um período de crescimento marcado pelo aumento da diversificação dos sectores exportadores e dos mercados de destino das exportações do país, contribuindo para diminuir a dependência do nosso país da UE, um mercado em baixo crescimento, e de sectores expostos a forte concorrência de países de baixos salários.

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opinião Manuel Caldeira Cabral

portuguesas, entre 1995 e 2005 – ver gráfico 8. Na última década a tendência de concentração das exportações inverteu-se, com estas a crescerem de forma mais acentuada para países extracomunitários. Em face da perda de quota nos mercados europeus, as empresas portuguesas procuraram novos mercados, conseguindo aumentar as suas exportações para os países extracomunitários, que desde 2008 voltaram a ter um peso próximo dos 31% registados antes da entrada na CEE – ver gráfico 9. rio) registaram um crescimento moderado, ou até uma redução do valor nominal das exportações, enquanto um conjunto de outros sectores cresceu fortemente. Paralelamente, o peso das exportações de serviços aumentou de 24% para 31% do total das exportações, entre 1996 e 2008, percentagem que se manteve nos últimos cinco anos. A composição das exportações de serviços também se alterou. O turismo que representava 60% das exportações de serviços perdeu peso. Na última década, este sector contribuiu com apenas 26% do crescimento das exportações de serviços. Três quartos do crescimento das exportações de serviços, resultaram do crescimento das exportações de transportes, comunicações, tecnologias de informação, de arquitectura, engenharia e construção e outros serviços a empresas, que registaram taxas de crescimento anuais próximas ou acima dos 10%. O quadro A apresenta o contributo de diferentes grupos de sectores para o crescimento nominal das exportações de bens e serviços. Entre 2001 e 2012, 64% do crescimento das exportações verificou-se num conjunto de sectores que, em 2001, representava apenas 31% das exportações, enquanto os principais sectores exportadores (com 58% das exportações em 2001) contribuíram com apenas 15% do crescimento total. Esta evolução é muito distinta da verificada nos anteriores períodos de forte crescimento das exportações dos anos sessenta e oitenta. A diversificação implicou que, nos últimos 12 anos, o crescimento das exportações foi mais acentuado exactamente nos sectores em que Portugal apresentava desvantagens comparativas – ver gráfico 7. O crescimento das exportações foi liderado por um conjunto alargado de sectores e por sectores em que, em geral o país era importador líquido. Por-

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tugal ganhou quota no mercado mundial principalmente em sectores onde a sua quota no mercado mundial está abaixo da média, alterando a sua inserção na economia global.

Novos mercados

Na década e meia que se seguiu a 1986 as exportações extracomunitárias diminuíram de 31% para menos de 16% do total. As empresas portuguesas centraram-se num mercado protegido mas de baixo crescimento e em sectores em que o país tinha dificuldades em concorrer no mercado global. Os ganhos obtidos pelo acentuar da especialização portuguesa, nos anos iniciais de integração, reforçaram as necessidades de ajustamento face à abertura à globalização. Os efeitos do alargamento podem ser vistos por exemplo na forte perda de peso do mercado alemão como destino das exportações

Os mercados extracomunitários, que representavam apenas 16% do total das exportações no fim dos anos noventa, foram responsáveis por 44% do crescimento das exportações entre 2000 e 2012. A dinâmica das exportações a seguir a 2009 recuperou a tendência de 2005-08, e foi determinante para evitar uma maior recessão, nos anos de crise e de políticas de austeridade, e para a recuperação do equilíbrio externo que o país conseguiu em 2012 – ver gráfico 10. A diminuição das necessidades líquidas de

financiamento que ocorreu em Portugal, seguiu a tendência de muitos dos outros países europeus que se encontravam em desequilíbrio, mas ao contrário de outros países europeus como a Grécia, foi conseguida tanto pela


opinião Pedro Ferraz da Costa

redução das importações como pela recuperação das exportações.

CONCLUSÃO

A evolução das exportações na última década e meia mostram uma forte resiliência das empresas portuguesas. Os sectores tradicionais, que muitos defendiam estar condenados pela concorrência asiática, conseguiram recuperar uma dinâmica de crescimento, com investimentos em tecnologia e melhorias na gestão que permitem às empresas ser competitivas num mercado sem protecções. O sucesso do crescimento das exportações depois de 2005 passou também pela capacidade em convencer as empresas que nos anos 90 fizeram grandes investimentos em Portugal, a permanecer no país, num início de século em que a deslocalização estava a marcar os sectores automóvel e de máquinas. A estratégia de competitividade que empresas e trabalhadores souberam assumir, são um exemplo de bom senso e racionalidade. No entanto, o mais surpreendente foi o crescimento das exportações ter sido con alargado de sectores que nunca estiveram no centro da discussão sobre as prioridades a seguir. Este facto lembra-nos mais uma vez que são as empresas que fazem a competitividade de um país e que as vantagens competitivas, não se restringem aos factores de custo e de vantagem comparativa. As vantagens competitivas constroem-se nas empresas com os empreendedores, com a motivação dos trabalhadores, com o apoio das estruturas tecnológicas e da capacidade de inovação dos criadores. São estas que hoje dão ao país uma base exportadora mais diversificada, mais flexível e mais sustentável. Esta evolução dá um sinal de esperança e confiança na capacidade da economia portuguesa de recuperar um caminho sustentável de crescimento. É também um aviso aos que no passado defenderam certezas sobre o caminho a seguir, seja os que consideravam que o fim dos sectores tradicionais era inevitável, ou os que pensavam que apenas grandes investimentos podiam fazer crescer as exportações ou que Portugal seria apenas um país de turismo. Os empresários portugueses demonstraram afinal que há muitos caminhos e muitas soluções possíveis para ser bem sucedido no mercado global. É esta dinâmica que merece ser aplaudida e incentivada. Economista

“Que acontecerá ao ímpeto reformista quando a troika sair do país?” Estamos muito preocupados com a execução do Programa de Ajustamento. Partimos de uma posição de grande compreensão pela tarefa, especialmente espinhosa, que o Governo veio encontrar.

A

inda hoje não percebemos completamente porque é que não foi apresentado um diagnóstico exaustivo da situação em que estávamos à data da assinatura do acordo. Não temos grandes dúvidas de que isso aumentaria muito a adesão da população ao programa porque compreenderia melhor as razões. Todos nós aceitamos contrariedades, com mais ou menos facilidade, de acordo com o grau de necessidade que vemos na utilização dessas medidas. Penso que o Programa de Ajustamento começou mal por esse lado. Depois, deixou-se estabelecer a ideia de que as reformas não eram feitas por corresponderem a necessidades absolutas nossas e ao nosso interesse a médio e longo prazo, mas sim porque nos eram impostas, o que, evidentemente, facilita um argumento fácil para a resistência à implementação. Qualquer programa, quando os pacientes estão em fase de resistência, é com certeza mais difícil de aplicar e tem menos probabilidades de sucesso. Existe um segundo problema à beira do qual estamos e que é o seguinte: o que é que acontecerá ao ímpeto reformista na altura em que a fonte oficial da pressão para a reforma sair do país? Aliás, quem já tiver falado, trocado impressões, avaliado experiências com membros destas equipas internacionais sabe que eles

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opinião Pedro Ferraz da Costa

nos olham de uma forma que tão depressa parece cândida como hipócrita para a possibilidade de subsistência daquilo que tentaram implementar. Isso foi muito evidente no segundo acordo com o Fundo Monetário Internacional, onde se reformou o que dependia directamente da área do doutor Ernâni Lopes, e praticamente mais nada se fez nas restantes áreas. Mesmo aí, se recordarmos que uma das acções mais enérgicas foi a submissão do sector público alargado, e não só da administração pública central, a regras de disciplina financeira, veio a ser abandonada alguns anos depois, com as consequências que estão à vista. Poderá dizer-se que ainda hoje não se conhece completamente o desequilíbrio financeiro global do sector público alargado. Portanto, há uma grande preocupação com o que acontecerá ao espírito de reforma – independentemente de poder também haver insatisfação quanto ao ritmo com que elas têm vindo a ser implementadas – depois da saída da troika. Acerca da estratégia das empresas, tem sido referido o perigo de procurarmos estratégias de “quick win” e de não darmos suficiente importância áquilo que influencia de uma forma duradoura e sustentada as condições de progresso duma economia. No Fórum para a Competitividade temos fundamentalmente uma actividade de reflexão. Estamos a apostar em tentar encontrar propostas de acções que sejam úteis em termos concretos e que sirvam simultaneamente para aferir o grau de execução das reformas que são necessárias.A Câmara de Comércio Americana, nos Estados Unidos, chega a algumas conclusões. O trabalho da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã, o “World Economic Forum” ou secções especializadas do Banco Mundial, todos apontam para as mesmas fraquezas. Há, de facto, uma grande inconsequência da acção governamental em tudo o que não diga respeito a alguns indicadores financeiros que são, obviamente, o que preocupa os nossos credores. É natural que eles se concentrem no que os preocupa a eles, reservando-nos a nós o papel de nos concentrarmos naquilo que nos interessa. Suponho que nesta parte o que nos interessa a nós não tem estado a acontecer. Em casos muito evidentes, para toda a actividade económica e de uma forma muito marcada, e já muito

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identificada no que diz respeito à atracção do investimento estrangeiro. No âmbito da actividade do Fórum para a Competitividade, vamos tentar construir uma metodologia de trabalho que nos permita avançar com acompanhamento permanente dos indicadores mais importantes que signifiquem simultaneamente uma melhoria das condições de funcionamento da economia e uma visibilidade mais positiva face ao exterior onde também há com certeza aspectos qualitativos e onde será mais barato actuar mais depressa. Portanto, há muitas formas de olhar para a nossa situação actual e de sair dela. Terá que haver critérios de oportunidade e de consenso para fazer a selecção. Sabemos perfeitamente que tivemos uma “performance” globalmente tão má, nos últimos anos, e que também não vamos resolver, de repente, todos os problemas. Portanto, a definição das prioridades e a concentração em poucos temas, com o objectivo de Portugal passar a ser bem classificado nos rankings das organizações internacionais, em relação a determinadas tarefas, facilitará muito, na nossa opinião, a atracção do investimento directo estrangeiro.

Todos nós aceitamos contrariedades, com mais ou menos facilidade, de acordo com o grau de necessidade que vemos na utilização dessas medidas. Penso que o Programa de Ajustamento começou mal por esse lado. Existe um segundo problema à beira do qual estamos e que é o seguinte: o que é que acontecerá ao ímpeto reformista na altura em que a fonte oficial da pressão para a reforma sair do país?

A procura de soluções “quick win” acontece de uma forma perfeitamente previsível em relação aos agentes políticos que, de facto, tenderão a ter objectivo definido em termos de prazo de legislatura. Qualquer ministro, por melhor que seja o seu “rating”, procurará com certeza concentrar-se em coisas que ainda lhe possam melhorar o “rating” antes das próximas eleições e terá muito poucas preocupações naquilo que são indicadores mais profundos, mais estáveis e que tenham efeitos mais a longo prazo. Tornar públicas as opiniões a esse respeito pertence indiscutivelmente à sociedade civil em qualquer país organizado e civilizado. Se tentarmos ver o que é que caracteriza os países com melhores condições económicas e sociais no mundo, eles têm normalmente quatro aspectos em comum: um Governo representativo no qual a população se revê (penso que poderíamos melhorar muito nessa área, mas não é nitidamente o nosso campo de actuação); um melhor cumprimento da lei (já é algo que nos afecta em muitos aspectos e em relação ao qual temos com certeza autoridade, e não é uma matéria esotérica porque é referida sempre nos primeiros lugares quando se fala nos pontos fracos de Portugal, no que diz respeito ao funcionamento da economia e à atracção de investimento estrangeiro). O terceiro e o quarto são o funcionamento do mercado e a vitalidade da sociedade civil. Nestes dois aspectos também estamos bastante mal. Por um lado, há muita vontade de tomar decisões voluntaristas, eventualmente favorecendo alguns, e muito pouca para tomar decisões que façam sentido económico. Por fim, é importante conseguir ter uma sociedade civil suficientemente forte e de expressão diversificada que permita, de alguma forma, suprir o que são características inevitavelmente negativas num sistema em que os responsáveis políticos são substituídos periodicamente por aquilo que a população no geral entende como vantagens de curto prazo a que conseguirão aceder, ignorando os aspectos de longo prazo. Queremos encontrar uma forma de medirmos progressivamente a evolução ao longo do tempo em relação aos factores descritos e que são indiscutivelmente áreas onde é possível melhorar e onde é essencial que se melhore. Esse vai ser o nosso trabalho futuro. Presidente do Fórum para a Competitividade


Janeiro/mar莽o Nome da & revista Janeiro 2014 Ne2013 - Neg贸cios empresas

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O que eles disser Despesas/Impostos

“É de afastar mais aumento de impostos. Esforços tem de ser na despesa” Teixeira dos Santos, Diário Económico,

12/08/2005 (Porque é que nenhum governo consegue fazê-lo?)

Presidência da República “O Presidente da República ganha menos do que alguns diretores de sucursais de agências bancárias” Paulo Macedo, Expresso,

04/08/2007 (MESMO ASSIM SÃO MUITOS OS CANDIDATOS. O QUE NÃO SERIA SE O LUGAR FOSSE MELHOR REMUNERADO?)

Carreiras Políticas “Começa a ser impossível encontrar candidatos para lugares políticos – ninguém tem a esposa certa ou os filhos certos para preencher a imagem requerida” Manuel Castells, in “Conversas com Manuel Castells”,

2004 (COM A VIDA TÃO ESCRUTINADA QUEM ESTÁ DISPOSTO A DESEMPENHAR FUNÇÕES GOVERNATIVAS?)

Legislação portuguesa

“As melhores leis de Portugal foram as 300 decididas pela Comissão Europeia” Belmiro de Azevedo, Expresso,

18/10/2005 (É ASSIM NA LEGISLAÇÃO E É ASSIM NAS MEDIDAS DE CONSOLIDAÇÃO ORÇAMENTAL: SÓ POR EXIGÊNCIA DE ENTIDADES EXTERNAS)

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Investe&Mais

Nome da revista Janeiro/março 2013


eram.. Universidades em Portugal “Tornámos todo o ensino gratuito, mesmo o privado. Abrimos escolas e universidades, mas sempre com uma preocupação: mantermos o grau de exigência no máximo (…). Mesmo assim, há apenas sete universidades e 14 institutos superiores na Irlanda, contra as várias dezenas que existem atualmente em Portugal”

Ambiente e Portugal “Candidatamo-nos à posição de país mais atrasado com melhor ambiente no espaço europeu” Manuel Pedroso Marques, Jornal de Negócios,

18/04/2007 (SERIA DE AVALIAR OS EFEITOS DAS ENTROPIAS E OS BLOQUEIOS DO MINISTÉRIO DO AMBIENTE NO DESENVOLVIMENTO DO PAÍS)

Garret FitzGerald, ex-primeiro-ministro irlandês, Expresso

27/05/2006

Direitos inalienáveis

“Ao longo dos anos (...) sem transparência nem avaliação de sustentabilidade financeira, os grupos com capacidade de pressão política usaram e abusaram da lógica de ações coletivas para adquirir benefícios que agora consideram direitos inalienáveis” Teodora Cardoso, Jornal de Negócios,

(E SE A IRLANDA TIVESSE A SORTE DE TER UM LíDER SINDICAL COMO MÁRIO NOGUEIRA, AINDA TERIA UM ENSINO MAIS EXIGENTE E COM MELHORES RESULTADOS)

27/09/2005 (JÁ ANTES DA CRISE HAVIA GENTE RESPONSÁVEL EM PORTUGAL)

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Investe&Mais

Janeiro/Março 2011

Janeiro/março 2013 Nome da revista

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Mais Ver

Sedes da Santa Casa, entre o Tejo e o Chiado Após cinco séculos, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa chegou a São Roque, no Chiado Uma Capela na Sé

A fundação da Misericórdia de Lisboa ocorreu a 15 de Agosto de 1498, por iniciativa da Rainha D. Leonor, viúva de João II, que decidiu criar uma irmandade ou confraria, com o intuito de ajudar a resolver os graves problemas de assistência e saúde existentes em Lisboa, na época dos Descobrimentos. A capital do reino era então um grande centro de actividade portuária e comercial, para onde afluía grande número de gente, à procura de trabalho e de oportunidades de embarcarem nas naus dos navegadores portugueses. Neste contexto, enquanto os homens válidos partiam nas caravelas, pelas ruas de Lisboa ficavam os velhos, mulheres e crianças, além de muitos pedintes, doentes e enjeitados. A assistência humanitária era premente. A irmandade lisboeta, formada exclusivamente por homens, teve a sua primeira sede na Capela de Nossa Senhora da Piedade ou da “Terra-solta”, situada no claustro da Sé, hoje assinalada por uma lápide comemorativa e um painel descritivo. Esta capela era principalmente um local de culto e devoção, onde os membros da confraria se reuniam com regularidade, e, ao mesmo tempo, deliberavam sobre assuntos correntes relativos à sua actividade de bem-fazer.

68 Ne- Negócios & empresas fevereiro 2014

Esta confraria esteve na base da criação de muitas outras Misericórdias que se estabeleceram, posteriormente, por todo o reino de Portugal e além-mar. Desde o início, a Misericórdia teve um estatuto canónico e civil, isto é, tinha a aprovação do Rei e do Arcebispo de Lisboa. Razão pela qual, as Misericórdias sempre mantiveram a sua matriz cristã e civil. Desde a sua origem, a instituição era presidida por um “Provedor”, que tinha por missão prover, providenciar e remediar as mais diversas situações. Este era assistido nas tarefas administrativas por colaboradores, designados “Mesários”, por terem direito a sentar-se à Mesa onde eram tomadas as deliberações importantes. Daí o termo “Deliberações da Mesa” que se mantém ainda actual.

Uma Casa à beira-rio

Em 1534, a primeira sede mudouse para um edifício mais amplo, anexo à grande Igreja Manuelina da Conceição Velha, situado junto ao Terreiro do Paço. O local estava mais próximo da zona ribeirinha do Tejo, o que permitia à irmandade acorrer rapidamente aos esfomeados, aos desembarcados enfermos e moribundos, nacionais e estrangeiros, que chegavam em


desespero ao porto de Lisboa. Neste edifício grandioso os homens da Misericórdia estavam agora em melhores condições de praticar as chamadas “obras de misericórdia corporais”, nomeadamente dar de comer aos famintos, vestir os nus, dar pousada aos sem-abrigo e peregrinos, assistir os doentes, acompanhar os condenados à forca e enterrar os mortos. A partir de 1543, novos desempenhos lhes foram confiados, nomeadamente a responsabilidade sobre as crianças “enjeitadas”, e, a pedido do rei D. João III, a gestão do Hospital Real de Todos-os-Santos. Durante todo o século XVII as necessidades financeiras da Misericórdia de Lisboa foram tremendas para poder fazer face aos encargos com a saúde, no Hospital Real, bem como a assistência aos milhares de “enjeitados” ou “expostos” (assim designados na época), que eram entregues aos cuidados da instituição para poderem sobreviver. Além disso, a Santa Casa tinha a seu cargo as três prisões de Lisboa – O Tronco, o Aljube e o Limoeiro – prestando assistência corporal e religiosa aos presos da cidade. Os irmãos da Misericórdia estavam, assim, em contacto permanente com toda a espécie de necessitados que batiam às portas das suas instalações. Em 1755, o grande terramoto destruiu o magnífico edifício manuelino onde estava sedeada a irmandade, obrigando à dispersão dos serviços e perda de importantes documentos. Deste edifício antigo que foi a segunda sede da Misericórdia subsiste ainda a fachada sul da Igreja manuelina da Conceição Velha, à Rua da Alfândega.

Finalmente São Roque

A Misericórdia não teria podido sobreviver a esta catástrofe, se não fosse a mão protectora do rei D. José I e, muito especialmente, do seu primeiro-ministro, o Marquês de Pombal que lhes entregou o edifício que era a sede da Companhia de Jesus - a Casa Professa de S. Ro-

que, após a expulsão dos jesuítas de Portugal. Logo que a irmandade se mudou para o edifício deixado pelos jesuítas, de imediato aqui instalou o Recolhimento das Órfãs e o chamado “Hospício dos Expostos”, que funcionou por vezes em condições muito precárias. Dada a necessidade de dotar a instituição de fundos para poder fazer face às enormes despesas relacionadas com a saúde e assistência, a rainha D. Maria I concedeu a exploração de uma Lotaria anual à Santa Casa, em 18 de Novembro de 1783, o que permitiu alargar a sua acção benemerente a novos campos de actuação. Esta foi a génese da chamada “Lotaria Nacional”. A Misericórdia de Lisboa era um dos únicos suportes de acção social nesta cidade, administrada em regime de voluntariado. Com o triunfo da causa liberal, em 1834, no contexto da Extinção das Ordens Religiosas e Confrarias, foi dissolvida a irmandade e entregue a direcção da instituição a uma “Comissão Administrativa”, nomeada pelo governo. Após a dissolução da Mesa eleita da Misericórdia, iniciava-se um período de passagem para o sistema de administração central, por nomeação régia, o qual punha termo ao espírito associativo vigente desde a sua fundação. Com a nomeação do 1º Provedor da era moderna, em 1851, passaram todos os Provedores e as respectivas administrações a ser nomeados pelos governos da nação, regime que ainda vigora. Ontem como hoje, a Santa Casa mantem a sua matriz assistencial e labora não só no campo da Saúde e Assistência Social como aposta na valorização do seu rico património cultural. Efectivamente, uma parte significativa da sua Sede é hoje ocupada pela Igreja e o Museu de São Roque, actualmente uma referência pela qualidade do seu acervo. Num longo percurso de mais de cinco séculos, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa chegou finalmente aqui, a São Roque e enquanto a sua Missão fizer sentido, encontram-na no Chiado. Para ficar.

livros

O Meu Programa de Governo

Ferreira, José Gomes

Livros d’Hoje, 2013 480 págs.

lll “O Meu Programa de Governo” é uma obra que, diz o autor, o jornalista José Gomes Ferreira, “pretende mostrar aos portugueses que há soluções para sair da crise e o que devemos fazer para evitar a repetição dos erros do passado”. Especialista em economia, José Gomes Ferreira revelou, por ocasião do lançamento do livro, em Julho, a génese de “O Meu Programa de Governo”: “A minha vida pessoal e o meu percurso profissional deram-me a possibilidade de analisar a sociedade portuguesa, a economia, a governação e a realidade europeia e mundial com algum grau de pormenor, permitindo-me sistematizar um conjunto de interpretações sobre a complexa situação a que chegámos e formular um conjunto de propostas para a alterar”.

lll “Angola é hoje um dos mais

O Poder Angolano em Portugal Presença e Influência do Capital de um País Emergente Filipe, Celso

Editorial Planeta, 2013 120 págs.

poderosos Estados africanos e uma economia emergente a nível global. Sustentado pelas receitas do petróleo, que, segundo dados oficiais, representam 61 por cento do PIB angolano, o regime liderado por José Eduardo dos Santos gere uma tremenda liquidez financeira que procura aplicar nos sistemas financeiros e economias de vários países, especialmente nos de Portugal”. Palavras da contra-capa do livro “O Poder Angolano em Portugal – Presença e Influência do Capital de um País Emergente”, de Celso Filipe, apresentado, neste Verão, em Lisboa, por outros dois jornalistas, Nicolau Santos e Pedro Guerreiro. O autor, considerado um dos especialistas portugueses na África lusófona, começa por traçar a evolução política e económica de Angola após o fim da guerra civil e por definir com rigor e isenção quem detém o poder no complexo sistema político angolano. Mostra, depois, como os angolanos estabeleceram Portugal como alvo estratégico de investimento, e quantifica essa presença na economia e na sociedade portuguesas.

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Mais Turismo

Quinta do Adamastor – Hotel Rural

Luxo e tradição aos pés da Serra da Estrela Antiga casa senhorial convida ao descanso e à descoberta da natureza

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ituada em pleno Parque Natural da Serra da Estrela, na Aldeia de Figueiró da Serra, no concelho de Gouveia, e muito próximo da aldeia história do séc. XII de Linhares da Beira, a Quinta do Adamastor é um misto de luxo e tradição. A restaurada casa senhorial datada dos fins do séc. XIX reflete a cultura e herança

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locais. Com uma localização central e solarenga, a Quinta do Adamastor possui uma extensão de dez hectares que primam pela variedade e encanto verdejante dos jardins, onde imperam árvores centenárias. A abundância de água pura e cristalina, que escoa dos recantos da encosta da Serra da Estrela, e as descobertas que em cada recanto se podem realizar fizeram emergir o nome Quinta do Adamastor, numa clara conotação ao período áureo dos Descobrimentos. Este empreendimento turístico, aberto desde 2005, foi recentemente

Atividades de lazer: - BTT (simples, dupla e criança) - Observação de aves (kit com binóculos e guia de campo) - Caminhadas pedestres - Roteiro botânico - Piscina exterior - Parque infantil - Experiências de aventura (através das empresas de animação turística da região)

reclassificado como Hotel Rural. O interior é delicado já que possui uma admirável decoração com tetos, azulejos e paredes figurados e pintados à mão, simbolizando assim a natureza viva dentro de todo o espaço. Os quartos apresentam pormenores de requinte e qualidade que proporcionam todo o conforto aos seus hóspedes. Com uma vista sobre os jardins e a Serra da Estrela, a Quinta do Adamastor apresenta um conjunto de 11 quartos duplos e uma suite júnior constituída por dois quartos duplos, sala de estar com lareira e kitchenette. Existe ainda um quarto duplo espe-


cialmente preparado para deficientes motores. E para quem pretende relaxar de uma forma mais recôndita, refira-se o quarto do Adamastor que possui uma banheira de hidromassagem de grandes dimensões. O pequeno-almoço, servido na “Sala do Pastor”, tem uma forte componente regional, onde os produtos frescos são selecionados e conjugados de forma hábil com os elementos da região como os queijos e os doces.

Observação de aves e caminhadas. Depois da degustação e de retomadas as forças, é hora de lazer. A piscina

D.R.

A região A Serra da Estrela é onde se encontram algumas das aldeias mais históricas e belas de Portugal. A visitar: Melo Gouveia Folgosinho – Albertino Celorico

Festas e eventos

exterior tem cerca de 200 metros quadrados envolta em magníficos azulejos pintados à mão. Para os amantes da natureza, nada como percorrer a pé ou de bicicleta (disponíveis para aluguer) os imensos trilhos esculpidos naturalmente. Recomenda-se a “partida à descoberta”, como se costuma dizer, já que a área envolvente à Quinta do Adamastor tem curiosidades como fontes luminosas, lagos, ribeiros com trutas, um tanque com carpas, um roteiro botânico e tantas outras atrações. Maravilhe-se com o eucalipto de vários séculos de existência,

O empreendimento turístico dispõe ainda de um edifício destinado a Salões de Festas e Organização de Eventos. No exterior, destaque para as zonas de calçada portuguesa e de árvores como camélias, magnólias, sobreiros, eucaliptos, castanheiros e cedros. Existem ainda duas zonas independentes de estacionamento.

o maior da região e um dos maiores da Península Ibérica. A observação de aves é uma das atividades que se pode aqui fazer e gratuitamente. A Quinta do Adamastor fornece um kit com binóculos e um guia de campo. O empreendimento turístico pode realizar diversas atividades de aventura em parceria com empresas de animação turística da região. Por isso, ainda dentro da Quinta do Adamastor pode usufruir de momentos radicais. A Quinta do Adamastor é recomendada aos amantes da natureza visto ser um espaço único e até versátil. Na zona envolvente, a oferta de restaurantes é vasta e muito tradicional. É ainda de realçar a sua localização já que se encontra a 600 metros de altitude e por vezes a neve é uma realidade, a 40 quilómetros de Manteigas e da Guarda e a 60 quilómetros da Torre, o ponto de maior altitude da Serra da Estrela. É nesta região que se encontram algumas das aldeias mais históricas e belas de Portugal, como Melo, Gouveia, Folgosinho – Albertino, e Celorico.

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Mais Comer&Beber

Um Convite santo A cozinha é portuguesa com certeza, mas gourmet e fresca

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rima pela cozinha portuguesa gourmet e pelos detalhes como a fragância de flores frescas em cada mesa, colhidas do próprio jardim. A importância do restaurante O Convite, situado na região Centro de Portugal, à entrada de Fátima e a 400 metros do Santuário, torna-se ainda mais evidente quando percebemos que foi a partir dele que nasceu o Boutique Hotel Dom Gonçalo & Spa. Gerido pela mesma família há 45 anos, os standards do restaurante são mantidos ao mais alto nível. Os ingredientes, dizem, são os melhores já que os fornecedores, de alta qualidade, têm laços fortes e antigos com o restaurante. No O Convite o peixe chega diariamente da Nazaré, os queijinhos frescos vêm do Convento das Carmelitas, as er-

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vas frescas usadas na confeção dos pratos são colhidas mesmo ali, no Jardim de aromáticos do hotel e a excelência da tradicional pastelaria portuguesa é elaborada pela Chef de Pastelaria residente. José Heleno e Maria Emília Heleno, ambos com idades acima das sete décadas, são os protagonistas do restaurante, agora gerido pelo filho, Jorge Heleno. Maria Emília é a grande responsável pelo toque gourmet na comida portuguesa que ali é servida. Espreitamos o Menu e das entradas salienta-se o Crepe de Legumes, Camarão à alhinho com rosmaninho e dijungo e torricada de pão ou o Rolinho de Legumes com queijo de cabra polvilhado com mel e nozes. Nos pratos principais o destaque vai para o Bacalhau à Dom Gonçalo, gratinado no forno com batata e envolto em bechamel com camarão. Refira-se também o Magré de Pato com molho de frutos vermelhos e risotto de espargos, o Polvo na grelha com camarão tigre acompanhado por grelos regados em azeite e batata assada, e ainda o naco de novilho e as costoletas de borrego da Serra de Aire. Para acompanhar, peça a carta

O Convite

Dom Gonçalo Hotéis Rua Jacinta Marto, 100 – (Rotunda Norte), Fátima, 2495-450 Coordenadas GPS: Longitude: -8,68 (8°40´); Latitude: 39,63 (39°38´) T. 249 539 330 F. 249 539 335 Email: mail@hoteldg. com Horário: aberto todos os dias do ano das 12h às 15h e das 19h30 às 22h Reservas: 249 539330 Estacionamento privativo e garagem gratuitos

de vinhos e escolha entre cem marcas, sendo que casa optou por uma aposta na região do Tejo. Para as crianças, o restaurante teve o cuidado de criar um menu que é composto por sete sugestões, entre as quais o Bitoque do lombo com arroz, ovo e batata frita, sendo que o cliente tem ainda a possibilidade de pedir um determinado prato de acordo com as suas preferências. Nas sobremesas, o Pudim Abade de Priscos colocado sobre uma rodela de abacaxi e a Taça Convite composta por gelado de chocolate, morando e banana, com fruta cortada e regado com chocolate quente prometem ficar na memória dos mais esquecidos. Há ainda as Farófias de dois sabores, leite-creme e molho de chocolate, polvilhadas com amêndoa. O restaurante está aberto todos os dias mas recomenda-se reserva ao fim de semana. Tem capacidade para receber 120 pessoas na sala de refeição. Os hóspedes do hotel beneficiam de 5% de desconto. Refira-se ainda que o O Convite recebe eventos familiares e reuniões empresariais dispondo de salas específicas. Se agora se sente convidado a experimentar os sabores propostos, na A1, em ambos os sentidos, saia para Fátima. Dois minutos depois chegou ao seu destino. Fica o Convite.


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Mais Comer&Beber Ficha técnica

vinhos

Trilogia de moscatéis da Arrábida

lll São três moscatéis e projetam a frescura da Serra da Arrábida. O Malo Moscatel, Malo Moscatel 2003 e Malo Moscatel 2009, produzidos pela Malo Tojo, fazem jus aos prémios já recebidos. Esta trilogia de néctares são produtos D.O. (Denominação de Origem) que respeitam requisitos de produção. As vinhas estão numa zona demarcada, situada na zona na Serra da Arrábida e de Palmela, a uva usada é apenas Moscatel (casta de uva branca) e o estágio tem de ser no mínimo de 18 meses. Localizada na Península de Setúbal e com 80 hectares de vinha, a Malo Tojo que integra o grupo internacional Malo Group, foi constituída na década de 90 e durante vários anos a sua atividade centrou-se na cultura da uva, tendo em 2000 alargado a área de atuação à produção de vinhos. Atualmente desenvolve dois grandes projetos de enoturismo: a Quinta de Catralvos, em Azeitão, e o Monte da Charca, em Pegões, ambas localizadas na Península de Setúbal, uma das mais importantes regiões vinícolas portuguesas. A Quinta de Catralvos tem uma área total de 25 hectares e está localizada junto à Serra da Arrábida. As castas plantadas são exclusivamente de uvas brancas - Moscatel, Fernão Pires, Arinto, Chardonnay e Verdelho. O Monte da Charca tem uma área total de 80 hectares da qual 55 hectares são vinha. As castas plantadas são todas de uvas tintas - Touriga Nacional, Syrah, Aragonês, Castelão, Alicante Bouchet e Cabernet Sauvignon. Com uma capacidade de produção e armazenamento de aproximada-

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mente 1.500.000 litros, dedica-se não apenas à produção e comércio vinícola, mas também ao catering, eventos e turismo de habitação. A sua orientação estratégica está vocacionada para a excelência do produto final, monitorizando rigorosamente todo o processo de produção e investindo na mais recente tecnologia e numa equipa técnica especializada. A qualidade ambicionada tem sido alvo de reconhecimento através da atribuição de diversos prémios e distinções. Na categoria dos Moscatéis, a Malo A Malo Tojo Tojo ganhou três já ganhou prémios importan- três prémios tes: Malo Moscatel importantes: Malo 2003 (superior) – 1.º Moscatel 2003 prémio (medalha de (superior) – 1.º Ouro) no Concurso prémio (medalha Ibérico de Moscatel de Ouro) no Concurso Ibérico 2013 e medalha de de Moscatel Ouro no XIII Concur- 2013 e medalha so da CVR da Penín- de Ouro no XIII sula de Setúbal 2013, Concurso da CVR e o Malo Moscatel da Península de 2009 recebeu Meda- Setúbal 2013, e lha de Ouro no Con- o Malo Moscatel cours Muscates du 2009 recebeu Medalha de Ouro Monde, em França. As principais mar- no Concours Muscates du cas, são Malo PaltiMonde, em França. num, Malo Tojo, Lisa, Malo Moscatel com as quais se produzem vinhos, brancos, tintos, rosé e moscatel de Setúbal. Os vinhos podem ser encontrados nas principais cadeias de supermercados e restaurantes e também na loja na Quinta de Catralvos, em Azeitão, onde também são comercializados outros produtos regionais. Para além da atividade vitivinícola, a empresa Malo Tojo tem um conjunto de infraestruturas para suportar o Enoturismo, tal como espaços multifuncionais com capacidade até 500 pessoas. Dispõe ainda de alojamentos para quem gosta de estar próximo de um ambiente rodeado de vinhas e disfrutar de uma região encantadora. Tchim-tchim.

Malo Moscatel de Setúbal 2003

Superior Denominação: Origem Setúbal Enólogo: Luís Simões Castas: 100% Moscatel Álcool: 17%; Acidez: 4,5 g/l; PH: 3,45; Açúcar: 140 g/l Modo de servir: como digestivo, à temperatura ambiente Prémios: Challenge International du Vin 2009: medalha de ouro; Concurso Arribe 2012: medalha de prata; 1.º prémio (medalha de Ouro) no Concurso Ibérico de Moscatel 2013 e medalha de Ouro no XIII Concurso da CVR da Península de Setúbal 2013

Malo Moscatel de Setúbal Edição 2009

Denominação Origem Setúbal Enólogo: Luís Simões Castas: 100% Moscatel Álcool: 17%; Acidez: 4,5 g/l; PH: 3,40; Açúcar: 137 g/l Modo de servir: como aperitivo ou vinho de sobremesa, a uma temperatura de 12°-14°C Prémios: Medalha de Ouro Concurso Muscats du Monde 2012

Malo Moscatel de Setúbal

Denominação Origem Setúbal Enólogo: Luís Simões Castas: 100% Moscatel Álcool: 17,5%; Acidez: 4,5 g/l; PH: 3,40; Açúcar: 137 g/l Modo de servir: como aperitivo ou digestivo, a uma temperatura de 12°-14°C


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Nome da revista Janeiro/marรงo 2013


Revista Negócios & Empresas